Você está na página 1de 4

Faculdade de Economia, Universidade Federal Fluminense

Microeconomia III – 2° semestre de 2016

Lista 7 - Capítulo 33: Bem-estar

0. Ler resumo e fazer os exercícios de revisão do capítulo 33 do Varian, pp. 668-669.

1. Uma maneira de se determinar relações de preferências sociais é a “contagem de Borda”1, também conhecida
como votação com escala ordinal. Pede-se a cada eleitor que ordene todas as alternativas, atribuindo 1 à
primeira alternativa, 2 à segunda, e assim por diante. Soma-se então a pontuação total de cada alternativa. A
pontuação total de uma alternativa é chamada de “contagem de Borda”. Para quaisquer alternativas, x e y, se a
contagem de Borda de x for menor ou igual à de y, então x será “socialmente ao menos tão bom quanto” y.
Suponha que haja um número finito de alternativas, e que todos os indivíduos tenham preferências racionais
(completas, reflexivas e transitivas). Vamos supor ainda que os indivíduos nunca sejam indiferentes entre duas
alternativas, tendo, portanto, somente preferências estritas.
a. A ordenação social de preferências assim definida é completa? É reflexiva? É transitiva?
b. Se todos preferem x a y, a contagem de Borda classificará x como socialmente preferida a y? Por que?
c. Suponha que haja dois eleitores e três candidatos, x, y e z. Suponha que o eleitor 1 ordene: x, z, y; e que o
eleitor 2 ordene: y, x, z. Qual é a contagem de Borda para x? E para y? E para z?
d. Suponha que novos fatos políticos tenham alterado as preferências, de forma que agora o eleitor 1 ordene:
x, y, z; e que o eleitor 2 ordene: y, z, x. Qual é a contagem de Borda para x? E para y? E para z?
e. A relação de preferência social definida pela contagem de Borda respeita a propriedade de que as
preferências sociais entre x e y dependem apenas de como as pessoas ordenam x com relação a y,
independentemente de como ordenam outras alternativas? Explique.

2. Suponha que a fronteira de possibilidades de utilidade para dois indivíduos seja dada por UA + 2UB = 200.
a. No gráfico abaixo, trace esta fronteira.

UB
200

150

100

50

0 50 100 150 200


UA

(OBS: O capítulo 5 do Varian é boa fonte para revisar diferentes funções. Lá, tratava-se de funções de
utilidade (individuais); aqui, são funções de bem-estar social (coletivas). Porém, o raciocínio é análogo:
complementares ~ maximin; substitutos ~ utilitarista clássica; Cobb-Douglas ~ funções intermediárias entre
maximin e substitutos perfeitos; e assim por diante.)

b. Que coordenada no gráfico acima indicaria um ponto de maximização de uma “função de bem-estar social
Nietzcheana”, isto é, W(UA,UB) = max {UA,UB}? (Dica: sobre esta função, ver ex. de revisão 2 do Varian).
c. Que coordenada no gráfico acima indicaria um ponto de maximização da função de bem-estar social do
tipo maximin, W(UA,UB) = min {UA,UB}?
d. Que coordenada no gráfico acima indicaria um ponto de maximização da função de bem-estar social
W(UA,UB) = UA1/2UB1/2? (Note a semelhança entre este problema de maximização e o problema comum de
maximização do consumidor com função de utilidade Cobb-Douglas).
e. No gráfico acima, indique com cores diferentes os três pontos de maximização do bem-estar. Esboce
também as curvas de iso-bem-estar que passam pelos ponto de maximização.

1
Proposta pelo matemático francês Jean-Charles Borda em 1770.
1
3. Um casal tem dois filhos, Antônio (A) e Bruna (B), igualmente amados pelos pais. O casal tem R$1.000,00
para lhes distribuir.
a. A utilidade do casal é U(a, b) = √a + √b, onde a é o montante que os pais oferecem a A, e b é o montante
que oferecem a B. Como será dividido o dinheiro?
b. Suponha que a utilidade do casal seja U(a, b) = -1/a – 1/b. Como será dividido o dinheiro?
c. Suponha que a utilidade do casal seja U(a, b) = log a + log b. Como será dividido o dinheiro?
d. Suponha que a utilidade do casal seja U(a, b) = min {a,b}. Como será dividido o dinheiro?
e. Suponha que a utilidade do casal seja U(a, b) = max {a,b}. Como será dividido o dinheiro?
f. Suponha que a utilidade do casal seja U(a, b) = a² + b². Como será dividido o dinheiro? Qual é a
particularidade deste caso?

4. Nouriel e Roubini têm fronteira de possibilidades de utilidade dada pela seguinte equação: UR + (UN)² = 100,
onde N e R indexam os dois agentes.
a. Se fixarmos a utilidade de Nouriel em zero, qual será a máxima utilidade que Roubini poderá alcançar?
b. Se fixarmos a utilidade de Roubini em zero, qual será a máxima utilidade que Nouriel poderá alcançar?

UR
100

75

50

25

0 5 10 15 20
UN

c. Com base nas respostas dadas a (a) e (b), e observando o tipo de função (não-linear) com que estamos
trabalhando agora, esboce no diagrama abaixo a fronteira de possibilidades de utilidade.
d. Calcule a declividade da curva de possibilidades de utilidade.
e. Ambos os agentes desta sociedade acreditam que a alocação ideal seja dada pela maximização de alguma
função de bem-estar social apropriada. Roubini acredita que UR = 75 e UN = 5 seja a melhor distribuição de
bem-estar, e está em busca de uma função de bem-estar social de tipo utilitarista generalizada (com
ponderação da importância dos agentes) compatível com esta alocação ideal (UR = 75 e UN = 5). Qual é esta
função de bem-estar? (Dica: qual é a declividade desta função de bem-estar social?).
f. Já Nouriel acredita que a melhor distribuição de bem-estar seja UR = 19 e UN = 9. Qual é esta função de
bem-estar compatível com isto?

5. Paula (P) e David (D) consomem abacates (A) e bananas (B). A função de utilidade de Paula é UP(AP,BP) = 2AP
+ BP, e a de David é UD(AD,BD) = AD + 2BD. Há um total de 12 abacates e 12 bananas a serem divididos entre
os dois. Paula tem curvas de indiferença azuis, enquanto as de David são vermelhas.
a. Desenhe uma caixa de Edgeworth mostrando algumas das curvas de indiferença de cada um deles.
b. Aponte as alocações ótimas de Pareto.
c. Escreva uma desigualdade que expresse o seguinte: “Paula gosta de sua cesta tanto quanto da de David”.
d. Faça o mesmo para David.
e. Sabendo que AP + AD, = 12, e que BP + BD = 12, elimine AD e BD da equação do item (c) e escreva então
uma desigualdade envolvendo apenas as variáveis AP e BP. Agora, na Caixa de Edgeworth, sombreie todas as
alocações tais que Paula prefira suas própria cesta à de David.
f. Faça o mesmo para David.
g. Na sua Caixa de Edgeworth, marque as alocações “justas” (NB: justas segundo a posição normativa
defendida pelos partidários de equidade como ausência de inveja!).

6. Coloque-se na seguinte “posição original”: suponha que amanhã você será a pessoa A ou B numa economia
muito simples, em que existam apenas esses dois indivíduos A e B e uma quantidade fixa de somente um bem,
coco. Você precisa escolher como o total de cocos será dividido entre A e B amanhã. É igualmente provável
que você seja A ou B.

2
a. Sendo R a proporção de coco atribuída a A, e 1-R aquela atribuída a B, em que valor você especificaria R?
Explique seu raciocínio.
b. Mostre que, na posição original descrita aqui, uma pessoa avessa ao risco escolheria R = ½.
7. John Harsanyi, economista e teórico dos jogos, criticou o raciocínio do filósofo político John Rawls, que,
partindo da “escolha sob véu de ignorância” (na chamada “posição original”), aponta o maximin como
princípio de justiça. Segundo Harsanyi, para chegar ao maximin, é preciso considerar que a pessoa que se
encontra nesta chamada “posição original” tenha aversão desmesurada ao risco, preocupada apenas em evitar o
pior, que é nascer na posição mais desfavorável numa sociedade. Para Harsanyi, pessoas assim seriam
paranóicas e, consequentemente, irracionais. Rawls reagiu vigorosamente, afirmando que a escolha de
princípios de justiça não pode ser tratada como uma escolha sob incerteza como outra qualquer. Vejamos uma
ilustração do contraste entre as visões de Rawls e Harsanyi.

Suponha que, numa sociedade composta por três pessoas, possamos medir cardinalmente a utilidade de cada uma
delas. Suponha que haja três conjuntos de políticas públicas, defendidas pelos partidos, A, B e C, que conduzam a
distribuições diferentes de bem-estar para os três indivíduos, conforme indicado abaixo:

Conjunto de políticas públicas Utilidade do indivíduo


João Maria José
Partido A 45 45 45
Partido B 75 60 30
Partido C 78 63 21

O problema é escolher qual desses conjuntos de políticas é preferível, supondo que nenhum dos três indivíduos
saiba que pessoa será ao nascer (posição original).
a. (Suponha que estejamos certos de que os princípios de igual liberdade e de justa igualdade de
oportunidades serão satisfeitos nessa sociedade, de forma tal que possamos abstrair deles e nos concentrar
apenas sobre o princípio de diferença. Vamos ignorar também o fato de estarmos usando utilidades aqui, algo
rejeitado explicitamente por Rawls, que defende o uso de “bens primários” como atributos). Consideradas
essas ressalvas, responda o seguinte: na posição original, de acordo com o princípio de diferença de Rawls,
qual conjunto de políticas públicas seria preferido: A, B, ou C? Qual conjunto de políticas públicas seria o
menos desejável aos olhos de Rawls?
b. Se cada pessoa maximizasse sua utilidade esperada, e se cada uma tivesse probabilidade 1/3 de ser uma das
três pessoas, qual seria o conjunto de políticas públicas preferido? (Este é o raciocínio privilegiado por
Harsanyi).
c. Suponha, por fim, que o “véu da ignorância” tenha sido retirado, ou seja, que agora um indivíduo saiba que
será João; o outro saiba que será Maria; e um terceiro saiba que será José. Se esta sociedade tivesse que
escolher entre A, B e C por meio de uma eleição com voto majoritário, em turno único, que alternativa
venceria?

8. Deus lhe diz que você tem o direito de escolher o país em que nascerá, mas não sua identidade: em especial,
você não sabe o quão rico ou pobre será. Para facilitar sua escolha, Ele encomendou um estudo sobre a
distribuição de renda nos países em que você poderá nascer. Os resultados encontram-se resumidos a seguir:

Renda média de cada tipo de indivíduo em cada um dos países.


Pais: Bolivária Escandilândia Ibéria Anglo- Belíndia
Tipo de indivíduo: Saxônia
Indivíduo mais pobre 10 35 20 10 2
Indivíduo de classe média baixa 10 45 35 20 4
Indivíduo de classe média 10 50 40 40 10
Indivíduo de classe média alta 10 55 40 70 30
Indivíduo mais rico 10 60 45 80 50

 Em todos os países, a proporção de habitantes de cada tipo é igual: 20% de cada tipo. Implicação: é como se
houvesse um habitante de cada tipo em cada país.
 Assim que você nascer, morrerá algum habitante do estado em que você nascer, de forma que você o substituirá.
Implicação: a população será mantida.
 Para simplificar sua escolha, decidiu-se por determinação divina que a função de utilidade de todos os
indivíduos do mundo seja: U(Xi) = Xi, onde Xi é a renda do indivíduo i. Determinou-se ainda que IBPi = Xi, onde

3
IBPi é um índice de “bens primários” possuídos por i, e Xi é sua renda. Implicação: o atributo não tem nenhuma
relevância aqui.
a. Se você fosse simpatizante das ideias de John Rawls, em que país você escolheria nascer? Explique.
b. Se você fosse simpatizante das ideias de John Rawls, como você ordenaria os países (do mais atrativo para
nascer ao menos atrativo para nascer)? Explique.
c. Se você fosse um igualitarista estrito, que país você classificaria como o mais desejável? Explique.
d. Se sua função de bem-estar social fosse “Nietzcheana”, como você ordenaria os países? Explique.
e. Se você fosse um utilitarista clássico, como você ordenaria os países? Explique.
f. Se você fosse um utilitarista ponderador, que atribuísse pesos de 1 a 5 aos diferentes tipos de indivíduos (1
ao mais rico, 2 ao segundo mais rico, e assim por diante, até 5 ao mais pobre), como você ordenaria os
países? Explique.

Você também pode gostar