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o desgaste americano
Tradução:
MARCOS~ANTARRITA

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•• Para' Elizabetn Sifton

•• Copyright © 1993 by Robert Hughes


Todos os direitos reservados) inclusive os direitos de reprodução

.1 no todo ou em parte em qualquer forma


Título original:

••
Culture of complaint
The fraying of America
Capa:

•• João Baptista da Costa Aguiar


Preparação:
Katia Rossini

•• Revisão:
Liege M. S. Marucci
Luciola S. de Morais

••
•• Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
(Câmara Brasileira do Livro , SP, Brasil)

•• Hughes, Robert
Cultura da reclamação: o desgaste americano / Ro-

••
bert Hughes ; tradução Marcos Santarrita. - São Paulo:
Companhia das Letras, 1993.

ISBN 85-7164-344-X


'••.
1. Cultura - Estados Unidos 2. Ética 1. Título .

93-2831 CDD-306.0973

Índices para catálogo sistemático:


1. Estados Unidos: Cultura e sociedade: Sociologia
306 .0973

••
••
•• Todos os direitos desta edição reservados à
EDlTORA SCHWARCZ LTDA.

••
Rua Tupi, 522
01233-000 - São Paulo - SP
Telefone: (011) 826-1822
Fax: (011) 826-5523

••

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e
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•I.'
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SUMÁRIO e
••
••
Introdução .!
11
••
1
Cultura e desintegração da ••
••
comunidade política
13

2
Multi-Culti e seus descontentes .•\
73
••
3
A moral em si:
a ar te e a falácia terapêutica
••
125
••
Notas
163 ••
••
••
.I
.1

••
••
••
•• INTRODUÇÃO

••
•• Este livro nasce da série de conferências que fui convidado a

•• fazer sob os auspícios da Oxford University Press e da Biblioteca


Pública de Nova York, na Biblioteca, em janeiro de 1992. Já há vá-
rios anos as nebulosas questões a respeito de "correção política",

•• "multiculturalismo", politização das artes e assim por diante vinham


passando do mundo acadêmico, do mundo da arte e das revistas cul-
turais para o jornalismo comercial americano, causando, em geral,

•• mais calor e fumaça que luz. Achei que seria interessante e talvez
útil examiná-las do ponto de vista de um escritor praticante, nem


acadêmico nem cidadão americano, mas com um pé na história e
outro nas artes visuais. Isso implicava atravessar vários campos mi-

'.• nados sociais , e especular em áreas que não são minha especialida-
de, como a educação num país onde não fui criado, e a política num
Estado onde não posso votar; não peço desculpas por isso. Após

•• 22 anos nos Estados Unidos, grande parte do país ainda me parece


muitíssimo exótico; sobretudo as relações singularmente exacerbadas

•• entre cultura e moralidade, que foram, em grande parte, o tema das


conferências e deste livro. Espero que o leitor não interprete isso
como antiamericanismo, nem como indevida condescendência de um

•• estrangeiro . Depois da Austrália, os Estados Unidos são o país que


mais conheço e amo, e a esta altura minha ligação com ele é visceral.
Uma conferência de uma hora é curta, 5 mil palavras no máxi-

•• mo . Ao concluir a série, senti-me insatisfeito por ter abordado uma


variedade de assuntos sem poder alongar-me sobre eles. Logo de-
pois, o texto das duas primeiras conferências foi condensado numa

•• matéria de capa da edição de 3 de fevereiro da revista Time, "The


fraying of America" [O desgaste da América]. (A terceira confe-
rência foi publicada na íntegra pelo New York Review of Books;

•• 11


mais uma vez, devo agradecer ao seu editor, Robert Silvers, e a meus
.'••
editores na Time, Walter Isaacson e Christopher Potterfield, pelo
-estímulo, entusiasmo e trabalho estafante para transformar a pala-
vra falada em palavra escrita.) Tão grande foi a reação dos leitores
••
aos artigos que decidi apresentar toda a minha argumentação, e o
resultado é este livro. Escrito nos Estados Unidos, entre a primave-
ra e o outono de 1992, contém muitas referências a fatos não abor-
1 ••
dados nas conferências originais, po r não terem ainda acontecido .
CULTURA E DESINTEGRAÇÃO DA
COMUNIDADE POLÍTICA ••
.'
O principal foi a vitória do Partido Democrata com Bill Clinton,
numa eleição presidencial que acabou sendo, em não pequena me-
dida, um referendo sobre muitas das questões em meu texto original.
Minhas dívidas com outros, em conversas, são muitas e gran-
des. Não posso relacionar todas, mas tenho algumas particulares para
com Arthur Schlesinger (cujo livro recente, The disuniting of Ame-
•e!
rica [A desunião da América], diz muita coisa que eu digo, mas o
••
.'
fez antes e melhor); com Gilbert T. Sewell, da Social Studies Re-
view, por me fornecer um exemplar daquele documento singular,
"The Portland baseline essays" [Os ensaios de base de Portland];
com Edward Said; e com Davied Rieff. E, como sempre, para com
minha amada esposa, Victoria Hughes, e seu perfeito senso prático .
-.••

•.'•
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••
12
.'

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••

'.•• Há pouco mais de cinqüenta anos, o poeta W . H . Auden reali-
zou o que todos os escritores invejam: uma profecia que se concre-
tizou . Está contida numa longa obra intitulada For the time being:
a Christmas oratorio [Por enquanto: um oratório de Natal], onde

•• Herodes discorre sobre a desagradável tarefa de massacrar os Ino-


centes. Não quer fazer isso, porque no fundo é um liberal. Mesmo
assim, diz, se se deixar que a tal criança escape,

•• Não é preciso ser profeta para prever as conseqüências (.. .]


A Razão será substituída pela Revelação (.. .] O Conhecimento de-

••
.generará num tumulto de visões subjetivas - sensações no plexo so-
lar causadas por subnutrição, imagens angelicais geradas por febre ou
drogas, avisos em sonhos inspirados por um som de água caindo. Cos-

••
mologias inteiras serão criadas a partir de algum ressentimento pes-
soal esquecido, épicos int eiros escritos em linguagens privadas, bor-
rões infantis julgados superiores às maiores obras-primas (...]

••
O Idealismo será substituído pelo Materialismo [...] Desviado de sua
válvula de escape normal, o patriotismo e o orgulho cívico ou fami-
liar, o anseio das massas por um Ídolo visível para adorar será dirigi-

••
do para canais totalmente insociáveis onde nenhuma educação pode
alcançá-lo. Homenagens divinas serão prestadas a rasas depressões na
terra, animais de estimação, moinhos de ven to em ruínas ou tumores
malignos .

•• A Justiça será substituída pela Piedade como virtude humana fun-


damental, e desaparecerá todo o medo da punição. Cada garoto de

••
esqu ina se congratulará consigo mesmo: "Sou tão pecador que Deus
em pessoa desceu para me salvar". Todo vigarista argumentará: "Gosto
de cometer crimes. Deus gosta de perdoá-los . Na verdade o mundo

••
está admiravelmente organizado". A Nova Aristocracia consistirá ex-
clusivamente de eremitas, vagabundos e inválidos permanentes . O Dia-


1
15

r.'.
•.'
mante Bruto, a Prostituta Tísica, o bandido bondoso para com a mãe,
a jovem epiléptica que tem jeito com animais serão os heróis. e heroí-
nas da Nova Tragédia, quando' o general, o estadista e o filósofo se
tiverem tornado motivo de toda farsa e sátira.
para baixo, para espetáculos a~alfabetos sobre gatos ou a queda de
Saigon. A grande forma americana do rock-'n' -roll foi supertecno-
logizada e moida pelo triturador 'em p r esarial, até tornar-se 95 por
cento sintética.
.'••
o que Herodes viu foi os Estados Unidos em fins da década
de 80 e início da de 90. Uma comunidade obcecada por terapias
Para os jovens, cada vez mais, a diversão institui padrões edu-
cacionais e cria "verdades" sobre o passado. Milhões de america- ••
e cheia de desconfiança em relação à política formal; cética em re-
lação à autoridade e presa da superstição; sua linguagem política
corroída pela falsa piedade e por eufemismos. Igual à Roma do
nos, sobretudo jovens, imaginaram que a "verdade" sobre o assas-
sinato de Kennedy está em JFK, o vívido filme mentiroso de Oliver
Stone, com sua elevação paranóide de um desacreditado promotor ••
fim, e diferente da república inicial, no longo alcance de seu impé-
rio, na corrupção e verbosidade de seus senadores, na confiança
de New Orleans à condição de herói político atacado por um esta-
blishment militar mau e onipresente, que assassinou Kennedy para
••
em gansos sagrados (ancestrais emplumados de nossas pesquisas
de opinião e psicanalistas) e na submissão a imperadores senis, dei-
ficados, controlados por esposas extravagantes. Uma cultura que
nos manter no Vietnã. Quantos deles viram alguma coisa errada na
freqüente afirmação de Stone de que estava criando um "contra-
mito" para as descobertas da Comissão Warren, como se nosso
conhecimento do passado equivalesse à propagação de mitos? O tra-
'.•;
substituiu os jogos de gladiadores, como meio de apaziguar a mas-
sa, por guerras hign tech na televisão que causam matanças imen-
tamento da história dado antes por Hollywood não tinha importân-
cia - aquela bobagem sobre Luís xv, ou o pieguismo sobre lord •.J
.'.'
sas mas deixam os sátrapas mesopotâmios com todo poder sobre
Nelson, ou o blá-blá-blá religioso sobre Jesus. Mas numa época de
seus infelizes súditos.
minisséries semificcionais e simulações, quando a diferença entre a
Ao contrário de Calígula, o imperador não nomeia seu cavalo
TV e os fatos reais é cada vez mais indistinta - não por acidente,

•.'.J
cônsul; entrega-lhe o controle do meio ambiente ou nomeia-o para
mas como política deliberada dos chefões dos meios de comunica-
a Suprema Corte. Em sua maioria são as mulheres que protestam,
ção eletrônicos - esses exercícios encaixam-se num contexto senti-
pois devido à predominância das religiões de mistério os homens vão

.i•
mentalóide, ansioso, de suspensão da descrença, que a pseudo-
à luta, afirmando sua masculinidade com fungadas nas axilas uns história da velha Hollywood j amais teve.
dos outros e ouvindo poetas de terceira categoria esbravejarem so- E depois, como as artes mostram ao cidadão sensível a diferen-
bre o sátiro úmido e peludo que vive dentro de cada um deles. Os ça entre os bons artistas, os medíocres e as fraudes absolutas, e co-
que anseiam pela volta da sibila délfica têm Shirley MacLaine, e um mo sempre existe um número maior dos últimos que dos primeiros,
guerreiro Cro-Magnon de 35 mil anos chamado Ramtha encarna-se também elas têm de ser politizadas; assim, remendamos sistemas crí-
•.,
.'•
numa dona de casa loira da costa Oeste, gerando milhões e milhões ticos para mostrar que, embora saibamos o que queremos dizer por
de dólares de culto em seminários, fitas e livros. qualidade do meio ambiente, a idéia de "qualidade" na experiência
Enquanto isso, os artistas hesitam entre uma expressividade em estética pouco mais é que uma ficção paternalista destinada a difi-
grande parte comodista e uma politização quase sempre impotente, cultar a vida de artistas negros, mulheres e homossexuais, que de-
e a disputa entre educação e TV - entre discussão e convicção atra- vem de agora em diante ser julgados por sua etnicidade, gênero e
vés do espetáculo - foi ganha pela televisão, hoje um veículo mais
aviltado do que nunca nos Estados Unidos. Mesmo suas artes po-
pulares, outrora maravilha e deleite do mundo, decaíram; houve uma
estado de saúde, e não pelos méritos de sua obra.
À medida que se difunde para a arte a reação lacrimosa contra
a excelência, a idéia de discriminação estética é metida no mesmo
••
época, ainda na memória de alguns de nós, em que a música popu-
lar americana transbordava de exaltação, de dor e humor, e atraía
os adultos. Hoje, em vez da bruta intensidade do Muddy Waters
saco com a de discriminação racial ou de gênero. Poucos se rebe-
lam contra isso, ou notam que, em questões de arte, "elitismo" não
significa injustiça social e nem mesmo inacessibilidade. O ego é ho-
••
ou da viril inventividade de Duke Ellington, temos Michael Jack-
son, e em vez de George Gershwin e Cole Porter somos arrastados
je a vaca sagrada da cultura americana, a auto-estima é sacrossan- .
ta, e assim nos esforçamos .p ar a transformar a educação num siste- ••
16 17
••
••
•• ma em que ninguém pode fracassar. No mesmo espírito, o tênis de-
via ser despido de suas nuances elitistas:é só nos livrarmos da rede.
Como nossa recém-descoberta sensibilidade decreta que só a ví-
A vida pública dos Estados Unidos hoje compõe-se em grande par-
te de segundos atos, e tornou-se uma paródia inconvincente da pro-
messa original da América como um lugar onde qualquer um, ali-

•• tima pode ser o herói, também o homem branco americano começa


a berrar pelo status de vítima. Daí o surgimento de terapias da mo-
viado dos fardos do Velho Mundo , poderia ter um novo início.
Lembro-me de que tive alguns receios há quinze anos quando Char- .

••
o da que ensinam que todos somos vítimas de nossos pais: que, seja les Colson, um dos vilões menores de Washington na época de Wa-
qual for a nossa loucura, venalidade ou franco banditismo, a culpa tergate, anunciou nos portões do presídio de segurança mínima que
não é nossa, já que viemos de "famílias disfuncionais" e, como John tinha visto a luz de Cristo e renascera. Os americanos não iam en-

•• Bradshaw, Melody Beattie e outros gurus dos programas em doze


etapas se apressam a afirmar sem a menor evidência, que 96 por cento
- das famílias americanas são disfuncionais. Fomos expostos a im-
golir aquilo, certo? Mas engoliram. Até mesmo David Duke disse
que tinha renascido do nazismo para a irmandade de Cristo - e
milhares de pessoas acreditaram nele. Daqui a pouco a família de

•• perfeitos, ou nos deixaram carentes de amor, ou nos espancaram,


ou talvez tenhamos sido submetidos às luxúrias de sátiro do papai;
e se achamos que não, é só porque reprimimos a lembrança, e por-
Robert Maxwell vai dizer a seus lesados banqueiros e ex-empregados
que ele foi honesto no fim, e morreu de uma desastrada tentativa
de autobatismo por imersão total. Com tantos picaretas fazendo fi-

•• tanto temos mais urgente necessidade do recém-lançado livro do


charlatão.
O número de americanos que sofreram abusos quando crian-
la para se lavar no sangue do Cordeiro, não admira que a pobre
criatura esteja parecendo meio pálida.
A generalizada alegação de vitimização derruba a cultura da

•• ças, e que portanto agora estão absolvidos de toda culpa por qual-
quer coisa que possam fazer, é mais ou menos igual ao número dos
terapêutica há muito acalentada nos Estados Unidos. O fato de al-
guém parecer forte só pode ocultar uma instável estrutura de nega-

•• que, há uns poucos anos, tinham sido outrora Cleópatra ou Henri-


que VIII. Assim, o éter hoje está congestionado com exibições con-
f'essionais em que um desfile de cidadãos e seus modelos, de Latoya
ção, mas ser vulnerável é ser invencível. A lamentação dá poder -
mesmo que sej a apenas o poder de chantagem espiritual, de criar
níveis antes despercebidos de culpa social. Basta proclamar-se ino-

•• Jackson a Roseanne Barr, se levanta para denunciar os pecados de


seus pais, reais ou imaginados. Não ter consciência de uma infância
infeliz é prova cabal, aos olhos da Recuperação, de "negação" -
cente que sua cabeça rola. As mudanças produzidas por isso podem
ser vistas em toda parte, e sua curiosa tendência é fazer convergi-
rem a "direita" e a "esquerda". É só pensar na recente forma de

•• pois a suposição é que todos tiveram uma, e portanto trata-se de discussão das questões sexuais, que cada vez mais giram em torno

I. uma fonte de renda potencial. O culto da Criança Interior abusada


tem um uso muito significativo nos Estados Unidos de hoje: diz-
nos que o ressentimento pessoal transcende o discurso político, e que
de vitimização. Os pró-vida tomam de empréstimo o jargão femi-
rnista e chamam o aborto de "estupro cirúrgico" (não importa que
, seja um ato inteiramente voluntário), .... _. ---

• a curva de produção ascendente do narcisismo piegas não precisa Enquanto isso, a nova ortodoxia feminista abandona a imagem

I..'
cruzar com a espiral descendente da trivialidade cultural. Assim, a da mulher independente, existencialmente responsável, em favor da
busca da Criança Interior acaba de tomar o poder no momento mes- mulher como vítima desamparada da opressão masculina - tratem-
mo em que os americanos deviam estar se perguntando onde anda na como igual perante a lei, e estarão agravando sua vitimização.

•• o seu Adulto Interior, e como esse maior abandonado acabou en-


terrado sob os detritos da psicologia pop e da capciosa satisfação
a curto prazo. Imaginamos um Taiti dentro de nós mesmos, e pro-
Os conservadores se deliciam lançando seus argumentos nos mes-
mos termos de vitimologia, com a diferença de que, para eles, o que
produz vítimas é o próprio feminismo, em conluio com o falo opor-

• curamos seu habitante de antes da queda: cada um seu próprio No- tunista. Em Enemies of Eros [Inimigos de Eros] (1990), a escritora

••'.
bre Selvagem. antifeminista Maggie Gallagher afirma que "o homem explora a
Se a Criança Interior não nos liberar, o abraço da redenção o mulher toda vez que usa o corpo dela para o prazer sexual sem que
fará. Dizia-se que não há segundo ato nas vidas americanas. Isso esteja disposto a aceitar todo o fardo da paternidade". Ela "pode
foi antes de a TV começar a queimar as células de nossa memória. consentir plenamente, conscientemente, entusiasticamente com sua

• 18 19

'.
••
exploração. Isso não modifica a natureza da transação". Quase exa-
tamente a mesma opinião da feminista Andrea Dworkin - sexo en-
lamentar britânica - fo i o rompimento do status de vítima colonial
e a criação de um Estado secular no qual os direitos óbvios seriam
continuamente ampliados no interesse da igualdade.
••
••
tre homem e mulher é sempre estupro. "Durante a relação sexual,
a mulher é, fisicamente", escreve essa extremista, "um espaço in- Sempre houve atrito entre os resquícios da ideologia puritana
vadido, um território literal ocupado Iiteralmente; ocupado mesmo de uma hierarquia dos virtuosos, sob o imutável olho de Deus, e

••
que não tenha havido resistência; mesmo que a mulher ocupada di- o conceito americano posterior, revolucionário, do século XVIII, de
ga: 'Sim, por favor, sim, vamos logo, sim, mais,.,,1 Essas visões desenvolvimento secular e incessante em direção à igualdade de di-
grotescamente ampliadas de ataque criminoso reduzem as mulheres reitos inerentes ao homem, e não simplesmente concedidos pelo go -
a vítimas sem vontade própria, privadas do poder tanto de consen-
tir quanto de negar, meras bonecas jogadas de um lado para outro
aos ventos ideológicos do extremismo feminista. "Encarar o 'sim'
verno. Esse atrito parece não ter fim; ainda o sentimos hoje. Foi
previsto em 1835 por Alexis de Tocqueville, em Democracy in Ame-
rica [Democracia na América]:
••
como sinal de verdadeiro consentimento" , escreveu a professora da
Faculdade de Direito de Harvard, Susan Estrich, "é enganoso". Tu-
do é estupro até prova em contrário.
Os homens jamais estabelecerão uma igualdade com a qual se satisfa-
çam [... ] Quando a desigualdade de condição é a lei comum da socie- ••
Dessas e outras formas criamos uma infantilizada cultura da
lamentação, em que o Papaizão é sempre o culpado, e a ampliação
de direitos prossegue sem a outra metade da cidadania - a ligação
dade, as mais acentuadas desigualdades não ferem o olho; quando tu-
do está quase no mesmo nível, as mais leves são visíveis o bastante
para machucá-lo . Daí o desejo de igualdade tornar-se sempre mais in- •e\
com deveres e obrigações. Ser infantil é uma forma regressiva de
desafiar a tensão da cultura empresarial: Não me pise, eu sou vul-
saciável à medida que a igualdade é mais completa.
Essa era a visão de um visitante do Velho Mundo, tão limitado .
pelo sistema de classes que achava que a igualdade era a "lei comum"
•e'
••
nerável. A ênfase é no subjetivo: como nos sentimos em relação às
coisas, em vez do que pensamos ou podemos saber. Os problemas num país que ainda não saíra da condição de Estado escravagista.

.'••
desse voltar-se para dentro foram esboçados há muito tempo por Não podemos nos imaginar partilhando de seu exaltado elitismo,
Goethe, falando a Eckermann: "As épocas regressivas, e em pro- mas Tocqueville tinha alguma razão. O temperamento básico dos
cesso de dissolução, são sempre subjetivas, ao passo que a tendên- Estados Unidos tende para um ideal de existência que provavelmente
cia em todas as épocas progressivas é objetiva [...] Todo esforço real- nunca poderá ser alcançado, mas que também jamais pode ser aban-
mente excelente sai de dentro para o mundo, como se vê nas grandes donado: direitos iguais para a variedade, para construirmos nossa
épocas que tiveram real progresso e aspiração, e que foram todas

••
vida como quisermos, escolhermos nossos parceiros de viagem. Es -
de natureza objetiva." te sempre foi um país heterogêneo, e sua coesão, .sej a qual for, só
pode basear-se no respeito mútuo . Jamais houve aqui um país onde

11
todos se parecessem, falassem a mesma língua, adorassem os mes-
mos deuses e acreditassem nas mesmas coisas. Mesmo antes da che- .<

Como percebeu Auden, o que essa cultura gosta é dos fetiches
gêmeos da vitimização e da redenção. Os puritanos se consideravam,
com razão, vítimas de perseguição, enviadas para criar um -E st a do
teocrático cujas virtudes transcenderiam os males do Velho Mun-
do, e com isso redimiriam a queda do homem europeu. A sublime
gada dos europeus, os índios americanos viviam constantemente na
garganta uns dos outros. Os Estados Unidos são uma construção
do espírito, não de uma raça ou classe herdada, ou de um território
ancestral.
Sei muito bem que tudo isso já foi dito, mas sua verdade óbvia
-.'
e'
é o motivo de os Estados Unidos sempre terem parecido maravilho-

.'•.)
e radical experiência de democracia americana - e vale a pena lem-
sos a estrangeiros como eu . Isso não significa que tenham o mono-
brar que, embora tendamos a pensar nos Estados Unidos como per-
pólio da liberdade, ou mesmo que seus modelos de liberdade sejam
petuamente novos, a queda dos despotismos tornou sua forma de
exportáveis para todas as partes do mundo . Mas é um credo nasci-
governo mais antiga e contínua do que qualquer outra da Europa,
mais' que a Revolução Francesa e muito mais que a democracia par- do da imigração, do acotovelamento de dezenas de tribos que se tor-

20 21
••
••
•• . nam americanas na medida em que conseguem estabelecer 'com pr o-
missos umas com as outras. Essas negociações têm êxitos desiguais,
. e muitas vezes fracassam : basta examinar a história das relações ra-
Em vez de um terreno comum, temos demagogos bradando que só
há um caminho para o americanismo virtuoso : paleoconservadores
como Jesse Helms e Pat Robertson, que acham que o país tem uma

•• ciais' para ver isso.


É demasiado simples dizer que os Estados Unidos são, ou fo-
ética única, neoconservadores que criam um espantalho exagerado
chamado multiculturalismo - como se a própria cultura ocidental

•• ram algum dia, um cadinho. Mas também é demasiado simples di-


zer que nada de seu conteúdo na verdade se fundiu . Nenhuma me-
táfora única pode fazer justiça à complexidade de cruzamento e di-
tivesse algum dia sido outra coisa que não multi, vivendo de seu ecle-
tismo, seu poder de bem-sucedida imitação, sua capacidade de
absorver formas e estímulos "estrangeiros" - e traficantes da cor-

•• fusão culturais nos Estados Unidos . O mutualismo americano não


tem escolha senão viver no reconhecimento da diferença. Mas é des-
truído quando essas diferenças são transformadas em baluartes cul-
reção política, que gostariam de ver o ressentimento elevado à san-
tidade automática.
Na sociedade, como na agricultura, a monocultura fu nciona de

•• turais. Costumava-se usar uma metáfora morta -.. :. . . "balcanização"


- para lembrar a divisão de um campo em seitas, grupos, pequenos
nódulos de poder. Hoje, sobre o cadáver desmembrado da Iugoslá-
maneira medíocre. Exaure o solo . A riqueza racial dos Estados Uni-
dos, tão impressionante para o estrangeiro, vem da diversidade de
suas tribos. Sua capacidade de coesão, de um certo espírito de con-

•• via, cujas "diferenças culturais" (ou, para falar claro, arcaicas san-
dices religiosas e raciais) foram liberadas pela morte do comunismo,
cordância sobre o que se deve fazer, vem da disposição dessas tribos
de não transformar suas diferenças culturais em barreiras e trinchei-
ras intransponíveis, não fetichizarsua "africanidade" ou italiani-

•• vemos o que essa rançosa figura de estilo significou outrora e pode


voltar a significar de novo . Um mundo hobbesiano: a guerra de todos
contra todos, engalfinhados em luta sangrenta e ódio teocrático, a
tã, que as tornam distintas, às custas de sua americanidade, que lhes
proporciona um vasto terreno comum. Ler os Estados Unidos é co-

•• reductio ad insanitatem do suave e moderado multiculturalismo ame- mo contemplar um mosaico. Se olharmos o quadro geral, não vere-
ricano. Que governo imperial, que tirania dos Habsburgo ou indo- mos as partes - os ladrilhos distintos, cada qual de uma cor dife-
lente domínio dos apparatchiks moscovitas não seriam preferíveis rente. Se nos concentrarmos apenas nos ladrilhos, não veremos o

•• a isso? Contra esse apavorante pano de fundo, tão distante da ex-


periência americana desde a Guerra Civil, temos agora nossos con-
servadores prometendo uma "guerra cultural", enquanto radicais
quadro.
Entramos num período de intolerância que se combina, como
às vezes acontece nos Estados Unidos, com um gosto adocicado pe-

•• ignorantes discursam sobre "separatismo ". Eles não têm idéia de


quais demônios estão invocando com sua frivolidade. Se soubessem,
lo eufemismo. Essa conjunção gera fatos que ultrapassam os mais
desvairados sonhos da sátira - se a sátira ainda existisse no país;
talvez o motivo de sua fraqueza seja que a realidade a superou . Ve- .

• calariam a boca, envergonhados.


Duzentos e sessenta milhões de pessoas compõem o mesmo país,
mas isso não significa que sejam todas do mesmo tipo, com as mes-
jam, por exemplo, a batalha pelos direitos das vítimas recentemen-
te travada no restaurante Betty's Oceanview Diner, em Berkeley, Ca-

••
• ,1) lifórnia, e descrita com certo grau de prazer turrão por Nat Rentoff
mas crenças e costumes. Permanece o fato de que os Estados Uni- no Village Voice . 2 .
dos são uma obra coletiva da imaginação, cuja construção jamais Ali, numa manhã de 1991, uma garçonete chamada Barbara,
termina, e, assim que se rompe esse senso de coletividade e respeito

•• mútuo, começam a desfiar-se as possibilidades do americanismo. Se


estão puídas hoje, é porque, nos últimos vinte anos, a política de
que depois se recusou a revelar seu sobrenome, viu um jornalista
sentado sozinho e dando uma olhada num artigo sobre a Constitui-
ção, do próprio Nat Hentoff', numa revista. Só que a revista era a

••
ideologia enfraqueceu e em algumas áreas partiu o tradicional gê- Playboy ; e por isso Bárbara Qualquer-Coisa se recusou a servir-lhe
nio americano para o consenso, para o progresso através de com- o desjejum, dizendo-se "apavorada e chocada", pois a simples vi-
promissos práticos destinados a satisfazer necessidades sociais reais. são de Playboy já era uma forma de estupro por procuração, assé-

•• Durante toda a década de 80, isso aconteceu com deprimente


regularidade em ambos os lados da política partidária americana .
dio sexual em local de trabalho, uma ameaça à auto-estima das mu-
lheres, e assim por diante.

•• 22 23
••
Ela e a gerente solicitaram-lhe que fosse embora. E assim o infe-
liz escriba, que na verdade só queria comer um bolinho e tomar um
Alguns impulsos nunca mudam, apenas caem na clandestini- .
dade; há uma conexão direta por cabo entre Cooper Union 1992,
••
café, não um confronto sobre direitos civis, bateu em retirada. Pou-
co depois um grupo de libertários civis da Bay Area fez uma sessão
de leitura no Diner, com exemplares gratuitos dePlayboy fornecidos
Berkeley 1991 e Massachusetts 1670, e ela passa por fora da Consti-
tuição. Há cerca de dois anos, o líder da organização estudantil de
Stanford, jovem e negro, queixava-se de que "não impomos tantas
••
por um dos relações públicas de Hugh Hefner; depois veio uma con-
tramanifestação de grupos feministas, cujos membros afirmavam que
"a saúde da mulher é afetada pelo fato de Playboy estar num restau-
restrições à liberdade de expressão quanto devíamos" . Exatamente
a opinião do deputado Jim Inhofe, republicano por Oklahoma, que
mais ou menos na mesma época se levantou na Câmara para decla-
••
rante", e que isso "nada tinha a ver com a liberdade de expressão;
tinha a ver com poder - poder dos homens brancos imporem seus
rar seu apoio à emenda de George Bush à Constituição para prote-
ger a bandeira, com as sonoras palavras: "Há um momento em que ••
••
padrões a todo mundo, por mais humilhante que isso fosse". Se a a liberdade de expressão não representa os melhores interesses deste
primeira lei da vida empresarial americana é que pau seco flutua, a país, e chegamos a este ponto". Paleoconservadores e terapeutas
regra correspondente do papo da liberação é que ar quente se expan- da livre expressão estão ambos no mesmo barco, e a única diferen-
de. Como veremos, abundam ultimamente nos Estados Unidos as oca-
siões em que alguém impede alguém de dizer alguma coisa e depois
nega que isto seja uma questão de liberdade de expressão.
ça é o que eles querem proibir.
Essa atmosfera de lamúria e denúncia impôs um considerável
fardo aos leitores e escritores, quanto à interpretação - e ao ensino
••
O episódio do Betty's Diner foi cômico; outros acontecimen-
tos são muito menos. Em outubro de 1992, o Village Voiee patroci-
nou uma noite de debates na Cooper Union, em Nova York, sobre
- daquilo que se escreve.
Assim como nossos ancestrais do século xv estavam obcecados
com a criação de santos, e os do século XIX com a produção de he-
••
o tema "Pode um liberal ser pró-vida?" Os principais oradores eram
Nat Hentoff e o governador Robert Casey, da Pensilvânia, um de-
mocrata que tinha discordado da plataforma pró-escolha [das mu-
róis, de Cristóvão Colombo a George Washington, também nós es-
tamos obcecados pelo reconhecimento, louvor e, quando necessá-
rio, fabricação de vítimas, cujo único traço comum é o fato de lhes
••

•.'•
lheres decidirem se devem ou não fazer um aborto] da Convenção ter sido negada a paridade com a Besta Loira da imaginação senti-
Democrata em NovaYork três meses antes. Ora, havia sem dúvida mental, o homem branco heterossexual de classe média.
motivos para contestar Casey - como' observou depois Nat Hen- A gama de vítimas existentes há dez anos - negros, chicanos,
toff, há uma gritante incoerência entre sua carinhosa consideração índios, mulheres, homossexuais - hoj e foi ampliada para incluir
pelos direitos do feto e seu apoio à pena de morte para adultos - , toda variação do gago, do cego, do aleijado e do baixo, ou, para
mas isto nem sequer chegou a ser ventilado. O que aconteceu, ao
contrário, foi que uma gangue de manifestantes pró-aborto, alguns
usando buttons que diziam FüDA-SE A LIBERDADE DE EXPRESSÃO, to-
I pôr a coisa na terminologia americana ,correta, os diferentemente
, capacitados, os de visão diferente e os verticalmente contestados.
Nunca antes na história humana houve tantos acrônimos em busca
••
mou o salão e impediu qualquer orador de ser ouvido, de modo que
o próprio debate foi abortado. Uma das manifestantes, uma hárpia
de um obscuro grupo esquerdista, mais tarde vangloriou-se, em seu
de identidade. É como se todo encontro humano fosse um grande
ponto sensível, eriçado de oportunidades de involuntariamente dis-
tribuir, e receber, ofensas. Há trinta anos, um dos processos épicos
••
nome e no de seus camaradas, dessa vitória sobre a liberdade de ex-
pressão, numa carta ao Village Voiee: "Quando oitenta a cem ati-
vistas anti-racistas e pró-escolha acabam com um fórum de um dos
na afirmação da dignidade humana começou a se desdobrar nos Es-
tados Unidos: o movimento pelos direitos civis. Mas hoje, após mais
de uma década de governo que fez o que pôde para ignorar as ques-
••
mais poderosos racistas e sexistas dos Estados Unidos, como nós
e outros fizemos [... ] isso é uma vitória para todos os progressis-
tões de raça, quando não tratou de anular as conquistas da década
de 60, a reação americana habitual à desigualdade é rebatízá-la, na ••
••
tas". Menos, claro, para os progressistas que não acreditam no co- esperança de que assim ela desapareça. Isso, como observou George
turno e na mordaça, e dão mais valor ao debate que às arengas dos Orwell em Polities and the English language [A política e a língua
camisas pardas. inglesa], destrói a língua sem mudar a realidade nem mesmo um

•.'
24 25
••
•• centímetro. A única proteção contra isso, argumentava, era ser con-
creto:
quando eram gentios, ou de "odiarem a si mesmos", quando ju-
deus, porque não seguiam à risca a linha política extremista do par-
tido Likud em Israel e seus grupos de pressão em Washington. Sob

•• Se simplificamos o nosso inglês, estamos livres das piores loucuras da


ortodoxia. Não podemos falar nenhum dos dialetos necessários, e quan-
do fizermos uma observação idiota, a idiotice dela será óbvia, até mes-
tensão, pessoas iradas que não têm linguagem suficiente (ou cuja
linguagem é apenas instrumento de um programa político) buscam

•• mo para nós. A linguagem política - e com variações isso se aplica a palavra mais emotiva que possam encontrar: "racista" é o exem-
a todos os partidos políticos, dos conservadores aos anarquistas - plo quintessencial de hoje, uma palavra que, como' 'fascista" , sus -
destina-se a fazer mentiras parecerem verdades, e o assassinato respei- cita tantos níveis de denúncia vaga que perdeu qualquer significado

••
tável, e a dar uma aparência de solidez a puro ar. Não se pode mudar que já tenha possuído. Alguém pode ser chamado de "racista" por
tudo isso num momento, mas pode-se ao menos mudar os próprios ter teorias malucas de superioridade baseadas na falta de melanina
hábitos. na pele humana; ou por afirmar a simples verdade de que o reve-

•• 111 !
rendo AI Sharpton enganou Nova Yark com o abuso inteiramente
fabricado da adolescente negra Tawana Brawley por imaginários ar-
ruaceiros brancos; ou por ter dúvidas sobre a eficácia da assistência

•• Orwell escreveu isso em 1946, e continua sendo verdade meio


século depois; de fato, sempre será verdade. Certamente existem coi-
social; ou, em algumas mentes, apenas por ser branco.
[i'Do mesmo modo como a linguagem se infla grotescamente no
ataque, também murcha timidamente na aprovação, buscando pa-

•• sas piores na sociedade americana que a atual v~ga da linguagem


politicamente correta, seja da esquerda ou da direita. Mas há pou-
cas coisas mais absurdas e, no fim, autoderrotantes.
lavras que não têm a mínima possibilidade de causar ofensa, por
mais emocionais que sejam . Nós não fracassamos, mas apenas con-
seguimos pouco. Não somos viciados, mas abusamos de substân-

•• Queremos criar uma espécie de Lourdes lingüística, onde o mal


e o infortúnio são afastados por um mergulho nas águas do eufe-
cias; não somos inválidos, mas diferentemente capacitados. E somos
insinceros até a morte: devemos referir-nos a um cadáver, exortou

••
mismo. O inválido levanta-se de sua cadeira, ou sente-se melhor es- o New England Journal of Medicine em 1988, como uma "~~s.o,a
tando pregado nela, porque alguém no tempo do governo Carter não-viva" . Por extensão, um cadáver gordo é uma pessoa não-viva
decidiu que, para fins oficiais, ele era "fisicamente prejudicado"? de dimensões diferentes . J

•• O homossexual acredita que os outros o amem mais ou odeiem me-


nos porque é chamado de 'ígay" - termo revivido da gíria crimi-
nal inglesa do século XVIII, que implicava prostituição ou viver de
Se essas afetadas contorções de fato levassem as pessoas a tratar-
se umas às outras com mais civilidade e compreensão, podia haver
um argumento em seu favor . Mas não fazem nada disso . Há seten-

•• expedientes? O ganho líquido é que os arruaceiros que antes davam


porrada nos homossexuais hoje dão porrada nos gays.
Ou tomemos "homofóbico", o termo favorito de insulto PC
ta anos, no uso polido dos brancos, os negros eram chamados de
colored people [pessoas de cor]. Depois tornaram-se negroes [ne-
gros]. Em seguida, blacks [pretos]. Hoje African-Americans [afro-

•• [politicamente correto]. Hoje, entre vinte pessoas que o usam) difi-


cilmente haverá uma que saiba o que significa. "Homofobia" é um
termo clínico para uma perturbação patológica. Significa uma ob-
americanos] ou persons of color [pessoas de cor] de novo. Mas para
milhões de americanos brancos, desde a época de George Wallace

••
até a de David Duke, eles continuaram sendo niggers [crioulos], e
sessão com o homossexualismo, causada pelo temor suprimido de a mudança de nomes não alterou a realidade do racismo, não mais
que a própria pessoa seja homossexual. Hoje pode ser) e é, indiscri- do que os anúncios rituais de Planos Qüinqüenais e Grandes Saltos

•• minadamente aplicada a qualquer um que demonstre a menor reserva


em relação a este ou àquele amante do mesmo sexo, ou conteste (mes-
mo brandamente) qualquer reivindicação de direito especial (por mais
Adiante transformaram em triunfos os desastres sociais do stalinis-
mo e do maoísmo . A idéia de que se muda uma situação encontran-
do-se uma palavra mais nova e mais amável para ela vem ·do velho

•• extremo que seja) deles como grupo ou classe. Na década de 80, ou-
vimos escritores americanos serem acusados de "anti-semitismo",
hábito americano do eufemismo, da circunlocução ~ da desespera-
da confusão em relação à etiqueta, produzida pelo receio de que

'. •
26 27
••
o real cause ofensa. E é um hábito singularmente americano. O apelo
a uma linguagem politicamente correta, embora obtenha alguma res-
se uso neutro de -man dá-nos formas como chairman, fisherman
[pescador], craftsman [artesão], significando apenas uma pessoa, de ••
posta na Inglaterra, praticamente não tem ressonância na Europa.
Na França, ninguém pensou em rebatizar O rei franco Pepino, o Bre-
ve, de Pepino, o Verticalmente Prejudicado, nem qualquer um dos
qualquer sexo, que exercia determinado ofício ou profissão. O anti-
go erro sexista que se supõe entronizado na palavra desde a época
de Beowulf revela-se inexistente ." No entanto, proporciona amplas
••
anões de Velázquez dá mostra alguma de tornar-se, para os espa-
'. nhóis, las gentes pequenas. E nem se pode pensar no caos que resul-
taria se acadêmicos e burocratas decidissem acabar com os termos
oportunidades para a exibição de mesquinha virtude r-c, como na
seguinte censura de uma tal S. Scott Whitlow, acadêmica da Facul-
dade de Comunicação da Universidade do Kentucky, a Victoria Mar-
••
específicos dos gêneros nas línguas românicas, onde cada su bstanti-
vo tem um gênero, enquanto, para piorar as coisas, o órgão genital
do macho é muitas vezes feminino e sua contraparte na fêmea não
tin, aluna, que a passou adiante ao American Spectator:
Cara Victoria, ••
raro masculina (la polla/el coiio).
Nenhuma mudança de palavras vai reduzir o volume de intole-
Em seu recente pedido de bolsa, membros do comitê de exame no-
taram o uso inapropriado da palavra chairrnan [... ] evidentemente, é
sobretudo inadequado dirigir-se a uma mulher como chairman, a me- •.:
rância nesta ou em qualquer outra sociedade. Mas aumenta o que
a mente militar muito lucidamente chama de dano colateral num am-
biente rico em alvos - ou sej a, o ferimento da linguagem inocente.
nos que ela tenha exigido especificamente uma linguagem tão restriti-
va [.. .] Em breve você estará entrando no setor empresarial ou dos
meios de comunicação, quando iniciar sua carreira. Também aí vai
••
Vejam o ataque lúmpen-feminista a todas as palavras que têm man
[homem] como prefixo ou sufixo .
Supõe-se que as palavras formadas com man sejam específicas
descobrir que existem expectativas de que a mulher não seja tornada
invisível pelo uso impensado da linguagem. Existem vários livros que
eu teria prazer em recomendar. Por favor , me informe caso deseje uma ••
de um gênero, e portanto ofensivas às mulheres : mankind [raça hu-
mana, humanidade], por exemplo, sugere que as mulheres não são
humanas. Assim, em lugar de chairman [presidente de um conse-
relação .
O que é tão irritante nesse pitéu não é só o inglês medíocre (" de-
seje uma relação") ou a imprecisão burocrática ("entrando no se-
••
lho], temos a canhestra chairperson, ou simplesmente chair [cadei- tor empresarial ou dos meios de comunicação" - isso, vindo de

••.'
ra], como se o infeliz detentor do cargo tivesse quatro pernas cur- alguém que deve estar ensinando comunicação!), nem mesmo o con-
vas e um encosto. Recentemente mandaram-me o Manual de Estilo descendente emprego do primeiro nome de uma estranha de haute
do governo australiano para publicações oficiais, que proíbe, entre en bas ("Cara Victoria' '). É o pedantismo anil da solteirona purita-
outras coisas, termos como sportsmanship [esportividade], workman na, de lábios franzidos, encontrando pêlo em ovo.
[operário], statesmanlike [como um estadista] (cujos sinônimos su-
geridos são' 'habilidoso, de tato" - o que talvez diga alguma coisa
sobre a atual falta de statespersons [estadistas] entre os antípodas,
Muitos novos termos e usos, evidentemente, pareceram dema-
siado requintados ou desnecessários aos conservadores quando sur-
giram, e hoje tornaram-se indispensáveis-:Que missivista, agradeci-
••
já que em outubro de 1992 nosso primeiro-ministro, Paul Keating,
denunciou vigorosamente o Senado australiano como um "refugo
não representativo" e "um bando de bichas"). Até mesmo crafts-
do pela cunhagem de Ms, que nos permite dirigir-nos formalmente
às mulheres sem nos referirmos a seu status marital/voltaria de boa
vontade à opção entre Mrs e Miss? Pode-se defender o "afro-
••
manship [habilidade artesanal] está proibido; sua melíflua alterna-
tiva é "aplicação de habilidade" .
Mas que significa essa confusão em torno de man? Qualquer
americano", embora não pareça ter acentuadas vantagens sobre
"preto", além da extensão, uma qualidade da língua que muitos
americanos tomam erroneamente por dignidade. Provavelmente o
••
um que conheça a história de nossas línguas sabe que, no inglês e
no anglo-saxão antigos, 9.. sufixo -m an era de gênero neutro; tinha, .
termo "asiático-americano", por mais vago que seja,é melhor que
"oriental", porque ao menos é decentemente neutro, sem a nuvem ••
••
e mantém, o mesmo significado de person hoje, referindo-se a to- de imagens depreciativas que ainda cerca a palavra antiga: "orien-
das as pessoas igualmente. Para indicar gênero, tinha de ser qualifi- tal" sugere uma estrangeirice tão extrema que não pode ser assimi-
cado: um homem era chamado waepman, uma mulher wifrnan, Es- lada, e suscita os fantasmas tipo Fu-Manchu da ficção racista do

28 29
••
••
•• século XIX - ardis traiçoeiros, nuvens de ópio, olhos rasgados que
brilham. "Americano nativo" para o índio americano , ou simples-
. mente índio, tem um som virtuoso - só que traz consigo a absurda
expressão. Os estudantes a quem isso prejudica são aqueles que gos-
tariam de encontrar uma forma de resolver suas insatisfações com
a maneira pela qual os Estados Unidos têm andado e estão andan-

•• implicação de que os brancos.cujos ancestrais estão no país há três,


cinco ou mesmo todas treze gerações havidas desde 1776 de algum
do, mas agora descobrem que não podem falar tão livremente so-
bre isso, para não usar a' palavra errada e assim provocar surtos de

•• modo ainda são intrusos, e não "nativos" do país. Quando os bran-


cos se sentirem suficientemente culpados para chamar-se de "euro-
peu-americanos", estará na hora de jogar fora todo esse jargão de
queixa e pequenas explosões de desprezo dos que estão à sua esquer-
da. Num mundo acadêmico em que um administrador da Universi-
dade da Califórnia em Santa Cruz pôde fazer campanha contra

•• nervoso divisionismo; todos, pretos, amarelos, vermelhos e bran-


cos, podem voltar a ser simples "americanos" de novo, que é o me-
lhor que têm a fazer.
expressões do tipo a nip in the air [' 'uma cortada no ar"; mas nip
também é um termo pejorativo para "japonês"] e a chink in one's
armor [' 'uma brecha em nossa armadura"; chink também pode ser

•• De qualquer modo, palavras não são fatos, e a simples nornen-


c1atura não muda muito . Como observou Barbara Ehrenreich:
"chinês" em gíria depreciativa], alegando que essas palavras expres-
savam depreciação racial em outro contexto, qualquer coisa é pos-
sível; que tal abolir" árvore frutífera" por ser depreciativo aos ho-

•• Gosto de ser chamada de Ms. Também não quero que as pessoas di-
gam man quando se referem a mim. Estou disposta a criar caso com
essas coisas. Mas sei que, mesmo quando todas as mulheres forem Ms,
mossexuais?> E o dilema deles torna-se pior em campus como o de
Stanford, que criou códigos de discurso. Esses códigos em geral não

•• ainda continuaremos ganhando 65 cents para cada dólar ganho por


um homem. As minorias, seja qual for o nome que tiverem - pessoas
de cor, ou algo assim - ainda suportarão um imenso fardo de pobre-
são criados pelos estudantes, mas impostos pelos seus maiores -
acadêmicos do baby boom, membros de uma geração moralizadora
e hipócrita tanto à direita quanto à esquerda. Como observou Nat

•• za, discriminação e perseguição racial. Elevação verbal não é a revo-


lução."
Hentoff'," esses códigos, "todos tão imprecisos e vagos que o alu-
no pode violar um código sem saber que o fez", não são sempre
impostos por exigência dos estudantes, pois

••
Não apenas não é a revolução: tem sido um presente dos céus
para a direita. Onde estariam George Will, P. J. O'Rourke, os edi- na maioria das faculdades, é a administração que estabelece o código.
tores do American Spectator e alguns colaboradores da New Crite- Como houve insultos racistas , sexistas ou homofóbicos , notas anôni-

•• rion sem o inexaurível fluxo de blá-blá-blá PC que vem da esquerda


acadêmica? Algum movimento radical deu algum dia a s.eus inimi-
gos um conjunto tão delicioso de alvos para tiros fáceis?
mas ou pichações, a administração sente que devefazer alguma coisa .
A maneira mais barata e rápida de demonstrar que está atenta é pare-
cer suprimir o discurso racista, sexista, homofóbico.

•• A sátira adora cair sobre costumes e modas, o que é o caso do


papo r-c: etiqueta política, não política de verdade. Quando as águas
do rc baixarem - como acabarão baixando, deixando a previsível
Desta forma, o aluno pode ser punido pela lei acadêmica por
ofensas verbais e quebras de etiqueta que não implicam nenhuma

•• escória de palavras mortas na praia social - isso se dará, emparte,


porque os jovens se desinteressarão de toda a censura sobre proprie-
penalidade fora do campus, na lei real do país. Essa dissociação tem
raízes numa fantasia utópica sobre a natureza e o papel das univer-
sidades: elas são, ou deviam ser, Arcádias. Mas na prática pode im-

•• dades verbais no campus. Os impulsos radicais da juventude sãoige-


nerosos, românticos e instintivos, e facilmente esfriados por uma
atmosfera de correção afetada e obsessiva. O verdadeiro problema
pedir a passagem do estudante da infância protegida para a maturi-
dade capaz, que não é um estado arcádico. Como observou uma
administradora (negra, mulher) de faculdade comunitária do Colo-

•• - do rc não é o "pós-marxismo", mas o pós -puritanismo . Seu peso


repressivo não se abate sobre os conservadores do campus, que es-
tão florescendo, deliciados com o fato de a turma do PC dar a um
rado, Gwen Thomas, durante uma discussão num seminário em
Stanford:?

•• estudante bêbedo que grita "crioulo" ou "sapatão" na noite do cam-


pus a oportunidade de posar de mártir da repressão à liberdade de
Quanto a proporcionar um ambiente educacional não intimidante, nos-
sos jovens têm de aprender a criar-se em campi universitários. Te-

'. •
30 31
••
mos de ensinar-lhes a lidar com situações adversas. Ele têm de apren- de atum branco e xaréu e, quando estes ficam maduros, simples-
••
.\
der a sobreviver a discursos ofensivos que achem dolorosos ou ferinos. mente os colhem.
Contemplando a queda do comunismo, colunistas conservado-
res escreveram sobre um "mundo unipolar" - um exemplo refi-
IV

A direita americana fez uma festa com a Correção Política. Con-


nadamente tolo da última palavra em pensamento imperialista, se
acontece de a gente não ser americano - e George Bush anunciou
que os Estados Unidos hoje presidiam "A Nova Ordem Mundial" .
••
tudo, sua alegria é oca, e há alguma coisa de desagradável em seus
volteios, sua pretensão de representar a "verdadeira" linguagem.
Preferiríamos ficar na água a entrar no mesmo bote com a turma
Esta expressão exaltante não significava nada. Bush deu sorte 'de -
o Muro de Berlim cair e o monolito soviético, com as escoras apo-
drecidas além de qualquer possibilidade de conserto durante os anos
••
da Correção Política. Mas tampouco iríamos querer envergar bla-
zers e topsiders no iate, com seus dois Buckleys de quatrocentos ca-
valos, alto-falantes Buchanan, bússolas Falwell & Robertson, son-
Brejney, desmoronar durante sua presidência. Sensatamente, ele não
interveio, e deixou a liberação da Europa Oriental aos próprios eu-
ropeus e russos .
•.•)
das de profundidade Quayle e a quebrada bomba de porão, agora - Mas atualmente não existe nenhuma "Nova Ordem Mundial" .
ancorado no Potomac, enquanto a tripulação discute sobre quem
"realmente" perdeu a eleição de 1992.
Ao' contrário, temos uma intratável Nova Desordem Mundial,
e
Por quê? Porque a direita está tão corroída pela ideologia de-
funta quanto a esquerda acadêmica. Propaganda, eufemismo e eva-
interligada com a Venda de Armas como Sempre, à medida que emer-
gem todas as paixões nacionalistas e ódios religiosos congelados sob
a capa de gelo imperial soviética desde 1945 - alguns, dentro da ••
••
são são hoje tão constantemente usados pelos americanos que cru- Rússia, desde 1917 - revigorados por sua siesta, impotentemente
zam todas as linhas partidárias e divisões ideológicas. A arte de não observados pelo resto da Europa e pelos raros americanos que se
responder à pergunta, de envolver realidades desagradáveis em abs- dão ao trabalho de procurar Sarajevo num atlas, e começam a matar.

••
tração ou açúcar, tornou-se tão perfeitamente endêmica em Wash-
A direita tem sua própria forma de CP - Correção Patriótica,
ington que não esperamos mais nada - a principal diferença práti-
se quiserem - igualmente destinada a disfarçar verdades incômo-

•.'•
ca é que os presidentes, congressistas, generais e executivos chefes
das. Também ela tem um interesse inconfesso em manter os Esta-
contratam outros para escrever o material. A perda de realidade por
dos Unidos divididos , uma estratégia cujas conseqüências podem ser
causa de eufemismos e mentiras foi vinte vezes pior e mais influente
piores para a comunidade nacional do que qualquer coisa de que
nas declarações dos dois últimos presidentes e seus auxiliares do que
se possa culpar a fraca e minguada esquerda americana.
entre os acadêmicos bien-pensants, embora não se encontrasse ne-
nhuma reclamação a respeito em Commentary ou New Criterion, A polarização é viciante. É o crack da política - uma curta
/ Do mesmo modo como o jargão empresarial nos dava "retirada de
: posições" para o crash da bolsa em 1987 e "reavaliação empresarial"
e intensa aceleração pela qual o sistema anseia sem parar, até come-
çar a desmoronar. A exacerbada divisão entre "direita" e "esquer-
da'" nos Estados Unidos vem da perda de realidade. Não mais se
••
para a demissão de um grande número de trabalhadores, também
a Guerra do Golfo nos ensinou que arrasar um lugar com bombas
era "reparar um alvo" ou "visitar um local", que bombardeá-lo
enquadra na maneira como a maioria dos eleitores r.eage à política
ou encara suas próprias necessidades. Na década de "60, a Nova Es-
querda tentou rotular todo conservador de fascista. Na de 80, a Nova
••
repetidas vezes para ter certeza de que nem uma cobra ou -espinheir?
sobreviveu era "revisitar um local". Os pruridos em relação a am-
mais e peixes também nos deram eufemismos afetados como "co-
Direita chamou todo liberal de socialista - e o nome pegou. Em
sua irrestrita hostilidade a tudo que descendia do New Deal, os rea- •e'
ganistas conseguiram associar toda intervenção do governo na vida

.'••
lheita" para matar, supostamente como no romance The deerhar-
vester [literalmente, O colhedor de gamos], de Fenimore Cooper. econômica (menos o orçamento militar) a um alarmante marxismo.
O objetivo deles é sugerir que caçar é na verdade colher: as empresas Depois, quando o verdadeiro marxismo desmoronou no fim da dé-
de conservas preferem falar em "colheita" de atum, querendo dar cada de 80, sua morte foi apresentada como um revés arrasador pa-

.'.'
a entender que seus previdentes executivos disseminaram sementes ra o liberalismo americano. Durante algum tempo, houve um hu-

32 33
•• {
I
•• mor sombrio na visão de colunistas e editores conservadores que can-
tavam "Glória, glória, a União Soviética desabou por causa das ações
perspicazes de Ronald Reagan", sem notar que os Estados Unidos
!
I
radias; aumentaram acentuadamente as ameaças e violências con-
tra eles; e os esquiadores em Aspen, abrigados em suas parkas eco-
logicamente corretas, doe pele falsa, podem pensar que estão contri-

•• entravam em deriva pelo mesmo motivo.


Tudo isso era prestidigitação. Nos últimos quinze anos, os con-
buindo para a prosperidade de um estado que hoje se encontra num
ponto mais ou menos próximo 40 nível ético da política racial do

•• servadores .american os tiveram um sucesso completo, quase sem opo-


sição, em 'r otular como esquerdistas programas e desejos comuns
que, numa sociedade política mais sadia, seriam encarados como
Alabama na década de 50.
O feminismo americano tem uma grande periferia repressiva,
autocaricata e muitas vezes de uma trivialidade abissal, como a po-

•• politicamente neutros - uma extensão dos direitos implícitos na


Constituição. "Sou a favor da 'política antipolítica' ", observou Vá-
clav HaveI, pouco depois de tornar-se presidente da Tchecoslová-
lícia do pensamento acadêmica que recentemente conseguiu fazer
retirar uma reprodução da Maia desnuda, de Goya, de uma sala de
aula na Universidade da Pensilvânia. Tem suas piradas puritanas


'.••
quia. "Ou seja, da política não como tecnologia do poder e mani- como a escritora Andrea Dworkin, que encara todo sexo com ho-
pulação do domínio cibernético sobre os seres humanos, ou como mens, mesmo consentido, como uma forma politizada de estupro.
a arte do útil, mas como moralidade prática, serviço à verdade, es- Será que isso desvaloriza de algum modo o imenso desejo generali-
sencialmente humana, e atenção humanamente medida aos seres hu- zado de milhares de americanas de reivindicar direito de igualdade
manos nossos irmãos. É [... ] uma visão, neste mundo, extremamente com os homens, de livrar-se de importunações sexuais no local de

••
pouco prática e de difícil aplicação [...]" . Nos Estados Unidos de trabalho, a conquistar os direitos reprodutivos de ser primeiro indi-
hoje, o inteligente liberal HaveI seria tão inelegível quanto o dono víduos, e depois mães?
de escravos elitista Jefferson. Pois a idéia de "atenção humanamente Contudo, para alguns fanáticos americanos, o feminismo é ati-

•• medida" pelos interesses legítimos dos 'outros está se dissolvendo


numa frenética busca de bodes expiatórios; a histeria em relação a
feminismo) direitos dos gays e aborto inundou o discurso político
vamente diabólico; Pat Robertson, um ex-candidato à Presidência
que pode voltar a concorrer, atacou recentemente uma proposta de
emenda sobre direitos iguais à Constituição do estado de Iowa co-

•• com um rancor que tem poucos paralelos em outras democracias


ocidentais.
A vasta maioria dos homossexuais americanos não pertence a
mo parte de uma "campanha feminista [.. .] um movimento socia-
lista, antifamília, que encoraja as mulheres a deixar os maridos, ma-
tar os filhos , praticar bruxaria, destruir o capitalismo e tornar-se

•• grupos militantes como Act Up ou Queer Nation; eles desprezam


com razão 'as opiniões do cardeal O'Connor sobre a camisa-de-vênus
- como fazemos muitos de nós, héteros - mas não perturbam a
lésbicas" .8
Quando o discurso político desce a tais níveis, os fanáticos
alistam-se na cruzada, mas as pessoas sensatas tendem a lavar as

•• missa na catedral de Saint Patrick; simplesmente querem viver suas


vidas sem ser perseguidos por sua natureza sexual.
mãos. Havia pouco sentido, como demonstrou amplamente a elei-
ção de 1992, em.tentar erguer uma plataforma partidária sobre os

••
Contudo, na década de 80, seu pedido de ação do governo em "valores familiares", quando o que preocupa de fato as pessoas são
relação à Aids não obteve nenhuma reação em Washington; Rea- os empregos, ou em tentar vender uma campanha em favor de me-
gan não pronunciou esse monossílabo em público nem uma única nos governo, que consistia em grande parte em passar a área sob

•• vez, e de Bush só ouviram declarações vagas. Agora se tornaram


tema de um baixo jogo de retórica, aviltados por políticos que espe-
ram vencer apelando para preconceitos importunos. Assim, em 1992,
controle estatal da sala de conselho empresarial para o colo do úte-
ro. Os estados tendem a parecer absurdos a seus próprios cidadãos
quando tentam legislar dessa forma sobre a moralidade, sobretudo

•• fanáticos antigays da direita cristã no Colorado, agindo sob o no-


me de "Colorado em Defesa dos Valores da Família" ) conseguiram
convencer seu eleitorado a revogar as leis de direitos civis existentes
num país onde, como indicam as pesquisas de opinião, o clero é ti-
do em mais baixa estima que os farmacêuticos. Eleitores "razoá-
veis" começam a desconfiar de que o papo sobre valores morais pode

•• sobre os homossexuais. Desde então, no Colorado, os homossexuais


não têm proteção contra discriminação em relação a empregos e mo-
ser uma cortina de fumaça para a inexistência de uma política social
prática. Mas é loucura política os "razoáveis" suporem que a elei-

•• 34 35
ção de Clinton e Gore neutralize de algum modo as grandes con- político contava - as muito ricas e as dependentes da Previdência
.'••
quistas feitas por grupos evangélicos no nível político local em 1992.
Nos conselhos das escolas, nas câmaras de vereadores e nas assem-
bléias estaduais, na verdade em todas as áreas da vida política ame-
Social. Essa linha era um artifício de ideologia, feito de idéias de
fins da década de 60. Os democratas rejeitaram seus líderes mais
moderados e pragmáticos, como Henry "Scoop" Jackson, e apos-
••
ricana fora da própria Washington, o fanatismo evangélico ganha
força e vai continuar ganhando. Quando a economia americana se
taram seu futuro político na liberação cultural. Como os republica-
nos, em 1992, os democratas sob George McGovern tentaram fazer ••
••
recuperar, talvez menor número de pessoas vote contra a política em 1972 uma campanha com base em valores morais - e perderam.
fiscal republicana e maior vote nas promessas morais de um Parti- Os trab alh ador es americanos desconfiaram dos "liberais de li-
do Republicano evangelizado. Os americanos inteligentes não têm musine" com sua fixação em meio ambiente, direitos femininos,
motivos para complacência - a menos que queiram ver seus filhos
compondo cantilenas sobre o Pecado de Sodoma e papagaiando as
direitos de aborto, integração nos transportes e ação afirmativa. Falar
em racismo operário era simples demais - apenas mais uma forma
de esquematizar de cima as pessoas reais, e os democratas mais jo-
••
.'••
inanidades da "ciência criacionista", após a escola, daqui a alguns
anos. A campanha fundamentalista para anular a separação consti- vens e mais ideologicamente liberais caíram sem parar nessa arma-
tucional entre Igreja e Estado, e disseminar a teocracia no país, tem dilha. Os trabalhadores americanos viam seus empregos e bairros
de ser enfrentada agora por todos aqueles que se preocupam com ameaçados por políticas impostas de cima.
a democracia nos Estados Unidos. E assim os republicanos puderam apresentar-se como os tribu-
Na década de 80, uma das características do panorama eleito- nos dos depreciados valores e símbolos do ignorado estrato inter-
mediário, os eleitores operários que acreditavam nos Estados Uni-o .:'
••
ral era um afastamento público da política tradicional, do exercício
racional ativo da cidadania. Essa tendência não é mais possível. Sur- dos, desconfiavam dos radicais ricos e odiavam os que queimavam
giu porque os americanos não confiavam em mais ninguém. Foi parte a bandeira. Não se tornou imediatamente visível que os republica-
nos pouco estavam ligando para os interesses econômicos dessas pes-
do cafard causado pelos anos 80. Na verdade, os partidos Republi-
cano e Democrata vêm praticando desde 1968 duas formas de polí- soas. Quem podia prever que a política fiscal deles na década de 80
••
tica conservadora, uma episodicamente liberal e outra agressivamente
não-liberal. Ambos são partidos dos interesses da classe média alta:
compraria uma expansão a curto prazo da economia americana ao
custo de uma dívida de 4 trilhões de dólares, levando o país à reces-
são, ao doloroso desemprego e à aparentemente irreversível decom- .\
••
a última reforma tributária genuinamente progressista proposta por
um presidente, por exemplo, foi a apresentada por Jimmy Carter posição da infra-estrutura política? Pelo menos o Partido Republi-
em 1977 - e logo torpedeada pelos votos de um Congresso demo- cano parecia ter uma política econômica, embora ela fracassasse .
Foi apelidada de teoria do pinga-pinga: a receita rigidamente ideo-
crata. Todo o aparato de influência em Washington está ligado a
grupos de pressão das grandes corporações, não a contribuições de
pequenos grupos de cidadãos. Como mostrou eloqüentemente E. J.
lógica de que um passeio de graça para os ricos geraria dinheiro pa-
ra as camadas médias e para os pobres. Os democratas não tinham ••

Dione, em seu recente livro Why Americans hate politics [Por que nada a oferecer ao eleitorado. Não gostavam de tratar de detalhes

••.'
práticos e empregos. Em vez disso, falavam sobretudo em direitos.
os americanos odeiam política] , não há bloco no Congresso ou no
Lançaram-se no quepareceu a milhões de eleitores americanos uma
Senado que de fato represente as necessidades e opiniões das pes-
terra da fantasia onde todo pornógrafo se envolveria na toga .ieffer-
soas da enorme faixa central da vida americana na qual 'se confun- .!
soniana da Primeira Emenda, e qualquer sugestão de que uma crian-
dem trabalhadores e classe média.
ça podia ter mais chance de felicidade e crescimento se fosse criada
No início da década de 70 , os democratas começaram a perder
a confiança desse público ao se empenharem em políticas' 'liber tá-
rias", concentrando-se cada vez mais simbolicamente nos direitos
por dois pais que a amassem, a ela e um ao outro, podia ser despre-
zada por algum ideólogo da esquerda recém-saído de uma comuna
em Vermont. Assim, nas palavras de Dione:
••
••
das minorias e dos pobres. Ouvindo o papo dos democratas na dé-
cada de 70 e no início dos anos 80, um estrangeiro teria suposto que O moralismo da esquerda cegou-a para as origens legítimas da cólera
os Estados Unidos só tinham dois tipos de pessoas cujo destino da classe média. A revolta da classe média contra um fardo de impostos

36 37
••
'e_
••
•• cada vez mais pesado não foi uma manifestação de egoísmo , mas uma
reação às dificuldades para manter um padrão de vida de classe mé-
dia. A cólera com as crescentes taxas de crim inalidade não era uma
ao contrário da maioria de seus colegas vigaristas nessa tramóia -
tenha ido para a cadeia por isso.
O reaganismo fez mais para desamarrar o comércio americano

•• forma encoberta de racismo, mas uma autêntica expressão de medo


[... ] A impaciência com os programas de assistência social às vezes re-
sultava de preconceito racial, mas também era uma exigência de que
de seus mourões tradicionais do que qualquer ideologia política na
história do país. Essa orgia, que culminou no escândalo do Lincoln
Savings and Loan, não foi no início contestada pelo público - so-

•• se fizesse com que certas regras básicas sobre o valor do trabalho fos-
sem aplicadas a todos. Os que falavam em "valores tradicionais da
família" não eram necessariamente fanáticos [... ]
bretudo porque o governo manteve o público na ignorância do que
acontecia. Por consentimento mútuo dos dois grupos rivais, a impa-

•• Havia uma brecha nos valores pela qual se podia fazer passar
um caminhão, e os republicanos o passaram, com isso conseguindo
latável verdade de que os contribuintes teriam de arcar com várias
centenas de bilhões de dólares para resgatar o sistema de poupança
só foi anunciada pouco depois da eleição de 1988. De qualquer for-

I.•
um grande e útil bloco eleitoral de "democratas de Reagan". Mas ma, os números eram t ã o astronômicos que transcendiam a capaci-
essa realiança está se revelando instável, agora que os resultados de dade de compreensão da maioria das pessoas.
fato da campanha dos republicanos em favor de um incontido lais- Os novos heróis do mundo dos negócios, os piratas empresa-

•• sez faire estão aí: o maior déficit, o mais paralisante ônus de dívida
com credores estrangeiros e a maior discrepância entre rendas alta
e média que já afligiram o país .
riais e traficantes de moedas podres - Michael Milken, Ivan Boesky, .
Kohlberg Kravis - explodiram o reiacionamento comercial tradi-
cional entre investidor, empregado e cliente; os únicos interesses que

•• Os reaganistas falavam tranqüilizadoramente em um retorno


aos valores tradicionais americanos, contratos morais e coisas se-
melhantes. Mostraram pouca noção de um contrato moral com os
contavam, na nova atmosfera de compra e destruição manipuladas
de empresas, eram os dos investidores e seus agentes. Isso não era

••
conservadorismo. Parecia mais jacobinismo - uma forma desen-
afro-americanos, porque o Partido Republicano tinha visto onde es- freadamente abstrata de revolução fiscal por atos, em que toda
tavam os eleitores: nos bairros residenciais brancos, não nos cen- empresa, qualquer que fosse sua base nas práticas e princípios ante-

:•.
tros negros das cidades. Daí o erro venenoso das presidências de Rea- riores, era levada à guilhotina do crédito. Como disse Michael Tho-
gan e Bush: sua "estratégia sulista" de acomodação em relação ao mas:?
que era mais racialmente divisivo nos Estados Unidos, sua relutância

•• a tratar os negros como americanos. Qualquer unidade que propu- . Nessas condições, o próprio tempo se divide em partes discretas . Uma
seram não passava da capciosa unidade do nós-contra-eles. O fa- empresa que lançou suas raízes no comércio e na comunidade durante
moso anúncio de William Horton, que afundou a campanha de Du- um século pode ser desmontada por um artista da encampação em ques-

••
tão de semanas. Cada dia é inteiramente outro, a roda sujeita a inter-
kakis em 1988, foi apenas a ponta desse iceberg de fracasso moral.
minável reinvenção . Não é preciso coerência, porque não há vanta-
A "moralidade" do Partido Republicano girava em torno de
gem na coerência. A ação é tudo [...] O julgamento crítico é neutrali-
sexo e honrar pai e mãe, e evitava com muito tato outros manda-

••
zado pela celebridade, a censura desmorona diante do sucesso.
mentos, sobretudo o que se refere ao roubo. Assim, uma das figu-
ras prototípicas da época foi Charles Keating, um comerciante de A década de 80 trouxe a realização do soturno aforismo de Ken-
Cincinatti, de queixo pontudo, olhos penetrantes e aparentando a neth Galbraith sobre o afastamento dos Estados Unidos da lembran-

•• mais pura ética de ás das vendas. Keating co -fundou a Coalizão Na-


cional Contra a Pornografia, com a intenção de salvar os inocentes
ça das políticas do New Deal. Opulência privada, indigência pública.
O papel tradicional da arquitetura pública numa democracia
- de lembrar ao cidadão que ele ou ela é a razão do Estado, e não

•• das garras do Demônio, e tornou-se um grande agitador em defesa


dos "valores morais tradiCionais" no Meio-Oeste. Só depois se per-
cebeu por que Keating tinha tanto interesse em preservar a inocência
o contrário - foi eliminado do roteiro cultural. Os Estados Unidos
pareciam não ter nenhum grande projeto de edifício ou obra públi-

•• americana: roubou milhões de dólares de pessoas inocentes mani-


pulando as poupanças do Lincoln Savings and Loan, embora -
ca a mostrar pela década de 80. Onde estavam aquelas estruturas
que haviam comovido o coração social e estimulado sua consciên-

•• 38 39
••
•.'
cia cívica das décadas de 1880 à de 1930 - os símbolos da América lação a uma economia doente, e o apelo desviante de Ross Perot
prometéica, a ponte do Brooklyn, o Golden Gate, o Empire State a pessoas que se sentiam cortadas da Política de Sempre, levaram
Building, ou, por falar nisso, a Assembléia Estadual da Lousiana
de Huey Long? Em lugar nenhum - só uma sucessão de geométri-
cas confecções pós-modernistas de Philip Johnson e seus jovens ar-
104 milhões de cidadãos, representando 55 por cento da população"
habilitada a votar, às urnas. Embora encorajador, esse número di-
ficilmente representou um súbito recrudescimento do empenho cí-
••
quitetos preferidos, os Ralph Laurens defensores dos frontões da
profissão: memoriais da espessura de fórmica à vaidade desse ou
daquele pirata empresarial, trumperia dourada, propaganda visual
vico após as duas últimas décadas de indiferença do eleitor; só de-
volveu o comparecimento ao seu nível de 1972.
Uma tal apatia espanta os europeus e, devo acrescentar, os aus-
••
para o império do Pato Donald. Turistas culturais iam a Nova York
contemplar seus monumentos passados , como antes iam a Roma;
tralianos.
Por que tantos cidadãos da mais antiga democracia do mundo •
mas agora viam apenas discotecas, galerias, tendências, a superfície
brilhantemente turva da moda. Todas as partes do exoesqueleto pú-
blico dos Estados Unidos viviam um tempo emprestado: rebites sal-
não votam quando podem, numa época em que a luta pela demo-
cracia na Europa e por todo o resto do mundo atingiu seu nível mais
."
.•1
crucial e inspirador desde 1848? Em parte, trata-se de um problema
tando da ponte de Williamsburg, concreto desprendendo-se de via-
dutos, ruas piores que as de Istambul, escolas caindo aos pedaços,
aeroportos indigentes: De vez em quando, nas entranhas senis de
administrativo - o desaparecimento da velha máquina partidária
e do sistema distrital, cujo último vestígio foi Chicago sob o prefeito ••
.'•
Daley. Quaisquer que fossem seus abusos, estes levavam as pessoas,
Manhattan, uma adutora estourava, paralisando o metrô; ou em Chi- rua-a-rua, casa-a-casa, às urnas eleitorais. Seus sistemas de patro-
cago o rio encontrava um ponto fraco em seus túneis subterrâneos, nato ajudavam a vincular o povo americano, sobretudo os traba-
e um conserto que poderia custar 25 mil dólares (se a burocracia
o tivesse feito a tempo) de repente tornava-se uma inundação que
interrompia a energia de todo o centro da cidade. Essas m.etáforas
lhadores e a baixa classe média, à crença de que, como cidadãos,
tinham um papel a desempenhar na direção de seu país de baixo pa-
ra cima, distrito por distrito. Tal sistema reforçava o senso de de-
••
•e\
de decadência eram pungentes; tornavam vívido um difuso senso de
mocracia participativa,
enfropia em meio a chocantes desproporções de riqueza, um vazio
Sem ele, os pobres deixaram de ir às urnas, pois passaram a acre-
no núcleo cultural, um recuo da responsabilidade pública.
ditar que ninguém em Washington os representava ou podia repre-

v
sentar. Quanto menos os pobres votam, mais o partido dos ricos se
beneficia. Isso produziu uma espiral viciosa, e as técnicas eleitorais
americanas foram reformuladas de modo a passarem ao largo do terço .'•
Enquanto isso, o senso de cidadania comum dissolvia-se em uma
confusão de questões que possibilitam aos americanos tomar posi-
inferior da sociedade, exceto quando este podia ser seletivamente agi-
tado por ameaças de desemprego ou apelos velados ao racismo da ••
classe operária. Um dos grandes desafios que o governo Clinton en-

'••.
ções inegociáveis sobre assuntos menores, agora que não mais po-
dem definir-se contra o Grande Assunto da Guerra Fria. Nas pala- frenta é o de devolver à democracia participativa os significados que
vras de William Greider, "a maioria [dos cidadãos americanos] não ela em parte perdeu - ou sej a, o de atrair todos os americanos de
consegue imaginar a possibilidade de estabelecer uma relação contí- volta ao processo político . O fato de Clinton ter sido eleito, em si,
nua com o poder - um sistema político que lhes possibilitasse par- não é garantia disso; mas pelo menos há motivo de esperança.
Hámuito terreno a reconquistar . Em fins da década de 70, o .

••
ticipar dos processos governamentais e confiar em seus resultados" .
O senso de possibilidade democrática foi "encolhido".lO cidadão americano começava a tornar-se um espectador passivo dos
O número de americanos que votaram nas eleições presidenciais acontecimentos políticos, servidos em pequenas doses entre comer-
ciais . A rede de televisão americana é em sua maior parte lixo desti-

••
caiu constantemente de um pico de 63 por cento em 1960 para apenas
metade do eleitorado - 50,1 por cento em"1988. As eleições de 1992 nado a produzir escassez de realidade, e estima-se que o americano
registraram um modesto aumento: uma sensação de urgência em re- médio veja sete ou oito horas dessa coisa por dia. Não admira que

40 41
'.•'
••
•• o ato de votar a cada quatro anos parecesse significar menos, e que
menos pessoas fossem às urnas praticá-Io . Na primeira eleição livre
após a morte de Franco, quase 80 por cento do eleitorado da Espanha
seus próprios discursos; em vez disso, contratavam-se escribas para
produzir uma prosa retórica vívida e vulgar, cuj a função era criar
um personagem presidencial. Em certo sentido, o presidente era TV

•• votaram. Se 80 por cento dos eleitores americanos votassem, como


faziam regularmente nos velhos tempos difíceis da política de palan-
- o mais bem-sucedido- âncora do mundo. Ele esqueceu alguma coi-
sa? Não importa: a TV está aí para ajudar a esquecer. Mentiu? Ora,
deixa pra lá. Talvez tenha apenas esquecido. Ou "expressou-se mal".

••
que improvisado entre 1840 e 1910, isso seria uma revolução populista;
significaria que os americanos de fato apreciam a democracia, em vez A telinha é a musa da passividade. Com sonambulística eficiência,
de ficarem parados emitindo .ru íd os patrióticos e exortando outros Reagan reduziu a educação americana ao seu nível. Deixou seu país
um pouco mais burro, em 1988, do que era em 1980, e muito mais

•• países a adotarem o regime democrático, países que não raro o valo-


rizam mais através do voto que os próprios americanos.
Mas foi apenas ruído patriótico o que se obteve de Washington
tolerante com as mentiras, porque seu estilo de apresentação de ima-
gem cortou o tecido conectivo de disputa entre as idéias e com isso

I•. na década de 80. E quem pode honestamente dizer que não está far-
to disso? A face pública da política dissolveu-se em" teatro: um dra-
ma banal de otimismo fabricado, fogos de artifício e balés de sósias
promoveu a derrota do próprio pensamento. Quando se apresentou
perante os convencionais republicanos desenfreadamente entusiás-
ticos em Houston, em 1992, citou um trecho de Lincoln - "Não

•• de Elvis Presley na Estátua da Liberdade, guerrinhas cosméticas em


Granada e no Panamá para simular as doçuras da vitória depois do
gosto amargo do Vietnã. Na década de 80, como jamais antes nos
se pode fortalecer os fracos enfraquecendo os fortes" - que não
tinha sido escrito por Lincoln. O autor era um clérigo da Pensilvâ-
nia chamado William Boetke,· que rabiscou isso uns 45 anos após

•• Estados Unidos, vimos a arte de governar fundir-se com a adminis-


tração de imagem. Coisas demais nessa república supostamente aber-
a morte de Lincoln. Mas quem ia conferir? Para os fãs de Reagan,
a idéia de que deve haver, ou talvez possa haver, alguma ligação
necessária entre a citação e a fonte parecia impertinente frente à me-

••
ta foram feitas longe das vistas dos cidadãos. Ou foram apresentadas
em termos que zombavam da inteligência pública por sua brevidade mória de sua Presidência.
e simplicidade de desenho animado . Isso ficou conhecido como "Dei- Essa não era uma estrutura de caráter presidencial que J effer-

•• . xar Reagan ser Reagan" , e combinava perfeitamente com os ditames son ou Lincoln pudessem imaginar - ou sentir por ela o menor res-
da TV. Assim, as próprias palavras que descreviam a nossa com- peito . Reformulada para a TV como nunca havia sido, a imagem

'••.
preensão dos fatos mudaram: uma das baixas, entre dezenas de ou- presidencial saía da telinha e voltava direto para ela de novo: porque
tras, foi "percepção", que antes sugeria o ato de ver as coisas com as redes a adoravam, e a imprensa - a maior parte, pelo menos
nitidez, mas na década de 80 passou a significar' 'noção" e final- - não ficava muito atrás, porque aqueles tropos, truques e abre-
mente "ilusão" ou "erro estúpido". viações eram dela própria, parte de uma inconsútil cultura do espe-
A instalação pela Presidência de ofuscantes refletores teatrais táculo. Política de celebridade para uma era de jornalismo de cele-

•• diante das águas turvas tinha alguma coisa a ver com o antigo ideal bridades. O que começou com os Kennedy atingiu o clímax com os
americano de democracia aberta? O poder protegido da crx e os Reagan - a fixação na pessoa presidencial como um rei substituto,
acontecimentos do caso Irã-Contras transformaram em piada a con- não mais o primus inter pares, o primeiro entre iguais, tão radical-

•'. cepção de transparência governamental e responsabilidade cívica que


inspirou Jefferson e Madison a combaterem a repressiva Lei de Se-
dição de J ohn Adams em 1798.
mente previsto pelos fundadores da República. Mas onde estava o
cidadão? De fora, como as platéias nos espetáculos.
Bush não tinha o consolador poder histriânico de Reagan, e para

•• A face pública da política, e sobretudo da Presidência, foi ra-


dicalmente revisada para adequar-se a um alcance de atenção públi-
ca abreviado pela TV. Quanto mais debate, e mais acirrado, mais
sua infelicidade as contas acumuladas pela economia reaganista co-
meçaram a vencer durante sua Presidência. Em agosto de .1992, o
Partido Republicano viu-se ficar seriamente para trás nas pesquisas

•• pessoas votam. Por isso não se debateu: produziram-se unidades de


som, memoráveis ícones de umas poucas sílabas. Não se aparecia:
de opinião, sem uma política econâmica plausível, incapaz de en-
frentar o enorme e crescente déficit dos Estados Unidos. Pouca coi-
sa de substancial podia prometer ao eleitorado de classe operária

••
ofereciam-se oportunidades de fazerem-se fotos. Ninguém escrevia

42 43


••
a classe média, preocupado com seus empregos e seus modestos in-
vestimentos diante de uma hiante inflação. Mesmo assim, o partido
blicana, e no terceiro dia nem mesmo a pessoa mais bem casada po-
dia ouvi-la sem estremecer. Pois se a direita americana tinha o mo- ••
tinha de montar uma convenção em Houston que revertesse o su-
cesso da convenção democrata poucas semanas antes em Nova York.
Em grande parte, os republicanos estavam nos mesmos apuros com
nopólio das virtudes da família nuclear, e sabia como restaurá-las
numa época de suposta decadência, como é que elas tinham ido pa-
ra o brejo nos últimos doze anos de ininterrupto poder republica- ••
o público votante em que o Partido Conservador, liderado por John
Major, estivera nas eleições de 1992, na Grã-Bretanha. Recorreram
à mesma estratégia de divisão, partindo para a jugular de medo e
no? Melhor não perguntar. Havia uns Estados Unidos reais, um país
autêntico, que detinha esses "valores familiares". Seus paladinos
eram George Bush, Dan Quayle e a direita religiosa. Havia uns Es - ••
desconfiança, embora com um toque peculiarmente americano que
revivia os espectros de intolerância direitista das décadas de 20 e 50
- e precisamente com a mesma Iinguagem.
tados Unidos falsos, um país pervertido e cínico, que não os tinha.
Seus agentes visíveis eram os liberais e seus amigos: homossexuais,
feministas, malucos e excêntricos, Hollywood e os "meios de co-
••
Clinton e Gore haviam-se apropriado do jargão de Recupera-
ção e terapia de grupo para o tom de sua campanha; entraram de
leve, dramatizando "preocupação" e "cura". Num momento de sen- .
municação", o que significa todos os jornalistas, da imprensa im-
pressa ou eletrônica, menos aquele ao qual o vice-presidente ou seus
assessores davam entrevista no momento . (' 'Não me refiro a pes-
.•,.
timentalismo particularmente arrepiante, Gore contou que seu fi- soas objetivas e responsáveis da imprensa como você, Bill, mas [... ]")
••
.'••
lho fora atropelado por um carro, que ele olhara nos olhos do filho Algumas dessas pessoas na verdade não existiam no mundo real: as-
a pairar entre a vida e a morteeaquilo, irmãos democratas e cida- sim, Quayle pôde atacar uma personagem fictícia, Murpb.y Brown,
dãos alienados lá fora, fora como olhar os Estados Unidos hoje. por ter um bebê fora dos laços matrimoniais - mais ou menos co.-
Do mesmo modo como se viam outrora as sombras oratórias de De- mo um insatisfeito elizabetano poderia ter citado Doll Tearsheet,
móstenes e Burke por trás dos discursos de Churchil1, viam-se as a prostituta em Henrique IV, como prova da decadência moral em
de Oprab. Winfrey e Robert Bly acima do pódio dos democratas no Hampton Court. Reaise irreais, essas pessoas constituíam uma " elite
Madison Square Garden . cultural" ; cuja missão era desacreditar e destruir os "valores fami-
••
.'••
Mas a branda repugnância provocada por essa imagística não .liares" dos Estados Unidos reais .
foi nada em comparação à grossura retórica da convenção republi- Para anunciar o combate, Patrick Buchanan, recente adversá-
cana. rio republicano de Bush, foi chamado ao pódio. Ele fez um discur-
Em Houston, a "grande tenda" sob cuja ampla lona iriam reunir- so tão áspero e divisivo que não ficaria deslocado no Reichstag em
se todos os tipos e graus de pensamento conservador tornou-se o lo- 1932. Não continha nada que Buchanan não houvesse dito cem ve-
cal de uma assembléia revivalista. A estratégia era buscar reflexos pro- zes antes: a mesma pútrida mistura de pau nos gays, preconceito
fundos com palavras-chave, apelar mais para o preconceito do que racial muito pouco velado, negra paranóia irlandesa e populismo
••
••.'
para a razão ou para o interesse pessoal. A plataforma do Partido autoritário continuou a borbulhar por baixo da superfície de homem
Republicano não deixou nada no terreno médio ; foi apenas ansioso comum. Duas décadas antes, John MitcheI, o procurador da Repú-
fanatismo bruto, destinado a separar os Estados Unidos em "nós" blica mais corrupto que os americanos já tiveram, chamou isso de
e "eles" . A chave para isso não era a política econômica, claro; nem "polarização positiva"; e Pat Buchanan, então um jovem. redator
mesmo a política internacional, embora muito se explorasse a ilusó- de discursos de Richard Nixon, enviou a seu presidente um memo-
ria vitória de Bush sobre Saddam Hussein, e houvesse as habituais rando sobre os usos da política de dividir para dominar: "Se ras-
alegações de que a queda do comunismo na Rússia, Alemanha, Tche-
coslováquia, Hungria, Polônia e no Báltico tinha muito menos a ver
garmos o país pela metade, podemos ficar com a metade maior'.'.
Isso estava inteiramente dentro do espírito do herói da infância de ••
com os russos, alemães, tchecos, húngaros, poloneses e bálticos do
que com as ações de George Bush na Casa Branca.
Não, o tom foi moral; foram os "valores familiares". Esta ex-
Buchanan, Joe McCarthy. Para dividir uma comunidade, deve-se
ter bodes expiatórios e obj etos de ódio - caricaturas humanas que
dramatizam a diferença entre Eles e Nós. Se alguma parte de uma ••
pressão era um clichê coercitivo antes do início da convenção repu-

44
estratégia política pode girar, como gira agora, em torno do ato de

45 ••

••
•• inflamar o preconceito público contra homossexuais e negar-lhes cer-
tos direitos como classe ou grupo, então que seja; e tanto pior para
as pessoas às quais Buchanan chamara antes de promotores de "sa-
geiro não assimilado", desta vez envolvendo judeus e negros, ocor-
reriam no Brooklyn.
Na década de 20, mais uma vez, devido ao crescimento da gran-

•• tanismo e suicídio", "pervertidos", "destrutivos", um "proletariado


pederasta" - todos aqueles ciciantes exércitos da noite lá fora,
de indústria, o rápido aumento das cidades e um novo influxo de mi-
lhões de católicos e judeus europeus, os protestantes tradicionais cer-

•• esgueirando-se para junto de seus filhos, e não apenas de adultos


que consenteml O aliadozinho de Deus, o vírus da Aids, era "casti-
go divino" contra essas pessoas, do mesmo modo como, para o pre-
raram fileira contra o "estrangeiro"; o WASP [White Anglo-Saxon
Protestant, protestante branco anglo-saxônico] achou, nas palavras
de Lipset e Raab, que" estava perdendo o controle da sociedade que

•• gador fundamentalista da década de 20, a espiroqueta e o gonococo


tinham sido lançados contra o devasso e o sedutor por um Deus ofen-
dido. Nada havia mudado.
-. seu pai tinha dominado e que ele esperava herdar como direito de
nascença" .12 Esse impulso defensivo foi mais forte sobretudo entre
os fundamentalistas cristãos no "coração do país", que se sentiram


;
ameaçados pela crescente dominação da "cultura da cidade" e pela

'•. VI
maneira como o relativismo e a ciência estavam afrouxando a acei-
tação americana da verdade bíblica revelada. O "julgamento do ma-
caco", em que J. T. Scopes, um professor do Tennessee, foi acusa-

•• Mas também, por que iria mudar? Além dos meios enormemen-
te mais eficientes de disseminação, os bancos de dados, fax, apare-
lhos para pesquisa de opinião instantânea e outros instrumentos de
do por expor a teoria da evolução de Darwin a seus alunos, foi só
o sinal mais visível de uma reação nacional contra o pluralismo. A
idéia de que muitas posições morais e intelectuais podem coexistir

•• info-blitz, pouco de novo existe sobre essas efusões de intolerância


patriótica e religiosa, ou sobre as senhas para anunciá-las. Nem foi
uma completa surpresa o fato de o eleitorado americano, mais sá-
no quadro da democracia repugnava a esses monistas americanos, .
que desejavam apenas uma ortodoxia, uma verdade revelada. Para
eles, na década de 20 como na de 90, a discordância era ilegítima e

•• bio do que muitas vezes supõem os sabichões, os ter rejeitado e vo-


tado, em vez disso, sobre questões mais concretas - sobretudo a
deprimida economia.
o "mercado de idéias", inválido. O extremo disso foi resumido nu-
ma observação apócrifa, atribuída a um pregador batista, de que um
homem só precisava de um livro em sua estante: pois se uma idéia

• Esses movimentos, essas formas de retórica surgem nos Esta- estava na Bíblia, não se precisava mais buscá-la, e se não estava, é

'•. dos Unidos sempre que é iminente uma mudança profunda.


Na década de 1890, os populistas buscaram enfrentar a confu-
sa identidade de um país em radical fluxo de imigração com seu vi-
que era errada mesmo. A linha monista ("verdade única") vai exa-
tamente contra a sábia prescrição de Thomas Jefferson: "Se houver
alguém entre nós que deseje dissolver esta União ou mudar sua for-

•• rulento anti-semitismo, .seu nativismo e seu fanatismo religioso. Os


objetos de ódio eram os imigrantes recentes, judeus e católicos ir-
ma republicana, que se erga tranqüilo como um monumento da se-
gurança com que o erro de opinião pode ser tolerado onde a razão
tem liberdade para combatê-lo" .

••
landeses, mais do que os "liberais" propriamente ditos. Precisamente
porque os Estados Unidos são um país de imigrantes, são os chega- Hoje, os Estados Unidos não.estão recuando para a década de
dos antes, agora enraizados, que sempre resistem à irrupção dos no- 20 ou para os anos de macartismo da de 50. Como esporos de fun-

•• vos estrangeiros. Essa angústia encontrava-se em todos os níveis da


cultura americana no fim do século, de alto a baixo, exatamente co-
mo hoje. Os irlandeses tinham Tammany Hall, os judeus ressenti-
gos no solo, essas tendências repressivas estão sempre aí, sempre la-
tentes, e capazes de frutificar da noite para o dia quando ocorrem
as condições certas. Seu aparecimento é cíclico, e sua tenacidade es-

•• dos a ele se opunham; em 1902, um cortejo fúnebre judeu, passan-


do por um bairro industrial irlandês de Nova York, foi apedrejado
com peças de máquinas e cerca de duzentos participantes judeus fo-
vazia o nosso otimismo sobre o progresso moral nos Estados Uni-
dos do século xx. Mas os objetos nos quais elas se fixam podem
mudar, já que esse tipo de reação ultraconservadora vive através da

•• ram derrubados a golpes de cassetete por policiais irlandeses. 11 No-


venta anos depois, cenas idênticas de intolerância contra o "estran-
personificação de temores sociais do Outro; os efeitos de Joseph
McCarthy sobre o moral social americano pouco tiveram a ver com o

•• 46 47
número de comunistas que ele de fato encontrou no governo, e sim Com o fim do comunismo, a política de divisão precisa de ou-
.'••
com os meios que encontrou para romper a comunidade america-
na, projetando uma forma de pavor meio humana, meio demonía-
ca sobre a amorfa ansiedade de sua época. Havia agentes soviéticos
tros grupos "de fora" ou "desviantes" para malhar, como os ho-
mossexuais. Também precisa de pessoas ou símbolos para idealizar.
Daí as tentativas de reclamar a bandeira para "nós" , a direita ame-
••
nos Estados Unidos, embora agora pareça bastante certo que Alger
Hiss não fosse UIU deles; parte dos meios de comunicação se torna-
ricana sozinha; de fetichizá-la a ponto de torná-la não apenas um
símbolo nacional, mas uma espécie de eucaristia, tão sacrossanta •
ra "mole com o comunismo" graças à tendência pró-soviética de
alguns repórteres e editores; espiões roubaram segredos atômicos;
que tem de ter uma emenda constitucional (nada menos!) para
protegê-la contra maus usos. Daí, também, a bizarra política e ima-
gística do novo Corpo Sacrificado do conservadorismo americano,
."
••
e havia traidores em ação. Muitos liberais nos Estados Unidos fe-
charam os olhos para as atrozes realidades do governo de Stalin e
Mao, do mesmo modo como seus equivalentes fizeram na França
e na Itália, e continuariam a fazer por toda a década de 60 e mesmo
o feto.
Quando a pessoa que sitia a clínica de aborto se declara' 'pró-
vida", podemos ter certeza de que não se preocupa com a vida da ••
pelos anos 70 adentro. Mas nada disso explica exatamente a intensi-
dade da caça às bruxas macartista, seu poder apocalíptico sobre a
adolescente grávida apavorada; o que está em causa não é tanto a
sobrevivência do feto quanto a questão do grau de controle mascu-
lino sobre o corpo da mulher que esta sociedade vai conceder . Pois
••
imaginação americana.
O sucesso de McCarthy estava em abrir as imensas reservas de
monismo americano, a de há muito acumulada intolerância nativis-
sem o direito de escolher o aborto ou a gravidez, a idéia de oportu-
nidade igual para a mulher se acaba: o mecanismo involuntário do
ovário e do útero sempre dificultará a busca por ela de diplomas, .'.:
ta com a diferença, e deixar que isso agisse sobre a questão especifi-
camente ideológica de comunismo versus democracia liberal no mo-
mento mesmo em que os Estados Unidos iam à guerra contra um
cargos, empregos e tempo livre. A crescente obsessão conservadora
com a legislação contra a "escolha" , tentando empurrar uma grave
decisão moral inerentemente pessoal para a esfera da lei pública, só
••
regime comunista, o da Coréia do Norte. O macartismo foi menos
um movimento político do que uma Cruzada das Crianças, um acon-
tecimento irracional, quase religioso. Deveu o sucesso inicial e o even-
pode revelar-se, no fim, uma tragédia para os interesses conserva-
dores. Vai ser para eles o que a severa doutrina católica romana so- ••
tual colapso à vaguidão de seus alvos, sem corpos nem nomes. O
macartismo, oportunista po r natureza, tinha um foco indistinto. Que
bre anticoncepção foi para a Igrej a católica.
A imagem do feto estabeleceu uma estranha presença na cultu-
ra popular americana, sem paralelos em qualquer outra parte do Oci- ••
••
americanos encarnavam as idéias inimigas? "O mais próximo que dente. Fez um bizarro aparecimento nas cerimônias de encerramen-
McCarthy chegou de identificar um grupo como esse inimigo nos to dos Jogos Olímpicos de 1992 em Barcelona, saltitando no palco
Estados Unidos", observaram Lipset e Raab, "foi seu ataque à eli- do estádio Montjuic, com uns dois metros e meio de altura, aparen-
te."l3 A elite - ou seja, os ricos, bem-educados, os mais inteligen-
tes e melhores entre os WASP do leste - "tem vendido o país", de-
clarou McCarthy, com seus " at os traiçoeiros".
temente feito de espuma de plástico, movido por um dançarino no
seu interior. Aquele, anunciou o locutor, era "Whatizit" [Queéis-
so], emblema oficial dos Jogos Olímpicos de Atlantaem 1996. Mem-
••
Lançar a culpa em uma elite, ou declarar que os inimigos cons- "bras minúsculos, olhos saltados, corpo desproporcional, um vestígio
••
.'••
tituem uma elite, é uma das mais velhas ferramentas do arsenal de cauda em que os cinco círculos olímpicos se entrelaçavam timi-
demagógico. As elites são esnobes, sem contato com o povo, arro- damente como num jogo de argolas. O que Walt Disney fez com
gantes, cheias de segredos e simplesmente não-americanas. Melhor o pato, uma equipe de desenhistas americanos fizera com o feto.
ainda, seus membros não precisam ser identificados. Em 1992, pouco O fetiche da direita religiosa é agora uma mascote olímpica. Não
depois de o vice-presidente alarmar os pombais com seu discurso admira que os catalães tenham ficado perplexos.
sobre a "elite cultural", um entrevistador de TV pediu-lhe que iden- Será que isso prenuncia uma onda de Fetus Chie para 1996?
tificasse alguns dos membros dessa elite. Ele recusou-se, acrescen-
tando esquivamente que' 'todos nós sabemos quem são".
É improvável, mas haverá milhões de souvenirs Whatizit, como hou-
ve milhões de Cobis em Barcelona - fetos alfinetes de lapela, fetos " ••
49

.'
48
••
•• promovendo a Coca-Cola, fetos infláveis, fetos fofos forrados de
plush sintético, pequenos pesos de papel fetais. É só fechar os olhos
e ver um novo hotel projetado por Michael Graves, o frontão sus-
o primeiro objetivo de Deus para obter o segundo, sobretudo se não
se era casado. Objetivos primários, objetivos secundários: esse ári-
do sofisma, criado por teólogos celibatários, ajudou a expulsar in-

•• tentado por cariátides fetais, todas com a forma de Whatizit. Essa


perspectiva sugere a profundidade que a imagem do feto alcançou
no estranho ensopado que é a consciência dos meios de comunica-
contáveis católicos da Igreja. A masturbação podia não nos deixar
cegos, nem fazer um único fio de cabelo brotar, inexorável, da pal-
ma da mão - os jesuítas, em geral, estavam acima dessa grosseira

•• ção americanos: um terço do país obcecado com o Não-Nascido e


outro terço com sua Criança Interior .
Será que os desenhistas se reuniram com um comitê do Atlanta
tática de amedrontamento protestante. Mas todo esperma, sendo um
ser humano potencial, era sagrado: parecendo mais um girino ago-
ra, mas capaz de tornar-se numa pessoa uma vez que atingisse um

•• 96 e decidiram fazer um logotipo dos Jogos na forma de um feto?


Parece improvável. Os fetos não sugerem esportes. São, em geral,
óvulo, e portanto devendo ser honrado e preservado juntamente com
seus milhões de irmãos. Toda vez que nos masturbávamos, ocorria

••
tão antiatléticos quanto pequenos paxás. Refestelados em seu flui- um massacre de futuros católicos tão pequenos que um milhão deles
do amniótico, não praticam o nado borboleta nem o crawl austra- podiam dançar , ou pelo menos rabear, na cabeça de um alfinete. O
liano; nem sequer coÍneçam a chutar - quanto mais saltar, correr verdadeiro problema da masturbação era que representava uma in-

•• extensos períodos, pedalar ou dar sinais de eficiência no tiro ao alvo


- enquanto não são quase bebês. Não, Whatizit não é uma imagem
conspícua; é um fantasma do Zeitgeist, um caso de transbordamento,
versão da ordem cósmica - e a anticoncepção era ainda pior. A idéia
de que uma pequena parte da ordem cósmica dependia de nossa von-
tade adolescente era um fardo pesado para nós, jovens soldados do

•• ou precipitação, da sobrecarga de feto na cultura popular. Os se-


miólogos, se quiséssemos fantasiar a respeito, o chamariam de um
significante flutuante. Não existiria sem os manifestantes brandin-
exército de Cristo de Santo Inácio. Em alguns de nós, incluindo o
praça Hughes, isso provocava uma espécie de culpa sufocante que

•• do seus bebês de plástico diante das clínicas de aborto no noticiário


das seis; sem os dois Pats da direita fanática, Robertson e Bucha-
nan, arengando sobre a inocência: Só nos Estados Unidos poderia
levava ao ceticismo: se Deus estava tão ocupado contando espermas,
e tão aparentemente despreocupado em impedir as fomes, epidemias
e massacres do mundo, seria Ele digno de se adorar? Estaria Elemes-

•• um feto passar com tanta rapidez de símbolo de uma "guerra cultu-


ral" a logotipo de um acontecimento esportivo. Whatizit é um lem-
mo ali? Do altar, não vinha resposta alguma.
Alguma coisa desse fetichismo continua a assombrar o debate
sobre o aborto - a ponto de o cardeal O'Connor, num discurso

••
brete bonitinho de uma questão nem um pouco bonitinha. É por
à convenção anual dos Cavaleiros de Colombo em Nova York, em
isso que' Whatizit vai. se tornar bastante importuno à medida que
se aproximarem as Olimpíadas, e gratuitamente incômodo. Já me agosto de 1992, sentir-se levado a propor que se erguesse um "tú-

•• aborrece, e só o vi uma vez até agora - mas também, como ex-


católico, me irrito facilmente com essas coisas. No quadro relativa-
mulo da criança não-nascida" em todas as dioceses católicas dos Es-.:
tados Unidos. Este, e não as Olimpíadas, devia ser o lugar certo pa-

•• mente simples e absolutista da educação católica na Austrália irlan-


desa de quarenta anos atrás, não havia a enorme ambigüidade a
ra Whatizit. Devemos pôr o feto de três meses, ou mesmo .o em-
brião, esse pedaço insensível de tecido organizado ligado à parede
do útero, acima dos interesses da mãe não por causa do que ele é,

•• respeito do aborto que há hoje nos Estados Unidos; acreditava-se


simplesmente que aborto era assassinato, impensável, tout court, sem
discussão, ao passo que a ênfase estava na anticoncepção e no "di-
mas pelo que pode tornar-se. O objetivo primário das mulheres é
ser mãe e assegurar a continuação da espécie; o secundário é ser uma

•• reito à vida" do espermatozóide. Entupidos de rebelde testostero- pessoa auto-suficiente, com direitos sobre o que quer que seu corpo
na, duzentos de nós, meninos, nos sentávamos na capela do inter- contenha; se os dois entram em conflito, o segundo deve perder. Esta
nato ouvindo um padre expor a teologia moral disso. Aprendíamos é a lei férrea da abstração. Nenhuma pessoa decente sugere que o

•• que Deus tinha nos dado o impulso sexual por dois motivos. O pri-
meiro era assegurar a propagação da espécie. O segundo era dar pra-
zer, mantendo com isso os casamentos legítimos. Era errado evitar
aborto não apresenta uma grave escolha moral, mas toda a questão
é que essa escolha deve ser feita pela mãe, e não negada a ela pelo
Estado. Ninguém - a não ser os que acreditam, sem prova algu-

•• 50 51


••
ma, que uma alma imortal realmente se implanta no embrião no mo-
mento da concepção, dotando-o assim de completa humanidade-
os poderes da sátira, e a "questão do aborto" - ou pelo menos
assim achávamos, vendo um orador atrás do outro a soltar vapor ••
pode dizer em que ponto um embrião se torna um ser humano .
A inocência dos fetos não está em dúvida. Mas é irrelevante:
as alfaces também são inocentes. Os fetos não pecam porque não
na convenção republicana de 1992 em Houston sobre os sagrados
direitos dos não-nascidos e a necessidade de uma emenda constitu-
cional proscrevendo o aborto, mesmo no caso de gravidez causada
••
podem. Não podem porque, pelo menos até onde se pode detectar,
não têm livre arbítrio e não lhes são apresentadas ocasiões de pecar.
O útero não tem tentações . É como o Jardim do Éden, antes da ser-
por estupro ou incesto - mostrou ser um desses.
••
pente. Supostamente é por isso que os antiaborcionistas, com seu
jargão PC de inocência e potencial, preferem o não-nascido ao nas-
VII
••
••
cido: no ato de nascer, caímos num mundo imperfeito, ao passo que Na década de 80 a esquerda americana era uma vela extinta na
o feto, como a distintamente não-nascida Criança Estrela cercada política nacional. Seus únicos vestígios de poder eram culturais. Ela
por um âmnio de luz no 2001 de Kubrick, é o emissário de um mun- voltou para o mosteiro - quer dizer, o mundo acadêmico - e tam-
do perfeito - o estado uterino, o Útero com Vista, diante do que
nossos caros confortos, dos sofás às piscinas com aquecimento, são
bém transbordou para o mundo da arte.
O alvo principal do macartismo era a herança do liberalismo
novaiorquino do tipo New Deal da década de 30. O alvo principal .'.'
.'•
apenas metáforas. Este pode ser um dos motivos pelos quais a opo-
sição ao aborto se torna mais extrema à medida que as circunstân- da campanha conservadora da década de 80, como observou Paul
cias materiais dos Estados Unidos se tornam piores. Berman, foi a "herança de abertura democrática e reforma social
Há apenas vinte anos, quando Philip Roth publicou Our gang, que data dos radicais anos 60" - incluindo a parte dessa herança,
sua sátira maravilhosamente corrosiva contra Richard Nixon, ele
imaginou o presidente preparando-se para concorrer ao cargo com
maluca ou sensata, que aflorou no campus.!"
A forma média e intelectual do ataque é o atual frenesi a res- ••
.'•
os votos dos "embriões e fetos deste país" - que se lembrarão agra- peito das influências "radicais" , esquerdistas, no mundo acadêmico,
decidos destinado a advertir os americanos de que, embora tenha desmoro-
nado na Europa e na Rússia, a ideologia do totalitarismo ainda so-
daquele que lutou por eles, enquanto outros tratavam de problemas

••
brevive na China e em Cuba - e nas universidades americanas. Por
mais populares e da moda na época. Acho que se lembrarão de quem esta leitura, um "novo macartismo", desta vez da esquerda,
foi que se dedicou, em meio a uma guerra externa e a uma crise racial apoderou-se do campus e está detendo a liberdade de pensamento.
interna, a tornar este país um lugar adequado para os não-nascidos
viverem com orgulho.
Quase não houve um crítico literário nos Estados Unidos que
A cultura, adverte Hilton Kramer em The New Criterion, está meti-
da numa "encrenca profunda e terrível". O mundo acadêmico in-
ternalizou os bárbaros que a atacaram antes 'e "esse elemento bár- ••
não atacasse Roth por exagerar, excedendo os limites permissíveis
da sátira, e o resto. (A revista Time, entre outros, recusou-se até
mesmo a criticá-lo.) Cabalar votos fetais! Quem já ouvira falar dis-
baro - tão hostil aos princípios fundamentais de nossa civilização
[... ] hoje tem um imenso séquito em nossas principaisinstituições.
J á transformou radicalmente o ensino das artes e humanidades em
••
so? Our gang foi a única sátira escrita por um americano moderno
digna de comparar-se a A modest proposal de Swift. Mas, ao con-
trário da visão swiftiana de uma esfomeada Irlanda alimentada com
nossas faculdades e universidades". E nem todos os que pensam as-
sim são neoconservadores - em 1991, um historiador não menos
evidente que Eugene Genovese, escrevendo em The New Repubiic,
••
a carne de seu excedente de bebês ("Um Americano muito bem infor-
mado me assegurou [...] que uma Criança saudável bem Amamen-
afirmava que, "como alguém que viu seus professores demitidos du -
rante a era McCarthy, e que teve de lutar, como marxista pró- ••
••
tada é, com um ano de Idade, uma Comida muitíssimo deliciosa, comunista, pelo seu próprio direito de ensinar, receio que nossos
nutritiva e integral"), a de Roth, de uma maneira geral, realizou-se. colegas conservadores enfrentam hoje um novo macartismo, sob cer-
Há momentos nos Estados Unidos em que a realidade ultrapassa tos aspectos mais eficaz e perverso que o antigo".


52 53

.'
e_
••
•• Outros (e mais jovens) acadêmicos negam fervorosamente a acu-
sação de macartismo, qualificando-a de metáfora exagerada. E de
fato há poucos sinais de uma repetição do que o senador do Wis-
Ordena que o vaudeville pregue
E todo discurso inaugural
Seja uma polêmica.

•• consin e seus comparsas realmente fizeram ao mundo acadêmico


na década de 50, em geral através de pressão sobre administradores
e corpos docentes que se viam como. liberais : as demissões de cate-
Que Ares cochile) que outra guerra
Seja im ediatam ente declarada mais uma vez

••
Entre os que seguem
dráticos em meados de carreira: às investigações do Comitê de Ati- O precoce Hermes até o fim
vidades Antiamericanas da Câmara sobre o conteúdo de bibliote- E os que sem hesitar obedecem
O pomposo Apolo.

•• cas e cursos, os juramentos de lealdade no campus, toda aquela


atmosfera sórdida de perseguição, traição e paranóia. O número de
acadêmicos demitidos pela polícia do pensamento esquerdista, em
Brutal como todas as Olimpiadas,
Embora travada com sorrisos e nomes de batismo

•• contraste, é zero. Tem havido brigas e estupidez. Tem havido acu-


sações infundadas de racismo, como as lançadas contra o historia-
dor Stephan Thernstrom em Harvard, que adotou a opinião - es-
E menos dramática)
Essa luta dialética entre
Os deuses civis é igualmente má)

'•. candalosa para os fanáticos do PC - de que, ao estudar a história


da escravidão americana, deve-se ler com atenção o testemunho his-
tórico dos dois lados, incluindo o registro de como os donos de es-
E mais fanática.
[But Zeus inscrutable decree
Permits the will-to-disagree

•• cravos e autores escravagistas defendiam a prática. Não há dúvida


de que não faltam no campus fanáticos, autoritários e mistificado-
res que encaram o PC como uma astuta manobra carreirista ou co-
To be pandemic,
Ordains that vaudeville shall preach
And every commencement ·sp eech

•• mo uma válvula para suas frustrações.


Tampouco é fantasia da direita o fato de que quase todos os
que ensinam humanidades numa universidade americana hoje vão
Be a polemic.
Let Ares doze) that other war

••
1s instantly declared once more
ser (no mínimo) rotulados segundo atitudes PC e precisarão de uma 'Twixt those who follo w
robusta independência mental para resistir a elas. O processo é se- Precocious Hermes ali the way
And those who without qualms obey

•• melhante ao antigo processo religioso americano de isolar e humi-


lhar. Também determinará quais professores serão contratados e
quais não. E extrai força das simples dimensões do mundo acadê-
Pompous Apolo.
Brutal like ali Olympic games,
Though fought witn smiles and Christian names

•• mico americano, a inflação de seus números, a noção de que a pla-


téia acadêmica é praticamente uma audiência de massa mesmo, de
modo que ninguém precisa pensar em leitores fora de suas frontei-
And less dramatic,
This dialectic strife between
The civil gods is just as mean,

•• ras auto-referenciais e demasiadas vezes conformistas. Não há dú-


vida, o mundo acadêmico passou a gostar demais dos rótulos e eti-
quetas que substituem o pensamento e a opinião por um moralismo
And more fanatic.]
Contudo, pode-se muito bem encarar com ceticismo as costumei-

•• fácil - racista, sexista, homofóbico , progressista, reacionário. Os


uniformes, na atual guerra de camundongos e rãs, podem parecer
novos, mas a guerra em si não é tanto - ou assim somos lembrados
ras acusações conservadoras de que o mundo acadêmico americano
foi tomado pela esquerda militante - por uma cabala de "visigodos
de tweed", nas palavras de Dinesh d' Souza, autor do best-se/ler de

•• por Auden, em "Under which lyre" [Sob qual lira]:


Mas o inescrutável decreto de Zeus
1991Illiberal education: the politics ofrace and sex in campus [Edu-
cação iliberal: a política de raça e sexo no campus]. Uma expressão
pitoresca - mas que também faz pensar na compreensão D'souzia-

•• Permite que a vontade de discordar


Seja pandêmica,
na dos valores ocidentais cuja sobrevivência o preocupa. Se ele sou-
besse alguma coisa dos visigodos, também saberia que no século VI

•• 54 55
••
eles fizeram maravilhas para consolidar os restos demolidos da or-
dem romana na Espanha, que o código legal deles é encarado com
campi de faculdades comunitárias . Ainda há bons motivos para que
um acadêmico, pressionado a responder a uma pesquisa, afirme ser ••
razão como um dos verdadeiros monumentos da jurisprudência oci -
dental, e que ao instituírem o cristianismo como sua religião de Es -
tado embarcaram num grande e custoso programa de construção
mais centrista do que é. Apesar disso, dentro de certos limites, os
resultados dessa pesquisa são provavelmente indicativos.
Quando se ouve a acusação conservadora, muitas vezes repeti-
••
de igrejas. Dificilmente teriam feito mais se fossem chefiados por
William Bennet e o cardeal ü'Connor. Na verdade, dificilmente hou-
ve uma época, desde a Revolução Russa, em que a direita america-
da, de que o moderno campus americano está "politizado", vale
a pena lembrar que ele sempre foi. A idéia de que, antes da década
de 60, o mundo acadêmico era uma espécie de estado ideal de estu-
••
na não se inquietasse com os "catedráticos radicais" (na expressão
de Roger Kimball) instalados nas universidades americanas , insis-
do objetivo, livre de contaminação por tendências e interesses polí-
ticos, é um mito: simplesmente, nos anos do pós-guerra as pressões
políticas seguiram o rumo oposto, e começaram a usar o campus
••
••
tindo em como, no passado, as coisas eram melhores e menos ideo-
lógicas. É comum ler-se sobre a queda das academias na "politiza- como fonte de informações para o FBl e base de recrutamento para
ção", em comparação, digamos, com a década de 50. Mas também a ClA.

••
encontramos o famoso filósofo Sidney Hook, em Heresy [Heresia], Se alguém concorda conosco sobre os objetivos e usos da cul-
defendendo a proibição do ensino comunista nas faculdades ameri- tura, nós o achamos objetivo; se não, o acusamos de politizar o de-
canas, e afirmando que mil comunas j á estavam ensinando só nas bate. Na verdade, os programas políticos estão em toda parte, e a
escolas de Nova York:
Mesmo que cada professor, numa estimativa por baixo, ensinasse ape-
afirmação ritual dos conservadores americanos de que suas posições
culturais ou eruditas são apolíticas é patentemente falsa. Há esquer-
distas de todos os matizes nos departamentos de literatura e humani-
••
nas a cem estudantes durante um ano , isso significaria que todo ano
cem mil estudantes, só na cidade de Nova York, estariam sujeitos a
uma doutrinação educacionalmente perniciosa. Destes [.,.] centenas
dades - mas por que não iria haver? As universidades devem expor
seus alunos ao debate, e o debate autêntico deve incluir a esquerda,
a direita e o centro, sobretudo em tempos tão conservadores quanto
••
teriam sido influenciados por seus professores para entrar em organi-
zações juvenis comunistas , das quais o movimento comunista extrai
seus mais fanáticos seguidores.
os atuais. A objeção correta à argumentação esquerdista nas uni-
versidades americanas não é a de que ela existe, pois deveexistir e
prosperar livremente - é a de que grande parte dela é opaca, cheia
••
É sempre assim, somos tentados a supor. Se os marxistas es-
tão, de fato, a ponto de se apoderar do mundo acadêmico na déca-
de jargões e dedicada a questões marginais. Mas então, que dizer
das figuras conservadoras que, em geral, ocupam as grandes cáte- ••
••
da de 90, parecem fazer um certo segredo a respeito - embora isso, dras subvencionadas das universidades americanas e dirigem os gran-
claro, talvez se deva a seus maquiavélicos hábitos de dissimulação. des institutos universitários de economia, administração e governo,
Recentemente, quando o Instituto de Pesquisa de Educação Supe- da Escola de Comércio de Harvard para baixo? As grandes univer-
rior da DCLA fez uma pesquisa com 35 mil professores em 392 es-
colas, constatou que só 4,9 por cento se declaravam de "extrema
sidades americanas são grandes empresas, dispondo de imensos
investimentos em ações e bens imóveis, ligadas ao governo por in-
••
.'••
esquerda", enquanto 17,8 por cento se classificavam como "con- contáveis canais consultivos . É inevitável que seus caminhos prefe-
servadores" . Todo o resto descreveu-se corno "liberal" ou "mode- . renciais passem por trilhas conservadoras. Sempre passaram. É ab-
rado". Mesmo 'em Berkeley, o locus classicus de radicalismo estu- surdo dizer que isso é "apolítico".
dantil nas décadas de 60 e-70, só um em cada trinta membros do Grande parte do ensino tradicional nas escolas americanas, em-
Departamento de Sociologia diz-se hoje marxista. bora não necessariamente a máquina-de-envergar-pensamento que
Esses números devem ser tratados com certo grau de cautela:
nem todas as faculdades americanas são tão tolerantes com profes-
sores de opiniões esquerdistas como as de elite ou as do sistema es-
seus críticos dizem agora que foi, t em sido um tanto menos "desin-
teressada" do que parece. Um caso típico é o próprio curso básico
de Civilização Ocidental. Como mostraram os historiadores Carol
••
tadual da Califórnia, e uma extrema timidez política predomina nos

56
Gruber e William Summerscales, os cursos de Civilização Ocidental

57
••

•• As universidades, ao buscarem uma solução rápida para a an-

••
- um rápido exame dos "valores culturais" e do "pano de fundo"
da civilização europ éia - na verdade entraram no currículo ameri- gústia da educação desigual, podem complicar o problema. Será a
cano quando, e porque, os Estados Unidos entraram na Primeira resposta baixar as exigências de admissão como uma forma de "ação

•• Guerra Mundial. 15 O governo. americano queria que seus infantes


de formação universitária soubessem por que estavam lutando, e
imaginou-se um curso de "Questões de Guerra", ou de propaganda
afirmativa"? Em fins da década de 80, o campus de Berkeley da
Universidade da Califórnia decidiu que as proporções de novos es-
tudantes admitidos - negros, hispânicos , asiáticos e brancos - de-

•• para isso. O objetivo era produzir o que um editorial na The History


Teacher's Magazine da época chamou com felicidade de "baionetas
pensantes" . Informaria ao jovem americano sobre a medonhez dos
viam seguir mais ou menos a distribuição demográfica desses gru-
pos na sociedade maior do norte da Califórnia.
O problema era que, dos formados no secundário que busca-

•• teutônicos. Depois do Armistício , esse curso evoluiu, na Universi-


dade de Columbia, para "Civilização Contemporânea", o protóti-
ram um lugar em Berkeley, 30 por cento de asiáticos - sino e nipo-
americanos - passaram, contra 15 por cento dos brancos, 6 por
cento dos chicanos e só 4 por cento dos negros. Não havia mistério

•• po das modernas aulas de Civilização Ocidental - desta vez, com


o objetivo de produzir alunos que se tornariam, nas palavras de um
decano de Columbia, convictos dos valores democráticos após terem
nisso: os garotos asiáticos se esforçavam muito e vinham, em geral,
de f am ílias unidas que os sustentavam e os obrigavam a estudar.

•• sido vacinados contra a nova ameaça dos bolchevistas, "o elemento


destrutivo em nossa sociedade" .
O problema de fato intratável da educação americana hoje não
Assim, Berkeley simplesmente mudou seus padrões de admissão. Daí
em diante os negros só precisavam conseguir 4 800 pontos em 8 mil
para entrar, mas o patamar para os sino e nipo-americanos foi fixa-

•• é seu conteúdo ideológico, mas o nível de preparo de seus alunos.


Esse problema vem de muito atrás, das escolas secundárias, onde
do em 7 mil. Naturalmente, quando essa notícia chegou à comuni-
dade asiática, houve indignação e protesto. Apesar disso, continua
latente no sistema universitário americano a idéia de que os estu-

••
alunos "em desvantagem" - sobretudo negros - recebem uma edu-
dantes negros ou de outra minoria podem de algum modo ser' 'for-
cação básica chocantemente inferior à dos brancos . A má educação
talecidos" e levados a "entrar em campo" manipulando-se os pa-
infligida anos antes do nível universitário assegurou, como consta-
drões de admissão. Mas tudo o que a universidade pode razoavel-

•• tou na década de 80 uma pesquisa da Avaliação Nacional do P ro-


gresso Educacional, que, entre jovens de 21 a 25 anos, somente 60
por cento dos brancos, 40 por cento dos hispânicos e 25 por cento
mente esperar fazer, nessa área contestada, é ajudar os estudantes
inteligentes em desvantagem a transpor mais facilmente obstáculos

•• dos negros pudessem " encontr ar uma in for m açã o numa matéria d'e
imprensa ou num almanaque"; só 45 por cento dos brancos, 20 por
cento dos hispânicos e 8 por cento dos negros soubessem calcular
transpostos pelos inteligentes em vantagem. Uma política mais eqüi-
tativa, como têm argumentado D'Souza e outros, seria relacionar
a admissão preferencial na faculdade à pobreza do estudante, não

•• corretamente o troco a receber após pagarem uma conta de restau-


rante; e só 25 por cento de brancos, 7 por cento de hispânicos e 3
à sua raça. As universidades são instituições de ensino superior, não
(pelo menos não primariamente) de terapia social. Terão elas o di-
reito de baixar seus padrões de admissão e níveis de ensino para que

•• por cento de negros entendessem o conteúdo de um horário de ôni-


bus impresso. Nenhuma universidade pode resolver essa trágica si-
tuação, e só a mais radical melhoria da escola secundária pode
os estudantes em desvantagem possam acompanhar, em detrimento
dos direitos educacionais de estudantes mais capazes? Se se acredita
que as faculdades devem ser bases de formação de elites, por mais

•• combatê-la. Não é culpa dos estudantes. Na década de 80, estudantes


negros americanos a caminho.da faculdade, embora ficando abaixo
da média branca no teste de aptidão escolar SAT, na verdade eleva-
amplo que seja o acesso a elas, a resposta é não. Mas a principal
corrente de opinião, entre professores que atingiram a maioridade
nos anos 60 ou depois, é apaixonadamente, quase reflexamente, con-

•• ram sua média nacional em expressão e comunicação e matemática


em 49 pontos - por uma amarga ironia, exatamente na época em
que o governo Reagan cortava o volume de verbas federais para bol-
tra o elitismo. "A ideologia predominante", escreveu o educador
Daniel J. Singal.!" "afirma que é muito melhor abrir mão da pers-

••
pectiva de excelência do que correr '0 risco de ferir a auto-estima
sas oferecidas aos pobres nas universidades. de um estudante. Em vez de tentar estimular as crianças a estabele-

•• 58 59
••
cer altos padrões para si mesmas, os professores investem suas ener-
gias em assegurar que as de aprendizado vagaroso não venham a
escuridão, ecos, cantos, que meditações, que vastos
pensamentos nativos (...] ••
julgar-se fracassadas [. ..] muitas vezes se sente quase um preconcei-
to contra os alunos inteligentes."
Se as causas de desempenho medíocre entre os estudantes ne-
(Strange and hard that paradox true I give,
Objects gross and the unseen soul are one. ••
gros, em comparação com os asiáticos ou brancos estão demasiado
atrás no sistema escolar para ser sanadas na porta da universidade,
então baixar as qualificações para estudantes negros (ou quaisquer
-House-butlding, measuring, sawing the boards,
Blacksmithing, glass-blowing, nail-making, coopering,
tin-roofing, shingle-dressing,
••
outros) é, nas palavras do historiador Eugene Genovese, "um enig-
ma [.. .] Se, como deve ser óbvio, algumas pessoas, negras ou bran-
Ship joining, âoclc-buiiding, fish-curing, flagging of
sidewalks by flaggers,
The pump, the pile-driver, the great derrick,
••
••
cas, começam com menos vantagem cultural, menos preparação e the coal-kiln and brick-kiln,
menos talento que outras, a 'igualdade de oportunidades' só pode Coai-mines and ali that is down there, the lamps in the
resultar na perpetuação dos níveis de desigualdade iniciais" . 17 O darkness, echoes, songs, what meâitations, what
que sustenta essas tentativas de terapia social, na opinião de Geno-
vese, é "a convicção igualitária radical de que todos são adequados
e têm direito a uma educação universitária [...] Transformamos nos-
vast native thoughts.. .]
Além disso, adverte Singal, não se levou muito em conta uma ••
sas faculdades de lugares de ensino superior em lugares para a for-
mação técnica de rapazes e moças mal preparados que precisam de
um diploma para arranjar um emprego numa sociedade ensandeci-
crescente crise na outra ponta do espectro social; racial e educacio-
nal: os estudantes mais ricos, a maioria educados em escolas caras,
que desde meados da década de 70 "vêm entrando na faculdade tão
••
•••
da pela universidade" . Se os americanos não dessem uma ênfase tão mal preparados que têm um desempenho muito abaixo do poten-
irreal a diplomas universitários, esse problema talvez não desapare- cial, muitas vezes a ponto de incapacidade funcional". Em 1970,
cesse, mas poderia pelo menos decrescer . Um diploma universitário novos estudantes entraram nas principais faculdades (Columbia,
Swarthmore, a Universidade de Chicago) com uma média em ex-

•.'•
não é necessário para a maioria dos serviços que as pessoas fazem
no mundo, enquanto a alfabetização, a aritmética e a capacidade pressão e comunicação no SAT que ia de 670 a 695, num total de
básica de interpretar informação o são absolutamente. (Ou pelo me- SOO. Em meados da década de SO, essas médias haviam caído para
nos, devo talvez acrescentar, esta é a minha experiência; pois deixei uma faixa de 620 a 640. Exatamente o mesmo padrão, com poucas
a faculdade sem nenhum diploma.) O principal efeito do fetichismo áreas de exceção (sobretudo nas melhores universidades do Sul, on-
americano em relação ao diploma foi fazer o trabalho qualificado
pragmático parecer de segunda classe. Diminuiu os objetos da grande
litania de Walt Whitman em "A song for occupations" [Canto pa-
de os pontos subiram após a completa dessegregação), tem-se veri-
ficado em todos os Estados Unidos. Uma vez lá, a educação que
eles recebem (quando os professores não estão lutando para levá-
••
ra os ofícios]:
Estranho e difícil esse paradoxo real ofereço,
los a níveis de leitura e compreensão que deviam ter alcançado no
secundário) é rebaixada à sua baixa capacidade de ler textos, penei- ••
Objetos grosseiros e a alma invisível são a mesma coisa ..
Construir casas, medir, serrar as tábuas,
Ferrar, soprar vidro, fazer pregos, funilar, pôr telhado de
rar informação e analisar idéias. Assim, isso se torna uma pobre coda
para o ensino intensivo que os estudantes recebiam antes, e para as
expectativas tidas em relação a eles; ajustado.à limitada experiência
••
zinco, telhado de ardásia,
Fazer navios, construir docas, tratar peixe, deitar lajes nas
calçadas,
de vida: e idéias dos estudantes como se isso fosse uma espécie de
absoluto educacional (quando, claro, é a coisa que a verdadeira edu-
cação busca contestar e ampliar), sentimentalóide, com cursos su-
••
A bomba, a empilhadeira, o grande guindaste, o forno de
carvão e de tijolos,
Minas de carvão e tudo que há lá embaixo, as lâmpadas na
perficiais de estudos sociais que inculcam apenas slogans e destinam-
se, até onde possível, a evitar difíceis questões de contexto histórico, ••
60 61
••
'••. com pouca análise e escrutínio crítico, mas muita atitude e senti-
mento. Os resultados totais dessa. emasculação vão aparecer na dé-
do e muralistas chicanos da Califórnia, e os pilares do Ocidente pron-

•• cada de 90, e a onda de correção política - que trata de sentimen-


tos, e é mais comum, parece, entre os professores do que entre os
tamente desmoronarão. Enquanto isso, a seita B está tão atolada
no modo de reclamação que não pode armar uma defesa satisfató-
ria, já que queimou a maioria de suas pontes para a cultura em ge-

••
próprios alunos - é apenas um de seus sintomas premonitórios. Pois
ral (e nega, em seus momentos mais narcisistas, que o leitor comum
quando entrou na educação americana, a animosidade dos anos 60
inteligente ainda exista - embora o maior problema seja a escassez
contra o elitismo trouxe em sua esteira uma enorme e cínica tole-
de escritores comuns inteligentes). Com algumas e destacadas exce-

•• rância para com a ignorância dos estudantes, racionalizada como


respeito à "expressão pessoal" e "auto-estima". Em vez de "for-
çar" os garotos pedindo-lhes que lessem demais ou pensassem com
ções como Edward Saíd, Simon Schama ou Robert Darnton, relati-
vamente poucas das pessoas que hoje escrevem história, biografia

•• demasiada concentração, o que podia fazer com que suas frágeis per- ou crítica cultural de primeira classe nos Estados Unidos têm uma
sonalidades implodissem em contato com as exigências do nível uni- cátedra, embora muitos escritores estejam ligados a universidades
versitário, as escolas reduziram as tarefas de leitura deles, assim como hermas ou troféus decorativos nessas diversões terapêuticas

•• diminuindo automaticamente seu domínio da linguagem. Sem for-


mação em análise lógica, mal equipados para desenvolver e cons-
truir argumentações formais, desabituados de minerar textos em bus-
conhecidas como cursosde Literatura de Criação ("Estou espanta-
do", escreveu o dadaísta boxeador Arthur Cravan numa filípica con-
tra as escolas de arte, em 1914, "de algum picareta não ter tido a

•• ca de jazidas de fatos, os alunos recaíram na única posição que


podiam chamar de sua: o que sentiam das coisas. Quando sentimen-
idéia de abrir uma escola de literatura." Agora sabemos que não
é assim.) Mas em geral a maior parte do contato do mundo acadê-
mico com o leitor comum inteligente parece ter murchado, porque

••
tos e atitudes são os principais referenciais da discussão, atacar qual-
quer posição é automaticamente insultar seu defensor ou até mes- a superespecialização e as déformations professionnelles do carrei-
. mo agredir o que ele julga seus CCdireitos"; todo argume~tumtorna-se rismo acadêmico o estão matando .

•• ad hominem, beirando a condição da perseguição, senão estupro


mesmo. "Eu me sinto muito ameaçado por sua rejeição de minhas
Nos departamentos de literatura e humanidades da moderna uni-
versidade americana, o lado da' especialização - em tópicos, em for-

•• opiniões sobre [escolha um] falocentrismc /a Deusa Mãe/o Tratado


de Viena/o Módulo de Elasticidade deYoung." É só rodar essa sub-
mas de pensamento e, acima de tudo, em linguagem - tornou-se
tão tacanho, tão constipado pelas minúcias da teoria, tão estiolado

••
jetivização do discurso por duas ou três gerações de alunos que se pela pressão para descobrir temas de teses ainda não explorados,
tornam professores, com as dioxinas dos anos 60 acumulando-se mais que não pode estender-se a um esquema mais amplo. A maior parte
a cada vez, e teremos o entrópico pano de fundo de nossa cultura de seu discurso não tem esperança de alcançar uma audiência leiga.

••
da reclamação. Ótimo, diz a defesa: quem espera que o trabalho de um cientista
do MIT [Instituto Tecnológico de Massachusetts] seja lido, ou mes-
mo superficialmente compreendido, por leigos? As pessoas lá tra-

•• VIII

Em assuntos culturais, a velha divisão de direita e esquerda aca-


balham nos limites da matemática e da física quântica, em áreas tão
rarefeitas que não mais de trinta outros especialistas, em todo o mun-
do.. podem entender seus comunicados; e daí? Não é o papel mes-

•• bou se assemelhando mais a duas seitas puritanas, uma lamentosa-


mente conservadora, a outra posando de revolucionária mas usando
a lamentação acadêmica como maneira de fugir ao comprometimen-
mo das universidades manter conhecimento "inútil", ou seja, áreas
de pesquisa científica sem qualquer influência visível no modo co-

•• to no mundo real. A seita A toma de empréstimo as técnicas políti-


cas de ataque republicanas para mostrar que, se a seita B vencer,
mo a maioria das pessoas vive, e incompreensíveis para todos, com
exceção de um minúsculo punhado, na crença justificável de que po-
dem acabar tornando-se muito "relevantes"? A ciência tem mil be-

••
o estudo de Platão, Ticiano e Milton será substituído por progra- cos sem saída para cada trilha que se torna uma rodovia pública,
mas de doutrinação nas obras de obscuros autores do Terceiro Mun- e a pesquisa tem de explorar todos eles - ou morrer.

'•. . 62
63
••
É verdade; mas o problema de se aplicar isso às humanidades
é que a apreciação de arte e literatura não tem qualquer base científi-
do há tantos alunos que os professores não podem ensinar a todos,
e as verbas são limitadas, a solução é usar "auxiliares de ensino", ••
••
ca; lidamos com a moeda inquantificável do sentimento, da intuição pagos a preços aviltantes; quando o professor vê seu dever acadê-
e (de vez em quando) do julgamento moral, e não há nenhuma "ver- mico como sendo mais o de publicar do que o de ensinar, pode re-
dade" objetiva que a crítica possa reivindicar "cientificamente". O correr a um grupo de "auxiliares de pesquisa" - seus próprios alu-
crítico Louis Menand observa que a instituição compulsória de críti-
ca literária americana, a A.ssociação de Língua Moderna (MLA), foi
fundada em 1883 por filólogos, "estudiosos cuja obra era científica
nos - para fazer o seu trabalho . Alguns encaram isso como um bom
treinamento para o espírito dissidente e questionador. Outros, com
pelo menos igual razão, vêem nisso uma forma de contrato de apren- ••
e portanto podia ser avaliada 'objetivamente' ". Só em 1950 o MLA
acrescentou a palavra "crítica" a seus estatutos; e só o fez porque
a crítica se apresentava como cada vez mais baseada em teoria, e por-
dizado, que conduz ao conformismo e ao oportunismo.
Quando os estudantes da antiga Nova Esquerda do mundo aca-
dêmico da década de 60 entraram nas universidades como professo-
••
tanto como uma contribuição ao conhecimento, não apenas à soma
de opinião . A obsessão com a teoria, combinada com a ausência de
talento literário, cria a pavorosa prosa do crítico literário acadêmi-
res, viram as eufóricas esperanças de sua juventude murchar após
1968, desmoronar sob a reação dos anos 70 e tornar-se simples ar-
queologia em 1980. Nenhuma daquelas belas promessas se cumpriu.
••
co. Ninguém quer voltar às velhas formas de beletrismo caturra, "hu-
manístico", que dominavam antes da chegada da "Nova Crítica"
A reação deles a esse trauma foi abandonar o marxismo clássi-
co, com sua ênfase na luta econômica e de classes no mundo real, ••
há quarenta anos, mas o estado atual da literatura universitária so-
bre as artes fica entre o sonífero e o escândalo.
Para justificar sua existência quando o modelo de educação su-
e abraçar as teorias mais difusas e paranóicas da escola de Frank-
furt -:- Theodor Adorno, Herbert Marcuse.
Para esses teóricos, toda vida humana era regida por mecanis- .'•
perior americana era científico, os departamentos de literatura tive-
ram de sobreviver alegando que estavam na vanguarda de novas
técnicas. Daí o surgimento de dialetos que não se relacionam com
mos repressivos embutidos não na política explícita, mas na lingua-
a
gem, na educação, na diversão - em toda estrutura de comunica-
ção social.
••
nada fora do mundo acadêmico; daí, também, a falta de ligação entre
a critica acadêmica e os textos muito mais claros sobre temas afins
A isso juntou-se a crença do pós-estruturalismo francês, exem-
plificado por Michel Foucault e Jacques Derrida, em que o "sujei-
to" - o agente pensante individual, o "eu" de toda frase - era
•.\
na imprensa não acadêmica. .Como afirma Menand:
[... ] a maior parte do mundo acadêmico é um imenso mar de confor-
mismo , e toda vez que vem uma nova onda de teoria e metodologia,
uma ilusão: só nos restava a linguagem, não a mentalidade: frustra-
ção com os generalizados sistemas de repressiva indecidibilidade ins-
critos por toda parte na cultura circundante, e nenhum meio de
••
todos os peixes tentam nadar nessa direção. Há vinte anos, todo críti-
co de literatura falava do ego, sua autonomia e seu terrível isolamen-
to . Hoje nem um único acadêmico respeitável quer ser apanhado nem
superá-los . Antes havia escritores, mas agora só havia o que Fou-
cault chamava pejorativamente de "a função de autor". O intelec- ••
••
tual, nessas condições, é tido como tão impotente contra o poder
perto da palavra, pois o "ego" agora é o "tema", e o tema, todos e o controle quanto um salmão num rio poluído, e a única diferen-
concordam vigorosamente, é uma construção contingente [.. .] O que
ça é que nós, ao contrário do peixe, sabemos que a água está enve-
deveria ser mais perturbador para todos é a absoluta previsibilidade
da grande maioria da crítica acadêmica que consegue ser publicada. 18
O status de quem pesquisa e publica é alto, e o de quem ensina
nenada.
Assim, segundo a teoria, não temos o controle de nossa histó-
ria e nunca o poderemos ter. Temos como verdade que a verdade
••
de fato, desproporcionalmente baixo. Cada vez mais, exige-se que
os alunos façam trabalho pesado de pesquisa para o próximo traba-
lho do professor . As universidades americanas mantêm, conserva-
é incognoscível; devemos desconfiar de todas as declarações, a não
.ser do axioma de que todas as declarações são suspeitas. Seria difí-
cil encontrar um beco sem saída pior - ou mais autoritário - do
••
do em âmbar , o sistema medieval de aprendizado. Em parte, isto
lhes foi imposto pela expansão do próprio mundo acadêmico. Quan-
que esse . John Diggins, em The rise and fali of the American left
[Ascensão e queda da esquerda americana], resume em poucas pa- ••
64 65
••
e_
••
•• lavras: "Hoj e o desafio do intelectual não é o do iluminismo, de
promover o conhecimento para fazer avançar a liberdade: o desafio
hoje é espalhar a suspeita. A influência que o pós-estruturalismo
saltitar e farej ar por aí no mundo acadêmico americano, anos de-
pois de seus mentores intelectuais deixarem de interessar aos pró-

•• francês goza na vida acadêmica americana [... ] responde a uma ne-


cessidade profunda, mesmo que sej a apenas a necessidade de racio-
prios franceses. E são essas pessoas que se queixam de colonialismo
cultural! '
Em fins da década de 80, o editor das Presses Universitaires

•• nalizar o fracasso". O intelectual que imagina que pode desafiar o


status quo defendendo a inutilidade da linguagem começa com não
um, mas três pontos contra si mesmo, e é por isso que o pós-
de France, Nicos Poularitzas, lutava para concluir uma dispendiosa
série de livros sobre o marxismo na vida contemporânea, iniciada
na década de 70: Marx-e-culinária, Marx-e-esporte, Marx-e-sexo,

•• estruturalismo, embora tenha lotado as salas de seminários na últi-


ma década e nos dado um monte de crítica cultural em grande parte
ilegível, junto com um pouco de arte conceitual moralizante, teve
Marx e qualquer coisa que alguém quisesse mencionar. Mas era ina-
cabável: muito tempo atrás, Poulantzas esgotara o estoque de auto-
res franceses interessados em Marx. "Nossa única esperança são os

•• tão pouco efeito na maneira como as pessoas em geral escrevem,


pensam ou agem. É sobretudo um enclave de reclamação abstrata.
Fora de seu perímetro, prosseguem a vida real, a linguagem real
Estados Unidos", confiou ele tristemente a um amigo, pouco antes
de suicidar-se.

••
O fato de a influência marxista tanto resistir na esquerda aca-
e a comunicação real. Em fins da década de 80, enquanto os acadê- dêmica americana - a ponto de ainda se poder encontrar um ou
micos americanos teorizavam ocamente que a linguagem e o sujeito dois althusserianos - é uma prova do poder da nostalgia. Há e sem-

••
pensante estavam mortos, o anseio de liberdade e cultura humanís- pre houve motivos para os jovens estudarem Marx - a começar pe-
tica demolia os próprios pilares da tirania européia. Claro, se os es- lo fato de que o século xx é incompreensível sem um entendimento
tudantes chineses tivessem lido Foucault, teriam sabido que a repres- do imenso impacto que suas idéias" e a interpretação dessas idéias

•• são está inscrita em todas as línguas, incluindo a deles, e com isso


teriam se poupado da tarefa de enfrentar tanques na praça de Tia-
nanmen. Mas terão Václav Havel e seus colegas dramaturgos, inte-
por outros, teve na política mundial.
Apesar disso, o marxismo está morto; essa parte da história aca-
bou. Sua carcaça continuará emitindo sons e odores, à medida que

•• lectuais e poetas libertado a Tchecoslováquia citando Derrida ou Lyo-


tard sobre a inescrutabilidade dos textos? Certamente que não:
fizeram isso pondo sua fé no poder de transformação do pensamento
os fluidos escorrem e o gás se expande; europeus outrora comunistas
continuarão a renascer,como ultranacionalistas, como o ex-appara-
tchik genocida Slobodan Milosevic, presidente da Sérvia. Muitos que

•• - metendo os ombros na imensa roda da palavra. O mundo está


mudando de modo mais profundo, amplo e emocionante do que em
qualquer momento desde 1917, talvez desde 1884, e a esquerda aca-
satisfaziam seu gosto pelo poder burocrático dentro da estrutura im-
perial do comunismo continuarão a saciá-lo nas novas fontes de na-

•• dêmica americana continua se preocupando com a falocentria ins-


crita na maneira como Dickens retrata a pequena Nell.
cionalismo local.
Essas pessoas, por mais indignas de respeito que sejam, são pe-
lo menos mais realistas que os intelectuais que suspiram pela perdi-

•• O escritor que cai nesse mundo deve sentir-se como Gulliver visi-
tando a Academia Real de Lagado, com seus solenes "projetores"
mourejando para extrair raios de sol de pepinos, construir casas a
da promessa de Marx e Lenin. Pois a verdade é que o marxismo
perdeu sua aposta principal logo na saída. Jogou toda a sua reivin-
dicação à inevitabilidade histórica na idéia de que a humanidade se

•• partir do telhado e restaurar o poder nutritivo do excremento hu-


mano, todos convencidos do valor de seu trabalho. Também me lem-
bra a Austrália terra de causas biológicas perdidas: do mesmo modo
dividiria em linhas de classe, não de nacionalidade. Nisso, errou.
Como os laços de nacionalidade eram tão mais fortes que os de clas-
se, a Revolução só podia ser exportada de três formas: conquista

•• como os rnacropodos de bolsa e os mamíferos ovíparos, cangurus,


équidnas e ornitorrincos floresceram sem ser perturbados em seu'
fragmento do continente-mãe Gondwana à deriva, milênios depois
direta por Moscou, como na Europa Oriental; reinvenção de estru-
turas antigas, xenófobas e autoritárias com um verniz marxista, co-
mo na China de Mao; e como uma útil forma de retórica, que dava

•• de serem extintos em todas as demais partes do globo, também os


últimos derridanos, lyotardianos e baudrillardianos ainda andam a
legitimidade' 'internacionalista" a chefetes e caudillos, como na Ro-
mênia de Ceausescu, na Cuba de Castro, ou em qualquer um dos

•• 66 67

,j
••
vários e efêmeros regimes africanos. Mas a promessa básica do mar- sistema pós-marxista como se isso representasse algum tipo de rea-
••
xismo, uma internationale de operários unidos como uma força
transnacional, revelou-se uma quimera total. Meio século após a
morte de Hitler, gangues neonazistas desfilam, fazem concertos de
lidade. Não resta Marx algum para combater; por isso, arremete-
mos de lança e escudo contra a vaga Multi com sua cabeça de hidra.
E os dois lados são encurralados por mútua obsessão, numa trin-
.\
rock-ódio e queimam turcos adormecidos na Alemanha; até a neta
de Mussolini está na política italiana. Ao passo que, quarenta anos
cheira fora isso vazia de uma extinta Guerra Fria.
Como poderia alguém autenticamente multiculturalista - al-
guém 'q u e se interessa por diferenças de cultura, aspiração e história
••
após a morte de Stalin, não existe um crente comunista autêntico
no poder, nem mesmo perto do poder, em parte alguma da Europa.
O marxismo não oferece promessa alguma aos Estados Unidos.
entre sociedades ou grupos ---;- aliar-se a uma doutrina que buscava,
em nome da "liberação" , aprisionar toda diferença humana dentro ••
De 1917 para cá, fracassou após três quartos de século de testes em
toda sociedade onde foi aplicado. Só produziu infelicidade, tirania
e mediocridade. O fato de muitas vezes ter substituído sistemas tam-
do mesmo modelo internacionalista, pseudocientífico? Além disso,
pace os linhas-duras, não é preciso ser ideólogo para identificar
opressão e injustiça, e querer fazer alguma coisa a respeito; muito
••
••.'
bém tiranos, medíocres e miseráveis não mitiga o seu fracasso . O antes do Manifesto comunista, homens e mulheres ardiam de indig-
historiador aprende a nunca dizer' 'nunca" , mas mesmo assim é mui- nação quando viam os fortes privando os fracos de "esperança, e vão
tíssimo improvável que grande número de pessoas, no futuro ima- continuar querendo corrigir as injustiças que os ricos infligem aos
ginável, se submeta à canga de uma ideologia política que supõe que pobres muito depois- de desmoronar o último regime marxista.
a humanidade é capaz de discernir, julgar e controlar objetivamen-
te tudo que existe em termos de um programa "racional", "cientí-
fico", um modelo 'único propagado por planejamento central. O
Contudo, a tentativa de salvar alguma essência conceitualmen-
te "pura" das idéias de Marx diante de seus resultados no mundo
real ainda prossegue, desanimada, nos Estados Unidos - porque .'•
marxismo voltou-se contra o nacionalismo, espalhou-se adaptando-se
a ele, e no fim foi derrubado por ele.
Aí está a extraordinária ironia do atual debate americano so-
os Estados Unidos, ao contrário da Rússia, China ou Cuba, jamais
tiveram um governo marxista, nem nada semelhante, de modo que
ás esperanças e fantasias milenárias do marxismo jamais tiveram
••
bre "multiculturalismo". A esquerda acadêmica professa ver nele oportunidade de ser testadas. Assim os radicais americanos sempre

••.'
as sementes de uma promessa radical: o marxismo passou pelas fo- puderam divertir-se com as promessas ideais do marxismo, sem ter
gueiras de sua dissolução e renasce como um "herói de mil faces" de viver coma desgraça de sua realização . Do mesmo modo como
- o multiculturalismo. Alimentar essa ficção é agir como se o con- o cristianismo acabaria se o Messias voltasse, também é possível al-
flito básico entre marxismo-leninismo e diversidade nacional jamais guém manter algum tipo de fé marxista após o colapso do comunis-

••
houvesse existido; como se houvesse algum resíduo de verdade nas mo europeu, redefinindo-se como "pós-marxista" e concentrando-
hoje violentamente rejeitadas alegações de que o marxismo aumen- se mais na linguagem do que nos atos .
Daí, nas universidades, o que conta é a política cultural, não
tava a consciência de um país sobre sua própria existência. Além
disso, o que resta da esquerda gostaria de dar a diferenças internas
comuns dentro de uma sociedade - de gênero, raça e padrão se-
xual- o caráter inflado de nacionalidade, como se elas não apenas
a política da distribuição de riqueza e de fatos reais na esfera social,
como pobreza, consumo de drogas e aumento da criminalidade. A
esquerda acadêmica está mais interessada em raça e gênero do que
••
encarnassem diferenças culturais, mas constituíssem na verdade "cul-
turas" inteiras em si mesmas. "País estranho", * na verdade. Ao
em aulas. E muito mais interessada em teorizar sobre gênero e raça
do que em investigá-los de fato. Isso possibilita a seus sábios sentir
que estão na vanguarda da mudança social, sem fazer o trabalho
••
mesmo tempo, os conservadores americanos podem tomar essa fú-
til tentativa de recrutar o multiculturalismo para uma salvação de
braçal fora do mundo acadêmico; a "esquerda tradicional" foi dei-
xada bem para trás, sufocada com toda aquela coisa sem glamour
e repetitiva dos operários. É melhor remexer por aí na cultura po-
••
(*) No original, "Queer Nation", nome de um grupo de ativistas homossexuais
americanos, que joga com a palavra queer, lite ralmente "estranho", "esquisito",
pular, mostrar como as estruturas são "inscritas" em algumas de
suas formas e "questionadas", em outras - um processo insepará- ••
mas, na gíria, "bicha". (N. T.)

68 69 .1

••
•• vel, naturalmente, das protéicas energias do capitalismo, buscando
reinventar seu ego repressivo todo dia através da cultura popular,
Esse tipo de tolice, não apoiada por prova ou indício, uma col-
cha de retalhos de aperçus vagamente "radicais", é o que cada vez

•• a fim de' encontrar novas e melhores formas de nos transformar em


dóceis consumidores. Inflação e desvalorização são incutidas nessa
busca de pequenos objetos sobre os quais a teoria e a metateoria
mais passa por análise cultural - o trabalho de Davis não foi de
modo algum o mais idiota lido no Whitney nesse dia.
Madonna é um alvo particular dessas bobagens . Tornou-se a

•• poderão construir suas grandes incrustações. de forma livre. O que


importa é o volume de "produção de conhecimento", não sua qua-
lidade. Assim, nas palavras de Gerald Graff, professor de inglês e
primeira pinup do mundo acadêmico americano, revestida de teo-
ria caolha, ora diáfana, ora opaca. Como observou Daniel Harris
em The NationF' ela "foi projetada no papel estonteantemente im-

• de pedagogia em Chicago;" plausível de porta-voz dos valores e interesses profissionais de ins-

•• estreitos cânones de prova, evidência, consistência lógica e clareza de


expressão têm de desaparecer. Insis tir neles impõe uma peia ao pro-
gresso. Na verdade, aplicar cânones severos de objetividade e evidência
trutores universitários" . Há uma Madonna lacaniana, uma Madonna
baudrillardiana, uma Madonna freudiana, uma Madonna foucaul-
tiana - mais ou menos como, nos cultos católicos mediterrâneos,
ie na publicação acadêmica hoje seria comparável à economia americana pode-se rezar à madona de Loreto, de Fátima ou de Lourdes. Se

•• retornar ao padrão-ouro; o efeito seria o imediato colapso do sistema.


Essa atitude transbordou para todas as áreas de crítica cultu-
se é uma erudita feminista-marxista como Melanie Morton, pode-se
mostrar que as melodias dela ' 'impedem o que chamaríamos em ter-
mos narrativos de um fechamento ideológico . Não há recapitulação

•• ral e é de rigueur na maioria delas. Assim, como parte do progra-


ma de trabalho de palestras no Whitney Museum por pós-graduados
e estudiosos da história da arte, em maio de 1992, sobre o tema ge-
que fixe o poder e estabeleça (ou reestabeleça) qualquer elemento
como dominante".
Assim, a bombshellloura explode a ordem estabelecida de po-

•• ral "Feminilidade e masculinidade: a construção de gênero e a trans-


gressão dos limites na arte e cultura americanas no século x x' , um
doutorando da Universidade de Nova York chamado Christopher
der. Solapa as "construções capitalistas" e "rejeita epistemas bur-
gueses básicos" - uma proposta que sem dúvida seria novidade para
meus patrões na Time/Warner, que recentemente pagaram a Ma-

•• Davis propôs uma teoria sobre "A construção da masculinidade na


comédia muda" . Mostrou várias cenas, incluindo uma de Douglas
Fairbanks fingindo cavalgar um cavalo em Wild and Wolly, e outra
donna 60 milhões de dólares pelos direitos de sua obra. Bela rejei-
ção. A verdade é menos radical: alguns acadêmicos querem uma pe-
quena fatia do embalo de espetáculo proporcionado pela cultura de

•• de Harold Lloyd em Thefreshman, batendo os braços enquanto ber-


ra o hino de um time de rúgbi. Que fazem eles? Batem uma bronha,
massa. Deslumbrados pelo seu brilho e blá-blá-blá, são mais fãzo-
cas que rebeldes. A seqüência é previsível. Ice-T ou Sister Souljah

••
pois os corpos "se movem num movimento sacudido, repetitivo". fazem seus raps de morte aos branquelos e chamam a si mesmos
Na verdade, "no filme de Lloyd, as imagens de masturbação são de "revolucionários". Um executivo-chefe daTime/Warner, que dis-
tão elaboradas que mesmo o texto escrito - as legendas - torna-se tribuiu os apelos de Ice-T para que matemos tiras, depois defende

•• uma espécie de ejaculação textual, uma explícita explosão de palavras


que reflete a emissão do garoto que se masturba" . E por que os ra-
pazes na década de 20 iriam querer ver Ha~old Lloyd masturbando-se
os direitos da empresa a produzir essa coisa em termos plangente-
mente reminiscentes da Areopagitica de Milton. Após essas beati-
ces, os eruditos entram em peso com trabalhos eruditos sobre a pro-

•• subliminarmente? Porque, enquanto antes "a masculinidade estava


intimamente ligada à posse de uma propriedade", os que viviam num
país industrializado, urbanizado, "não mais tinham um lugar assim
messa revolucionária dos garotos de dezesseis anos das gangues de .
bairro. E aí vêm os conservadores torcendo as mãos, como o faleci-
do Allan Bloom, por causa do rap, do rock'n'roll e dos imerecidos

•• para tornar-se homens [...] não tendo os meios d.e se desenvolver


como homens , controlar o espaço de seu trabalho, muitos encon-
êxtases dionisíacos do multi-culti de massa. Em algum ponto se perde
o fato óbvio de que o rap e o hip-hop não são os agentes de um

••
travam no cinema um lugar simulado em que a masculinidade [.. .] desej ado ou temido apocalipse, que constituem mais uma diversão
podia desabrochar". E onde, supõe-se, podiam tocar uma bronha da moda. E se perde porque um lado precisa do outro, para que
sem chamar a atenção da mamãe . cada um possa inflar seu programa político numa arrepiante bata-

•• 70 71
.'••
lha pela alma dos Estados Unidos. Acadêmico radical e conserva-
dor cultural acham-se agora atracados numa total e auto-sustentável
folie à deu x, e a única pessoa a quem cada um detesta mais que ao
••
outro é a ·que os manda maneirar. Esta é a última mutação da he-
rança puritana americana.
Se a esquerda americana quer se revitalizar, vai ter de reapren-
2 ••
der o inglês claro, voltar ao mundo concreto e resistente, recuperar
para si não apenas os princípios do iluminismo, mas a linguagem
de Tom Paine e Orwell - e jamais vai fazer isso com seu atual en-
MULTI-CULTI
E SEUS DESCONTENTES ••
tulho de teoria. A única coisa que mantém a ilusão de radicalismo
no pós-estruturalismo e pós-marxismo acadêmicos é a oposição con- ••
••.'
servadora. A direita precisa de uma esquerda: se as muralhas da cul-
tura ·.ocident al não estivessem sob sítio constante, que aconteceria
com seus defensores? Secaria toda aquela grana deis copiosos co-

.'
fres da família Scaife e da Olin Corporation, que corre para as cau-
sas dos cães de guarda neoconservadores . (O coro de conservadores
que denunciam como parasitas "bem subsidiados acadêmicos de
esquerda" , enquanto recebem seus próprios subsídios de várias fun-
dações direitistas, é realmente uma das maravilhas da vida intelec- ••
tual americana.) Quando o conservadorismo americano se vê dian-
te da morte da ideologia marxista, a inimiga que a alimentava,
lembramo-nos irresistivelmente da pergunta feita por Constantine
Cavafy há oitenta anos:
.'.'
e\
•.\
Que significa essa súbita inquietação
e essa confusão? (Como os rostos deles ficaram sérios!)
Por que ruas e praças se esvaziam com rapidez>

••
e por que todos voltam para casa> tão absortos?
Porque é noite e os 'bárbaros não vieram>'
e chegaram alguns homens da fronteira
e dizem que os bárbaros não mais existem.
E agora que será de nós sem bárbaros?
. Eles eram uma espécie de solução. ••
Os bárbaros favoritos, para todos os efeitos, são hoje chama-
dos de "multiculturalistas". ••
••
••
el

72
e o_ •
••
••
••
••
••
I•. o obsessivo tema de nosso estéril confronto entre os dois PCs
•• - o política e o patrioticamente correto - é canhestramente cha-
mado de "multiculturalismo". Isso tornou-se um slogan com qua-

••
se tantos significados quanto as bocas que o emitem.
Muita lama tem sido remexida pela ligação do multiculturalis-
mo com a correção política. Isso transformou o que devia ser um

•• generoso reconhecimento de diversidade cultural num indigno pro-


grama simbólico, recheado de jargão lúmpen-radical. O resultado
é a retórica do separatismo cultural.

•• Mas o separatismo não é, como insistem alguns conservado-


res, o resultado inevitável do multiculturalismo. Os dois, na verda-
de, são opostos.

•• O multiculturalismo afirma que pessoas com diferentes raízes


podem coexistir, podem aprender a ler os bancos de imagens de ou-
tras, podem e devem olhar além das fronteiras de raça, língua, gêne-

•• ro e idade sem preconceito ou ilusão, e aprender a pensar no cenário


de uma sociedade hibridizada. Sugere - muito modestamente - que

•• algumas das coisas mais interessantes da história e da cultura aconte-


cem na interface entre culturas. Quer estudar situações limítrofes, não
apenas por serem fascinantes em si, mas porque sua compreensão pode

•• trazer consigo um pouco de esperança para o mundo.


O separatismo nega o valor, até mesmo a possibilidade, de um
tal diálogo. Rejeita a troca. É multiculturalismo azedo, fermentado

•• pelo desespero e pelo ressentimento, e (nos Estados Unidos, senão


na Bósnia-Herzegovina ou no Oriente Médio) parece condenado ao
fracasso. O uso das conseqüências culturais da diversidade ameri-

•• cana como uma ferramenta para quebrar a comunidade americana


apenas quebra' a própria ferramenta.

•• 75

-_. _ _._~
••

As sete sílabas são desajeitadas, "multiculturalismo", mas se
a palavra houvesse existido há trinta anos, quando me preparava
para deixar a Austrália, eu a teria adotado de imediato. O expatria-
sas . Ensinavam-nos um pouco de história da Austrália. Das gran-
des religiões do mundo, além do cristianismo - judaísmo, budis-
mo, hinduísmo, Islã - éramos tão ignorantes quanto uma fila de .: ••
do abre mão de parte de sua cultura nativa - não podemos levar
tudo conosco - em troca do que vai acumular em suas viagens.
Aprender outras línguas, lidar com outros costumes e credos atra-
gatos olhando um aparelho de TV; ou seríamos, se a Austrália ti-
vesse televisão em 1955, o que, felizmente, não tinha. Jamais vi um
judeu até entrar na universidade, e vocês 'podem imaginar a linha
••
vés da experiência direta com eles e com certo grau de humildade :
isto é evidentemente bom, como não o é o provincianismo cultural.
Um dos momentos mais desagradáveis de minha educação foi
que os jesuítas adotavam em relação à Inquisição espanhola e às po-
líticas de Fernando e Isabel. Eu não sabia nem o que era um episco-
pal. Só no fim da adolescência tive uma conversa com um aborígine
••
ter de me levantar e falar de improviso em latim, durante quatro
minutos, diante de outros garotos e nosso professor jesuíta, sobre
australiano, e foi breve. Não havia estudantes aborígines, e muito
menos professores, na Universidade de Sydney. Os colonizadores ••
••.'
a famosa máxima de Horácio, Coelum non animam mutant qui trans originais da Austrália - cuj os ancestrais tinham chegado lá a pé
mare currunt - "os que cruzam os mares mudam os céus acima e remando, atravessando o cordão de ilhas que ficava entre "nos-
deles, mas não suas almas". Ressenti-me disso, não apenas porque so" continente e a Ásia, por volta de 30 000 a .C. - eram comple-
meu latim era medíocre, mas porque a idéia me pareceu errada - tamente desconhecidos por nós, brancos urbanos, e a história e cul-
expressão de um romano farisaico, indiferente ao resto do mundo. tura deles ficavam num escaninho chamado "antropologia", ou se-
Hegemônico Horácio.
Mas a maioria dos australianos estava do lado dele. O lema da
ja, o estudo de exóticos com os quais nada tínhamos em comum,
e cuja cultura nada tinha de valor para dar à nossa. Esse pensamen- ..•'
Universidade de Sydney expressava satisfação com a viseira colo-
nial: Sidere mens eaden mutato , outra versão do pensamento impe-
rial de Horácio: "A mesma mente sob outros céus" .
to era nossa maneira subliminar de afastar a suspeita de que a nossa
cultura nada tinha dado, a não ser infelicidade e morte, para a deles.
Meu pai, que nasceu em 1895, era igual a todos os outros aus-
••
Nossa educação queria fazer de nós inglesinhos e inglesinhas, tralianos de sua geração quando falava da Ásia. Via-a como uma

•.'••
embora com sotaques anasalados. Não seríamos aceitos como tais ameaça - o que não surpreende, já que a Austrália tinha estado
pelos próprios ingleses: não estaríamos à altura. Nenhum poema es- em guerra com o Japão de 1941 a 1945, e perdera muitos homens
crito por um australiano ia chegar às antologias de poesia inglesa nas ilhas do Pacífico, na Nova Guiné, na Birmânia e em campos
- nosso destino nacional era ler essas antologias, jamais contribuir de concentração infernais como Changi. Só por um triz e à força das

•••
para elas. Parecia-nos natural que nossa chefe de Estado, com po- armas americanas havíamos escapado de ser co optados à força no
der constitucional para depor qualquer primeiro-ministro australia- que Tojo chamava Esfera de Co-Prosperidade Asiática Oriental.
no democraticamente eleito, fosse uma jovem inglesa que vivia a 22 Essas experiências nacionais, misturadas com uma longa tradi-
mil quilômetros de distância. Que australiano nativo estaria à altu-
ra dessa rainha? Nosso primeiro-ministro, Robert Menzies, o últi-
mo dos verdadeiros imperialistas australianos, dizia que éramos "os
ção de sinofobia - pois a racialmente exclúsiva Política da Austrá-
lia Branca era uma lei esquerdista, originalmente destinada a man-
ter o trabalho coolie barato longe da Austrália - não predispunham
••
homens da rainha", "britânicos até o tacão das botas" . Quando
lhe perguntaram qual era seu sonho de felicidade ao deixar a políti-
ca, respondeu sem hesitar: "Uma cabana forrada de livros em Kent".
nem mesmo australianos inteligentes, como meu pai, a uma apre-
ciação. da caligrafia zen ou dos pontos mais sutis da cerimônia do
. chá. Ele guardava uma bandeira japonesa capturada, numa cômo-
••
Naquele tempo tínhamos uma sociedade pequena, 95 por cen-
to branca, anglo-irlandesa, em cujas escolas particulares se podia
da (não na parede), e às vezes eu pegava aquele puído quadrado de
algodão com o brilhante círculo vermelho e o buraco rasgado, que ••
aprender latim, mas não italiano; grego antigo, mas não moderno.
O que aprendíamos do mundo na escola vinha através da grande
tradição (e uso a palavra sem ironia) das letras e da história ingle-
eu supunha de bala, e refletia que, não fosse pela graça de Deus,
ela podia estar agora drapejando sobre o Royal Sydney Golf Club.
(Os japoneses, na época, não jogavam golfe.) ••
76 77 ••
••
•• Quem fala em "Ásia" ou "asiáticos" hoje - mesmo quando
externamos nossas vagas generalizações sobre cultura "européia"?
Há apenas chineses, japoneses, indonésios, cambojanos, e mesmo
que os americanos ainda persistem em imaginar como uma espécie
de Texas conduzido por outros meios no pé do globo, tenham uma
imagem muito melhor do resto do mundo - incluindo o Norte pró-

•• dentro dessas categorias nacionais existem complexidades de identi-


dade e herança inacessíveis para o estrangeiro distante. Mas meu pai
pensava de modo ainda mais abstrato. Ele chamava-a de extremo
xim o - do qu e têm ou provavelmente terão seus equivalentes ame-
rican os . Eles a receberam através da educação e, ultimamente, da
televisão : o governo australiano patrocina não apenas uns poucos

•• Oriente, referindo-se ao Norte próximo, e nem pensaria em ir lá.


Extremo Oriente em relação a quê? A leste do Éden: ou seja, da
Inglaterra, um país no qual, ao morrer, ele passara menos de três
pr ogramas , mas todo um canal de rede, SBS, transmitindo sete dias
por semana, que apresenta not ícias, documentários, filmes e comen-

••
tários vindos de todo o mundo, em vinte idiomas, do árabe ao tagalog
de seus 56 anos, entre as incursões, num Sopwith Camel, sobre a (com legendas em inglês) . Pode-se imaginar os uivos de indignação
França, a serviço de seu rei e Império, durante a Primeira Guerra. a respeito de "fragmentação cultural" que viriam dos mandarins

•• Hoje, se se perguntasse a um menino australiano de doze anos o


que ele acha do "Oriente", ele talvez hesitasse: que é que o coroa
quer dizer? A Nova Zelândia fica a leste; talvez esteja se referindo
do conservadorismo americano se Washington sequer pensasse em
gastar dinheiro do contribuinte num tal plano nos Estados Un idos.
Contudo, se a programação do SBS teve algum efeito sobre a co-

•• a ela, ou ao Peru, que fica mais a leste ainda.


Assim, pode-se dizer que minha educação foi monocultural, na
verdade classicamente colonial, no sentido de que se concentrou na
munidade australiana, foi provavelmente mais de consolidá-la por
meio da tolerância e curiosidade mútuas do que de fragmentá-la em
zonas de interesses próprios culturais. Na Austrália, que não é ne-

•• história, literatura e valores da Europa Ocidental, em particular da


Inglaterra, e não muito mais. Tinha muito pouca relação com os
temas de educação na Austrália de hoje, que dão forte ênfase à his-
nhuma Utopia, mas uma sociedade de imigrantes menos truculenta
que esta, o multiculturalismo funciona em benefício social de to-
dos, e o papo crítico dos conservadores sobre a criação de uma' 'torre

•• tória local, à cultura das minorias, e a uma compensadora visão não


anglocêntrica de todas as questões sociais. O "multiculturalismo"
de Babel cultural" e coisas assim é visto como alarmismo obsoleto
de um tipo bastante inferior.

••
é um padrão burocrático por lá há já quase vinte anos, e seus efei-
tos foram quase inteiramente bons. Reflete uma realidade que te-
mos em comum com os ainda mais divetsos, embora culturalmente 11

•• relutantes, Estados Unidos - e que, para pôr nos termos mais sim-
ples, é que a pessoa no ônibus ao lado da gente em Sydney tanto
pode ser descendente de relativamente recém-chegados, um peque-
Então minha educação no início dos anos 50 foi enganosa? Re-
luto em pensar assim - mas teria de ser relutante, não é mesmo?

•• no comerciante de Skopelos, um mecânico de Palermo, um cozinhei-


ro de Saigon, um advogado de Hong Kong ou um sapateiro de al-
gum shtetl na Lituânia, quanto o trineto de um inglês ou irlandês,
Recentemente, dei com um livro de um de meus colegas estu-
dantes da Universidade de Sydney, que na década de 50 era um emi-
gré ainda relativamente cru, um "australiano novo": um judeu hún-
garo chamado Andrew Riemer, que chegou de Budapeste com os
degredado ou livre. A extensão de nossas raízes, que não é a mesma
coisa que sua tenacidade, já não conta muito em meu país, por mais pais em 1946, sofreu as humilhações do exílio australiano (que in-
ataques passageiros de arrependimento que isso possa causar na cluiu ser metido numa classe para crianças intelectualmente retar-
maioria de australianos cujas famílias estão lá desde o início de sua dadas porque seu inglês era ruim), e agora ensina literatura inglesa

•• história (branca). Na década de 70, a Austrália já deixara mesmo


de ser um país "basicamente britânico", e não havia meio possível
de convencer a filha de um migrante croata a respeito da ligação
na Universidade de Sydney. Inside, outside [Por dentro, por fora]
(1992) é uma memória carinhosa e perceptiva do que era ser criado
entre as culturas anglo-australiana e migrantes de nosso país bruto,

•• mística que ela devia sentir com o príncipe Charles ou a mãe dele
- ou da utilidade permanente, para sua educação, da história dos
Plantagenetas. É provável que jovens australianos lá embaixo, no
desajeitado e imaginativamente pobre, e a certa altura o autor põe
o dedo num dos motivos pelos quais a educação anglocêntrica ini-
cial que todos recebemos, afinal, não deixou de ter seu valor. Rie-

•• 78 79



mer era um garoto de cidade, e no início da década de 50 a beleza de Riemer encontravam na iconografia imperial britânica pode ser
••
dura e a peculiar delicadeza do interior australiano não entravam
na experiência urbana australiana; as transformações de sensibili-
dade causadas pelo movimento ambientalista australiano, que ago-
suplantada com fontes australianas - o problema é aceitar essas
fontes, o que significa livrar-se da dupla peia da história colonial,
tarefa que ocupa muitos escritores australianos além de mim mes-
••
ra são lugares-comuns por lá, mal tinham começado . ' 'Nada em nos-
so meio ambiente sugeria que a natureza pudesse ser uma fonte de
mo. Um prelúdio necessário a isso será o corte dos últimos cordões
políticos que ligam o governo australiano à Coroa britânica e o es- ••
maravilha ou consolação, quanto mais de transcendência." Os pro-
fessores e mentores dele falharam-lhe por nem ao menos sugerir que
a natureza australiana podia ser culturalmente inspiradora: "Para
tabelecimento de uma República Australiana. O problema, porém,
é que não devemos nos entregar nem ao Servilismo Cultural (a crença
em que nada na cultura australiana vale a pena enquanto não for ••
eles, era simplesmente um deserto, o pavoroso vazio deum mundo
vazio" . A brecha que isso deixava e;I'a preenchida com poesia ingle-
sa, sobretudo poesia da natureza:
l

1
1
abonado no além-mar), nem à sua rude sucessora defensiva, a Ar-
rogância Cultural, em que a gente marcha de um lado para outro
ao som de Waltzin Matilda fingindo que nada fora da Austrália é
••
•••
I
"relevante" para os australianos. A atitude certa não é nem curvar-
Claro, a experiência era de segunda mão, talvez quinquilharia [... ] mas se nem pavonear-se, mas adotar um porte naturalmente descontraí-
as palavras de Tennyson representavam para nós uma experiência es-
do e ereto . Talvez isso se aplique aos muitos defensores do separa-
sencial que não podíamos alcançar de nenhum outro modo . A poesia
tismo de grupo (negro, latino , índio, feminista, gay, o que queiram),

••.'
dele, e a de Wordsworth, Keats e Shelley [.. .] proporcionavam uma
fuga e uma consolação para a feiúra e mesquinhez do mundo no qual cujo barulho enche os espaços dos Estados Unidos com uma retóri-
éramos obrigados a viver. Nem o mundo físico em que vivíamos, nem ca muitas vezes insegura de "orgulho" e "direitos".
qualquer poesia por ele produzida, podia oferecer essa fuga e conso- Quando eu era jovem, descobri que a leitura dos poetas ingle-
lação [... ] A literatura da Inglaterra nos conduzia para o mundo da ses dos séculos XVIII e XIX não tornava a Austrália invisível. Muito


imaginação romântica, que servia a uma das necessidades essenciais pelo contrário. Orientou-me para a leitura dos poetas australianos
da adolescência . Também satisfazia generosamente outras : um passa- cujo projeto era descrever a natureza, a história e a experiência so-
do heróico ou nobre do qual podíamos participar, e estruturas éticas cial australianas em imagens que fizessem sentido para os australia-
.)
."
a oferecer modelos para fantasias, senão para a vida real. I
"Estas", acrescenta Riemer com certa discrição, "são questões
controvertidas para suscitarmos no atual clima de nacionalismo cul-
tural." Contudo, não há dúvida de que tocam um ponto sensível
em mim, embora (como expatriado) eu ache que Riemer vai longe
nos - escritores como Kenneth Slessor (em Five bells) , Robert Fitz-
gerald (em The wind at your door), Judith Wright ou, vinte anos
depois, Les Murray. É um truísmo, mas verdade assim mesmo, que
o escritor deve estar aberto a toda literatura; que suas formas e sen-
timentos nacionais ou tribais não devem ser tidos como mutuamen-
.: ••
demais quando acrescenta, falando do presente: "Nada no clima te exclusivos. A idéia de que o ex-colonial deve rejeitar a arte do
educacional e cultural contemporâneo [da Austrália] satisfaz aque- ex-colonizador em favor da mudança política é absurdamente res-

••.'
les poderosos anseios - românticos, idealistas, em busca de uma tritiva. E esse absurdo continua sendo verdade independentemente
beleza que o indivíduo acha difícil reconhecer ou definir - que nossa da forma de "colonização" a que se refira - econômica, sexual,
filiação ao mundo britânico nos oferecia através de livros, de uma racial. Podemos aprender com Picasso sem ser falocratas, com Ru-

.'
versão da história, e de modelos de comportamento que essasestru- bens sem nos tornar cortesãos dos Habsburgo, com Kipling sem nos
turas nos recomendavam ... " . Isso não mais se aplica à experiência, tornar imperialistas. O particular alimenta-se do geral, e palavras
vivida pelos jovens australianos, de sua paisagem, que tende a ser em voga como "anglocentrismo" ou "eurocentrismo" são artifí-
entusiástica e informada - embora não deixe de ter suas ironias.
(CONSERVE A NATUREZA AUSTRALIANA, dizia uma pichação em
Sydney recentemente, e embaixo outra mão acrescentara: PONHA UM
cios desgraçadamente grosseiros para descrever os complexos e eclé-
ticos processos pelos quais a imaginação individual e uma cultura
comum se formam uma à outra, mutuamente, com muita realimen-
••
GAMBÁ EM CONSERVA.) E, sem dúvida, a "versão da história e os
modelos de comportamento' que os australianos de minha idade e da
tação e muitos cancelamentos, através da linguagem. De onde eu
venho, "euro" é também o nome aborígine de um grande canguru. ••
80 81
•e_- ;i.-
••
•• Num importante ensaio publicado em 1977, e portanto anterior à
maior parte do atual debate multiculturalista nos Estados Unidos,
de que algumas ficavam. (Jamais concordei com a crença conven-
cional de que decorar textos destrói a "criatividade" do aluno; na

•• Les Murray descrevia como a influência da cultura aborígine e seus verdade enriquece-a, preenchendo os vãos da memória.) Às vezes
ciclos de canções entraram em sua obra, no momento em que essa nos queixávamos da disciplina, mas em geral sentíamos orgulho de
cultura estava' 'implantando o conceito aborígine da sacralidade da pertencer à cavalaria jesuítica e não à infantaria dos Irmãos Cris-

•• terra e da região nativa da pessoa na mente de muitos australianos".


O principal canal para isso foi a monumental compilação por T. G.
H. Strehlow, Songs of central Australia [Cantos da Austrália cen-
tãos. Alguns de nós eram esnobes, e alguns fanáticos em embrião,
.mas assim é a adolescência. Em suma, esse currículo básico euro-
centrista, unirreligioso, dava-nos um ponto a partir do qual podía-

•• tral], publicada em 1970. Essa percepção do mito profundamente


enraizado na paisagem não podia deixar de apresentar-se, mesmo
construída (Da obra de um poeta de ascendência escocesa) sobre tra-
mos depois nos ramificar.
O crítico do eurocentrismo diria que tal currículo implantou uma
tendenciosidade permanente. Pode ser, mas só podemos ver bem ou-

•• dições poéticas inglesas, como uma alternativa para a percepção co-


lonial da Austrália como um vazio campo de exotismo, estéril e en-
fadonho quando comparado à "plenitude" da Europa. Já na década
tras culturas quando, pelo conhecimento da nossa, chegamos a um
ponto em que "abrangência" significa alguma coisa. De outro mo-
do, ficamos com a simples pieguice indecisa.

•• de 70, havia uma corrente de culpa política na cultura (branca) aus-


traliana hostil a essas aspersões, acusando seus autores (brancos) de
Se hoje reajo contra a idéia de uma cultura centralizada, irnpe-
rializada, se estou mais interessado na diferença do que em supos-

•• exploração, paternalismo e assim por diante. Mas, como argumen-


tou Murray:
Vai ser uma tragédia se os processos normais de empréstimo e influência
tos filões principais - e se não estivesse, dificilmente teria escrito
um alentado livro sobre Barcelona e o nacionalismo catalão- o
impulso provavelmente começou porque o padre Wallace me fez ler

•• artísticos, pelos quais qualquer cultura dá parte de sua contribuição


à conversação da humanidade, forem, no caso' dos aborígines, conge-
lados pelo que na verdade são , manobras de uma batalha pelo poder
Byron sobre o helenismo quando eu tinha quinze anos. Se posso me
virar com algumas línguas românicas que nunca ouvi faladas na Aus-
trália, é em parte porque o padre Fraser me ensinou Catulo e Oví-

•• político dentro da sociedade branca de nosso país, ou por uso tático


de retórica do Terceiro Mundo (... ] O empréstimo artístico (... ] não
deixa mais pobre aquele que empresta, e chama atenção para suas ri~
dio, não evitando seu lado erótico e cético. Se posso ler visualmente
uma das grandes igrejas barrocas do México, como Santo Domingo
em Oaxaca, e refletir sobre o que a torna tão parecida e tão diferen-

•• quezas, que só podem ser esgotadas por negligência ou por perda de


confiança nelas; é isso o que faz com que se percam. O empréstimo
é um ato de respeito que pode restaurar o respeito de quem empresta
te de outras na Espanha ou na Itália, é em última análise porque
aprendi um terreno comum de iconografia em criança, naquela ca-
pela escolar repleta de feios santos de gesso. E embora a preocupa-

•• pelos seus bens, e ajuda a preservá-los. E ele próprio sempre está livre
para usá-las."
ção dos jesuítas com os clássicos não me deixasse nenhum espaço
para a história árabe, com certeza me preparou para mudar de idéia

•• Assim, apesar da atual mania de depreciar o eurocentrismo, sei


que tive sorte em receber a formação escolar que recebi. Ela foi am-
pla, "elitista" ao enfatizar o desempenho, e rigorosa - só a carga
sobre o Islã quando mais tarde descobri quão pouco da herança es-
crita da Grécia e de Roma teria sobrevivido sem os estudiosos árabes.
Por isso eu diria que o meio ambiente em que fui criado, em-

•• de trabalho, o número de livros que se esperava que lêssemos e ab-


sorvêssemos, j á pareceria cruel. a um moderno estudante america-
no. Não deixava "tempo para sentir o perfume das rosas", para usar
bora altamente monocultural, não foi monolítico: proporcionou-me
os instrumentos para reagir contra ele, o que fiz partindo, vivendo
em outra parte e interessando-me pelo híbrido, o impuro, o senso

•• aquela expressão favorita dos educadores liberais americanos (e que


em geral se traduz corno ver TV). Isso não nos fez mal algum. Nós
ou passávamos, ou fracassávamos e repetíamos o ano, e o boletim
de mistura eclética que está no âmago de grande parte da criação
do século XX. Cultura e história estão repletas de fronteiras, mas
elas são também, em certa medida, permeáveis. E os Estados Uni-

•• de notas ia para os pais, cujos sentimentos não eram poupados.


Faziam-nos decorar coisas e dizê-las em voz alta, com o resultado
dos são um de seus sítios clássicos: o lugar cheio de diversidade, his-
tórias não acertadas, imagens superpostas umas às outras e gerando

•• 82 83

..
_ ~
••

formas inesperadas . Peregrinos desembarcam num rochedo em 1620,
ignorando por completo que os espanhóis tinham começado a cons-
truir Santa Fé dez anos antes; e por que uma corrente da história
- a maioria das coisas é estranha para a maioria das pessoas -
mas, considerando-se a variedade de origens nacionais representa-
das em sua vasta sociedade, sua falta de curiosidade e sua tendência .'•
••.'
deveria receber marcada precedência sobre a outra nos livros didá- ao estereótipo ainda surpreendem o estrangeiro, mesmo (no meu ca-
ticos? A história dos espanhóis na América do Norte não é só para so) após vinte anos de residência nos Estados Unidos. Por exemplo:
os hispânicos. A história dos negros não é só para os negros . Ne- se americanos brancos ainda têm dificuldade para ver os negros, que
nhuma minoria ou grupo pode ser riscado da história americana, dizer dos árabes? Como todo mundo, vi a Guerra do Golfo na tele-
porque a própria natureza de sua narrativa envolve todos eles. visão, li sobre ela na imprensa, e observei como aquele conflito le-:-
Essa polifonia de vozes, esse constante fluxo de reivindicações
de identidade, é uma das coisas que tornam os Estados Unidos Es-
vou a um feio clímax o hábito há muito implantado nos Estados
Unidos de hostil ignorância em relação ao mundo árabe, passado ••

tados Unidos. É o motivo, repito, pelo qual os estrangeiros são gra- e presente. Raramente se obtinha dos meios de comunicação, e muito

.'.'
tos por estarem aqui. Então, quando ouço Pat Buchanan, outro sim- menos dos políticos, uma indicação de que as realidades da cultura
pático rapaz irlandês católico, arengando sobre o efeito provável da islâmica (passadas e presentes) eram mais que uma história de fana-
importação de "um milhão de zulus para a Carolina do Norte", e tismo. Ao contrário, apareceu uma sucessão de sabichões para as-
que não devemos abrir mão da essência única, cristã e européia da

•.1
segurar ao público que os árabes eram basicamente um bando de
cultura americana para as hordas multiculturalistas não especifica- maníacos religiosos voláteis, fazedores de reféns, filhos do cerrado
das. .. bem, sinto um nó nas entranhas e arrepios. e das dunas, e todo o seu passado os predispunha contra o inter-
Nada poderia ser menos parecido com a minúscula e homogê-
nea Austrália de minha infância que esta república gigantesca, fen-
dida, hibridizante e multirracial, que todo ano recebe alguma coisa
câmbio com Estados mais civilizados. O moderno fundamentalis-
mo islâmico enchia a tela de bocas a berrar e braços agitados; do
passado islâmico - quanto mais da moderna dissidência árabe da .'•
entre metade e dois terços da emigração mundial, legal ou ilegal.
No ano 2000, menos de 60 por cento das pessoas que entrarão na
xenofobia e do militarismo fundamentalistas - ouvíamos muito me-
nos. Era como se os americanos estivessem recebendo uma versão
.'.'
.'
força de trabalho americana serão brancos aqui nascidos. Pondo ampliada, atualizada, das opiniões sobre o Islã alimentadas no sé-
a defesa do multiculturalismo em termos de simples interesse pró- culo XV. A mensagem básica dizia que os árabes eram não apenas
prio: embora as elites jamais vão desaparecer, já que a necessidade
de criá-las está escrita em nosso tecido biológico - quer queiramos
nos enganar sobre isso ou não - a composição dessas elites não é
incivilizados, mas incivilizdveis. À sua maneira perversa, isso repre-
sentou uma vitória para os mulás e Saddam Hussein - aos olhos
americanos, tudo no mundo árabe que contradizia as crueldades e
••
necessariamente estática. O futuro das elites americanas, numa eco-
nomia glo balizada sem Guerra Fria, estará com aqueles que possam
pensar e agir com graça e informação acima de linhas étnicas, cul-
manias escatológicas deles foi apagado, deixando-os em plena pos-
se do campo.
Mas tratar a cultura e a história islâmicas como mero prelúdio
••
turais, lingüísticas. E o primeiro passo para tornar-se uma pessoa -
assim está em reconhecer que não somos uma grande família mun-
dial, nem temos probabilidade de ser: que as diferenças entre raças,
ao fanatismo de hoje não nos leva a parte alguma. É corno ler uma
catedral gótica francesa em termos de cristãos modernos como
Jimmy Swaggart ou Pat Robertson. Historicamente, o Islã Destrui- .'."
••."
países, culturas e suas várias histórias são pelo menos tão profun- dor é um mito. Sem os estudiosos árabes, nossa matemática não exis-
das e duráveis quanto suas semelhanças; que essas diferenças não tiria , e só uma-fração da herança intelectual grega teria
. chegado até
são divagações da norma européia, mas estruturas eminentemente nós. Roma medieval era uma aldeia de catadores de Iixo, compara-
dignas de ser conhecidas por si mesmas . No mundo futuro, quem da com a medieval Bagdá. Sem a invasão árabe do Sul da Espanha,
não puder navegar através da diferença estará liqüidado.
Assim, se multiculturalismo é aprender a ver através de fron-
teiras, sou inteiramente a favor. Os americanos têm uma verdadei-
ou el-Andalus, no século VIII, que produziu a expansão mais a oes-
te do império islâmico governado pela dinastia abássida a partir de
Bagdá, a cultura do Sul da Europa seria inimaginave1mente mais
••
ra dificuldade para imaginar o resto do mundo. Não são os únicos

84
pobre. A Andaluzia hispano-árabe, entre os séculos XII e XV, foi

85
••

••
•• uma brilhante civilização "multicultural", construída sobre as ruí-
nas (e incorporando os motifs semiperdidos) de antigas colônias ro-
Infelizmente, não é preciso ouvir por muito tempo os argumen-
tos do outro lado para sentir que, na maioria das mentes de seus

••
manas, misturando formas ocidentais e médio-orientais, gloriosa em oponentes, o multiculturalismo não significa exatamente uma ge-
sua invenção lírica e tolerância adaptativa. Que arquitetura supera nuína curiosidade sobre outras formas culturais. A primeira baixa
a do Alhambra em Granada, ou a Grande Mesquita de Córdoba? decorrente disso é a própria idéia de Europa - pois como pode al-

•• Mestizaje es grandeza: mistura é grandeza.


O medo conservador da mistura é colorido de exagero paranói-
de. É só sugerir que a "história vinda de baixo" - uma expressão
guém' com o mais leve conhecimento do enorme, rico e contraditó-
rio alcance da literatura e pensamento europeus supor que ela for-
me uma sólida massa "eurocêntrica", "como se", nas palavras de

•• inventada pelo teólogo Dietrich Bonhoeffer, nos negros dias da Eu-


ropa em 1942, para denotar uma possível história "dos que sofrem"
- tem visivelmente, certa razão moral e educacional, e começa o
Russell.Jacoby, "Adolf Hitler e Anne Frank representassem o mes-
mo mundo"? Ouvimos as pessoas invocando uma coisa a que cha-
mam de cultura latino-americana (distinta da "repressiva" cultura

•• coro. Basta pôr de lado Platão e pegar um exemplar de Rigoberta


Menchu, que de repente lá está William Bennett, com su~s gr.andes
botas negras, anunciando que está na hora de fechar nos jardins da
dos anglos) sem perceber a grosseira generalização que a expressão
implica. Não há nenhuma "literatura latino-americana" como tal,

'•. Civilização Ocidental. "É um fato que o inimigo da justiça e da hu-


manidade seja o homem ocidental", goza Dorothy Rabinowitz, edi-
torialista de The Wall Street Journal.
como não existe um lugar chamado "Ásia", com uma literatura co-
mum que de algum modo junta o Ramayana, as obras de Confúcio
e O livro-travesseiro de Sei Shonagon. Há apenas culturas de vários

•• Que há de tão frágil na Civilização Ocidental? E, ao contrári~,


que há de tão radical no multiculturalismo, que nos Estado~ 1.!~I­
dos significa uma melhor compreensão da arte, literatur~, h:stona
e distintos países latino-americanos, diversos em si mesmos, recor-
rendo a um acervo comum de imagens - o vasto reservatório de
catolicismo romano, por exemplo - , mas modificado por suas pró-

•• e valores de culturas outras que não a dominante anglo-judia? Os


escritores e acadêmicos não são as únicas pessoas a reconhecer que
prias histórias políticas e raciais, diferentes sensos de nacionalidade
e identidade e diferentes idiomas. Todos são produtos de uma lon-
ga, intensa e imprevisível hibridização entre três continentes, Áfri-

••
o multiculturalismo é a onda do futuro. Mas são provavelmente os
únicos (além de seus oponentes conservadores, pois também aqui ca, Europa e América - o processo que, cada vez mais, também
os extremos se tocam) que se convenceram de que ele representa uma se vê no centro da cultura "eurocêntrica". Por exemplo, é possível

•• ameaça para o capitalismo. Os próprios capitalistas sabem que não. falar de uma única "língua portuguesa"? Em vez de uma língua por-
A decisão de Ted Turner, há alguns anos, de banir a palavra "es- tuguesa "pura", há várias, todas resultantes da colonização e mis-
trangeiro" do noticiário global da CNN foi um momento muito mais tura. Há a língua tronco do próprio Portugal, na qual Camões es-

•• importante no esforço multicultural do que todos os trabalhos so-


bre Eu e o Outro já lidos nos jamborees da Associação de Lingua-
gem Moderna. Pois, como observou o crítico David Rieff:
creveu o épico Os lusíadas. Mas também há o português brasileiro,
transformado por empréstimos africanos e índios que rompem com
a gramática e o uso dos colonizadores. Há o português de Angola;

•• Quanto mais se lêem publicações multiculturalistas acadêmicas e co-


merciais, quanto mais se comparam os discursos de exe~utivos.-chefes
o português de Moçambique, misturado com hindi; o português de
Cabo Verde, criado' como idioma literário pelo poeta Jorge Barbo-
sa; e o de Guiné-Bissau. Cada um é a base de uma literatura distinta,

•• com os de conhecidos multiculturalistas acadêmicos, mais nos Impres-


sionam as semelhanças no modo como eles vêem o mundo. Longe de
estarem em implacável oposição intelectual entre si, os dois grupos vêem
e referir-se, como tantos espanhóis e norte-americanos, a uma gene-
ralidade chamada "literatura latino-americana" é expressar uma abs-
tração vazia.

••
a mesma transformação racial e de gênero na composição demográfi-
e
ca do país da força de trabalho; os dois enfatizam a importância das E o que é mais: muitos "radicais" parecem supor que, ao olhar
mulheres ~ da necessidade de modificar o local de trabalho de modo outras culturas sob a rubrica de "multiculturalismo", deve-se olhar so-
a torná-lo mais acolhedor para elas; e os dois insistem em que não é bretudo suas versões de marxismo, "luta de libertação" e assim por
•• mais possível falar nos Estados Unidos como uma entidade fixa, au-
-
tárquica, e poem o mun doo acima
aci d o pais.
' 3
diante. Mas não será isso apenas mais uma caricatura eurocêntrica,
pedir que se admire em outros países e culturas as formas ideo-

•• 86 87
••
lógicas que eles tomaram de empréstimo, recentemente, ao Ociden-
te? Se esse entusiasmo por reencenações do marxismo na África, Ásia
kespeare, Dante, Dostoiévski, Stendhal, John Donne e T. S. Eliot. ..
vocês sabem, eles," a turma do pálido pênis patriarcal. Eu nem sequer
••
e Oriente Médio não é eurocentrismo, então o que é? Quando esta-
. va na moda no Ocidente, o maoísmo era completamente mal enten-
sabia que havia um Cânone até muito depois de chegar aos States,
e aí j á era tarde demais. Mortimer Adler era desconhecido na Aus- •e'
•.)
dido por seus fãzocas - não apenas porque não viam a horrenda trália. Lá, nós não tínhamos uma prateleira de Grande Obras do Oci-
tirania que era, mas porque o imaginavam novo, a maior de todas dente encadernadas em courvin. Tínhamos apenas um monte de pra-
as ilusões . A história, civilização e pensamento da China são tão teleiras cheias de livros sem qualquer ordem determinada, que iam

••
velhos e contínuos que sua versão de coletivismo oligárquico stali- de Paraiso perdido ao Livro violeta de histórias de fadas de Andrew
nista, criada por Mao Tsé-tung e imposta há menos de cinqüenta Long; de Shakespeare a nosso versejador nacional Banjo Patterson;
anos, não é mais que um minúsculo piscar nos seis milênios de his- de Anabasis, de Xenofonte a Kim, o livro da selva - o original, tão
tória registrada chinesa. O marxismo não pode ser entendido a não completamente diferente da versão grosseira e emasculada de Dis-

.'.1
ser como um reaparecimento, com a cara de Marx, do arcaico culto ney, que é o que a maioria das crianças tem hoje - e The hunting
chinês do imutável deus-imperador que atingiu o apogeu sob os Qing of the snark. Daí o fatal ecletismo de meus hábitos de leitura infan-
em fins do século XVIII. Demasiadas vezes, o que posa de "multi- tis. Ninguém me dissera que um tipo de livro eliminava outro.
culturalismo radical" só existe devido a uma ignorância de outras
culturas tão profunda quanto a de um vendedor de automóveis da
Costa Oeste americana recém-nomeado embaixador dos Estados
Unidos nos cafundós do Judas na década de 60.
Os que se queixam do Cânone acham que ele cria leitores que
jamais lerão outra coisa.
Quem dera! O que não querem admitir, pelo menos publica-
mente, é que a maioria dos estudantes americanos não lê muito mes-
.'•••

mo, e muitos deles , deixados à vontade, não leriam absolutamente

••.'
nada.
III A retardada babá nacional, o aparelho de televisão, cuidou dis-
so. Em 199~, a maioria das casas americanas (60 por cento, o mes-
Na verdade, significa separatismo . Afirma que as instituições mo que na Espanha) não comprou um único livro. Em breve, os
e estruturas mentais européias são inerentemente opressivas, ao con- americanos vão se lembrar do tempo em que as pessoas se sentavam
trário das não-eurocêntricas - uma idéia duvidosa, para dizer o mí-
nimo. O sentimento de decepção e frustração com a política formal
impregnou a cultura, grudou-se nela e inflamou-se. Fez muitas pes-
em casa e liam livros sozinhas, discursivamente e às vezes até em
voz alta umas para as outras, como de uma era desaparecida - co-
mo hoje encaramos as reuniões sociais em que as mulheres faziam
••
soas verem as artes como basicamente um campo de poder, já que
têm tão pouco poder em outras partes. Assim, também elas se tor-
naram uma arena para lamentações sobre direitos .
alcolchoados na década de 1860. Nenhuma universidade americana
pode supor que seus calouros sejam mais do que alfabetizados em
um sentido técnico. Talvez jamais tenha podido. Mas hoje, certa-
••
Esse processo distorceu seriamente as atuais idéias sobre a ca-
pacidade política das artes, exatamente no momento em que - de -
mente, não pode. É difícil exagerar a estreiteza de referência, a in-
diferença à leitura, o raso pedestrianismo cultural de muitos jovens, ••
••
vido à onipresença dos meios de comunicação - elas alcançavam produtos da cultura da TV americana, mesmo os privilegiados.
seu mais baixo ponto de eficácia política real. O estado de espírito Nas universidades que cobram 22 mil dólares por ano para pros-
ocasionado por tal situação é um rico composto para questões cul- seguir na educação de Carmen ou Peter, os professores de belas-
turais fantasmagóricas, e um ambiente medíocre para se desenvol-
ver idéias claras sobre as verdadeiras questões.
. Um exemplo é o inconclusivo debate sobre "O Cânone", esse
artes ou humanidades estão muito ocupados deixando claro que o
elitismo é a praga da cultura do Ocidente, e que é errado desenvol-
ver muito senso crítico, senão a contrairão. As peculiares convul- ••
opressivo Big Bertha cuja boca aponta para as muralhas da Civili- sões dos Estados Unidos em relação ao cânone literário acadêmico

zação Ocidental, visando o negro, o gay e a mulher. Dizem-nos que
o Cânone é uma lista de livros de homens europeus mortos - Sha-

88
resultam menos de um apaixonado interesse pela literatura do que
de idéias sobre o que é ou não terapêutico.

89
.'••
e_
••
•• Ora, isso, como observou recentemente a escritora Katha P ol-
lit, empresta a grande parte do debate sobre o Cânone seu tom pe-
culiarmente sufocante e fútil. A suposição subjacente a isso, afirma
dade é um dos mais naturais sentimentos humano s, uma da s mais
doces tendências do homem, um a das mais intensas que ele recebeu
da natureza "? A literatura não é um belo cur so de tr at am ent o no r-

•• ela,
é a de que os livros da lista são os únicos que vão ser lidos, e se se
malizad or cujo objetivo seja orientar-nos e esbofetear-nos para que
nos tornemos cidadãos da república onde estamos lendo.

•• abandonar a lista não se lerá nenhum. Tornar-se didático é a ún ica


chance de um livro; todos os lados tomam isso como certo. E portan-
to todos concordam em não falar em certas coisas [.. .] Por exemplo ,
Isso de vez em quando parece escapar aos intelectuais norte-
americanos de ambos os campos. Quando Norman Podhoretz escr e-
veu que, " como transmissoras do cânone [... ] as humanidades têm

•• que se você leu apenas 25, ou 50, ou cem livros, não vai entendê-los,
por mais bem escolhidos que tenham sido. E que se você não tem uma
vida de leitura independente - e muito poucos estudantes a têm -
tr adicionalmente instilado um senso do valor das tradições democrá-
ticas qu e herdamos", ficamos imaginando o que ele quer dizer com
isso . P ara cada escritor que louvou as "tradições democráticas", há

• não vai gostar dos livros da lista e os esquecerá assim que terminá-los.
A briga sobre o Cânone reflete a firme crença em que as obras
outro que temeu e desconfiou delas - a começar por Platão . Sha-
kespear e, por exemplo, com seu desprezo pela ralé de instáveis prin-
cípios, tão vividamente evocada em Júlio César e no discurso de Co-

•• de arte são ou devem ser terapêuticas. É só assimilar a República


ou Fedo aos dezenove anos, que você será um tipo de pessoa; estu-
de Jane Eyre ou Mrs Dalloway, ou a poesia de Aphra Behn, e será
riolan o ao s plebeus:
Bando vulgar de bestas, cujo bafo eu detesto

•• outra; leia Amiri Baraka ou A cor púrpura, ou as obras de Woyle


Soyinka, e será uma terceira. Isso se dá, ou deveria dar-se, porque
o autor, seja Platão ou Alice Walker, se torna um "papel modelo"
Com o emanações de brejos pútridos, de cujo amor eu gosto tanto
Quanto das mortas carcaças de homens insepultos
Que corrompem o ar que respiro: eu vos expulso.

•• para o leitor, cujos dons de imitação são despertados pelos dons ima-
ginativos do escritor. Se você lê Evelyn Waugh antes de Franz Fa-
[You comm on cry of curs, whose breath I hate
As reck o 'th rotten fens, whose loves I prize
J

•• non, pode tornar-se um racista (se branco), ou (se negro) sofrer um As the dead carcasses of unburied men
ataque de dores devido a uma súbita descompressão da auto-estima. That do corrup t my air: I banish y ou.]
Pois no jogo literário de eliminação do papo canonístico, se você Ou Dryden, para quem a queda de reis e as agitações igualitárias

•• lê X, isso quer dizer que não lê Y.


Em teoria, todos os bons liberais são a favor de que todos te-
nham o mais amplo acesso a todo texto "sério ... ". Na prática, nem
no século XVII na Inglaterra signi ficavam uma odiosa regressão ao
"estado natural, onde todos têm direito a tudo " . Ou Baudelaire:
"Todos nós temos o espírito republicano nas veias, corno temos a

•• sempre temos tanta certeza, porque os escritores na verdade que-


rem mexer conosco, mudar nossa opinião sobre algum aspecto da
vida, grande ou pequeno; e que fazemos com um escritor de indubi-
sífilis nos ossos: estamos democratizados e sifilizados... ' ,. Ou Nietzs-
che, ou Pound, ou Lawrence, ou Yeats ("Tudo que se cantou/ Tu-
do que se disse na Irlanda é mentira/ Gerada pelo contágio da ra-
tável talento, mesmo de gênio, cujas opiniões são, por quaisquer pa- lé") - a lista dos que odiaram a democracia ocupa boa parte de
drões razoáveis, repelentes? Que tal Céline, por exemplo, cujo po- qualquer cânone literário que se possa inventar.

•• der de imaginação e venenoso anti-semitismo eram açulados por sua


fúria contra a vida burguesa francesa, tão inextricavelmente entre-
laçados que não se pode ter seu impiedoso talento sem seu ódio aos
Incluiria também alguns daqueles escritores que os neoconser-
vadores gostam de exibir como modelos de probidade crítica: Mat-
th ew Arnold, por exemplo, que acreditava que as universidades de-

•• judeus? Ou, como perguntou Simone de Beauvoir no título de um


ensaio, "Devemos queimar Sade?" - Sade, o republicano como
antidemocrata absoluto, o escritor que imaginou seus irmãos seres
vem pr eservar "o melhor do que se pensou e disse", mas como um
antídoto aos valores contagiosos da democracia liberal. Ou T. S.
Eliot - aquele do antigo Criterion - que confiava tanto na demo-

•• humanos como meras vítimas, instrumentos passivos da soberana


vontade de prazer n~m universo vedado, absolutista, onde "a cruel-
cracia quanto gostava de judeus, e assumiu o projeto de Matthew
Arnold de reforçar a mística da monarquia contra a erosão por va-

•• 90 91
••
lores democráticos . Não foram de inspiração política a exaltação que
ele fez do poeta cortesão Spenser, e sua hostilidade ao republicano
subscrevem implicitamente um modelo de educação de " transfusão" ,
pelo qual se considera o saber armazenado dos clássicos como uma ••
e regicida Milton? Tanto Eliot quanto Leavis queriam riscar com-
pletamente Milton do Cânone, uma tarefa comparável a empurrar
uma baleia encalhada de volta às ondas na maré baixa. Mas o Eliot
espécie de plasma que pingará beneficamente em nossas veias, bastan-
do apenas que fiquemos suficientemente passivos em sua presença. Mi-
nha idéia de ensino é inteiramente diversa. Quero debate acirrado , não ••
que nos deram os neoconservadores foi muito editado: um Eliot com
a flatulência monarquista reduzida (do mesmo modo como o lado
brutal da vida na Inglaterra no século XVIII passou discretamente
reverência pelos grandes livros; consciência histórica e auto-reflexão,
não supostos valores atemporais; e contínua expansão de nosso câno-
ne nacional,para acompanhar um senso necessariamente fluido de ••
••
quem "nós" somos e o que em última análise queremos [... ] um certo
inexplorado nos catálogos de exposições do Stately Home Museum
volume de agitação em torno do cânone não deve nos atrapalhar. Em
como Treasure houses of Great Britain, na década de 80). O anti-
minha opinião, não pode haver nenhum texto sacrossanto, nenhuma
semitismo desse Eliot também tende a ser deixado nos bastidores,'

••
idéia inatamente civilizadora ou nenhum crítico literário inteiramente
talvez porque esteja incomodamente próximo dos argumentos dos des ínteressado.:'
conservadores modernos em favor da integridade do Cânone: alguns
Crews tem toda a razão, e a idéia de que podemos estabelecer

••
intrusos diluem a real e boa integridade da .cultura ocidental, pois
(ele escreveu em After strange gods [Em busca de estranhos deuses]): uma hierarquia de Valores Atemporais, e mantê-la contra as vicissi-
"O que mais importa ainda é a unidade de origem religiosa; e razões tudes do presente (metáforas favoritas, de navegação: estrela polar,
farol, âncora na maré etc .) é equivocada. Mas como se pode ver is-
de raça e religião combinam-se para tornar indesejável qualquer nú-
mero de judeus livre-pensadores ... " .
É hábito dos neoconservadores alegar, quando atacam leituras
so como um argumento para dispensar os clássicos? Para perceber
por que a imutabilidade não funciona, temos de mergulhar no pas- ••
, 'politizadas" de literatura, que eles próprios representam leituras apo-
líticas, uma visão de história, romance, teatro e poesia não contami-
nada por ideologia. "Desinteressada" é a palavra-chave.
sado e também no limitante presente, escolhendo assim (com sorte
e muito esforço) pelo menos tantas obras "canônicas", 'e internali-
zando-as tão profundamente quanto poderíamos, se acreditássemos
••
No entanto , a imensa república da literatura contém tudo - e na necessidade de um cânone severo . Se fizermos isso, veremos -

seu oposto. Li muitos livros nos últimos 45 anos, desde que me tornei
um leitor consciente e viciado mais ou menos aos nove anos de idade.
Mas quando tento imaginar o número de livros que não li, e talvez
entre outras coisas - que a história da literatura é de contínua in-
clusão e subversão, que o gosto literário raramente permaneceu o
mesmo por muito tempo, e que não há motivo para esperar que per- .'•
devesse, e que agora provavelmente jamais o farei, sinto-me tonto
e envergonhado.
O primeiro problema de uni cânone rígido e exclusivista de Gran-
maneça agora. Sobretudo agora, em vista do estado profundamente
perturbado da cultura americana, das crises de identidade cultural
que acompanham a dissolução do mundo binário, mantido durante
••
de Literatura é que jamais pode ser completo: é sempre, em certo sen-
tido, um artifício protético, uma muleta pedagógica cujas limitações
se tornam mais claras quando retirada das peculiares exigências dos
quarenta anos pelas férreas mandíbulas esquerdista e direitista da
Guerra Fria. As palavras-chaves devem ser "tanto/quanto" e
"ou/ou" . .
••
cursos universitários .
O segundo é que, como um museu de belos quadros dirigido por
curadores demasiado tímidos para ampliar a coleção, terminará
Os conservadores talvez não queiram que entremos nesse labi-
rinto, mas algumas crenças lúmpen-radicais não nos farão atravessá- ••
••
lo. Uma é a fantasia curativa da cultura - a idéia, mencionada aci-
fossilizando-se .
ma, de que nos tornamos necessariamente o que lemos. Mas o que
O terceiro é que sua posição defensiva atrai hostilidade, trans-
formando seu conteúdo em objeto de ressentimento e, assim, difi- poderia ser mais idiotizante do que condenar um estudante a repetir
cultando sua abordagem.
O crítico Frederick Crews afirma que neoconservadores como
Allan Bloom, William Bennet e Roger Kin1ball são' 'nostálgicos cul-
o que seu professor julga culturalmente importante para sua raça,
gênero ou classe, e ignorar o resto? Outra é a desconfiança em rela-
ção aos mortos, como no "homem branco europeu morto". Tenho
••
turais" que como certo que alguns livros .são mais profundos, mais amplos e

•.'
92 93
\
t
••
•• plenos que outros, e mais necessários a uma compreensão de nossa
cultura e de nós mesmos. B continuam assim muito depois de mortos
rey de Sydney, se os leitores procurarem obras de mulheres e negros
sem preconceito e sem a sensação de que seaproximam nas pontas
dos pés de um caso especial, nossa cultura comum cresce e regozija-

••
seus autores. Os que papagueiam expressões do tipo "homem branco
morto" podiam refletir que, em literatura, a morte é relativa: lord se. Aprendemos como outros tipos de consciência cultural podem
Rochester está tão morto quanto Safo, embora de modo algum tão ocupar o pódio das formas literárias. Mas como se pode conceber

•• moribundo quando Brett Baston Ellis ou Andrea Dworkin. Estatisti- que isso seja motivo para não ler Ievguêni Oneguin, ou a Epistle
camente, a maioria dos autores está morta, mas alguns deles conti- to lord Burlington, de Pope?
nuam a nos falar com um vigor e urgência moral com as quais poucos

•• dos vivos conseguem rivalizar. E quanto mais lemos, mais escritores


- vivos e mortos -:- descobrimos que fazem isso, motivo pelo qual
o Cânone não é uma fortaleza, mas uma membrana permeável.

•• De onde vem essa desconfiança frente aos mortos? Talvez seja


um eco da década de 60, quando aquele esquálido cafetão Jerry Ru-
A noção de qualidade, de estilo, de medida não é uma imposi-
ção que direciona a literatura a partir dos domínios de classe, raça
ou gênero. Tem vida independente dos estereótipos de grupo. Todo

•• bin exortC?u a juventude americana a não confiar em ninguém com


mais de trinta anos; porém é mais provável que seja um aspecto da
depreciação da memória cultural que impregna os Estados Unidos.
escritor traz na mente um invisível tribunal de escritores mortos, cuja
nomeação é um ato de imaginação e' não apenas uma resposta hu-
milhada a uma idéia de autoridade. Esse tribunal reúne-se para julgar

•• A exortação de Ezra Pound, "RENOVE", paira sobre a cultura ame-


ricana, incluindo os debates do Cânone. Mas é mal entendida. Pound
jamais a pretendeu como um sinal para que o presente apague o pas-
nosso trabalho. Intuímos dele os nossos padrões. Não há recurso
de seu veredicto não mandatório. Nenhum de nossos truques - nem

••
nossa fetichização do pessoal, nem nossas tentativas de passar o es-
sado. A frase o fascinou porque acreditava que fora escrita na ba-
tético para o político, nem nossas exaustas ficções de vanguarda -
nheira do imperador Ch'ing, e que era uma convocação a trazer a
vai afastá-lo. Pelo menos se formos francos com nós mesmos. Se
obra do passado, constantemente renovada, ao presente: o "a" é

•• a própria tradição:
Tching [... ]
o tribunal não estivesse lá: cada primeiro rascunho seria um manus-
crito final. Não se pode tapear a Mãe Cultura.
A Odisséia não pode ter exatamente o mesmo significado para

•• [...] escreveu RENOVE-A


em. sua banheira
Dia a dia renove-a
nós que tinha para um leitor de Alexandria no século I, ou outro
da França no século XVII. Mas continua a significar, a irradiar na
mente do leitor disposto e receptivo a vasta luz da possibilidade ima-

•• corte o mato,
empilhe a lenha
mantenha-a crescendo.
ginativa. Não se pode contornar isso com a idéia de que só se deve
ensinar aos estudantes o que é, na expressão corrente, "relevante
para sua experiência": literatura cria experiência. Todos já lemos
•• [Tching ...
.,. wrote MAKE IT NEW
sobre, e alguns conheceram, estudantes e professores indignados que-
rendo saber por que temos de nos preocupar com Homero, que é
um homem branco morto e nada poderia dizer a uma ~ulher negra
•• on his bathtub
Day by day make it new
cut underbrush,
viva.
Quando ouço essas coisas, penso em Omeros, de Derek Wal-

•• pile the logs


keep it growing.]
cott. Ganhador do Prêmio Nobel de Literatura de 1992, ele é negro
e divide seu tempo entre Harvard e a ilha caribenha de Santa Lucia.

"...
A leitura é expansiva, não exclusiva. Se escritores caribenhos, Omeros é um acontecimento incomum, um longo poema narrativo
africanos, árabes e indianos obtiverem mais atenção hoje, se o prê- de reflexão, ressumando de fina observação, povoado de persona-
gens e escrito em forma épica. Desafia todas as convenções da lite-
~. mio Booker for conquistado ·por Ben Okri da Nigéria ou Peter Ca-
~
~ 95
! 94

1- i
••
ratura minimalista. Toma a estrutura homérica da viagem de Ulis-
ses e funde-a com o acontecimento central da história negra no N o-
são na verdade reduções caricaturais do que pretendiam originalmen-
te os grandes gestos revisionistas dos estudos feministas, subalternos ••
••
vo Mundo, o embarque de escravos do outro lado do Atlântico a ou negros, e a resistência antiimperialista. Para tais gestos, jamais se
que o poeta deve sua derradeira identidade. E a pergunta - que tratou de substituir um conjunto de autoridades e dogmas por outro,
relevância Homero pode ter para mim? - é respondida logo no iní- nem de substituir um centro por outro. Tratou-se sempre de abrir e
participar de um filão central de esforço intelectual e cultural, e de
cio, quando o narrador fala com uma moça grega, que sente sauda-
des das ilhas do Egeu, como ele sente das' ilhas do Caribe. Ela tem
numa prateleira um busto de Homero.
mostrar o que sempre foi, embora indiscernivelmente, parte dele , co-
mo o trabalho das mulheres, ou dos negros [.. .] mas que tinha sido
ou negado ou depreciado . 6
••
"O-meros", ela riu. «É assim que a gente o chama em grego [... ]))
Senti a cabeça de espuma observando enquanto alisava um braço>
É por isso que, como escritor, rejeito não apenas o argumento
pós-estruturalista de que todo texto é indeterminado, mas também ••
frio como o mármore> depois os ombros na luz de inverno
do estúdio no sótão. Eu disse: "Omeros",
e O era a invocação da concha marinha> mer era
a renovada tentativa de julgar a literatura em termos de sua suposta
virtude social. Através disso, entramos numa terra do nunca mar-
xista, estranha, nostálgica, onde se exibem todos os mais retrógra-
•.J
ao mesmo tempo mãe e mar em nosso patuá antilhano)
os> um osso cinzento> e a onda branca quando quebra
dos fantasmas da literatura como Instrumento de Utilidade Social.
Assim, temos na nova Columbia history of the American novel que
Harriet Beecher Stowe é melhor romancista que' Melville, por ser
••
e espraia seu espumante colar numa praia de renda.
Omeros era o estalar de folhas secas> e as ondas
que ecoavam da boca da gruta quando a maré refluia.
mulher e "socialmente construtiva", pois A cabana do pai Tomás
ajudou a levantar os americanos contra a escravidão ... ao passo que ••
O nome permaneceu em minha boca [... ]
[«O-meros))> she laughed. "That's what we cal! him in Greek... ))
o capitão do Pequod era um símbolo -laissez-faire do individualis-
mo capitalista, com uma atitude condenável em relação às baleias.
Com o mesmo argumento, pode-se dizer que um artista como ••
I felt the foam head watching as I stroked an arm, as
cold as its marble, then the shoulders in winter light
in the studio attic. I said, "Omeros; ",
William Groper-, que desenhou aquelas instigantes caricaturas de gor-
dos capitalistas de cartola para New Masses há sessenta anos, talvez
esteja um pouco acima de um artista como Edward Hopper, que '
•e'
and O was the conch-shell's invocation, mer was
pouco estava ligando para a comunidade e sempre pintou aquelas e/
both mother and sea in our Antillean patois,
os) a grey bone, and the white surf as it crashes
and spreads its sibilant collar on a lace shore.
figuras em quartos vazios de tal modo que não se pode estar abso-
lutamente certo se ele criticava a alienação ou afirmava as virtudes
da solidão. ••
Omeros was the crunch of dry leaves, and the washes
that echoed from a cave-mouth when the tide was ebbed.
Esses hábitos atrasados de julgar escritores em termos de sua
suposta capacidade de aprimorar a consciência social podem repre- •e
The name stayed in my mouth... ] ,
.E devia mesmo, e muitos outros nomes, permanecer em nossa
boca, sej a qual for nossa origem étnica ou país de nascimento. Não
vão ser descartados por conversas moles a respeito de Homens Bran-
I
sentar desdita para o esnobe Proust e o depressivo Leopardi, para
o caso clínico Henry James e o filho do privilégio burguês Montaig-
ne. Mas são mais negativos ainda para estudantes que saem com a
impressão de que a resposta correta a um texto é medi-lo com um
grosseiro metro .de correção política e abrir fogo com um calhama-
.'••
cos Mortos versus escritores vivos politicamente üK. Nesse ponto,
não posso fazer nada melhor do que citar Edward Saíd, cujos livros
Orientalismo e Cultura e imperialismo são obras fundamentais de
I
I
ço de estereotipada moralização. "Cara, o professor Peach realmente
desmascarou as crenças hierárquicas de Dante na semana passada,
aqueles círculos e tudo mais, você devia ter visto."
••
pensamento transcultural recente. "Esses clamorosos descartes e afir- A política não deve impregnar tudo. Na verdade, uma das pri-
••
mações precipitadas", diz Saíd,

96
j meiras condições da liberdade é descobrir o limite além do qual a


eJ
'••. política não pode ir, e a literatura é um dos meios pelos quais os v

••
jovens (e velhos) o descobrem. Certas obras de arte têm um conteú-
do político ostensivo; muitas trazem mensagens políticas sublimi-
Foi na área da história que o PC obteve seus maiores sucessos.
nares, embutidas em sua estrutura. Mas é de uma ingenuidade atroz
A leitura de história jamais é estática. Nós, historiadores, temos

•• supor que essas mensagens esgotam o conteúdo da arte como arte,


ou em última análise determinam o seu valor. Por que, então, está
na moda julgar a arte em termos políticos? Provavelmente, ensina-
de revisar. Não há palavra final. E quem pode duvidar de que ainda
há muita coisa a revisar na história da conquista européia das Amé-
ricas do Norte e do Sul que herdamos? O esquema foi imperial: o

•• se isso porque é fácil de ensinar. Revive a ilusão de que as obras


de arte transportam um significado social como os caminhões trans-
portam carvão. Divide claramente a extensa república das letras em
avanço épico da Civilização contra a Barbárie - o conquistador traz
a cruz e a espada, o pele vermelha encolhe-se diante da cavalaria

•• mocinhos e bandidos, e alivia o aluno do fardo da empatia imagi- e da estrada de ferro. Destino Manifesto. O mito do americano bran-
nativa, das dificuldades da discriminação estética. Permite a esses co do século XIX. É inteiramente falsa a idéia de que todos os his-
eruditos, de orelhas delata, mente esquematizada e prosa de tapio- toriadores propagaram esse mito acriticamente: basta ler Parkman .

•• ca, dar bicadas em escritores mortos, por sua falta de concordância


com modas atuais de "estudos de opressão" - e enganar-se a si
mesmos e a seus igualmente nostálgicos colegas pensando que estão
ou Prescott para perceber isso. Mas, depois que penetrou fundo na
c~ltu:a popular, o mito das histórias tornou-se uma poderosa justi-
ficação para o saque, o assassinato e a escravização de povos, e a

•• todos nas barricadas.


Contudo, quando os mulás iranianos decretaram seufatwa con-
tra um escritor vivo, Salman Rushdie, por "blasfêmia" contra o
destruição da natureza.
Portanto agora, em reação a isso, vem a fabricação do mito
oposto. O europeu, outrora herói da conquista das Américas, torna-

.•.. Islã, pondo. sua cabeça a prêmio por escrever livros que não lhes se agora o seu demônio; e as vítimas, que não podem ser trazidas
agradavam, o mundo acadêmico mal rompeu o seu silêncio. Os aca- de volta à vida, são canonizadas. De cada lado da linha divisória
dêmicos americanos não protestaram coletivamente contra essa obs- entre euro e nativo, os historiadores estão prontos com piche e fo-

•• cenidade por dois motivos. Primeiro, temiam que seus o


próprios cam-
pi se tornassem alvos de terroristas islâmicos. Segundo, os mais
lha de ouro, e em lugar dos velhos estereótipos maus temos um con-
junto inteiramente novo de outros igualmente enganosos. Nossos

•• politicamente corretos acharam que seria errado criticar um país mu-


çulmano, fizesse ele o que fizesse. Em casa, nos Estados Unidos,
essa gente sabia que era o máximo da impropriedade sexista referir-
antecessores fizeram um herói, quase um santo, de Cristóvão Co-
lombo. Há monumentos dele desde Barcelona até as Antilhas (des-
cobertas por ele, embora não se saiba exatamente em que ilh~ de-

• se a uma jovem como "garota", em vez de "mulher". Lá fora, em sembarcou de fato), e por toda a América do Norte, o continente

."•• Teerã, porém, era mais ou menos OK uma cabala de fanáticos teo-
cratas repressivos insistir no chador, cortar mãos de ladrões e vazar
olhos de criminosos diante das câmeras de TV, e assassinar roman-
cistas como política oficial. Opressão é o que nós praticamos no Oci-
dente. O que eles fazem no Oriente Médio é "a cultura deles". Embo-
em que nunca pôs os olhos. Para europeus e norte-americanos em
1892, ele era o Destino Manifesto de calções, cercado por montes
de folclore beato, como a história de Washington Irving sobre o ovo
~~ Colombo ou a ficção de que a rainhaIsabel empenhou suas jóias,
ja empenhadas muito antes para comprar canhões, a fim de finan-

•• ra, evidentemente, não aprovemos tudo o que a ralé - perdão, as


massas - do Irã fazem.ou dizem, temos de reconhecer que essa cul-
tura é de fato deles, não nossa, e que as circunstâncias objetivas do
ciar as viagens dele. Enquanto isso, um livro PC como The conquest
of paradise [A conquista do paraíso], de Kirkpatrick Sale, o faz
parecer mais com Hitler numa caravela, avaro e cheio de fantasias

•• racismo antiárabe nestes Estados Unidos eurocêntricos fariam um


protesto do departamento de literatura parecer uma adoção dos va-
apocalípticas, desembarcando como um vírus em meio ao inocente
povo do Novo Mundo.

I.'.
lores dos republicanos, que têm usado os muitas vezes lamentáveis

• excessos do fundamentalismo islâmico, os quais devem ser vistos den-


tro de um contexto global de agressão ocidental aos povos do Ter-
ceiro Mundo, como um pretexto para... já deu para pegar o espírito.
Esse novo estereótipo, um renascimento de idéias rousseauís-
tas sobre o Nobre Selvagem, põe em ação um novo conjunto de dois
pesos, duas medidas. Assim, os taino de Porto Rico tornam-se cria-
turas inocentes vivendo num estado de natureza sem classes, como

•• 98 99

·rJ
••
hippies em Vermont quando Kirkpatrick Sale e eu éramos jovens,
quando na verdade eles gostavam de ser carregados em liteiras por
espanhola e depois inglesa e francesa, sobre as existentes. Se Co-
lombo não houvesse aberto a rota para o Caribe, outro - espanhol, ••
escravos. Se os povos das Américas, da Patagônia aos Grandes La-
gos, não tivessem sido conquistados pelos europeus, não estariam
ainda felizes? Não estamos nós muito pior do que eles?
português, italiano, inglês - o teria feito poucos anos depois, e os
resultados para as sociedades e a ecologia das Américas teriam sido
os mesmíssimos. Esperar que os maias, ou os modernos índios ame- ••
Bem, sim, até certo ponto. A chegada dos espanhóis às Améri-
cas foi uma catástrofe indizível para os povos da América do Sul
e do Caribe, como o avanço imperial dos anglos através da Améri-
ricanos, comemorem 1992 é irracional; como observou um aborígi-
-ne australiano na época de nosso bicentenário em 1988, é o mesmo
que pedir aos judeus que comemorem o centenário de Hitler, que
••
ca do Norte o foi para suas tribos nativas. Se aceitamos as cifras
apresentadas por David Stannard em seu recente livro American ho-
locaust: Columbus and the conquest of the New World [Holocaus-
seria no ano seguinte, 1989.
Mas a evidência histórica também mostra que os povos das
Américas já vinham fazendo um servicinho muito bom há séculos,
••
to americano: Colombo e a conquista do Novo Mundo], o massa-
cre causado pela conquista espanhola no Peru e no Chile pode ter
chegado a 95 por cento da população, talvez a 10 milhões de almas;
provavelmente milênios, em termos .de assassinato, tortura, mate-
rialismo, ecocídio, escravização e hegemonia sexista. Nós podemos
nos preocupar com o destino da coruj a pintada, mas os primeiros
•.)
e a perda total de população humana do hemisfério ocidental pode homens a chegar à América pré-histórica não pareceram ter escrú-
••
.'••
ter alcançado 100 milhões nos primeiros dois séculos após a chegada pulo algum com a extinção de sua megafauna, o que efetuaram a
dos europeus. Se é verdade, esse seria o pior genocídio na história curto prazo. A civilização dos maias, a maior a florescer na Améri-
humana, superando de longe o de Hitler. ca Central antes de Colombo, atingiu seu ápice entre 250 e 900 d.C.,
Podemos dizer que Colombo tem culpa nisso?De um modo ge- ponto em que ocorreu um acontecimento intrigante chamado de
ral e simbólico, sim, pois ele conduziu a Europa à América. Em ter- Hiato Maia. Sua civilização 'desmoronou. Ninguém de fora a tinha
mos de culpa pessoal, não, pois ele não planejou esses gigantescos conquistado. Contudo, recentes escavações e o lento trabalho de de-
massacres por espada ou doença; ele não tinha, por exemplo, mais cifração de glifos, sobretudo no sítio de Dos Pilas, na Guatemala,
••
conhecimento da epidemiologia da gripe suína (provável causa da
destruição do povo de Hispaniola dez anos depois de sua chegada)
indicam que o periodo clássico dos maias foi devastado por um con-
tínuo estado de guerra entre governantes locais; iniciado por volta
.\
.'••
do que os próprios arawak. Apesar de tudo isso, ele continua sendo de 700 d.C., que 'devorou toda a economia e ecologia do império
o maior de todos os exploradores do Atlântico. Seu único rival na maia no século x. Os maias caíram por colapso ecológico de sua
história foi o capitão J ames Cook, um homem igualmente valente própria lavra, causado pela dedicação a guerras invencíveis que eram
mas muito mais racional e humano, que acrescentou a maior parte por sua vez sustentadas pelá obsessão com a ideologia - a ideolo-
dos oceanos Pacífico e Antártico ao horizonte europeu quase três gia do rei-deus transcendente, encarado por seus hilotas como a en-
séculos depois. Cook é meu herói; Colombo é o ex-herói da Améri-
ca branca. Cook parece mais próximo de nós porque era um inglês
do Iluminismo, e nós ainda, em certa medida, falamos sua língua
carnação de todo o universo.
A Meso-América pré-colombiana não 'era o Shangri-lá que os
anticolombianos gostariam que fosse. Não se pode subir na pirâmi-
••
moral. Colombo está muito distante, porque veio de uma cultura de do Sol em Teotihuacan, perto da Cidade do México, e olhar a
.-
escatológica, a da Espanha do século xv, cujas obsessões religiosas
não partilhamos. Na época de Cook havia uma diferença, que seus
próprios feitos expressam, entre descobrimento e conquista. Na épo-
imensa perspectiva simétrica da avenida dos Mortos lá embaixo,
abandonada no século VIII por razões que não sabemos, sem sentir
que a sociedade que as construiu era um Estado-formigueiro teo-
••

••.'
ca de Colombo não havia nenhuma. 'crático, cuja rigidez faria desmaiar Albert Speer. E tentem olhar as
Que teria acontecido se os povos do Atlântico ocidental não ti- presas da Serpente Emplumada e falar da benigna qualidade de vi-
vessem sido conquistados por brutos escatológicos? A especulação, da pastoral antes da chegada dos brancos. A cultura asteca era mes-
existencialmente, não tem sentido, porque a América foi invadida siânica, invasora e imperialista; e assim o fora desde que os astecas
por esses seres imperfeitos e cruéis, que impuseram suas culturas, desceram do norte, sob o comando de um governante carismático

f----O .. . '. ,

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~ ;[~ Rq-~ ~
100 101
••
e_
••
•• cujo nome se traduz como Beija-Flor-da-Esquerda, e massacraram
ou escravizaram, o povo que habitava em torno do que é agora a
Cidade do México. Suponho que os sobreviventes podiam se dar por
ção da classe operária inglesa] , de E . P . Thornpson, que me mos-
trou como a história pode ser construída de baixo para cima, reu-
nindo e entendendo as experiências oficialmente ignoradas de tra-

•• felizes por não haver um Beija-Flor-da-Direita. Mas então não era


brincadeira ser um dos incontáveis milhares que tinham o coração
balhadores cujas histórias, em mãos mais doutrinárias, podiam ter-se
perdido em generalizações -sobre classe, em vez de trazidas à vida

•• arrancado do peito pelos sacerdotes astecas de Tenochtitlan para que em toda a sua particularidade. A lista de livros inspirados pela obra-
o sol se erguesse pela manhã. Os espanhóis queimaram quase todos prima de Thompson seria longa, e não tenho dúvida de que The fa-
os registros escritos de história asteca , com exceção de uns poucos , tal shore [Praia fatal] foi minha tentativa de aplicar essa lição à his -

•• c ódices. Mas os astecas, quando conquistaram o México central, tam-


bém destruíram todos os registros das sociedades anteriores, para
que não houvesse história antes da deles.
tória submersa dos condenados australianos. O que achei inútil, em
contraste, foi a abstrata teorização sobre prisão e poder em textos
que se tornaram sagrados no mundo acadêmico do início da década

\•. A necessidade democinhos e bandidos absolutos corre fundo


em nós, mas transforma a história em propaganda e nega a huma-
nidade dos mortos: seus pecados, suas virtudes, seus esforços, seus
de 80, como Vigiar e punir, de Michel Foucault. Em suas rumina-
ções sobre a teoria do Panóptico de Jeremy Bentham, Foucault con- ,
seguiu fazer exatamente o que culpava o Estado por fazer na vida

•• fracassos . Preservar a complexidade, e não aplastá-la sob o peso de


uma moralização anacrônica, é parte da tarefa do historiador . Não
real: ignorar a experiência dos próprios prisioneiros, mal se dar ao
trabalho de consultar as evidências a respeito, para não perturbar
a auto-referencialidade autocrática, mecânica, .de suas próprias cons-

•• faria mal lembrar o conselho do romancista brasileiro Jorge Ama-


do, refletindo sobre o 500~ aniversário de Colombo e a conquista
do Novo Mundo: para uns, escreveu, isso significa
truções teóricas. Os admiradores americanos de Foucault não vêem
como ele foi autoritário, enrustido.
A história, acima de tudo, deve se interessar pela vida humana
•• o épico do descobrimento, o encontro de dois mundos; para outros,
a infâmia da conquista e do genocídio [.. .] De ve-se est abelecer e com-
como foi vivida, na medida em que seja possível descobri-la através
dos filtros do passado. Não é preciso ser marxista para apreciar a


parar aparências e diferenças , porque só assim, entendendo o que foi verdade da afirmação de Eric Hobsbawm, de que a realização mais

.'•
grande e será uma glória eterna, denunciando o que fo i miserável e amplamente reconhecida da história radical "foi conquistar um lu-
será uma vergonha perpétua, só assim, refletindo e entendendo , po- gar para a história da gente comum, homens e mulheres comuns" .
demos ao mesmo tempo comemorar o épico e condenar o massacre, Nos Estados Unidos, esse trabalho inclui necessariamente as histó-
nenhum dos quais anula o outro. Somos produtos dos dois - os po-
rias dos negros e outras minorias, que tendem a decompor leituras

,'.•• vos mestiços da América."


Surpresas estalam, como arcos voltaicos, entre as interfaces da
.cultura . É nessas interfaces que a história hoje busca a si mesma;
serão elas os sítios históricos do futuro . Não se pode refazer o pas-
nacionalistas complacentes do passado americano. Um dos desta-
cados exemplos desse trabalho foi The black family in slavery and
freedom 1750-1925 [A família negra na escravidão e em liberdade
1750-1925], do falecido Herbert Gutman (1928 -85) . Ele fazia parte

;.•
j! .
sado em nome de uma ação afirmativa. Mas pode-se descobrir nar-
rativas que não foram escritas, histórias de pessoas e grupos que fo:
ram distorcidas ou ignoradas, e renovar a história incluindo-as. E
por isso que, nos últimos 25 anos, tão grande parte da vitalidade
de uma raça hoj e incomum, o historiador com a preocupação de
levar sua obra ao grande público, mostrando as complexas realida-
des do "lado de baixo da história" em termos tão acessíveis a leito-
res não especializados quanto o fizeram as histórias de Grandes Ho-

••
!
da história tem vindo da esquerda. Quando se lê o livro do historia- mens, das elites . Seu Projeto de História Social Americana foi um
dor negro caribenho C. L . R. James, vê-se um pedaço do mundo ato de recuperação pública, daqueles que não interessam aos histo-
romper seu silêncio tradicional - um silêncio não de sua própria riadores da Nova Esquerda hoje; não é suficientemente "teórico",

•• escolha, mas que lhe foi imposto por escritores imperiais anterio-
res. Parte de minha própria educação como escritor, há vinte anos,
é " p opulist a " demais. Pensamos também na obra de Eugene Ge-
novese sobre a escravidão, ou na de Eric Foner sobre a Reconstru-

•• foi a leitura de The making of the English working class [A forma- ção, ou no soberbo livro de Leon Litwack sobre as experiências dos

102 103


••
negros americanos após a emancipação, Been in the storm toa long na altamente explosiva em que várias culturas, o anglo-americano
••
.'
[Há tempo demais sob a tempestade]. Ou, mais recentemente, a his- invasor e o índio e o espanhol j á residentes, se chocaram uns com
tória de Nicholas Lemann sobre a grande migração de negros para os outros, jamais com resultados simples. Tampouco podem o d:a-
Illinois, no norte, The promised land [A terra prometida]. A neces- ma e a complexidade do Oeste ser entendidos sem se ver como ain-
sidade de tais estudos seria contestada por historiadores america-
nos duas gerações atrás. Hoje, parecem fundamentais. Pois, como
da são persistentes os valores, crenças e formas culturais dos' 'ven-
cidos", apesar dos longos esforços dos' 'vencedores" anglos tanto ••
observou Litwack em seu discurso presidencial à Organização de His-
toriadores Americanos em 1987: "Nenhum grupo de estudiosos es-
teve mais profundamente implicado na deseducação da juventude I'
iI
para suprimi-los quanto para negar essa supressão com a idéia mais
cômoda de que eles simplesmente sumiram. Exatamente o mesmo
processo se deu na Austrália, com sua crença século XIX no "pas- ••
americana e fez mais para formar o pensamento de gerações de ame-
ricanos sobre raça e negros do que os historiadores".
Do mesmo modo, a história da fronteira j amais poderá ser igual II
samento do aborígine" , tão curiosamente de acordo com os tropos
literários fin-de-siêcle de neblina, fantasmas e sugestiva vaguidão.
É verdade que a revisão da história do Oeste pode embaraçar
••
àquela conhecida por nossos avós. A idéia deles, de uns Estados Uni- iI alguns mitos queridos. Só para dar um de muitos exemplos: arque- .J
••
I
dos definidos pela experiência da fronteira, surgiu de um ensaio de tipicamente, o Oeste é o lugar onde o Governo Central é suspeito,
imensa influência lido por Frederik J ackson Turner perante a Asso- a terra do homem independente se virando sozinho. Contudo, grande

.'
ciação Histórica Americana em 1892: "O significado da fronteira parte dele - estados como Arizona, por exemplo - depende~, nã?
na histórica americana". Nele, Turner afirmava que "a existência marginal nem ocasionalmente, mas sempre e totalmente, de dinhei-
,de uma área de terra devoluta, sua contínua recessão e o avanço da ro federal de Washington para sua existência econômica. Os esta-
colonização americana para oeste explicam o desenvolvimento ame-
ricano". Isto contradizia diretamente historiadores anteriores (de ba-
se puritana), que escreviam como se tudo nos Estados Unidos, e so-
dos do Sudoeste j amais poderiam ter sido colonizados em sua atual
densidade humana sem a enorme inversão de fundos governamen- ••
bretudo os valores e critérios pelos quais os fatos são interpretados,
e através dos quais tentamos responder à pergunta crucial "Histó-
tais em projetos de engenharia hidráulica. Eles são menos o John
Wayne que a Rainha Assistencial do desenvolvimento american?
O que vemos na "nova" história, e na antes berrante e hoje ••
ria de quem?", emanasse da Nova Inglaterra. Mas por mais de duas
décadas o plano de Turner, que em essência é o do Destino Mani-
decrescente resistência a ela, é uma revivescência do conflito sobre
a propriedade, por uma raça ou classe, da literatura histórica, que
e\
festo, a versão americana da história imperial inglesa, com os bran-
cos avançando para um "sertão" sem dono (terra nullius, ou "ter-
perturbou o mundo acadêmico americano na década de 30 e de no-
vo na de 50. Em sua excelente pesquisa The great multicultural de- ••
••
ra de ninguém", como diziam os colonizadores do Pacífico no bate [O grande debate multicultural], o historiador Gary B. Nash
século XVIII), tem sido criticada, modificada e simplesmente rejei- mostrou que, após a Primeira Guerra Mundial, os estudiosos judeus
tada por historiadores mais recentes do Oeste. Ver isso como ,u m tiveram de lutar por um lugar na profissão histórica americana, con-
simplesdesbancamento do Oeste heróico - um ataque edipiano aos
mitos da cultura popular, por escritores que não gostam do Oeste
- está muito longe da verdade. Ao contrário, o objetivo é duplo:
siderada um feudo da casta WASP; e que a resistência à intrusão ain-
da era suficientemente forte no início da década de ,60 para Carl
Bridenbaugh, presidente da Associação Histórica Americana, se quei-
••
de um lado, descobrir o verdadeiro Oeste histórico sob o Oeste mí-.
tico, e do outro, estudar a história do "Oeste mitico" como uma
construção de imagens e estereótipos - como foram criados e pro-
xar de que "muitos dos mais jovens praticantes de nosso ofício [... ]
são produtos de baixa classe média ou de origem estrangeira, e suas
emoções não raro atrapalham a reconstrução histórica". Mas com
••
movidos, como vieram a domiriar a cultura popular. Os historiado-
res reconhecem hoje que qualquer esforço para descobrir as reali-
dades históricas do Oeste deve começar com o multiculturalismo:
o tempo ficou claro, até mesmo para Bridenbaugh, que se os Esta-
dos Unidos queriam entender o significado de suas .im ígracões no
século XIX - o maior impacto de diversos povos num único Esta-
••
ou seja, acima de tudo , reconhecendo-se que o Oeste não era uma do em toda a história registrada} com talvez 35 milhões de pessoas
••
terra nullius sobre a qual marcharam os brancos; que era uma are-

104
indo para a América do Norte em setenta anos - esses "produtos

105
.l

••
•• de [... ] origem estrangeira", palavra de código WASP para designar
judeus, italianos e outros seres irracionais, talvez tivessem alguma
luz a lançar sobre elas. Devido à pressão de conselhos escolares em
sultara em questões de gosto e boas maneiras? Não poderiam eles
ter tido uma civilização própria?" A idéia ia e vinha: talvez então,
já passadas quatro das treze horas da série, fôssemos ouvir algum

•• cidades com grandes populações negras e hispânicas, os livros didá-


ticos secundários na década de 60 foram um tanto revistos, no sen-
reconhecimento de que as classes inferiores tinham pelo menos fei-
to alguma coisa para criar a riqueza material sobre a qual surgira

••
tido de mostrarem os Estados Unidos como uma sociedade multir- a corte de Urbino - e a "civilização" em geral. Mas não; a realiza-
racial e multicultural. Mas a história monoculturalista é tenaz, e os ção deles fora a criação de outra obra de arte, a paisagem toscana,
conservadores adoram-na; por todos os anos 70 e 80, o mesmo tipo cuja função era inundar os espectadores, como Clark e nós, com

•• de pressão que os fundamentalistas aplicaram sobre os conselhos "a impressão de ordem atemporal". Pode-se dizer com bastante se-
de educação estaduais para pôr a "ciência criacionista" - um oxi- gurança que provavelmente ninguém, no futuro previsível, irá dis-
moro, se é que já houve algum - nos livros didáticos de biologia cutir as relações entre trabalho e cultura em tais termos na televi-

t•.
continuou assegurando que o conflito de classe fosse mantido longe são, ou talvez em nenhuma outra parte; e não vejo isso como uma
dos livros didáticos, e o conflito de raça reduzido ao mínimo possível. grande perda.
Como observa Nash, as pessoas sentem faltam dos temas que Em termos gerais, o que aconteceu na reescrita das histórias tem

•• tudo abrangem, das categorias seguras, das grandes sínteses, das his-
tórias dos Grandes Homens. Essas são as primeiras coisas que desa-
parecem quando as generalizações sobre a história são explodidas
seu análogo nos departamentos de literatura americanos. Ali, a che-
gada da "Nova Crítica" foi recebida com horror pelo entrincheira-
do resto da velha guarda de "humanistas" - não iriam aquelas lei-

••• pela atenção detalhada a diferenças de gênero, etnia e classe. A his-


tória narrativa, pace alguns teóricos, ruminadores de números e cliô-
turas detalhadas, frias, textuais, destruir a enobrecedora penumbra
das obras de Shelley, Dryden, Shakespeare? Depois a nova guarda
ficou velha, e viu na chegada do pós-estruturalismo francês a "po-

•• metras, não está morta de modo algum. Ainda tem enorme públi-
co, e talvez seja o único tipo de história que sempre será popular.
Mas as narrativas estão mudando, e mesmo que quiséssemos, não
litização" em grande escala dos estudos literários. E no entanto, to-
da vez, os extremos são recolhidos e absorvidos no centro.

(•. podemos forçar-nos a voltar a um tempo em que tais mudanças ainda


não haviam ocorrido. Lembro-me de que vi Kenneth Clark expli-
_ cando o Renascimento em Civilization, há vinte anos. Lá estava ele,
Foi o que aconteceu com a abrangência dos estudos históricos.
Os historiadores acadêmicos se sentiram ameaçados, até mesmo ofen-
didos, com a idéia da "história de baixo". Um dos livros mais inte-

•• com seu imperturbável tweed, contra um cenário de vinhedos perto


de Urbino. Acabara de cita! versos de Yeats sobre Guidobaldo de
Montefeltro, que
ressantes e vivazes que encontrei recentemente foi Journal of my life
[Diário de minha vida], escrito por um vidraceiro francês do século
XVIII chamado Jacques-Louis Ménétra, cujo manuscrito ficara en-

•• quando fez
terrado durante dois séculos, até ser descoberto e publicado em 1986.

•• Aquela escola-espelho de cortesias


Sobre a ventosa colina de Urbino,
Não convidou mensageiros para nenhum lado
Embora eu certamente não seja especialista na história social da Paris
do século XVIII, senti quando o lia como se estivesse passando sobre
um recife num barco de fundo de vidro, vendo coisas desconhecidas

•• A fim de saber o que os pastores queriam.


[when he made
com uma clareza estereoscópica: a narrativa onívora, lasciva, imen-
samente reveladora que Ménétra faz de sua vida como "homem do
povo" é um equivalente proletário das Confessions de Rousseau;

•• That mirror-school of courtesies


Upon Urbino's windy hill
Had sent no runners to and fI'O
ressuma igualmente de fantasia e faz-de-conta auto-engrandecedoras,
mas, como observou Robert Darnton em sua Introdução, também
isso "nos dá uma oportunidade de ver como se constituíam os so-

•• That he might learn the shepherd's will.]


Exato, disse Clark; mas, "e as pessoas no campo, ou os pasto-
nhos do século XVIII". Cinqüenta anos atrás, poucos historiadores
nos Estados Unidos teriam valorizado muito isso já que seu autor

••
res que o sr. Yeats achava, corretamente, que Guidobaldo não con- não fora uma figura importante nem influenciara grandes aconte-

106 107


••
cimentos. Lembro-me vividamente de que encontrei um texto seme-
lhante nos arquivos da Mitchell Library em Sydney, o diário não li-
multiculturalismo informado, mas um separatismo de viseira des-
bragadamente polêmico. Esse separatismo, em geral, é o que os con- ••
do nem transcrito de um condenado chamado Laurence Frayne, que
se revelou uma j anela incomparável para as realidades do sistema
servadores atacam como' 'multiculturalismo". E, o que é pior, os
fornecedores dessa história separatista - baseada, como diz timi-
damente o Conselho de Regentes de Nova York, em "conhecimentos
••
.'
de punição em Norfolk Island, por alguém que sobrevivera a elas
todas; no pacote, um arquivista passado escrevera a lápis: "Diário
de condenado - nada de interesse" . A reação inicial ao surgimento
e técnicas não canônicos" e "fontes de conhecimento não dominan-
tes", querendo dizer em sua maior parte lendas, boatos e fantasia
_ pretendem assegurar que ela sej a ensinada não só nas universi-

de estudos femininos, estudos negros, gays e de outras minorias, e
, à sua posterior disseminação pelas categorias antes estabelecidas do
estudo de história americana, foi a mesma: primeiro, a negação de
dades, onde pelo menos pode ser efetivamente debatida, mas, em-
purrada no currículo secundário também, onde não pode.
Esse é o objeto de um bizarro documento chamado "Ensaios
••
.•1
que esses grupos precisassem de histórias próprias, depois uma su- de base afro-americanos' de Portland", que jamais foi publicado em
cessão de obras ousadas mostrando que precisavam e precisam, e livro, mas que, em forma de xerox, está alterando os currículos dos
depois uma gradual absorção delas até ocuparem seu lugar no currí- sistemas escolares em todo o país. 8 Escrito por um obscuro 'grupo
culo geral. Com vários Jeremias reclamando, no decorrer de todo de estudiosos negros e candidatos a acadêmicos, esses ensaios sobre
••
.'
o processo, que a tendência já tinha ido longe demais. , história, estudos sociais, matemática, linguagem, artes e ciência pre-
Do mesmo modo, grandes mudanças ocorreram nas versões da tendem ser um roteiro de história afrocentrista para jovens ameri-
história americana ensinadas às crianças nas escolas. Nenhum edu- canos negros. Têm merecido pouca atenção da grande imprensa. Mas
cador sério duvida de que elas eram necessárias, e ainda o são; no
entanto, ainda é um choque ler o que se ensinava como história no
passado. Eis um trecho de um livro didático da quinta séria sobre
são populares junto a burocratas como Thomas Sobol, o comissá-
rio da Educação do estado de Nova York - pessoas que têm medo
de perder os eleitores negros ou que não suportam pseudo-eruditos
••
a escravidão: como Leonard J effries. Suas implicações para a educação america-
••
na são grandes, e em sua maioria ruins. Portanto, precisamos saber
•.;
.'
Atrás da casa grande há filas de pequenas cabanas. Nessas cabanas
o que eles dizem.
vivem as famílias dos escravos negros [...] Os negrinhos e negrinhas
gostam que os meninos brancos vão brincar com eles [... ] Com o tem-

••
po; muita gente passou a achar que era errado ter escravos . Algumas
das pessoas que tinham escravos ficaram furiosas com isso. Diziam
VI
que os negros estavam melhor como escravos na América do que co-
Pode-se resumir muito facilmente a crença afrocentrista. Diz
mo bárbaros selvagens na África. Talvez fosse verdade. A maioria dos
escravos parecia feliz e satisfeita.
Essa repugnante pastorale vem de um livro didático chamado
que a história das relações culturais entre África e Europa é pura
besteira - uma muleta para a ficção da supremacia branca euro-
péia. Os paleo-historiadores em geral concordam que a vida huma-
••
Meu país, publicado pelo estado da Califórnia e usado em suas es-
colas na década de 50 . É inconcebível que uma coisa dessas entrasse
na inteligente começou no Grande Vale Rift, na África. O afrocen-
trista vai mais adiante: o africano foi o pai cultural de todos nós . ••
••
num livro didático americano hoje. Os últimos dez anos trouxeram A cultura européia provém do Egito, e o Egito faz parte da África,
conquistas enormes em precisão, proporção e sensibilidade, conse- ligado ao seu coração pela artéria do Nilo. A civilização egípcia co-
guidas com muitas lutas, no modo como as minorias são mostradas meça na África sub-saariana, na Etiópia e no Sudão.
nos livros didáticos; sejam asiáticas, nativas, negras ou hisp ânicas.
Mas isso não basta para alguns extremistas, que consideram que
só negros podem escrever a história da escravidão, só índios nativos
Portanto, argumentou o patriarca da história afrocentrista, o
falecido escritor senegalês xeque Anta Diop, tudo o que é egípcio
é africano, parte da realização negra desaparecida: Imhotep, o gê- ••
a da América pré-européia, e assim por diante. Propõem não um

108
nio que inventou a pirâmide como forma monumental no terceiro

109
•e
l


••
•• milênio a.C., era negro, como o eram Euclides e Cleópatra em Ale- Brigar sobre a etnicidade dos egípcios - como se tivesse havido
xandria vinte dinastias depois.? Negros no Egito inventaram os hie- uma única constante étnica ao longo do Nilo .durante quatro milê-
. róglifos, as monumentais esculturas em pedra, o templo com colu- nios - não tem sentido, já que nenhum egípcio antigo daria os mes-

•• nas e o culto do rei-sol faraônico. O afrocentrista não diz isso como


metáfora cultural de uma sociedade racialmente mista, destinada a
chamar a atenção para um largo espectro de pigmentação de pele
mos significados racial , político ou geográfico à palavra" África"
que nós damos, e de qualquer modo a sociedade africana parece ter
vindo pelo menos tanto dos povos mesopotâmicos e asiáticos a leste

•• -que de fato existia, como sabemos, no antigo Egito. Ele quer dizer
que os egípcios eram negros, de pele escura, membros compridos
e cabelo encarapinhado: afirmação apoiada numa observação am-
do Nilo quanto dos africanos a oeste e ao sul. A questão de os antigos
egípcios terem sido negros não tem importância para a história egíp-
cia ou africana - só interessa aos afro centristas americanos.

•• bígua do historiador grego Heródoto que visitou o Egito, no século


V a.C., e em nada mais do que isso. E assim o hábito de historia-
Figuras negras aparecem na arte egípcia, mas são em geral iden-
tificadas com gente do sul. Para os outros, os artistas egípcios -

\•. dores europeus e americanos de referir-se aos egípcios antigos co- cujos afrescos proporcionam informações abundantes sobre as dife-
mo não-negros é uma conspiração racial para ocultar as realizações rentes cores da antiga sociedade egípcia - reservavam uma' gama
da África negra. ' de marrons avermelhados, brancos cremosos e acres; não se viam.

•• Ora, é verdade, documentada extensamente por Martin Bernal


em seu polêmico livro Black Athena [Atena negra], que escritores
, p opulares e acadêmicos nos séculos XIX e XX procuraram retratar
como negros, nem representavam suas figuras com traços negrói-
des. Na certa teriam achado irracionalmente grosseiras as catego-
rias americanas modernas de raça . Tinham um estado teocrático,

•• os egípcios como "mais brancos" do que podem ter sido - J ames


Breasted, decano de estudos arqueológicos na Universidade de Chi-
mas sua composição étnica estava mais perto de um anúncio da
Benetton.
Quanto às opiniões de Heródoto sobre a negritude no Egito,

•• cago, afirmava na década de 30 que os egípcios eram "membros de


pele escura da Grande Raça Branca", e Hollywood concordou. Cleó-
patra pode não ter sido tão negra quanto Bessie Smith, como dizem
deve-se aceitar isso com certo ceticismo. A obra de Heródoto está
repleta de curiosidades e fábulas sobre características nacionais que

•• os afrocentristas, mas certamente não tinha a aparência da atual sra.


Larry Fortensky.
É igualmente verdade que eruditos dos séculos XIX e XX, ao ten-
não são, de fato, verdadeiras . Por exemplo, ele declara no livro 3
de sua História que os crânios dos egípcios eram mais densos que
os dos persas, e afirmou ter verificado isso examinando os' esquele-

•• tarem desligar o Egito da África, estavam errados, e que seus esfor-


ços foram motivados por fanatismo. Geograficamente, o Egito faz
tos deixados no campo de batalha onde um exército persa tinha posto
umexército egípcio em debandada: os crânios persas "são tão finos
que o simples toque de um pedra os perfura, mas os dos egípcios

•• parte da África; e poucos historiadores hoje parecem favorecer a


hipótese, para salvar a pele, de que uma "raça dinástica" veio de
fora da África para criar o Egito ptolomaico. Como observou Basil
[... ] são tão duros que dificilmente se pode quebrá-los". Explicou
que isso se dava porque os persas usavam solidéus, enquanto os egíp-
cios raspavam a cabeça desde a infância, "de modo que o osso do

•• Davidson, a mistura racial egípcia foi certamente aumentada por


migrações do Oriente Próximo, mas crânio é endurecido pela ação do sol - é por isso que dificilmente
eles ficam calvos, sendo a calvície mais rara no Egito do que em

•• afirmar a partir disso que a vasta maioria dos habitantes do antigo


Egito, não sendo "negra", não era portanto africana, é tão pouco sus-
tentável quanto afirmar o mesmo a respeito dos bérberes e dos etío-
qualquer outra parte" .
Mas para os afrocentristas, o Egito negro não é uma hipótese
histórica: é um artigo de fé, a chave de um sistema de crença medi-

•• pes, que ninguém ainda propôs riscar da lista dos povos africanos. As
velhas categorias raciais de "branco" e "negro" na verdade fazem pou-
co sentido neste ou talvez em qualquer outro contexto [... ] Fosse qual
cinal. O xeque Diop pensava que
Uma olhada ao Egito da Antiguidade é a melhor maneira de conceber

•• fosse sua pigmentação ou aparência física, os egípcios dos tempos fa-


raônicos podem ser com segurança colocados na história africana. 10
e construir nosso futuro cultural [.. .] O Egito é a mãe distante das cul-
turas e ciências ocidentais, [e] a maioria das idéias que chamamos es-

•• 110 111
••
trangeiras não passa muitas vezes de misturas [...] imagens das cria-
ções de nossos ancestrais africanos, como judaísmo, cristianismo, Is-
ram os.colonizadores brancos e tomaram-na. Mas em breve virá um
Messias e devolverá toda a carga, desde sardinhas em lata até moto-
••
lã, dialética [...] aritmética, geometria, engenharia mecânica, astro-
nomia, romance, poesia, teatro, arquitetura e as artes.!'
Não fica claro o que Diop quis dizer, em detalhe, com a idéia
res de popa Yainaha, aos novaguineanos, aos quais ela pertence de
direito. Isso anulará a angústia do colonialismo. Os cristãos têm um
mito semelhante, de um Paraíso antes da Queda e da vinda do Mi-
••
de que o antigo Egito oferece o modelo da futura África, já que
era um estado escravista dirigido por faraós absolutistas e seus sa-
lênio. Esses mitos têm uma utilidade social. Confortam os perse-
guidos e marginalizados - os primeiros cristãos, os novaguineanos ••
cerdotes. Fico confuso com sua referência à "dialética" africana;
estariam os ancestrais de Hegel e Marx mesmo à solta entre as colu-
nas de Tebas? Denunciando furiosamente o Cânone de papiro? Pro-
colonizados e os negros nos Estados Unidos e na África, que sabem
que seu passado distante foi riscado da história.
E foi mesmo. Nisso os afrocentristas têm razão, embora todo ••
testando contra a falta de escultores de esfinges gays e mulheres? estudioso respeitável da história negra tenha tratado disso também.

Sobre isso, infelizmente, os hieróglifos calam.
Diop gostaria que acreditássemos que nada pode ser importa-
do na África, que nada é estrangeiro para ela, porque tudo já esta-
O racismo dos historiadores tradicionais dos séculos XIX e XX, quan-
do se trata das culturas da África, tem sido apavorante. A maioria
deles recusou-se a acreditar que as sociedades africanas tivessem uma .'•
va lá. No fundo, e independentemente do quanto suas idéias exci- história que valesse a pena ser contada ou mesmo pesquisada. O ca-

.'•
tem alguns americanos negros, Diop foi um maluco; esse tipo de tálogo de citações poderia prosseguir indefinidamente, e uma só ser-
ingênuo difusionismo, em que idéias e formas culturais começam virá por todas - Arnold Toynbee, emA study of history [Um estu-
no ponto A, e depois irradiam-se para outras culturas, em que to- do . de História]: "Quando classificamos a humanidade pela cor, a

••
dos os fios retornam a uma única causa, ou centro, ou manipulador única das raças primárias [...] que não deu uma única contribuição
de títeres, não encontra muita simpatia entre os historiadores atuais, criativa a qualquer de nossas 21 civilizações foi a raça negra".
porque ignora o modo como idéias e formas semelhantes nascem Nenhuma pessoa negra - na verdade, nenhum historiador mo-

.•\
derno de qualquer raça - pode ler essas mornas rejeições sem in-
espontaneamente em sociedades muito distantes. Como observou
credulidade e nojo. O problema é: como corrigir o registro? Só com
John Baines, professor de egiptologia em Oxford, quando resenhou
mais conhecimento. Toynbee escrevia há mais de cinqüenta anos,

.'.'
os livros de Diop e Bernal no New York Times, "nem todos os que
mas nos últimos vinte deram-se imensos passos nos estudos africa-
duvidam dos princípios do difusionismo são eurocentristas. Na ver-
nos, tanto na África quanto na América negra. Mas a maré cres-
dade, o próprio difusionismo foi produto de uma era racista e colo-
cente de pesquisa, o surgimento de programas de Estudos Negros
nialista, e serviu a uma ideologia de dominação [... ] para atacar a
visão errônea de que os africanos não foram autônomos e inventi-
vos, [os autores] sugerem que outras culturas não podem ter sido
autônomas e inventivas".
nas universidades americanas, e tudo o que acompanha a expansão
há muito necessária desse campo parecem condenados a ser empes-
teados por movimentos como o afrocentrisrno, do mesmo modo co-
• ••
mo sempre há malucos matraqueando sobre discos voadores na pe-
Mas o desvio de Diop é bastante claro. A África pode tomar
qualquer coisa que queira da cultura e tecnologia euro-americanas
sem perder sua essência africana, porque tudo o que existe já existia
riferia da arqueologia meso-americana.
A segunda alegação do afrocentrismo, portanto, é que a cultu-
ra européia deve sua própria existência à África. A África coloni-
••
outrora na África. Ela está simplesmente retomando sua proprie-
dade roubada. Pode-se chamar isso de teoria do culto da carga da
história; relaciona-se com o mito da Era de Ouro, quando tudo era
zou a Europa benignamente, dividindo com ela seu conhecimento.
Isso se deu através da influência egípcia na Grécia, mas nesse
processo as conquistas pioneiras da África se perderam ou foram
••
de todos e abundante. A religião do culto da carga está profunda-
mente relacionada ao nacionalismo da Nova Guiné. Seus adeptos
afirmam que numa certa época toda a "carga" (bens) do mundo
disfarçadas. Sulcar a literatura do afrocentrismo é entrar num mundo
de alegações sobre inovação tecnológica tão absurdas que transcen- ••

dern a sátira, como as feitas sobre a ciência russa na época de Sta-
pertencia aos novaguineanos. Depois veio a queda do homeJ?: vie- lin. Os egípcios, aliás africanos, inventaram a bateria úmida obser-

•.'
112 113
•• . \

•• \Frando enguias elétricas no Nilo. O "erudito" afrocentrista Ivan van


Sertima afirma que egípcios negros no fim do primeiro milênio a. C.
- voavam em planadores; esta notícia se baseia não na descoberta
'Essa nova efusão de racismo vem guarnecida com argumentos
propondo que, como só os que estão no poder podem ser racistas,
o racismo negro não o é de modo algum. E em cima disso oferece-

•• de uma aeronave num túmulo egípcio, mas numa escultura votiva


de madeira do deus Horus, um falcão, que um comerciante inglês
de passagem tomou erroneamente, há algumas décadas, por um ae-
.s e aos jovens negros a promessa ilusória do sentimento da Volta-à-
África. Todos os grupos migrantes americanos extraem identidade
cultural, e certo grau de força espiritual, do senso de suas raízes ori-

•• rOm Odelo . Sertima também ensina que os tanzanianos, há 1500 anos,


( fundiam aço com tecnologia de semicondutores. Como o historia-
ginais - na Sicília ou nas ilhas Jônicas, na Irlanda ou em Cuba,
e na África. Ao sentirem saudades do útero, também sentimentali-
zam e estereotipam suas origens; isso, como qualquer estranho que
I
•• dor afrocentrista J ohn Henrik Cláfke, ele acha que a América do Sul
foi povoada por expedições vindai:'da África, cujos registros, natu-
ralmente, se perderam; o indício disso são os lábios grossos na escul-
tenha assistido a uma embalada beano [farra, festança] irlandesa
em Boston pode atestar, é um poderoso instinto tribal. Mas deve-se
li
I'
f;

t•. tura olmeca. Do mesmo modo, os afrocentristas acham que o rosto reconhecer que a "África", a imaginada entidade de que gostam 1,

de falar os afrocentristas, é em grande parte uma construção desse !


da Grande Esfinge de Gizé era na verdade de um negro, e que os sol-
dados de Napoleão receberam ordens para mutilá-lo com fogo de ca- tipo - um paraíso materno perdido.

•• nhão a fim de ocultar o fato. Não há nada que prove essas histórias,
mas também nada que as conteste - uma condição comum a tudo
que não aconteceu. É a esse tipo de besteira que os membros do Con-
Os negros americanos, não menos que os brancos, pertencem
à cultura americana e são por ela moldados, uma cultura para a qual
muito contribuíram e na qual estão inextricavelmente entrelaçados

•• (selho de Regentes do Estado de Nova York se referem como "fontes


\de conhecimento não dominantes' 'J
suas imaginações e atos: só têm em comum com os negros africanos
os genes e, no caso de Estados africanos que foram colônias ingle-
sas, a língua inglesa. Imaginar que a experiência cultural de um ne-

•• Por que os americanos demonstram tal credibilidade diante de


pessoas com diplomas? John Henrik Clarke tem um doutorado e
é encarado por muitos negros como, nas palavras de Henry Louis
gro americano se assemelha à de um cidadão de Zimbábue, ou U gan-
da, ou África do Sul, além do fato básico de que ambos sofreram

••
os efeitos corrosivos e humilhantes do racismo branco, é pura fan-
Gates JI., "o grande paterfarnilias do movimento afrocêntrico ". É
tasia.
também um maluco anti-semita, dado a denunciar o que chama de
Jamais houve no passado, no sentido estrito, uma cultura pan-

'•.
'é a máfia educacional judia"; escrevinhou uma introdução a uma
africana: ao contrário, sempre houve muitas tribos, muitas línguas,
obra racista de pseudociência intitulada The Ieeman inheritance: pre-
muitas culturas, muitas religiões e cultos contraditórios, e muitos
historie sourees of Western man 's racism, sexism and aggression [A reis; e, não é preciso acrescentar, muitas guerras entre eles. Os hor-

••
herança do homem do gelo: fontes pré-históricas do racismo, sexis- rores da África pós-colonial se devem em grande parte ao fato de
mo e agressão do homem ocidental], cujo autor, Michael Bradley, que os novos governantes negros puderam enxertar modernas téc-
afirma que os judeus são o pior povo da terra porque foram outro- nicas de opressão em antigos ódios tribais; as fronteiras das nações-

•• ra os "mais puros e antigos Neanderthal-caucasóides " . Mal se po-


de acreditar que os judeus americanos, que estiveram na linha de
frente da luta pelos direitos civis para os afro-americanos na déca-
Estado africanas raramente correspondem a divisões tribais, de modo
que as tribos dentro de um Estado vivem sempre na garganta umas
das outras. Quinze anos atrás, já era claro que os mais -benignos le-

•• da de 60, sejam agora alvos de ataques anti-semitas de uma nova gados do colonialismo britânico, como tribunais independentes e ser-

-.• geração de negros, levados por professores como Leonard Jeffries


a acreditar na historicidade de textos de ódio como a durável falsi-
ficação tsarista, os "Protocolos dos sábios de Sião". Mas graças
à ascensão dos pseudo-estudos afrocentristas, os negros são os úni-
viços públicos relativamente não-corruptos, foram as primeiras coisas
a ser abandonadas pelas ex-colônias britânicas na África que se trans-
formaram em ditaduras militares nacionalistas. Quem contestaria
a sério que os ugandenses estavam melhor, econômica ou legalmen-

•• cos americanos entre os quais o anti-semitismo, em lenta desapari-


ção em toda parte, está em ascensão. 12
te, sob lord Lugard na década de 10 do que estão hoje, depois de
Idi Amim e seus sucessores? O Zaire, ex-Canga belga, é uma disto-

•• 114 115
••
pia falida cujo tirano, o presidente Mobutu, tem cerca de 6 bilhões gros e brancos, têm-se esforçado para corrigir isso. Mas não há mal ••
.'
de dólares na Suíça - a dívida nacional de seu país. As pessoas vêm tão grande que não possa ser exagerado; e este tornou-se o projeto
morrendo de fome há centenas de anos na Etiópia, mas só depois de recentes afrocentristas, que desejam inventar uma espécie de his-
que o ditador Mengistu tomou o poder foi o assassinato em massa,
pela fome, de milhões de pessoas usado de fato ali 'para fins políti-
cos. A conduta dos sátrapas coloniais franceses na Guiné foi bas-
tória medicinal em que toda a culpa pela invenção e prática da es-
cravidão negra é deposta na porta dos europeus. Isso é profunda-
mente não-histórico, mas está se firmando na consciência popular
••
tante medonha, mas dificilmente pior que a corrupção de Seiko Tou-
ré, o Calígula .negr o que assumiu quando os franceses saíram e
governou o país de meados da década de 60 a inícios da de 70. Além
através dos novos currículos.
Houve três grandes revoltas de escravos na história humana.
A primeira, chefiada pelo gladiador trácio Espártaco contra os ro-
••
disso, pode ser que os Estados africanos que não tiveram registro
significativo de colonização européia - a Libéria, que na verdade
manos, ocorreu em 73 a.C. A terceira foi na década de 1790, quando
••
.'
o grande revolucionário negro Toussaint l'Ouverture e seu exército
foi fundada por escravos americanos que voltaram para a África de escravos tomaram o controle de São Domingos dos' franceses,
no século XIX, e a Etiópia - sej am os que se mostraram piores. A apenas para serem derrotados por Napoleão em 1908. Mas a segun-
idéia de que os afro-americanos têm um lugar à espera deles numa
"África" generalizada, em qualquer sentido que não metafórico,
da ficou a meio caminho entre essas duas, no meio do século IX
d .C., e é menos documentada do que elas . Sabemos que os insur- ••
.'
é mera demagogia cultural. Nem negros nem brancos podem "vol- gentes eram negros; que os califas abássidas muçulmanos do Iraque
tar para casa de novo", a não ser como turista; seu lar mútuo, com os tinham trazido da África Oriental para trabalhar, aos milhares,

••
todos seus ideais, oportunidades, conflitos e males, são os Estados nas salinas do delta do Tigre. Esses rebeldes repeliram os árabes du-
Unidos, e eles não têm outro. rante quase dez anos. Como os quilombolas do Brasil séculos de -
pois, estabeleceram suas fortalezas nos pântanos. Pareciam inexpug-
VII
náveis, e na verdade só foram esmagados pelos muçulmanos em 883.
Eram conhecidos como os Zanj, e legaram seu nome à ilha de Zan-
zibar, na África Oriental - que, não por coincidência, se tornaria
••
Em parte alguma são as fraquezas e a natureza propagandísti- e continuaria a ser o centro do mercado de escravos no mundo ára-

.'•
ca do afrocentrismo mais visíveis que em sua versão da história dos be até o último quartel do século XIX.
escravos. A revolta dos Zanj 1100 anos atrás devia lembrar-nos da abso-
A escravidão é uma das mais antigas e piores instituições hu- luta falsidade da linha de argumentação hoje em moda que tenta
manas. Seus legados permanecem nos Estados Unidos de hoje, no
sofrimento e malefício social causado a seu povo negro, no racismo
de seus brancos. Todos os tipos de racionalização e desculpa para
sugerir que a escravização de negros africanos foi invenção de bran-
cos europeus. É verdade que a escravidão estava inscrita na base do
mundo clássico; a Atenas de Péricles era um Estado escravagista,
••
esse Pecado Original da República americana encheram no passado
o ensino da história americana. Como observou Arthur Schlesinger
J r., entre outros, a história foi por muito tempo escrita por e para
e também o era a Roma de Augusto . A maioria de seus escravos
era de brancos caucásicos , e "na Antiguidade, a servidão nada tinha
a ver com fisionomia" ou cor de pele" . 13 A palavra inglesa s/ave sig-
••
brancos, que usurparam as imagens da vida afro-americana e as de-
volveram como estereótipos distorcidos, consoladores para os pre-
conceitos brancos e humilhantes para o autoconhecimento negro.
nificava uma pessoa de origem eslava. No século XIII, tinha-se es-
palhado para outros povos caucásicos subjugados por exércitos da ••
••
Ásia central: russos, georgianos, circassianos, albaneses, armênios;
Não se pode confiar que nenhuma história geral americana escrita todos os quais encontravam compradores de Veneza à Sicília e Bar-
por um branco até a década de 60 dê uma visão justa, investigató- celona, e por todo o mundo muçulmano.
ria, do que significaram a escravidão e seus resultados para os ne-
gros americanos - ou, igualmente, do que a conquista do' Oeste
Mas o comércio de escravo africano como tal, o tráfico negro,

.'•
foi uma invenção muçulmana, desenvolvida por comerciantes ára-
significou para os índios americanos. Historiadores americanos, ne- bes com a entusiástica colaboração de comerciantes negros africa-

116


117
••
•• nos , institucionalizada com a mais implacável brutalidade séculos
antes de o homem branco aparecer rio continente africano, e conti-
. na comunidade negra como The secret relationship penetrara, uma
vez que é da natureza dos textos paranóides inocular os leitores in-

••
nuando muito depois que o mercado de escravos na América do Nor- gênuos contra sua refutação; toda resposta torna-se parte da pró-
te fo i afinal esmagado. pria generalizada conspiração global.!"
Historicamente, esse tráfico entre o Mediterrâneo e a África sub - Nos "Ensaios de base" e em outros, temos uma negação pura

•• saariana começa com a própria civilização que os afrocentristas es-


tão tão ansiosos para reclamar como negra - o antigo Egito. A es-
cravidão africana já estava em pleno vigor muito antes disso: .mas
e simples de que o Egito sequer tivesse escravos, o que seria novida-
de para Moisés, e muitos murmúrios de que a escravidão africana,
bem .. . existiu, mas foi muito mais benigna que sua equivalente ame-

•• no primeiro milênio a. C. o fara ó Ramsés II gabava-se de prover os


templos com mais de 100 mil escravos, e na verdade é inconcebível
que a monumental cultura do Egito pudesse ter surgido sem uma
ricana. Masnão há generalizações a fazer sobre isso ; às vezes os es-
cravos africanos de africanos parecem ter sido aceitos quase como
parte da família ou membros da tribo, embora com direitos muito

~.
• economia escrava. Durante os 2 mil anos seguintes, as economias
básicas da África sub-saariana permaneceriam ligadas à captura, uso
e venda de escravos. Esculturas da vida medieval mostram escravos
reduzidos, e outras tratados pior que gado, espancados, estuprados
e mortos a fome - também aqui, um padrão arquetípico que seria

•• amarrados e amordaçados para sacrifício, e os primeiros explora-


dores portugueses da África, por volta de 1480, encontraram um
repetido por brancos donos de escravos no velho Sul. Como demons-
trou Roland Oliver, o mais eminente dos eruditos africanos e editor
geral da História da .África, de Cambridge, em oito volumes: tudo

••
grande mercado de escravos estabelecido desde o Canga até Benim. o que sabemos do tráfico de escravos e de sua expansão entre os
Havia grandes fazendas de escravos no império mali nos séculos XIII séculos XVI e XIX confirma que ele não poderia ter existido sem a
e XIV, e todos os abusos e crueldades impostos a escravos no Sul entusiástica cooperação de Estados tribais africanos, construídos com

•• dos Estados Unidos antebellum, incluindo a prática de gerar crian-


ças para venda, eram praticados pelos governantes negros das cida-
des que os afrocentristas hoje exibem como exemplos saneadores
base no estoque de cativos gerados por suas guerras implacáveis .1 5
A imagem divulgada por ficções de história pop do tipo Raízes
- escravistas brancos irrompendo com alfanges e mosquetes nas

•• de alta civilização, como Tombuctu e Songai.


Naturalmente, isso é um problema para os afrocentristas, so-
bretudo no contexto das idéias muçulmanas negras que muitos de-
vidas assentadas de pacíficas aldeias africanas - está muito longe
da verdade histórica. Ao longo de séculos, já havia um sistema de
mercado , e seu abastecimento era controlado por africanos .
• les esposam. Nada nos textos do Profeta proíbe a escravidão, razão E tampouco desapareceu com a abolição nos Estados Unidos .

•• pela qual ela se tornou. um comércio tão dominado pelos árabes.


É necessária uma grande mentira para neutralizar essa incômoda ver-
dade. Conseqüentemente, um dos best-sellers na comunidade negra
Em 1865, ano em que a Guerra Civil terminou com a derrota
do Sul, Livingstone estava em Zanzibar; ele calculou que entre 80
e 100 mil escravos africanos haviam sido trazidos do interior acor-

•• americana hoje é uma publicação oficial do grupo conhecido como


A Nação do Islã (cujo cabeça é o arquifanático Louis F arrakhan),
intitulada The secret relationship between blacks and jews [A rela-
rentados por escravistas árabes e africanos naquele ano, metidos em
dhows e embarcados para a Pérsia e para os Estados árabes do Golfo .
Ao contrário dos ingleses e americanos, nem os árabes nem os

•• ção secreta entre negros e judeus], uma compilação de pseudo-


história que pretende revelar o papel "desproporcional" desempe-
nhado pelos judeus na criação da "escravidão e holocau.sto neg~~s".
reis africanos no século XIX viam a menor razão humanitária para
tomar medidas contra a escravidão. Os mercados de escravos que
abasteciam os emirados árabes ainda operavam em Djíbouti na dé-

•• Suas alegações - como a ficção de que mercadores Judeus ,f~e­


qüentemente dominavam" o mercado de escravos para a Amenca
cada de 50; e desde 1960 florescem na Mauritânia e no Sudão. Ainda
há comunicados de escravidão no norte da Nigéria, Ruanda e Níger.

•• e o Caribe - foram laboriosamente refutadas, ponto por ponto,


numa resposta do historiador Harold Brackman, muitas_vezes u.sa~­
do as próprias fontes mal usadas e mal citadas pela vers~o da hIStO-
Jean-Bedel Bokassa, imperador da República Centro-Africana, a
quem Giscard d'Estaing, com sua fome de diamantes, abraçou os-
tentosamente como seu irmão negro na época da coroação em 1977,

•• ria de Farrakhan. Contudo, essa resposta não conseguiu penetrar

118
mantinha centenas de escravos, e de vez em quando preparava um

119

• I

~
••
massacre deles para sua diversão. Se, como certa vez observou H.
Rap Brown, a violência é tão americana quanto a torta de maçã,
bre história são manifestações de poder: a história só é escrita pelos
vencedores, e a verdade é política e incognoscível, a menos que al- ••
••
a escravidão parece tão africana como o inhame. guma vítima a conheça nos ossos.
E, no entanto, a idéia da culpa exclusiva da Europa e da Amé- Esse sofisma é que permite aos autores dos "Ensaios de base
rica continua a rondar as discussões sobre a escravidão. Alguns lí- afro-americanos de Portland" não apenas rechear o currículo com
deres africanos e mesmo líderes negros americanos, incluindo - um
tanto surpreendentemente - o reverendo J esse J ackson, chegaram
até a propor que os Estados Unidos e os países desenvolvidos da
ficções sobre ciência egípcia, mas inserir o mais absurdo disparate
sobre a ciência, equiparando-a a magia. Assim, ficamos sabendo que
os egípcios negros, quando não estavam voando por aí em planado-
••
Europa, que lucraram com a escravidão, agora contribuíssem com
uma espécie de dinheiro de sangue para os Estados africanos, como
res, podiam prever o futuro com "tratados astropsicológicos". Po-
diam ver coisas que não estavam à vista, ou antes que aconteces- ••
.'•
reparação oficial pelo dano social e econômico causado ao conti- sem. Construíram as pirâmides por telecinese - é só se concentrar

.'
nente no passado com o tráfico de escravos, para ajudar esses Esta- bastante, que a gente pode fazer um bloco de calcário de cem tone-
dos a montarem sua base econômica. A África moderna, afirmam, ladas flutuar no ar. Pelo menos essa arqueologia à la Shirley Mac
tem tanto direito quanto teve Israel às imensas subvenções que lhe Laine resolve o incômodo problema do trabalho escravo egípcio,
têm sido pagas pelos Estados Unidos e outros países como expiação
pelo assassinato de judeus europeus por Hitler. Curiosamente, ne-
nhum deles sugere que os emirados árabes ou o Iraque entrem com
já que não queremos que esses egípcios negros tivessem eles próprios
escravos . O ensaio em que ficamos sabendo disso tudo, e muito mais,
é escrito por Hunter Havelin Adams IlI, que se descreve como "cien-
tista pesquisador nos Laboratórios Nacionais Argonne, Chicago".
.;.'
sua parte, que, por todos os direitos, deveria ser grande, maior que
a da Europa ou mesmo dos Estados Unidos, e que com a mesma
facilidade seria levantada da receita do petróleo . Se Washington deve
Isso soa vagamente impressionante, mas na verdade, segundo a Ar-
gonne, o sr. Adams é um assistente de laboratório que tem como ••

pagar em dinheiro pelos pecados de Simon Legree, parece simples- tarefa recolher amostras de ar, sem qualificações além de um diplo-

•.'
mente justo que Bagdá expie os dos califas abássidas. ma ginasial. Outro exercício remediador, desta vez de biografia.
África, Islã e Europa, todos participaram da escravidão negra,

.'
impuseram-na, lucraram com suas misérias. Mas no fim só a Euro-
pa (aí incluindo a América do Norte) mostrou-se capaz de conceber VIII
sua abolição; só a imensa força moral e intelectual do Iluminismo,
assestada sobre a hedionda opressão que representava a escravidão,
pôde - irregularmente e com grande dificuldade - pôr fim ao trá-
fico. Que hoje tenhamos supostos historiadores dispostos a sofis-
A palavra "auto-estima" tornou-se uma das senhas obstruti-
vas da educação. Por que as crianças negras precisam de educação
afrocentrista? Porque, dizem seus promotores, ela cria auto-estima.
••
mar esse fato, me parece notável. Mas também, nessas alturas, nem
a Navalha de Occam nem a idéia de que o ônus da prova recai sobre
Elas vivem num mundo de meios de comunicação e instituições cujas
imagens e valores são criados sobretudo por brancos. A tradição
branca é denegrir os negros. Daí os negros precisarem de modelos
•e·
••
a pessoa que faz a acusação têm qualquer força.
Pois aqui topamos de novo com uma lei fundamental da atitu- que lhes mostrem que são diferentes, e que contam. Quer que seus
de PC em relação a estudos da opressão. O que quer que diga um filhos se amem? Então mude o currículo. Dê-lhes blá-blá-blá racista
de que a inteligência está em-função da quantidade de melanina na
historiador ou testemunha europeu branco e homem deve ser sus-
peito; as declarações de uma pessoa ou grupo oprimido merecem
crédito instantâneo, mesmo sendo a mais simples afirmação. Ora,
pele, e que os africanos eram pessoas do sol, livres, abertas e coope-
rativas, enquanto os europeus eram pessoas do gelo, escondendo-se, ••
as alegações da vítima têm de ser ouvidas, porque podem lançar luz
so bre a história. Mas têm de passar exatamente pelos mesmos testes
que as de qualquer outro, ou o debate fracassa e a verdade sofre.
pálidos, em cavernas.
O papo a respeito da auto-estima nos chega embrulhado em sen-
timentos que, se manifestados por brancos, disparariam sinos de alar- ••
A justificativa PC para isso é a idéia de que todas as declarações so-

120
me de racismo. As crianças negras, lemos nos "Ensaios de base de

121
••.\
••
•• Portland", são impelidas por sua herança genética a " p rocessar in-
formação de um modo diferente" das brancas - uma alegação que
os supremacistas brancos, de seu lado da cerca, vêm fazendo desde
E do século xx também. E se perguntarem quais os objetivos
desses esforços para.confundir história e mito, em todos os casos
a resposta é a mesma. Auto-estima. Os alemães perderam auto-estima

•• antes da Guerra Civil. A verdade é que, para citar Albert Shanker,


presidente da Federação Americana de Professores, "as crianças po-
bres, de minorias, cujo desempenho ainda fica atrás do dos garotos
após o Tratado de Versalhes. Os italianos tinham baixa auto-esti-
ma na década de 20, e estavam compreensivelmente cansados de ser
vistos corno um país de tocadores de realejo e fabricantes de gelato .

•• brancos , de classe média, merecem a melhor educação que possa-


mos dar-lhes. Não vão recebê-la se substituirmos história por mito
A auto-estima irlandesa fora rebaixada por setecentos anos de colo-
nização inglesa e preconceito religioso, pela perda dos direitos polí-
ticos dos católicos. Mas o desejo de auto-estima não justifica toda

••
ou ciência por magia" .
Partindo dessa mixórdia, os afrocentristas querem criar urna mentira, exagero e distorção 't er ap êuti ca de provas que se pode ale-
história separatista e impô-la a crianças ainda jovens demais para gar para aliviá-lo. O separatismo que isso promove transforma o
que devia ser um reconhecimento da diversidade cultural, do verda-

•• contestá-la. Fala-se mesmo em mudanças curriculares segundo as


linhas do documento de Portland para crianças de três anos. Não
é difícil ver por que essas alegações de história puramente compen-
deiro multiculturalismo, generoso e tolerante de ambos os lados, num
pernicioso programa simbólico. O separatismo é o oposto da diver-

•• satória se intensificam agora. São simbólicas . Fazem parte de urna


reação de desespero, frustração e raiva contra doze anos de gover-
sidade, e também pode fazer alianças espúrias. Quase trinta anos
atrás, os Muçulmanos Negros de Ma1colm X e o Partido Nazista
de George Lincoln Rockwell fizeram um comício conjunto no Ma-

•• no direitista, de políticas obstinadamente anti-reformistas de Rea-


gan e Bush, de identificação republicana de racismo com populis- dison Square Garden para dramatizar suas esperanças mútuas de

•• mo. Em 1989, cerca de 40 por cento de todas as crianças negras


viviam abaixo do nível de pobreza, enquanto as esperanças de igual-
dade racial e maior oportunidade educacional para os afro-
cindir os Estados Unidos em zonas segregadas, uma para negros ,
outra para brancos.
A idéia de que a cultura européia é opressiva, em si e por si,

•• americanos pobres despertadas em meados da década de 60 esta-


vam praticamente extintas.
Mas isso apenas torna compreensíveis as alegações da pseudo-
é uma falácia que só pode sobreviver entre fanáticos e ignorantes.
A convicção moral e intelectual que inspirou Toussaint l'Ouverture
a 'concentrar os ressentimentos dos escravos haitianos e os levou à

•• história afrocentrista. Não a justifica, nem a credencia corno conhe-


cimento. O nacionalismo sempre precisa escorar-se em mitos; e quan-
to mais novo o nacionalismo, mais antigas suas' alegações.
liberdade veio de sua leitura de Rousseau e Mirabeau. Quando mi-
lhares de trabalhadores sem voto, sem propriedade, por toda a In-
glaterra, se reuniram em grupos de leitura na década de 1820 para

•• Foi assim que os nacionalistas culturais irlandeses - Yeats e


seus amigos, na década de 1890 - conseguiram criar um passado
discutir idéias republicanas e descobrir o significado de Júlio César,
de Shakespeare, eles buscavam unir-se tomando os sentidos de uma
cultura dominante das mãos de tutores que não estavam à altura

•• mítico para a Irlanda, o crepúsculo celta repleto de heróis e reis de-


saparecidos, Cuchulain e Briann Boru. Assim é que o tartan, tecido
de lã xadrez desconhecido na antiga Escócia, foi na verdade inven-
deles. Nos últimos duzentos anos, as vítimas de opressão sempre con-
seguiram encontrar uma visão transformadora e fortalecedora den-

•• ção de fabricantes de têxteis de fins do século XVIII e do século XIX.


. Assim é que os catalães do século XIX, furiosamente ressentidos com
a supressão de seu idioma e a perda de sua autonomia política para
tro da literatura e do pensamento da Europa. É um ato da mais ba-
rata condescendência supor que isso não pode ser mais assim, e que
esse edifício imenso, complexo e multicelular, essa colméia que os

•• Madri após a conquista de Barcelona pelos Borbon em 1714, cria-


ram todo um sistema de revivescência cultural baseado numa ver-
são altamente seletiva, e mitologizada, de. seu passado medieval e
reducionistas tomam por "monolito", não pode mais conter res-
posta alguma para as necessidades dos fracos, as aspirações dos des-
possuídos e as exigências dos que buscam autodefinição cultural.

•• de suas instituições desaparecidas. A invenção da tradição, corno


mostraram em detalhe Eric Hobsbawm e outros.l'' foi uma das in-
dústrias culturais da Europa do século XIX.
As idéias americanas de democracia liberal só podem alimentar-
se em suas fontes, que estão absolutamente dentro da tradição eu-
ropéia; e é muito mais importante que os jovens as conheçam antes .

•• 122 123


••
de passar a adquirir qualquer conhecimento que queiram sobre a
antiga cultura do Dogon ou as instituições políticas dos iroqueses. ••
O principal vem primeiro. O separatismo cultural dentro desta re-
pública é mais uma moda que uma proposta séria; não é provável
que se sustente, mas se o fizesse seria uma tragédia educacional pa-
3
••
ra aqueles a quem pretende ajudar, os pobres e os negros. Seria um
gesto não de "fortalecimento", mas de emasculação . A auto-estima
vem de fazer bem as coisas, e de descobrir o que nos une, além do
A MORALEM8f ••
que nos separa. A postura do politicamente correto, e sua culpada
tolerância COIU picaretas do tipo Leonard J effries e o reverendo AI
Sharpton, não servem mais de orientação para essas questões do que
A arte e a falácia
terapêutica ••
as opiniões de Simon Legree.
••
••
.' ••
.'•
.'.'•
••

.'••
••
••
124
••
•• I
/
••
••
••
••
•• Em questões de artes visu ais, a "guerra cultural" americana

•• começou oficialmente em 18 de maio de 1989, no plenário do Sena-


do dos Estados Unidos em Washington, quando o senador Alfonse
D' Amato (republicano de Nova York) rasgou a repr o dução de urna

•• foto e jogou os pedaços no chão. A foto havia sido enviada pelo


reverendo D·onald Wildmon, um ativista religioso cujo grupo de pres-
são, a Associação Familiar Americana, fora formado para comba-

•• ter a disseminação da pornografia, indecência e sentimento irr eli-


gioso nos Estados Unidos. A especialidade de Wildmon é descobrir

•• mensagens negativas, os tensivas e subliminares , nos meios de co-


municação e nas artes, e depois estimular a pressão por meio de cartas
sobre as empresas patrocinadoras. Antes ele já havia feito campa-

•• nhas contra a adaptação para a TV, por David Wolper, do lacrimoso


best-seller de Coleen McCullough, Pássaros feridos, contra o filme
de Martin ScorceseA última tentação de Cristo, e contra videoclips

•• de Madonna. Conseguiu f or çar a CBS a cortar uma seqüência de 3,5


. segundos num desenho animado de Ralph Bakshi em que se mos-
trava o rato Possante cheirando uma flor: o que o soez roedor na

•• verdade estava cheirando, insistia Wildmori, era cocaína. 1


A imagem rasgada reproduzia uma foto de um artista, Andrés
Serrano. Mostrava um crucifixo de plástico barato, desses vendidos

•• por toda parte em lojas de artigos sacros e kitsch religioso, mergu-


lhado num líquido âmbar coberto de bolhas. O título da obra de

•• arte, Piss Christ [Cristo de mijo, ou Mije no Cristo], deixava claro


o que era o líquido . E era do próprio artista. Piss Christ era sob
todos os aspectos uma obra autógrafa.

•• Se Serrano houvesse dado à sua grande e tecnicamente esplên-


dida foto Cibachrome um outro título - La catedral ahogada, tal-

•• 12 7
••
vez, ou mais prosaicamente, Immersion study (1) - não haveria co-
mo saber que era urina. Mas ele quis fazer uma declaração de prin-
Contudo, nem o punhal-crucifixo nem o Jesus de chocolate ti-
nham sido recompensados com dinheiro vindo do governo ameri- ••
••
cípios marcante, trepidante, sobre duas coisas: primeiro, a degra-
cano, o que ocorreria no caso do autor de Piss Christ, Pouco antes
dação da imagística religiosa de massa no kitsch (inescapável nos
de Donald Wildmon mandar sua queixa ao senador D'Amato, Ser-
Estados Unidos, como sabe qualquer cristão consciente), e segun-
rano ganhara um prêmio de 15 mil dólares do South-Eastern Cen-
do, seu ressentimento contra a moralidade coercitiva de suas raízes
hispano-católicas. Serrano é um ex-católico altamente conflituado
e sua obra - sobretudo imagens como Piss Christ - trata desses
ter for Contemporary Art (SECCA), em Winstou-Salem. O SECCA
recebera o dinheiro para esse prêmio - antes de seu júri decidir
concedê-lo a Serrano - do National Endowment for the Arts (NEA).
••
conflitos. Nenhuma imagem deixa de ter sua história, e a de Serra-
no pertence a uma vertente bastante antiga na arte moderna - a
blasfêmia anticlerical surrealista. Piss Christ tem vários ancestrais
A verba fora concedida sem condições, e ninguém no NEA teve o
menor papel na escolha de Serrano como vencedor. Apesar disso, ••
•••
Serrano acabara, indiretamente, com dinheiro do governo no bol-
remotos, incluindo o famosolinfame quadro de Max Ernst da Vir-
so, uma situação que Wildmon, numa carta circular, declarou sig-
gem Maria batendo no Menino Jesus, e a foto desfocada, ancestral
nificar que "a parcialidade e intolerância com os cristãos, que têm
do moderno happening, de um poeta surrealista xingando um pa-
dre numa calçada de Paris na década de 20.
Nem toda a obra de Serrano busca seus efeitos através da blas-
fêmia. Mas Piss Christ certamente o fez, e não há como contornar
dominado a televisão e o cinema na última década ou mais, agora
tomaram conta dos museus de arte", e que isso pressagiava uma
era de "perseguição física aos cristãos" - senão entregando-os aos
•.'
isso.
leões do Coliseu como na Antiguidade romana, talvez lançando-os
••
.••)
aos tubarões que circulam em imensas banheiras de urina no Sea-
Claro, após o fato, pode-se historicizar e fazer objeções à von-
World. Aproveitando a deixa de Wildmon, o senador D' Amato
tade. Pode-se observar que o crucifixo de plástico na verdade não
ergueu-se no Senado para denunciar o NEA. "Isto é um insulto, e
era Cristo, mas uma representação de Cristo - mas esse sofisma

.'.'
os dólares de impostos de nosso povo não devem sustentar esse li-
magrittiano , ceei n 'est pas un Dieu, não cola. A imagem é forte
xo, e não deveríamos emprestar-lhe dignidade." Leu então, para fi-
demais. .
car registrada, uma carta assinada por duas dezenas de senadores


Também se pode observar que os crucifixos .são produzidos co-
(a maioria republicanos conservadores), protestando que a obra é
mercialmente por todos os tipos de razões esdrúxulas, sem causar
"chocante, nojenta e completamente indigna de qualquer reconhe-
tempestades morais: assim, no mesmo mês em que os políticos co-
cimento. Milhões de contribuintes estão justificadamente indigna-
meçaram a dedicar suas atenções a Serrano, eu recebi um catálogo
dos [...] Há uma visível falha nos procedimentos usados para esco-

••.'
de encomendas postais de uma empresa de cutelaria, especializada
lher a arte e os artistas que merecem o apoio do contribuinte [... ]
em facas de caça e pesca, que anunciava uma pequena arma, digna
Esta questão não envolve liberdade de expressão artística".
em concepção, embora não em execução, dos Bórgia: um punhal
Mas envolvia, sim; e a prova disso surgiu no escândalo que es-
oculto num crucifixo, made in Taiwan, e custando 15,99 dólares.
tourou a seguir sobre a obra do' fotógrafo Robert Mapplethorpe.

••.'
Isso, podemos pensar, não deixa de ter seu aspecto blasfemo tam-'
Para mim, o interesse do caso Mapplethorpe está em sua crua
bérn. E na última Páscoa, o drugstore na região leste de Long Is-
exibição de valores americanos em colisão -mas não em muito
land o.nde moro vendia crucifixos de chocolate com uma imagem
mais. Apesar do entusiasmo de seus fãs, jamais consegui achá-lo um
gr?Ss,:lfa de Jesus t~azendo impresso: "Comei isto em memória de

.'•.'
grande fotógrafo. Visitei seu estúdio em Nova York pela primeira

I
MIm . Por que sena certo alguns americanos comerem a imagem
vez em 1970; na época, seu trabalho consistia de colagens fetichis-
de seu Salvador e transformá-la em fezes, enquanto outros ameri-
tas, mas banais, de fotos de carne humana com o acréscimo de coi-
ca~os se contorcem à idéia de que outra imagem do mesmo Salvador
sas como 'um suporte atlético de pele de leopardo ou um penso de
fOI mergulhada em urina, parece um enigma próprio para intrigar
} gaze com uma mancha de pus. "Esse aí", disse a mim mesmo ao
um moderno Tocqueville. Mas não no coração da terra americana
descer a escada quarenta minutos depois, "é um talento do qual não
onde a indústria da religião é imune à crítica ou à dúvida.'

128
,
\
1
vamos ouvir falar muito. " Se alguém me dissesse então que Robert

129
••
••
e_
••
•• 1vlapplethorpe ia ser tão famoso quanto Jackson Pollock dentro de
vinte anos, e que o escândalo causado por sua obra iria ameaçar
o equilíbrio de todo o relacionamento entre museus e governo nos
fect momento Foi exibida ~a Pensilvânia e em Boston sem o menor
incidente, e no Whitney Museum de Nova York com cenas de entu-

•• Estados Unidos, eu diria que esse alguém estava louco. Eis o que
vale o crítico como profeta.
Vi muito da obra dele, embora não ele próprio, nos anos se-
siasmo dignas dos momentos mais triunfantes de seu mentor, Andy
Warhol. Mas, quando ia ser mostrada na Corcoran Gallery eln Wash- ; !

••
1;
ington, a exposição sofreu um maciço ataque dos conservadores, com
g~i?-tes: as !mag~ns de sado-masoquismo grosseiras, brutais, do port-
: ,
I
base em que a mostra fora em parte subvencionada por verba do Na-
fólio porno, as elegantes fotos superapresentadas de Lisa Lyons os ' I

tional Endowment for Arts, e que o governo não tinha o direito de


gélidos nus masculinos em homenagem a Horst e ao barão Von Gloe-

•• den, as. flore~ ~e .Edward yYeston. Era a obra de um homem que


conhecia a história dos fotografos, e para quem a câmara era um
.gastar o dinheiro do contribuinte apoiando obras tão repugnantes
à sensibilidade moral geral do público americano.
Na verdade, a Corcoran não recebera nenhuma verba do NEA

••• instrumento de citação. Como me observou muito depois Mike Wea-


ver, editor ~~History ofphotography, de Oxford, a sair brevemen-
te, a melhor" obra dele.
para montar a exposição de Robert Mapplethorpe, embora houvesse
recebido para outros projetos antes . O dinheiro do NEA para Map-
plethorpe fora para o Instituto de Arte Contemporânea da Uni-

•• é o grupo de nus formalistas, na verdade geométricos, baseado num


gosto década de 90 por magia ritual do tipo expresso antes por outro
versidade da Pensilvânia, que patrocinara a exibição em primeiro
lugar. A soma era de 30 mil dólares, representando cerca de um

••
grande fotógrafo gay, Fred Holland Day. O uso [por ele] do pentân- sessenta avos de 1 por cento de um pêni de cobre para cada ho-
gulo em forma humana vem de seu suposto compromisso satânico com mem, mulher e criança dos Estados Unidos; mas, como Hilton
o perrtagrãm a invertido de Eliphas Lévi, mestre de Aleister Crowley Kramer e outros se deram ao trabalho de observar, era dinheiro

••
[.. .] Jamais pós-modernista, nem mesmo modernista, foi um verda-
público mesmo assim. Não houvera protesto algum, e muito me-
deiro reacionário . Por isso, claro, ele é tão popular. Como Simeon
nos "indignação pública", com a exposição antes de ser montada
Solomon e Beardsley antes, Mapplethorpe foi um simbolista de estilo
maneirista. . em Washington. Apesar disso, aquele tribuno do povo, o senador

•• No portfólio pornô, O chique maneiroso das imagens era lan-


çado de volta ao imediatismo pela violência pornográfica do tema .
lesse Helms, viu em Mapplethorpe uma oportunidade de ouro pa-
ra despertar a consciência direitista sobre obscenidade e imundí-

••
cie, e quando os desdobramentos de sua ira começaram a se fazer
Mas eu não acho que chique seja um valor, sentia-me em conflito sentir diante da Corcoran, a galeria cedeu e cancelou a mostra.
com a cultura de citação gratuita que se apoderou da arte de Nova Helms e outros conservadores, incluindo os senadores Alfonse

••
York, minhas idéias de felicidade sexual não coincidiam com as de D'Amato e Orrin Hatch, tentaram então empurrar uma emenda
Mapplethorpe, e por isso, quando ele me pediu que escrevesse uma no Senado, impedindo o NEA de voltar a subvencionar esse mate":
introdução para o catálogo de sua exposição - a exposição que ia rial anti-social. A emenda de Helms propunha que nenhuma verba

•• causar todo o problema - tive de dizer-lhe que, como o portfólio


pornô era obviamente uma introdução ao seu trabalho e (eu achava
na época) sua principal pretensão à originalidade, e como eu acha-
do governo deveria ser dada pelo NEA para "promover, dissemi-
nar ou produzir", em suas palavras exatas,

•• va as imagens de humilhação sexual e tortura nele contidas (pene-


tração anal com o punho, servidão brutal, e um homem urinando
na boca -de ontro) demasiado repugnantes para escrever sobre elas
1) materiais obscenos ou indecentes, incluindo mas não limitando-se
a descrições de sado-rnasoquisrno, hemo-erotismo, exploração de crian-
ças, ou indivíduos empenhados em atos sexuais;

•• com entusiasmo, era melhor ele procurar outra pessoa. O que ele
fez. E encontrou várias, na verdade.
2) material que denigra os objetos ou crenças dos adeptos de uma
determinada religião ou não-religião; ou,
3) material que denigra, humilhe ou insulte uma pessoa, grupo ou

••
Ora, a maioria de nós sabe, pelo' menos em resumo, o que acon-
classe de cidadãos com base em raça, credo, sexo, deficiência, idade
teceu com a retrospectiva de Mapplethorpe em 1988-90, The per- ou origem nacional.

•• 130
131
••
A característica mais óbvia e curiosa da emenda de Helms era
que, se não viesse de um senador republicano notoriamente direitis-
sem farejando sorrateiros atrás daquele um 6 mil avos de pêni do
contribuinte decente médio americano. (Em geral, o fato de que nem
Serrano nem Mapplethorpe tinham pedido, nem diretamente rece-
••
ta, podia-se tomá-la - sobretudo nas duas últimas cláusulas - por
algum regulamento sobre limitações ao discurso na universidade pro-
posto pelos agitadores nominalmente esquerdistas da correção polí-
bido, qualquer dinheiro do NEA tendia a perder-se na retórica. Ne-
nhuma das fotos de Mapplethorpe ou Serrano foi feita com apoio ••
tica. Era difícil saber o que Helms pretendia exatamente com' 'uma
determinada religião ou não-religião", mas sem dúvida a cláusula
3 deixou claro que ele era contra o racismo , o sexismo, o deficien-
do NEA; mesmo assim, devido à bem-sucedida propaganda da di-
reita política e religiosa, milhões de americanos ainda imaginam que
o NEA foi correndo atrás dos dois, enfiando-lhes o dinheiro nos bol- ••
tismo, o aparentismo e qualquer das outras ofensas contra a etique-
ta social cuja proscrição pelo PC já causava tanta diversão e riso en-
tre os neoconservadores. Assim, os extremos se tocam.
sos para ajudá-los a fazer o diabo.)
Apesar disso, é preciso ser excessivamente ingênuo para achar
que a censura não estava na raiz da polêmica . As tentativas de cor-
••
A outra peculiaridade da emenda de Helms era ter uma reda-
ção de alcance tão genérico que se tornava praticamente sem senti-
do. Iria, como observei na semana seguinte na revista Time, criar
tar a verba do governo para arte "ofensiva" eram apenas a ponta
de um esforço geral, que cresce na direita, de reprimir toda arte
"ofensiva", subsidiada ou não. A mais sábia análise desse proble-
••
uma paródia maluca de democracia cultural, em que todo cidadão
se tornaria seu próprio Catão, o Censor. Para perder a subvenção
ma foi oferecida, alguns meses depois , por um jesuíta: o reverendo
Timothy Healy, presidente da Biblioteca Pública de Nova York. "O ••
ou (se exibida num museu sob os auspícios do NEA) ser retirada das
vistas, bastava a uma obra de arte "ofender" alguém por pratica-
mente qualquer motivo. A emenda era assim uma cristalização em
debate é sobre censura", declarou o padre Healy a uma .su bcomis-
são da Câmara sobre educação pós-secundária em novembro de
1989,2
••
lei da nossa Cultura da Reclamação. Tornaria o NEA refém de to-
do maluco , ideólogo e importuno religioso dos Estados Unidos . Uma
verba para uma exposição de , digamos', marfins góticos podia ser
e qualquer tentativa de fingir que não se trata disso é enganosa. Em
vista do prestígio do governo federal , da consagração que qualquer ••
•e'
verba das dotações nacionais empresta, e da integridade artística e im-
retirada com base em que o material era ofensivo aos judeus (gran- parcialidade dos júris responsáveis pelas do tações , quaisquer cânones
de parte da arte medieval é anti-semita), aos muçulmanos (que tal de condenação baseados no conteúdo são simplesmente uma restrição
aquelas cenas de falsos profetas cozinhando no inferno junto com

••
a priori. Contra o argumento de que o artista tem liberdade para es-
'M a om é?) , ou, por falar nisso, aos ateus, ofendidos pelo uso de di- crever, pintar como queira sem subsídio federal, [nós] devemos insis-
nheiro do governo para inserir algum tipo de propaganda religiosa, tir em que privar um artista desse subsídio devido ao conteúdo de sua
incluindo antigas esculturas em marfim, num museu. Alguma femi-

••
obra é um claro e forte tipo de censura. O contra-argumento é na ver-
nista stalinista podia queixar-se de que uma descrição do século XIII dade umaevasiva que não leva em conta as realidades do mercado ar -
de um deus patriarcal, ou o sexismo implícito numa Eva subserviente tístico, ou, de fato, os direitos do próprio artista [... ]
O curso do debate mos tra uma definitiva confusão entre lei e mo ra-
ou tentadora, repugnava à sua "religião ou não-religião". Sob a
emenda de Helms, até um adorador do fogo podia alegar que a pre-
sença de extintores no museu ofendia o seu deus.
lidade [. ..] Uma vez que se confundem lei e moralidade, é fácil chegar
a declarações como "tudo que é bom deve ser legislado". Essa pre- ••
••
missa j á é bastante'ruim em si, [mas] a mistura do domínio da lei com
Helms e seus correligionários tiveram dificuldade para .n egar
o da moral é fatal [. ..] A lei pode tolerar males que a moralidade con-
que a emenda tivesse algo a ver com censura. De onde teriam esses
dena [.. .] Temos uma boa lei se ela for obedecida, se se pode impô-la,
liberais tirado tal idéia? Censura: isso significava reprimir obras de

••
e se ela for tão prudentemente redigida que evite a maioria dos efeitos
arte (ou "a chamada 'arte' ", para usar a locução correta) que as danosos que dela possam resultar. Se uma lei não faz nada disso, é
pessoas faziam com o seu próprio tempo e dinheiro . Recusar dinheiro uma má lei, independentemente da lógica ou moralidade por trás dela .
do governo para '''p r onl 0ver '' indecências não era censura. Deca-
dentes como Mapplethorpe, e blasfemos como Serrano , podiam fa-
zer o que quisessem com seu tempo e dinheiro. Mas que não vies-
Embora nenhum dos argumentos ouvidos no plenário do Se-
nado atingisse a clareza e sofisticação das palavras desse padre, a ••
132 133
••
'••. emenda de Heltns foi recusada, por 73 votos a quatro. O Senado
decidiu que se deve deixar a definição. de pornografia aos tribunais.
/
I truir completamente o National .Errdowrnen r for the Arts, ou então

••
restringir seus benefícios a eventos puramente da "tendência domi-
E para os tribunais ela foi. A exposição de Mapplethorpe se- nante" . A última hipótese parecia mais provável, em vista das rea-
guiu para Cincinatti, onde os conservadores decidiram fazer dela lidades' políticas: demasiados republicanos ricos têm interesse naquele
um caso teste, denunciando o diretor do Centro de Artes Contem-

•• porâneas por obscenidade pública.


Houve muita preocupação pessimista no mundo da arte sobre
prestígio que as boas obras culturais conferem a suas cidades - co-
mo apoio ao museu ou orquestra sinfônica locais - p~ra de~x~r que
o NEA desapareça por completo. Apesar disso, era sintomático do

•• o que aconteceria quando o portfólio pornô fosse mostrado a um


bando de, bem .. ., jecas do Meio-Oeste Porém, mais uma vez pre-
valeceu uma espécie de natural bom senso americano, talvez mais
pânico atual sobre a subvenção cultural do Estado o fato de P~t ~u­
chanan não tanto neoconservador como neolítico em suas opinioes
culturais ter forçado George Bush a demitir o diretor do NEA, John

•• comum em Cincinatti do que no Soho. Em grande parte porque a


acusação não conseguiu encontrar nenhum especialista digno de cré-
dito para testemunhar contra a obra, o diretor foi absolvido e o cir-
Frohnmayer, a fim de apaziguar os ignorantes e anti-homossexuais
da direita do Partido Republicano. Não é provável que os ataques da

•• co Mapplethorpe foi em frente; o fotógrafo, morto a essa altura,


era um herói cultural, ou um demônio cultural; mas, um ou outro,
todo mundo, do Maine a Albuquerque, tinha ouvido falar dele, e
direita religiosa nesse campo diminuam agora que Bill Clinton subs-
tituiu George Bush. Na verdade, como Clintoné visto pelos carolas
como um liberal demoníaco, e como o conservadorismo religioso

•• o resultado econômico líquido das objurgações do senador Helms


foi elevar o preço das fotos do portfólio pornô de cerca de 10 mil
para algo em torno de 100 mil dólares.
perdeu tanto de sua base de poder em Washington, é muito mais
provável que as pressões em favor da censura cultural aumentem:
é o mais fácil de todos os botões a apertar, e a direita vem apertando-

•• Mas a débâcle Mapplethorpe teve dois amplos resultados cul-


turais. Primeiro , causou paranóia nas relações entre os museus ame-
o há muito tempo para afrouxar agora. Os ataques ao NEA já se
tornaram parte do pano de fundo padrão da política, exatamente
como os ataques ao sistema de televisão pública. Fazem parte de

•• ricanos e as fontes de suas subvenções. Produziu uma atmosfera de


dúvida, autocensura e desorientada cautela entre curadores e dire-
tores de museus, quando se trata de obter verbas e enfrentar as exi-
uma escalada da guerra sobre questões culturais, e não vão acabar.
Pois a década de 80 trouxe um crescente conflito sobre a "pro-

•• gências políticas dos grupos de pressão.


E, segundo, assinalou o falecimento da estética americana, e
revelou a bancarrota da cultura de terapia que passara a dominar
priedade ideológica" da cultura popular nos Estados Unidos, uma
questão em que o conteúdo das transmissões de TV está inelutavel-
mente implicado. Em vista da atual atmosfera de intolerância, difi-

•• o modo pelo qual tantos profissionais culturais do país podiam ra-


cionalizar as relações entre a arte e seu público. Para defender o que
pretendo, vou ter de deixar Mapplethorpe, deixar nossofin-de-síecle,
cilmente se pode esperar que a direita - sobretudo a direita religiosa,
e os políticos que ou fazem parte dela ou temem seus votos - não
vá entrar nisso de sola.

•• e retornar a um tempo muito anterior. Mas primeiro é preciso olhar


os primeiros resultados, no contexto da atmosfera política altamen-
Nenhuma área de nossa cultura institucional era mais vulnerá-
vel a isso que as transmissões de rádio e TV, um alvo favorito da

•• te carregada - e, para a alta cultura, altamente tóxica - que en-


volve as relações entre o governo e as artes nos Estados Unidos de
hoje.
política de ataque republicana . A independência obrigatória do Pu-
blic Broadcasting Systern, sobretudo na programação de assuntos
públicos (notícias e comentário político) jamais passou pela garganta

•• 11
conservadora. O PBS é 40 por cento financiado pelo governo atra-
vés de "apropriações" anuais aprovadas pelo Congresso, e os es-
. forços para reduzir a subvenção e se possível acabar com ela têm

•• Em fins de 1991, estava claro que o programa dos conservado-


res americanos, dependendo de QI e background cultural, era ou des-
sido uma característica do panorama político nos últimos vinte anos.
Em 1971, o presidente Richard Nixon ficou furioso com a no-

••
meação de dois "liberais", Sander Vanocur e Robert McNeil, co-

134 135


••
mo âncoras de um programa do PBS em Washington; orientou sua
equipe a providenciar para que' 'todas as verbas destinadas à trans-
de Mozart" . Não havia como injetar muita "tendência" liberal nes-
ses, já que a natureza, do ponto de vista conservador, tem um com- ••
missão pública sejam cortadas imediatamente". 3 Frustrada nisso,
a equipe de Nixon decidiu, nas palavras de um memorando interno,
que a melhor maneira de "fazer com que os comentaristas esquer-
portamento irrepreensivelmente competitivo.
Embora a campanha conservadora pelo controle do PBS tenha
uma longa história, ela recebeu um grande ímpeto recente com o
••
distas que estão nos solapando dei xem a televisão pública imediata-
mente, na verdade ontem, se possível", era entupir o conselho do
órgão controlador, a Corporation for Public Broadcasting (CPB),
exemplo do ataque de Margaret Thatcher à independência e subven-
ção da BBC, do dogma do mercado competitivo e da direita religiosa.
Reformadores políticos e morais, que vão do reverendo Donald Wild-
••
com "oito lealistas para controlá-la, e demitir a atual equipe que
concedeu as verbas".
mon ao redator de Commentary David Horowitz, cantam em coro
que o PBS deve ser desativado, por ser uma burocracia róseo-liberal-
anti-Israel impregnada de intenções políticas radicais. Imagina-se
••
Em 1972, isto estava feito, e a inquisitividade e o alcance da
programação a respeito de assuntos .públicos do PBS afundaram. O
novo conselho aprovou a interrupção do financiamento à transmis-
quantos programas do PBS essa gente de fato viu; a dependência do
PBS em relação ao patrocínio empresarial tornou-o tão apolítico ou •.1
são em rede de todas as notícias e análises políticas no sistema do
PBS. As pressões políticas conservadoras sobre o PBS diminuíram
após Watergate, durante a breve presidência de Gerald Ford; e fo-
cuidadosamente centrista que sua imagem como um antro de esquer-
distas patrocinados pelo governo é uma piada, sobretudo se se com-
para.o conteúdo de sua programação como da BBC-2 ou o da tele- ••
ram relaxadas durante o governo Carter. Mas Reagan as trouxe de
volta com força redobrada. Sobre a supressão do PBS, a posição
ideológica de Reagan era exatamente a nlesma de Margaret That-
visão estatal australiana, espanhola ou francesa .
A conservadora Heritage Foundation, em Washington, tem um
"dedo-duro" em tempo integral chamado Laurence Jarvik, cujo tra-
••
cher em relação à BBC. Em essência, ele o via como uma célula da-
ninha de liberalismo, ocupada por descontentes e afins - uma imun-
da nódoa cinza-rosa na Manhã Americana, um estorvo para o gover-
balho é fornecer munição ideológica para a opinião de que a TV pú-
blica já não tem mais utilidade. Segundo a Heritage, não há TV digna
dedicada à discussão cultural ou questões políticas que não possa
••
no. Por que não deveria o conteúdo da TV ser·inteiramente contro- ser co-patrocinada por empresas americanas, através de um crescente

•.'•
lado pelas forças do mercado ? Um presidente que havia trabalhado sistema por cabo, ou talvez algum análogo ao Canal-d da Grã-Bre-
durante anos como garoto propaganda da General Electric na TV tanha, sem usar um centavo de dinheiro do governo.
não ia dar muita atenção a argumentos sobre a necessidade de pro- Qualquer pessoa que acredite nisso está: a) sonhando, b) igno-
gramas "polêmicos". Em 1981, e novamente em 1982, Reagan tentou rando ' as realidades do gosto empresarial quando fareja cautelosa-
(mas não conseguiu) fazer com que o Congresso cancelasse toda ver-
ba federal para o PBS; aprendendo a lição, como Nixon antes, en-
tupiu o conselho do PBS de conservadores como Richard Brookisher
mente as propostas de co-patrocínio de programas, ou c) não admi-
tindo suas próprias intenções . No caso da Heritage, parece ser uma
combinação dos últimos dois pontos. ••
da National Review, e nomeou sua nova presidente Sonia Landau,
que tinha dirigido um comitê de atuação política chamado "Mulhe-
res com Reagan/Bush" na eleição de 1984. O resultado da intenção
A maneira viável de aliviar o PBS do oneroso destino de ser um
campo de disputas políticas é financiá-lo não com verbas anuais do
Congresso, mas com uma modesta taxa de licenciamento cobrada
••
de Reagan, interpretada pelo conselho, foi lançar um novo arrepio .
sobre a transmissão de atualidades e deixar o PBS nas mãos do pa-
trocínio empresarial mais do que antes. Os subscritores empresariais
de todos os donos de aparelhos de TV - como na Grã-Bretanha.
Ou mais "radicalmente", como propôs John Wickley na Columbia
Journalism Review em 1986, poderia haver um imposto de 2 por
••
em geral recusavam-se a assinar cheques para material de atualida-
des, preferindo programas confiáveis, não polêmicos, como Mas-
cento sobre os 'lucros das empresas de transmissão comerciais - que
gozam do uso das ondas aéreas públicas de graça. Isso, argumentou
Wickley, poderia gerar 400 milhões de dólares por ano, uma soma
••
••
terpiece Theater ou o inexaurível gênero de filmes sobre a natureza,
papel de parede eletrônico para os que se preocupam com a ecolo- que" acabaria com a necessidade de apropriações diretas, reduziria
gia, conhecidos dos céticos do ramo como "gennes trepando ao som enormemente a necessidade'de co-patrocínio empresarial e proporcio-

136 137
••
••
•• naria as verbas necessárias para um serviço de programas nacionais
de primeira categoria". Na verdade, -algo muito semelhante a isso
foi tentado na Inglaterra, e revelou-se um retumbante sucesso cria-
fundações da América protestante, e não conforme o fácil espírito
de ridicularizar os puritanos.
Os homens e mulheres da Nova Inglaterra no século XVII não

•• tivo - o Canal 4, um alvo particular de ataque dos conservadores


ingleses. Embora o Canal 4 tenha sido descrito por Laurence J ar-
vik, da Heritage, como' 'um canal comercial privado mantido pela
tinham muito tempo para as artes visuais . Pinturas e esculturas não
passavam de armadilhas espirituais, que era melhor deixar para os
católicos. A grande fonte de satisfação estética deles era o Verbo,

•• venda de publicidade", não é nada disso. Não depende da renda


de publicidade direta. Na verdade, é financiado por dinheiro sifo-
nado de produtores comerciais nos canais privados.
o logos.
Em seus sermões, já entrevemos as preocupações de um perío-
do posterior: a percepção da natureza como o sinal da presença de

•• Mas é mais provável que as cataratas do Niágara mudem de


lugar do que sejam adotados tais esquemas de financiamento da TV
Deus no mundo, e a missão especial da natureza americana de ser
esse sinal e servir como metáfora para a boa sociedade, nova mas

••
não comercial nos Estados Unidos - e por dois motivos . O primei- duradoura, precária mas fértil. Eis como Samuel Sewall (1652-1730),
ro é que os americanos, apesar de estarem entre os povos que pa- pregando em Massachusetts em 1697, colocou os termos da aliança:
gam menos impostos na terra, são notoriamente resistentes ao axio -
Enquanto Plum Island mantiver fielmente o posto indicado , apesar

•• ma de que não existe civilização sem taxação. O segundo é que os


políticos querem reter o sistema de apropriações - ele permite o
controle sobre o conteúdo das transmissões. Do mesmo modo co-
de todas as palavras fanfarrãs e dos du ros golpes do oceano orgulho-
so e valentão; enquanto todo salmão, ou esturjão, nadar nos rios de
Merrimack [.. .] enquanto todo Gado for alimentado com o capi m qu e

•• mo a extrema direita, no fim da década de 80, queria impor contro-


les morais sobre a arte.
cresce nos prados, e que se curva humildemente diante de Turkey Hill;
enquanto todas as livres e inofensivas Pombas encontrarem um car-
valho branco na aldeia, para empoleirar-se, ou alimentar-se, ou cons-

•• 111
truir um despreocupado ninho [...] enquanto a Natureza não envelhe-
cer e caducar , mas lembrar-se constantemente de dar às filas de pés
de milho ín di o sua educação, aos pares : - enquanto cristãos nasce-

•• O senador Helms e seus aliados na direita fundamentalista reli-


giosa saíram atrás de Mapplethorpe - e de Andreas Serrano também,
rem aqui; e, depois de conhecerem-se, forem daqui trasladados, para
se tornarem partícipes dos Santos na Luz.

••
e de outros - por dois motivos básicos. O primeiro foi oportunista: Palavras como as de Sewall ainda têm imensa ressonância entre
a necessidade de posarem corno defensores do Estilo Americano, ago- nós. A percepção da natureza redentora, que iria impregnar a pintu-
ra que sua cruzada contra a Ameaça Vermelha ficou vazia e nula com ra americana do século XIX e atingir o auge em nosso tempo com o

•• o fim da Guerra Fria e o colapso geral do comunismo. Tendo perdido


os bárbaros nos portões, saíram atrás da bicha no fundo do quintal.
Mas o segundo é que sentiram que a arte deve ser moral e espiritual-
movimento ambientalista, estava aqui mesmo desde o princípio .
Ainda não há arte nos Estados Unidos que possa rivalizar com
as consolações espirituais da natureza, ou investir-se do poder mo-

•• mente edificante, terapêutica, um pouco como a religião. Os america-


nos parecem sentir, em algum nível básico, que a principal justificação
da arte é seu poder terapêutico. Essa é a base sobre a qual os museus
ral da natureza. Quase todos os americanos antes de 1820 respira-
vam uma atmosfera estética bastante rarefeita. Não tinham nenhu-
ma arte e arquitetura boa, e muito menos grande, para contemplar .

•• dos Estados Unidos se têm apresentado ao público desde que foram


criados, no século XIX - educação, benefício, .edifica ção espiritual,
e não apenas prazer ou o registro da história cultural . Suas raízes
Nós tendemos a esquecer, quando visitamos as salas de época dos
museus americanos e admiramos os ótimos móveis neles expostos,
que a atmosfera estética comum no início da República assemelhava-

•• . entrelaçam-se com o senso de identidade cultural dos Estados Uni-


dos, desenvolvido entre cerca de 1830 e a Guerra Civil. Mas estendem-
se muito mais a Dogpatch. A maioria dos americanos não tinha visto
nenhuma escultura monumental; poucas grandes igrejas, e nenhuma

•• se a um .solo anterior, o do puritanismo. Se quisermos entender o


que aconteceu no fim da década de 80, temos de remontar às próprias
em escala européia de construção e artesanato; nenhum Coliseu ou
Partenon; e nenhum museu ainda. Os monumentos públicos do elas-

•• 138 139
••
sicismo americano, como o Capitólio Estadual de Jefferson em Vir-
ginia, eram ilhas num mar de construções muito mais humildes. Os
ligiosa herdada dos puritanos, e (do outro) a maneira como os ame-
ricanos de meados do século eram educados para pensar nas artes ••
americanos médios não viviam em boas casas de alicerces, varandas
e talvez frontões, e muito menos em edifícios permanentes de pedra
ou tijolo, mas em improvisadas estruturas de madeira que eram an-
visuais e no papel que estas deviam desempenhar numa democra-
cia. Para superar a resistência puritana à riqueza artificial e à orde-
nação sensual da visão, era preciso acentuar - na verdade exagerar
••
cestrais das casas-reboque de hoje, só que muito mais mal contruídas .
A beleza americana estava muito mais na natureza do que na
barbaramente - o poder moralizador da arte. As reflexões pessoais .
a respeito da emoção exaltada revestiam-se de termos religiosos: pro-
veito, conversão, refinamento, unificação .4
••
cultura. Assim, o americano inteligente, se tinha uma oportunidade
de visitar a Europa, podia ver seu gosto transformado, numa espé- Sobretudo quando muitos dos escritores eram eles próprios pas-
••
cie de iluminação pentecostal, por um único monumento da Anti-
guidade, como foi o de Jefferson pela visão da Maison Carrée em
Nimes, o templo romano que criou sua concepção de arquitetura
tores. Em suas modestas excursões pela Europa, eles sentiam a arte
esmagá-los com provas de que o homem fora feito à imagem de Deus,
que a alma era imortal, e acima de tudo que a beleza criada pelo
••
pública. Uma hora com a Vênus de Medici em Florença ou com o
Apollo Belvedere no Vaticano podia superar toda a experiência es-
tética passada do filho cru da nova república. Sua própria experiên-
homem fazia parte da intenção divina inata de instrução moral.
Quando Henry Ward Beecher, o maior orador religioso de sua épo-
ca, foi à França ver as atrações culturais, falou em "conversão Ins-
••
cia dotava a obra inglesa ou européia de estupenda autoridade.
Hoje, com o turismo de massa e a reprodução em massa para
tantânea", e não apenas em simples prazer ou edificação . Claro ,
era preciso escolher. Não gostávamos, por exemplo, de Brueghel e •.,.
••
amortecer antecipadamente o choque, é mais difícil para nós imagi- Tenniers, com todos aqueles camponeses se empanturrando e vo-
nar esse estado de espírito. Um americano que chegava à Europa mitando. Sentíamo-nos meio nervosos com as carnudas madonas
não tinha nenhuma preparação, a não ser talvez por algumas gra- de Ticiano. Muito da modelo, não o bastante da Virgem. Os verda-
vuras imprecisas, para o que ia ver . Para o ianque culturalmente
faminto, a chegada à Itália ou França parecia uma admissão no pa-
deiros artistas edificantes eram Fra Angelico, o bendito monge de
Florença, e evidentemente Rafael. O desej o de trazer de volta, na
memória, ícones espirituais com autoridade naturalmente condena- ••
•.'•
raíso, um lugar a que se chega após uma iniciação pelo sofrimento,
a purgatorial viagem através do Atlântico. Quatro semanas de vô- va o visitante americano à decepção, parte das vezes-A irmã de Bee-
mitos, e então .. . Chartres. "Nós nem sonhamos", escreveu um nova- cher, Harriet Beecher Stowe, autora deA cabana do pai Tomás, "de-
iorquino em 1845, "com o novo sentido que se desenvolve diante cididamente correu" , segundo contou, pelo Louvre adentro em busca
da visão de uma obra-prima. É COlno se tivéssemos vivido sempre de quadros "que tomassem e possuíssem todo o meu ser. Mas a es-
num mundo onde nossos olhos, ' apesar de abertos, só vissem um va-
zio, e então n~s levassem a outro, onde eles fossem saudados pela
graça e a beleza. ~ ,
ses busquei em vão. A maioria dos homens ali pintara com olhos
enxutos e corações frios, pouco pensando em heroísmo, fé, amor
ou imortalidade" . O verdadeiro artista, prosseguiu, ia sem explica- ••
IV
ção direto ao coração; sua obra não era um gosto adquirido; não
precisávamos aprender a lê-la.
A idéia de que estava no poder das artes visuais mudar a di-
••
A esse estado de espírito acrescentou-se um componente muito
mensão moral da vida atingiu o auge entre a morte de Monroe e
a de Lincoln. Nós a vemos em pleno florescimento nos editoriais
semanais de The Crayon, principal revista de arte de Nova York na
••
••
importante: urna admiração geral, entre as ralas camadas de aman-
tes da arte americanos, por John Ruskin, cuja obra começou a apa- década de 1850. Era a voz da profissão do artista americano, e co-
recer por aqui depois de 1845 . Ruskin jamais esteve nos Estados Uni- mo tal tinha fortes opiniões sobre o caráter e a conduta do artista.
Como o editor dizia sem rodeios em 1855: "O prazer da beleza de-
dos, ruas lançou um poderoso sortilégio sobre os valores artísticos
do país: pode-se dizer que sua prosa caudalosa, flexível, irresistível
permitiu a ligação entre (de um lado) o fértil terreno da oratória re-
pende e está na proporção da excelência moral do indivíduo. Cre-
mos que a Arte é um poder edificante, que tem em si um espírito de ••
140 141
••
._-
••
•• moralidade". A primeira forma do artista americano corno herói
cultural, portanto, é o pregador. Ele elevou a arte da condição de
mero artesanato, pelo discurso moral. Deus era o artista supremo;
por algumas das piores, como o falecido Alfred Hammer. Simples-
mente não há como generalizar sobre os efeitos morais da arte, por-
que parece que ela não tem nenhum. Se tivesse, as pessoas que estão

•• eles imitavam Sua obra, o "Livro da Natureza". Dividiam a luz e


acalmavam as águas - sobretudo se eram iluministas de Boston.
constantemente em contato com ela, incluindo todos os curadores
e críticos, seriam santos, e nós não o somos.

••
Eram um contrapeso para o materialismo americano. :
Para que servia a arte, perguntava o Crayon no que chamava
de "esta época dura, angulosa e abjeta", a década de 1850? Ora, v
•• para mostrar o artista como "reformador, filantropo, pleno de es-
perança, reverência e amor" . E se ele escorregasse, teria urna longa
queda, como Lúcifer. "Se o homem deve reverenciar a Arte" ad-
Sob a influência do movimento romântico, o desejo de arte co-
mo religião mudou; foi aos poucos suplantado por um gosto pelo

•• vertia outro editorial, "deve-se tomar um cuidado especial para que


ela não seja apresentada em receptáculos sujos e indecorosos. Julga-
mos a religião pelo caráter de seu sacerdócio, e bem faríamos jul-
sublime romântico, ainda moralmente instrutivo, porém mais defi-
nido e secular. Os pintores do rio Hudson criaram suas imagens da
natureza americana como a impressão digital divina; Frederick

•• .gando a arte pelo caráter daqueles que a representam e encarnam."


Quase se pode ouvir a sombra do falecido Robert Mapplethorpe ba-
,tendo suas asas' de couro de tanto rir.
Church e Albert Bierstadt pintaram imensas paisagens que deram
aos americanos todas as características da arte romântica - tama-

••
nho, virtuosismo, rendição ·ao prodígio e ao espetáculo - exceto
Mas essa proposta, podemos ter toda certeza, teria sido novi- uma: a angústia. O sertão americano, nas mãos deles, jamais nos
dade para muitos artistas - quanto mais para os patronos - do faz sentir inseguros. É o Éden; é Deus como um deus americano,

••
Renascimento. Ninguém jamais negou que Sigismondo da Malates- cujo evangelho é o Destino Manifesto. Não é o mundo de Turner
ta, o senhor de Rimini, tinha excelente gosto. Ele contratou o mais ou Géricault, com suas sugestões de tragédia e morte. Não é o cam-
refinado dos arquitetos do Quattrocento, Leon Battista Alberti, para po de experiência que certa literatura americana reivindicara - o

•• projetar um templo em memória de sua esposa, e depois mandou


o escultor Agostino di Duccio decorá-lo, e chamou Piero della Fran-
cesca para pintá-lo. No entanto, Sigismondo era um homem de tal .
senso do catastrófico de Melville, ou o auto-enclausuramento mór-
bido de Poe. É beato, público e de grande exaltação.
Não admira que fosse tão popular junto ao crescente público

•• grossura e rapacidade que foi conhecido em vida como II Lupo, o


Lobo, e tão execrado após a morte que a Igreja católica fez dele
'(por algum tempo) o único homem, além de Judas Iscariotes ofi-
de arte americano nas décadas de 1870 e 1880. Pois esse público es-
perava que a arte oferecesse alívio do lado escuro da vida. Não gos-
tava nem da angústia nem do realismo românticos. Há uma estra-

•• cialmente relacionado como estando no Inferno - distinção ql~e ele


conquistou amarrando um emissário papal, o bispo de Fano, de quin-
ze anos de idade, no próprio roquete e sodomizando-o sob os aplau- :
nha ausência na pintura americana dessa época, como o cachorro
que não late à noite. É sua recusa em lidar de algum modo explícito

••
com o imenso trauma social da Guerra Civil. A arte americana, ti-
sos de seu exército na principal praça de Rimini. rando a ilustração, mal chega a mencionar a guerra. O senso de pie -
Não se espera que os curadores de grandes instituições cultu- dade, horror fratricida e desperdício social que impregna a literatu-

••
rais americanas se conduzam desse jeito. Sabemos, lá no fundo, que ra da época, como Walt Whitrnan, e ainda aflora trinta anos depois
a idéia de que as pessoas são moralmente enobrecidas pelo contato em Red badge of courage [O emblema rubro da coragem], de Ste-
com obras de arte é uma pia ficção. Alguns colecionadores são no- phen Crane, só se pode ver em fotos de combate montadas, como

•• bres, filantrópicos e educados; outros são chatos trapaceiros que ain-


da estariam pensando que Parmigianino era um tipo de queijo se
não tivessem a turma da Christie's para esclarecê-los. Os museus têm
as de Mathew Brady - jamais na pintura. Esse é um resultado curio-
so, sobretudo se se acredita, como eu, que o melhor filão da arte
americana do século XIX não é tanto o nacionalista-romântico de

•• sido mantidos por algumas das melhores e mais desinteressadas pes -


soas dos Estados Unidos, como Duncan Phillips ou Paul MeIIon; e
Bierstadt e Church, mas a linha de visão viril, empírica, que vem
de Audubon e passa por Eakins e Homer.

•• 142 143
••
Na década de 1880, a função da arte como elevação quase re-
ligiosa começava a transformar-se numa forma mais secular a da
arte como terapia, pessoal ou social. Isso afetou profundamente
o caráter dessa forma cultural especial, o museu americano. A es-
midos americanos a oportunidade de esquecer-se de si mesmos,
tornar-se de novo crianças, imersas em maravilhamento.
Era simpática à criação do museu americano a idéia de que a
arte acessível ao público ajudaria a desfazer o ressentimento social.
Na Europa, pensava-se: bem, já temos todas essas pinturas, dese-
'.•
••
••
sa altura, em sua grande e crescente prosperidade, os Estados Uni-
nhos e esculturas, agora vamos fazer alguma coisa com eles: pô-los
dos queriam museus. Mas seriam diferentes dos europeus. Não
num museu. Nos Estados Unidos, pensava-se: não temos nada, do
seriam, por exemplo, depósitos de pilhagem imperial, como o Mu-
.território de identidade americana não vem arte alguma, por isso

••
seu Britânico ou o Louvre. (Na verdade, imensas quantidades de
vamos adquirir arte objetivamente, torná-la parte do que queremos
material foram tomadas dos índios nativos e das culturas ao sul
fazer com uma sociedade democrática. Vamos nos refinar junto com
do Rio Grande, mas a isso chamamos antropologia, não pilhagem.)
os outros. O museu europeu não era de modo algum indiferente à
Não seriam dirigidos pelo Estado, nem, a não ser excepcionalmen-
te, por ele subvencionados. Porque a subvenção do Estado, numa
atenção do público, mas o museu americano estava muito mais ati-
vamente preocupado com ele. •••
.'•.J
democracia, significa impostos - e como um dos mitos fundado-
A busca da obra-prima foi um veículo de reconciliação. Nenhum
res dos Estados Unidos é a revolta contra os impostos, a Festa do
outro país tinha contrastes sociais mais agudos. De um lado, a na-
Chá de Boston, a idéia de pagá-los para sustentar a cultura jamais
tureza bruta, florescente, impiedosa, prometéica do capitalismo ame-
pegou por aqui. Outros países vieram, com muitos e cansados ge-
ricano, com a possibilidade da guerra de classes sempre à espera nas
midos, a aceitar o princípio de que não há civilização sem taxa-

••
laterais. Do outro, o passado idealizado - um passado não arneri-
ção. Não os Estados Unidos, onde o orçamento anual do National
°
Endowment for the Arts ainda gira em torno de 1 por cento do
1,6 bilhão de dólares que o governo francês destinou a projetos
cano, mas agora vicariamente ao seu alcance, a Idade Média e o Re-
nascimento que Bernard Berenson e J oseph Duveen vendiam aos ri-
culturais no ano fiscal de 1991, e menos do que nosso governo gasta
cos de Boston, Chicago, Nova York. Os dois estavam presos um

.'.}
ao outro, porque um oferecia alívio para as ansiedades do outro.
com bandas militares.
Lucrando com o Dínamo, os americanos agora se voltavam para
Aqui, os museus surgiriam da decisão voluntária dos ricos de
a Virgem; e, como Dorothy Parker escreveu no livro de visitas de
c:iar zonas de transcendência dentro da sociedade; partilhariam a
San Simeon, após ver um DeUa Robbia acima da entrada da alcova
nqueza cultural com um público que não podia possuí-la. Pois, co-

••.'
mo observou o historiador Jackson Lears em seu excelente estudo de Marion Davies:
da cultura americana no fim do século XIX, No place of grace [Lu- Palavra de honra, eu vi a Virgem
gar sem clemência], é inteiramente errôneo supor que os barões (e Em pé num santuário
baronesas) ladrões que se azafamavam aplicando a imensa sucção Acima da porta da puta privada
d.e seu capital às reservas de arte da velha Europa fizessem isso por Do maior filho da puta do mundo.
simples ganância. O investimento dificilmente figurava em seus cál-
culos - não estavam na década de 1980. Alguns deles, notadamen-
[Upon my honor, I saw a Madonna
Standing in a niche ••
••
te Charles Freer e Isabella Stewart Gardner, eram criaturas profun- Above the door of the private whore
darnente neurastênicas, que buscavam a arte para curar seus males Of the world's worst son. of a bitch.]
nervosos e achavam que ela podia fazer o mesmo para os menos A busca, pelos Estados Unidos, de sinais de valor espiritual na
afortunados. O museu público acalmaria o trabalhador - e a tra-
balhadora também. A grande arte do passado aliviaria os ressenti-
me~t~s deles . William Jarnespôs o dedo nisso em 1903, depois de
arte não se restringiu ao Renascimento europeu. Abrangeu também
o Japão e a China; .daí o poderoso efeito dos chamados bonzos de
Boston, como William Bigelow e Ernest Fenollosa, cujos trabalhos
••
assistir à abertura ao público do museu particular de Isabella Ste-
wart Gardner em Boston, o Fenway Court. Comparou-o a uma clí-
nica. A visita a um lugar desse, escreveu, daria aos oprimidos e tí-
de coleta no Japão, em busca de seu próprio satori, iriam dar a Bos-
ton sua coleção sem paralelo de arte japonesa na década de 1890, ••
144
145
••
e_
'.

••
uma época em que os próprios japoneses se livravam dela sob as
primeiras pressões da ocidentalização.
E essa ênfase no terapêutico aumentou muito depois de 1920 ,
entre o Armory Show e a época em que o modernismo de fato co-
correra a National Gallery em Londres corn um grupo, conduzido
por Roger Fry, o crítico formalista inglês. Ele parou para analisar
um t rí ptico de Orcagna, apresentando Deus Pai, terrível em sua ira,

••
olhos chispando, barba esvoaçando, apontando implacavelmente pa-
meçou a tornar-se a cultura institucional dos Estados Unidos. Se o ra seu Filho sacrificado. "E agora", disse Fry, "devemos voltar nossa
gosto cultivado americano resistiu ao modernismo a princípio, foi atenção para a massa dominante central." Hoje, setenta anos de-

••
também porque, em sua dissolução e aparente violência para com pois, vemos uma crítica como Janet Kardon, no catálogo de Map-
as normas pictóricas, ele não parecia suficientemente espiritual. Po- plethorpe e eU1 seu depoimento no julgamento de Cincinatti, refle-
deria cumprir a promessa herdada da arte, oferecer perspectivas de tindo sobre uma foto do punho de um homem enfiado dentro do

• fuga transcendental do rude ambiente da modernidade industrial? reto do parceiro, e outra de um dedo enfiado num pênis, fazer flo-

.'•• . Podiam conciliar-se os antigos e os modernos?


A resposta' do museu, desde o momento em que se fundou o
Museu de Arte Moderna, foi "sim". O museu americano teve de
equilibrar sua natureza sóbria com a afirmação básica da vanguar-
da modernista, de que a arte avança injetando doses de inaceitabili-
reios sobre "a centralidade do antebraço", que ancora a composi-
ção, e que c c as cenas parecem destiladas da vida real", e que seu
arranjo formal "purifica, e até mesmo elimina, os elementos pru-
rientes" . Esse, eu diria, é o tipo de esteticismo exausto e literalmen-
te desmoralizado que não veria nenhuma diferença básica entre um

•• dade em seu próprio discurso, abrindo assim novas possibilidades


de cultura. O resultado foi uma brilhante adaptação, inaudita na
comício de Nuremberg e um espetáculo de Busby Berkeley, já que
ambos, afinal, são exemplos de coreografia art-deco . Mas não é mais

••
Europa. Os Estados Unidos produziram a idéia do vanguardismo curioso que a opinião diametralmente oposta, apresentada por es-
terapêutico , e ' em seu nome construíram museus. Esses templos critoras como Ingrid Sischy e Kay Larson - de que as imagens mais
sustentavam-se em do is pilares. O primeiro era o esteticismo, ou ar- sexualmente extremas de Mapplethorpe são de certa forma didáti-

•• te pela arte, que decretava que todas as obras de arte devem ser li-
das primeiro em termos de suas propriedades formais: isso liberta-
va a obra de arte da censura puritana. O segundo era conhecido,
cas: dionisíacas em si, têm o caráter de um espetáculo moral , ras-
gando os véus de pudicícia e ignorância, e com isso promovendo
os direitos dos gays ao pôr-nos diante dos limites últimos do compor-:

•• o que se refere ao proveito social: embora a arte pela arte tivesse


razão em excluí-las do quadro de julgamento moral, as obras de ar-
te eram morais em si porque, quer o soubéssemos ou não a princí-
tamento sexual, além dos quais só a morte é possível. Esta, escreveu
e
Kay Larson, é c ca última fronteira de autoliberação liberdade" .
O sujeito com os órgãos genitais no tronco de açoite torna-se a versão

•• pio, apontavam o caminho para verdades superiores, e por isso nos


faziam bem. Podíamos ficar ofendidos a princípio, mas depois nos
ajustaríamos, e a cultura continuaria avançando. O que nos traz de
moderninha do montanhista eduardiano, pendurado de um penhasco
himalaio: abaixo dele o vácuo, em torno dele a corda, e acima o
pico da experiência. Acho isso duvidoso, para dizer o mínimo. Se

•• volta ao portfólio pornô de Robert Mapplethorpe, lá no museu. um museu mostrasse imagens dessas coisas acontecendo com mu-
lheres que fizessem isso por vontade própria, masoquistas, viria um

•• VI
clamor de protesto do mundo artístico: sexismo, degradação, ex-
ploração, o diabo . O que é bom para um, também é, ou deveria
ser, para outra. E de qualquer modo , como observou Rochelle Gurs-

•• Pois o que de fato espanta nas defesas, feitas pelo pessoal que
escreve sobre arte, dessas cenas de tortura sexual é que eram todas
expressas ou em termos de um esteticismo tão solipsista que chega-
tein num excelente artigo em Tikkun,5 o caso Mapplethorpe revela
"quantos árbitros culturais, como muitos teóricos políticos, estão
presos na camisa de força de um modo de discurso que mesquinha-

•• va ao absurdo, ou de elaboradas e inconfirmáveis alegações de va-


lor terapêutico. O primeiro esforço baseia-se numa disposição de
separar forma e conteúdo, que é, muito simplesmente, delirante.
mente concebe disputas sobre o que deve aparecer em público em
termos de direitos individuais - neste caso o direito de auto-
expressão do artista - em vez de termos que visem o interesse pú-

•• Uma velha conhecida minha, já morta, contava que certa vez per-

146
blico na qualidade e caráter de nosso mundo moderno' . Eu defen-

••
147
deria a exposição do portfólio pornô com base na Primeira Emen- York não devia ter milhares de mendigos e lunáticos nas ruas" -
da, conquanto restrita a adultos advertidos. Mas nos enganamos se e codificá-la de maneira tão enviesada que quando o espectador a
supomos que a Primeira Emenda exaure os termos do debate, ou retraduz, sente o fulgor de estar incluído no que chamamos de "dis-
se aceitamos a idéia de que todos os tabus sobre representação se- curso" do mundo da arte." Mas o fato de uma obra de arte ser so-
xual foram feitos para ser quebrados, e que quebrá-los tem algo a bre a AIDS ou o fanatismo não lhe empresta mais mérito artístico
ver com a importância da arte, hoje, em 1992. O fato de muitos de do que se fosse sobre sereias e palmeiras.
seus entusiastas acharem que só o levantar tais questões já "faz o Seja como for, grande parte da nova arte ativista é tão malfei-
jogo" da direita censória dá uma medida do grau de calor gerado ta que só o seu contexto - sua presença num museu - sugere' que
pela polêmica sobre Mapplethorpe. tenha alguma intenção estética. Sei que essa objeção não agrada a
Demorei-me no bafafá criado por parte da obra de um fotó- muita gente: o simples pedir que uma obra de arte seja bem-feita
grafo americano meio superestimado porque isso entra diretamente é, para eles, um sinal de elitismo, e supõe-se que alguns críticos teo-
na questão da política na arte, e de como os museus americanos a rizariam que uma obra de arte malfeita é apenas uma metáfora de
tratam. Parece-me que não há absolutamente nenhum motivo para como se tornou vulgar o resto do mundo, agora que a ética do arte-
que um museu, seja qualfor, favoreça a arte ostensivamente políti- sanato em grande parte desapareceu, de modo que a inépcia artísti-
ca em relação à que não o é. A arte política de hoje é apenas uma ca lançada no contexto do museu adquiriu uma espécie de função
coda para a idéia de que pintura e escultura podem provocar mu- crítica. Mas isso não é o que pensamos quando olhamos o material
dança social. na última Whitney Bienal: uma extensa e chata obra de documenta-
Durante toda a história da vanguarda , essa esperança foi refu- ção, parecendo um mural escolar de trabalho de grupo, intitulada
tada pela experiência. Nenhuma obra de arte no século xx teve o Aids Timeline, por exemplo, ou uma obra de Jessica Diamond con-
mesmo impacto de A cabana do pai Tomás na maneira como os ame- sistindo de um sinal de igual cancelado com um x, abaixo do qual
ricanos pensavam sobre a escravidão, ou o Arquipélago Gulag nas estava escrito em má caligrafia "Totalmente desigual". Quem acha
ilusões sobre a verdadeira natureza do comunismo. A pintura polí- que esse lamentoso diagrama contribui com alguma coisa nova pa-
tica mais celebrada, largamente reproduzida e universalmente reco- ra nossa compreensão do privilégio nos Estados Unidos, apenas por
nhecida do século xx é Guernica, de Picasso, e não mudou uma po- conseguir espaço na parede de um museu, está sonhando.
legada do regime de Franco nem encurtou a vida dele um dia que A Europa produziu nos últimos anos alguns artistas de real digni-
fosse. O que de fato muda a opinião política são os fatos, argumen- dade, complexidade e poder de imaginação, cuja obra se pode chamar
tos, fotos de imprensa e a TV. de política - Anselm Kiefer, por exemplo, ou Christian Boltanski.
A convenção dos catálogos da década de 90 é quedar-se em ar- Mas os traços duradouros da arte de vítima americana são a pose
tistas ativistas que "abordam questões" de racismo, sexismo, AIDS, e a inépcia. Nas performances de Karen Finley e Holly Hughes, temos
e assim por diante. Mas os méritos de um artista não estão em fun- o extremo do que pode dar errado na arte-corno-política - a crença
ção de seu gênero, ideologia, preferência sexual, cor de pele ou es- em que a simples expressividade basta; que eu me torno um artista
tado de saúde, e abordar uma questão não é abordar o público. O exibindo a vocês minhas tripas quentes e desafiando-os a rejeitá-las.
americano médio não está olhando as virtuosas beldades feministas Não gosta de minhas tripas? Você e Jesse Helms, cara.
de J ohn Hartfield na parede do Whitney - ele tem uma Playmate As alegações desse material são infantis. Eu tenho exigências,
pregada na divisória de sua bancada de trabalho, e nem todas as tenho necessidades. Por que você não as satisfez? O "você" não per-
Barbaras Krugers do mundo vão fazer com que ele ou qualquer outro mite diferenciação, e o farisaísmo do "eu" é profundamente anesté-
se emende. A arte política que temos nos Estados Unidos pós- sico. Ficaríamos satisfeitos com algum sinal de consciência da nuance
modernistas é um longo exercício de converter os convertidos. Como que distingue a arte dos slogans. Essa tem sido a exigência mínima
observou Adam Gopnik em The New Yorker, ao criticar o Carnegie da boa arte política, e sobretudo da sátira, desde a época de Gillray,
International em Pittsburgh, ela consiste basicamente em tomar uma Goya e Géricault, passando pela de Picasso, John Heartfield e Die-
idéia irretorquível, embora óbvia - "racismo é erro", ou "Nova go Rivera. Mas hoje a ênfase e no meramente pessoal, no "expres-

148 149
..
•• sivo". A sátira é suspeita como elitista. Daí o recuo da disciplina
da arte, indicada pelo amor à estrutura, clareza, complexidade, nuan-
cartáveis, ou n1eSIUO repelentes, nos falam de crenças sociais. E, de
qualquer modo, as "obras-primas" são escassasno terreno da pin-

•• ce e ambição imaginativa; e o avanço das alegações de isenção. Eu


.- sou uma vítima: como ousa você me impor seus padrões estéticos?
Não vê que você tanto me prejudicou que só preciso exibir minhas
tura americana do século XIX. O que vimos, na maior parte, foram
os sérios esforços de pequenos talentos provincianos cuja obra difi-
cilmente seria digna de estudo, a não ser pela clareza com que expu-

•• feridas e chamá-las de arte? Em 1991, foi publicadoern zlrz in Ame-


rica uma jóia de entrevista com Karen Finley, na qual essa artista
performática ex-católica declarava que a medida de sua opressão co-
nha os temas de um país expansionista. A mostra partia para dys-
construir imagens, e também isso era bastante justo, já que se alguma
coisa nessa cultura foi algum dia construída, trata-se do mito do Oes-

•• mo mulher era que não tinha oportunidade, nenhuma mesmo, de


tornar-se papa. E falavasério. Dificilmente se poderia encontrar um
epítorne mais vívido da auto-absorção do artista como vítima. Eu
te americano.
Julguei-a uma exposição interessante e estimulante, e o disse

••
numa crítica. O que não gostei tanto foram dos catálogos e sobre-
próprio sou um ex-católico, e aidéia dessa injustiça tocou um pon- tudo das legendas, impregnadas de diatribes do finado marxismo
to sensível em mim. Mas ruminando sobre o assunto, vim a ver que e do lúmpen-ferninismo. Essas legendas eram uma grande caracte-

•• na verdade há um motivo para que Karen Finley seja inelegível para


o Papado. O papa só é infalível parte do tempo, quando fala ex ca-
thedra sobre questões de fé e moral. A artista performática radical,
rística dos museus russos. "Este ovo Fabergé, símbolo da frívola
decadênciados Romanoff [... ]", e assim por diante. Desaparece-
ram da Rússia, e migraram para cá. Aqui, pessoal, uma foto de um

•• em seu estado integral de vítima, é infalível o tempo todo. E nenhu-


ma instituição, nem mesmo uma tão antiga e astuta quanto a Igreja
católica, pode suportar o grave peso da contínua infalibilidade em
hurão. Olha, o pobre nativo americano! Estão vendo, é mostrado
morrendo! E vejam a posição subserviente da índia, uma tentativa
de projetar o falo centrismo do capitalismo primitivo nas raças con-

•• seu chefe. Este, mais ainda que a perspectiva de uma irlandesa co-
berta de chocolate, lamentando-se sobre opressão no Trono do Pes-
cador, é o motivo pelo qual eu votaria contra ela, se fosse membro
quistadas! E a flecha quebrada no chão, emblema de sua potência
abatida, embora sem dúvida convencionalmente exagerada! Puxa,
que grosseiro! Próximo slide! Uma das autoras do catálogo chegou

•• do Colégio de Cardeais, o que não é provável que venha a ser


tampouco.
mesmo a voltar sua atenção para as molduras dos quadros, afirrnan-
do que "as molduras retilineares [... ] oferecem uma dramática de-

••
As pressões do ativismo estão ocasionando uma tensão nos mu- monstração do poder e controle brancos" . Um pouco disso vai lon-
seus, como devem fazer, e são muito rapidamente internalizadas pelas ge, e O Oeste como América tem muito disso.
equipes. Entram em jogo dois sistemas de preferência sobre arte,

,.•
Apesar disso, fiquei espantado CaIU a veemência da reação à
e produzem uma dupla censorialidade. exposição. Começando por Daniel Boorstin, o ex-bibliotecário do
Um exemplo dramático disso aconteceu em Washington em abril Congresso, toda uma malta de politiqueiros e colunistas de direita
de 1991. O National Museum of American Art fez uma exposição calçou as botas e se pôs a chutar. Não ocorreu a ningu ém que a his-

•• intitulada O Oeste como América, uma imensa antologia de ima-


gens destinada a rever a versão triunfalista da colonização branca
dos Estados Unidos no século XIX. 7 Que nos dizem os pintores e
tória legendária do Oeste americano já vinha sofrendo ataques de
historiadores sociais há anos, e o argumento da exposição do mu-
seu não era nem sem precedentes nem particularmente novo, a não

•• escultores da época sobre o Destino Manifesto? A exposição come-


çava com pinturas históricas dos Pais Peregrinos e acabava CaIU fotos
de sequóias da Califórnia, com estradas abertas entre seus troncos.
ser pelo fato de que fora transferido para o campo da arte. Tam-
pouco acharam eles correto que a versão J ohn Wayne da fronteira
fosse sequer questionada. E evidentemente as legendas fizeram o jogo

•• Era muito franca sobre a escolha de obras de arte como evidência


de idéias e opiniões, e COlUO registros de acontecimentos, mais do
deles direitinho. O ataque foi comandado pelo senador Ted Stevens,
do Alasca, um republicano dono de oleoduto, que tinha seus pró-

•• que pelos seus méritos artísticos intrínsecos. Nada errado nisso, con-
tanto que se deixe claro o que se está fazendo, e isto os curadores
deixaram. Muitas vezes obras de arte menores, ou esteticamente des-
prios motivos para não querer que o Smithsonian fizesse exposições
sobre o que chamou de "história pervertida", que falasse de con-
quista, desenvolvimento e o destino dos índios. Acusou o diretor

•• 150 151


••
do Smithsonian de "ter um programa político", como se ele pró-
prio não tivesse.
extremas nos Estados Unidos do que em qualquer país europeu que
eu conheça. Resultam de uma soma de influência política, uma cren-
••
Portanto, a mensagem foi bastante clara: nós voltaremos, en-
trem na linha senão cortamos suas verbas. Essa mensagem encheu
os ouvidos das instituições americanas desde a confusão de Map-
ça - comum tanto na direita como na esquerda -:- de que nenhuma
esfera de cultura pública deve ficar isenta de pressão política, já que
no fim tudo nela supostamente se reduz a política mesmo. Isso resul-
••
plethorpe. E assim a diretora do National Museum of American Art,
Elizabeth Broun, recebeu muitas demonstrações de boa vontade dos
críticos, museólogos profissionais e outros do ramo: O Oeste como
ta tanto da própria crença do r-c, de que o que é pessoal é político,
quanto da opinião conservadora de que qualquer pau para bater nos
liberais é um bom pau, e não importa o que mais saia aplastado na
••
América não foi uma exposição perfeita, teve defeitos de retórica,
mas colocou questões sobre os usos e sentidos da arte americana,
briga. O museu americano j amais se destinou a ser uma arena para
tais disputas, e por isso está se mostrando canhestro e mesmo inepto ••
e parece, no todo, que valeu a pena fazê-la. E de qualquer modo,
o inimigo de meu inimigo é meu amigo. .
Mas nem bem emergia das trevas da censura direitista, a sra.
. para responder a elas. E sua resposta é complicada pelas pretensões
da arte ativista de ser a vanguarda.
Durante o último meio século, também tem sido óbvio que a
••
Broun decidiu fazer algumas correçõezinhas ela própria. Um mês
depois de encerrada a exposição do Oeste, o NMAA abriu outra, or-
ganizada por outro museu e enviada para Washington, contendo uma
idéia de vanguarda não corresponde a nenhuma realidade cultural
nos EstadosUnidos. Seu mito, o do artista ou grupo inovador lu-
tando contra um establishment entrincheirado, está morto. Por quê?
••
obra do famoso minimalista americano Sol LeWitt. Este artista é
conhecido sobretudo por suas grades modulares, mas essa obra era
anterior, da década de 60 - uma caixa dentro da qual se viam ima-
Porque a arte nova forma nossa cultura oficial desde que se tem lem-
brança. Os Estados Unidos são viciados em progresso; amam o no-
vo tão imparcialmente quanto amam o velho. Daí a idéia de uma
••
gens, uma série de ampliações repetitivas de uma foto frontal de uma
mulher nua. Num ataque de correção política, a sra. Broun decidiu
vanguarda só poder sobreviver aqui como uma ficção sustentada por
histórias hagiológicas de martírio cultural; o contexto dessas histó- •.\

que o sr. LeWitt estava fazendo o espectador se concentrar, de uma rias agora passou de estilo para gênero e raça, mas a trama perma-

.'•
maneira pruriente e sexista, no matagal púbico da dona, e imedia- nece em grande parte a mesma. Hoje, ninguém usa mais o termo
tamente baniu a obra da exposição. O curador que incluíra a obra "vanguarda" --: é uma não-palavra. Em vez dela, oSmarchands e
de Le Witt imediatamente lançou uma campanha de imprensa, ale- curadores dizem cutting edge [literalmente, "fio de corte"; no caso, .
gando censura; a obra foi reinstalada. A boa censura - não, cha- "de ponta"] que ainda transmite a impressão fortemente positivis-
memos de sensibilidade afirmativa baseada na intervenção - é te-
rapêutica e redunda em vantagem para as mulheres e minorias. A má
censura é o que o pessoal do pênis pá.lido faz com a gente. A aula
ta de coisa nova na onda, cortando a oposição reacionária, deixan-
do para trás o que é velho, moldando alguma coisa, arremetendo
em frente.
••
termina aqui. Infelizmente, esse modelo foi surrado na década de 80 e não
pode ser revivido. A idéia de bruxaria terapêutica espiritual através ••
VII
da arte afundou quando o Inundo da arte se tornou a indústria da
arte, quando a ganância e o falso brilho da era Reagan começaram
a cavalgar esse cutting edge, quando milhares de especuladores en-
••
Será que só eu vejo alguma coisa meio tacanha e embrutecedo-
ra nisso? Evidentemente, não: as pressões políticas vêm se tornan-
do nos últimos anos um triste estorvo para os museus americanos,
traram no mercado e a mentalidade da moeda podre atingiu a arte
contemporânea. À medida que o mundo da arte se enchia de gente
hipócrita que, em outras circunstâncias, estaria vendendo pântano
••
e um tópico de obsessiva preocupação para seus funcionários. O tor-
no tem uma garra direita, e uma esquerda, e entre as duas o museu
é dolorosamente espremido e pode acabar, afinal, serido retorcido
na Flórida ou falsos poços de petróleo no Texas, mais elevada se
tornava a sua linguagem.. Todo pirata com um Salle na parede po-
dia tagarelar como entendido sobre hiperrealismo e comodificação.
••
de tal modo que não terá forma útil. Essas pressões são muito mais Não se pode ter uma orgia como a dos ~nos 80 sem ressaca, e agora
••

152 153
•'.
•• estamos com uma daquelas. A população do mundo da arte expan-
diu-se enormemente na década de 80, graças à superprodução de di-
plomas de belas-artes na de 70 e à súbita atração do mercado. Ne-
formas mais poderosas de a história da arte produzir insiders e out-
siders", escreve ela,

••
é através de sua idéia.de "gênios artísticos" [... ] Quase exigências pa-
nhuma base concebível de colecionadores era suficientemente larga
ra esse artista-herói são suas tiradas apaixonadas, seu fervor estilo Velho
para sustentá-los, nem mesmo nos sete gordos anos que termina-
Testamento, seus incontroláveis impulsos sexuais , sua cornpetitivida-
ram com o colapso em 1990 do mercado de arte, quanto mais nos

•• anos magros que supostamente temos pela frente. Como a decom-


posição da educação artística americana tem sido constante nas úl-
de (exercida no palco do complexo de Édipo freudiano), e acima de
tudo sua obstinada obsessão com o trabalho . Pensem só em Miche-

~
angel O ' Van Gogh, Rodin, Picasso, -Pollock . Poderiam esses artistas
timas três décadas, a maioria deles, como a maioria das pessoas que

•• fazem cursos de literatura criativa, está mal preparada e não é pro-


vável que produza nada memorável. Não é culpa deles: o sistema
ter sido lésbicas, asiático-americanos, nativos americanos? O discurso
branco treme ao contemplar um tal caos, tão poderosa é a ameaça que
representa essa transgressão.

•• de educação artística deixou-os na mão ao promover a teoria em


vez da habilidade, a terapia em vez do aprendizado, as estratégias
em vez do básico. Num mundo.de arte superpovoado, com um mer-
Bem, acho que a resposta à primeira resposta de ms Lipton é:
Não, esses artistas não podiam ter sido diferentes do que foram, por-
que, para começar, estão mortos. Nenhum esforço de imaginação

•• cado deprimido, vamos ouvir cada vez mais falar que os artistas são
discriminados - intermináveis queixas sobre racismo, sexismo, e
assim por diante; quando o verdadeiro problema é que há artistas
- ou pelo menos nenhum que faça sentido - vai dar a Van Gogh
uma mãe chinesa, nem transformar Rodin num cherokee: é tarde

•• ·dem ais para a base sustentar. Existem provavelmente 200 mil artis-
tas nos Estados Unidos, e, supondo-se que cada um deles realize qua-
renta obras por ano, isso significa 8 milhões de objetos, a maioria
demais para eles sofrerem mudanças tão "transgressoras" , po r mais
desejável que o projeto possa parecer a críticos corno ms Lipton,
Pelo menos Michelangelo foi homossexual, se bem que não uma lés-

•• dos quais não tem um fiapo de chance de sobrevivência. Talvez o


que precisemos seja umá ressurreição dos projetos da \VPA [Works
Progress Administration] da década de 30, embora não haja a mais
bica propriamente dita, embora eu ache que isso não afasta seus ad-
miradores. Mas o notável nesse trecho, eu acho, é a maneira como
estabelece uma caricatura do que ms Lipton chama de "discurso

•• leve probabilidade disso. Mas certamente a maior parte dessas obras


excedentes e desabrigadas não vai encontrar um lar no museu.
branco". Sua descrição da idéia do artista-herói da história da arte
moderna é uma bobagem, uma grosseira efígie de papelão que ne-

•• A noção de perda de direitos entre os artistas levou a uma on- nhum historiador da arte usa e da qual nenhum crítico sério faria
da de ataques à idéia de," qualidade", como se ela fosse a inimiga mais do que dar risad as . É uma ficção jornalística - e jornalismo
da justiça. A esses, sobretudo, os museus sérios devem resistir. Já inferior ainda por cima. O estereótipo do artista como uma espécie

•• vimos o que eles fizeram aos estudos literários acadêmicos. Quali-


dade, diz esse raciocínio, é uma trama. Resulta de uma conspiração
de homens brancos para marginalizar o trabalho de outras raças e
de demiurgo falocrata, criando maravilhas abstratas num vácuo so -
cial, continua tendo apelo para a cultura de massa, mas isso aí já
é território de Judith Krantz, não história da arte. Quem quer que

•• culturas. Invocar sua presença em obras de arte é algo inerentemen-


te repressivo .
Grande parte da reclamação convencionalizada foi tecida em
tenha um grão de sensatez sabe que para chegar a Michelangelo te-
mos de contornar o filme feito sobre ele, A agonia e o êxtase, e não
se começa por Sede de viver se se quer compreender alguma coisa

•• torno dessa tese. Tornou-se a Nova Ortodoxia e, em medida cres-


cente, os críticos e historiadores de arte parecem incapazes de resis-
sobre Van Gogh. E alguém já escreveu sobre Chardin em termos
de seus' 'incontroláveis impulsos sexuais", ou de Piero della Fran-

••
tir a ela . Corno exemplo de uma possível miríade, vejam esse trecho cesca em termos de seu "fervor estilo Velho Testamento", ou das
de Eunice Lipton, no catálogo de uma mostra intitulada A EXPOSI- "tiradas ' apaixonadas" de Watteau?
çÃO DA DÊCADA, feita conjuntamente no Museu de Arte Hispâni- Na verdade, hoje parece que o pseudo-heroísmo e os arquejos

•• ca Contemporânea, no Studio Museum no Harlem e no Novo Mu-


seu de Arte Contemporânea em Nova York, em 1990,. "Uma das
históricos que críticos como Eunice Lipton deploram no tratamen-
to de pessoas como Van Gogh ou Michelangelo, por mais repressi-

•• 154 155
••
vos e hegemônicos que sej am quando aplicados a brancos, são deci- . Por trás dessa baboseira há um mal escondido anseio de segre-
••
.'••
didamente desejáveis para negros. Essa crítica de "reforço" hoje gação cultural. Isso corresponde a uma das mais corrosivas corren-
está cada vez mais na moda nos Estados Unidos. É ruim usar pala- tes na atual sociedade americana - corrosiva, quero dizer, para qual-
vras como "gênio", a menos que se esteja falando do falecido Jean- quer idéia de um terreno cívico comum - que é tratar as supostas
Michel Basquiat, o Chatterton negro da década de 80, que, durante necessidades culturais e educacionais de grupos (mulheres, negros,
uma pitoresca carreira de proxeneta, viciado e astro juvenil da arte, latinos, sino-americanos, gays, o que queiram) como se passassem

••
deixou uma leve marca na superfície cultural, transformando as con- por cima das necessidades de qualquer indivíduo e estivessem todas,
venções da pichação de parede nas de uma art brut, antes de matar- automaticamente, em choque com os supostamente monolíticos de-
se com uma overdose aos 27 anos. O primeiro estágio do destino sej os de uma classe dominante, alternadamente demoníaca e con-
de Basquiat, em meados da década de 80, foi ser entusiasticamente
acolhido por uma indústria da arte tão trivializada pela moda e ce-
descendente, de homens heterossexuais capitalistas. Cada vez mais,
supõe-se que nosso alcance cultural é fixado e determinado para sem- ••
ga pelo dinheiro que não podia distinguir um rabiscador de um Leo-
.o
nardo . segundo estágio foi ser abandonado pelo mesmo público,
pre pelo lugar onde fomos criados. Pode-se imaginar 6 grande des-
prezo com que um grande artista como Diego Rivera teria reagido .1
quando a novidade de seu trabalho se desgastou. O terceiro foi uma
tentativa de apoteose no Whitney Museum destinada a sanitizar sua
a isso. Ele jamais pensou que não tinha "poder", e tampouco Fri-
da Kahlo, embora Deus saiba que ela se encaixava em todas as cate-
gorias de outsider da atual litania de lamentação: uma latina bisse-
••
.'•
vida curta e frenética e colocá-lo como uma espécie de figura de már-
tir para toda obra, inflável, com isso restaurando o valor em dólar xual que passou a maior parte da vida sofrendo severa dor física.
Rivera provavelmente deu mais ao México, .em termos de autoco-

.'
de sua oeuvre numa época em que os preços da arte contemporânea
americana estavam em queda livre. Durante esse solene exercício de nhecimento e orgulho cultural, do que qualquer artista na história
do país, mas só pôde fazer isso porque absorvera e internalizara com-
Vitimologia Heróica, reviveu-se toda a hipérbole do artista como
demiurgo. Um colaborador do catálogo proclamou que " Jean per-
manece envolto na silenciosa toga roxa da Imortalidade"; outro opi-
pletamente a grande tradição da pintura de afrescos renascentista,
que se combinou com sua absorção do modernismo francês, arte
pré-colombiana e arte popular viva para produzir os tremendos re-
••
•.'•
nou que" ele está tão próximo de Goya quanto a pintura americana
sultados que vemos nas paredes do Palácio Nacional' na Cidade do
já conseguiu". Um terceiro, não querendo ficar para trás, exaltou
México. Se você dissesse a Rivera que qualidade não tem importân- .
o "punitivo regime de abuso contra si mesmo" (sie) de Basquiat,
cia, ele teria rido em sua cara.
como parte das "disciplinas impostas pelo princípio de ascetismo Ora, não se pode negar que, em algum momento na história
às avessas em que ele tão decididamente se empenhou" . Essas disci-
plinas de ascetismo às avessas, estamos vendo, significam injetar
droga em si mesmo até cair morto. O garoto morreu pelos nossos
da arte, houve reputações infladas e artistas injustamente ignora-
dos . Isso acontece a curto prazo, mas a longo prazo as injustiças
tendem a ser corrigidas . Há vinte anos, o sistema de arte americano
••
pecados. Através do vício, escreveu um quarto ensaísta do catálo-
go, Basquiat "parodiou e procurou curar uma cultura perturbada".
Como se esse newspeak cultural não bastasse, temos a opinião do
era inteiramente falocrático. Hoje continua havendo um pouco de
tendenciosidade institucional contra artistas mulheres, provavelmente
.ainda menos do que existe contra escritoras ou editoras na indústria
••
diretor do Whitney, David Ross: "A divisão racial e étnica conti-.
nua sendo um problema central na vida americana, e duradouras
suposições r acist as turvam seriamente a capacidade de muita gente
editorial americana. Contra negros há mais, porém isso está desa-
parecendo .
Parte da ressaca dos anos 80, porém, é a vertigem que temos
••
compreender Basquiat" . Não se pode compreendê-lo, aparentemen- .
te, e continuar achando-o trivial; daí, por sentimental implicação,
se você não adora o trabalho de Basquiat, é porque você odeia os
quando compreendemos quantos dos medalhões da época eram fal-
sos. O frenesi de alimentação cultural exigiu muito de artistas que ••
••
se desenvolvem lentamente, dos que valorizam certa reticênciaclás-
negros. É um.sinal de nossos tempos o fato de um grande museu sica e uma contabilidade precisa de sentimento acima da mera ex-
de Nova York apelar para tal chantagem emccional.? pressividade ou contestação. Também apresentou dificuldades pa-

156 157
••
e_o.
•• '!I
,I

•• ra os que acreditam que a arte baseada nas tradições internas da pin-


tura e escultura pode atingir valores simplesmente não acessíveis à
arte baseada nos meios de comunicação de massa. Sob certos as-
estéticos, contestar, refinar, criticar ou de alguma forma ampliar
o pensamento do status quo. Destinam-se a apaziguar uma mentali-
dade populista que se satisfaz com a fácil tarefa de "apoiar a etnici-
:ij
ii
{I

• ••
pectos, essas pessoas hoje enfrentam barreiras de gosto e de práti-
cas museológicas tão formidáveis quanto a crosta de preconceitos
um século atrás. O atual mundo da arte americano paralisado em
dade e diferenças de gênero nas artes", em vez da difícil tarefa de
buscar a verdadeira excelência. A maior parte da "arte" que resulta
de tais programas é kitsch afirmativo, prolixo. As pessoas gostam
um engarrafamento. Seus curadores de museus ainda estão escra- dela pelas mesmíssimas razões por que gostam de cartões Hallmark
I.
•• vos do mercado; a suposta variedade do mercado é um mito uma
vez que se apega ao sistema de estrelas da década de 80; suas' insti-
tuições marcham em marca-passo, impondo uma uniformidade de
com garças sumi-ê e versos New Age sobre elas. Simplesmente eles
fazem com que elas se sintam ... bem. Não há dúvida de que se pode
fazer um programa cultural para sentir-se bem com base em crité-

•• gosto que tem poucos paralelos na história da cultura americana.


E agora, a groselha nesse rançoso sundae cultural é que os ar-
rios sociológicos e estatísticos, apoiando-o com as beatices habituais
sobre "dar força". Isso combina muito bem com a tradição evan-

••
tistas têm de enfrentar a ernbotante pieguice gerada pelo rnulticul- gélica da vida cultural americana - a idéia de que somos melhora-
turalismo institucional ao estilo americano. Os que falam em multi- dos, edificados, transformados em melhores cidadãos pelo fato de
culturalismo como um programa "radical" não vêem como podem produzirmos ou consumirmos arte. Mas a arte que isso promove po-

•• revelar-se convencionalizantes, apaziguantes e inteiramente recon-


fortantes os seus efeitos para o gosto médio . Isso já é visível numa
área: a da arte subvencionada pelo governo, na qual programas
de ser, e muitas vezes é, bastante banal. O multiculturalismo cultural
também pode transformar-se numa espécie de racismo ao contrá-
rio, como sabe agora qualquer artista homem; branco; que se tenha

•• "multiculturais',' servem para tirar o sitiado National Endowment


for the Arts do dilema de ter de fazer qualquer discriminação. Se
os fariseus ladram por um fim ao apoio do governo à "grande" _
candidatado recentemente a uma bolsa no sul da Califórnia. Que
acontece quando o dinheiro do governo para as artes e o multicul-
turalismo popular se cruzam? Chantagem moral, com um olho de

•• o que significa difícil e possivelmente polêmica - arte; se os mora-


listas berram pelo sangue de algum poeta ou performer cuja obra
não combina com os "valores familiares" e pode provocar fúrias
verruma na burra oficial.
Isso não teria importância se o governo desse montanhas de di-
nheiro para as artes, de modo que todos tivessem sua fatia. Mas,

•• em algum clube de golfe de Tulsa - qual poderia ser o melhor refú-


gio senão o multiculturalismo compensatório? É só direcionar o já
magro conta-gotas de dinheiro governamental para um material que
como se sabe muito bem, o governo não faz nada disso. A burra
oficial americana não é grande. Parece mais um saquinho de san-

•• ninguém possa contestar: "Trabalhos de agulha Hmong, cestaria


de algas costeiras, dança nativa do sudoeste do Alasca, cestaria e
duíche. O contribuinte americano entra com 0,68 dólar para apoio
às artes todo ano, em comparação com 27 dólares na Alemanha e
32 na França. Na Holanda, nos últimos vinte anos, tentou-se a ver-

•• talha índia americana, fabricação de canoa das ilhas do Pacífico e


toque de banjo dos Apalaches", citando uma recente brochura edi-
tada pelo NEA, para mostrar como a relação do governo com bolsões
ba populista para todo inundo. O governo instituiu um fundo para
comprar obras de artistas, quase sem consideração com a qualida-
de. O que importava era que estivessem vivos e fossem holandeses.

• ••
de cultura local, de valor nostálgico, tornou-se simpática e carinhosa
após o tsuris de Mapplethorpe e Serrano. Alguém i~á malhar o NEA
. por subsidiar algum artesão de aldeia nos arredores de Seattle para
Cerca de 8 mil artistas holandeses estão representados nessa cole-
ção. Nenhum deles é exibido, e, como todos na Holanda, com exce-
ção dos artistas, hoje admitem que cerca de 96 por cento das obras
que crie um "projeto comunitário", destinado a inculcar "auto- são lixo. Os artistas acham que é tudo lixo, menos suas obras. Os

•• estima" em escolares, mostrando-lhes como esculpir castores de ce-


dro em estilo kwakiutl? Claro que não. Multiculturalismo e "diver-
sidade cultural", na interpretação das agências de subvencionamento
gastos com armazenamento, climatização e manutenção são hoje tão
elevados que eles vão ter de se livrar do material. Mas não podem.
Ninguém o quer. Não se pode dar de graça. Tentaram doá-lo a ins-

•• federais e de um número crescente de fundações privadas, têm nuan-


ces de pio ho bismo. Produzem pouca coisa que possa, em termos
tituições públicas, como asilos de doidos e hospitais. Mas até os asi-
los de doidos insistiram em padrões - queriam escolher. De modo

•• 158 159
.;
rios de cozinha não bons o bastante para serem realmente bons, mas
••
que tudo permanece lá, democrático, não hierárquico, não sexista,
não vendável e, para grande pesar do governo holandês , só parcial-
mente biodegradável.
decentes. Adoro as ferramentas, o cheiro das aparas, o ritmo do tra-
balho . Sei que quando vejo um armário Hepplewhite num museu, ••
••
Ora, há lições a tirar disso. A primeira é que se os asilos de doi- ou uma casa de madeira em Sag Harbor, posso lê-los - imaginar sua
dos holandeses podem discriminar em relação à arte sem ser acusados construção, apreciar sua perícia ---'- melhor do que se jamais tivesse
de elitismo antidemocrático, também o podem os museus america- trabalhado com madeira. Mas sei também que as mãos mortas que
nos . A tarefa da democracia no campo da arte é tornar o mundo
. seguro para o elitismo. Não um elitismo baseado em raça, dinheiro
fizeram a platibanda ou a varanda eram muito melhores que as mi-
nhas, e o verniz delas não tinha calombos. E quando vej o o nível de
•.•)
.;
ou posição social, mas em perícia e imaginação. A incorporação de marcenaria numa estrutura japonesa como o grande templo de Horyu-
alta perícia e intensa visão é a única coisa que torna a arte popular. ji, a precisão das complexas juntas, a compreensão do cipreste hino-
Basicamente, é esse o motivo por que o Rijksmuseum vive cheio de ki como substância viva, sei que não poderia fazer nada assim mes-

•.).)
gente, ao contrário dos porões repletos de arte corretiva em Ams- mo que tivesse minha vida inteira para dedicar a isso. As pessoas que
terdam. Os maiores espetáculos populares nos Estados Unidos são sabem fazer coisas assim são uma elite; conquistaram o direito de sê-
elitistas até a alma: os jogos de rúgbi, beisebol, basquetebol, tênis lo. Isso me enche a mim, um açougueiro da madeira cujas juntas se
profissional. Mas ninguém vai pagar para ver Hilton Kramer e eu encaixam em 89 ou 91 graus, de ressentimento? Absolutamente não.

..,•)
disputarmos os oitocentos metros de nado livre em 35 minutos cra- Mas de algo semelhante a reverência e prazer.
vados, apesar de nossa privilegiada posição como homens brancos Mutatis mutandi, o mesmo se aplica à literatura e às artes vi-
europeus não exatamente mortos. Como o esporte, a arte é uma área suais. A gente aprende a discriminar. À luz, nem todos os gatos são
em que o elitismo pode exibir-se com um custo desprezível em dano pardos . Após algum tempo, pode-se ver, por exemplo, por que um

.'.'
social. desenho de Pater ou Lancret pode ser diferente de um com o mes-
mo terna de Watteau: menos tensão na linha, um certo remendo e
A segunda lição é que se uma democracia participatória escru-
pulosa como a Holanda gasta 25 vezes por contribuinte a mais do
que gastam os Estados Unidos com cultura, escolhendo arte em ba-
ses sociológicas em nome de um completo igualitarismo social, e aca-
macete, e assim por diante. Isso correspondeà experiência, do mes-
mo modo como nossa percepção e comparação da graça no traba-
lho de um profissional de basquetebol ou de tênis nasce da expe-
.1
••
ba com um problema de como dispor de lixo, que garantia existe riência. Essas diferenças de intensidade, sentido, graça não podem ser
de que nos saiamos melhor aqui? Nenhuma, que eu veja. postas num pequeno catecismo ou livro de receitas. Só podem ser
Está na natureza dos seres humanos discriminar. Fazemos es- experimentadas e explicadas, e depois vistas em relação à história
colhas e julgamentos todo dia. Essas escolhas fazem parte da expe- que inclui a história social. Se o museu oferece base para isso, está
fazendo o seu trabalho. Se não - e uma das maneiras de não fazê-lo ••
•.•)
riência real. São .influ enciadas por outros, claro, mas não resultam
fundamentalmente de uma reação passiva à autoridade. E sabemos é deixar-se desviar por problemas de deslocada ideologia - então
que uma das experiências mais reais na vida cultural é a da desi- é provável que fracasse, independentemente do grau de passageira
gualdade entre livros e apresentações musicais e pinturas e outras relevância que possa sentir. Do mesmo modo, os responsáveis pelos
obras de arte. Algumas coisas nos parecem melhores que outras - museus não servem apenas ao público, mas ao artista, quer a obra
mais articuladas, mais radiantes de consciência. Podemos ter difi-: desse artista esteja ou não na coleção, por uma escrupulosa adesão
••
culdade para dizer por quê, mas a experiência permanece . O princí-
pio do prazer é muitíssimo importante em arte, e os que gostariam
de vê-lo rebaixado em favor do discurso ideológico me lembram os
a altos padrões artísticos e intelectuais. Essa disciplina não é quanti-
ficável, mas é, ou deve ser, desinteressada, e há duas maneiras certas
de destruí-la. Uma é deixar o mercado de arte ditar seus valores ao ••
puritanos ingleses que se opunham à luta de ursos, não porque cau-
sasse sofrimento aos ursos, mas porque dava prazer aos espectadores.
Por exemplo, meu hobby é marcenaria. Sou bom nisso - para
museu . A outra é transformá-lo numa arena para batalhas que têm
de ser travadas sim - mas na área da política. Só resistindo às duas
pode o museu continuar com sua tarefa de nos ajudar a descobrir .
••
•••
um amador. Quer dizer, sei fazer uma gaveta que desliza, e armá- uma civilização grande mas sempre em parte perdida: a nossa.

160 161

e __
••

'•.
•• NOTAS
••.)
•• 1. CULTURA E DESINTEGRA çà O DA COMUNIDADE POLÍTICA (pp. 13-72)

'I.•. (1) Ver Cathy Young, " Victim hood is powerful : both feminists and antifemi-
nists see advantages in keeping women down" [A condição de vítima é poderosa:
feministas e an tifeministas vêem vantagem em manter as mulheres por baixo], Rea-
son (out. 1992).

•• (2) Nat Hentoff, "What r eal1y happened at Betty's Oceanview Diner" [O que
realmente aconteceu no Betty's Oceanview Diner], Vil/age Voice, 7/1/92.
(3) Ver Adam Redfield, carta ao New York Times, datada de 22/11/91.

•• (4) Barbara Egrenreich, em Democratic Left (ju l./ago. de 1991); reimpresso


em Paul Berman (ed.) , Debating P .C,) the controversy over college political correct-
ness on campuses [O debate do r-c, a polêmica sobre correção política .universitá ria

••
nos campi], (1992), p. 336.
(5) Reportagem de William Henry lII, "Upside down in the grooves of Acade-
me" [De cabeça para baixo nas trilhas do mundo acadêmico] , Time, 1/4/91.
(6) Nat Hentoff, "'Speech Codes' on the campus and problems of free speech "

•• ["Códigos de discurso" no campus e problemas de liberdade de expressão], Dissent


(outono 1991), p . 546.
(7) Idem, ibidem, p. 549.

•• (8) Tom Wicker, "The democrats as the Devil's disciples" (Os democratas co-
mo discípulos do Diabo], The New York Times, 30/8/92.
(9) Michael Thomas , "The money game" [O jogo do dinheiro], introdução ao

•• catálogo Culture and commentary, an Eighties perspective [Cultura e comentário,


uma perspectiva dos anos 80], H irshhorn Museum, 1990, p . 147.
(lO) William Greider, Who will tell the people: the betrayal of American de-

•• mocracy [Quem vai contar ao povo: a traição da democracia americana] (1992), p. 25.
(11) Seymour Martin Lipset & Earl Raab, The Politics of Unreason: Righi- Wing
Extremism in America 1790-1970 [A política do irracional: extremismo direitista na

••
América 1790-1970], p. 103.
(12) Idem, ibidem, p. 114.
(13) Idem, ibidem, p. 239.
(14) Ver Berman (ed.), Introdução a Debating P.C. [Debatendo o rc] (1992).

•• 163


••
(15) Carol Gruber, Mars and Minerva: World War I and the uses of higher
learning in America [Marte e Minerva : a Primeira Guerra Mundial e os usos do ensi-
no superior na América]; William Summerscales, Affirmation and dissent: Colum-
(14) Ver Harold Brackman, Farrakhan's reign of historical error: the truth be-
hind "the secret relationship between Blacks and Jews" [O reino de erro histórico
de Farrakhan: a verdade por trás de tiA relação secreta entre negros e judeus"], Si-
••
bia's response to the crisis of World War I [Afirmação e discordância: a resposta
de Columbia à crise da Primeira Guerra Mundial]; ambos citados por Cyrus Veeser,
numa carta a The New York Times, 23/6/91.
rnon Wiesenthal Center Reports, 1992.
(15) Ver Roland Oliver, The African experience [A experiência africana] (Lon-
dres, 1991), sobretudo - para uma discussão a respeito de africanos por africanos
••
(16) Daniel J . Singal, "The other crisis in American education" [A outra crise
na educação americana], The Atlantic Monthly , (nov. 1991) , p. 67.
(17) Eugene Genovese, "Heresy, yes - sensitivity, no" [Heresia, sim - sensi-
bilidade, não], New Republic, 15/4/91.
- o capítulo 10, "Masters and slaves" [Senhores e escravos], passim ,
(16) E. Hobsbawm (ed.) et al, The invention of tradition [A invenção da tradi-
ção] (Cambridge, 1983). ••
9/7/91.
(18) Louis Menand, "Lost faculties" [Faculdades perdidas], New Republic,

(19) Gerald Graff, Litterature against itself [A literatura contra si mesma] (Chi-
3 . A MORAL EM SI: A ARTE E A FALÁCIA TERAPÊUTICA (pp. 125-61) ••
cago 1979), pp. 96-7.
j

(20) Daniel Harris, "Make my rainy day" [Faça meu dia de chuva], The Na-
tion, 8/6/92 .
(1) Richard Bolton, introdução a Culture wars: documentsfrom the recent con-
troversies in the arts [Guerras culturais: documentos de recentes polêmicas nas artes]
(Nova York, 1992), p . 9.
••.)
2 . MULTI-C ULTI E SEUS DESCONTENTES (pp. 73-124)
(2) Depoimento de Healey: idem , ibidem, pp . 130 ss.
(3) John Wicklein, "The assault on public television" [O ataque à televisão
pública], 'Columbia Journalism Review, (jan. -fev. 1986), pp . 27-9. O memorando .)
•.>
de Nixon foi liberado em 1979 sob a Lei de Liberdade de Informação.
(1) Andrew Riemer, Inside outside [Por dentro, por fora] (Sydney, 1992), p. 157. (4) Sobre as origens evangélicas da apreciação de arte americana no século XIX,
(2) Les Murray, "The human-hair thread" [O fio de cabelo humano], em Per- a discussão mais valiosa, à qual recorri bastante, é a de Neil Harrís, The artist in
sistence in folly: selected prose writings [Persistência na loucura: prosa escolhida] American society: the formative years, 1790--1860 [O artista na sociedade americana:
(Sydney, 1984), p. 4.
(3) David Rieff, Making sense of multiculturalism [Entendendo o rnulticultu-
os anos de formação, 1790-1860] (1966).
(5) Rochelle Gurstein, "Misjudging Mapplethorpe: the art scene and the obs-
••
ralismo], ensaio inédito, 1992.
(4) Katha Pollit, "Canon to the right of me .. ." [Cânone à minha direita...],
The Nation , 23/9/91.
cene" [Julgando mal Mapplethorpe: o cenário artístico e o obsceno], Tikkun (nov.-
dez . 1991) .
(6) Adam Gopnik, "Empty frames" [Molduras vazias], New Yorker, 25/11/91. .1
(5) Frederick Crews, Introdução a The critics bear it away: American fiction (7) Ver o catálogo The West as America: reinterpreting images of the frontier,


.'.'
and the Academy [Os crí tico s são testemunhas: a ficção americana e a academia] 1820-1920 [O Oeste como América: rein terpretando imagens da fronteira, 1820-1920],
(Nova York, 1992), p. xv. de William Truettner (ed.), com ensaios de Nancy K. Anderson et al., Smithsonian
(6) Edward Said , "The politics of knowledge" [A política do conhecimento], Institute, 1991.

.'.'
Raritan, (verão 1991). (8) Ver Eunice Lipton, c 'Here today, gone tomorrow? Some plot for a disman-
(7) Jorge Amado, "EI embeleso colonial", El Pais, 23/8/92. I tling" [Hoje aqui, amanhã se foi? Certa trama para uma desmontagem], no catálo-
(8) Os "Afrícan-Arnerican baseline essays", reimpressos , podem ser obtidos
com o superintendente Matthew Prophet, Portland Public Schools, 501 N. Dixon ~ go The decade show: frameworks of identity in the 1980s [A mostra da década: es-
truturas de identidade nos anos 80] (Nova York), 1990. .
St., Portland, OR 97227.
(9) Xeque Anta Diop, Civiiization OI' barbarism: an authentic anthropology [Ci-
vilização ou barbárie: uma antropologia autêntica] (Nova York, 1991). Originalmente
1992).
(9) Ver, passim , o catálogo Jean-Michel Basquiat, Whitney Museum (Nova York,

.'•
publicado como Civilisation ou barbarie (Paris, 1981).

p. 38.
(10) Basil Davidson, Africa in history [A África na história] (Londres, 1984);
.
.'.J.)
.'•.)
(11) Diop, Civilization OI' barbarism , "Introdução", p . 3.
(12) Para um resumo e refutação por um destacado erudito negro, cio "novo
anti-semitismo " nos círculos afrocentrist.as, ver Henry Louis Gates Jr., "Black de-
magogues and pseudo-scholars" [Demagogos e pseudo-eruditos negros], New York
Times, 20/7/92.
(13) David Brian Davis, Slavery and human progress [Escravidão e progresso
humano] (Ithaca, 1984), p . 33.

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