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W Jean-Pierre Vernant

FUNDAÇÃO UNIVERSIDADE DE BRASILIA M l T O


Reitor
ANTONIOIBAÊEZ RUIZ
E
Vice-Reitor
EDUARDO FLÃVIO OLIVEIRA QUEIROZ
SOCIEDADE
t
EDITORA UNIVERSIDADEDE BRASILIA
NA
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/

ConselhoEditorial GREC
CRISTOVAM BUARQUE
ELLIOT WATANABEKITAJIMA A NT IGA
EMANUEL ARAÚJO
(Direior da Editoras
EVERARDO DE ALMEIDA MACIEL 'h'adução de
JOSÉ DE LIMA ACIOLI
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LUIZ HUMBERTO MIRANDA MARTINS PEREIRA


ODILON PEREIRA DA SILVA
ROBERTO BOCCACIQ PISCITELLI
a
RONALDES DE MKLO E SOUZA
VANIZE OE OLIVEIRA MACÊOO E l\luwCI !

Ü A Editora Universidade de Brasília, instituída pela Lei n' 3.998, de 15 de dezembro


de 1961, tem como ob.jedvo ''editar obras científicas, técnicas e culturais, de nível
universitário'' . Suas edições são Hmanciadascom recursos próprios, resultantes da JOSÉ OLYMPIO
H venda das obras publicadas, os quais formam um fundo rotativo, nos termos da
referida lei. ED l T OR A
diferença resume-sena amplitude dos meios, na extensão de solida-
riedades mobilizadas, mas os mecanismos sociais e as atitudes psico-
DASCIDADES\ lógicas são as mesmas. ''A venderia", escreve Glotz, ''é uma guena
como a guena é uma série indefinida de venderia."2 A guena também
não aparece ainda nesse contexto como o tipo de instituição que rege
as relações de força entre os Estados, e sim como um aspecto, ente
outros, das trocas interfamiliares, uma das fomes que reveste o comér-
cio ente grupos humanos, ao mesmo tempo associadose opostos.
Certos fatos do vocabulário, que ainda subsistem na época clássica,
são sugestivos quanto ao assunto. O inimigo, ê)COpóç,se opõe ao
amigo, q)ÍÀoç, cujo valor de possessivoo aproxima do latim szzzzs. O
PARA os GREGOSda época clássica, a guerra é natural. Organizados p/zi/osé inicialmente, para um indivíduo, seu parentepróximo;' e o
em pequenas cidades, igualmente ciosas de sua independência, igual- modelo da p#í/ía se encontra realizado no círculo estreito da família
mente preocupadas em afirmar sua supremacia, eles vêem na guerra onde filhos, pais, imiãos se sentem de alguma fomia idênticos uns
a expnssão normal da rivalidade que preside às mações ente os aos outros, pertencendo-se reciprocamente.4 O inimigo é o estrangei-
Estados; a paz, ou melhor, as tréguas, inscrevendo-se como tempos ro, gévoç: ora, este mesmo temia fenos é aplicado ao hóspede
mortos na trama sempre renovada dos conflitos. acolhido no lar para estabelecerde casa a casa um comércio de
De resto, o espírito de luta que opõe as cidades entre si é apenas hospitalidade.sEncontra-se uma ambigüidade análoga no termo ÕO-
um aspecto de um poder muito mais vasto, funcionando em t(Rias as
relações humanas e até na própria natureza. Entre os indivíduos e
ente as famílias, assim como entre os Estados, nos concursos dos 2
Jogos, nos processos do tribunal, nos debates da assembléia, assim lylJ4 G. Glotz, La sotidarité de [a jami1le duns !e droit criminet en Grêce, Pat\s,
n v'/
como no campo de batalha, o grego Kconhece, sob nomes diversos 3
como Po/amos, Eras,Neikos, essemesmo poder de confrontação que Cf. Aristóteles, Poética, 1453 b 19-22.

Hesíodo coloca nas raízes do mundo e que Heráclito celebra como ' Aristóteles, Ética a Nfcómaco, 1161b 27-30: "Os pais amam seusfilhos porque
reconhecem.nestesa.si próprios(pois o fato de os finos descenderem dos pais faz
paierei detodo o universo. com .que sejam de alguma fomia outros eles próprios, diferentes contudo porque
\, Essa concepção agónica do homem, das ilações sociais e das forças existindo separadodos.pais)(.:.); os irmãos se amam entre si porque tiram sua origem
naturaistem raízesptofllndas não apenasno fatosheróico ptópdo da dos mesmos seres.:a identidade de sua relação com aqueles os toma idênticos entre
si(-.) são então, de algum modo, um mesilÍo ser, embi)ra subsistindo em indivíduos
epopeia,como tambémnas práticasinstitucionais.em que podemos separados="E, mais geralmente, a definição do pÀiZoscomo um a/fer ego; "ga'nv é)
Kconhecer a pré-história dessaguerra política travada pelas cidades. q)ÍXoJ; ãÀ,Xoç abróç", ibid., 1166a. ' ' ''
Enquanto não foi fundada uma organização judiciária como a que Cf. as observaçõesde E. Benveniste, 'Don et échange dana ]e vocabulaire
apó/ís exigirá, para atbitmr e legislar, em nome do Estado, as relações indo-européen', LH ide socfoZogígue,31série, 1951 (1948-1949), pp. 13-4, a propó-
entre os diversos grupos familiares, não existe uma fronteira nítida sito do latim #ostfs. A ambiguidade dezenas é mudada especialmente num tempo como
cZoraue/zos,que é o ob.fetoila 171Questão grega de Plutarco. Nos tempos antigos, os
separandoa vingança privada da guerra propriamente dita. Entre habitantes de Mégara não fomuvam ainda uma mesma e única cidade; viviam nas
homens pailindo em represália para vingar um crime de sangue,.uma aldeias\ repartida eq cinco grupos diferentes, que travavam uma guerra entre si que
razia de gado ou um rapto de mulhens e uma expedição guerreim, a conduziam.entãohpépoç Koã ab'FyevlKtoç.Quem fizera um prisioneiro conduzia-o à
suacasa,oferecia-lhe sal! convidava-o à sua mesae depois o mandavalivremente para
a própria .casa. Por seu lado, o antigo 'cativo nunca iieixava de pagar seu resgate e
permanecia para sempre o p#íZos de geu vencedor. Este também não o chamava
d)riaMlos, cativo da lança, mas dorzllepzos, hóspedes da lança. Como observa W'.R.
l Essetexto foi publicado como introdução ao volume coletivo ProbZêmesde Za Halliday, em seu Commeiraire aü&rqziesrioas grecgzies(Oxford, 1928, p.98), darüíre-
gzzerre epzGrêce ancíenne, sob a direção de J.-P. Vemant, Mouton, Parase Haja, 1968 . nos é empregadona tragédia atiça com o sentadodiferente de 'aliado na guena' .

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te em tantos aspectos, o tema do presente de discórdia (colar de
Erifile, maçã de dais) mostra que, se a guerra encontra seu fim no
casamento, este também está na origem da guerra, fazendo-a renascer
e vivificar. Aos olhos dos gregos, não se saberia isolar as forças de
conflito das de união no tecido das relações sociais e na textura do
mundo.
Práticas de culta, que se manterão através de toda a história grega,
testemunham essa íntima solidariedade entre confrontação e associa-
ção. Os ritos ditos de combates fictíciosi ' comportam frequentemente
um significado gueneiro, mas existem aqueles que transbordam o
domínio propriamentemilitar e cujo significado parece mais geral:
no justo momento em que o grupo, reunido por ocasião da festa,
afirma sua unidade, as lutas rituais traduzem as tensões sobre as quais
repousa seu equilíbrio, a confrontação entre os elementos diversos
dos quais é constituído. A festa grega não implica unicamente, entre
participantes, atitudesde comunhão; a luta é um de seuscomponentes
sociais e psicológicos essenciais. Os duelos atiçam ao combate entre
si tanto as mulheres quanto os homens, o elemento feminino assim
como o elemento masculino da população,'' tanto diferentes faixas
etárias quanto uma mesma geração, especialmente quando a.puber-
dade o faz deixar a infância para integra-lo na comunidade social, nas
diversas unidades territoriais, tribais, familiares. Essas batalhas, que
nem sempre são puramente fictícias -- exigem às vezes que o sangue
corra --,:' utilizam outras ambasque as da guena, mais freqüente-
mente pedras e bastões.Segundo o contexto cultural, os agenteshuma-
nos, as divindades interessadas, os combates poderiam ter uma fun -
ção apotropaica e purificadora, um valor de fecundidade, como nas

11

Sobre os combates fictícios, cf. H. Usener, .4rcÀlv./ilr Re/igionsü'ésse/zsc#c{/t,7


(1904),pp. 297 e ss.; K/eilie Scr{/íen,Leipzig, 1913, ]V. p. 433 e ss.: M.P. Nilsson,
GríecÀiscAeFebre von re/igfõser Bedeurzuzg,Leipzig, 1906, pp. 402-8 e 413-7.
' Cf. L. Gemet, l,e gélzfe grei dons /a re/igion, Paras; 1932, pp. 52-4.
Quando das karagógia de Éfeso, numa atmosfera de licença carnavalesca, as
Ó,4 Repzíblica,V. 470 be; Cartas, Vl1, 322 a; cf. também /seu, IV, 18. lutas se desenrolavam a golpes de cacete entre participantes mascarados; todas as
praças da cidade ficavam inundadas de sangue( 410s de 71mófezls,ed. Usener, Progr.
' ,4Zcesfe,pp. 532-3, 646. Bois, 1877, p.ll, 1; Fótios, Bfb/., Cod. 254). No 7 de Artemision, em Antióquia, a
8Píndaro,Neméias,IX, 16-17. . festa da deusa culminava "com o sangue derramado no curso dos pugilatos; havia
tantos lutadoresquantorali/ai, tribos, na cidade: um lutador para cada tribo

«,ã#b:izu:gei:l:i :
118 e ss.
(Zfbanízzs,1; Ártemis, 236 R); cf. M. P. Nilsson, cp. cit., p. 417. Far-se-á a aproxima-
ção çom a #zlbristíca de Argos, em relação a um tema de combate feminino e a um
Ares das mulheres.

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tentado então a fazer sua aproximação com o combate de :ávO(; e de
MéXav0oç, que a cada ano no mês de outubro as .4parzírías atenienses
eram levadas a comemorar. P. Vídal-Naquet soube destacar o que
nossas fontes deixam entreverdas 4parzírías: '' festa de fratria em que,
na puberdade, os adolescentes atenienses eram inscritos por seu pai,
após voto favorável dos pãrarêres, nos registtos dos membrosdo
grupo. Parece que essa integração na fratria se operava ao ülnal de um
período de latência, no decorrer do qual o efebo era, com toda a sua
classe de idade, segregado da sociedade, enviado para as regiões
'selvagens'da fronteira para ali ser submetidoa um treinamento
militar. Este constituía uma espécie de iniciação ao estado do guer-
reiro, ao mesmo tempo que ao de membro da comunidade.
Os ritos masculinos de adolescência, com seus combates fictícios,
teriam sempre comportado, em toda a parte e Da Grécia antiga, esse
duplo valor de iniciação guerreira e integraçãosocial, com o rapaz
entrando com o mesmo passo na vida militar e na vida pública? Ou
seda preciso, segundoLouis Gemet,'Pabrir um espaço, nos meios
camponeses,para iniciações de jovens de um outro tipo, orientada!
mais para o casamento do que para a guerra? Quanto a este problema,
dois tipos de observações parecem apresentar-se. Notar-se-á de início
que em diversosmomentos,especialmente
na épocada refomia
hoplítica, quando a função gueneira foi estendida a novas camadas
do campesinato, antigos ritos agrários foram utilizados e transpostos
com fins de {piciação e adestramentomilitares. É manifestamenteo
t4Z.globo/las de Trezena, em homo de Daria e Auxesia. Pausânias,]1, 32, 2; sobre caso em Espanta,onde o culto de Ártemis Orràfa, com a flagelação
a balBras de Elêusis: ÀrymneXom, a l)emerer, 265 e s.; Hesíquios. s.v. paXXÓruç; dos jovens rapazes, parecia integrado a todo o sistema de provas que
Ateneu, 406 d e 407 c. constitui a agogêlacedemõniacom o objetivo de selecionarguerrei-
tSPausânias,111,14,8;20,8. ros cidadãos consumados. O exemplo espartiata é ainda mais espan-
toso já que existe, nessa cidade, ao lado de Ártemis Orr#ia, uma

ção ordálica e oracular. Dos dois campos em que os combatentes são divididos, um
supostamenterepresentou Alexandre,'e o outro seu inimigo Dado. É preciso que, sem
trapaça, 'o partido bom' vença. A aproximação com os fatos lacedemõnios é mais
surpreendentepelo fato de que a luta dos efebos no Platanistas é precedida de um
combate de dois javalis, representando uma e outra moira. O resultado dessa batalha
animal prefigura a vitória de um dos dois campos.
''Cf. 'La tradition de I'hoplite athénien',ProbZêmesde Zagzierra,pp 161-81.
Gemer, 'Frairies antiques', Anf#ropo/arie de Za Grêce anrfgHe,pp. 21-61, e
especialmentepp. 36-45. 'gtructuros sociales et cites d'adolescence dããs la Grêce
antique', Revziedes dftdes grecgzles, 1944, t. LVll, pp. 242-8.

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anual, uma jovem, a mais bela de cada vez, era vestida, em homena-
gem à deusa,com a panóplia hoplítica, o capacetecoríntio e a
amiadura grega. Representando, para a nova geração que ascendia à
maturidade, a virgem guerreira Atina, ela dava a volta em tomo do
lago num carro de guerra ritual. Depois disso, toda a tropa das
pari/zenoí, divididas em dois campos, combatia entre si a golpes de
pedras e bastões: as que morriam de seus ferimentos eram chamadas
yeuõoltapOévot, falsas virgens.23 Se as falsas par/;zenof se traem
assim na prova guerreira onde sucumbem,o jovem guerreiro pode
avelar sua natureza autenticamente belicosa por uma aparência de
par/fenos. Tal é o caso de Aquiles, educadocomo menina, entre
meninas,vestido de menina; tal é o caso de outro guerreiro, feroz
adorador de lança, sobre a .qual pronuncia seus votos e que reverência
mais que os deuses:seu nome, Paitenopaios, revela suficientemente
seu aspecto de jovem virgem.m De resto, pára cada sexo, a iniciação
que o consuma em sua qualidade especíHlcade homem ou mulher
pode incluir, pela troca ritual das vestes, a participação momentânea
na naturezado outro sexo do qual se tomará, separando-sedele, o
complemento. As iniciações gueneims dos rapazesrecorrem nomial-
mente a disfarces femininos, assim como, em Espanta,a jovem casada
veste roupas de homem no primeiro dia de suas bodas."

Essacomplementaridade da guerra e do casamento, que se exprime


a um sexo para se tomarem 'totais no pensamentoreligioso e que acreditamos reconhecer também nas
práticas institucionais ligadas à vingança privada, desaparece com a
cidade. Inicialmente porque, no uso comente, os casamentossão
feitos entre famílias de uma mesma cidade, reservando a pó/fs nor-
malmente as mulheres de que dispõe para seus cidadãos. Assim, uma
lei de Péricles exigirá, para reconhecimento do direito de cidadania,
que se sda ateniense de nascimento ao mesmo tempo por parte do pai

23
Heródoto, IVI 180 e 189. Sobre as relações entre os fatos líbios e a gesta de
A.terás, ct. F.Nian, La gtterre des Géants, Le mythe avant !'époque he!!énistique,
Paria,1952,pp.265-79.
20Sobreo culto de Ártemis Ko/yrÀaZia,divindade curotrófica, cf. M.p. Nilsson, esquilo, Os safe coBfra Zehzs, 529-44; Eurípides, Fezzícías,145-50; 1153-61.
OP-cit.,PP-182-9. Plutarço, Hda de l,iczlrgo, 15,5. Pareceque em Argos a mulher, na noite de
núpcias, tilüa que usar uma falsa barba pua donnir com o cuido. Sobre a troca de

Apol
'''' D d: . J=g11'Ei.h!:y'à."m, ",';-',",,;u.'".- roupas e suas significações, cf. Made Delcourt, HermapArocííre. Myrhes ef Files (ü
ZabisexzlaZife'canisJ'Hnriguifé classique, Pauis. 1958.

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e da mãe. Encerrado nos limites de um único Estado, o domínio das da cidade de Atenas. Engajar-se num conflito, montar uma expedição
trocas matrimoniais não encobre mais o da guerra que se exerce entre guerreira, levantar um plano de campanha:a decisãoé tomada na
Estados diferentes. Em segundo lugar, as unidades familiares se Assembléia, pelo conjunto de cidadãos, segundo os procedimentos
acham, na póZis, reagrupadas no seio de uma comunidade que não só ordinários, ao final de um debate público. Pouco importa que o
inimigo seja alertado, o efeito surpresa perdido. Se a 'estratégia' dos
as ultrapassa, mas também deülne outro plano que não o delas: os
vínculos políticos, unindo os cidadãos ente si, são de uma natureza gregos, para dar a essetermo o sentido de hoje, ignora uma noção tão
diferente e têm objetivo diverso do das relações de parentesco..O importante
a nossos
olhosquantoo segredo
militar,27
é queela
casamento é coisa privada, deixado à iniciativa dos chefes de família participa do mesmo universo do discurso que caracteriza todo o
no quadro das regras matrimoniais reconhecidas. A guerra.é coisa pensamento político dos antigos. Também não seria excito deHínira
publica, da alçada exclusiva do Estado;.decidi-la e conduzi.la não guerra das cidades nos séculos VI e V como a continuação por outros
deveriaser tarifa de indivíduos, de famílias, de agrupamentosparti- meios da política dos Estados. A homogeneidadedo guerniro e do
culares. É a cidade que nela se engaja,e o faz enquanto.tal: como político se realiza diferentemente. Diversas contribuições de ProbZê-
entidade política. A política pode se definir como a cidade vista'do mesde /a güerre e/zGrêce a/zcienneinsistem nisso e com mzão: o
lado de dentro, a vida pública dos cidadãosentre si, no que Ihe é exército é a assembléiapopular em armas, h cMade em campanha,
comum, além dos particularismosfamiliares. A guerra é a mesma como, inversamente, a cidade é uma comunidade de guerniros, os
cidade em sua face voltada para fom, a atividade do mesmo grupo de direitos políticos pertencendo plenamente apenas aos que podem, à
cidadãos confrontado dessavez com o que não é ele, o estrangeno, sua custa, equipar-se como hoplitas. Admitir que as coisas da guerra
isto é, geralmente de outras cidades. possam ser, assim, discutidas livremente em comum, que se possa
No modelo da cidade hoplítica, o exército não comia mais um argumentar sobre elas ou, o que dá no mesmo, apresentar a posteriori,
corpo especializado com suastécnicas particulares, suasformas pró- à maneira de Tucídides, uma história inteligível, é aplicar às opera-
prias de organizaçãoe de comando.Da mesmaforma,.a guena não ções militares o modelo de uma lógica do discurso, conceber as
confrontações entre cidades tendo por referência as lutas retóricas na
regras de ação qué não a vida pública..Não há.exército.profissional, Assembléia. No jogo político, cada facção assegura a predominância
mercenários estrangeiros nem categorias de cidadãos dedicados es- por seü poder superior de persuasão. Se Ra prova guerreira a força das
pecialmente à carreira das armas; a organização militar se inscreve amas pode substituir o peso dos argumentos, é porque são poderes do
sem corte no exato prolongamento da organização cívica. Os estrate- mesmo tipo, visando igualmente a constranger e a dominar outro, a
gos, que exercem o comando, são os mais altos .magistrados civis, primeira oealizandono campo de batalha e Dosfatos o que o outro obtém
eleitos como todos os outros, sem que seja exigida deles uma expe DaAssembléia sobro o espírito dos ouvintes. Um discurso bem argumen-
ciência especial na arte do combate. A fomtação de hoplitas exige, tado pode economizar uma guerm, como em Tucídides a vitória no
semdúvida, uma disciplina de manobraque pressuporum apnndi- campo de batalha suspende um debate que se exprimiu inicialmente na
zado; mas este é adquirido desde o ginásio, no quadro de umã paideia boca dos estrategos inimigos em dois discursos antitéticos.2s
cujo valor é mais geral: Péricles poderá sustentar,.como uma verdade Tal transparência da guerra em relação ao Jogospolítico, consti-
de evidência, que os ateniensesnão têm necessidade,pam.fazer a tuindo a rücÀéo único elemento opaco à inteligência, é devida
guerra, de se submeter a qualquer treinamento nem assimilar as
técnicas militares.2ó O sucesso no campo de batalha parece repousar,
segundo ele, nas mesmas virtudes que asseguram na paz o prestígio '' Ainda no século IV. na Po/forcéffca de Enéas, o segredo ftlnçiona no nível tátíco
das operações:é uma astúcia da'guerra, não um traço geral caracterizando a conduta
da guerraenquantotal.

2ó Tucídides, 11, 39, 1 e 4.


" J. de Romilly, /llsloire er raisopzchez 7hwcydide,Paras,1956, pp. 148-74.

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+

não é o produto de uma transformação brusca nas técnicas de comba-


também ao fato de que as cidades em conflito não buscam tanto
te, assim como não utiliza a infantaria segundo uma formação cerrada
an quilar o adversário, nem mesmo destruir seu exército, mas fazê-lo que teria sido outrora inteiramente desconhecida.Nesse plano, exis-
reconhecer, no decorrer de uma prova regulada como um tomeio, sua tem incontestáveis continuidades com o mundo homérico. Entretanto,
superioridade de força. A guerra é limitada no tempo, .desenrolando- se é surpreendente o contraste entre o mosaico de duelos que travam
se a campanha normalmente no verão pam temiinar antes do invemo. em Homero os bons condutores de carros, campeões de dois exérci-
Além das operações menores para molestar o território adverso, tos, e a disciplina coletiva que preside ao combate de hoplitas, é que
ataquesde improviso para destruir suascolheitas.ou.de assédio pam a reforma militar não é separável de todas as inovações que a cidade
os quais a infantaria é mal equipada,a batalha decisiva se dá num traz no plano social, político e mental. Pode-sefalar aqui de um corte
terreno escolhido,um pedío# onde podem se desdobraras duas
que inaugura um outro sistema de vida coletiva, ao Hesmo tempo que
falanges de infantes pesadamenteajaezados.No choque de suas uma configuração nova da guena. Estendendoao conjunto dos pe-
linhas de hoplitas, os dois exércitos adversos,pelo ímpeto: a discipli- quenos proprietários camponeses, que fommm a comunidade cívica,
na e a Himieza relativa dos combatentes, fixam a medida.de potência oi privilégios militans da aristocracia,a cidadeabsorvea função
e de coesão, a dynamís, comunidades cívicas que se confrontam. Em guerreira: ela integra em seu próprio universo político essemundo de
princípio, não é necessárioque o inimigo sda perseguido;é preciso guena que a lenda heróica exaltava, separando-o da vida comum. As
e suficienteque a linha do atacantenão sqa dominada,que.se atividades guerreiras perdem então seus traços específicos, funcio-
pemianeça senhor do terreno, que.o inimigo tenha pedido para retirar nais. O personagem do gueneiro, como tipo humano, desaparece. Ou,
seus mortos e que se tenha erguido um troféu. O tratado de paz terá mais precisamente, passa a se confundir com o do cidadão, que herda
apenas de consagrar essepoder superior de crarein, poder este do qual parte de seu prestígio, confisca, transpondo-os, certos valores que o
uma das partes terá fomecido a demonstração contra a outra no campo guerreiro encamava, mas rejeita todo o lado inquietante do persona-
de batalha. gem, seu aspecto de Àybrfs que, ao lado de outros, é sublinhado pelos
Esquema ideal que, certamente, os historiadores não deixarão de mitos gueneirosestudadospor F. Vian:" delido e insolênciado
matizam,mas que, como modelo teórica, fixa os traços próprios da homem que, dedicando-setotalmente à guena, querendo conhecer
guerra entre cidades, desenhandosua fácies característica. Para que apenas a guerra, coloca-se ele próprio fora da sociedade.
o jogo guerreiro funcione segundoessasngras, é necessáriauma Entretanto, por mais que a cidade recusasseàs práticas militares
série de condições não percebidas pela história, e mantidas concomi- um estatuto especial, a guena não deixa de comportar suasexigências
tantemente apenas por um breve período de tempo. Contudo? a coe- próprias; o empregoda violência tem a sua lógica. A falange só se
rência do sistema, sua solidariedade com o universo social e intelec- adapta a um tipo de tetmno e a uma comia de combate muito de6]ddos.
tual da pó/is Ihe dão valor exemplar; tal modelo de guerra permane- A prática do cidadão soldado equipando-se a si mesmo como hoplita
cem ainda vivo nos espíritos mesmo quando tudo ou quase tudo.terá limita perigosamente o número de infantes disponíveis. A necessida-
mudado nos conflitos: as técnicas! o quadro social e nacional, os de de ampliar o recrutamentoda infantaria pesadapara mobilizar
objetivos daluta. todos os recursos humanos dos quais a cidade pode dispor se imporá.
IJm dos componentes essenciais dessa guerm política é a premi' É preciso também diversificar o instrumento militar, segundo os
nência quase exclusiva, como instrumento militar, da infantaria pe- teatros de operação: uma infantaria ligeira, corpos de cavalaria e de
sada, formada em falange. Em ProbZêmesde Zagwerre en Grêce arqueiros assim serão criados. A guerra naval sobretudo, cujo desen-
üllczenne,2PMarcel Detienne mostra, apoiando-se em dados arqueo- volvimento e fomtas são retraçadospor J. Taillardat,'' e cuja impor-
lógicos postos em evidência por P. Courbin, que a refomta hoplítica

''Bid. 'La fonctíon guerriêre dons la mythologie grecque', pp 53-68

29 .La Phalange: Problêmes et controverses', pp 119-42.


''nid pp i83-i(D.
35
34
tangia para UHa cidade como Atenas é detemúnante? obí:iga a consi- é alguém de radicalmente outro, que se combate como se caça um
animal porque é estranho a tudo o que constitui a civilização, que se
?

derar os empreendimentosguerreiros sob uma nova luz. O que conta q


no combate naval é a capacidadede manobra das tripulações, com o situa fora da humanidade; nem o bárbaro é realmente isso para o
que compor'ta de treinamento, de experiência: de invenç.ão:são tam- grego. O xe/zosé um parceiro do comércio social; até no ódio que se
bém as disponibilidades financeiras do Estado que partilha com os Ihe dedica, ele continua próximo do grego pelos deusesque venera.
trierarcas o encargo de construir e equipar as construções?.pagar o os santuários que freqüenta, os usos e as Domias que com ele partilha.
soldo das tripulações. A guena de cerco, os progressos.da poliocértica As cidades em guerra são 'rivais': não há rivalidade senão entre
não põem em questão somente o equipamento, a organização e a tática semelhantes, reconhecendo os mesmos valores, se valendo dos mes-
dos exércitos, mas tambéma própria concepçãoda guerra; esta se mos critérios, aceitando entrar no mesmo jogo. Para reter aqui apenas
mostra difennte, segundo o peso nlativo que a cidade concede, em os aspectos religiosos dos conflitos, notar-se-á que os gregos não
sua defesa, ao território rural e à aglomeração urbana, com o que essa podem, como os hebreus, querer destruir os deuses do adversário,
escolha implica quanto ao equilíbrio de suas forças sociais e à orien- b nem, como os hititas ou romanos, atrai-los como trânsfugas para o
tação de suasatividades económicas.32Construçãode.longos muros, seu lado, a fim de incorporar as forças religiosas do inimigo. Sendo
prioridade dada à frota, controle dasilhas e rotas marítimas: na.pó/is os deuses comuns aos dois campos, são invocados como árbitros
urbanizada do tipo ateniense, voltada para o mar, do qual depende seu garantindo as regras que ambos os partidos devem igualmente respei-
abastecimento e seu poder, o espírito empreendedor dos citadinos tar. Nesse sentido, a guerra de cidades prolonga as confrontações
constrasta com o tradicionalismo militar das cidades 'tenitoriais familiares da vendeta. Antagonismo e solidariedade, luta e acordo
como Espanta;os aspectosfinanceiros e económicosda guerra adqui- nela não são separáveis.
rem então mais relevo, e a rec/z/zê, que Péricles podia negligenciar Sob a fomia de competição organizada, excluindo tanto a luta
quando essa só dizia respeito à batalha de hoplitas, encontra sua mortal para aniquilar o ser social e religioso do inimigo quanto a
desforra em outros domínios do combate. Assim, tudo conspira para conquista para integra-lo inteiramente a si, a guerra grega clássica é
uma tecnicidade e uma especializaçãocrescentesda coisa militar. A um agón. Aparenta-se aos Grandes Jogos pan-helênicos, onde a
guerra tende a se reconstituir como uma atividade à parte, uma função rivalidade se exerce segundo um roteiro análogo em muitos aspectos,
separada, sob a forma de uma.arte guardando em si mesma sua num plano pacífico. Os que tomam parte nos Jogos defrontam-se em
finalidade e seus meios, um ofício exigindo seus especialistas em
nome das mesmas cidades que se combatem na guerra. A identidade
todos os níveis, no comando e na execução.Desde o século IV, dos protagonistas, a homologia de estrutura das duas instituições
reapareceo mercenaliato. A guerracessamde ser 'política. no sentido fazem como que as duas faces, altemadamente apresentadas,de um
pleno do tempo antes mesmo que a pó/fs tivesse desaparecido da cena mesmo fenómeno.social: toda operação militar deve ser suspensa
da história.
Para que a guerra seja política, não basta que existam cidades. E enquantodurar a celebraçãodos Jogos. Entre os combatesfictícios
que dão à agressividade no seio de um grupo uma fomla ritualizada,
preciso também que elas fomtem juntas um sistema.organizadoonde
os ooncui.sosque opõem entre si os diversos elementos de uma comu-
;ada unidade, livn para escolher aliados e adversários, possa conde!
nidade cívica particular, os Grandes Jogos que reúnem todas as cidades
zir sua própria tática na competição geral;emdicção à hegemonia. E
no interior desseconjunto que setravam os conflitos, desenrolando-se gregas numa mesma competição, a guerra, há continuidade suficiente
para que se faça às vezes a passagem de uma fomia a outra.3sA
a guerra no quadro de um mundo grego que: em sua própria confron- acreditamlos na visão dos historiadores gregos sobre a questão, certos
tação, reúne as cidades em uma comunidade unida por língua, reli-
gião, costumes, formas de vida social e modo de pensar. O .remosnão conflitos de cidades puderam ser regrados' de comum acordo, no

32Ibid. Cf. Y. Garlan, 'FoRifications et histoire grecque', pp 245-60. " Cf. Angelo Breliçh, Gzierre,agonl e cz{/riRelia arreia arcaica, Bonn, 1961

36

1. 37
decorrer do século VI, através de procedimentos de duelo entre Ainda aqui, o quadro só é verdadeiro até certo ponto. De início,
porque a guerra jamais ülcou confinada unicamente nas fronteiras do
campeões, ou tomemosorganizados entre unidades de elite tendo, de
parte a parte, o mesmo número de combatentes.H Lembrança dos mundo gago, e porque a invasão persa, especialmentepela vasta
tempos 'homéricos', sem dúvida, Has que sublinha o panntesco do coalizão que suscitou, preparou essahegemonia de Atenas que mu-
duelo guerniüo não apenascom os Jogosmastambémcom práticas dou rapidamentepara um domino imposto pela força; desdeentão,
dividida em dois camposantagónicos, a Grécia enganou-senuma luta
de direito ou, mais precisamente,para ntomar a expressãode L.
cujo risco escalae forma não eram mais os mesmos.Como notou
Gemet, de '$ré-dinito'. O combate utiliza, então, a força das ambas
Mme. de Romilly,'s foi todo o sistema de regras antigas que se rompeu
apenascomo meio de 'prova' num PK)cessode tipo ordálico, onde se
na guerra do Peloponeso- Outrora, o equilíbriojá era necessariamente
confia às potências sobnnatutais o cuidado de pronunciar o julga-
instável, repousando sobre a tensão entre a vontade hegemónica dos
mento. Na mesma qualidade que o agón judiciário, do qual tim as divet.sos Estados e o ideal de autonomia ao qual nenhuma cidade
fomias mais arcaicas,a disputa guernira supõe,senãoum tribunal e
podia renunciar sem negar a si mesma. Fora das alianças ocasionais,
leis como no dinito da cidade, pelo menos umjuiz, ainda que divino,
+

os reagrupamentos se faziam em anüictionias centradas, como a de


cuja autoridade seja nconhecida por ambas as partes, e processos de
Delfos, em tomo de um santuário.A união era possívelno plano
decisão aos quais as duas aceitem igualmente se submeter. Na querela
religioso, não em um quadro político. A mesmatensão seexprime em
que as divide, as cidades se afimiam solidárias a um sistema comum ?

nível propriamenteideológico: de um lado as leis comuns a toda a


que as coloca, como pleiteantes no tribunal ou famílias levando sua Grécia, TbcTÕv(EXXfl vov vqpilpa: de outro a noção, mais ou menos
diferença ante o árbitro, em posição de exata simetria. Não há nada,
claramente fomiulada, de que sendo cada cidade soberana, o arc/lé
bem entendido,que se assemelhea um direito intemacional: por
que Ihe confere a vitória Ihe dá sobre o inimigo um poder quase
definição, o domínio do direito é interior a cadacidade. EntKtanto,
absoluto de craíefn, de trata-lo de cima, de dispor dele à vontade, de
as crenças nligiosas e as tradições sociais dos gregos -- designadas
servir-se dele se preciso. Contudo M. Ducrey constataráque, apesar
pelo mesmo termo, nomoi, que se aplica precisamenteàs leis cívicas
-- são desenhadascom força suficiente para impor suasnormas tanto das violências que muitas vezes foram praticadas, as regras não
escritas foram bastantefortes, no conjunto, para impor certos limites
na guerracomo na paz. Dessepontode vista, guena e paz não ao trataãlento dos vencidos:3óNem sempre foram respeitadas. Mas
constituem dois estados radicalmenteopostos, não inaugurando a
sua ação se manifestaaté nas violações de que foram objeto: o
abertura das hostilidades uma ruptura completa com o estatuto de
dinito anterior, o abandono de regras reconhecidas nas relações entre mal-estar, por vezes o anependimento dos culpados, a indignação
grupos, a entrada num mundo religioso inteiramente diferente. A geral suscitadapelo crime provamsuficientementea força que con-
setvam as regras do jogo que, por um acordo tácito, presidem as lutas
guerra não é nem pode ser anemia, ausência de ngras. Ao contrário, +

entre cidades.
ela se desenrola DOquadro de normas aceitas por todos os gregos,
A guerra grega nos apareceassim, ao mesmo tempo, como um
precisamente porque essas normas não se originam do direito, próprio
a cada pó/ís -- e porque não há, como em Rama, uma juddização da sistema que tem profunda coerência e como fenómeno histórico,
estreitamente localizado no espaço e no tempo, ligado a muitas
guerra --, mas do conjunto de práticas, de valons, de crenças comuns
condições especiais e marcado por muitas tensõesintimas para que
no qual a Hélade se nconhecia à medidaque constituía uma comu-
seu equilíbrio pudessese manter por muito tempo. O sistema.se
nidade única, composta de cidades diversas, aüimundo-se sempn
desagrega para dar nascimento a essa guerra helenística, cujo quadro
mais ou menos rivais e confrontadas na paz, mas sempn permane-
cendo também mais ou menos solidárias e associadas Ra guerra.

n Problêmes de !a guerra en Grêce ancienne, pp. 201-20


" Biü PP.231-43.
H Her6doto,1, 82; V. 1; DiógenesLaérçio, 1, 74; Estrabão,357.
39
38 }
foi pintado por P. Lévêque:s' a palavra é a mesma,os deusesinvoca- fundo histórico, afastado do autor por vários séculos de tradição oral.
dos não mudaram, a falange subsiste, as tradições militares da Grécia Ninguém melhor que M. Lejeune para fazer o balanço da documen-
parecem ainda vivas, mas é uma outra realidade guerreira que fez sua tação micénica nem melhor que G. S. Kirk pam desenredar a meada
aparição num mundo transformado. Exércitos de mercenários, a ser- do testemunhohomérico.a A essapesquisa,conduzidanuma dupla
viço de príncipes, recrutados para modelar e conservar impérios que direção, em preciso evidentemente juntar o ponto de vista da arqueo-
reúnem, dali em diante, os povos mais diversos: separada da política, logia: todos os dados de fato, todos os rea/ia de que dispomos
a guerra perdeu o estatuto que era seu na cidade dos hoplitas. No concementesà época arcaica foram reunidos, numa conclusão muito
conjunto da vida social, tem um lugar totalmente diferente do de clara e convincente, por P. Coufbin.3PNão teríamos, porém, julgado
outrora. a confrontação completa se, para consumar o recorte, não tivéssemos
Como tal sistema, cuja destruição podemos seguir através dos acrescentado a essa difícil pesquisa uma quarta janela. A propósito
testemunhos dos historiadores antigos e de outros documentos escri- da China antiga, M. Granet dizia que, num certo sentido, a lenda é
tos, constituiu-se no decorrer do século Vll? De que instituições }
mais verdadeira que a história. Coube a F. Vian debruçar-se sobre os
guerreiras se originara? Que inovações técnicas e sociais mvolucio- mitos de guerreirosque se desenvolveramem tomo dos grandes
naram as mais antigas tradições militares dos gregos para dar nasci- +
centros aqueus e que não cessaram de viver na memória dos gregos.
mento a esse tipo de guerra política, de guerreiro cidadão, cujo {
Destacandoa fisionomia do combatentelendário, fixando seu lugar
modelo tentamos fixar? Para responder a tais questões, nossas fontes nas confrarias, tanto integradas à sociedade quanto à margem da vida
são indiretas, lacunares, equívocas. Dispomos agora de tabuinhas de comum,F. Vian reencontra,ao nível do pensamento
social e das
argila em linear-B entre as quais algumas dizem respeito à organiza- representaçõescoletivas, o problema da classe militar, de seu papel,
ção militar de Cnossose Pêlos.Entretanto, a luz que proletam em de sua especificidade.40
diversos aspectosda guerra micênica suscita mais perguntas do que E considerandotodas as peças desse quádruplo dossiê que M.
respostas.Impõem-nos olhar com olho novo, crítico, para documen- Detienne aborda o problema crucial da nfomia hoplítica: a prática
tos tão veneráveis quanto os poemas homéricos, sem que sejam, no do combate em fomiação cerrada, que pance, na origem, o apanágio
entanto, autorizadas aHimiações definitivas. Entre o universo guerrei- de uma elite militar, leva ao quadronovo da cidade,.a integrar
ro micênico e aquele cujo quadro nos é oferecido por Homero, há inteiramente a guena üa política, a dar ao personagem do guerreiro
concordância ou mesmo continuidade real? Na hipótese contrária, o aspecto do cidadão.4i Duas contribuições de certa maneim simétri-
onde situar as rupturas, como determinar a amplitude das distorções? cas prolongam seu estudo. M. 1. Finley mostra como, em Espanta,o
O embaraço toma-se maior porque não se saberia, sem precaução, aparecimento do hoplita, a transferência da função militar do üos ao
comparar documentos administrativos e uma obra de poesia épica. O +
conjunto dos 'Iguais' se inserem numa reorganizaçãodo sistema
mundo de Homero só tem unidade ao nível da criação literária. A social lacedemânio, completa e profunda o suficiente para que se
análise histórica faz logo aparecerali -- de início na língua, mas possafalar, a seu respeito, de revolução do século VI. Através de
também nos domínios que nos dizem respeito, no armamento,nos agogê, peça-mestra do sistelma, utilizando para Hinonovos os antigos
modos de combate, no estatuto social e psicológico do guerreiro --
camadas diversas, mais ou menos compatíveis, culpacolocação, se-
gundo uma perspectiva temporal, dependeprecisamente da concep'
" M. Lejeune, 'La civilisation mycéenneet la guene', PFobZêmes
de h guerra e
ção que se faça das relações da obra homérica com o mundo micênico, Grêce ancienPze,pp- 31-51; G.S. Khk, 'War and the wanior in the Homeric poems',
mundo este ao mesmo tempo objeto imediato do poema e pano de ibid.,pp.93-117: '
" nid., PP.69-91.
:" nid., PP.53-68.
'' nid., PP.261-87. '' nid., PP.119-42.

40 ]
41
altos de iniciação, é toda a cidade de Espantaque se faz .então com a cidade porque o agente guerreiro coincide com o cidadão,
organizaçãomilitar, seleçãoe tninamento guerniros, espírito de luta manifesta-se como gueneiro ao mesmo tempo que é um agente
e de rivalidade em todos os níveis, ao mesmo tempo que obediências político tendo poder de regular, com o mesmo direito, os neg(ócios
e disciplina. Porém, esseexército, mantido em permanente estado de comuns do grupo.
tensãoe exercício, é menosdirigido parafom que voltado pam dentro; Essa absorção do fenómeno guerreiro na esfera 'cívica' é mais
é muito mais um vasto apanlho de polícia cujo papel é muito mais surpreendente ainda por se produzir em um dos povos indo-europeus
proteger uma ordem interior sempre ameaçada do que o instrumento que sabemosterem concebido a sociedadecomo um conjunto no qual
de conquistas no estrangeiro. O engalamento desse instrumento na a guerra ocupa um lugar importante, masnitidamente limitado:4' tudo
guerra, os sucessosque Ihe valem sua superioridade no combate de o que diz respeitoà guerra, com os deusese com os homens,se
infantaria se voltarão finalmente contra ele e provocarão a destruição organiza numa função especializada, o guerreiro aparecendo como
do modelo do Estado guerreiro.42 um tipo de homem à parte, submetido a um treinamento,um dri//,
Em contrapartida, Pleno-Vidal Naquet, falando do quadro da or- possuindo sua fisionomia particular, seus poderes, seu modo de ação,
ganizaçãomilitar atenienseno fim do séculoIV, mostracomo a sua ética, dotado de um estatuto social e de uma psicologia diferen-
demo- ciados.
radição hoplítica, manifestamente ultmpassada num estado
erótico de pndominância urbana, sobrevive e se transpõe.nas insti- Nesse ponto, a Grécia não parece ser uma exceçãoà regra. A
tuições no' próprio momentoem que, nas nflexões teóricas dos presença no panteão de um deus tão estritamente votado aos combates
Õlósofos, a ideologia da função guernira especializada tenta respon' quanto At'es, o papel nas lutas divinas para a soberania de coletivida-
der aos problemas colocados pela evolução da estratégia militar e pela des míticas como as dos Gigantes, dos quais é preciso aproximar as
crise da Cidade.43 confrarias lendárias de guerreiros especializados,os espartos em
Tebas,os flégios em Orcomena, autorizam a pensar,com F. Vian, que
os gregos partilharam a ideologia da função gueneira. Quando Platão,
Não seria o caso seguir no detalhe a trama das diversas contribui- segundoHipodamos, pronuncia-seem favor de uma classemilitar
ções cujos temas viemos lembrar para situa-los na arquitetura do vivendo entrincheiradasobre a Acrópole, segregadados elementos
conjunto de uma pesquisa sobre a guerra na Grécia. Tãs estudos são 'produtores' da comunidade para se consagrar exclusivamente às
ricos demais para que se possa resuma-los; seu desenho é muito firme
atividades gueneiras, ele. responde certamente a preocupações de
para que isso seja necessário. Queremos apenas ressaltar em algumas política e estratégiacontemporâneas, mas, concordandocom uma
linhas o problema que constitui o 6iodiretor da investigação para toda certa imagem de Espanta,reata, para além do ideal hoplítico e em
essa parte da pesquisa. parte contra ele, com uma tradição gueneira ainda viva nas lendas
Dissemos que a guerra representa o estado nomial na relação entre dos heróis.
cidades. Tal presença, entretanto, natural e necessária, reveste tam: Que testemunhosnos traz a história sobre o estatuto dessaclasse
bém a forma de uma ausência,uma vez que a guerra hão constitu militar, na época micênica, e coMO explicar que na Grécia, contraria-
mais, na vida social, um domínio à parte, com suas instituições e seus mente a outras civilizações, a função guerreira que esse grupo eDcaf-
agentesespecializados, seusvalores, sua ideologia, sua religião pró- nava desaparecesse por volta do século Vll?
pria, e sim confunde-secom a vida comumdo grupo tal como se Ao lado de uma infantaria, o exército micénico incluía um setor de
exprime nas estruturas do Estado. A guena não é apenas submetida à carros de combate dependendo militar e economicamente do rei, uma
cidade, ao serviço da política; ela é a própria política; e se identifica

44
É necessário lembrar aqui os trabalhos de G. Dumézil, e especialmente, para o
4zlbid.,pp 143-60 problema que nos ocupa, Aspecrs de Za/Olzcríon guerrfêre cÀez zàs/ndo-Eziropéenis,
43lbid.,pp 161-81 Paras,1956.

42 43
vez que cada chefe de equipagemrecebia do palácio, em dotação vida do país. Em todos os casosconhecidos, os canos são fomecidos
ulamentar, um carro, dois cavalos, duas peças de couraça: Nossos +
aos combatentes pelo palácio, o que não signiHlca necessariamente
documentos não nos permitem delimitar o estatuto social desses um exército permanente,fixado em guamição. O cano é, com fre-
cavaleiros que deviam estar muito acostumadosa conduzir o carro qüência, objeto de presente;sua presençanos túmulos guerreiros
ligeiro para dirigi-lo em terreno acidentado, desdobrar-seem ordem prova que o cavaleiro podia dispor dele até na morte. Assim oferecido
de batalha, carregar, perseguir o inimigo, combater em plena corrida, pelo soberano,o carro simboliza os privilégios que o rei rwonhece
saltar e tomar a subir em marcha. Porém, a comparação com os outros ao beneficiário, masobrigandoo último, em contrapartida,a servir o
povos que, na segunda metade do segundo inilênio: desenvolveram doador. O juramento que os combatentes do exército hitita prestam
também o emprego militar dos carros é esclarecedora.No fím do ante o rei ao entmnm na campanhaos enganade maneira unilateral;
volume, num apêndice a Proa/êles de ZagKerre en Grêce a cie#ne, consagrao liame de obediência pessoaldo guerreiro em relação a
encontmtn-se os elementos dessa comparação entre China(J. Ger- quem não é apenas chefe do exército mas também soberano do reino.
net), Mesopotâmia (E. Cassin,P. Garelli) e Grécia (M.Detl:nne).'s Opõe-se através disso, bem nitidamente, ao pacto de pài/crês que, em
Quaisquer que sejam as diferenças nos modelos de carros utilizados, Homero, conclui-se pela troca recíproca de juramentos, engajando-se
na composição e amiamento de cano e cavalos, na tática do combate, cadajurados solidariamente, em seu nome e no de seuspÀihi, pela
certos traços comuns aproximam as sociedades nas quais os carros de duração da expedição. Aquiles poderá assim, no início da /Zz'ada,
combate apresentam um produto característico. São Estados pqan- retirar-se da coalizão da mesma forma que entrara, com toda a tropa
tes. fortemente centralizados para concentrar nas mesmas mãos os de seus /zeraíroi. Outras mudanças parecem acompanhar essa trans-
meios técnicos, económicos e administrativos exigidos pela constru- fomiação do juramento militar, do porcos, que reúne num mesmo
ção, amiazenamento,reparos e divisão de um setor numeroso de exército grupos guerreiros diferentes. Doravante, o equipamento mi-
carros de combate. Os que utilizam os carros fomlam, no exército e litar não é mais centralizado; nem os cavalos, nem os carros, nem as
no país, uma aristocracia cujo estatuto é estreitamente ligado à sua couraças são fomecidos aos combatentes por um palácio qualquer.
atividade militar. Ter cavalos, subir num carro, implicam ao mesmo São trêmaía, bens privados. Os cavalos constituem o orgulho de seu
tempo um modo de vida, votado essencialmenteà caça e à guerra, e propdetádo. Canos e couraçassão fabricados pelos cuidados dos
uma proeminência social. O cavalo é um animal nobre, guerreiro, gueneiros, para seu próprio uso. A antiga dependência,económica e
sendo sua posse, criação e treinamento o pàvilégio de uma minoria. militar, dos condutores de canos em relação ao soberano, ao a/za.x,
O cano é um objeto de prestígio, feito tanto paraexibição quanto pam não sobreviveu, assim, à derrubada dos reinos micênicos. A essa
o combate. Seu manga pressupõe,por outro lado, um aprendizado autonomia maior da aristocracia guerreira que não é mais submissa,
difícil, umahabilidade profissional. Onde existia uma classe guerrei- como outrem, ao poder de um Estado centralizado responde,no plano
ra. os carros de combate apenas reforçaram sua especialização; onde militar, o desaparwitnento dos carros como amua de .combate. O
aquela não existia, os carros contribuíram para fomiá-la. Aobediência quadro que Homero traça da batalha exclui não apenaso emprego dos
dessa classe ao soberano revestiu-se de fomias diversas. Pode-se carros em linha, para atacar e empurrar o inimigo, mas até mesmo a
dizer no entanto, de maneira geral, que o emprego em massados luta individual do guerreirodo alto de seu cano, em marchaou
carros de combate pressupõe sempre, para a casta guerreira, uma parado; o engenho não é mais uma arma de combate, é um simples
dependência em ralação ao príncipe, que mais forte se tomava quanto meio de transporte ao mesmo tempo que um sinal de prestígio social
mais o sistema de economia palaciana estendiaseu domínio sobre a marcandoo fato de um herói pertencerà elite guerreira. Tal elite se
desloca de carro, o que evidentemente Ihe dá mais mobilidade, Mas
combate sempre a pé. Assim, não se poderia escapar à contradição
ressaltadapor G.S. Kirk: ou os canos desempenham
o papel que
45ProbZêmes(ü Zagaerre em Grêce ancienne, op. cit., suplemento. Pam os fatos Homero lhes designa, devendo então permanecerlocalizados na
hititas, reporta-se ao estudode Albrecht Goetz, 'Wnfare in Àsia Menor', /rag. , vol.
xxM 2, 1963, pp. 12&30. retaguarda,sendo sua missão conduzir os chefes da guena até o

44 45
combate, como fazem à época arcaica os cavalos para os Àippeís, pelo Pam que a função guerreira se integrasse na pó/is e desaparecesse,
menosaté a criação de um corpo especializadode cavalaria; ou os foi preciso então que, de início, ela se afirmasse em sua autonomia,
carros evoluem à frente das linhas, confomte o relato de Homero, mas que se liberasse da submissão a um tipo de Estado centralizado,
isso deveria se dar então para atacar em massa,à maneira dos hititas implicando uma ordem hierátqüca da sociedade, uma fomla 'mística'
do poder soberano. Então pôde se elaborar, no próprio seio dos grupos
ou assírios, ou pelo menos para combater de cano a carro, à maneira
guerreiros, as práticas institucionais e os modos de pensamento que
dos chineses, e não simplesmente para se deslocar de um ponto a outro
conduziriam a uma fomla nova de Estado, apóZís sendo simplesmente
do campo de batalha, o que os ofende quase sem defesa aos golpes
do inimigo. Tà Kotvá, os negócios comuns do grupo, regulados entre iguais por
Não seria demais insistir Da importância do duplo fenómeno, um debatepúblico. Seem sua família, eH seusnegóciosprivados,
testemunhado, por sua própria cot)fusão,no texto de Homero: de um cada grego permanece hegemónico, como um rei em relação a seus
lado a sobrevivência do carro, símbolo do estatuto social privilegiado súditos, na cidade, na vida pública, ele deve se nconhecer um homem
diferente, isonõmico, como o são os combatentes da falange que, cada
do qual continua a gozar uma aristocracia especializada na guerra,
Híel;o ideal heróico: de outro, o desaparecimento completo dos carros qual em seulugar, tem uma participaçãoigual no combate.O surgi-
de combate enquanto instituição militar característica de um Estado mento, com a cidade, de um plano propriamente político superpon-
centralizado. Se a aristocmcia militar trava batalha a pé, compreen- do-se aos vínculos de parentesco,às solidariedadesfamiliares, às
de-se que seja em seu seio, como sugere M. Detiennel que tenha.se relações hierárquicas de dependência, assim como a extensão, ao
desenvolvido a prática do combate em formação cerrada. A primeira conjuntoda comunidade,de um modelode relaçõesigualitárias,
falange pede reunir uma pequenatropa de combatentesde elite e simétricas, reversíveis, que se desenvolveu, em ampla medida, nos
assegurar a esses especialistas da guena a supremacia nos trabalhos meios guerreiros.
de A.KS. A falange, porém, implicava uma transfomiação radical da Quando dizemos que, na era da cidade, o político absorve a função
ética guerreira: em lugar da façanhaindividual, a disciplina coletiva; militar, isso significa certamenteque ele a faz desaparecer
mas
em lugar do menos, do estado de furor guerreiro, o domínio de si,.a também que prolonga em suas instituições as práticas e o espírito de
tal função. Daí essatensão, essaoscilação que Claude Mossé ilustra
sópÀrosynê. Tomava também possível, no contexto das lutas sociais
do século Vll, o acesso da antiga infantaria(esses homens do demos, com dois exemplos históricos, precisos e surpreendentes:de um lado
o exército nada é senão a própria cidade; de outro, contudo, é a cidade
esses/aol agmióraí que Homero opõe aos cowrol, aos arlsroí). a todos
que nada é senão uma tropa de gueneiros."
os privilégios que sua superioridade militar, simbolizada pelo carro
e os cavalos, reservava até então unicamente aos ãippeís e /zeníocAol.
De fato, com a falange,a panópliado guerreirose reduz a esse
equipamento hoplítico que os pequenosproprietários vamp:neses, da
mesma fomia que os possuidons de cavalos, podem pagar. Finalmen-
te, a falangeBaliza no campode batalhao modelode um grupo
humano onde cadaqual é igual ao outro e só pretende ser isso. O ideal
de ísorês,de ãomoiolês, com seucorolário, o direito de ísêgoria de
livre palavra na assembléiamilitar, de início o feito de uma elite de
combatentes, ligados entre si pela písris que selam os juramentos
recíprocos, poderáse estendera outras categoriassociais, a todos que
combatem, ao conjunto de cidadãos. Os valores aristocráticos e
guerreiros não morrem então com a cidade; perdem.seus traços 46
específicos, apagam-sena mesma medida em que é a cidade que se Le rale politique des années dons le monde grei à I'époque classique',
ProbZêmesde Zaguerra, pp 221-9.
faz completamente aristocracia, elite militar.
47
46