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UNIVERSIDADE PRESBITERIANA MACKENZIE

Programa de Pós-graduação
Mestrado em Arquitetura e Urbanismo

Roberta Laredo

Construindo o espaço público


contemporâneo:
o caso da Praça Victor Civita

São Paulo
2013

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UNIVERSIDADE PRESBITERIANA MACKENZIE
Programa de Pós-graduação
Mestrado em Arquitetura e Urbanismo

Dissertação de Mestrado

Roberta Laredo

Construindo o espaço público


contemporâneo:
o caso da Praça Victor Civita

Dissertação apresentada ao Programa Gra-


duação em Arquitetura e Urbanismo da Uni-
versidade Presbiteriana Mackenzie como
parte das exigências para obtenção do título
de Mestre em Arquitetura e Urbanismo

Orientadora: Profª. Drª. Nadia Somekh

São Paulo
2013

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L321c Laredo, Roberta
Construindo o espaço público contemporâneo : o caso da
Praça Victor Civita. / Roberta Laredo – 2014.
167 f. : il. ; 30cm.

Dissertação (Mestrado em Arquitetura e Urbanismo) -


Universidade Presbiteriana Mackenzie, São Paulo, 2014.
Bibliografia: f. 91-97.

1. Parceria público-privada. 2. Espaço público. 3. Praça.


4. Praça Victor Civita. 5. Termo de Cooperação. 6. São Paulo.
I. Título.

CDD 711.4098161

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Roberta Laredo

Construindo o espaço público


contemporâneo:
o caso da Praça Victor Civita

Dissertação apresentada ao Programa Gra-


duação em Arquitetura e Urbanismo da Uni-
versidade Presbiteriana Mackenzie como
parte das exigências para obtenção do título
de Mestre em Arquitetura e Urbanismo

Aprovada em 21/1/2014

BANCA EXAMINADORA

Profª. Drª. Nadia Somekh – Orientadora


Universidade Presbiteriana Mackenzie

Prof. Dr. Valter Caldana


Universidade Presbiteriana Mackenzie

Prof. Dr. Vladimir Bartalini


Universidade de São Paulo

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À cidade de São Paulo,


que despertou em mim o afeto a novos lugares,
novas pessoas e novas experiências.

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Agradecimentos

E
ste estudo foi realizado graças às oportunidades imensuráveis que surgiram ao
longo desses dois anos. Agradeço primeiramente à professora Nadia Somekh por
ter me acolhido no grupo de pesquisa, e pela clareza e assertividade com a qual
orientou meus estudos.

Ao Mackpesquisa pelo apoio.

Aos professores Valter Caldana e Vladimir Bartalini pela participação na banca e


orientações necessárias.

Ao Hamilton dos Santos, Cleide Rovai Castellan e Marcelo Bressanin pela generosi-
dade em abrir os arquivos e me contar as histórias.

À arquiteta Adriana Levisky por transmitir que São Paulo é uma cidade possível.

Aos arquitetos Marcos Cartum e Jaime Cupertino pelas conversas e rica indicação
bibliográfica.

Aos funcionários da subprefeitura de Pinheiros, em especial ao subprefeito Angelo


Filardo e à arquiteta Ana Cristina Archangeletti por me concederem material e entrevistas
valiosas para a elaboração deste estudo.

Ao professor Marcos Alves da Silva, pelas leituras, revisões e indicação de livros.

Ao meu amigo Mauro Calliari, que não só me abriu algumas portas, como também
dividiu comigo os momentos de trabalho, carregados de entusiasmo e angústia. Tudo
vale pela experiência.

Ao Gustavo Laredo pela revisão e à Maria Thereza Scarazzato Laredo pelo apoio.

Ao Paulo Futagawa pela compreensão nos momentos mais conturbados, pelo com-
panheirismo nos momentos mais solitários e pelo amor em todos os momentos.

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A cooperação azeita a máquina de concretização


das coisas, e a partilha é capaz de compensar
aquilo que acaso nos falte individualmente.

Richard Sennett

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Resumo

E
sta pesquisa aborda a implantação da Praça Victor Civita, localizada no bairro de Pi-
nheiros, na cidade de São Paulo. Em uma área marcada pela degradação ambiental,
surge a possibilidade de reabilitação por meio da modalidade de financiamento e
gestão denominada “parceria público-privada”. Ao levantar conceitos que definem o que
é público e o que é privado, tentamos verificar se o espaço público, criado por meio da
parceria entre o poder público e o setor privado, é de fato público e feito para o público,
e o seu real significado. Utilizamos alguns exemplos de experiências internacionais para
traçar um paralelo com a situação observada na cidade de São Paulo com o objetivo de
reconhecer as diferenças que tornam as parcerias mais efetivas, considerando não só a
iniciativa privada, mas também a sociedade, como parceiras na construção do espaço
público. Este trabalho oferece um panorama de como foi o processo da parceria, concep-
ção, projeto e implantação da Praça Victor Civita.

Palavras-Chave: Parceria público-privada; espaço público; praça; Praça Victor Civi-


ta; Termo de Cooperação; São Paulo.

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Abstract

T
his research approaches the implementation of Praça Victor Civita (Victor Civita
Square), situated in Pinheiros district, in São Paulo. The area, once environmentally
degraded, was rehabilitated through a funding and management modality called
“public-private partnership”. By researching concepts that define what is public and what
is private, we try to determine if the public space created through the partnership betwe-
en the government and the private sector is actually public and made for the public, and
its meaning. We use examples of international experiences to compare the situation ob-
served in São Paulo, aiming at recognizing the differences that make partnerships more
effective, when we consider not only the private business, but also society as a partner in
shaping the public space. This work offers an overview of the partnership, including its
conception, processes, project and deployment of Praça Victor Civita.

Keywords: Public-private partnership; public space; square; Praça Victor Civita; Vic-
tor Civita Square; Cooperation Agreement; São Paulo.

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Lista de ilustrações
Figura 1.1 - Pátio do Colégio em ilustração de 1824: A paróquia como centro do espaço
público.............................................................................................................................................................34

Figura 1.2 - Praça da República – 1915: embelezamento da cidade........................................................35

Figura 1.3 - Parque do Ibirapuera – 1954: lazer e práticas esportivas representam o


novo espaço público...................................................................................................................................35

Figura 1.4 - Praça Coronel Custódio Fernandes Pinheiro (Praça Pôr do Sol) – 1968:
lazer cultural e a contemplação...............................................................................................................36

Figura 1.5 - Parque ecológico do Tietê – 1982: viés ambiental na concepção de novos
parques............................................................................................................................................................36

Figura 1.6 - Largo da Concórdia – 1990: o entorno define o espaço......................................................37

Figura 1.7 - Praça Victor Civita – 2008: espaço público caracterizado pelo uso múltiplo................37

Figura 2.1 – POP IBM Atrium, localizado em Nova Iorque: espaço público criado pela
iniciativa privada...........................................................................................................................................44

Figura 2.2: Superfícies e usos projetados no High Line permitem a interação dos usuários..........47

Figura 2.3: Superfícies e usos projetados no High Line permitem a interação dos usuários..........48

Figura 2.4 e 2.5: High Line: bancos projetados para leitura, descanso e contemplação..................48

Figura 2.6 – Mapa representa a distribuição espacial das áreas verdes sob responsabilidade
de subprefeitura de Pinheiros..................................................................................................................53

Figura 3.1 – Área do antigo incinerador municipal no bairro de Pinheiros na cidade de


São Paulo, local onde atualmente se localiza a Praça Victor Civita.............................................57

Figura 3.2 – Implantação da Praça Victor Civita em relação à quadra...................................................58

Figura 3.3 – Localização da Praça Victor Civita em relação a outros pontos da cidade
de São Paulo..................................................................................................................................................58

Figura 4.1: Uma das inspirações para o projeto foi o Terminal Internacional do Porto de
Yokohama.......................................................................................................................................................65

Figura 4.2: Maritime Youth House do Plot Architects, usado como inspiração para o projeto
da praça...........................................................................................................................................................65

Figura 4.3 – Praça Victor Civita: sistema de alagado construído para reter a água da chuva e
tratá-la, a fim de irrigar as árvores do bosque...................................................................................66

Figura 4.4 – Praça Victor Civita: espelho d´água com água de reuso proveniente do esgoto
sanitário tratado............................................................................................................................................ 67

Figuras 4.5 a 4.7 – Praça Victor Civita: estrutura elevada de madeira (deck) que protege os
frequentadores do contato com o solo................................................................................................68

Figura 4.8– Praça Victor Civita: área com painel explicativo sobre o biodiesel...................................69

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Figura 4.9 – Praça Victor Civita: Prática de Ioga gratuita no sábado de manhã..................................71

Figura 4.10 – Entorno da Praça Victor Civita: terminal de ônibus urbano. Ao fundo, o prédio
da Editora Abril.............................................................................................................................................72

Figuras 4.11 – Placa informativa com regulamento na entrada da praça...............................................72

Figuras 4.12 e 4.13 – Acessos abertos ao público da Praça Victor Civita...............................................73

Figura 4.14 – Entorno da Praça Victor Civita: atividades esportivas no final de semana
atraem usuários pela manhã....................................................................................................................73

Figura 4.15 – Entorno da Praça Victor Civita: horário do almoço durante a semana garante a
frequencia de trabalhadores da região.................................................................................................74

Figura 4.16 – Entorno da Praça Victor Civita: calçamento novo com rampas de acesso..................74

Figuras 4.17 a 4.20 – Bancos instalados na Praça Victor Civita: não favorecem a
contemplação e a leitura............................................................................................................................75

Figuras 4.21 a 4.24 – Perfis metálicos e tábuas de madeira: os elementos mais usados na
obra da Praça em processo de deterioração .....................................................................................76

Figura 5.1 – Entrada da Praça durante evento com a presença de seguranças particulares...........84

Figuras 5.2 a 5.4 – Evento realizado anualmente na Praça Victor Civita com recursos
captados por leis de incentivo.................................................................................................................85

Figura 5.5 – Público no horário do almoço no meio da semana acompanhando ensaio de


músicos............................................................................................................................................................85

Figura 5.6 – Público no horário do almoço no meio da semana.............................................................86

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Sumário

Introdução..................................................................................................................................... 11

1. As transformações do espaço público.............................................................................. 18


1.1 Conceitos e Definições: o que é o espaço público contemporâneo?......................18
1.2 Tipologias que caracterizam o espaço público.............................................................. 28

2. A parceria público-privada na construção do espaço público...................................40


2.1 Experiências internacionais....................................................................................................41
2.2 Experiências em São Paulo................................................................................................... 49

3. A praça Victor Civita..............................................................................................................56


3.1 História, criação e estrutura.................................................................................................. 56
3.2 A parceria entre poder público e setor privado............................................................ 59

4. Em busca de um bom projeto............................................................................................62


4.1 Limitações e conceitos: as soluções encontradas na Praça Victor Civita............... 62
4.2 A construção do modelo: processo e proposta de gestão
da Praça Victor Civita.............................................................................................................. 76

5. Perspectivas: o espaço transformado e a comunidade................................................ 81


5.1 Programação e manutenção.................................................................................................81
5.2 Resultados alcançados........................................................................................................... 83

6. Algumas conclusões..............................................................................................................87

Referências bibliográficas......................................................................................................... 91

Anexos
Anexo A: Tipos de espaços livres.............................................................................................. 98
Anexo B: Minuta do termo de cooperação.......................................................................... 102
Anexo C: Ficha técnica................................................................................................................ 106
Anexo D: Termo de referência.................................................................................................. 108
Anexo E: Portaria 139//SPPI//GAB//2008............................................................................... 119
Anexo F: Termo de Cooperação.............................................................................................. 126
Anexo G: Estatuto AAPVC.......................................................................................................... 144
Anexo H: Entrevista...................................................................................................................... 163

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Introdução

O
s espaços públicos sempre foram uma questão que nos vem sendo apresen-
tada sobre o modo como usamos a cidade. Após a formação em engenharia
civil, o trabalho com limpeza urbana trouxe um primeiro contato com o lado
executivo da cidade. Embora não se tratasse do projeto em si, mas sim da manutenção e
limpeza, essas áreas sempre suscitaram o desejo de entender como a população se rela-
ciona com o espaço público e como o projeto, a manutenção e a localização interferem
na sua apropriação pela população.

Mas qual é o papel do poder público na criação desses espaços? Quanto as pre-
feituras se preocupam em executar bons projetos? Qual a importância que os espaços
públicos têm no orçamento municipal? Dentro de um contexto em que os orçamentos
públicos têm sido cada vez mais limitados pelos entraves constitucionais, surge a pos-
sibilidade da parceria entre o poder público e o setor privado construírem espaços que
possam dar à cidade áreas com qualidade para o uso da população.

Este trabalho aborda a criação e a gestão da Praça Victor Civita, localizada no bair-
ro de Pinheiros em São Paulo, tendo como principal discussão a modalidade de gestão/
financiamento denominada parceria público-privada (PPP), analisando, desse modo, um
modelo de gestão pouco empregado em praças do município. Pretende, ainda, levantar
a questão da construção do espaço público com recursos do setor privado, considerando
essa tendência administrativa não isenta de consequências ao tecido urbano, tais como
valorização da área e a regulamentação de uso.

A pesquisa caracteriza o panorama atual de utilização da parceria público-privada


no município de São Paulo por meio da observação da Praça Victor Civita, verificando a
viabilidade de seu projeto e sistema de gestão, de forma a analisar a aplicação dessa fer-
ramenta na criação de novos espaços públicos - especificamente as praças -, buscando
evidências que possam responder se o espaço público criado pela parceria público-pri-
vada é, efetivamente, um ganho à cidade.

A Praça Victor Civita foi escolhida como objeto deste estudo por ter sido implanta-
da por meio da parceria entre a Prefeitura do Município de São Paulo (PMSP) e a Editora
Abril. Além disso, a escolha por estudar uma praça em meio a outros equipamentos
públicos que utilizaram o instrumento da PPP para sua implantação e/ou gestão, como

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por exemplo, as estações de metrô e as obras de infraestrutura, fez-se pela importância


da representatividade e carência que este tipo de espaço público tem na cidade de São
Paulo. A representatividade se dá pela qualidade das atividades oferecidas pelo espaço
e não em termos de número, já que o município conta com duzentos parques contabi-
lizados no ano de 2012 dentro do programa 100 parques da Prefeitura do Município de
São Paulo1.

Para Bartalini (2007, p. 5), a cidade demanda espaços públicos de qualidade:

Para dar sentido a uma investigação sobre a praça na nossa contempo-


raneidade é preciso, antes de mais nada, reconhecer a necessidade de
um lugar onde possam se expressar, publicamente, determinadas rela-
ções entre pessoas, sendo esta interpessoalidade característica distintiva,
embora não exclusiva, da praça. Para isso pode-se contar com os estu-
dos e pesquisas que trazem à tona a vitalidade presente nos espaços de
encontro e inter-relacionamento, mesmo que improvisados e precários.

O espaço público figura como um dos objetos de maior relevância no desenvolvi-


mento urbano das metrópoles. De um lado, a valorização da terra permite que o mer-
cado imobiliário avance na edificação do espaço; de outro, o crescimento populacional
exige que a cidade ofereça melhores condições de vida à população, tornando inadiável
a criação de novas áreas verdes que sirvam ao lazer e ao convívio (ROBBA; MACEDO,
2010) e promovam o bom uso do espaço público.

Percebemos, assim, que a praça, dentro de uma gama de elementos urbanos que
chamamos de espaço público, encontra-se como ambiente de troca, conforto e vitalida-
de na cidade, principalmente nas megalópoles do sudeste2 onde podem ser vistas como
refúgios que compõem a paisagem seca da maior parte dos bairros.

A praça é um índice (signo) do lugar, de civilidade e qualidade de vida


urbana. A praça é, ainda hoje, um local próprio para manifestações políti-
cas, comemorações e protestos. Sub-espaço carregado de simbologias e
memórias; tanto é capaz de contribuir para a afirmação inercial do poder

1 Guia dos parques municipais de São Paulo. 3ª Edição atualizada e revisada. Disponível em: <http://
www.prefeitura.sp.gov.br/cidade/secretarias/upload/meio_ambiente/arquivos/publicacoes/guia_dos_
parques_3.pdf>. Acesso em 26 mai. 2013.
2 QUEIROGA, Eugenio Fernandes. A megalópole e a praça: o espaço entre a razão de dominação e a
ação comunicativa. Tese de doutorado. São Paulo: s.n., 2001, p. 332.

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institucional, como ser local próprio para crítica e o protesto público,


para a ação comunicativa política (QUEIROGA, 2001, p. 332-333).

No entanto, mesmo indispensável para a manutenção da qualidade de vida da


população, não podemos esquecer que a criação e manutenção das praças paulistanas
estão diretamente ligadas ao investimento público no setor de desenvolvimento de áreas
verdes do município que, na maioria das vezes, não possui recursos suficientes para su-
prir de forma eficiente a carência e qualidade desses espaços. Nesse sentido, a parceria
público-privada é hoje uma das formas de viabilizar projetos que antes eram competên-
cia exclusiva da administração pública.

Um exemplo é o que acontece nos Estados Unidos cuja administração pública se


utiliza de parcerias com a iniciativa privada para financiar espaços públicos e melhorar a
qualidade de vida da população. A partir daí surgiu a possibilidade da parceria público
-privada, como forma de garantir a criação desses espaços e como uma alternativa capaz
de implementar projetos urbanos, que de outra maneira não sairiam do papel (LE GOIX;
LOUDIER-MALGOUYERES, 2005).

Apesar de ser diferente em alguns aspectos, a experiência americana e europeia na


utilização da modalidade de gestão/financiamento denominada parceria público-priva-
da, como uma ferramenta dada ao poder público para fomentar a criação e manutenção
de praças com recursos privados, tem se mostrado uma alternativa à falta de investimen-
tos nesse setor da administração municipal.

Cabe aqui questionar se essa aliança entre o poder público e a iniciativa privada na
gestão de espaços públicos é uma alternativa que gera benefícios à população ou tem a
finalidade de capitalizar espaços públicos, engessando seus projetos e restringindo seu
uso. Nossa pesquisa busca avançar nesta questão.

Por outro lado, a questão da parceria público-privada poderia ser entendida como
uma “privatização” do espaço público? Nesse sentido, o que seria publicizado como uma
gestão eficiente para revitalização e manutenção do espaço público, na verdade é apenas
um instrumento de marketing utilizado em benefício das empresas para melhorar sua
imagem perante a sociedade (LE GOIX; LOUDIER-MALGOUYERES, 2005).

A privatização do espaço está, então, diretamente relacionada com a visão que o


capitalismo traz de progresso. Para Harvey (2011, p.16), a presença do capital na formação

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das políticas atuais chega a atingir as políticas públicas de formação do tecido urbano,
como é o caso de parcerias público-privadas utilizadas na criação do espaço público.

A ação do poder público, capital e sociedade na construção do espaço público


tem sido constantemente estudada e revista, e este trabalho pretende considerar essa
discussão para a análise das interferências que cada um desses atores tem na formação
das praças.

Esta pesquisa, entretanto, não pretende encerrar o espaço em conceitos que o


definam como fruto apenas das ações econômicas e políticas que os constroem, mas
considera que os lugares estão sujeitos às variações do tempo e aos processos e discur-
sos de modernização que a sociedade vive. A pesquisa investiga, ainda, as características
do instrumento de gestão da parceria público-privada e analisa as formas pelas quais a
tendência se manifesta na construção do espaço público urbano, considerando a par-
ticipação de todos os atores envolvidos no processo de planejamento, quais sejam: a
administração pública, o setor privado e a sociedade civil, com o objetivo de confirmar
se a ferramenta de gestão PPP pode produzir bons espaços públicos e, em caso positivo,
investigar quais os entraves que fazem com que esse modelo não seja aplicado na cria-
ção de outros espaços.

Tendo como premissa que a parceria público-privada é um instrumento legal de con-


tratação pública, o trabalho foi desenvolvido a partir do levantamento e análise da legislação
referente ao tema aplicada à cidade de São Paulo, traçando um paralelo ao que foi desenvol-
vido em relação à parceria público-privada na criação de espaços públicos em cidades como
Nova Iorque, de onde foi tirada a experiência internacional no debate da pesquisa.

A revisão bibliográfica foi realizada com base em estudos que permitiram identificar
características similares ao modelo de gestão estudado. Partindo de teses e referências
bibliográficas relacionadas ao estudo, foram pesquisados três grandes temas: parceria
público-privada, espaço público e praças, e ainda consultada literatura relacionada à pro-
dução do espaço público, à gestão de áreas verdes, à vida urbana em espaços públicos,
à legislação e às formas de financiamento de projetos baseados nessa forma de gestão.

Este levantamento inicial permitiu reconhecer o material sobre a aplicação da


PPP para as operações urbanas do município de São Paulo com a criação de espaços
públicos atrelados a expansão imobiliária. Isso nos levou a formatar um paralelo que se
encaixasse ao caso estudado.

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Como levantamento de dados primários, foram feitas visitas ao local estudado e


entrevistas com alguns dos atores que participam ou participaram da implantação e
gestão do empreendimento. Desta forma, a pesquisa buscou ainda avaliar o efeito da
parceria público-privada no processo de planejamento do espaço público, em especial,
praças, já inseridas no tecido urbano construído.

Como já mencionado, o objeto deste estudo foi a Praça Victor Civita no Município
de São Paulo. A praça está localizada na Rua Sumidouro, nº 580, no Bairro de Pinheiros
e foi construída a partir da parceria público-privada entre a Editora Abril e a Prefeitura
do Município de São Paulo, e suas características estarão descritas em capítulo especí-
fico deste trabalho.

Além da Praça Victor Civita, este estudo pretende dedicar um capítulo à experiência
internacional, relatando algumas parcerias público-privadas realizadas para revitalização,
implantação ou manutenção de praças, com destaque para a cidade de Nova Iorque, que
utiliza essa modalidade de contratação em alguns de seus projetos urbanos.

A pesquisa abordará o processo de realização da parceria público-privada entre a


Editora Abril e a Prefeitura de São Paulo desde a assinatura do Protocolo de Intenções
em 2001, que pretendia viabilizar a recuperação do terreno para transformá-lo em pra-
ça pública, passando pela criação da legislação que institui normas para a contratação
de parceria público-privada e termos de cooperação, até os dias de hoje com a análise
dos resultados alcançados.

Embora muitos autores importantes tenham discutido as revitalizações do espaço


urbano como um fenômeno de gentrificação3, o conceito criado por Neil Smith talvez
tenha de ser encaixado em uma nova realidade brasileira que faz parte do que Ascher
(2010) chama de neourbanismo, onde “os serviços públicos urbanos devem, hoje em dia,

3 A gentrificação é, por definição, um processo de “filtragem social” da cidade. Vem desencadear um


processo de recomposição social importante em bairros antigos das cidades, indiciando um processo
que opera no mercado de habitação, de forma mais vincada e concreta nas habitações em estado de
degradação dos bairros tradicionalmente populares. Correspondendo à recomposição (e substituição)
social desses espaços – tradicionalmente da classe operária/popular – e à sua transformação em bair-
ros de classes média, média-alta – não se pode deixar de referir, por conhecimento deste processo de
“substituição social”, o reforço da segregação sócio-espacial, que na sua sequência parece aprofundar a
divisão social do espaço urbano (Smith e LeFaivre, 1984). Mendes, Luís. O contributo de Neil Smith para
uma geografia crítica da gentrificação. e-metropolis- Revista eletrônica de estudos urbanos e regio-
nais. Rio de Janeiro. nº 01, ano 1,maio de 2010. Disponível em: <http://www.emetropolis.net/edicoes/
n01_mai2010/e-metropolis_n01_artigo2.pdf>. Acesso em 11 jun. de 2012.

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considerar o processo de individualização que marca a evolução da nossa sociedade”, e,


portanto, serem considerados caso a caso.

Neste trabalho, usamos o pressuposto de que certas intervenções urbanas podem


ter grande valor para a comunidade desde que envolva a participação de setores repre-
sentativos da sociedade, gerando a criação de soluções inclusivas. Assim, estruturamos
esta dissertação em cinco capítulos:

O primeiro capítulo apresentará um panorama das transformações pelas quais os


espaços públicos passaram, considerando especialmente as definições que os caracteri-
zam e as relações sociais neles representadas. Não temos a pretensão de querer esgotar
a discussão sobre os conceitos que buscam explicar como as relações sociais particulari-
zam os lugares e os tornam expressões de épocas e condições vividas pela humanidade.
Passamos, então, às características físicas que absorveram essas transformações e ten-
tamos reduzir as tipologias dos espaços livres públicos urbanos, até conceituar a praça
objeto deste estudo.

Como este trabalho tem como eixo a parceria público-privada na criação e gestão
do espaço público, o segundo capítulo tratará do tema observando como esse tipo de
PPP é trabalhado primeiro trazendo as experiências internacionais que aqui tiveram foco
na cidade de Nova Iorque, nos Estados Unidos, escolhida por tratar a criação e gestão
do espaço público de maneira distinta, porém com grande importância para a qualidade
de vida urbana. Em seguida, no mesmo capítulo apresentaremos um painel com algu-
mas outras iniciativas de PPP em espaços públicos de São Paulo, pois observamos que a
parceria com o poder público tem se materializado não só por meio de grandes projetos
como a Praça Victor Civita, mas também de pequenas ações que partem da sociedade,
representada pela comunidade local em busca de um espaço público aproveitável.

Tendo, desse modo, definido conceitos e exposto outras experiências, o terceiro ca-
pítulo focaliza o objeto de estudo e compartilha os levantamentos, análises e depoimen-
tos que traduzem o processo de criação, projeto e implementação da Praça Victor Civita,
relacionando a pré-existência da área com seu uso atual, relatando como foi o papel dos
diversos atores que compuseram e compõem a história desse espaço.

O quarto capítulo traz elementos de análises do projeto executado, cotejando o


resultado com os fundamentos que observam o que é um bom espaço público e consi-
derando os desafios técnicos trazidos pela configuração da área.

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Tendo em vista que o planejamento e projeto foram pontos fundamentais para a


recuperação da área, o quinto capítulo pretende analisar a gestão e os resultados alcan-
çados por meio da implantação da praça.

Por último, as considerações finais fazem um balanço do estudo, partindo dos obje-
tivos e chegando às respostas do que foi proposto. Concluímos, assim, a partir de nossa
linha de argumentação, que a parceria público-privada, na produção do espaço urbano,
é uma realidade presente na cidade contemporânea, onde, tanto o setor privado, quanto
a sociedade civil, representada pelos seus moradores - organizados ou não em asso-
ciações de movimento de bairro - participam cada vez mais da construção do espaço
público por meio de ações de cooperação.

Resta-nos convidarmos o leitor a perseguir a trajetória estabelecida neste trabalho,


com a esperança de que os espaços públicos se tornem cada vez mais objeto de afeto da
sociedade, à medida que os resultados da participação popular no processo sejam vistos
como forma de ampliar a qualidade das relações mantidas com a cidade e com a praça.

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1. As transformações do espaço público

O
espaço público figura como base importante da expressão popular; elemento
urbanístico que, ora é exaltado pelo poder público na medida em que a criação
de alguns deles passa a ser meta de determinadas administrações, ora é apro-
priado pela iniciativa privada, que alavanca empreendimentos imobiliários publicizando a
criação de áreas que, nem sempre, são de fato abertas ao público.

Nesses espaços é que, muitas vezes, precebemos as reais transformações da so-


ciedade; não apenas as características urbanas das cidades, mas as transformações de
comportamento, que se revelam de forma direta no momento em que esses espaços
tornam-se palco e lugar para manifestações e trocas necessárias para a construção das
identidades urbana e social. Segundo Ascher (2010, p.20), essas transformações absor-
vidas pelas cidades que são impulsionadas pelas forças e relações sociais: “As formas
das cidades, sejam projetadas, sejam resultantes mais ou menos espontaneamente de
dinâmicas diversas, cristalizam e refletem as lógicas das sociedades que as acolhem”. Isso
pode ser interpretado como sendo a vontade – ou necessidade – da sociedade interfe-
rindo diretamente na formação das políticas que regem a formação do espaço.

Nesse contexto, este capítulo pretende conceituar o que entendemos por espaço
público e, a partir de sua definição, relacioná-lo com o objeto deste estudo.

1.1 Conceitos e Definições: o que é o


espaço público contemporâneo?
Antes de tudo e, pela gama de definições que se aplicam ao tema, será proposta a
escolha dos conceitos mais usados para tratar os espaços públicos de forma a caracte-
rizá-lo. Para isso, selecionamos alguns autores que tratam desse assunto como: Hannah
Arendt, Jürgen Habermas, Fançois Ascher, Milton Santos, Edward Soja, e outros que se
basearam nesses autores para formular suas pesquisas.

Dentro do quadro referencial teórico proposto, muitos autores têm retornado aos
conceitos fundamentais que caracterizam a esfera pública, privada e social cunhados
por Arendt e Habermas. Essas revisões bibliográficas buscam na filosofia e nas ciências
políticas esclarecer determinadas questões que constroem o que entendemos hoje por
espaço público.

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Neste trabalho, não poderia ser diferente, pois a discussão sobre o que é esse es-
paço nos fornece a base teórica necessária para avaliar em qual contexto a Praça Victor
Civita está inserida e, outrossim, para classificá-la como um equipamento urbano que
serve ao público.

Insere-se no contexto do espaço público construído através da parceria


público-privada, a discussão das diferenças entre o que é público e o que é privado. Sa-
bemos que o espaço está em constante transformação e, para classificá-lo como público,
necessitamos entender como a dialética entre o público e o privado se dá em nossa so-
ciedade, com suas apropriações, esvaziamentos, individualismos e coletividade.

Como observou Arendt (2007), após a Segunda Guerra Mundial, a esfera pública
entra em decadência, sendo substituída pelo que Habermas (1984, apud CUSTÓDIO et
al., 2011) chama de esfera social, caracterizada basicamente pelas novas relações de mer-
cado (CUSTÓDIO et al., 2011, p. 5). Sendo assim, é pertinente utilizar a proposição feita
por Ascher (2010, p. 18) ao colocar que o novo urbanismo, ou neourbanismo, é pautado
nas mutações das sociedades que implicam em “necessárias transformações na concep-
ção, produção e gestão das cidades e do território”.

Assim como o urbanismo moderno atribuía ao público tudo aquilo que era exter-
no, ou seja, o espaço externo, as grandes infraestruturas e os espaços de uso coletivo,
o neourbanismo deve compreender que a individualização é o sentido no qual nossa
sociedade tem se desenvolvido e, portanto, a noção de público deve também considerar
essa característica para seu entendimento.

Essas transformações sofridas na nossa sociedade e, por extensão, no espaço, foram


ressaltadas por Milton Santos (2012) para o entendimento da lógica imposta pela forma e
conteúdo do espaço. Em seus estudos, foi possível reconhecer a sinergia entre o espaço
geográfico e o espaço social, formando um só espaço, “o local e a localização”, onde, quan-
do o primeiro é entendido como objeto em um lugar, o segundo está em constante movi-
mento, impulsionado pelas forças sociais que o transformam. Nesse sentido, Santos (2012,
p. 13) afirma: “[...] cada lugar está sempre mudando de significação, graças ao movimento
social: a cada instante as frações da sociedade que lhe cabem não são mais as mesmas”.

Esse entendimento vai além das transformações urbanas, caracterizando a própria


evolução social ao longo dos séculos, desde o conceito de privado como aquilo que é
intimo, sem interferência externa (LAVALLE, 2005), até o que entendemos por público

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como tudo aquilo que é divulgado, visto e ouvido por todos (ARENDT, 2007).. Vejamos
nas citações abaixo os seguintes apontamentos:

[...] tem como público tudo aquilo que é aberto, acessível, ou seja, que
não há restrições quanto à entrada e/ou circulação. [...]. Tem como
privado tudo aquilo que pode ser considerado próprio da intimidade
ou que é restrito ao mundo familiar. Temos então o espaço público
como o oposto à privacidade, associando dicotomias como: casa x
rua, conhecimento x estranho, fechado x aberto, segurança x perigo.
(LAVALLE, 2005 apud CÂNDIDO, 2008, p.19).
O termo “público” para Arendt (1999) nos remete a dois fenômenos
que se relacionam, mas não são idênticos. O primeiro refere-se à apa-
rência, ou seja, a tudo o que pode ser visto e ouvido por todos, sendo
esta a característica que dá realidade ao mundo em que vivemos e à
nossa própria existência. O segundo significa o mundo que é comum
a todos nós, o mundo do artefato humano, ou seja, que é produzido e
negociado pelas mãos humanas (ARENDT, 1999 apud CÂNDIDO, 2008,
p. 21).

Freire (2006, p. 78) sintetiza com precisão as diferenças entre o público e o privado:

Dentro do republicanismo, o privado é aquilo que está afeito e dentro


do âmbito da particularidade dos indivíduos, o que de forma alguma
exclui sua função pública, uma vez que as particularidades se entre-
cruzam na existência social e se imbricam na construção da sociedade;
eis uma das peculiaridades que o republicanismo nos brindou. A pro-
priedade privada não é um lugar onde se pode exercer um domínio
ilimitado, mas o contorno de uma extensão sob o cuidado de particu-
lares. Antes de ser uma ampliação da liberdade, é uma limitação, uma
privação.
O público é aquilo que está afeito e dentro do âmbito da comunidade
cívica dos cidadãos, o que é comum, que expande e potencializa as
particularidades numa totalidade maior, podendo ser uma cidade, uma
nação ou um país. É mais do que a soma das individualidades, pois daí
se teria apenas uma multidão ou uma extensão territorial: não é uma
mera soma aritmética, mas uma fusão que resulta em força moral e
cultural, que forma uma identidade nacional.

No entanto, a noção do que é público não estará completa se não discutirmos a


diferença entre público e Estatal.

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Segundo o Dicionário Houaiss (2004) Estatal é aquilo “relativo ou pertencente ao


Estado (‘país soberano’)”, sendo formado por alguns elementos básicos que podem di-
vergir em identificação e número dependendo do autor (DALLARI, 2013). Para o nosso
estudo, trabalharemos com a teoria de que o Estado é caracterizado por três elementos:
o povo, o território e a figura estatal - governo -, que exerce soberania sobre os outros
dois elementos. (DONATO DONATI apud DALLARI, 2013, p. 79).

É essa soberania Estatal que está relacionada à produção do espaço público con-
temporâneo, à medida que este é construído sobre as permissões e regras do Estado.
Para Laband (apud DALLARI, 2013, p. 93), a soberania do Estado é traduzida como seu
poder sobre o território, atuando como seu proprietário, podendo usá-lo e disponibilizá
-lo com poder absoluto e exclusivo (DALLARI, 2013), esclarecendo que aqui não estamos
tratando de propriedades privadas.

É verdade que o Estatal é entendido como público e, portanto,opões-se ao privado,


no entanto, tem função clara no desenvolvimento social e econômico em uma República
como nos mostra Freire (2006, p. 77):

[...] o privado não se contrapõe ao público, pelo contrário, desde que se


constitua a res publica, o privado adquire (ou deve adquirir) uma fun-
ção social relevante (além de permitir o bem particular, é claro), e tem
a função de possibilitar o desenvolvimento social ou público, ou seja,
visa o bem comum: não há necessariamente conflito entre os interesses
particulares e os interesses públicos, e o desenvolvimento dos cidadãos
particulares é também o desenvolvimento da República. O valor ético
dos interesses depende apenas do uso que se faça dos instrumentos
para obtê-lo.

A Praça Victor Civita, mesmo tendo sido concebida, implantada e gerida através da
parceria com a iniciativa privada, faz parte do território pertencente ao Estado. Também é
importante ressaltar que o que é Estatal é, em princípio, público; todavia, o que é público
pode não ser Estatal, se não faz parte do aparato do Estado (BRESSER-PEREIRA; GRAU,
1999, p. 17). Revendo os conceitos sobre o que é público podemos extrapolar essa teoria
para a construção do entendimento do que seria o espaço público.

Como podemos, então, definir o que é o espaço público na cidade contemporâ-


nea? Ainda que se fale muito no espaço público, como lócus de convivência e de troca,
é necessário inserir esse espaço na cidade contemporânea, que traz para o cotidiano as

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características da pós-modernidade, advinda do modo moderno de se construir a cidade.


Esse espaço, portanto, está carregado de signos que transmitem os elementos-chave da
sociedade quando explicitam as relações em rede, a substituição da indústria pelos ser-
viços, o fim do planejamento central, as operações urbanas etc.

É sobre essa nova sociedade, interconectada através de redes, que Ascher (2010,
p. 45) comenta, trazendo a solidariedade como elemento essencial para a discussão da
construção da cidade contemporânea:

[a estrutura social de redes] funda uma nova solidariedade[...] uma so-


lidariedade “comutativa”, que relaciona pessoas e organizações perten-
centes a uma multiplicidade de redes interconectadas. O desafio para a
democracia consiste então em transformar essa solidariedade ”reflexi-
va”, ou seja, uma consciência de pertencimento a sistemas de interesse
coletivo.

E essa sociedade dinâmica, ligada por redes, não se fecha para a cidade, pelo con-
trário, através da comunicação mais rápida, é capaz de se mobilizar e avaliar melhor o es-
paço que a ela é oferecido. Vejamos o que Ascher (2010, p. 67) tem a nos dizer sobre isso:

A terceira revolução urbana não gera, portanto, uma cidade virtual, imó-
vel e introvertida, mas sim uma cidade que se move e se telecomunica,
constituída de novas decisões de deslocamento das pessoas, bens e in-
formações, animada pelos eventos que exigem a copresença, e na qual
a qualidade dos lugares mobilizará todos os sentidos, inclusive o toque,
o gosto, o cheiro.

Voltando ao neourbanismo de Ascher (2010, p. 84), que está aqui entendido como
uma forma cunhada pelo autor para denominar a sociedade na cidade contemporânea,
temos que esta:

[...] privilegia os objetivos, os resultados a ser obtidos, e incentiva os


atores públicos e privados a encontrar modalidades de realização des-
ses objetivos, os mais eficientes para a coletividade e para o conjunto
de agentes.

Portanto, além da coletividade ligada por meio de redes, a velocidade das trans-
formações e os signos citados anteriormente refletem a fragmentação e a ideia de co-
lagem que a pós-modernidade trouxe com o rompimento do moderno que “privilegia

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as soluções permanentes, coletivas e homogêneas, a fim de responder às demandas da


habitação, do urbanismo, do transporte, do lazer, do comércio.” (Ascher 2010, p. 87).

Nesse sentido, o espaço público da cidade contemporânea acaba por absorver


essas características e pode até passar a ser efêmero, de pouca duração; o espaço urba-
no já não é mais projetado para ser eterno e sim para ser transformado à medida que a
sociedade assim desejar.

Vejamos o que diz Harvey (2012, p. 69) sobre a cidade pós-moderna:

Como é impossível comandar a metrópole exceto aos pedaços, o projeto


urbano [...] deseja somente ser sensível às tradições vernáculas, às his-
tórias locais, aos desejos, necessidades e fantasias particulares, gerando
formas arquitetônicas especializadas, e até altamente sob medida, que
podem variar dos espaços íntimos e personalizados ao esplendor do es-
petáculo, passando pela monumentalidade tradicional.

E completa comparando a fase anterior, modernista, com a atual:

Enquanto os modernistas veem o espaço como algo a ser moldado para


propósitos sociais e, portanto, sempre subserviente à construção de um
projeto social, os pós-modernistas o veem como uma coisa indepen-
dente e autônoma a ser moldada segundo objetivos e princípios estéti-
cos que não têm necessariamente nenhuma relação com algum objetivo
social abrangente, salvo, talvez, a consecução da intemporalidade e da
beleza “desinteressada” como fins em si mesmas. (ibid., p. 69).

Para Borja (1998), uma forma de entender as transformações sofridas pela cidade
é justamente analisando o espaço público, uma vez que sua importância na questão
das novas dinâmicas urbanas torna sua concepção um desafio a ser vencido. Essa “nova
realidade urbana” é traduzida pelo autor por meio do binômio mobilidade-centralidade
como nos mostra a seguir:

Estamos convencidos que a dialética mobilidade-centralidade é uma


questão chave do urbanismo moderno. E que a concepção dos es-
paços públicos é, por sua vez, um fator decisivo, embora não seja o
único [...]. (tradução nossa).

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Dentro do urbanismo moderno, ao qual se refere Borja (1998), o espaço público,


como território a ser regulamentado pelo Estado, passa a ter um caráter jurídico e é por
meio deste que ele o define:

O espaço público é um conceito jurídico: um espaço submetido a uma


regulação específica por parte da administração pública, proprietária e
que possui a faculdade de domínio do solo, que garanta a acessibilidade
a todos e que fixe as condições de sua utilização e sua instalação de ati-
vidades (tradução nossa).

Mas ainda devemos considerar o caráter sócio-cultural que também define o es-
paço público como vimos anteriormente; e é importante notar que o espaço público
pode, nem sempre, ter a demarcação judicial, já que algumas vezes espaços privados
abandonados podem ser apropriados pela comunidade, tranformando-os em locais para
recreação, como, por exemplo, os campos de futebol de várzea localizados em cidades
menores ou em bairros da periferia das metrópoles. Ou seja: “o que define a natureza do
espaço público é o uso e não o estatuto jurídico” (BORJA, 1998).

Abrahão (2008, p. 45) quando discute o entendimento de Borja sobre o espaço


público esclarece:

Há, em Jordi Borja, forte convicção de que o espaço público é um ins-


trumento urbanístico fundamental para o resgate da cidade democrática
contemporânea, seriamente ameaçada pela dissolução, fragmentação e
privatização dos seus espaços.

Com base nessas referências, podemos concluir até aqui que o espaço público se
define como o espaço onde a sociedade se manifesta publicamente, onde se dá a troca
das relações interpessoais e onde podemos exercer e notar as transformações sociais de
cada tempo.

Com a ascensão da classe média urbana, no século XX, e, a partir disso, a crescente
necessidade de aquisição de bens de consumo, as pessoas passam a ter de encontrar um
espaço onde seria possível exibir o status conquistado. O espaço público passa ser, então,
o espaço de quem consome: o consumo da cultura, da ação e do estilo. Nas palavras de
Custódio et al. (2011):

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A cidade passa então a ser tida como lócus de um grande espetá-


culo, onde são considerados importantes os “espaços” para ver e
ser visto, os “espaços” de vitrine e pretensa transparência (VIRILIO,
2005:24)4; onde o consumo da forma, da função e dos conteúdos pro-
gramados (ideológicos-simbólicos) se alimenta das incertezas do mun-
do globalizado, a um só tempo, sucateador e reforçador de identidades
e procedimentos.

Mas é nesse espaço de consumo e consumível que é exercida a construção da


cidadania e que, apesar da sua quase substituição pelos shoppings centers, ainda são
utilizados pela população (CUSTÓDIO et al., 2011, p. 8).

Cabe aqui questionar até que ponto a vida contemporânea tem atraído ou esva-
ziado o espaço público urbano. O Arquiteto Michael Brill (1989, apud ABRAHÃO, 2008,
p. 146), discorrendo sobre a vida pública na sociedade americana, a definiu como o lócus
das principais trocas sociais, apontando que seu esvaziamento havia ocorrido pela perda
dos limites entre o público e o privado e pelas leis de zoneamento nas cidades norte-a-
mericanas, que desagregavam a vida comunitária e, consequentemente, limitavam as
trocas sociais da vida pública.

No entanto, mesmo que importantes autores tenham estudado e apontado o esva-


ziamento do espaço público, ele ainda continua sendo o lugar das trocas e das interações
sociais encerrando a vida pública e a construção da cidadania, à medida que também
dita as regras de convivência da sociedade. Nesse sentido, o espaço público pode ser o
“mundo subjetivo das vivências e das emoções”, além de ser o local do exercício da “di-
versidade e conscientização” (QUEIROGA, 2001, p. 214-215).

O espaço abstrato é materializado pelas relações sociais; são elas que dão vida, mo-
vimento e sentimento, tornando-o conteúdo e natureza, forma e lugar. Assim, podemos
entender que é nesse lugar que se reproduz a vida cotidiana como nos mostra Carlos
(2001, p. 35):

O Lugar é, assim, a porção do espaço apropriável para a vida, revelando


o plano da microescala: o bairro, a praça, a rua, o pequeno e restrito
comércio que pipoca na metrópole, aproximando seus moradores, que

4 VIRILIO, P. (2005:24) escreve: “A transparência torna-se evidente, uma evidência que reorganiza a apa-
rência e a medida do mundo sensível e, portanto, muito em breve, sua figura, sua forma-imagem”
(apud CUSTÓDIO et al., 2011, p. 6).

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podem ser mais do que pontos de troca de mercadoria, pois criam pos-
sibilidades de encontro e guardam uma significação como elementos de
sociabilidade.

Para Santos (2012, p. 322), é no lugar que os códigos racionais traduzidos por “ações
condicionadas” se manifestam e vão além da sociabilização da vida cotidiana, passando
para um campo onde emoções e criatividade se evidenciam construindo a personalidade
de cada sociedade:

No lugar – um cotidiano compartido entre as mais diversas pessoas,


firmas e instituições – cooperação e conflito são a base da vida em
comum. Porque cada um exerce uma ação própria, a vida social se in-
dividualiza; e porque a contiguidade é criadora da comunhão, a politica
se territorializa, com o confronto entre organização e espontaneidade.
O lugar é o quadro de uma referência pragmática ao mundo, do qual
lhe vêm solicitações e ordens precisas de ações condicionadas, mas
é também o teatro insubstituível das paixões humanas, responsáveis,
por meio da ação comunicativa, pelas mais diversas manifestações da
espontaneidade e da criatividade.

No entanto, é necessário ressaltar que os conceitos de espaço que queremos


aqui apresentar estão relacionados ao espaço físico-social, o qual classificamos como
espaço público. Esse espaço não se configura apenas no espaço per se, mas, como
já visto antes, em palco para as diversas transformações e experiências sociais, como
nos mostra Soja (1993, p. 101): “O espaço em si pode ser primordialmente dado, mas a
organização e o sentido do espaço são produto da translação, da transformação e das
experiências sociais”.

Além disso, não podemos deixar de destacar a relação que este espaço tem com a
cultura e a natureza, o que Castells chamou de “debate sobre a teoria do espaço” (1977,
apud SOJA, 1993, p. 106). Essa construção do lócus como espaço para as interações
sociais também leva em consideração fatores determinantes como, esses apresenta-
dos por Castells; desse modo podemos compreender o espaço como a conjunção
de elementos que se somam para formar uma estrutura sócio espacial necessária à
comunidade.

Vejamos o que diz Santos (1996, apud QUEIROGA, 2001, p. 43) a respeito da relação
espaço-paisagem e espaço-conteúdo:

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“[...] o espaço é um misto, um híbrido, um composto de formas-conte-


údo” (1996, p. 35). “A forma e o conteúdo somente existem separada-
mente como ‘verdades parciais’, abstrações que somente reencontram
seu valor quando vistos em conjunto” conforme R. Ledrut (1984, p. 38)
citado por Milton Santos (1996, p. 80).

Esses conceitos dominantes da pesquisa, público, Estatal e espaço, pretendem en-


cerrar a ideia do espaço público propriamente dito, também denominado por Espaços
Livres Públicos, conforme Magnoli (1982, apud CUSTÓDIO et al., 2011, p. 3) conceitua: “O
Espaço Livre é todo espaço não ocupado por um volume edificado (espaço-solo, espaço
-água, espaço-luz) ao redor das edificações e que as pessoas têm acesso”.

Sem querer esgotar os diversos conceitos de espaço e, muito menos, sem a preten-
são de analisá-lo quanto à sua produção, este trabalho aborda o espaço como lócus da
complexidade das relações humanas que nos incita a pesquisar o que é um bom espaço
público para que essas relações se deem de modo a manter a fruição das cidades. Para
Lefebvre (1975, p. 223 apud CARLOS, 2001, p.42):

No espaço se encontram a brecha objetiva (socioeconômica) e a brecha


subjetiva (poética). No espaço se inscrevem e ainda mais, se “realizam”
as diferenças, da menor à extrema. Desigualmente iluminado, desigual-
mente acessível, cheio de obstáculos, obstáculo ele mesmo diante de
iniciativas, modelado por eles, o espaço torna-se o lugar e o meio das
diferenças [...]. Obra e produto da espécie humana, o espaço sai da som-
bra, como um planeta em eclipse.

Portanto, o espaço só se tornará público se nele houver a troca entre as pessoas,


relações interpessoais que, mesmo quando desconhecidas entre si, compartilham e,
portanto, trocam a vivência e a experiência de estarem num mesmo lugar. Para Gomes
(apud ALEX, 2008, p. 19), “os atributos de um espaço público são aqueles que têm re-
lação com a vida pública [...] E, para que esse “lugar” opere uma atividade pública, é
necessário que se estabeleça, em primeiro lugar, uma copresença de indivíduos”.

Entretanto, devemos ainda questionar se essa vida pública, repleta de diversidade e


de trocas cabe em nosso modelo cultural. Essa discussão veio à tona nos Estados Unidos
na década de 1960 quando - impulsionados pelos valores discutidos por Jane Jacobs em
seu livro Morte e Vida de Grandes Cidades, que critica o modelo de vida pública que

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estava sendo construído na maioria das grandes cidades americanas, o urbanismo busca
um retorno aos valores da vida pública exercida em seus espaços livres.

O arquiteto Michael Brill (1989 apud ALEX, 2008, p. 20) foi um dos que chamou a
atenção para o fato dessa tentativa de resgatar algo que nunca existiu, visto que a socie-
dade americana nunca exerceu a vida pública como a praticada nos moldes europeus e,
portanto, seria incapaz de vivenciá-la da forma como estavam idealizando os urbanistas
daquela época. Alex (2008, p. 20) comenta o pensamento de Brill:

Para Brill, essa nostalgia tornou-se uma ideologia de projeto, para a qual
o espaço público “tradicional” traria automaticamente de volta aquela
“antiga vida pública perdida”, que provavelmente nunca existiu dessa
forma nos Estados Unidos. O autor afirma que, no contexto america-
no, pautado pela segmentação, pluralismo e estratificação da sociedade,
não há lugar para uma vida pública diversificada, democrática e sem
distinção de classes.

De fato, como ressalta Brill, as sociedades vivenciam o espaço público conforme sua
cultura e seus costumes; no entanto, é senso comum que este espaço é o lócus da cidade
acessível a todos, capaz de exibir as transformações da sociedade, que, individual ou co-
letivamente, exerce as trocas interpessoais e se manifesta publicamente. Esse espaço, por
seu caráter público, contém as relações humanas e para elas deve ser construído.

O espaço público é, então, definido como palco dos acontecimentos das manifesta-
ções urbanas, coletivas ou individuais, local que pode ser de passagem ou permanência,
de encontro ou de contemplação, sempre estruturante e vinculador da vida urbana.

O espaço público em seus tipos, características e diferenças que podem ser encon-
trados na cidade contemporânea é o que veremos a seguir.

1.2 Tipologias que caracterizam o espaço público


Na arquitetura, a tipologia pode ser entendida, não como um modelo a ser segui-
do, e sim como uma ideia que carrega em si símbolos nem sempre explicitamente histó-
ricos, sendo resultado da soma de referências existentes em torno de um mesmo tema.

Argan (2008, p. 268) coloca que “a criação de um “tipo” depende da existência de


uma série de construções que tenham entre si uma evidente analogia formal e funcional.”
É com essa referência que traremos para este estudo um apanhado das tipologias que

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encerram o espaço público, tal qual nós o conhecemos, a fim de caracterizarmos nosso
objeto de estudo dentro desse espectro.

Como já mencionado no item anterior, o Espaço Livre (EL) apresenta várias tipolo-
gias que contemplam ruas, calçadas, avenidas, calçadões, jardins, matas, parques, pátios,
praças, quintais, rios, vazios urbanos e outros (CUSTÓDIO et al., 2011, p. 3). Os ELs ur-
banos podem ser de natureza, pública ou privada, e, neste trabalho, trataremos dos ELs
públicos considerando aqueles que são acessíveis a todos. Alex (2008, p. 19) considera
que a palavra “público” deve ser empregada para determinar locais “abertos e acessíveis,
sem exceção, a todas as pessoas”.

Os espaços livres públicos assumem várias formas e ocupam diversos lugares na


cidade, moldando-se e refletindo as transformações e dinâmicas da sociedade. Nesse
sentido, os ELs urbanos podem ser enquadrados em três tipos-padrão (CUSTÓDIO et al.,
2011, p. 4): o primeiro pode ser entendido como aquele de circulação, convívio e lazer,
como por exemplo, as calçadas, parques, praças e ciclovias.

O segundo tipo de ELs é o de preservação e conservação ambiental. Esses espaços


são determinados por meio de legislação e se caracterizam por formações como encos-
tas, dunas, mangues, rios e matas. Por último, um terceiro tipo é proposto, onde podem
ser enquadrados os espaços destinados às infraestruturas, como por exemplo, estações
de tratamento de água e esgoto, cemitérios, estações de metrô, aterros sanitários etc.
(CUSTÓDIO et al., 2011).

Esses espaços representam diversos papéis na sociedade, sendo usados para a ex-
pressão humana, para atividades de lazer, contemplação, circulação, preservação am-
biental e drenagem, além de poderem ser vistos como patrimônio que constituem a
identidade social de uma comunidade (MACEDO, CUSTÓDIO et al. 2009, p.5 apud CUS-
TÓDIO et al., 2011, p. 3).

Dentre os ELs públicos urbanos, as praças e parques são os tipos mais comuns
no Brasil (MACEDO, 1999, CUSTÓDIO et al., 2011, p. 10). Entretanto, os parques exercem
maior atração à população, principalmente aos finais de semana, mesmo havendo praças
com boa manutenção nos bairros residenciais (CUSTÓDIO et al., 2011, p. 11).

Além de classificarmos os espaços livres por meio de seus tipos, podemos, ainda,
agrupá-los através de seus subtipos e caracterização (CUSTÓDIO et al., 2011). Dentro des-
sa classificação, são levantadas diversas categorias de espaços livres, como por exemplo,

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de caráter ambiental, de circulação e seus associados e particulares. Definido o tipo, esses


podem ser desdobrados em subtipos que especificam seu uso determinado, possibilitan-
do a redução que nos ajuda a compreender e classificar melhor o espaço público que
estamos estudando.

Para este estudo, considerando a classificação proposta por Custódio et al. (2011),
podemos definir que, dentre os ELs elencados, o Espaço Livre de práticas sociais melhor
representa nosso objeto, uma vez que, seu subtipo – praça, contém elementos que a ca-
racterizam como um espaço para desenvolvimento de atividades contemplativas, recre-
ativas, mistas (lazer, cultura, esporte), de conservação e até memorial, já que uma parte
do patrimônio histórico da cidade foi conservado. O anexo A – Tipos de Espaços Livres
apresenta essas classificações em sua completude.

Outros autores também classificaram esses espaços; Lima (Org, 1994 apud LOBO-
DA; DE ANGELIS, 2005) conceitua essas áreas com termos como espaço livre, que é um
conceito mais abrangente, pois integra outros espaços e se diferencia daqueles ocupados
por construções dentro da área urbana. Áreas verdes é um termo que também figura
nas proposições de Lima5 e caracteriza espaços com predomínio de vegetação como nas
praças, parques, jardins públicos, canteiros centrais, rotatórias etc. Em contrapartida, o
parque urbano tem uma função ecológica preponderante, além de integrar atividades de
lazer e estética e é diferenciado das outras áreas pela sua dimensão.

Podemos dar destaque ao que Lima6 define como praça, pois sua definição a ca-
racteriza como área cuja principal função é o lazer e, mesmo não sendo permeável pela
presença de área verde, pode ter a função de contemplação e convivência.

A denominação que Llardent (1982, p. 151 apud LOBODA; DE ANGELIS, 2005) usa
para essas áreas está resumida em três dimensões, onde a primeira é um sistema de
espaços livres que engloba o espaço livre caracterizado por áreas verdes livres de edifi-
cações e que, por sua vez, integra as “zonas verdes”, cujas áreas com predominância de
vegetação correspondem ao que se denomina como parques, praças e jardins.

5 (LIMA, org., 1994 apud LOBODA, Carlos Roberto; DE ANGELIS, Bruno Luiz Domingos. Áreas verdes pú-
blicas urbanas: conceitos, usos e funções. Ambiência, Guarapuava, PR v.1 n.1 p. 125-139 jan./jun. 2005.
Disponível em: <http://www.unicentro.br/EDITORA/REVISTAS/AMBIENCIA/v1n1/artigo%20125-139_.
pdf>. Acesso em: 07 mai. 2012
6 Ibid.

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31

Alex (2008) define a praça “não apenas como um espaço físico aberto, mas também
como um centro social integrado ao tecido urbano” e ainda cita Kevin Lynch (1981, apud
ALEX, 2008, p. 23) para evidenciar sua argumentação:

The square ou plaza. Este é um modelo diferente de espaço aberto ur-


bano, tomado fundamentalmente das cidades históricas europeias. A
plaza pretende ser um foco de atividades no coração de alguma área
“intensamente” urbana. Tipicamente, ela será pavimentada e definida por
edificações de alta densidade e circundada por ruas ou em contato com
elas. Ela contém elementos que atraem grupos de pessoas e facilitam
encontros: fontes, bancos, abrigos e coisas parecidas. A vegetação pode
ou não ser proeminente. A piazza italiana é o tipo mais comum. Em al-
gumas cidades americanas em que a densidade das pessoas nas ruas é
alta o suficiente, essa forma tem-se sucedido elegantemente. Em outros
lugares, essas plazas emprestadas podem ser melancólicas e vazias.

Alguns autores, no entanto, definem a praça considerando sua forma preponderan-


te ao seu viés social, como por exemplo Claire Cooper-Marcus e Carolyn Francis (1990,
apud ALEX, 2008, p. 24) que consideram a praça como “[...] uma área pavimentada do
espaço externo de onde os carros são excluídos. [...] a superfície predominante é a pavi-
mentada [hard surfasse] e, se a área plantada exceder a superfície pavimentada, deve-se
defini-la como park”.

No Brasil, dentro de um contexto de sucessivas mutações sociais, podemos dizer que


as praças acompanharam essas transformações. Depois de ter passado por um período em
que desempenhou a função de elo entre a comunidade e a Paróquia da cidade colonial
brasileira, além de na segunda metade do século XIX, passar a ser objeto de projetos com
foco no paisagismo, em 1920 os parques e praças nacionais passam a ser uma opção de
lazer, tendo não mais somente a função contemplativa (ROBBA; MACEDO, 2010).

Embora a formação cultural do espaço tenha surgido e se transformado ao longo


do tempo, sua inspiração de forma sempre foi europeia, principalmente no momento do
ecletismo, em que se buscava um padrão europeu que nunca foi alcançado por falta de
investimento. Essa situação fez surgir o que Queiroga (2001, p. 60) classifica como “pra-
ças-jardim” e “praças-ajardinadas”.

É certo que se almejava o jardim e o passeio público europeu, mas


o fato é que, diante do quadro local de urbanização incipiente e

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expatriação estrutural de recursos, se criaram alguns poucos jardins, so-


bretudo nas maiores cidades de então, e muito mais “praças-jardim” e
“praças-ajardinadas”.

No entanto, a função da praça se diversifica no país, tornando-a um espaço público


necessário, como lembra Bartalini (2007, p. 1):

As praças também nasceram de necessidades: de espaço para abrigar as


atividades de troca e para a tomada de decisões coletivas; de endereço
para os encontros7, para as festividades, de um símbolo para a comuni-
dade, enfim, de um “centro” facilmente acessível para a realização das
mais variadas funções.

Sendo assim, as classificações feitas por Queiroga (2001) apresentam diferenças.


Para ele, a “praça-ajardinada” é o que chamamos de praça e a “praça-jardim” é um híbri-
do de praça e jardim que, por ser demasiadamente ajardinada, não oferece lugares onde
o público possa se expressar, desfavorecendo as aglomerações de pessoas, elemento
essencial que caracteriza uma praça. Como exemplo de praça-jardim Queiroga (2001, p.
60) cita a Praça Buenos Aires8, no bairro de Higienópolis em São Paulo. Na “praça-jardim”,
a atividade pública torna-se “enfraquecida diante do conceito de praça e das potenciali-
dades de ações da esfera da vida pública”.

Derivando a “praça-ajardinada” e dividindo o espaço entre ajardinado e pavimen-


tado como elementos de diferenciação entre as tipologias mais encontradas no Brasil,
ainda temos dentre essas duas tipologias, a que chamamos de parque. O parque, no en-
tanto, possui características específicas que propiciam mais o lazer e o paisagismo do que
propriamente a concentração e interação pública. Vejamos como se dá essa distinção:

As praças ajardinadas distinguem-se dos parques pois nestes, o sistema


de ações e objetos privilegia, em essência, o lazer, o passeio, a fruição da
paisagem, o descanso e a recreação e não o encontro e a manifestação
pública. A fragmentação em subespaços é mais intensa no parque que

7 Sobre os jardins públicos brasileiros, sobretudo do século XIX, cf. SEGAWA, Hugo. Ao amor do público:
jardins do Brasil. São Paulo: Studio Nobel: FAPESP, 1996, apud QUEIROGA, 2001, p. 60.
8 Classificada pela Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente como Parque Buenos Aires desde
1988. Disponível em: <http://www.prefeitura.sp.gov.br/cidade/secretarias/meio_ambiente/parques/
regiao_centrooeste/index.php?p=5732>. Acesso em 29 set. 2013.

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na praça, esta é, por excelência, voltada a co-presença, enquanto no


parque dá-se a dispersão mais que a reunião. (QUEIROGA, 2001, p. 61).

No Brasil, que apesar de ter sofrido influência europeia na constituição de suas pra-
ças, habituou-se a chamar de praça áreas verdes públicas arborizadas ou simplesmente
gramadas como, por exemplo, as rotatórias e canteiros centrais de avenidas nem sempre
acessíveis ao público devido ao tráfego e à falta de estrutura de lazer. Robba e Macedo
(2010, p.17) definem praças como: “espaços livres de edificação, públicos e urbanos, des-
tinados ao lazer e ao convívio da população, acessíveis aos cidadãos e livres de veículos”.

No entanto, ainda pode ser motivo de dúvida a distinção entre parque e praça.
Usualmente, no município de São Paulo, a implantação, manutenção e gestão dos
parques está sob responsabilidade da Secretaria Municipal do Verde e Meio Ambiente
e as praças sob responsabilidade das subprefeituras, possuindo elementos que os dis-
tinguem entre si.

Segundo Buzzo et al. (2012), as principais diferenças entre os parques e praças são
que os parques possuem cerca e horários de funcionamento, estruturas de apoio, como
banheiros e bebedouros, possui segurança terceirizada, sendo administrados por um con-
selho gestor, enquanto as praças, tendem a não ter gradeamento e ter acesso irrestrito.

Isso posto, podemos caracterizar a Praça Victor Civita, objeto de nosso estudo,
como um Espaço Livre público, de práticas sociais de uso misto: uma praça; entretan-
to, algumas de suas características a enquadram como um parque, como por exemplo,
ter horário de funcionamento determinado. Porém, a fundamental característica – estar
sob a responsabilidade da Subprefeitura de Pinheiros – a define como praça e assim a
classificaremos.

É evidente que, como veremos mais à frente, nem todos os elementos apontados
por Lynch (1981, apud ALEX, 2008) são encontrados na Praça Victor Civita, pois esta foi
criada em local onde antes funcionava outro equipamento urbano; no entanto o partido
adotado em seu projeto sugere o lazer e a convivência como principais âncoras do espa-
ço, caracterizando-a, portanto, como uma praça.

Podemos concluir que, como espaço livre público, a praça possui características con-
cretas – forma e espaço – e subjetivas – interações sociais e exercício da vida pública – ob-
tendo grande importância para a cidade e para as pessoas, e absorvendo as transforma-
ções sociais, econômicas e políticas ao longo da história. Portanto, a forma dos espaços

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Como vimos, dentro do espectro das tipologias apresentadas, a praça tem caracte-
rísticas específicas e formais que a definem como espaço público, voltado para a convi-
vência, exercida por meio das práticas sociais e de lazer, além de ser um espaço dotado
de certos elementos construtivos, como acesso, mobiliário, vegetação, água, sombra,
limpeza, segurança e recreação, que podem ser encontrados em bons projetos e repre-
sentam a forma contemporânea da praça.

Nos espaços públicos, percebemos as transformações urbanísticas e comporta-


mentais da sociedade. É a sociedade que interfere na formação de políticas que pautam a
formação do espaço. Dentro da lógica de público e privado, encontramos elementos te-
óricos capazes de nos fazer entender como um espaço pode ser definido como público.

Se o urbanismo moderno atribuía ao público o que era externo e de uso coletivo,


a sociedade contemporânea deve considerar o individualismo como uma nova forma de
olhar o público; e é o movimento social, inerente ao espaço, que transforma o entendi-
mento do que é público e do que é privado.

Daí, a noção de público e privado é importante para se pensar na função do espaço


público. O privado pode ser entendido como o que está na particularidade de uma pes-
soa, e o público, o que diz respeito à comunidade cívica. Mas mesmo que entendamos o
público e o privado como conceitos antagônicos, eles não se contrapõem entre si, pois o
privado também tem uma função social expressiva que visa o bem comum.

Na análise do espaço público, podemos entender as transformações na sociedade


que também repercutem na tipologia que encontramos para caracterizar esses lugares.
A natureza do espaço é definida pelo seu uso e absorve as diversas fases nas quais a vida
urbana se insere. É o caso dos diversos usos que o espaço agregou ou abandonou ao
longo da história, passando de lugar de troca e protesto para o de lazer e contemplação.

Dentro das tipologias estudadas, a Praça Victor Civita, apesar de não possuir todos
os elementos formais que caracterizam uma praça, encerra grande parte dos princípios
fundamentais que explicam uma praça em seu programa, concentrando atividades de
lazer, educativa e cultural. Podemos assim perceber que, em sua criação, o espaço deve
prever que as trocas e atividades pessoais devem acontecer livremente, mesmo havendo
regras que organizem a sociedade e o coletivo.

Podemos, então, definir o espaço público como aquele aberto e acessível a todos,
onde são exercidas as manifestações individuais ou coletivas capazes de transmitir e

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demonstrar as relações e transformações vividas pela sociedade. Esse espaço compreen-


de diversas tipologias, desde àquelas que garantem a circulação, como as calçadas, até
a praça, local de lazer e convívio social, que possui elementos específicos que a caracte-
rizam e que encerram as práticas sociais, de convívio e lazer, reflexos esses das transfor-
mações da sociedade.

Na cidade atual, a sociedade está conectada por redes que têm a solidariedade
como elemento indispensável para a discussão da construção do espaço público con-
temporâneo, visto como um espaço efêmero que se transforma à medida que a socieda-
de quer ou necessita.

A praça, mesmo tendo sofrido transformações em seu estilo, ainda permanece


como referencial de lazer, tranquilidade e qualidade de vida para a população. No entan-
to, apesar da responsabilidade que o poder público tem em fornecer espaços de qua-
lidade à população, nem sempre o planejamento financeiro municipal leva em conta a
necessidade desses espaços e, por terem orçamentos cada vez mais reduzidos, priorizam
outros setores da administração. Dentro desse quadro, surge a parceria público-privada
para a criação e manutenção de praças. Como se dá a parceria e como esse instrumento
tem sido usado em São Paulo e em outras cidades do mundo é o que veremos no pró-
ximo capítulo.

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2. A parceria público-privada na
construção do espaço público

C
ódigos e regulações de uso e ocupação do solo – mais precisamente leis que
autorizam os empreendimentos imobiliários a terem uma taxa de ocupação do
terreno maior que a permitida em uma determinada região, desde que estes des-
tinem parte de sua área a espaços livres com acesso ao público – oficializaram as PPPs
para a construção do espaço público. Mas a parceria público-privada não ficou só nessa
concessão de uso de área; hoje, muitas cidades do mundo têm transferido a construção
e manutenção de praças e outras áreas verdes municipais aos cuidados de empresas que,
em troca de publicidade, cuidam dessas áreas.

Essa condição, em que o poder público partilha com a iniciativa privada – e muitas
vezes com a população, os cuidados na manutenção da cidade, não é novidade. Nos
Estados Unidos, desde a década de 1960, são feitas parcerias, que nem sempre são bem
vistas pela sociedade, mas que refletem a forma da cidade contemporânea que podemos
entender como esforços conjuntos para construção coletiva do espaço. Vejamos o que
Ascher (2010, p. 56) nos diz a respeito:

Todavia, um novo tipo de regulação parece se esboçar, ao qual poderí-


amos classificar de “regulação de parceria”, na medida em que os ato-
res, com lógicas diferenciadas e com interesses divergentes e conflitan-
tes em uma série de pontos, se esforçam ou são obrigados a elaborar
gestos comuns, negociar compromissos duradouros e criar instituições
coletivas.

Mesmo sendo um sinal claro de nossa contemporaneidade, as parcerias públi-


co-privadas, usadas na construção e gestão do espaço público, têm sido muitas vezes
contestadas por trazerem ao espaço um caráter de espaço privado construído em área
pública. Além disso, esses espaços sofrem códigos e regulações nem sempre definidos
apenas pelo poder público, pois permitem ao gestor do espaço estabelecer regras que
cerceiem ou ao menos inibam a plena utilização do espaço público. Essa preocupação é
clara há muito tempo para alguns urbanistas. Sobre isso Lefebvre (1972, apud CARLOS, 2001,
p. 49-50) nos mostra sua visão entre a cidade-realidade presente e a realidade so-
cial, repleta de relações a serem estabelecidas. Nesse sentido, as regulamentações,

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manipulações e códigos forçosamente estabelecidos podem enfraquecer, senão des-


truir, a relação entre o espaço e o público.

[...] devemos distinguir a ação e o resultado, o grupo (ou os grupos) e


seu produto. Sem separações. Não há obra sem uma sucessão regulada
de atos e ações, de decisões e de condutas, sem mensagens e códigos.
Não há obras sem coisas, sem uma matéria a modelar, sem uma reali-
dade prático-sensível, sem um sítio, sem uma “natureza”, um campo e
um entorno. As relações sociais se atingem a partir do sensível; não se
reduzem a esse mundo sensível embora não flutuem no ar, não escapam
da transcendência. Se a realidade social implica formas e relações, se não
pode ser concebida de forma homóloga à de um objeto e coisas. Insis-
timos nesse ponto, metodológica e teoricamente importante. Há lugar e
razão para distinguir a morfologia material e a morfologia social. Talvez
se deva aqui introduzir uma distinção entre a cidade-realidade presente,
imediata, dado prático-sensível, arquitetural – e de outro lado o urba-
no, realidade social composta de relações a conceber, a construir ou re-
construir pelo pensamento. Todavia essa distinção se revela perigosa e a
denominação proposta não se manipula sem riscos [...] (LEFEBVRE, 1972,
p. 57 apud CARLOS, 2001, p. 49-50).

Em meio às incertezas que as parcerias público-privadas, na construção do es-


paço, ainda têm em relação à apropriação deste espaço pela população, este capítulo
apresentará como essas parcerias têm sido realizadas em alguns lugares do mundo e no
município de São Paulo.

2.1 Experiências internacionais


No contexto internacional, a cidade de Nova Iorque, nos Estados Unidos, é exemplo
da parceria público-privada para a criação de espaços públicos. Longe dos chamados
Business Improvement Districts, onde se realiza a transformação de regiões inteiras por
organizações de interesse privado – como é o caso de Times Square – trataremos aqui
da criação de praças, especialmente os chamados POPS (Privately Owned Public Space)
ou ­Pockets Parks.

Um artigo publicado na revista Process: Architeture, em 1988 conta que a deno-


minação pocket park tem origem na expressão Vest Pocket Park apelido dado ao Paley
Park localizado em Nova Iorque. A ideia seria que, nos bolsos das roupas, colocamos
nossas mãos para nos aquecermos, colocamos moedas ou outros valores como forma de

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assegurá-los e, por isso, são pequenos lugares que fazem nos sentir seguros, aquecidos e
reservados. Esses espaços teriam certas características fundamentais para despertar uma
sensação de acolhimento e induzir o uso e relaxamento, porém sem a necessidade de
uma proposta particular (FUJIMOTO, 1988, p. 15), como, por exemplo, a presença de água
e áreas verdes. Especialmente quanto às áreas verdes dos pockets parks, TAKAGI (1988, p.
74) acredita que “a seleção e produção de áreas verdes é um elemento crucial na criação
de um pocket park que o tornará popular e amado”.

Em 1961, Nova Iorque começava a desenvolver os POPS - Privately Owned Public


Spaces [Espaços Públicos de Propriedade Privada], aqui usados como exemplo de par-
ceria público-privada, por meio da promulgação do decreto do Plano Diretor da Cidade,
que permitia que as incorporadoras interessadas em construir edifícios mais altos do que
o permitido pela taxa de ocupação, criassem espaços públicos, ou dentro, ou em frente
aos prédios, em troca da permissão da construção de andares adicionais.

Um contrato entre o empreendedor e a prefeitura define o tamanho e os atributos


dos POPS e quantos andares adicionais são permitidos.

Do ponto de vista jurídico, tanto o edifício quanto o espaço público são


propriedade privada, mas o proprietário deixa de ter o direito de restrin-
gir o acesso ao público [...], ou seja, os POPS enquanto espaços físicos e
entidades legais são o resultado de relações complexas entre agências
de governo local, empresas privadas e o público (Miller, 2007, p. 71,
tradução nossa).

Os projetos eram aprovados pelo Departamento de Planejamento Urbano da Ci-


dade e toda alteração que, por ventura, fosse pretendida, deveria ser analisada por esse
departamento. No entanto, nem sempre esses espaços eram de qualidade ou totalmente
abertos ao público. (WATABE, 1988, p. 78).

Em 1982, o prefeito Edward Koch estabeleceu um sistema de zoneamento que con-


dicionava a criação dessas áreas à melhoria de seus projetos, prevendo elementos consi-
derados como essenciais nos estudos de Willian Whyte9, que julgava um bom espaço pú-
blico aquele com gradiente de insolação adequado nas diversas épocas do ano, escala,

9 William Whyte é considerado um mentor dos projetos para espaços públicos, pois realizou estudos que
analisavam o comportamento humano nesses espaços.

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acesso, circulação, iluminação, sinalização e horários adequados ao acesso do público


(WATABE, 1988, p. 78).

Um caso emblemático entre os POPS é o IBM Atrium, aberto ao público em 1983


e localizado na esquina da Avenida Madison com a Rua East 56th. Em troca do átrio, a
IBM pôde construir aproximadamente 13.700 m² adicionais; o projeto seguiu quase com-
pletamente os requisitos impostos pelo Departamento de Planejamento Urbano: possuía
cadeiras móveis, cafeteria, entrada no nível da rua e uma vista desobstruída (MILLER,
2007, p. 73). O arquiteto Edward Larrabee Barnes projetou o espaço com elementos além
dos que propunha o departamento de obras, com uma fachada de vidro para que os
frequentadores pudessem admirar a cidade e o bosque de bambus, projetado por Zion
e Breen, que conferia tranquilidade ao local.

Entretanto, em 1990, o prédio foi vendido ao magnata do setor imobiliário e cole-


cionador de arte Edward Minskoff e, em 1994, foi proposta uma mudança que sugeria
reduzir a paisagem de bambus para dar lugar a exposições de obras de arte. Nenhuma
consulta pública foi feita a respeito, pois a legislação e o contrato entre o Departa-
mento de Planejamento Urbano e o empreendedor permitia que assim fosse10. Essas
alterações, segundo Miller (2007), fizeram com que o átrio deixasse de ser um espaço
público dinâmico. Ainda segundo Miller (2007), essa falta de diálogo com o público
quanto às alterações feitas no espaço trouxeram à tona o caráter iminentemente pri-
vado do espaço:

Nunca foi público porque, desde o início, as decisões como ele se-
ria conduzido ao longo do tempo estavam fora das mãos do público.
O acesso é uma questão de colaboração contínua no que diz respei-
to aos processos de mudança e manutenção. Em outras palavras, o
acesso físico é obviamente crucial para que os espaços sejam públi-
cos. Mas igualmente importante é o acesso e a atuação dentro dos
processos que governam os espaços públicos. (Miller, 2007, p. 76,
tradução nossa).

10 O departamento de Planejamento Urbano achou desnecessária a realização de consulta pública, pois


considerou a retirada do bosque de bambus uma alteração pontual que não mexeria com a estrutura
ou com a metragem quadrada do espaço (MILLER, 2007, p. 85).

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Isso significa dizer que a criação de espaços públicos, que deve ser responsabilidade da
municipalidade, passa a ser viabilizada pela inciativa privada, sem entrar nos gastos de orça-
mento do poder público e, nesse momento, tendem a perder seu caráter público essencial.

Carregados de críticas, os POPS nova-iorquinos, principalmente os que fazem parte dos


prédios comerciais, são vistos como quintais pertencentes às corporações. Alex (2008) cita a
crítica feita por Mark Chidister (1989 apud ALEX, 2008, p. 21), o qual diz que essas plazas ur-
banas “são usadas como foyers para a arquitetura e, secundariamente, para receber, na hora
do almoço, os funcionários que trabalham nas proximidades”.

Como podemos notar, em Nova Iorque, os espaços públicos construídos por meio da
parceria público-privada têm, em sua grande maioria, um viés comercial, ou seja, estão liga-
dos ao poder de compra de seus usuários, ou ainda, mais precisamente, voltados para o pú-
blico que, em algum momento, será capaz de consumir, ou um produto a venda no próprio
espaço ou, ainda, um produto ligado à marca que fomentou a construção daquele espaço.

Isso não é diferente na Europa onde exemplos como Potsdamer Platz, em Berlim, ou o
Bercy Village, em Paris, são espaços totalmente voltados ao público consumidor, deixando os
usos como o encontro, a troca e o descanso apenas no plano simbólico, com a diferença de
que esses espaços representam uma pequena parcela dos espaços públicos revitalizados; os
demais continuam sendo conduzidos pelo poder público (FLEURY, 2010).

Em Berlim, nos espaços públicos de escala local, não vinculados a centros comerciais, a
parceria público-privada para a manutenção ou renovação de áreas verdes é feita por meio
de mecanismo semelhante ao do termo de cooperação usado pela Prefeitura do Município
de São Paulo; esses espaços são conservados por empresas privadas em troca de publicida-
de. Sem o aporte financeiro feito pela inciativa privada, os Berzike11 não poderiam realizar as
mudanças demandadas pela população (FLEURY, 2010).

Segundo Fleury (2010), em Paris, a política de espaços públicos tem contado com a par-
ticipação popular dentro de conselhos que debatem sobre os projetos de desenvolvimento
dos bairros, cujas propostas são ações concretas em nível local, podendo até ser possível, a
partir disso, a reconstrução do espaço, participando, inclusive, da concepção do projeto. Os
conselhos possuem orçamentos específicos chamados de “fonds de participation des habi-
tants”12; tal orçamento destina-se a pequenas melhorias e à organização de eventos.

11 Em tradução livre pode ser entendida como as subprefeituras de São Paulo.


12 Em tradução livre “fundo de participação dos moradores”.

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É com essa diversidade que diferentes metrópoles têm lidado com a questão da PPP
para a construção e manutenção de espaços públicos; todavia, não podemos deixar de res-
saltar que, mesmo com a interferência da iniciativa privada, a população tem tido importante
papel na requalificação, construção e apropriação dos espaços públicos. Um exemplo disso é
o caso emblemático da High Line, em Nova Iorque.

Na área onde atualmente é um dos pontos turísticos mais visitados da cidade, até 1980
funcionava uma linha férrea elevada, de aproximadamente 2,4 quilômetros de extensão, que
transportava mercadorias em larga escala desde Spring Street até o Terminal St. John’s, na rua 34.

Em 1980, já com a maior parte do transporte de mercadorias substituído por caminhões,


a linha é desativada. Com a linha abandonada e a desativação de vários depósitos, em 1991,
cinco secções do sul são demolidas para construção de complexo de apartamentos. Durante
alguns anos, após um estudo encomendado pela empresa que assumiu a linha, começam as
discussões sobre qual seria o destino da estrutura, visto que, comerciantes e proprietários de
imóveis da região votavam em sua demolição.

Nessa época, dois moradores da região, Joshua David e Robert Hammond que se co-
nheceram na reunião do conselho local, onde foi apresentado o estudo feito para a High
Line, descobriram o interesse comum em tentar preservar a estrutura, por razões históricas e
arquitetônicas. Nas conversas posteriores, amadureceu-se a ideia de criar uma organização
específica para esse empreendimento e, em 1999, decidem criar a Organização Não Gover-
namental (ONG) Friends of the High Line, e começam a angariar suporte para o projeto de
criação de um parque na linha férrea abandonada.

É importante ressaltar que em Nova Iorque os mecanismos de participação da comu-


nidade na aprovação e escolhas de projeto são garantidos por lei municipal13. Isso é uma
garantia de legitimidade e envolvimento nas ações que dizem respeito àquela região.

Para convencer a opinião pública de que a criação do parque era uma boa ideia, seus
idealizadores instituíram campanhas promocionais em defesa do “patrimônio histórico” da
cidade. Além do argumento emocional, havia também uma aposta na valorização possível
da área. Os cálculos feitos mostravam um retorno de US$ 262 milhões, em aumento de im-
postos, a partir de um investimento de US$ 100 milhões14.

13 About Community boards in NYC. Disponível em: <http://www.nyc.gov/html/cau/html/cb/about.sht-


ml>. Acesso em: 05 out. 2013
14 DAVID, Joshua e HAMMOND, Robert. High Line. A história do parque suspenso de Nova York. São Pau-
lo: Bei, 2013.

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A área foi oficialmente doada pela empresa proprietária da linha para a cidade de
Nova Iorque e se encontra sob a jurisdição do Departamento de Trânsito; desde a sua
inauguração em 2009, o High Line, tem sua gestão e manutenção privada, através de
uma PPP com a Friends of the High Line que administra o parque e é responsável pela
contratação da equipe de jardinagem, limpeza e segurança, pelo que recebe uma parte
das despesas (10%). A diferença, 90%, é captada através de doações.

Temos, então, um caso onde a PPP teve um reflexo positivo na construção do es-
paço público, partindo não só de iniciativa popular como se mantendo ativa diante das
pressões de grupos contrários, graças aos financiamentos privados.

Os mecanismos de participação da comunidade na aprovação e escolhas de proje-


to são garantidos por lei municipal15. Isso é uma garantia de legitimidade e envolvimen-
to nas ações que dizem respeito àquela região. Vejamos como essas experiências vêm
acontecendo em São Paulo.

2.2 Experiências em São Paulo


A origem da parceria público-privada é internacional e é usada em muitos países
como forma de garantir investimentos em infraestrutura, compartilhando riscos com o
setor privado. Além do compartilhamento de riscos, outros elementos são objetivos da
PPP como, por exemplo, a redução no prazo de implantação dos empreendimentos, a
introdução de novas tecnologias e a possibilidade da utilização de recursos públicos para
outros projetos prioritários sem condições de retorno financeiro16.

A parceria público-privada no Município de São Paulo teve a primeira iniciativa na


década de 1980, época em que os empreendimentos privados teriam direitos adicionais
de uso e ocupação do solo, assumindo custos de implementação de melhoramentos em
bens públicos.

Em 1986, as Operações Interligadas, por meio da Lei nº 10.209, permitiam benefícios


de exceção de zoneamento para empreendimentos imobiliários desde que fossem cons-
truídas habitações de interesse social.

15 About Community boards in NYC. Disponível em: <http://www.nyc.gov/html/cau/html/cb/about.sht-


ml>. Acesso em: 05 out. 2013
16 A nova definição de Parceria Público-Privada e sua Aplicabilidade na Gestão de Infraestrutura Pública –
Pasin, Jorge Antonio Bozoti; Borges, Luiz Ferreira Xavier. Revista do BNDES, Rio de Janeiro, V. 10, N. 20,
P.179-196, Dez 2003.

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50

A Lei nº 10.676 de 1988, que aprovou o Plano Diretor, institui o Sistema de Plane-
jamento do Município de São Paulo e tem em seus objetivos estratégicos “ampliar e
agilizar as formas de participação da iniciativa privada em empreendimentos de interesse
público” e “ampliar a transferência da ação do Governo”, além de “estimular a participa-
ção de terceiros quanto à ampliação e manutenção de áreas verdes e outros espaços”.

Em 1996, o município elabora a Agenda 21 Local, compromisso firmado por ocasião


da Rio 92 (Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento Hu-
mano), e tem por objetivo instrumentalizar o município com diretrizes em consonância
com o desenvolvimento sustentável. A Agenda 21 Local prevê em suas bases a parceria
entre o poder público, a iniciativa privada e população para pensar em soluções e im-
plantarem projetos que impactem positivamente na qualidade de vida urbana.

Na Lei nº 13.430, de 2002, que dispõe sobre o Plano Diretor Estratégico revogando
a Lei nº 10.676 de 1988, está prevista a participação da iniciativa privada e de moradores
em ações relacionadas ao desenvolvimento urbano e a criação de instrumentos legais
que estimulem essas parcerias, com destaque para a manutenção de áreas verdes e es-
paços ajardinados.

Em 30 de dezembro de 2004, foi sancionada a Lei Federal nº 11.079 que institui nor-
mas gerais para a licitação e contratação da parceria público-privada.

Não pretendemos com este trabalho analisar os termos da legislação que regem as
PPP, no entanto, os marcos legais criados e regulamentados são importantes para con-
textualizar o período em que as parcerias que resultaram na implantação da Praça Victor
Civita foram firmadas.

Embora o uso da PPP esteja começando a ganhar força no Brasil, ainda existe o que
Robba e Macedo (2010, p. 48) chamam de barreira psicológica entre o espaço público e
o privado, no sentido de não haver a abertura e a comunicação entre esses dois espaços,
a exemplo do que se praticam nos pockets parks americanos.

Existe pressão da sociedade para a criação de novos espaços públicos para recre-
ação e por isso a Prefeitura do Município de São Paulo tem dado maior importância
a essa demanda que se traduz no aumento da qualidade ambiental da cidade (GA-
LENDER, 2010). Essa preocupação com a melhoria dos espaços públicos tem usado o
instrumento da PPP como forma de garantir a participação da sociedade nas melhorias
dos espaços.

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51

Para entendermos melhor como as parcerias são desenvolvidas na cidade, anali-


saremos como tem sido a lógica da cooperação da Subprefeitura de Pinheiros para a
manutenção e criação de espaços públicos. De fato, a Prefeitura da Cidade de São Paulo
há muito persegue um modelo de gestão dos espaços públicos17 que, com exceção dos
parques geridos pela Secretaria Municipal do Verde e Meio Ambiente (SMVMA), é feita
pelas subprefeituras.

As subprefeituras respondem pela guarda dos próprios municipais, e áreas de pra-


ças e sistema viários também estão sob sua responsabilidade; essa descentralização per-
mite às subprefeituras maior controle sobre as áreas sob seu território, contando com
dotação específica para a manutenção, limpeza e poda de árvores.

No caso da Subprefeitura de Pinheiros, atualmente existem três equipes de jardina-


gem e três de corte e poda de árvores, gerenciadas pela unidade de áreas verdes e uma
equipe de manutenção que cuida de passeios, equipamentos e mobiliários. A equipe de
manutenção tem um acionamento mais esporádico, a equipe de jardinagem mais fre-
quente e o corte e poda são acionados quando necessário.

A Coordenadoria de Projetos e Obras – composta pela Supervisão de Projetos e


Obras, Supervisão de Manutenção e Supervisão Técnica de Limpeza Pública, onde se
encontra a Unidade de Áreas Verdes – é a divisão responsável pelos espaços públicos –
incluindo-se as ruas e áreas verdes, na Subprefeitura de Pinheiros. Entretanto, segundo o
atual subprefeito arquiteto Angelo Filardo18, a subprefeitura enfrenta um problema com
a varrição e a limpeza dos canteiros, pois os serviços de varrição do município não têm
responsabilidade com a limpeza e a equipe de manutenção dos canteiros também não
tem a atribuição para limpá-los, deixando essas áreas sujas, com aparência de abandono,
mesmo que estejam recebendo manutenção periódica.

Como forma de melhorar a gestão dos espaços públicos, a prefeitura, em 2006, cria
a Lei nº 14.223, que dispõe sobre a ordenação dos elementos que compõem a paisagem
urbana do Município de São Paulo e passa a contar com esse instrumento de parceria
com a sociedade, conforme disposto no artigo 50 desta Lei:

17 Aqui entendidos, como os de prática social e reduzidos aos parques, praças, jardins e canteiros (áreas
ajardinadas).
18 Entrevista concedida em 05 jun. 2013.

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O Poder Executivo poderá celebrar termo de cooperação com a ini-


ciativa privada visando à execução e manutenção de melhorias ur-
banas, ambientais e paisagísticas, bem como à conservação de áreas
municipais, atendido o interesse público.

A figura do termo de cooperação (ANEXO B) é hoje usada pelas subprefeituras


como instrumento para a criação e manutenção dos espaços públicos do município.
O Decreto nº 52.062 de 2010 que regulamenta o artigo 50 da Lei nº 14.223 dispõe no
seu artigo 2º que:

[...] consideram-se melhorias urbanas, paisagísticas e ambientais os


projetos, obras, serviços, ações e intervenções, relativos a bens pú-
blicos municipais e a bens privados ou públicos, inclusive federais e
estaduais, tombados em caráter provisório ou definitivo, ou preserva-
dos, nos termos da legislação municipal, estadual ou federal pertinen-
te, que resultem no atendimento do interesse público e na melhoria
da qualidade da vida urbana, observadas as diretrizes do artigo 4º da
lei supracitada.

Das 483 áreas ajardinadas levantadas no mapa elaborado pela Subprefeitura de


Pinheiros em 2008, 66 possuem Termos de Cooperação firmados e mais 24 estão em
processo para assinatura19. Esses Termos de Cooperação são firmados entre a prefei-
tura, empresas, associações de moradores formalmente constituídas ou por cotização
de moradores que fazem uma coleta mensal e dão a manutenção desse espaço. Os
Termos de Cooperação têm validade de 12 a 36 meses, com exceção do que foi firma-
do em 2007 entre a prefeitura e a Editora Abril para a criação da Praça Victor Civita,
que tem validade de 20 anos.

A Figura 2.6 apresenta mapa com a localização das áreas verdes sob responsa-
bilidade da subprefeitura de Pinheiros.

19 Prefeitura de São Paulo: <http://www.prefeitura.sp.gov.br/cidade/secretarias/subprefeituras/pinheiros/


termo_de_cooperacao/index.php?p=30522>. Acesso em 24 ago. 2013. Atualizado por correspondên­
cia eletrônica com a subprefeitura em 05 set. 2013.

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54

Verificar a existência da participação da sociedade na manutenção de espaços que,


a princípio, deveria ser de inteira responsabilidade da administração pública não é fato
conclusivo, mas aponta para a percepção de que a sociedade participa cada vez mais na
gestão urbana.

Nesse sentido, praças que têm o envolvimento direto da comunidade na gestão,


como a Horácio Sabino, a Praça das Corujas, a Praça Guilherme Kawall, a Praça Coronel
Pires de Andrade, a Gastão Vidigal e outras que têm termo de cooperação, refletem a
diferença feita pela gestão compartilhada. São praças que têm um grau de apropriação,
com o comprometimento da população com seu uso.

Quanto à segurança que esses espaços públicos oferecem para os usuários, o atual
subprefeito de Pinheiros, Angelo Filardo afirma que:

Se a Praça é apropriada pela vizinhança ela tem um grau de uso, segu-


rança e adequação muito maior. O que se faz da praça responde ao que
as pessoas querem dela. Às vezes uma praça está lá há muito tempo sem
maiores demandas por parte do entorno porque as pessoas de fato não
a usam, viraram as costas para ela, ergueram muros altos. Uma vez que
as pessoas se apropriam da praça até o seu desenho pode ser mudado.
A organização social faz o espaço na medida em que ela se fortaleça e
se aproprie do espaço.

O Conselho Regional de Meio Ambiente, Desenvolvimento Sustentável e Cultura de Paz


de Pinheiros (CADES-PI)20, conselho ligado à Subprefeitura de Pinheiros, realizou, em 2012,
através do Grupo de Trabalho: Manutenção e Convivência Social nas Praças Públicas, um
diagnóstico sobre o estado e o uso das praças públicas da Subprefeitura, com o objetivo de:

pensar mecanismos para – num trabalho conjunto entre os órgãos públi-


cos e a sociedade civil – garantir a manutenção permanente das praças

20 O CADES é um órgão de natureza participativa e consultiva que tem o papel de propor e colaborar com
a formulação de políticas públicas relacionadas à proteção ambiental, à implantação de programas que
fomentem a cultura de paz e à implementação da Agenda 21 Local, sempre promovendo e incentivan-
do a participação social. O objetivo desse conselho é engajar a população, através de seus represen-
tantes, na discussão e formulação de propostas socioambientais junto às subprefeituras. Constituído
de forma bipartite, seus componentes são 50% eleitos pela sociedade civil e 50% por representantes
do poder público. O mandato dos conselheiros é de dois anos, cabendo duas reconduções, por igual
período. O trabalho dos conselheiros não pode ser remunerado e é considerado serviço público rele-
vante. Disponível em: <http://cadespinheiros.wordpress.com/about/>. Acesso em 09 nov. 2013.

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de Pinheiros e desenvolver, adicionalmente, uma cultura de convivência


social nesses espaços públicos (Buzzo et al., 2012).

Esse trabalho teve foco nas praças da região da Subprefeitura de Pinheiros; aponta
para a falta de manutenção crescente e sugere que os termos de cooperação sejam flexi-
bilizados para atrair mais cooperados. Segundo o estudo, a burocracia, a demora em ser
concretizado e as penalidades e multas previstas no caso de desistência ou problemas
com a área, faz com que a população tenha receio em firmar termos com a prefeitura.

Ainda assim, é possível constatar que a quantidade de termos de cooperação já é


expressiva, com aproximadamente 19% das áreas sendo mantidas por meio da utilização
de um instrumento que, aparentemente, trazem maior apropriação do espaço público
pela sociedade. Diante disso cabe ainda questionar se essa apropriação é causa ou con-
sequência da atenção dada a esses espaços.

É possível notar, portanto, que a PPP para a construção do espaço público está li-
gada a um ganho da iniciativa privada, seja em aumentar o potencial construtivo de uma
área, seja de modo indireto, promovendo a imagem institucional da empresa. Nesse sen-
tido, uma nova forma de negociar compromissos que garantam benefícios, tanto ao se-
tor privado quanto para o poder público tem sido delineada na cidade contemporânea.

Mas como não poderia deixar de ser, essas negociações resultam em regulações
que podem chegar a distanciar o público, do espaço. No entanto, muitas parcerias têm
surgido impulsionadas por lideranças de bairros, como vimos no caso do parque High
Line, em Nova Iorque.

No município de São Paulo, isso já é uma realidade, tendo como resultado uma
legislação que considera a parceria entre a iniciativa privada e o poder público, um ins-
trumento para melhorar a qualidade dos espaços públicos.

Concluímos, desse modo, que a cooperação tem provocado transformações na for-


ma de construção da cidade, mesmo, aparentemente, mais amadurecida em outros países
e incipiente, porém promissora, em São Paulo; a participação popular é uma forma de
compartilhar a responsabilidade pelo cuidado da cidade e também torna a construção do
espaço mais democrática, mesmo quando feita por meio da parceria com o setor privado.

Vejamos, então, como a parceria entre o poder público se constitui no nosso objeto
de pesquisa.

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3. A praça Victor Civita

A
Praça Victor Civita faz parte da parceria público-privada entre a Editora Abril e
a Prefeitura de São Paulo. Outras formas de PPP são mais comuns em São Pau-
lo, como a construção de áreas com acesso público em prédios comerciais nas
regiões financeiras da cidade, em troca da permissão do aproveitamento maior da área
construída, traduzida em prédios mais altos. A Praça Victor Civita, no entanto, é uma
praça para uso recreativo, contemplativo e de lazer, diferente das áreas disponíveis nos
centros comerciais. Além disso, não houve exatamente nenhuma permissão de uso de
outras áreas que não a própria área recuperada para uso público gratuito.

3.1 História, criação e estrutura


O local de implantação da praça tem uma história marcada pela degradação am-
biental, tendo abrigado por 40 anos um incinerador municipal que tratava, desde resídu-
os de serviços de saúde, até restos e carcaças de animais, numa época em que os incine-
radores não possuíam filtros de alto desempenho ou tecnologia eficiente para a queima
sem emissão de partículas poluentes na atmosfera. Portanto, essa é uma característica
que faz da área um interessante objeto de estudo do ponto de vista de reabilitação e
projeto, uma vez que os níveis de contaminação encontrados no local limitaram o uso da
área, tornando imperativo elaborar um projeto que, ao mesmo tempo em que atendesse
e fosse aberto ao público, protegesse os usuários do contato com o solo.

O incinerador funcionou na área de 1949 a 1989 e queimava diariamente duzentas


toneladas de resíduos em duas câmaras de combustão21. No início de sua de sua operação
recebia apenas resíduos sólidos domiciliares e, a partir da década de 1970, começa a receber
outros tipos de resíduos, inclusive os provenientes de serviços de saúde com risco biológico
no manuseio e à saúde e ao meio ambiente, pois sua queima emite poluentes à atmosfera.

O terreno, adquirido da Cia. City em 1942, em vários momentos foi transferido para
setores da administração municipal, desde a transferência para a divisão de limpeza em
1951, passando para a divisão de pavimentação em 1955, até ser totalmente partilhado
entre várias divisões administrativas municipais.

21 Praça Victor Civita – Espaço Aberto da Sustentabilidade. Sobre a Praça. Linha do Tempo. Disponível em:
<http://pracavictorcivita.org.br/conceito/linha-do-tempo/>. Acesso em 10 abr. 2013.

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3.2 A parceria entre poder público e setor privado


O interesse da Editora Abril, em transformar a área , na qual, anteriormente, funcio-
nava o incinerador municipal na Rua Sumidouro, surgiu após a mudança da Editora, em
1998, para o edifício localizado na Avenida das Nações Unidas.

A Editora já havia mostrado interesse em dar o nome de seu fundador a algum lo-
gradouro do município, a exemplo do que havia acontecido com a Avenida Roberto Ma-
rinho. Entretanto, devido aos trâmites burocráticos para a nomeação de um logradouro e
com a constatação da área degradada ao lado de sua nova sede, surge a ideia de propor
à prefeitura uma parceria para a recuperação da área e a transformação em espaço que
pudesse ser devolvido e utilizado pela população.

A primeira formalização do interesse da Editora em trabalhar pela recuperação do


espaço foi com o Protocolo de Intenções, firmado em 2001 entre a Prefeitura de São
Paulo, representada pela prefeita Marta Suplicy através da Secretaria Municipal de Meio
Ambiente, e o Presidente da Editora Abril, Roberto Civita.

Segundo o Diretor do Instituto Abril, Hamilton dos Santos22, o Protocolo de Inten-


ções foi firmado nos moldes de uma parceria entre o poder público e o setor privado,
sendo regulado pelo instrumento da parceria público-privada. Além disso, um fato re-
levante é que essa área estava sob a jurisdição da Secretaria Municipal do Verde e Meio
Ambiente e, portanto, seria enquadrada como parque, o que tornaria muito difícil sua
administração e gestão por parte da Editora, por conta do modelo de administração de
fundos e o repasse de investimento que a secretaria utiliza para gerir as áreas verdes.

No entanto, o Protocolo de Intenções não se materializa em um plano de ação para


a transformação da área e, apesar de testes do nível de contaminação terem sido feitos
entre os anos de 2002 e 2003, a iniciativa de recuperação da área pouco se desenvolveu
nesse período. Em 2004, o município de São Paulo estabelece normas complementa-
res ao Plano Diretor Estratégico que, por meio da Lei nº 13.885, de 25 de agosto de
2004, instituía os Planos Regionais Estratégicos das subprefeituras. Esta lei considerava
o parcelamento e a ordenação do uso e ocupação do solo do município e instruía ferra-
mentas determinantes das ações dos agentes públicos e privados no território de cada
subprefeitura.

22 Entrevista concedida em 29 jan. 2013

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Nessa Lei, a Subprefeitura de Pinheiros delimitava as Áreas de Intervenção Urbana


- AIU, os Projetos Estratégicos de Intervenção Urbana - PEIU e as Operações Urbanas
Consorciadas - OUC e, por meio de seu artigo 88, capítulo IV etabelecia a operação ur-
bana consorciada Faria Lima .

Em 2005, a Editora Abril contrata o Escritório Levisky Associados com o objeti-


vo de direcionar os estudos e projetos que haviam sido esboçados pela Editora e para
atuar como mediador entre os diversos atores, ouvindo as necessidades de cada um e
procurando soluções de projeto e parceria que se encaixassem nas diversas demandas
surgidas.

Com um plano de trabalho elaborado, em 2006, a Editora reafirma o interesse


perante a subprefeitura em estabelecer a parceria para revitalização da área; é a partir
dessa data que fica instruído o processo de implantação da praça na Subprefeitura de
Pinheiros. Segundo a arquiteta Adriana Levisky23, foi um momento bastante oportuno,
pois a administração municipal era bem sensível às questões ambientais. Foi criado um
grupo de trabalho com uma metodologia que possibilitou traduzir os diversos anseios.
Ainda em 2006, a Editora Abril apresenta um pré-projeto baseado em pesquisa realizada
com mais de mil moradores da região, buscando integrá-lo com a Operação Urbana Fa-
ria Lima, que previa o alargamento da Rua Sumidouro e a construção de um terminal de
ônibus urbano e da Estação Pinheiros de Metrô, próximos ao local.

As tratativas entre Editora Abril, Empresa Municipal de Urbanização (EMURB) e


Subprefeitura resultaram em uma formulação do modelo jurídico de parceria desenvol-
vido em cinco etapas, sendo a primeira, a conclusão dos ensaios para caracterização do
solo da área, que definiria as diretrizes e técnicas de descontaminação, as quais seriam
empregadas; a segunda etapa era elaborar o projeto executivo, compreendendo paisa-
gismo e infraestrutura necessária para recebimento dos usuários; a terceira etapa seria o
projeto para descontaminação e restauro do incinerador, que seria ocupado pelo Museu
da Revista, galeria de arte, salas de aula, espaços para palestra e café; a quarta etapa
previa o projeto do galpão multifuncional com teatro/auditório; e a quinta etapa previa
a ligação do parque à Av. Professor Frederico Hermann Jr., localizada no lado oposto da
quadra onde a praça está inserida. Além dessas etapas, o modelo definia as diretrizes de
projeto, como cuidados que deveriam ser tomados com relação à contaminação do solo,

23 Entrevista concedida em 26 jul. 2013

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limites de altura dos equipamentos a serem construídos, a possibilidade de conexão com


outras áreas públicas que fazem fronteira com a praça e a ampliação de sua área.

Em 2007, durante a gestão do Prefeito Gilberto Kassab, ficou convencionado que a


gestão da área seria da Subprefeitura de Pinheiros, à época representada pelo subprefeito
Milton Elias Nachle. Em fevereiro de 2007, foi assinado um termo de cooperação entre a
Prefeitura do Município de São Paulo, através da Subprefeitura de Pinheiros e a Editora
Abril. E em 01 de fevereiro de 2007, através do Decreto nº 48.116, a área recebe o nome de
Praça Victor Civita. Ainda em 2007, foi criado o Instituto Abril, organização da sociedade
civil de interesse público (OSCIP), que passaria a coordenar a implantação da praça.

Portanto, a aproximação entre a Prefeitura do Município de São Paulo e a Editora


Abril se deu, em grande parte, pela conjunção de interesses: de um lado, a prefeitura
tendo o local dentro de seu plano estratégico de reabilitação de áreas degradadas; de
outro, a Editora Abril em busca de um projeto que criasse uma área em homenagem a
seu fundador e que contivesse a filosofia educativa e cultural que faz parte da empresa.
Um grande marco entre a PPP firmada foi ter o projeto como elemento estruturante do
modelo jurídico, que não apenas firmava a cooperação, mas estabelecia etapas e diretri-
zes concretas para sua realização.

No próximo capítulo, analisaremos como foi a elaboração do projeto, partindo de


um contexto em que diversos atores tiveram papéis decisivos em sua concepção e, prin-
cipalmente, buscando a melhor maneira de recuperar uma área degradada e devolvê-la
ao público.

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62

4. Em busca de um bom projeto

A
busca por projetos que apresentem soluções para o ambiente básico encontra-
do em cada situação e sejam de fato agradáveis e convidativos ao uso, no caso
especial de praça, passa pela análise e incorporação de vários elementos que
garantem que um espaço público tenha o uso que dele se espera.

Para esse capítulo usaremos como base as premissas estabelecidas por autores que
evocam o bom uso do espaço público de maneira universal, considerando o bom projeto
como patamar fundamental a ser alcançado.

Partindo desse princípio, podemos considerar o que diz Bartalini (2007) ao ressaltar
a importância da localização da praça como um dos elementos a ser considerado quan-
do criamos o espaço público:

Assim, não é em absoluto uma perda de tempo indagar-se profunda-


mente sobre a forma e também sobre a localização das praças. Se elas
existem, é inevitável que tenham uma forma. Não indagar sobre ela é
aceitar passivamente o que o costume determina, e o habitual nas nos-
sas cidades é a praça ser residual, ou seja, ter a forma, se assim se pode
dizer, da sobra, do resto. E, se as praças existem, elas estão situadas,
localizadas, estão em algum lugar. Não dar importância a isso é nova-
mente aceitar o costume, que é a praça estar na margem, à margem.
Remanescente e marginal. São esses os adjetivos que acompanham a
forma e a localização (o lugar) da grande maioria das nossas praças, o
que de certo modo é coerente com o uso que muitas delas acolhem.

Boa localização, equipamentos de qualidade, bancos, superfícies, diversidade


de programa são alguns dos elementos que analisaremos no projeto da Praça Victor
Civita.

4.1 Limitações e conceitos: as soluções


encontradas na Praça Victor Civita
É certo que no caso da Praça Victor Civita a localização não foi propriamente uma
escolha, pois a área já era objeto da vontade do poder público em recuperar espaços
que estavam degradados, seja pelo seu uso anterior, seja pelo simples abandono. Nesse

Construindo o espaço - livro.indb 62 13/02/2014 09:06:32


63

sentido, cabe relembrar como se deu o desenvolvimento do projeto desde o início das
tratativas da prefeitura com a Editora Abril.

Entre o período da assinatura do protocolo de intenções e do termo de coope-


ração, a Editora começou a desenvolver internamente projetos que melhor se ade-
quassem ao espaço. Foi, então, realizada uma entrevista com cerca de mil moradores
e comerciantes da região para saber qual era a necessidade da comunidade e suas
expectativas em relação à área. A pesquisa apontou que a cultura, o lazer e o esporte,
nessa ordem, eram as atividades de interesse da população local. Isso ajudou a definir
o escopo de centro cultural nos moldes de outros centros culturais já consolidados
na cidade, como o Itaú Cultural, na Avenida Paulista e o Instituto Moreira Salles, em
Higienópolis.

Como a Editora Abril é uma empresa de comunicação, pensou-se que um cen-


tro de imagens, um museu e um espaço para desenvolvimento de talentos seria mais
adequado para o local. No entanto, durante as primeiras pesquisas na área, realizadas
através do convênio entre a CETESB e o governo da Alemanha, por meio de sua So-
ciedade de Cooperação (Deutsche Gesellschaft für Technische Zusammenarbeit, GTZ),
constatou-se um nível de contaminação no solo acima dos padrões considerados se-
guros para sua livre utilização.

A descoberta desse passivo, deixado pelos anos de atividade da queima de resí-


duos, limitou as possibilidades de uso, direcionando as características de projeto para
algo que solucionasse essas limitações. Com esse quadro, a CETESB passou a coorde-
nar investigações mais aprofundadas do terreno quando foram determinados os níveis
de metais e dioxinas acima dos limites de referência estabelecidos, tanto do solo como
do prédio que abrigava o incinerador. Toda a investigação foi custeada pela Editora no
valor de sessenta mil dólares, com o risco de ser constatado um nível tão elevado que
inviabilizasse qualquer utilização.

Também foram realizadas análises pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agrope-


cuária (EMBRAPA) que, obtendo resultados acima dos limites recomendados, por pre-
caução, recomendou a supressão e a incineração de todas as espécies vegetais que
pudessem ser de interesse de consumo humano conforme constava no Termo de Re-
ferência (ANEXO D).

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64

Foram propostas três soluções: retirar a terra contaminada, derrubar o incinera-


dor e colocar terra sem contaminação; impermeabilizar a área derrubando o incinera-
dor; ou remediar a área aplicando tecnologias de descontaminação no incinerador e
no solo com o plantio de espécies descontaminantes. Na época, a remoção de terra era
uma solução que custaria em torno de dois milhões de dólares, pois a área mais próxi-
ma para o depósito do material contaminado ficava no Rio de Janeiro e, portanto, essa
alternativa foi descartada. O plantio também foi descartado, pois as espécies demo-
rariam anos para se desenvolver e efetivar o processo de descontaminação. A imper-
meabilização surgiu, portanto, como caminho mais fácil para a transformação da área.

As soluções de projeto foram apontadas e validadas pela CETESB e pela GTZ,


gerando um Termo de Referência para ser colocado em prática pela Editora Abril. Em
2007, análises detalhadas deram origem ao Termo de Referência elaborado pelo Grupo
Técnico Permanente da Qualidade Ambiental dentro do Departamento de Controle da
Qualidade Ambiental da Secretaria do Verde e Meio Ambiente. O Termo de Referência
dava diretrizes tanto para a área do incinerador, que estipulava que a câmara e a cha-
miné deveriam ser lacradas e o teto e as paredes raspados, como para o solo, que pre-
via colocação de camada de 30 a 50 centímetros de terra limpa para áreas que fossem
expostas; as demais áreas deveriam ser isoladas por pisos.

Após a definição do Termo de Referência e da solução que seria empregada, fo-


ram elaborados os primeiros projetos pelo escritório Levisky Arquitetos Associados. Em
sua primeira versão, o projeto previa um teatro mas, pelos altos custos, foi vetado pela
diretoria da empresa que fixou o orçamento em três milhões de reais. Segundo a ar-
quiteta Adriana Levisky, analisando as potencialidades da área, foram observados que
o passivo ambiental poderia, de alguma forma, ser agregado às condicionantes histó-
ricas apresentadas no terreno e à localização estratégica, e que isso seria uma grande
oportunidade de trabalhar o projeto como um museu a céu aberto que fosse capaz de
trazer à população em geral a a discussão sobre o meio ambiente e a responsabilidade
social de forma lúdica, de forma lúdica, educativa e com lazer.

Na busca de soluções que contornassem as limitações encontradas, surgiu a pro-


posta da construção de um deck de madeira elevado que isolasse a área contaminada
do contato humano e permitisse que a área fosse plenamente ocupada. A inspira-
ção veio de projetos como o Terminal do Porto Internacional de Yokohama, no Japão,
dos arquitetos Farshid Moussavi e Alejandro Zaera-Polo, e o Maritime Youth House de

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70

Ainda sobre a qualidade que o espaço deve ter, Borja (1998) traz questões que vão
além da forma do projeto e mobiliário, e que se relacionam com o modo como o espaço
é utilizado. Vejamos o que Borja diz a respeito:

A qualidade do espaço público poderá ser avaliada, sobretudo, pela in-


tensidade e pela qualidade das relações sociais que facilita, pela sua for-
ça agregadora de grupos e comportamentos e por sua capacidade de
estimular a identificação simbólica, a expressão e a integração cultural
(BORJA, 1998, tradução nossa).

Através do resultado das pesquisas realizadas por William Whyte relatadas no


livro The Social Life of Small Urban Spaces (2001), é possível traçar um paralelo com a
Praça Victor Civita, objeto deste estudo.

É importante compreender que, mesmo que as características projetuais da praça


atendam certas premissas que indicamos como adequadas para a atração dos frequen-
tadores, o espaço público muitas vezes não funciona sem um evento a ele associado.
O que nos faz pensar no que Stephen Carr escreve em Public Space (1995, apud ALEX,
2008) dizendo que, na sociedade americana “a profusão de espaços públicos para o
desenvolvimento de atividades recreativas revela, sobretudo, a falta de vida pública
espontânea na cultura americana”. Para Alex (2008), a ideia da falta de vida pública de
Carr não encontra ressonância nas manifestações sociais e culturais da cidade, onde
“[...] o cotidiano de São Paulo apesar da pouca variedade de espaços públicos é repleto
de vida pública [...], pois as praças na cultura latina não são exclusivas para a recreação”.
Ora, se o espaço público de São Paulo tem uma vida própria, por que existe movimento
nas praças – espaços públicos mais delimitados que as feiras ou ruas – apenas quando
há nelas eventos, como as festas de época ou atividades recreativas programadas?

Em primeiro lugar, chama a atenção o uso do público apenas nos eventos de es-
porte, cultura e lazer oferecidos pela praça, principalmente nos finais de semana, em
que se espera que o espaço seja usado como recreação espontânea sem a necessidade
de eventos para atrair os usuários. Entretanto, através dos parâmetros preconizados
por Whyte (2001) é possível identificar alguns pontos que justificam a não apropriação
efetiva do espaço fora do período de atrações específicas.

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77

A questão do nome Victor Civita, em algum momento, foi vista como um obstáculo
para a captação de recursos porque os potenciais parceiros não se sentiam confortáveis
em investir em algo que levava o nome de apenas um deles.

Além disso, o Ministério Público (MP) entrou com liminar contra o município de
São Paulo através da Ação Civil Pública em 13 de julho de 2007, onde requeria, além da
paralisação da obra, a interdição do direito e cessão ou direito de uso, assim como o li-
cenciamento urbanístico ambiental da área, anulando o inciso VII do artigo 1º da Lei Mu-
nicipal nº 13.880/04 que autorizava o Poder Executivo a alienar, mediante procedimento
licitatório, áreas de propriedade municipal, dentre elas a que se destinava a implantação
da praça, o Decreto nº 48.116/07, que nomeava a área como Praça Victor Civita e o ter-
mo de cooperação firmado entre a Editora Abril e a Prefeitura de São Paulo. No entanto,
requereu que as medidas necessárias para a descontaminação e reabilitação ambiental
da área fossem implantadas, e também a implantação de um “parque público voltado
à fruição coletiva da população, assim como um centro de convivência de idosos” (SÃO
PAULO, 2007, p. 14), visando perscrutar a regularidade da alienação da área pública. Essa
ação foi motivada por representação feita pela população, em especial por uma listagem
com 215 assinaturas, inclusive a do Pré-Conselho Regional de Cultura de Pinheiros e pelo
Centro de Integração, Informação e Preparação para o Envelhecimento (CIIPE).

A ação civil pública alegava, ainda, que a implantação da praça excluía a população
da possibilidade de opinar e decidir sobre a não-implantação do parque público, basea-
da no principio constitucional da democracia participativa e tendo em vista que a praça
seria implantada em apenas 13.700 m² de uma área total de 34.008,65 m² destinada para
implantação de um parque público municipal previsto no Plano Diretor Estratégico (PDE),
a área remanescente seria valorizada, o que, segundo o MP serviria, no futuro, para “sa-
ciar o apetite do mercado imobiliário” (SÃO PAULO, 2007, p. 10).

Outro motivo que gerou conflito foi a possível abertura de uma área contaminada
para uso público. Para sanar qualquer dúvida a respeito do nível de contaminação, foram
feitos diversos testes que indicaram o grau de contaminação do solo e da área do inci-
nerador, e a GTZ, em parceria com a CETESB, indicou como essas estruturas deveriam ser
tratadas para não haver risco.

Para consolidar as futuras tratativas entre Editora Abril e prefeitura, foi constituído
o Instituto Abril, uma Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (OSCIP), que
passaria a fazer a gestão da praça. Foi feito um termo aditivo à parceria.

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A Portaria Municipal nº 139/SPPI/GAB/2008 (ANEXO E) foi criada junto com o termo


de cooperação (ANEXO F) e delimita possibilidades e impossibilidades dentro de uma
ação de área pública disciplinando o uso da Praça Victor Civita.

Como parte da parceria no projeto e na implantação da Praça, foi possível compor


outros autores da iniciativa privada para viabilizar a execução da obra. A prefeitura ofere-
ceu o terreno e toda estrutura para a aprovação do projeto e implantação.

O modelo de gestão estudado pelo Instituto Abril propunha que, após a consolida-
ção da gestão, a praça fosse administrada pela comunidade com supervisão da prefeitu-
ra. A partir dessa proposta, em setembro de 2010, foi criada a OSCIP Associação Amigos
da Praça Victor Civita (AAPVC) (ANEXO G). Essa OSCIP tem um conselho presidido pela
Editora Abril. Nesse formato, os parceiros que atuam na manutenção do espaço e dos
projetos são representados no Conselho Diretor e no Conselho Administrativo. Hoje, a
Associação Amigos da Praça Victor Civita é totalmente independente da Editora Abril,
possuindo orçamento próprio e aporte dos parceiros diretamente à Praça.

Atualmente, a Praça conta com outras formas de participação da iniciativa privada


e sociedade civil e, constantemente os termos de cooperação são aparelhados e revistos.
Esse formato torna a gestão mais dinâmica e sempre é possível rever a forma como está
sendo trabalhada.

Os recursos para a construção vieram da Editora Abril, Itaú e Even, que financiaram
os testes, projetos e implantação da praça com o aporte de onze milhões e oitocentos
mil reais. A manutenção é dividida entre os parceiros e soma um milhão de reais por ano.
As parcerias são renovadas anualmente.

A publicidade é feita pela Editora Abril que doa um valor superior ao que é gasto
com a manutenção para divulgar as ações da praça. Segundo a Presidente do Conselho
da AAPVC, Cleide Rovai Castellan24, essa publicidade é responsável por atrair não só o
público, mas também investimentos. Outra fonte de recursos foram os financiamentos
recebidos através de leis de incentivo como o Programa de Ação Cultural da Secretaria
da Cultura do Estado de São Paulo (PROAC) e a Lei Rouanet (Lei de Incentivo à Cultura
do Ministério da Cultura).

24 Entrevista concedida em 07 fev. 2013.

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A prefeitura cedeu o terreno e normatizou a atuação da praça, mas não contribui


com a manutenção, ou qualquer outro incentivo. Em 2013, a prefeitura passou a arcar
com as despesas de água e luz. Esses aportes anuais para a manutenção não se inserem
em nenhuma lei de incentivo, no entanto, algumas reformas como a colocação de cober-
tura da arquibancada, ou a transformação das salas que compõem o incinerador foram
feitas através do PROAC.

O retorno aos parceiros é institucional, gerando visibilidade, marketing e mídia.


Existe uma empresa contratada pela associação que faz a prospecção de patrocinadores.
Quando esses possíveis patrocinadores são identificados, a associação faz a negociação
em parceria com essa empresa. Esse acordo é renovado todos os anos e, desde 2008,
apenas a construtora Even saiu do projeto.

Podemos, então, relacionar o processo de implantação e a atual gestão com o que


vimos no início, e que reflete as condições de transformação do espaço público ao longo
da história. A construção da parceria, levando em conta um projeto que busca qualidades
fundamentais preconizadas entre diversos autores, e que podem criar espaços que, por
sua qualidade, serão apropriados pelo público, abarcando ao mesmo tempo atividades
coletivas e individuais, reflexo da sociedade contemporânea relacionada por meio de
redes, constituem o neourbanismo citado por Ascher (2010).

Como vimos, proteção, conforto e prazer são temas macros que devem ser con-
siderados quando se planeja um espaço. Iluminação, bancos, boas superfícies, respeito
à escala humana, bons materiais, mobiliário urbano que favoreça a contemplação da
paisagem, vistas e fachadas interessantes e a liberdade de escolha das atividades são ele-
mentos considerados por Gehl (2013, p. 239) e que fazem parte das diretrizes observadas
em bons projetos.

Mas a “cidade das ruas” citada por Gehl (2013, p. 38) também abre espaço para
as praças e as valoriza como espaço do descanso e da observação, e os define: a rua
como espaço de movimento e a praça como espaço de experiência; “enquanto a rua
simboliza o movimento – “por favor, siga em frente” –, psicologicamente a praça sinaliza
permanência.”

A criação da Praça Victor Civita carrega em seu projeto vários elementos que são
considerados fundamentais para que seja qualificado como um bom espaço. Segundo
uma das autoras do projeto, a arquiteta Adriana Levisky, existe um respeito muito grande

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por parte da AAPVC pelo projeto. O valor do projeto dentro do processo foi, e ainda é,
muito simbólico e significativo. Essa é a principal característica que faz da Praça um lugar
de qualidade na cidade: apostar no largo alcance de um projeto, desde a concepção do
instrumento de parceria público-privada, até a manutenção desse espaço em transfor-
mação que é a praça.

Vimos que o modelo de gestão foi trabalhado tendo em vista parceiros que pudes-
sem manter o espaço; regulamentos, planejamento, leis de incentivo e publicidade são
capazes de atrair investidores e mantê-los quase sem contar com a atuação do poder
público.

A perspectiva de uso advinda da parceria entre o poder público e o setor privado


que resultou na Praça Victor Civita é o que trataremos no próximo capítulo.

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5. Perspectivas: o espaço
transformado e a comunidade

A
criação, requalificação e transformação de uma área, seja por meio da PPP,
ou apenas pela vontade do poder público, não está completa se o uso do
espaço não é feito pelo público. Avaliar o grau de satisfação, dentro da pers-
pectiva de que a transformação veio a melhorar o bairro no qual o espaço público foi
concretizado, pode ser possível não só por meio da verificação da apropriação pelo
público, mas também pelo reconhecimento de como os usuários são considerados
no momento do projeto, programação e manutenção do espaço.

5.1 Programação e manutenção


A Praça Victor Civita conta com uma programação baseada na sustentabili-
dade e todas as atividades oferecidas são gratuitas. O Instituto Verdescola, um dos
parceiros, desenvolve atividades de educação ambiental, direcionadas para crianças
e adolescentes. Além disso, o espaço oferece música, teatro, práticas esportivas e
exposições.

Segundo a presidente da AAPVC, Cleide Rovai Castellan, “a educação ambien-


tal e a sustentabilidade estão no “DNA” da praça que desempenha um outro papel
importante: o de não ser apenas modelo, mas fórum sobre urbanismo, cidadania e
ocupação do espaço público.” Nesse sentido, a praça pode ser considerada mais um
centro cultural que uma praça, como definida anteriormente, pela abrangência de
suas atividades culturais.

Para o subprefeito Angelo Filardo, o porte dos eventos e da programação ofe-


recida faz com que a gestão do espaço esteja fora do escopo de responsabilidade da
subprefeitura, e que poderia ter uma participação mais efetiva do poder público se
estivesse sob responsabilidade da Secretaria de Cultura que, segundo ele, tem maior
corpo técnico para contribuir com essas decisões.

A administração da praça, portanto, é de total responsabilidade da AAPVC. En-


tretanto, oferecer atividades de qualidade e manter um quadro de profissionais capaz
de programar e coordenar a programação mensal, além de cuidar da manutenção
da praça, requer um orçamento que é captado por meio das leis de incentivo e do
aporte financeiro dos parceiros da praça. Para complementar o valor necessário para

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manter o espaço, foi pensada a possibilidade de alugá-lo para eventos, nos moldes
do que é praticado pela OSCIP, que administra o Auditório do Ibirapuera e, com isso,
gerar recursos para a manutenção. No entanto, os eventos que possivelmente acon-
teçam devem estar inseridos na vocação do espaço e ainda serem realizados somente
nos períodos em que a praça estiver fechada ao público, ou seja, após as 19 horas.

A programação é definida pelo superintendente da Praça Victor Civita. Em mui-


tos casos, os projetos já chegam aprovados e captados; em outros, uma empresa
contratada pela Associação pode inscrever os projetos nos programas de incentivos
oferecidos pelos governos Estadual ou Federal e, após aprovados, os recursos são
captados entre investidores interessados.

Como mencionado anteriormente, a manutenção possui uma verba anual ad-


ministrada pela AAPVC. Esse montante é limitado e inclui gastos com a manutenção,
operação e pessoal. Todos os trabalhos realizados na praça têm de estar enquadra-
dos nas melhores práticas sustentáveis.

No entanto, o espaço público construído por meio da PPP tem limitações de


uso. Podemos notar que a AAPVC tem uma programação pré-estabelecida e voltada
para o perfil do público que quer atrair. São espetáculos concentrados no final de
semana, que vão de rock à música clássica, passando por eventos voltados ao público
infantil 25. A Praça também possui uma programação de atividades regulares diárias
voltadas, principalmente, ao público da terceira idade. Ou seja, o público da Praça é
composto de crianças, jovens e idosos que utilizam o espaço aproveitando a progra-
mação estabelecida.

Um dado curioso é que apesar de ser um espaço público, a PPP não conseguiu
atrair interesse da prefeitura, nem no compartilhamento da manutenção, nem na
própria utilização do espaço para eventos públicos. Ou seja, não há nenhum tipo de
envolvimento do poder público na gestão e utilização do espaço, a não ser pela anu-
ência do supervisor de cultura da subprefeitura que aprova os eventos e atividades
mantidas na praça. Quanto à manutenção, atualmente, a subprefeitura arca com as
despesas de água e energia; no entanto, como já mencionado anteriormente, as pra-
ças que são de responsabilidade da subprefeitura são espaços que não comportam

25 Programação da Praça Victor Civita. Disponível em: <http://pracavictorcivita.org.br/programacaocultu-


ral/>. Acesso em: 24 nov. 2013.

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infraestrutura sanitária, bebedouro ou torneiras, características que configuram o es-


paço como parque e, em tese, estaria de fora do seu escopo e, portanto, do orça-
mento anual da subprefeitura. Podemos entender que a gestão é feita quase exclusi-
vamente pela iniciativa privada.

Conceitualmente, quando as decisões tomadas para o espaço público não pre-


veem a participação popular, pode perder a condição que o define como local de
troca e de manifestações. É o caso do Átrio da IBM que citamos anteriormente. A
partir do momento em que seu novo proprietário, Edward Minskoff, colecionador de
arte, se associa à galeria PaceWildenstein para gerenciar as exposições de esculturas
programadas para o local, o espaço público passa a ser uma extensão da galeria de
arte, ou seja, um espaço subliminarmente voltado ao uso privado.

Para Miller (2007, p. 87), algumas ações, mesmo necessitando da aprovação de


um conselho consultivo, exclui a participação de todos os envolvidos no processo,
resultando na frustação entre os atores que compõem o processo deliberativo sobre
as intervenções no espaço.

Como vimos, o programa dos espaços públicos geridos pelo setor privado pode
fazer com que essas áreas sejam apenas a extensão institucional de uma marca, re-
fletindo valores próprios para reforçar sua própria imagem sem se preocupar com o
que o público espera e precisa.

É importante que o processo decisório sobre o que será feito no espaço tenha
participação do poder público e da população e que seja constantemente revisto e
reavaliado.

5.2 Resultados alcançados


Com relação à reavaliação apontada no item anterior, a AAPVC faz anualmente
o balanço de suas atividades e frequência do público. O objetivo desse balanço é
apontar como tem sido o uso do espaço e como a programação deve ser pensada
para os próximos anos.

O relatório de 201126 apresenta o histórico da praça mostrando o processo de


reabilitação do espaço com conceitos de projetos e gestão. Além disso, as principais

26 Praça Victor Civita – Relatório 2011. Disponível em: <http://pracavictorcivita.org.br/amigos-da-praca/


relatorio-2011/>. Acesso em 15 nov. 2013.

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87

6. Algumas conclusões

V
imos que o espaço público é definido e entendido como local para as manifes-
tações da sociedade. Encerra-se em seu significado o fato de que, para ser de
fato público, deve ser acessível a todos. Esse espaço absorve as transformações
sociais de cada tempo, refletindo em sua tipologia o desejo e comportamento da so-
ciedade que nele se projeta. As tipologias materializadas ao logo da dinâmica urbana
repercutem na concepção dos espaços públicos, em especial na praça que, por princípio,
deve possuir elementos concretos ou subjetivos que favoreçam a convivência, o lazer e as
expressões individuais e coletivas. É nesses espaços que notamos as transformações da
sociedade o que, na cidade contemporânea, tem se traduzido em uma corrente cada vez
maior de valorização desses espaços e cuja construção tem sido feita com a participação
dos diversos atores que compõem a cidade.

É dentro de uma gama de tipologias que representam o espaço público que estão
as praças, espaço livre urbano, local de trocas, manifestações, lazer e contemplação, ar-
borizado ou não, que deve ser capaz de atrair e proporcionar o uso e estar incorporado
ao tecido urbano. Esse espaço efêmero e mutante, mesmo possuindo regras, deve per-
mitir o livre acesso e a máxima expressão, mantendo-se sempre como referencial de lazer
e qualidade de vida.

A necessidade de espaços públicos de qualidade, principalmente as praças que, na


maioria das vezes, são criadas em espaços residuais, nem sempre são foco de atenção do
poder público na construção da cidade, sendo praticamente esquecidas quando os orça-
mentos públicos se tornam cada vez mais reduzidos. Na busca por espaços de qualidade,
a parceria entre o poder público e a sociedade tem sido uma ferramenta que, se bem
equacionada e regida, é capaz de alcançar bons resultados, suprindo uma necessidade
premente para a qualidade de vida nas grandes cidades.

Assim, para caracterizar as relações observadas pela parceria entre o poder público
e o setor privado abordamos conceitos que nos mostram que o público pode ser consi-
derado o que é acessível a todos, enquanto o privado – definido como o que é particular
– não exclui um viés público, pois deve considerar o bem estar comum em suas ações.
Essa característica, que dá ao privado um caráter público, pode ser entendida e exter-
nalizada com as cooperações que têm sido realizadas para a criação e manutenção de
espaços públicos. É por meio de redes que englobam indivíduo e coletivo que a cidade

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contemporânea se movimenta tanto no sentido da troca, quanto na construção de seus


espaços.

Na construção do espaço público contemporâneo, com todas as nuances que com-


põem a sua formação, cabe ainda questionar se o espaço público criado por meio da PPP
é realmente acessível a todos e também democrático.

Mesmo não tendo indicadores que definam exatamente em quais pilares a rela-
ção entre o poder público e o setor privado está embasada, tampouco quais são as
contrapartidas de ambos na construção do espaço público, foi possível notar que a PPP
formada para a construção do espaço público pode não estar ligada ao aumento de po-
tencial construtivo, mas sim relacionada a um ganho do setor privado com sua imagem
veiculada através do marketing institucional alavancado pelo bem público. É claro que as
relações de troca entre o poder público e o setor privado não são feitas de maneira al-
truísta, mas sim por meio de um formato onde ambos visam algum ganho – seja do lado
do poder público, que tem a obrigação e necessidade de criar ou devolver à população
espaços muitas vezes abandonados, seja por parte do setor privado que potencializa sua
imagem com ações de cunho social, que subliminarmente podem representar benefícios
que vão além da imagem e podem alcançar o controle e a moderação das relações e ma-
nifestações sociais. É nesse momento que negociações transparentes e acertadas podem
gerar bons resultados também para o poder público e para a população, com regula-
mentações que não limitem o uso e garantam qualidade no projeto, programação e ma-
nutenção da área. A parceria público-privada formada entre a Editora Abril e a Prefeitura
de São Paulo teve esse caráter institucional, mas aproveitou os anseios da administração
pública da época de revitalizar o espaço e devolvê-lo ao público.

Além disso, a sociedade contemporânea também tem se mostrado bastante ativa


nas demandas e pressões feitas para a construção de bons espaços, envolvendo-se
cada vez mais na gestão e transformação das praças e áreas verdes. Pudemos notar
que, mesmo incipiente, a participação da população nos cuidados com os espaços
públicos de São Paulo tem sido relevante. A cooperação tem sido ferramenta para a
transformação da cidade.

A Praça Victor Civita teve como elemento chave do termo de cooperação o projeto,
que foi elaborado atendendo as demandas dos atores que participaram do processo. Di-
versos setores da administração pública, da sociedade e da Editora Abril foram ouvidos, o
que resultou em um projeto que trouxe, além dos elementos característicos consagrados

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sobre o bom espaço público, questões muito atuais como preservação ambiental e pre-
servação do patrimônio histórico. Além disso, o projeto foi capaz de atrair parceiros que
suportam a manutenção do espaço com todas as suas atividades praticamente sem a
atuação do poder público.

Fica evidente que as atividades desse espaço são programadas pela lógica e pelos
conceitos do setor privado, sempre considerando e controlando a imagem que se quer
passar. Nesse sentido, a participação da prefeitura e até de membros da comunidade
convidados a participar do conselho seria uma forma mais democrática de gerir o espa-
ço. No caso da criação da Praça Victor Civita, o poder público teve o papel fundamental
de reunir diversos setores da administração pública que formularam as diretrizes neces-
sárias para que o projeto fosse elaborado de forma a respeitar as limitações ambientais,
sociais e históricas da área. No entanto, a continuidade da atuação do poder público é
fundamental para que o espaço não seja capitalizado, transformando-se em palco ex-
clusivo das manifestações do setor privado, e deve, portanto, garantir a participação da
sociedade de forma abrangente e democrática, além de acompanhar os reflexos que o
projeto tem ou terá com relação à valorização das áreas do entorno, definindo políticas
que coíbam a especulação imobiliária alavancada por um bom projeto. Essa atuação mais
democrática e participativa é um desafio imposto ao poder público dentro dessa nova
lógica de formatação do espaço público.

Fica claro que viabilizar projetos como o da Praça Victor Civita requer vontade e
preparo de todos os atores envolvidos, não só pelo poder público que deve planejar suas
ações, preparando-se para estabelecer as diretrizes que melhor garantam que espaços
públicos sejam de fato construídos e mantidos para a sociedade, mas também pelo setor
privado que deve estar preparado para os limites e dificuldades que possam aparecer
durante o projeto. Caso contrário, a PPP pode não só gerar maus espaços públicos, mas
também restringir e limitar a expressão da sociedade.

No caso da Praça Victor Civita, podemos observar que, apesar do projeto conter
elementos que caracterizam um bom espaço público, grades, cercas, regulamentos e
horários de funcionamento cerceiam o uso da área. No entanto, esse é um formato cada
vez mais utilizado em espaços públicos, como por exemplo o parque High Line e mesmo
os POPS novaiorquinos, que, também construídos e geridos por meio de PPPs, possuem
regulamentos que, se não são bem coordenados pelo poder público, tendem a virar uma
extensão do grupo que os controla.

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Resta-nos, ainda, questionar que, se a PPP para a construção da praça nos moldes
do que foi firmado para a criação da Praça Victor Civita é uma ferramenta que traz bene-
fícios à sociedade e ao setor privado, por que novas iniciativas como estas não têm sido
mais amplamente aplicadas na cidade de São Paulo? Aparentemente o tempo, entraves
administrativos, altos investimentos e a falta de uma legislação clara que garanta com
mais agilidade os direitos e deveres das partes envolvidas são fatores que ainda devem
ser melhor equacionados, de forma a atrair mais parceiros interessados em participar não
só da construção da cidade mas também dispostos a contribuir para a ressignificação dos
espaços públicos para a sociedade.

Foi possível notar que a parceria público-privada na Praça Victor Civita tem sido,
aparentemente, absorvida pela comunidade e que pode ser tida como exemplo para a
recuperação ou criação de novos espaços de qualidade, uma vez que reabilitou uma área
altamente degradada após intensos estudos que tiveram a participação efetiva do poder
público, resultando em um projeto que previu o desejo da comunidade em sua concep-
ção. Projeto, processo transparente, pessoas e empresas engajadas e, principalmente, o
espírito de cooperação são elementos fundamentais para que a sociedade contemporâ-
nea produza espaços para o público.

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91

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de áreas municipais, em consonância com o disposto no artigo 24 da Lei nº 14.517, de
16 de outubro de 2007; acresce o § 3º ao artigo 2º do Decreto nº 40.384, de 3 de abril
de 2001, que dispõe sobre a doação de bens e serviços e o estabelecimento de parcerias
com a iniciativa privada; revoga o Decreto nº 50.077, de 6 de outubro de 2008. Diário
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98

Anexo A
Tipos de espaços livres

Construindo o espaço - livro.indb 98 13/02/2014 09:08:13


99

Tipos de Espaços Livres


Tipos de Espaços Livres Subtipos Caracterização

APP
Corpos d’água
Encostas
Matas nativas
De caráter ambiental
Dunas
Manguezais
Bosques Urbanos
Florestas urbanas
Mirantes
Pátios
Recantos
Jardins
Largos
Escadarias
Contemplativas
Recreativas
Esportivas
Praças
Mistas
Conservação
Memoriais
Contemplativas
Recreativas
Parques nucleares intraurbanos e Esportivas
lineares da rede hídrica Mistas
Conservação
Especiais: Jd. Botânico, horto
De práticas sociais
Parques de vizinhança
Parques de Bairro
Opção: Parques nucleares
Parques Regionais
Parques da Cidade
Tipo 1 – Alta integridade
Opção: Parques lineares Tipo 2 – Média integridade
Tipo 3 – Integridade nula
Parques de Bolso ou pocket parks
De praia, agregado ou não a
ciclovia
Calçadão
Beira-rio, com ou sem praia, com
ou sem ciclovia
Marítima, fluvial, lacustre
Praia urbana
Orlas tratadas ou não
Quadras esportivas Polivalentes ou não
Campos de futebol de várzea
Piscinão Ex: de Ramos
Piscinas públicas

Construindo o espaço - livro.indb 99 13/02/2014 09:08:13


100

Tipos de Espaços Livres Subtipos Caracterização

Calçadas Arborizadas ou não


Ruas Arborizadas ou não
Avenidas Arborizadas ou não
Vielas
Alamedas
Escadaria / Beco
De espaços livres de circulação Canto de quadra
e pedestres Estradas
Estacionamentos Arborizados ou não
Refúgios
Vias parque
Ciclovias
Caminhos de pedestres
Calçadão De área central ou caráter turístico
Canteiros centrais e laterais de
porte
Rotatórias
Baixios de viadutos
Faixas de domínio Ferrovia e rodovia
De espaços livres associados a
Taludes
sistemas de circulação
Trevos
Terrenos remanescentes de
Em geral ajardinados
sistema viário
Praças viárias
Redes de ciclovias Elementos de lazer e circulação
Margens de reservatórios
Estação de tratamento de água
Estação de tratamento de esgoto
Reservatório de água
De espaços livres associados à
Linhas de alta tensão
infraestrutura urbana
Linhas adutoras
Bacias de detenção/retenção
Viela sanitária
Aterro sanitário (a discutir)
Campus universitário
Cemitério
Centro administrativo
Centro esportivo
De espaços livres associados Centro recreativo
a edifícios e entidades de Escola
serviços públicos Museu
Centro cultural
Hospital e posto de saúde
Parques temáticos
Aeroporto

Construindo o espaço - livro.indb 100 13/02/2014 09:08:13


101

Tipos de Espaços Livres Subtipos Caracterização

Parques
Lajes (tetos de moradia)
Jardins
Praças
De espaços livres privados de Pátios
uso coletivo Parques de bolso ou pockets
parks
Centro campestre / clube de
campo
Centro de compras
Pátios
Jardins
De espaços livres particulares
Bosque
Quintais
Áreas de reflorestamento
Outros
Viveiros de plantas e hortos
Áreas de chácaras ou sítios de
recreio
Pesqueiros
De espaços livres com ou Pastos
sem vegetação significativa, Chácara/horta/sítio
produtivos ou não Haras/criação de animais
ELs industriais
Terrenos não ocupados (espaços
em transição)
Elaboração: Ana Cecília Arruda de Campos, 2011, modificado por nós.

1 Fonte: CUSTÓDIO et al. Espaços Livres nas Cidades Brasileiras. Revista Geográfica de América Central.
Número Especial EGAL, 2011, Costa Rica, p. 1-31. II Semestre 2011. <http://www.revistas.una.ac.cr/index.
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Construindo o espaço - livro.indb 101 13/02/2014 09:08:13


102

Anexo B
Minuta do termo de cooperação

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103

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104

Construindo o espaço - livro.indb 104 13/02/2014 09:08:16


105

Construindo o espaço - livro.indb 105 13/02/2014 09:08:16


106

Anexo C
Ficha técnica

Construindo o espaço - livro.indb 106 13/02/2014 09:08:16


107

Ficha Técnica do Projeto da Praça Victor Civita


Área do terreno 13.648 m²
2.394 m² (área coberta)
Área construída 2.074 m² (deque de madeira)
1.668 m² (deque de concreto)
Adriana Blay Levisky
Autoria do projeto
Anna Julia Dietzsch
Levisky Arquitetos Associados:
Renata Gomes - Arquiteto Associado – Coordenador Projeto
Casey Mahon, Tatiana Antonelli, Lílian Braga, Luciana
Gestão e Coordenação Magalhães, Renata H. de Paula, Cátia Portughese, Gabriela
Kuntz – Equipe Projeto Fernando Lima e Marcelo Ignatios
- Arquitetos - Maquete Eletrônica Luiz André Lanzuolo -
Arquiteto – Maquete Volumétrica
Instalações Grau Engenharia
Estrutura Companhia de Projetos
Luminotécnica Franco & Fortes Lighting Design
Paisagismo Benedito Abbud Paisagismo e Projetos
Gerenciamento CeeMeeSee Engenharia
Fundação Zaclis e Falconi Engenheiros Associados
Sondagem Alphageos Tecnologia Aplicada
Reuso de águas Eduardo Oliveira
Acústica Fernando Iazzetta
Madeira/Recursos Florestais IPT
Comunicação visual OnArt Design
Sonorização e iluminação BPM
Prefeitura de São Paulo, Secretaria Municipal do Verde e Meio
Laudos técnicos e acompanhamento
Ambiente, Cetesb, Emurb e GTZ
Realização Instituto Abril e prefeitura de São Paulo
Parceria Grupo Abril, Itaú, Even e Petrobras
Construção Even
GTZ - Cooperação Técnica Alemã
Instituto Verdescola
Apoio Institucional
CETESB
MASP
Ano do projeto 2006/2007
Ano de construção 2008
Localização Rua Sumidouro 580, Pinheiros, São Paulo SP
Fonte: Vitruvius. Disponível em: http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/projetos/11.126/3946. Acesso
em: 07 mai. 2012.

Construindo o espaço - livro.indb 107 13/02/2014 09:08:17


108

Anexo D
Termo de referência

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109

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110

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111

Construindo o espaço - livro.indb 111 13/02/2014 09:08:32


112

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113

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114

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115

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116

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117

Construindo o espaço - livro.indb 117 13/02/2014 09:08:53


118

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119

Anexo E
Portaria nº 139/SPPI/GAB/2008

Construindo o espaço - livro.indb 119 13/02/2014 09:08:56


120

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121

Construindo o espaço - livro.indb 121 13/02/2014 09:09:02


122

Construindo o espaço - livro.indb 122 13/02/2014 09:09:07


123

Construindo o espaço - livro.indb 123 13/02/2014 09:09:13


124

Construindo o espaço - livro.indb 124 13/02/2014 09:09:14


125

Construindo o espaço - livro.indb 125 13/02/2014 09:09:15


126

Anexo F
Termo de Cooperação

Construindo o espaço - livro.indb 126 13/02/2014 09:09:16


134

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135

Construindo o espaço - livro.indb 135 13/02/2014 09:09:46


136

Construindo o espaço - livro.indb 136 13/02/2014 09:09:50


137

Construindo o espaço - livro.indb 137 13/02/2014 09:09:52


138

Construindo o espaço - livro.indb 138 13/02/2014 09:09:55


139

Construindo o espaço - livro.indb 139 13/02/2014 09:10:03


144

Anexo G
Estatuto AAPVC

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145

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146

Construindo o espaço - livro.indb 146 13/02/2014 09:10:36


147

Construindo o espaço - livro.indb 147 13/02/2014 09:10:41


148

Construindo o espaço - livro.indb 148 13/02/2014 09:10:42


149

Construindo o espaço - livro.indb 149 13/02/2014 09:10:47


150

Construindo o espaço - livro.indb 150 13/02/2014 09:10:52


151

Construindo o espaço - livro.indb 151 13/02/2014 09:10:56


152

Construindo o espaço - livro.indb 152 13/02/2014 09:10:57


153

Construindo o espaço - livro.indb 153 13/02/2014 09:11:01


154

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Anexo H
Entrevista

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