Você está na página 1de 11

Página 1 de 11

TRADUÇÃO

20 de agosto de 2018
À
ASSOCIAÇÃO INTERNACIONAL DO MINISTÉRIO PÚBLICO – IAP
Sr. Gerhard Jarosch, Presidente
Sr. Han Moraal, Secretário-Geral
Sr. Sabin Ouellet, Presidente do Comitê de Premiação

O propósito desta carta é de informar a IAP acerca de fatos notórios e expressar meu
desacordo e desapontamento com a indicação de Procuradores da República da Força-Tarefa
da Operação Lavajato para o prêmio anual Special Achievement Award com os fundamentos
a seguir apresentados. Tomo esta iniciativa na condição de membro individual da IAP, como
Subprocurador-Geral da República recentemente aposentado, expressando a voz de inúmeros
colegas que têm pensamento semelhante, e como membro pleno da Associação Nacional dos
Procuradores da República (ANPR), membro organizacional da IAP que propôs a tão
prestigiada premiação.

1. Também tenho em mente o melhor interesse da IAP. Ao conceder esse prêmio a uma
operação extremamente controvertida, a IAP legitima e associa seu prestígio a uma
estratégia que vem causando irreparáveis danos aos direitos de defesa e à presunção
constitucional de inocência de indivíduos que respondem perante um judiciário
notoriamente hostil – e isto num momento em que, nacional e internacionalmente,
fica cada vez mais claro que a Lavajato se desviou no exercício de abuso de poder e
criminalização da Política, razão pela qual perde sua credibilidade na opinião pública
brasileira, a despeito da intensa campanha midiática. Em segundo lugar, o prêmio
influenciará inevitavelmente as eleições gerais previstas para o próximo mês de
outubro porque sua outorga será habilmente explorada, quer o ex-Presidente Luís
Inácio Lula da Silva, ora encarcerado, se apresente como candidato ou seu partido
indique outro nome para substituí-lo. Estas considerações, conforme será
demonstrado nas páginas seguintes em seus argumentos essenciais, não justificam tão
importante prêmio e não honram outros colegas contemplados por seus esforços em
anos anteriores, porque os premiados não oferecem um exemplo a encorajar a luta
contra o crime e a corrupção segundo padrões do estado de Direito e do devido
processo legal. Finalmente, o prêmio não honra importantes Objetivos estatutários da
IAP, quais sejam:
- A persecução efetiva, leal, imparcial e eficiente de atos delituosos; e
- A observância de altos padrões e princípios éticos na administração da Justiça.

2. É inquestionável que a Operação Lavajato desvendou um imenso escândalo de


corrupção envolvendo a empresa estatal Petrobras e que a corrupção
reconhecidamente tem sido um fenômeno endêmico e estrutural no sistema
econômico e político brasileiro, muito antes que a referida operação começasse. Não
obstante, com o passar do tempo, a grande imprensa, o Judiciário, o Congresso
Nacional e mesmo setores do Ministério Público Federal (MPF) passaram a ser
Página 2 de 11

instrumentalizados para criminalizar a política em geral e um partido político em


particular. Um dos pontos altos desse que vem sendo reconhecido como um golpe de
estado midiático-judiciário-parlamentar – atualmente muito comum na América Latina
-, foi a remoção ilegal e inconstitucional da Presidente Dilma Roussef em 2016, sem
qualquer acusação criminal e mediante um simulacro de infrações político-
administrativas relativas a fatos amplamente praticados por outros chefes de estado,
antes e depois de seus mandatos. Na verdade, o golpe de estado começou no dia
seguinte ao anúncio oficial da reeleição de Dilma Roussef com mais de 54 milhões de
votos, contrariando as expectativas do mercado financeiro e da mídia de propriedade
fortemente concentrada, e ainda não se esgotou, segundo alguns analistas políticos.

3. Com o passar do tempo, a Operação Lavajato desdobrou-se em dezenas de ações


policiais espetaculares e pirotécnicas, caracterizadas pela intensa exposição pública da
imagem, da dignidade e da privacidade dos suspeitos, inclusive o conteúdo seletivo de
escutas telefônicas judicialmente autorizadas, mas que deveriam ser preservadas da
ampla publicidade segundo os ditames da lei. Autoridades da lei e da ordem, inclusive
as pessoas que estão a ponto de ser premiadas pela IAP, não impediram a publicidade
nem mesmo da interceptação ilegal de conversas telefônicas tendo a Presidente da
República como um dos interlocutores, extraída num momento em que a autorização
judicial já tinha cessado, e cientes de que a interceptação telefônica da Presidente
depende de autorização do Supremo Tribunal Federal. Essa publicidade incendiou a
opinião pública e, habilmente explorada, precipitou a derrubada da Presidente
democraticamente eleita. Olhando retrospectivamente, não deve surpreender que
nem o Juiz Federal, nem os Procuradores da República, nem a Polícia Federal sofreram
qualquer sanção disciplinar, muito menos criminal da parte de seus respectivos órgãos
de supervisão.

4. Direitos da defesa tais como o princípio da legalidade, contraditório, a presunção de


inocência, o devido processo legal de acordo com a Constituição, a privacidade do
acusado e de sua família e o princípio do juiz natural são sistematicamente violados
pelos Procuradores da República membros da Força-Tarefa e pelo Juiz Federal Sérgio
Moro, em cujo juízo em Curitiba tramita a maioria das ações penais da operação, a
despeito de, em várias delas, haver sérias objeções de competência, a exemplo
daquela em que se acha condenado o ex-Presidente Lula, por se referir a fatos
ocorridos no estado de São Paulo, os quais, reconhecidamente, não guardavam
qualquer relação de conexão com os fatos alvo da Operação Lavajato.

5. No começo da persecução penal contra o ex-Presidente Luís Inácio Lula da Silva, o juiz
federal nominado, atendendo a requerimento da Força-Tarefa da Lavajato,
determinou a condução coercitiva do acusado com escolta policial, retirando-o de sua
residência para interrogatório, evidentemente cientificando os principais veículos de
comunicação sobre a realização do ato. Essa medida constrangedora não é prevista
para o acusado devido à proibição constitucional de autoincriminação (CR art. 5º LXIII,
Convenção Americana dos Direitos Humanos Artigo 8, 2, g), e só é permitida em
relação a testemunhas, à vítima e a peritos, desde que não compareçam ao tribunal na
Página 3 de 11

data marcada sem justificativa razoável (Código de Processo Penal arts. 411 § 7º, 201 §
1º, 278, 535, 218 e 455 § 1º).

6. Prisões provisórias (algumas vezes tendo durado mais de dois anos) de executivos e
CEOs das empresas envolvidas têm sido amplamente usadas para forçar delações
premiadas, especialmente para a incriminação de membros de maior destaque do
Partido dos Trabalhadores e do ex-Presidente Lula. Embora a prisão para forçar a
delação não seja uma hipótese de prisão prevista na legislação aplicável, ela tem
repetidamente contado com o beneplácito do Tribunal Regional Federal da 4ª Região
(TRF-4) e mesmo dos tribunais superiores. Os tribunais revisionais temem o Juiz Sérgio
Moro devido à popularidade que adquiriu como juiz-justiceiro. A verdade não é o que
importa numa delação, e sim a incriminação de indivíduos que a equipe da Lavajato já
estabeleceu previamente como culpados. E se o suspeito ou acusado em questão se
recusa a incriminar os alvos pretendidos, mesmo a despeito de prisão, ou se ele
reconsidera suas declarações alegando que as prestara sob pressão, ele termina sendo
condenado a penas desproporcionalmente longas a fim de desencorajar outros a
tomarem a mesma atitude. O quadro bilíngue abaixo, embora não tenha caráter
oficial, baseia-se em fontes abertas e mostra um dentre muitos exemplos de como
uma delação premiada é manejada no âmbito da Lavajato.

7. A despeito da intensa campanha dos meios de comunicação contra o ex-Presidente


Lula, alimentada por frequentes aparições e entrevistas de Daltan Dallagnol, Carlos
Fernando dos Santos Lima e outros Procuradores da República, e do Juiz Federal Sérgio
Moro, que discute abertamente detalhes do caso em público, Lula permanece o
favorito dos eleitores em pesquisas de opinião para o cargo de Presidente da
República, situando-se entre 30 e 35%, para o grande desespero dos candidatos
mainstream que estão em aberta campanha, enquanto Lula está proibido até mesmo
Página 4 de 11

de dar entrevistas. Este dado parece contradizer um outro, segundo o qual pelo menos
55% da população pretende votar em candidatos não envolvidos em acusações de
corrupção. Mas, por outro lado, uma maioria significativa da população, mesmo entre
aqueles que não apoiam politicamente Lula ou seu partido, acredita que ele é inocente
e não teve um julgamento justo. Todos esses dados condizem com a baixíssima
credibilidade do Judiciário nestes dias: de acordo com a mais recente edição de uma
tradicional pesquisa conduzida pelo Instituto MDA a pedido da Confederação Nacional
dos Transportes (CNT) sobre a credibilidade das instituições, quase 90% da população
suspeita da imparcialidade do Judiciário. Mais precisamente, 55,7% desaprovam seu
desempenho, 89,3% não confiam e 90,3% considera que ele não trata todos
igualmente1.

8. O livro Comentários a uma sentença anunciada [em inglês: Comments on a Notorious


Verdict: The Trial of Lula]2, contém artigos redigidos por mais de 200 autores
analisando tecnicamente o chamado “processo do triplex”, em que Lula foi
condenado, bem como sua sentença. Mas a sentença fala por si, mesmo abstraindo-se
das provas. As premissas não conduzem às conclusões. Falta competência do juízo
processante, não há materialidade nem autoria. Em síntese, o Juiz Federal da 13ª Vara
em Curitiba não tem competência sobre a suposta corrupção consistente na doação do
apartamento tríplex a Lula no balneário de Guarujá, situado no estado de São Paulo, a
menos que esse fato tivesse alguma conexão com os casos de corrupção da Petrobras,
a companhia petrolífera estatal objeto da Operação Lavajato, o que o próprio juiz
processante reconheceu que não tem. Em segundo lugar, não há materialidade, uma
vez que o apartamento nunca deixou a esfera do patrimônio do suposto autor da
corrupção ativa, quer de fato ou de direito. E, em terceiro lugar, não há autor, uma vez
que nenhum ato do ex-Presidente Lula ou de sua falecida esposa, muito menos algum
documento ou outro tipo de prova permite a conclusão de que o imóvel alguma vez
pertenceu ou esteve na posse do acusado.

9. O caráter político da prisão de Lula graças aos “esforços” da Força-Tarefa da Lavajato


prestes a ser honrada pelo prestigioso prêmio Special Achievement Award da IAP é tão
evidente, que numerosos juristas internacionais, acadêmicos, personalidades e
estadistas levantaram suas vozes em favor de sua libertação, denunciando a injustiça
de sua condenação. Entre muitos, e em diferentes ocasiões, posso mencionar os
seguintes: Thomas Piketty, Angela Davis, Slavoj Zizek, Tarik Ali, Robert Brenner, Wendy
Brown, Michael Burawoy, Ha-Joon Chang, Noam Chomsky, John Comaroff, Eve Darian
Smith, Giovanni Dosi, Gérard Duménil, Peter Evans, Brodwyn Fischer, Marion
Fourcade, James N. Green, Michael Heinrich, Tamar Herzog, Geoffrey Hodgson, Axel

1
https://www.valor.com.br/politica/5523181/cntmda-quase-90-desconfiam-da-justica-igreja-e-mais-
confiavel, acesso em 14 ago 2018.
2
CAROL PRONER et all (orgs.). Comentários a uma sentença anunciada: o Processo Lula. Bauru: Canal
6, 2017, também grátis on-line:
https://drive.google.com/file/d/1T_TFknjaV5gVkgsGRg_bp0vlYQbmRfGO/view. Versão em inglês com
parte dos artigos do original: Comments on a Notorious Verdict: The Trial of Lula, on-line:
http://biblioteca.clacso.edu.ar/clacso/se/20180104045805/comments_on_a_notorious_verdict.pdf,
acesso em 14 ago. 2018.
Página 5 de 11

Honneth, Fredric R. Jameson, Victoria Langland, Friedrich Müller, Boaventura de Sousa


Santos, Wolfgang Streeck, totalizando 303 acadêmicos no seguinte documento:
https://lula.com.br/piketty-angela-davis-e-mais-300-intelectuais-pedem-liberdade-de-
lula/, que qualificou o processo de Lula como “kafkiano”
(https://www.revistaforum.com.br/mais-de-300-intelectuais-assinam-manifesto-pela-
libertacao-de-lula/). Também na mesma linha David Harvey e Manuel Castells
(https://www.revistaforum.com.br/david-harvey-um-dos-mais-renomados-
antropologos-do-mundo-pede-liberdade-a-lula/). E ainda antes da prisão de Lula,
durante o vergonhoso procedimento do “impeachment” contra Dilma Roussef, várias
personalidades protestaram contra o golpe de estado em curso. Entre elas, Tariq Ali,
Harry Bela Fonte, Noam Chomsky, Alan Cumming, Deborah Eisenberg, Stephen Fry,
Naomi Klein, Tom Morello, Oliver Stone, Wallace Shawn, Vivienne Westwood - num
total de 22 proeminentes indivíduos
(https://www.ocafezinho.com/2016/08/24/artistas-e-intelectuais-estrangeiros-se-
unem-contra-o-golpe-no-brasil/). Em outras oportunidades, juristas de grande
renome, como Günter Frankenberg e Wolf Paul (Universität Frankfurt), Javier Garcia
Oliva (University of Oxford), Roberta Bortone (La Sapienza, Roma) e Sylvia Calmes
Brunet (Université de Rouen), também dirigiram mensagens e/ou declarações
postulando que as autoridades judiciárias e da persecução penal brasileiras respeitem
os direitos da defesa na Operação Lavajato. O ganhador do Prêmio Nóbel da Paz
Adolfo Pérez Esquivel obteve em curto espaço de tempo 240.000 assinaturas
favoráveis à concessão do mesmo prêmio a Luís Inácio Lula da Silva em 2018.

10. Em 10 de agosto de 2018, 10 juristas estrangeiros endereçaram uma carta à


Presidente do Supremo Tribunal Federal, expressando sua preocupação acerca de
várias irregularidades verificadas na investigação e no processo do ex-Presidente Lula.
Essas preocupações, considerando a importância do Brasil no cenário internacional,
dizia a referida carta, se aguçaram pelos artifícios e métodos pouco usuais empregados
para impedir a libertação de Lula decretada por um juiz competente. Nos lamentáveis
eventos de 8 de julho de 2018, o habeas corpus concedido para a libertação do ex-
Presidente Lula foi ilegalmente descumprido, exibindo a toda a nação e às mentes
mais crédulas a escandalosa politização atual do judiciário brasileiro, que também
atinge o Ministério Público Federal. Os seguintes juristas assinaram a mensagem:
Mireille DELMAS-MARTY, Luigi FERRAJOLI, Juan GARCES, Emilio GARCIA MENDEZ,
Baltasar GARZÓN, Louis JOINET, Wolfgang KALECK, Henry LECLERC, Jean-Pierre
MIGNARD3. E agora, mais detalhes de bastidores são conhecidos, depois da longa e
rara entrevista do Diretor da Polícia Federal Rogério Galloro ao jornal conservador O
Estado de São Paulo no domingo 12 de agosto de 2018. O desembargador federal de
plantão, Rogério Favreto, do Tribunal Regional Federal da 4ª Região, concedeu o
habeas corpus para que Lula aguardasse em liberdade a solução dos recursos que
questionavam sua condenação. O Juiz Federal Sérgio Moro, encontrando-se de férias
em Portugal, ocasião em que não dispõe de jurisdição sobre seus processos, telefonou

3
A carta se acha reproduzida no seguinte endereço:
https://www.redebrasilatual.com.br/politica/2018/08/juristas-internacionais-enviam-carta-sobre-
carater-desleal-de-processo-contra-lula , acesso on 15 ago 2018.
Página 6 de 11

à Polícia Federal em Curitiba e determinou que não soltasse o prisioneiro, em explícita


desobediência a decisão de um tribunal hierarquicamente superior a ele. Uma segunda
decisão foi proferida pelo Desembargador Federal Favreto, desta feita determinando
que a polícia cumprisse a ordem de soltura no prazo de uma hora, sob pena de
medidas disciplinares e criminais. Entrementes, a Procuradora-Geral da República
Raquel Dodge, chefe do Ministério Público Federal e, como tal, em última análise, a
coordenadora da Força-Tarefa da Lavajato, telefonou ao Diretor-Geral da Polícia
Federal em Brasília, anunciando-lhe que estava ingressando com uma ação penal
contra o Desembargador Favreto no Superior Tribunal de Justiça (STJ) pelo crime de
prevaricação4, indiretamente sugerindo que também ele poderia enfrentar idêntica
acusação, caso permitisse a libertação do precioso prisioneiro. Ao mesmo tempo, em
Porto Alegre, o Desembargador Federal João Pedro Gebran Neto, relator da apelação
de Lula mas sem jurisdição sobre o habeas corpus naquele domingo durante o plantão
de seu colega, proferiu apressada decisão cancelando a decisão liberatória de seu
colega do mesmo nível hierárquico, o que constitui uma subversão do sistema
jurisdicional brasileiro, mas não chega a surpreender, depois que um juiz de 1ª
instância, de férias em Portugal, consegue retardar a decisão do desembargador de
um tribunal acima dele. E, finalmente, O Presidente do TRF-4, Desembargador Federal
Carlos Eduardo Thompson Flores, que na condição de presidente tem basicamente
apenas poderes protocolares e cerimoniais, e só profere decisões em situações muito
excepcionais (o que não era o caso), também se achou no direito de decidir
estabelecendo que, entre duas decisões de seus pares, preferia aquela ditada por um
que não tinha competência no momento. Assim, já que se falou de prevaricação, seria
apropriado se perguntar, num estado realmente regido pelo império da lei, quais
desses exatamente prevaricaram?

11. O AFFAIR TACLA DURÁN contém um reconhecimento internacional formal do


desequilíbrio que caracteriza os procedimentos da Lavajato. RODRIGO TACLA DURÁN é
um cidadão hispano-brasileiro supostamente envolvido em lavagem de dinheiro para o
dinheiro sujo da Petrobras, especialmente em favor da empresa Odebrecht.
Atendendo a requerimento da Força-Tarefa da Lavajato, o Juiz Federal Sérgio Moro
decretou sua prisão preventiva. Por se encontrar na Espanha, Tacla Durán foi posto no
alerta vermelho da INTERPOL. Ele foi então contactado pelo advogado CARLOS
ZUCOLOTTO, que mantém estreita amizade com o Juiz Moro, para oferecer-lhe as
vantagens de uma colaboração premiada, a fim de reduzir a pena que eventualmente
lhe fosse aplicada em caso de condenação. Tacla Durán, então, exibiu a Zucolotto
mensagens de texto dando conta de que o mesmo Zucolotto negociara propina com os
procuradores da equipe da Lavajato. A defesa do ex-Presidente Lula decidiu requerer a
oitiva de Tacla Durán como testemunha em seu processo, mas o Juiz Moro indeferiu
tal pedido, e justificou a rejeição do pedido diante de rede de TV, asseverando que
Tacla Durán era um criminoso, lavador de dinheiro, foragido da Justiça e, como tal, sua
palavra não merecia qualquer crédito. Nem sequer os integrantes da Força-Tarefa da
Lavajato, cientes dos fatos, tomaram medidas para ouvir Tacla Durán, a despeito de as

4
Código Penal Brasileiro (CPB), artigo 319. Retardar ou deixar de praticar, indevidamente, ato de ofício,
ou praticá-lo contra expressa disposição de lei, para satisfazer interesse ou sentimento pessoal”.
Página 7 de 11

acusações de propina envolverem um dos Procuradores da República. No final de julho


deste ano, a INTERPOL retirou o alerta vermelho que pesava sobre TACLA DURÁN com
base no Artigo 2 de sua Constituição, esclarecendo o seguinte:

“52. A Comissão reconheceu que não é seu papel avaliar os sistemas de tutela penal e judicial de
um país in abstracto, e que deve tomar suas deliberações com base em informações específicas
que lancem luz sobre se os padrões legais da INTERPOL foram ou não atendidos num caso
concreto.
53. Em seguida, a Comissão decidiu que as alegações do Requerente apresentavam dúvidas
consistentes de que a conduta do juiz encarregado do caso no Brasil poderia ter violado o Artigo
2 da Constituição da INTERPOL.
54. Com efeito, o Requerente apresentou provas facilmente verificáveis através de pesquisa em
fontes abertas, as quais confirmaram suas alegações de que o juiz publicamente referiu-se a sua
pessoa em entrevista e também, ao indeferir seu comparecimento como testemunha em outros
processos, externou opinião prévia acerca da veracidade de qualquer informação que viesse a
5
fornecer.”

Evocando a decisão da INTERPOL, o advogado espanhol de TACLA DURÁN, Sebastián


Suárez, publicou nota na qual enfatiza:

Entendemos que esta decisão deve servir de alerta ao Estado Brasileiro sobre os excessos, os
equívocos, a má qualidade das investigações e parcialidade de alguns magistrados e
procuradores responsáveis pela Lava Jato, os quais romperam os limites da ética e do Direito ao
transformar esta importante investigação em instrumento de poder e disputa política.

12. A segunda reprovação internacional à Lavajato vem do Comitê de Direitos Humanos


das Nações Unidas, em Genebra, datada de ontem, 17 agosto 2017. O Alto
Comissário para Direitos Humanos concluiu que “os fatos ... indicam a existência de
possível e irreparável violação aos direitos do requerente previstos no Artigo 25 da
Convenção”, e, portanto, como decisão provisória, “determina ao Estado-parte que
adote todas as medidas necessárias para assegurar que o requerente [Luís Inácio Lula
da Silva] possa gozar e exercer seus direitos políticos enquanto estiver preso, como
candidato às eleições presidenciais de 2018, compreendendo o acesso apropriado aos
meios de comunicação e a membros de seu partido político; assim como para não
impedir o autor de se candidatar às as eleições presidenciais de 2018, até que os
recursos pendentes contra sua condenação sejam julgados em um julgamento justo e
sua condenação se torne irrecorrível.” O Brasil está obrigado a cumprir sua obrigação
internacional, uma vez que ratificou tanto o Pacto Internacional de Direitos Civis e
Políticos das Nações Unidas quanto seus Protocolos Adicionais, mediante os quais cada
Estado-parte aceita reclamações perante o órgão de monitoramento da observância
do Pacto, a saber, o Comitê de Direitos Humanos, e a cumprir suas decisões. Seria
muito simples cumprir tal decisão. Mas o Governo brasileiro, com o apoio maciço da
imprensa mainstream e o silêncio eloquente da Procuradora-Geral da República, deu
margem a uma discussão alegando que esta não é uma resolução vinculante, mas

5
Esta é uma das matérias a respeito veiculadas na imprensa brasileira:
https://www.conjur.com.br/2018-ago-06/moro-violou-regras-internacionais-tacla-duran-
interpol?utm_source=dlvr.it&utm_medium=facebook . Este é o texto da decisão da INTERPOL:
https://www.conjur.com.br/dl/conduta-sergio-moro-tacla-duran-violou1.pdf , acesso em 15 ago 2018.
Página 8 de 11

apenas uma exortação ou recomendação, uma vez que o Comitê de Direitos Humanos
não é um tribunal. Mais uma vez, esta recusa demonstra que o principal troféu da
Força-Tarefa Lavajato é um preso político.

13. O comunicado oficial acerca da Decisão do Comitê de Direitos Humanos das Nações
Unidas se encontra em sua página eletrônica -
https://www.ohchr.org/en/NewsEvents/Pages/DisplayNews.aspx?NewsID=23464&Lan
gID=E – e seu caráter vinculante é indiscutível. Ao questionar este aspecto, o estado
brasileiro quebra o princípio básico do Direito internacional, que é o da boa-fé – pacta
sunt servanda - , consagrado no costume internacional e no artigo 26 da Convenção de
Viena sobre o Direito dos Tratados: “todo tratado obriga as partes e deve ser cumprido
por elas de boa-fé.” Considerando que a IAP é órgão consultivo do Sistema das Nações
Unidas, caso considere essa deliberação de seu Comitê de Direitos Humanos relevante
para rever a premiação, sugiro que seu Presidente consulte o Alto-Comissário das
Nações Unidas para os Direitos Humanos, caso restem dúvidas sobre seu caráter
vinculante, a fim de verificar a natureza do referido ato. Mas ainda que se conclua que
tenha mero caráter de recomendação, o que se admite apenas para argumentar,
trata-se de manifestação de um órgão internacional técnico que, mais uma vez,
testemunha sobre os padrões pouco recomendáveis de direitos humanos da Operação
Lavajato.6

14. Há poucos dias, Daltan Dallagnol, o líder da força-tarefa, concedeu entrevista à rádio
CBN, uma rede de notícias integrante das Organizações Globo, na qual comentou
recente decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) que transferiu partes do processo
da Lavajato de Curitiba para a Justiça Federal de Brasília, chegando a afirmar que o STF
enviou uma clara mensagem de leniência com a corrupção”7. Em outras palavras,
em sua visão messiânica, que em outro contexto seria considerada como abuso da
liberdade de manifestação do pensamento, somente ele e sua equipe, além do Juiz
Moro, combatem a corrupção no Brasil, não os juízes federais nem seus colegas
Procuradores da República lotados em Brasília, nem mesmo o STF. Este é apenas um
exemplo do tipo de caça às bruxas atualmente em voga no País, segundo o qual, quem
critica a Lavajato defende a corrupção. Isto é igualmente válido no âmbito interno dos
ministérios públicos e do judiciário. Seus órgãos disciplinares perseguem membros do
MP e magistrados que ousem manifestar-se seu pensamento publicamente ou até em

6
Neste exato momento, os jornais divulgam parecer do Procurador Regional da República MAURÍCIO
GERUM, que contém o primeiro posicionamento oficial do Ministério Público Federal acerca da Decisão
do Comitê de Direitos Humanos das Nações Unidas: ABERTA E ACINTOSA DESOBEDIÊNCIA, a pretexto de
que ela “precipitou-se”, em resposta a requerimento da Defesa de que Lula possa dar entrevistas da
prisão, de conformidade com a requisição das Nações Unidas:
https://noticias.uol.com.br/politica/eleicoes/2018/noticias/2018/08/20/mpf-diz-que-comite-da-onu-foi-
precipitado-em-recomendacao-sobre-lula.htm (MPF diz que comitê da ONU se precipitou ao
recomendar Lula nas eleições); https://www.brasil247.com/pt/247/poder/365908/MPF-desafia-ONU-e-
lei-brasileira-para-pedir-Lula-fora-das-eleições.htm (MPF desafia ONU e lei brasileira para pedir Lula fora
das eleições), acesso em 20 agosto 2018.
7
Áudio on-line in: http://cbn.globoradio.globo.com/media/audio/205667/ministros-do-stf-mandaram-
mensagem-de-leniencia-fa.htm , acesso em 15 ago 2018.
Página 9 de 11

caráter privado (e.g. redes de WhatsApp) 8. Por outro lado, juízes, membros do MP e
policiais filmados em demonstrações ou que fazem declarações públicas contra o ex-
Presidente Lula, ou criticam as poucas decisões dos tribunais favoráveis a indivíduos
envolvidos na Operação Lavajato não são punidos ou nem mesmo afastados de
processos relacionados à operação, como o recente caso do Procurador Regional da
República Carlos Fernando dos Santos Lima, membro da Força-Tarefa da Lavajato, ao
passo que o autor qualquer declaração, ainda que em termos comedidos,
questionando atos abusivos praticados no contexto da Lavajato, é severamente
perseguido.

15. A Associação Nacional dos Procuradores da República (ANPR), autora da proposta da


premiação à Força-Tarefa da Lavajato, e da qual sou membro, não tem legitimidade
para formular a proposta, pois a iniciativa não se insere em suas atribuições
estatutárias, ela não buscou aprovação de seus membros, e, caso os tivesse
consultado, certamente depararia com consideráveis discordâncias. Por exemplo,
quando críticas à atuação da Força-Tarefa da Lavajato eram feitas publicamente com
ataques inapropriados às condutas pessoais ou profissionais dos Procuradores da
República, a ANPR vinha a público desagravá-los e defender sua atuação. Isso
corresponde a sua função “sindical”. No entanto, a pretexto de defender a Lavajato, a
ANPR frequentemente exorbitou sua função de defender os procuradores para
abertamente criticar os acusados e seus defensores. Foi assim que, por ocasião da
prisão de Lula, a ANPR exagerou tanto em sua nota de desagravo, que motivou vários
de seus ex-presidentes (Álvaro Augusto Ribeiro Costa, Ela Wiecko V. de Castilho,
Antonio Carlos Alpino Bigonha) e 47 outros Procuradores da República dos três níveis
da carreira a dirigirem uma carta de discordância ao atual Presidente, JOSÉ
ROBALINHO CAVALCANTI, invocando princípios constitucionais aplicáveis ao Ministério
Público bem como disposições do estatuto da própria ANPR, os quais proíbem que a
instituição (e bem assim a Associação) seja usada como instrumento de disputas
políticas. A mesma mensagem também questionou se, para tão importante
declaração, o Presidente da ANPR havia consultado seus 27 delegados estaduais, ou
pelo menos os 10 membros da Diretoria, o que pôs em evidência que a referida nota
de desagravo nada mais foi que uma iniciativa individual do Presidente usando o nome
da Associação. Isto bem poderia ser o caso da moção de premiação apresentada pela
ANPR à IAP. Vale a pena refletir sobre os seguintes tópicos do documento assinado por
ex-presidentes da ANPR e outros Procuradores da República:

É relevante a Associação defender o livre exercício das atribuições funcionais dos membros do
MPF, mas é também indispensável reconhecer o direito de crítica dos movimentos sociais e dos
cidadãos em geral, o que tem baliza na Constituição. Esta é, de igual modo, uma garantia
fundamental de acusados e condenados, com ou sem trânsito em julgado de sua sentença penal
condenatória.

O compromisso maior do Ministério Público Federal é com a Justiça. Não podemos nos deixar
instrumentalizar na disputa política, vedação que se estende à ANPR nos termos do art. 4º de

8
O mesmo tem acontecido com professores universitários cada vez que criam uma disciplina que
discuta o tema “golpe de 2016” , ao invés de “impeachment”, através de iniciativas do Ministério da
Educação de legalidade discutível.
Página 10 de 11

nosso Estatuto. Causa espanto ver a ANPR alimentar a divisão da sociedade brasileira, em
momento tão delicado da vida nacional, ao repudiar a compreensível manifestação do cidadão
submetido ao cárcere, sob enorme comoção popular. É da natureza humana manifestar
indignação diante da limitação de sua liberdade. Nós profissionais da Justiça devemos receber
com serenidade essas críticas e não como motivo para acirrar os ânimos, dentro e fora da
Instituição.

16. O viés político da Lavajato se manifesta também na circunstância de que os corruptos


históricos estão todos livres, como sempre, legislando e governando o País. E a energia
e rapidez empregados em manter Lula e seus partidários no cárcere não se verificam
em relação a esses dirigentes. É certo que alguns estão denunciados, outros
investigados, mas muito poucos, se algum, estão presos ou condenados. Um em cada
três parlamentares responde a algum tipo de procedimento criminal, muitos deles
relacionados à Operação Lavajato. Este é o caso dos Presidentes das duas Casas do
Congresso Nacional. O Presidente da República está denunciado em dois processos,
seus mais próximos auxiliares e ministros também respondem a algum procedimento
criminal. Este é o grupo político que se apossou do poder depois do “impeachment”.
Roussef fora afastada do poder sob acusações de infrações políticas, sendo ainda
considerado o fato de que integrantes de seu partido político figuravam em maior
número no caso Lavajato. É sintomático verificar que nenhum desses políticos estão
presos ou em vias de sê-lo, embora a prova contra vários deles seja mais robusta do
que a supostamente reunida contra o ex-Presidente Lula. O STF não proferiu uma só
condenação dos acusados da Operação Lavajato que dispõem do privilégio do foro
privilegiado perante a mais alta Corte do País. Os poucos que estão presos e que não
pertencem aos quadros do Partido dos Trabalhadores se agrupam em três categorias:
ou eles não aceitaram nem pediram os benefícios da delação premiada; ou então,
depois de colaborarem com delações, acusando Lula e outras lideranças importantes
do PT, arrependeram-se e modificaram suas declarações para retirar as acusações; ou
são políticos de outros partidos e empresários que colaboraram mais estreitamente
com o governo até 2016.

17. Em face destas considerações, respeitosamente solicito, se possível, e em consonância


com as prescrições da IAP aplicáveis à espécie, o seguinte:

a) Que o prêmio seja cancelado, tendo em vista, a despeito das verificações


realizadas pelo Comitê de Premiação, que não lhe foi possível alcançar os fatos
aqui demonstrados, que fortemente militam em favor da recusa ou do
cancelamento do prêmio;

b) Alternativamente, que o prêmio seja suspenso e adiado para um momento


futuro, quando a maioria das ações penais em questão já tenha transitado em
julgado e sua entrega não tenha o efeito de influir em eleições programadas;

c) Que, em anos futuros, a escolha de prêmios da IAP seja precedida de verificações


mais aprofundadas, seguindo um procedimento mais transparente, que permita
algum tipo sumário de impugnação por membros da IAP, e que os contemplados
sejam anunciados antes da realização do Congresso Anual.
Página 11 de 11

Mui respeitosamente,

Carlos Eduardo de Oliveira Vasconcelos


Subprocurador-Geral da República (emérito)
Inscrição na IAP nº 7089845662