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Análise Psicol6glca (í989), 4 (Vil): 533-536

Saudade Normal e Patológica


MARIA MANUELA BRAZETTE (*)

Saudade, ((mavioso nome que tão meigo soas A boca de um português


nos lusitanos lábios», assim fala Garrett no seu Disse a palavra saudade
poema «Camões», onde nos transmite de forma Afonso Lopes Vieira, o ((poeta saudade)),
admirável as diferentes tonalidades da saudade, como se chamou a si mesmo, deixou-nos esta
desde aquelas que nós podemos chamar singela quadra:
normais, até às formas depressivas. Nasceu logo portuguesa
De facto, ninguém melhor do que os poetas E portuguesa ficou
para falar de um sentimento tão complexo e Foi poeta concerteza
muitas vezes tão cheio de ambivalência. Aquele que a inventou
Já D. Duarte, no seu «Leal Conselheiro», se Teixeira de Pascoais, o poeta do saudosismo,
refere saudade como «um sentido do coração diviniza a saudade e escreve: «A saudade é
que vem da sensualidade e não da razão», e nossa, como Apolo é da Grécia e Jeová da
Duarte Nunes de Leão em 1606, deu-nos uma Palestina. Se a lembrança é a sua alma, o
definição simples e concisa: «saudade é desejo, a esperança é a carne e o sangue vivo
lembrança de alguma coisa com desejo dela». do seu corpo. Tem uma face voltada para o
o desejo que dinamiza a saudade e a afasta passado e outra voltada para o Futuro. A
das cores negras da depressão. sombra do que passou amanhece nos seus
Nos últimos tempos tem-se confundido olhos: é a luz do novo dia...)).
depressão e saudade, que deixou de ser o São estes maravilhosos VOOS místicos que
((maviosonome» para se tornar em palavra do tornam a saudade numa subtileza de espírito,
passado, canto de poetas ultrapassados, depois num sistema filosófico - o Saudosismo
perigosa, porque estagnante, retrograda, - que teve como principal obreiro Leonardo
bolorenta. Na actualidade, notamos um Coimbra, e, afinal a afastaram da sua original
movimento ainda vago e envergonhado para simplicidade, da relação com o outro, que o
reabilitar a saudade, sem as teorias grandiosas Povo com tanta singileza e autenticidade sabe
e exclusivistas da lusitaneidade deste sentimento definir:
universal; embora não se possa negar que os
portugueses, e em especial os Poetas e o Povo, Quem disser que a vida acaba
muito tenham falado e escrito sobre a saudade. Digo-lhes eu que nunca amou
Quem morre e deixa saudades
Augusto Gil cantou assim: Nunca a vida abandonou
Luar de Janeiro
Fria claridade Saudade e amor estão sempre ligados, como
A luz dele foi talvez disse D. Francisco Manuel de Melo: «sem amor
Que primeiro, não pode haver saudade)).
Mas interessa ainda ouvir a voz inspirada de
(*) Assistente hospitalar do Hospital Miguel Leonardo Coimbra a propósito da estátua de
Bombarda. Soares dos Reis - O Desterrado.

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«As árvores da nossa saudade estão diante de é aqui que tem lugar o conceito poético de
nós em vivo corpo de lembrança, as aves de «morrer de saudades)) como diz Camões:
nossas recordações procuram seus ramos e voam «Porque não morre já quem vive ausente»
de novo a um misterioso rumo, e, cismático,
profundo como os abismos, o homem sonha em Mas também numa singela redondilha, nos
degredo... I? a Última imagem que desperta, é transmite, como amor e saudade estão sempre
cada um de nós que se viu de pronto a si mesmo ligados:
e no fundo da alma, como se, ao debruçar-se Este tempo vão,
na cisterna interior, a água inquieta o refletisse Esta vida escassa,
mais vivo e real; é a própria estátua da saudade Pera todos passa,
- o Desterrado de Soares dos Reis». Só para mim não.
Os dias se vão
Toda a vivência saudosista para Leonardo Sem ver esse dia,
Coimbra, impiica uma dupla série de elementos: Quando vos veria.
negativos - dor, perda e ausência - e positivos Vede esta mudança
- desejo, luta e esperança -, que traduziu pelo Se está bem perdida,
binómio lembrança e desejo ou lembrança Em tão curta vida
activa; e escreve Leonardo Coimbra: Tão longa esperança!
Se este bem se alcança,
«Por todos os cantos do Espaço, por todos Tudo sofreria,
os caminhos da Terra e por todas as estradas Quando vos veria.
do Céu, fomos lançando fios de desejo e sonho Saudosa dor,
que a vida vai partindo em seu desajeitado Eu bem vos entendo
caminhar, e em nós fica a lembrança desses Mas não me defendo
sonhos em corpo espectral de saudade». Porque ofendo o Amor.
Se fosseis maior
A saudade é um sentimento que revela a Em maior valia
capacidade %deinteriorizar os objectos e os Vos estimaria.
evocar nos seus aspectos positivos, tal como diz Minha saudade,
Camões no célebre soneto «Mudam-se os Caro penhor meu,
tempos mudam-se as vontades»: A quem direi eu
Tamanha verdade?
Continuamente vemos novidades, Na minha vontade
Diferentes em tudo da esperança; De noite e de dia
Do mal ficam as mágoas na lembrança, Sempre vos veria
E do bem, se algum houve, as saudades. A saudade pode aproximar-se da depressão
A saudade é, como já dissemos, um tornando difícil o investimento de novos
sentimento de quem ama, de quem possui um objectos. O sujeito mantêm-se ligado ao objecto
bom objecto interno e foi capaz de se separar das suas saudades, num gosto quase masoquista,
do seu objecto de amor, para no espaço da apaziguando assim a culpa que um investimento
ilusão, no espaço transicional, no sentido de ambivalente provoca, há amor consciente e ódio
Winnicott, criar um sentimento que não o deixa inconsciente. Aqui a saudade toma as
ficar só, no vazio depressivo, e o impulsiona a tonalidades do luto depressivo. I? o «delicioso
procurar rever o objecto das suas saudades. pungir do acerbo espinho» e o ((gosto amargo
6 esta a saudade «normal», desejável sem a de infelizes» de que fala Garrett, ou como diz
qual não pode haver um bom desenvolvimento o Povo:
afectivo. Não parece que o «longe da vista, Saudade palavra doce
longe do coração)), seja um estado em que Que traduz tanto amargor
possamos dizer que haja um normal Saudade é como se fosse
investimento amoroso. Espinhos cheirando a flor.
As saudades patológicas são sempre as Camões mostra-nos como esta saudade
manifestamente ambivalentes, em que o objecto ambivalente não permite investir o mundo
foi interiorizado com acentuados aspectos exterior:
positivos e negativos que entram em conflito, «Sem ti tudo me enoja e aborrece».

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E ainda: Alegres campos, verdes arvoredos
Claras e frescas águas de cristal
Se de saudades Que em vós vos debuxais ao natural
Morrerei ou não Discorrendo da altura dos rochedos;
Meus olhos dirão Silvestres montes, ásperos penedos,
De mim a verdade Compostos em concerto desigual:
Por eles me atrevo Sabem que, sem licença de meu mal,
A lançar as águas Já não podeis fazer meus olhos iedos.
Que mostrem as mágoas
Que nesta alma levo E, pois já não vedes como vistes,
Não me alegrem verduras deleitosas
As águas que em vão Nem águas que correndo alegres vêm
Me fazem chorar,
Se elas são do mar, Semearei em vós lembranças tristes
Estas de amor são Regando-vos com lágrimas saudosas
Por elas relevo E nascerão saudades de meu bem.
Todas minhas mágoas;
Que, se força de águas Já no campo da depressão, quase sem
Me leva, eu as levo saudade, só com as ((memórias melhores de
Todas me entristecem outra idade)), temos o belo soneto de Antero de
Todas são salgadas; Quental, em que se vislumbra uma ténue
Porém as choradas saudade, e aparece claramente uma enorme
Doces me parecem. depressão:
Correi doces águas
Que, se em vós me enlevo Chamei em volta do meu frio leito
Não doem as mágoas As memórias melhores de outra idade
Que no peito levo! Formas vagas que as noites com piedade,
Se inclinam, a espreitar sobre o meu peito
E nesta saudade ambivalente a culpa é
E disse-lhes: No mundo imenso e estreito
aliviada pelas lágrimas: «as choradas doces me Valia a pena, acaso, em ansiedade
parecem)) e «não doem as mágoas que no peito Ter nascido? dizei-m’o com verdade,
levo)), diz Camões. Pobres memórias que eu ao seio estreito...
Há ainda formas de saudade que se Mas elas perturbaram-se coitadas!
aproximam do delírio, ou mais frequentemente E empalideceram contristadas
da ilusão. O desejo de ver o objecto das Ainda a mais feliz, a mais serena
saudades pode criá-lo alucinatoriamente ou E cada uma delas, lentamente,
ilusoriamente, é o lugar do sonho, como no Com um sorriso mórbido, pungente
Me respondeu: - Não, não valia a pena!
soneto de Camões:
Só quem ama pode sentir saudades, sejam
Quando de minhas mágoas a comprida
Maginação os olhos me adormece, elas doces saudades feitas de elementos
Em sonhos aquela alma me aparece positivos, cheias de desejo, deixando o sujeito
Que para mim foi sonho nesta vida livre para procurar e investir outros objectos,
Lá niia saudade, onde estendida sejam saudades tristes, ambivalentes, obsessivas,
A vista pelo campo desfalece, dificultando o investimento de outros objectos
Corro pera ela; e ela então parece e até do mesmo objecto, que pode ser bom e
Que mais de mim se alonga, compelida idealizado quando afastado e mau quando
Brado: - Não me fujais, sombra benina! presente ou vice-versa; sejam até as saudades que
Ela, os olhos em mim c’um brando pejo, levam a realizações alucinatórias do desejo de
Como quem diz que já não pode ser,
ver o objecto e as que conduzem ilusão e ao
Torna a fugir-me; e eu gritando - Dina... sonho.
Antes que diga: mene, acordo e vejo
Que nem um breve engano posso ter. Há vários graus de depressão em que ainda
há saudade, portanto ligação ao objecto, mas na
Pode a saudade tornar-se uma ideia obsessiva, depressão melancólica com desinvestimento do
e, tudo dentro e fora do sujeito lhe trazer a selfe dos objectos não pode haver saudade.
lembrança saudosa do objecto, como no soneto Saudade e desejo estão sempre ligados, daí
de Camões: não haver saudade sem amor, e se quem ama

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perde sempre pequenas ou grandes coisas, se não Botelho, A. & Teixeira, A. B. (1986). Filosofia da
há relação amorosa viva sem ganhos e sem Saudade. Colecção Pensamento Português. Lisboa:
perdas, também não h á relação amorosa Imprensa Nacional-Casa da moeda.
dinâmica sem saudades. Brazette, M. M. & Cortesão, E. L.
Não se esquece quem se ama, e os poetas do (1985).Contribuiçãopara o estudo psicanalítico da
saudade. I1 Congresso de Psiquiatria de Língua
amor, do amor autêntico, profundo, com raíz Portuguesa. Porto, 6-11 de Junho de 1985.
n o instinto, mas c o m a capacidade de Camões, L. de (1980).Lírica Completa. Biblioteca de
interiorizar os bons objectos no sentido de Autores Portugueses. Lisboa: Imprensa Nacional-
Melanie iüein e de criar o espaço transicional -Casa da Moeda.
no sentido de Winnicott, são também poetas da Cortesão, E. L. (1985). Relação de objecto, OS
saudade. processos de projecção e identificação e as teorias
O amor é a chama, a saudade é o «suave de D. Winnicott. Perspectivas teóricas e clínicas.
fumo d o fogo d o amor» como disse D. Revista de Psicanálise, n02.
Francisco Manuel de Melo. Cortesão, J. (1980).O que o Povo canta em Portugal.
Sintetizemos o conceito de saudade normal, Obras Com?letas, vol. XXVIII. Lisboa: Livros
essa doce presença-ausente e patológica, essa Horizonte.
Costa Freitas, M. B. da. O tema da Saudade no
amarga e dolorosa lembrança, criando para este
pensamento criacionista de Leonardo
fim um soneto: Coimbra,Itinerarium, Ano XXIV, 11'117. Braga.
fi bom sentir saudades e sonhar
Que o sonho é luz e estrada desejada
Quem não encontra espaço onde poisar RESUMO
Já nem sabe voar... amar... nem nada
Saudade-lembrança e desejo; presença-ausente,
Saudade.. esperança de um profundo olhar
Desejo ardente, sonho de acordada sentimento revelador do amor As pessoas e coisas
Dor que nos canta versos de embalar perdidas ou afastadas que acabam por viver na
Lenda velhinha, qual moura encantada memória e no sentir de quem as ama, como na
quadra popular:
A saudade que chora, é que é mais triste
A que se encolhe ao canto, a que desiste «Quem disser que a vida acaba
Da esperança, d o desejo e d a verdade Digo-lhes eu que nunca amou
Quem morre e deixa saudades
A que inquieta, queima e transfigura Nunca a vida abandonou))
Com um ódio escondido e não ternura
Lembrança dolorida e não saudade. Sentimento salutar, índice de requintada
sensibilidade e de um normal desenvolvimento
afectivo, pode tornar-se patológico, dificultar o
BIBLIOGRAFIA investimento de novos objectos e aproximar-se da
depressão, num «gosto amargo de infelizes)) ou no
Garrett, A. (1858). Camões. Lisboa. ((delicioso pungir de acerbo espinho)) do poema de
Quentai, A de (1890). Sonetos Completos. Porto: Garrett, ou como diz Camões: «Sem ti, tudo me enoja
Livraria Portuense. e aborrece)).

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