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MODERNISMO BRASILEIRO

1ª GERAÇÃO ( 1922-1930)
Prof. Sol
Primeira Geração (1922-1930)  Humor, deboche, paródia.
I-ASPECTOS GERAIS  Poema-pílula.
a) Surto de industrialização e de urbanização.  Poesia prosaica.
b) Crescimento da burguesia industrial.  Valorização do coloquialismo, da oralidade.
c) Objetivo artístico: atualizar a cultura brasileira, adequando-a aos moldes  Temática cotidiana.
europeus (influência das vanguardas artísticas europeias). B) Representantes
II-VANGUARDAS ARTÍSTICAS EUROPEIAS: Postura radical que 1. OSWALD DE ANDRADE
antecipa um novo caminho.  Capítulos “relâmpagos”.
 CUBISMO (1907)  Linguagem popular, apreço pela oralidade.
Montagem (quebra-cabeça)  Uso de neologismos e de estrangeirismos.
Sobreposição de imagens.
 Poesia prosaica.
 FUTURISMO (1909)
 Paródia, humor.
Destruição da sintaxe.
 Primitivismo.
Abolição da pontuação.
Temática voltada à dinâmica social.  Adepto ao “ready-made” na poesia.
 EXPRESSIONISMO (1910)  Nacionalismo crítico.
Mistura do sublime com o grotesco. POESIA DE OSWALD DE ANDRADE
Distorção da imagem com subjetividade.
Erro de português
 DADAÍSMO(1916)
Quando o português chegou
Colagem.
Debaixo de uma bruta chuva
Quebra da sintaxe.
Vestiu o índio
“ ready-made”.
Que pena!
 SURREALISMO(1924)
Fosse uma manhã de sol
Ilogicidade.
O índio tinha despido
Valorização do fantástico, do absurdo, do caótico, da loucura, do
O português.
sonho.

III-SEMANA DE ARTE MODERNA O capoeira


O que foi a SAM? Transformação cultural do Brasil. - Qué apanhá sordado?
Objetivo: ruptura com o passado, renovação da arte brasileira e - O quê?
questionamento do atraso cultural em relação ao progresso tecnológico - Qué apanhá?
paulista. Pernas e cabeças na calçada.
Quando ocorreu: 11 a 18/02/1922,
Onde: Teatro Municipal de São Paulo. Fragmento da carta de Pero Vaz de Caminha
Festivais: 13, 15 e 17 de fevereiro. "(...) Ali andavam entre eles três ou quatro moças bem novinhas e gentis,
Escritores participantes: Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Ronald com cabelo mui pretos e compridos pelas costas e suas vergonhas tão
Carvalho, Manuel Bandeira (sem presença física) e outros. altas e tão saradinhas e tão limpas das cabeleiras que de as nós muito
Pintores participantes: Anita Malfatti, Di Cavalcanti, Tarsila do Amaral. bem olharmos não tínhamos nenhuma vergonha."
Musicistas participantes: Guiomar Novaes, Villa-Lobos.
Escultor participante: Brecheret (com obras). Pero Vaz de Caminha
Reação negativa do público e da imprensa. As meninas da gare
Função catalisadora das aspirações renovadoras nas artes. Eram três ou quatro moças
bem moças e bem gentis
 Produções posteriores à S.A.M.:
Com cabelos mui pretos pelas espáduas
-Revistas: Klaxon(1922- SP), Estética( 1924 – RJ), A Revista(1925-
E suas vergonhas tão altas e tão saradinhas
MG), Terra roxa e outras terras(1926-SP), Festa( 1927-RJ).
Que de nós as muito bem olharmos
-Manifestos: Pau-Brasil ( 1924): primitivismo, oralidade, poesia tipo Não tínhamos nenhuma vergonha
exportação.
Nhenguaçu-Verdeamarelo (1925): oposição ao Pau-Brasil, busca da Pronominais
alma nacional, rejeição das vanguardas, nacionalismo ufanista, formação Dê-me um cigarro
do Grupo da Anta Diz a gramática
Regionalista (1926): articulação inter-regional. Do professor e do aluno
Antropofágico (1928): radicalização do Pau-Brasil, devoramento e E do mulato sabido
metabolismo das influências estrangeiras. Mas o bom negro e o bom branco
IV-PRIMEIRA GERAÇÃO MODERNISTA Da Nação Brasileira
A) Características Dizem todos os dias
 Rompimento com o passado ( versos brancos e livres). Deixa disso camarada
Me dá um cigarro
 Arte voltada às origens brasileiras ( primitivismo).
 Valorização do elemento nacional ( folclore).
 Influência das vanguardas. Vício da fala
 Nacionalismo crítico. Para dizerem milho dizem mio

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Para melhor dizem mió As aves, que aqui gorjeiam,
Para pior pió Não gorjeiam como lá.
Para telha dizem teia Nosso céu tem mais estrelas,
Para telhado dizem teiado
Nossas várzeas têm mais flores,
E vão fazendo telhados
Nossos bosques têm mais vida,
brasil Nossa vida mais amores.
O Zé Pereira chegou de caravela Em cismar, sozinho, à noite,
E preguntou pro guarani da mata virgem Mais prazer encontro eu lá;
– Sois cristão? Minha terra tem palmeiras,
– Não. Sou bravo, sou forte, sou filho da Morte Onde canta o Sabiá.
Teterê tetê. Quizá Quizá Quecê! Minha terra tem primores,
Lá longe a onça resmungava Uu! Ua! Uu! Que tais não encontro eu cá;
O negro zonzo saído da fornalha
Em cismar — sozinho, à noite —
Tomou a palavra e respondeu
Mais prazer encontro eu lá;
– Sim pela graça de Deus
Canhem Babá Canhem Babá Cum Cum! Minha terra tem palmeiras,
E fizeram o Carnaval Onde canta o Sabiá.
Não permita Deus que eu morra,
I-Juca Pirama Sem que eu volte para lá;
Gonçalves Dias (intertextualidade) Sem que desfrute os primores
Meu canto de morte, Que não encontro por cá;
Guerreiros, ouvi: Sem qu’inda aviste as palmeiras,
Sou filho das selvas,
Onde canta o Sabiá.
Nas selvas cresci;
Guerreiros, descendo
2. MÁRIO DE ANDRADE
Da tribo tupi.
 Valorização da diversidade cultural brasileira ( folclore).
 Crítica aos falsos valores da burguesia.
Da tribo pujante,
Que agora anda errante  Nacionalismo crítico.
Por fado inconstante,  Coloquialismo.
Guerreiros, nasci;  Atenção dada ao cotidiano paulistano.
Sou bravo, sou forte,
Sou filho do Norte; POESIA DE MÁRIO DE ANDRADE
Meu canto de morte,
Guerreiros, ouvi. Ode ao burguês
Eu insulto o burguês! O burguês-níquel,
Canto de regresso à pátria o burguês-burguês!
A digestão bem-feita de São Paulo!
Minha terra tem palmares O homem-curva! o homem-nádegas!
Onde gorjeia o mar O homem que sendo francês, brasileiro, italiano,
Os passarinhos daqui é sempre um cauteloso pouco-a-pouco!
Não cantam como os de lá Eu insulto as aristocracias cautelosas!
Os barões lampiões! os condes Joões! os duques zurros!
Minha terra tem mais rosas que vivem dentro de muros sem pulos;
E quase que mais amores e gemem sangues de alguns mil-réis fracos
Minha terra tem mais ouro para dizerem que as filhas da senhora falam o francês
Minha terra tem mais terra e tocam os "Printemps" com as unhas!
Eu insulto o burguês-funesto!
Ouro terra amor e rosas O indigesto feijão com toucinho, dono das tradições!
Eu quero tudo de lá Fora os que algarismam os amanhãs!
Não permita Deus que eu morra Olha a vida dos nossos setembros!
Sem que volte para lá Fará Sol? Choverá? Arlequinal!
Mas à chuva dos rosais
Não permita Deus que eu morra o êxtase fará sempre Sol!
Sem que volte pra São Paulo Morte à gordura!
Sem que veja a Rua 15 Morte às adiposidades cerebrais!
E o progresso de São Paulo Morte ao burguês-mensal!
ao burguês-cinema! ao burguês-tílburi!
Padaria Suíssa! Morte viva ao Adriano!
Canção do exílio "–Ai, filha, que te darei pelos teus anos?
Gonçalves Dias (intertextualidade) –Um colar... –Conto e quinhentos!!!
Mas nós morremos de fome!"
Minha terra tem palmeiras, Come! Come-te a ti mesmo, oh gelatina pasma!
Oh! purée de batatas morais!
Onde canta o Sabiá;
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Oh! cabelos nas ventas! oh! carecas!
Ódio aos temperamentos regulares! Vou-me embora pra Pasárgada
Ódio aos relógios musculares! Morte à infâmia! Vou-me embora pra Pasárgada
Ódio à soma! Ódio aos secos e molhados! Lá sou amigo do rei
Ódio aos sem desfalecimentos nem arrependimentos, Lá tenho a mulher que eu quero
sempiternamente as mesmices convencionais! Na cama que escolherei
De mãos nas costas! Marco eu o compasso! Eia!
Dois a dois! Primeira posição! Marcha! Vou-me embora pra Pasárgada
Todos para a Central do meu rancor inebriante Vou-me embora pra Pasárgada
Ódio e insulto! Ódio e raiva! Ódio e mais ódio! Aqui eu não sou feliz
Morte ao burguês de giolhos, Lá a existência é uma aventura
cheirando religião e que não crê em Deus! De tal modo inconsequente
Ódio vermelho! Ódio fecundo! Ódio cíclico! Que Joana a Louca de Espanha
Ódio fundamento, sem perdão! Rainha e falsa demente
Fora! Fu! Fora o bom burguês!... Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive

Inspiração E como farei ginástica


São Paulo! Comoção de minha vida... Andarei de bicicleta
Os meus amores são flores feitas de original... Montarei em burro brabo
Arlequinal!... Traje de losangos... Cinza e ouro... Subirei no pau-de-sebo
Luz e bruma... Forno e inverno morno... Tomarei banhos de mar!
Elegâncias sutis sem escândalos, sem ciúmes... E quando estiver cansado
Perfumes de Paris... Arys! Deito na beira do rio
Bofetadas líricas no Trianon... Algodoal!... Mando chamar a mãe-d'água
Pra me contar as histórias
São Paulo! Comoção de minha vida... Que no tempo de eu menino
Galicismo a berrar nos desertos da América! Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada
Descobrimento
Abancado à escrivaninha em São Paulo Em Pasárgada tem tudo
Na minha casa da rua Lopes Chaves É outra civilização
De supetão senti um friúme por dentro. Tem um processo seguro
Fiquei trêmulo, muito comovido De impedir a concepção
Com o livro palerma olhando pra mim. Tem telefone automático
Tem alcaloide à vontade
Não vê que me lembrei que lá no Norte, meu Deus! Tem prostitutas bonitas
muito longe de mim Para a gente namorar
Na escuridão ativa da noite que caiu E quando eu estiver mais triste
Um homem pálido magro de cabelo escorrendo nos olhos, Mas triste de não ter jeito
Depois de fazer uma pele com a borracha do dia, Quando de noite me der
Faz pouco se deitou, está dormindo. Vontade de me matar
Lá sou amigo do rei
Esse homem é brasileiro que nem eu. Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
3. MANUEL BANDEIRA Vou-me embora pra Pasárgada.
 Início de carreira apresentando influência parnasiana e
simbolista.
 Apreciador do poema do cotidiano, com linguagem simples. Os sapos
 Caráter confidencial e autobiográfico (Recife e a infância,
tuberculose, convivência com a morte). Enfunando os papos,
 Sentimentalismo marcado pela melancolia, pelas frustrações, Saem da penumbra,
pela angústia e, ao mesmo tempo, pela intensidade vital, com Aos pulos, os sapos.
grande amor à vida. A luz os deslumbra.
 Cultivador tanto do verso branco e livre como do metro e da rima.
 Suas obras: A Cinza das horas (1917); Carnaval (1919); O Em ronco que aterra,
ritmo dissoluto (1924); Libertinagem (1930); Estrela da vida Berra o sapo-boi:
inteira (1966). - "Meu pai foi à guerra!"
- "Não foi!" - "Foi!" - "Não foi!".
Testamento
Criou-me, desde eu menino O sapo-tanoeiro,
Para arquiteto meu pai. Parnasiano aguado,
Foi-se-me um dia a saúde... Diz: - "Meu cancioneiro
Fiz-me arquiteto? Não pude! É bem martelado.
Sou poeta menor, perdoai!
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Vede como primo - Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?
Em comer os hiatos! - Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.
Que arte! E nunca rimo
Os termos cognatos. Profundamente
Quando ontem adormeci
O meu verso é bom Na noite de São João
Frumento sem joio. Havia alegria e rumor
Faço rimas com Estrondos de bombas luzes de Bengala
Consoantes de apoio. Vozes, cantigas e risos
Ao pé das fogueiras acesas.
Vai por cinquenta anos
Que lhes dei a norma: No meio da noite despertei
Reduzi sem danos Não ouvi mais vozes nem risos
A fôrmas a forma. Apenas balões
Passavam, errantes
Clame a saparia
Em críticas céticas: Silenciosamente
Não há mais poesia, Apenas de vez em quando
Mas há artes poéticas..." O ruído de um bonde
Urra o sapo-boi: Cortava o silêncio
- "Meu pai foi rei!"- "Foi!" Como um túnel.
- "Não foi!" - "Foi!" - "Não foi!". Onde estavam os que há pouco
Dançavam
Brada em um assomo Cantavam
O sapo-tanoeiro: E riam
- A grande arte é como Ao pé das fogueiras acesas?
Lavor de joalheiro.
— Estavam todos dormindo
Ou bem de estatuário. Estavam todos deitados
Tudo quanto é belo, Dormindo
Tudo quanto é vário, Profundamente
Canta no martelo".
Quando eu tinha seis anos
Outros, sapos-pipas Não pude ver o fim da festa de São João
(Um mal em si cabe), Porque adormeci
Falam pelas tripas, Hoje não ouço mais as vozes daquele tempo
- "Sei!" - "Não sabe!" - "Sabe!". Minha avó
Longe dessa grita, Meu avô
Lá onde mais densa Totônio Rodrigues
A noite infinita Tomásia
Veste a sombra imensa; Rosa
Onde estão todos eles?
Lá, fugido ao mundo,
Sem glória, sem fé, Estão todos dormindo
No perau profundo Estão todos deitados
E solitário, é Dormindo
Profundamente.
Que soluças tu,
Transido de frio,
Sapo-cururu Andorinha
Da beira do rio... Andorinha lá fora está dizendo:
— "Passei o dia à toa, à toa!"
Pneumotórax
Febre, hemoptise, dispneia e suores noturnos. Andorinha, andorinha, minha cantiga é mais triste!
A vida inteira que podia ter sido e que não foi. Passei a vida à toa, à toa . . .
Tosse, tosse, tosse.
Irene no céu
Mandou chamar o médico:
- Diga trinta e três. Irene preta
- Trinta e três... trinta e três... trinta e três... Irene boa
- Respire. Irene sempre de bom humor.

- O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão direito Imagino Irene entrando no céu:
infiltrado. — Licença, meu branco!

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E São Pedro bonachão: Ela se riu
— Entra, Irene. Você não precisa pedir licença. Foi o meu primeiro alumbramento
Cheia! As cheias! Barro boi morto árvores destroços redemoinho
sumiu
Poema tirado de uma notícia de jornal E nos pegões da ponte do trem de ferro
os caboclos destemidos em jangadas de bananeiras
João Gostoso era carregador de feira livre e morava no morro da
Babilônia num barracão sem número Novenas
Uma noite ele chegou no bar Vinte de Novembro Cavalhadas
Bebeu E eu me deitei no colo da menina e ela começou
Cantou a passar a mão nos meus cabelos
Dançou Capiberibe
Depois se atirou na lagoa Rodrigo de Freitas e morreu afogado. — Capibaribe
Rua da União onde todas as tardes passava a preta das bananas
Evocação do Recife Com o xale vistoso de pano da Costa
Recife E o vendedor de roletes de cana
Não a Veneza americana O de amendoim
Não a Mauritsstad dos armadores das Índias Ocidentais que se chamava midubim e não era torrado era cozido
Não o Recife dos Mascates Me lembro de todos os pregões:
Nem mesmo o Recife que aprendi a amar depois Ovos frescos e baratos
— Recife das revoluções libertárias Dez ovos por uma pataca
Mas o Recife sem história nem literatura Foi há muito tempo...
Recife sem mais nada A vida não me chegava pelos jornais nem pelos livros
Recife da minha infância Vinha da boca do povo na língua errada do povo
A rua da União onde eu brincava de chicote-queimado Língua certa do povo
e partia as vidraças da casa de dona Aninha Viegas Porque ele é que fala gostoso o português do Brasil
Totônio Rodrigues era muito velho e botava o pincenê Ao passo que nós
na ponta do nariz O que fazemos
Depois do jantar as famílias tomavam a calçada com cadeiras É macaquear
mexericos namoros risadas A sintaxe lusíada
A gente brincava no meio da rua A vida com uma porção de coisas que eu não entendia bem
Os meninos gritavam: Terras que não sabia onde ficavam
Coelho sai! Recife...
Não sai! Rua da União...
A casa de meu avô...
A distância as vozes macias das meninas politonavam: Nunca pensei que ela acabasse!
Roseira dá-me uma rosa Tudo lá parecia impregnado de eternidade
Craveiro dá-me um botão Recife...
Meu avô morto.
(Dessas rosas muita rosa Recife morto, Recife bom, Recife brasileiro
Terá morrido em botão...) como a casa de meu avô.
De repente
nos longes da noite Poética
um sino Estou farto do lirismo comedido
Uma pessoa grande dizia: Do lirismo bem comportado
Fogo em Santo Antônio! Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente
Outra contrariava: São José! protocolo e manifestações de apreço ao Sr. diretor.
Totônio Rodrigues achava sempre que era são José. Estou farto do lirismo que para e vai averiguar no dicionário
Os homens punham o chapéu saíam fumando o cunho vernáculo de um vocábulo.
E eu tinha raiva de ser menino porque não podia ir ver o fogo. Abaixo os puristas
Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais
Rua da União... Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção
Como eram lindos os montes das ruas da minha infância Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis
Rua do Sol Estou farto do lirismo namorador
(Tenho medo que hoje se chame de dr. Fulano de Tal) Político
Atrás de casa ficava a Rua da Saudade... Raquítico
...onde se ia fumar escondido Sifilítico
Do lado de lá era o cais da Rua da Aurora... De todo lirismo que capitula ao que quer que seja
...onde se ia pescar escondido fora de si mesmo
Capiberibe De resto não é lirismo
— Capibaribe Será contabilidade tabela de cossenos secretário do amante
Lá longe o sertãozinho de Caxangá exemplar com cem modelos de cartas e as diferentes
Banheiros de palha maneiras de agradar às mulheres, etc
Um dia eu vi uma moça nuinha no banho Quero antes o lirismo dos loucos
Fiquei parado o coração batendo O lirismo dos bêbedos
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O lirismo difícil e pungente dos bêbedos  Menotti del Picchia
O lirismo dos clowns de Shakespeare  Raul Bopp

- Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.


4. OUTROS NOMES
 Cassiano Ricardo (nacionalismo ufanista, pertencente ao Grupo
da Anta).

Reis Magos

E pra ouvir a sua história


vieram três reis encantados:

um vermelho, o que lhe trouxe


a manhã como presente;

outro branco, o que lhe havia


feito presente do dia;

outro preto, finalmente,


rosto cortado de açoite.
O que lhe trouxera a Noite...

Amor de caboclo

O caboclo na sua choupana,


à hora em que a tarde desmaia vestida de chita
está pensando naquela estrangeira bonita
que viu apanhando café na fazenda.
(Os grãos de café debulhados
pareciam rubis e esmeraldas redondas
caindo em balaios dourados)

Um par de bois vagarosos rodeia rodeia


fazendo rodar os cilindros da moenda
uns agarrados aos outros
por dentes rombudos de pau.

Passa gritando no céu sertanejo


o último pica-pau.

“Ela não é brasileira...


Ela veio outro dia
trazendo goiabas maduras
na cesta dourada.

Ela parece de tão estrangeira


uma formiga ruiva.
Mas por ela (ele pensa)
eu era capaz de fazer uma casa
e de plantar uma goiabeira...”

E já sentia na boca
o caldo das melancias com cheiro de terra
e o gosto matutino das goiabas...

Relâmpago

A onça pintada saltou tronco acima que nem um relâmpago


de rabo comprido e cabeça amarela:
Zás!
Mas uma flecha ainda mais rápida que o relâmpago fez rolar ali mesmo
Aquele matinal gatão elétrico e bigodudo
Que ficou estendido no chão feito um fruto de cor que tivesse caído de
uma árvore!