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Aluno: Flávio Ricardo da Silva

Professora: Dra. Jane Bittencourt


Disciplina: MEN5602 05328

Escola como veículo de transformação, currículo contextualizado,


emancipação e respeito mútuo na relação professor/aluno.

1- Introdução

O filme a ser analisado chama-se “Freedom Writers” (Escritores da


Liberdade). Meu foco de análise é, principalmente, a questão da escola como
possibilitadora de transformações sócio-culturais, indo além de uma instituição
reprodutora de modelos sociais já constituídos. Escola como ferramenta de
transformação da realidade de seus alunos. E como esse ideal de transformação se torna
mais fácil de ser alcançado a partir de mudanças que tornem o currículo mais atrativo e
mais significativo/relevante à realidade extraclasse dos estudantes. Também serão
abordadas a questão da emancipação proporcionada pela educação, quando ela
realmente alcança o estudante em seu mundo, e como esse “alcançar o estudante em seu
mundo” pode aumentar o respeito nas relações escolares.

2- Análise

Logo na primeira cena em que a professora Erin aparece, ela é confrontada


com o espírito conformista de sua supervisora, Margareth, que diz ser uma pena o
programa de integração voluntária (que inseriu jovens de várias etnias na escola) ter
feito com que 75% dos melhores estudantes do colégio se afastassem. Erin responde
que o programa é, exatamente, um dos grandes motivos de ela ter vindo àquela escola.
Ela fala sobre a experiência de ter visto na TV as revoltas de dois anos antes (1992,
revoltas mostradas nas cenas iniciais do filme), na época ela pretendia cursar direito,
mas chegou à conclusão de que quando o caso chega até um tribunal, a luta já está
perdida. Ali, na escola, ela poderia salvar alguns desses garotos e garotas antes que
chegassem a cometer um crime. Margareth responde que esta é “uma frase muito bem
pensada”.
Neste momento do filme já se mostra a visão crítica que Erin tem do papel da
escola. A escola para ela deve ser um meio de transformação social, e não uma mera
reprodutora do modelo social conflitante que existe fora (e dentro) de seus muros. Ao
longo do filme vemos como Erin está disposta a fazer adaptações e concessões no
currículo vigente para que esta finalidade transformadora do ambiente escolar possa ser
atingida com seus alunos. Margareth, por sua vez, encarna, ao longo de toda a película,
a visão tradicional da escola e do currículo. Para ela Erin é uma sonhadora e seus
métodos são ineficazes e coniventes com o mau comportamento dos estudantes – seu
modo de pensar a escola transparece no comentário irônico que ela faz quando Erin
expõe o que ela pensa sobre educação, “frase muito bem pensada”.
Margareth, em seu modo conservador de encarar a escola, acredita que o
ambiente escolar deve impor disciplina e obediência. Ela crê que o mau comportamento
dos estudantes deve ser punido. Margareth não parece conseguir enxergar a situação na
qual estes estudantes vivem e como esta se reflete em seu comportamento na classe. Ela
mira apenas no currículo e em suas exigências “objetivas” de aprendizado e avaliação,
mas não pode ver o abismo que separa esse currículo da vida cotidiana dos estudantes.
A escola não é contestada por Margareth, a culpa é dos alunos que, como ela diz em
certa altura, “não estão interessados em educação”. Margareth não pode atinar que o
próprio modo como o currículo é escolhido e estruturado, ignorando a situação concreta
dos estudantes, acaba por excluir os alunos que não podem cristalizar a linguagem na
qual o currículo é pensado e repassado a eles em suas experiências cotidianas concretas.
Surgem perguntas como: no que isso vai me ajudar? O que isso tem a ver com a
realidade que vivo todos os dias? Em outras palavras, os estudantes estão sim, ao
contrário do que Margareth pensa, interessados em educação, mas não na educação
oferecida pelo currículo tradicional e conservador, que está alienado em relação às
vivências cotidianas dos alunos. Os estudantes da sala 203, apesar de tidos como
“burros”, podem enxergar a hipocrisia dos conteúdos que estudavam em relação à
realidade que viviam. Enxergando essa hipocrisia perdem o respeito pela escola, não
vêem sentido em freqüentá-la. Uma escola que não se posiciona frente à crueldade do
ambiente social em que seus alunos estavam inseridos e que desse modo acaba
contribuindo para que esse ambiente não seja modificado. Em uma das cenas do filme
um garoto é baleado em uma loja de conveniência e, no dia seguinte, o diretor,
comentando o caso com os professores, diz que não se fala sobre isso dentro da sala de
aula.
Em outra cena marcante do filme, Erin intercepta um desenho racista
retratando a figura de um dos alunos (negro) com lábios exageradamente grandes,
caricaturados. Ela, então, reprova a atitude dos estudantes que riem do desenho,
chamando a atenção deles para a similaridade do desenho com as caricaturas de judeus
usadas pelos alemães, em jornais, nas suas campanhas anti-semitas que acabaram
desembocando no horror do holocausto. Enquanto ela os repreende os alunos
respondem a ela com rispidez dando pequenos relatos a cerca das suas vivências e
afirmando que ela não os pode compreender e eles não devem respeito a ela
simplesmente porque ela é professora, ela tem de merecer o respeito deles. Isso ela não
conseguirá meramente afirmando sua posição superior dentro da hierarquia da escola.
Eva, uma das alunas, questiona abertamente a importância de estudarem o que estavam
estudando frente à vida que levavam, uma vida em que temem levar um tiro “toda vez
que saem de casa”. Nessa cena primorosa toda a hipocrisia da relação
professora/estudantes e currículo/realidade é posta a mostra, se ergue do ocultamento e
se faz ver nitidamente. É a partir desse momento que a abordagem de Erin em relação à
classe se modifica mais substancialmente. Ao fim da cena, Tito, o garoto que havia feito
a caricatura racista de seu colega negro, pergunta a professora Erin o que é holocausto.
Erin se surpreende e questiona o resto da classe a cerca de quem, ali, conhece o
holocausto. Apenas um aluno ergue a mão. Eis a abertura pela qual ela poderia
estabelecer real contato com seus alunos, é essa abertura que ela utiliza.
A partir do confronto descrito no parágrafo precedente, Erin começa a se
interessar mais pela vida dos seus alunos fora da escola. E faz modificações no
conteúdo do currículo para torná-lo mais atraente e mais significativo para seus alunos.
Um exemplo disso é a inserção de um livro sobre um garoto membro de gangue, já que
boa parte da classe tem envolvimento (direto ou indireto) com gangues. Com a brecha
dada na discussão sobre o nazismo, Erin utiliza o holocausto como um espelho para
fazer com que seus alunos possam ver sua própria realidade a partir de uma perspectiva
diferente. O estudo do holocausto fornece aos alunos uma visão que vai para além das
questões de classe social, cor da pele, “hierarquia das ruas”, as quais eles estavam
presos e pelas quais eles julgavam uns aos outros – odiando-se mutuamente por uma
mera questão de cor da pele, por exemplo – e pode fazê-los se unirem em vista da face
do sofrimento humano que cada um representa. O compartilhar de suas dificuldades e
dores vivenciadas no cotidiano por meio de diários (outra prática inserida por Erin) faz
com que possam se identificar pelo sofrimento humano retratado na história de vida de
cada um. Assim a classe se torna unida e produtiva. A partir do momento em que a
escola, representada na figura da professora Erin, se torna e é reconhecida pelos
estudantes como possibilitadora de novos horizontes de sentido ou, nas palavras de Erin
falando ao marido sobre sua escolha profissional, quando “ela pode ajudar esta garotada
a fazer sentido de suas vidas”, então a escola, a professora e o que está sendo ensinado
em classe se tornam mais interessantes e mais dignos de respeito por parte dos alunos.
As relações currículo/cotidiano, professora/estudantes, deixam de ser hipócritas.
Erin procurou conhecer seus alunos, valorizar seu conhecimento prévio,
extraclasse, e a partir desse conhecimento estruturar aulas que atendessem os seus
interesses e anseios abrindo uma via de diálogo entre escola/professor/currículo e
estudantes que, ao mesmo tempo, se torna uma via de respeito mútuo. Pois o estudante
pode ver valor naquilo que está aprendendo, ver a contribuição da escola para a sua
existência como ser humano, e assim valorizá-la e respeitá-la como instituição relevante
para a sua vida. A escola pode fornecer ferramentas para sua emancipação e não apenas
lhe ensinar a ser disciplinado e a obedecer, como insinuava Margareth, a cerca dos
garotos e garotas da sala 203.

3- Conclusão

A título de conclusão gostaríamos de reforçar a idéia presente no texto de que


a escola pode e deve se tornar numa possibilitadora de transformação da realidade dos
alunos. Para que isto aconteça a instituição escolar deve alcançar o aluno nesta sua
realidade. Erin promove isso se interessando pela vida extraclasse de seus estudantes.
Nesse interessar-se, que se torna, também, uma espécie de choque entre mundos, a
hipocrisia oculta nas relações escolares vem à tona. A dissociação entre currículo e
realidade dos estudantes se torna evidente, e a posição hipócrita da escola frente aos
graves problemas sociais vivenciados por seus alunos é exposta.
A partir disso Erin encontra os meios para começar a falar realmente aos
estudantes que quer ensinar. Ela adapta o currículo as necessidades dos estudantes para
que este se torne mais relevante e significativo para o cotidiano deles. Nesse processo
de troca de experiências, em que a professora vai buscar no conhecimento prévio dos
alunos material para a aula, acaba se instituindo uma relação de respeito mútuo que
facilita grandemente a interação entre os alunos no ambiente da classe e também no
cotidiano de aprendizagem da mesma. A professora realmente conquistou o respeito de
seus alunos e não o teve apenas por uma questão de hierarquia escolar. Alunos
interessados se engajam naquilo que lhes está sendo exposto de modo que podem se
apropriar das ferramentas de emancipação que a escola proporciona.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ARAÚJO, U. F. de. Respeito e autoridade na escola. In: AQUINO, Julio


Groppa. Autoridade e autonomia. SP: Summus, 1999. Cap. 2, p. 49-70.
SILVA, T. T. da. Documentos de identidade: introdução às teorias do
currículo. 3 ed. Belo Horizonte: 2011