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PRESENÇA PEDAGÓGICA:

UM MODO DE MEDIAR O PROCESSO


DE APRENDIZAGEM COM QUALIDADE
a presença pedagógica é uma condição essencial para favorecer uma boa mediação da
aprendizagem. por meio do seu exercício, o professor abre uma via de diálogo efetivo com os
jovens, acolhendo-os em suas singularidades ao mesmo tempo em que exige responsabilidade
e compromisso, ajudando-os a gerirem suas aprendizagens e desafiando-os a crescerem.

U ma das contribuições das teorias da aprendizagem e do desenvolvimento humano


que mais influenciaram as práticas pedagógicas foi a compreensão de que
aprendemos necessariamente na interação com o outro. Desde então, ganhou força
a discussão da qualidade dessa interação entre os principais atores nos processos de
ensino-aprendizagem: professores e estudantes.
A interação professor-aluno é construída cotidianamente nas mais variadas situações
escolares, sobretudo durante os momentos de aula. É importante refletir sobre como
os docentes podem se fazer presentes na vida dos jovens, instituindo um clima que
favoreça a aprendizagem.
A presença pedagógica trata justamente da qualidade das interações e da mediação
do professor. Ela envolve:
• O exercício do acolhimento e da abertura para construir uma relação de
confiança com os estudantes.
• A mediação do professor nas situações de conflitos relacionais, buscando
envolver os jovens na reflexão sobre os diferentes aspectos e na resolução
do problema, ao invés de agir como o único resolvedor.
• O compromisso do professor com relação à aprendizagem dos alunos, traduzido
na confiança no potencial de cada um, nas expectativas elevadas sobre suas
capacidades de aprender e na persistência e investimento em ensinar.

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PRESENÇA
PEDAGÓGICA

Na presença pedagógica,
o professor atua
como mediador para:

Construir uma Explorar o potencial Promover a


relação de confiança de aprendizagem das aprendizagem
situações de conflito

MEDIAR PARA CONSTRUIR


RELAÇÃO DE CONFIANÇA

Q uem já foi um dia estudante sabe: aqueles professores que demonstravam, em palavras e
ações concretas, respeito e atenção à turma, cuidando da interação ao mesmo tempo que dos
conteúdos a serem aprendidos, eram professores que faziam a diferença e se tornavam referência. O
contrário também é verdadeiro. “Penso na minha vida, nos exemplos em que não gostava do que era
feito comigo. Eu estudei em uma escola muito tradicional, aquela coisa que o professor não deixava
você entrar depois dele. O professor que fazia arguição oral, arrancava folha do caderno do aluno. Era
a metodologia tradicional do professor mandar o aluno copiar cinquenta vezes a palavra que ele errou
em um ditado, decorar tabuada”, conta Mônica Barbato, professora de Língua Portuguesa.

Durante a década de 1960, iniciaram-se nos campos da Psicologia e da Educação


os estudos sobre o conceito de profecia autorrealizadora. Desde então, muito se tem
discutido sobre o quanto as ideias preconcebidas ou as representações dos professores
influem no desenvolvimento dos estudantes. Fatores como a ênfase acentuada nas
carências e danos sofridos pelos alunos ou a descrença no seu potencial de apren-
dizagem, especialmente daqueles que vivem em situação de vulnerabilidade social e
econômica, tendem a resultar, respectivamente, em ações pedagógicas corretivas ou
compensatórias e em menos investimento por parte do professor. É alarmante quando
dados, como os extraídos por um levantamento realizado pelo Instituto Ayrton Senna
a partir da análise do questionário da Prova Brasil de 2013, nos revelam que somente
54% dos professores que lecionam para os alunos mais pobres do 9º ano da rede pública
no ensino fundamental acreditam que seus estudantes concluirão o ensino médio e
apenas 6% acreditam que eles ingressarão no ensino superior.
É importante que todo educador reflita permanentemente sobre como suas crenças
e preconceitos estão influenciando na qualidade de sua interação com os alunos e de
sua atuação pedagógica.

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Nas práticas docentes, uma relação de abertura, reciprocidade e compromisso
com os estudantes e seus processos de formação se traduz em gestos de interesse,
conhecimento e valorização dos saberes, pontos de vista e culturas juvenis, bem como
no reconhecimento da singularidade de cada jovem.
Esse modo de olhar e de ação pedagógica propõe a integração das particularidades
dos sujeitos com o reconhecimento da diversidade, e tem especial valor no trabalho
com a juventude. Todavia, isso só é possível quando o professor exercita a sua abertura
para influenciar e também ser influenciado pelas posições e interesses dos estudantes
com os quais interage, desconstruindo estereótipos e preconceitos, e assumindo o
compromisso incondicional com o desenvolvimento de cada um.

A PRESENÇA PEDAGÓGICA
NÃO É UM DOM

A capacidade do professor de se fazer presente, de forma construtiva, no cotidiano


escolar do jovem não é um dom ou um talento “nato” e uma característica pessoal e
intransferível. Segundo o pedagogo Antonio Carlos Gomes da Costa, autor do termo,
a presença pedagógica é uma metodologia que pode ser aprendida “desde que haja,
da parte de quem se propõe a aprender, disposição interior, abertura, sensibilidade
e compromisso para tanto”.
É importante lembrar que, além de se abrir para se envolver no processo intera-
tivo com os estudantes, o professor deve procurar exercer sua presença pedagógica
de maneira reflexiva, articulando os aspectos verticais, próprios de seu papel de
autoridade, com os aspectos horizontais, necessários para atuar como mediador na
perspectiva colaborativa de construção de saberes. Ou seja, a presença pedagógica não
significa igualar papéis entre professor e estudantes, ou assumir atitudes paternais/
maternais – o que só reforçaria o mito da horizontalidade nessas relações –, mas
revalidar cotidianamente o lugar de influência construtiva que o professor possui
na trajetória escolar e na vida dos jovens.

MEDIAR PARA EXPLORAR O


POTENCIAL DE APRENDIZAGEM
NAS SITUAÇÕES DE CONFLITO

O utro elemento importante da presença pedagógica envolve o cultivo da corres-


ponsabilidade entre professor e estudantes nas situações de conflitos relacionais.
Conflitos dessa ordem são comuns em dinâmicas que envolvem grupos de pessoas, e a
escola não é um espaço impermeável a isso, obviamente. Sendo de natureza educativa,
a aula também é um espaço para aprender a resolvê-los, fortalecendo o autoconheci-
mento dos jovens com relação às suas representações sobre as coisas e o mundo, e no
tocante às suas emoções.

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Quando o professor assume o controle da resolução de um conflito sem envolver
os alunos ou a turma, perde a oportunidade de aprofundar a relação de confiança e
de engajamento que vem construindo. Nessa perspectiva, o professor age como o
personagem decisório que define a gravidade da situação e as sanções necessárias,
atuando mais como um juiz do que como um mediador para o desenvolvimento de
competências. Já quando o professor envolve e convida os jovens a discutirem suas
posições, ele atua como um mediador, que não apresenta a priori o que é certo e o
que é errado. Indica que está interessado em provocar o diálogo e o reconhecimento
dos pontos de vista, bem como em manejar proposições de soluções que passam a
circular na sala de aula, para a superação dos desentendimentos. E isso possibilita
o desenvolvimento de competências importantes para a formação dos estudantes.
Mediar situações de conflito não é uma ação simples de ser realizada pelo professor,
pelo contrário. Demanda disponibilidade para ouvir, evitar atribuir juízos de valor de
antemão, fazer perguntas que favoreçam a reflexão da turma, a partir do reconhe-
cimento e da articulação de diferentes emoções e pontos de vista. Envolve, ainda,
provocar posturas mais colaborativas, nas quais os jovens considerem a si mesmos
na perspectiva do grupo – ampliando, desse modo, o sentimento de pertencimento
à comunidade escolar.

A MEDIAÇÃO DE CONFLITOS
E O DESENVOLVIMENTO
DO AUTOCONHECIMENTO
DOS ESTUDANTES

Expectativas por uma sala de aula em harmonia plena, ou de obediência absoluta,


são idealizações que precisam ser revistas, bem como as sanções unilaterais, as regras
tácitas ou as “lições de moral” que versam sobre competências socioemocionais que
se presume que os estudantes deveriam ter. A travessia a ser realizada pelo professor
é enxergar a chamada “indisciplina” como um campo profícuo para sua atuação como
educador. Por isso, antes de nomear as situações de conflito como “indisciplina”, o
professor pode se questionar: O quanto as emoções e atitudes traduzidas como rebeldia,
confrontamento ou “explosão” podem ser objeto de reflexão dos envolvidos e oportu-
nidade para o desenvolvimento pessoal e coletivo?
A mediação propositiva do professor em situações de conflito é uma ocasião para
investir no autoconhecimento dos jovens. Promover situações de reflexão e de ação, em
que os alunos possam se investigar, identificar e falar sobre suas emoções, percepções
e pontos de vista, favorece o desenvolvimento da autonomia de modo mais consciente
e consistente. Aprender a gerenciar emoções, a exercitar a empatia – tendo abertura
para buscar compreender o ponto de vista do outro e discutir diferentes opiniões – e
a resolver problemas de convívio são aprendizagens a serem construídas gradualmente,
a partir de situações reais.

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MEDIAR PARA PROMOVER
A APRENDIZAGEM

O terceiro vértice da presença pedagógica diz respeito à exigência e ao compro-


misso do professor com relação ao desenvolvimento dos estudantes. O professor
que atua com presença pedagógica é acolhedor e, ao mesmo tempo, exigente, pois
possui forte compromisso com a aprendizagem dos alunos. Por isso, considera em seu
planejamento e prática o potencial de desenvolvimento cognitivo e socioemocional
de todos os jovens. Para alcançar esse objetivo, busca o aprimoramento constante de
suas práticas de ensino, tendo como referência os mais variados modos de ensinar.
A presença pedagógica e seus aspectos de interação pro-
fessor-estudante-conhecimento ressaltam a importância do
professor como uma referência, seja ele um exemplo de atitude quando atua como mediador que não
ética nas relações interpessoais, seja ele um exemplo de modelo barateia sua exigência com relação ao
de pensamento, de acordo com os saberes que a sua área de aprendizado de cada jovem, o professor
conhecimento/disciplina propõe. Ele articula os conhecimen- não abre mão da presença dos estudantes
tos disciplinares com as concepções e conhecimentos que os em aula, sem atrasos e dispersões,
estudantes possuem, ampliando criticamente o modo como trabalha arduamente para desenvolver
compreendem e interagem com o mundo. competências cognitivas e socioemocionais
Por isso, esse papel de mediador como alguém presente e – como a responsabilidade, o
exigente também acontece durante a prática das demais meto- autoconhecimento etc. –, busca ensinar
dologias integradoras, como a problematização, a aprendizagem valores por meio do exemplo, como o
colaborativa, a educação por projetos e a formação de leitores respeito ao conhecimento e ao outro.
e produtores de textos.
Também é objetivo o estímulo à tomada de consciência dos
alunos sobre os próprios processos cognitivos. Ao mesmo tempo em que os conteúdos
curriculares tradicionais das Áreas de Conhecimento ou do Núcleo Integrador são tra-
balhados em aula, é possível instaurar práticas regulares de autoavaliação nas quais
os jovens se investigam e refletem sobre temas como os seguintes: Como cada um
prefere aprender, quais são as estratégias de estudo e de compreensão que utilizam?
Quais emoções os dominam quando se deparam com desafios de aprendizagem e como
costumam lidar com elas? Como lidam com as dificuldades de aprendizagem? Quais
hábitos permitem gerir melhor o tempo e as múltiplas tarefas? Quando o estudante
se percebe como alguém capaz de aprender, tende a mobilizar sua autoconfiança e
dirigir seus esforços para avançar na aprendizagem.
Outra ação importante é oferecer, regularmente, devolutivas sobre o desenvolvi-
mento da turma, tanto com relação às competências e habilidades cognitivas, quanto
no que se refere às competências socioemocionais.
É ocupando seu lugar como referência que cada professor, à sua maneira, se torna
capaz de exercer uma presença pedagógica responsável, comprometida e significa-
tiva na vida dos jovens, engajando-os com o próprio desenvolvimento. E isso, em
geral, é rapidamente percebido e valorizado pelos alunos. A estudante Julia Matos,
de 15 anos, concorda e manda o recado para os professores: “Começa a fazer efeito
na primeira vez que o professor olha para o aluno de uma forma diferente. A gente
já se sente diferente, sabe? Então, realmente acreditem na gente. Invistam, porque
funciona mesmo”.

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1 Qualificar a interação professor-estudantes é a base para o estabelecimento
de um bom convívio em aula e para promover a aprendizagem e o
desenvolvimento de competências cognitivas e socioemocionais.

2
Cabe ao professor abrir-se cotidianamente para os alunos
e sua diversidade de características, interesses, demandas
e desafios. É necessário consolidar uma relação de acolhimento
e de exigência no cotidiano escolar.

3
Estar junto, em relação de reciprocidade, qualifica a interação
e possibilita o aprofundamento de trocas comunicativas.
É essencial falar e ouvir com o mesmo cuidado e atenção,
favorecendo a compreensão mútua.

4
O engajamento e o compromisso do professor com relação à
aprendizagem dos estudantes se traduzem na confiança no
potencial de cada aluno, em expectativas elevadas sobre suas
capacidades de aprender e na persistência em ensinar.

5
Conduzir uma relação educativa requer o reconhecimento de uma
dimensão de autoridade. A intenção da presença pedagógica não é
o professor ser um “igual” (mito da horizontalidade), mas sim
proporcionar uma influência construtiva e respeitosa na vida dos
jovens, ensinando também pelo exemplo.

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A presença pedagógica não é um dom de alguns professores.
Fazer-se presente na vida dos estudantes é uma atitude que se
aprende, desde que haja disposição interior, abertura,
sensibilidade e compromisso para tanto.

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Em situações de conflito de natureza relacional, o professor que atua
com presença pedagógica busca envolver os jovens na reflexão
sobre os diferentes aspectos do problema e na resolução deste,
em vez de agir como o único resolvedor.

7 PONTOS PARA LEMBRAR SOBRE


PRESENÇA PEDAGÓGICA

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A PRESENÇA PEDAGÓGICA NA GESTÃO
DO ENSINO E DA APRENDIZAGEM

ANTES DA AULA: CUIDAR DA PRESENÇA


PEDAGÓGICA NO PREPARO DE UMA BOA AULA

Ao planejar suas aulas de forma cuidadosa e metódica, o professor


já está iniciando o exercício da presença pedagógica.

Planeje as interações pedagógicas a partir do pressuposto de que todos os estudantes, sem


exceção, possuem recursos cognitivos e emocionais para aprender, sendo que esses recursos
resultam de um investimento no seu desenvolvimento e podem ser continuamente aprimorados.

Defina objetivos e expectativas em relação à aprendizagem dos alunos (nem menos do que eles
podem aprender, nem muito mais do que podem no momento), considerando o engajamento da
turma e os aspectos cognitivos e socioemocionais envolvidos.

DURANTE A AULA: A PRÁTICA DA PRESENÇA


PEDAGÓGICA EM SUA PLENITUDE

O estabelecimento de relações interativas de confiança se traduz em atitudes


simples, mas que requerem a atenção constante do professor. O cuidado é não
deixar os encontros cotidianos se tornarem uma rotina mecanizada que automatize
e dessensibilize as relações humanas e padronize os processos de ensinar.

Seja pontual e demonstre que se preocupa com a ausência ou o atraso dos estudantes,
contribuindo para que seja criada uma rotina de iniciar a aula no horário acordado, com a
presença de todos.

Acolha os alunos, criando um ambiente positivo para o início da aula, praticando os “pequenos
nadas”, como: dar bom-dia / boa-tarde / boa-noite, chamar os jovens pelos nomes e referir-
se a cada um com respeito, cuidar da comunicação verbal e corporal, para que seja realmente
acolhedora.

Mostre por meio de palavras e ações concretas que acredita no potencial de aprendizagem de
cada um, fazendo os combinados de trabalho, estimulando os alunos a que se dediquem nos
momentos de maior esforço.

Mostre as qualidades e acertos de cada estudante e faça disso ponte segura para a superação de
dificuldades e erros. Valorize o esforço envolvido no processo de aprendizagem, deixando claras
as altas expectativas que possui para cada jovem e sua crença no potencial dele.

Estimule os estudantes a exporem seus conhecimentos e pontos de vista, ouvindo-os sempre


com atenção e interesse, partindo das contribuições deles para a construção de outras, em
verdadeiro processo de diálogo.

Ajude-os a perceber, compreender e respeitar outros valores e pontos de vista.

Contribua para que identifiquem as aprendizagens que estão desenvolvendo, comemorando com
eles os avanços, mesmo que pareçam pequenos.

Fortaleça o sentimento de pertencimento dos jovens à escola, valorizando os símbolos e culturas


juvenis que trazem, assumindo postura curiosa para compreendê-los e ouvi-los.

Medeie situações de suposta “indisciplina”, ajudando os alunos a identificar, refletir e contribuir


na resolução das situações de conflito, indiferença, descompromisso etc., tomando cuidado para
não tornar esse momento algo moralizante.

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Colabore na avaliação e no processo de apropriação dos resultados pelos estudantes, dando
devolutivas aos alunos em relação aos objetivos que foram alcançados e àqueles que precisarão
ser retomados.

Não utilize recursos como provas, excesso de tarefas etc. para garantir maior comprometimento
ou para punir possíveis comportamentos.

Ao final da aula, identifique e compartilhe quais foram os conhecimentos aprendidos e as


competências, habilidades, valores e atitudes que os jovens estão desenvolvendo, ajudando-os
a perceberem sentido em suas vivências.

DEPOIS DA AULA: A PRÁTICA DA PRESENÇA PEDAGÓGICA


NÃO TERMINA QUANDO A AULA ACABA

Para que a presença pedagógica ganhe fôlego sempre renovado em sala de


aula, é importante prever tempo para refletir e avaliar sobre os acontecimentos
do dia. Essas reflexões ajudam a avaliar seu planejamento e a diagnosticar
a necessidade de planejar novas ações no exercício da sua prática.

Observe como os alunos saem da aula: dispersos, cansados, explosivos ou mais confiantes de que
aprenderam algo significativo e serão capazes de se dedicar aos estudos.

Faça uma autoavaliação sobre a qualidade de sua interação com a turma e como ela está
contribuindo para a aprendizagem de cada estudante.

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