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Odair Borges – A Arte Suave Completa

FABIO QUIO TAKAO – Brasil Combate

Agradece a colaboração do Sensei Stanlei Virgílio

O significado literal dos ideogramas Jiu Jitsu, ou Ju Jitsu como prefere pronunciar o
Sensei Odair Borges, é arte suave. Na prática, a designação desse estilo de luta ficou
conhecida como um conjunto de técnicas onde uma pessoa fraca e sem aramas poderia
se defender do ataque de um agressor mais forte. Ao contrário do que muitos pensam,
quando os vários estilos foram concebidos no Japão e mesmo o Jiu Jitsu Gracie no
Brasil, não haviam restrições à golpes traumáticos e outras técnicas que são proibidas
nas práticas esportivas. Qualquer técnica que se mostrasse eficiente era utilizada. Como
as técnicas de projeção e de solo se mostraram mais eficazes e de certa forma
conseguiam diminuir a desvantagem de força, o Jiu Jitsu ficou estigmatizado por ser
uma luta exclusivamente agarrada e no solo.

Mesmo o Jiu Jitsu Gracie possui técnicas de defesa pessoal com alguns golpes
traumatizantes e apesar de não serem o foco principal, Carlos, Hélio, Carlson e outros
membros da primeira e segunda geração da família treinavam quedas para levar a luta
ao solo e eventuais socos e chutes.

Odair Borges compactua com essa visão global do Jiu Jitsu de defesa pessoal e procura
praticar a arte em toda sua extensão. Mesmo se a abordagem for uma competição
esportiva, Sensei Odair prefere as regras utilizadas pela Ju Jitsu International
Federation, entidade onde o lutador obrigatoriamente precisa desferir socos e chutes
antes de partir para a queda e luta no solo.

Para entender essa visão, vamos conhecer a formação desse mestre que hoje é um dos
mais completos conhecedores do Judo e Jiu Jitsu.

JOSÉ DE ALMEIDA BORGES – JUDO E JIU JITSU

Visita de delegação de Judokas a Academia Borges em 09-10-1952.Da esq. para direita:


Sensei Shigueichi Yoshima (pioneiro do Judô na região de Campinas), Sensei Yoshimi
Osawa(atualmente 10ºDan), Sensei Takagaki, Sensei Yoshimatsu (na época já faixa
coral) e Sensei José de Almeida Borges(pioneiro do Judô na região de Campinas).

Pai de Odair Borges, o prof. José de Almeida Borges foi certamente um disseminador
do Judo e do Jiu Jitsu na região de Campinas-SP. José de Almeida Borges já praticava
natação na juventude, onde era conhecido pelo apelido de “O Mulata” .

Em 19 de Novembro de 1943, José Borges conseguiu um barracão de madeira no Clube


Campineiro de Regatas e Natação de Campinas, onde promovia e orientava treinos de
Jiu Jitsu. As aulas contavam com alguns entusiastas de Luta Livre, Jiu Jitsu e muitos
alunos da colônia japonesa passaram a freqüentar os treinos. José de Almeida tomou
primeiro contato com o Jiu Jitsu Gracie através de um rapaz que o procurou e que já
havia praticado Jiu Jitsu no Rio de Janeiro. Nessa época os treinos eram mais uma troca
de informações vindas de diversas modalidades, mas ainda não havia uma base sólida
por falta de um mestre que orientasse os treinamentos.
Isso mudaria algum tempo depois coma chegada em Campinas de George Gracie na
década de 40. George, após uma temporada em São Paulo, começou uma verdadeira
cruzada pelo interior paulista difundindo o Jiu Jitsu Gracie. José Borges treinou durante
1948 e 1949 com George Gracie, pois esse era o tempo máximo que o “Gato Ruivo”
permanecia numa cidade. Mas a semente do Jiu Jitsu já estava plantada.

José de Almeida Borges (esquerda) e Pedro Hemetério (direita)

Em 1949, José Almeida passa seu Dojô para o Clube Atlético Campinas e conhece o
Sensei Shigueishi Yoshima, faixa preta 3º dan de Judô, e logo começa a treinar com o
mesmo. No ano de 1951, José Almeida Borges torna-se um dos pouquíssimos
brasileiros a terem um certificado de faixa preta de Judô vindo direto da Kodokan do
Japão. Nessa época, o “Mulata” participa de vários eventos de “Luta Livre Americana”
como era conhecido o Vale Tudo.

Buscando sempre o aperfeiçoamento da arte, em 1957 José de Almeida Borges procura


o prof. Pedro Hemetério, grande mestre que foi um dos primeiros Faixa Preta de Carlos
e Hélio Gracie. Com muito sacrifício, viaja de Campinas para São Paulo alguns dias da
semana e treina no regime de aulas particulares durante seis anos. Em 1964, o Prof. José
de Almeida Borges é promovido por Pedro Hemetério à faixa preta de Jiu Jitsu.

Em 1970, José de Almeida inaugura um Dojô com sede própria em Campinas-SP. O


Judô e Jiu Jitsu da Academia Borges passa a ser um dos únicos no Brasil que ensina o
Jiu Jitsu em sua forma mais ampla, graças aos ensinamentos passados pelos nomes mais
consagrados do Jiu Jitsu e do Judo do Brasil. Foi nesse ambiente de interação entre os
estilos, buscando acima de tudo a eficácia e a perfeição da técnica, que o filho de Jose
Almeida Borges, Odair Borges começa a trilhar sua brilhante carreira.
De forma precoce, em 1995 o Sensei José de Almeida Borges falece e deixa a Academia
Borges sob a responsabilidade do filho Odair Borges, que já possuía um currículo
invejável.

ODAIR BORGES – O JIU JITSU E O JUDO NA ESSÊNCIA

O Brasil tem tradição em produzir fenômenos esportivos, e na mesma proporção tem a


tradição em não dar incentivo aos atletas e em muitos casos não prestar o devido
reconhecimento aos desbravadores. Odair Borges é um desses casos.

Academia Borges em 1950. Na primeira fila, da esq. para dir., o 3º da fila: Odair Borges
aos 3 anos.

A formação de Odair Borges é sedimentada através de seu pai, que assim como ele uniu
o Judo e o Jiu Jitsu tornando-o um dos mais completos atletas e professores do Brasil.

Odair Borges nasceu em Campinas em 1947 e desde os três anos de idade já teve os
primeiros contatos com o Judô. Aos 17 anos, já faixa preta de Judô, segue o caminho do
pai e passa a treinar Jiu Jitsu com Pedro Hemetério e em 1967 recebe a faixa preta de
Jiu Jitsu.

Aos 21 anos, já era tri-campeão paulista de Judô conseguindo vitórias com importância
maior que muitos campeonatos: derrotou os lendários judokas japoneses Massayoshi
Kawakami e Shiozawa. Dentro do Judô esportivo como atleta, o currículo de Odair é
dos mais impressionantes. Foi integrante competidor da seleção brasileira de Judô de
1965 até 1975 e campeão brasileiro, sul americano e Ibero americano de Judô.
Diploma de Faixa Preta de Odair Borges emitido pela Kodokan

Odair foi o primeiro brasileiro a estagiar no Japão durante um ano na famosa


Universidade Waseda em 1970, grande celeiro do Judô japonês. Nesse período também
fez um curso de aperfeiçoamento na Kodokan, templo maior do Judô. Para concretizar
essa viagem ao Japão, Odair contou com o patrocínio da Universidade Gama Filho e
hospedou-se inicialmente com o pai de Shiaki Ishii, o Sr. Yukiti Ishii. Ainda no Japão,
teve oportunidade de treinar com os grandes mestres japoneses e também com os mais
respeitados competidores da época como Anton Geesink, holandês que foi o primeiro
ocidental a vencer um japonês no campeonato mundial de 1963. Treinou também com o
discípulo de Geesink e também campeão mundial Willen Huska.

Com formação acadêmica invejável, Odair é formado em Educação Física com


Mestrado pela Universidade de São Paulo. Sua tese de mestrado foi avaliada (e
aprovada) no Japão pois, na época, não havia uma banca examinadora brasileira
preparada para analisar um trabalho específico de Judô.

Odair foi um dos primeiros a tentar o reconhecimento do Jiu Jitsu brasileiro por
entidades olímpicas. Em 1997, após uma matéria na Gracie Magazine falando sobre a
origem do Jiu Jitsu e sobre a possibilidade do mesmo vir ha ser esporte olímpico, Odair
Borges redigiu um documento e enviou a revista ratificando e esclarecendo alguns
pontos que divergia.

Como sendo um dos poucos que conheceu de perto a Kodokan e por outro lado treinou
com a nata da família Gracie, Odair afirma que o Jiu Jitsu Gracie não foi criado
exatamente como é descrito hoje pela família e que o Jiu Jitsu Brasileiro deveria tentar
o caminho olímpico por outras entidades que tem reconhecimento olímpico.
A mais de 15 anos atrás, Odair tentou junto com Fernando Yamasaki direcionar o Jiu
Jitsu brasileiro para a Ju Jitsu International Federation, entidade que, segundo ele, teria
mais chances de incluir o esporte nos jogos olímpicos. A questão é que as regras
adotadas pela JJIF exigem que a luta seja desenvolvida com socos, chutes, quedas e
finalizações no solo.

Odair Borges com seu principal atleta, Marcelo Figueiredo

Em 1993, aconteceu na Dinamarca a primeira Copa de Ju Jitsu por essa entidade, com
Brasil participando com a presença de ninguém menos do que Fabio Gurgel, Fernando
Yamasaki e Sylvio Behring, que devido as regras, não conseguiram resultados
expressivos.

No ano seguinte em25 de Novembro de 1994, aconteceu em Bolonha na Itália, também


pela JJIF, o primeiro Mundial de Ju Jitsu com a participação de Wallid Ismail, que
também não se adaptou as regras. Nesse mesmo campeonato, o aluno de Odair Borges,
Marcelo Figueiredo conseguiu o título mundial. Em 1997 conseguiu o título de Ju Jitsu
no World Games na Finlândia.

Atualmente, Odair Borges concentra seu foco na Academia Borges de Judo e Jiu Jitsu,
localizada em Campinas, com sede própria desde 1970. Em seu Dojô, Sensei Odair
Borges leciona para crianças e adultos e mantém a tradição, disciplina e filosofia dignas
de um grande mestre.
Segue sua entrevista:

1-BRASIL COMBATE: Como e quando seu pai, José de Almeida Borges, teve o
primeiro contato com as artes marciais?

ODAIR BORGES: Meu pai adorava qualquer tipo de luta. Ele era nadador do Clube
Campineiro de Regatas em Campinas-SP. Nessa região, o que era conhecido em termos
de artes marciais era a Luta Livre. Essa paixão fez com que ele arrumasse um barracão
no Clube Campineiro e começou a praticar Luta Livre e isso atraiu pessoas interessadas
e de outras modalidades. Isso foi em 1943 e ele tinha 22 anos. Ele comentava que na
época chegou a conhecer um lutador de Jiu Jitsu do Rio de Janeiro, que foi o primeiro
contato dele com a Arte. Outra forte influência era da colônia japonesa local, que tinha
alguns lutadores de Judô e dentre eles o Sensei Yoshima, que é considerado o introdutor
do Judô na região.

Meu pai logo entrou em contato com ele, mas como a colônia era muito fechada, era
necessário o Sensei pedir permissão para outros Senseis de São Paulo como o Sensei
Fukaya e outros para poder ensinar o Judô para estrangeiros.

O Sensei Yoshina conseguiu a autorização de ensinar e meu pai arrumou um amigo que
tinha carro para buscar o Sensei Yoshima na fazenda onde morava para que eles
pudessem ter aulas. Era uma distância danada!

2- BRASIL COMBATE:: Como seu pai teve o primeiro contato com o Jiu Jitsu?

ODAIR BORGES: É importante frisar, que quando meu pai começou a aprender Judô
com o Sensei Yoshima, a denominação Judô estava começando a ser usada, pois muitos
chamavam de Jiu Jitsu e o Judô de “novo Jiu Jitsu”.

Um dia, meu pai soube que o George Gracie estava em Piracicaba e foi procurá-lo.
Chegando lá, ele não pôde assistir a uma aula, pois eram aulas particulares e o aluno não
permitiu que ele visse. Além disso, meu pai não tinha condições de pagar a mensalidade
e por isso propôs limpar a academia como forma de pagamento e assim começou a ter
aulas. Algum tempo depois, o George viu o empenho do meu pai em vir de Campinas
para ter as aulas, acabou se afeiçoando muito a ele.

Algum tempo depois, o George mudou para Valinhos, que já era mais próximo de
Campinas, facilitando a vida do meu pai. Porém, como era de costume do George, ele
logo se mudou e meu pai foi em busca de um novo professor de Jiu Jitsu.

Ele foi parar em São Paulo na academia do Gastão Gracie, na Praça da Biblioteca no
centro de São Paulo. Nessa época, o Pedro Hemetério ainda não tinha academia e dava
aulas na academia do Gastão. Porém, logo depois o Pedro Hemetério montou sua
academia na Av.

Nove de Julho e meu pai começou a ter aulas lá. Ele ia de trem de Campinas a São
Paulo uma vez por semana pra ter aulas durante sete anos. Após se formar com Pedro
Hemetério, meu pai montou uma academia aqui em Campinas e passou a dar aulas de
Judô e Jiu Jitsu.

3- BRASIL COMBATE:: Quando o Sr. começou a treinar?

ODAIR BORGES: Eu tenho uma foto de 1950, onde eu tenho três anos e já estou
treinando com meu pai e o Sensei Yoshima. Durante toda minha infância e adolescência
eu treinei Judô. Quando o Shiaki Ishii chegou ao Brasil, meu pai foi procurar ele e me
colocou para fazer aulas particulares com ele. Eu fui o primeiro aluno do Shiaki Ishii no
Brasil. Ele morava e dava aulas na Rua Oscar Freire em São Paulo, na academia do
Sensei Kurachi. Mais tarde, comecei também a treinar Jiu Jitsu com o mestre Pedro
Hemetério, fazendo a mesma viagem de trem semanal que meu pai fizera. Eu já era o
mais novo integrante da seleção brasileira de Judô com 18 anos e, portanto já tinha uma
excelente base. O que eu desenvolvi bastante como o Mestre Pedro Hemetério foi todo
o programa de defesa pessoal dos Gracie e a luta de chão, como fazer a guarda que são
coisas que no Judô eram pouco usadas. O que eu vim a descobrir depois com quando
estava no Japão, é que toda aquela luta de solo já era do Judô tradicional, que era
oriundo do Jiu Jitsu japonês, mas que não era mais praticado no Judô esportivo.

4- BRASIL COMBATE:: Como foi sua primeira viagem para o Japão?


ODAIR BORGES: Depois que eu ganhei uma competição, a Universidade Gama
Filho do Rio de Janeiro (tradicional entidade que apóia o Judô e Jiu Jitsu) me deu uma
bolsa para ir treinar no Japão. Eu tinha 22 anos e nessa época, em 1970, ninguém
conhecia o treino japonês. Eu fiquei um mês na casa do pai do Shiaki Ishii, que era meu
técnico na época. Depois fiquei na própria Kodokan (templo máximo do Judô mundial)
em Tóquio e fiz cursos de Judô lá. Treinava diariamente na Universidade Waseda e foi
nesse ano que fiquei no Japão que pude perceber que o Judô possuía técnicas de chão
(Ne Waza), ao contrário do que pensávamos aqui no Brasil. Acontece que somente lá no
Japão esse Judô ainda era treinado em alguns lugares.

A Universidade de Waseda também foi muito importante para minha formação, pois era
muito conceituada na época, inclusive o irmão do Shiaki Ishii era o capitão da seleção
de Judô de Waseda. O Treinador de lá era o Osawa Takagaki Yoshimatsu, que inclusive
veio a Campinas numa delegação para disseminar o Judô. Inclusive o Sensei Osawa foi
um dos poucos 10º Dan da Kodokan.

Diploma de Odair Borges concedido por Pedro Hemetério

5- BRASIL COMBATE:: Como foi a adaptação?

ODAIR BORGES: Eu estudei sete meses de Japonês antes de ir, pois eu já tinha esse
objetivo. Mas mesmo assim é muito difícil, principalmente ler e escrever. Mas eu
consegui me virar, pois acaba sendo obrigado. Em relação aos treinos da Universidade,
eram bem rígidos e existia uma diferença muito grande, com um nível técnico muito
superior. Eu achava que como sabia o Jiu Jitsu brasileiro, iria chegar lá e pegar todo
mundo. Mas não peguei ninguém! Havia alguns mestres na Kodokan que gostavam de
chão e perceberam que eu também gostava. Eu me lembro de um Sensei já com seus
mais de 50 anos que me chamou para treinar Ne Waza e me pegou na guarda e me
manteve em cima como se fosse dar um Tomoe Nagê, mas não me derrubou. Ele falava
pra eu sair dali e eu não conseguia!
6- BRASIL COMBATE:: O Sr. tem algumas opiniões que divergem sobre a
criação e desenvolvimento do Jiu Jitsu Gracie . Fala um pouco sobre isso.

ODAIR BORGES: Nesse período que passei na Kodokan, pude perceber que todas as
técnicas que a família Gracie alegava ter inventado, na verdade já existiam no Judô
original. O próprio Jigoro Kano teve dificuldades em implementar o novo método, pois
haviam alguns mestres de diversos estilos de Jiu Jitsu que já eram especialistas em Ne
Waza. O que eu acho que aconteceu foi que realmente o Carlos e o Hélio Gracie, devido
a sua fragilidade física, perceberam que a luta de chão era mais eficiente para eles. Com
isso, realmente eles DESENVOLVERAM melhor a técnica de chão, enquanto que no
resto do mundo, o Judô foi tomando o caminho inverso em direção ao esporte.
Inclusive, no Judô os golpes usados no Jiu Jitsu brasileiro já tinham nome e a família
fez questão de usar outros nomes para tentar desvincular o Gracie Jiu Jitsu do Judô. Na
luta de Kimura contra o Hélio Gracie, a família divulga como se o Kimura fosse o
campeão japonês de Jiu Jitsu, mas na verdade ele era campeão japonês de Judô.

Tudo isso eu posso dizer por que conheci a Kodokan e conheci a família Gracie.
Quando eu tinha 19 anos, o Pedro Hemetério me levou para o Rio de Janeiro e
dormimos na casa do Hélio. Ele nos recebeu muito bem e foi muito simpático. Conheci
também o Carlos Gracie na praia. Foi uma situação engraçada. Estávamos eu e o Pedro
e de repente o Carlos Gracie veio a nossa procura e disse que tinha um aluno do
Carlson, que não me recordo o nome, que dizia que podia finalizar o Pedro. O Pedro
respondeu: “Então vamos lá ver!”. Chegando à academia, já havia até uma aposta entre
o Carlos e o Carlson. Um pagava em dinheiro e outra dava um revólver! (risos). A luta
foi morna e o Pedro Hemetério colocou o aluno do Carlson dentro da guarda e ficou
nisso durante uma meia hora, mas acabaram dando a vitória pro Hemetério.

No outro dia, voltamos na academia do Carlson, pois o Hemetério queria que eu


treinasse com o próprio Carlson. O Carlson ficou sabendo que eu era Judoka e quando
fomos lutar, ele já entrou direto nas minhas pernas e me levou pro chão. Rolamos um
pouco e logo ele me pegou. Ele me elogiou e logo depois chamou o irmão dele, o Rolls,
que na época era da mesma idade que eu, ou um pouco mais novo. Rolamos algum
tempo, mas ninguém conseguiu finalizar.
Jornal japonês “Shimotsuke” de 1970. Reportagem fala sobre a permanência de Odair
no Japão. Na foto, Odair junto com Yukiti Ichii, pai de Shiaki Ishii.

7- BRASIL COMBATE:: Em relação aos novos caminhos que o Jiu Jitsu deve
tomar, o Sr. também tem algumas opiniões diferentes. Qual a direção deveria ser
tomada?

ODAIR BORGES: O Marcelo Figueiredo, meu aluno, foi campeão do 1º Campeonato


Mundial de Ju Jitsu na regra Internacional. Essa regra exige que o atleta use socos e
chutes. Depois de agarrar, só vale quedas e depois as finalizações. No Jiu Jitsu original
isso era treinado. Apesar de ser uma luta agarrada, você tem que saber como bater. O
próprio Carlson Gracie treinava socos e chutes. O Valdemar Santana também. O Pedro
Hemetério ensinava isso. Não era preciso ser um expert, mas tinha que pelo menos
saber dar um soco, um chute lateral, etc. Fora é claro, a parte de quedas e projeções, que
não se pratica no Jiu Jitsu brasileiro.

Eu acho que esse era o caminho para o Jiu Jitsu. Por não ter uma equipe unida, não
demos mais prosseguimento em participar desses campeonatos. Apesar dessa
preferência, o Marcelo e meus filhos Rafael e Felipe lutaram também em vários
campeonatos estaduais e mundiais da CBJJ e inclusive foram campeões algumas vezes.
Assim como também eu sempre incentivei eles a participarem de campeonatos de Judô.

8- BRASIL COMBATE:: O Sr. mantém equipes competindo ainda hoje?


ODAIR BORGES: Atualmente estou sem atletas competindo porque há alguns anos
tive um problema em um campeonato com o Jorge “Macaco”. Acho que os
campeonatos de Jiu Jitsu não são bem organizados e alguns professores, por ter maior
influência, querem ganhar no grito. Achei uma falta de respeito muito grande dele e
fiquei desmotivado há participar dos campeonatos.

9- BRASIL COMBATE:: E quanto ao panorama atual do Judô?

OB: Acredito que deveriam acontecer algumas mudanças para que o Judô se propagasse
mais, pois essa era a vontade de Jigoro Kano. Talvez mudar algumas regras para ficar
mais atrativo. Eu acho que a técnica essencial veio se perdendo. Com o advento do
esporte, o Judô perdeu um pouco seu lado marcial. Eu não aprecio esse Judô que
praticam agora. Os professores ensinam as crianças somente a lutarem e não o
verdadeiro Judô. Outra coisa é a nomenclatura dos golpes que está sendo usada, que é
horrível. Outro dia, vi uma entrevista com o Flávio Canto se referindo a “catada”,
“double leg”, “single leg”,etc. Um Judoka não deveria usar esses termos, pois são
golpes que possuem nomes tradicionais. Um atleta que posso destacar e que tem me
impressionado com seu nível de Judô é o Tiago Camilo. Gostei muito das lutas que vi
dele.

10- BRASIL COMBATE:: O que tem achado do nível dos atletas de Jiu Jitsu?

ODAIR BORGES: As lutas que tenho visto na TV tem se mostrado pouco


empolgantes. Às vezes o lutador não consegue passar a guarda e fica naquele jogo
travado. Héio Gracie e Pedro Hemetério eram contra pontuação, pois o objetivo era
finalizar. Agora tem até mesmo “vantagens”. Eu vejo que a maioria dos atletas quer
mesmo é fazer Vale Tudo. Quando estive no Rio de Janeiro há alguns anos atrás, levei
alguns alunos pra treinar na academia do Royler Gracie e gostei muito da técnica dele.

11- BRASIL COMBATE:: O Sr. tem acompanhado Vale Tudo?

ODAIR BORGES: Vi recentemente a luta do Minotauro contra o Randy Couture.


Tenho visto algumas lutas do Lyoto Machida. As lutas de Vale Tudo agora quase só
tem pancadas. Os atletas precisam ter muita resistência para agüentar tanta pancada.
12- BRASIL COMBATE:: Algum novo atleta se destacando?

ODAIR BORGES: Eu tenho aluno de 14 anos chamado Paulo, que veio através de
uma ONG que faz um trabalho social com crianças carente. Eu faço um trabalho de base
com ele. Ele tem se mostrado promissor, tanto no Judô como no Jiu Jitsu. Além disso,
meu filho disputou o mundial de Luta Greco-Romana e ele tem ensinado o Paulo até
mesmo essa modalidade. Eu não gosto de pressionar os alunos infantis para fazer
competições e deixo-os amadurecerem naturalmente. Muitos de meus alunos não
tiveram títulos nas categorias infantis e juvenis, mas foram campeões na categoria
adulta.

13- BRASIL COMBATE:: O Sr. continua com as aulas?

ODAIR BORGES: Sim, temos dias de treino de Judô e dias de treino de Jiu Jitsu e
também mantenho aulas particulares. Ensino defesa pessoal começando com o judô para
derrubar, depois a parte de solo para imobilizar e finalizar. É uma abordagem completa.
Eu tenho um aluno particular que é de Capivari. Seu nome é Luís e ele vem uma vez por
semana desde a época do meu pai. Ganhou a faixa preta depois de 16 anos e continua
vindo treinar.

Quem for da região de Campinas-SP e quiser conhecer nosso trabalho será muito bem-
vindo na Academia Borges.