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Nos Braços do Destino

Frontier Bride
Ana Seymour

Ela se entregou de corpo e alma a um lindo sonho de amor...


Ohio, 1700.

Selvagem e fascinante como as fronteiras do Oeste, o capitão Ethan Reed marcou o coração de
Hannah Forrester com o fogo da paixão. E, quando ele a guiou por terras repletas de maravilhas,
Hannah soube que seu destino estava irremediavelmente traçado : iria ficar ao lado desse
aventureiro para toda a vida!

Digitalização: Marina Campos


Revisão e Formatação: Cynthia M.
 Nos Braços do Destino – CH nº 88 – Ana Seymour 
PRÓLOGO

Filadélfia — Dezembro de 1762.

Priscilla Webster estava às portas da morte. Hannah limpou o suor frio que salpicava a testa da
mulher e endireitou-se. Então olhou através dos vidros da janela para a escuridão da noite, que
parecia envolver tudo num lúgubre presságio.
O vento, lá fora, soprava feroz na primeira tempestade daquele inverno, mas, dentro do quarto, o
calor era reconfortante. Randolph Webster insistira em manter o fogo alto, nos últimos dias,
enquanto todos ali aguardavam que sua esposa desse o último de seus suspiros de dor.
Hannah respirou fundo. Sentiria falta de Priscilla. Quando chegara àquela casa, quase dois anos
atrás, faminta e ainda enfraquecida pelas náuseas causadas pela viagem marítima de seis semanas,
sentira-se um tanto apreensiva, com medo até. Ela e as outras tantas criadas contratadas no navio
Constant tinham sido forçadas a permanecer nos porões da embarcação durante quase toda a
viagem.
Priscilla Webster, porém, tratara-a com grande gentileza e atenção, como se fosse uma parenta
distante, e não uma simples criada. Insistira para que Hannah descansasse bastante e se alimentasse
muito bem durante as primeiras semanas, a fim de que sua saúde se restabelecesse por completo.
Afinal, após meses de injustiça e maus-tratos, Hannah pudera encontrar alguém gentil e humano o
suficiente para tratá-la como gente.
— Está nevando?
A pergunta fez Hannah ter um sobressalto. Priscilla estava inconsciente havia dois dias e era de
estranhar que ainda tivesse forças para falar.
Hannah voltou os olhos para a mulher doente e notou que suas pupilas azuis pareciam mais
iluminadas agora, como se estivessem febris.
— Não, senhora — respondeu, com voz suave. — Mas acho que irá nevar no Natal.
Os Webster eram uma das poucas famílias de Filadélfia que tinham o costume de comemorar o
Natal, e isso agradava Hannah. Nos últimos dois anos, essa festa fora alegre e farta, e fizera com
que se lembrasse das vezes em que a comemorara na Inglaterra, quando pequena. No entanto, nesse
ano, o Natal seria triste naquela casa...
— As crianças vão gostar disso — Priscilla comentou, num sussurro.
— Quer tomar um pouco de sopa? — Hannah ofereceu, estendendo o braço para pegar a
pequena tigela de sobre o criado-mudo.
Priscilla engoliu com dificuldade. Sua respiração entrecortada movimentava o peito magro,
castigado pelos violentos acessos de tosse que a acometeram nos últimos tempos. Havia, em seus
lábios, um sorriso doce e resignado que comoveu Hannah.
— Não, não quero comer — murmurou devagar. — Não precisarei de nenhum... alimento
terreno... lá, para onde estou indo...
Os olhos de Hannah se encheram de lágrimas. O Sr. Webster se mudara para o quarto de
hóspedes fazia algum tempo, quando a tosse da esposa passara a ser insuportável, e ela não dissera
uma única palavra para queixar-se dessa atitude. E quando, em seus lenços bordados, começaram a
aparecer aquelas terríveis manchas de sangue enegrecido, ela apenas se desculpara com Hannah por
estar lhe causando o trabalho extra de lavá-los. Quando, por fim, os lenços foram substituídos pelas
toalhas de algodão, cada vez mais manchadas de sangue, ela tomara as mãos da criada e agradecera
por ter vindo de tão longe para tomar conta dela e de sua família. Hannah jamais conhecera uma
pessoa tão boa...
— Vou chamar o patrão — ela disse, erguendo-se. Atravessou o quarto, correndo, e abriu a
porta, mas não precisou chamar. Randolph Webster já estava de pé, à espera.
— O que houve? — perguntou, aproximando-se.
— Ela parece ter melhorado um pouco. Até falou comigo.
Hannah voltou-se para a mulher, na cama, sentindo a presença do patrão logo atrás de si.

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— Priscilla? — ele chamou, com delicadeza, caminhando até o leito.
— Está nevando... — foi sua resposta suave.
— Sim, meu amor. — Randolph sentou-se na cadeira ao lado da cama e tomou a mão da esposa,
indagando: — Como se sente?
Os lábios da doente se moveram, mas não articularam som nenhum. Randolph olhou para a
criada. Havia angústia em suas pupilas castanhas. Então aproximou-se ainda mais de Priscilla para
perguntar:
— O que foi, amor?
— Agasalhe bem... as crianças... — Ela parecia perder as forças a cada palavra.
— É a neve, senhor — Hannah explicou. — A senhora quer que agasalhemos as crianças por
causa dela.
Randolph assentiu de leve e voltou os olhos para a esposa.
— Não se preocupe, querida. Peggy e Jacob não vão sair de casa com este tempo. Está se
formando uma tempestade.
Um sorriso muito suave pareceu passar pelos lábios de Priscilla, enquanto dizia, em meio a um
novo acesso de tosse:
— Então... está bem...
Sua mão escorregou por entre os dedos do marido, deixando-se cair sobre o cobertor. Randolph
tornou a segurá-la, sentindo um nó apertando-lhe a garganta.
— Quer que eu o deixe a sós com ela, senhor? — Hannah perguntou, indo até a lareira para
alimentá-la com mais algumas achas de lenha.
Como não houvesse resposta, ela se voltou e emocionou-se ao ver as lágrimas que rolavam pelo
rosto de seu patrão.
— Vou esperar na sala — disse, ajeitando o cobertor que aquecia o corpo fragilizado de Priscilla.
Foi então que notou a ausência de movimentos. O peito da patroa já não mostrava a respiração
fraca e irregular causada pela doença.
Hannah sentiu um frio no estômago. Olhou para Randolph, mas ele mantinha a cabeça baixa,
abatido. Ainda não percebera o que acabara de acontecer.
Hannah cerrou os olhos e sentiu as lágrimas quentes rolarem por seu rosto. Só então o patrão
ergueu a cabeça e, diante da realidade, começou a chamar pelo nome da esposa, a princípio em voz
baixa, depois quase gritando.
— Ela se foi, senhor - murmurou num soluço. — Voltou para o Senhor.
Randolph Webster tomou o corpo inerte de Priscilla pelos ombros e abraçou-o, como se
acalentasse uma criança, em silenciosa agonia. Era um homem duro, acostumado a guardar para si
os próprios sentimentos. Um homem firme, que jamais permitira qualquer tipo de aproximação de
Hannah, nem fizera o menor esforço para ajudá-la a esquecer que fora comprada como uma
mercadoria e que ainda pertenceria a ele, por contrato, por mais três anos.
No entanto, Hannah sabia que ele era um homem bom, que amara profundamente a esposa. Se
tivesse coragem para tanto, iria até o outro lado do leito e colocaria uma mão confortadora sobre os
ombros do patrão. Aquele parecia ser o instante em que apenas o contato físico poderia trazer
alguma espécie de alívio para o sofrimento.
— Quer que eu vá buscar as crianças? — ela perguntou, após alguns minutos de silêncio e dor.
Randolph negou com a cabeça, ainda abraçando o corpo de Priscilla.
— Não. Eles não devem vê-la assim.
— Quer que eu avise os MacDougall, então?
Os pais de Priscilla tinham uma estalagem algumas casas abaixo, na mesma rua. Randolph
Webster não respondeu de imediato à pergunta. Depositou o corpo da esposa com delicadeza de
volta ao colchão e, erguendo os olhos para Hannah, disse em tom autoritário:
— Perdi a esposa, e não o juízo, garota! Não vou deixá-la sair em meio a essa tempestade!
— Mas não é longe, senhor. E quero ir. Ele se levantou.
— Eu irei. Eles quererão vir para cá e ficar com as crianças. Então poderei ir até Newbury.

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Hannah arregalou os olhos.
— Vai até Newbury com este tempo?! Randolph olhou de novo para a esposa morta.
— Ela não iria querer que outra pessoa além do irmão se encarregasse da encomenda de sua
alma. — Então curvou-se e depositou um beijo na testa de Priscilla, para depois acrescentar: —
Cuide dela.
— Sim, senhor.

CAPÍTULO UM

Filadélfia — Abril de 1763.

Pois eu lhe digo, Hannah: Randolph não está bem do juízo. E acho que você não deve — falava a
Sra. MacDougall em seu forte sotaque escocês.
Hannah ajudava-a a secar a louça, na cozinha da estalagem.
— Fui vendida, senhora. Estou presa às cláusulas de um contrato por mais três anos.
— Pois não há nada nesse contrato que diga que Randolph tem o direito de arrastar você para o
meio de uma região selvagem, sem ninguém por perto! — A Sra. MacDougall sempre se dera bem
com o genro, mas aquela idéia louca de afastar seus netos da cultura e da civilização de Filadélfia
para a incerteza de uma vida na fronteira deixava-a fora de si.
— Há mais quatro famílias que irão — Hannah respondeu, gentil. — Vamos nos ajudar uns aos
outros, tenho certeza.
— E quanto aos selvagens?
— Selvagens... — Hannah repetiu, em voz baixa, apertando o pano de pratos entre as mãos. Já
lidara com selvagens antes. Os credores que haviam tirado a cama de sua mãe antes mesmo de ela
morrer, em Londres; o médico que se recusara a dar a ela uma dose de remédio para acalmar suas
dores; o juiz que decretara que uma garota de dezoito anos, sem parentes, deveria ser aprisionada e
transportada para outro país para pagar as despesas com a doença da mãe. — Não tenho medo de
selvagens, Sra. MacDougall — afirmou, com um sorriso amargo.
— Não posso acreditar que Randolph esteja falando sério quando se refere a essa aventura. — A
senhora torcia o pano, como se quisesse que ele fosse o pescoço do genro.
— Sei que é difícil para a senhora ficar longe das crianças, mas devia ouvi-lo descrever as terras
que estão abrindo ao longo do rio Ohio: prados verdejantes cortados por águas prateadas. Ele diz
que os peixes praticamente pulam para fora d'água e caem dentro dos barcos, e que as plantações
crescem sozinhas!
— Suponho que os gamos também atirem neles mesmos — comentou, irônica. — Acho bom que
seja assim porque senão vocês todos vão morrer de fome. Randolph não sabe nada sobre caça.
— Espero que uns ajudem os outros, pelo menos até que tenhamos passado pelo primeiro
inverno lá.
A Sra. MacDougall se arrepiou. Sua voz fraquejava agora:
— Às vezes acho que não vou conseguir suportar... Primeiro perdemos Prissy, e agora também
as crianças...
Hannah tocou o braço dela com carinho.
— Vou trazê-los para visitá-la quando eu estiver livre de meu contrato, está bem?
Ela inclinou-se para ver as crianças, que brincavam, além da porta aberta, na estalagem. Nos
últimos meses, Hannah e os dois pequenos tinham passado muito tempo na casa dos MacDougall. A
casa dos Webster, que lhe parecera tão acolhedora e aconchegante quando chegara à América,
estava agora cheia de sombras e tristezas do passado. As crianças preferiam ficar na estalagem dos
avós. Ainda mais porque o pai quase nunca parava em casa agora.
— Cuidado para que isso não caia sobre seu irmão! — Hannah avisou, vendo que os dois
brincavam com um barril vazio que Peggy procurava inclinar para se esconder de Jacob. No

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entanto, Hannah logo se arrependeu pelas palavras. Afinal, a menina andava tão triste, quase não
brincava... Devia ser muito difícil para ela ter perdido a mãe aos onze anos de idade.
— Está bem! Podem brincar! Mas tomem cuidado! — Voltou-se depois para a Sra. MacDougall:
— São crianças maravilhosas. Deveria ter orgulho delas, senhora..
— Elas são tudo o que minha Prissy me deixou. É por isso que acho injusto Randolph querer
levá-las para tão longe.
— O Sr. Webster diz que precisa recomeçar. Que todos precisam. Ou jamais superarão a morte
da Sra. Webster.
A expressão de tristeza de Jeanne MacDougall se transformou.
— Você parece saber muito bem o que meu genro pensa e diz, não?
Hannah sentiu-se enrubescer de imediato.
— É que... eu o ouvi falando com as crianças e com os outros cavalheiros que irão conosco na
viagem. Eles têm se encontrado muito nos últimos meses.
A Sra. MacDougall pareceu se acalmar.
— Você tem estado muito sozinha naquela casa, Hannah, sem outra presença feminina com
quem possa trocar idéias.
— De fato. O Sr. Webster está sempre fora, e fico só com as crianças. Na verdade, não é tão
difícil como...
— Ela se interrompeu, percebendo que o que ia dizer poderia magoar a Sra. MacDougall.
Mas a senhora falou por ela, amarga:
— É. Não é tão difícil como quando tinha de cuidar de minha filha dia e noite, além da casa e
dos pequenos.
Hannah sentou-se no banco de madeira, ao lado da lareira, e baixou a cabeça. A Sra. MacDougall
veio logo em seguida e, sentando-se também, disse:
— Sabe, eu queria que meu marido conversasse com você, mas você conhece os homens: são tão
desajeitados para falar! O fato, querida, é que não é certo.
Hannah ergueu o olhar para ela.
— O que não é certo?
— Quando Randolph contratou-a para cuidar de Priscilla, estava tudo bem, mas... agora ele é um
homem viúvo, e você é uma moça bonita. Sabe, não é uma situação correta vocês dois sob o mesmo
teto.
Ela voltava ao mesmo ponto em que tentara tocar instantes atrás com sua conversa. E a
observação parecia tão absurda para Hannah que ela mal sabia como responder. Seu patrão quase
nunca lhe dirigia a palavra, mal a olhava. Quando notava sua presença era apenas para dar-lhe
alguma ordem em relação às crianças.
— Desculpe-me, Sra. MacDougall, mas está enganada. O Sr. Webster dá a mim a mesma
atenção que dispensa a seus cavalos. Ele amava a esposa e garanto-lhe que ainda levará muito
tempo até que se disponha a olhar para outra mulher.
— Eu não estou colocando em discussão a integridade do meu genro, Hannah, e nem a sua. Mas
sei que, se vocês continuarem vivendo na mesma casa, as pessoas vão começar a falar.
— Mas não estaremos sozinhos...
A senhora ergueu a mão, interrompendo o protesto da moça.
— Por isso eu e o Sr. MacDougall decidimos que vamos comprar o seu contrato. Podemos ficar
com você aqui na estalagem. Já não somos tão jovens, você sabe. Vamos precisar de alguém que
nos ajude com o serviço. Hannah recostou-se ao banco. A oferta a surpreendia, embora não pudesse
dizer que se sentia feliz com ela. Quando o Sr. Webster comentara pela primeira vez em ir para o
Oeste, ficara preocupada, desapontada até. Agora, porém, após ouvi-lo falar tanto com os outros
homens sobre as esperanças e sonhos que tinham com relação à terra nova, uma certa ansiedade
agradável começara a brotar em seu coração.
— É muita gentileza sua, Sra. MacDougall... — conseguiu murmurar. Mas interrompeu-se,
ouvindo vozes masculinas na estalagem. — Acho que a senhora tem fregueses. Vou chamar as

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crianças. — Ela se levantou e pegou uma bandeja com algumas canecas limpas, para levá-las até o
cômodo da frente. As palavras da outra mulher tinham-na deixado um tanto confusa. Era estranho
ter a decisão de seu futuro diante de si, daquela maneira. Sua vida já não era sua havia tanto tempo!
Parou ao ver as crianças. Prometera a Priscilla que tomaria conta delas. Poderia deixá-los partir
sem sua companhia para um futuro incerto e talvez perigoso?
— Ora, ora, Webster! Você não me disse que, em Filadélfia, as criadas têm cara de anjo!
A voz forte, profunda, fez Hannah voltar-se para o grupo de homens que acabava de entrar.
Randolph estava entre eles, bem como outros que ela já conhecia. Mas foi o homem alto, à frente
dos demais, que chamou-lhe a atenção. Apesar do aspecto rude, da barba por fazer, Hannah não
pôde deixar de olhá-lo com certa admiração.
— E não é só o rosto! — ele continuava. — Ela toda parece ter vindo do céu! — O sorriso dele
mostrava dentes brancos por entre a barba e o bigode.
O homem deu dois passos em sua direção, afastou sua capa de peles e cumprimentou-a,
curvando o corpo para a frente.
— Estes cavalheiros querem cerveja, senhorita, por favor. Traga-me um caneco, também,
embora eu possa jurar que o mero prazer de olhá-la já seria suficiente para matar a sede do
demônio.
Hannah olhou para o patrão, que observava o recém-chegado com expressão de espanto. Os
outros homens riam. Ela reconhecia entre eles Amos Crawford e Hugh Trask, um homem esquisito,
que sempre a deixava pouco à vontade quando visitava a casa dos Webster.
Hannah estava prestes a responder ao estranho quando Trask veio, por entre os outros, e passou
um braço por sua cintura, quase fazendo-a derrubar a bandeja que trazia.
— O capitão está certo — ele disse, inclinando-se sobre ela. — Estamos com uma sede e tanto,
doçura!
Sede de cerveja e de algo mais, talvez...
Segurando a bandeja com mãos firmes, Hannah soltou-se do abraço desagradável, que a fazia
perder o equilíbrio.
— Desculpe, senhor — disse, numa expressão de desagrado.
De repente, a bandeja foi retirada de suas mãos pelo estranho barbado, o qual, lançando um olhar
feroz a Trask, amparou-a com mão gentil.
— Acho que você devia aprender corno tratar uma dama, Trask! — E voltando-se para a
Hannah: — A senhorita está bem?
Randolph Webster, então, adiantou-se, colocando-se entre Trask e Hannah. Falou, dirigindo-se
ao estranho:
— Ela não é criada do bar, Reed. Hannah... bem... mora comigo.
O homem ergueu de leve as sobrancelhas. Sorriu, então, e ergueu as mãos, numa desculpa.
— Sinto muito, senhorita. Achei que... Bem, disseram-me que você era viúvo, Webster.
— Sim, eu sou. Quero dizer...
Hannah deu alguns passos atrás, até a relativa segurança representada pela cozinha e, de lá,
encarou o estranho para falar, alto e claro:
— Meu nome é Hannah Forrester. Sou empregada do Sr. Webster.
O homem olhou rapidamente para Randolph, comentando:
— Então ele é um homem de muita sorte. Aquele estranho era diferente dos outros homens ali
presentes. Talvez não tanto na aparência. Hannah não sabia como descrever o que lhe passava pela
mente em relação a ele. Era muito alto e forte, e sua calça não era de lã ou tecido, mas de pele de
corça, talvez, e vestia-o com uma elegância atraente, que ela jamais notara nos homens que
costumavam freqüentar a taverna.
Resolveu dar mais um passo para a cozinha. O estranho não parava de olhá-la.
— Acho que... querem cerveja... — ela disse, tentando manter o tom natural da voz.
Randolph Webster já recuperara o autocontrole. Deu alguns tapas amigáveis nas costas do
homem.

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— Não se preocupe por ter entendido mal a situação, Reed. Tenho certeza de que Hannah não se
importará em nos trazer algo para beber se minha sogra estiver ocupada na cozinha. Você nos faria
esse favor, Hannah?
Ela respirou fundo e baixou os olhos.
— Sim, senhor. Com licença... — Esticou os braços para pegar a bandeja que o homem ainda
segurava.
— Ethan Reed, moça — apresentou-se. — Ao seu dispor. Tenho muito prazer em conhecê-la.
Ele se inclinou mais uma vez, de modo afetado, como se estivessem num local muito elegante. E
seus olhos encontraram os dela de novo.
Hannah voltou-se depressa para a cozinha. A Sra. MacDougall tirara o avental e estava
enxugando as mãos. Ouvira o que se passara na taverna e disse apenas:
— Deixe que eu os sirvo. Hannah negou com a cabeça.
— Não. Pode deixar.
Com a ajuda da senhora, ela preparou uma bandeja com queijo, carne de frango e pães. Seu
coração parecia ter voltado ao ritmo normal, dando-lhe a sensação de que reagira ao olhar do Sr.
Reed de modo diferente apenas porque estava muito cansada.
— Quem é aquele homem? — Hannah perguntou, quase sem perceber.
— Ora! Aquele é o capitão Reed. Ele estava com os patrulheiros Rogers, sabe? Estiveram por
aqui há dois anos, mais ou menos, com alguns selvagens.
— Ele é capitão?
— Bem, acho que não é mais. A guerra já acabou, você sabe. Os franceses retrocederam até o
Canadá, e os índios se acalmaram, com exceção, é claro, daquele tal Pontiac.
Hannah ergueu a bandeja pesada e olhou para a porta que levava à taverna.
— Os... patrulheiros eram todos tão... grandes? A Sra. MacDougall riu.
— O capitão Reed não é grande, querida. É forte. Um belo espécime do sexo masculino, se é que
posso dizer assim.
— E o que ele está fazendo junto com o Sr. Webster? O sorriso da senhora desapareceu.
— Bem, talvez você possa perguntar a ele, Hannah, Tenho muito receio de que esteja aqui para
levar você, Randolph e minhas crianças queridas para muito, muito longe daqui!
O sol se pusera havia bastante tempo, e a noite estava fria demais, como se o inverno fosse voltar
a qualquer momento. Hannah se levantou para fechar as janelas da taverna e voltou à cadeira de
balanço, bocejando. No outro canto da sala, os homens ainda discutiam e observavam os mapas do
capitão Reed. Randolph Webster tinha Jacob sentado em um joelho, e Peggy abraçada às suas
costas. As crianças ficavam tão pouco junto ao pai nos últimos tempos, que não queriam afastar-se
dele nem por um segundo. No entanto, Hannah sabia que os dois estavam cansados. Gostaria de
poder voltar com eles para casa. O calor da lareira aquecia-lhe as faces e dava-lhe sono, fazendo-a
querer retornar ao aconchego de sua cama.
— Acho que eles a fizeram trabalhar demais, Srta. Forrester.
Aquela voz forte e profunda surpreendeu-a mais uma vez. Endireitou-se na cadeira e voltou-se
para ver o capitão.
— Já é tarde para as crianças... — ela murmurou.
— Mas não são as crianças que estão exaustas diante do calor do fogo, como um gatinho
aconchegado. Os olhos escuros dele pareciam sorrir.
Hannah não conseguia encontrar palavras. Não estava acostumada a conversar com homens. Sua
mãe sempre a mantivera afastada deles; tinha seus próprios motivos. Hannah quase podia ouvi-la
dizendo: "Não quero que siga os passos de sua mãe, querida. Não se iluda com o primeiro bonitão
que aparecer para depois ser jogada na sarjeta como eu fui, grávida e sem um centavo no bolso!"
Hannah ouvira isso durante toda sua infância.
— Eles a alimentam corretamente, senhorita? — A voz do capitão chamou-a de volta à
realidade.
Aquela pergunta pareceu-lhe absurda.

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— É lógico que sim, capitão Reed! — respondeu, indignada. — Agora, se me der licença, acho
melhor eu pegar as crianças e levá-las para casa.
Ele deu alguns passos ao redor da cadeira e aproximou-se mais da lareira, agachando-se. A
posição parecia natural para ele, como se estivesse acostumado a ficar em lugares onde não havia
cadeiras disponíveis.
— Achei que talvez pudéssemos conversar, moça. Já faz muito tempo que não falo com uma
mulher.
Não foram as palavras, mas o sorriso dele que a manteve sentada. Olhou para os outros homens,
entretidos em sua conversa, no outro canto, e perguntou:
— Não devia estar presente à discussão? Parece que estão planejando rotas ou... algo parecido.
— Minhas rotas estão bem aqui — ele apontou a têmpora direita com o indicador. Seus cabelos
escuros eram longos, e não estavam presos em trança como era o costume geral, e as costeletas
realçavam a firmeza de seu maxilar.
— Conhece bem as regiões selvagens? — Hannah perguntou após alguns instantes.
Ele tornou a sorrir.
— Olhe, não costumo me gabar, mas, só de olhar uma das margens do rio Ohio, posso lhe dizer
quantos ratos estão entocados na outra.
Ela riu. Aquela falta de modéstia irritava-a e fascinava-a ao mesmo tempo. Ali estava um homem
que conhecia de fato a terra que o Sr. Webster descrevera com tanto entusiasmo.
— A terra é tão boa e rica como dizem? E tão linda também?
— O vale do Ohio é mais rico do que qualquer terra conhecida. Logo, logo, as pessoas vão estar
implorando para possuir um pedaço de terra por ali. Vocês têm sorte em serem uns dos primeiros a
chegar lá.
— E o senhor? Também já tem suas terras? Ele abanou a cabeça.
— Não sou do tipo que se estabelece, Srta. Forrester. Penso da seguinte forma: por que devo me
limitar a um pedaço do paraíso se posso andar por ele todo, à vontade?
— Mas agora, com todas as famílias que estão indo para lá, o senhor não se sentirá tão
independente...
— Os pedaços de terra que vocês irão colonizar não mudarão muito o aspecto da região.
— Mas o Sr. Webster disse que as terras a serem ocupadas se estendiam por mais de duzentos
acres!
Reed riu alto dessa vez.
— Há centenas de milhares de acres por lá. Sua porção é minúscula diante de tudo.
Hannah voltou os olhos para o fogo.
— Minha porção, não, capitão. Estou indo apenas para cuidar das crianças do Sr. Webster.
Dentro de três anos voltarei para cá para procurar emprego.
Reed guardou silêncio por longos momentos. Quando Hannah tornou a encará-lo, ele a fitava
com um meio sorriso nos lábios.
— Eu não apostaria nisso — disse, suave. Hannah queria desviar o olhar de novo, mas o dele a
atraía demais.
— Por que não? -— perguntou, tendo a boca seca de repente.
— Porque Webster não é tolo.
Era a segunda vez no mesmo dia em que ela ouvia insinuações a respeito de seu relacionamento
com o patrão. Segurou com firmeza os braços da cadeira e disse:
— O Sr. Webster é meu patrão, capitão Reed. E acabou de perder a esposa, que amava. E, se
vamos viajar todos juntos, eu agradeceria se não o embaraçasse com seus comentários maldosos.
Reed não se deu por vencido.
— Se não for Webster, será algum outro homem, Srta. Forrester. Há escassez de mulheres na
fronteira.
Hannah levantou-se de repente, deixando a cadeira balançar.
— Pois não estou disponível, capitão. O Sr. Webster tem um contrato para meus serviços, e é só

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isso! No futuro, eu gostaria que o senhor guardasse suas especulações sobre meu destino para si
mesmo!
Reed levantou-se também, e seu peito pareceu enorme diante de Hannah.
— Sim, senhorita — respondeu, com um sorriso irônico.
— Obrigada. Boa noite. — Ela se voltou e afastou-se. Reed ficou observando-a cruzar a sala e
erguer o pequeno Jacob nos braços, tirando-o, adormecido, do colo do pai.
Hannah já limpara muitas vezes o pequeno escritório nos fundos da casa dos Webster, mas essa
era a primeira vez em que se sentava na cadeira atrás da escrivaninha de Randolph Webster.
Passava pouco da hora do almoço.
Peggy e Jacob estavam brincando com alguns amiguinhos da vizinhança. Ela os estivera
observando pela janela, pensando que logo iriam deixar os coleguinhas para trás. De repente, sentiu
a presença do patrão logo atrás.
— Está ocupada, Hannah?
Ela deu um pulo na cadeira, tendo de imediato uma opressiva sensação de culpa. Quase nunca
podia desfrutar de um momento de descanso como aquele no meio do dia. Mas o Sr. Webster não
pareceu se importar com isso e não a admoestou.
— Talvez pudesse me conceder alguns minutos... — continuou.
Hannah assentiu. Passou o olhar pelas estantes, onde estavam guardadas contas e documentos do
próprio Webster e de amigos e conhecidos. Mais uma vez, ela se perguntou sobre a decisão daquele
homem em abandonar a civilização para se aventurar em uma vida de agruras em meio ao Oeste
selvagem. Bem, afinal, também na fronteira contadores seriam necessários um dia... Randolph
olhava-a, quieto, calmo, e isso passou a incomodá-la. Hannah levantou-se da cadeira e baixou a
cabeça, à espera do que ouviria.
— Acho que... não tenho sido um patrão muito atencioso — ele começou, pouco depois.
Aquelas palavras surpreenderam-na. Pareciam um pedido de desculpas.
— O senhor está sofrendo muito ainda. Eu entendo.
— Você está sendo maravilhosa para com as crianças. Elas sentem falta da mãe, mas não sei
como estariam se você não estivesse aqui.
— Gosto muito deles.
— É. Eu sei. Tenho pensado muito, Hannah, e acho que não estou sendo justo ao pedir que me
acompanhe nessa viagem ao Oeste.
— Meu contrato não especifica onde devo prestar meus serviços, Sr. Webster. E acho que o
senhor e sua falecida esposa sempre foram muito bons para mim.
Randolph assentiu de leve.
— Meus sogros querem comprar seu contrato. Hannah engoliu em seco. Pensara nisso durante a
manhã toda. Não seria ruim viver com os MacDougall; eram pessoas honestas e agradáveis, e tinha,
certeza de que, junto deles, aqueles três anos passariam bem depressa, No entanto, se ficasse em
Filadélfia, jamais veria aquela terra maravilhosa que Randolph já lhe descrevera.
Ele a observava em silêncio. Suas feições endurecidas tinham se suavizado um pouco e agora
parecia um garoto fazendo um pedido mudo a alguém para embarcar numa aventura irresistível.
De repente, Hannah percebeu que sua decisão já estava tomada.
— Sr. Webster, em Londres, quando minha mãe ficou muito doente para poder trabalhar,
tivemos de nos mudar para um asilo. Vivi lá, com mais quarenta pessoas, numa sala que tinha o
tamanho de seu escritório. Ao vir para a América, viajei num porão de navio que cheirava mal,
junto com mais de cem imigrantes. Quando o senhor me fala de uma terra vasta e maravilhosa, na
qual se pode andar um dia inteiro sem ver outro ser humano, imagine o que sinto! — Os olhos azuis
brilhavam. — Se o senhor e as crianças quiserem, irei com vocês com a maior alegria!
Randolph pareceu aliviado com aquela resposta. Não sorriu, mas a tensão que se percebia em seu
rosto desapareceu.
— Queremos que vá, sim, Hannah. Sabe, as crianças... gostam muito de você.
— Então está combinado. Por favor, agradeça à Sra. MacDougall pela oferta e pela preocupação

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comigo.
Ele assentiu. Nada mais disse, mas continuou olhando-a com atenção.
— Deseja mais alguma coisa, senhor?
— Não, não... Obrigado, Hannah.
Ela voltou-se para sair, mas a voz do patrão a fez parar junto à porta.
— Ah, Hannah, só mais uma coisa: por favor, prepare o quarto dos fundos. O capitão Reed virá
para cá esta noite e ficará conosco até a viagem.
Hannah estranhou o que lhe aconteceu ao ouvir o patrão mencionar o nome daquele homem. Seu
coração disparou e sua respiração tornou-se mais rápida.
— Certo, senhor.
— Reed pareceu ter gostado de conversar com você ontem na estalagem, não? — Randolph
comentou num tom estranho.
— Ele disse que não tem conversado com mulheres ultimamente e, a julgar pelos seus modos, é
fácil imaginar por quê.
Randolph sorriu.
— É. Não se pode culpar um homem por se aproximar de uma moça bonita.
Hannah sentiu-se ruborizar. Era a primeira vez que o patrão fazia um comentário sobre sua
aparência pessoal. Também os olhos dele tinham uma expressão diferente, que a fez baixar os seus
até o chão.
— Vou preparar o quarto para o capitão — disse e saiu depressa dali.

CAPÍTULO DOIS

Ethan Reed passara o ano anterior com um grupo de patrulheiros, mapeando o território
desconhecido ao longo do rio Monongahela, ao norte do Ohio. Estivera, no inverno anterior, no
forte Pitt, construído pelos ingleses no local onde fora um dia o forte francês Duquesne. Como
dissera à Srta. Forrester na noite anterior, já fazia muito tempo que não se aproximava de uma
mulher; em especial, de uma tão bonita quanto ela.
Agora, lá estava ele, no limiar da porta, vendo-a fazer velas, uma a uma, muito compenetrada no
trabalho para percebê-lo. Ele aproveitou o momento para observá-la com atenção. Frágil demais,
talvez, para os rigores da vida no Oeste; mas graciosa, com certeza. Ela não usava touca, e seus
cabelos claros caíam, presos a uma única trança, por suas costas, chegando-lhe à cintura.
Ao se voltar, em dado momento, Hannah o viu. Seu corpo todo ficou tenso.
Uma garota assustada, pensou Reed. Como a pequena corça que tentara domar no outono
passado, e cuja mãe outro patrulheiro matara. Ethan tentara convencer o animalzinho a confiar nele,
com paciência e calma, mas ela sempre o olhava com aqueles grandes olhos cheios de medo e
pulava para longe cada vez que ele tentava se aproximar.
Os olhos da Srta. Forrester não mostravam medo, mas estavam carregados de desconfiança. Reed
ficava imaginando se ela dissera a verdade sobre Webster. Aquele sujeito devia ser tolo ou cego
para não se interessar por ela.
Era lógico que Webster ainda estava de luto, mas Ethan Reed sabia que, se tivesse uma garota
como aquela vivendo em sua casa, faria muito mais do que apenas notá-la...
— O senhor me assustou, capitão.
— Desculpe, senhorita. Eu devia ter me anunciado. Mas a vi rodeada por essas velas, seus
cabelos brilhando como ouro à sua luz, e fiquei imaginando que poderia estar diante de um anjo...
Hannah afastou alguns fios dourados que lhe caíam sobre a testa.
— Capitão Reed, não acho que o senhor deva falar assim comigo. Sou criada do Sr. Webster.
Reed entrou na casa e tirou o chapéu de três pontas.
— Acredito que vá deixar esses rótulos para trás quando chegarmos ao rio Ohio, senhorita. Lá,
todos são criados. Quem não trabalha não sobrevive.

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Os olhos dela se abriram mais conforme Ethan Reed se aproximava. Ele agora estava barbeado e
vestido com roupas de corte mais elegante. Ainda assim parecia incrivelmente grande aos olhos de
Hannah. Daquele jeito, asseado e bem vestido, o capitão Reed passaria com facilidade por um fino
cavalheiro da cidade grande, como aqueles que freqüentavam os clubes elegantes de Londres. Sua
mãe sempre a alertara contra esse tipo de homem, cuja bela aparência era um perigo para garotas
desavisadas. "Fique longe deles, meu amor. Só sabem usar palavras bonitas para nos iludir. Depois
esquecem de nós e nos jogam à sarjeta!" Havia tanto desespero na voz de sua mãe ao lhe dizer tais
coisas...
— Talvez não saiba que sou criada desta casa por contrato, senhor, e não por opção.
O olhar firme dele parecia poder ver sua alma.
— Os contratos também não significam muito no Oeste, senhorita.
— Mesmo assim. Pretendo honrar meu compromisso com o Sr. Webster.
— Bem, saiba que essa viagem não será nenhum piquenique. — Ele passou os olhos por tudo o
que havia ao seu redor para depois acrescentar: — Você não poderá levar tudo o que há por aqui.
— Acredito que o Sr. Webster irá vender a maioria de seus pertences. Ele tem passado os
últimos dias empacotando o que é essencial. Vamos levar poucas coisas.
— Eu vi o que ele separou no estábulo e disse-lhe para diminuir a quantidade de coisas em dois
terços. Vamos ter pouco mais de uma trilha para seguirmos até o forte Pitt, onde poderemos nos
abastecer. De lá, viajaremos em barcos.
— Pensávamos em levar a penteadeira de Priscilla para Peggy... — comentou Hannah, numa
espécie de queixa.
Ethan Reed negou com a cabeça.
— Diga aos avós dela para guardarem-na em sua casa, para quando ela crescer. Talvez, um dia,
as estradas para o Oeste venham a ser melhores, mais largas, mas não agora.
Hannah concordou. Sentia muito pela garotinha órfã que agora tinha de deixar para trás também
os últimos laços com a mãe. Hannah, porém, passara por sacrifícios maiores em sua infância. Sua
mãe sempre lhe dizia que aquilo que não mata torna a pessoa mais forte.
— Vou falar com os MacDougall. Eles têm muito espaço em sua casa para guardar as coisas da
Sra. Webster.
Ethan sorriu.
— Gosto de sua atitude, Srta. Forrester. A maioria das mulheres não é capaz de se afastar de
seus pertences sem armar uma confusão.
— Eu mesma não tenho nada de precioso para levar, capitão. Falei apenas pela menina.
Não havia amargura, nem auto piedade naquela jovem, Ethan reconhecia. O que parecia haver
nela era uma força de caráter que lhe seria muito útil na fronteira.
As costas de Hannah estavam doendo de novo. Passara o dia todo preparando velas para as
semanas que viriam, e seus músculos estavam muito doloridos.
— Foi um dia longo e exaustivo, não? — observou o Sr. Webster, pendurando o chapéu ao lado
da porta de entrada.
Hannah sorriu para o patrão. Desde aquela conversa, no escritório, as observações dele pareciam
mais gentis.
O dia fora como muitos outros: uma mistura de afazeres domésticos e crianças, mas ela notara,
mais de uma vez, o olhar de Randolph. No jantar, ele elogiara sua comida, que, na verdade, nada
tinha de especial. A presença do capitão, no entanto, tornara a refeição mais animada do que de
costume. Ele contara histórias sobre o Oeste, e as crianças ficaram tão excitadas com elas que
pediram para partir no dia seguinte.
— Pensei que o senhor ficaria até mais tarde na taverna com o capitão e os outros homens —
Hannah comentou, querendo parecer casual.
— O barulho estava me dando dor de cabeça. Preferi voltar para casa e pôr as crianças na cama.
Aquilo a fez pensar na injustiça que havia em privar filhos do carinho da mãe. A vida era injusta,
com certeza.

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— Jacob já dormiu, senhor, mas acho que Peggy ainda está acordada, brincando.
— Vou subir e verificar. Depois... — Ele olhou para a mão de Hannah, que ainda massageava de
leve a cintura dolorida. — Está cansada demais ou poderia fazer mais um pequeno serviço?
Hannah procurou endireitar a coluna.
— Estou à sua disposição. O que quer que eu faça?
— Quero que me ajude. Precisamos rever os objetos que eu pretendia manter e decidir quais terei
de deixar aqui. O capitão disse que não posso levar uma carga muito grande.
— Sim, senhor. Ele me falou a mesma coisa. Webster pareceu aborrecer-se de repente.
— Quando ele lhe disse isso?
— Esta tarde. Eu estava na cozinha quando o capitão chegou.
— Não há necessidade de que ele lhe diga o que fazer, Hannah. O capitão será nosso guia, nada
mais do que isso. Se quiser, posso pedir a ele que não fale com você, a não ser quando necessário.
— Oh, por favor, não! Ele não me aborrece, senhor.
— Se aborrecer, é só me dizer. Talvez eu não devesse lhe dizer isso, mas... o capitão Reed tem
uma certa reputação com as mulheres... Entende?
— Mas, pelo que diz, ele passou os últimos dois anos entre ursos, índios selvagens e soldados
piores ainda.
— Talvez por isso mesmo seja melhor ele ficar longe de você. O que sei é que foi criado em
Boston, veio de boa família e partiu de lá de modo um tanto estranho, em circunstâncias que
envolviam o nome de uma mulher.
Hannah suspirou e endireitou o dorso dolorido mais uma vez.
— Obrigada por se preocupar, senhor, mas não acredito que o capitão Reed represente qualquer
tipo de perigo para mim.
— Bem, é minha responsabilidade cuidar de você e, se alguém tentar molestá-la, diga-me de
imediato.
Hannah não gostou do tom possessivo que percebeu na voz de seu patrão. Vivia há quase três
anos naquela casa, e ele sempre a tratara com certa indiferença; agora, porém, parecia tão
preocupado... O comentário da Sra. MacDougall voltou-lhe, de repente, à memória, mas procurou
evitá-lo.
— Cresci nas ruas de Londres, Sr. Webster, e não num convento. Posso cuidar de mim mesma.
Webster assentiu.
— Eu sei. Como sei também que tem cuidado muito bem de nós todos nos últimos meses.
— Faço o que posso, senhor. Acho melhor eu ir para o estábulo e começar a verificar o que já foi
empacotado.
— Tem certeza de que não está cansada demais?
— Estou bem.
— Você é muito trabalhadeira. E pretendo cuidar melhor de seu futuro.
Hannah não soube o que responder. Sentia o olhar do patrão seguindo-a conforme se dirigia à
porta do escritório.
Hannah não gostava de passar por aquela rua. Fora ali, quase um ano atrás, que o jovem Johnny
Baker morrera, quando alguns tijolos se haviam desprendido de um forno e caído sobre sua cabeça.
O rapaz, filho dos donos da padaria, sempre fora muito gentil com ela e até Priscilla fizera alguns
comentários a respeito disso.
Hannah, porém, sabia que Johnny flertava com todas as garotas da vizinhança. Mesmo assim,
sua morte a abalara muito. A mãe do rapaz, Elisa, quase enlouquecera de desespero, e Hannah se
acostumara a ficar com ela em seus momentos de folga. Johnny era filho único, e sua morte parecia
ter posto um fim à vida de seus pais também.
Hannah passou pela trilha de tijolos que levava à entrada da casa pequena e que era rodeada de
flores azuis muito claras e delicadas. Os Baker também viajariam para o Oeste e sentiriam falta
daquela casinha encantadora, com certeza. A oferta de um imigrante alemão pela casa parecera
libertar o casal, já de idade, de seu sofrimento pelo filho. Seth Baker parecera recuperar o antigo

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entusiasmo pela vida e juntara-se a Webster, Trask e Crawford para a jornada até o Ohio.
— Como está, minha querida? — perguntou a Elisa Baker, aparecendo na janela da frente. —
Você veio cedo hoje!
— Trago um recado do Sr. Webster — respondeu Hannah, sorrindo.
A senhora saiu da janela e veio abrir a porta.
— Entre, meu bem. A manhã ainda está muito fria. A cozinha da Sra. Baker tinha um adorável
cheiro de ervas e de pão fresco.
— Tire a touca e tome um pouco de cidra — ofereceu a velhinha, pegando uma caneca e
enchendo-a com o líquido quente que mantinha num bule sobre o fogão. — Coma um pouco de pão
também. Acabei de fazer.
Hannah tornou a sorrir.
— Não posso me demorar hoje. Preciso ir também à casa dos Trask e dos Crawford.
— Vai poder ficar tempo suficiente para comer e beber algo quentinho.
— O Sr. Baker não está em casa? — Hannah pegou a caneca fumegante.
— Está lá fora com o Sr. Gutmueller. Espero que estejamos fazendo a coisa certa. Seth está
sentindo tanto deixar os negócios para um estranho! Mas... como ele poderia continuar aqui se todos
os dias passa pelo local onde Johnny...
Hannah assentiu, antes que a mulher terminasse.
—Vocês agora estão fazendo planos para uma nova vida. Será para melhor, com certeza, Elisa.
— Eu sei. Não vou mais aborrecer você com minhas preocupações, querida.
Hannah colocou a mão sobre a da Sra. Baker.
— Você não me aborrece. Eu apenas gostaria de fazer algo para aliviar sua dor. E a do Sr. Baker
também. Vocês me ajudaram tanto quando a Sra. Webster faleceu!
As duas mulheres sorriram, conscientes da amizade que tinham uma pela outra.
— Foi um fardo muito pesado para você, Hannah. Ainda é. As crianças, e Randolph bebendo
sempre um pouco além da conta...
— Ele já está bem melhor agora, cheio de planos e preocupações com a viagem.
Elisa cortou uma fatia de pão e ofereceu-a à amiga.
— É. Os homens são assim mesmo. Esquecem tudo por um pouco de aventura. Nós, mulheres,
ficamos com a dor e o sofrimento. — Olhou para a parede dos fundos, como se pudesse ver o
marido no quintal, além dela, vendendo o que representava o trabalho de uma vida inteira.
— Talvez a vida seja mais fácil para eles — Hannah concordou. Também ela sofrerá muito com
a morte da mãe. Também ela queria pôr um pouco de aventura em sua vida para esquecer as
tristezas.
— Eu não sei... Mas vou fazer o possível para que tudo dê certo para Seth.
— De acordo com o que o capitão Reed diz, vamos todos ter de nos dedicar bastante.
Elisa pensou notar algo diferente no tom de voz da moça. Olhou-a com atenção.
— Ele fala muito, não? — perguntou.
— As crianças ficaram encantadas com as histórias que ele contou. — Hannah levou o pão à
boca. — Preciso ir — disse, mastigando-o. — Vim para avisá-la de que todos se encontrarão
amanhã à noite na casa dos MacDougall, para uma festa de despedida.
— Que bom! Vou levar o Sr. e a Sra. Gutmueller. Hannah deu-lhe abraço rápido, despedindo-
se:
— Tudo vai dar certo, Elisa. Você vai ver.
A casa dos Crawford era uma construção antiga, malcuidada, que precisava de pintura e reparos.
Hannah não conseguia imaginar Amos Crawford trabalhando numa casa, num local selvagem, já
que não tinha habilidade sequer para um pequeno conserto. Bem, ele seria, ao menos, outro homem
capaz de proteger as mulheres e as crianças. Além disso, o pequeno Benjamin Crawford era o
melhor amigo de Jacob, e ambos já brincavam de desbravadores da fronteira.
O próprio Benjamin veio abrir a porta, mas logo foi empurrado para longe de Hannah pelo irmão
de sete anos, Thomas.

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— Eu disse que eu ia abrir a porta, Ben! — ele protestou, e ambos começaram uma luta que os
fez rolar pelo chão.
— Mamãe! Tom e Ben estão brigando de novo! — gritou a pequena Patience, enquanto sua irmã
gêmea, Hope, pulava e agitava os braços, alegre.
Martha Crawford apareceu à porta que levava à cozinha. Era uma mulher muito bonita e
elegante, mas um tanto abatida e castigada pelo excesso de filhos e de tarefas domésticas.
— Parem com isso! — gritou, mas não foi obedecida. Sem se importar, passou pelos garotos que
ainda brigavam e sorriu para a recém-chegada. — Como está, Srta. Forrester?
Hannah olhou para o chão, onde, agora, as quatro crianças se engalfinhavam, e deu logo seu
recado. Quando terminou, Amos Crawford apareceu, vindo da sala dos fundos. Olhou para os filhos
e respondeu:
— Sim, iremos até lá. Já estamos arrumando nossas coisas para a viagem.
— Quer que eu leve algo para a festa? — perguntou sua esposa, num sorriso gentil e cansado.
— Não, não. Será tudo por conta dos MacDougall — Hannah falava alto, para que os gritos das
crianças não abafassem sua voz. — Até amanhã, então! Tenham um bom dia!
Saiu de lá depressa, impressionada com a confusão, e passou pelo portão que caía aos pedaços.
Hannah deixara a casa dos Trask por último. Não queria rever Hugh Trask, após o que ele fizera
na taverna, na outra noite. Quase podia sentir a mão embrutecida daquele homem em sua cintura. E
aquela não fora a primeira vez em que ele a fizera sentir-se embaraçada e aborrecida. Sempre que ia
à casa dos Webster, Hugh fazia algo desagradável ou dizia coisas tendenciosas. Era uma pena que
os Trask fossem também naquela viagem. Porém Nancy era uma mulher jovem e agradável, e suas
duas filhas, Janie e Bridgett seriam boas coleguinhas para Peggy.
Hannah sentiu-se aliviada ao ver que Hugh Trask não estava em casa. Deu seu recado
rapidamente e foi embora logo. Mas seu alívio desapareceu quando chegou ao pequeno morro antes
da estrada que a levaria de volta para casa. Hugh vinha em sua direção e não havia como evitar
aquele encontro desagradável.
— Olá, Hannah! O que fazia em minha casa? — Ele parou diante da moça, obstruindo-lhe o
caminho.
— Vim para dizer que nos reuniremos todos amanhã à noite. Falei com a Sra. Trask.
— Você não precisava ter saído com tanta pressa. Minha esposa está grávida de novo, seria bom
para ela ter alguém com quem conversar a respeito.
Hannah já suspeitava daquela gravidez, mas Nancy era muito reservada, não comentara nada
com ninguém da cidade. Como Hugh Trask era capaz de expor a esposa naquele estado a uma
viagem tão perigosa? Se não fosse uma simples criada, Hannah diria a ele o que pensava a seu
respeito. Mas, na atual situação, queria apenas ver-se livre da presença dele.
— Desculpe-me... — Procurou passar. — Tenho muito a fazer ainda.
Trask segurou-a pelo cotovelo.
— Acha, por acaso, que é boa demais para ficar um pouco em minha casa, moça?
Ela tentou se soltar, mas os dedos daquele homem eram tão firmes...
— É claro que não, Sr. Trask. Mas estamos a apenas dois dias da viagem. Estou certa de que o
senhor e sua esposa têm também muito a fazer.
O homem puxou-a mais e encostou sua perna às dela.
— Nunca estou ocupado demais para certas companhias — disse, com uma espécie de risada
abafada.
Hannah engoliu em seco.
— Por favor, deixe-me ir, Sr. Trask.
Ele baixou a cabeça, e Hannah cerrou os olhos enojada.
— Não sei se devo ou se quero soltá-la.
De repente, a mão de Trask foi afastada do braço de Hannah por um puxão violento. Ele deu
alguns passos cambaleantes para trás e voltou-se. Hannah abriu os olhos e encontrou o rosto sério,
zangado e bonito do capitão Ethan Reed.

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 Nos Braços do Destino – CH nº 88 – Ana Seymour 
— O que está havendo por aqui, Trask? — ele perguntou.
O homem massageava o ombro no local onde a mão do outro o puxara.
— Nada — respondeu, de cara amarrada. — Por que está me procurando?!
Ethan voltou-se para Hannah.
— Este homem a estava aborrecendo, Srta. Forrester? Ela olhou para ambos. Queria dizer que
sim, mas uma criada não devia reclamar de um homem que apenas a segurara pelo braço. Muitas já
haviam passado por coisas piores.
— Não. Está tudo bem, capitão. Obrigada por se interessar.
— Por que não cuida de sua própria vida, Reed? Está sendo bem pago para nos guiar, não para
interferir em nossas vidas.
— Assim que estivermos a caminho, Trask, sua vida e as de todas as outras pessoas do grupo
estarão em minhas mãos. Eu ditarei as regras, então. E minhas normas dizem que é melhor você se
comportar.
Trask ia responder algo, mas preferiu dar-lhe as costas e dirigir-se a sua casa.
Ethan viu-o afastar-se e voltou-se para Hannah, sorrindo.
— Agora pode me dizer a verdade. Você está bem? Ela assentiu e procurou retribuir o sorriso.
— Você está tremendo — ele insistiu.
— Não... É que... — Mas as palavras lhe fugiam. Ethan passou-lhe um braço confortador sobre
os ombros, depois afastou-se um pouco.
— Quero que me diga, caso ele se aproxime de você outra vez.
— Sim, senhor.
— Quer que eu a acompanhe até sua casa?
— Não, obrigada. Não é necessário.
Ele tocou de leve a aba do chapéu antes de dizer:
— Até a noite, então. — E afastou-se pela estrada. Hannah retomou seu caminho, pensativa.
Aquela situação era irônica: jamais precisara ser protegida por um homem, e agora Ethan Reed
oferecia-lhe proteção contra Trask, e Randolph Webster, contra Reed. Mas, como sua mãe
costumava lhe dizer, podia muito bem cuidar-se sozinha. Não precisava aceitar nenhuma daquelas
ofertas.

CAPÍTULO TRÊS

Peggy Webster veio para o salão da taverna trazendo uma bandeja com iguarias, orgulhosa por
estar servindo os convidados como sua avó e Hannah. Janie e Bridgett Trask apenas a olhavam,
sentadas junto à mãe, caladas como sempre. Ninguém parecia notá-las, exceto Peggy. Seu pai, po-
rém, Hugh Trask, era notado por todos, com seus modos grosseiros, sua voz forte e sua risada
desagradável. Peggy não gostava dele, e ficaria contente se aquela família não participasse da
jornada para o Oeste.
— O feijão já está pronto, Peggy — disse a Sra. MacDougall à neta. — Pode trazê-lo para a
mesa, mas tome cuidado com a travessa.
Peggy sorriu para suas amiguinhas e voltou à cozinha. Jacob, seu irmão, segurou-lhe a saia
quando passou por ele e perguntou:
— Onde estão os Crawford? Eu e Benjie íamos construir um forte lá atrás. Agora já escureceu...
— Não sei deles, Jacob. Talvez ainda estejam ocupados com os preparativos para a viagem.
— Você não quer fazer o forte comigo?
— Não. Estou ocupada agora.
— Posso ajudar também, então?
Peggy era, geralmente, muito paciente com o irmãozinho. Mas, nessa noite, havia muita
agitação, muita ansiedade no ar e em seu coração também.
— Você é muito pequeno! E é menino! — disse, firme, soltando a saia das mãos do pequeno e

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voltando à cozinha.
Jacob passou olhou à sua volta na sala. Seu pai conversava com as amigos: Trask, Baker e o
capitão Reed. Talvez devesse estar ali, entre os homens, pensava o garotinho. Foi, então, até o
grupo, que estava junto à lareira, fumando cachimbos. Havia rolos de fumaça azul subindo e
dispersando-se no ar quente da taverna.
Os homens riam de algo que o capitão dissera. Jacob admirava aquele sujeito; ele parecia ter
estado em todos os lugares possíveis; lutara contra os índios, contra os franceses, até contra um urso
gigante. Ele era fascinante!
— Há ursos lá?
Os quatro homens olharam para baixo, ao ouvir a pergunta de Jacob. O pai ergueu-o nos braços,
mas, já que ia tornar-se um forte menino do Oeste, Jacob achou melhor espernear até que Randolph
Webster o colocasse de volta ao chão.
— Há muitos ursos lá, Jacob — o capitão respondeu, olhando-o de homem para homem,
fazendo-o sentir-se muito bem. — Precisaremos estar sempre alertas, porque caberá a nós, homens,
manter os animais ferozes longe das mulheres.
Os outros três sorriam, mas Reed falava sério, e Jacob dirigia-se apenas a ele:
— Vou estar alerta, capitão. Sempre!
Reed assentiu com gravidade e fez um breve movimento com a mão, referindo-se a seu
cachimbo.
— Você não fuma ainda, estou certo?
O menino negou com a cabeça.
— É. Não é, mesmo, um bom hábito — concordou o capitão no mesmo tom sério.
Na cozinha, Elisa Baker e Jeanne MacDougall retiravam o enorme peru do forno. Hannah pegou
o caldeirão com o feijão e disse a Peggy:
— Deixe que eu levo isso. Está quente demais. Traga a travessa com os nabos.
— Os Crawford não chegaram ainda — observou a menina.
— Bem, o jantar já está pronto. Acho melhor comermos — disse a avó. — Além disso, Amos
Crawford nunca chega na hora certa em ocasião nenhuma!
Hannah sentia a agressividade controlada a custo na Sra. MacDougall. Sabia que ela lutara contra
a dor da partida iminente de seus entes queridos e compreendia sua atitude. Procurava conviver com
seu constante mau humor, embora tivesse notado que ele piorara ainda mais quando Hannah não
quisera que seu contrato fosse vendido à Sra. MacDougall. Talvez a sogra de Randolph tivesse
esperança de que ele desistisse da viagem se Hannah ficasse.
Segurando com força o grande caldeirão de ferro, Hannah voltou ao salão da taverna. Os olhos
de Ethan Reed encontraram-na de imediato, o que o fez interromper o que dizia para ir em seu
auxílio.
— Deixe-me carregar isso, senhorita — ele ofereceu, tomando-lhe a panela das mãos. — É
pesado demais para uma moça tão frágil.
Hannah sentiu as mãos dele roçarem as suas, e enrubesceu ao perceber que todos os presentes os
observavam.
Randolph Webster deixou o cachimbo sobre o aparador da lareira e aproximou-se também.
— Não notei que precisava de ajuda, Hannah — disse, também solícito. — Quer que eu faça
algo?
— Não, obrigada, Sr. Webster. Há bastante gente ajudando lá na cozinha. Tudo já está pronto e...
A porta se abriu para, dar passagem à turbulenta família Crawford, interrompendo Hannah.
Amos trazia uma das gêmeas no colo. Ben e Thomas vinham logo atrás, e, por último, Martha, com
a outra menina. Jacob foi de imediato até Benjamin.
— Vamos ter de ficar alertas por causa dos ursos! — avisou, sem preâmbulos.
— Boa noite, Amos — saudou Randolph Webster. — Entre. Já íamos começar a comer.
Nenhum dos Crawford sorriu em resposta àquelas palavras.
— Quero dizer uma coisa a todos, primeiro.

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— O que houve, Amos? — Randolph preocupou-se logo. Conhecia o amigo desde a infância.
— Não é fácil o que tenho a dizer. — Ele colocou a filhinha no chão e ergueu o corpo devagar.
— Não vamos poder partir com vocês.
Houve um primeiro momento de silêncio, então Hugh Trask falou, em voz alta:
— Você só pode estar brincando! Não pode desistir agora!
Amos não o olhou. Fixava Randolph, e ambos pareciam compartilhar os mesmos sentimentos.
— Qual é o problema, Amos? — Webster perguntou, calmo.
As duas gêmeas tinham corrido para junto de Peggy, de quem gostavam muito, e uma delas
falou:
— Mamãe chorou.
— Não podemos — continuava Amos Crawford, com voz trêmula. — Eu apenas me enganei,
achando que poderíamos. As gêmeas são pequenas demais, quase bebês; os meninos também não
têm idade para poder ajudar em alguma coisa... Martha diz que anda cansada...
Seth Baker ainda fumava junto à lareira. Disse, tirando o cachimbo da boca:
— Você concordou, Amos, como todos nós. E precisamos pagar o capitão, não podemos cobrir
sua parte no dinheiro.
— Nós pagaremos — interferiu Martha. — Mas não iremos. Não vou arriscar a vida dos meus
filhos num lugar cheio de índios selvagens.
— É o que eu digo sempre — a Sra. MacDougall concordou, da cozinha.
— E por que não disse isso há meses, quando começamos a fazer os planos? — Hugh Trask
perguntou a Martha, zangado.
Ela passou o braço pelo do marido, como em busca de apoio para responder:
— Não pensamos muito na época, eu admito. Por isso estamos dispostos a pagar. Mas não
vamos para o Oeste.
— Quase não há mais problemas com os índios agora, Martha — Randolph tentou convencê-la.
— Os franceses já não estão mais do lado deles, pagando-os para matar os ingleses.
— Os franceses podem não estar mais pagando-os — ela retrucou —, mas ouvi dizer que os
guerreiros de Pontiac Ottawa tomaram um forte inglês no mês passado.
Ethan ouvira tudo em silêncio. Então, adiantou-se para esclarecer:
— Os ingleses não permitiriam que colonizadores se estabelecessem naquelas terras se não as
considerassem seguras, senhora. Embora eu deva reconhecer que sempre há perigo. Pontiac é o
maior líder que os índios já tiveram, e costuma ser imprevisível.
— Eles não podem desistir agora, podem, Reed? — perguntou Trask, ansioso.
— Não vejo como forçá-los a ir — o capitão respondeu com tranqüilidade. — Vamos precisar de
pessoas capazes e que queiram, de fato, participar dessa viagem.
Trask olhou para os, outros.
— Minha mulher está grávida de novo, mas nenhum de vocês nos vê reclamar das dificuldades
que teremos de enfrentar.
— A senhora está grávida? — Randolph perguntou, surpreso, para a esposa de Trask.
Nancy enrubesceu e baixou os olhos, sem responder.
— E você acha certo continuar? — Randolph voltou-se para Trask. — Tem certeza de que quer
afastar sua esposa da civilização num momento como este?! Ela vai precisar de cuidados médicos!
Trask deu de ombros.
— A criança vai nascer de qualquer modo; lá ou aqui. Randolph meneou a cabeça e voltou a
falar com os Crawford:
— Não há nada que possamos fazer ou dizer para convencê-los a vir conosco, Amos?
Hannah sentia pena daquele homem. Ele parecia abatido, vendo o sonho de sua vida desaparecer
diante de seus olhos. E as olheiras de Martha Crawford atestavam que, para eles, aquela fora um
decisão muito difícil de ser tomada.
— Já nos decidimos — Amos Crawford respondeu, com firmeza. — Sinto deixá-los, mas...
nossa palavra é final.

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Ethan olhou para as pessoas na sala antes de perguntar:
— Querem adiar a viagem até encontrarem outra família? Posso esperar até a primavera.
— Não — Randolph, respondeu. — Estamos todos preparados para ir. Os Baker e os Trask até já
venderam suas casas. Vamos agora, de qualquer maneira.
— Desculpem-nos — Amos murmurou, acariciando a mão da esposa, sobre seu braço. Seus
meninos tinham as cabeças baixas, estavam muito tristes.
Foi o capitão quem quebrou o silêncio que se seguiu:
— Já que tudo está decidido, vamos comer!
Foi mais difícil deixar aquela casa do que tinham imaginado. Lá ficavam as recordações de
Priscilla, a esposa dedicada, mãe amorosa, mulher doce e meiga.
Peggy chorou ao abraçar com força a avó, na despedida. Jacob se manteve calado; seus planos de
conquista do Oeste junto ao amigo Ben haviam sido bruscamente desfeitos. Randolph demorou a
deixar o quarto que partilhara com a esposa e, quando o fez, seus olhos estavam vermelhos.
Viajaram quase o tempo todo em silêncio. Randolph comprara uma carroça, um cavalo para
puxá-la e duas mulas para levar o restante da carga. Hannah procurava manter-se longe do animal;
achara-o estranho e imprevisível desde que o patrão o trouxera para casa.
A parada para o almoço foi breve e, no final do dia, o capitão permitiu que parassem bem antes
do anoitecer, já que todos estavam exaustos.
Hannah olhava para o pequeno riacho, cujo curso vinham seguindo, e puxou o xale de lã sobre os
ombros; ele pertencera a Priscilla, e Randolph insistira para que Hannah o usasse na viagem. Afinal,
haveria muitas noites frias pela frente.
O sol se punha devagar no horizonte, muito longe, na outra margem do rio, e a noite seria fria,
com certeza. Hannah decidiu trabalhar para se aquecer; precisariam de lenha para a fogueira, além
de comida e barracas para dormirem. No entanto, era agradável ficar ali, olhando para as águas do
rio; elas corriam para o Oeste, para uma terra vasta para onde, por certo, nenhuma mulher branca já
fora.
Arrepiava-se ao pensar nisso.
— Hannah, você está bem? Está exausta demais da viagem? — Randolph aproximou-se, sua voz
demonstrando cansaço.
Ela sorriu. Estava começando a se acostumar àquele novo lado de seu patrão.
— Um pouco... Afinal, não é fácil passar o dia todo no lombo de uma mula. Mas estou bem. Na
verdade, um pouco preocupada com o senhor e os pequenos.
— É. Não foi um dia fácil, as crianças se comportaram até melhor do que eu esperava, mas... é
duro, sabe?
Ela assentiu e tocou-lhe de leve o braço.
— Sei que é difícil deixar uma parte de sua vida para trás. Também me senti assim quando saí
da Inglaterra. Mas as crianças logo irão se adaptar, e o senhor também.
— E estaremos tão ocupados que nem teremos tempo para lamentações, certo? — Ele sorria. —
É uma pena os Crawford não terem vindo. Jacob sente falta de Ben.
Ambos voltaram a olhar para o acampamento. O capitão ensinava Jacob a pendurar um peru
sobre o fogo, para assar.
— Tome conta e apare, com esta caneca, os pingos de gordura que forem escorrendo. Depois
jogue o líquido de novo sobre a ave. A carne vai ficar tenra e saborosa, você vai ver. Sua irmã e a
Srta. Hannah vão ficar vermelhas de inveja quando experimentarem o peru que você preparou.
Jacob sorriu e pegou a caneca que o capitão lhe oferecia. Hannah voltou-se para o patrão.
— Jacob parece bem feliz, não?
A expressão de Randolph era um tanto carrancuda.
— Ele vai se queimar, se não tomar cuidado. Hannah surpreendeu-se com o tom hostil que per-
cebeu em sua voz.
— O capitão Reed está observando-o...
— Mas não é tarefa do capitão observá-lo! Hannah calou-se, aturdida. Randolph fora tão gentil

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instantes atrás, e agora a estava repreendendo. Afinal, era responsabilidade dela cuidar das crianças.
— Quer que eu diga a ele para se afastar do fogo? — ela perguntou, engolindo a reprimenda.
Randolph olhou-a, como se não compreendesse a pergunta.
— Não! Quero dizer... eu não quis insinuar que você não está fazendo seu serviço, Hannah. Já
lhe disse antes: eu e as crianças estaríamos perdidos sem você.
— Pensei que estivesse irritado comigo, senhor.
— Não, não. Estou cansado, apenas. Desculpe-me. Tive um dia muito difícil.
— Tenho certeza de que todos nos sentiremos melhor amanhã.
Randolph sorriu para ela.
— Só o fato de conversar com você já me faz sentir melhor, Hannah.
Na noite do terceiro dia de viagem, as conversas ao redor do fogo eram sobre o aconchego de
casa, as tortas de maçã da vovó MacDougall, as camas macias e quentes. Hannah começava a se
perguntar se, com o passar do tempo, a saudade de casa tornaria ainda mais longa e difícil aquela
jornada.
Prometeu às crianças que fariam suas próprias tortas, logo que tivessem uma casa. Quanto às
maçãs... não sabia ao certo quanto tempo uma macieira levava para crescer e dar frutos.
A verdade era que, com exceção do capitão Reed e do pequeno Jacob, todos ali estavam muito,
muito abatidos e cansados.
Peggy solidificara sua amizade com as meninas Trask, e passava muito tempo junto delas, o que
deixava seu irmão quase sempre sozinho.
Seth e Elisa Baker, o casal mais idoso do grupo, de nada se queixavam, mostrando uma
afabilidade e uma alegria constantes, apesar das agruras da viagem.
Nancy Trask também não se pronunciava, o que não acontecia com seu marido, já que Hugh
sempre que podia fazia algum comentário grosseiro sobre seu cansaço e as dificuldades da trilha
escolhida pelo capitão. Este fazia questão de ignorá-lo, e isso o deixava ainda mais irritado.
Quanto a Randolph, Hannah sabia muito bem o que se passava com seu patrão. Ele nada dizia,
mas estava longe de ser o mesmo aventureiro arrojado que planejara aquela viagem. Todo seu
entusiasmo desaparecera, dando lugar a um aborrecimento constante. Hannah já percebera uma
certa rudeza dele em relação a Ethan Reed, e suspeitava que o motivo fosse a atenção do capitão
para com ela própria. Isso era difícil de acreditar, já que Randolph sempre a considerara uma
simples criada. Pensar que ele estivesse enciumado era algo absurdo, mesmo porque a atenção, os
sorrisos e as piscadas que o capitão dirigia a ela nada significavam. Ele tratava a Sra. Baker com o
mesmo modo gentil, um tanto malicioso às vezes.
— Posso saber no que está pensando, senhorita? Hannah deu um pulo ao ouvir a voz que vinha
da escuridão. A maioria das pessoas já se deitara para dormir, mas ela não conseguira uma posição
confortável para suas costas doloridas na pequena barraca que dividia com Peggy e Jacob.
O capitão se aproximou da fogueira, trazendo dois pedaços de tronco bastante grossos.
— Isto servirá para alimentar a fogueira durante a noite toda — ele disse, colocando as toras
sobre as chamas. Limpou as mãos na calça e sentou-se ao lado de Hannah. — Então? Posso saber
por que está preocupada?
Ela tentou afastar os pensamentos sobre as atenções de seu patrão e do capitão.
— Eu não sabia que ainda estava acordado — respondeu, desconversando.
— Você também está. Ela deu de ombros.
— Não pude dormir. Acho que estou cansada demais. Nunca fui de cavalgar muito...
— Acho que você está se saindo muito bem. Todos, na verdade, estão. Logo terão calos onde
precisam tê-los.
— Não acho essa idéia muito atraente — ela observou, rindo —, mas vou me alegrar quando isso
acontecer.
Ele também riu.
— Tenho uma garrafa de uísque, que talvez ajude a acalmar algumas dores, mas acho que, se eu
a mostrar, nosso adorável Sr. Trask poderá ficar fora de si.

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— Tenho certeza de que o senhor o controlaria, e muito bem.
— Já lidei com tipos parecidos. Não sei como uma mulher tão doce quanto Nancy Trask agüenta
um sujeito daqueles.
Hannah sentiu que algo a perturbou nas palavras dele sobre a outra mulher. Nancy era frágil e
bonita.
— Ela é muito atraente... — comentou, voltando a olhar para as chamas da fogueira.
— É, sim, mas precisa ser muito mais forte do que parece ser. Espero que não tenha seu bebê
antes de chegarmos a nosso destino.
Hannah arregalou os olhos.
— Mas... é lógico que não! Como poderia ter a criança durante a viagem, a céu aberto?!
— Os bebês nascem sem horário previsto, senhorita. Já ajudou algum a nascer?
— Não. Creio que Elisa Baker é quem deve entender dessas coisas.
— Bem, já que nós, homens, não entendemos do assunto, uma de vocês, ou as duas, terão de
ajudar a Sra. Trask, se for o caso.
Agora Hannah reconhecia o que significava estar distante da civilização. Passara muitas
necessidades em Londres, mas, numa emergência, sempre soubera que podia recorrer a alguém.
Também em Filadélfia, enquanto cuidava de Priscilla, nada lhe faltara para tratar da pobre mulher
até sua morte.
Assentiu, de leve, aceitando o fato de sua realidade atual, e murmurou:
— Vou falar com Elisa a respeito.
— Ótimo, senhorita. Gosto de seu modo de agir. Vai se dar muito bem no Oeste. Na verdade...
há muitas coisas a seu respeito que me agradam.
Hannah sentiu o rosto se aquecer de repente. Talvez fosse o calor das chamas, ou a proximidade
daquele homem e o que havia por trás de suas palavras.
— Acho que o senhor está zombando de mim, capitão. E não gosto disso.
Ele aproximou-se ainda mais, e Hannah pôde ver o brilho das chamas em suas pupilas escuras.
— Gosta de doces, senhorita? Hannah franziu as sobrancelhas.
— O que disse?
Ethan afastou-se um pouco, de repente, e tirou um pequeno embrulho do bolso interno do
casaco.
— Balas de cevada — explicou, tirando uma do pacotinho e colocando-a entre os lábios dela.
Após o primeiro momento de surpresa, Hannah sorriu, sentindo o gosto agradável da bala.
— Os Creek dizem que, se você adormece com algo doce na boca, terá sonhos suaves. — O
capitão colocou também uma bala na boca.
— O senhor disse que devíamos trazer apenas o essencial nesta viagem, capitão — ela observou,
com um leve tom de reprimenda na voz.
— Eu considero estas balas essenciais. É só por causa delas que volto ao Leste uma vez ou outra.
Não há muito mais coisas na civilização que me interessem.
— Gosta de doces... Mas deve haver outras coisas das quais sinta falta.
— Na verdade, não, senhorita. Às vezes sinto falta de leitura. Quase não há livros no Oeste, e os
jornais vêm sempre com muito tempo de atraso.
— Não sente saudade de sua família? De seus amigos?
— Tenho apenas amigos no forte Pitt. E eles me bastam. — Suas palavras tinham um tom frio,
como se quisesse pôr um ponto final naquela conversa.
— Bem, acho que é melhor eu tentar dormir agora. — Hannah levantou-se devagar.
Ethan imitou-a e tornou a oferecer o pacote de balas.
— Quer mais uma? Ela aceitou.
— Obrigada. Quero garantir bons sonhos esta noite. Ethan Reed assentiu, grave. Seus olhos
fixavam os de Hannah, como se quisessem prendê-los para sempre...

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CAPÍTULO QUATRO

A viagem era longa e difícil, e o capitão sabia que, com o cansaço e as dificuldades, os nervos
ficariam cada vez mais à flor da pele. Agora, porém, estavam em território indígena, e ele queria
sair dali o quanto antes.
Os sênecas costumavam ser pacíficos, mas, pouco antes de partir de Filadélfia, Ethan soubera,
por um colega rastreador, que Pontiac estava incitando os sênecas a se aliarem a sua tribo e aos
potawatomis para lutarem contra o número cada vez maior de ingleses que chegavam ao vale do rio
Ohio. O capitão esperava que tudo não passasse de boatos e não queria assustar com simples
probabilidades as pessoas que guiava. No entanto, não arriscaria a vida de mulheres e crianças,
ignorando a informação, mesmo que fosse apenas um boato. Só diminuiria a marcha quando já
estivessem se aproximando do forte Pitt.
Mantinha a espingarda sempre à mão durante o dia e dormia muito pouco à noite. Talvez Hannah
Forrester tivesse um pouco mais de insônia e viesse fazer-lhe companhia junto ao fogo, de novo.
Entretanto, duas noites se passaram sem que isso acontecesse. Ethan considerou que talvez fosse
melhor assim. Precisava estar atento, e ela desviaria sua atenção.
Mesmo com as agruras da viagem, Hannah continuava atraente. Seus cabelos brilhavam, seus
olhos pareciam conter uma força, uma alegria de viver incríveis. Nunca a ouvia se queixar. Estava
sempre disposta a seguir adiante, a fazer o que ele dizia.
Como se seus pensamentos a chamassem, Ethan viu-a aproximar-se da fogueira. Como sempre,
seus lindos cabelos claros estavam presos na trança que lhe descia até o meio das costas.
— Você nunca dorme? — ela perguntou, sorrindo. O capitão sorriu também, dizendo:
— É necessário estar sempre alerta numa viagem. É raro ter-se uma noite inteira de sono.
Hannah prendia as pontas do xale com as mãos, à cintura, o que evidenciava seus seios fartos,
bem-feitos. Ethan notou isso e sentiu um frêmito percorrer-lhe o corpo.
— Quer se sentar um pouco aqui comigo? — perguntou, apontando para um grande tronco caído
próximo ao fogo.
Hannah assentiu e sentou-se, junto a ele.
— Vejo-o sempre acordado, muito depois de todos já estarem adormecidos. Mesmo assim, é o
primeiro a se levantar, pela manhã.
— Acredito que temos a eternidade toda para dormir, senhorita.
— Talvez... algo o mantenha sempre tão alerta. Acredita que estejamos passando por algum
perigo?
Ethan achou que podia dizer-lhe a verdade. Hannah não parecia ser do tipo histérico, como
aquelas mulheres fúteis que conhecera em Boston. No entanto, ela podia sentir-se na obrigação de
contar tudo a seu patrão, e logo Ethan estaria rodeado por um bando assustado e disposto a abrir
fogo contra qualquer pequeno animal que aparecesse na mata.
— Talvez sejam meus sonhos que me deixam acordado — ele respondeu, sorrindo.
— Capitão Reed... — Hannah começou, em tom de reprimenda.
Ethan ergueu a mão, impedindo-a de prosseguir.
— Eu tenho um problema, sim. Minhas balas acabaram. Preciso de algo doce para dormir.
Hannah notava que os olhos dele estavam fixos em seus lábios, e arrepiou-se com aquelas
palavras. Na verdade, sentia uma espécie de medo daquele homem; medo do que ele representava,
das sensações que sua presença lhe provocava. Sua mãe a alertara sobre os homens e, desde a morte
dela, a situação de Hannah como criada mantivera-a distante de qualquer envolvimento emocional.
Estava agora com vinte e um anos, idade em que a maioria das garotas do Leste já estava casada e
com dois ou três filhos para criar.
O capitão aproximou-se e beijou seu rosto com suavidade.
—Pronto! — disse, num sorriso. — Isto vai ser suficiente para adoçar meus sonhos desta noite.
Ethan era o primeiro homem que a beijara, mesmo no rosto. Nada havia de mal nisso; fora um
beijo inocente, gentil, que a aquecera por dentro.

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— Sua pele é suave como a de um bebê — ele observou, cobrindo a mão de Hannah com a sua.
Ela afastou-se, brusca. Não sairia mais da barraca à noite, para ouvir os galanteios do capitão.
— Por favor... — murmurou, embaraçada. — Eu lhe peço, mais uma vez, que se comporte de
modo correto comigo. Não estou acostumada a... a esse tipo de coisa.
— Sua vida tem sido séria demais, Srta. Forrester. Notei isso desde a primeira vez em que nos
encontramos, na taverna. Vi que estava vivendo mais para os outros do que para si mesma.
— Sinto-me satisfeita em servir, capitão. E, mesmo que não fosse assim, estou presa a um
contrato ainda por um bom tempo.
— Quanto tempo?
— Três anos.
Ethan assobiou, admirado.
— Já vai estar velha, então — brincou. — Precisa começar a pensar em sua própria vida.
— Gosto da minha vida exatamente como é, capitão Reed.
— Há coisas agradáveis que precisa aprender a apreciar, senhorita — ele continuou, como se não
a tivesse ouvido. — Como sentar-se à luz da lua com um bom sujeito como eu. E perceber a atração
que existe entre nós dois. É uma sensação tão antiga quanto o próprio homem, e eu a estou tendo
agora com muita intensidade. Não nota também, Hannah?
Ela prendeu a respiração, diante de tamanha ousadia.
— Capitão, vim até aqui apenas para conversar com o senhor, e nada mais.
Ethan encarou-a. Era difícil acreditar que uma mulher tão bonita, naquela idade, nunca tivesse se
envolvido com alguém. Não entendia o medo que via em seus olhos. Talvez, no passado, algum
sujeito inescrupuloso como Hugh Trask a tivesse assustado com seus galanteios grosseiros.
— E sobre o que queria conversar? — perguntou, gentil.
— Sobre Nancy Trask. Acho a jornada muito difícil para ela. Parece cada dia mais fraca, e vai
precisar de forças para a hora do parto.
— Eu os avisei de que a viagem seria dura.
— Talvez os Trask tenham cometido um erro em vir, mas isso não muda o fato de que ela está se
desgastando demais. Precisamos fazer algo a respeito.
Ethan ergueu-se e deu alguns passos até o outro lado da fogueira.
— Não podemos parar, por enquanto. Preciso pensar em todos aqui.
Hannah levantou-se também.
— Pois, então, fale com eles! Eu não me importo em parar. E acredito que o Sr. Webster e os
Baker também não.
— Sinto muito. — Ethan negou com a cabeça.
Hannah não acreditava no que estava ouvindo. Instantes atrás, aquele homem parecera tão
gentil... Fora até carinhoso. Ela o olhou, através das chamas: era um homem alto, forte, de aparência
até ameaçadora em sua força.
— Não acredito que não possa deixá-la descansar por um dia apenas. Por que está com tanta
pressa?
— Eu avisei que minha autoridade, nesta viagem, seria absoluta. Vamos partir amanhã cedo,
como de costume.
Hannah assentiu gravemente, indignada.
— A vida dela está em suas mãos, então — disse, firme.
— A vida de todos aqui está, senhorita — Ethan respondeu, com uma calma irritante.
Hannah cruzou os braços, depois descruzou-os, sem saber como agir. O capitão continuava
olhando-a, em silêncio, até que ela resolveu dar-lhe as costas e voltar a sua barraca.
Hannah não pretendia desistir. Ethan Reed podia ser o guia, mas não tinha sensibilidade
suficiente para perceber que alguém no grupo estava sofrendo. Aproximou-se de Randolph, que
levava dois cavalos para beberem água no rio, e viu que o patrão lhe sorria com especial atenção.
— Bom dia, Hannah! Você e as crianças dormiram bem?
— Bom dia. Dormimos bem, obrigada, mas tenho um assunto que gostaria de discutir com o

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senhor.
— Há algo errado? Você parece preocupada.
— É a Sra. Trask. Ela precisa descansar antes de prosseguirmos. Falei com o capitão ontem à
noite, mas ele se recusa a parar com a viagem por algum tempo.
Webster franziu as sobrancelhas.
— Você falou com Reed?
— Sim. E ele se recusou a parar.
— Quando falou com ele, Hannah? — Randolph parecia mais preocupado com isso do que com
o estado da Sra. Trask.
— Ontem à noite, quando todos já estavam dormindo.
— Não gosto que fique a sós com ele!
— A Sra. Trask está fraca demais para viajar, senhor. Gostaria que me ajudasse a convencer o
capitão de que precisamos parar por um dia para que ela descanse.
— Ela está doente?
— Não. Mas a gravidez pode se complicar, a criança poderá nascer prematura!
Randolph pareceu ficar pálido, e Hannah lembrou-se de um aborto que a Sra. Webster tivera, no
primeiro ano em que trabalhara para eles. Priscilla já estava doente na época, e Randolph ficara
muito preocupado.
— Então acho melhor pararmos para que ela descanse — ele disse, por fim, num fio de voz.
Hannah apenas sorriu. Deixaram os animais bebendo e foram à procura do capitão. Elisa estava
por perto e foi convencida a acompanhá-los.
Ethan Reed estava consertando um arreio quando os viu chegarem e, por suas expressões,
percebeu logo do que se tratava.
— Bom dia! — saudou-os, mesmo assim.
— Sei que Hannah conversou com você ontem sobre o estado da Sra. Trask, Reed. E sei também
que você se recusou a deixá-la descansar. — Randolph falava com firmeza. O capitão pôs a sela de
lado e se levantou.
— Não é possível atender ao pedido da Srta. Forrester — afirmou, calmo. Tão alto e forte, ele
parecia muito bem entrosado ao ambiente selvagem em que se encontravam, e Hannah sentiu seu
coração se acelerar ao perceber todos os detalhes que evidenciavam aquele homem aos seus olhos.
Ethan sorria com os lábios, mas não com o olhar. Randolph, porém, não se deixou abater.
— Acontece, capitão — prosseguiu —, que nós estamos pagando, o que nos dá o direito de
decidir se paramos ou não.
Os olhos de Ethan Reed cerraram-se quase imperceptivelmente.
— Está enganado, Webster. Imagine que está numa guerra: vocês são os soldados, e eu, o
general.
— Você pode se dar o título de capitão, Reed, mas isto não é uma guerra! Você é o contratado
aqui e fará o que quisermos!
Já não havia sorriso naqueles lábios:
— Não é assim que funciona, Webster. Se pensa dessa forma, não terei escolha a não ser levá-
los de volta a Filadélfia.
Hannah pôde perceber que ambos se alteravam, mas, enquanto seu patrão se exaltava, Reed
permanecia firme e tranqüilo em sua posição. Não havia dúvidas quanto a qual dos dois era o mais
perigoso ali, e ela achou melhor intervir:
— Senhores, de nada adianta discutirem. Podemos nos sentar e falar sobre o assunto como
pessoas civilizadas.
Ethan voltou-se para ela. Falou, calmo, embora fosse óbvio que, agora, sua irritação se estendia a
ela também:
— Não há nada a conversar, senhorita. Eu devia ter deixado isso bem claro ontem à noite, mas
acho que estava com minha atenção presa a outras coisas. — O olhar dele era tão profundo que a
fez baixar o seu. — Além disso, eu não queria alarmar o grupo.

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— Alarmar?! — Elisa Baker exclamou, se aproximando. — Alarmar quanto a quê?
— Há índios sênecas nesta região, senhora. Eles costumam ser pacíficos, mas tenho ouvido
boatos e não quis arriscar.
— Entendo. — Elisa tinha o tom maternal e compreensivo da avó que jamais seria. — Por
quanto tempo mais poderemos correr perigo, capitão?
— Vamos sair do território deles em dois dias, talvez três.
— Então, é melhor não perdermos tempo — ela concordou, sem vacilar. — Vou dar a Nancy um
pouco de um tônico que eu trouxe e, à noite, lhe farei um chá, para que durma melhor e descanse
bem. Ela poderá agüentar até que o senhor decida onde poderemos parar em segurança.
Ethan sorriu com gratidão para a mulher. Depois, assentindo de leve para Randolph e Hannah,
afastou-se sem mais uma palavra.
Randolph não se afastou de Hannah durante todo o dia, a não ser por alguns minutos, quando foi
até Nancy Trask para ver como estava. Talvez devido ao tônico da Sra. Baker ou à sua própria força
de vontade, a jovem grávida parecia um pouco mais animada nesse dia.
Hugh Trask mostrava-se um tanto irritado, por achar que os outros o consideravam desatento
para com a esposa, e foi grosseiro ao pedir a Randolph para que não mais se intrometesse em sua
vida.
Hannah também se sentia desconfortável devido à discussão daquela manhã e estava esperando
uma oportunidade para conversar com o capitão a respeito.
Não queria se desculpar, afinal Ethan não lhe falara sobre os índios. Se soubesse do perigo, ela
nem sequer teria envolvido Randolph e Elisa no caso. Notara, porém, que desde a partida uma certa
animosidade se instalara entre Webster e Reed, e ainda não compreendia o motivo disso.
Quando, ao fim do dia, pararam para o pernoite, Hannah notou que o momento oportuno
chegara.
Ethan estava amarrando os animais, e, sabendo que o patrão encontrava-se na barraca com as
crianças, Hannah aproximou-se do guia.
Ele lhe sorriu assim que a viu, mas não mostrou a mesma amabilidade das outras ocasiões.
— Sinto muito pelos problemas que causei hoje pela manhã — ela começou, direta —, mas o
senhor podia ter me falado sobre o perigo que estávamos correndo.
— É. Talvez eu devesse ter falado.
Ela não podia ver-lhe a expressão no escuro, e continuou, um tanto embaraçada:
— Eu... acho que me precipitei.
— É verdade, moça. Mas eu não lhe falei sobre os índios porque é provável que não
encontremos nenhum. Peço-lhe, porém, que não questione mais minhas decisões. O bem-estar do
grupo é minha responsabilidade maior e sei o que estou fazendo.
A reprimenda era merecida, mas atingiu Hannah.
— Devo considerá-lo perfeito, então, capitão — replicou, irônica.
— Sou o melhor guia que poderia encontrar por estas paragens, senhorita. E o único, neste caso.
Por isso, é melhor agir do modo que digo porque as vidas de todos aqui dependem de mim.
Hannah guardou silêncio por instantes, considerando as palavras dele. Depois, disse:
— O senhor poderia, pelo menos, ter mais apreço pelo Sr. Webster. Afinal, foi ele quem o
contratou.
— Aliás, essa foi a única coisa correta que ele fez, se me permite dizer, já que organizou um
grupo de colonizadores que inclui uma mulher grávida e fraca, um casal de velhos e uma terceira
família que desistiu no último instante.
— Ele não poderia imaginar que os Crawford não viriam, nem que a Sra. Trask estaria grávida.
Ethan acariciou o pescoço de um dos cavalos. Em seu rosto havia um ar irônico, divertido.
Continuou com as críticas:
— O fato é que ele questionou minha autoridade só porque tenho olhos para ver a beleza de
mulher que tem como criada.
A noite, ao redor deles, caía devagar, e os insetos começavam a preenchê-la com seus sons

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característicos, como numa saudação ao primeiro dia da primavera. Hannah podia ouvir as vozes
que vinham do acampamento, mas não as diferenciava; reconhecia, apenas, as risadas das crianças,
que vinham da barraca, a certa distância. Agora parecia compreender o antagonismo entre Webster
e Reed, e isso causava-lhe um frio na espinha.
O capitão parecia ser um homem que notava a presença de qualquer mulher jovem, e Randolph
lhe dera uma atenção diferenciada nas últimas duas semanas. Até não lhe parecia tão absurdo que os
dois pudessem estar se confrontando por sua causa.
— O Sr. Webster quer, apenas, que esta aventura tenha sucesso — Hannah conseguiu dizer, por
fim. — Não acredito que ele guarde algum sentimento... diferente por mim.
Ethan aproximou-se. Sua voz agora tinha um tom bem mais baixo:
— Tem certeza de que ele não sente nada por você?
— Absoluta. — Ela tentou dar um passo atrás, mas havia um cavalo logo às suas costas.
— Então acho que ele não vai se importar se eu fizer o que venho querendo desde a noite
passada. — Ethan puxou-a num abraço forte e beijou-a, a princípio com certa suavidade, depois,
com uma paixão crescente, que pareceu derreter Hannah por dentro.
Quando se afastou, Ethan perguntou outra vez, num sussurro:
— Acha que ele faria qualquer objeção? Hannah afastou-se, tomada por um embaraço tardio e
desconcertante:
— O Sr. Webster nada diria sobre isto. Mas eu digo: sou eu quem faço as objeções, capitão.
Ela deu-lhe as costas e voltou à barraca, sentindo as pernas estranhamente fracas...
Ethan Reed sorria. Não houvera, nos lábios de Hannah, o mínimo traço de objeção a seu beijo.

CAPÍTULO CINCO

O grupo conseguiu atravessar o território sêneca sem nenhum incidente. Nancy Trask parecia ter
se adaptado à jornada, afinal, e atribuía o fato ao chá preparado pela Sra. Baker, da qual se tornara
grande amiga. Hannah, porém, não conseguia esquecer que era uma criada quando falava com
Nancy, e não compreendia o porquê disso. Sentia-se um tanto distanciada das outras, portanto, e
deixava-se dominar por uma espécie de preocupação constante, incômoda. Na verdade, sua
inquietação maior era para com os sentimentos que se reacendiam em seu peito ao se lembrar do
beijo que o capitão lhe dera. Jamais imaginara o poder sedutor dos homens, contra o qual sua mãe
tanto a alertara. Agora, porém, começava a tomar contato com ele e decidiu ficar longe tanto de
Ethan quanto de Randolph. Era melhor dedicar-se às crianças, em especial a Jacob.
A noite, quando o grupo se reunia em torno da fogueira, ela e o menino pareciam dois estranhos
ali. Nancy e Elisa conversavam muito; Peggy brincava com Janie e Bridgett; e os homens, apesar de
ainda haver uma certa reserva entre Webster e o capitão, sempre tinham algo importante a conversar
com relação à viagem.
Sentir-se isolada era desagradável, mas Hannah preocupava-se mais com o menino. A vida que
ela tivera com a mãe fora solitária, não havia crianças com as quais pudesse brincar, já que era filha
de mãe solteira, e isso criava certos estigmas para a sociedade londrina.
Jacob, no entanto, sempre fora uma criança dinâmica, de muitos amigos, e Hannah não queria
vê-lo tão só.
Gostava quando o capitão incluía o pequeno na conversa dos homens, mas isso não acontecia
sempre, embora Ethan parecesse notar mais a presença de Jacob do que o próprio pai.
— Quer ir caçar amanhã? — o capitão perguntou na noite em que pararam para descansar.
O rosto do menino se iluminou.
— Vamos caçar ursos?!
O capitão riu e acariciou os cabelos claros do garoto.
— Provavelmente não. Como poderíamos carregar um urso enorme em nossa viagem? Além do
mais, Jacob, um bom homem das matas apenas mata o que vai comer ou levar consigo.

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— Posso ir, papai? — Jacob voltava os olhinhos brilhantes para Webster. Depois, voltando-se de
novo para Ethan, perguntou, sem esperar a resposta do pai: — O que vamos caçar, então?
— Aves: patos, perus. E talvez alguns esquilos.
A lista pareceu não entusiasmar muito o menino, mas logo ele estava sorrindo de novo e
perguntando:
— Você vai usar o Tiro Certeiro? — ele se referia ao apelido que Ethan dera a seu próprio rifle.
O capitão contara inúmeras histórias às crianças sobre como aquela arma o salvara em diversas
ocasiões.
— Eu não sairia para caçar sem ele—Ethan respondeu.
— Posso ir, papai? — Ele se voltava de novo para Webster, puxando-lhe a barra do paletó. —
Quero ver o capitão Reed usar o Tiro Certeiro! Talvez eu possa atirar também!
Randolph hesitou um pouco antes de responder:
— Talvez você possa usar uma arma menor, própria para caçar aves; não aquele rifle enorme.
— E posso carregá-la também? — Jacob era só entusiasmo.
Randolph assentiu e completou.
— Mas, se quiser ser um bom caçador amanhã, tem de ir para a cama cedo hoje.
Hannah levantou-se de imediato.
— Eu o levo, senhor — ofereceu —, mas antes... gostaria de pedir para acompanhá-los na caçada
amanhã.
— Quer ir caçar? — Randolph estranhou.
— Quero. Acho que seria bom para mim, já que vamos viver numa região selvagem...
— Caçar é coisa para homens! — Trask interrompeu, definitivo.
Hannah voltou-se para seu patrão.
— Por favor, eu gostaria de tentar.
Randolph vacilava e, antes que pudesse dizer alguma coisa, Ethan falou por ele:
— Não vejo razão para que a Srta. Forrester não vá.
— Está certo —-Randolph concordou, ainda um tanto hesitante. — Não tenho objeções.
Era bem melhor caminhar do que montar, pensava Hannah, erguendo a saia para que não
arrastasse nas folhas úmidas do chão.
O ar da primavera era fresco e perfumado, e ela o respirava com prazer.
Somente Elisa Baker ficara acordada no acampamento. Tinham partido muito cedo, caminhando
rio abaixo até atingirem um penhasco, à beira do qual andavam agora. Jacob carregava um pequeno
mosquete, que Ethan lhe emprestara, e ia logo à frente de Hannah, animado e confiante.
Não deram a ela nenhuma arma. Parecia que nenhum dos homens levara a sério sua vontade de
aprender a lidar com uma. Seth Baker já caçara um pombo, mas Randolph perdera sua chance ao
errar o tiro quando um bando de patos selvagens levantara vôo a certa distância. Hannah lembrava-
se do que Jeanne MacDougall dissera sobre as habilidades de caçador do genro. Era bom que
Randolph tivesse mais sorte durante o dia, ou voltaria sem nada para o acampamento.
— Estamos fazendo muito barulho ficando juntos — o capitão comentou ao pararem às margens
de um pequeno lago. — Vou dar a volta. Vocês esperam aqui. Procurarei assustar em sua direção
qualquer animal que estiver lá.
Todos concordaram, vendo o capitão afastar-se pela margem.
— Posso atirar agora, papai?
— Ainda não, Jacob. Vamos primeiro pegar algumas aves. Depois eu o ajudo a caçar a sua.
Ao atingir o outro lado do lago, Ethan pegou um graveto e arremessou-o às águas. Um bando de
patos selvagens alçou vôo de imediato, enquanto Seth, Hugh e Randolph erguiam seus rifles.
— Aquele é meu! — Randolph gritou, atirando contra uma das aves, à esquerda.
— Você errou, papai — comentou Jacob assim que a fumaça dos disparos se dissipou.
Seth e Hugh tinham acertado duas aves e se dirigiam ao local onde estas haviam caído. Randolph
baixou a arma, um tanto desapontado, e olhou de relance para Hannah.
— Nunca fui muito bom nisso — comentou, desculpando-se.

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— Você pode usar meu mosquete, se quiser, papai. Talvez tenha mais sorte se um pedacinho de
chumbo atingir algo.
Randolph sorriu.
— É. Talvez eu tente depois, filho.
O dia foi passando, e Randolph não conseguiu caçar nada, mesmo usando o mosquete às vezes.
Em certo momento, Ethan aproximou-se, tentando aconselhá-lo:
— As aves vão voar na direção do vento. Procure mirar pouco adiante delas, e talvez acerte.
O ponto máximo do dia para Jacob foi quando conseguiu acertar um pombo. O menino pulava de
alegria com a ave na mão.
Ethan veio até Hannah para conversar:
— A pobre ave está cheia de pedacinhos de chumbo. Talvez nem possamos aproveitá-la, mas o
menino está feliz, e é isso que importa.
Já tinham todos caçado várias aves quando, por fim, Hannah encheu-se de coragem para dizer:
— Acho que agora é minha vez. Alguém pode me emprestar uma arma?
Randolph, procurando disfarçar seu mau humor de caçador desapontado, ofereceu a sua,
dizendo:
— Use esta.
— Acho que um rifle seria muito forte para a senhorita começar — disse Ethan, vindo de entre
as árvores com um faisão na mão. — Use a que emprestei a Jacob.
Enquanto carregava o mosquete, ele prosseguia:
— Já fez isso antes, moça?
Hannah negou com a cabeça. E, antes que pudesse dizer algo, o capitão já passara os braços ao
seu redor, ajudando-a a segurar o mosquete. Sem se dar conta, ela olhou para o patrão, que os
observava de longe.
O capitão falava com naturalidade, explicando como Hannah deveria mirar e atirar, mas ela não
conseguia se concentrar nas instruções. O corpo dele, forte e quente junto ao seu, trazia-lhe
lembranças da noite em que Ethan a beijara.
— Quer que eu a ajude ou vai tentar sozinha? — Ethan perguntou, junto a seu ouvido.
— Vou tentar sozinha. — Ela esperava que sua voz não mostrasse o tremor interno que a
assaltava.
Ethan afastou-se.
— Certo. Há um ganso naquele galho, vê? Procure relaxar os nervos, mas mantenha as mãos
firmes.
Livre da proximidade perturbadora dele, Hannah mirou a ave e procurou concentrar-se.
A força do disparo tomou-a de surpresa, fazendo-a dar dois passos para trás. Logo Jacob estava
gritando:
— Ela acertou, papai! Ela acertou!
Seth Baker foi até a touceira próxima à árvore e trouxe a ave abatida, dizendo:
— Foi um belo tiro, Hannah!
— Eu sabia que você aprenderia depressa — Ethan sussurrou, muito próximo, tirando-lhe o
mosquete das mãos, para recarregá-lo.
— Parabéns, Hannah — disse Randolph. — Parece que, em nossa família, você será a
encarregada de trazer a comida para casa.
Hannah jamais fora tratada como parte da família, e percebeu que as palavras do patrão eram
direcionadas tanto para ela quanto para o capitão. Mas sabia que Randolph sentia-se mal por não ter
conseguido acertar nenhuma ave, e gostaria de fazer algo para melhorar seu ânimo. Além disso,
havia no rosto de Ethan Reed um ar de satisfação que a desconsertava.
— O senhor foi um ótimo provedor para sua família até hoje — ela disse, aproximando-se de
Randolph. — Acredito que o será ainda por muito tempo.
O capitão recarregara a arma e oferecia-a de novo a Hannah.
— Quer tentar outra vez?

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— Não. Já foi o suficiente por hoje. Obrigada.
— É. Acho que todos estamos satisfeitos. — Ele apontou para as várias aves mortas. — Vamos
ter um belo jantar esta noite e em muitas outras também.
— E eu ajudei! — observou Jacob.
O pai sorriu para o menino e acariciou-lhe os cabelos.
— É. Ajudou muito, sim, filho.
Todos estavam descansados e animados naquela noite, comendo a carne fresca que havia sido
trazida para o acampamento. Jacob contara suas aventuras para a irmã e as amiguinhas mais de uma
vez, e estas pareciam aceitá-lo agora em seu pequeno círculo de amizade, deixando-o feliz e
orgulhoso de si mesmo.
Hannah olhava para as crianças com satisfação, vendo-as brincarem de fazer sombras, usando a
luz da fogueira, que estava mais alta e forte do que de costume.
Até Hugh e Nancy Trask pareciam estar se divertindo nessa noite; ela até sugerira que Seth
Baker tocasse seu violino após o jantar. Assim, feliz e animada, Nancy Trask mostrava a verdadeira
beleza de seus traços. E Hugh pareceu perceber isso também, pois Hannah viu-o olhar longamente
para a esposa, várias vezes.
Todos pareciam felizes ali, exceto, talvez, Randolph Webster. Ele comeu bem e brincou um
pouco com as crianças, mas Hannah tinha certeza de que ele pensava em algo que o aborrecia.
Talvez se lembrasse da esposa, que perdera tão cedo, ao ver a felicidade dos Baker e dos Trask.
Pobre homem! Talvez aquela viagem nada mais fosse do que uma fuga do sofrimento. Hannah
sabia, no entanto, que fugas não adiantam. A dor acompanha sempre quem a sente.
Quando o Sr. Baker voltou da carroça com seu violino, as crianças se aproximaram, e Jacob
perguntou:
— Como o senhor aprendeu a tocar, Sr. Baker? Acha que posso aprender também?
Seth sorriu, acariciando a madeira brilhante do instrumento.
— No inverno, quando estivermos todos enfiados dentro de casa, eu vou ensinar você, Jacob. E
na primavera você já poderá tocar em seu primeiro baile.
Randolph se afastara do círculo junto à fogueira. Hannah percebeu que ele olhava para as águas
escuras do rio, quieto, distante, e caminhou devagar para junto do patrão.
— Não vai querer ouvir a música? — perguntou, suave. Ele se virou para vê-la. Mesmo no
escuro, Hannah percebia que Randolph tinha o olhar triste.
— O que houve? — insistiu.
— Não me sinto disposto a ouvir música esta noite.
— As vezes, quando estou triste, eu me obrigo a fazer algo alegre, e logo me animo.
Randolph sorriu de leve.
— Acho que você nunca fica triste, Hannah.
— Fico, sim. Fiquei muito triste quando minha mãe morreu e achei que jamais seria feliz de
novo.
— E você é, agora?
— Acho que sim.
— Mesmo estando presa a um contrato?
— Tenho sido muito feliz em sua casa, Sr. Webster. Adoro as crianças, como sabe. Ainda sinto
falta da Sra. Webster e sei que a ausência dela deve ser terrível para o senhor às vezes.
Randolph deixou de olhá-la para observar a noite.
— É difícil para mim, sim. Eu e ela tínhamos feito planos, íamos ficar com a taverna porque os
MacDougall já estão velhos e cansados demais. Íamos construir um albergue na parte de trás; talvez
até um pequeno hotel. O país está crescendo, Filadélfia está se desenvolvendo cada dia mais
depressa.
— Mas agora o senhor vai ajudar o país a crescer ainda mais, sendo um pioneiro no Oeste.
Ele voltou a encará-la.
— Às vezes me pergunto se tomei a decisão mais acertada. Veja, por exemplo, o que aconteceu

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hoje. Talvez eu não seja o tipo de homem indicado para viver na fronteira.
— Acho que todos nós vamos ter muito o que aprender por aqui.
— Se não morrermos de fome primeiro. — Havia amargor nas palavras dele, e Hannah sentiu-se
um tanto culpada, pois pensara da mesma forma ao vê-lo errar os disparos naquele dia.
— Tenho certeza de que não gostaria de ficar com a taverna sem a Sra. Webster — disse, para
confortá-lo.
— O irmão dela ficará com tudo agora, mas não acredito que ele deixe sua paróquia de lado para
ser um negociante.
— Tudo se arranjará, Sr. Webster. O senhor e as crianças serão muito felizes nesta terra nova e
maravilhosa.
— Espero que todos nós sejamos, Hannah. — Ele tocou-lhe o braço com mão trêmula. — Eu
jamais teria me arriscado nesta viagem se você não tivesse concordado em vir também. Você nos dá
coragem, sabe?
Randolph já a tocara várias vezes, para ajudá-la a subir e descer da carroça, mas, agora, a mão
dele parecia arder contra sua pele. Hannah sentiu vontade de afastar-se, mas conteve-se.
— A força vem de dentro de nós, senhor — disse, calma. — As crianças e o senhor têm sido
fortes desde a morte da Sra. Webster, e eu não tive nenhuma responsabilidade nisso.
— Você está enganada, Hannah. E logo vou mostrar-lhe o quanto.
Randolph permaneceu olhando-a por um longo, intenso momento. Então convidou:
— Vamos ouvir a música de Seth e ver se seu sistema para se alegrar funciona.
Seth tinha talento. Tocava muito bem. Junto aos outros, ao redor do fogo, Ethan aplaudia
compassadamente, num acompanhamento animado da melodia; mas sua atenção estava em Webster
e Hannah, afastados dos demais, junto ao rio. Aquele sujeito estaria, afinal, percebendo o tesouro
que tinha em casa? Já fazia meses que ele enviuvara, devia estar começando a se recuperar da
solidão... Não. Randolph Webster não era tolo.
Ethan viu quando o outro tocou o braço de Hannah, que não se afastou. Os dois estavam muito
próximos... Já era de se esperar. E seria bom, afinal, para ele próprio. Poderia concentrar-se na
tarefa de guiar aquelas pessoas em segurança e depois partir, tranqüilo, sem mais se lembrar delas,
inclusive de Hannah Forrester.
Aquela jovem provocara-lhe emoções estranhas. Quando a sentira junto a si, ensinando-a a
manejar a arma, tivera a sensação aflitiva de que sua mão poderia tremer a qualquer instante, como
a de um garoto inexperiente.
Seria ótimo chegar logo ao forte Pitt. E, durante o trajeto, procuraria ficar longe da criada de
Randolph Webster.

CAPÍTULO SEIS

O descanso daquele dia foi seguido por mais cinco longos e cansativos dias de jornada
ininterrupta, e logo todos do grupo achavam-se exaustos novamente.
Naquela noite, Nancy Trask não conseguira sequer ir até a fogueira para se alimentar. E Hugh
trouxera uma garrafa, tentando diminuir ou esquecer, com a bebida, seu cansaço.
Janie e Bridgett, sempre tão quietas, tinham brigado e, quando Peggy e Jacob tentaram intervir,
ambas se voltaram contra eles, terminando tudo numa briga infantil generalizada.
Hannah foi até a barraca dos Trask, para tentar persuadir Nancy a tomar um pouco de sopa. A
mulher se negou, até que Hannah lhe disse que Ethan Reed pretendia chegar ao forte até no dia
seguinte. Isso pareceu levantar os ânimos de Nancy, fazendo-a sentar-se e comer um pouco.
— Vou dar uma olhada nas crianças — disse Hannah, pouco depois.
— Mal posso crer que minhas meninas tenham brigado assim — ela comentou, com voz fraca.
— Eu gostaria de ir falar com elas.
Havia olheiras profundas ao redor de seus olhos e, à luz do candeeiro, suas feições pareciam até

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fantasmagóricas.
— Eu faço isso, Sra. Trask. Fique tranqüila. Descanse, ainda temos um longo dia pela frente.
Nancy sorriu com certa tristeza.
— Você tomou conta das crianças de Priscilla; agora das minhas. Tivemos sorte em tê-la nesta
viagem conosco, Hannah.
— Gosto de ser útil, senhora.
Nancy tocou-lhe o braço com suavidade, e Hannah se arrepiou ao pensar que podia sentir cada
um daqueles pequenos ossos sob a pele fina.
— Por favor, chame-me pelo nome, Hannah.
— Como quiser... Nancy. Agora, deite-se e descanse. Eu cuido dos pequenos.
Hannah encontrou as duas meninas vindo em direção à barraca da mãe. Levando-as até Jacob e
Peggy, sentou-se com os quatro e começou:
— Vocês têm sido corajosos e bonzinhos até agora. Têm, até, nos ajudado muito. Acho que não
seria apropriado se estragassem tudo em nossa última noite de viagem, concordam? Amanhã já
estaremos no forte, vocês conhecerão gente nova, verão coisas diferentes e terão muitos dias para
brincar antes de prosseguirmos. Posso, então, contar com vocês por mais um dia?
Aos poucos, todos assentiram em silêncio. Apenas Jacob falou:
— Mas Janie chamou Peggy de boba!
— Quando estamos exaustos, às vezes fazemos ou dizemos coisas que, na verdade, não
queremos. Precisamos de uma boa noite de sono. Todos nós. E amanhã tudo estará bem, vocês vão
ver.
As meninas olharam-se por instantes, depois se abraçaram, pedindo desculpas umas às outras.
Logo estavam todos sorrindo, e saíram correndo para verificar a armadilha para esquilos que tinham
preparado. Faziam uma todas as noites, mas sempre em vão.
— Você é maravilhosa com crianças.
A observação de Randolph fez Hannah voltar-se.
— Eles são ótimos. Os quatro.
— Gosto de ver que Peggy fez amizade com as meninas.
— É. Estive pensando: seria bom se todos pudessem estudar juntos quando nos fixarmos.
Poderíamos ensiná-los, nós mesmos, num revezamento.
Hannah era boa em contas e sabia que Nancy Trask fora professora antes de se casar. Randolph
assentiu.
— É uma boa idéia. Vou falar com a Sra. Trask quando ela melhorar.
— Acabei de levar-lhe um pouco de sopa. Acho que agüentará mais um dia. Poderá descansar
bastante no forte.
— Não sei como um homem tão rude quanto Trask consegue ter esposa e filhas tão meigas.
— Ele me faz sentir... embaraçada às vezes.
— Ele a importunou, Hannah? Ela hesitou antes de responder:
— Não. Não mais... do que uma criada deveria esperar.
Para surpresa de Hannah, Randolph tomou-lhe as duas mãos, dizendo:
— Não quero que fale assim. Não quero mais que se julgue uma criada.
Hannah não sabia o que dizer. A proximidade repentina do patrão a embaraçava. E as palavras
dele, a seguir, deixaram-na estupefata:
— Sei que ainda é cedo para isso. Precisamos nos acostumar à idéia primeiro. Não iremos além
disso por enquanto.
Hannah cuidava daquele homem e de sua família havia meses, deveria ser natural que seu
relacionamento fosse mais íntimo. Ele era bom, atencioso, e atraente também.
Em seu desespero, antes de embarcar no navio que a traria à América, Hannah jamais pudera
imaginar que encontraria uma família na qual seu trabalho seria recompensado com tanto carinho e
gratidão.
— Eu... na verdade, senhor, não penso em mim mesma como criada — conseguiu murmurar.

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— Então por que me trata por "senhor"? Ela corou de imediato.
— Não o farei mais, se não quiser.
— Acha que pode me chamar por Randolph apenas?
— E o que os outros poderão pensar?
— Pensarão o que quero que pensem: que as coisas estão mudando entre nós dois. E as pessoas
do tipo de Hugh Trask compreenderão que você significa mais para mim do que uma criada
contratada.
— Você me ofereceu sua proteção ao comprar meu contrato em Nova York, e acredito que a
esteja me oferecendo de novo. Eu lhe agradeço muito por isso.
A mudança em seu relacionamento parecia afetar bastante a ambos.
Ficaram em silêncio por instantes, como se as palavras lhes fugissem. Foi ele quem falou
primeiro:
— Então... teremos ainda um longo dia pela frente...
— Acho melhor eu ir colocar as crianças na cama. Randolph concordou.
— Durma bem também. Nos veremos pela manhã. Ele ficou olhando-a afastar-se. Os cabelos
longos e claros de Hannah brilhavam ao luar, caindo numa trança grossa sobre suas costas.
Randolph amara Priscilla mais do que imaginara ser possível, mas ela se fora. E a dor já se
acalmava em seu peito, dando lugar a outro sentimento, que se fortalecera durante aquela viagem.
Hannah dissera que era grata a ele. Mas Randolph queria muito mais do que isso...
A última pessoa que ela queria ver após a conversa com Randolph era Ethan Reed. Mas lá estava
ele, recostado a uma árvore próxima à barraca que Hannah ocupava.
— Você e Webster estão cada vez mais próximos — ele observou, mascando a ponta de uma
haste de feno.
Ela estava sem graça. Ethan a beijara noites atrás e agora a vira de mãos dadas com o patrão.
Não queria que ele pensasse nada de errado a seu respeito.
— Desculpe-me, capitão, mas preciso pôr minhas crianças para dormir.
— Suas crianças? — A haste de feno balançava conforme ele esticava os lábios num sorriso
maldoso.
— O senhor entendeu o que eu quis dizer.
— É claro. Por favor, não se atrase por minha causa.
Hannah afastou-se com o coração aos pulos. Encontrou as quatro crianças conversando,
animadas, mas nenhuma delas protestou ao ser chamada para dormir. Hannah beijou e abraçou
Peggy e Jacob, como de costume, e ouviu o menino perguntar:
— Vai haver índios no forte amanhã?
— Só vamos saber quando chegarmos, certo? Agora, vamos todos dormir.
Quando ela já se voltava, foi a vez de Peggy:
— Hannah?
— Sim, querida?
— Esta viagem seria horrível sem você. Hannah guardou silêncio por instantes. Por que a
menina estaria lhe dizendo aquilo?
— Seu pai cuidaria muito bem de vocês, mesmo se eu não tivesse vindo.
— Não importa. Foi ótimo você ter vindo. Posso lhe contar um segredo?
— É claro que sim!
— Às vezes, quando olho para você durante a viagem, eu faço de conta que é mamãe quem está
conosco.
Hannah sentiu um nó na garganta. Aproximou-se de novo para abraçar a menina.
— A mamãe sempre vai estar com você, querida. Aonde quer que vá. Mas fico feliz em poder
substituí-la, às vezes, para vocês.
— Eu amo você, Hannah — Jacob murmurou, em voz sonolenta.
— Também amo você, Jacob. Amo os dois. Agora durmam, está bem?
Hannah ficou ali, sentada junto das crianças, até que adormeceram.

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Eram suas, sim, de certo modo. Amava muito os dois. E parecia que, agora, teria a oportunidade
de ver se esse sentimento poderia se estender ao pai deles também.
Ainda pensava nisso enquanto caminhava pela margem do rio. Queria lavar-se antes de dormir.
Havia uma pequena praia com um banco de areia ali perto, e Hannah pensara em tomar um banho
completo. Sabia, porém, que era arriscado; talvez fosse melhor esperar até que chegassem ao forte.
Ajoelhou-se na areia e curvou-se sobre as águas do rio. Já se acostumara com a água fria e não se
esquivou quando levou um pouco até o rosto e o pescoço. Ergueu a saia, para se enxugar, quando,
de repente, um arrepio estranho a tomou, fazendo-a voltar-se.
Hugh Trask estava a poucos passos de distância, oculto entre as sombras dos arbustos. Tinha
uma garrafa na mão direita e um sorriso estranho nos lábios.
— Não quero interrompê-la — disse, arrastando as palavras. — Eu só estava apreciando a vista...
Hannah levantou-se depressa.
— Eu já ia embora. Boa noite!
— Calma, calma! — Ele se aproximou com passos vacilantes.
O coração de Hannah começou a bater mais rápido quando ela notou que Trask estava bêbado.
De repente, sem que ela pudesse evitar, Hugh agarrou-lhe o braço com a mão livre, perguntando:
— Por que a pressa, doçura?
Hannah sentia a boca seca. Podia não se considerar uma criada, mas era uma, e havia coisas que
um homem livre podia fazer com ela sem que a lei lhe oferecesse proteção alguma.
— Por favor, Sr. Trask...
Mas ele a segurava cada vez com mais força.
— O senhor está me machucando! Por favor, deixe-me ir...
— Que tal tomarmos um banho de luar aqui, na areia?
— Afaste-se dela, Trask! Ou corto sua garganta com os cacos dessa garrafa!
Trask a soltou, e Hannah deixou-se cair de joelhos, sentindo o braço latejar, próximo ao ombro.
Ethan Reed saiu de entre as sombras da mata e aproximou-se. Arrancou a garrafa das mãos de
Trask e jogou-a dentro do rio.
— Você está bêbado! — acusou, erguendo um dedo ameaçador. — Esta é a última vez que o
aviso para ficar sóbrio durante a viagem!
Hugh piscava seguidas vezes, como se fosse difícil para ele enxergar o outro com clareza.
— Você não tem o direito de me dizer o que fazer, Reed! Nós é que estamos pagando você, e
não o contrário!
Ethan agarrou Trask pelo colarinho e aproximou-o de seu rosto. Falou em tom tão baixo que
Hannah quase não pôde ouvi-lo:
— Se tocar nela de novo, Trask, vai ver que tipo de direitos eu tenho! Serei capaz de comer seu
fígado, entendeu?!
Trask voltou o rosto, para não encará-lo, mas Reed sacudiu-o:
— Entendeu, desgraçado?! — E empurrou-o para longe, fazendo-o cair sobre a areia. Então,
voltou-se para Hannah e acocorou-se junto dela, perguntando: — Você está bem?
— Sim. Graças ao senhor. Já é a segunda vez que me livra de um encontro desagradável com o
Sr. Trask.
— Eu deveria escalpelá-lo! Mas... você está tremendo! — E, antes que ela se desse conta do que
estava acontecendo, Ethan já a erguera nos braços, carregando-a como a um bebê.
— Eu estou bem! — Hannah protestou.
— Seu coração disparou! Como pode estar bem? — Ele colocou a mão enorme sobre o peito
dela, como para atestar o que dizia.
— Estou bem... — ela repetiu, num sussurro.
Ethan não afastou a mão. Hugh Trask já fora esquecido, e ambos se davam conta de que estavam
muito próximos, numa pequena praia, à luz da lua. O capitão escorregou a mão até o pescoço de
Hannah e tocou-lhe o queixo, fazendo-a olhá-lo.
Ela sabia que seria beijada. Procurou lembrar-se de Randolph e do modo carinhoso como as

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mãos dele haviam apertado as suas. Procurou pensar em Jacob, dizendo que a amava. Queria pensar
em qualquer outra coisa que não fosse o braço forte de Ethan Reed enlaçando-a e aquela boca
quente descendo sobre a sua. Tudo, porém, foi em vão.
Esse beijo foi muito diferente do outro que Ethan lhe dera, e que começara como um carinho
regado a paixão. Esse foi forte e faminto desde o princípio, fazendo-a perder por completo a noção
da realidade.
Quando se afastaram, instantes depois, os corações de ambos estavam agitados.
— Sinto muito, mas você me deixa louco — Ethan murmurou. — Pensei em dar-lhe um beijo
apenas...
— Mas foi mais do que isso — ela completou. Podia ser inexperiente, mas percebia que algo
diferente, especial, os unira.
Ethan respirou fundo antes de dizer:
— Sabe... não sei o que vou fazer a respeito...
Hannah não compreendia o que ele estava dizendo. Parecia que apenas Ethan tinha o poder de
decidir alguma coisa ali. Ele falava. Ele sabia o que fazer. E quanto a ela? Não contava?
— Não deve fazer nada — afirmou, definitiva, afastando-se e encarando-o. — Você me salvou,
me... confortou. Só isso!
— Nós dois sabemos que não foi só isso, Hannah. Ela estava tendo dificuldade em controlar seus
sentimentos.
Sentia-se agitada, emocionada, tensa. E não sabia qual dos dois homens a deixara mais irritada:
Trask ou Reed.
— Eu acho que já lhe disse antes, capitão, que não estou acostumada a lidar com os homens. E
nem pretendo me acostumar, pelo menos não enquanto meu contrato durar.
Ethan franziu as sobrancelhas.
— Não acha que deveria me chamar pelo meu primeiro nome, em virtude do que aconteceu entre
nós, e que virá a acontecer de novo, com certeza?
Hannah vacilou um pouco, pensando no que ele acabara de dizer. Até que, por fim, respondeu:
— Não, eu não acho que deva, capitão. Admito que não sou indiferente ao senhor, mas acho que
seria melhor para todos se ficássemos longe um do outro.
Ethan pensava. Sentira vontade de matar Trask ao vê-lo machucando aquela mulher. Depois,
quisera deitá-la na areia e fazê-la esquecer que outro homem a tocara. Só agora sentia o corpo mais
aliviado das sensações que aquele beijo havia provocado. Não conseguia se lembrar de outro
momento em que desejara tanto uma mulher, e procurava explicar isso pelo fato de Hannah não
estar, em absoluto, disponível.
— Está certo — concordou, tentando ser complacente. — Vou ficar longe de você.
— Obrigada.
Ela voltou-se para ir embora, mas parou e virou-se ao ouvi-lo:
— Hannah! Prometo ficar longe só se você ficar também.
Na manhã seguinte, Hannah acordou arrependida do que fizera na noite anterior. Não só deixara
Ethan avançar demais em seus carinhos, como participara ativamente daquele beijo escandaloso.
Agradecia a Deus pelo fato de o capitão ter refreado seus instintos, porque não queria sequer pensar
no que teria acontecido caso ele não fosse tão controlado. Lembrou-se das palavras da mãe: "Eu sou
do tipo que os homens procuram porque gosto de... bem, você sabe... E tenho tanto medo que você
seja assim também, meu amor..."
Hannah sentia-se culpada porque gostara de estar nos braços do capitão. Não lhe parecia haver
mal nenhum em sentir o que sentira. No entanto, sabia que era errado.
O capitão não falou com ela durante os preparativos para o último dia de viagem. Notara, porém,
que ele a olhara com seriedade ao ouvi-la chamar o patrão pelo primeiro nome.
Ela o fizera de propósito, mas ninguém prestara atenção à novidade, além de Ethan Reed, nem
mesmo o próprio Randolph.
O dia transcorreu tranqüilo, cansativo e longo. Todos estavam ansiosos para chegar ao forte.

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Ethan lhes dissera que avistariam as torres de guarda assim que atingissem o ponto onde os rios
Monongahela e Allegheny se juntavam para formar o grande Ohio.
Quando, por fim, o dramático instante chegou, houve um silêncio generalizado, quebrado apenas
pela voz do capitão:
— Podemos desmontar e descansar aqui por algum tempo. Há ainda uma boa distância até o
forte, maior do que parece daqui.
Hannah sentia-se um pouco decepcionada com a visão do forte, que imaginara maior e mais bem
guarnecido. Talvez os outros estivessem pensando da mesma forma. Havia muitas ruínas
sobressaindo por entre as torres de vigia, dando um aspecto desolado e triste à construção. Além
disso, o entreposto comercial que ficava próximo ao forte não passava de um grupamento de
cabanas caindo aos pedaços, que em nada fazia lembrar o que haviam deixado em Filadélfia.
Tinham abandonado seus lares, famílias e amigos e uma cidade de quase quarenta mil pessoas para
chegar a um quase nada.
Hannah voltou a olhar para Randolph e as crianças. A expressão deles também era sombria.
Todos ali faziam uma idéia muito diferente do forte Pitt. Viam-no como um retorno à civilização,
um porto seguro em sua viagem para o Oeste. E aquela parecia ser a maior decepção que
experimentaram até o momento. Quando o capitão chamou-os para que reiniciassem a jornada,
todos obedeceram em silêncio. Apenas Jacob falou, e parecia que ele era o porta-voz do grupo:
— Eu pensei que fosse maior...
Se o forte não era o que Hannah imaginara, a região, porém, fazia jus a tudo com que pudera
sonhar. O vale imenso era rodeado por montanhas verdejantes e cortado por dois rios de águas
cristalinas. Após a junção de ambos, o grande rio Ohio, recém-formado, descia em direção às terras
férteis do sudoeste.
Entusiasmado com a visão majestosa do rio, Jacob voltou-se para Hannah, exclamando:
— É maior do que o Delaware!
— E mais extenso, também! — ela respondeu, tomada por uma emoção nova, quase inebriante.
Aquela era a terra da promissão, com certeza. E Hannah esperava que pudessem descansar
bastante no forte e usufruir de toda a calma e beleza da região, antes de começarem a segunda parte
de sua longa viagem, que seria pelo rio, em um grande barco.
Já entardecia quando chegaram aos portões do forte. Agora, tão próximo, ele parecia bem maior
e mais sólido do que quando o tinham avistado de longe. Podia não ter a elegância dos prédios de
Filadélfia, mas era firme o suficiente para garantir proteção e segurança a quem nele se abrigasse.
O grupo foi recebido por um jovem tenente que, após lançar um olhar apreciativo a Hannah,
dirigiu-se a Ethan, dizendo:
— Prazer em vê-lo, capitão.
Ethan apertou a mão que o soldado lhe oferecia, sorrindo.
Hannah estava ocupada, soltando as malas que se encontravam presas à sela de sua montaria,
mas pôde perceber que uma mulher cruzava correndo o pátio do forte, vindo ao encontro dos
recém-chegados. Ela se pendurou no pescoço do capitão, num gesto familiar.
— Ethan, querido! — exclamou. — Senti tanto sua falta! Ele a ergueu do chão com um dos
braços e deu-lhe um beijo nos lábios, respondendo depois:
— Pois pode ficar feliz, Polly! Estou de volta!

CAPÍTULO SETE

Randolph apresentou Hannah ao comandante do forte como sua governanta. O grupo ia jantar na
casa do oficial naquela primeira noite, para comemorar sua chegada. A caminho, Hannah cruzou o
pátio, alegre, despreocupada. Sentia-se, pela primeira vez, livre do estigma de "criada". Elisa e Seth
sempre a tinham tratado como uma igual, e Nancy Trask começava a confiar nela como Priscilla
fizera. Hugh Trask fora o único que mostrara uma expressão irônica no rosto quando Randolph

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mudara o título de sua criada.
Ethan não fora visto desde a chegada. Desaparecera junto com os soldados e a animada Polly.
Sempre atenta aos sentimentos dos amigos, Elisa Baker aproximou-se de Randolph e deu-lhe o
braço. Vendo que ele já oferecera o outro a Hannah, comentou, sorrindo:
— Sei que quer acompanhar as duas damas mais bonitas do forte, Randolph. — E, esticando o
pescoço para Hannah, arrematou: — Temos de ser as mais bonitas, já que somos, praticamente, as
únicas, não é, querida?
Randolph e Hannah riram, quebrando assim a tensão que pairava no ar por estarem indo juntos
para o jantar.
As crianças tinham sido deixadas sob os cuidados de uma senhora mestiça, que prometera contar
aos pequenos uma história real sobre uma princesa índia, antes de irem todos para a cama.
O coronel Bouquet era um ótimo anfitrião. Apresentou o grupo a quatro de seus oficiais que
também estavam presentes ao jantar.
Pareciam estar todos muito contentes por terem visitantes no forte, e fizeram muitas perguntas
sobre o novo imposto do açúcar que o Parlamento votaria em breve. O coronel falou sobre sua
esposa e filhos, que deixara em Bristol, declarando estar ansioso para ser mandado de volta à
Inglaterra.
Apesar do bom humor, aqueles homens pareciam solitários, e Hannah deu-se conta de que a vida
dos soldados era ainda mais isolada do que a dos colonizadores, que, pelo menos, tinham suas
famílias junto a si.
A comida era farta e muito bem preparada, e a noite teria sido perfeita para Hannah, não fosse
pela presença de Hugh Trask, o qual ela surpreendia olhando-a, às vezes, com jeito malicioso e
insolente.
De repente, a pergunta de Randolph para o coronel mencionou um nome que tirou Hannah de
suas considerações:
— O capitão Reed não virá se juntar a nós para o jantar?
— Acho que ele atendeu a um convite mais interessante — o coronel respondeu, em tom alegre.
— Ele é bastante popular por aqui.
— Eu percebi. Uma mulher veio saudá-lo logo que chegamos — Randolph observou, citando o
fato de propósito para que Hannah ouvisse.
— Deve ser Polly McCoy. O marido dela era um rastreador que se juntou aos índios chippewa e
nunca mais voltou. Polly ficou no forte e tornou-se comerciante. As pessoas da baía Hudson não
gostam muito de tê-la por aqui, mas os preços de seu armazém são bons, e os rastreadores gostam
de fazer negócios com ela.
— Eu posso fazer uma idéia — Seth Baker comentou, malicioso, mas calou-se logo ao sentir o
beliscão que Elisa lhe deu no braço.
— Então o capitão Reed e a Sra. McCoy são amigos? — Randolph continuava falando para que
Hannah ouvisse.
— Pode-se dizer que sim. Estão sempre juntos quando Ethan está no forte.
Hannah decidira tirar Ethan Reed de seus pensamentos, mas não podia evitar as sensações que a
assaltavam com a simples menção daquele nome. É lógico que imaginara que ele devia ter uma
mulher esperando-o em algum lugar; por isso mesmo era bom ficar afastada daquele homem.
Apesar da hospitalidade do coronel, nenhum dos visitantes quis se demorar após o jantar.
Estavam todos muito cansados. No entanto, ficaram surpresos quando o oficial sugeriu um baile em
homenagem a sua chegada tranqüila. Para não desapontá-lo, resolveram concordar, e foi Elisa quem
falou pelo grupo:
— Ótima idéia, coronel! Ficaremos muito honrados.
— Excelente, senhora! Sabe, temos aqui um tenente chamado Higgins que toca violino como
ninguém!
— Podemos organizar um desafio, então, porque meu marido sempre diz ser o melhor violinista
das colônias!

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Ficou decidido que, na noite seguinte, se reuniriam novamente para o baile. Depois, todos se
retiraram para os aposentos que tinham sido preparados para acomodá-los.
Hannah e as crianças Webster ficariam num quarto pequeno, com uma cama de casal, e quando
Randolph a acompanhou até lá, os pequenos já dormiam, deixando apenas uma beirada do leito para
ela.
— Vocês três vão ficar bem? — Randolph perguntou, vendo aquilo.
— Estou tão cansada que poderia dormir numa caixa de pregos. — Hannah respondeu, num
meio sorriso.
— Amanhã vou pedir para que coloquem outra cama aqui.
— Se tiverem uma, está bem. Senão dormiremos no que já temos, não se preocupe.
— Você nunca reclama de nada, Hannah? — ele indagou, olhando-a com intensidade.
Hannah percebia o brilho diferente em seus olhos, e sabia que o patrão estava muito próximo,
como jamais estivera antes.
— Talvez eu reclame, se não conseguir dormir logo — respondeu, procurando ser gentil, mas
distante ao mesmo tempo.
— Espero poder beijá-la um dia desses. Ela empalideceu.
— Sr. Webster! — admoestou, mas ele logo a corrigiu.
— Randolph, lembra-se? Você se lembrou, hoje pela manhã, quando Reed estava por perto.
Hannah baixou a cabeça, procurando escapar da suave repreensão que sentiu na voz dele. Mas
Webster tocou-lhe o queixo, fazendo-a encará-lo de novo.
— Isso não importa agora. Sou paciente e sei que Reed não é do tipo que se casa. Espero que
você seja esperta o suficiente para perceber isso também.
Hannah recordou, pela centésima vez, a cena em que Polly se jogava nos braços do capitão.
— É. Eu sou, sim — concordou.
— Que bom! Escute, será que poderá me dar a honra de acompanhá-la ao baile de amanhã,
senhorita? — Havia brincadeira e respeito, ao mesmo tempo, nas palavras dele.
— E quanto às crianças?
— Irão também, conosco. Afinal, somos uma família, não?
Hannah apenas assentiu. Estava cansada demais para fazer qualquer comentário a respeito.
Já era costume para os civis que moravam no forte agruparem-se em frente à loja de Polly
McCoy. Durante o inverno, muitos preferiam o calor da lareira, lá dentro, mas, numa tarde amena
de primavera como aquela, todos ficavam conversando, animados, na varanda e nos degraus.
Ethan Reed estava recostado ao corrimão de entrada, ouvindo mais uma das histórias de
Beartooth Carter. Ninguém sabia, ao certo, de onde aquele homem viera, mas ele afirmava já ter
percorrido o continente inteiro e sempre tinha um fato interessante a narrar.
Polly já se recolhera a seu minúsculo quarto, no fundo da loja, depois que Ethan se recusara a
acompanhá-la. Mas ela não se importara em ir para a cama sozinha. Era uma mulher alegre e jovial,
que amava demais todos os homens para cometer o engano de apaixonar-se por um deles em
especial. No entanto, não passara despercebido a Polly o jeito como o capitão fitava uma das novas
colonas que trouxera até o forte.
— Está de olho nela, não? — ela insinuara, antes de se recolher.
Ethan apenas sorrira, achando haver uma ponta de ciúme naquela indagação. E Polly insistira:
— Ela é casada com aquele sujeito alto?
— Não. É criada dele.
— Ah, sei... Isso tem um novo nome agora?
— Não, Polly. Não é como você pensa. — O tom levemente aborrecido do capitão a fizera
desistir das perguntas e retirar-se para o quarto.
Ethan, agora, pensava em Polly e não compreendia por que se recusara a acompanhá-la. Podia
estar feliz a seu lado, relaxado da longa jornada, tendo uma bela e carinhosa mulher entre os braços.
No entanto, estava ali, ouvindo as histórias fantasiosas de Beartooth e tendo todos os sentidos
voltados para a casa do comandante, onde as luzes estavam acesas ainda, e os convidados deviam

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estar se divertindo muito.
Vira quando Randolph acompanhara Hannah até lá. Ela parecia aceitar bem o papel de nova Sra.
Webster.
Hugh Trask já saíra da festa, e, por incrível que pudesse parecer, sóbrio. Estava, porém, sentado
junto a Silas Warren, com certeza aceitando alguns tragos do uísque escocês que o senhor idoso
sempre bebia, sentado numa das extremidades da varanda.
Bela combinação, aquela: Trask e Warren. O primeiro era um bêbado sem consideração pela
família, e o segundo, um negociante inescrupuloso, cuja maior fonte de renda vinha de vender
uísque aos índios.
Ethan olhou mais uma vez para a casa do comandante. A festa iria longe ainda, mas ele preferia
se deitar logo. Já verificara as crianças, as Webster e as Trask; elas dormiam, tranqüilas, inocentes.
Peggy e Jacob eram maravilhosos, e amavam Hannah. E Ethan sabia que ela seria uma ótima
madrasta. Na verdade, Hannah já era maravilhosa com aqueles pequenos, ele reconhecia.
— Não se ganha dinheiro sendo fazendeiro, Trask — dizia Silas Warren. — Você se mata ano
após ano e acaba vivendo como um miserável.
O velho mercador perdera um olho numa aventura antiga e não se preocupava em disfarçar o que
restara dele. Trask afastou-se dois passos, impressionado, e respondeu:
— Tenho duas filhas e mais um a caminho. E minha mulher não tem muita saúde. O que mais
posso fazer?
— A melhor maneira de ajudar sua família é com dinheiro, meu amigo!
— É. E vou colhê-lo das árvores por aqui? Warren ofereceu-lhe a garrafa que vinham
partilhando.
— Não. Vai tirá-lo dos índios — falou, em voz baixa.
— Como assim?
— Vou lhe dizer, meu amigo. Na verdade, vou lhe ensinar tudo. Vamos beber para comemorar
nossa recente sociedade!
Na noite seguinte, até Nancy Trask era convidada para dançar seguidas vezes, mesmo estando
sua gravidez bastante óbvia. Havia poucas mulheres no forte, e as recém-chegadas eram muito bem-
vindas, mesmo uma delas estando grávida e outra tendo idade para ser sua avó.
Elisa dançava com os jovens oficiais e não parecia demonstrar cansaço. Sorria e brincava com
eles, fazendo-os lembrarem-se, talvez, de suas mães, das quais estavam afastados havia tanto tempo.
Apenas Hannah e Seth, que a conheciam bem, sabiam da tristeza que devia haver por baixo
daquele sorriso, pois seu querido filho Johnny jamais dançaria com ela outra vez...
Hannah, é claro, era a mais assediada. Em certo momento, deu-se conta de que já dançara com
todos os homens ali presentes. Todos, menos um: Ethan Reed, que mantinha-se distante como
prometera. E Hannah notara que isso não devia ser difícil para ele, já que Polly McCoy estava
sempre em seus braços. Além do mais, Ethan fizera questão de dançar com Elisa e com as três
meninas, bem como com todas as outras mulheres da festa, todas viúvas que moravam no forte.
A música alegre vinha dos violinos de Seth e do tenente Higgins, que tocavam com animação.
Em dado instante, Randolph aproximou-se de Hannah para tirá-la para dançar mais uma vez,
dizendo:
— Acho que devo dar oportunidades aos outros, mas não gosto de vê-la nos braços deles.
— É apenas uma dança. — Ela sorria.
— Eu sei. Mas não gosto — Randolph repetiu, com uma suavidade que amenizou a firmeza de
sua afirmação.
Após alguns minutos, porém, Hannah disse, quase sem fôlego, em meio à dança:
— Acho que não agüento dar nem mais um passo. Randolph ofereceu-lhe um lenço, para que
secasse o suor das têmporas e do pescoço. Hannah estava corada e arfante.
— Quer sair um pouco para respirar ar puro? — ele ofereceu.
Ela assentiu e, quando ambos saíam, Jacob chamou o pai:
— Aonde vocês vão, papai? Já temos todos de ir embora?

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— Não, Jacob. Vamos ficar o tempo que vocês quiserem. Eu e Hannah só vamos sair um pouco
porque estamos com calor.
— Posso ir também?
— Não. Fique aqui com sua irmã.
Hannah surpreendeu-se com o tom duro das últimas palavras de Randolph. Voltou-se para vê-lo
e encontrou o olhar do capitão Reed, que a observava a certa distância.
Ele apenas sorriu de leve, acenando-lhe com um movimento de cabeça. Mas Hannah não
respondeu ao cumprimento, saindo com Randolph do salão.
— Às vezes as crianças são inconvenientes — ele comentou, como numa desculpa, assim que
saíram para o pátio. — Eu... queria ficar um instante a sós com você, Hannah.
Ela cruzou os braços sobre o peito, numa atitude de defesa.
Achava que as coisas estavam acontecendo depressa demais entre ela e o patrão, mesmo tendo
vivido na casa dele por dois anos. Talvez tudo em sua vida estivesse mudando muito ultimamente.
— Eu gosto de dançar — ela disse, em seguida, procurando usar o tom menos pessoal possível.
— Acredito que dançar faz bem à alma — foi o comentário de Randolph.
Hannah procurava relaxar a tensão que lhe apertava os ombros, mas isso parecia ser tão difícil...
— Nunca tinha dançado até chegar a Filadélfia — murmurou, apenas para ter o que falar. —
Certa vez, eu e minha mãe passamos em frente a um grande salão de baile, e ela me deixou espiar
pelo canto de uma das janelas. Achei tudo tão lindo! Era como mágica ver aqueles casais flutuando
sobre o piso brilhante.
— Pois você aprendeu rápido, Hannah. Aliás, como tudo o que faz.
— Eu apenas me deixo levar pela música. — Ela balançava o corpo muito de leve, conforme
falava, ouvindo os violinos dentro do salão.
Randolph a observava, com um sorriso nos lábios. Até que murmurou:
— Diz-se que os franceses sempre terminam uma dança com um beijo.
— Já ouvi dizer que são um povo um tanto... escandaloso.
Randolph se aproximou mais.
— Não há nada de escandaloso num beijo, Hannah. Ela parou o suave movimento de seu corpo
ao sentir as mãos de Randolph em seus braços. Ele baixou devagar a cabeça para beijar-lhe com
delicadeza os lábios.
— Sinto muito se fui... precipitado — desculpou-se logo em seguida, num murmúrio.
A comparação com o beijo da outra noite foi inevitável para Hannah. Não havia nada de
castidade e de respeito na boca sedutora do capitão Reed. Havia, sim, exigência, paixão.
— Sinto muito — Randolph insistia. — Prometi ser paciente com você e... Desculpe-me.
Hannah meneou a cabeça. Na verdade queria afastar da memória a impressão daquele outro
beijo.
— Não precisa se desculpar. Mas acho melhor voltarmos ao baile agora. As crianças devem estar
estranhando nossa ausência.
Quando tornaram a entrar no salão, Ethan estava junto à porta, no mesmo lugar onde estivera
quando saíram. Polly McCoy dançava com o coronel Bouquet, e todos os outros pareciam estar se
divertindo bastante.
De repente, o capitão veio em direção a Randolph e Hannah.
— Está uma noite agradável, não? — comentou, com certa ironia na voz.
— Está, sim — Randolph respondeu, frio. — E vejo que o senhor está se divertindo bastante, já
que a Sra. McCoy é uma mulher muito bonita.
Ethan sorriu.
— E Polly é muito... gentil. Mas ainda não tive o prazer de dançar com a Srta. Forrester.
— Eu acho que já dancei muito hoje... — Hannah começou, desculpando-se.
Mas Randolph a interrompeu:
— Não queremos nos indispor com nosso maravilhoso guia, não é, Hannah? Vá. Dance com ele.
Ethan não perdeu tempo: tomou-a logo nos braços, levando-a consigo para o centro do salão,

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começando logo a dançar a valsa que Seth e Higgins iniciavam.
— Não... acha que estamos dançando próximos demais? — ela protestou, sentindo o braço forte
do capitão puxando-a contra si.
— Nunca dançou uma valsa, senhorita? Em Boston, é o que mais se dança nas grandes festas. É
como flutuar com uma bela mulher entre os braços.
Todos os casais dançavam da mesma forma, mas havia um calor entre seu corpo e o daquele
homem que deixava Hannah pouco à vontade.
— Pensei que manteria sua distância, capitão — reclamou, baixinho.
— Estou mantendo. Não cheguei perto de você a noite toda, não foi?
— E agora?
— Acho que estou apenas... verificando se você está bem após aquele casto beijo que Webster
lhe deu, lá fora.
Ela ergueu a cabeça, encarando-o, indignada, mas o capitão continuou, calmo e indiferente:
— Não pôde haver nada além disso, a julgar pelo tempo que demoraram.
— Por favor, capitão. Quero parar de dançar, sim?
— Ele a beijou, não? — Ethan baixou a cabeça para olhar os olhos claros de Hannah. E
acrescentou: — Foi o que pensei.
Então, fazendo-a girar consigo nas evoluções da valsa, levou-a de volta ao local onde Randolph
esperava; soltou-a e inclinou-se, numa saudação:
— Obrigado pela dança, senhorita.
— Não tem por que — Hannah respondeu, seca.
— Quer ir embora agora? — Randolph perguntou, tocando-lhe o braço.
Mas Ethan interrompeu-lhe a resposta, dizendo:
— Antes que vá, Webster, quero lhe falar. Eu e alguns dos oficiais estamos planejando uma
caçada para amanhã. Se você ou qualquer um do grupo quiser vir...
— Isso me inclui também? — Hannah interferiu, repentinamente ansiosa por poder usar uma
arma outra vez.
— Se quiser, Srta. Forrester. Tenho certeza de que meus amigos gostariam muito de sua
presença.
— Não posso ir — Randolph interrompeu. — Prometi ao coronel que iria ajudá-lo a rever os
livros de contabilidade do forte.
Hannah pareceu ficar desapontada.
— Então não irei também — afirmou.
— Seth também vai. Você estará bem protegida — Ethan rebateu, irônico.
Randolph pareceu pensar um pouco. Olhou para o outro lado da sala, onde Seth guardava o
violino no estojo de couro, e depois assentiu:
— Você pode ir, Hannah. Assim, ficará livre das crianças por algum tempo.
Era difícil para ela decidir-se. Ficar um dia inteiro numa região desconhecida junto a Ethan Reed
poderia ser arriscado... Mas Seth os acompanharia.
— Está bem, então.
— Que bom. — Não havia emoção nenhuma no comentário do capitão. — Vamos sair assim que
o sol surgir.

CAPÍTULO OITO

Seth procurou por Hannah na manhã seguinte. Tinha uma expressão triste no rosto.
— Sinto muito, Hannah, mas não vou poder acompanhá-los à caçada. Elisa chorou muito ontem
à noite, quando voltamos do baile. Ela não consegue se conformar com a morte de Johnny às vezes.
Quando consegui acalmá-la, e ela caiu no sono, acordou pouco depois, com pesadelos terríveis...
Não quero deixá-la sozinha, compreende?

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— Eu entendo, sim, Seth. E sei que, com o tempo, as recordações que vocês têm de seu filho não
mais trarão angústia, mas, sim, um sentimento de paz interior que vai confortá-los. Basta ter fé e
confiança no futuro.
— Eu sinto não poder acompanhá-la, mas sei que o capitão Reed tomará conta de você.
Seth afastou-se, então, cabisbaixo, deixando Hannah pensativa. Logo depois, os cinco oficiais
que participariam da caçada chegaram, alegres, manifestando sua satisfação pela decisão de Hannah
em acompanhá-los. Um deles, um major muito jovem de nome Edgemont, dançara três vezes com
ela na noite anterior. Hannah soubera que ele vinha de uma família nobre da Inglaterra. Lá, com
certeza, não a teria olhado uma segunda vez, devido a sua classe social; aqui, no entanto, tratava-a
com grande deferência.
A animação dos oficiais logo contagiou-a. Aquela era uma belíssima manhã de verão, ensolarada
e quente, espalhando vida por toda parte.
O grupo partiu do forte e avançou por um prado verdejante onde, às vezes, era possível ver
canteiros de flores multicoloridas, semeadas ao léu pelo vento agradável e benfazejo. Hannah
imaginou que jamais estivera num lugar tão lindo.
Os oficiais tratavam-na com excessiva atenção e gentileza. Eram muito educados e, com exceção
do major Edgemont, um tanto tímidos.
Ethan Reed também estava se comportando muito bem, sem sorrisos irônicos ou observações
sarcásticas. Parecia tão determinado quanto Hannah a fazer daquele um dia memorável.
Pararam ao meio-dia para almoçar. Hannah sentou-se no chão, rodeada pelos soldados, sorrindo
e ouvindo-os falar.
— Higgins, aquele senhor toca violino muito melhor do que você, sabia? — provocou
Edgemont.
Os homens riram. Estavam acostumados às brincadeiras do major. A própria Hannah rira muito,
na noite anterior, enquanto dançavam, ouvindo-o dizer coisas engraçadas sobre todos na festa.
— Aquele senhor? — Higgins retrucou. — Tive de tocar a noite inteira com a mão esquerda para
não humilhá-lo.
Todos riram novamente, e Hannah achou que devia fazer um comentário.
— O senhor toca muito bem, tenente. Nunca ouvi alguém tocar tão bem, nem mesmo em
Londres.
Ethan mantinha-se calado e distante das brincadeiras. No entanto, todas as vezes em que Hannah
o olhava, encontrava-o observando-a com atenção. Ela procurava ignorá-lo, aceitando a conversa
dos demais.
Já haviam caçado várias aves e uma lebre durante a manhã e, após o almoço, seu ânimo para
continuar a caçada pareceu diminuir um pouco. Falaram até em voltar ao forte, mas Edgemont
instigou-os a continuar em busca de um animal de maior porte.
Prosseguiram sua jornada, então, e, em certo momento, desmontaram junto a um pequeno lago.
Hannah recebeu um rifle das mãos do major, que aconselhou:
— Tenha cuidado. Segure esta arma com firmeza ao atirar, ou ela vai arremessá-la de volta a
Filadélfia.
Ethan não estava gostando muito da atenção que o oficial dedicava a Hannah, mas manteve-se
quieto, apenas observando.
Enquanto Edgemont ensinava Hannah a mirar com precisão, um gracioso gamo apareceu por
entre as folhagens, na intenção de beber água no lago. O animal percebeu a presença dos humanos
de imediato; levantou a cabeça, ficando absolutamente imóvel. Edgemont sussurrou para Hannah:
— Ele está na sua mira. Tenha calma e fique firme. Agora... atire!
O oficial ajudou-a a atirar, apertando seu dedo sobre o dela no gatilho, o que fez com que o cabo
do rifle a atingisse no ombro com certa força.
O gamo pulou, assustado, cambaleou e sumiu por entre a vegetação.
— Droga! — Edgemont sussurrou e, logo depois, desculpou-se: — Perdão, moça.
Ela baixou a arma. Suas mãos tremiam.

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— O que houve?
— Você acertou, mas não o matou — Ethan respondeu, sério.
Hannah sentia o ombro doer, enquanto seu estômago se revirava, numa náusea repentina.
— Mas... mas eu nem queria atirar... — murmurou.
— Não se preocupe, moça — Edgemont já recuperara o bom humor. — Seu tiro foi ótimo.
Vamos apenas ter de seguir o bicho.
Hannah sentia-se infeliz. Aquele animal parecera tão lindo e tão indefeso ali, entre as árvores!
Não se perdoava por tê-lo atingido.
Ethan percebeu a amargura no rosto dela. Se queria viver na fronteira, ela teria de se acostumar a
matar para poder sobreviver.
Edgemont pegou o rifle de volta e passou um braço protetor sobre os ombros de Hannah.
— Já está ficando tarde. Voltem para o forte. Eu e a Srta. Forrester iremos atrás do gamo.
— Eu vou atrás dele — Ethan interferiu. — E a moça vem comigo. Vocês podem voltar.
Os oficiais se entreolharam. O tom usado por Reed fora bastante definitivo.
— Está bem assim para a senhorita? — Edgemont perguntou a Hannah.
Ela podia perceber a raiva de Ethan por aquele rapaz estar questionando sua autoridade. Não
queria ter de entrar na floresta e encontrar o animal ferido, mas também não desejava que aquele dia
tão agradável terminasse numa discussão.
— Estarei bem com o capitão Reed — respondeu, num fio de voz. — Agradeço a todos pelo
ótimo dia.
Ethan foi até seu cavalo e montou sem esperar por mais nada, deixando que o major ajudasse
Hannah a montar.
— Venha — disse, firme. — Se não nos apressarmos, vamos ter de seguir seu gamo a noite toda.
O sol já se punha, e aquela floresta parecia quieta, sinistra demais para Hannah, embora tivessem
passado por muitas outras em seu caminho até o forte Pitt. Deu-se conta de que seus sentimentos se
deviam à apreensão em que estava; não queria encontrar o corpo ensangüentado do animal no qual
atirara. Procurou concentrar sua atenção no cheiro agradável dos pinheiros e no murmurar suave da
brisa que passava por eles.
Após alguns minutos, Ethan falou, com voz calma:
— Estamos, com sorte. Lá está ele.
Hannah olhou na direção em que ele apontava e viu o animal caído junto a um tronco velho.
Aproximaram-se devagar, até que Ethan desmontou e, observando mais de perto, constatou:
— Está morto.
Hannah conseguiu apenas murmurar:
— Ele era tão... bonito...
— São animais nobres — ele concordou, erguendo um pouco a cabeça do gamo, segurando-o
pela ponta da galhada. — E servem a uma causa justa: nossa sobrevivência.
— Eu gostaria de não ter atirado. — Ela também desmontava agora.
— Se isso a fizer sentir-se melhor, saiba que foi o major quem, de fato, atirou. Ele pensou que
seria uma boa desculpa para abraçá-la.
— Eu estava segurando o rifle. Eu puxei o gatilho. E é meu ombro que está doendo agora!
Ethan soltou a cabeça do animal.
— Você se feriu? — perguntou, atencioso.
— Acho que... não estou tão preparada para viver no Oeste quanto imaginei.
Ele aproximou-se e tocou-lhe o queixo.
— Não desanime. Apenas algumas mulheres conseguem manejar uma arma.
Hannah voltou a olhar para o animal morto.
— Acho que nunca mais quero tentar...
— A julgar pelo modo como Webster atira, acho que você vai ter de aprender.
Ela o olhou de imediato. Lembrara-se, de repente, de que ele a acusara de ter sido beijada por
Randolph na noite anterior. Aborrecida com a morte do gamo, Hannah se esquecera de que devia

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ficar longe do capitão Ethan Reed. Ele lhe provocava sentimentos perigosos...
Ali, junto ao animal que abatera, Hannah ponderava que tudo o que se faz na vida tem suas
conseqüências, as quais, às vezes, podem ser terríveis.
Deu alguns passos para trás, então, afastando-se daquele homem.
— Não quero discutir nada sobre o Sr. Webster, capitão. Nem sobre mim mesma.
Ele a presenteou com um daqueles sorrisos irônicos que a irritavam ao extremo.
— Viu? Consegui deixá-la zangada. Pelo menos, agora não vai chorar por um veado morto.
— E o que faremos com ele?
— Vamos amarrá-lo no seu cavalo.
— Vou ter de cavalgar com ele junto de mim? — Uma espécie de pânico a tomava.
— Não. — Ethan se afastava até seu cavalo, para pegar uma corda. — Você vai voltar comigo.
O capitão amarrou as pernas do animal, para rebocá-lo, e voltou-se para Hannah:
— Se quer ser uma verdadeira mulher da fronteira, pode começar agora, me ajudando.
Ela caminhou até o animal, vacilante.
— O que tenho de fazer?
— Vamos tentar erguê-lo por cima daquele galho. — Ele apontava uma árvore próxima.
Hannah ajudou-o a arrastar o animal até debaixo da árvore. Sentia a pelagem morna e macia sob
suas mãos e isso a enchia de tristeza.
Quando ajudou Ethan, erguendo o gamo de cabeça para baixo, ele fez um corte na garganta do
animal para fazer o sangue escorrer. Hannah sentia o estômago nauseado de novo.
— Não precisa ficar olhando — disse o capitão.
— Não. Você tem razão: se vou ser uma mulher da fronteira, devo começar agora.
— Ótimo.
Pouco depois, Ethan baixou o gamo e cortou-lhe o ventre, para retirar as vísceras. Hannah
observava em silêncio, cada vez mais pálida.
— Traga seu cavalo — Ethan ordenou, ao terminar.
Hannah parecia frágil como uma criança. Ele terminou de prender o gamo à sela e depois
amarrou os dois cavalos a uma árvore próxima.
— Vamos nos lavar antes de voltar.
Ainda em silêncio, Hannah o seguiu, por entre a mata, até um pequeno riacho. Aquela sua
primeira lição sobre a vida numa região selvagem fora bastante difícil. Haveria ainda inúmeras
outras.
— Então, você matou e carregou seu primeiro gamo — Ethan comentou, enquanto lavavam
mãos e braços nas águas cristalinas. Reparava na fragilidade dos braços dela, finos e delicados, e
que, no entanto, suportavam bem o duro trabalho doméstico, a lida com o animal que abatera, o
manejo do rifle.
— Foi você quem o limpou e carregou — ela observou, sem olhá-lo. — E, se me lembro bem,
disse que foi o major quem o matou.
Ethan sorriu.
— Só queria animá-la. Achei que poderia desmaiar. Hannah olhou-o de pronto.
— Jamais desmaiei, capitão! E não pretendo começar agora!
O capitão sentou-se, vendo-a puxar um pouco o vestido para secar as mãos numa das saias de
baixo. Pôde ver parte de sua perna e sentiu logo uma inquietação agitando-lhe os sentidos.
— Já que nos beijamos duas vezes, não acha que poderia me chamar de Ethan? Pelo menos,
quando estamos a sós.
— Eu não pretendia ficar a sós com o senhor e nem quero que isso se repita. — Havia uma certa
raiva na resposta de Hannah. E havia algo mais também. Ela parecia assustada, tensa.
Ethan achou melhor não insistir. Afinal, Webster parecia ter percebido o quanto Hannah era
importante em sua vida e logo reclamaria seus direitos sobre ela quando notasse o interesse do
capitão. No entanto, algo o forçava a continuar avançando num terreno perigoso:
— Nosso beijo foi sensacional, na outra noite Hannah. Não consigo me esquecer.

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Ela respirou fundo.
— O que quer de mim, capitão? Por que... por que não procura sua amiga no forte para esse tipo
de coisa?
Ethan notou-a indefesa e sorriu, sentindo um estranho prazer em provocá-la. Era óbvio que seu
relacionamento com Polly desagradava Hannah.
— Eu e ela somos amigos há anos — explicou, em tom casual.
— Ótimos amigos, eu suponho.
— É. Ótimos amigos.
— Então vá falar sobre seus beijos com ela e não me perturbe mais!
Ethan já não tinha mais dúvidas sobre o ciúme que a invadia. Afinal, sentira o mesmo quando a
vira regressar ao baile com Webster, após um possível beijo. E sentia a mesma coisa agora, só em
lembrar-se do fato.
— Pois saiba que eu e Polly nunca fomos mais do que isto: amigos — garantiu.
— Isso não é de minha conta, capitão.
Ethan tornou a sorrir. Não a culpava por tentar encobrir a verdade. Hannah era esperta o
suficiente para saber que não haveria futuro num relacionamento com um aventureiro como ele.
— Já entendi. Está interessada em Webster, não? Ela ignorou a pergunta e levantou-se.
— Podemos voltar ao forte agora?
Ethan não pôde resistir a um último comentário; inclinou-se e sussurrou, junto ao ouvido dela:
— Não vou me esquecer daquele beijo, Hannah. E pode estar certa de uma coisa: se Webster
não for capaz de fazê-la estremecer em seus braços, você também não vai esquecer.

— Isso significa que você voltou para me implorar perdão e conseguir ir comigo para a cama? —
Polly indagou, sorrindo, bem-humorada.
Ela e Ethan estavam sentados à mesa, e ele acabara de contar as aventuras da caçada, incluindo o
que conversara com Hannah.
— Uma coisa não tem nada a ver com a outra, Polly. Jamais tive ilusões quanto à Srta. Forrester.
Ficamos apenas... um pouco íntimos na jornada até aqui.
— Sei, sei. Você já percebeu como começa a falar difícil, como um cavalheiro até, quando fica
zangado em relação a alguma coisa?
— Não estou zangado.
— Pois você fica, sempre que fala nessa garota. Acho que ficou de miolo mole, isso sim.
— Ela é atraente, só isso! E é interessante, alegre... Mas não há nada entre nós.
— Ela não é só atraente, meu caro. É linda, todos os homens do forte acham isso.
— E você está com ciúme, não é?
— É claro que não, seu tolo!
Ambos riram. Há tempos haviam decidido deixar de ser amantes para poderem partilhar uma
sólida amizade.
A paixão inicial que os unira, anos atrás, já não deixava vestígio nenhum.
— Então, você vai desistir dela em favor daquele contador magrela? — Polly insistia.
— Ele não é um mau sujeito. Mas não acredito que consiga sobreviver num ambiente hostil,
entende?
— Ele não é feio, e é um cavalheiro também... Ethan franziu as sobrancelhas e interrompeu-a:
— Você o acha bonito?!
— O que há? Está com ciúme, meu caro?
O capitão respirou fundo e levantou-se. Deu alguns passos até a lareira e disse, sem se voltar:
— Vamos mudar de assunto, está bem? Você falou algo sobre Silas Warren. Ele esteve fazendo
perguntas por aí sobre armas baratas.
Polly assentiu.
— E bebida barata, também.

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— Acha que isso tudo é para os índios?
— Aposto que sim!
Ethan pareceu pensativo por instantes, olhando as chamas baixas. Então perguntou:
— Você sabe com qual tribo ele pretende negociar?
— Tudo o que sei é que está reunindo uma porção de mercadorias. Muito mais do que poderia
carregar sozinho.
— Então ele tem um sócio... Ela deu de ombros, dizendo:
— Só um grande idiota se juntaria a Warren. Mas há muitos deles pelo mundo, você sabe.
— Vou andar um pouco por aí e ver se descubro alguma coisa.
— Mas você partirá em breve com os colonizadores, não? Ethan assentiu, um tanto sombrio.
— A não ser que o comandante Bouquet os assuste, contando suas histórias sobre batalhas
sangrentas contra índios ou franceses.
— E você acha que, um dia, poderemos viver em paz por estas paragens?

Hannah, Elisa e Nancy conversavam, animadas, como colegiais despreocupadas, enquanto
caminhavam pelo pátio do forte.
— Eu sinto como se estivesse de volta a Filadélfia, indo às compras — Elisa comentou, com um
sorriso feliz.
— Não sei se o armazém se parece com uma das lojas de lá — Hannah observou, reservada.
— Se tiverem sabão, será ótimo. Não sei como já usamos todo o que trouxemos!
Os homens tinham comprado muitas coisas no dia anterior, como armadilhas, facas, munição,
equipamentos agrícolas, mas nada das pequenas necessidades femininas que, com certeza, fariam
muita falta às mulheres em sua nova morada.
Hannah queria comprar tecidos para costurar roupas novas para as crianças; afinal, elas estavam
crescendo tanto! Elisa queria repor seu estoque de chás e ervas. E Nancy queria sabão. Assim, os
homens permitiriam que elas fossem até as pequenas cabanas que formavam o entreposto comercial
no lado norte do forte.
Hannah sentia-se muito feliz, sendo tratada como uma igual por todos. Além do mais, Elisa e
Nancy haviam elogiado muito o fato de ela ter caçado o veado no dia anterior. Randolph nada
dissera, limitando-se a dar à antiga criada uma quantidade de dinheiro que pareceu enorme a ela,
para os gastos no armazém.
— Você vai nos ajudar a pechinchar, não vai, Hannah? — Nancy brincou. — Aqueles
mercadores vão dar um preço melhor a você, com certeza.
— Imagine! — ela respondeu, modesta. — Eles nem vão me notar quando virem esse seu rosto
de anjo.
— O rosto pode ser, amiga, mas o corpo... — Nancy apontou para a barriga proeminente.
— Ora, ora — Elisa interferiu. — Vocês duas estavam cheias de pretendentes no baile.
— Você também não ficou sem parceiros para dançar — Hannah retrucou com malícia.
E todas puseram-se a rir outra vez, enquanto alcançavam os portões de trás do forte, rumo ao
entreposto.
A maior das lojas era toda feita de madeira e tinha um grande alpendre. Quando entraram, as três
mulheres viram-se diante de uma quantidade enorme de mercadorias variadas. Aquela loja bem que
poderia fazer frente a qualquer uma de Filadélfia, em quantidade e qualidade de produtos.
— Acho que eles devem ter sabão aqui — Hannah segredou a Nancy, passando os olhos ao
redor, e ambas riram, satisfeitas.
Havia de tudo: perfumes, enfeites para os cabelos, porcelanas, colares, rendas.
Numa das extremidades do balcão, Hannah viu um pote grande de balas e lembrou-se daquelas
que Ethan Reed lhe oferecera certa noite. Procurou afastar esses pensamentos e seguiu andando pela
loja.
De repente, a voz rude de Hugh Trask se fez ouvir, à porta.
— Dia de compras das madames? — ele brincou, num tom maldoso.

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O bom humor de Hannah desapareceu por completo.
Definitivamente, não gostava daquele homem. E hoje, Hugh estava acompanhado de um sujeito
ainda mais asqueroso, o qual tinha um olho vazado, cruzado por uma enorme e horrível cicatriz.
Os dois entraram na loja, e Hugh dirigiu-se logo à esposa:
— No que está gastando meu dinheiro?
Nancy estava pálida e mal conseguiu murmurar:
— Não vou comprar muitas coisas, Hugh. Só algo para as meninas.
— Acho bom. — Hugh voltou-se para o companheiro, acrescentando: — É claro que a Srta.
Hannah, aqui, poderá gastar quanto quiser, já que o pobre Webster está de quatro por ela.
O homem da cicatriz deu uma estranha risada, que fez Hannah sentir náuseas. Ignorando o
comentário, ela dirigiu-se a Nancy:
— Vamos olhar as outras lojas antes de decidirmos onde comprar.
Aliviadas, as mulheres deixaram o armazém, enquanto Hugh e Warren as observavam, com
sorrisos maliciosos nos lábios.
— Quero apenas que estejam cientes dos riscos que poderão correr — dizia o coronel Bouquet
em seu escritório no forte.
A mesa à sua frente estava coberta de mapas, os quais ele já conhecia quase de cor. Continuou,
sério:
— Pontiac está tentando convencer as outras tribos de que os colonizadores ingleses serão mais
perigosos do que os aventureiros franceses.
— O que você nos diz sobre isso, Reed? — Seth Baker voltou-se para o capitão.
Ethan sabia que aqueles colonizadores teriam de viver por si mesmos quando chegassem a seu
destino. E havia apenas três homens naquele grupo. Baker já era velho, Trask bebia demais e
Webster era péssimo no manejo de uma arma.
— Vocês é que devem decidir. Mas é obrigação do exército inglês proteger os colonizadores. Por
isso, acho melhor ouvirem o que o coronel diz.
— Está querendo dizer que viemos até aqui apenas para termos de voltar agora?! — Randolph
protestou, levantando-se.
— Eu não vou voltar! — Trask afirmou, definitivo.
O coronel pegou um dos mapas e começou, calmo:
— Não quero interferir em seus planos, apenas recomendo que não se afastem demais do forte.
Há terras excelentes para colonização aqui por perto, onde o exército poderá lhes oferecer proteção.
— O que o senhor acha, capitão? — Seth perguntou, mais uma vez. — Conhece bem a área...
Ethan deu alguns passos pela sala, aproximando-se do coronel. Evitava olhar para a mesa, à qual
Hannah também estava sentada, junto a Webster.
— Eu... tenho um local em mente, a não mais de uma semana de viagem daqui.
— Onde? — indagou o coronel.
Ethan pegou o mapa que ele segurava e colocou-o sobre a mesa, apontando um lugar.
— Aqui. É a região mais bonita deste território. Chama-se rio do Destino.

CAPÍTULO NOVE

As três famílias partiriam em duas barcaças pelo rio Ohio, até o ponto onde este recebia as águas
do pequeno rio do Destino.
Ethan lhes garantira ser mais seguro viajarem pelo rio menor, a fim de evitar qualquer confronto
com índios que poderiam estar subindo ou descendo o Ohio, seu meio de transporte mais comum.
— Então não vamos ver selvagens? — reclamou Jacob, duas noites antes da partida. Ele e as
meninas estavam ali, junto ao capitão Reed, enquanto este ensinava ao menino como limpar a arma
que lhe emprestara no dia da caçada, e com a qual agora o presenteara.
— Esperamos que não — Ethan respondeu.

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— Mas eu queria ver como eles são...
O capitão parou o que fazia e olhou para o garoto, sorrindo.
— Algumas das tribos não são muito... amigáveis. Eles acham que os ingleses vieram para tomar
suas terras.
— Eles nos odeiam? — Jacob falava, mas as três meninas estavam muito atentas.
— Alguns, sim. E se os chefes os mandam lutar, eles o fazem. Como você faria por seu pai, se
ele lhe pedisse.
— Ou Hannah — Jacob completou com jeito solene.
— Ou Hannah. — Ethan percebia que as crianças já haviam substituído a mãe por ela. Mais uma
vez, achou Webster um sujeito de sorte. Logo, a antiga criada assumiria o lugar da patroa em todos
os sentidos. E Ethan gostaria de já estar bem longe dali quando isso acontecesse.
— Acho que vou guardar minha arma agora, capitão — disse o garoto. — Quer que eu guarde o
Tiro Certeiro também?
— Não, obrigado. Um homem da floresta tem sempre de estar com sua arma.
— Capitão, eu ainda gostaria de ver os índios. O senhor acha que, um dia, nós e eles poderemos
ser amigos?
— Talvez...
A porta rangeu para dar entrada a Randolph Webster.
— É melhor vocês irem para a cama, crianças. Amanhã será um dia cheio e, depois de amanhã,
haverá a festa que o comandante oferecerá, antes de partirmos.
Jacob obedeceu de imediato. Ao passar pelo pai, mostrou a arma limpa:
— Veja, papai, como brilha!
Randolph sorriu. Quando viu-se a sós com o capitão, um silêncio incômodo caiu sobre o local.
Após alguns segundos, durante os quais procurava algo para dizer, Randolph agradeceu:
— Foi muita bondade sua dar a arma ao garoto. Obrigado.
— Gosto muito de Jacob. E acho que ele se dará muito bem no Oeste.
Randolph achou que poderia haver uma insinuação naquelas palavras. Ele próprio tinha
consciência de que era um desajeitado com as armas.
— Na verdade, seus dois filhos são ótimos — continuou Ethan. — Acho que você e a Srta.
Forrester formarão uma bela família junto deles.
— Obrigado. — Randolph não fez questão de tecer nenhum comentário. Afinal, Reed era um
aventureiro, e Hannah talvez tivesse algum interesse por ele.
Seria um alívio quando Reed os levasse até seu destino, pois ele logo partiria para mais uma
aventura.
Hannah queria muito chegar a seu destino, mas, ao mesmo tempo, experimentava um sentimento
de tristeza por deixar o forte. Divertira-se lá, com todos aqueles oficiais dando-lhe tanta atenção, e
sua amizade com Elisa e Nancy se solidificara. Quanto a Randolph, seria melhor deixar a situação
bem clara e definida com ele, já que o capitão Reed logo sairia de suas vidas para sempre.
Peggy e Janie, que já entravam na adolescência, também relutaram em partir. Alguns dos oficiais
do forte tinham chegado a flertar com elas, sem, é claro, ultrapassar os limites da brincadeira.
Havia muitas pessoas presentes ao jantar que o coronel Bouquet oferecia aos colonizadores. O
major Edgemont, cada vez mais audacioso na corte que fazia a Hannah, acompanhava-a o tempo
todo. Randolph tolerava-o apenas porque sabia que partiriam no dia seguinte.
Mesmo tendo o major por companhia constante, e divertindo-se com o jeito ousado dele, Hannah
surpreendia-se sempre à procura de Ethan Reed. Seus olhos buscavam-no pelo salão, pois parecia-
lhe estranho ele não estar presente àquela festa de despedida. Também Polly McCoy não viera...
— Já estive no rio do Destino — um major, de nome Blanchard, comentava para o grupo de
colonizadores. — Ele fica num vale belíssimo.
Cansadas da conversa dos adultos, as crianças se reuniram ao redor do fogo, observando o milho
colocado ali para assar.
Hugh Trask também não se encontrava presente à festa, e Hannah imaginava que ele deveria

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estar em algum canto do forte, bebendo até cair. Pobre Nancy, cada dia mais gorda em sua
gravidez...
Elisa conversara com o médico do forte sobre o nascimento do bebê, procurando aprender ao
máximo tudo o que deveria fazer quando o momento chegasse. Ele até lhe dera umas ervas, para
que fizesse um chá calmante para Nancy durante o parto. Hannah mal conseguia acreditar que ela
própria e Elisa teriam de dar conta de um serviço tão sério e de tanta responsabilidade: trazer uma
criança à vida.
Seus pensamentos foram interrompidos de repente, com a menção do nome de Ethan Reed. Era o
coronel quem falava:
— Reed disse que viria...
— Deve ter mudado de idéia — Edgemont comentou. — Nós o vimos indo à loja de Polly e ele
nos disse que talvez não viesse.
Bouquet riu, com malícia, ao acrescentar:
— E nós todos sabemos o que ele quer nesta última noite no forte, certo? Ah, desculpem,
senhoras, pelo comentário.
Hannah percebeu que Randolph a observava com atenção. Ela sabia que seu rosto não
demonstrava as sensações estranhas que agitavam seu peito. Não devia se importar com as atitudes
de Ethan Reed, mas não conseguira evitar o que sentia. Ele mentira sobre si mesmo e Polly McCoy.
Hannah lembrou-se de que sua mãe sempre lhe dizia sobre a facilidade dos homens em mentir para
obter o que queriam das mulheres.
Sempre considerara sua mãe amarga demais em virtude do que já passara na vida, mas agora
começava a dar-lhe razão.
— Gostaria de sair comigo para um pequeno passeio, Srta. Forrester? — o convite inesperado de
Edgemont tirou Hannah de seus pensamentos.
O major era um homem bonito e atraente, e parecia óbvio que sabia disso.
Tinha um sorriso confiante, belos olhos azuis, cabelos loiros ondulados. Mas Hannah,
intuitivamente, não conseguia confiar nele.
— Não, obrigada, major — respondeu, educada. — Quero ficar aqui e partilhar esta noite com
todos os presentes. Afinal, é a última que passamos no forte.
O major pareceu surpreso com a negativa, mas aceitou-a com galantaria.
— Talvez não os deixemos partir, senhorita. O forte ficou muito mais alegre e bonito com sua
presença. — Com um sorriso e uma reverência cortês, Edgemont afastou-se, indo para junto de seus
colegas militares.
— Se eu fosse solteira — comentou Nancy, aproximando-se de Hannah —, não deixaria esse
oficial escapar. Ele não tira os olhos de você desde que chegamos. Não notou?
— Eu sei bem o que o major Edgemont quer, Nancy. Ele e os outros soldados também.
Elisa voltou-se. Não pudera deixar de ouvir as palavras amargas de Hannah.
— Não diga isso, minha querida — admoestou com suavidade. — Esses soldados têm sido
verdadeiros cavalheiros.
Hannah baixou os olhos. Não contara a ninguém sobre o que acontecera entre ela e o capitão.
Murmurou apenas:
— Acho que... estou um pouco irritada e ansiosa porque vamos partir amanhã. Só isso. Sinto
muito se pareci rude.
— Todas estamos ansiosas — falou Nancy, compreensiva. — Não se preocupe.
Elisa veio, então, e passou um braço pelos ombros de cada uma das moças.
— Que bom estarmos juntas! Seremos o apoio uma das outras. Devemos agradecer a Deus por
nossa amizade.
Ethan trouxera duas garrafas de bebida para a loja de Polly, esperando que, após beberem, alguns
homens soltassem a língua. Essa era a última chance que tinha de descobrir no que Silas Warren
estava envolvido agora e quem o estava ajudando. Ele não gostara de perder o jantar de despedida,
mas esse assunto parecia muito mais importante no momento.

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Ethan comentou, passando a segunda garrafa às mãos dos presentes:
— Acho que o exército estaria muito interessado em saber no que Silas Warren anda se metendo.
Um sargento, que estava à ponta do balcão, disse logo:
— Seja o que for que aquele verme esteja fazendo, aposto que não é coisa boa.
— Sei que ele anda comprando muitas armas — Ethan prosseguiu, observando os rostos dos ho-
mens que o acompanhavam na bebida. Um rapaz, que parecia sonolento devido ao que já bebera,
desviou o olhar.
— Warren poderia ficar rico — o sargento continuou —, já que os índios estão comprando tantas
armas ultimamente. Só que ele perderia o escalpo piolhento na troca...
— Se ele estiver vendendo armas aos índios — Ethan falava sem tirar os olhos do rapaz —, o
exército poderia até pagar por qualquer informação a respeito, não acham?
Ninguém teceu nenhum comentário, mas o rapaz lançou um olhar furtivo ao prédio onde ficava o
quartel-general.
Ethan levantou-se, então, como se nada tivesse percebido.
— Bem, amanhã estarei indo com os colonizadores para o sul — disse, ajeitando o cinturão — e
gostaria muito de saber se alguém está armando as tribos contra os brancos. Se algum de vocês
souber de algo, estarei à disposição para ouvir. E posso garantir que qualquer informação será bem
recompensada.
Passou os olhos, uma última vez, por todos os presentes ali e depois saiu. Seus instintos lhe
diziam que aquele rapaz sabia de alguma coisa.
Ao aproximar-se do quartel-general, ouviu a voz de Silas Warren.
Aproximou-se do local de onde ela vinha e recostou-se à parede, procurando ouvir melhor.
— Você saberá no tempo certo — Silas dizia. — Fique atento.
Ethan compreendeu que chegara no final da conversa. O outro homem não respondeu, e ele
poderia não descobrir sua identidade. Resolveu, então, entrar e pegá-los de surpresa:
— Boa noite, senhores! — cumprimentou, da porta. Warren voltou-se de imediato, mas o outro
homem saiu correndo pelos fundos do aposento, que se encontrava mergulhado em sombras. Ethan
seguiu-o sem vacilar, mas, ao chegar à porta dos fundos, o outro já desaparecera em meio à
escuridão do pátio. O capitão voltou-se para Silas, irritado.
— Seu amigo não parece ser muito sociável...
— E há alguma lei que obrigue as pessoas a isso? — Warren respondeu, rude.
O cômodo estava pouco iluminado. Ethan foi até Silas e inclinou-se sobre ele, ameaçador.
— Não, não há — disse entre os dentes! — Mas existe uma lei que proíbe a venda de armas aos
índios. E bebidas também. Conhece essa lei, não, Silas?
— Mas o que há com você, Reed? Não está sequer no exército...
— Já não é mais um problema do exército, Silas. Há mulheres e crianças rumando para esta
região atualmente. E se os índios as atacarem com armas inglesas, os responsáveis serão vermes
como você!
— Você não tem provas contra mim! Então vá embora e me deixe em paz!
Ethan procurou acalmar-se.
— Não preciso de provas — respondeu, dando dois passos para trás. — Se eu souber que alguma
tribo recebeu armas, virei atrás de você. E, quando eu terminar, vai lamentar que os índios não o
tenham pegado primeiro.
Os suprimentos e animais haviam sido divididos em partes iguais para cada barcaça. Hannah
sentira-se aliviada ao saber que o capitão e os Trask iriam numa delas, enquanto ela, os Webster e
os Baker iriam em outra.
No centro de cada balsa havia um pequeno abrigo, para o caso de enfrentarem mau tempo. Na
proa e na popa ficavam dois grandes remos, que os barqueiros chamavam de braços. As barcaças
não eram tão grandes quanto aquelas que serviam o forte, mas eram capazes de carregar uma grande
quantidade de carga.
Cada família trouxera dois animais, mulas ou cavalos, mais sua bagagem e aquilo que achava

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necessário para sua viagem. Hugh Trask trouxera bem mais do que os outros, alegando a chegada
próxima do bebê. Talvez, afinal, estivesse se tornando um pouco mais responsável com sua família,
a despeito de seu comportamento quase sempre desagradável e indiferente.
Do convés, Hannah olhava os últimos preparativos para a partida. As despedidas haviam sido
feitas na noite anterior, mas o major Edgemont não deixara de ir até as docas para lhe levar um
ramalhete de flores silvestres. Ela as colocara sobre o colo ao sentar-se num barril de sal, que era
um dos suprimentos mais preciosos que carregavam. Sem ele, não teriam como preparar as carnes
para o longo e rigoroso inverno. De repente, Peggy gritou da proa:
— Hannah, Jacob vai cair na água!
— Diga a ele para ficar longe da beirada! — ela respondeu, enquanto se encaminhava, por entre
caixas, animais e barris, até a parte da frente do barco.
Jacob estava inclinado à beira, tentando tocar a água com as pontas dos dedos.
— Afaste-se daí, Jacob — Hannah disse ao menino, em tom que não permitia teimosia. —
Vamos partir a qualquer momento e você poderá perder o equilíbrio e cair.
O menino veio até ela com expressão arrependida.
— Eu só queria ver se a água estava fria, Hannah.
— Você terá outras oportunidades para isso, querido. Tenho certeza de que será obediente e terá
juízo nessa viagem. Confio em você. Promete que vai se comportar?
— Prometo.
— Então fique afastado da beirada quando eu ou seu pai não estivermos por perto, está bem?
Jacob assentiu, voltando a observar a água. Logo, com um pequeno balanço, o barco se soltava
das amarras, pondo-se em movimento rio abaixo.
— Estamos partindo! — Randolph gritou, de algum ponto na popa. Era bom ouvir sua voz outra
vez animada. Ele se deixara abater ao longo da primeira etapa da viagem, mas agora parecia
recuperar-se aos poucos.
O capitão Reed dissera que a viagem duraria mais uma semana, se tudo corresse bem. Parecia
inacreditável que, em tão pouco tempo, pudessem ver a terra distante que tinham vindo habitar.
Randolph apareceu, por trás do abrigo central, sorrindo.
— Dá para acreditar? — disse, entusiasmado. Seus cabelos, em geral bem penteados, moviam-se
ao sabor do vento, e Hannah pensou que os companheiros mal poderiam acreditar que aquele era o
mesmo Randolph Webster, circunspecto e quieto, que conheciam em Filadélfia.
A partida parecia ter provocado o bom humor de todos.
As crianças pulavam e dançavam, e Peggy subiu num barril para abraçar o pescoço do pai.
De repente, ouviram alguns gritos vindos do outro barco.
Ethan acenava e gritava, zangado:
— É melhor cuidar daqueles remos, Webster, ou essa barcaça vai se estraçalhar logo!
O sorriso de Randolph desapareceu. Afastou os braços da filha e foi para a proa, fazer o que lhe
era mandado, enquanto Seth Baker cuidava do remo de trás.
Jacob murmurou, observando o pai:
— Acho que ele não sabe dirigir um barco, Hannah. Ela sorriu com ternura.
— Mas ele vai aprender, querido. Todos nós vamos. Após o início turbulento, quando Randolph
e Seth quase perderam o controle da embarcação, tudo transcorreu muito bem. O rio abria-se diante
deles como um imenso caminho prateado.
No segundo dia, todos já tinham se revezado nos remos, com exceção de Nancy Trask, e os
homens conseguiam controlar bem os balanços do barco na correnteza.
Quando pararam, ao final do primeiro dia, não fizeram sequer um acampamento. Exaustos da
lida nos barcos, acenderam pequenas fogueiras nas próprias barcas, nas pequenas caixas de areia
trazidas a bordo para esse fim.
Depois, deitaram-se como podiam para passar a noite, tendo sobre eles o mais lindo manto negro
do céu, salpicado de estrelas, e a lua brilhando, intensa, iluminando seu sono tranqüilo.
Hannah dormiu logo, embalada pelo movimento suave do barco e o ruído agradável das águas

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contra o casco.
Na segunda noite, decidiram acampar. Não estavam tão cansados como no dia anterior, e o
descanso aos poucos se transformou numa espécie de festa.
Ao atracarem, Ethan ensinara Jacob a fazer uma vara de pesca e a colocar linha e anzol nela.
Pouco depois, ambos haviam sumido rio acima, voltando horas mais tarde com duas enormes trutas,
que ainda se debatiam.
Enquanto os peixes eram colocados para assar, Elisa e Hannah arrumaram sobre uma mesa
improvisada as tortas e bolos que ainda sobraram do que tinham trazido do forte.
Após o jantar, o grupo sentou-se ao redor do fogo, ouvindo o murmurar das águas do rio e a
orquestra de insetos noturnos. Seth se recusara a tocar seu violino, dizendo que nada superava os
sons da natureza.
— Estamos seguros aqui, Reed? — Randolph perguntou em dado momento. — Acha que
precisamos cobrir os barcos?
— Ainda estamos próximos do forte — Ethan respondeu, brincando com um graveto nas
chamas. — Ninguém ousaria nos atacar aqui. Os únicos índios desta região são wyandots, e eles são
amigos.
— Há índios aqui por perto, capitão?! — Jacob se animou.
— Em algum lugar por aí, sim.
— Não podemos dar uma olhada neles?
Ethan riu da insistência do menino.
— Talvez eles possam nos ver, mas não nós a eles, Jacob. São muito tímidos.
— E se algum aparecer, posso falar com ele?
— Acredito que não. A maioria não fala inglês.
— Que língua eles falam?
— Há muitas tribos — Ethan respondia às perguntas do garoto com extrema paciência. — Cada
uma fala sua própria língua.
— Então, eles não conseguem falar uns com os outros?
— São melhores do que os brancos para se comunicar, Jacob. Usam sinais, além das palavras, e
se entendem.
Agora, todas as crianças o rodeavam.
— É como mágica! — Bridgett exclamou.
— É... é um tipo de mágica, eu acho.
Como sempre, vendo que as crianças estavam fascinadas com a conversa do capitão, Randolph
aproximou-se, impaciente.
— Acho que já chega de falar sobre índios — disse, sério, levantando-se.
Ethan o imitou, concordando:
— Sim, acho que falamos o suficiente. É melhor irem dormir agora.
— Papai, posso dormir na barca como na noite passada? Não quero dormir na barraca.
Tentando, talvez, compensar sua interrupção na conversa das crianças com o capitão, Randolph
sorriu, condescendente.
— Está bem, Jacob, pode ir. Se tiver medo durante a noite, pule para a margem e vá para a
barraca, com Hannah e Peggy.
— Eu não vou ficar com medo! — Jacob afirmou, com convicção.
— Mamãe, posso ir com Jacob? — A pequena Bridgett voltava-se para Nancy Trask. — Quero
dormir olhando para as estrelas, como na noite passada.
Nancy olhou para Hugh, e este apenas deu de ombros.
— Está certo — ela consentiu.
Hannah não gostava muito da idéia de ter Jacob e Bridgett longe do grupo, mas resolveu afastar
os maus pensamentos.
Afinal, não estavam tão longe assim das barcas. Se algo acontecesse, Jacob poderia gritar por
socorro e ser atendido de pronto.

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CAPÍTULO DEZ

Hannah acordou com um grito, e logo sentiu a mão de Randolph em seu braço. Ele jamais
entrara na barraca enquanto ela dormia, e Hannah sentou-se de imediato, assustada.
— O que houve? — perguntou com voz sonolenta.
— Jacob e Bridgett sumiram! Hannah sentiu um frio no estômago.
— Como assim? Eles devem ter entrado na mata para... bem, para fazer xixi.
Randolph passou a mão pelos cabelos, aflito.
— Já procuramos — disse, abatido. — Trask ainda está andando pela mata em busca dos dois.
— Eu vou procurá-los! — Hannah afirmou, sentindo uma espécie de pânico brotando em seu
peito.
Ao sair da barraca, encontrou Nancy desesperada.
— Minha pequena Bridgett, Hannah! Ela desapareceu!
— Nós vamos encontrá-la, Nancy! — Hannah assegurou com uma convicção que nem ela
própria tinha. — Procure acalmar-se, ou vai prejudicar seu bebê.
Randolph aproximou-se das duas mulheres, pálido, nervoso.
— Eles não estão por perto. Reed disse que talvez os índios os tenham levado do barco, durante
a noite...
Nancy pareceu ter uma vertigem, pois cambaleou sobre Hannah, que a amparou depressa.
— Ajude-me com ela, Randolph!
Ele pareceu só agora notar o estado de angústia da pobre mulher. Tomou-a nos braços, erguendo-
a do chão com facilidade, e levou-a até a margem do rio, onde a depositou, recostada a uma árvore.
Trask apareceu logo em seguida, mas sua preocupação parecia estar mais voltada para a filha do
que para a esposa.
— Por que deixou a menina dormir ao relento?! — ele esbravejou para Nancy.
Randolph afastou-o, empurrando-lhe o peito, gritando também:
— Não vê que ela está passando mal, homem?! Quer matar seu bebê antes mesmo de nascer?!
Trask olhou para o outro com raiva, na intenção de agredi-lo, talvez, mas Hannah interferiu.
— Parem os dois! Devemos pensar nas crianças! O que faremos agora?
Ethan apareceu de trás de algumas árvores e aproximou-se.
— Não consegui encontrar rastros. Randolph voltou-se para ele, enfurecido.
— Que droga de guia é você, afinal?! Como um grupo de índios aparece no meio da noite, leva
duas de nossas crianças, e você não percebe nada?!
Ethan meneou a cabeça.
— Eu não entendo o que houve. Não faz sentido... Se foram índios, realmente, não haverá
rastros em lugar nenhum. Eles sabem como apagá-los.
Peggy e Janie se abraçavam, chorando, sentadas na beirada de um barco. Hannah respirou fundo
e olhou para o casal Baker, sem saber o que dizer ou fazer. Seth adiantou-se e fez uma sugestão:
— Talvez devêssemos organizar uma busca, já que os pequenos não estão nas redondezas. Elisa
ficará no acampamento com a Sra. Trask e as meninas, e o restante de nós poderá sair e procurar,
até encontrá-los.
Ethan assentiu, aprovando a idéia.
— É melhor formarmos dois grupos — acrescentou. — Vou por terra, com Seth, à procura de
pistas. Webster e Trask, vocês podem seguir rio abaixo.
— Por que rio abaixo? — Trask questionou. Ethan olhou para Nancy, constatando seu estado de
desespero.
— É melhor falarmos sobre isso lá perto dos barcos.
— Não! Quero saber o que vai dizer! — Nancy protestou, sentando-se.
O capitão hesitou por instantes, depois falou:

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— Seja quem for que os levou, deve estar seguindo rio abaixo, mas há ainda a possibilidade de
que... de que tenham caído na água e sido levados pela correnteza.
— Oh, meu Deus! — A voz de Nancy não era mais do que um lamento dolorido.
Hannah ajoelhou-se ao lado dela, passando os braços por seus ombros.
— Nós vamos encontrá-los, Nancy. Acalme-se, por favor!
— Vá com eles, Hannah — Elisa disse, aproximando-se com um cobertor. — Eu cuido de tudo
aqui.
— Vamos, Hannah! — Randolph chamou.
— Ela vem comigo! — interveio o capitão.
— Não vai, não!
— Não seja idiota, Webster! Pense em seu filho. Deve estar assustado, com medo! Ele vai querer
ver você ou Hannah primeiro! — Ethan foi até o barco, para pegar sua arma e munição. Disse,
enquanto o fazia: — Não sabemos quem vai encontrá-los. Por isso é melhor nos dividirmos assim.
— Ele deve ter razão, Randolph — Hannah observou, colocando a mão sobre o braço do patrão.
— Vá com o Sr. Trask. Eu irei com Seth e o capitão.
O rosto de Randolph mostrava toda a raiva, preocupação e contrariedade que sentia.
— Por favor — insistiu Hannah. — Precisamos pensar em Jacob.
— Façam como quiserem! — ele disse, por fim, com rispidez, pegando seu rifle e dirigindo-se
para a margem do rio.
Ethan descobriu uma trilha que seria seguida com facilidade por qualquer um que saísse do rio.
Em silêncio, Seth e Hannah o seguiram por ela, confiantes nas habilidades do capitão na procura de
qualquer pista.
— Alguém passou por aqui, com certeza — Ethan disse, após verificar com cuidado a vegetação
ao redor.
— Acha que foram as crianças? — Seth indagou, inclinando-se sobre alguns galhos quebrados
que Ethan indicava.
— Bem... Veados não seguem trilhas, e deixam pegadas. Seja o que for que costuma passar por
aqui, não o faz há muito tempo.
Continuaram avançando pela trilha, com o capitão parando para observar o que ele chamava de
sinais.
Hannah começava a desanimar da busca, quando Ethan soltou um murmúrio. A sua frente, a
pouca distância, estava o mosquete com que presenteara Jacob.
Hannah procurou adiantar-se, mas o capitão a deteve pelo braço.
— Espere. Deixe-me dar uma olhada primeiro, antes que você destrua qualquer pista.
Aproximaram-se com cautela, e Ethan verificou o local ao redor, principalmente o chão.
— O terreno aqui é firme demais para deixar pegadas, mas a terra está um tanto revolvida...
Devia haver algumas pessoas aqui, com certeza.
— Pessoas? — Hannah sentia o medo crescer dentro de si.
Ethan assentiu, taciturno.
— E usavam mocassins — acrescentou.
— Deus do céu! — Seth sussurrou, apavorado.
— Se fosse um grupo de guerreiros — Ethan prosseguiu, analisando —, teriam atacado o
acampamento, em busca de armas. Não estariam interessados em duas crianças.
— E se forem os índios amigos de que você falou ontem? — Hannah especulou, sentindo as
mãos molhadas de suor.
Jacob e Bridgett deveriam estar apavorados. Isso, se ainda estivessem vivos...
— Não faz sentido — Ethan respondeu. — índios amigos não roubam crianças.
— Você conseguiria segui-los?
— Não me parece que estejam despistando, Seth.
— Então, não é melhor voltarmos para buscar Trask e Webster?
— Não, eles devem estar bem longe, agora. Se voltarmos para buscá-los, perderemos tempo

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demais. — Pegou o mosquete do menino e fez um sinal para que Seth e Hannah o seguissem.
Pouco mais de meia hora depois, saíam da floresta, encontrando diante de si um campo muito
parecido com aquele no qual haviam caçado com os soldados do forte. Havia um pequeno riacho a
pouca distância, à margem do qual um grupo de oito ou nove guerreiros índios descansava. Eram
como Hannah os imaginara: queimados de sol, altos, fortes, com longos e lisos cabelos negros.
Estavam sentados junto às duas crianças, que riam, fascinadas.
— Graças a Deus! — Hannah suspirou, aliviada.
— Não são wyandots — Ethan concluiu. — Parecem potawatomis.
— E são amigáveis?
— Não sei. — Ethan apontou o rifle para o chão, ergueu a mão e gritou uma palavra que Hannah
não entendeu.
Dois dos índios já tinham se levantado e vinham em sua direção. Um deles era velho, com vários
fios de cabelos brancos, nos quais havia uma única pena de águia, usada como enfeite.
Ele respondeu, usando a mesma palavra que Ethan pronunciara.
— Você fala a língua deles? — Hannah perguntou, admirada.
— Algumas palavras apenas.
Agora, Jacob e Bridgett já os tinham visto, e Jacob pulava, alegre, acenando, enquanto a menina,
percebendo talvez a gravidade do que fizera, mantinha-se sentada, de cabeça baixa.
— Posso me aproximar das crianças? — Hannah perguntou ao capitão.
— Espere um pouco. Vamos nos assegurar de que não interpretem errado a nossa presença.
Os dois índios pararam a alguns passos de distância. Ethan apontou para si próprio, depois para
as crianças, e os índios assentiram. Um deles começou a falar e, quando parou, Hannah não pôde
evitar a pergunta:
— Entende tudo o que ele disse, capitão?
— Não muito. Mas acho que disseram que encontraram as crianças na trilha e estavam tomando
conta delas até que alguém aparecesse para buscá-las.
— Então... eles não as raptaram?
— Acho que não. — Ele depositou o rifle e a munição no chão. Depois, tirou uma pequena bolsa
de fumo do bolso e ofereceu-a ao índio mais velho, com uma espécie de mesura respeitosa.
— O que está fazendo? — Hannah continuava com as perguntas.
— Agradecendo pelo cuidado com as crianças.
O índio aceitou o presente, dizendo algumas palavras; o outro não tirava os olhos de Hannah.
— Não se costuma encontrar potawatomis por aqui — Ethan segredou a Hannah e Seth,
enquanto o índio cheirava o fumo. — Mas eles parecem pacíficos.
De repente, o índio mais jovem fez um gesto brusco para Hannah, como incitando-a a ir até as
crianças. Ela obedeceu, evitando olhá-lo, e correu para junto de Jacob e Bridgett. Abraçou-os,
perguntando, preocupada:
— Vocês estão bem? Eles não os maltrataram? Bridgett começava a chorar.
— Estávamos com medo, Hannah. Pensei que nunca mais voltaríamos ao acampamento.
— O que aconteceu com vocês? — Hannah procurava evitar as lágrimas que teimavam em
encher-lhe os olhos. — Esses homens tiraram vocês da barca?
Jacob negou com a cabeça.
— Eles não fizeram nada de mal, Hannah. São bonzinhos e falaram conosco através de gestos,
como o capitão Reed tinha dito.
— Mas... como vocês chegaram até aqui?
Jacob baixou a cabeça para murmurar, envergonhado:
— Eu queria ver os índios, Hannah.
Foi Bridgett quem terminou de contar a história:
— Acordamos muito cedo, e Jacob disse que podíamos entrar na floresta para ver os índios. Ele
afirmou que voltaríamos antes de os outros acordarem. Mas nós... nos perdemos... — A garotinha
começou a chorar, e Hannah abraçou-a mais uma vez.

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— Oh, meu amor. Sua mamãe está tão preocupada com você! Nós todos ficamos muito
preocupados.
— Eu não queria deixar mamãe triste...
Os índios observavam aquela cena com curiosidade. Hannah tentou sorrir para eles, enquanto
abraçava a menina.
— Meu pai vai me bater — Bridgett resmungou, soluçando.
— Deixe que eu falo com ele — Hannah acalmou-a.
— Ninguém vai apanhar. Mas saibam que fizeram algo muito errado. Lembra-se, Jacob, de que
lhe falei sobre ter responsabilidade nesta viagem?
O menino assentiu. Parecia envergonhado. Hannah prosseguiu:
— Daqui em diante eu o quero sempre perto de mim ou de seu pai, está bem?
As duas crianças assentiram, e Hannah soltou-as do abraço quando viu que Ethan e Seth se
aproximavam, acompanhados dos dois guerreiros.
— Eles estão bem — disse, acariciando os cabelos de Jacob. — Saíram cedo para explorar a
região e se perderam.
— Esses índios são bonzinhos, capitão — o menino explicou, com um sorriso tímido, de quem
sabe que agiu errado.
Ethan entregou-lhe sua arma e comentou, sério:
— Mas nem todos são, Jacob. E um bom rastreador jamais deixa sua arma.
— É que... ficamos assustados quando vimos os índios, e eu a deixei cair, capitão.
O índio mais novo disse algo ao outro, mas Ethan voltou-se logo, negando com a cabeça.
Hannah não conteve a curiosidade:
— O que ele está dizendo?
— Querem saber se você é minha mulher.
Ela sentiu-se enrubescer de imediato, enquanto Ethan respondia algo aos índios. Dessa vez, foi
Seth quem perguntou:
— O que respondeu a eles?
— Eu disse "ainda não".
Os índios, agora, estavam todos de pé e observavam os brancos com atenção e curiosidade.
Aquele que acompanhara o mais velho aproximou-se de Hannah e ergueu-lhe a trança loira,
dizendo algo aos amigos.
Ela afastou-se, inquieta e preocupada; aquela situação começava a incomodá-la.
— O que ele falou agora? — tornou a perguntar a Ethan.
— Não entendi. Mas acho melhor irmos embora. — Ele voltou-se para o índio mais velho, disse-
lhe algo, e apontou em direção à floresta de onde tinham vindo.
A conversa, porém, pareceu se estender mais do que o necessário, o que deixou os nervos de
Hannah à flor da pele. Ela voltou-se para Seth, que ergueu as sobrancelhas, sem saber o que dizer
ou fazer.
Ethan gesticulava muito e, de repente, tomou o braço de Hannah, afastando-a das crianças e dos
índios.
— Querem nos oferecer uma refeição — ele explicou, com expressão preocupada.
— E isso levaria muito tempo? — Hannah não vira nenhum sinal de fogueira, o que indicava que
nada havia sido preparado ainda para que pudessem comer.
— Horas, dias talvez. Os índios têm uma idéia bastante diferente da nossa em relação ao tempo.
— Mas temos de voltar logo para contar a Nancy que as crianças estão bem. É perigoso para ela
passar por tanta preocupação.
— Talvez não precisemos ficar todos — Seth opinou. — Um de nós pode voltar para tranqüilizar
os outros.
Ethan olhou para Hannah. Estava muito sério ao dizer:
— Eles fazem questão que a mulher de cabelos cor de sol fique.
— Cor de sol? — ela exclamou, sorrindo. Gostara da comparação.

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 Nos Braços do Destino – CH nº 88 – Ana Seymour 
Mas nem Ethan, nem Seth, partilhavam de sua lisonja. Trocaram um olhar significativo, e Seth
perguntou:
— O que pode acontecer se tentarmos partir?
— Não sei.
— Eu fico, então — Hannah ofereceu. — Ethan, leve as crianças de volta ao acampamento.
— Não! — Seth protestou. — Eu volto e digo aos outros que tudo está bem. Virei depois, com
Randolph e Hugh.
Ethan meneou a cabeça.
— Se eles virem mais homens brancos, podem começar a ficar tensos. — Ele pensou por um
momento, depois acrescentou: — Seth, acha que consegue voltar pela trilha pela qual viemos e
chegar aos barcos?
— É claro que sim!
— Mas... e quanto às crianças? — Hannah interferiu, aflita.
— Seria melhor se voltassem com Seth — respondeu o capitão.
— Reed, tem certeza de que não quer que eu venha com Trask e Webster? E se houver
problemas? — Seth indicou Hannah com um leve movimento de cabeça.
A maioria dos índios os observava com atenção. Ethan olhou para ele por instantes, depois
respondeu:
—Ainda acho melhor que eles não vejam mais homens vindo para nos buscar. Mantenha todos
no acampamento. Eu e Hannah voltaremos assim que pudermos.
As crianças protestaram, quando souberam que voltariam sem Hannah. Ela acalmou-as, porém, e
as fez prometer que obedeceriam Seth no caminho de volta.
Ethan procurava se comunicar com o índio mais velho, que parecia ser o líder do grupo. Quando
este, afinal, concordou com a partida de Baker e das crianças, o capitão disse logo:
— Vá depressa, antes que ele volte atrás, Seth. Baker apanhou uma criança em cada mão e se foi.
Jacob voltou-se, ainda, dizendo:
— Você vai ficar bem, não é, Hannah?
— Vou, querido! Vá tranqüilo!
Quando os três desapareceram por entre as árvores, ela voltou-se para Ethan. O sorriso que dera
ao menino já desaparecera, cedendo à apreensão e ansiedade do momento.
Logo, os índios tornaram a se aproximar, apontando para os cabelos de Hannah, fazendo
comentários em sua língua estranha. Com gestos, o índio jovem, que primeiro se aproximara, fez
Ethan entender que queria ver os cabelos da moça soltos.
O capitão traduziu o pedido a ela, e Hannah desfez a trança enquanto os nove índios a
observavam, atentos. Alguns tentaram tocar as mechas douradas, mas Ethan se interpôs, falando
duas palavras no idioma deles.
Com gestos e expressões faciais, uma estranha conversa começou entre brancos e índios. O mais
velho se fez identificar como chefe de um grupo, ao qual denominou "tartarugas". Para que Ethan
entendesse a palavra, imitou o animal, o que fez todos rirem, descontraídos. Parecia incrível a
Hannah poder partilhar uma espécie de brincadeira com gente tão diferente.
Os índios acenderam uma fogueira e colocaram algumas raízes para assar, enroladas em palha de
milho. Tinham trazido carne defumada, mel e um tipo diferente de frutas vermelhas, que Hannah
jamais vira.
O rapaz que parecia tão interessado nela, fazia-lhe sinais para que comesse mais e mais. Seu
nome era Skabewis e, após a refeição, ele foi até seu cavalo, onde vasculhou uma pequena mochila
de couro. Voltou, depois, com um pequeno objeto de madeira, com o qual presenteou Hannah. Era
uma pequena caixa, com agulhas de osso arrumadas em ordem do lado de dentro.
Hannah olhou para Ethan, sem saber como reagir.
— É um belo presente — ele comentou. — Apenas agradeça.
Ela fez como lhe era dito, mas o olhar insistente do índio começava a deixá-la embaraçada.
— Quando acha que poderemos partir, Ethan? — perguntou com certa angústia na voz.

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— Não sei... Eles parecem gostar demais de olhar para você. — Ele riu. — E não posso culpá-los
por isso.
— Tenho receio de que Randolph queira vir à nossa procura, apesar do que você disse a Seth.
— Vou ver o que posso fazer. — Ethan voltou-se para o chefe, começando a falar devagar,
tentando usar as palavras corretas para expor sua intenção.
O índio mais velho ouviu-o em silêncio, depois olhou para Skabewis, que falou muito.
Hannah percebeu que Ethan se agitava, mas que se esforçava por manter a calma. Quando o
jovem guerreiro se calou, o capitão falou, alto e bom som, com voz fria, acentuando as palavras
com gestos.
— O que houve? — Hannah já não conseguia conter a inquietação.
Ethan fez-lhe um sinal para que se calasse. A conversa com os índios prosseguiu ainda por
algum tempo e, como Skabewis não parasse de olhá-la, Hannah sentiu que o assunto deveria girar
em torno de sua pessoa. Impaciente, ela tornou a perguntar:
— O que ele quer?
O rapaz se levantou, falou alto, e foi até o rio; parecia nervoso. Ethan também estava agitado. Só
o velho chefe parecia manter a calma.
Sem agüentar mais aquela situação, Hannah agarrou o braço de Ethan, gritando:
— Diga-me o que estão falando!
Ele se voltou, respondendo, sem rodeios:
— Skabewis quer comprar você.

CAPÍTULO ONZE

Hannah arregalou os olhos. — Que tipo de brincadeira é essa?!


— Não é brincadeira. Eles têm um entreposto de peles aqui perto e Skabewis o está oferecendo
por você.
Ela sentiu o sangue gelar em suas veias. O que Ethan poderia fazer para protegê-la? Começava a
sentir o desespero tomando-lhe o peito.
— O que vamos fazer? — perguntou, aflita. Ethan via o medo nos olhos dela. Sentia o mesmo
temor ao notar os olhos cúpidos do jovem índio sobre Hannah.
— Vou tentar negociar — ele respondeu, sério. Depois, procurando aliviar o pavor da moça,
brincou: — Tentarei obter uma oferta melhor.
Mas ela não sorriu.
— Eles... não podem forçá-lo a me vender, podem?
— Não, enquanto eu viver. — Ethan olhou para as árvores distantes, depois acrescentou: —
Quero que comece a caminhar de volta à trilha por onde viemos. Acha que conseguiria voltar ao rio
sozinha?
— Sozinha?! Mas...
— Talvez não tenha de fazê-lo — ele a interrompeu. — Mas, caso seja necessário, lembre-se de
que o rio fica a leste. Observe onde o sol está se pondo e vá na direção contrária, o mais rápido que
puder.
— Não vou deixar você...
Agora, a interrupção foi mais firme. Ethan puxou-a para si e deu-lhe um beijo rápido nos lábios,
dizendo depois:
— Vá. Faça como eu disse. Irei assim que puder. Hannah começou a andar, a princípio vacilante,
olhando para trás e vendo que os índios a observavam. Dois deles fizeram menção de segui-la, mas
Ethan colocou-se à sua frente, começando a falar. Ela passou a andar mais depressa, ouvindo o
capitão e Skabewis falando aos brados.
Ao atingir a floresta, Hannah parou, sem saber se esperava por Ethan ou prosseguia, tentando se
salvar. O sol começava a se pôr, e a escuridão entre as árvores seria tenebrosa assim que a noite

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caísse.
Se tivesse uma arma, ela poderia tentar ajudar Ethan, mas o melhor a fazer, no momento, parecia
ser voltar ao rio e buscar ajuda no acampamento.
Preocupada e indecisa, Hannah avançara pela trilha que julgava ser a correta, parando às vezes
para poder pensar melhor. Talvez devesse ficar com os índios até que Ethan viesse resgatá-la mais
tarde. Mas a idéia fazia-a estremecer. No entanto, nada parecia pior do que o pensamento de ver
Ethan morto por sua causa.
Parou, então, decidida a voltar. Não o deixaria. Se não pudesse ajudá-lo, pelo menos estaria a seu
lado.
A floresta já estava completamente às escuras agora. Hannah procurava não se perder, tentando
reconhecer o caminho por onde viera. Seu coração começou a bater mais forte, quando já não
reconhecia mais o lugar. Seria tão fácil perder-se ali!
Em que direção o sol se escondera? Agora, no escuro, ela se sentia confusa demais.
— Está indo na direção errada — disse uma voz, logo atrás de si.
Hannah voltou-se, aliviada.
— Ethan! — Sem pensar em mais nada, ela o abraçou com força, quase fazendo-o cambalear.
— Para onde estava indo, moça? — o capitão perguntou, sorrindo e retribuindo o abraço.
— Eu ia voltar para ajudá-lo.
— Minha corajosa e tola moça do leste! — Ethan exclamou, ainda apertando-a contra si. — Se
tivesse voltado, talvez jamais conseguíssemos escapar.
Hannah deu-se conta, de repente, da proximidade de seus corpos, e afastou-se, prudente, para
perguntar:
— E como conseguiu escapar, capitão?
— Com uma boa conversa. Acho que se cansaram de me ouvir e me deixaram ir embora.
— Sei, sei. E onde está seu rifle?
— Decidi deixá-lo com os índios. Hannah arregalou os olhos.
— Entregou sua arma a eles?!
— Acho que você vale o preço, Srta. Forrester. Mas não se preocupe. Tenho outro rifle no barco.
— Mas não o seu Tiro Certeiro.
— É. Tem razão — ele concordou, sorrindo. Hannah olhava-o com atenção. A barba já
acentuava seus traços fortes, e os cabelos soltos vinham-lhe até os ombros, deixando-o com o
verdadeiro aspecto do homem desbravador do Oeste, que Hannah já vira representado em algumas
gravuras.
— Sinto muito por sua arma — ela murmurou, sentindo os olhos úmidos de repente. Uma única
lágrima rolou, sem controle, por seu rosto, e Ethan veio beijá-la com carinho.
— Não chore, meu bem — ele murmurou. — O importante é que você está sã e salva. Quando
notei o jeito como aquele índio a olhava, tive vontade de estrangulá-lo, sabia?
— Você me pareceu bastante calmo...
— Mas não estava. Se eles quisessem criar algum tipo de problema, estaríamos perdidos porque
eu não permitiria que tocassem num só fio de seus cabelos.
Hannah engoliu em seco, imaginando o que poderia ter havido.
— Acha que virão atrás de nós? — perguntou, temerosa.
— Não. Partiram em direção oeste.
— Eles foram gentis com as crianças.
— Os potawatomis são mesmo, de modo geral. Mas as teriam levado para sua tribo, caso não
viéssemos procurá-las.
— E jamais as encontraríamos de novo, não é? Ethan assentiu de leve. Depois acrescentou, numa
espécie de justificativa:
— A fronteira ainda é uma região perigosa.
— Acho que todos aprendemos uma grande lição hoje, em especial Jacob.
— Ele é bastante curioso, mas não o culpo. Hannah sorriu.

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— O pequeno Ethan Reed era bem parecido com ele, eu suponho.
— Ainda é — o capitão acrescentou com um sorriso. Por momentos, ficaram assim, olhando-se,
sabendo que tinham escapado ilesos de uma situação perigosa. De repente, a expressão nos olhos de
Ethan mudou, e Hannah pareceu reconhecê-la. Sentiu-se tensa e, ao mesmo tempo, frágil, e deu um
passo atrás, dizendo:
— Acho que... é melhor voltarmos para os barcos, não? Ele assentiu, ainda encarando-a.
— Podemos tentar, mas não sei se iremos muito longe.
— O que quer dizer?
— Não temos suprimentos, nada com que eu possa fazer uma tocha. Está escuro demais para
encontrarmos o caminho de volta.
— Quer dizer que vamos ter de passar a noite aqui?! — O tom de voz de Hannah mostrava
apreensão e medo.
— Não posso sequer ver as estrelas direito com todas essas árvores. — Ele deixou de fixá-la para
erguer os olhos para o céu. — Não tenho como me guiar. Quer arriscar?
— Não! É claro que não. Só acho que... podem estar preocupados conosco no acampamento.
— Vamos avançar o máximo que pudermos, então. — Ele não parecia preocupado em passar a
noite a sós com Hannah, no meio da floresta.
Começaram a caminhar, mas logo Ethan parou, tentou orientar-se, e abanou a cabeça.
— Não adianta. Não consigo. É melhor marcarmos este ponto para nos orientarmos amanhã e
procurarmos um local melhor para pernoitarmos.
A poucos metros de distância, encontraram uma pequena clareira rodeada de pinheiros. O terreno
estava recoberto pelas inúmeras folhas mortas das árvores.
— Acho que aqui está bom — o capitão aprovou.
— Aqui? Ao relento?
— Não vamos conseguir encontrar uma hospedaria, meu bem. Com certeza.
Aquela era a segunda vez em que ele a tratava por "meu bem", e, apesar de as palavras
agradarem-na, Hannah sabia que seria um erro deixar-se levar por elas.
— Bem, talvez pudéssemos encontrar uma gruta, ou algo parecido...
— Este é o colchão para quem vive nesta região, Hannah — Ethan explicou, apontando com um
gesto suave para o chão. — O telhado é o céu, e o vento que sopra por entre as folhas é a canção de
ninar.
— Pode parecer muito poético, mas não temos nem mesmo um cobertor!
— Se eu não fosse um cavalheiro, poderia dizer que ajudaria você a se aquecer, mas...
— Você não é um cavalheiro. — Hannah não pôde conter o riso, e não soube exatamente o mo-
tivo. Afinal, passara por momentos tão tensos durante o dia... Deveria estar impressionada, ainda, e
muito agitada.
Ethan fora até o centro da clareira e empilhava algumas folhas.
— É melhor esperar que eu seja um cavalheiro, moça, porque esta vai ser uma longa noite.
Algo no tom de voz dele a fez perceber que o capitão não estava brincando. Foi até ele, ajeitando
também as folhas que lhe serviriam de cama.
— E... você é ou não um cavalheiro? — perguntou, tímida.
Ethan olhou-a por instantes. Então tomou-a pelos braços e puxou-a, sussurrando antes de beijá-la
com paixão:
— Acho que não.
Hannah perdeu a noção do tempo enquanto durou aquele beijo. Quando o capitão por fim a
soltou, arfando, tomado de intenso desejo, ouviu-o murmurar com dificuldade:
— Sinto muito, mas eu precisava fazer isso. — Depois, afastando-se um pouco, ele completou:
— Não sou um cavalheiro, mas também não sou um canalha. É melhor deitar e dormir, Hannah.
Ela se sentia atônita, insatisfeita. Deveria estar contente por Ethan ter retrocedido em seus
avanços amorosos, mas sentia como se algo tivesse ficado inacabado, triste. Sua mãe sempre lhe
dissera que os homens jamais param quando desejam uma mulher. Mas Ethan parara. E Hannah não

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sabia se deveria se envergonhar ou se aborrecer consigo mesma porque gostaria que ele tivesse
continuado...
Ele a observava havia horas. Seus olhos já estavam acostumados à escuridão e podiam divisar os
contornos do corpo de Hannah com precisão.
Ethan estava sem sono. Seus pensamentos se agitavam. Fazia muito tempo que não tinha uma
mulher nos braços e queria convencer-se de que essa era a razão pela qual Hannah o atraía tanto.
Porém, sabia que seus sentimentos iam muito além disso.
Queria demais aquela moça. E, além disso, admirava-a, sentia ternura e uma grande sensação de
proteção em relação a ela.
O que mais o intrigava, porém, era o fato de respeitá-la, acima de tudo. Jamais desejara e
respeitara uma mulher ao mesmo tempo. E Hannah, com certeza, merecia essa deferência.
O que ela não merecia era perder a chance de ter uma vida honesta e feliz ao lado de Randolph
Webster.
Dias atrás, antes de chegar ao forte, Ethan jurara manter-se afastado dela. No entanto, agora, ali,
a seu lado, Hannah lhe parecia a mais bela e a mais desejável das criaturas sobre a face da Terra.
Ela despertou no meio da madrugada, um tanto assustada por ver-se sobre as folhas secas dos
pinheiros. Ouvira um ruído estranho. Procurou por Ethan e viu-o recostado ao tronco de uma das
árvores, na certa adormecido.
O barulho que ouvira devia tê-lo acordado também porque o capitão ergueu a cabeça e levantou-
se devagar, fazendo-lhe um sinal para que continuasse em silêncio.
Ethan veio devagar até ela e ajoelhou-se a seu lado. Agora, ambos podiam ouvir um ruído que
vinha de dentro da mata à sua direita.
— Acha que são os índios? — Hannah perguntou, o coração aos pulos.
— Não fariam barulho nenhum se estivessem atrás de nós. Deve ser algum animal.
— Lobos?
— Acho que não. Eles sempre vêm em grupos e só há um escondido na mata, pelo que posso
distinguir. Mas talvez seja um urso.
Hannah aproximou-se do capitão, num movimento instintivo.
— Vamos ter de subir em alguma árvore? — perguntou, aflita.
Ethan riu.
— Se ele estiver com fome, isso não vai adiantar. — O capitão Reed deu-se conta da
proximidade de Hannah. Passou o braço sobre os ombros dela, aconchegando-a de encontro si.
Então acrescentou, para tranqüilizá-la: — Mas, na maior parte das vezes, os ursos têm mais medo
dos homens do que nós deles.
De repente, o ruído pareceu ficar mais próximo, e Hannah apegou-se ao peito do capitão,
apavorada.
Logo, o animal apareceu, vindo da mata. Ethan riu, aliviado.
— É apenas um guaxinim. Não tenha medo.
O bichinho parou ao ouvi-lo, ficando imóvel por instantes, depois deu meia-volta e entrou,
correndo, no meio dos pinheiros.
Hannah afastou-se de Ethan.
— Oh, Deus! Acho que jamais vou me esquecer deste dia! Graças a Deus você estava comigo.
— Estarei sempre.
Hannah ergueu os olhos depressa para vê-lo. O tom baixo, sussurrante, trouxera algo de novo
entre ambos.
Ela sentia-se segura, protegida e incrivelmente atraída por aquele homem. Por isso não protestou
quando as mãos dele desceram até os botões de sua blusa e começaram a abri-los, um a um,
devagar.
Ethan baixou a cabeça e beijou-a com uma paixão controlada, que acendeu uma fogueira de
desejo em ambos.
Depois, ainda muito próximo, ele sussurrou em seu ouvido:

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— Tenho lutado contra isso desde o dia em que a vi pela primeira vez, Hannah. Mas há algo
forte demais entre nós.
Ethan repetiu o beijo e sentiu, agora, que Hannah correspondia com muito mais ardor. Ela o
queria também, e muito, não havia mais do que duvidar. Não havia nada mais a esperar. Estavam
livres para viver sua primeira noite de amor.

CAPÍTULO DOZE

Hannah jamais pensara que pudesse viver momentos tão maravilhosos nos braços de um homem.
Tivera as mais incríveis sensações, experimentara ondas de prazer e delírio que a transportavam
para um outro mundo, distante da realidade e cheio da magia do amor. Ethan fizera com que se
sentisse a mais feliz e realizada das mulheres; mostrara-lhe como era possível amar e ser amada
com uma intensidade arrebatadora. E Hannah tivera certeza, entre os braços dele, que aquele era o
homem de sua vida; aquele que amaria para sempre, mesmo que seu destino não tivesse sido
traçado junto ao dele.
Apesar de aquela ter sido sua primeira experiência amorosa, Hannah sentia-se desembaraçada,
livre de qualquer timidez ou recato, e isso encantou o capitão. Aquela mulher o surpreendia mais
uma vez. E encantava-o também. Seria ótimo se pudesse partilhar toda sua vida com ela. No
entanto, nem por um segundo se esquecera de quem era e da vida sem amarras que gostava de levar.
Hannah era maravilhosa, sim. Especial em todos os sentidos. E deixava-o dividido entre o prazer de
estar com ela e o gosto pela aventura e pelo perigo.
Quando os primeiros raios de sol clarearam a manhã, Hannah despertou e esticou os braços, em
busca do corpo de Ethan, ao qual se aninhara a noite toda. Ele já não estava. No entanto, sua jaqueta
de couro ainda a cobria, e sua camisa estava no chão, bem próxima.
Instantes depois, ele aparecia por entre as árvores, sorridente, trazendo nas mãos algumas folhas
enormes, que pareciam conter pequenas frutas vermelhas. Ajoelhou-se perto de Hannah para dar-lhe
um beijo matinal.
— Bom dia! — saudou e ergueu a bandeja de folhas, acrescentando: — Trouxe nosso desjejum.
Hannah enrolara-se na jaqueta, procurando ocultar sua nudez, de súbito envergonhada por ver-se
tão à vontade diante dele, à luz do dia.
— Não faça isso — Ethan disse-lhe, num sorriso gentil. — Sua beleza é ainda maior pela
manhã, minha querida.
Hannah conseguiu apenas sorrir de leve. Aprendera muito sobre o amor físico nessa noite, mas,
com a luz do sol, o mundo e a realidade pareciam ganhar uma dimensão nova, carregada de
responsabilidades e exigências. Logo vieram-lhe à memória os rostinhos de Jacob e Peggy. Como
poderia encará-los novamente depois do que se passara na noite anterior? E como olhar para
Randolph outra vez?
— Não vai comer? — a voz do capitão interrompeu-lhe os pensamentos. Ele lhe oferecia as
frutinhas vermelhas.
— Não seria melhor se fôssemos embora logo? Ethan percebeu uma certa frieza na voz dela.
Talvez Hannah estivesse arrependida, apreensiva até, com o que acontecera. De repente, uma
estranha sensação de vazio tomou-o, deixando-o perplexo. Jamais vivera uma noite de amor tão
intensa com outra mulher. Algo muito além do prazer físico ligara-os, tornando-os parte de um
mesmo corpo, elementos de uma única dimensão. Fora mágico, inexplicável, impossível de negar
ou esquecer. No entanto, agora, Hannah parecia fria, distante.
Talvez ela tivesse razão. Seus mundos eram bastante diferentes, e os instantes de encantamento
que tinham vivido já não existiam mais. Precisavam voltar à realidade de suas vidas, retomar seus
caminhos, seus destinos. Afinal, Randolph Webster esperava por Hannah no acampamento. Ele e
seus dois filhos órfãos de mãe.
Ethan colocou as folhas junto dela e assentiu de leve. Ergueu-se, devagar, e murmurou, antes de

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afastar-se:
— Vou deixá-la sozinha para que possa se vestir. Coma algo. Vai precisar, pois temos uma
longa jornada pela frente.

— Hannah! Graças a Deus! — Randolph foi a primeira pessoa que encontraram ao regressarem
ao acampamento. Era como se ele os estivesse esperando. Veio logo para junto de Hannah,
tomando-lhe as mãos nas suas.
Ela notou, com a consciência pesada, que ele tinha olheiras, como se não tivesse dormido a noite
inteira devido à preocupação.
As crianças apareceram logo, rodeando e abraçando Hannah, sem lhe dar tempo ou oportunidade
para falar.
Ela se abaixou para abraçar a todos e percebeu que Seth e Elisa vinham também para dar-lhe as
boas-vindas.
— Chegou bem, pelo que vejo — o capitão observou, dirigindo-se a Seth.
— É. Acho que já sou um homem do Oeste! — o senhor concordou em tom de brincadeira.
— Pode não ser ainda, meu amigo, mas será em breve, com certeza. — Ethan passou por
Hannah, indo até o homem, para dar-lhe tapinhas amistosos nas costas.
— Ficamos preocupados, Hannah — queixou-se Peggy, ainda abraçada a sua cintura. — Por que
vocês não voltaram ontem à noite?
Hannah sentiu como se todos os olhos do mundo a focalizassem, acusadores. Sentia o rosto
quente e pedia a Deus que ele não estivesse tão corado quanto imaginava.
— Os índios não quiseram nos deixar partir—mentiu. Ethan veio logo em seu socorro,
acrescentando:
— Queriam comprar Hannah. Ofereceram-me peles em troca.
— Comprar? — Randolph estranhou, assustado.
— Mas o capitão Reed conseguiu convencê-los a me deixar voltar — ela explicou. — Teve,
porém, de deixar seu rifle e a munição com eles.
— O Tiro Certeiro?! — Jacob estava indignado. Ethan olhou para o garoto e ergueu as
sobrancelhas, numa expressão resignada.
— O próprio — admitiu. — Acho que terei de chamar minha outra arma de Tiro Certeiro
também.
— É! Tiro Certeiro II! — o menino concordou, voltando a sua alegria costumeira. — Na
verdade, capitão, é você quem faz o tiro, e não a arma.
Ethan sorriu.
— Você é um garoto esperto, Jacob Webster! — cumprimentou e, voltando-se para os demais,
acrescentou: — Os índios me pareceram bastante satisfeitos com o que lhes dei. Não acredito que
venham atrás de nós, mas, apenas, por precaução, acho melhor voltarmos aos barcos imediatamente.
— Devo-lhe muito por ter salvado meu filho e Hannah, Reed. — Randolph agradeceu,
oferecendo a mão ao capitão.
Hannah viu-os trocarem aquele aperto de mãos, mas não se convenceu da sinceridade de nenhum
dos dois. Pareciam pouco à vontade por terem de conviver em paz. Ethan evitou o olhar do outro.
— Acho que não poderemos partir de imediato — Elisa comentou com um traço de preocupação.
— Por que não?
— Nancy não está bem, capitão. Acredito que o desespero pelo qual passou fez-lhe muito mal.
Ethan cocou a barba de dois dias, pensativo, enquanto os outros aguardavam sua decisão. Agora,
ninguém mais se atrevia a questionar sua autoridade.
— Acho que a situação dela pioraria muito se nos víssemos, de repente, diante de um grupo de
índios hostis. É melhor improvisarmos uma cama para ela numa das barcas.
Randolph e Seth assentiram, e, sem mais tocarem no assunto, todos voltaram para junto dos
demais, a fim de prepararem-se para a partida iminente.
Ao passar por Randolph, Hannah sentiu-o retê-la pelo braço.

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— Você não pode imaginar como foi terrível para mim pensar que talvez não a visse mais!
Ela tentou sorrir com naturalidade.
— Bem... Estou de volta agora. É melhor não pensarmos mais no que aconteceu.
— Foi uma noite horrível para mim. Queria tanto poder falar com você, tocá-la, estar a seu
lado...
Hannah estava quase em pânico. As impressões das últimas vinte e quatro horas agitavam-na.
— Precisamos carregar os barcos — começou, mas Randolph a interrompeu.
— Eu sei. Mas, talvez... mais tarde, esta noite... Prometa que encontrará algum tempo para
podermos conversar a sós.
— Está bem. — Ela sentia um frio estranho no estômago. — Prometo que conversaremos hoje à
noite.
Randolph quase não se afastou de Hannah durante todo o dia. Solícito, estava sempre por perto
para atendê-la nas mínimas necessidades, pronto para fazer-lhe qualquer favor, prestar-lhe qualquer
auxílio. Chegou, mesmo, a servi-la na hora do almoço, não deixando que servisse as crianças como
de costume, alegando ser demais para ela, após o que passara.
Ethan, como antes, seguia no outro barco, e Hannah estava aliviada com isso. Não queria ficar
perto dele, ou ter de falar-lhe. Afinal, a noite maravilhosa que haviam partilhado podia ter sido linda
para ela, mas, com certeza, não passara de mais uma experiência como tantas outras para ele. Ethan
era um homem vivido, um aventureiro sem destino e sem raízes. Nada havia a esperar de um
homem como ele. Hannah não sabia, ao certo, por que se sentia assim em relação ao capitão, mas
tinha certeza de que sua intuição não falharia no tocante à atitude dele. Como sua mãe sempre a
alertara, os homens, depois de terem o que querem de uma mulher, perdem o interesse. Era uma
pena, porém. Porque ela adorara cada momento que vivera entre os braços dele.
Estranho. Ele tentara alertá-la sobre as conseqüências do que sentiam um pelo outro. Logo ao
ajeitar a cama de flores, ele a beijara com desejo, e recuara; era como se soubesse que seria perigoso
viverem seu amor, como se a alertasse quanto ao risco de amar um homem que não se prende a
nada, nem a ninguém.
Bem, agora já era tarde, e qualquer arrependimento, na intensidade que fosse, seria apenas dela.
Era a vez de Seth Baker pegar o remo, e Randolph aproximou-se para sentar-se junto de Hannah.
Aquele trecho do rio era o mais belo pelo qual já tinham passado, justificando plenamente o nome
que os índios lhe davam: Ohio, ou seja, rio bonito. As águas eram claras, brilhantes; as margens,
carregadas de uma vegetação exuberante, de cores e tonalidades incríveis. Pássaros multicoloridos
esvoaçavam para todos os lados à passagem dos barcos, dando a impressão de que avançavam em
meio ao paraíso.
—Você não me parece assustada pelo que lhe aconteceu ontem — Randolph observou, olhando-
a com atenção. Hannah sorriu.
— Acho que foi pior para você do que para mim — disse com voz suave. — Primeiro, a
preocupação com o desaparecimento de Jacob, depois nossa demora em voltar ao acampamento.
— Acho que fui um tanto rude ontem, quando estávamos formando os grupos de busca.
— Todos nós estávamos aflitos por causa das crianças. Não se preocupe com isso.
— Eu... não quero que pense que estava zangado com você. Na verdade, era Reed quem estava
sendo inconveniente.
— É melhor não falarmos mais sobre isso, Randolph. Já passou. Estamos todos bem e é melhor
apreciarmos este dia maravilhoso.
— Não o vejo assim tão maravilhoso quando penso que pode haver índios hostis nos observando
por trás das árvores das margens. Quando me lembro de que Jacob esteve com eles...
— Aqueles índios não eram perigosos — ela o interrompeu. — Trataram bem as crianças e a
nós também. Apenas aquele jovem guerreiro se... interessou um pouco além da conta por mim. —
Hannah sorriu ao se lembrar da insistência do índio.
Mas Randolph não sorria ao dizer:
— Não posso culpar homem nenhum por desejar você. Mas, só em imaginar alguém tocando

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seus cabelos, seu corpo...
Hannah podia ver, em Randolph, o mesmo olhar possessivo que vira em Ethan, diante dos
índios. Sentiu-se, de repente, cansada. Estava feliz por voltar para junto de sua gente, mas os
homens brancos pareciam ter a mesma necessidade de possuí-la que Skabewis tivera.
O jovem guerreiro a admirara e guardara uma distância respeitosa; até oferecera um bom preço
por ela. Seria aquela oferta diferente do contrato através do qual Randolph a comprara havia três
anos?
No final daquela tarde, atingiram uma parte do rio onde as águas se voltavam abruptamente para
o oeste, dividindo-se e formando uma encantadora ilha. Ethan garantira que até estariam bem
protegidos, e, já que Nancy Trask não estava nada bem, resolveram pernoitar na ilhota.
Prepararam o acampamento e a refeição para o jantar quase em silêncio, pois estavam todos
muito cansados e ainda abalados pelos acontecimentos do dia anterior, inclusive as crianças.
Não houve conversas ao redor do fogo após a refeição, e todos se recolheram logo, em busca do
descanso e do sono reparador. Hannah já se preparava para recolher-se também quando Randolph
veio até ela.
— Pensei que poderíamos conversar agora...
— Mas conversamos durante todo o dia... — Hannah estranhou. Na verdade, queria fugir de um
contato mais íntimo com o patrão. — Pensei que quisesse apenas se desculpar por ter sido rude
ontem. Ainda está pensando naquilo?
Ele tomou-a pela mão, convidando:
— Vamos andar um pouco, está bem?
Sem saída, Hannah assentiu. Após alguns minutos, porém, passou a apreciar o passeio.
Os sons da noite traziam-lhe uma agradável sensação de paz, que fazia seus nervos relaxarem.
— Sobre o que quer falar? — indagou, quando já se aproximavam de outra margem da ilha.
Ele apontou para uma pedra grande.
— Vamos nos sentar primeiro.
Hannah obedeceu, puxando os joelhos para junto do corpo, para evitar que a água do rio
molhasse a barra de sua saia. Randolph sentou-se a seu lado e esticou as pernas longas, não se
importando em mergulhar a sola das botas na areia encharcada da margem.
— Eu não cheguei a perguntar sua opinião sobre o Oeste — ele começou.
— Acho tudo muito lindo — ela se precipitou, antes mesmo de deixá-lo prosseguir. — É
selvagem e fascinante!
Randolph pareceu surpreender-se com a intensidade daquela resposta. As palavras dela tinham
sido quase que reverentes, como se a beleza da terra já houvesse se apoderado por completo de
Hannah.
— Você não sente medo, não é? — Randolph perguntou, observando-a com atenção. — Mesmo
depois do que houve ontem.
Ela pensou por instantes, depois negou com a cabeça.
— Há perigo, é claro. Mas há perigo em toda parte, no mundo todo. Posso encontrar um urso
faminto aqui, mas também podia ser atropelada por uma carruagem em Filadélfia, ou mesmo em
Londres.
— Desde que a vi pela primeira vez, no prédio onde a contratei como criada, eu percebi que era
uma mulher corajosa.
Hannah estranhou o comentário. Nos primeiros anos de seu contrato, ele parecera vê-la como um
animal de carga apenas.
— Pois aquele foi um dia do qual jamais me esquecerei — ela comentou, com amargura. — No
entanto, não achei que tivesse prestado muita atenção a mim.
Randolph riu, um tanto sem graça.
— Se você pudesse se ver com os olhos de um homem, Hannah, perceberia que esse seu
comentário não tem fundamento. É verdade que, a princípio, não percebi a profundidade de sua
alma, mas fiquei intrigado, sim, desde o primeiro momento.

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— Você nunca disse nada...
— É claro que não! — ele interrompeu. — Que tipo de homem acha que sou? Eu tinha uma
esposa maravilhosa e dois filhos lindos! Não poderia me deixar envolver por uma moça linda,
fascinante, e deixar as pessoas que eu mais amava arrasadas. Mas houve momentos, Hannah, em
que eu quase pus tudo a perder por sua causa. — A voz de Randolph não era mais do que um
murmúrio rouco nas últimas palavras.
Ela estava atônita. Jamais suspeitara de ter provocado tais sentimentos no patrão. E a devoção
dele à esposa nunca se abalara, em todos aqueles anos, mesmo nos terríveis momentos pelos quais
ela passara em sua doença.
— Randolph, eu jamais...
— Nem Priscilla. E só eu sei o que passei para que assim fosse.
— E por que está me dizendo isso agora?
— É que ontem, quando pensei que poderia perdê-la para sempre, decidi ser franco e dizer-lhe o
que, na verdade, sinto por você.
Os pensamentos de Hannah se confundiam em sua cabeça. Randolph provava ser um homem
responsável, fiel e honesto. Muito diferente de Ethan Reed, que não se importara em dormir com ela
dias após ter estado com Polly McCoy.
No entanto, era difícil encontrar palavras diante daquela declaração de amor. Nem mesmo sabia
se Randolph queria ou esperava por uma resposta. Afinal, já era propriedade dele. Para muitos
patrões que tivessem o tipo de contrato que ele tinha, este já seria motivo suficiente para exigir
quaisquer direitos sobre ela.
— Ainda lhe devo serviços por mais três anos... — Hannah começou, cautelosa.
Randolph tornou a interrompê-la, impaciente:
— Esqueça esse contrato, Hannah! Posso queimar o maldito papel agora, se você quiser, e
libertá-la para fazer o que desejar.
Randolph tomou o rosto de Hannah com suavidade. Sua expressão era sincera:
— Mas peço-lhe que não se afaste de mim. Já perdi o amor de minha juventude, mas quero
reconstruir minha vida com você. Quero que possamos envelhecer juntos...
Hannah sentiu lágrimas encherem seus olhos.
Ia responder, mas o som de alguém caminhando depressa na mata, logo atrás deles, os fez
voltarem-se, de repente. Randolph afastou as mãos do rosto dela e logo a figura forte do capitão
Reed apareceu por entre as árvores.
Randolph deu uma risada tensa, desagradável, e perguntou:
— Mas o que você quer aqui, Reed?!
Hannah não podia ver a expressão de Ethan, mas a voz dele estava calma ao anunciar:
— A Sra. Baker me pediu para chamá-la, Hannah. Nancy Trask está em trabalho de parto.

CAPÍTULO TREZE

Hannah esfregou os olhos, cansada. Já fazia um dia e meio que não dormia, e sua última noite de
sono fora aquela que passara com Ethan, ao relento.
Elisa e ela se alternavam à cabeceira de Nancy Trask. Hannah já se acostumara com esse tipo de
vigília. Fora assim durante toda a doença de sua mãe, e depois com a pobre Priscilla.
Durante toda aquela longa noite, e depois durante o dia, Nancy passara por estados de
consciência e delírio, e Hannah sempre estivera a seu lado para limpar-lhe o suor da testa e segurar-
lhe com firmeza a mão frágil quando as contrações voltavam, cada vez mais agudas.
Hugh Trask, como sempre, não estava por perto para dar apoio à mulher. Viera, durante a noite,
espiando pela abertura que havia na lona da barraca, mas Elisa mandara-o embora, já que cheirava a
bebida.
Nancy não pedira pela presença dele. Parecia satisfeita por ter Hannah e Elisa junto a si. E sorria

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para Randolph, quando, às vezes, ele aparecia para perguntar por seu estado. Chegara até a
murmurar um suave "Deus o abençoe" a Ethan, quando ele viera, horas atrás, dizer que estava
levando as crianças para pescar, a fim de distraí-las.
— O que podemos fazer? — Hannah perguntou a Elisa quando, sem mais poder se conter,
Nancy passou a gritar ao lhe virem as dores.
O rosto da senhora era, agora, uma máscara de preocupação.
— Não sei... — murmurou. — Talvez o trabalho demore por ele ser prematuro.
—Ainda temos um pouco daquele seu chá calmante?
— Não. Mas acho que não adiantaria muito agora, mesmo se o tivéssemos.
Hannah olhou para Nancy, que se contorcia em dores.
— Ela está tão fraca... Não sei por quanto tempo mais poderá agüentar.
— Acho que ela está fora de si. Não vai sequer se lembrar disso tudo. E depois, uma mulher
esquece de todo o sofrimento por que passou quando tem um filhinho nos braços. E este que vamos
ajudar a nascer vai precisar muito de sua mãe, eu creio, pois será bem miúdo.
Hannah levantou-se, procurando aliviar a tensão que pesava sobre suas costas. Colocou a cabeça
para fora da barraca, observando.
— Ethan e as crianças já deviam ter voltado. Elisa olhou-a com jeito maroto.
— Está preocupada com quem? Com as crianças ou com o capitão?
Hannah voltou-se de repente.
— O que quer dizer com isso?
Elisa deu-lhe um daqueles seus sorrisos amáveis, maternais, dizendo:
— Você pode enganar os outros, querida, mas eu a conheço muito bem. Já a vi várias vezes
olhando para nosso belo guia, desde que partimos de Filadélfia. E quando vocês dois voltaram da
floresta ontem, eu poderia jurar que havia um brilho novo em seu olhar. Hannah deu alguns passos
pela barraca e sentou-se junto de Elisa.
— Isso não tem a mínima importância — sussurrou de cabeça baixa.
— Mas é claro que tem! — insistiu Elisa. — E não pense que a condeno por isso, minha linda. O
homem é um pedaço de mau caminho, até eu reconheço isso. O que me preocupa, porém, é esse seu
coraçãozinho. Acho que o capitão Reed não é do tipo que aceita casar-se, estabelecer-se em um
lugar, criar família.
— Eu sei disso, Elisa. Acho que não perdi minha cabeça completamente.
— Sei. Só parte dela, certo?
Hannah sorriu de leve. Elisa prosseguiu:
— Você deveria se interessar por Randolph Webster, filha. Ele é um homem capaz de dar uma
vida feliz e tranqüila a uma mulher.
— Não estou interessada em ninguém em especial. Afinal, ainda sou uma criada.
— E vai ficar se amarrando nesses papéis de servidão até que o prazo do contrato se esgote? Eles
não vão ter valor aqui no Oeste. Randolph não a proibiria, se quisesse partir agora. E você sabe
disso tão bem quanto eu. Mas acha que, enquanto estiver presa a sua condição de criada, não terá de
enfrentar as verdadeiras decisões de sua vida, como nós todos fazemos, não é?
Hannah estranhava as palavras da amiga. Era como se ela soubesse da conversa que tivera com
Randolph na noite anterior.
No entanto, Elisa não tinha como imaginar do que haviam falado. Hannah sentia que seus
pensamentos estavam sendo lidos por aquela bondosa mulher.
Nancy soltou um gemido longo e profundo, fazendo as duas amigas voltarem-se para vê-la.
— Eu vou morrer? — perguntou numa voz quase imperceptível.
— É claro que não, Nancy — Hannah assegurou. — Não vamos permitir que nos deixe. Nem
você, nem o bebê.
Elisa, com sua prática e experiência de longos anos, fez novo exame de toque na parturiente e
comentou:
— Tenha fé, Nancy. Acho que, enfim, nosso pequenininho está vindo. E tem cabelos pretos,

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como a mamãe! Hannah segurava as mãos de Nancy, e esta, num último e doloroso esforço para o
nascimento da criança, crispou seus dedos entre os da amiga. Seu rosto se torceu numa expressão de
agonia, enquanto mais um grito de dor escapava de sua garganta.
Randolph apareceu na abertura da cabana, perguntando, aflito:
— O que está havendo?
— O bebê está nascendo! — Hannah respondeu, numa mistura de pânico e alegria.
— Graças a Deus! Querem que eu vá buscar Hugh?
— Se ele estiver sóbrio o suficiente para saber o que está se passando... — Elisa ironizou.
— Vou dizer a ele — avisou Randolph. — Afinal, Hugh é o pai.
— E as crianças? — Hannah perguntou, antes que ele se fosse.
— Voltaram com Reed há pouco. Estão bem.
Nancy ainda sofreu alguns espasmos violentos, mas, afinal, após um último esforço, Elisa gritou:
— Aqui está ele!
E Hannah olhou para ver a criaturinha arroxeada, banhada em sangue, nas mãos da senhora.
— É um menino! — anunciou, feliz. — Nancy, você teve um menino lindo!
Nancy tentou erguer a cabeça, mas estava fraca demais.
Hannah limpou-lhe o suor do rosto enquanto Elisa cuidava de cortar e atar o cordão umbilical da
criança.
Algo, porém, fez com que olhasse para Nancy de novo, preocupada. O silêncio repentino de
Elisa e um gesto significativo de cabeça, chamando-a, fez com que deixasse a cabeceira de Nancy e
aproximar-se.
— Algo está errado — Elisa sussurrou, enrolando o bebê em alguns tecidos quentes.
A criança estava quieta e não se movia. Sua pele tinha uma coloração azulada por baixo das
manchas de sangue.
— Acho que ele não está respirando — Elisa continuou, no mesmo tom.
Hannah sentiu um aperto no peito. Já conhecia a dor da morte, mas achava injusto que Nancy
perdesse seu filhinho após tanto esforço para trazê-lo ao mundo.
— Trask ainda está bêbado. — A voz de Randolph veio de fora da barraca. Ele se aproximou,
mas parou assim que viu a criança. — Então, ele já nasceu... — começou, com alegria.
Elisa balançara o pequeno embrulho entre os braços, e disse, alarmada.
— Ele não está respirando, Randolph!
— Precisamos fazer alguma coisa! — Hannah interferiu, desesperada. — Não podemos deixá-lo
morrer!
— É lógico que não! — Randolph apoiou, pegando o bebê e ajoelhando-se com ele. — Ele tem
de respirar! Temos de fazê-lo respirar!
Para surpresa de Hannah, Randolph curvou-se sobre o corpinho minúsculo, começando a soprar
diretamente na boquinha da criança.
— O que você está fazendo?! — ela começou, num protesto, mas, antes que pudesse prosseguir,
viu que o peito pequenino começou a movimentar-se até que o bebê soltou um gemido agudo e
passou a chorar a plenos pulmões.
— Você conseguiu! — ela exclamou, feliz. — Você o fez respirar, Randolph!
O tom azulado logo foi substituído por outro, rosado, enquanto o bebê prosseguia com seu choro
convulsivo.
Havia lágrimas nos olhos de Randolph. Ele se levantou e trouxe o bebê para junto da mãe.
— Aqui está seu filhinho, Sra. Trask. É um garoto lindo. E saudável.
Nancy entreabriu os olhos cansados e sorriu de leve.
— Deus o abençoe. Deus abençoe a todos vocês. Ela logo perdeu os sentidos outra vez,
assustando Hannah.
— Calma! — Elisa interferiu. — Ela apenas desmaiou. Vá limpar o bebê. Eu cuido de Nancy.
— Vou contar aos outros — Randolph disse, entregando a criança a Hannah. — Vou dizer-lhes
que um milagre acabou de acontecer.

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Um sorriso brotou de leve nos lábios dele e logo contagiou Hannah e Elisa. Aquele era seu
primeiro teste para enfrentarem a vida no Oeste selvagem, e tinham passado por ele com sucesso.
O bebê era tão pequeno que uma cama tinha sido providenciada para ele numa caixa pouco
maior do que os sapatos de Hannah. No entanto, apesar dos primeiros momentos de angústia, ele
parecia bastante bem, a julgar pelo choro alto e forte que substituíra seus primeiros protestos nesta
vida.
Já era quase meia-noite, e Elisa procurava convencer Hannah a descansar um pouco. Todos no
acampamento estavam agitados com a chegada do novo companheirinho, principalmente as
crianças.
Trask chegou pouco depois do nascimento, mas se recusou a segurar seu filho, dizendo apenas:
— Até que enfim ela me deu um filho homem! Vai crescer igualzinho ao pai! — E então, sem ao
menos perguntar sobre o estado de sua esposa, desapareceu de novo.
Elisa deitou-se ao lado de Nancy e logo adormeceu, mesmo com Hannah e Randolph
conversando, baixinho, na barraca.
— Eu não entendo esse sujeito — Randolph dizia. — Não se comoveu nem com o nascimento
do filho.
— Ele não merece ter uma família tão linda — foi o comentário de Hannah.
— Priscilla, alguma vez, falou com você sobre o bebê que perdemos, Hannah?
— Não. Ela nunca tocou nesse assunto.
— Quando soubemos que íamos ter outro filho, ficamos tão felizes! Mas eu me preocupei
porque sabia que ela já estava doente.
Hannah observava-o com atenção enquanto Randolph falava.
Aquelas recordações deviam atormentá-lo, a julgar pela dor que ainda se podia ver em seus olhos
ao narrar os fatos. Ele olhava para o bebê adormecido na caixinha.
— Acho que... não tinha que acontecer — disse ele, pouco depois. — Mas Priscilla sofreu muito.
Sabe, acredito que esse tipo de coisa está nas mãos de Deus, ou da natureza, ou seja lá do que for
que controla nossas vidas. Talvez se o bebê tivesse nascido, Priscilla não tivesse agüentado mais
dois anos.
— E foram dois anos preciosos demais, não? Randolph assentiu.
— Deram a Jacob a chance de poder se lembrar de sua mãe. Também deram às crianças a
oportunidade de amar você, e não sofrer tanto depois, com a falta da mãe.
Hannah sentiu seu coração se apertar. Ela era, de fato, muito importante para aquela família.
— Que bom que eu estava lá — conseguiu murmurar, sentindo um nó na garganta.
Randolph apertou-lhe a mão, para acrescentar:
— Que bom que está aqui, conosco. Não tenho palavras para descrever o que sinto, Hannah.
A proximidade dele, porém, começou a incomodá-la. Talvez fosse o cansaço, ou a falta de sono,
mas Hannah sentiu que precisava afastar-se de Randolph e dormir um pouco.
— Bem, foi muito bom tê-lo aqui, esta noite. Acho que, sem sua presença, o bebê teria morrido
— disse, para pôr um ponto final na conversa.
Ele negou com a cabeça. Olhou para Nancy Trask, que dormia, calma, e comentou:
— Ela é uma grande mulher. Corajosa, forte. E não merece o sofrimento pelo qual tem passado.
Com cuidado, Randolph pegou o bebê, que se mexia na caixinha, e aconchegou-o junto a si.
— Veja, ele está abrindo os olhos! — exclamou, vendo que a criança parecia querer enxergar o
mundo que a rodeava.
Sua expressão alegre despertou Elisa, que se sentou, de repente.
— Por que não está dormindo, Hannah? — ela perguntou, sonolenta. — Você precisa descansar,
menina!
Hannah sorriu. Levantou-se, vendo que Randolph exibia a criança à boa senhora, e saiu da
barraca onde ficara de vigília por um dia e meio.
Sentia-se aliviada por ter encontrado uma desculpa para sair dali. A conversa com Randolph e a
presença do bebê pareciam projetar-lhe uma perspectiva de futuro onde ela própria poderia ter uma

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família. Deveria, porém, estar animada com a idéia, e não melancólica. O problema, concluiu ao
entrar em sua barraca, era que seus sonhos para o futuro projetavam a imagem de um bebê forte,
robusto, com belos olhos escuros — os mesmos lindos olhos do capitão Ethan Reed.
Permaneceram na pequena ilha por mais três dias, para que Nancy e a criança pudessem ficar
fortes o suficiente para prosseguir viagem. O bebê recebera o nome de Hugh Wallace Trask, e Elisa,
Hannah e Randolph passaram a chamá-lo de Wally, dizendo que Hugh era um nome sério demais
para alguém tão pequenino. O pai, no entanto, pouco ou nada se importava com a presença do
recém-nascido, e ainda não segurara o filho nos braços.
As crianças ficavam o tempo todo ao redor do pequeno Wally. Bridgett e Janie estavam
encantadas com o irmãozinho e ficariam dias inteiros junto dele e da mãe, caso Elisa não lhes
tivesse dito que Nancy precisava descansar.
O capitão, ao contrário de Randolph, que a todo instante fazia questão de estar perto da criança,
negara-se a pegá-la no colo, alegando não querer sujá-la. Hannah notara que ele pouco aparecia,
como se procurasse ficar afastado de propósito. No entanto, na tarde do segundo dia, ele se
aproximou num momento em que Nancy dormia e Hannah estava sozinha a seu lado.
— A mãe e o bebê estão bem? — Ethan perguntou de um jeito um tanto formal.
— Está tudo muito bem. — Hannah sentia-se pouco à vontade por estar a sós com ele. Aquela
era a primeira vez que conversavam após a noite de amor que tinham vivido.
— Nós não temos nos falado — Ethan começou, após alguns instantes de silêncio. — O que
houve entre nós, na outra noite...
— Não há necessidade de falarmos a respeito — Hannah interrompeu, um tanto fria. Sabia que,
para Ethan, aquela noite não passara de mais uma de suas muitas aventuras. Ele era um homem do
mundo, sem raízes, sem compromissos.
— Bem... parece que você está, de fato, arrependida do que fez. Eu imaginei que seria assim.
Hannah levantou-se e afastou-se da cama de Nancy. Talvez fosse melhor para si própria e para
Ethan se admitisse estar arrependida. Poderia, porém, afirmar que lamentava o que se passara
naquela noite?
— Acho que seria melhor se não falássemos mais sobre o que houve — disse, por fim.
Ethan pensou por segundos. Depois veio até Hannah, ficando muito próximo, mas não a tocou.
— Acha que, se não falar a respeito, vai poder esquecer o que houve? — perguntou, na voz
profunda e máscula que mexia com todos os sentidos de Hannah.
— Eu tenho de esquecer — ela respondeu sem pensar muito.
— Porque teve uma oferta melhor? — Ethan insistiu. Sua voz soou áspera, irritada.
— O que quer dizer com isso?
— Que Webster acordou, afinal, e percebeu que quer você na cama dele.
A maneira rude com que o capitão falava atingiu Hannah como uma bofetada.
— Seu palavreado é bastante vulgar... — ela começou, mas parou ao vê-lo afastar-se.
— Sinto muito — Ethan se desculpou com certa ironia. — Webster está apaixonado por você.
Qualquer um pode notar isso no modo como ele a olha.
A súbita explosão de raiva que dominava Hannah pareceu ceder espaço à vaga tristeza que vinha
sentindo desde o nascimento do pequeno Wally. E ela não sabia explicar de onde vinha tal
melancolia.
— Vai se casar com ele? — Ethan insistia ainda.
— Ele não me pediu.
— Pois eu achei que tivesse pedido, na outra noite, à margem do rio.
— Não.
— Pois pode esperar, porque ele vai lhe propor casamento. Webster é um homem honrado.
— É. Ele é bem diferente de certos homens que conheço.
Ethan sorriu muito de leve.
— Achei que soubesse que não sou do tipo que se casa — disse, calmo. — A vida que levo não
me permite constituir família. Por acaso achou que aquela noite mudaria isso?

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Pela primeira vez desde que Ethan começara aquela conversa, Hannah conseguiu erguer o rosto e
olhá-lo com firmeza.
— Não achei nada, capitão. Penso que me deixei levar por seu ardor. Só isso.
— E agora está me culpando...
— Não. Não me arrependo do que fiz. Mas quero que entenda, de uma vez por todas, que não
quero, e não vou mais falar sobre esse assunto. Acho que já é hora de pensar em mim mesma, e em
que tipo de vida quero ter no futuro.
Ethan a olhava com admiração.
— Você é uma mulher em um milhão, sabia?
— No seu caso, em particular, creio ser uma entre muitas outras, na verdade.
Aquele sorriso maroto passou pelos lábios dele mais uma vez.
— Está enganada, Hannah. Mas talvez seja melhor que pense assim, afinal.
— Assim que chegarmos ao rio do Destino, capitão, pretendo não pensar de maneira nenhuma
em sua pessoa.
Já anoitecera quando terminaram de carregar as barcaças e as lançaram outra vez ao rio. Havia
pouca conversa entre todos; pareciam estar um tanto taciturnos, talvez refletindo sobre o silêncio e a
escuridão da noite.
Ethan tomara sua posição costumeira no barco da frente, com Hugh Trask e suas filhas, mas
Nancy fora colocada na outra barca, junto com o bebê, para que pudesse ficar sob os cuidados de
Hannah e Elisa.
Quando a manhã chegou, todos pareceram ficar mais animados. A paisagem das margens era
cada vez mais bonita. Uma espécie de terra da promissão se descortinava à sua frente, fértil e
abençoada: uma esperança de vida feliz e farta para todos que soubessem cultivá-la. Embora ainda
houvesse muitas florestas densas e perigosas pelo caminho, mais e mais planícies apareciam,
intercalando-se a elas, cobertas por uma pastagem de um verde incrível, que se espraiava como um
manto de veludo.
No nono dia após a partida do forte Pitt, encontraram uma pequena aldeia indígena, num dos
enormes bancos de areia ao lado leste do rio.
Os índios se aglomeraram, curiosos, junto à margem, vendo os barcos passarem ao sabor da
corrente. As pequenas crianças quase totalmente despidas acenaram, inocentes, fazendo Jacob e
Peggy rirem e acenarem de volta.
— Reed não disse nada sobre essa aldeia — Randolph comentou, franzindo as sobrancelhas,
preocupado.
Ele já manejava com habilidade o grande remo na popa do barco.
— Eles não me pareceram perigosos — Seth observou, erguendo o olhar da rede de pescar que
remendava. — O capitão nos avisaria se houvesse algum problema.
Hannah sentia-se arrepiar ao ver os guerreiros índios, lembrando-se do que já passara. No
entanto, as pessoas que os olhavam, curiosas, da margem, não pareciam perigosas.
Já que iria viver naquela terra, considerou Hannah, precisava aprender a conviver com os índios.
Eram gente, afinal.
E havia espaço naquela terra imensa, para todos que quisessem viver ali. Assim pensando, ela
aproximou-se de Jacob e Peggy e passou a acenar também.

CAPÍTULO CATORZE

Parecia inacreditável, após tantos dias de viagem, mas aquela era a última noite antes de
chegarem a seu destino.
Tudo correra bem. Apesar do nascimento prematuro de Wally e da fraqueza de Nancy, estariam
chegando a seu novo lar no verão, com tempo suficiente para plantarem as primeiras sementes de
milho, que vinham na barca de Trask. Com tempo, também, para erguerem suas cabanas de

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madeira, que os abrigariam do frio em seu primeiro inverno na fronteira ocidental.
Havia um clima de ansiedade generalizada no acampamento nessa última noite. Seth fora buscar
seu violino para comemorar, Trask já entornara outra garrafa de rum e Randolph parecia
rejuvenescer, ganhar ânimo e vigor. Estava tão ou mais animado do que quando planejara toda
aquela viagem.
— Até que ponto do rio do Destino teremos de subir? — ele perguntou ao capitão.
Ethan ergueu de leve os ombros largos.
— Aqui, o território é aberto. Podem ocupar o trecho que quiserem. Mas, se subirem um pouco
mais, estarão livres de qualquer atividade do rio que queiram evitar.
— Isso me parece muito bom — Seth opinou.
— Vamos acampar logo na desembocadura do rio do Destino — Ethan prosseguiu. — Vocês
poderão subir e descer um pouco para verificar e escolher o ponto onde vão querer construir suas
cabanas e limpar o terreno.
Hannah sentiu um frêmito de alegria ao imaginar que, no dia seguinte, o sonho de todos ali
estaria se tornando realidade. Sentia-se, porém, um tanto insegura. Como seria sua nova vida ali?
Desde que tinham deixado a pequena ilha onde Wally nascera, Randolph não lhe falara mais nada
sobre o assunto sério e decisivo no qual tocara após o parto de Nancy.
Na verdade, Hannah não esperara que ele o fizesse. Quase nunca estavam a sós, e havia muitas
coisas a serem feitas por todos do grupo. Mas não podia deixar de imaginar que tipo de cabana
Randolph construiria. Haveria um quarto de empregada para ela? Ou ocuparia o mesmo quarto com
as crianças?
Havia, também, os pensamentos que a levavam de volta a outra indagação: Ethan. Ele partiria em
breve. Seria possível esquecê-lo? Conseguiria ignorar a paixão que vivera nos braços daquele
homem incrível? Ou teria de viver ao lado de Randolph Webster pelo resto de sua vida pensando
nos momentos ardentes que partilhara com Ethan?
— Quanto valem seus pensamentos, senhorita? — A voz baixa de Ethan quase a fez derreter.
Hannah voltou-se depressa, para ver se alguém, em especial Randolph, os observava do
acampamento.
Não. Ninguém notara sua ausência. E Ethan a seguira em silêncio, sabendo que também não fora
visto.
— Estou pensando no que vamos fazer amanhã — ela murmurou, ainda trêmula pela presença
do capitão. — Não consigo acreditar que chegamos.
— Você vai se deslumbrar dia após dia com esta região. — A voz de Ethan se enchia de ardor
quando descrevia a terra selvagem que tanto amava. — Eu mesmo escolhi o melhor trecho do
terreno para vocês. O rio do Destino corre por um dos mais belos vales que já vi. Logo terão as mais
ricas colheitas que puderem imaginar.
— Nenhum de nós tem muita experiência na lavoura.
— Vocês aprenderão. E vão se sair muito bem, tenho certeza. Você, em especial, porque possui a
força, a tenacidade necessária para abrir uma terra nova e fazê-la prosperar.
Hannah sentiu-se lisonjeada, mas não gostaria que ele percebesse o quanto suas palavras a
agradavam.
— Você me superestima, eu acho. Lembra-se de como me apavorei com aqueles índios?
— Do que me lembro é que você ia voltar para me salvar, mesmo sem ter armas ou reforços. —
Ele esboçava aquele seu sorriso maravilhoso outra vez. — E me lembro também da força que
ofereceu à Sra. Trask quando ela mais precisou.
— Foi Elisa quem fez o parto. E Randolph foi quem salvou o bebê.
— Mas seu apoio e carinho foram vitais para Nancy. Hannah notava a proximidade dele a cada
instante com mais intensidade. Queria poder recostar-se ao ombro forte de Ethan, que parecia
oferecer-se para ampará-la.
— Nós... já passamos por tanta coisa — murmurou, embaraçada. — Acho que ainda há muito
mais pela frente, não?

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— Há, sim. Mas você vai vencer todos os obstáculos, tenho certeza.
Fosse o que fosse que ainda estivesse por vir, Hannah sabia que teriam de enfrentar sem o
capitão. Ele iria embora em breve.
— Obrigada por confiar em mim — disse, olhando-o nos olhos. — Eu suponho que irá embora
assim que nos estabelecermos.
O capitão colocou-se entre Hannah e o acampamento, pouco adiante, de forma que só ela podia
ver seu rosto.
— Como eu já lhe disse antes, não costumo ficar muito tempo num mesmo lugar. Mas vou
voltar para ver como estão se saindo. — Os olhos dele a percorriam inteira. De repente, sorriu de
modo um tanto forçado e acrescentou: — Talvez você até me convide para seu casamento.
Hannah sentiu uma ponta de raiva brotar de novo em seu coração. O capitão Reed sabia como
provocá-la, como deixá-la irritada, zangada até.
— É. Talvez eu o convide, sim. Por enquanto, acho melhor dizer-lhe apenas boa noite.
— Boa noite — Ethan respondeu com voz suave, os olhos seguindo-a, intensos.
Ao voltar para sua barraca, Hannah avaliava a conversa que acabara de ter com o capitão. Uma
coisa era certa: sua vida seria muito mais tranqüila quando Ethan Reed já não fizesse mais parte
dela.
Ethan sentiu certo arrependimento quando alcançaram aquele trecho do rio, no dia seguinte. Não
sabia o que o levara a escolher exatamente aquele ponto para os colonizadores de Filadélfia.
Aquele era um de seus lugares favoritos em todo o rio Ohio, o qual explorara em toda sua
extensão, até sua junção com o outro rio grande e poderoso, o Mississipi. A terra banhada pelo rio
do Destino sempre lhe parecera especial. Os campos mais ricos, as montanhas mais azuis, as
árvores mais nobres. Até já lhe ocorrera a idéia de que, se tivesse de escolher um local onde
construir sua própria cabana para abrigar-se nos longos e terríveis invernos do Oeste, aquele seria o
ponto onde se instalaria.
Agora haveria outras pessoas ali. E ele próprio mostrara-lhes o lugar. Pelo menos, sentia-se
aliviado por saber que Hannah faria sua vida ali. Estava sendo difícil combater os sentimentos que
ela lhe inspirava.
Tudo naquela mulher o atraía: sua voz, o jeito como andava, o modo como mordia de leve o
lábio inferior quando estava preocupada. Ela cuidava tão bem daquelas crianças... Como se fosse
sua própria mãe. Hannah mostrava força e disposição para cuidar de tudo quando Elisa sucumbia ao
peso da idade e Nancy se entregava à fraqueza crônica que a debilitava. Era uma mulher e tanto.
E tinha sempre palavras amáveis para todos, inclusive para Hugh Trask, cujos olhares
insinuantes faziam o sangue de Ethan ferver de raiva às vezes.
Randolph tinha um tesouro nas mãos. A idéia deixou Ethan ainda mais taciturno. Não podia se
esquecer dos momentos de desejo que vivera com Hannah naquela noite. As recordações o
assaltavam sempre nos piores momentos. Como agora, quando a via ajudar a descarregar a barca.
Observava-a de longe, admirando cada curva de seu corpo, embora as mais belas estivessem
encobertas pelo vestido pesado. Aproximou-se, ajudando-a a levantar um caixote.
— Não vá se ferir — avisou.
— Não, não. Estou bem. — O sorriso dela era pura alegria, sem nenhuma reserva ou mágoa.
Hannah parecia reviver por ter chegado a seu novo lar.
— Então? O que acha do rio do Destino? — ele perguntou, sentindo um aperto no peito que não
soube justificar.
— É lindo! É tudo o que você disse. — Ela parou por instantes de descarregar o barco, para olhar
ao longe, onde as montanhas azuladas pareciam encontrar o céu num toque mágico.
— Há um lugar — continuou Ethan, enquanto levavam a caixa —, a um quilômetro mais ou
menos daqui, à margem de um campo bem vasto, que seria perfeito para a construção das cabanas.
Eu já acampei lá algumas vezes.
— Obrigada por nos ter trazido até aqui, capitão. Obrigada por tudo.
Ethan parou de andar ao ouvir o agradecimento, fazendo Hannah parar também, já que ela

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carregava a outra extremidade do caixote.
— Por tudo? Hannah assentiu.
— É. Por tudo — repetiu, deixando seu lado da caixa cair, fazendo Ethan cambalear para a
frente. Depois sorriu, caprichosa, e afastou-se, imitando alguns passos de valsa por sobre a relva da
margem.
O capitão concordou em permanecer com o grupo por mais duas semanas, para ajudar na
construção das cabanas. Todos, com exceção de Nancy, trabalhavam sem cessar.
Tinham escolhido o local indicado por Ethan, onde um vasto campo se estendia desde a margem
do rio até as montanhas distantes.
Trask e Seth estavam encarregados de preparar o terreno para iniciar uma pequena plantação. No
ano seguinte já poderiam ter suas terras organizadas e produtivas, mas, por enquanto, deveriam
cuidar apenas do essencial. Próximo ao rio, onde o solo era escuro e rico, plantariam pessegueiros e
macieiras cujas mudas tinham trazido do forte Pitt.
Hannah quisera plantar as pequenas árvores pessoalmente. Não haveria frutas durante os
primeiros anos, mas dava-lhe um prazer enorme pensar que veria as pequenas árvores crescendo,
acompanhando o desenvolvimento da região, a cada ano mais fortes, mais produtivas, como tudo
mais ali.
A fé no futuro enchia-a de uma alegria imensa. Randolph e Ethan cuidavam do desmanche dos
barcos, cujas longas e fortes toras do piso serviriam de armação resistente para as cabanas.
Hannah, Elisa e as crianças ajudavam em tudo o que era possível, embora a velha senhora se
cansasse com facilidade sob o forte sol do verão.
A própria Hannah acabou sentindo os efeitos do calor. Suas costas doíam mais e mais a cada dia
devido ao serviço pesado que, apesar do esforço, fazia com prazer.
Ela procurava disfarçar as dores, mas já notara que Ethan a observava com freqüência, como se
percebesse seu desconforto.
Pouco mais de uma semana após a chegada ao rio do Destino, as dores de Hannah já eram mais
do que incômodas. Ainda estavam dormindo em barracas, e se esforçava em não acordar Peggy e
Jacob ao se revirar durante a noite, procurando uma posição mais confortável.
Afinal, sem poder suportar mais a insônia causada pelo sofrimento, Hannah resolveu sair da
cabana para não acordar os pequenos.
Como sempre, o capitão Reed estava ainda acordado, sentado junto à pequena fogueira.
— Não consegue dormir? — ele lhe perguntou com suavidade.
Hannah esticou as costas doloridas, procurando não deixar que o capitão notasse o que sentia.
— Acho que é essa ansiedade toda...
— Ou essa dor nas costas que você procura esconder, eu não sei por quê?
Hannah não respondeu. Veio até mais perto do fogo e sentou-se diante de Ethan.
Após alguns instantes de silêncio, resolveu falar a verdade:
— É um problema que tenho desde pequena. Às vezes piora um pouco, mas estou acostumada.
— Isso não aconteceria se não ficasse fazendo serviços pesados o tempo todo. Lembre-se de que
não está trabalhando nas docas do porto de Londres.
Hannah sorriu.
— Você mesmo disse que é importante trabalhar muito numa região selvagem como esta.
— Trabalhar muito, e não se matar — Ethan corrigiu. — Escute, Elisa não tem algum chá
milagroso para aliviar essas suas dores?
— Não. Todas as ervas acabaram. Mas estou bem, é apenas uma dor passageira.
Ethan calou-se por instantes. Depois se levantou e desapareceu na escuridão que cercava o
acampamento. Voltou logo, trazendo um pequeno frasco escuro.
— Bálsamo — explicou, erguendo-o na mão.
— Obrigada. Amanhã vou pedir a Elisa que aplique um pouco, logo cedo.
— Sei. E enquanto a manhã não chega, você fica acordada, sofrendo — ele ironizou. Depois
completou, em tom casual: — Deixe que eu mesmo o aplico em você.

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— Mas... — Hannah começou, sendo logo interrompida.
— Use o bom senso, moça. Não há motivo para sofrer só porque não quer que eu veja suas
costas. Afinal, já as vi antes. Aliás, vi muito mais do que isso.
Hannah sentiu-se corar de imediato. Mas, antes que pudesse opor qualquer tipo de resistência,
Ethan tomou-lhe a mão, puxando-a consigo pela margem do rio.
— Venha. Aqui está mais escuro — disse, e depois acrescentou, em tom de mofa: — Assim você
não ficará tão envergonhada...
Hannah voltou-se para ver as barracas. O acampamento estava em total silêncio. Já passava da
meia-noite, com certeza. Talvez o capitão tivesse razão. O bálsamo faria efeito logo, e assim ela
poderia dormir tranqüila naquele resto de noite.
Ethan esperava, paciente. Hannah voltou-se de costas e abriu os botões da blusa, devagar, cheia
de um pudor que a ela própria desconcertava.
Ethan soubera, desde que a vira sair da barraca, que estava prestes a cometer um erro. Todas as
boas intenções e resoluções definitivas que tomara nas ultimas semanas sumiram por encanto. E
aquele bálsamo fora, apenas, uma boa desculpa.
— É... é logo acima da cintura — Hannah murmurou, fazendo o capitão sorrir de leve.
As mãos dele pareciam operar um milagre sobre sua coluna vertebral. Ethan massageava a pele
suave com firmeza e cuidado ao mesmo tempo, aplicando o bálsamo perfumado.
— Relaxe — disse, em determinado momento, com voz rouca.
E sentiu que Hannah, de fato, relaxava os nervos.
Ela começava a ter a mesma sensação que a tomara na noite em que se entregara a Ethan, e
começou a achar que não fora uma boa idéia vir até ali com ele.
— Deite-se com as costas para cima — ouviu-o dizer, numa ordem que não aceitava desafios.
Ela obedeceu, sem protestar. Agora, as mãos dele caminhavam por toda a extensão de suas
costas, mesmo nas laterais, sob os braços, onde o volume dos seios se fazia perceber, saliente,
provocante.
Ethan procurava controlar-se, ater-se ao bálsamo, mas a realidade começou a fugir a seu
controle. Não queria mais pensar em nada, apenas sentir a pele de Hannah, macia, suave, em suas
mãos.
Não importava se estava agindo errado com ela, se Hannah estava ligada a um homem bom e
decente que seria um ótimo marido. Nada mais importava a não ser o fato de estar ali, com ela, e
desejá-la mais do que tudo na vida.
Para Hannah, nem mesmo a dor nas costas existia mais.
Jamais sentira algo tão bom, tão sensual quanto o toque daquelas mãos grandes, fortes,
espalhando o líquido perfumado e oleoso por seu corpo.
Ethan afastou as roupas que Hannah ainda mantinha, e, em movimentos lentos e circulares,
passou a explorar cada centímetro da pele que se oferecia ao toque de suas mãos.
Completamente fora de controle, esquecendo-se do bálsamo, das dores, do pudor e do mundo,
Ethan e Hannah perderam-se num abraço apaixonado, em beijos febris e carregados de desejo.
Como na outra noite, tendo o céu estrelado por teto e a escuridão da noite por abrigo, amaram-se
com loucura, entregues à paixão devastadora que os consumia.
Quando, aos poucos, voltaram à realidade, Ethan apertou Hannah em seus braços e beijou-lhe,
com carinho, os cabelos, depois a testa, o rosto e os lábios.
— Como está a dor nas costas? — perguntou, num murmúrio.
Ela apenas sorriu. Não dissera nada, nem fizera o menor movimento para impedi-lo. Entregara-se
outra vez, por vontade própria, mesmo sabendo não haver futuro num relacionamento com um
aventureiro como Ethan.
Como sua mãe fizera um dia, entregava-se de corpo e alma a uma paixão ardente, sem pensar no
amanhã. Não faria como sua mãe, porém. Não estragaria o resto de sua vida punindo-se por ter
vivido um amor tão maravilhoso, embora fugaz.
Devagar, ela afastou-se de Ethan, esticando os braços para pegar parte das roupas.

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— Acredito que eu já esteja curada — respondeu, tentando usar toda a dignidade que lhe era
possível no momento. — Obrigada.
Ethan deixou-a afastar-se. A voz dela parecia tão impessoal, tão fria... Ficou observando-a, um
tanto confuso, enquanto Hannah se vestia, de cabeça baixa. Ela não esbravejava, como talvez
tivesse o direito de fazer, e Ethan sentia-se como um garoto surpreendido ao agir errado.
Observando as águas calmas do rio do Destino, o capitão deu-se conta de que daria dez anos de
sua vida para que Hannah reagisse, fosse como fosse.
No entanto, ela apenas se foi, por entre as árvores, sem dizer uma palavra. E tudo pareceu
rompido entre ambos, sem, ao menos, discutirem a respeito.
Em vez de sentir-se culpada por seu sentimento em relação ao capitão, Hannah estava, de certa
forma, aliviada. Já admitira para si mesma a natureza sensual que possuía e contra a qual a mãe
tanto a alertara. Mas o mais importante no momento era que conseguia controlar sua vida, saber o
que queria em seu futuro. E a melhor opção para esse futuro era Randolph Webster e seus filhos,
com certeza. Até o próprio Ethan reconhecia isso.
A cada dia que passava, Hannah estava mais certa de que Randolph a pediria em casamento. Ele
até estava construindo sua casa com três quartos: um para Jacob, outro para Peggy e outro para
ambos.
Ela se indagava se seria necessário contar a Randolph sobre sua intimidade com o capitão, mas
achou que ele, por cavalheirismo, jamais perguntaria algo, já que a maioria das criadas nunca
terminava seus contratos ainda virgens. No entanto, Randolph parecia cada vez mais hostil em
relação a Ethan, talvez por perceber algo entre ele e Hannah. Chegara até a proibi-la de carregar
pesos ao ouvir Ethan perguntando-lhe sobre suas costas.
O capitão não a interpelou mais, cuidando de seu serviço, ajudando a erguer as paredes das
casas. Assim que as três estruturas estivessem prontas, iria embora. E Hannah esperava por esse dia
com impaciência e tristeza. Sabia que jamais encontraria um homem como ele e que também jamais
sentiria o que experimentara entre os braços dele em seus dois rápidos encontros noturnos. Mas
trabalharia, junto de Randolph, para construir uma vida nova naquela terra maravilhosa. Apenas nas
longas noites de inverno, quando a família toda estivesse abrigada no calor e aconchego da casa
recém-construída, Hannah se permitiria fechar os olhos e lembrar...

CAPÍTULO QUINZE

Setembro de 1763.

O verão se fora, e o outono trouxera consigo uma brisa fria, pintando de tons amarelados as
folhas das árvores e os campos plantados durante a estação anterior. As casas, enormes cabanas,
feitas de madeira sólida e resistente, estavam prontas agora. Havia também um chiqueiro e um
curral, e a estrutura para um enorme celeiro já fora levantada.
A terra era, de fato, fértil, fornecendo uma variedade muito grande de legumes e milho em
quantidade. Como o capitão Reed previra, tudo o que era plantado ali crescia como por encanto,
mesmo com a semeadura tardia.
Hannah sentia-se em casa. As cabanas dos Webster e dos Baker foram construídas bem próximas
uma da outra, mas a da família Trask ficava pouco mais abaixo, junto ao rio, já que Hugh insistira
em ter certa privacidade. Nancy ainda não se recuperara totalmente do parto prematuro, e Hannah
sentia pena por vê-la ainda tão fraca e abatida. Hugh saía para caçadas com muita freqüência,
embora não trouxesse quase nada ao voltar. Essas ausências criavam certa irritação em Randolph e
Seth, já que Hugh não fazia sua parte no trabalho com a plantação e deixava a esposa sozinha para
cuidar da casa e das crianças. O homem era, de fato, um irresponsável, todos concordavam.
Randolph se acostumara a discutir todos os problemas com Hannah e mencionou o fato de estar
aborrecido com o comportamento de Trask. Na verdade, ela notava que Randolph fazia visitas cada
vez mais freqüentes à casa dele, em especial quando Hugh saía para caçar. Apegara-se muito ao

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pequeno Wally e quase sempre estava com a criança, brincando ou levando-o a passear nos braços.
A vida parecia tranqüila para todos ali. Hannah amava sua nova casa, na qual Randolph achara
prudente que ocupasse o quarto destinado a Peggy. Hannah não discutira o que parecia ser uma
mudança nos planos dele; afinal, era seu patrão. E, se queria que os filhos dormissem juntos por
enquanto, para Hannah não havia o que discutir.
Quando havia necessidade de caça, eram ela e Seth que saíam em busca de algum animal.
Randolph desistira de tentar provar que era bom com as armas, já que o suprimento de pólvora que
ainda tinham não era muito grande, e não havia motivos para ficar desperdiçando-o.
Havia um ar de contentamento geral que contagiava a todos.
A promessa de uma vida feliz e segura se concretizava a cada dia. E, não fosse por uma vaga
sensação de saudade, Hannah poderia considerar aqueles como os melhores dias de sua vida.
A saudade vinha sempre que Randolph a convidava para um passeio noturno. Caminhavam pela
margem do rio, ele falava sobre seus planos para aquele lugar, descrevia o futuro, no qual
imaginava uma cidade crescendo às margens do rio.
Hannah não partilhava esses sonhos. Não tinha boas recordações das cidades onde vivera.
Amava a liberdade do Oeste e não queria ver aquela região tão linda invadida por uma multidão de
pessoas desconhecidas. Durante aqueles passeios, Randolph às vezes segurava sua mão e beijava-a
com suavidade nos lábios. Na primeira vez em que isso ocorrera, ela se afastara, surpresa, e
Randolph desculpara-se logo:
— Sinto muito, Hannah. Serei paciente. Estamos num lugar selvagem, mas ainda sou um
homem civilizado. Sei que precisa de um tempo para se acostumar com a idéia, e pretendo, por
minha parte, respeitar o ano de luto que Priscilla merece.
Hannah o compreendia muito bem. Deixava-se beijar e, às vezes, chegava a sentir algo um pouco
parecido com as sensações que Ethan lhe despertara. Ethan... Havia dois meses que ele se fora. O
tempo passava depressa no Oeste.
Haviam preparado uma festa para comemorar a primeira colheita. Elisa, Hannah e Nancy iriam
preparar a comida para a noite.
— Por que não vai até a parte mais baixa da margem do rio e traz algumas amoras, Nancy? —
Elisa sugeriu, ao entrar com Hannah na casa dos Trask. — Nós cuidaremos de Wally.
Hugh estava fora havia dias, e Nancy quase não tinha tempo para sair de casa, a não ser para
buscar lenha ou água.
Sorrindo, agradecida, ela pegou uma cesta de vime e dirigiu-se à porta.
— Fique bonzinho! — disse, acenando para o bebê, que a observava, do berço.
Assim que a viram desaparecer pelo caminho que levava ao rio, Elisa comentou, aborrecida:
— Tenho vontade de arrancar a pele daquele irresponsável! A pobrezinha não tem tempo nem
para respirar, com tanto serviço a fazer!
— Concordo com você. E Randolph também. Ele acha horrível o modo como Hugh trata a
esposa.
Elisa baixou os olhos para as espigas de milho que debulhava.
—Tenho notado que ele vem aqui com muita freqüência.
— É verdade. Ele procura ajudar como pode e, é claro, adora ficar com o pequeno Wally.
— Mas... isso não a incomoda, Hannah?
— A mim? Por que me incomodaria?
— Por nada. Acho que estou ficando velha, é isso. Não quero ver ninguém magoado. Hannah
voltou-se, a testa franzida.
— Está querendo insinuar que Randolph e Nancy...
— Bem, Nancy já foi a garota mais bonita de Filadélfia, e o tempo não conseguiu destruir seus
belos traços ainda.
Hannah sorriu.
— Elisa, Randolph me pediu em casamento. Quero dizer... ele não me pediu, exatamente, mas
quer esperar um ano de luto por Priscilla e fala disso quase sempre...

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— Então, está bem, querida. Esqueça o que eu disse. Randolph é honrado demais para estar
cortejando duas mulheres ao mesmo tempo.
— Elisa, que idéia! Nancy é casada!
— É, mas Hugh fica muito tempo fora de casa, e logo ela poderá vir a ser tão casada quanto
aquela Polly McCoy, do forte Pitt.
— Não acredito que Randolph fizesse isso.
— Talvez você tenha razão. Ele é um bom homem, vai fazer você feliz. Além disso, as crianças a
adoram.
A conversa tomou outros rumos e, quando Nancy voltou com as amoras, Hannah já não pensava
na insinuação de Elisa. No entanto, naquela noite, durante o jantar que prepararam para a
comemoração, ela notou que Randolph sentou-se à grande mesa junto de Nancy. Ambos brincavam
com o bebê como se fossem um casal feliz. Hannah procurou afastar os maus pensamentos,
tentando convencer-se de que aquilo apenas reafirmava a idéia de que ele seria um ótimo pai, caso
um dia viessem a se casar.
As crianças brincavam de cabra-cega e logo vieram à procura de Hannah para partilhar o jogo.
Apesar dos protestos iniciais, ela acabou cedendo aos apelos dos pequenos, que amarraram-lhe uma
venda sobre os olhos.
Os gritinhos das crianças desorientavam-na conforme dava passos indecisos à procura deles.
Devido ao cansaço, talvez, pois trabalhara muito na colheita e na preparação da comida, Hannah
sentiu uma ligeira tontura que, quando se foi, deixou-a sem noção de direção. Já não sabia sequer se
estava próxima às casas, pois as risadas das crianças tinham desaparecido.
De repente, um ruído seco chamou-lhe a atenção, fazendo-a voltar-se. Sem ter tempo de retirar o
lenço dos olhos, Hannah sentiu-se puxada contra um peito enorme de homem. Quando pôde, afinal,
tirar a venda, já assustada, encontrou os olhos brilhantes e alegres do capitão Ethan Reed.
Hannah afastou-se depressa, como se a proximidade daqueles braços a estivessem queimando.
No entanto, pela expressão no rosto de Ethan, era óbvio que ele notara o efeito devastador que sua
presença tivera sobre ela.
Randolph aproximou-se de Nancy assim que percebeu o recém-chegado.
— Que surpresa, Reed! — exclamou em tom aborrecido.
A hostilidade, porém, passou assim que Ethan anunciou o motivo de sua visita. Pontiac
conseguira convencer todas as tribos a atacar os ingleses, e alguns fortes já tinham sido tomados. O
coronel Bouquet fora forçado a enfrentar os guerreiros indígenas num local chamado Bushy Run, a
alguns quilômetros do forte Pitt. Ele vencera a batalha, mas os soldados estavam avisando a todos
os ingleses estabelecidos na região para que voltassem à segurança do forte o mais breve possível.
Já não havia mais alegria no ar. A festa da colheita terminava ali mesmo.
— Parece que não temos outra opção, a não ser obedecer — Seth observou, pensativo.
— Tem razão — Ethan concordou. — Não devem arriscar suas vidas permanecendo aqui.
— E quanto tempo teríamos de ficar no forte? — Randolph indagou.
— Talvez o inverno todo.
— Mas não terminamos a colheita e...
— Esqueça as plantações! — O capitão se alterava. — Elas de nada adiantarão se forem
massacrados!
— Trabalhamos tanto... — A frustração de Randolph era evidente. — Mas farei o que o grupo
decidir.
— Então já está decidido. — Seth estava firme. — Partiremos pela manhã.
Aos poucos, todos foram se dispersando, de volta a suas casas. Não se preocuparam sequer em
guardar o que sobrara da festa. Teriam de deixar tudo o que possuíam para trás, sem garantia de
poder voltar para lá um dia.
Ethan pernoitou na casa dos Trask, por medida de segurança, já que Hugh estava ausente.
Hannah olhava com tristeza para cada objeto que teria de deixar para trás. Estava, na verdade,
mais triste por Randolph do que por si mesma. O sonho que ele acalentava havia tanto tempo lhe

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era tirado de modo abrupto, cruel até. Viu-o parado junto à lareira e aproximou-se.
— Nós voltaremos — disse, tentando confortá-lo.
— Sim, e encontraremos tudo destruído.
— Poderemos reconstruir.
Randolph voltou-se e tomou-a nos braços.
— Você nunca se cansa de lutar, não é, minha valente Hannah?
— Só há uma perda irreparável, Randolph: a morte. Temos nossas vidas inteiras pela frente para
continuar lutando.
Ele a abraçou por longos minutos, em silêncio. Depois falou:
— Você tem razão. Como sempre.
Hannah sentia-se feliz por poder ajudá-lo a passar por mais esse momento difícil. E não opôs
resistência quando Randolph ergueu-lhe o queixo, na intenção de um beijo.
— Com licença — a voz de Ethan interrompeu-os, vinda da porta.
Randolph deixou que Hannah se afastasse e perguntou, aborrecido:
— O que você quer?
— Falar com você sobre Trask.
Randolph veio até a mesa e sentou-se, fazendo um sinal a Ethan para que fizesse o mesmo.
Hannah sentou-se junto do patrão, em silêncio.
— Acabei de falar com Nancy — o capitão Reed começou. — Ela me disse que ele tem ficado
muito tempo fora.
— Ele é um bêbado!
— Talvez. Mas bêbados não precisam de carregamento de armas para caçar.
Randolph franziu a testa, surpreso. Ethan continuou, imperturbável:
— Acabei de encontrar um caixote cheio num dos cômodos da cabana dele. Perguntei sobre as
armas a Nancy, mas ela não quis me dizer nada. Acho que tem medo de que eu prenda seu marido.
— Prendê-lo? Sob qual acusação?
— Venda de armas aos índios. Suspeito que Trask seja o sócio de um sujeito odioso chamado
Silas Warren.
— Eu vi esse homem com Trask quando estávamos no forte — Hannah interferiu.
— E sabe o que estavam fazendo? — Ethan indagou, olhando-a pela primeira vez nos olhos
desde que chegara a casa.
— Não. Sinto muito.
— Não faz mal. Mas precisamos descobrir a verdade. Preciso levar essas informações ao coronel
Bouquet o mais rápido possível.
— E poderia, de fato, prender Trask?
— Sim. Estou trabalhando para o exército no momento. Vou entrar em contato com um grupo
potawa-tomi para tentar convencê-los a abandonar a aliança com Pontiac. Mas avisei o coronel de
que não o faria antes de vocês todos estarem em segurança.
— É uma bela atitude de sua parte. — Randolph estava sendo sincero, esquecendo, por
momentos, a rivalidade que havia entre ambos.
O capitão apenas assentiu. Depois completou:
— Se Trask estiver realmente levando armas aos índios, estamos com um problema bem maior
do que imaginei a princípio.
Randolph levantou-se para dizer:
— Vou falar com Nancy. Ela confia em mim, talvez me conte algo.
— Faça isso. Ela parece ter medo de mim. Espero você voltar.
Randolph olhou para Hannah, considerando a situação. Depois foi até a porta, dizendo:
— Eu volto logo.
Assim que ele saiu, Hannah sentiu o olhar do capitão, intenso, sobre si.
— Quer beber algo? — indagou sem olhá-lo.
— Não.

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A resposta foi rápida, brusca, e a fez voltar-se para encará-lo.
— Vejo que Randolph, afinal, descobriu seus encantos — Ethan continuou, sério.
— Ele me pediu em casamento. E eu aceitei.
— Que bom. Há um padre no forte. Vocês poderão se casar assim que chegarmos.
O coração de Hannah passara a bater mais forte. Levantou-se, para pôr outra acha de lenha no
fogo e acrescentou:
— Vamos esperar até Randolph completar um ano de luto.
Ethan ergueu as sobrancelhas, surpreso.
— De quem foi essa idéia?!
— Dele. É a coisa mais... civilizada a fazer.
O capitão afastou com o pé a cadeira em que se sentava e aproximou-se. Hannah não pôde evitar
sua proximidade e viu-se presa quando ele apoiou as mãos ao aparador da lareira.
— Vai ser um casamento civilizado então... — Ethan comentou, com ironia.
— Não quero discutir meu casamento com o senhor, capitão. Poderia, por favor, afastar-se?
Ethan parecia vacilar. Foram intermináveis aqueles momentos em que ficou olhando-a, em
silêncio. Viera até ali sem intenção de interferir na vida de Hannah, pretendendo afastar-se outra
vez dela quando o grupo estivesse em segurança no forte. Mas, assim que a teve junto a si naquela
brincadeira de cabra-cega interrompida, soube que estivera enganando a si mesmo o tempo todo.
Sonhara todas aquelas noites de verão com Hannah, desejando tê-la de novo entre seus braços.
Polly até zombara, dizendo que ele estava sofrendo do mal do amor, e Ethan não negara.
Amava Hannah de fato. O problema era que não sabia como lidar com esse sentimento, com essa
situação.
— Por favor, Ethan... — ouviu-a murmurar. Afastou o braço, libertando-a.
Hannah foi até o outro canto da sala, sabendo ser perigoso ficar próxima a ele.
— Não haveria nada de civilizado, se você fosse minha — Ethan disse, em voz baixa. — Seria
selvagem, ardente e... magnífico.
— Por quanto tempo? Uma noite? Uma semana, talvez?
— Pelo tempo que quiséssemos.
Hannah sentia a parede rústica logo às suas costas. Havia um nó em sua garganta, mas não iria
chorar. Não se permitiria.
Ethan deixou de olhá-la, por fim, sussurrando:
— Desculpe. Não voltei para fazê-la sofrer. Randolph é um bom homem, e quero que sejam
felizes.
Hannah assentiu, engolindo em seco.
— Vou até a casa dos Trask para ver o que ele conseguiu com Nancy — Ethan completou, antes
de dirigir-se à porta.
Lá, parou e tornou a olhá-la. Depois se foi.

CAPÍTULO DEZESSEIS

Uma chuva fina e ininterrupta caía, entristecendo ainda mais aquela tarde de outono. O capitão
concordara em esperar que colocassem o que consideravam de maior valor numa espécie de galpão.
Ele os observava em silêncio, como se soubesse que seus esforços eram inúteis. Se os índios re-
solvessem atacar, nada restaria. Oferecera-se, no entanto, para ajudar os homens, enquanto as
mulheres, dentro das casas, recolhiam o que poderiam levar consigo de volta ao forte Pitt.
Hannah terminava de arrumar suas coisas quando Elisa Baker apareceu à porta, com os olhos
vermelhos de tanto chorar. Parecia mais velha nesse dia, e mais abatida também.
— Este é o dia mais triste de minha vida desde que meu Johnny se foi — ela comentou, com voz
trêmula. — Sinto deixar nosso lugar, Hannah, porque sei que não voltarei mais. Eu e Seth já
estamos muito velhos...

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— Não diga isso!
— É verdade, querida. Mas sei que você vai voltar. Você tem a força e o espírito necessários
para buscar novos horizontes.
— Mas o que você e Seth vão fazer se não voltarem para cá?
— Ainda não sabemos. Talvez retornemos a Filadélfia para propor sociedade ao Sr. Gutmueller,
que comprou nossa loja.
Hannah sentiu um aperto no peito. Elisa e Seth não voltariam mais e, se fosse verdade que Hugh
Trask estava vendendo armas aos índios, Nancy e as crianças também se veriam forçados a voltar
para o Leste. Isso deixava a família Webster sozinha na fronteira.
— Quero que você e Randolph fiquem com as coisas que estamos deixando — Elisa prosseguiu,
os olhos marejados. — Considere... como um presente de casamento. E não aceito um "não" como
resposta.
Hannah pensou por instantes. Sorriu de leve ao dizer:
— Vocês ainda estarão no forte na primavera, não? Quero que sejam meus padrinhos.
— Ethan disse que o coronel Bouquet não nos deixará partir antes que os índios estejam
apaziguados. Portanto, ficaremos honrados em ser seus padrinhos. Quando será a cerimônia?
— Bem, eu e Randolph ainda não falamos sobre isso, mas sei que ele está apenas esperando seu
ano de luto acabar.
— Ora, a própria Priscilla seria a primeira a não querer tal coisa. Um homem deve viver o
presente, e não o passado. Estou surpresa com essa atitude de Randolph.
Essa observação trouxe à mente de Hannah as palavras do capitão na noite anterior. Talvez ele e
Elisa estivessem certos. Era estranho Randolph não mostrar o mínimo sinal de impaciência com
relação ao casamento.
Hannah e Elisa terminaram de carregar as últimas coisas que os Webster tinham separado para
levar de volta ao forte. Tinham deixado tudo junto aos cavalos, que seriam preparados para a
viagem pelos homens, e estavam voltando para a casa de Hannah, quando ouviram a voz jocosa de
Hugh Trask:
— Aonde as senhoras vão?
Ele e outro homem acabavam de sair de entre as árvores, trazendo um cavalo de carga cada um.
— Por onde andou? — Hannah perguntou logo. — Estamos indo embora. Você quase não
chegou a tempo de ver sua família partindo!
— Que pena seria, não? — ele ainda zombava.
— Eu lhe disse que você deveria ter comprado aquela índia escrava com quem dormiu a semana
passada — disse o outro homem, que Hannah reconhecera logo como sendo Silas Warren.
Ignorando a observação, Trask perguntou às mulheres:
— Onde estão Seth e Randolph? Deixaram o serviço para as mulheres? — Hugh aproximou-se
de Hannah para perguntar, em tom mais baixo: — Porque você é mulher de Randolph, não?
Ela não respondeu, alertada pelo tom malicioso dele. Trask pegou-lhe o queixo com a mão bruta,
continuando, desagradável:
— Achou-se boa demais para mim, não é? Mas não para nosso querido guia! Eu os vi, outra
noite, na floresta, sim! Então, logo depois, voltou para a cama de Webster. Mas é boa demais para
mim, certo?
Ele cheirava a álcool, e Hannah tentou soltar-se, enojada.
— Solte-a, ou estouro seus miolos! — A voz de Randolph vinha do caminho que levava ao
curral. Segurava seu rifle, mas não o apontava para o outro.
Trask deixou Hannah ir, e sorriu, irônico.
— Ora, vamos, Webster, solte essa arma antes que atire em seu próprio pé!
Warren deu alguns passos adiante, oferecendo:
— Quer que eu acabe com ele, Trask?
— Não, não é necessário. Randolph não consegue acertar em nada que mira.
— Vamos deixar o resto dos rifles e sair logo daqui. — Warren parecia tenso. Randolph não se

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movia.
— Vocês não vão a lugar nenhum com as armas. Ou melhor, talvez para a prisão. Agora, soltem-
nas.
— Randolph ergueu o cano do rifle devagar. Hugh riu.
— Isso! — instigou, sarcástico. — Mire em mim, e eu saberei que estou a salvo!
— Também estou mirando em você. — A voz do capitão veio de entre as árvores, de onde ele
saiu, acompanhado de Seth, ambos empunhando suas armas.
— Você disse que Reed não estaria aqui! — Warren protestou para o sócio.
— Cale a boca! — Hugh respondeu, nervoso. Olhava diretamente para Ethan. — Se não querem
ver estas mulheres feridas, é melhor largarem esses rifles!
Num movimento rápido e imprevisível, ele agarrou Elisa, torcendo-lhe o braço para trás. Ela
gemeu, e Seth deu um passo à frente, mas Warren foi mais rápido e, aproximando-se, deu com o
cabo da arma em sua nuca, fazendo-o desmaiar.
Elisa gritou, mas estava imobilizada por Trask.
— E então? Vão ou não largar essas malditas armas?! — ele gritou.
Como não houvesse reação por parte dos outros, Hugh tirou uma faca de caça do cinto e
encostou a ponta na garganta de Elisa.
— Como é?! — tornou a gritar.
Dessa vez, Ethan e Randolph viram-se obrigados a obedecer. A arma do capitão caíra logo
adiante de Hannah, mas ela não ousava se mexer.
— Eu disse que devíamos ter vindo buscar as armas durante a noite — Warren queixou-se mais
uma vez para Trask, aproximando-se.
— É. Mas eu não sabia que o cão de guarda de Bouquet estaria aqui. E, se o deixarmos vivo, o
exército logo estará atrás de nós!
— Então mate-o! — Silas incitou, com naturalidade. Trask olhou-o com raiva.
— Em frente a quatro testemunhas, idiota?!
— Vamos matar todos então. — A calma daquele homem, ao sugerir tal coisa, fez Hannah sentir
um calafrio e acreditar, pela primeira vez, que ele era, de fato, louco.
— Talvez possamos fazer com que pareça um ataque de índios — Trask analisava. — O que
acha?
Havia gotas de suor no rosto de Elisa, e Hannah ousou pedir:
— Eles já largaram as armas. Por que não a solta? Trask empurrou a mulher contra Hannah, e
ambas se abraçaram. Então, ele guardou a faca e ergueu o rifle, apontando-o para o peito do capitão.
Hannah notou os olhos de Ethan para a arma, próxima aos pés dela. Ele não seria tão louco a
ponto de tentar jogar-se para alcançá-la. Trask atirava bem, não erraria àquela distância.
— Se vai atirar nele, quero o direito de escalpelá-lo! — interferiu Warren, com um sorriso
ensandecido nos lábios.
Hannah pensava em pular sobre a arma de Trask quando um movimento brusco entre as árvores
chamou a atenção de todos.
Nancy aparecia, empunhando o rifle de Seth, apontando-o para o próprio marido.
— Pare com isso, Hugh — ela disse, em voz suave.
— Ora, saia do meu caminho, sua cadela inútil, ou mato você também! — Trask respondeu. —
Você mal consegue segurar isso!
A observação era, de fato, correta, já que Nancy tremia dos pés à cabeça, mas ela fechou os olhos
e puxou o gatilho sem pensar em mais nada. A bala atingiu Warren no ombro direito, fazendo-o
gritar de dor e cair.
No mesmo instante, Hannah alcançou o rifle de Ethan e apontou-o para a cabeça de Hugh Trask.
— Talvez Nancy não tenha boa pontaria — ela disse, senhora da situação. — Mas posso lhe
garantir que não vou errar de tão perto.
— Posso matar Reed antes que você tenha chance de puxar o gatilho, moça — ele replicou,
ainda com um trunfo.

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— Mas estará morto da mesma forma. — Ela parecia calma demais para o gosto de Trask.
— Está blefando — ele tentou ainda.
— Quer pagar para ver? — Hannah insistiu.
Após mais alguns segundos de hesitação, Trask jogou seu rifle ao chão, com expressão irritada.
Ethan foi logo apanhá-lo, dizendo:
— Bom trabalho, senhoras!
Randolph pegou a arma de Warren enquanto Elisa corria em socorro do marido caído.
O capitão foi até seu cavalo e voltou com um rolo de corda, com o qual atou as mãos de Hugh.
Hannah não baixou a arma enquanto ele não terminou o serviço. Depois, de repente, seu corpo
começou a tremer sem controle, até que Ethan aproximou-se e, tirando o rifle de suas mãos,
abraçou-a.
— Acabou agora — ele murmurou, em seu ouvido. Randolph os observava, impassível. Warren
gemia ainda, e se contorcia no chão. Ethan voltou-se para ele e veio até mais perto, ajoelhando-se
para examinar seu ferimento.
— Nada grave — anunciou. — Vamos amarrá-lo também.
Hannah começava a recompor os pensamentos, e lembrou-se das crianças. Deviam estar todas
assustadas, dentro das casas. Foi até Nancy, para indagar:
— Precisa de ajuda?
— Não. Estou bem. Mas quero ver como estão as crianças. — Sem lançar um único olhar para o
marido, Nancy dirigiu-se a casa, enquanto Hannah voltava para a sua.
Quando já estava na porta de entrada, a ponto de falar com Jacob e Peggy, Hannah viu a
expressão de pânico nos rostinhos de ambos e voltou-se de imediato.
Trask conseguira se soltar, provavelmente usando a faca que ainda tinha, e a arremessava agora
contra as costas do capitão, enquanto este ajudava Warren a se levantar.
No mesmo instante, Randolph ergueu o rifle de Warren e atirou, acertando Trask bem no meio
do peito.
Hannah soltou um grito desesperado e saiu correndo, em direção a Ethan. A faca estava
enterrada em suas costas até o cabo.
Randolph aproximou-se do corpo caído de Trask e, com a ponta do pé, o fez rolar sobre si
mesmo. Estava morto, com certeza. Sem vacilar, Randolph disse apenas:
— É. Dessa vez, não errei. — E, vendo os filhos estarrecidos à porta de casa, gritou para eles: —
Vocês dois, vão para a casa da Sra. Trask! Digam a ela o que houve, mas não a deixem vir aqui!
As crianças obedeceram, pálidas. Randolph, então, voltou-se para onde Hannah estava ajoelhada,
embalando Ethan nos braços.
— Diga que ele não está morto, Randolph — ela pediu, num fio de voz, tendo o rosto banhado
em lágrimas. — Eu não vou suportar, se estiver!
Hannah não sabia o que teria sido de todos sem a calma e diligente liderança de Randolph.
Primeiro, ele amarrou Warren, verificando se este ainda tinha alguma arma escondida, para que o
erro anterior, com Trask, não se repetisse. Depois, com calma, retirou a faca das costas do capitão e,
junto com Elisa, verificou seu estado geral. Nenhum órgão vital parecia ter sido atingido, já que
Ethan não estava pondo sangue pela boca, apesar de desacordado.
Elisa costurou o ferimento após limpá-lo com um pouco de uísque. Hannah permaneceu o tempo
todo ao lado do capitão, segurando suas mãos úmidas e pedindo a Deus por sua vida.
Pouco depois, Randolph e Seth vieram para tirar Ethan dali. Hannah quis que ele fosse levado
para sua casa e colocado em sua cama. E assim foi feito, sem que Randolph fizesse nenhum
protesto.
Enquanto Elisa e Hannah acabavam de cuidar do capitão, Randolph se dirigiu à casa dos Trask.
Nancy estava sentada num dos degraus da frente, abraçada às filhas, muito tristes e assustadas
ainda, e Jacob e Peggy estavam ali também, numa tentativa de dar-lhes um pouco de conforto.
Randolph dirigiu-se às meninas:
— Seu pai morreu, minhas queridas. Ele andou agindo errado e... Bem, mas isso não quer dizer

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que vocês ou sua linda mamãe tenham qualquer tipo de culpa. O problema é que ele bebia muito. E
a bebida tem arruinado a vida de muitos homens bons, sabem? Acho que foi isso o que aconteceu
com seu pai.
As crianças o ouviam com atenção. Ele prosseguiu, um tanto sem jeito:
— Parece que essas três moças estão sem um homem por perto. Quero dizer, Wally ainda vai
demorar muito para poder ampará-las. — Ele sorriu. — Mas eu e Jacob estaremos sempre à
disposição para ajudá-las no que for preciso. Não é, filho?
— É claro! — respondeu o menino, sentindo-se importante.
— Eu... — Randolph continuou — vou ajudar o Sr. Baker a fazer o enterro de seu pai. Enquanto
isso, vocês podem ir pensando em algo para dizer, depois, sobre sua sepultura. — E, voltando-se
para Nancy, perguntou, gentil: — Você vai ficar bem?
Ela assentiu, tendo o olhar agradecido.
Quando a sepultura ficou pronta, Randolph avisou Seth que ia buscar Nancy e as meninas.
Passou, primeiro, por sua casa, para perguntar se Elisa viria também. Não chamou Hannah, vendo-
a, ansiosa e preocupada, ao lado do leito onde o capitão ainda permanecia inconsciente.
O funeral foi rápido. Nancy chorou, avaliando todo o sofrimento por que passara com Hugh, e o
fim trágico que ele tivera. As meninas ficaram o tempo todo em silêncio, como se a realidade do
que ocorrera estivesse ainda penetrando devagar em suas cabecinhas.
Quando todos já voltavam às casas, Jacob aproximou-se de Nancy.
— Eu a ajudo a amarrar suas coisas nos cavalos, Sra. Trask — ofereceu.
Ela sorriu, um tanto triste, e acariciou-lhe os cabelos. Então voltou-se para Randolph:
— Quando acha que poderemos partir?
— Não sei, mas não quero ficar por aqui mais tempo do que o necessário. No entanto, Reed não
está nada bem e não podemos deixá-lo para trás.
— Há algo que eu possa fazer por ele?
— Não. Hannah e Elisa estão lá agora. — Houve um leve tom de amargura em sua voz, quando
acrescentou: — Hannah está muito aflita.
Nancy compreendia perfeitamente a situação e disse apenas:
— Não sei o que teria sido de nós sem você aqui, Randolph.
Ele esboçou um sorriso cansado.
— E não terminou, Nancy. Ainda temos de voltar em segurança para o forte, levando um
prisioneiro e um guia bastante ferido.
— Você vai nos conduzir até lá em segurança — Nancy afirmou, convicta. — Tenho certeza
disso.

CAPÍTULO DEZESSETE

Apesar de ainda estar fraco e febril, Ethan insistiu para que partissem rio acima, apenas dois dias
após o incidente com Trask. Hannah protestara, dizendo que era muito cedo para que ele pudesse
empreender a viagem, pois a ferida poderia abrir, mas de nada adiantaram suas objeções. O capitão
pediu a Randolph que o amarrasse a um dos cavalos e continuasse, sem parar, até que chegassem ao
forte, em segurança. Todos, inclusive Nancy, que ainda se encontrava um tanto abatida pela morte
violenta do marido, pareciam aceitar com resignação e coragem a dura jornada de volta.
E assim fizeram, com firmeza e determinação, até que, numa tarde ensolarada, avistaram a
enorme estrutura do forte Pitt, recortada na distância, contra o horizonte azulado.
Randolph esperou que todos estivessem instalados e Ethan passasse pelo exame minucioso do
oficial médico. Aproximou-se, então, para conversar com Hannah, pedindo-lhe que o acompanhasse
até o pátio lateral do forte. Foi direto ao assunto:
— Parece que as insinuações de Trask eram, de fato, verdadeiras: você se envolveu com nosso
guia.

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Ela o encarou com honestidade no olhar.
— É verdade — murmurou.
— E está apaixonada por ele?
— Eu não sei... Achei que não estivesse, mas... gostaria que acreditasse, Randolph, que, durante
todo o tempo em que vivemos no oeste, jamais pensei em rever Ethan.
— Engraçado... Eu achava que estávamos construindo algo juntos, Hannah. Você e eu.
— Eu também pensava assim. E queria muito que fosse verdade. Fui muito feliz com você e as
crianças nestas últimas semanas e até cheguei a pensar que aquela era a vida que eu queria, que
aquele era o lar com o qual sempre sonhei.
— Mas não me amava, não é? — Havia um certo amargor na voz dele.
— Já não sei mais o que pensar, Randolph. Eu sinto muito.
— Ele não é o tipo de homem que poderá dar-lhe uma vida tranqüila, Hannah. Nem o lar com o
qual você tanto sonhou.
— Sei disso. E não espero mesmo que aconteça. Randolph parou de andar, obrigando-a a fazer o
mesmo. Então assentiu e, num leve sorriso, acrescentou:
— No entanto, você o ama.
Hannah concordou, olhando-o. Não queria mais esconder seus sentimentos, nem de Randolph,
nem de si mesma.
— O coração não raciocina, não é? — observou, com os olhos cheios de lágrimas.
Ele tornou a sorrir e passou o braço por sobre os ombros de Hannah, num gesto compreensivo.
— É. O amor não tem muito a ver com a razão. — Recomeçaram a caminhar, e Randolph
perguntou: — O que pretende fazer agora?
— Bem, eu... ainda lhe devo mais três anos de serviço. Pretendo honrar meu contrato e voltar
com você para o rio do Destino na primavera.
— Pelo que ouvi dizer, o acordo que o exército vai fazer com os índios não permitirá
assentamento de colonos a oeste daqui.
— Então, não poderemos voltar?
— Talvez não.
— Bem... então vou voltar com você para Filadélfia, ou segui-lo aonde quer que vá.
— Mas não como minha esposa...
Hannah piscava muito, tentando evitar que as lágrimas escorressem por seu rosto.
— Eu sei que isso não seria justo com você — disse, entristecida. — Talvez, com o tempo, eu...
— Ou talvez Reed não agüente os ferimentos — Randolph interrompeu, subitamente frio. — O
médico disse que ele não está nada bem. Talvez eu tenha sorte.
Hannah olhou-o, surpresa e indignada.
— Não acredito que esteja me dizendo isso! Randolph tornou a parar de andar e tomou-lhe o
rosto entre as mãos. Olhou-a com atenção por segundos, depois soltou-a e murmurou:
— Eu também não.
Após uma leve melhora, Ethan voltou a ser dominado pela febre, chegando, mesmo, a delirar. O
coronel Bouquet insistiu, então, para que o removessem para um quarto melhor, em sua própria
casa.
Randolph permitiu que Hannah ficasse ao lado do capitão, como sua enfermeira, mas o médico
proibiu-a de estar o tempo todo à cabeceira do doente, pois não queria que ela também se
desgastasse demais. Um paciente apenas já bastava, ele argumentou, severo.
Também Bouquet percebia a devoção extrema daquela moça a Ethan, e partilhava da
preocupação do doutor quanto a sua saúde.
— Gosta muito dele, não é? — o coronel perguntou, no terceiro dia de vigília de Hannah.
Ethan estava inconsciente ainda.
— Nunca encontrei um homem como o capitão — ela respondeu, sem desviar os olhos do
doente.
— Também nunca encontrei um soldado mais corajoso, nem um rastreador melhor. Mas essas

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não são as qualidades que uma mulher observa, são?
— Não sei onde estaríamos, não fosse por ele — Hannah continuava falando com certa reserva,
procurando não mostrar seus sentimentos. — Ethan voltou ao rio do Destino para nos salvar, e isso
quase lhe custou a vida.
O coronel assentiu com gravidade antes de acrescentar:
— Mas ele é forte. Não vai se deixar matar assim tão fácil.
— Espero que tenha razão, senhor.
— Uma enfermeira como você é tudo de que um homem precisa para se recuperar, minha cara.
Hannah sorriu, lisonjeada.
— Acho que ele nem ao menos sabe que estou aqui — comentou, em voz bem baixa.
— Pois não se esgote, moça. Ou não estará aqui quando ele acordar.
Hannah tornou a olhar para Ethan.
— Eu vou estar — afirmou com convicção.
— Está apaixonada por ele, não?
Hannah não respondeu, e nem precisava. Suas emoções estavam estampadas em seu rosto.
Bouquet respirou fundo antes de observar:
— Não escolheu um homem muito fácil de amar, moça.
— Não faz mal. Quero apenas vê-lo bem e forte de novo.
— E depois?
Ela deu de ombros.
— Depois... nada, eu suponho. O senhor o conhece. É um homem sem amarras. Vai continuar
vagando por seu Oeste maravilhoso até que haja gente demais nele; então vai procurar outro local,
mais para adiante, onde possa continuar desbravando terras selvagens.
— E você?
— Talvez volte a Filadélfia com os Webster. Acho que nem Randolph, nem Nancy Trask vão
querer voltar ao Oeste.
O coronel assentiu novamente.
— Ainda não é hora — comentou, sério. — Apesar dos acordos que estamos fazendo com os
índios, acredito que o vale do Ohio será colonizado pelos ingleses algum dia. Isso é inevitável. Por
enquanto, porém, precisamos conservar a paz e manter os colonos em segurança.
— É. Talvez um dia eu volte, quando os colonos puderem se fixar de novo às margens do rio do
Destino.
— Tenho certeza de que sim, moça. E desejo-lhe sorte.
Ethan estava inconsciente havia mais de dezoito horas. Ao entardecer, a febre subira muito,
fazendo-o tremer em convulsões e suar em bicas.
O médico decidiu fazer-lhe uma sangria, embora ele próprio não aprovasse de todo o método. No
entanto, o estado do capitão mostrava-se grave demais, e parecia não haver mais nada a fazer.
Ele saiu do quarto, em busca de seus instrumentos cirúrgicos, deixando Hannah à cabeceira, com
o coração apertado.
A sangria parecia-lhe um processo inútil. Vira os médicos aplicarem-na em sua mãe por mais de
uma vez, e tinha certeza de que isso apenas acelerara sua morte, já que a enfraquecera cada vez
mais.
Ethan perdera muito sangue quando fora atingido pela faca de Trask. E agora era a febre que o
estava consumindo.
Tomando uma decisão repentina, Hannah levantou-se e arrancou as pesadas cobertas da cama,
passando a tirar as roupas do capitão Reed com mãos ágeis, aflitas.
Depois, umedecendo uma toalha, começou a passá-la por seu corpo suado, murmurando,
enquanto o fazia:
— Vamos, Ethan, ajude-me! Por favor, não morra! Não morra!
— Srta. Forrester! — repreendeu o médico, ao voltar, acompanhado do coronel. — Perdeu o
juízo?!

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— Ele estava muito quente...
— É claro que estava! Ele tinha uma febre terrível e você acabou de expô-lo ao frio. Vai morrer,
com certeza, e será sua culpa!
— Pois já que ele vai morrer, deixe-me, pelo menos, tentar salvá-lo! Isso faz mais sentido do que
tirar o pouco de sangue que ainda deve restar em suas veias, não?!
O médico olhou para Bouquet, em busca, talvez, de apoio, mas o coronel apenas deu de ombros,
dizendo:
— O capitão Reed não tem família. Acredito que a pessoa mais próxima dele seja, de fato, a Srta.
Forrester. Isso lhe dá autoridade suficiente para aprovar ou não o tratamento que está sendo
ministrado.
Hannah olhou-o, agradecida. Não sabia se estava agindo certo, mas algo dentro de si dava-lhe a
certeza de que Ethan já estava melhorando. Apesar de ainda inconsciente, os tremores em seu corpo
haviam parado, e a expressão em seu rosto parecia mais calma.
— Sendo assim — disse o médico, ofendido —, não serei responsável pelo que vier a acontecer.
— E saiu do quarto, batendo a porta.
O coronel aproximou-se do leito, avaliando o estado do doente.
— Ele me parece bem melhor do que quando o vi, há duas horas — comentou. — Estarei em
meu quarto, se precisar de algo, senhorita.
Quando o coronel se foi, Hannah sentou-se numa cadeira ao lado do leito, e tomou uma das mãos
de Ethan nas suas.
— Será que estou curando ou matando você, meu amor? — perguntou, num fio de voz. Depois,
sem deixar de segurar-lhe a mão, recostou a cabeça ao colchão e, sem perceber, adormeceu.
A vela que ardia sobre a mesa-de-cabeceira estava quase no fim quando Hannah despertou,
assustada. Olhou, depressa, para Ethan e viu que ele tinha a respiração normal, tranqüila. Já não
transpirava, e sua pele não apresentava o tom avermelhado provocado pela febre alta. Estava pálido,
mas calmo, como se dormisse.
Hannah respirou, aliviada, e ergueu a mão dele até fazê-la tocar seu rosto. Ao voltar-se para
Ethan, notou que seus olhos estavam abertos e observavam-na.
— Que dia é hoje? — ele perguntou, com voz rouca. Hannah mal podia acreditar. Sorriu, feliz, e
respondeu: — Não tenho a mínima idéia.
— Mas continuo vivo, não?
Ela assentiu. Sentia vontade de chorar. Ethan baixou os olhos sobre o próprio peito.
— Onde estão minhas roupas?
— Eu as tirei. Você estava com muita febre.
— E onde estamos?
— Na casa do coronel Bouquet. Mas acho que você não deveria falar muito. Esteve muito doente
nos últimos dias.
Ele fechou os olhos, tornou a abri-los, depois passou a língua pelos lábios secos.
— E você esteve comigo o tempo todo?
— Sim.
— E... o que Webster diz a respeito disso?
— Ele me deu sua permissão. Todos no forte querem que você se recupere depressa.
Ethan parecia querer prosseguir, mas não conseguia. Entreabriu os lábios várias vezes, depois
tornou a fechar os olhos. Era como se estivesse a ponto de perder os sentidos de novo.
Hannah aproximou-se mais, tentando entender o que ele murmurava.
— ... me chamou de meu amor... — ouviu-o dizer, antes de perder a consciência mais uma vez.
Mais três dias se passaram, e Ethan recuperou-se surpreendentemente. Já exigia comida
substancial, em vez da sopa de legumes que o médico lhe receitara durante a convalescença, e, no
terceiro dia, gritava por suas roupas, avisando que, se não as devolvessem, ele pularia pela janela e
ficaria nu no meio do pátio.
O coronel subiu ao quarto, ao ouvir tais ameaças, e disse a Hannah que tirasse a tarde livre, pois

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não era obrigada a aguentar o mau humor de um paciente mal-educado.
Ela saiu do quarto, aliviada por poder espairecer um pouco, e foi até as tendas que tinham sido
levantadas no pátio para abrigar os colonos durante o inverno. Agora que Ethan estava fora de
perigo, podia pensar um pouco mais em sua própria vida e considerar o que faria no futuro. Não
poderia, com certeza, declarar seu amor por um homem que partiria dali para encontrar alguns
índios e explorar um território novo assim que o coronel lhe desse permissão para montar um
cavalo.
Quanto ao casamento com Randolph, Hannah também nada podia esperar, já que deixara claro
para ele o seu amor por Ethan.
Conforme se aproximava das barracas, um novo pensamento começava a preocupá-la: o que
seria de sua vida agora?
Estavam todos sentados ao redor da grande mesa, nos fundos do aposento que servia também de
quarto para Randolph, Seth e Jacob. As mulheres e as meninas dormiam num outro cômodo,
contíguo, semelhante a esse.
Tinham terminado o almoço, as crianças já haviam saído para brincar, mas os adultos
permaneciam ainda à mesa quando Hannah chegou. Elisa levantou-se assim que a viu e veio em sua
direção.
— O que houve? — perguntou, preocupada. — O capitão está pior?
Hannah negou com a cabeça e sorriu. —Não. Ele está tão melhor, que já é difícil de suportar.
Todos riram, menos Randolph, que evitava o olhar de Hannah. Ela prosseguiu:
— Acho que agora posso deixar meu trabalho como enfermeira e voltar a meus afazeres aqui.
— Venha, querida — Elisa a trazia para a mesa. — Você já almoçou? Coma um pouco deste
ensopado, ou vai acabar doente também.
— Se Reed não precisa mais de você — Randolph interferiu, em tanto seco —, é melhor cuidar
de sua própria saúde. Há quanto tempo não dorme direito?
Nancy aproximou-se, tocando os ombros de Hannah.
— Sei que estão falando por bem — disse a Randolph e Elisa. — Mas é melhor deixarem
Hannah cuidar de si mesma. Ela sabe de que necessita, não é, querida?
Hannah olhou-a, agradecida. Notava que havia uma nova vivacidade na voz de Nancy, uma
firmeza que era-lhe desconhecida até então.
Hannah começou a comer devagar. Talvez todos tivessem razão: precisava se cuidar.
— Temos novidades, Hannah — Seth anunciou, adiantando-se. — Os franceses recusaram-se a
dar apoio a Pontiac, e as tribos indígenas estão se retirando.
Hannah parou com a colher de sopa no ar.
— Isso que dizer que podemos voltar ao rio do Destino? — perguntou, ansiosa.
Um silêncio perturbador pareceu tomar conta de todos. Randolph respondeu pelos outros:
— Nós não vamos voltar, Hannah.
Elisa colocou a mão sobre o ombro da moça, indagando em tom de desculpa:
— Lembra-se do que eu lhe disse sobre mim e Seth? — Mas... se o problema com os índios não
existe mais... — Hannah insistiu.
Foi Seth quem falou pela esposa agora:
— Eu e Elisa chegamos à conclusão de que não são os índios os nossos inimigos, mas sim,
nossas recordações. Vamos voltar para casa e tentar fazer com que essas lembranças se tornem
nossas amigas, Hannah.
— E eu e as crianças decidimos acompanhar Nancy e as meninas de volta a Filadélfia —
Randolph afirmou, sem encará-la.
Algo na maneira como Randolph falou fez Hannah compreender que havia mais significados
naquelas palavras do que, a princípio, poderia parecer. Olhou para Nancy e viu que ela enrubescera.
— Vai desistir de ser um colonizador? — Hannah não conseguia aceitar a idéia.
Ele, afinal, encarou-a.
— Como eu poderia ser um, sem amigos ou vizinhos? As idéias começavam a se encaixar na

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mente de Hannah. Tudo já estava decidido para aquelas pessoas; apenas ela sobrara.
— As crianças querem voltar? — perguntou ainda.
— Peggy quer ficar junto de Janie e Bridgett. E Jacob não vê a hora de voltar e contar a seu
amigo Ben que viu índios de verdade.
— Entendo...
— É claro que você virá conosco. Nada mudou, Hannah. Mas ela sabia que tudo mudara, sim. E
muito. Afastou o prato de sopa, pensativa. Sua opinião não contara na decisão de todos. Era ainda
uma criada.
Deveria ir aonde seu patrão, julgasse melhor. Seria sempre uma criada na casa dos Webster. Isso
era óbvio, agora que compreendia o motivo do rubor no rosto de Nancy. Ela, Nancy, seria a nova
Sra. Webster.
Já era noite quando ela voltou à casa do coronel. Esperava que Ethan já não estivesse tão
exasperado por sentir-se ainda sem condições de sair daquela cama. Ela estava triste demais para
querer suportar-lhe o mau humor outra vez.
Ele estava aparentemente adormecido quando Hannah entrou no quarto, mas abriu logo os olhos
e sorriu daquele modo malicioso e encantador que era só seu.
— Então, decidiu voltar para mim — disse com voz suave.
Ela foi até o leito.
— Depois de toda aquela cena de manhã, por causa de suas roupas, eu deveria nunca mais voltar.
— Se fizesse isso, aí é que haveria uma bela cena! — Ethan continuava sorrindo.
Hannah sentou-se na beirada da cama. O bom humor do capitão era contagiante agora, e a fez
brincar:
— Acho que você foi um garoto mimado, sabia?
— Até que não. Minha mãe era bastante rígida.
— Então, alguém o mimou mais tarde, a julgar por seu comportamento.
— Algumas moças, talvez... — ele provocava.
— Como Polly McCoy, eu suponho. O coronel disse que ela esteve aqui, perguntando por sua
saúde. Acho que devo avisá-la de que você já pode receber visitas, não? — Hannah sentia um certo
aborrecimento com aquela conversa e resolveu sair da cama para ocupar a cadeira ao lado.
— Não, não se afaste. Gosto de tê-la perto de mim — Ethan protestou. — Estou apenas
provocando você com essa história de outras moças. Afinal, a maior parte delas sempre me achou
indigno de seu amor.
Hannah não pôde deixar de rir. Voltou a seu lugar, na cama, e Ethan segurou-lhe a mão com
força, como se não quisesse deixá-la afastar-se outra vez.
— A Sra. McCoy não me pareceu pensar assim — Hannah observou, insistindo no assunto.
— Na verdade, ela até me mandou embora uma ou duas vezes, mas isso já não interessa.
Hannah baixou os olhos para as mãos de ambos, unidas, e perguntou com voz suave:
— E o que nos interessa, capitão?
Ethan puxou-a para si, fazendo-a deitar-se a seu lado.
— Bem, antes de dizer qualquer coisa, quero esclarecer algo: eu ouvi ou não ouvi você me
chamar de "meu amor" enquanto eu estava febril?
Hannah pensou antes de responder. Era provável que todos no forte já soubessem sobre o que
sentia pelo capitão. Não fazia muito sentido continuar escondendo.
— Talvez eu tenha dito isso... — murmurou por fim.
— Talvez?! — Havia certa irritação na voz dele.
Hannah assentiu, teimosa. Não iria se declarar. Afinal, Ethan nunca fizera a mais leve insinuação
sobre o que sentia a seu respeito.
— Está certo — ele concordou, um tanto ríspido. — Suponhamos que você tenha dito. O que
quero saber é: quantos homens você chamou de "meu amor"?
Ethan falava com tanta segurança que Hannah começou a se irritar.
— Muitos — respondeu sem pensar.

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— Mentirosa! — A voz dele era pouco mais do que um murmúrio e fez Hannah arrepiar-se
inteira.
Sem esperar por qualquer reação dela, Ethan puxou-a mais para si e beijou-a com uma paixão
ardente, exigente.
Ela lutou entre seus braços, até que conseguiu afastar os lábios para reclamar.
— Como pode estar fazendo isso?! Você mal se recuperou!
— Está enganada, moça. -— E continuou a beijá-la, cada vez com mais ardor.
Hannah já se sentia solta naquele abraço apaixonado. Suas palavras, embora ainda repreensivas,
tinham agora um tom complacente:
— Vai acabar se ferindo de novo, Ethan...
— Chame-me de "meu amor" — ele pediu, rouco.
— Vai parar, se eu o fizer?
— Não.
Hannah olhava-o, sem entender. Ethan sorria de novo, calmo, malicioso, muito atraente. Até que
completou:
— Nunca mais vou parar de beijá-la. Nunca mais vou deixá-la afastar-se de mim.
Hannah sentia sua cabeça girar. Seu coração batia tão forte que quase podia ouvi-lo. Qual seria o
significado real daquelas palavras?
— Ethan, por favor... — começou, mas ele não a deixou prosseguir.
— Vá até a porta e tranque-a — disse, numa ordem agradável demais para ser desobedecida.
Hannah vacilava.
— Vá — Ethan insistiu.
Ela o obedeceu. Depois voltou-se e recostou-se à porta que trancara.
— Agora venha aqui. — As ordens continuavam, firmes e doces ao mesmo tempo.
Hannah deitou-se ao lado dele, sempre vacilante, mas Ethan logo a tomou nos braços outra vez,
cobrindo-a de beijos devastadores, famintos, que a deixavam em brasa.
Em dado instante, Ethan afastou-se, arfando, para perguntar, num sussurro carregado de desejo:
— Quer que eu pare, para convalescer melhor?
A resposta de Hannah foi um beijo apaixonado que mostrou o quanto ela o queria também,
vencida que estava pela paixão.
Não havia mais no que pensar, não havia hesitação possível agora. Precisavam apenas um do
outro, para viver a intensidade total do sentimento que os unia. Amaram-se com loucura, do modo
selvagem e incendiário que Hannah aprendera a apreciar. Aquele era o homem que queria, o
homem que a fazia gemer de amor e prazer, e que gemia junto dela, entregue também à paixão.
— Acredita agora que estou recuperado? — Ethan perguntou, ainda respirando com dificuldade,
após o amor.
Hannah sorriu de leve, feliz, satisfeita.
— Talvez....
— E quantos anos acha que vai levar para se convencer? Cinqüenta? Sessenta?
O sorriso desapareceu dos lábios de Hannah. Ela e Ethan não tinham sequer cinqüenta ou
sessenta dias... Não tinham nem mesmo o direito de estar ali, juntos. Como poderia ela manter um
romance com o capitão, durante o inverno, tendo Randolph e as crianças por perto? E, depois, era
ainda uma criada, com obrigações a cumprir.
— O que foi, querida? — Ethan preocupava-se com o que percebia e não compreendia em
Hannah.
— Não posso... — ela murmurou apenas, saindo da cama e se vestindo.
Ethan deixou-a afastar-se, mas não perdia um só de seus movimentos. Pensara muito nos últimos
dias, quando não estava tomado pela febre, e chegara a uma conclusão: queria Hannah mais do que
tudo no mundo.
Mas precisava estar com ela sempre, e não apenas ao voltar de uma jornada de aventuras. Queria
que Hannah o seguisse em sua vida selvagem, explorando, caçando, encontrando novas e lindas

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regiões inabitadas. E, se tivessem filhos um dia, talvez pudessem construir uma cabana
aconchegante às margens do rio do Destino e se fixar, criar raízes.
Ethan já não achava que Hannah estaria melhor ao lado de Randolph Webster. Sabia, com
absoluta certeza, que ela não amava o patrão. Isso ficara provado poucos instantes atrás.
Mas talvez ela não quisesse arriscar seu futuro ao lado de um aventureiro com um passado cheio
de mulheres e jornadas desbravadoras...
Só havia um modo de descobrir, porém.
— Onde está minha calça? — ele protestou, em voz alta.
Hannah voltou-se. Parecia tensa, preocupada.
— Acho... que o coronel a levou — respondeu, sem entender o que Ethan pretendia.
Ele se levantou, enrolando um lençol à cintura.
— Que diabo! — praguejou. — Como um homem pode propor casamento a uma mulher sem
estar decentemente vestido?!
Hannah arregalou os olhos. Ouvira, de fato, a palavra "casamento"?
— Eu preciso da minha calça! — Ethan insistiu. A cena era engraçada, e Hannah não pôde
conter o riso, para o qual, era óbvio, havia uma grande dose de felicidade.
— Gosto de você sem ela — disse, encarando-o. Ethan riu também.
— O sentimento é recíproco, querida. E esse é um dos motivos pelo qual tenho a honra de pedi-
la em casamento, Hannah Forrester. Em troca, dou-lhe meu coração, o qual, na verdade, já é seu.
Hannah sentiu um nó na garganta. Seus olhos se encheram de lágrimas. Ethan abraçou-a, então, e
caíram assim, um nos braços do outro, por longos momentos. Até que ele perguntou com voz suave:
— Como as mulheres conseguem fazer isso?
— Fazer o quê?
— Rir e chorar ao mesmo tempo.
Hannah riu e chorou ainda mais, meneando a cabeça.
— Não sei.
— Bem, eu ainda não tive uma resposta.
— Você já sabia qual seria, antes mesmo de perguntar, não é?
— De fato, não, meu amor. Digamos apenas que tinha esperanças, a ponto de pedir ao advogado
do forte para comprar seu contrato de Webster esta manhã. Não ia deixar você partir com ele.
Hannah sorriu. Havia mais lágrimas rolando por seu rosto agora.
— Eu já havia falado com Randolph e dito que não poderia me casar com ele. E... não acho que
ele ficaria desconsolado por muito tempo. Ele e Nancy parece que já se acertaram.
— Aquele sujeito é um idiota. Se eu tivesse perdido você, ficaria desconsolado para o resto da
vida!
Hannah olhou-o com atenção e acariciou-lhe o rosto. Como podia estar tão apaixonada?
Quase sem sentirem, já estavam envolvidos num novo beijo, ardente como sempre, que logo fez
o desejo brotar mais uma vez.
— Não, não... — Hannah murmurou, afastando-se. — É melhor você se deitar e descansar. E é o
que você vai fazer, nem que eu tenha de amarrá-lo!
Ethan ergueu as sobrancelhas, o sorriso malicioso nos lábios outra vez.
— Ora... isso poderia ser interessante... — observou.
— E eu vou falar com Randolph antes do advogado — Hannah acrescentou, ignorando a
brincadeira. Ethan ficou sério então.
— Ele vai liberá-la, não?
— Vai, sim. Quero eu mesma dar-lhe a notícia.
— Está certo. Mas volte logo.
— Só voltarei de manhã. Agora que você está tão... saudável, não posso passar a noite aqui.
— Eu poderia fingir que estou doente — Ethan brincou ainda.
Hannah olhou para o corpo forte, que tanto amava.
— Ninguém acreditaria — disse, e jogou-lhe um beijo, saindo em seguida do quarto.

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EPÍLOGO

Abril de 1764.

Hannah pulou do barco antes mesmo que o capitão pudesse ajudá-la a chegar à margem do rio.
— Está tudo aqui, Ethan! — ela gritou, feliz.
O capitão Reed sentiu-se aliviado com a alegria que percebia na voz dela. Receava que, mesmo
ao encontrar as cabanas intactas, Hannah se entristecesse pela falta dos amigos, que agora já
estavam a caminho de Filadélfia. Mas os temores tinham sido em vão. Sua esposa era uma mulher
otimista e determinada, que quisera voltar ao rio do Destino para recomeçar sua vida. E fora
exatamente pelos amigos ausentes que ela quisera voltar, para que sua pequena contribuição para o
desbravamento do Oeste não fosse esquecida.
Ethan prendeu a canoa e subiu a margem do rio. Hannah entrara na cabana que fora dos Webster.
Ela chorara muito, no forte, ao se despedir de Peggy e Jacob, e talvez o fato de estar ali, de volta,
trouxesse muitas lembranças difíceis de suportar. Ethan esperava, ansioso.
Lembrava-se de Webster, que se recusara a aceitar qualquer pagamento pelo contrato de Hannah,
e que até fora padrinho de meu casamento, Randolph não era um homem de guardar rancor, tenho
de reconhecer.
Como Hannah demorasse a sair, seguiu-a até a cabana. Ela estava parada no meio da sala,
olhando tudo ao redor. Sua expressão, porém, não era triste, mesmo se estivesse se recordando dos
bons tempos que passara ali.
— Parece que está tudo como vocês deixaram — Ethan comentou, passando os olhos ao redor.
— Está... triste por voltar aqui?
Hannah foi até ele para abraçá-lo.
— Não. Eu só estava me lembrando que, na última vez em que estive aqui, senti-me desesperada
por não saber se você sobreviveria ao ferimento.
Ethan apertou-a contra o peito.
— Sou difícil de matar. E você, moça, agora está amarrada a mim para sempre.
— Que pena! — Hannah brincou. — Achei que, talvez, o major Edgemont fosse me raptar no
dia de nosso casamento e me levar para algum castelo na Inglaterra...
Ethan sorriu, mas aceitou a provocação:
— Sabe de uma coisa? Eu devia ter vendido você àquele guerreiro índio quando tive a chance.
— Tarde demais, meu amor. Agora, é você quem está amarrado a mim para sempre.
Juntos, saíram da casa e caminharam pelo pátio que separava as duas cabanas. Tudo estava como
havia sido deixado.
— Olhe! — Hannah exclamou, de repente, apontando para as árvores frutíferas que tinham
plantado no verão anterior.
As plantas tinham sobrevivido ao inverno e estavam agora cobertas por minúsculas flores
brancas.
Ethan sorriu ao ver a alegria quase infantil estampada no rosto de Hannah. Jamais se cansaria de
olhá-la. Linda, feliz, corajosa. Aquela era sua esposa querida, a mulher que escolhera entre todas as
outras.
Continuaram caminhando, até alcançarem o local onde tinham se amado entre as árvores.
Hannah reconhecia o lugar e indagava-se se o mesmo estaria acontecendo com Ethan. Os homens
costumavam não se apegar a esse tipo de sentimentalismo.
Alguns passos adiante, ele pegou-a pela cintura e a fez voltar-se para seus braços. Devagar, entre
beijos apaixonados, fez com que Hannah se deitasse sobre a relva macia e depois, afastando-se um
pouco, perguntou, com a voz carregada de desejo:
— Suas costas ainda doem?

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Ela sorriu e puxou-o novamente, para outro longo beijo. Ele se lembrava, sim.
Após o beijo, abraçados lado a lado, ficaram os dois apenas ouvindo o murmurejar do rio, logo
abaixo, e os pássaros entoando suas canções eternas por entre as árvores altas.
No entanto, para Hannah, o som mais doce e calmo do mundo era a voz de Ethan, sussurrando
em seu ouvido:
— Bem vinda ao lar, meu amor.

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