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O Corsário do Rei

(Augusto Boal)

PERSONAGENS

Duguay Trouin
Charlotte
Ninon
Padre
Patroa
Negociante
Professor
Bêbado Maior
Bêbado Valentão
Bêbado Miúdo
Tísica
Gorda
Cabisbaixa
Prostituta
Policial
Pai
Frei
Jansenista
Nancy
Cynthia
Corsário 1
Corsário 2
Capitão
Capitão Príncipe
Marinheiro
Grumete
Mãe
Etienne
Espanhol
Fleuriges
Courserac
Mordomo
Rei
Pontchartrain
Colbert
Cardeal Dubois
Arauto
Fenelon
Bispo
Empregada
Jornalista
Luc
Português
1
Preto
Francês
Governador
Bocage
José
Joaquim
Manuel
João
Mulher
Jesuita
Diplomata
Dama da Corte
Conde de Toulouse
Moças
Mulheres bonitas
Mulheres feias

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1º ATO

I - ABERTURA MUSICAL

(Depois da abertura sobe o pano: todos os atores estão em cena preparando o cenário e cantando)

VERDADEIRA EMBOLADA
(ou O Incrível Duelo da Mentira Com a Verdade)

A Verdade que se preza


É fiel que nem um cão
A de César é de César
A de Cristo é do cristão
A mentira anda na feira
Vive armando confusão
Cheia de perfume, rebolando na ladeira
De mão em mão

A mentira e a verdade
São as donas da razão
Brigam na maternidade
Quando chega Salomão

A razão pela metade


Vai cortar com seu facão
Vendo que a mentira chora e pede piedade
Dá-lhe a razão

Na realidade
Pouca verdade
Tem no cordel da história
No meio da linha
Quem escrevinha
Muda o que lhe convém
E não admira
Tanta mentira
Na Estação da Glória
Claro que a verdade
Paga passagem
E a outra pega o trem

A mentira, me acredite
Com a verdade vai casar
Se disfarça de palpite
Pra verdade enfeitiçar
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Todo mundo quer convite
A capela vai rachar
Pra ver a verdade se mordendo de apetite
Ao pé do altar

Na verdade cresce a ira


A mentira é só desdém
A verdade faz a mira
A mentira diz amém
A verdade quando atira
O cartucho vai e vem
A verdade é que no bulho
De toda mentira
Verdade tem.

(Ficam em cena apenas os atores da primeira cena: um bar do Rio de Janeiro, no Cais do Porto, pouco
mais ou menos no começo do século XIX)

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II - RIO DE JANEIRO, CAIS DO PORTO

(Os personagens estão vestidos só de branco e preto, e todos os objetos são brancos ou pretos. Mesas,
cadeiras, balcão, garrafas)

Patroa
Pelo amor de Deus, o Senhor tem que comprar o meu botequim. Eu já estou velha pro trabalho que isso
dá. E o senhor, veja só: homem bonito, forte, cheio de garbo, mimoso!

Negociante
Quando vi o anúncio no jornal, pensei que estivesse em condições: "Magnífica vista para o mar". A
vista é boa, mas o que é que se vê? Vê-se a merda de todo esse Rio de Janeiro desaguando impávida nas
águas azuis da Guanabara, qual Rio Amazonas de cocô pestilento provocando aquela pororoca imensa
de podridão!!! A vista é magnífica, mas o que se vê não é! Não compro não!

Patroa
Faço abatimento a gente acerta o preço e a prestação.

Negociante
Esse boteco, minha senhora, desculpe a franqueza, está pior que o país. Tão miserável que já não acha
comprador: a senhora tem que vender é de graça!

Patroa
De graça??? Esse botequim que foi meu avô que fundou! De graça, esse botequim que conheceu a glória
e a opulência!!? Veja essa menina tísica, magra, a pele no osso: já foi gorda, teve os seios pendurados
que faziam admiração de tudo quanto era capitão de navio, grumete ou remador.

Tísica
É verdade, meu senhor.

Patroa
Veja agora pobre e ressecada! De graça não. Repare no meu leão-de-chácara! Já foi professor de
História Pátria, em Cajuazeiro do Sul, no Ceará. E agora está aí escondido como um rato, metido nessa
toca de balcão! Mas é homem de grande saber e erudição! Não posso dar todo esse meu patrimônio de
graça!

Negociante
De graça e depressa, porque a situação vai piorar!

Patroa
Os meus bêbados são gente boa, pacata, gente em paz.

Professor
Desde que a senhora mandou cortar o crédito da cachaça, pois fique sabendo que eles não gostaram
nada, e eu temo conseqüência e represália.

Patroa
Meus bêbados têm tradição pacífica e boa índole!
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(Entram duas moças correndo, assustadas: a gorda e a cabisbaixa)

Gorda
Patroa, patroazinha, é uma revolução!

Patroa
O que? Quem? Quando? Como? Onde? Por que?

Gorda
Os bêbados! Eles estão vindo para cá! Estão armados com pedra, pau e má vontade!

Cabisbaixa
Mandaram a gente na frente pra avisar que ninguém ofereça resistência. Caso contrário...

Patroa
(Pegando uma vassoura) Caso contrário o quê?

Gorda
Não fica garrafa sobre garrafa!

Cabisbaixa
E tudo em nome do santo!!!

Patroa
Que santo??? (Entram os bêbados)

Bêbado Maior
(Entrando triunfal) São Tomás de Aquino!

Patroa
Era bêbado?

Bêbado Maior
Santo de grande sentimento.

Patroa
E pelo visto ladrão!

Bêbado Maior
Foi o próprio padre que disse que São Tomás teria dito: "Aquele que se encontrar em estado de extrema
penúria, tem o direito sagrado de se apropriar do alheio! Sem pecado!" Isso é o mais importante: sem
pecado!

Patroa
Mas que diabo de São Tomás é esse que fica incitando os meus bêbados a roubarem a minha
cachaça??!!

Bêbado Valentão
Extrema penúria — eis a incitação!
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Patroa
Santo desmiolado!

Bêbado Maior
São Tomás era tão santo que virou santo. Só tinha um defeito: abstêmio! Em nome de São Tomás,
senhor professor, tenha bondade de descer toda garrafa!

Patroa
Um momento!

Bêbado Valentão
Em nome de São Tomás, os copos.

Patroa
Esperem que eu termine de acertar o preço do botequim; depois podem roubar à vontade, eu até ajudo!

Negociante
É como eu lhe disse, é como o Brasil: não se pode vender um país que está sendo saqueado! Quem é que
vai calcular o preço?

Bêbado Maior
Apontar armas! (Todos preparam pedras e paus) Em nome de São Tomás!

Patroa
Eu chamo a polícia!

Bêbado Miúdo
A cachaça ou a morte!

Patroa
Vamos negociar! (Sirene da polícia)

Bêbado Miúdo
A polícia!

Patroa
Felizmente ainda existe esperança neste país. Santa Polícia da Misericórdia! (Entra um policial
assustadíssimo)

Policial
(Em lágrimas) Socorro, socorro, eles estão vindo pra cá, eu estou com medo! Seu bêbado, por favor, me
proteja!

Bêbado Maior
(Paternal) Calma, calma, senta aqui, meu filho, não foi nada, está com medo de quê? Vamos beber em
nome do santo. (Fala como a uma criança)

Policial
Patroa me socorra! Putinhas me socorram! Um navio, dois, três, um comboio de navios, uma frota, uma
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esquadra, eles são muito mais fortes do que nós, não podemos ganhar, são comerciantes estrangeiros!
Socorro! Socorro! Socorro!!!

Moças
Socorro, socorro, comerciantes!

Bêbado Miúdo
Comerciantes? Ave Maria cheia de graça, o senhor é convosco! (Ajoelha-se e reza. O policial desmaia)

Bêbado Maior
Seu polícia, o senhor é uma autoridade! Desmaiou.

Bêbado Valentão
Considerando o desmaio, deve ser esquadra de bom tamanho!

Patroa
Fechem as portas. (Fecham e armam uma barricada. Tiram fuzis de detrás do balcão e se armam para
a guerra) Vamos nos preparar! Fuzil pra todos! Atrás do balcão! Vocês também. Nós formamos uma só
nação!

Negociante
Em primeiro lugar a união nacional!

Bêbado Maior
Com São Tomás na trincheira!

Bêbado Miúdo
(Olhando por uma janela bem alta) Olha, tem um deles que está vindo pra cá, descendo do bote!

Bêbado Valentão
Fogo!!!

Bêbado Miúdo
Espera: ele está desarmado.

Bêbado Valentão
Comerciante, desarmado? Não é possível!

Patroa
(Oferecendo copos) Podem beber um pouco, meus filhos, pra criar coragem!

Bêbado Miúdo
Ele está com uma pedra na mão e vai jogar pra cá. (Cai um pára-quedas com uma mensagem enrolada)

Todos
O que é isso? Uma mensagem. Lê. Quem é que sabe ler?

Negociante
Eu sei, mas não trouxe os óculos.

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Patroa
Eu tenho a vista cansada... Já vi tanta coisa...

Bêbado Miúdo
Eu talvez me lembre... mas não será perigoso?

Bêbado Maior
O Professor! Por favor, conte pra nós o conteúdo! (O Professor pega o rolo, desenrola: todos curiosos)

Professor
Com licença. Diz assim: "Bonjour! Good Morning. Gutten tag." "Somos comerciantes confessos,
viemos de toda Europa. Estamos desarmados. Queremos vossa amizade, stop! Stop. Abaixo guerra, stop.
Abolido corso, corsários, piratas, flibusteiros! Stop. Daqui por diante todo mundo vai ser honesto,
vírgula, honrado, stop. Queremos desembarcar em festa. Au revoir! Good bye. Auf wiedersehen."

Patroa
Comerciantes honestos? Será verdade?

Professor
Será possível?

Negociante
Olha aí, agora é que a senhora tem que aproveitar para vender o seu boteco. Eu não quero comprar
mesmo, mas ajudo a vender para esses gringos. Mas quero minha comissão.

Professor
Eles querem festa, eu tenho uma idéia!

Patroa
Não é de admirar: professor de História Pátria!

Professor
A gente pode fazer uma peça, uma peça de teatro, cheia de música.Teatro é festa! A gente vai contar
uma história onde o comércio era feito na ponta da baioneta.

Bêbado Maior
Escuta aqui, tem diabo na sua peça?

Professor
Diabo não, por que?

Bêbado Maior
Por que lá em casa eu tenho um pijama russo meio usado, de outros carnavais, e a minha mulher podia
me fazer dois chifres aqui no meio da testa, ponteagudos, e mais um rabo vermelho com ponta de ferro
bem dura, e já o figurino ficava pronto pro Diabo dessa tua peça.

Professor
Mas na minha peça não tem diabo: tem marinheiro, pirata! Vai ser assim: a gente conta a história de um
corsário, René Duguay Trouin!

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Todos
Quem?!!?

Professor
Ele invadiu o RJ já faz tempo! Ocupou a cidade inteira!

Todos
Éééééé...

Professor
E como não podia levar o Rio todo para a França, revendeu tudo para os portugueses que já moravam
aqui.

Todos
Aaahhhh...

Bêbado Maior
Escuta aqui, tem Miguel Strogonoff nessa tua peça?

Professor
(Furioso) Não. Miguel Strogoff não tem. Por que?

Bêbado Maior
Por que lá em casa eu tenho um burro que eu herdei da minha tia Laurinda, um burro que ela tinha
comprado por cem mil réis no tempo em que as pessoas ainda tinham dinheiro. É um burro grande, alto,
orgulhoso e a minha mulher bem que podia cortar as orelhas desse burro, pra disfarçar de cavalo, e aí eu
vou montando no meu cavalo-burro, bem elegante e aí eu posso interpretar o papel de Miguel
Strogonoff, o Correio do Rei!

Professor
Na minha peça não tem Correio, tem Corsário!

Bêbado Maior
Ah... Então já não preciso cortar as orelhas do meu burro. Crueldade inútil!

Patroa
A idéia não é má, mas quem é que vai pagar esse teatro? Nós estamos atravessando uma crise,
professor!

Negociante
Eu acho que é melhor o professor fazer uma conferência.

Patroa
Quem vai construir tanto navio?

Negociante
Ou no máximo um diálogo entre Duguay Trouin e a sua consciência: ele se veste todo de branco e a
consciência de preto! É teatro e sai mais barato.

Professor
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A gente usa o que tiver. As mesas podem ser navios, cadeira pode ser remo, as toalhas são as velas!

Tísica
Nós podemos emprestar as camas!

Gorda
Eu empresto a camisola!

Cabisbaixa
Eu faço figuração!

Prostituta
E eu sou a princesa.

Bêbado Maior
Olha aqui, na tua peça tem Robin Hood? (Em segredo)

Professor
(Explodindo) Não, não tem!

Bêbado Maior
Por que não?

Professor
Porque não precisa!

Bêbado Maior
Em toda peça um Robin Hood pelo menos sempre tem alguma serventia.

Tísica
Eu queria tanto fazer o papel de louca! Tem louca na tua peça?

Gorda
Eu queria ser uma feiticeira, uma bruxa. Mas uma bruxa dessas bem gordas... Tem bruxa gorda na tua
peça?

Cabisbaixa
Já eu, queria ser uma PROS-TI-TU-TA.

Professor
E o que é isso que você é?

Cabisbaixa
Sou isso que você está me vendo. Mas eu queria ser uma puta PROS-TI-TU-TA. Tem uma puta PROS-
TI-TU-TA nessa tua peça? (Mímica)

Professor
Depende do ponto de vista...

Bêbado Maior
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Está sua peça está me parecendo muito despovoada! Porque peça sem Diabo, sem Miguel Strogonoff,
sem Robin Hood, é uma peça muito deserta! Eu não trabalho...

Professor
Não tem bruxa, não tem louca, não tem Robin Hood, mas na minha peça tem um rei!

Policial
Um rei?!!! (Acorda do desmaio)

Todos
Rei!!!!????!!!

Bêbado Maior
Rei de verdade? Ah, então é muito boa! Fica o dito por esquecido, eu faço o papel de Rei! Eu estou
começando a achar que essa peça até que pode ser um sucesso! Com a condição de que o Rei sou eu!
Porque lá em casa eu tenho uma lata de goiabada bem grande, minha mulher pode cortar as pontas com
uma tesoura, e coroa já temos, só ficam faltando os vassalos!

Cabisbaixa
Eu faço figuração. (Voz baixa e rápida)

Prostituta
Eu faço a princesa.

Negociante
E quem é que faz o papel de Duguay Trouin?

Professor
É melhor sortear.

Todos
10. 7. 8. 9. 4. 11! (Dançam)

ROCK DA CANALHA

Ari-stocrata, senhor de engenho


Baronete e magnata
Puro verniz
Motivo: concordata
Quer embarcar no tal do show-biz

Inês-gotável, dama da corte


Com curriculum notável
Corpo de miss
Idade incalculável
Quer embarcar no tal do show-biz

"PRECISA-SE DE ARTISTAS", deu até no jornal


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vão fazer os testes pro maior musical.

Eu faço Tiradentes
Eu faço Rapunzel
Eu sou polivalente
Ninguém leva o meu papel

O meu expediente
Prossegue no motel
Eu dou para o gerente
Ninguém leva o meu papel

Celi-batária
Dos bons costumes mui zelosa comissária
Zero quadris
Um pouco solitária
Quer embarcar no tal do show-biz

Ator-mentado
Peri-clitantemente
Eli-minado
Cantarino dançatriz
Desempregada
Quer embarcar no tal do show-biz
Quer embarcar.

Professor
(Sorteiam) Ganhou ele. Esse velho que está aí. É ele que vai fazer o herói que invadiu o Rio de Janeiro.

Negociante
E a sua peça como é que começa? Com o nascimento do Corsário?

Professor
Não, com a morte! É uma espécie de prólogo epilogal — uma idéia nova! René Duguay Trouin está no
seu leito de morte! Depois de uma vida de aventuras a serviço do Rei, Duguay Trouin contraiu todas as
doenças conhecidas e outras por conhecer! Foi um verdadeiro precursor! (Ouvem-se gritos:
"Aiaiaiaiaiaiai". Entra em cena, em sua cama, Duguay Trouin velhíssimo, vestido com seu camisolão)
A peça começa, com ele na cama. E um mínimo de personagens, só mesmo os indispensáveis: a irmã e a
empregada. (Entram as duas. O cenário e as roupas agora podem ter outras cores, porém ainda
pálidas. Alguns bêbados ficam sentados em cadeiras, como expectadores num teatrinho)

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III - O LEITO DE MORTE

(A cena do quarto se faz no meio do botequim. Lembra um museu de cera)

Duguay Trouin
Aiaiaiaiaiai, se eu pudesse começar de novo a minha vida!

Charlotte
Agora é tarde: só falta acabar! Vai com Deus, meu irmão.

Ninon
Ainda há esperança: eu já chamei o médico, deve estar chegando.

Duguay Trouin
Ah, se eu pudesse... faria tudo diferente!

Charlotte
O que precisa fazer agora é o testamento, que é o mais urgente.

Ninon
Quanto dinheiro vai ficar pra mim e pro nosso filho?

Charlotte
Ninon, que é isso?! Não seja mesquinha! Ele mal consegue falar e vem você com conversa de dinheiro!

Ninon
Dona Charlotte, a senhora é irmã dele, é herdeira natural, mas eu como é que fico? Meu filho é filho
dele e a senhora sabe muito bem. E foi por isso que ele disse que ia passar tudo pro meu nome.

Charlotte
Mentira!

Ninon
Fala antes de morrer, fala que é verdade!

Grito lá fora dos atores


O médico! Chegou o médico! Olha o médico!

Charlotte
(Feliz) A esperança é a última que morre; chegou o médico! (Entra um padre)

Padre
Uff, quanta escadaria! Isso mata um bom cristão! Onde é que está o doente?

Ninon
Quem foi que chamou um padre?

Charlotte
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Eu chamei! Você queria que o meu irmão fosse pro inferno todo cheio de pecado do jeito que ele está?

Ninon
Pois eu chamei o médico. Cadê o médico?

Padre
Sou eu também! Primeiro tento a salvação do corpo; não sendo possível, salva-se pelo menos a alma,
com uma bela extrema-unção. Vamos ao corpo! (repara em Dugauy Trouin) Virgem Santa Maria, mãe
nossa cheia de graça, o senhor está muito mal!

Duguay Trouin
(Para a irmã) Excelente médico! Já percebeu tudo!

Padre
Vai tirando a roupa, meu filho, que eu quero ver o teu peito. Respira fundo, meu filho. Úúúúúúúú! É
isso mesmo que eu imaginava! São fumaças no pulmão!

Charlotte
É grave?

Padre
Gravíssimo!!! Não tem cura e não podia ser de outra maneira porque é próprio da fumaça ir se
expandindo por todo o corpo como a pólvora de um canhão, até que o paciente explode!

Ninon
Coitado, pobrezinho.

Duguay Trouin
Socorro, socorro.

Charlotte
Ninon, não aperta o coitado desse jeito. Não vê que ele está cheio de fumaça?

Padre
Revira os olhos, meu filho, revira. Assim. Úúúúúú! Exatamente como eu imaginava.

Charlotte
É grave?

Padre
Sífilis!

Ninon
Nem podia ser de outra maneira: de tanto atracar em tantos portos...

Duguay Trouin
Vamos continuar?

Padre
E essas águas aí na cama? Por que é que está tudo tão molhado?
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Duguay Trouin
São as febres... o suor... o descontrole...

Padre
Madame, ponha o dedo aí nessas águas, que eu não quero me contaminar.

Charlotte
Eu? Põe o dedo você Ninon!

Padre
Está frio ou quente?

Ninon
(Pôe o dedo) Morno.

Padre
Úúúúúúú, era o que eu imaginava, febres quentes e frias. Vamos continuar.

Duguay Trouin
O que agora? Tiro as calças?

Padre
Tire um pouco, mas não se aproxime. Úúúúúú...

Charlotte
É grave?

Padre
E além de grave é sacrilégio!!! Chega pra lá, pra longe. São coisas do Diabo!

Duguay Trouin
Vamos continuar...

Padre
Não, meu filho, já chega, não precisa: você já tem mais do que o suficiente pra morrer de várias mortes!

Duguay Trouin
Que remédios devo tomar?

Padre
Não vamos perder tempo com remédios: pra que juntar o inútil com o desagradável? Vamos passar logo
à segunda parte, a extrema-unção. Conta meu filho, o que foi que você fez da sua vida? Mas conta de
longe, porque você está muito contagioso!

Ninon
Se ele tem que falar, primeiro que faça o testamento! Depois a confissão!

Charlotte
Dá logo a bênção, padre.
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Duguay Trouin
Ninon...

Ninon
Ele me chamou! Ele me chamou!

Charlotte
René, meu irmão, sou eu Charlotte... Durma querido, eu estou aqui...

Duguay Trouin
Charlotte... Você e Ninon...

Ninon
Estou ouvindo, meu amo...

Duguay Trouin
Vocês vão me prometer... vão jurar que cuidam daquele menino... Aquele menino... Como é que ele se
chama mesmo?

Ninon
Nosso filho...

Charlotte
Eu cuido do menino, mano, fica tranqüilo...

Ninon
Meu amo...

Duguay Trouin
Tudo o que eu tenho... Eu nem sei o que é que eu tenho...

Ninon
O cofre está abarrotado, meu amo!

Duguay Trouin
É mesmo? Pois então... tudo... o meu cofre... fica tudo dividido entre vocês duas... em partes iguais...

Charlotte
Em partes iguais? Eu e essa mulher?

Ninon
Está certo, melhor que nada.

Charlotte
Ah, é? Então você, Ninon, com a sua parte você cuida do garoto!

Ninon
Eu? A senhora disse que ia cuidar!

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Charlotte
O filho é seu!

Ninon
É dele!

Duguay Trouin
Assim não é impossível, merda!

Padre
Não fale assim, senhor!

Duguay Trouin
Se continuar a discussão eu deserdo as duas, merda!

Padre
Senhor!

Duguay Trouin
Deixo tudo pro padre!

Padre
Bendito seja...

Charlotte
Acabou, acabou, nós duas cuidamos do garoto!

Duguay Trouin
É bom mesmo, merda!

Padre
Acabou de pecar de novo. Vou ter que fazer esta bênção toda outra vez, merda...

Duguay Trouin
Merda! Eu estou morrendo, merda!

FUNERAL DE RICO

1ª parte — "Funeral de Rico"; cantam Charlotte, Ninon, Padre e coro (interferências esporádicas de
Duguay Trouin em contracanto agoniado que diz: "inda não morri")

Rico quando vai


Desta vida, sempre vai de mau humor
Ir deitado de casaca é um terror
Abafado e morto de calor
Aturar marcha fúnebre
Só de imaginar
Que os amigos vão deitar nos seus sofás
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Vão tomar o seu vermute, os seus cristais
E as suas mulheres principais
Já na beira do seu túmulo

Mulheres bonitas
— gente, quanta gente
que excelente funeral

Ninon para Charlotte


— ficas bem de preto
e cabelo ao natural

Dizem que o eminente


Triplicou seu capital
Vai sobrar para gente
Que nem viu ele vivo
Tem até donativo
Para as obras do hospital

Charlotte
O cofre, Ninon! Abre de uma vez o cofre!

Ninon
A senhora sabe o segredo, dona Charlotte?

Charlotte
René, qual é o segredo do cofre?

Duguay Trouin
Hummmmmmmmmmmmmm...

Charlotte
Pronto! Agora o desgraçado não vai mais falar!

Ninon
Meu amo, diz pra sua Ninonzinha o segredo...

Padre
Hummmmmmm... Acho que Deus o está chamando para junto de si. Pai Nosso que estás no céu,
santificado seja...

Charlotte
Confessa ele, Padre. Pergunta o segredo do cofre!

Padre
A senhora sabe que a nossa paróquia...

Charlotte
Claro, Padre! Eu contribuo para a reforma da torre!
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Padre
Muito bem... Meu filho, o senhor tem um segredo...

Duguay Trouin
Trinta e três.

Padre
Não, meu senhor, eu já não falo mais como médico...

Ninon
É trinta e três, abri o cofre!

Charlotte
Bravos, Ninon! Quanto é que tem?

Ninon
Uma Espada de Honra, que não corta... Um Brevet de Honra... O título de Cavaleiro de Honra da Ordem
de São Luís, o título de Comendador de Honra...

Charlotte
Está bem, está bem, mas em dinheiro???

Ninon
Uma carta de reconhecimento do Rei pelos serviços prestados, uma Cruz de Honra, uma carta mui
honrosa do Cardeal, outra do Arcebispo com todas as honras, outro título de honra...

Charlotte
Que é que tem em moeda corrente?

Ninon
Nada.

Duguay Trouin
Ha ha ha ha ha ha ha!

FUNERAL DE POBRE

2ª parte: "Funeral de Pobre"; canta Duguay Trouin, seguido de coro (interferências esporádicas de
Ninon e Charlotte em contracanto histérico que diz: "eu não pago não"

Pobre quando vai


Sempre dizem que ele vai pra uma melhor
Vai olhando aquela gente a seu redor
Todos com poeira e com suor
E ele achando a coisa ótima
Só de imaginar
Que os amigos vão pagar o seu caixão
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O barbeiro, o aluguel do rabecão
O vinho do padre, o sacristão
E o sermão na igreja gótica

Mulheres feias

—gente, não tem gente


tem parente pobre e só

Charlotte para Ninon

— esse teu modelo


mais parece um dominó

Nem o diligente
Quis herdar seu paletó
Vai sobrar para a gente
Que nem viu ele vivo
Tem até um passivo
No caderno do Jacó

Padre
Grande verdade! (Batem à porta)

Charlotte
Vai ver, Ninon, quem é.

Ninon
(Que já estava na porta) É o Cardeal!

Duguay Trouin
Não, o Cardeal não!

Charlotte
E o que é que ele vem fazer aqui? O que é que ele quer???!!

Duguay Trouin
Não deixa ele entrar! Fecha a porta! Diz que eu não estou!!!

Ninon
Já entrou!

Cardeal Dubois
Venho em nome do Rei.

Duguay Trouin
Que Deus salve.

Cardeal
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O nosso Rei acaba de convocar Duguay Trouin para o posto de conselheiro da Real Companhia das
Índias Ocidentais, que foi à falência!

Duguay Trouin
Eu estou à morte, eu não vou não!

Cardeal
Um vassalo não pode preferir morrer a obedecer a vontade do seu senhor.

Duguay Trouin
Não é uma questão de preferência, Cardeal.

Cardeal
O Rei sabe que vossa felicidade é a sua glória! Por isso quer que Duguay Trouin venha à corte tratar-se
com os nossos melhores médicos, dar os melhores conselhos ao nosso melhor comércio: o Rei será
glorioso e portanto vós sereis feliz!

Charlotte
René não consegue nem levantar o braço, não é mesmo meu irmão, quanto mais uma espada ou a pena.

Cardeal
Madame, o Rei ordena que Duguay Trouin ainda não morra: é muito cedo! É inoportuno!

Médico
Mas ele tem que morrer! Eu já passei o atestado de óbito, já dei a extrema-unção! Se ele não morre eu
fico desmoralizado!

Cardeal
Levanta-te e anda!

Duguay Trouin
Que é que eu posso fazer? Obedecer... E lá vou eu... (Tenta se levantar e cai de bruços)

Cardeal
Assim será. (Sai. Os presentes tentam impedir Duguay Trouin de sair da cama)

Charlotte
Não vai. Você não resiste. Fica.

Médico
Eu vou te amarrar na cama. Uma corda. Segura, não deixa!

Duguay Trouin
Eu vou, eu quero ir! O Rei me chama! Eu sou um vassalo! Eu vou!!! (Os espectadores no botequim se
agitam e intervêm na cena)

Bêbado Maior
Eu não estou gostando nada disso! Como é que você quer nos convencer que um velho como esse,
caindo aos pedaços, carunchado, carcomido, que foi herói, que invadiu o Rio de Janeiro, depredou,
saqueou e revendeu! Não é verossímel!
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Professor
Espera: esse é o começo da história!

Bêbado Maior
Imagina o fim!

Duguay Trouin
(Magoadíssimo) Eu estou assim porque fiquei velho, mas eu já fui jovem, já fui belo, as mulheres me
amavam. Eu já cometi muita aventura e pratiquei muito pecado!

Bêbado Maior
Vai me desculpar, mas ver o senhor assim nesse estado, não inspira confiança!

Duguay Trouin
Eu nunca tive medo, desde pequeno sempre fui um verdadeiro herói!

Bêbado Miúdo
Não acredito! Você não é de nada! Velho carunchoso!

Tísica
Velho encardido!

Cabisbaixa
Carcomido!

Gorda
Estropiado!

(Os bêbados açulam Duguay Trouin que se levanta na cama e canta, enquanto arranca a cabeleira
careca, a máscara de rugas e o camisolão: aparece um jovem belíssimo e elegante)

CANÇÃO DE DUGUAY TROUIN

É bonito ver passar o tempo


Ele já foi meu
Ele já foi meu
Já usou meu corpo
Ele abusou de mim
Será que me esqueceu
Será que me esqueceu
Tive grandes planos
Sonhos geniais
Eu já tive vinte anos
Pois agora eu tenho mais
Tenho sete mares
Mortos mais de cem
Já rendi uma cidade
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Agora eu quero bem
Mil e um amores
Cheiro de mulher
Mamas de todas as cores
Mamarei enquanto houver
Garrafões de vinho
Caldeirões de rum
Se ficarem no caminho
Não vai sobrar nenhum
Nem um louco pra cantar as minhas glórias
Nem um fraco a minha perdição
Nem as águas
As memórias
Da trajetória do meu Galeão
Galões de Espanha
Ide o vosso rei
Ele sabe a minha sanha
Mencionai-lhe que eu voltei
Preparar a tropa
Almirante inglês
Já montei vossa chalupa
Desmonto dessa vez
Quero bandalheira
Esfregar os pés
Já sujei vossa bandeira
Mijarei vosso convés
Destrocar os panos
Quero bacanais
Eu já tive vinte anos
Agora eu quero mais.

24
IV - A INFÂNCIA DE DUGUAY TROUIN

Bêbado
Você não tinha remorso de matar tanta gente?

Bêbado Miúdo
E a moral, ora essa.

Duguay Trouin
Eu me confessava todos os dias! Conheci um padre especial, feito sob medida: Frei Eustáquio!

(Entra Frei Eustáquio. Bar de Saint Malo, 1690)

Frei
Senta aí, meu filho! Depois a gente vai lá pra dentro confessar na Igreja, como convém, mas vai já agora
adiantando o serviço. Quantas foi que você andou cometendo? Bebe comigo. (Enche dois copos) Toma!

Duguay Trouin
A mesma coisa de sempre, Frade: é essa danada dessa vida dissipada que eu vou levando!

Frei
A vida é breve, aproveita o tempo, você é jovem!

Duguay Trouin
Mas está muito demais, seu Frade! Eu sou um homem inquieto, desproporcionado! Se passa alguém por
mim e não cumprimenta, se me olha de cara feia, enviezado, ou mesmo de soslaio, já vou enfiando a
espada no rabo do infeliz! Na semana passada me bati com quatro ou cinco: estão todos no hospital! É
demais a prepotência!

Frei
Jovem é assim: fogoso, impaciente!

Duguay Trouin
Frade, por favor, me repreenda: se ficar perdoando todos os meus pecados, eu exagero!

Frei
Filho, jovem tem muita energia, saúde, não posso reprovar! Toda essa força, vigor, tem que se dar
vazão... Melhor isso do que desencaminhar donzela!

Duguay Trouin
Mas também nesse particular eu sou pecador contumaz! Na semana passada, desencaminhei três ou
quatro, entre as quais a minha prima! O senhor tem que me reprovar! Me amaldiçoa, excomunga! Faz
qualquer coisa: me assusta com os horrores do inferno! Enxofre!

Frei
Disse São Julião: o Bom Deus criou o homem, o Espírito, mas também o Corpo, e no corpo está o sexo,
do homem e da mulher, porque Deus assim o quis. E como a boca tem fome, o sexo também tem, e o
desejo consumado é santo, como são santas as criações divinas. Fazer o amor não é mais condenável do
que respirar! Disse São Julião! (Respiram fundo)
25
Duguay Trouin
(Desesperado) Mas eu sei que sou pecador!!! Por favor. Me dá uma penitência, por menor que seja!
Uma coisinha à toa, porque eu peco, peco, peco!!!

Frei
O pecado é a prova da existência de Deus!

Duguay Trouin
Era o que faltava!!!

Frei
Disse São Pelaio: Deus deu ao homem o Livre Arbítrio, a escolha entre o mal e o bem. Quem escolhe o
mal contra a vontade de Deus, mostra que é livre, reconhece o poder divino! O pecado é uma forma de
adoração àquele que nos deu a liberdade que é posse in natura, velle in arbitrio, esse in effectu! Disse
São Pelaio!

Duguay Trouin
Bom, se está escrito em latim que é língua santa, já não está mais aqui quem duvidou! Mas olha quem
vem lá: meu pai... e um clérigo... jansenista!!! (Os dois acabam de entrar)

Jansenista
Olha quem lá está: vosso filho na pior das companhias! Fosse o Diabo e seria menos perigoso.

Frei
(Para Duguay Trouin) Esse fala porque tem inveja!

Jansenista
Inveja do quê?

Frei
A minha igreja está sempre cheia e a dele vive às moscas!

Jansenista
Porque vocês jesuítas adaptam a moral à circunstância, e mostram a virtude como fácil e é por isso que
têm a casa cheia!

Frei
(Enervado) Diz a essa pessoa que os homens são diferentes! Um índio pendurado numa árvore, que só
lhe falta o rabo para ser macaco, não pode ser considerado igual a alguém... por exemplo... essa pessoa...
a quem não lhe falta nada! Pra cada um, a reza é diferente...

Jansenista
Oportunista!

Frei
Elitista! (Os dois saem e continuam com as ofensas mútuas. Os padres se vestem de violeta, azul, verde
e até mesmo uma cruz amarela. São cores lindas)

Duguay Trouin
26
Vamos ver o fim da briga?

Pai
Meu filho, então você acha que fica bem, para um futuro religioso!!! Ser visto em companhia de um
padre jesuíta?

Duguay Trouin
Futuro o quê?? Quem?? Eu?? Papai, me proteje!!! Isso não!!! Nunca!!! (Ajoelha)

Pai
Eu penso no teu futuro! Todo jovem precisa de uma profissão rentável! Mesmo com tanto desemprego,
a profissão de Cônego é sempre certa! Rende muito!

Duguay Trouin
Eu não tenho vocação: seria blasfêmia!

Pai
O hábito faz o monge: a vocação virá com a tonsura!

Duguay Trouin
Eu quero ser marinheiro, corsário! O alto-mar, a abordagem, a guerra, a batalha, o duelo, o sangue... isso
me apaixona! Eu nasci pra furar os olhos de mil piratas ingleses, cortar os braços de cem mil holandeses
e a cabeça de todos os inimigos do nosso rei: é isso que me seduz!

Pai
Esses eram outros tempos: o Rei agora estatizou a guerra! Os corsários estão desempregados!

Duguay Trouin
Pai, eu não sei rezar nem Ave Maria que é a mais facilzinha das orações, não vou nunca chegar à altura
do Creio em Deus Padre e Salve Rainha que são complicadas! Deixa eu ser marinheiro, deixa!

Pai
A tradição na nossa família é uma: o filho mais velho vai ser cônsul em Espanha, e pra lá já mandei o
teu irmão! O segundo, para a Igreja! Você! E os outros seja o que Deus mandar!

Duguay Trouin
Eu não quero ser padre!

Pai
Não é meu costume discutir com filho meu! O senhor será padre! Queira ou não queira! O senhor
salvará almas de cem mil espanhóis e não cortará o pescoço de nenhum inglês! Monsenhor René
Duguay Trouin? Obedeça a vontade do vosso pai!

(Enquanto fala, coroinhas vestidos de todas as cores saem detrás do balcão e a cena se converte em
convento. cantam os exercícios espirituais de Ignácio de Loyola,, o que degenera em briga de cruzes e
rosários coloridos)

CANÇÃO DE SANTO INÁCIO

27
Meu corpo está sofrendo
É grande o meu torpor
Eu vou enlanguescendo
Rendo-vos mil graças, meu senhor
Conturbam-se meus ossos
Meu vulto perde a cor
Minh'Alma está confusa
Fustigai-me meu senhor
Meu Deus abri-me as portas
Da eterna servidão
Lançai-me vossa cólera
No Templo de Sião

(Os coroinhas exaustos caem no chão. Duguay Trouin se ajoelha diante de uma imagem de Cristo)

Duguay Trouin
Meu bom Deus, fazei com que o Rei volte atrás da decisão! Que deixe fazer a guerra quem quiser. Pelo
amor de Deus, meu nosso senhorzinho: eu sei que o que estou pedindo é praticamente um milagre! Eu
sei que eu exagero! Mas se não pedir milagre a você, pra quem é que eu vou pedir, não é mesmo?
(Raios, trovões, tempestades, luzes de soldar ferro, clarões) Minha Nossa Senhora dos Aflitos: que
milagre mais apressado!

(O balcão se abre e entra um carro alegórico)

(Música instrumental do Rei)

28
V - LUÍS-SOL PERDE A BATALHA NAVAL

(O quarto de dormir do Rei com uma balaustrada na frente e uma cortina de teatro vermelha que
esconde a cama real)

Duguay Trouin
O Palácio do Rei! Eu quero falar com ele, eu quero falar! O Rei, onde está? Cadê o Rei? Cadê o Rei?

Mordomo
Está dormindo.

Duguay Trouin
Acorda ele, acorda!

Mordomo
Tenho que esperar que cheguem os dignatários! E Rei não pode acordar tão sozinho: precisa de uma
platéia!

Duguay Trouin
Explica melhor!

Mordomo
Meu caro jovem: a vida do Rei é uma cerimônia! Acordar, passear, comer, jogar bilhar, o Rei nunca
deve estar só. Cada gesto deve ser uma peça de teatro. Ele é o representante de Deus na terra e a sua
vida deve ser uma grande missa! (O galo canta cocorocó) O galo cantou: É hora! Os dignatários estão
chegando! (Entra primeiro um arauto que anuncia)

Arauto
Sua Eminência, o Cardeal! (Entra o Cardeal e se dirige ao público)

Cardeal
O Estado deve controlar a vida de cada cidadão, até na sua intimidade mais profunda! Porque acima do
estado está o Rei, e acima, bem mais alto, o próprio Deus!

Arauto
O Conde de Pontchartrain, Conselheiro Real! (Entra e faz o mesmo)

Pontchartrain
O Estado não tem dinheiro nem pra pagar o salário dos marinheiros. É preciso retornar à livre empresa.
Abaixo o estatismo!

Arauto
Monsieur Colbert, Ministro das Finanças. (Idem)

Colbert
Eu só falo quando o Rei me escuta.

Arauto
O escritor Fenelon! (Um dos bêbados interpreta o papel do escritor)
29
Fenelon
O egoísmo dos ricos legitima a violência dos pobres!

Cardeal
Mordomo, pode acordar o homem! (Música de acordar)

Mordomo
Acordar eu acordo, mas quem é que vai dar a notícia pra ele?

Duguay Trouin
Que notícia??? Eu não estou entendendo nada!

Mordomo
Esta noite acabamos de perder a maior batalha naval de todos os tempos! Uma catástrofe!

Cardeal
Toca uma coisa bem alegre, meu filho, pra ele acordar de bom humor!

(O Mordomo levanta a cortina: aparece o Rei que também se levanta)

Rei
Essa musiquinha é muito mais bonita do que aquela outra que vocês tocavam antes. Viu como valeu o
esporro que eu dei?! Artista tem que ser tratado assim: por um lado a gente põe açúcar na boca e por
outro um pontapé na bunda. Eu sei que nem todo mundo está de acordo comigo, mas eu não tenho a
menor pretensão de fazer a unanimidade! Que foi? Que é que está todo mundo olhando para mim com
essa cara?

Cardeal
Majestade: um problema delicado. Ninguém gosta mais da gente...

Rei
Eu não preciso que gostem de mim! Eu quero é que me tenham medo! Por isso vivo fazendo a guerra.
Contra ingleses, holandeses e até contra o Papa!

Fenelon
O povo está farto da guerra que só traz miséria!

Rei
Mas diminui o desemprego! A guerra, antigamente, era uma questão de honra, hoje é questão de
número: quantos soldados, quantos navios, disciplina e tática! É pelo medo que se governa! Por isso
ordenei à minha esquadra que destruísse a dos ingleses!

Cardeal
Questão de número, tem razão! Eles eram mais! Perdemos a batalha naval do século!

Rei
Não brinca!

Cardeal
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Eh, oui! Só se salvou a nau do Capitão!

Rei
Com essa eu não contava!

Cardeal
Passei a noite em claro rezando! Deus fez o que pôde! Não é culpa dele.

Rei
Eu não estou acusando ninguém. Pode deixar comigo, Cardeal. Se eu me batizei a mim mesmo de Rei
Sol por alguma coisa foi, pelas minhas luzes! Tenho a solução pra tudo! Quantos navios eles tinham?

Cardeal
Trinta e cinco!

Rei
Vamos construir setenta! Setenta navios e sete mil soldados embarcados! Setenta mil canhões e só em
obuses quero setenta milhões!

Fenelon
Majestade, a profissão de Rei é gostosa, mas não deixa ver claro a quem só se vê a si mesmo.

Rei
Isso é uma indireta?

Fenelon
O povo está morrendo de fome! De cada 4 ou 5 filhos de uma família, um morre antes de um ano e
outro antes dos vinte! E a família inteira antes dos trinta.

Rei
Pra encurtar conversa, porque já está ficando um pouco demagógico, você quer dizer que desta vez o
povo não paga??? É isso? Já entendi. Quero saber a opinião de cada qual! Menos você, que não é do
meu conselho! Sai pra lá. Podem falar! Como é que vamos sair dessa crise?

Cardeal
Podíamos criar um imposto às grandes fortunas, aos novos ricos que enriqueceram com a guerra e é
justo que paguem o preço de uma nova guerra!

Rei
Isso podia ser interpretado como revanchismo. É perigoso!

Pontchartrain
Tem outra solução: privatizar a guerra: que seja feita pelos próprios interessados, banqueiros,
comerciantes, mas não pelo Estado. É preciso transformar a batalha naval em guerra de corsários, como
era antigamente.

Duguay Trouin
(No seu canto) É isso mesmo!

Pontchartrain
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Cada nobre, cada fidalgo, deve-se transformar num verdadeiro empresário marítimo! Concentrar a
riqueza antes de dividir. Assar o bolo antes de comer.

Rei
Muito eloqüente! E você, Ministro das Finanças, o que é que acha?

Colbert
Livre iniciativa sim, mas controle das percentagens! O Estado dá liberdade, mas cria normas! Espora o
lombo do cavalo, mas segura as rédeas!

Rei
Me tirou a palavra da boca!

Colbert
30 % pro banqueiro que comprar o navio; 30 % pro Capitão corsário e toda a tripulação; 30 % pra Sua
Majestade que é um verdadeiro Sol!

Rei
Em partes iguais! Declaro a guerra livre! De hoje em diante convido todos os franceses a matar, prender,
e destruir, todos os barcos estrangeiros, pirata, bandido e flibusteiro, no rio, no mar ou em terra firme!
Tudo em partes iguais! Podem matar e trucidar e toda a lei da guerra praticar! 30, 30 e mais 30?!?! E
quem fica com os 10 %?

(Todos vão saindo com música "jingle")

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VI - PRIMEIRAS AVENTURAS NO MAR

Duguay Trouin
Vamos ganhar a guerra! Mas eu não sei fazer nada! No convento só me ensinaram a rezar.

(Cavalgada do mar)

(Ficam só em cena o navio de Duguay Trouin diante de um barco inimigo que não se vê)

Duguay Trouin
Que medo. Eu estou tão sozinho. Eu queria tanto ser capitão, agora sou: que medo!

Capitão
Capitão um cargueiro inglês a duas milhas.

Duguay Trouin
Que é que eu faço? Primeiro, reconhecer o inimigo. Sempre dentro da lei! Que lei? Faca, punhal,
picareta, fura os olhos, corta a língua: que lei é essa? A lei, cada qual faça a que possa! Reconhecer o
inimigo. Ele é inglês, quero chegar mais perto. Grumete: iça a bandeira inglesa, a bandeira deles! Isso
pode, está no regulamento. Agora chegamos perto. É navio de pouca monta: só tem carvão. Vamos
embora. Olha, a escolta. Vamos fazer o seguinte: eles não sabem quem somos. Atira. Uma bala bem na
cara do comandante: atira e foge! Temos bandeira igual!

Grumete
Não pode ser, meu capitão! É contra a lei! Antes de disparar, temos que içar nossa bandeira: somos
corsários do Rei!

Duguay Trouin
Que lei coisa nenhuma, rapaz! Aqui é cada qual por si e Deus por ele mesmo! Vai por mim, eu sei o que
estou falando! Atira! (Tiros)

Grumete
Isso não está certo: nós somos corsários, não somos piratas!

Marinheiro
Capitão, olha a bombordo! Um navio de guerra inglês.

Marinheiro
Olha a estibordo! Lá vem outro. A ziribordo! A ribombordo!

Marinheiro
Olha pros lados, pra frente e pra trás: estamos cercados! Vão nos matar!

Marinheiro
E com toda razão: esse capitão não entende a honra do mar!

Marinheiro
Bandeira branca!

33
Marinheiro
Vamos içar!

Marinheiro
Bandeira branca! Vamos nos entregar! (Aparecem bandeiras brancas por toda parte)

Professor
E Duguay Trouin foi preso. Na primeira saída ao mar, na primeira fez besteira, foi preso, levado pra
Inglaterra, ia ser julgado, mas a sentença já estava dada: morrer na forca. Faltava reunir o tribunal, mas a
sentença era uma só e sempre a mesma, a mesma forca! Corsário podia matar, mas era proibido
enganar!

(Música instrumental)

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VII - A PRISÃO EM PLYMOUTH

Bêbado Valentão
É muito moralista essa peça, o senhor não acha?

Bêbado Miúdo
Tem gosto pra tudo...

Tísica
Não tinha mulher nesse barco?

Cabisbaixa
Umas profissionais... Podiam ter serventia...

Gorda
Com tantos homens tanto tempo em tanto mar... tão sozinhos...

(Música instrumental)

Professor
Agora vem uma cena com mulher. Portanto, muito romântica, cheia de amor. Porque Duguay Trouin era
sempre capaz de despertar as mulheres com violência ou com ternura, arrebatava, vocês compreendem?
Por favor, os bêbados façam o favor de ficar sentados e calados, porque se trata de uma cena de grande
delicadeza moral e requer o mais profundo recolhimento.

Bêbado Maior
Olha, está começando.

Bêbado Miúdo
Senta, senta!

Bêbado Valentão
Olha a mocinha, como ela é bonita, bem educada, que maneiras finas!

(Aparece um palquinho com cores bem vivas, formas nítidas, bem desenhadas, pequenos telões ao
fundo: árvores azuis, casas violetas, parte do porto, cachorro multicolor. Dentro do teatrinho, Nancy)

TANGO DE NANCY

Quem sou eu para falar de amor


Se o amor me consumiu até a espinha
Dos meus beijos que falar
Dos desejos de queimar
E dos beijos que apagaram
Os desejos que eu tinha.

Quem sou eu para falar de amor


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Se de tanto me entregar
Nunca fui minha
O amor jamais foi meu
O amor me conheceu
Se esfregou na minha vida
E me deixou assim!

Homens, eu não fiz a soma


De quantos rolaram no meu camarim
Bocas chegavam a Roma
Passando por mim
Ela de braços abertos
Fazendo promessa
Meus deuses enfim
Eles gozando depressa
E cheirando a gin

Eles querendo na hora


Por dentro e por fora
Por cima e por trás
Juro por Deus, de pés juntos
Que nunca mais!

Nancy
Depois que aquele maldito rei francês decretou a guerra livre, desde que passou a ser legal o que antes
era crime, desde que cortar a cabeça de um semelhante passou a ser prova de heroísmo, aqui na
Inglaterra, aqui já não se pode mais viver! Por que?

Bêbado Maior
Boa pergunta! Por... que?

Bêbado Valentão
Eu não sei. E você?

Bêbado Miúdo
Cala a boca que ela vai dizer. Ela está aí pra isso.

Nancy
Porque os mares se transformaram em fogueiras de navios ardendo, e as prisões estão abarrotadas de
franceses inimigos. Tão cheias que o governo decidiu transformar os hotéis em masmorras, e até esta
estalagem onde eu trabalho porque é propriedade do imbecil do meu ex-marido agora capitão, que antes
só recebia fidalgos e damas da corte, recebe agora corsários e marinheiros. E eu que me dane!! Fazendo
comida, lavando prato, fazendo cama, cuidando ferida, porque prisioneiro aqui é tratado a pão-de-ló.
Que matem todos os prisioneiros — esse é o meu desejo mais sincero! Que esfolem, estuprem,
empalem!!!

Bêbado Valentão
Ela tem muito caráter!

36
Bêbado Maior
Está mesmo braba, não está?

Bêbado Miúdo
Com carradas de razão!

Nancy
E como se não me faltasse mais nada, esse capitão maldito, que ainda por cima foi meu marido, esse
maldito Capitão son of gun, esse me faz a corte! Pra que é que existe homem no mundo, meu Deus? Eu
posso falar de cátedra porque conheci quase todos, e posso jurar que nenhum presta!!! Juro pela mais
santa, que nunca mais me darei a um homem! Nunca mais!! Juro pela mais santa, que nunca mais me
darei a um homem! Nunca mais!! (Entra o capitão que traz um pacote enorme)

Capitão
My God, eu morro de sede ao pé da fonte.

Nancy
Vai beber água na fonte da tua tia. Eu sou paga pra cuidar de prisioneiro e não pra tomar conta de ex-
marido carcereiro!

Capitão
Adeus. Meu amor se converte em ódio, meu coração em pedra e sobre meu rosto delicado imponho a
máscara de um sorriso glacial.

Bêbado Maior
Ui, que frio.

Nancy
E o que é que eu faço com esse pacote?

Capitão
(Chorando) É um francês a mais! Cuida dele. (Sai)

Nancy
Olha como é que eles trazem esse pobre-diabo! E sou eu que tenho que transformar esse estrupício de
imundícia empacotada outra vez em gente humana. Tenho que dar banho, botar talco, perfumar, pra que
ele possa ser apresentado ao tribunal em boas condições. Não se pode matar um prisioneiro sujo. É a lei.
Tem que limpar. (Abre o pacote) Mas que francezinho mais bonitinho...

Duguay Trouin
(Meigo) A senhora acha?

Nancy
Qual é o seu nome?

Duguay Trouin
René.

Nancy
René?
37
Duguay Trouin
Eh oui.

Nancy
Quantos anos você tem, garoto?

Duguay Trouin
Ih... tenho muitos.

Nancy
Por que é que você está assim com essa cara tão tristonha?

Duguay Trouin
Porque eu estou morto de medo pensando que a minha mãe deve estar morta de medo, pensando que eu
estou morto! A senhora sabe, eu não tenho experiência: é a primeira vez que eu sou preso.

Nancy
Não se preocupe, você ainda é jovem, tem muita cadeia pela frente!

Duguay Trouin
Eu sou valente, sabe dona? Eu acho até mesmo — não vai rir de mim — que eu sou predestinado. Eu
corro o risco até de me transformar em herói!

Nancy
Acredito. Mas como é que um herói assim tão jovenzinho acabou tão assinzinho?

CHORINHO DA ABORDAGEM

Mesmo que os cantores sejam falsos como eu


Serão bonitas, não importa, são bonitas as canções
Mesmo miseráveis os poetas
Os seus versos serão bons
Mesmo porque as notas eram surdas
Quando um Deus sonso e ladrão
Fez das tripas a primeira lira
Que animou todos os sons
E aí nasceram as baladas
E os arroubos de bandidos como eu
Cantando assim:
Você nasceu pra mim...
Você nasceu pra mim...
Mesmo que você feche os ouvidos
E as janelas do vestido, minha musa
Vai cair em tentação
Mesmo porque estou falando grego
Com sua imaginação
Mesmo que você fuja de mim
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Por labirintos de alçapões
Saiba que os poetas como o cego
Podem ver na escuridão
E eis que menos sábios do que antes
Os seus lábios ofegantes
Hão de se entregar assim:
Me leve até o fim
Me leve até o fim
Mesmo que os romances sejam falsos como o nosso
São bonitas, não importa
São bonitas as canções
Mesmo sendo errados os amantes
Seus amores serão bons.

Duguay Trouin
Eu estava até me comportando bem, sabe? Distribuindo estocadas, pernada, pontapé! Aí de repente
caíram 17 inimigos em cima de mim. Desculpe, 16. Eu sou meio exagerado.

Nancy
(Excitada) Conta.

Duguay Trouin
Aí eu fiz tudo que me tinham ensinado. Primeiro furava os olhos, que é pra obrigar o inimigo a lutar no
escuro. Um inimigo cego é mais conveniente.

Nancy
Tem toda razão.

Duguay Trouin
Depois ia descendo e cortava o pescoço, operação muito delicada, precisa de pontaria: tem que cortar a
carótida que é mais higiênico. Nós não somos açougueiros. Depois, as partes penduradas, orelha, e tudo
que for protuberante. No caso de empalamento, convém que a espada seja florete, que é fino e
penetrante.

Nancy
Que emocionante!

Duguay Trouin
A senhora está me seguindo?

Nancy
Estou seguindo sim, meu filho, continua.

Duguay Trouin
Mas sempre com muito cuidado pra não furar a barriga.

Nancy
E por que não? Qual é a razão?

39
Duguay Trouin
Porque a barriga é... como direi... uma espécie de depósito de coisas desagradáveis, e furando sai tudo
pra fora.

Nancy
Mas pode acontecer...

Duguay Trouin
Aconteceu! A senhora está me seguindo?

Nancy
Eu sigo, eu sigo! Vai em frente!

Duguay Trouin
Eu não perdi a clarividência! Com as tripas que se espalhavam no convés, fui enforcando inimigos um a
um. Eu estava tão nervoso e desatinado, com tanta sede, que comecei a beber o sangue dos moribundos!

Nancy
Não é muito ácido?

Duguay Trouin
Depende, o de marinheiro e soldado é um pouco acre-avinagrado. Já o do Capelão é quase doce, vinho
de missa.

Nancy
Eu estou apaixonada!

Duguay Trouin
Não era pra menos, depois de beber toda essa sangueira, era só o que faltava que você não se
apaixonasse por mim!!!

Nancy
Virgem Santa, fica o dito por não dito, a promessa por não feita, esse daqui não me escapa.

Duguay Trouin
Faltou a senhora perguntar como foi que eu fui cair prisioneiro, sendo assim tão heróico e valente...

Nancy
Como foi, doçurinha? Conta pra mim, como foi?

Duguay Trouin
Me caiu um obus de 700 kg na cabeça. Não há heroísmo que agüente. A senhora está me seguindo?

Nancy
Até aqui sim, agora quem vai me seguir é você. Vem! (Agarra Duguay Trouin e o beija selvagemente)
(Baixa o pano do teatrinho) (Aplausos dos bêbados e das prostitutas)

Professor
E foram assim seguindo um ao outro noite e dia, cada qual seguindo mais o que pôde. Até que de
repente, clareou um novo dia... era alvorada.
40
Bêbado Maior
(Muito respeitoso) O senhor dá licença?

Professor
Pois não.

Bêbado Maior
Olha, pra mim, essa foi a cena mais bonita da peça até agora, sabe? Completamente romântica! O senhor
pode repetir a cena?

Todos
Repete, repete.

Professor
Não, não. Eu sei que é bonita, mas também não é pra tanto. A gente tem que continuar com a história.
De repente clareou um novo dia, era alvorada. Alvorada!!! (Os atores se apressam) (Sobe o pano)
(Música)

Cynthia
Nancy, minha irmã, nosso senhor o Capitão vem chegando aí. Depressa, levantem da cama e se vistam.
O Capitão vem aí.

Duguay Trouin
É teu marido?

Nancy
Foi. É esse capitão que você conhece, o Príncipe Encantado ao contrário!

Duguay Trouin
Ao contrário por que?

Nancy
Porque todas as mulheres que ele beija caem no sono mais profundo e só acordam quando ele vai
embora!

Ator
O Capitão! (O ator estava namorando Cynthia, assusta-se e entra no teatrinho)

Capitão Príncipe
É esse?

2º Capitão
Esse mesmo! (Sai do alçapão do teatrinho)

Duguay Trouin
Macacos me mordam, fui reconhecido.

Capitão
O que o senhor fez, jovem corsário, vai contra as regras mais elementares da guerra do corso e da
41
decência. Essa porralouquice não é compatível com a guerra séria! O castigo é a morte!

Duguay Trouin
Com seiscentos mil demônios. Agora é que a porca torce o rabo. Vão me enforcar!

Nancy
Eu vou fazer uma sopinha quente porque está ficando frio, não está? (Levanta da cama meio na e sai)

Capitão
O que é que vocês estavam fazendo? (Vendo que ele está quase nu)

Duguay Trouin
Homessa! Trocando idéias.

Capitão
Falaram de mim?

Duguay Trouin
Muito, a noite inteira! (Vai se vestindo)

Capitão
Você quer me fazer um favor?

Duguay Trouin
Eu não estou em condições de recusar. (À parte)

Capitão
Diz para ela pra gostar um pouquinho mais de mim de novo. Quem sabe até se re-apaixonar! (Som de
sino. Duguay Trouin dá um salto)

Professor
Aí, Duguay Trouin teve uma idéia maravilhosa... e urdiu um plano!

Duguay Trouin
Como não, meu Príncipe ao contrário. Mas tem uma condição. Ela não vai desamar assim sem mais nem
menos, especialmente depois da maratona dessa noite!

Capitão
Tem razão!

Duguay Trouin
É preciso que ela sinta o seu amor traído. Paixão sem recompensa. Vamos fazer assim, Capitão: essa
moça pensa que esta noite eu vou fugir com ela. Lá embaixo no porto tem um navio sueco "Estrela da
Noite". Eu disse que ia comprar esse navio pra ela, mas eu estou sem dinheiro. (No teatrinho aparece o
"Estrela da Noite")

Capitão
Eu posso emprestar!

Duguay Trouin
42
Então o senhor vai lá embaixo, compra esse navio pra mim, aluga os marinheiros que for preciso
(Aparecem marinheiros nas escoltilhas do navio) e volta aqui e fica ali atrás do muro, só olhando... e
aí... o que é que vai acontecer?

Capitão
Não sei!

Duguay Trouin
(Os atores trocam o cenário do teatrinho: o porto) Nancy vai entrar por aquela porta, vestida com seu
vestido mais rendado, pérolas, brilhantes, anéis e braceletes (Entra Nancy como ele diz)... apaixonada...

Nancy
Meu amor... vamos fugir... pra Bretanha... Saint Malo.

Capitão
E eu?

Duguay Trouin
Fica só olhando atrás do muro. (Ele obedece) Aí eu digo pra ela que vou me embora sozinho.

Capitão
E eu? O que é que eu faço?

Duguay Trouin
Espera atrás do muro, porque depois que eu for embora, ela fica sozinha, infeliz, triste e desolada,
lágrimas nos olhos e aí o senhor sai de trás do muro e ela caíra nos seus braços! Atônita! Elementar,
meu caro Capitão...

Capitão
E você?

Duguay Trouin
Eu tomo o navio!

Capitão
E vai fugir???!!

Duguay Trouin
Pelas barbas do profeta, não! Claro que não. Só o tempo de fazer de conta. Dou uma voltinha no
"Estrela da Noite" e vou me depositar na prisão que o senhor indicar. Gentlemen's agreement, como
dizem vocês!

Capitão
Negócio fechado.

Nancy
Meu amor, vamos partir.

Duguay Trouin
Sabe, Nancy, eu quero te dizer uma grande verdade: eu sou um marinheiro. E como todo marinheiro...
43
amo eternamente uma mulher... uma mulher em cada porto...

Nancy
Eu sou a mulher do porto. Amo todos os marinheiros... no mesmo porto. (Cantam)

MARINHEIRO DE MUITOS PORTOS

Quem me dera ficar meu amor, de uma vez


Mas escuta o que dizem as ondas do mar
Se eu me deixo amarrar por um mês na amada de um porto
Noutro porto outra amada é capaz de outro amor amarrar

Minha vida, querida, não é nenhum mar de rosas


Chora não, vou voltar

Quem me dera amarrar meu amor quase um mês


Mas escuta o que dizem as pedras do cais
Se eu deixasse juntar de uma vez meus amores num porto
Transbordava a baía com todas as forças navais

Minha vida, querido, não é nenhum mar de rosas


Volta não, segue em paz.

(Duguay Trouin parte no naviozinho "Estrela da Noite" durante a canção. Nancy finge que chora,
depois volta a trabalhar. O Capitão quer beijá-la e leva um tapa na cara)

(Música instrumental) (Os atores agradecem no palquinho)

44
2º ATO

Professor
E assim escapou Duguay Trouin. (Um barco em silhueta atravessa a cena com Duguay Trouin que fica)
Durante a noite sonhou (O barco navega) enquanto os marinheiros remavam, ele pensava, pensava na
mãe querida, no pai, na festa de volta à casa.

Duguay Trouin
(A música se torna fúnebre) Minha mãe, minha irmã, meu irmão. Nem um amigo pra me receber?

Mulher
Estão todos ocupados em despedir. Nosso pai, René, morreu. (A música fúnebre aumenta)

45
VIII - A MORTE DE ETIENNE

(Entra o cortejo fúnebre depois do enterro. Mãe, Etienne, Charlotte, amigos)

Duguay Trouin
Minha mãe!

Mãe
Era um homem honrado.

Duguay Trouin
(De joelhos, beijá-lhe a mão) E eu quase morro também, mamãe. A senhora não imagina o que eu fui
obrigado a fazer pra escapar.

Mãe
Um homem honrado, um corsário!

Etienne
Mãe, agora é a minha vez: eu vou pro mar. Eu também quero ser Capitão.

Duguay Trouin
Meu irmão, você tem 17 anos, ainda é cedo!

Mãe
Vai, meu filho, vão os dois! A vida do homem é o mar. Tudo nos vem do mar, dos navios que cruzam o
mar, todos os navios do mundo estão no mar. Na terra crescem os homens, mas tudo o que temos é no
mar que se vai buscar. É a nossa vida. Vai Etienne, vai viver. (A música fúnebre se transforma na de
"Meu irmão viveu dois dias", instrumental)

Duguay Trouin
Vem, meu irmão. (Magicamente a cena se transforma em cenário bi-dimensional de mar) Vem comigo,
eu vou te ensinar o que sei. E assim vou aprendendo: ensinando. Você tem medo?

Etienne
Muito. Mas tenho coragem também. Eu quero ser como nosso pai: corsário honrado!

Duguay Trouin
Este é o lugar do Capitão. Aqui ele decide. Sozinho. Na hora do perigo não se deve pedir conselhos: o
conselheiro encontra sempre razão pra fugir, porque o perigo dá medo. E nesse mundo, nesse mar, o
perigo espreita. Vem um navio: perigo! Perigo: já não vem mais! Agora descemos à terra: perigo! Aqui
é a Espanha. (Cenário mostra a Espanha) Perigosa na guerra, perigosa em paz. Meu irmão navegamos
10 dias. Não tinhamos água. Foi preciso descer, buscar provisão. No mar ou terra firme, só é firme o
perigo! Constante! (Ouve-se um tiro)

Etienne
Cuidado, meu irmão.

Duguay Trouin
Um espanhol. Nos deu um tiro de leve. Mas estamos em paz. Carregados de provisões. Vamos voltar.
46
Esperar os navios do Brasil: isso sim é lucrativo.

Etienne
Não, meu irmão. Eu tenho medo, mas tenho honra. Um espanhol atirou em nós: temos que nos vingar!

Duguay Trouin
Não vale a pena: não temos nada a lucrar! Deixa essa história de honra pra lá!

Etienne
Não, meu irmão, lembra do nosso pai, do que ele ensinou! A vida é o risco, eu quero arriscar. Me deram
um tiro sem provocação: eles vão ter que pagar. Eles estão ali, atrás da árvore. (Chama) Espanhol?!

Espanhol
Que hay?

Duguay Trouin
(Grita) Espanhol, pede perdão. Pela glória do Rei, muito cristão, Espanhol, pede perdão!

Espanhol
Me cago en la gloria del Rey franchute!

Etienne
René, é uma questão de honra.

Espanhol
Me cago en la honra de los franchutes! Y la madre que los parió!

Duguay Trouin
Espanhol, não exagera!!!

Espanhol
Me cago en la hostia!

Duguay Trouin
Espanhol, te vás a cagar en tus patas! Prepárate! Vamos, meu irmão. Agora a provocação foi demais. É
a ferro e a fogo!!! (Lutam capoeira, dançam com música instrumental. Etienne morre)

(Música instrumental --- Música de luta)

Professor
E foi assim tão depressa que Etienne morreu. E foi cantando assim que o seu irmão chorou.

MEU IRMÃO VIVEU DOIS DIAS

É tão cedo meu irmão


Abre os olhos, dorme não
(Vai) Espalha os meus soldados
(Vai) Estraga os meus brinquedos
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Pode me odiar
Nunca mais olhar pra mim
Mas não faz
Não faz mais
Assim

Tão cedo, meu irmão


Põe a mão na minha mão
(Vem) Pode fechar meus olhos
(Vem) Alisa os meus cabelos

E a quem perguntar
Deus, que foi que aconteceu
Vou jurar
Que o teu sangue
É meu

Eu vou rasgar
Meu coração
Pra costurar o teu
Vou te soprar
Esta canção
O meu irmão
Morreu.

Bêbado Valentão
Olha, eu falo por mim, não falo por todos, mas escuta, eu estou chorando, viu? Essa cena é muito
heróica! É por demais!... Sim, senhor... gostei...

Bêbado Miúdo
E você viu como eles lutavam?

Bêbado Maior
Eu estou pra ver!

Gorda
Antigamente tinha cada homem, né?

Cabisbaixa
Hoje é só isso que a gente vê... olha aí...

Bêbado Maior
A senhora tem toda razão... Antes nós éramos muito melhores!

Bêbado Valentão
E depois, que foi que aconteceu?

Professor
Duguay Trouin voltou pro mar!
48
Bêbado Valentão
Eu estou só perguntando porque se tiver outra cena assim tããão... tão boa, tão melodramática, eu não
vou resistir, não, vou não! Não posso! (Chora)

Bêbado Miúdo
É emoção demais pra uma noite só! (Chora também)

Bêbado Valentão
Eu não estou preparado pra essas coisas...

Professor
A próxima cena é de luta! Combate! Duguay Trouin estava furioso! (Carinhoso)

Duguay Trouin
Eu estou furioso! Aaaaaaaaaaaahhhhhhhh!!! (Lança um grito pior que o de Tarzan e Chita misturados.
Rugido. Ouve-se o eco ainda mais alto do que a voz, cheio de ressonâncias) Como é que eu vou voltar
pra casa com o cadáver do meu irmão?

49
IX - A VIDA E A GUERRA: VAMOS VIVER!

Professor
Aí Duguay Trouin mudou completamente de filosofia! O espírito do irmão encarnou nele. Prestem
atenção! Olha só! Ele está de novo no seu navio, o irmão morto, dentro do caixão, na cabine do
comando. Do lado, outro navio, outro capitão, Fleuriges!

Fleuriges
Fleuriges sou eu! (Levanta os braços) Estou aqui nos Açores, esperando os navios que voltam do Brasil,
cheios de tudo, de ouro e de prata, índio e café, brilhante e pau brasil! E lá vem o comboio! Na frente
vão os navios de guerra da escolta. Vamos deixar passar! E depois, atacar! (Dois navios em cena)

Duguay Trouin
(No comando do seu navio) Fleuriges!

Fleuriges
(No comando do seu) Que é?

Duguay Trouin
Você dá conta do recado sozinho?

Fleuriges
Claro que sim. É carga rica! Se eu ataco sozinho, fico com tudo!

Duguay Trouin
Fleuriges: ataca sozinho!

Fleuriges
O que é que te deu?

Marinheiro
Capitão Duguay Trouin, vamos atacar: são os navios que vêm do Brasil!

Duguay Trouin
Fleuriges: olha bem o navio que vai passando, sabe qual é? (Um enorme navio atravessa a cena e
invade a platéia) (Começa a cavalgada)

Fleuriges
É o No Such, navio de guerra e bem armado. Deixa passar!

Duguay Trouin
Sabe o que tem dentro?

Fleuriges
Cento e cinqüenta canhões. É o mais forte da esquadra inglesa!

Duguay Trouin
Leva dentro as cartas que o Rei deu a Jean Bart! O corsário maior que todos nós! O corsário que só
perdeu uma batalha.
50
Fleuriges
Contra o No Such não! Vamos fugir, nos esconder: eu quero só os navios mercantes combater! Estão
desarmados, são presa fácil.

Duguay Trouin
Eu quero as cartas do rei: eu vou buscar!

Marinheiros
O nosso capitão ficou maluco!
Não sou guerreiro amador!
Que capitão diletante!

Duguay Trouin
Eu quero a glória!

Fleuriges
E eu dinheiro!

Duguay Trouin
Eu ataco o No Such.

Fleuriges
E eu o cargueiro!

Marinheiros
Vou fazer rebelião!
À morte, Duguay Trouin! À morte o capitão!

Courserac
Meu capitão, os soldados não querem combater!

Duguay Trouin
Eu quero as cartas do Rei! (Obcecado)

Courserac
Capitão, o No Such já nos viu. Ele é mais forte! Tem mais canhões!

Duguay Trouin
E nós mais coragem!

Courserac
Os marinheiros e soldados, estão todos escondidos, no porão, ninguém quer lutar.

Duguay Trouin
Me dá uma granada!

Courserac
Pra jogar no inimigo? Está longe! Não vai acertar!

51
Duguay Trouin
Pra jogar no porão! Eu vou matar todos que não quiserem matar! (Joga a granada no porão que
explode. Sobem soldados e marinheiros) Agora sim: preparar a abordagem! Quem olhar pra trás é um
homem morto! Eu quero as cartas! Vamos buscar.

(Cavalgada do mar)

(Combate, dança, a maioria dos combatentes cai. Abordagem)

Marinheiro combalido, quase desmaiado


Vencemos, meu capitão!

Duguay Trouin
E as cartas?

Marinheiro
Está difícil de buscar: tem tanto cadáver amontoado! Morreu metade da nossa tripulação e a deles quase
toda.

Duguay Trouin
Joguem os mortos ao mar! (Ao seu lado, o corpo bem guardado de Etienne)

Courserac
As cartas, meu capitão, estão um pouco amarrotadas!

Duguay Trouin
Do Rei a Jean Bart, o corsário que só uma vez foi vencido! Aqui estão na minha mão! As cartas do Rei!
Vamos desembarcar. (Descem com o caixão)

Courserac
Chegamos primeiro que Fleuriges: o nosso navio está leve, por isso velejamos depressa. Ele vem mais
atrás: carregando o ouro brasileiro!

Duguay Trouin
(A mãe vem e não diz nada: ajoelha-se ao lado do corpo do filho e reza. No cais, muita gente em
silêncio) Meu irmão mais velho. Minha mãe.

Luc Duguay Trouin


Bem-vindo, meu irmão (Fala triste e pausado)

Duguay Trouin
As cartas... A bênção, minha mãe.

Luc
Parabéns. Nós estamos todos contentes. (Fala tristíssimo) Mas a viagem foi cara, deu prejuízo.
Perdemos um irmão, 300 soldados e o comboio do Brasil. Foi caro!

Duguay Trouin
Ganhamos as cartas.

52
Luc
O Rei quer falar contigo! (Passa o cortejo de Fleuriges que desembarca cheio de mercadorias,
dinheiro. Todo mundo alegre, feliz, cantando, correndo: passam pelo meio da conversa dos dois
irmãos. Alguns conhecidos param.)

Duguay Trouin
O Rei vai ficar contente: nesta carta está o seu selo!

(Os amigos desfilam)

Amigos
Meus parabéns!
Meus pêsames.
Pêsames. Sentidos parabéns. Alegres pêsames. Meu respeito mais profundo. Que a terra lhe seja leve, já
que o mar foi tão pesado.

Luc
Fiquem para o enterro.

Amigos
Com muito gosto ficaria, mas sabe como é: eu tinha dinheiro investido na expedição do Fleuriges, tenho
que ir correndo buscar os dividendos! Comigo é a mesma coisa. Com todos. Bom enterro. A vocês
todos.

Duguay Trouin
O Rei... pelo menos ele... deve estar contente.

(Música instrumental)

53
X - O REI OFERECE A DUGUAY TROUIN UMA ESPADA DE HONRA QUE NÃO CORTA

Rei
Era só o que faltava! Estou com raiva de todo mundo, estou com raiva do mundo! Ô Arautozinho,
chama aí o meu Conselho de Guerra!

Bêbado Valentão
Oi, Professor, essa é a cena do Rei, não é? Pode cortar porque a gente já viu!

Professor
Essa é outra, é diferente: Agora o rei está furioso!

Bêbado
Por que?

Rei
Ora por que!!! Responde você ou respondo eu???

Professor
(Intimidado) Vossa Majestade é que manda!

Rei
Porque eu acreditei nessa história de privatizar a guerra, de acumular a riqueza antes de dividir, etc.,
etc., e agora todos os nobres estão cada vez mais ricos e o Estado cada vez mais pobre! E agora? A
Inglaterra está aí nos ameaçando do lado de fora e o povo se revoltando do lado de dentro!

Bêbado Valentão
É uma situação delicada, não é mesmo, seu monarca?

Bêbado Miúdo
Muito, muito difícil!

Arauto
(Toca a corneta) O Conselho de Guerra! (Entram os dignatários)

Rei
(Explodindo) Passando por cima do protocolo, o negócio é o seguinte: estamos indo à falência! O povo
já deu o que tinha, cuspiu até o sangue, agora chegou a nossa vez! Vocês são todos uns corruptos. Com
essa história de livre empresa vocês concentraram a riqueza foi no bolso de vocês.

Pontchartrain
Nós ficamos riquíssimos, é verdade, mas temos que enriquecer ainda mais... o bolo... antes de dividir.

Rei
Olha aqui, chega de retórica! Vamos todos desembolsar um pouco. Não quero conversa mole,
Majestade, Magnanimidade, meu Sol, minha Lua, vai todo mundo passando aqui em fila e dando
alguma coisa. Chegou a nossa vez: são os ricos que têm que pagar. Arauto, eu sei que isso não é teu
serviço, mas vai lá dentro buscar a arca! (O Arauto relutante larga a trombeta e traz uma arca. Os
nobres se põem em fila)
54
Cardeal
Vossa Majestade sempre foi o bom exemplo: quem sabe uma vez mais se mete no começo da fila...?

Rei
Por essa eu já esperava. Arauto, eu sei que esse não é o teu serviço, mas vai lá dentro buscar o meu
faqueiro de ouro!

Arauto
Eeeeeeeehhhhh...

Cardeal
O faqueiro de ouro?????

Todos
Ooooooooohhhhhhhh...

Rei
Põe dentro da arca! Olha aí o bom exemplo! A situação está crítica! Agora vocês...

Cardeal
Eu dou este rosário que também é de ouro, pesa menos do que um faqueiro, mas tem valor espiritual.

Rei
Bom... o próximo.

Pontchartrain
Eu dou o meu anel de casamento...

Rei
Dá também as fivelas do sapato, que são mais pesadas. (Pontchartrain tira os sapatos e põe na arca) E
esse botão aí... ficam ridículos em roupa interior.

Pontchartrain
Foi minha mãe...

Rei
Dá! Ela ia ficar contente...

Pontchartrain
O senhor acha?

Rei
Tenho certeza! (Ele dá o botão)

Colbert
Eu vou dando logo tudo o que tenho... ações da Companhia das Índias...

Rei
Estão muito desvalorizadas: dá também aquele dez por cento, você se lembra? Porque eu não esqueço!
55
Colbert
Eu prometo ir buscar em casa...

Fenelon
Eu dou o melhor que tenho, dou estes versos!

Rei
Vou fazer uma quermesse, que é onde se vendem essas bobagens! Agora, vai todo mundo embora
daqui!

Arauto
Sua Majestade, acaba de chegar o corsário Duguay Trouin!

Rei
Não vão embora, não: fiquem! Quero mostrar pra vocês um verdadeiro herói. Um homem que durante
toda vida trabalhou pensando só no Rei e nunca em si mesmo. Entra René e faz o relato! Eu te mandei
pros Açores tocaiar os cargueiros que vinham do Brasil! Conta! Quantos navios? Quanto ouro e quanta
prata??? Vamos encher cem arcas!

Duguay Trouin
Primeiro lugar, a bênção. (Ajoelha-se e beija a mão do Rei)

Rei
Que Deus te abençoe. Conta: e os cargueiros?

Duguay Trouin
Foi uma viagem difícil, mas eu volto coberto de glórias!

Rei
E os cargueiros brasileiros, quantos???

Duguay Trouin
Foram muitas as mortes: meu irmão Etienne e pelo menos trezentos mais. Havia tanto cadáver em cima
do convés que só se podia caminhar pisando nas cabeças dos marinheiros mortos!

Rei
E os cargueiros?

Duguay Trouin
Um dos nossos marinheiros teve o heroísmo de subir ao mastro inglês arrancar a bandeira do rei lá
deles, se embrulhou com ela, atou uma pedra no próprio pescoço e se atirou ao mar: o mastro ficou nu e
os ingleses desonrados! E o nosso herói morto!

Rei
E os cargueiros do Brasil? Fala!

Duguay Trouin
Depois da batalha corpo a corpo, encontrei o capitão inimigo, sir Taylor! Quem não é capaz de admirar
o valor do adversário não tem coração bem feito! Eu lhe cortei a jugular com todo respeito.
56
Rei
Eu sei... e os cargueiros?

Duguay Trouin
Assumi o comando do No Such, desci ao camarote principal e... meu Rei... essa a maior felicidade...

Rei
Os cargueiros???...

Duguay Trouin
O que foi que eu encontrei?

Rei
Não sei...

Duguay Trouin
As vossas cartas, Majestade, cartas a Jean Bart!

Rei
E os cargueiros?!?!?!

Duguay Trouin
Os cargueiros fugiram...

Rei
(Desaba no trono) Hoje é o meu dia!

Duguay Trouin
Eu nem me preocupei... Eu tinha o mais precioso: as cartas! A honra!

Rei
Meu filho, assim é demais! Eu nem acredito. Essas cartas são preciosas, porque têm o meu carimbo: mas
o carimbo é meu! Posso carimbar quantas cartas quiser. Arauto, eu sei que não é o teu serviço, mas vai
lá dentro buscar o carimbo pra ele ver! E o ouro do Brasil... e é disso que eu preciso... ouro que não é
nosso...

Duguay Trouin
Fleuriges, o outro capitão...

Rei
Está no fichário, Fleuriges?

Pontchartrain
Parece que é corsário novo, ainda não?

Rei
Vai correndo, ministro, manda prender: vamos recuperar o possível!

Duguay Trouin
57
Fleuriges me ofendeu profundamente.

Rei
Por que?

Duguay Trouin
Disse que cada um briga pelo que não tem: ele pelo dinheiro, porque era pobre, eu pela honra...
querendo com isso insinuar...

Colbert
Ele tem toda razão...

Rei
Arauto, eu sei que esse não é o teu serviço, mas vai lá dentro buscar aquela espada que eu tive uma
idéia!

Arauto
Pôôôôôôôô...

Rei
René Duguay Trouin, eu vou te condecorar: cavaleiro da Ordem de Saint Louis. Maior honra que essa é
impossível! Vou até te dar um a espada. (Volta o Arauto com a espada que ele dá a Duguay Trouin, que
reluta em segurá-la) Não tem perigo, não corta! Segura pela lâmina! Isso sim, são honrarias! Você é
agora o mais honrado dos corsários!

Duguay Trouin
Muito obrigado.

Rei
Escuta, meu filho, eu entendo a tua devoção. Essa tua vontade de brigar, morrer, matar. Mas veja bem:
eu quero a paz. Pra viver em paz, eu preciso fazer a guerra, pra fazer a guerra eu preciso muito dinheiro!
Muito!

Duguay Trouin
Ah, agora eu estou entendendo!

Rei
Vai, meu filho, toma a espada, volta pro mar! Vai pros Açores, vai tocaiar os cargueiros brasileiros!

Duguay Trouin
Posso dizer um segredo?

Rei
Vai todo mundo embora que ele quer falar comigo! E você, faz o seguinte: eu sei que não é o teu
serviço, mas leva essa arca aí lá pro meu quarto e fecha a sete chaves. (Para Duguay Trouin) Põe as
cartas aí dentro: vamos vender na quermesse. )Saem todos) Agora fala.

Duguay Trouin
Eu sei que isso que eu fiz parece burrice.

58
Rei
Tem toda razão.

Duguay Trouin
Mas eu estou disposto a mudar!

Rei
Ótima idéia.

Duguay Trouin
Daqui por diante vou ser um corsário honrado, como queria o meu pai. Mas que vai ganhar muito
dinheiro, como quer o meu Rei.

Rei
Isso mesmo, meu filho! Maravilhoso!

Duguay Trouin
Só que esse plano de tocaiar cargueiro, aqui entre nós dois, é uma idéia imbecil.

Rei
São os planos do Ministro da Marinha!

Duguay Trouin
Planos marítimos, feitos pelo ministro no ministério, que é um lugar seco! Batalhas navais traçadas em
cima da mesa de um escritório! É claro que assim a gente perde todas as guerras!

Rei
E se não é nos Açores, onde é que se vai caçar os navios que saem do Rio de Janeiro?

Duguay Trouin
No Rio de Janeiro!

Rei
Aonde?

Duguay Trouin
Pra que esperar em alto mar? É muito mais seguro invadir o Rio! Me dê Vossa Majestade 17 navios bem
armados, 5.000 soldados e mais tripulação e o Rio de Janeiro será nosso!

Rei
E com que dinheiro eu vou pagar essa tropa?!

Duguay Trouin
Vamos fundar uma sociedade por ações! Todo mundo vai tirar o dinheiro do colchão! Porque eu não
estou brincando não: invadir o Rio de Janeiro é o melhor negócio do século! Cada tostãozinho que se
botar nessa operação vai render um milhão. E somos nós que faremos o preço pra devolver a cidade: os
brasileiros vão ficar pagando essa dívida pelo resto da eternidade.

Rei
Sabe de uma coisa? Você não é tão burro como eu pensava!
59
Duguay Trouin
Eu faço tudo isso pelo glória do meu Rei...

Rei
Ah, é por isso? Então eu já não sei mais...

Duguay Trouin
Majestade, pega o carimbo: me dá uma carta autorizando. Eu e meu irmão vamos fundar uma sociedade
por ações!

Rei
Trinta por cento pra mim! Eu esporo o cavalo, mas seguro as rédeas! Vai com a minha bênção. Invade o
Rio, meu filho, e volta depressa! Eu quero a paz. Vai. Invade, trucida, chacina! (Duguay Trouin sai)
Paz!

60
XI - A ENTREVISTA

Gorda
Pára, pára, pára um pouco com essa cena. (Acendem mais luzes)

Professor
Por que?

Gorda
Porque tem um jornalista aí que veio entrevistar a gente.

Jornalista
Pois é, Professor, eu soube que parece que talvez vão invadir o Rio de Janeiro... então o chefe da
redação me mandou aqui pra colher as primeiras impressões...

Professor
Invadir o Rio?

Jornalista
Não é isso?

Professor
Na peça ou na realidade?

Jornalista
Que peça? Vocês estão fazendo uma peça?

Professor
Pois então: está todo mundo aqui ensaiando.

Jornalista
Ah, interessante! Então era isso? Porque eu não tinha entendido direito. Me disseram: estão invadindo o
Rio de Janeiro! Vai lá no Cais do Porto e colhe as primeiras impressões.

Professor
Tudo bem, pode colher!

Jornalista
Então, pode dizer: a senhora, por exemplo?

Tísica
Eu só lamento que os meus pais não sejam vivos, porque eles iam ficar felicíssimos vendo o triunfo da
filha!

Jornalista
E a senhora?

Gorda
Eu estou adorando. Mesmo sabendo que o papel que eu faço não é adequado pro meu tipo físico, eu
61
estou achando formidável.

Jornalista
Por que exatamente?

Gorda
Porque foi a primeira vez que pensaram em mim pra outras serventias!

Jornalista
Posso escrever então que, na sua opinião, graças a essa peça, a sua vida não foi totalmente inútil.

Gorda
Isso mesmo: a minha vida passou a ter outra significação.

Jornalista
E o senhor?

Rei
Eu estou gostando, apesar de que o papel do Rei é muito pequeno! Quando me pediram pra fazer o papel
de rei, eu imaginei outras ambições. Mas eu compreendo que isso daqui é um trabalho de equipe! Então
a gente tem que se sacrificar... Isso é normal...

Jornalista
Agora mudando de assunto: o senhor acha que essa peça tem conteúdo?

Bêbado Miúdo
Eu não tenho conteúdo nenhum: eu sou intérprete!

Jornalista
E a peça?

Bêbado Miúdo
Eu não sei. Vou perguntar pra ele. Hei, você: você acha que essa peça tem conteúdo?

Bêbado Valentão
Tem que perguntar pro Professor, mas eu acho que tem, né? Se é uma peça de teatro, algum conteúdo
deve ter. Porque, senão, pra que é que a gente está aqui fazendo todo esse esforço? Claro que tem
conteúdo. Só que eu não sei qual é.

Jornalista
E o senhor? O que é que o senhor está achando da peça?

Corsário
Que peça?

Jornalista
Que tal o papel que você está representando?

Corsário
Eu não estou representando nenhum papel. Eu sou assim mesmo.
62
Jornalista
Deixa eu ver o olho! (Ri)

Corsário
Está furado. (Mostra o olho furado) Não encosta.

Jornalista
E essa roupa? Como é que se explica?

Corsário
Eu sou um corsário: corsário se veste assim! Você não gosta?

Jornalista
Um corsário de verdade... aqui no Rio de Janeiro...??? Em pleno 1856!

Corsário
Primeiro, nós não estamos no Rio de Janeiro: isso aqui é Bretanha, é Saint Malo. Segundo, devagar com
o andor: nós estamos vivendo no ano da graça de 1711! Terceiro, essa história de invadir o Rio de
Janeiro é uma invenção daquele maluco do René Duguay Trouin! Isso nunca vai dar certo.

Outro Corsário
Como não vai dar certo? Eu já me alistei.

Outro Corsário
E quanto é que ele paga?

Corsário
Não me deu um tostão: me pagou em ações! Por cada uma segundo ele, voltando do Rio recebo dez
vezes mais!

Corsário
Ele não vai encontrar marinheiro que caia nessa esparrela!

Corsário 2
Está quase completo: se você quiser vai lá correndo, tem pouca vaga!

Jornalista
Eu não estou entendendo mais nada...

Corsário 1
Pelas dúvidas, vou me inscrever! (Sai correndo)

Corsário 2
E o senhor, por que é que está vestido assim desse jeito: é carnaval?

Jornalista
Eu pensei... (Entram prostitutas) Pelo menos essa eu conheço. Senhorita!

Prostituta
63
Está fechado o bordel!

Jornalista
Por que?

Prostituta
Vamos todas comprar ações!

Prostituta
Eu também.

Jornalista
Mas eu pago! Eu quero uma reportagem!

Prostituta
Nós só cobramos em ações da companhia do René Duguay Trouin!

Prostituta
Eu também.

Jornalista
Que companhia?

Prostituta
Essa que vai invadir o Rio de Janeiro!

Jornalista
Está todo mundo ficando maluco!

Prostituta
É verdade! Maluco pelo dinheiro!

Prostituta
Eu também.

Jornalista
Mas nós estávamos conversando ainda há pouco...

Prostituta
Eu, heim! Só porque a gente é puta, eles ficam inventando coisas. Eu não converso, eu trabalho: se tem
ações, vamos pra cama; se não, por nenhum dinheiro do mundo. Queremos todas virar capitalistas!

Prostituta
Eu também.

Jornalista
(Assustado) Eu quero voltar pra casa... mas qual é o caminho??? (Angustiado sai de cena)

Ator
(Compreensivo) Vem por aqui, meu filho... vai lá pro camarim...
64
Jornalista
E o senhor quem é? Eu estou com medo...

Ator
Eu sei, está tudo revirado, sinal dos tempos. (Saem os dois)

Mulher
(Com uma menina bebê nos braços) Eu quero hipotecar o futuro da minha filha! Vendo o bebê em
casamento, que vale dez ações.

Homem
Eu vendo a minha tia...
Um pouco usada, mas tem serventia...

Homem
Eu sou ex-marido separado,
Vendo a ex-mulher em bom estado.

Homem
Vendo relíquias de família:
Os cabelos de minha mãe, morta no parto.
Quem compra? Cabelo de mãe...

Homem
Eu não sou ninguém, sou interpósita persona: em nome do escondido, quero comprar.

Homem
Isso é pecado!
É difícil saber o que é pecado, e o que não é.
Chegou a hora do perdão, vamos tudo perdoar. Vamos passar por cima, vamos fazer vista grossa.

VISTA GROSSA

É tamanho o nosso júbilo, transborda a nossa fé com tanto amor


que dá lírios no deserto, multiplicam-se os rebanhos, Senhor
nossos vales como vestem-se de espigas, os janeiros têm frescor
já se atulham os celeiros, ejaculam as jazidas, Senhor

As esposas são fecundas qual videiras


no salão da nossa casa
onde nada mais há de faltar

Nossos filhos serão fortes como o cedro é nas alturas sem rival
Nossas filhas, esculturas que ornamentam o palácio real.

65
XII - ATÉ DEUS FAZ VISTA GROSSA

(Na igreja, o bispo sentado diante da parede na qual está uma imagem do Cristo em ouro. Ele acaba de
se levantar da cama)

Bispo
Que olhos lindos você tem, meu Jesus Cristo. São de esmeralda. Teu corpo é de ouro puro, nem sei
quantos quilates. Muitos! E nem mesmo esta relíquia, esta obra-prima, consegue restaurar a ordem, o
respeito! O quê? O que foi que você disse? Eu sei, é uma febre, uma peste que tomou conta da cidade.
Todos têm o coração envenenado. Dinheiro. Só dinheiro! Tudo se transforma em dinheiro e o dinheiro
se transforma em tudo! O quê? O que foi que você disse? Eu sei, eu sei que tenho que castigar esses
infiéis! Tenho que dar penitências cada vez mais terríveis. Eu sou capaz de tudo pelo bem do próximo!
Eu tenho que imaginar alguma coisa drástica, porque aqueles velhos métodos de mandar rezar ave-
marias, credos e constrições, isso já não basta. O coração da humanidade endureceu! (Batem à porta) O
quê? Ah, pensei que fosse você. (Pára à porta) Quem é? (Entra a empregada nova).

Empregada
Eu sou a empregada nova.

Bispo
(Severo) Então vai ter que aprender os hábitos da casa. Primeiro, quando me levanto converso com ele:
não me interrompa, porque é bem cedo de manhã que ele me dá as instruções para o resto do dia.

Empregada
E depois um café com brioches.

Bispo
Como é que você sabe?

Empregada
Eu trabalhei com o Cônego de La Rochelle. E são todos iguais!

Bispo
Eu sou diferente: sou o bispo de Saint Malo!

Empregada
É parecido: todos querem absolver! O que mais padre gosta de fazer, é isso: absolver! Tome aqui o seu
café que está quentinho. E o brioche com manteiga.

Bispo
Cada qual tem o seu feitio: antes do café da manhã, gosto de absolver pelo menos um pecador!

Empregada
Tome o café, que está quentinho.

Bispo
Não, filha. Primeiro a confissão. Preciso absolver! Depois o café. Depois, e antes do almoço, pelo
menos mais dez ou doze penitências, dez ou doze perdões. As absolvições da tarde ficam a critério de
Deus! Mas depois que se deita o sol, não absolvo mais ninguém até de madrugada!
66
Empregada
Pois fique satisfeito porque aí fora está uma mulher daquelas a quem não se deve atirar a primeira pedra!

Bispo
Manda entrar! (Coloca-se no confessionário, sai a empregada ao mesmo tempo em que entra a
prostituta) Filha, já sei de cor os teus pecados! Ajoelha e te arrepende. Vou te dar a absolvição. Mas
primeiro te arrepende!

Prostituta
Impossível, pai.

Bispo
Por que?

Prostituta
Porque a todos os meus pecados, juntei pecado maior!

Bispo
Também você?

Prostituta
Comprei ações, meu pai. Roubei, pra comprar ações. O que antes eu fazia com pena, agora faço
contente! Compro ações! Eu já não durmo, trabalho, já não como, já não mais nada: eu compro. Pior:
quero comprar! Me explicaram tudo: agora eu entendo de economia! É um jogo. É fácil ganhar. O Rio
de Janeiro é o negócio do século! Meu pai me perdoa. (Vai saindo)

Bispo
Perdôo, sim, minha filha, mas preciso do teu arrependimento.

Prostituta
Não é possível... eu estou feliz... (Aparecem outras prostitutas na porta)

Prostituta
Não adianta... ele não pode fazer nada... (As prostitutas param ao longe e ficam olhando, entram
homens e mulheres e se aproximam uns mais, outros menos. O bispo fica atônito)

Prostituta
É... nós estamos contentes...

Homem
Padre, eu quero me confessar... mesmo sabendo que não posso ser absolvido... quero me confessar...

Homem
Eu roubei um porco e comprei ações...

Homem
Joguei cartas a noite inteira... e tinha um baralho no bolso... joguei, ganhei, comprei ações... e quero
ganhar mais. Vamos jogar! (Mostra vários baralhos)

67
Homem
Eu!

Mulher
Eu também!!!

Homem
Também eu!

Bispo
E vocês não se arrependem?

Homem
Nada, nada, nada. Estamos felizes. (Falam com voz baixa, respeitosa)

Bispo
Eu quero perdoar...

Homem
É impossível... Estamos contentes...

Bispo
Então não se aproximem... (Faz uma barricada em torno do confessionário) Não se aproximem! Com
este sorriso no rosto, eu não posso absolver ninguém! Fiquem tristes! Estou pronto a absolver todo
mundo... na tristeza! Assim não, não com esse riso... (No meio da multidão aparece Duguay Trouin)

Duguay Trouin
Mea culpa!

Bispo
René?

Duguay Trouin
Mea máxima culpa. Todos estes pecados, flutuando nesta igreja, pecados sem perdão, escorrendo pelas
paredes, todos pecados, são minha culpa.

Bispo
De joelhos René.

Duguay Trouin
Fui eu que despertei o mal que estava escondido nos corações, enterrado! Essa volúpia, voracidade, esse
prazer, mea culpa. Essa mulher que antes sofria, agora ri! É paga com ações, não se arrepende! O
avarento que enterrava moedas no chão de pedra da cozinha, foi redimido: as ações estão no banco, bem
seguras.

Bispo
Meu filho... ações... isso é o quê?

Duguay Trouin
Coisa material, como a virtude e o vício, o bem e o mal. É como o ouro, o dinheiro.
68
Bispo
Meu filho, quanto vale uma ação?

Duguay Trouin
Poe exemplo, vosso sapato.

Bispo
Sandália.

Duguay Trouin
Não vale nada. Vale uma açãozinha, das bem menores. Porém uma vez invadido o Rio de Janeiro,
aquela pequena ação, minúscula, em que teria se transformado?

Bispo
Diga, não sei.

Duguay Trouin
Num vistoso par de sapatos, com saltos bem altos, fivelas douradas, cinzeladas pela mão do melhor
ourives...

Bispo
São isso as ações?

Duguay Trouin
Isso e muito mais: por exemplo, essa batina...

Bispo
Presente de uma irmã.

Duguay Trouin
Invadido o Rio de Janeiro, essa batina de algodão, se transformará em seda. Em lugar desta vela,
invadido o Rio, teremos cinco velas, 50, 500 ou 500 mil! Todas ardendo com devoção pela glória do
Senhor!

Bispo
Eu acho que compreendo... ações... então era isso...?

Duguay Trouin
Era isso e bem mais... Em lugar deste altar, teremos outro maior, mais belo e reluzente, em lugar da
capela uma igreja, em lugar da igreja, uma Catedral! (Silêncio) Em lugar do Bispo, um Papa. (Silêncio)
O senhor me perguntou, eu respondi: assim são as ações, assim é o seu poder! As ações se transformam
em tudo, mas primeiro é preciso transformar tudo em ações!

Bispo
Tudo?

Duguay Trouin
(Levantando pela primeira vez os olhos em direção ao Cristo em ouro que faísca seus olhos de
esmeralda) Em lugar da sua Imagem... teremos Deus! (Com grande suavidade, o bispo retira a imagem
69
de Cristo da parede e com ela nos braços olha ternamente)

Bispo
Em lugar da imagem... eu quero Deus... (Entrega a imagem sorrindo. Respeitosamente Duguay Trouin
segura a imagem nos braços e vai saindo lentamente da igreja acompanhado pelos vultos dos homens e
das mulheres que de longe seguiram a cena. Ao fundo, bem baixinho, ouve-se a música "Até Deus faz
vista grossa"; o bispo levita e sobe aos céus escoltado por 4 anjinhos que descem do céu para
acompanhá-lo)

Reprise - VISTA GROSSA

É tamanho o nosso júbilo, transborda a nossa fé com tanto amor


que dá lírios no deserto, multiplicam-se os rebanhos, Senhor
nossos vales como vestem-se de espigas, os janeiros têm frescor
já se atulham os celeiros, ejaculam as jazidas, Senhor

As esposas são fecundas qual videiras


no salão da nossa casa
onde nada mais há de faltar

Nossos filhos serão fortes como o cedro é nas alturas sem rival
Nossas filhas, esculturas que ornamentam o palácio real.

Bêbado Maior
Falando francamente, esta cena eu não sei como é que eu deva interpretar... porque afinal, eu acho que o
que esse bispo fez é pecado... pecado brabo...

Bêbado Valentão
Eu acho que não. Pois ele não queria tirar nenhum proveito pessoal. Tudo o que ele fez foi pro bem dos
paroquianos... você ouviu direito o que ele disse no começo da cena: "eu sou capaz de tudo pelo bem do
próximo"... queria uma igreja melhor! Foi o que ele fez!

Bêbado Miúdo
A cena pra dizer a verdade tem os seus prós e os seus contras...

Bêbado Maior
Isso é uma grande verdade: trata-se de uma cena muito controvertida!

Bêbado Miúdo
Controvertida demais! Professor, o senhor pode explicar o que foi que aconteceu depois?

Professor
Depois... carregando todos os canhões, isto é, 738 e mais seis morteiros pra reforçar, cinco mil soldados
e 684 marinheiros, 17 navios cheios de munição, repletos de comida, muita cachaça francesa pra
combater o frio, a esquadra partiu. No meio do Oceano Atlântico, baixou o medo. E aí, Duguay Trouin
cantou assim:

70
CANÇÃO DO MEDO

Se a noite não tem fundo


O mar perde o valor
Opaco é o fim do mundo
Pra qualquer navegador
Que perde o Oriente
E entra em espirais
E topa pela frente
Um contingente
Que ele já deixou pra trás
Os soluços dobram tão iguais
Seus rivais, seus irmãos
Seu navio carregado de ideais
Que foram escorrendo feito grãos
As estrelas que não voltam nunca mais
E um Oceano pra lavar as mãos

71
XIII - A INVASÃO DO RIO DE JANEIRO

1.

Professor
Pão de açúcar à vista!

Duguay Trouin
Na hora que mais preciso do heroísmo, mais tenho vontade de vomitar!

Professor
Meu capitão, vamos entrar na Baía da Guanabara! Em fila indiana. Os portugueses vão atirar, estão
atirando. Aproveita o nevoeiro.

Duguay Trouin
Nós estamos vivos: por que temos que morrer? Na sua época ainda é assim? Vai continuar sempre assim
a vida inteira?

Professor
Os navios vão entrando na Baía... muitos homens vão morrendo...

Duguay Trouin
Eu quero viver! Que é que me interessa essa merda de glória?!

Professor
A gente corre na frente do medo.

Duguay Trouin
Professor, e se a gente pudesse mudar essa história...? Eu não quero brigar.

Professor
Duguay Trouin, falta pouco. Falta você entrar na Baía, falta ocupar o Rio, permitir o saqueio, incendiar
meia cidade, mandar fuzilar alguns homens, e a outros perdoar. Falta negociar. E depois voltar, ser
recebido com glórias... E depois... falta pouco... falta morrer... falta pouco...

Duguay Trouin
Eu tenho medo, Professor.

Professor
Agora não tem saída. Estamos dentro da Baía. Dê suas ordens.

Duguay Trouin
Soldados! Todo mundo na Ilha das Cobras. Desembarcar! (Fuzilaria)
(Canção da guerra)
(Soldados, corsários, homens entram e dançam a guerra)

2.

72
Preto

Don português, mandou me chamar?

Português
Negro anda cá, carrega essas pedras, vamos fazer uma trincheira!

Preto
Sim senhor, Don português.

Português
Com estes duzentos negros, a praça está bem defendida.

Preto
Você acha que está, Don Crioulo?

Preto
Vamos descansar, vamos com calma. Pra quê trabalhar, meu irmão? Sai português, entra francês, é tudo
a mesma coisa: nós vamos sempre ser escravos; encosta o corpo; tem uma cachacinha aí? Eta, solzinho
bão...

(Flash — Pau de Arara)

3.

Português
Já capturamos 50 soldados franceses. E mais este!

Francês
Você é francês?

Bocage
Eu sou Bocage, da Normandia! Quantos navios temos?

Francês
Vinte e sete.

Bocage
Quantos soldados?

Francês
Cinco mil!

Bocage
O que é que nós queremos?

Francês
Ocupar o Rio, assaltar, depois revender, voltar pra casa!

73
Carcereiro
Bocage, o Governador está chamando. (Sai Bocage)

Francês
Era espião.

(Flash — Cadeira do Dragão)

4.

João
Ô Manuel: o Governador mandou recensear todos os portugueses válidos, em idade de serviço militar,
porque esses negros são indolentes. Vamos ter que combater nós mesmos!

Manuel
O Brasil é grande. Aqui há lugar pra todos! Os franceses que desembarquem, ocupem as terras que
quiserem, e nós vamos pras Minas Gerais, parece que lá há muito ouro.

João
Pois tens razão. Vamos pras Minas!

(Flash — Tupac-Amaru)

5.

Courserac
Capitão, os soldados estão com medo!

Duguay Trouin
Abre os tonéis de vinho e cachaça! Se lhes falta o sangue nas veias que se lhes ponha o álcool! Se a
lucidez dá medo que o porre dê coragem.

Courserac
Bem pensado, meu capitão!

(Refrão francês — Refrão português)


(Flash — Estupro + Pau de Arara)

6.

Governador
Bocage, e então?

Bocage
São 27 navios, cinco mil soldados! Querem ocupar a cidade, saquear e revender!

Governador
74
E quanto custa a informação?

Bocage
O posto de Fiscal do Imposto de Renda.

Governador
Está nomeado. Hoje é o 7º francês que eu nomeio Fiscal do Imposto de Renda.

(Flash — Cadeira do Dragão + Tupac-Amaru)

7.

José
Ô Joaquim: parece que chegou o momento de ter vergonha na cara!

Joaquim
Era só o que faltava!

José
Temos que defender esta terra!

Joaquim
Eu cá não fico, volto lá pra Trás-dos-Montes.

José
Se não a defende tu, quem é que vai defender?

Joaquim
Os pretos.

José
Mas eles querem voltar pra África.

Joaquim
Os índios!

José
Já matamos quase todos!

Joaquim
Eu cá defendo o que é meu!

José
E a nossa terra, a pátria, o nosso Rei?

Joaquim
Os Reis que se entendam entre eles! Estão sempre a mudar de camisa, e nós aqui a morrer por eles! Eu
cá defendo o que é meu! Bamos pras Minas Gerais.

75
José
Pois bamos, bamos.

(Flash — Estupro + Pau de Arara)

8.

Jesuita
Governador, estamos perdidos.

Governador
Ainda há esperança: Don Antonio Albuquerque prometeu descer com mais de 3.000 soldados.

(Flash — Mulheres carregadas pelos cabelos)

9.

Courserac
Meu Capitão: os soldados estão saqueando as casas. Estão enfurecidos, bêbados, alucinados!

Duguay Trouin
Escolhe meia dúzia, traz pro meio da praça, fuzila! Dá o exemplo! Soldado pode matar, mas roubar é
proibido: não somos piratas, somos corsários do Rei!

(Flash — Dragão, Estupro, Telefone)

10.

Jesuita
Governador, recado de Don Antonio Albuquerque!

Governador
Os soldados onde estão?

Jesuita
Quando saíram de lá eram três mil: aqui só chegou um mensageiro pedindo notícias do front. Ai Jesus,
já não há escapatória: escolha entre a morte e a rendição.

11.

Francês
É esse o Bocage, o traidor: Bocage da Normandia.

Bocage
Meu pai nasceu na Alsácia, era alemão, mudou mais vezes de pátria do que eu de camisa; minha mãe
era camponesa, mudou mais vezes de marido do que eu de cuecas; eu era rico, veio a guerra, fiquei
76
pobre, veio a guerra enriqueci, veio a guerra perdi tudo, veio a guerra me alistei, veio a guerra me
embarquei, veio a guerra quase morri, veio a guerra matei, veio a guerra, foi a guerra, já não sei mais
onde estou, e muito menos quem sou! Mudei tantas vezes de cara, já não sei qual é a minha: talvez a que
trago aqui, talvez a vossa, Capitão.

Duguay Trouin
Ficou louco... deixa ir embora. Vamos organizar o assalto. Proibido invadir as igrejas: só os capelães são
autorizados. Invadam com caridade. Marinheiros invadam casas particulares. Sem piedade!

12.

Governador
Padre, a situação está ficando preta.

Jesuita
Vamos negociar: que seja o que Deus quiser!

13.

Jesuita
Meu Capitão, ou General, Almirante, Marechal ou lá o que seja: em nome do Governador Don Castro de
Moraes, eu venho negociar!

Duguay Trouin
Primeiro quero a rendição! Senão, mando incendiar a cidade!

Jesuita
Não vai incendiar coisa nenhuma! O senhor está acostumado a brigar no mar, prender navios, levar de
volta pra Saint Malo. Mas o senhor não pode amarrar o Rio de Janeiro na pôpa de seu veleiro e levar de
volta pra França. Era isso o que eu ia dizer, estava na ponta da língua, mas como sou bom diplomata,
não digo!

Duguay Trouin
Quanto é que vocês podem pagar?

Jesuita
Na minha opinião... procurando bem... pedindo emprestado... eu acho... que talvez...

Duguay Trouin
É pouco: quero o dobro!

Jesuita
Também pode ser. E quando é que os senhores nos darão o prazer da festa de despedida? Porque aqui
não há vencedores nem vencidos, somos amigos.

Duguay Trouin
Escute: e além do combinado, precisamos também de alguns bois pros churrascos da travessia.

77
Jesuita
Quantos?

Duguay Trouin
Três vezes mais do que o senhor está pensando!

Jesuita
E vamos lhe dar também ovelhas, carneiros e cabritos.

Duguay Trouin
E uma vaquinha leiteira pro meu café da manhã.

Jesuita
Tudo o que for preciso, e muito mais.

Duguay Trouin
Eu não quero abusar, mas todo o vinho e o conhaque, foi usado pra incentivar nossos soldados. A volta,
sem beber à vossa saúde toda noite, pode ser triste.

Jesuita
Três tonéis de boa cachaça.

Courserac
(À parte) Por que serão assim tão gentis?

Duguay Trouin
(À parte) Deve ser coisa tropical...

Jesuita
E o que mais vão precisar?

Duguay Trouin
O senhor diga aí o que tem pra oferecer...

Jesuita
Cobertores, baralhos, dados, um piano, um violão, quem sabe talvez algumas negras arrumadeiras e
mesmo outras pra todo serviço.

Courserac
É demais a gentileza! Vão dando até sem pedir...

Duguay Trouin
Eu fico até meio sem jeito...

Jesuita
Não precisa agradecer! Já não se dispara um tiro! O Governador já preparou um tratado de paz, amizade
e futura colaboração! Se não estiver muito ocupado, quem sabe hoje à tarde, podia passar lá no Palácio
no fim do expediente e todos assinávamos depois de um brinde: aqui não há vencedores nem vencidos!

Duguay Trouin
78
Digamos às cinco e meia.

Jesuita
Vou avisar, bons dias. (Sai)

Courserac
Saiu melhor do que a encomenda!

Soldado
Capitão, um dos nossos navios afundou: os portugueses puseram tanta vaca lá dentro que o casco não
resistiu.

Duguay Trouin
Maldita generosidade!

(Bancarrota)
Piano bar — Blues (uma cantora negra vestida de branco, uma cantora branca vestida de negro)

14.

Arauto
O Senhor Governador Don Castro de Moraes.

Governador
(Carregado do sotaque português) Pois senhor René Duguay Trouin, pois foi assim a nossa história.
Descobrimos estes brasis que muito suor nos custou na testa e muitos calos nas mãos! Mas o pior não
lhe contei: sabia Vossa Excelência que nestes brasis havia canibais quando cá chegamos?

Duguay Trouin
Não me diga? Canibais de verdade?

Governador
Canibais em carne e osso. Com muitos dentes.

Diplomata
Infestado de canibais! Este Brasil era um canibalismo atroz.

Governador
Nos os portugueses fizemos muito pra civilizar estas paragens. Nós, aquela época, éramos muito
civilizados!

Duguay Trouin
Agora não há mais canibais?

Governador
Nenhum.

Duguay Trouin
E como foi que fizeram?
79
Governador
Primeiro, pra conquistar-lhes a confiança, demos um espelhinho a cada um. E depois, quando eles
estavam distraídos, comemos eles todos.

Duguay Trouin
Ah, sei. Então não tem mais canibal...

Governador
Não, senhor. Comemos todos! Vamos passar à mesa?

Duguay Trouin
Depende do menu...

Governador
Mesa-redonda, Sr. Marinheiro, pra assinar o tratado de paz e prosperidade.

Duguay Trouin
Ah, já estava começando a ficar com medo...

Diplomata
O documento.

Duguay Trouin
Assino, assino sim. (Assina) Mas desculpe a curiosidade. Eu ando com a pulga atrás da orelha. Nós
pedimos um resgate que já era alto, e vocês nos ofereceram o dobro e sempre cada vez mais! Como é
que se explica essa generosidade tão desmedida???

Governador
Senhor Duguay Trouin... Sr. Marinheiro... já que estamos entre amigos... porque aqui não há vencedores
nem vencidos... vamos falar bem francamente: nesta terra, mesmo em não se plantando também dá.
Peçam tudo o que quiserem, vamos sempre lhes oferecer mais... Afinal, quem é que trabalha, quem é
que paga? São os negros! Peçam o que quiserem! Aqui neste Brasil há muito negro. Eles podem
trabalhar.

Duguay Trouin
Agora ficou mais claro. Vamos embarcar...

Governador
Nem vencedores...

Duguay Trouin
Nem vencidos...

Diplomata
São os negros que pagam!

(Entram todos os personagens possíveis e se comportam como num coquetel de hoje em dia; garçons
servem bebidas e salgadinhos. As épocas se misturam)

80
Rei
Eu sempre tive uma confiança ilimitada nesse nosso corsário. Você sabia que eu dei pra ele a Espada de
Honra da Ordem de Saint Louis? Pois é, rapaz, dei! Eu sou assim: eu vou condecorando as pessoas.
Todo mundo gosta de ter uma medalhinha, é ou não é?

Madame de Montespan
Eu queria tanto me casar com ele... Mas enquanto a Rainha for viva, eu tenho que me resignar...

Dama da Corte
Um rei não pode ser bígamo assim tão abertamente...

Conde de Toulouse
Escuta: Monsieur Courserac, quanto é que rendeu essa expedição?

Courserac
Noventa e três por cento.

Capitão
Se não fosse aquele navio que os portugueses afundaram com tantas vacas e mais alguns que as
tempestades destruíram nas costas da África, teria dado mais de 500 por cento, como tinha sido previsto.

Colbert
Tem toda razão.

Rei
Olha quem está chegando: Duguay Trouin! (Aplausos) Venha de lá um abraço. Pára a música aí
embaixo. Faço questão que todos saibam que a este homem a Coroa muito deve. Graças a ele, os cofres
reais voltaram a ficar cheios. René me faz um favor: canta alguma coisa pra gente.

Duguay Trouin
Eu fico até sem jeito.
(Honrado --- canta com entusiasmo)

Rei
Explica como é que você conseguiu ganhar tanto dinheiro sendo assim tão honrado. Canta com
entusiasmo. Eu já vou andando porque já está ficando tarde.

Cardeal
Eu também... amanhã tenho que levantar cedo. A primeira missa é às cinco da manhã. Não vai ninguém.
Só umas velhinhas que já moram lá na igreja mesmo.

Rei
O problema é que a gente não pode continuar assim, invadindo os outros países tão sem
cerimoniosamente...

Colbert
Precisamos aposentar Duguay Trouin e descobrir outros métodos mais modernos...

Rei
Canta, René, canta!
81
CANÇÃO DE DUGUAY TROUIN

Tive grandes planos


Sonhos geniais
Eu já tive vinte anos
Pois agora eu tenho mais
Preparar a chalupa
Cheiro de mulher
Mamarei a vossa tropa
Europa enquanto houver

Tenho sete cores


Caldeirões de dez
Tive mil e um amores
Mijarei vosso convés
Garrafões de vinho
Almirante inglês
Se ficarem no caminho
Eu monto desta vez
Nem um pulha pra cantar as minhas glórias
Nem um louco a minha perdição
Nem as tábuas
As memórias...

Jornalista
Este coquetel é pra comemorar o quê?

Colbert
A volta triunfal de Duguay Trouin, o Conquistador do Rio de Janeiro.

Patroa
Não é nada disso. Nós estamos esperando um navio europeu que vai chegar. Vem trazendo comerciantes
desarmados. Parece que é uma moda nova: comerciar sem armas.

Colbert
Ih, é mesmo? Então eu acho que estou aqui no coquetel errado: com licença. (Sai) Oi, ai, me esperem!

Patroa
O senhor acha que isso pode dar certo?

Jornalista
Eu estou meio confuso: isso o quê? Dar certo o quê?

Patroa
Comerciar sem armas?

Jornalista
O importante, minha senhora, é o lucro!
82
Patroa
Deus queira, porque esse meu botequim, sabe, foi meu avô que fundou. Escreva no seu jornal. Ele tem
uma tradição. Depois veio a crise, mas o que a gente quer é que o Brasil ressurja das suas próprias
cinzas, não é mesmo? Escreve.

Cabisbaixa
Olha aí, olha aí, os homens estão chegando.

Gorda
Não deram tempo nem de eu me arrumar.

Tísica
Eu já vi. Tem um que é meio louro.

Cabisbaixa
Pois é: todos têm cara meio conhecida.

(Entram os quatro comerciantes desarmados: são os mesmos atores que interpretam os papéis de Rei,
Colbert, Cardeal e Pontchartrain. Um êxtase de boas noites)

Rei
Nós estamos completamente desarmados por essa recepção tão convival.

Gorda
Que simpático!

Colbert
Nossa única arma são estes papéis.

Rei
Contratos. Nós somos de paz.

Pontchartrain
Mas não se assustem: podemos emprestar dinheiro.

Colbert
Quanto é que vocês precisam?

Rei
Emprestamos tudo o que vocês quiserem...

Cardeal
Não façam cerimônia. São os negros que pagam!

Rei
Quanto? Queremos paz.

Cardeal
10, 50, 100 bilhões?
83
Professor
Queríamos contar um a história, contamos! Será verdade? Será mentira?

84