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PROBLEMATIZAÇÃO:

ENSINO QUE FOMENTA O


“APRENDER A APRENDER”

a problematização faz contraponto à ideia de que estudantes silenciosos e cadernos cheios


de anotações são sinônimos de aprendizagem . assim como a aprendizagem colaborativa , a
problematização é uma metodologia que se desenvolve pela participação em torno de situações
-problema e que exige o exercício da presença pedagógica do professor durante a mediação.
ela assume um papel de destaque na construção do conhecimento escolar, uma vez que é
um meio de provocar a participação, a criticidade, a curiosidade e a superação do conhe-
cimento simplesmente transferido.

P rofessores comprometidos com a educação desejam que seus estudantes sejam


interessados, participativos e críticos. Afinal, nenhum professor gosta de dar aula
para uma turma apática, que não traz questionamentos e não demonstra entusiasmo
para aprender. Se dentre os objetivos a serem alcançados pela educação escolar está
propiciar acesso ao saber acumulado socialmente e o aprimoramento humano nos
aspectos ético, do desenvolvimento da autonomia intelectual e do pensamento crítico,
como mobilizar os alunos e tornar o conhecimento objeto de desejo?
Os jovens do ensino médio são movidos pela necessidade de se singularizarem.
Nesse movimento, as relações que estabelecem com os saberes apoiam a construção
de suas identidades. O jovem se afirma pela experimentação e descoberta do que é
e do que quer ser. Essa capacidade de estar aberto e disponível para experimentar
e aprender pode sempre ser explorada como base para a construção de uma relação
significativa com os saberes escolares. Para isso, é fundamental que os professores

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tenham altas expectativas com relação às aprendizagens de seus estudantes (tendo
em vista que uma das características da presença pedagógica é a crença no potencial
dos jovens) e sejam incansáveis provocadores de curiosidade.
A problematização imprime às práticas pedagógicas a importância de considerar o
aprendizado como um processo incessante, inquieto, curioso e, sobretudo, permanente
por saber. A professora de Biologia Renata Mello faz uma importante reflexão sobre
a importância da problematização para o desenvolvimento da autonomia intelectual
dos alunos: “A problematização é essencial a essa proposta de educação integral,
pois cria condições para que o jovem possa ‘aprender a aprender’. O jovem aprende
que o conhecimento é uma busca e não um ponto de chegada. E essa postura é um
exercício de protagonismo”. A estudante Karina Madruga completa: “Não é nem por
nota. É ter vontade de resolver as tarefas, entender realmente o conteúdo, não só
decorar e fazer o teste. É começar a entender as coisas mesmo”.

Esse modo de ver o conhecimento como uma busca, conforme aponta a professora Renata,
traz alguns pressupostos sobre concepções de ensino e de aprendizagem fundamentais para
desenvolver uma ação educativa que articule a dimensão dialógica (que requer interação e escuta
ativa, permitindo o reconhecimento da multiplicidade de interpretações, de respostas e de modos
de construir saberes) com a dimensão problematizadora do ato de conhecer. Dessa forma:

1 O estudante é o construtor do seu próprio conhecimento, possuindo papel ativo no processo.

2 Todo conhecimento é construído a partir do que já se conhece, e deve ser ensinado a partir
do conhecimento que o jovem já traz para a sala de aula. Os estudantes desenvolvem o
pensamento crítico quando confrontam seus conhecimentos prévios com aqueles que estão
sendo apresentados, construindo hipóteses que vão se mostrando fundamentadas ou não.

3 O conhecimento se origina da busca por respostas para problemas bem formulados. O professor apresenta
problematizações consistentes, ao invés de enunciados pron­tos, possibilitando a mobilização de diversos
recur­sos cognitivos e de uma postura investigativa do aluno diante do objeto de conhecimento.

4 Aprender não significa ser capaz de reproduzir e revozear os conhecimentos básicos acumulados, mas saber
reconhecer quando novos conhecimentos são necessários e articular saberes para resolver problemas.

5 O professor não apresenta os conhecimentos como se fossem conteúdos cristalizados, evitando dar
respostas prontas, mas ajudando os estudantes a se repertoriarem e a organizarem os saberes dispersos.

6 O professor provoca os jovens a analisarem questões teóricas e


práticas e a formularem respostas para tais questões.

7 O professor incentiva os estudantes a pesquisarem e os acompanha e orienta no percurso de


investigação e de construção de argumentos provisórios, que vão sendo discutidos e apurados,
até que se chegue a uma resposta satisfatória e consistente para cada questão lançada.

8 Em síntese, cabe ao professor instaurar na sala de aula um ambiente investigativo,


mobilizado pelos questionamentos dos alunos – de modo que cada jovem possa
exercer uma postura de inquietação e curiosidade frente ao conhecimento.

9 A problematização ganha relevância quando trabalhada por meio da aprendizagem colaborativa.


Ao colocar os estudantes em contato com pontos de vista variados, faz-se possível que
eles ampliem seus repertórios e concepções, enriquecendo seus modos de pensar.

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Aulas pautadas pela problematização exigem que o
planejamento do professor seja muito bem estruturado, aulas estruturadas baseiam-se em sequências
pois esse é um processo dialógico desafiante e que didáticas – ou projetos – desenhadas de
envolve a utilização de recursos variados, que tenham modo a existirem desafios crescentes aos
como objetivo ampliar as fronteiras de determinado estudantes, incluindo momentos de avaliação e
conhecimento, a partir de pontos de vista diversos. “O de apropriação dos resultados ao longo deles.
planejamento da aula requer preparo, mas vai além: o também é interessante que haja momentos de
seu objetivo é o aprendizado do aluno. Posso entrar na culminância, quando as produções dos alunos
sala de aula e falar: Hoje eu vou dar as Leis de Newton. são compartilhadas com a comunidade escolar e
Ensino as três Leis e pronto, dei o conteúdo. Mas eu até mesmo com a comunidade externa à escola.
tenho que ter um objetivo naquela aula: Quero que meus esse processo educativo estruturante permite
alunos aprendam as Leis de Newton. E esse objetivo que o professor possa planejar suas ações e
está sempre na minha cabeça. Eu conduzo a problema- antever os momentos estratégicos para colher
tização para chegar ao meu objetivo. Faço perguntas evidências sobre o nível de conhecimento dos
para trazer do aluno as ideias que ele tem sobre alguns jovens e do desenvolvimento de competências.
conceitos. Depois, trabalho com um texto, ou um vídeo, nesta proposta, as opas (orientações para
ou um simulador no computador, ou um experimento. os planos de aula) apresentam modelos
Trabalhei as Leis de Newton com um texto, por exemplo, de sequências didáticas que estruturam o
mas era um texto que falava sobre como foi a evolução trabalho integrado das áreas de conhecimento
do pensamento, tinha uma contextualização histórica. e dos projetos do núcleo articulador. mesmo
Muitas vezes, em Física, o aluno pensa como Aristóteles tendo em vista o planejamento estruturado,
pensava, e isso é interessante de ele reconhecer. Não é é preciso ressaltar que qualquer interação
um pensamento errado, é natural. Eu problematizo antes, pedagógica ganhará níveis de personalização
durante e depois do texto, vou perguntando e os alunos de acordo com a participação da turma.
argumentam e vão aprendendo”, conta a professora de
Física Cláudia Sozinho.

OS CONHECIMENTOS PRÉVIOS
E OS SABERES ESCOLARES

A o longo da história, uma infinidade de saberes, fruto das realizações humanas em


áreas diversas, vem sendo acumulada. Parte desses saberes é eleita e transposta
didaticamente com a finalidade de ser ensinada na escola, com vistas a promover o
acesso e a apropriação dos estudantes a um conjunto de conhecimentos que, dependendo
de como são articulados e desenvolvidos, podem proporcionar uma formação mais ou
menos crítica, mais ou menos emancipatória.
Um dos desafios é justamente fazer com que o conhecimento escolar ganhe tratamento
contextualizado, em que questões históricas, multiculturais, éticas e políticas possam
ser problematizadas, e em que diferentes discursos estejam disponíveis para discussão e
análise. A contribuição da problematização para as ações educativas é justamente con-
siderar o conhecimento como algo vivo, construído pela e na interação dos estudantes.
O conhecimento prévio é o ponto de partida dessa interação estudante-conhecimento.
As diferentes bagagens culturais que os jovens trazem para a escola são fruto de suas
experiências e aprendizados e precisam ser consideradas sempre pelos professores em
sua mediação.

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Normalmente, se atribui o trabalho com o conhecimento prévio como
uma etapa importante para ouvir os estudantes e garantir algum grau de mediar envolve tornar explícitos
participação e engajamento. Mas trabalhar com o conhecimento prévio os conhecimentos prévios
dos estudantes vai muito além de um “truque” pedagógico para chamar dos estudantes, valorizar e
a sua atenção: é por meio do compartilhamento dos conhecimentos despertar interesses, provocar a
da turma que o professor apreende os conhecimentos já construídos, compreensão e a problematização
para possibilitar aos jovens o exercício de autoaprimoramento contínuo dos novos conhecimentos e
como seres conhecedores, investigadores. suas possíveis aplicações em
Ao longo de uma sequência didática, o professor checa o que foi diversos contextos, e buscar o
apreendido no processo e o quanto o saber anterior foi impactado, engajamento crítico constante dos
seja para modificá-lo, seja para fortalecê-lo. Em uma turma, existem alunos durante os momentos da
diferentes níveis de conhecimento: um aluno pode ter um conhecimento aula ou da prática dos projetos.
prévio bastante qualificado, enquanto outro pode ter maior repertório,
e é essa diversidade que qualifica a problematização.
Portanto, trabalhar com os conhecimentos prévios dos jovens não é um exercício
maniqueísta de levá-los a migrarem de concepções “erradas” para as “certas”. A pro-
blematização, como metodologia de ensino, compreende a concepção de aprendizado
permanente, considera e questiona as posições assumidas pelos alunos, fazendo-os
refletir sobre as explicações contraditórias e as possíveis limitações de seus conheci­
mentos prévios quando confrontados com novos conhecimentos.

A IMPORTÂNCIA DAS PERGUNTAS

A partir de um bom problema inicial – ou de um conjunto de


boas perguntas – é possível mobilizar os jovens a quererem
saber mais. Quando os estudantes assumem para si a tarefa a ser
Além das perguntas, é importante
o professor selecionar e trabalhar
respondida ou a situação a ser compreendida, colocam em ação com textos variados para qualificar
suas forças e saberes. a problematização, como um artigo
É perguntando que se aprende e se ensina. Boas perguntas fazem de jornal, uma reportagem em vídeo,
pensar, exigem articulação de saberes, pesquisa, investigação. É por uma música, uma imagem etc. A mul-
meio de boas perguntas que o estudante pode perceber de modo tiplicidade de vozes e recursos amplia
crítico o distanciamento de seus conhecimentos prévios com relação os horizontes da problematização.
a uma situação proposta, bem como reconhecer a necessidade de
novos conhecimentos com os quais possa compreender uma situação
mais adequadamente.
No entanto, apesar de já ter sido apontada como uma competência
fundamental do professor, fazer boas perguntas não é algo simples.
“Na problematização, você começa a mobilizar questionando, fazendo
perguntas. Em cima das respostas, você vai criando um caminho.
É um exercício muito grande para o professor, porque envolve uma
turma. Você joga a questão: um fala, o outro fala, e você começa a
fazer o link dessas respostas, para eles pensarem juntos. Eu tenho
que ter até cuidado, porque eles começam a se empolgar, a falar
e falar, a aula vai passando e a gestão de tempo é necessária para
cada situação”, diz a professora Cláudia Sozinho. Quanto mais o
professor pratica a problematização, melhor perguntador se torna.

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Boas perguntas, para serem desafiantes e mobilizadoras, precisam
ser planejadas a partir do reconhecimento do que os alunos já sabem
e do que ainda precisam saber. Sem uma boa mobilização inicial,
é como se o jovem não entrasse na aula com boas condições para
aprender, e as etapas seguintes de aprendizagem podem simples-
mente não fazer sentido para quem, de fato, não se engajou com a
situação a ser realizada ou estudada.
A etapa inicial e essencial para a construção da competência de
resolução de problemas é reconhecer a situação como uma questão
que merece ser resolvida ou realizada, e tomá-la para si com a
determinação de querer buscar entendê-la e se posicionar frente a
ela. Por isso, na escola, a proposição de boas perguntas, de boas
situações-problema, é que permite ao jovem conquistar o primeiro
e fundamental passo dessa macrocompetência.

A MEDIAÇÃO
PROBLEMATIZADORA

N a problematização, o professor não é um “explicador”. Como mediador, que não des-


cuida de sua presença pedagógica, ele propõe bons desafios, lança boas perguntas,
confronta opiniões, ouve e dá a palavra, organizando a discussão e atividades para que
o foco e o aprofundamento dos conteúdos sejam resguardados. Sobre essa característica
mediadora, o professor de Educação Física Mauro Storani reflete: “Quando o professor
passa a entender que o papel é de mediação do conhecimento, ou seja, que ele não é o
dono daquele conhecimento e que a sua função não é simplesmente transmiti-lo, mas
ter a preocupação de que aquele saber faça sentido para o aluno, isso é um ganho para
a Educação de uma forma geral. Quando o aluno começa a perceber que algo faz sentido
para ele, dentro daquilo que está sendo proposto, ele passa a encarar tudo de uma forma
diferenciada”.
O professor mediador acolhe de forma equânime todas as perguntas e respostas dos
estudantes. Cabe ao educador garantir um clima receptivo, que permita que os jovens
se sintam confiantes em participar. “Não vale dizer para o aluno que a resposta dele
está equivocada. Também é preciso saber quando responder determinada pergunta dos
alunos, pois as respostas podem exigir que eles tenham conhecimento de algum conteúdo
ainda não trabalhado na disciplina. Aí, é preciso pedir com jeitinho para que cada um
espere, anote a pergunta e a guarde para mais tarde. Muitas vezes, é preciso ajudar o
aluno a lidar com esta frustação”, diz a professora Cláudia Sozinho.
E para isso, claro, os estudantes precisam ganhar centralidade na sala de aula, por
meio de espaços para falar e expor seus conhecimentos, sem julgamentos de quem
“sabe mais” (ou “sabe certo”) ou quem “sabe menos” (ou “sabe errado”). A professora
de Língua Portuguesa Ednês Martins relata que também é preciso engajar os estudantes
para essa participação ativa e qualificada. “Busco desconstruir nos alunos a ideia de que
eles têm que me agradar com as respostas. No primeiro bimestre, é muito notório isso,
eles costumam responder para me agradar: ‘É isso que ela quer ouvir’. Então, eu mostro
que não é isso, continuo fazendo perguntas e não aceitando respostas evasivas. ‘Você
acha isso legal por quê? Explique!’ Os estudantes são levados a argumentar, a pensar
mais sobre aquilo, a refinar seus pensamentos”.

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O BOM ALUNO

O mito do bom aluno sempre está à espreita, rondando as salas de aula e exigindo
a atenção constante do professor para não se deixar levar por ele.
Nesse imaginário, está o aluno que é altamente motivado, sabe participar, não
atrapalha a aula, aprende (ou reproduz?) o conteúdo apresentado pelo professor
por meio da escuta, faz anotações, vai bem nos exames de verificação etc. É preciso
refletir: O que esse modelo de bom aluno indica? Existe, realmente, um modelo do
bom estudante?
A sala de aula, como microcosmo social, é formada pela diversidade que se
revela em diferentes modos de ser, conviver, pensar e aprender. A participação
pela problematização incentiva a curiosidade, estimula o pensamento crítico e a
capacidade de resolução de problemas, permitindo que todos os jovens possam se
posicionar, dialogar, construir e reconstruir conhecimentos. Uma aula que incentiva
a participação permite que cada um possa se construir, como pessoa e estudante, em
constante desenvolvimento e autodescoberta, e possibilita que a mediação conceba
o erro como parte da construção do conhecimento.

ATIVIDADES DESAFIANTES
PARA APRENDER A
RESOLVER PROBLEMAS

A s perguntas são a base da problematização. É por meio delas que a relação


dialógica entre professores e estudantes ganha a cadência de aprendizagem.
As perguntas, quando inseridas em contextos de atividades desafiantes, ampliam o
alcance da problematização e desenvolvem a capacidade de resolução de problemas.
E a capacidade de resolução de problemas é uma das metas desta
proposta de educação integral. Consideramos, inclusive, que ela deve
ser meta de todos que ensinam na escola básica, pois é uma com- a resolução de problemas inclui
petência que compreende o engajamento do aluno para entender e tanto a capacidade de identificar
resolver situações nas quais a resposta ou a forma de obtê-la não e se envolver com a situação,
são imediatamente óbvias. “É muito legal o colégio desafiar o jovem, como o desejo de enfrentá-la,
porque ele se sente capaz de fazer coisas que às vezes ele nem tinha a força para vencer o desafio,
ideia que poderia”, diz a aluna Karina Madruga. o estabelecimento de estratégias
Atividades desafiantes se organizam em torno de uma situação que para achar caminhos de solução
faça sentido para o aluno, que permita a ele formular hipóteses, mobilizar e o processo de avaliação da
seus conhecimentos ou identificar falta de saberes que passam a ser resposta ou produção solicitada.
importantes de serem aprendidos para responder à situação proposta.

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A seguir, alguns exemplos de como a problematização acontece
nas diversas Áreas de Conhecimento, extraídos de sequências de
atividades das OPAs (Orientação para Planos de Aulas):

CIÊNCIAS DA NATUREZA
Numa aula de Química, imaginem que os alunos sejam desafiados pela seguinte situação:
Observem seus sapatos do tipo tênis. Do que eles são feitos? Quais materiais foram usados
em sua fabricação? Todos os materiais têm a mesma dureza ou resistência? Por quê?
É assim que se inicia a investigação sobre polímeros naturais (como a borracha), e sintéticos (como
o poliéster, o nylon e o silicone, entre outros) para, em seguida, mobilizar os jovens a que entendam
as reações químicas que dão origem a diferentes polímeros, com diferentes características.
Nesse caso, a problematização inicial mobiliza os alunos a novas aprendizagens específicas,
para em seguida, com novo questionamento, fazê-los refletir sobre a poluição gerada na
obtenção desses materiais. Finalmente, o conhecimento do processo de obtenção dos
polímeros permite aos alunos entenderem os processos necessários para a sua reciclagem.

LINGUAGENS
Nas atividades dedicadas à Língua Portuguesa do 1º ano, 1º bimestre, os estudantes realizam a
leitura de textos significativos para a formação do leitor literário e que permitem problematizar
as características básicas dos gêneros literários: Hamlet, de Shakespeare (em versão atualizada
para jovens leitores), Do coração de Telmah (romance juvenil escrito em tweets) e poemas da
Lira dos vinte anos, de Álvares de Azevedo. Das experiências efetivas das leituras desses textos
de diferentes temporalidades, gêneros e estilos, processualmente mediadas, é que resulta a
construção das noções de lírica, épica e drama. Para isso, há a proposição de questões que,
discutidas colaborativamente, possibilitam a análise e a comparação de aspectos dos textos.
Além disso, há a problematização de como esses conhecimentos dos gêneros podem favorecer
outras leituras, com operações de generalização e recontextualização dos conhecimentos
construídos, propiciando a autonomia dos estudantes em novos desafios de leituras literárias.
Já nas atividades dedicadas às Artes, as turmas do 3º ano, 2º bimestre, tiveram a oportunidade de
discutir e problematizar os “encontros e desencontros” no processo de formação étnico-cultural
do nosso povo, com reflexões sobre as matrizes brasileiras. Nesse contexto, refletiram sobre si
mesmos e sobre valores que se fazem presentes na formação da população do país, a partir da
identificação e desnaturalização de atitudes cotidianas que implicam práticas discriminatórias,
preconceituosas e de dificuldade explícita de convivência com a diferença. Foram utilizados
recursos que favoreciam a investigação e a discussão sobre a temática, tais como o vídeo-
documentário O povo brasileiro, de Darcy Ribeiro, textos de uma pesquisadora do tema do
preconceito social, programas de TV e propagandas, e foram criadas situações-problema por
meio de perguntas. Em seguida, os alunos produziram um ensaio fotográfico cujo propósito foi
evocar a situação de discriminação do negro na sociedade sob o ponto de vista, a experiência
e os conhecimentos de cada time de alunos. Por fim, a discussão sobre os trabalhos artísticos
criados foi uma oportunidade de sistematização e apropriação dos conhecimentos pelos jovens.

MATEMÁTICA
A problematização é a essência do processo de ensinar e aprender matemática. Por princípio, toda
aula deve ser problematizadora e provocar nos alunos a mobilização de conhecimentos novos.
Assim, numa aula de Matemática, os alunos podem ser desafiados a investigar em qual condição um
triângulo pode ser construído, como convencer um amigo de que o teorema de Pitágoras vale para
qualquer triângulo retângulo e mesmo desenvolver uma explicação que justifique um quebra-cabeças
numérico ou algébrico. Há ainda a proposta de que resolver um problema sem nenhuma relação com os
conteúdos tradicionais da Matemática do ensino médio, problemas que não envolvam uso de fórmulas,
que desafiem os alunos a planejarem uma solução original, que podem levar mais de uma aula para
serem solucionados e, frequentemente, ter mais do que uma solução possível e até mesmo não ter
solução nenhuma. Há ainda a possibilidade da problematização aparecer na forma de um jogo – como,
por exemplo, na proposta realizada na OPA de 1º ano, com o jogo Tira de Propriedades de Funções,
no qual os alunos deveriam resolver desafios de associar funções com suas diversas propriedades.

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CIÊNCIAS HUMANAS
Já nas atividades de Filosofia da OPA do 4º bimestre do 2º ano, a aula se inicia com
a veiculação da música de Raul Seixas – “Metamorfose ambulante”. Ao término, o
professor propõe algumas perguntas e deixa que os próprios alunos respondam. Por
exemplo: O que a música tem a ver com razão? O que é razão? Por que dizemos que
somos seres racionais? Nossa época (a contemporaneidade) é regida pela razão?  
O professor é orientado a não responder às perguntas, mas deixar que os alunos
reflitam, a fim de estimular sua curiosidade. As respostas iniciais devem ser anotadas
no caderno e serão retomadas, para que todos consigam elucidar as questões.
O objetivo é demonstrar que a verdade não é absoluta e que, ao responder uma pergunta,
a resposta “correta” depende da perspectiva, do tipo de abordagem e da referência. De
fato, em Filosofia, problematizar é convidar o aluno a realizar a investigação científica,  a
viajar por outros mundos; é despertar a curiosidade e estimular a compreensão de que
não estamos prontos e de que o conhecimento está sempre em construção.  

Outro ponto importante é modular o nível de dificuldade das atividades. Elas podem
ser propostas como um desafio a ser apropriado e resolvido pelos estudantes, segundo
suas capacidades e conhecimentos. Eles devem ter em vista que possuem condições
de investir e responder ao que foi proposto. Dessa forma, a situação-problema, ainda
que inicialmente proposta pelo professor, torna-se “questão dos alunos”, mesmo que
eles não disponham, de início, dos meios para alcançar a solução buscada. Pode haver
um ou mais desafios a se transpor para se chegar à solução.
Nas atividades desafiantes, problemas complexos são resolvidos de modo cola-
borativo, e o processo de busca de resposta também é compartilhado. A validação
do processo resulta da vivência da atividade desafiante pela turma, sob a mediação
do professor. O reexame coletivo do caminho percorrido é a ocasião para um retorno
reflexivo, de caráter metacognitivo. Isso auxilia os estudantes a se conscientizarem
das estratégias e formulações que utilizaram, de maneira a ganharem um repertório
intelectual que possa ser transposto a novas situações-problema.
É a necessidade de resolver problemas que leva o aluno a elaborar a construção de
uma solução. O trabalho com a situação-problema funciona, assim, como um debate
científico dentro da classe, dando espaço a conflitos e à sua resolução, envolvendo
os aspectos cognitivos da resolução de problemas e também outros aspectos socio-
emocionais, tais como a confiança no próprio potencial, a persistência para atingir
objetivos, a colaboração para trabalhar junto, a capacidade de se comunicar e de
ouvir diferentes opiniões etc.
A estudante Lais Souza percebe o impacto do trabalho com a problematização
em si mesma e em seus colegas: “A gente para de agir como uma pessoa que está
sendo comandada por outras, como se fosse uma marionete, e passa a tecer nossas
próprias opiniões sobre um assunto, desenvolvendo um pensamento mais crítico.”

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1
Problematizar é mais que uma metodologia, é uma postura frente
ao conhecimento. Cabe ao professor problematizar, para que se
instale nos alunos o processo ativo de construção,
busca e apropriação de saberes.

2 Problematizar a partir de perguntas consistentes e


bem formuladas é um convite realmente instigante
para a ampliação de horizontes de sentidos.

3 A problematização acontece em um ambiente protegido


para o erro, no qual opiniões conflitantes e equivocadas
têm espaço e valor no processo de aprender.

4
Resolver problemas de forma colaborativa: eis uma estratégia-chave
para lidar com situações-problema mais complexas. A participação
articulada dos esforços colaborativos dos jovens não só possibilita
responder à situação proposta, como amplia o repertório
de conhecimentos e estratégias de cada um.

5
Considerar os saberes e as experiências dos estudantes é importante para
que professor e aluno naveguem juntos no processo de aprendizagem.
Cada um traz consigo conhecimentos prévios e pode (re)construí-los a
partir de problematizações que levem essas bagagens em conta.

6 Orientar os alunos com informações, dicas de fontes de pesquisa,


sugestões de métodos, mas de maneira a incentivar a
autonomia dos estudantes no processo.

7
Promover deslocamentos, sair da zona de conforto,
incentivar os jovens a não se restringirem a dar a resposta
que o professor quer ouvir. Nada de acomodação,
problematizar é sair da “mesmice”!

7 PONTOS PARA LEMBRAR SOBRE


PROBLEMATIZAÇÃO

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A PROBLEMATIZAÇÃO NA GESTÃO
DO ENSINO E DA APRENDIZAGEM

ANTES DA AULA: CUIDAR DA PROBLEMATIZAÇÃO


NO PREPARO DE UMA BOA AULA

Ao planejar, o professor organiza a sua aula para que seja problematizadora.

Formular boas e desafiantes perguntas exige conhecimento profundo sobre o tema da aula, além
de um planejamento adequado. Definir com muita precisão os objetivos da aula é essencial
para formular questões que orientem o jovem a avançar de modo crítico para além de suas
interpretações pessoais com relação ao tema ou à situação-problema que será proposta. No
planejamento, o professor faz antevisões sobre os momentos de trabalho em qualquer forma de
agrupamento, procurando elaborar boas perguntas, que suscitem a discussão.

Planeje a gestão do tempo, considerando que a problematização é uma abordagem que demanda
mais espaço de escuta e de interlocução com os estudantes.

Module o nível de dificuldade da situação-problema, levando em consideração as capacidades


e conhecimentos dos estudantes. Eles devem ter em vista que possuem condições de investir
e alcançar a resolução. Dessa forma, o problema, inicialmente proposto pelo professor, torna-
se “questão dos alunos”, mesmo que eles ainda não disponham dos meios de obter a solução
buscada. Pode haver desafios a transpor na construção da solução. É justamente a necessidade
de resolver que leva o aluno a elaborar ou a acionar os instrumentos intelectuais necessários a
todo processo.

DURANTE A AULA: COLOCAR EM PRÁTICA A


MEDIAÇÃO PROBLEMATIZADORA

É durante o momento de aula que o professor coloca a problematização em ação.

O engajamento do aluno se dá no início e durante a aula. Por isso, é essencial partir de uma
situação mobilizadora dos jovens, trazer um recurso que permita o questionamento – um desafio,
uma proposta investigativa – ou simplesmente problematizar o conhecimento prévio dos
estudantes sobre o conteúdo que será abordado. Esse movimento pode ser realizado com a turma
reunida em roda de discussão ou em pequenos times (quando os jovens têm a oportunidade
de partilhar suas percepções ou concepções iniciais antes do momento de socialização com
a turma). Em sua mediação, o professor provoca o confronto de opiniões e abre espaço para
dúvidas, despertando a curiosidade sem, no entanto, fazer explicações detalhadas. O importante
aqui é conhecer o ponto em que os alunos se encontram, o que eles conseguem fazer ou perceber
por si mesmos, como mobilizam seus conhecimentos prévios, para, depois, configurar melhor
a situação problematizadora sobre a qual se desenvolverá a aula ou as aulas seguintes a essa.

Apoie a formação, organização e dinâmica dos grupos de trabalho. Um dos critérios para a
formação dos times pode ser envolver jovens que apresentem, no momento, mais dificuldades
com outros que estejam com maior desenvoltura no aprendizado de determinados conhecimentos.
Vale destacar que os estudantes não são estanques em zonas de “quem aprende mais” e de
“quem aprende menos”, e que é importante valorizar a colaboração, sempre.

Permita que diversos alunos possam participar oralmente durante os momentos de discussão
e rodas de conversa, de modo que a palavra circule e não fique sempre de posse do mesmo
grupo de estudantes. Os momentos de participação oral devem ser bem cuidados, para que
vários jovens possam expor seus pontos de vista e haja respeito nessa interação. A mediação
do professor envolve formular boas perguntas para aprimorar a argumentação dos envolvidos, e
trazer bons exemplos para ilustrar os conceitos.

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Em todos os campos de conhecimento, a questão do erro é importante para a problematização,
pois qualquer processo de aprendizagem prevê aproximações aos conceitos, ideias ou
procedimentos em estudo, em um movimento constante de ensaios e erros. Isso quer dizer que
o erro não deve ser visto como algo nocivo, ele é um “trampolim” para a aprendizagem.

DEPOIS DA AULA: A PRÁTICA DA PROBLEMATIZAÇÃO NÃO


TERMINA QUANDO A AULA ACABA

Para que o professor aprimore sua prática problematizadora, é


importante refletir e avaliar os acontecimentos da aula.

Autoavalie-se e identifique os conhecimentos que os alunos aprenderam ou não, pois


isso impacta o seu planejamento para o próximo encontro.

Avalie se as atividades desafiantes planejadas alcançaram o objetivo traçado durante o


planejamento, bem como se as perguntas formuladas foram eficazes para mobilizar os estudantes.
Reflita sobre o que pode ser feito para continuar aprimorando essa prática.

Registre o percurso de aprendizagem dos diferentes alunos e a qualidade da participação


deles, ressaltando o desenvolvimento de competências cognitivas e socioemocionais, como a
colaboração, a curiosidade para aprender, a argumentação. Nesse registro, identifique se existem
estudantes que, para avançar, precisam de maior apoio seu ou dos colegas.

Aprimore o planejamento coletivo com seus colegas professores que são responsáveis pelos
mesmos alunos. Compartilhar seus registros e sua avaliação individual ou de grupos de cada
classe potencializa o trabalho de todos na formação dos mesmos jovens.

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