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INTRODUÇÃO

E m meados de setembro de 2009, a imprensa internacional reproduziu


uma fotografia da agência norte-americana de notícias Associated Press
que, com a legenda “Um soldado norte-americano descansa no Afeganis-
tão”, mostrava o militar sentado no chão, tomando fôlego antes de prosse-
guir nas operações de sua unidade, destacada na província afegã de Paktika,
no leste do país. A imagem resumia bastante bem o cansaço da opinião
pública diante do prolongamento de um conflito sujo e sangrento cujos
verdadeiros interesses nunca foram bem explicados pelos dirigentes mun-
diais, que os ocultaram sob essa expressão que, em nossos dias, serve para
justificar quase qualquer coisa: “a luta contra o terrorismo internacional”.
O militar estava sentado entre os escombros com seus óculos de sol,
um fuzil de assalto descansando no colo e o capacete entre as pernas.
Mais uma imagem da guerra na qual, porém, destacava-se um curioso de-
talhe: as botas regulamentares, que apareciam em primeiro plano para o
leitor do jornal. Para ser mais preciso, as solas das botas. Graças a essa ima-
gem, os cidadãos mais atentos descobriram a pegada que as tropas deixam
quando passeiam pelo mundo, em particular nos complicados cenários do
Oriente Médio e além. Cada sola se divide em duas partes bem diferen-
ciadas: na ponta, podem se contar, perfeitamente ordenados em forma de
losango, treze triângulos equiláteros, e, na parte do calcanhar, mais sete
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triângulos em uma disposição idêntica à ocupada pelas estrelas situadas


sobre a águia calva que aparecem no Grande Selo dos Estados Unidos; ou
seja, uma figura que hoje conhecemos como Estrela de Davi.
Coincidência? Não tenha pressa; observe os desenhos que deixam na
terra suas próprias botas ou as de algum conhecido. Poderá então verificar
que existem centenas, talvez milhares de desenhos diferentes, a maioria
dos quais não tendo sentido algum além do de conservar certa harmonia
estética ou apenas regular. Quantas possibilidades existem, do ponto de
vista estatístico, de justamente as botas oficiais do exército norte-america-
no, o mais poderoso do mundo, deixarem essas marcas tão características?
Tanto os números sete e treze quanto as figuras do triângulo, o lo-
sango e a Estrela de Davi têm significados profundos e característicos nos
planos cultural, mágico e simbólico, na maçonaria e em outras organi-
zações que possuem certo conhecimento oculto para a maior parte da
sociedade contemporânea. Contra o que um neófito possa pensar, a magia
e o simbolismo possuem, tanto hoje como ontem, maior influência que a
cultura sobre os mortais comuns, incluindo os do nosso – em tese – laico
e agnóstico mundo ocidental.
Vivemos asfixiados por uma sociedade que desconsidera e descarta as
crenças religiosas e espirituais, tachando-as de “inúteis”; que nos obriga
a empregar a maior parte do tempo em um trabalho majoritariamente
tão sedentário quanto mecânico, e, em decorrência, entediante; e que nos
empurra a um dia a dia no qual pesa cada vez mais o desenvolvimento das
novas tecnologias em detrimento das relações pessoais. O resultado de tudo
isso é uma combinação de amargos elementos como a solidão, a depressão
e o medo, além da convicção pessoal de que a única coisa que vale a pena
na vida são os poucos instantes de diversão e entretenimento que nos ser-
vem de momentâneo alívio.
Não obstante, buscamos com desespero, e em muitas ocasiões sem ter
consciência a respeito, devolver à existência certo sentido de profundidade
e transcendência similar ao que nossos antepassados, em especial os que
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viveram antes da Revolução Industrial, usufruíram com naturalidade e


até com gozo em suas respectivas épocas. Eles se sentiam integrados ao
mundo que os cercava, por mais perigosas ou incertas que fossem as cir-
cunstâncias de vida, ao passo que, para nós, qualquer lugar situado um
pouco além dos macios edredons ou da confortável sala com tevê de tela
plana é suspeito de constituir uma armadilha mortal. Lamentavelmente,
não estamos dispostos a renunciar à grosseira preguiça nem à melancólica
inércia para satisfazer essa sede interna.
Tanto os escritores quanto os cineastas mais populares de nossos dias
têm perfeita consciência disso, portanto não veem problema algum em
introduzir símbolos, cores e figuras de ressonância universal que, acom-
panhando a trama, reforçam-na e, com frequência, dotam-na de certo
sentido enquanto nos atraem pelo reconhecimento (“re-conhecimento”)
de antigos saberes que provocam nosso inconsciente, sem que à primeira
vista tenhamos reparado neles.
Temos um exemplo recente na exposição O Esplendor de Alexandria,
no Museu del Traje de Madri, organizada como parte da divulgação do fil-
me de Alejandro Amenábar, Agora, que relata os últimos dias da astrônoma,
matemática e filósofa Hipátia de Alexandria no Egito do século iv d.C. sob
a ocupação romana. A mostra oferecia uma seleção do vestuário documen-
tado e criado por Gabriella Pescucci para a filmagem, incluindo os oito
vestidos que a protagonista usa sucessivamente e que não foram tingidos de
modo aleatório. Como reconhece a autora, parte das cores claras que apa-
recem nas primeiras cenas do filme evoluem, de forma progressiva, à me-
dida que a história avança, para tons escuros, ficando os mais fortes para o
final. A progressão das cores simboliza como Hipátia vai “tomando corpo”,
fortalecendo-se internamente desde a primitiva ingenuidade até constituir
uma vontade férrea para enfrentar seu dramático destino.
Como muito bem explica J. C. Cooper no início de seu Diccionario
de símbolos, o estudo do simbolismo não é “uma simples questão de eru-
dição; tem a ver com o conhecimento que os homens têm de si mesmos”.
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Estamos cercados de símbolos, embora não os vejamos como tais, e po-


demos explicar o mundo de modo concreto e saber que pertencemos a
uma comunidade, e não a outra, porque compartilhamos o significado
dos símbolos e lhes damos o mesmo valor que os demais membros.
Nossa vida é, portanto, dirigida de acordo com os símbolos (algo tão
simples quanto dirigir um veículo requer conhecer um código simbólico
internacional que inclui desde as luzes dos semáforos até os sinais de trân-
sito); lutamos por eles (o dinheiro não é a riqueza, e sim um símbolo dela;
e, apesar disso, continuamos sonhando em acumular notas de qualquer
jeito, inclusive roubando, em vez de descobrir a verdadeira riqueza que
já somos capazes de gerar com as próprias virtudes e capacidades), somos
capazes até de matar uns aos outros por símbolos (todos os dias, morrem
no mundo milhares de pessoas em nome de diversas bandeiras religiosas
ou políticas)!
Mesmo no ócio e no entretenimento entregamo-nos aos símbolos.
Um torcedor fanático do Real Madri C. F. se identifica com uma bandeira
branca do mesmo modo que um do F. C. Barcelona o faz com uma azul
e vermelha, e nenhum deles compartilha o sentimento nem compreende
como é possível que o outro sinta por esse tecido simbólico uma paixão
parecida com a à sua (de fato, a mesma que a sua, mas voltada em outra
direção). Algo que não impede a ambos os fanáticos se identificarem entre
si em outro nível e compartilhar a paixão na hora de agitar uma bandeira
espanhola quando joga a seleção nacional, da qual participam jogadores
dos dois times.
Com frequência pensamos em um símbolo como um arcano indeci-
frável, próprio de organizações sinistras e que esconde um terrível signi-
ficado. Porém, os símbolos nos cercam por todos os lados: nas bandeiras,
nas moedas, nas estátuas públicas dos grandes personagens, nas igrejas,
nos filmes, nos logotipos das organizações não governamentais, nos pro-
dutos do supermercado, nos museus, nos hinos nacionais, nas fórmulas
matemáticas, nos pôsteres que enfeitam os quartos dos adolescentes, nos
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edifícios bancários, na publicidade, na imagem dos partidos políticos, na


música... até nas próprias letras do livro que você está lendo neste momen-
to, posto que o alfabeto nada mais é que um sistema de símbolos aceito e
compartilhado por um numeroso grupo de pessoas. Em todos esses casos,
cumpre-se o axioma que diz que uma imagem vale por mil palavras, de
modo que basta dar uma olhada para abrir as portas da compreensão para
uma enxurrada de conhecimentos.
O símbolo pode ser realista e copiado do entorno (uma águia nos fala
de um império, uma caveira indica a morte) ou completamente inventado
(um triângulo com um olho dentro é um sinal de divindade... e de outras
coisas). Pode ser utilizado em um sentido ou em outro conforme se apresen-
te (a ferradura com as pontas para cima, em forma de U, indica boa sorte,
mas quando aponta para baixo trata-se de azar). Pode ser de design simples
e fácil de reconhecer (o M amarelo sobre fundo vermelho do McDonald’s)
ou complicado e reservado a iniciados (algumas grafias do alfabeto maia,
ainda hoje indecifráveis e de design extravagante). Pode ter um significado
diferente dependendo da época em que for usado (a suástica sempre foi, no
Ocidente, um símbolo de prosperidade e boa sorte, mas, a partir de mea-
dos do século xx, é relacionada ao Mal, com letra maiúscula, devido ao uso
que fez dela o nacional-socialismo) ou de quem o interprete (esse mesmo
sinal continua sendo, ainda hoje, positivo e até abençoado na maior parte
da Ásia). Pode ser útil (a estrela do xerife, para indicar autoridade policial)
ou supérfluo (as “bruxinhas da sorte” que vendem por aí).
Sua representação é, como vemos, quase infinita, e a eficácia depende
do número de pessoas que o utilizem e do poder que tenham para agir
sobre o mundo com o que extraírem dele.
Herdamos a palavra símbolo do mundo mediterrâneo, do latim sym-
bolum, derivado, por sua vez, do grego symbolon, que, na origem, se refere
a um pacto ou sinal de reconhecimento entre hóspede e anfitrião: ambos
compartilham as duas metades de uma mesma coisa que, ao ser de novo
unida, serve de legitimação e adquire força de prova, como essas joias es-
pecialmente criadas para enamorados, das quais cada um do casal possui
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a metade de um coração e só quando estão juntos podem reunir as duas


partes de forma a completar o símbolo do amor.
Portanto, a compreensão de um símbolo implica a pertinência a um
grupo. Ou, como afirmara o escritor, sacerdote e professor de Cambridge,
William Ralph Inge, “a indiferença diante dos símbolos não é, como tan-
tos acreditam, um sinal de iluminação e espiritualidade; constitui um sin-
toma de doença”, no sentido de doença interior, de falta de compreensão
e isolamento da realidade do mundo. Os símbolos mais importantes têm
um caráter universal e, embora nossa educação ou conhecimento cons-
ciente do que acontece sejam limitados, quase todos os seres humanos
reagem de forma parecida aos símbolos básicos: por exemplo, tememos a
serpente da mesma maneira que gostamos de nos aquecer ao sol. Não
ser capaz de chegar nem sequer a esse nível, não poder compreender um
símbolo, é como tê-lo perdido; da mesma forma que não encontrar uma fer-
ramenta na casa, ainda sabendo que está guardada em algum lugar, é como
se na verdade nunca a houvéssemos tido.
Por isso, Robert Langdon sofre durante todo o romance de Dan Brown
em busca do Símbolo Perdido, utilizando o fundo comum de suas crenças
e interpretações do mundo (que, na realidade, são as mesmas de toda a
humanidade), para explicar de modo racional pistas aparentemente mais
extravagantes.
Determinadas organizações religiosas e/ou políticas começaram a de-
senhar e utilizar certos símbolos característicos como senhas secretas de
reconhecimento entre si, para guardar e transmitir saberes específicos. Ou
talvez tenham tomado os símbolos que já existiam e os dotaram de outro
significado. No caso dos fanáticos por futebol, a bandeira branca pode ser
interpretada de modo muito diferente se mudarmos o âmbito de aplica-
ção e nos centrarmos nos conflitos militares; então, não estaremos mais
falando de um time de futebol, e sim de um anúncio de rendição. Assim
se cumpre a sentença do Novo Testamento: “Quem tiver olhos para ver,
veja; quem tiver ouvidos para ouvir, ouça”.

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Um símbolo é, além e acima de tudo, um elemento básico de comu-


nicação, pois não tem nenhum sentido quando não serve para transmitir
uma ideia. Para estudá-lo desse ponto de vista nasceu a semiologia, ou
semiótica, ciência que, segundo o pai da linguística moderna, Ferdinand
de Saussure, “estuda a vida dos signos no seio da vida social” (a semio-
logia é denominada semântica quando se limita a estudar os signos das
comunicações escritas). Ou seja: como são, como se estruturam e como
se relacionam entre si o significante e o significado, ou, o que é a mesma
coisa, como funciona o pensamento de forma que o ser humano possa
reconhecer e interpretar os seres que o cercam e interagir com eles.
Do âmbito histórico, e pelo que sabemos de maneira formal, o primei-
ro povo que utilizou os símbolos conscientemente e em todas as ordens
de seu desenvolvimento social, religioso, político, econômico e militar foi
o Antigo Egito. Ali encontramos uma escrita hieroglífica de complexida-
de extraordinária cujo significado, uma vez perdido pelas vicissitudes dos
tempos, só começou a ser recuperado muitos séculos depois. E isso graças
ao grande esforço de alguns eruditos fascinados pelo redescobrimento da
época dos faraós em expedições francesas e britânicas do século xix. Tam-
bém encontramos no país do Nilo um panteão de numerosos deuses que
usam e abusam de todo tipo de imagens e signos, muitos dos quais conti-
nuamos utilizando hoje em dia sem saber que ali está sua origem. Outros
possuem uma força que hoje mal sabemos vislumbrar.
Esse é o motivo pelo qual o grande filósofo, mitólogo e historiador
das religiões, o romeno Mircea Eliade, podia afirmar que o estudo dos
símbolos é quase a última “oportunidade de resgatar o homem moderno
do provincianismo cultural e, principalmente, do relativismo histórico e
existencial”, que tanto mal fez e continua fazendo nos dias atuais, em par-
ticular para as gerações mais jovens, certas de que a História já acabou e
de que elas são mais sábias que todos os antecessores juntos pelo simples
fato de dispor de mais meios de comunicação, e mais rápidos; mas, na re-
alidade, estão é se afogando em um oceano de informação trash, lastradas
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pela indiferença e pela banalidade, como também pela ausência de claros


referenciais de crescimento interior.
No Antigo Egito encontraremos, de fato, a primeira maçonaria, a ma-
çonaria mítica, embora na época não fosse conhecida por esse nome. Ela e
as demais chaves e segredos acerca d’O Símbolo Perdido são assuntos deste
livro. Contudo, antes de seguir em frente, é preciso fazer uma advertência:
muitos se sentiram atraídos pelo mistério e poder que cercam as socie-
dades secretas, não para praticá-los ou juntar-se a eles, mas por simples
entretenimento.
Os curiosos que se aproximaram demais sem estar preparados encon-
traram a Esfinge e foram devorados por ela. De modo que se você, amigo
leitor, quiser seguir adiante, saiba que o faz sob exclusiva responsabilida-
de pessoal.

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