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ANALISE DE TEXTO HUMORÍSTICO

AS PIADAS

Eliana Maria Borges (UENF)


Sonia Maria Pereira Freitas (UENF)

INTRODUÇÃO

Se você diz a alguém que estuda piadas, o


primeiro efeito que produz ainda é o riso. É uma
pena que seja assim, porque as piadas são, de
fato, um tipo de material altamente interessante,
por várias razões (Possenti: 1995).

Realmente, as piadas por veicularem, com bastante freqüência, uma visão sintetizada dos problemas, podem
tornar-se mais fáceis de serem compreendidas por interlocutores não-especializados. Segundo Possenti, há
fortes razões para que elas se tornem objeto de análise.

As piadas são interessantes, por exemplo, porque grande parte delas versam sobre sexo, política, racismo,
instituições (Igreja, escola, casamento, maternidade, línguas), loucura, morte, desgraças, sofrimento, defeitos
físicos - para o humor, a velhice, a calvície, a obesidade, órgãos genitais pequenos ou grandes, são defeitos -
ou seja, temas socialmente controversos. Dessa forma, elas servem de excelente corpus para que estudiosos
possam reconhecer ou confirmar manifestações culturais e ideológicas.

Outra razão que justifica a análise de piadas é que, como elas funcionam, em grande parte, na base de
estereótipos, fornecem um bom material para pesquisas sobre representações sociais. Por exemplo, nas piadas,
judeu só pensa em dinheiro, português é burro, inglesas são frias, japonês tem sexo pequeno, baiano é
preguiçoso, nordestino é o mais potente, etc. Finalmente, as piadas são interessantes porque, quase sempre,
veiculam discursos proibidos, subterrâneos, não-oficiais, que, provavelmente, não se manifestariam em uma
entrevista, por exemplo.

As piadas interessam como peças textuais para os estudiosos de discurso por mostrarem um domínio lingüístico
que, de alguma forma, é complexo. Para ilustrar hipóteses ou princípios de análise lingüística, esses
especialistas poderiam escolher uma piada e, com isso, teriam um exemplo original, envolveriam os
interlocutores em verdadeiros problemas de interpretação e, mesmo, procederiam às abstrações necessárias
para exemplificar um mecanismo lingüístico qualquer.

As piadas, geralmente, acionam mais de um mecanismo lingüístico. Apresentaremos alguns exemplos, nos
quais nos propomos a analisar os mecanismos lingüísticos (fonológico, lexical, morfológico, sintático, etc)
envolvidos na produção do humor, utilizando como referencial teórico, a Análise do Discurso que entende o
texto enquanto espaço de negociação de sentidos. Mostraremos também como o locutor se posiciona frente à
realidade, a imagem que faz de si e do outro, sempre partindo daquilo que enunciou ou deixou de enunciar. O
humor, no tipo de texto analisado, opera em vários níveis simultâneos, portanto, a divisão que será feita aqui é
apenas para facilitar a análise.

ANÁLISE DE ALGUMAS PIADAS

Ativamento de Conhecimento Prévio

E Eva disse a Adão: - Adão, você me ama? E ele em sua infinita sabedoria: - E eu lá
tenho escolha?

Ao ler esse texto, ativa-se na memória o conhecimento de outro texto. Tal conhecimento pode não ser
essencial para a compreensão, contudo, seu conhecimento atribui à leitura um efeito de sentido diverso. A
intertextualidade, aqui definida como a ligação entre textos orais ou escritos, é um aspecto relevante do
conhecimento prévio.

A construção dessa piada leva em conta um intertexto: a história bíblica de Adão e Eva no paraíso. Se esse
conhecimento não for ativado na memória do leitor, a compreensão que se fará não será a adequada para esse
texto. A pergunta que Eva faz a Adão é óbvia entre casais, mas sem o ativamento do intertexto, a leitura
produzida mostraria que na resposta não há sentido lógico para o leitor.

A partir do momento em que se percebe tratar-se do casal considerado a gênese da humanidade, a


compreensão é bem diversa. Adão, de fato, não poderia ter outra opção. Essa leitura parece a mais apropriada,
porque é a que provoca o riso.

Nível Fonológico
Aírton Senna é um ás no volante.

Esse texto pode ser lido de duas formas: Aírton Senna é um ás no volante, ou Aírton Senna é um asno volante.

Para se compreender a ambigüidade que gera o humor nesse texto, além, é claro, dos conhecimentos de
mundo sobre o piloto, sobre sinonímia (ás equivale a exímio, perito e asno equivale a burro), é necessário
observar a emissão da sílaba tônica na seqüência de sílabas que formam ás + no (= asno). O que permite dizer
que numa leitura temos uma única palavra (asno) e, em outra, temos duas (ás no) é a diferença de acento.

Essa compreensão pode ser interessante quando se busca mostrar que a relação entre uma forma e um sentido
não é tão óbvia.

Nível Lexical

A velhota, superantiquada, recomenda à neta: - Benzinho, há duas palavras que eu quero


que você prometa nunca mais dizer. Uma é bacana e a outra é nojenta. Você promete? -
Claro, vovó. E quais são as palavras?

Esse é um bom exemplo de como a linguagem tem funcionamento metalingüístico. No caso, há uma separação
entre a referência (menção) e a aplicação (uso) que cada um dos falantes faz das palavras bacana e nojenta.

Nível Morfológico

Perguntaram ao português: - O que é um homossexual? Ele respondeu: - É um sabão para


lavar as partes.

Essa piada funciona de forma semelhante à de nº 2. É muito difícil analisar piadas em nível morfológico sem
incluir um problema fonológico, segundo Possenti (op. cit.). A piada nº 2 poderia ser considerada morfológica,
pois apresenta um problema de divisão de palavras. Se há separação, é para destacar os dois domínios,
privilegiando um de cada vez.

Na piada citada, no nível morfológico, de acordo com a separação feita na cadeia, temos mais ou menos
palavras em questão, e isso é um problema de morfologia. Basta pôr em primeiro plano a formação de uma das
seqüências (homo + sexual) ao lado de outra (homo + sexo + al) para que se evidencie o que foi exposto.

Nível Sintático

Duas pessoas caminham lendo lápides em um cemitério, quando se deparam com os


seguintes dizeres: AQUI JAZ UM POLÍTICO E UM HOMEM HONESTO. - Nossa, que povo
pão-duro! - disse uma delas - Enterrou duas pessoas em um mesmo caixão.

O cerne da questão nessa piada decorre do fato de se ler a inscrição como um período simples ou composto.
Quem fez a homenagem ao morto afirmou que ele, além de político, era honesto. A idéia de adição ocorreu
com as qualificações de um mesmo ser. O que está escrito na lápide constitui um período simples.

A leitura feita leva em conta a idéia de adição entre duas orações. Assim, temos coordenadas aditivas com a
elipse do verbo na segunda: Jaz um político e (jaz) um homem honesto.

Não se pode deixar de assinalar que, ao mesmo tempo, que há essa questão sintática, existe também a
concepção corrente de que todo político é corrupto. Rir dessa piada significa que a compreendemos, porque
compartilhamos desse conhecimento, mesmo que concordemos com ele ou não.

Nível Semântico

Numa festa o secretário do presidente fila um cigarro. O presidente comenta: - Não sabia
que você fumava. - Eu fumo, mas não trago. - Pois devia trazer.

O humor nessa piada constrói-se a partir da coincidência entre as duas formas verbais que provêm de verbos
distintos: tragar e trazer. A forma trago (present do indicativo) provém do verbo regular tragar e é do mesmo
campo semântico de fumar e cigarro; mas o presidente compreende trago como o presente do verbo irregular
trazer e censura o secretário por ser fumante e não estar portando cigarros (quem sabe por não querer ceder
os seus?!). Seria mais coerente o interlocutor compreender a forma trago com a possibilidade de estabelecer
uma relação com a ação de fumar (fumar equivale a fumo, tragar equivale a trago).

O que provoca o riso é o “equívoco” provocado pela língua que gera uma coincidência que é mais relevante do
que o fato de o presidente não censurar o secretário pelo vício de fumar.
Dêixis

- Não deixe sua cadela entrar na minha casa de novo. Ela está cheia de pulgas. - Diana, não
entre nessa casa de novo. Ela está cheia de pulgas.

Dêiticos são formas lingüísticas cuja referência só pode ser determinada pelo contexto. A indeterminação de
dêiticos é um campo fértil para a produção de humor. Os pronomes pessoais, sob o ponto de vista dos
pragmaticistas, estão submetidos a condições que ultrapassam um aparentemente simples contexto. Como se
percebe na piada acima, o pronome “ela” é um dêitico, isto é, sua referência, no caso desse texto, depende do
pressuposto que determina a ocorrência de um nome de referência idêntica, e que há dois sentidos possíveis:
tanto “cadela” quanto “casa” podem ter referentes idênticos ao de “ela”, esses dois sentidos possíveis podem
ser fonte de equívoco, o que possibilita a produção do humor nessa piada.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Através dos mecanismos lingüísticos apresentados, pode-se perceber também que as piadas, por serem
discursos, servem à ideologia e que os sujeitos envolvidos no discurso humorístico são marcados pela
heterogeneidade. Se quisermos ilustrar a heterogeneidade dos discursos, elas parecem criadas a propósito.

As piadas, além de serem excelentes corpus para explicitar a análise lingüística, oferecem argumentos valiosos
para as teses ligadas às teorias textuais e discursivas e à teoria da relevância das condições de produção, ou
seja, para os discursos ocorrerem, exigem muito mais que um locutor dotado de genialidade ou inspiração. É
preciso que haja um “solo” fértil de problemas como os das zonas discursivas assinaladas nos exemplos
apresentados.

Há uma razão muito simples para se postular que as piadas são bons exemplos de textos cujos sentidos não
dependem da autoria (papel que se atribui a uma subjetividade que seria, de alguma forma, responsável pelos
textos, por sua unidade, por seu sentido): as piadas, geralmente, não têm autor. A possibilidade de uma leitura
sem se considerar o autor demonstra que há discursos que se dizem, ou que são ditos por todos, dadas certas
condições, sem que sua origem esteja relacionada a um indivíduo de forma relevante.

Para compreender qualquer piada, é necessário ao leitor “mover-se” de certa forma no texto, já que as piadas,
como dito anteriormente, operam com ambigüidades, sentidos indiretos, implícitos. Assim, pode-se notar o
quanto existe de atividade na produção da leitura de textos de humor, pois o leitor não é mero receptor de
informações do autor. Cabe ao leitor fazer operações epilingüísticas, além de conhecimentos sobre a língua,
sobre comportamento lingüístico que se espera de um sujeito em determinada situação, sobre o contexto em
que se produziu o texto. Segundo Possenti (op. cit.), embora o texto não seja o único fator relevante no
processo de leitura, é o ingrediente mais importante, pois é ele que demanda e limita a atividade do leitor.

A análise de textos humorísticos mostra um novo ângulo de análise; ao analista cabe explicar “como” e não o
“porquê” do humor, ou seja, ele tentará explicar não o que as piadas significam, mas como funcionam,
descrevendo as chaves lingüísticas que são um meio que desencadeia em nós o riso.

Se o leitor/ouvinte não “sacar” uma piada, isso se deve a uma certa quantidade de conhecimento não
partilhado entre o falante e o ouvinte. E mais especificamente, pode-se não “sacar” uma piada em
conseqüência de falta de conhecimentos lingüísticos, porque o jogo lingüístico interage com conhecimento de
mundo.

Possenti afirma que embora não exista uma lingüística que trate especificamente do humor (é uma pena!), a
lingüística só teria a ganhar se se debruçasse sobre textos humorísticos, pois eles, certamente, são uma
verdadeira “mina” para os lingüistas e, principalmente, servem para comprovar que o texto não traz em si o
sentido; ele é, sobretudo, a condição básica para que o leitor/ouvinte construa o significado.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

POSSENTI, Sírio. Os humores da língua: análises lingüísticas de piadas. 3ª ed. Campinas: Mercado de Letras,
2002.

------. Discurso, Estilo e Subjetividade. 2ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 2001.

Hilgert, José Gaston; Rösing, Tania Mariza K. e Graeff, Telisa Furlanetto (org.). Anais da vi jornada nacional de
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PIADÃO COLLECTION, Ano 1, Nº 02. São Paulo: Escala LTDA.

HENRIQUE, Ana Lúcia & PEREIRA, Francisca Elisa. Análise Lingüística de Textos Humorísticos: Uma Prática de
Leitura e Cidadania. In: Holos-CEFET, Ano 15, Nº 01, Natal, 1999, p. 37-43.
BRANDÃO, Helena H. Nagamine. Introdução à Análise do Discurso. 8ª ed. Campinas: UNICAMP.

FIORIN, José Luiz. Linguagem e ideologia. 6ª ed. São Paulo: Ática, 1998.

ORLANDI, Eni Puccinelli. Análise de Discurso: Princípios & Procedimentos. 4ª ed. Campinas: Pontes, 2002.