Você está na página 1de 2

Otelo

WILLIAM SHAKESPEARE
Adaptação: Alex Capelossa
DESDÊMONA (acordando) Quem está aí? Otelo?
OTELO Sim, Desdêmona.
DESDÊMONA Venha para a cama, meu senhor.
OTELO Já rezou hoje de noite, Desdêmona?
DESDÊMONA Sim, meu senhor.
OTELO Se você recorda de algum crime que a deixe irreconciliável com o céu e com a graça
divina, implore logo o perdão.
DESDÊMONA (estranhando) Meu senhor, que está querendo dizer com isso?
OTELO Vamos faça logo e seja breve! Enquanto isso vou andar um pouco. Não gostaria de matar
teu espírito sem que ele estivesse preparado. Não... Que o céu não permita! Não gostaria
de matar tua alma.
DESDÊMONA Está falando de matar?
OTELO Sim, estou.
DESDÊMONA Então, que o céu tenha piedade de mim!
OTELO Amém, de todo o meu coração!
DESDÊMONA Embora esteja falando assim, tenho esperança de que não me mate.
OTELO (olhando-a)
DESDÊMONA E, mesmo assim, tenho medo do senhor. Por que deveria ter medo, é o que não sei,
ignorando minha culpa.
OTELO Pensa em teus pecados.
DESDÊMONA São os amores que sinto pelo senhor.
OTELO Sim, e por causa disto vais morrer.
DESDÊMONA Alguma paixão sanguinária agita todo vosso ser. São maus presságios; entretanto, espero
que não seja a mim que estejam ameaçando.
OTELO Silêncio! Fique quieta!
DESDÊMONA Assim farei. Mas de que se trata?
OTELO Aquele lenço que eu gostava tanto e que te dei, você o deu à Cássio.
DESDÊMONA Não, por minha vida e minha alma! Mande chamá-lo e pergunte-lhe.
OTELO Confessa logo teu crime, pois negar com juramento não poderia destruir a firme convicção
sob a qual estou dominado. Vais morrer.
DESDÊMONA Que Deus, então, tenha misericórdia de mim!
OTELO Eu digo amém.
DESDÊMONA E tende misericórdia também do senhor! Nunca o ofendi durante minha vida. Nunca amei
Cássio, a não ser com essa afeição comum que o céu me permitia. Nunca lhe entreguei
qualquer recordação.

www.teatronaescola.com
OTELO Pelo céu que eu vi meu lenço nas mãos dele! Mulher falsa! Transforma meu coração em
pedra e vai fazer-me cometer um assassinato, quando pretendia fazer um sacrifício! Eu vi
o lenço!
DESDÊMONA Então ele o achou. Nunca dei a Cássio. Mande chamá-lo aqui. Faça que ele confesse a
verdade.
OTELO Ele já confessou.
DESDÊMONA O que confessou, meu senhor?
OTELO Que te possui.
DESDÊMONA Como?
OTELO Sim.
DESDÊMONA Não repetirá.
OTELO Não! Está com a boca fechada. Iago tomou conta dele.
DESDÊMONA Oh!... Como! Morreu?
OTELO Mesmo que ele tivesse tantas vidas quantos cabelos têm minha vingança teria fôlego para
todas elas.
DESDÊMONA (desesperada) Ai! Ele foi traído e eu estou perdida!
OTELO Está chorando por causa dele na minha cara?
DESDÊMONA Bata-me, meu senhor, mas não me mate!
OTELO Cala-te, meretriz!
DESDÊMONA Mate-me amanhã! Deixe que eu viva esta noite!
OTELO Não! Não haverá vacilação!
DESDÊMONA (implorando) Só enquanto faço uma oração!
OTELO É tarde demais... (asfixia Desdêmona)

www.teatronaescola.com

Interesses relacionados