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Gênero, corpo e políticas de produção do conhecimento: a experiência de

construção coletiva de uma oficina de Ginecologia Autônoma


Janaina de Araujo Morais

Introdução
A hierarquia das relações Norte-Sul constituídas nos processos de colonização,
permanecem, atualmente, por meio da persistência de relações capitalistas, imperialistas
e sexistas, sendo a colonização epistêmica um dos eixos dessa dominação. No Norte
global, os “outros” saberes, para além da ciência e da técnica, têm sido produzidos
como não existentes e, por isso, radicalmente excluídos da racionalidade moderna,
sendo descritos como reminiscências do passado, condenados a um esquecimento
inevitável.
Dessa forma, os saberes populares, quilombolas, indígenas, camponeses ou
oriundos das lutas sociais, das manifestações políticas e artísticas ficam excluídos das
esferas acadêmicas, como conhecimentos menores ou menos importantes. O único
conhecimento válido é eurocêntrico, assim como o é seu formato de aprendizado. E isso
tem um efeito nefasto, pois o legado epistemológico do eurocentrismo nos impede de
compreender o mundo a partir do próprio mundo em que vivemos e das epistemes que
lhes são próprias. Romper com isso implicaria, então, conhecer o sul sob outro olhar,
que não é o olhar do ocidente, como bem destacado por Mohanty (2008). E para isso
seria necessário nos orientarmos em direção a uma descolonização mental e corporal
para nos libertarmos desse opressor que reside em nós. Como Audre Lorde afirma “A
casa do amo não se desarma com as ferramentas do amo” (LORDE, p.91, 1988), por
isso a importância de reconhecer a multiplicidade de pensamentos e epistemes.
As Epistemologias do Sul - conceito proposto por Boaventura de Sousa Santos,
em 1995 - surgem exatamente para problematizar a colonização epistêmica e reivindicar
novos processos de produção do conhecimento. As Epistemologias do Sul procuram
valorizar conhecimentos e saberes, científicos ou não, que surgem a partir da prática de
resistência de grupos sociais que tem sofrido, sistematicamente, opressão e
discriminação, buscando romper com a hierarquia entre os saberes - não existe um único
saber verdadeiro ou válido - criando uma verticalidade e articulação entre eles e
promovendo um diálogo intercultural entre as diferentes lutas sociais. Essa proposta não
se trata de criar uma ciência alternativa, mas de resgatar e dar luz a todos esses
conhecimentos desacreditados e invisibilizados em detrimento de um conhecimento
eurocêntrico, tido como verdadeiro ou mais importante.
Essa problemática da pós-colonialidade passa, então, por uma revisão crítica de
conceitos hegemonicamente definidos pela racionalidade moderna, como sejam história,
cultura ou conhecimento, a partir de uma perspectiva e condição de subalternidade.
Assim, levando tudo isso em consideração, neste trabalho, busco fazer uma reflexão
sobre a produção do conhecimento médico científico sobre o corpo feminino, que se
estabeleceu com a institucionalização da medicina, procurando compreender as políticas
de produção desse conhecimento e as relações de poder hierárquicas que envolvem essa
produção.
A partir da perspectiva das Epistemologias do Sul e do feminismo pós-colonial, o
presente projeto tem como propósito fazer uma reflexão sobre o processo de
medicalização do corpo feminino, mais especificamente da menstruação e a prática da
Ginecologia Autônoma1, buscando perceber como essa prática que busca resgatar a
sabedoria intrínseca de cada corpo menstruante e valorizar os saberes e conhecimentos
populares e vindos das lutas feministas, que foram negligenciados pela medicina
alopática convencional, pode ser capaz de transformar a realidade destes corpos,
funcionando como uma forma de resistência e re-existência à colonização epistêmica e
dos corpos femininos.
Através da experiência de uma oficina de Ginecologia Autônoma, proposta por
mim e construída coletivamente com outros corpos menstruantes, este projeto busca
relatar o processo de construção da oficina e perceber como um espaço construído
coletivamente para que uma diversidade de corpos menstruantes se expressem, troquem
saberes e práticas sobre seus corpos, ciclos e sexualidade pode ser capaz de transformar
a realidade destes corpos e a realidade social. Seguindo uma metodologia de pesquisa
não extrativista, inspirada pela pedagogia participante proposta pela professora Ivani
Ferreira Faria2, este projeto busca, então, refletir sobre a prática da ginecologia

1
A Ginecologia Autônoma é uma prática que busca incentivar mulheres e outros corpos menstruantes a
conhecerem seus corpos (tocá-los, senti-los, examiná-los), para poderem cuidar de sua própria saúde, sem
necessariamente romper completamente com a ginecologia convencional, mas sim, utilizá-la em seu
benefício, trabalhando o conceito de Body Literacy (Alfabetização do Corpo) - um corpo menstruante se
alfabetiza, quando aprende a observar, registrar e interpretar todos os eventos associados ao seu ciclo
menstrual, a partir de seu ponto de vista.
2
O texto disponibilizado na plataforma virtual da CLACSO não tem ano, local de publicação ou
paginação: FARIA, Ivani Ferreira. Metodologias Participantes e conhecimento indígena: uma proposta
intercultural para autonomia.
autônoma, a partir de um espaço co-criado com outros corpos menstruantes, com o
objetivo de valorizar os saberes e vontades de cada um desses corpos.
Acredito que esse tipo de prática pedagógica que busca criar uma troca de
saberes, sem hierarquias, buscando valorizar todo o tipo de conhecimento, seja teórico
ou experiencial, é extremamente importante para romper com a monocultura do saber
na academia e mesmo no nosso cotidiano e será extremamente interessante trabalhar
com essa base metodológica nas oficinas de Ginecologia Autônoma. O conhecimento é
plural, emerge de diversos lugares e toda forma de conhecimento é válida. É
importante, então, praticar uma humildade epistemológica e estarmos sempre abertos a
ouvir e alterar o curso programado seja de uma aula, de uma conversa, de uma pesquisa
ou prática artística. Essa, então, será a visão que norteará o projeto, que ainda não
possui uma delimitação fechada e consolidada, haja vista que esta construção se dará na
prática e na experiência do desenvolvimento coletivo dessa oficina.

Medicalização do corpo feminino e da menstruação


A professora e médica Elizabeth Meloni Vieira (2002) aponta como a
institucionalização da medicina, forjada a partir do século XVIII, irá possibilitar o
projeto de higienização da sociedade e o papel o qual os médicos vão desempenhar no
projeto disciplinador dos corpos. “O processo de naturalização do corpo feminino, que
se promoverá, articulando condição orgânica e de gênero, será necessário para
conformar este objeto, assim como a criação de uma nova disciplina médica: a
obstetrícia” (VIEIRA, 2002, p.15). A medicalização3 do corpo feminino se estabelece
no século XIX, em meio aos discursos de exaltação da maternidade. Até então, o
conhecimento sobre o corpo feminino era exclusividade das mulheres (VIEIRA, 2002).
Vários autores afirmam que nesse processo houve a execução de milhares de
pessoas na Europa Ocidental, das quais 70% a 90% eram mulheres,
principalmente no período de 1563 a 1727 (Turner, 1987). Ehrenreich &
English (1976) argumentam que a história da caça às bruxas e a extinção das
curandeiras devem ser vistas como parte da história da exclusão das mulheres
da „prática médica‟, já que na Europa Ocidental havia uma antiga tradição de
mulheres sábias – as curandeiras, as parteiras e as herboristas. Para as
autoras, a caça às bruxas fez parte de uma estratégia do Estado e da Igreja
para monopolizar o saber acerca da cura de doenças e legitimá-lo como saber
médico através das universidades criadas no Renascimento (VIEIRA, 2002,
p. 48).

3
Ao se falar em medicalização, estamos nos referindo ao processo de transformar aspectos da vida
cotidiana em objetos da medicina de forma a assegurar conformidade às normas sociais (Miles, 1991
apud Vieira, 2002).
Waleska Aureliano (2009) afirma que a biomedicina foi crucial para a definição do
sujeito-mulher e também para a definição dos papeis sociais atribuídos à mulher em
função de sua anatomia, distinguindo-a completamente do homem. Ela acrescenta que,
nesses discursos, o biológico seria “o fator determinante da „personalidade feminina‟,
impossível de ser outra, mas suscetível de controle e ajustamento através da „educação
das mulheres‟ e da construção moral por meio das suas „funções naturais‟ como a
maternidade” (AURELIANO, 2009, p. 50). Como a produção do conhecimento médico-
científico, durante a consolidação da medicina enquanto ciência foi essencialmente
masculina, segundo a autora, os discursos sobre o corpo da mulher estão carregados de
uma moral que coloca a mulher como “ser primordialmente „natural‟ e „orgânico‟ em
oposição ao homem, um ser „cultural‟ e „histórico‟” (AURELIANO, 2009, p. 55).
Essa determinação biológica da mulher a inscrevia no espaço privado do lar e
das funções maternais e domésticas. Sua „natureza emotiva‟ seria ideal para
gerar e cuidar dos filhos. A maternidade aparece nos discursos como uma
„obrigação biológica‟; não é uma escolha, mas uma determinação orgânica.
Por outro lado, o homem é lançado na esfera pública; sua „natureza‟ lhe
permitiria ser um ser social e intelectual. Não estando determinado pelas
funções procriativas, embora seja parte essencial dela, o homem é lançado no
universo „racionalizado‟ da cultura e, não tendo útero nem ovários, poderá
desenvolver plenamente sua capacidade intelectual. A mulher estaria
destinada ao ambiente privado do lar; seu mundo seria o mundo natural dos
afetos, do corpo e do sexo. Ao homem caberia atuar na esfera da vida
pública, já que pertenceria ao mundo cultural do trabalho, do dinheiro e da
ciência. Assim, os discursos médicos ocidentais dos séculos XVIII, XIX e do
início do século XX engendravam e encerravam a mulher dentro de „sua
biologia‟, recortando e minimizando as suas possibilidades de se pensar
como sujeito cultural plenamente autônomo, além de definir papéis sociais e
determinar os usos do seu corpo em função do seu sistema reprodutor,
provocando uma alienação da mulher em relação ao seu próprio corpo.
(AURELIANO, 2009, p. 56).

A concepção da menstruação na sociedade ocidental como algo ruim e o sangue


menstrual como um agente poluidor, dotado de impurezas, despertando, geralmente,
nojo e aversão - sensações essas que podem ser estendidas ao corpo menstruante - não
apareceu até o século XIX. Segundo Chris Bobel (2010), na Idade Média a palavra flor
era comumente utilizada para se referir à menstruação. Endossando esse argumento,
Vieira (2002) aponta que, segundo a medicina grega, a menstruação era encarada como
uma evacuação purificadora e favorável à saúde.
O purgativo menstrua era explicado pela teoria da pletora. Aristóteles e
Galeno, assim como todos os médicos até o século XVIII, diziam que a
mulher tinha um estado natural de pletora, que a menstruação agia como
agente regulador do sangue e que somente na gestação poderia ser suprimida,
sem causar inconvenientes. (Cesar, 1924 apud VIEIRA, 2002, p. 42).
Bobel (2010) cita o trabalho do historiador Joan Brumberg, que afirma que durante a
era Vitoriana médicos começaram a interferir no que vinha sendo de domínio feminino,
assumindo o papel de especialistas, tomando controle da definição e dos tratamentos
que envolvem a menstruação, culminando em um aumento da demanda médica. O novo
conhecimento medicalizado tomou a forma de guias de saúde e higiene. E o que foi
central para este roteiro, segundo Bobel (2010), foram as particularidades de proteção
sanitária, que rapidamente se materializaram como marcas da modernidade, privilégio
de classe e respeitabilidade. Assim, através da etiqueta menstrual, cada vez mais, foi
possível engajar autonomamente adolescentes como consumidoras.
Daniela Manica (2009) cita o trabalho da antropóloga Emily Martin, que busca
tratar a ciência como um sistema cultural que produz uma série de significados e
metáforas sobre o corpo. Segundo a autora, ao falar sobre menstruação e menopausa,
Martin mostra como a menstruação foi frequentemente definida, em textos médicos,
como um processo de desintegração, uma hemorragia, sempre como algo negativo. “Em
outras palavras, a reprodução é, por excelência, a forma de produção esperada para o
corpo feminino, e tanto a menstruação como a menopausa são vistas como uma falha
nessa produção” (MANICA, 2009, p.245).
Chris Bobel (2010) aborda este assunto apontando como os corpos que não estão
dentro do padrão desejado, serão sempre vistos como problemáticos, com necessidades
de correção através do veículo de consumo. No caso da menstruação, o problema é sua
própria existência; a solução é tornar o processo invisível, contendo o sangue menstrual,
ou progressivamente eliminando-o através de ciclos contínuos de contracepção,
suprimindo a menstruação. “Leaky, liquid, flowing menstruation - a uniquely female
experience associated with sexuality - is constructed as a shameful form of pollution
that must be contained. Menstruation, then, is constituted as a problem in need of a
solution” (BOBEL, 2010, p.31).
A partir da análise da trajetória social dos contraceptivos que podem provocar a
supressão dos sangramentos mensais, lançados a partir de 1999 no mercado brasileiro,
Manica (2009) mostra a transformação da abordagem das indústrias farmacêuticas em
relação à menstruação e como no momento em que é percebido um contexto favorável à
supressão da menstruação, o investimento simbólico da indústria farmacêutica passa a
ser na menstruação como causa de doenças ou deficiências e incômodos para a vida
social e, consequentemente, na ausência da menstruação como algo positivo, benéfico
ou desejável.
Vieira (2002) apresenta o trabalho de Ehrenreich & English, que assinalam que o
poder da medicina de transformar eventos fisiológicos em doenças representa uma das
mais poderosas fontes da ideologia sexista na cultura ocidental. “A „doencificação‟
desse corpo apresenta-se como fruto de uma medicalização que trata a gravidez e a
menopausa como doença, transforma a menstruação em distúrbio crônico e o parto em
evento cirúrgico”. (VIEIRA, 2002, p.24-25).
Tendo estas questões em mente, no próximo item irei empreender uma reflexão
sobre a prática da Ginecologia Autônoma e logo em seguida a experiência de
construção coletiva das oficinas.

Ginecologia Autônoma
Muitas mulheres, seja individual ou coletivamente, tem problematizado o
conhecimento médico científico, percebendo as relações de poder que envolvem a
produção desse saber e reivindicando o lugar legítimo que ocupava (antes da
institucionalização da medicina), como detentora de um saber intrínseco sobre seu
próprio corpo. Atualmente, está cada vez maior o número de pessoas ou coletivos que
incentivam a prática de uma ginecologia com autonomia, também conhecida como
ginecologia autônoma ou auto-ginecologia.
A ginecologia autônoma é uma prática que surge a partir do movimento self-
help iniciado na década de 1960, que instigava as mulheres a conhecerem seu próprio
corpo e sexualidade, usando o exercício do autoconhecimento como forma de
libertação. Uma metodologia muito utilizada por este movimento era a dos grupos de
consciência e reflexão feministas, em que várias mulheres se reuniam nas casas umas
das outras, ou em locais públicos para expressarem e reconhecerem suas próprias
experiências, além de discutirem temas diversos relacionados ao contexto do
momento. Nestes encontros, as mulheres compartilhavam histórias pessoais,
observavam o próprio corpo e o corpo das companheiras e questionavam o saber
médico e científico. Assim, a ginecologia autônoma é uma prática que busca incentivar
mulheres e outros corpos menstruantes a conhecerem seus corpos (tocá-los, senti-los,
examiná-los), para poderem cuidar de sua própria saúde, sem necessariamente romper
completamente com a ginecologia convencional, mas sim, utilizá-la em seu benefício,
trabalhando o conceito de Body Literacy (Alfabetização do Corpo). Dessa forma, é uma
prática que procura resgatar a sabedoria intrínseca de cada corpo e valorizar os saberes e
conhecimentos populares e vindos das lutas feministas, que foram negligenciados pela
medicina alopática convencional.
O meu contato com a Ginecologia Autônoma se deu a partir de uma inquietação
pessoal, quando comecei a questionar um diagnóstico precoce de Síndrome dos Ovários
Policísticos, que me levou a tomar pílula contraceptiva por dez anos. Quando decidi
parar de tomar a pílula e comecei a pesquisar por tratamentos alternativos, tive contato
com uma rede transnacional de corpos menstruantes que estavam buscando conhecer
seus corpos, se apropriar do saber médico e da cura através das plantas. Tive contato
com mulheres que estavam praticando os Sagrados Saberes Femininos4, mulheres que
estavam fazendo arte com o próprio sangue menstrual e mulheres que estavam
praticando uma ginecologia política, autônoma e natural. A partir desse contato inicial
eu comecei a buscar cursos, formações, coletivos, círculos de mulheres para que eu
pudesse participar e me aprofundar mais. Além disso, inspirada pelas mulheres que
faziam arte menstrual, comecei também a criar artisticamente imagens fotográficas e
vídeos com meu próprio sangue, em uma tentativa de ressignificar a minha relação com
a menstruação, que pelos anos de contraceptivo, estava em um modo de operação
automática, sem muita reflexão.
Nessa rede descobri o coletivo feminista mexicano, Vulva Sapiens, construído
por cinco mulheres investigadoras com diferentes formações (antropólogas,
historiadoras, sociólogas e etc.) que possuem grande interesse em temas como a saúde
feminina, a ginecologia autogestiva, a apropriação e construção do corpo e sua
dimensão política. O Coletivo se articula principalmente nas redes sociais, por meio de
um blog e uma página no facebook em que divulgam vários conteúdos relacionados aos
temas pesquisados. Elas também desenvolvem um curso online de Ginecologia
Autônoma com duração de três meses, em que repassam vários materiais teóricos e
atividades práticas para estimular o autoconhecimento sobre o corpo.
Fiz o curso online do coletivo e também outras formações e cursos que
envolviam a saúde dos corpos menstruantes e terapias alternativas. Depois de algum
tempo pesquisando sobre o tema e agregando conteúdo, fui percebendo que as
informações as quais eu estava descobrindo eram muito valiosas e poucas pessoas
tinham acesso, necessitando serem compartilhadas. Assim, em 2016 desenvolvi um

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Através de um resgate dos conhecimentos ancestrais milenares das tradições matrifocais e dos cultos
geocêntricos, elas procuram resgatar o poder feminino, estimulando as mulheres a buscarem
autoconhecimento e a despertarem essa sabedoria intrínseca sobre si mesma.
projeto intitulado Meu Corpo, Meu Sangue – ressignificando a menstruação, financiado
pela Lei Municipal de Incentivo à Cultura de Juiz de Fora, Minas Gerais, Brasil, que
buscou incentivar os corpos menstruantes a conhecerem seus corpos, seus ciclos e sua
sexualidade, por meio da arte menstrual e da ginecologia autônoma. O projeto envolvia
a criação de uma exposição interativa com as imagens fotográficas criadas a partir do
sangue menstrual, o desenvolvimento de uma rede social para o compartilhamento das
informações frutos das pesquisas e vivências e a realização de uma oficina de
Ginecologia Autônoma.
A primeira oficina realizada foi gratuita e teve duração de quatro horas. Essa
primeira experiência já mostrou que esse tempo era insuficiente para passar todo o
conteúdo que eu tinha disponível e também o quão carente os corpos menstruantes
estavam de informação e espaço para poderem se conhecer e compartilhar
conhecimento.
O projeto Meu Corpo, Meu Sangue me instigou a ir mais fundo nas pesquisas e
eu desenvolvi um projeto de doutorado buscando pesquisar a medicalização da
menstruação e a prática da Ginecologia Autônoma. O projeto foi aprovado e eu iniciei o
doutorado em 2017, dando continuidade também às oficinas de Ginecologia Autônoma.

Oficinas de Ginecologia Autônoma: metodologias, conteúdos e desafios


Desenvolvi duas modalidades para as oficinas: intensiva e regular. A intensiva
eu procurei compilar o maior número de conteúdo em um curto espaço de tempo,
acontecendo em momentos pontuais como um evento de fim de semana (dois dias, com
carga horária de 15 horas) e a regular eu tive mais tempo e mais conteúdo disponível,
fazendo encontros semanais de duas horas, às quintas-feiras, durante três meses (carga
horária de 24 horas).
A oficina foi conduzida buscando criar um espaço de confiança, que estimulasse
a troca de informações, saberes e histórias sobre ciclos femininos, menstruação,
sexualidade, masturbação, ejaculação, formas de contracepção, anatomia e auto-
exploração, enfermidades comuns (cólica, candidíase, infecção urinária, ovários
policísticos, miomas, endometriose, etc.) e tratamentos naturais (uso de ervas, chás,
banhos, vaporização uterina), entre outros temas relacionados.
As participantes tiveram a oportunidade de aprender a utilizar algumas
ferramentas úteis para o conhecimento do próprio corpo e suas transformações (diário
menstrual, mandala lunar, uso do espéculo, termômetro basal e percepção do muco
cervical, seios, vulva e cervix), dentre outros. Além disso, todo o conteúdo foi
desenvolvido para que houvesse uma parte teórica e reflexiva de troca de informações e
uma parte prática que envolvesse o corpo e as emoções, seja por meio de meditação
conduzida, ritualísticas, práticas de expressão artísticas e consciência corporal
(individuais e ou coletivas), dentre outros tipos de exercícios que estimulassem um
contato consigo, com o outro e o entorno.
O perfil das pessoas que participaram das oficinas até então é composto
majoritariamente por mulheres brancas, cis, universitárias, com faixa etária entre 18 a
35 anos, apesar de termos algumas mulheres negras e apenas uma mulher com idade
acima de 50 anos. No que diz respeito à orientação sexual o grupo é bem diversificado
tendo mulheres que se consideram heterossexuais, bissexuais e lésbicas. Acredito que
mesmo sendo um grupo que aparentemente parece homogêneo, a história individual de
cada uma revela a heterogeneidade do grupo.
Ao trabalhar com a ideia de autonomia e liberdade dos corpos menstruantes,
além de resgatar o saber intrínseco de cada pessoa, desde o princípio, o propósito era
instigar a troca de saberes entre as participantes. Então, ainda que eu tivesse um vasto
conteúdo para passar, a metodologia foi pensada para que cada uma pudesse
compartilhar suas vivências, experiências e saberes5. Assim, o tempo todo eu tentava
deixar claro que ali não havia uma posição hierárquica em que eu era a pessoa detentora
de todo o saber e enfatizava como cada pessoa ali tinha um saber importante para
contribuir.
Também, desde o princípio o intuito era que os corpos menstruantes se
tornassem cada vez mais ativos e participantes na construção dos conteúdos e do
espaço, deixando cada vez menos a responsabilidade para mim, e cada vez mais
desenvolvendo uma ideia de coletividade, compartilhamento e pertencimento com a
oficina e o espaço, para que elas sentissem que, ainda que essa proposta partisse de
mim, a oficina não era algo meu, se não nosso, entretanto, essa não foi uma tarefa fácil.
Primeiro porque, é um tema muito novo para a maioria das pessoas que participavam,
então, muitas não sabiam nem o que esperar do curso, muito menos quais conteúdos
gostariam de ver, e menos ainda estavam abertas a contribuir e construir junto comigo
tal propósito.

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Inspirada na metodologia dos grupos de consciência e reflexão feministas da década de 1960 e 1970.
Um dos maiores desafios que tive foi trabalhar a ideia de autonomia, liberdade,
auto-cuidado, auto-reponsabilidade e auto-cura com elas. A construção social da
sociedade ocidental faz com que as pessoas criem relações de co-dependência com os
outros, buscando a solução para seus problemas sempre em outrem, seja em um Deus,
em um médico, em um guru, um professor, um especialista, a mãe, o pai, o namorado
ou a namorada, a esposa ou o marido, e por aí vai. Em quase nenhum momento a pessoa
é convidada a buscar a solução dos seus problemas em si mesma, se responsabilizando
pelas coisas que acontecem em sua vida, buscando se conhecer e conhecer seu corpo,
então, muitas entravam ali ainda com a ideia de que eu era a mestra que detinha todas as
respostas e curas para seus problemas e eu o tempo todo tentando desmistificar essa
ideia e mostrando que o caminho era de busca pessoal, subjetiva, de cada uma consigo
mesma.
Então, na modalidade intensiva, por exemplo, que eu tinha pouco tempo pra
passar o máximo de conteúdo, não era possível engajar essas mulheres na construção do
conteúdo e do espaço. A primeira turma regular eu tive pouco sucesso com isso
também, algumas contribuições muito tímidas, mas eu ainda sentia muito a
responsabilidade de todas as questões que envolviam o grupo. Já na segunda turma
regular, que havia muitas mulheres que já tinham participado da oficina regular anterior
(incluindo uma amiga6 que passou a se engajar efetivamente na construção da oficina),
ou mesmo de alguma oficina intensiva (só entrava nessa turma quem já tinha um
mínimo de conteúdo prévio), essa questão foi mudando um pouco de figura.
Principalmente, porque, desde o início eu comecei a trabalhar fortemente essa questão
da autonomia e da auto-responsabilidade, chamando cada vez mais a participação dessas
mulheres.
Outra questão que mudou foi que pelo fato de todas já terem um conteúdo prévio
e já estarem mais seguras sobre o valor de seus próprios saberes, eu pude reduzir o
momento da minha fala, que foi ganhando mais um viés de relato pessoal, e pude abrir
mais para o compartilhamento coletivo, além de dar mais tempo para a parte prática. As
práticas em si, foram extremamente importantes para desenvolver o elo entre as
participantes, que antes nem se conheciam. Apesar das trocas por meio da fala serem
imensamente importantes, pelo fato de muitas irem se identificando com a história da

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A Priscilla Cotti Paredes se tornou uma grande aliada na construção das dinâmicas e conteúdos da
oficina, tendo participado da primeira oficina que realizei em 2016 e da primeira turma regular em 2017,
foi, aos poucos, se engajando cada vez mais no movimento da Ginecologia Autônoma, querendo
participar e construir em conjunto as oficinas.
outra e irem vendo a questão sistêmica que envolvem suas trajetórias pessoais, somente
a prática foi capaz de realmente fazê-las sentirem no corpo o que antes estava apenas
em uma esfera reflexiva e teórica e de trocas orais. Então, realizar uma meditação
conduzida, por exemplo, fazendo as mulheres percorrerem um caminho explorando a
anatomia da vulva, canal vaginal, até entrarem em seus úteros e conversarem com eles,
após um conteúdo em que discutimos sobre a anatomia do corpo, sobre a omissão de
partes do nosso corpo e sobre a pouca valorização da região do baixo ventre e como isso
se reflete na nossa relação com nosso corpo, ganha outra dimensão depois que cada uma
participa dessa prática conjunta e compartilha o que viveu.
Essa experiência nas oficinas corroborou muito com o que a professora Ivani
Ferreira Faria aborda sobre a importância da prática no ensino. “Observou-se que se
aprende melhor na prática, experimentando, fazendo. Não estamos aqui descartando a
importância da teoria, mas criticando a teoria demasiada do sistema educacional e nas
“aulas” o que promove o afastamento da escola, da sociedade” (FARIA, s/ano, p.17).
Assim, depois de um tempo convivendo juntas, aprendendo mais sobre si, sobre
seus corpos, compreendendo melhor as suas transformações e suas emoções,
compartilhando histórias pessoais fortes e passando por esse tipo de vivência coletiva, o
grupo foi cada vez mais se consolidando, se aliando e se ancorando e cada vez mais
foram se interessando por pesquisar outros conteúdos e explorar seus corpos
individualmente e coletivamente, zelando por aquele espaço nosso e construindo juntas
o que estávamos vivendo, sugerindo temas, trazendo conteúdos, criando encontros para
além daquele momento, construindo uma ideia mesmo de coletividade e de irmandade.
Percebi então, que para criar o que eu estava buscando desde o primeiro
momento, leva tempo e paciência. Não foi possível já de início introduzir um modelo
metodológico participante nas oficinas. Talvez porque, as integrantes não estivessem
prontas, mas também porque eu não estava pronta e, em realidade, ainda estou
aprendendo a lidar com esse tipo de modelo pedagógico. Acredito que isso se deve pelo
fato da nossa educação ser baseada em um modelo conservador e autoritário do sistema
brasileiro, que segue uma educação instrucionista e colonialista, pautado no currículo
fechado disciplinar com conteúdos em sua maioria teóricos e distantes do cotidiano e
dos contextos socioculturais dos estudantes (FARIA, s/ano).
Então, a princípio as oficinas seguiram mais um modelo participativo7, em que
eu apresentei a estrutura, e conteúdos prontos, buscando aos poucos ir instigando as
participantes a adentrarem nesse universo e irem se engajando com a produção da
oficina. Essa ideia foi sendo aprimorada na segunda turma, quando, apesar de termos
um conteúdo mais ou menos delimitado, esse conteúdo foi sendo modificado a cada
encontro, a partir da inquietação e das questões que as participantes iam trazendo, suas
emoções e sentimentos, e também levando em conta o contexto social do momento.
Muitas vezes o conteúdo da oficina era mudando no momento mesmo do nosso
encontro, pois muitas vezes surgia algum assunto mais denso, que não combinava com a
prática que eu tinha programado e eu tinha que estar pronta pra modificar e fazer algo
diferente, que atendesse aos anseios das integrantes. Então, foi algo que me ensinou
muito, a não estar apegada às estruturas e ir seguindo o fluxo das demandas do grupo e
do momento. E também foi uma prática pedagógica que acredito que teve consonância
com o que Faria aborda sobre o “Currículo Post-Factum”.
O currículo é construído à medida que se desenvolve, por meio das
problemáticas definidas coletivamente pelos discentes, a partir de seu
cotidiano e contexto sociocultural e econômico, sobremaneira que este
nunca se repete pois os discentes não são os mesmos nas próximas
turmas. Não são os professores que definem as problemáticas mas os
estudantes (FARIA, s/ano, p.10).

A minha sensação ao ter realizado as oficinas é que nenhuma oficina será igual a
outra, pois nem os conteúdos e nem os participantes serão os mesmos e, muito menos,
eu serei a mesma. E, acredito ainda, que agora, será possível finalmente utilizar a
metodologia participante em sua potencialidade, visto que, as oficinas estão tomando
um caráter de coletividade - muitas participantes estão realizando suas próprias
pesquisas, querendo iniciar movimentos, construir projetos juntas estão de fato
envolvidas com a ideia de construírem suas próprias realidades, a partir do que foi
vivenciado.
A pesquisa participante, tem como um dos pressupostos, o envolvimento
dos povos/comunidades como sujeitos, visando legitimá-los, dando-lhes
visibilidade e maximizar o impacto social tanto do resultado da pesquisa,

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“Faria (2009; 2015) distingue as metodologias participativas, das participantes. A metodologia e o
planejamento participativo são definidos e planejados pelos „outros‟, de forma exógena e alienígena, de
fora para dentro, que podem ser governos, pesquisadores, e organizações não-governamentais para
legitimar seus projetos e planos pré-elaborados usando o discurso da participação, quando a sociedade
figura como objeto de convencimento e „manipulação‟, sendo necessária apenas em uma das fase do
processo. Neste sentido, o Estado, quando se trata de elaborar políticas e executar projetos, capturou o
termo participativo como princípio das ações governamentais usados em diversos Ministérios, no caso do
Brasil” (FARIA, s/ano, p.3).
quanto dos processos pedagógicos e da partilha dos conhecimentos ao longo
do processo promovidos pela leitura crítica de suas sociedades. Assim, na
pesquisa participante a população/povo/comunidade é instigada a participar
da pesquisa como sujeito ativo, produzindo conhecimento, e intervindo na
sua sociedade, tornando-se um instrumento no sentido de possibilitá-los a
assumirem seu próprio destino. (FARIA, s/ano, p.3).

Me agrada muito a ideia das metodologias participantes pelo fato de engajarem


as pessoas envolvidas no processo, buscando despertar o poder pessoal e coletivo dos
atores envolvidos, visando construir projetos para intervir em seus contextos com
autonomia. E era exatamente isso que eu gostaria de despertar com as oficinas de
Ginecologia Autônoma e acredito que, mesmo com seus percalços, obtive êxito.

Considerações Finais
A partir das discussões empreendidas neste trabalho é possível perceber que a
prática da Ginecologia Autônoma, apesar de não romper completamente com a
medicina convencional, problematiza a produção do conhecimento médico científico, -
que, sistematicamente, invisibilizou os saberes e inquietações dos corpos menstruantes -
buscando dar ênfase ao conhecimento que surge da experiência, destacando as
dimensões sensoriais, afetivas e cognitivas que emergem dela e galgando formas
alternativas de viver, pensar e sentir para muito além do que o pensamento racional
moderno permite. Desta forma, a Ginecologia Autônoma abre a reflexão para pensar
que vários domínios tidos como universais, tais como a epistemologia e a medicina, são
historicamente peculiares e suas reinvindicações em relação à verdade estão conectados
às práticas e valores sociais do momento. Assim, percebo essa prática como uma
resistência, que permite uma re-existência de saberes, histórias e corpos que não
permitem mais ficarem à margem de sua própria história.
Também é possível refletir, a partir das experiências de construção coletiva das
Oficinas de Ginecologia Autônoma, tendo como bússola uma metodologia de ensino e
pesquisa participante, sobre a dificuldade de implementar esse modelo, em um primeiro
momento, visto que o modelo colonizador, opressor, ao qual fomos submetidos toda
uma vida, ainda está tão enraizado em nossas mentes que, mesmo quando a liberdade e
a autonomia nos é oferecida, não sabemos lidar com elas, pois não foi a forma na qual
aprendemos a viver. Ivani mesmo comenta que “não é fácil romper com anos de uma
formação autoritária, conservadora e instrucionista a qual fomos e somos submetidos
cotidianamente (FARIA, s/ano, p.13).”. Então, somente com tempo seria possível
construirmos modelos educacionais e pedagógicos em que os alunos ou participantes de
cursos possam de fato se engajar na produção do conteúdo e construção daquele espaço.
A Ginecologia Autônoma, com a sua própria metodologia vinda dos grupos de
consciência feministas, aliada à metodologia de ensino e pesquisa participante provou
ser uma ferramenta de transformação política, cultural, social e pessoal muito potente.
Mesmo com as dificuldades do percurso, acredito que o resultado final da pesquisa foi
positivo, pois tanto eu quanto as pessoas envolvidas conseguimos aprender muito sobre
nós mesmas, sobre nossa coletividade e nosso entorno, nos engajando cada vez mais na
transformação da nossa realidade.
Por fim, acredito que a pesquisa foi capaz de questionar a lógica colonialista da
ciência moderna que sustenta a relação abissal entre pesquisador/sujeito e o outro/objeto
de estudo, estabelecendo uma relação sujeito-sujeito, no sentido coletivo, participante,
conseguindo romper com a monocultura do saber que concebe a ciência e a pesquisa
como neutra e única.

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