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A interpretação da Bíblia na Tradição Wesleyana

Dando seguimento à nossa série de estudos sobre a interpretação bíblica, trataremos hoje de situá-la no
contexto da tradição wesleyana. Normalmente, a interpretação da Bíblia se faz sob dois enfoques: (1)
interpretamos os textos bíblicos a partir de nossa experiência de fé, ou seja, no contexto da nossa vida diária;
(2) interpretamos a Bíblia a partir de procedimentos científicos, que procuram desvendar o sentido que o
texto representava para o local, época e comunidades dentro dos quais ele foi formulado.
O primeiro enfoque consiste numa interpretação prática, direcionada para captar a mensagem dos textos
para o hoje da fé e do discipulado. E o segundo é uma tarefa que tem na ciência o seu fundamento. Não
obstante, as duas abordagens são contempladas positivamente no ambiente dos escritos bíblicos (Lucas 1.1-
4; Atos 7.22; 1 Pedro 3.15). Na história do Metodismo, vemos também essas duas vertentes. Como
declararam Carlos e João Wesley: “Vamos unir duas coisas há tempos separadas: a ciência e a piedade vital”.
João Wesley dizia que nenhuma formulação teológica, por melhor estruturada que fosse, poderia ser
anterior à vivência da fé e do amor, na vida cristã: "Quanto mais deve ser o amor preferido... à própria
verdade sem amor" (Sermões I).
Isso não significa dizer que ele era indiferente à questão da verdade, alimentando atitudes pietistas
extremadas ou avessas à reflexão teológica. Para Wesley, a compreensão teológica nos serve como
instrumento a serviço da fé e da vida cristãs.
A Bíblia é, para Wesley, a autoridade suprema e definitiva em termos de reflexão teológica. Todavia, ele
evita sabiamente enveredar pelos caminhos tortuosos da exegese (explicação interpretativa) literalista e do
biblicismo. E dessa forma, Wesley nos deixou uma estrutura teológica bem configurada, seguindo passos e
procedimentos metodológicos bastante nítidos, que conhecemos como quadrilátero wesleyano, tendo a
Bíblia ao centro:

EXPERIÊNCIA TRADIÇÃO

BÍBLIA

RAZÃO CRIAÇÃO

A tradição significava a valorização da experiência histórica da Igreja Cristã. João Wesley considerava sua
formação anglicana, reafirmava o valor dos escritos antigos da Igreja, bem como os concílios e credos
ecumênicos dos Reformadores.
Todavia, entendia que o significado pleno da fé em Cristo não pode ser compreendido unicamente através
do conhecimento da tradição. Daí, o valor inestimável da experiência. É ela que atualiza a convicção viva da
transformação que Cristo realiza em nós (João 9.25).

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Wesley, entretanto, também sabia que somente a experiência pessoal é insuficiente para uma interpretação
bíblica responsável. Uma teologia construída exclusivamente na experiência dá margem para o subjetivismo
e o fanatismo.
Por isso, a razão desempenha um papel insubstituível na reflexão teológica e na experiência da fé. Ela
equivale ao bom senso ou ao senso comum humano. Ela evita os exageros de determinadas aplicações de
textos bíblicos que não consideram, por exemplo, o contexto próprio dos mesmos, que indica as
particularidades para o seu uso. Ele recomenda: “Faça à razão tudo o que ela pode; usai-a até onde ela pode
ir”.
Por último, Wesley destaca que a criação de Deus também se nos apresenta como critério para
compreendermos a revelação divina (Salmo 19.1). Salienta que, ao observarmos a Criação, adquirimos algum
conhecimento de Deus.
No seu prefácio aos Sermões, Wesley apresenta resumidamente seu método interpretativo. Os textos entre
parênteses são destaques nossos: “Há alguma dúvida acerca do significado do que leio? Alguma coisa parece
obscura e de difícil compreensão? Elevo o meu coração para o Pai das luzes: Senhor — não é palavra tua? —
‘se alguém tem necessidade de sabedoria, peça-a a Deus’. Tu a dás ‘liberalmente e sem recriminações’. Tu
disseste: ‘se alguém quiser fazer a tua vontade conhecerá’. Desejo fazê-la; deixa-me conhecer a tua vontade
(neste trecho aparece o uso da experiência pessoal de Wesley com Deus). Então, busco e pondero passagens
paralelas da Escritura, ‘conferindo coisas espirituais com espirituais’ (aqui aparece o uso da Bíblia). Medito
nelas, com toda a atenção e determinação de que minha mente é capaz (uso da razão). Se alguma dúvida
ainda permanece, consulto os que são experimentados nas coisas de Deus e, depois, os escritos pelos quais,
mesmo mortos, ainda falam (uso da tradição). Aquilo que assim aprendo, isso ensino. ”
Assim, o quadrilátero wesleyano é um instrumento metodológico importante e pontual para uma
interpretação bíblica equilibrada, metodista.
Glossário
Exegese: Explicação interpretativa da Bíblia que obedece a procedimentos científicos. Exemplo: Filologia
(estudo das línguas originais, hebraico e grego), Crítica Textual (analisa e sugere correções aos diversos
manuscritos dos textos da Bíblia), Crítica Literária (estuda os textos sob o ponto de vista da sua produção
literária — autoria, estilo de redação, coesão e estrutura interna do texto, etc.)
Biblicismo: Apego exagerado à Bíblia para explicar todos os fatos passados, presentes e futuros. A Bíblia
conteria, assim, as respostas a todas as questões, sem considerar as limitações próprias de tempo, cultura e
espaço experimentados pelos autores bíblicos.
Exegese literalista: Credibilidade total à letra do texto bíblico, sem perguntar pelo contexto gerador do
escrito e sua intenção.
Fanatismo: Excessivo zelo religioso, que nega a voz da razão; adesão cega a uma doutrina.
Pietista: palavra que remete a um grupo religioso dos tempos de Wesley e desde os primeiros reformadores.
Sua ênfase era a piedade pessoal, com amplo uso de jejuns, orações, e obras de misericórdia, como
assistência aos pobres, órfãos, viúvas, etc. Sua ênfase nas questões morais era muito elevada. Eram radicais
em sua busca de perfeccionismo e seu nível de exigência quanto à fé e à prática era muito elevado.

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Subjetivismo: Sistema de pensamento relativo à pessoa que somente admite suas idéias como verdadeiras,
mesmo que não haja fundamentação ou argumentação que as valide.

Rev. Otávio Júlio Torres


otaviojtorres@gmail.com
Diretor do Centro Metodista de Estudos
Oitava Região Eclesiástica da Igreja Metodista

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