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ISSN 1516-8085

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Revista Brasileira de Informação Bibliográfica
em Ciências Sociais
BIB - R evista B rasileira d e In form a çã o B ib liográ fica em C iência s S ociais (ISSN 1516-8085) é uma publicação semestral da Associação
Nacional de Pós-Graduação e-Pesquisa em Ciências Sociais (ANPOCS) destinada a estimular o intercâmbio e a cooperação entre as
instituições de ensino e pesquisa em Ciências Sociais no país. A BIB é editada sob orientação de um editor, uma comissão editorial
e um conselho editorial composto de profissionais vinculados a várias instituições brasileiras. -

D iretoria ( Gestão 2 005-2006) .


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Brandão (USP.); D iretores: Raymundo Heraldo Maués (UFPA); José Eisenberg (IUPERJ); M aria Eunice de Souza M aciel (UFRGS)

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C oorden a çã o: Marcelo Siqueira Ridenti (Unicamp)

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C om issão E ditorial: César Guimarães (IUPERJ); Emerson Alessandro Giumbelli (UFRJ); José Sérgio Leite Lopes (MN/UFRJ);
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C onselho E ditorial: Gustavo Lins Ribeiro (UnB); Jane Felipe Beltrão (UFPA); João Emanuel Evangelista de Oliveira (UFRN); Jorge
Zaverucha (UFPE); Lívio Sansone (UFBA); Lúcia Bógus (PUC/SP); Helena Bomeny (CPDOC-FGV/RJ); Magda Almeida Neves
(PUC/MG); Paulo Roberto Neves Costa (UFPR); Roberto Grün (UFSCar) -

E dição .
Assistente Editorial: Míri,an da Silveira Pavanelli ,
Preparação/revisão de textos/copidesqüe: Ana Novais e Gislaine M aria Silva _
Versão/_tradução de resumos: Jorge Thierry Calasans (francês) e Júris Megnis Jr. (inglês)
Editoração eletrônica: Tera Dorea

P rod u çã o gráfica'. Editora Hucitec

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Hispanic American Periodicals Index; D atalndice

BIB: revista brasileira de informação bibliográfica em ciências sociais / Associação Nacional de


Pós-Graduaçao e Pesquisa em Ciências Sociais. -- n. 41 (1996), -- São Paulo : ANPOCS, 1996-

• Semestral
Resumos em português, inglês e francês
Título até o n. 40, 1995: BIB: Boletim informativo e bibliográfico de ciências sociais.

ISSN i 516-8085

' 1. Ciências Humanas 2. Ciências Sociais 3. Sociologia 4. C iência Política 5. Antropologia


I. Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais

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Pesquisa em Ciências Sociais - ANPOCS
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Revista Brasileira de Informação Bibliográfica
em Ciências Sociais

Sumário

Teoria Democrática Atual: Esboço de Mapeamento 5


Luiz Felipe M iguel

O Impacto das Democracias Participativas na Produção


Acadêmica no Brasil: Teses e Dissertações (1988-2002) 43
Alfredo Alejandro Gugliano

Política Comparada: Um Mapeamento do Debate entre


Propostas Teóricas e Metodologias de Pesquisa Alternativas 61
Simone Bohn

Criminologia, Direito Penal e Justiça Criminal no Brasil:


Uma Revisão da Pesquisa Recente 81
Luís Antônio Francisco de Souza

Sociologia da Mística: Uma Revisão da Literatura 109


Carlos Eduardo SeII

Programas de Pós-Graduação e Centros de Pesquisa


filiados à ANPOCS 129

Fontes de Pesquisa 133

Trabalhos Publicados: 1975-2005 139

BIB, São Paulo, n° 59, Io semestre de 2005, pp. 3-146.


Colaboraram neste número:

Luis Felipe M iguel é professor do Instituto de Ciência Política e do Centro de Pesquisa e Pós-
Graduação sobre as Américas, ambos da Universidade de Brasília, e pesquisador do CNPq.
Entre outras obras, é autor de M ito e discurso p olítico (Campinas, Editora da Unicamp, 2000).
E-mail: lfelipe@unb.br

Alfredo Alejandro Gugliano é doutor em Ciência Política e Sociologia pela Universidad


Complutense de Madrid, professor do Instituto de Sociologia e Política da Universidade Federal
de Pelotas e pesquisador do CNPq. Entre seus últimos trabalhos: D em ocracia en las A méricas
(co-editado com Manuel António Garretón), “Democracia, deliberação e participação” (revista
Civitas, 2004) e “Participação e governo local (Revista Sociologia: Problem as e Práticas, 2004).
Desenvolve pesquisas na área dos processos de democratização e da análise comparada de
experiências de democracias participativas. E-mail: aag@direto2.ucpel.tche.br

Simone Bohn, professora da'Universidade de Chicago, é doutora em Ciência Política pela


Universidade de São Paulo (USP). Suas principais áreas de interesse são política comparada,
' partidos políticos, cultura política e comportamento eleitoral. E-mail: simrsil@usp.br

Luís Antônio Francisco de Souza, doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo, é
professor de Sociologia no Departamento de Sociologia e Antropologia da Universidade Estadual
Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, Unesp. Atualmente desenvolve pesquisa na área de segurança
pública, polícia, violência policial e formas alternativas de administração de conflitos. E-mail:
lafrãso@usp.br . ' .

Carlos Eduardo Sell, doutor em Sociologia Política pela Universidade Federal de Santa Catarina
(UFSC), é professor do mestrado profissionalizante de Gestão em Políticas Públicas da
Universidade do Vale do Itajaí, SC (Univali). E autor do livro Sociologia clássica: Durkheim,
Weber e Marx (Itajaí, Editora da Univali, 2003). E-mail: carlos@unifebe.edu.br
Teoria Democrática Atual: Esboço de Mapeamento

Luis Felipe M igu el

Há mais de cinqüenta anos, no mundo prossegue ele, a indefinição quanto às teorias


ocidental, a democracia tornou-se o horizonte da democracia, que discutem “quanto de de­
normativo da prática e do discurso políticos.' mocracia é desejável ou praticável, e como
Tamanho consenso esconde uma profunda ela pode ser realizada numa forma instituci­
divergência quanto ao sentido da democra­ onal sustentável” (Beetham, 1993, p. 55). No
cia: como é comum em relação a palavras que entanto, sem uma teoria que o sustente, um
se tornam objeto de disputa política, os dife­ conceito não passa de uma casca vazia. O fato
rentes grupos empenhados em ostentar o ró­ é que toda a idéia de democracia é, hoje, con­
tulo promovem sua ressemantização, ade­ troversa; e essa situação não deve ser vista
quando seu significado aos interesses que como passageira ou contingente. É um efei­
defendem. to de seu valor nas disputas políticas contem­
Isso levou, de um lado, à produção de porâneas. .
nítidas contrafações, rejeitadas de forma in­ Apenas como contraponto, não custa
tuitiva, como as “democracias populares” do lembrar que o berço da palavra “democra­
Leste europeu ou a “democracia relativa”, for­ cia” e do ideário que a ela associamos, a Gré­
ma que o general Geisel encontrou para de­ cia antiga, percebia com muito clareza o que
signar o Brasil sob mando militar. Mas o sen­ ela significava. Era o “governo do povo”, cla­
so comum, o discurso da mídia e mesmo as ro - mas esta forma, mais ou menos retórica
ciências sociais encontram pouca dificulda­ e nunca realizada de forma plena na prática,
de para aceitar a denominação de “democra­ revestia um conjunto muito bem definido de
cia” aplicada aos regimes concorrenciais do instituições. A democracia grega incluía a as­
Ocidente, onde, no entanto, as decisões po­ sembléia popular, o sorteio para o preenchi­
líticas são efetivamente tomadas por uma mento dos cargos públicos e o pagamento
pequena minoria e ao povo resta pouco mais pelo exercício de suas funções, a isonomia, a
do que se submeter a elas. isegoria, o rodízio nas posições de governo e
Em suma, não apenas o significado da a crença na igual capacidade de todos os ci­
democracia é polêmico, como também con­ dadãos para a gestão da polis. O pensamento
vivemos com uma contradição patente entre político antigo se punha a favor ou (mais fre­
seu sentido abstrato ou normativo mais cor­ qüentemente) contra a democracia. Num
rente (o “governo do povo”) e as manifesta­ caso ou no outro, havia consenso sobre qual
ções empíricas geralmente aceitas (os regimes era o objeto da discussão.
eleitorais). David Beetham afirma que o con ­ A referência à Grécia não é ociosa. Dela
ceito de democracia é incontestável: é uma herdamos não apenas a palavra, mas também
forma de tomada de decisões públicas que todo um imaginário ligado à democracia. Se
concede ao povo o controle social. Resta, o regime concorrencial contemporâneo, que

BIB, São Paulo, n° 59, Io semestre de 2005, pp. 5-42. 5


um especialista em .história antiga como insuficiências das “democracias realmente
Pierre Vidal-Naquet (2002 [2000], p. 14) existentes” e propõem formas de aprofunda­
prefere classificar como “oligarquia liberal”, mento da presença dos cidadãos comuns na
se esforça tanto em manter o rótulo de de­ arena política. Fortemente ideologizada, a
mocrático, é porque deseja se manter simbo­ taxonomia proposta pelo cientista político ita­
licamente próximo daquela experiência. Não liano relega as teorias críticas à condição de
podemos ter o “governo do povo” como tal, devaneios utópicos - ou “perfeccionistas”,
pois nossas sociedades são muito extensas, como ele prefere - que seriam, na melhor das
muito populosas e muito complexas —e, so­ hipóteses, irrelevantes para a prática, política
bretudo (embora essa componente não e, na pior, perigosos, levando à destruição da
apareça com tanta freqüência no discurso es­ democracia que, bem ou mal, podemos ter.
tilizado que aqui reproduzo), porque a incor­ Isolar uma teoria “empírica” de outra
poração de mais e mais grupos à cidadania “prescritiva”, no entanto, significa ignorar que
multiplicou o nível potencial de conflito. Mas a palavra “democracia” ganhou valor nas dis­
gostamos de imaginar que alcançamos uma putas políticas. Afinal, por que motivo o ar­
espécie de adaptação; que a representação ranjo institucional em vigor nos países capi­
política permite a realização, no mundo atual, talistas desenvolvidos - e não algum outro -
de algo similar ao que existiu na Atenas do merece ganhar o rótulo de democrático? Este
século IV antes de nossa era.2 arranjo realiza, ao menos de forma razoável,
Entre as muitas tentativas de classifica­ as promessas que a democracia historicamen­
ção dos diversos modelos ou teorias, da de­ te carrega? Em suma, nenhuma teoria possui
mocracia, a mais corrente na linguagem co­ fundo normativo neutro; os critérios que de­
mum aponta exatamente a diferença que nos finem o que é uma democracia não são de-
separa da Grécia: é a divisão entre “democra­ dutíveis da observação empírica; passam por
cia direta” e “democracia representativa”. Ela uma definição (implícita) de como d ev e ser
também encontra espaço, ainda que em ver­ uma democracia. Ao negar seu componente
sões modificadas, em certos exemplares do normativo, autores como Sartori contraban­
discurso acadêmico, corno os escritos do so­ deiam uma perspectiva conservadora, que rei-
ciólogo português Boaventura de Sousa San­ fica aquilo que é e nega validade à crítica e às
tos.3 Mas a dicotomia é pouco frutífera, umà alternativas.
vez que a representação política é inelutável Mais promissora é a proposta de C. B.
nas sociedades contemporâneas. A idéia de Macpherson (1977). Seu foco é o que chama
democracia direta serve, quando muito, como de “democracia liberal”, em oposição à “de­
um contraponto, mas não pode guiar proje­ mocracia utópica” anterior ao século XIX, isto
tos de transformação dos sistemas políticos é, uma teoria que pressupõe a existência de
atuais. urna sociedade dividida em classes. Quatro
Outra classificação é a apresentada por modelos sucessivos são apontados: a demo­
Giovanni Sartori (1994 [1987]), distinguin­ cracia protetora, de Bentham e James Mill,
do a “democracia empírica” (descritiva) da centrada na idéia de que o direito de voto
“democracia racional” (prescritiva). Na pri­ servia (apenas) de garantia contra a tirania
meira categoria estão as construções teóricas dos governantes; a democracia desenvolvi-
que buscam sistematizar os traços constituti­ mentista, de John Stuart Mill, voltada à qua­
vos dos regimes eleitorais de tipo ocidental. lificação dos cidadãos por sua imersão na es­
Na segunda, todos os modelos que apontam fera pública; a democracia de equilíbrio, de

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Schumpeter, que se reduz à competição elei­ cracia deliberativa”, inspirada sobretudo pela
toral; e a democracia participativa, propug­ teoria de Jürgen Habermas, que nega o cará­
nada pelo próprio Macpherson. ter privado da formação das preferências, en­
É fácil perceber que os quatro modelos fatizando a necessidade do debate público.5
de Macpherson oscilam, de fato, entre um Instigante como é, o esquema de Elster não
pólo protetor (o que a democracia de fato está isento de problemas. Uma das princi­
pode alcançar é a garantia de alguns direitos pais lacunas, reconhecida pelo próprio autor,
individuais, contra o risco de despotismo dos é que a obra de Schumpeter, com ênfase na
governantes) e um pólo “desenvolvimentis- manipulação das preferências individuais por
ta” (o acesso à esfera pública amplia os hori­ meio da demagogia política, não se classifica
zontes do cidadão, permitindo que suas ca­ em nenhuma das categorias.'Com isto, a con­
pacidades se realizem mais e melhor). De cepção dominante da democracia perde seu
alguma maneira, ele repõe, em novos termos principal fundador. .
e com a valoração invertida, a velha observa­ Esta breve listagem de algumas propos­
ção. de Constant sobre a liberdade dos anti­ tas de classificação dos modelos de democra­
gos e a liberdade dos modernos. David Held cia visa, sobretudo, a indicar a dificuldade de
(1996) inspira-se em Macpherson e são esses se chegar a um esquema abrangente, isento
dois pólos que balizam sua taxonomia, que de ambigüidades e coerente. Delato, não há
contempla nove —ou doze, caso as variações uma taxonomia “correta” —elas são apenas
sejam contadas por si mesmas - modelos de menos ou mais úteis, de acordo com a con­
democracia, da Antigüidade aos nossos dias. tribuição que .podem dar para a compreen­
Outras tentativas de classificação pode­ são da teoria democrática. Aqui, vou optar
riam ser listadas, mas aqui basta citar uma por trabalhar com cinco diferentes corren­
últim a, a do cientista político norueguês tes, sem a pretensão de haver encontrado um
Jon Elster (1997).4 São três modelos: a con­ critério exaustivo ou com valor universal. Ao
cepção dominante de democracia, ligada às contrário, o critério é assumidamente circuns­
“teorias da escolha social”, e duas diferentes tancial: são as correntes que, hoje, encontram
contestações a ela. No modelo dominante, o maior ressonância no debate acadêmico e
processo político é apenas instrumental; o político.
método democrático resume-se a uma forma Todas elas se encontram no campo da
de agregação de preferências individuais, sem­ “democracia representativa”, uma vez que
pre tidas como prévias e construídas na esfe­ qualquer proposta de democracia direta, para
ra privada. A metáfora do "mercado político” as sociedades contemporâneas, é quimérica.
é levada ao pé da letra: os cidadãos escolhem (1) A dem ocracia liberal-pluralista, deno­
entre as ofertas que lhes são apresentadas, minação que amalgama as posições mais “des­
buscando a maior satisfação pessoal. critivas” dos sistemas políticos ocidentais,
A primeira vertente de contestação é o para a qual a realização do projeto demo­
que Elster chama de “democracia participa­ crático passa sobretudo pela vigência de um
tiva”, correspondendo à “desenvolvimentis- conjunto de liberdades cidadãs, competição
ta” na terminologia de Macpherson e Held. eleitoral livre e multiplicidade de grupos de
E uma corrente que rejeita a caracterização pressão, que se envolvem êm coalizões e bar­
da política como possuindo mero valor ins­ ganhas, cada qual tentando promover seus
trumental, apresentando-a como um bem em interesses. A idéia de “governo do povo” é
si mesmo. A segunda contestação é a “demo­ esvaziada, na medida em que aos cidadãos
comuns cabe, sobretudo, formar o governo, dia. Como se vê, não se trata de uma volta à
mas não governar. democracia direta, mas da combinação dos
As outras correntes pertencem todas ao mecanismos representativos com a participa­
campo que Sartori denomina de “democra­ ção popular na base. Influente sobretudo nas
cia racional”, isto é, são correntes críticas em décadas de 1970 e 1980, ela se faz presente
relação ao arranjo institucional estabelecido hoje, com ambições bem mais modestas, em
nos países capitalistas desenvolvidos. iniciativas de reforma da política local, como,
(2) A dem ocracia deliberativa, nascida da entre outras, o “orçamento participativo” expe­
obra de Habermas e, em menor medida, de rimentado em vários municípios brasileiros.
Rawls, aparece hoje como a principal inspi­ A corrente (2) é contemplada no esque­
ração crítica às democracias realmente exis­ ma de Elster, de forma similar à que apre­
tentes. Seu ideal é que as decisões políticas sento aqui. O que ele chama de “democracia
sejam fruto de uma ampla discussão, na qual participativa” engloba, d.e fato, as correntes
todos tenham condições de participar em (3) e (4) indicadas acima. A quinta e última
igualdade, apresentando argumentos racio­ vertente corresponde a desenvolvimentos
nais, e ao fim da qual haja consenso. Em opo­ mais recentes da teoria política.
sição à vertente anterior, liberal, ela conside­ (5) O m ulticulturalism o ou a política da
ra que os agentes não estão presos a interesses diferença, cujo fundamento é a afirmação das
fixos e são capazes de alterar suas preferênci­ características distintivas dos diversos grupos
as em meio ao debate. presentes na sociedade' nacibnal, entendidas
(3) O republicanism o cív ico , que prega a como irredutíveis a uma identidade única e
revalorização da ação na p olis e do sentimen­ fontes legítimas de ação política. A ruptura
to de comunidade, parcialmente inspirado com a perspectiva liberal é profunda, na me­
pelo pensamento de Hannah Arendt. Algu­ dida em que grupos —e não só indivíduos —
mas de suas vertentes desembocam no comu- são considerados sujeitos de direitos.
nitarismo, que polemiza contra o individua­ E evidente que as cinco vertentes aqui
lismo da tradição liberal. E o pertencimento listadas não esgotam a teoria democrática
à comunidade que dota de sentido a ação contemporânea, nem possuem fronteiras bem
humana; e nesse sentido a participação po­ definidas entre si. Boa parte dos pensadores,
lítica pode ser entendida como provida de mesmo os que são considerados representan­
valor em si mesmo (ao passo que, para a ver­ tes emblemáticos de algum dos grupos, li­
tente liberal, a política possui apenas valor dam com outras correntes. Além disso, nem
instrumental, na busca pela realização de in­ todas as correntes apresentam grau similar de
teresses constituídos na esfera privada). elaboração. A preocupação central dos prin­
(4) A dem ocracia participativa, que des­ cipais teóricos do multiculturalismo, por
taca à necessidade de ampliação dos espaços exemplo, não tem sido produzir uma teoria
de decisão coletiva na vida cotidiana. O cha­ da democracia, mas uma teoria da justiça.
mamento episódico à participação nas ques­ Assim, a concepção de democracia que os
tões públicas, no período eleitoral, é julgado anima - e que se tornou relevante para o de­
insuficiente para promoyer a qualificação das bate contemporâneo —ainda possui um ca­
cidadãs e dos cidadãos. E necessário que as ráter fragmentário. Feitas essas ressalvas, no
pessoas comuns estejam presentes na gestão entanto, creio que a divisão proposta serve
das empresas, das escolas, enfim, que a parti­ como guia útil para o entendimento do esta­
cipação democrática faça parte de seu dia-a- do atual da teoria democrática.
A Democracia Liberal-Pluralista se contentar o papel que lhes é cabido: votar
a cada quatro ou cinco anos e, no intervalo,
O ponto de partida para a atual concep­ obedecer sem pestanejar às ordens que, eles
ção liberal de democracia é a doutrina do eco­ imaginam, de alguma forma também ema­
nomista austríaco Joseph Schumpeter, qufe naram de sua vontade.
mudou a história da reflexão política ao lan­ De fato, Schumpeter promove a acomo­
çar seu Capitalismo, socialism o e dem ocracia dação da democracia com uma corrente de
(1984 [1942]). As poucas páginas que dedi­ pensamento que nasceu para negá-la, a teo­
ca à questão da democracia, numa obra vol­ ria das elites (cf. Miguel, 2002a). Os autores
tada sobretudo a uma revisão polêmica do elitistas do começo do século XX, como Mos­
pensamento marxista, tiveram enorme reper­ ca, Pareto e Michels, procuraram demons­
cussão e, de alguma maneira, redefiniram o trar que o socialismo e a democracia eram
sentido da palavra. fantasias sem possibilidade de efetivação. Tra­
O primeiro esforço de Schumpeter é a ta-se de uma perspectiva essencialista, para a
demolição dos mitos que, segundo crê, cer­ qual há uma invariável das relações humanas
cam a política democrática. Os teóricos clás­ e do processo histórico: a impossibilidade de
sicos da democracia previam a presença de uma organização social em que não haja uma
cidadãos interessados e bem-informados, minoria dominante. Todas as mudanças po­
conscientes de suas preferências no mundo líticas seriam, por trás das aparências, repeti­
da política e desejosos de alcançar o bem co­ ções do mesmo processo, com a substituição
mum - em suma, pessoas inexistentes no de uma elite por outra. A massa é apresenta­
mundo real. No entanto, a “doutrina clássi­ da como incapaz de intervir no processo his­
ca da democracia” que Schumpeter pretende tórico; se parece que o faz, é porque está sen­
refutar é uma mistura pouco criteriosa de sen­ do manobrada por outro grupo. A base elitista
so comum e autores clássicos, capaz de jun­ do pensamento de Schumpeter aceita tais
tar vozes tão dissonantes quanto Rousseau e afirmações; ao redefinir a democracia para
os utilitaristas, para criar um adversário mais torná-la compatível com tais “realidades”, ele
adequado (Pateman, 1992 [1970]). deprecia brutalmente seus ideais.
Schumpeter, então, redefine a democra­ O sucesso da democracia concorrencial
cia como sendo simplesmente uma maneira foi favorecido pelo surgimento fortuito, na
de gerar uma minoria governante legítima. mesma época da publicação de Capitalismo,
Outras fórmulas para alcançar tal legitimi­ socialism o e dem ocracia, de evidências empí­
dade, em especial as monarquias hereditá­ ricas que pareciam confirmar elementos cru­
rias, estavam em declínio. O governo, assim, ciais da teoria schumpeteriana. Outro imi­
devia ser formado mediante a luta competi­ grante austríaco, Paul Lazarsfeld, liderara um
tiva pelos votos do povo/' Dessa forma, a teo­ importante estudo sobre o comportamento
ria concorrencial promove uma gigantesca dos eleitores durante a campanha presiden­
redução do alcance da democracia, já que, cial estadunidense de 1940, que sairia em
para ela, o resultado do processo eleitoral não livro pouco depois (Lazarsfeld, Berelson e
indica a formação de nenhum tipo de von­ Gaudet, 1969 [1944]). Os traços definido­
tade coletiva. Trata-se da mera agregação de res da maior parte dos votantes eram a apatia,
preferências manipuladas, preconceitos e de­ a desinformação e o desinteresse em relação
cisões impensadas. E, para que o sistema fun­ à política, tal como o modelo de Schumpeter
cione a contento, os cidadãos comuns devem indicava. A semelhança, porém, escondia

9
uma diferença significativa, a respeito do pa­ teresse dos cidadãos pela política não signi­
pel das campanhas eleitorais. Schumpeter, fica que suas vontades deixarão de ser leva­
talvez por efeito da experiência da ascensão das em conta pelo governantes. Já Marcur
do nazismo, via o eleitorado como volátil e Olson (1965), outro pioneiro da chamada
sugestionável, sempre sob a influência dos “teoria da escola racional” na ciência políti­
discursos demagógicos dos candidatos. Já os ca, invertia a acusação de “irracionalidade”
eleitores de Ohio, que foram a matéria-pri­ que Schumpeter dirigia ao eleitor comum.
ma para os surveys de Lazarsfeld e seus colabo­ Desinformação e apatia são a resposta racio­
radores, estavam presos a padrões tradicionais n al num contexto em que o peso do eleitor é
de voto, que dificilmente eram modificados tão pequeno —já que cada um controla ape­
por efeito da campanha ou de informações nas um voto, em meio a milhares ou milhões
transmitidas pelos meios de comunicação de de outros - que não vale o investimento de
massa. tempo e dinheiro necessário para a qualifica­
A visão de Schumpeter é profundamen­ ção política. Seymour Lipset (1963 [1960])
te desencantada quanto às possibilidades de vai além, vendo na apatia e no abstenseísmo
que a democracia cumprisse quaisquer de suas um indício não apenas da racionalidade do
promessas fundamentais —governo do povo, eleitor, mas de sua satisfação com o funcio­
igualdade política, participação dos cidadãos namento do sistema. Por fim, Giovanni Sar-
na tomada de decisões. Vários dos autores tori (1994 [1987]), que continua vinculado
inspirados por ela, no entanto, fizeram es­ à denúncia schumpeteriana da irracionalida­
forços para aproximar a teoria dos valores de­ de do cidadão comum, julga que a baixa par­
mocráticos básicos. Anthony Downs (1957, ticipação política é a chave para a realização
p. 29), por exemplo, declarava se basear nos da democracia como “meritocracia” ou pro­
“brilhantes in sigh t? de Schumpeter, mas con­ cesso seletivo dos mais aptos a governar.
cluía que a combinação entre eleitores pouco A demonstração da impossibilidade de
interessados e políticos competindo pelo voto realização da democracia, num espírito pró­
representava a mais perfeita forma de gover­ ximo ao de Schumpeter, mas de maneira mais
no do povo. formalizada, está no cerne da influente obra
Para tanto, ele transformava uma das de William Riker (1982). Ele enfatiza, por
premissas do economista austríaco, postulan­ um lado, a dependência das decisões em re­
do que os cidadãos têm interesses identifi­ lação aos sistemas, eleitorais, isto é, que a ma­
cáveis e são capazes de perceber se eles estão nipulação dos mecanismos decisórios afeta os
sendo bem atendidos ou não. Como o go­ resultados. Por outro,, aponta as patologias
vernante precisa do voto de todos para per­ da racionalidade coletiva, em especial o cha­
manecer no poder, o seu interesse objetivo é mado “paradoxo de Condorcet”, que mostra
realizar os interesses dos outros (e, assim, como um conjunto de indivíduos racionais
manter sua confiança). O modelo possui gra­ pode chegar a decisões coletivas incoerentes.
ves fragilidades, uma vez que se baseia num A conclusão é que a idéia de um governo do
visão demasiado esquemática do comporta­ povo é sempre ilusória. Conforme já foi de­
mento tanto dos cidadãos comuns como dos monstrado, o edifício teórico de Rikersusten-
políticos (Przeworski, 1995 [1990], pp. 37­ ta-se numa premissa duvidosa, a de que a de­
39; Pizzorno, 1993; Miguel, 2002b). mocracia se resume ao ato de votar (Mackie,
Downs buscou demonstrar que, dado o ' 1988). Quando a discussão é considerada um
mecanismo da competição eleitoral, o desin­ ingrediente necessário do processo democrá-

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tico, tal como fazem os teóricos da democra­ rios em New Haven, Connecticut, apresen­
cia deliberativa, os problemas “insolúveis” tada como cidade “típica” da vida urbana es­
apontados por Riker são, em grande medi­ tadunidense. A pesquisa mostra que, embo­
da, superados. ra uma minoria de líderes monopolizasse as
A vinculação com o legado schumpete- iniciativas políticas nas três questões polêmi­
riano é bem mais complexa na teoria poliár- cas analisadas (nomeações de funcionários
quica de Robert A. Dahl, que influenciou de públicos, reurbanização e educação), havia
forma determinante a concepção liberal cor­ conflito dentro dela e a influência de cada
rente de democracia. Nela, a presunção do líder era, via de regra, especializada, isto é,
desinteresse do eleitorado é relativizada. Os incidia sobre apenas um dos três assuntos
cidadãos são, sim, apáticos quanto à maioria (Dahl, 1961). O estudo de Dahl está sujeito
das questões da agenda política, mas podem a uma série de questionamentos de ordem
se mobilizar no momento em que um de seus metodológica, a começar pela premissa de que
interesses específicos é posto em questão. Se o microcosmo é um retrato fiel, em escala
não podemos contar com o governo do povo menor, do macrocosmo —quer dizer, de que
ou mesmo com o governo da maioria, pode­ o estudo dos processos de decisão em nível
mos ao menos ter um sistema político que local pode servir de evidência para o nível na­
distribua a capacidade de influência entre cional. Afinal, tam anho e distância são fato­
muitas minorias. As eleições ocupam uma res essenciais para explicar a apatia política
posição central num ordenamento poliárqui- popular, que, por sua vez, é um dos elemen­
co não porque introduzam um “governo de tos que favorecem o domínio da elite. Além
maiorias em qualquer maneira significativa, disso, é difícil crer que uma cidade, na época
mas [porque] aumentam imensamente o ta­ com 160 mil habitantes, que sedia a Univer­
manho, número e variedade das minorias, sidade Yale possa ser considerada “típica”, por
cujas preferências têm que ser levadas em con­ mais que muitos de seus indicadores de­
ta pelos líderes quando fazem opções de po­ mográficos sejam medianos. Mas a principal
lítica” (Dahl, 1989- [1956], p. 131). crítica foi formulada por Bachrach e Baratz
Dahl admite que os regimes vigentes no (1962, 1963), que demonstraram que o
Ocidente não são realmente “governos do estudo de Dahl ignorava a determ ina ção da
povo”, mas ao mesmo tempo nega que exista agenda, uma faceta crucial do exercício do
uma classe dominante, como querem os mar­ poder.
xistas, ou uma “elite do poder”, como dizia As poliarquias seriam o resultado dos
Wright Mills (1981 [1956]). Em vez de uma processos de dem ocratização, que Dahl
minoria governante, existem muitas mino­ (1971) desdobra em duas dimensões, a in­
rias que disputam entre si a respeito de ques­ clusividade (ampliação do número de pes­
tões específicas e que devem ser levadas em soas incorporadas formalmente ao processo
conta pelos governantes. Ao seu modelo, o político) e a liberalização (reconhecimento do
autor chama “poliarquia”, a palavra designan­ direito de contestação). Amplamente utiliza­
do a existência de múltiplos centros de poder do na ciência política, o modelo bidimensio­
dentro da sociedade - e se distinguindo da nal também enfrenta críticas recorrentes, a
verdadeira democracia, entendida como ideal começar pela ausência de uma dimensão so­
normativo cuja plena realização é utópica. cia l, que permita que os direitos de partici­
Ele “comprovou” a vigência da poliar­ pação e oposição sejam usados de maneira
quia num estudo sobre os processos decisó­ efetiva (ver, por exemplo, Weffort, 1992). De
fato, como a inclusividade é apenas formal, (Dahl, 1989, p. 182).8 A construção dos in­
reduzindo-se em última análise ao direito de teresses —isto é, das vontades e identidades
voto, ela é compatível com a exclusão políti­ coletivas —é suprimida da política; em seu
ca real dos grupos subalternos. lugar, resta uma agregação mecânica de pre­
Numa trajetória intelectual invulgar, ferências preexistentes. O aspecto comuni­
Dahl tornou-se cada vez mais crítico em re­ cativo da atividade política é esvaziado. São
lação ao sistema político estadunidense —que os democraras deliberativos que vão desen­
a teoria pluralista, a princípio, justificava. Ele volver esta crítica.
se tornou sensível aos problemas que o orde­
namento capitalista apresenta à efetivação da
democracia, passando a advogar por formas A Democracia Deliberativa
de economia autogestionária (Dahl, 1990
[1985]). Passou a expressar simpatia pela A corrente deliberativa tornou-se, nos
abordagem deliberacionista, embora não a últimos vinre anos, a principal alternativa
tenha de fato incorporado em seu modelo. teórica à democracia liberal-pluralista.9 Sua
Independentemente disso, uma versão sim­ principal matriz, embora não a única, é a fi­
plificada do pluralismo liberal, com sua ên­ losofia de Jiirgen Habermas.10 Os democra­
fase em eleições competitivas e em múltiplos tas deliberativos incorporam parte signifi­
grupos de pressão, tornou-se a ideologia ofi­ cativa do ideal participacionista, mas apre­
cial dos regimes democráticos ocidentais. sentam uma nova ênfase nos mecanismos
Dois problemas principais podem ser discursivos da prática política. Segundo a sín­
identificados na corrente. O primeiro, um tese de Joshua Cohen (1998, p. 186), eles
traço característico do liberalismo desde os julgam que as decisões políticas devem ser
seus primórdios, é o isolamento da esfera polí­ tomadas por aqueles que estarão submeti­
tica em relação ao restante do mundo social. dos a elas, por meio do “raciocínio público
As desigualdades presentes na sociedade são iivre entre iguais”. Trata-se de um esforço
“colocadas entre parênteses” (Fraser, 1992), importante para avançar na compreensão
o que sustenta as ficções dos “cidadãos iguais do sentido da democracia,, que transcende o
perante a lei” e dos “contratos entre pessoas pretenso empirismo da vertente hegemôni­
liv res e iguais”. Na verdade, as desigualdades ca, schumpeteriana, por levar em conta, como
materiais e simbólicas transbordam para a diz o próprio Habermas, “o sentido norma­
arena política, contribuindo para impedir que tivo genuíno da compreensão intuitiva da de- .
determinados grupos tenham acesso pleno a mocracia” (1997 [1992], vol. 2, p. 18).
ela ou nela sejam capazes de promover efi­ Em primeiro lugar, a corrente rompe
cazmente seus interesses. Há aqui um ponto com a percepção da democracia como sim­
central da crítica à vertente democrática li­ ples método para a agregação de preferências
beral, que será apresentado com mais minú­ individuais já dadas. Longe de constituírem,
cia nas seções seguintes. elementos prévios, as preferências são cons­
O segundo problema central da percep­ truídas e reconstruídas por meio das intera­
ção pluralista da democracia é a redução da ções na esfera pública, em especial do debate
política a um processo de escolha, no qual, entre os envolvidos. Em segundo lugar, há a
por uma premissa metodológica, considera- ênfase na igualdade de participação, um as­
se que todos os cidadãos são guiados por um pecto constitutivo do sentido clássico da de­
“entendimento esclarecido de seus interesses” mocracia, mas que foi relegado a plano secun­
dário pelas vertentes hegemônicas da teoria pública e o integra num modelo normativo
democrática contemporânea. Por fim, a au­ de funcionamento da democracia.
tonom ia, isto é, a produção das normas so­ No entanto, nesse momento o impulso
ciais pelos próprios integrantes da sociedade, crítico de sua obra já está esvaziado. Haber­
é resgatada como o valor fundamental que mas vai abandonar a preocupação com a co­
guia o projeto democrático. lonização do “mundo-da-vida” pelos ope­
A democracia deliberativa apresenta-se radores sistêmicos - dinheiro e poder - que
como um modelo normativo que produz a coordenam, de maneira crescente, as relações
crítica da política vigente a partir de um pa­ interpessoais. A ação comunicativa passa a ser
râmetro ideal. Esse ideal, porém, remete a vista como garantidora, em última instância,
uma matriz histórica (ou pseudo-histórica), da integração da sociedade, num modelo em
a “esfera pública burguesa' descrita por Ha­ que as tensões entre os diferentes tipos de ra­
bermas em sua influente tese de 1962. A cionalidade e entre as esferas sistêmica e do
partir de uma reflexão sobre o surgimento da “mundo-da-vida” tornam-se bem mais bran­
opinião pública, na França, na Alemanha e, das (ou mesmo desaparecem), dando lugar a
sobretudo, na Inglaterra dos séculos XVIII e uma perspectiva mais harmônica, de mera
XIX, ele apresenta uma visão da “boa polí­ diversificação funcional (Habermas, 1997
tica”, caracterizada pela discussão livre das [1992], vol. 1, p. 45; para uma crítica focada
questões de interesse coletivo (Habermas, neste ponto, ver Cook, 2001). -
1984 [1962]). Contra o pano de fundo des­ Como observou John Dryzek, Habermas
te ideal normativo, Habermas lamenta a de­ inscreve-se no movimento mais geral, den­
cadência atual da esfera pública, manipulada tro da corrente deliberativa, de acomodação
por estratégias públicitárias. com o constitucionalismo liberal. Em D irei­
Em sua obra posterior, Habermas subs­ to e dem ocracia, verifica-se uma “reconcilia­
tituiu o conceito de esfera pública pela teoria ção” com “fatos [pretensamente] imutáveis
análoga, porém mais abstrata, da ação comu­ do mundo moderno”, vinculados à estrutura
nicativa. O ideal normativo que guia sua re­ político-econômica, ê a possibilidade de
flexão é a ação voltada para o entendimento mudança é restrita ao ordenamento legal
mútuo, por intermédio do diálogo, em opo­ (Dryzek, 2Ö00, p. 24)." Isso levaria Haber­
sição à ação estratégicaj que busca apenas o mas, por exemplo, a estabelecer um modelo
sucesso e utiliza caracteristicamente opera­ pelo qual a opinião pública gera influência,
dores sistêmicos como o poder e o dinheiro. que se transforma em “poder comunicativo”
Mas, quando elabora sua teoria da ação co­ por meio de eleições; e este, por sua vez, se
municativa, o filósofo alemão trabalha em tal torna “poder administrativo” por meio da le­
grau de abstração que, a rigor, não é possível gislação (Habermas, 1997 [1992], vol. 1, pp.
falar numa teoria da democracia. A preo­ 189-190). Dryzek (2000, pp. 25-26) obser­
cupação específica com a política - vista de va que é, no mínimo, duvidoso se uma per­
início sob uma perspectiva integralmente cepção tão estilizada do processo político será
negativa, como um dos instrumentos de co­ capaz de captar pelo menos uma parte de sua
lonização da vida cotidiana, o “mundo-da- dinâmica real. O jogo de forças é despido de
vida” —só vai aparecer na última obra impor­ todas as suas condicionantes estruturais e o
tante de Habermas, o livro Direito e democracia, que sobra é uma versão mais sofisticada dos
lançado na Alemanha em 1992, no qual o fi­ manuais escolares de civismo. Em suma, a
lósofo também recupera o conceito de esfera aceitação acrítica da fixação de uma esfera

13
política isolada das restantes esferas sociais é A regra (1) garante a ausência de repres­
a própria capitulação diante do constitucio­ são, já que não é possível censurar a partici­
nalismo liberal. pação no debate, e também a ausência de ex­
Ao contrário do que julga Dryzek, tal clusão, já que a discussão está franqueada a
movimento não é uma “virada” imprevista no todos os que possam contribuir para ele. Dois
pensamento de Habermas, mas o aprofun­ problemas evidentes emergem desta formu­
damento de um traço que já está presente em lação. O primeiro e menor deles refere-se à
sua obra desde a tese sobre a esfera pública. qualificação de “pertinente” quanto às con­
A idealização da esfera pública burguesa dos tribuições aceitáveis no debate. Ora, grande
séculos XVIII e XIX demonstra uma notável parte de qualquer debate gira sempre sobre
insensibilidade ao problema da exclusão de a pertinência ou não de determinados fatos
grupos sociais. Trabalhadores e mulheres, para ou especulações. Ou há quem determine a
citar os exemplos mais evidentes, estavam p rio ri a pertinência de cada contribuição, e
ausentes da esfera pública burguesa. É claro aí temos um critério de exclusão, ou é neces­
que Habermas percebe e anota tal ausência. sário abandonar a qualificação e reconhecer
Mas, em M u dança estru tu ra l, ela aparece que toda contribuição é válida até prova em
como algo contingente e não como estrutu- contrário. O segundo problema, que é o de­
radora de características centrais da esfera cisivo e será desenvolvido em maior detalhe
pública burguesa setecentista e oitocentista. adiante, diz respeito à capacidade subjetiva
Assim, Habermas reproduz, em seu mo­ que grupos e indivíduos em diferentes posi­
delo da esfera pública, as premissas dos teó­ ções na estrutura social têm de produzir “con­
ricos liberais do contrato social. A igualdade tribuições pertinentes” a diferentes debates.
substantiva não é importante, na medida em A regra (2) é uma regra de igualdade; na
que todos podem discutir com o se fossem medida em que apenas a argumentação ra­
iguais —isto é, a produção de direitos for­ cional é levada em conta, está neutralizada
mais de cidadania surge como condição sufi­ a diferença de autoridade, de riqueza, de sta­
ciente para a efetivação do debate público tus ou qualquer outra. E claro que isto nunca
ideal. As condições de acesso à esfera pública ocorre: no mundo real, os debates sempre são
não são tematizadas, o que permite deixar de desvirtuados por diferenciais de poder, de
lado, como secundária, a exclusão de traba­ autoridade e mesmo de acesso à fala. E a re­
lhadores e mulheres. ■ gra (3) é uma condição de efetividade do de­
Não qiie Habermas não perceba a ex­ bate, indicando que os participantes estão
clusão política vigente nas sociedades con­ dispostos a assimilar o argumento dos outros
temporâneas: ele a percebe, indica e conde­ e não se prendem a posições prévias.
na de forma explícita, segundo um critério Habermas está ciente de que seus crité­
ético. Mas desenvolve sua teoria sobre o mo­ rios não são preenchidos na vida real e apre­
delo utópico da “situação de fala ideal”, onde senta a situação de fala ideal como sendo, em
a exclusão, por definição, não pode ocorrer. primeiro lugar, um ideal normativo (se bem
Tal situação é caracterizada por três regras: que não arbitrário). O problema é que, na
(1) qualquer contribuição pertinente ao de­ maior parte de sua obra, ele não apresenta ne­
bate pode ser apresentada; (2) apenas a ar­ nhuma ponte entre o ideal e a realidade. Sua
gumentação racional é levada em conta; e “fala ideal” é um pouco como a “posição origi­
(3) os participantes buscam atingir o con­ nal” de John Rawls (em que um “véu da incer­
senso. teza” afasta todas ás desigualdades): um arti-

14
fício que gera uma situação em que todos são pere a mera transferência da soberania po­
abstratamente iguais, elidindo o desafio de pular para uma elite, por intermédio da au­
como gerar uma sociedade igualitária partin­ torização eleitoral.
do de úma condição de radical desigualdade. Mesmo independentemente deste pon­
A situação de fala ideal não é arbitrária - to, que a torna um modelo irrelevante para a
e esta é uma diferença importante em relação construção da ordem política, a comunica­
à posição original de Rawls - porque, para ção face a face está marcada por uma série de
Habermas, a ausência de repressão, a igual­ desigualdades, que a idealização haberma-
dade entre os falantes e a busca pelo consen­ siana ignora. As diferentes posições sociais dos
so são inerentes à natureza da linguagem. A interlocutores contaminam a situação de fala
“ação comunicativa”, direcionada para o en­ que, portanto, é marcada por assimetrias.
tendim ento mútuo, está presente em po­ Status, dinheiro, poder ou o domínio do pa­
tencial em cada ato de fala. E a altern a tiva drão culto condicionam, de formas muito
à linguagem (o uso da força) que prescinde sutis, o acolhimento que é dado à interven­
do entendimento mútuo. As características ção de cada um dos falantes e, na aparência,
igualitárias e mesmo emancipatórias da lin­ não agridem as exigências do “livre debate
guagem apareceriam sobretudo no “mun- entre iguais”.
do-da-vida”, isto é, nas relações interpes­ Os problemas da comunicação face a face
soais cotidianas que escapam à mediação do formam apenas um dos muitos flancos do
dinheiro e do poder. O ideal habermasiano, ideal deliberativo. A crítica mais evidente (e,
assim, inspira-se na comunicação face a face por isso, mais explorada na literatura) diz res­
entre indivíduos privados, o que impõe uma peito à impossibilidade prática de efetivação
nova série de problemas. de um debate envolvendo todos os interessa­
E uma comunicação gerada pelo con­ dos, em sociedades extensas e populosas como
vívio entre indivíduos como tais, isto é, que as contemporâneas. É o problema típico das
não se apresentam como representantes ou fantasias de ressurgimento da democracia di­
porta-vozes de grupos específicos. De fato, reta, das quais o deliberacionismo parece, por
em nossa vida cotidiana, embora tenhamos vezes, ser uma vertente. Trata-se de um traço
consciência de que o indivíduo A é negro e o marcante na obra.de Habermas. Ele vê com
indivíduo B é branco, e mesmo que precon­ suspeita todas as formas de mediação, aí in­
ceitos sobre o caráter de negros e brancos in­ cluídos tanto a representação política como
fluenciem nossa atitude, não imaginamos que os meios de comunicação de massa (Peters,
A e B estão “representando” seus grupos ra­ 1993) - e escapa delas mediante dois recur­
ciais, no sentido político do termo, nem es­ sos. Primeiro, a elevada abstração de sua cons­
peramos que pautem suas ações pela promo­ trução teórica, que permite fugir ao enfren-
ção dos interesses de grupo. tamento com limitações (inclusive físicas) das
O problema é que a comunicação face a sociedades reais. Depois, a distinção entre a
face é um modelo impróprio para o enten­ estrutura administrativa (em que são toma­
dimento da política, exatam ente p o r descar­ das as decisões e operam os mecanismos re­
tar a questão da representação. Nas sociedades presentativos) e a esfera pública discursiva,
contemporâneas, com sua complexidade e que é o pólo carregado de positividade e que
dimensões, a representação é ineludível - e aparentemente prescindiria da representação,
é este o fato que torna complexa a constru­ efetivando-se numa multiplicidade de locais
ção de qualquer ordem democrática que su­ e momentos.

15
As respostas dadas por outros teóricos da O problema da escala é uma faceta do ir-
corrente ao desafio da escala da deliberação realismo que contamina boa parte da teoria
também são insatisfatórias.12 Cohen (1997, deliberacionista. Ao postular determinadas
p. 84) diz simplesmente que trabalha num “condições ideais” e trabalhar com elas, obs­
nível de generalidade tal que objeções de táculos do mundo real somem como num
caráter prático não se aplicam. Aqueles que passe de mágica. E o caso, notadamente, da de­
buscaram gerar modelos efetiváveis de demo­ sigualdade material e do controle dos meios
cracia deliberativa postulam, em geral, a re­ de comunicação de massa, canais essenciais do
dução drástica da população a ser abrangida, processo comunicativo nas sociedades con­
muitas vezes por meio do uso de sorteios. O temporâneas (Chambers e Kopstein, 2001,
ideal seria efetivado apenas no microcosmo, p. 858; Dean, 2001, pp. 624 e 628; Schauer,
pequeno o suficiente para evitar a contami­ 1999, p. 23; Miguel, 2000a, pp. 63-64).
nação pela representação política e pela mí­ Outro ponto da crítica diz respeito à
dia - isto é, capaz de se guiar pela comunica­ valorização do consenso. Para os delibera-
ção face a face (Dahl, 1990, pp. 122-125, cionistas, a busca da concordância também
1989, p. 340; Barber, 1984; Fishkin, 1991; é uma característica própria da ação discur­
Burnheim, 1996). Mas se trata da simples siva; conforme diz Carol Gould, “o telos do
transferência da questão, já que o principal discurso, o que caracteriza seu objetivo e seu
problema levantado pela representação (a vin- método, é a concordância. [...] Diversidade
culação entre representantes e representados) pode ser a condição original de um discurso
ressurge na relação entre o povo e sua amos­ polivocal, mas a univocidade é seu princípio
tra aleatória. normativo” (1996, p. 172). Independente­
O mesmo se pode dizer daqueles que res­ mente da avaliação que se faça desta obser­
tringem o espaço da deliberação a fóruns já vação sobre a natureza do discurso, ela repre­
constituídos de representantes. Outras al­ senta um ponto de partida pouco confiável
ternativas incluem privilegiar o aspecto de­ para a compreensão dos embates políticos,
liberativo em detrimento do democrático, que possuem um acentuado caráter agonís-
julgando que o ideal se efetiva na ação de ór­ tico, em que o êxito vale mais do que a har­
gãos como a Suprema Corte dos Estados monia. Sobretudo, desconsidera o fato de que
Unidos ou de “elites capazes e virtuosas” (Bell, os interesses, muitas vezes, falam mais alto
1999); confiar nas novas tecnologias da in­ do que as razões (Schauer, 1999; Shapiro,
formação como ferramentas que transcende­ 1999) - por sinal, um tema recorrente da re­
riam as limitações de espaço que impedem flexão sobre a política, desde a Antigüidade.
a democracia direta;13 ou, aind.a, enfatizar o Nem todos os democratas deliberativos
aspecto “interno” do processo deliberativo, partilham dessa valorização exclusiva do con­
pelo qual cada indivíduo busca considerar senso. Gutmann e Thompson (1996), que
as razões de todos os outros dentro de sua pertencem a uma vertente refratária à in-
mente (Goodin, 2000). Embora engenhosa, • fluência de Habermas, inspirando-se antes
esta última solução compromete o funciona­ em Rawls, julgam que a deliberação reduz a
mento do principal benefício esperado com zona de discordância sobre questões polêmi­
a deliberação coletiva: o contato com argu­ cas, mas não a ponto de eliminá-la, gerando
mentos e perspectivas alheios, o que exige sobretudo respeito mútuo entre os defensores
interação real, não apenas imaginária, com de posições divergentes. John Dryzek (2000,
os outros. p. 170) acredita que a meta é um consenso

16
mitigado, em que todos concordam quanto capital econômico ou cultural - são, uma vez
ao curso de ação a ser seguido, “mas por dife- mais, privilegiados. Mais do que postular a
- ” 14
rentes razoes . superioridade da ação comunicativa e exor­
É diferente a posição de Bernard Manin, cizar a ação estratégica ou, ainda, fantasiar um
que defende a ampla participação na discus­ espaço em que a racionalidade pura dos indi­
são como um método de legitimação, valio­ víduos dialogue consigo mesma até alcançar
so justamente por escapar da exigência (im­ o consenso, é necessário entender que desi­
plícita) de unanimidade presente na vontade gualdades estruturais desequilibram as inte­
geral de Rousseau (e mesmo nas decisões to­ rações entre os diferentes agentes sociais.
madas pela regra da maioria, já que elas per­ E possível identificar três dimensões nas
dem legitimidade à medida que são menos quais se manifestam os vieses da deliberação
unânimes): “uma decisão legítima não repre­ pública, ligados a desigualdades socialmen­
senta a vontade de todos, mas é aquela que te estruturadas quanto a: (1) capacidade de
resulta da deliberação de t o d o f (Manin, 1987, identificação dos próprios interesses; (2) ca­
p. 352). Outros enfatizam que, num contexto pacidade de utilização das ferramentas dis­
de deliberação coletiva, a barganha é um ins­ cursivas; e (3) capacidade de “universaliza­
trumento alternativo à argumentação, e igual­
ção” dos próprios interesses.
mente aceitável (Elster, 1998, p. 6; Gambetta,
O primeiro ponto está ligado ao próprio
1998, p. 19). Isto é, o compromisso é uma
conceito de “interesse”, crucial para o enten­
opção ao consenso.
dimento das práticas políticas e alvo de tan­
Por fim, em vez de promotor da eman­
tas polêmicas. O conceito não encontra so­
cipação, o ideal deliberativo pode se revestir
lução satisfatória em nenhuma das estratégias
de um caráter profundamente conservador.
mais correntes daqueles que tentam defini-
A exigência de consenso, em especial, para­
lo. Não é possível depreender um interesse
lisa a ação política, preservando o statu quo.
Mas a própria deliberação também pode ser “objetivo”, a partir das condições sociais do
paralisante e protelatória. Por exemplo, con­ agente, como quer o marxismo convencio­
vites para que representantes de movimentos nal —sobretudo nas sociedades contemporâ­
sociais participem de fóruns deliberativos neas, onde os cidadãos desempenham múlti­
podem implicar na legitimação de institui­ plos papéis, cujos interesses “óbvios” podem
ções injustas, levar à desmobilização e ao ser contraditórios. Também não é aceitável
abandono de formas de intervenção mais efi­ afirmar um interesse único universal —a ma­
cazes e ser, muitas vezes, uma via de coopta- ximização da própria satisfação, segundo os
ção. Na verdade, o ativismo político - que foi, utilitaristas - ignorando as condições sociais
historicamente, o principal meio de promo­ de geração das preferências. Afinal, tais in­
ção dos interesses dos grupos dominados - teresses não são dados da natureza. Eles são .
com freqüência exige a interrupção do pro­ construídos, num processo que depende tanto
cesso deliberativo e a adoção de medidas ime­ dos recursos cognitivos de que dispõe o su­
diatas (Young, 2001). jeito como de códigos sociais compartilha­
Cabe observar, enfim, que os mecanis­ dos. Por fim, a resposta liberal padrão, mais
mos de deliberação pública também possuem uma vez de raiz utilitarista, segundo a qual
vieses e favorecem o atendimento de deter­ “cada um é o melhor juiz de seus próprios
minado tipo de interesse. Os grupos domi­ interesses”, descarta qualquer possibilidade
nantes —isto é, aqueles que possuem maior de crítica dos constrangimentos cognitivos e

17
da manipulação ideológica a que estão sub­ que ele prevê, nas situações concretas de fala-
metidas as pessoas. a identidade do emissor não é irrelevante
Taís dificuldades não indicam que o me­ para a consideração que é dada a seu dis­
lhor caminho seja descartar a noção de in­ curso. As diferentes posições na sociedade
teresse (como fazem, por outros motivos, conferem diferentes graus de eficácia dis­
algumas concepções deliberativas), mas sim cursiva a seus ocupantes. Pesam, sobretudo,
que é necessário entender os interesses como o reconhecimento social de cada posição e
produ tos sociais. Grupos subalternos ou do­ a capacidade de impor sanções negativas ou
minados têm menor condição de produzir positivas, fatores que estão estreitamente
autonomamente seus próprios interesses associados ao exercício do poder político e
por conta de diversos mecanismos cumula­ econômico.
tivos. Eles são mais suscetíveis às pressões Ainda quando a identidade do falante é
cruzadas, evidenciadas por Offe e Wiesenthal ignorada, a fala carrega marcas que a valori­
(1984 [1972]) para a classe trabalhadora, mas zam ou desvalorizam: prosódia, sintaxe, so­
que estão presentes também para outros gru­ taque; e o mesmo pode ser dito, a fortio ri, da
pos subalternos, dificultando a determinação linguagem escrita (Bickford, 1996, pp. 97­
de um interesse unívoco (em especial o dile­ 98). Trata-se de problema que não recebe res­
ma entre assimilação individual e progresso posta adequada dos teóricos deliberativos;
coletivo). afinal, “preconceito e privilégio não surgem
Além disso, os grupos subalternos têm nos cenários deliberativos como razões más e
menor acesso aos espaços de produção social não são revidados por bons argumentos. Eles
de sentido, em especial (mas não só) o apare­ são demasiado furtivos, invisíveis e pernicio­
lho escolar e a mídia. Isto significa que eles sos” (Sanders, 1997, p. 353). A visão racio-
estão constrangidos a pensar o mundo, em nalista do processo político leva a ignorar ou
grande medida, a partir de códigos empres­ minimizar o carátér de im perm ea bilid ade à
tados, alheios, que refletem mal sua experiên­ discussão racional de boa parte dos obstácu­
cia e suas necessidades. Estreitamente ligado los que impedem a efetivação do seu próprio
a isso há o fato de que eles possuem menor ideal. E infundada a crença de John Dryzek
disponibilidade de tempo e espaços próprios (2000, pp. 169-172) de que “mecanismos
nos quais poderiam pensar seus próprios in­ endógenos” à deliberação racional exorcizam
teresses e construir projetos políticos coleti­ seus inimigos (o discurso intolerante, a aver­
vos. Por fim, os grupos dominados possuem são à diferença, o auto-interesse mesquinho).
uma perspectiva limitada do mundo social, Ela pressupõe que intolerantes, xenófobos,
própria de uma vivência à qual é negada a racistas e egoístas estariam abertos à discus­
possibilidade de participação nas principais são. E pressupõe, também, que tais compor­
tomadas de decisão, tanto políticas como eco­ tamentos nocivos se manifestam sempre em
nômicas, enquanto os dominantes ficam a suas formas extremas, abertas, ostensivas —e,
cavaleiro do restante da sociedade (Bourdieu, portanto, sujeitas à interpelação alheia.
1979, p. 520). O terceiro viés do ideal da democracia
A assimetria é agravada pela inferiori­ deliberativa corresponde a um aspecto espe­
dade dos grupos dominados no manejo efi­ cífico do problema da eficácia discursiva: a
caz das ferramentas discursivas exigidas - o capacidade diferenciada de “universalização”
que corresponde ao segundo viés do ideal dos próprios interesses. Uma das vantagens
democrático-deliberativo. Ao contrário do alegadas do procedimento deliberativo é que

18
obriga ao uso do vocabulário do bem comum. envolvidos e de ausência de desigualdade for­
Não é razoável entrar numa discussão dizen­ mal e de coação - , mas ignora vieses que vi­
do “quero porque é melhor para mim’ , argu­ ciam seus resultados. Da mesma maneira que
mento com pouca possibilidade de gerar a a igualdade formal nas eleições, proclamada
simpatia ou a adesão dos interlocutores. E pela máxima liberal “um homem (ou uma
necessário apelar a normas universais de jus­ mulher), um voto”, não garante paridade de
tiça ou a benefícios coletivos. influência política, o mero acesso de. todos
No entanto, isto não significa, como por à discussão é insuficiente para neutralizar a
vezes os teóricos deliberativos parecem pen­ maior capacidade que os poderosos têm de
sar, que o interesse egoísta está banido. O fato promoverem seus próprios interesses.
de que uma preferência vinculada a benefí­
cios particulares se traduz num discurso uni-
versalista, sem que deixe de ser auto-interes- O Republicanismo Cívico ,
sada, é banal e constatável nos embates políti­
cos cotidianos. A defesa do capitalismo pelos Embora de forma mais sutil do que na
capitalistas, por exemplo, raras vezes é feita vertente liberal-pluralista, também para os
em nome dos privilégios de que usufruem. democratas deliberativos a política aparece
Em geral, apela-se à prosperidade geral, à como uma atividade instrumental.1'’ Ela é um
inovação tecnológica, à criação da abundân­ meio para se alcançar o consenso, talvez seja
cia e de novas oportunidades, enfim, a sub­ indispensável para o cumprimento de certas
produtos da busca do lucro que terminariam funções, mas não é um bem em si mesmo.
por beneficiar a todos. O caráter secundário da política é nega­
Mas os grupos dominados têm menor do por uma longa tradição, que vai exaltar a
capacidade de traduzir seus interesses numa cidade grega e romana como ideal a ser imi­
retórica universalista. Isto se deve, em pri­ tado - um local em que a participação nos
meiro lugar, à premência de suas demandas negócios públicos era tida como o ápice da
específicas, que os faz exigir mudanças ime­ realização humana. Como sintetizou Hannah
diatas, com beneficiários e prejudicados mui­ Arendt (1987 [1957], p. 40), a p olis era a ■
to evidentes, como é o caso das políticas re- esfera da liberdade, enquanto a necessidade
distributivas ou de ação afirmativa. Deve-se, imperava na esfera familiar-econômica, onde
também, ao fato de que os interesses de tais transitavam mulheres e escravos, responsá­
grupos se posicionam contra as visões de veis pelas tarefas de produção (e reprodução)
mundo hegemônicas, e precisam realizar o es­ do mundo material.
forço extra de desnaturalizar categorias so­ O republicanismo traz, assim, a marca
ciais e propor modelos de sociedade alterna­ da revalorização de um elemento presente
tivos. O resultado é que a retórica universal no pensamento político clássico e moderno,
tende a ser monopolizada por alguns grupos, mas que o individualismo liberal descartou.
enquanto outros têm suas preocupações es­ Parte significativa do seu impulso, deriva da
tigmatizadas como “particulares, parciais ou obra de historiadores das idéias, como Quen­
egoístas” (Bickford, 1996, p. 16). tin Skinner (1996 [-1978], 1998) e J. G. A.
Fica claro que o modelo deliberativo pos­ Pocock (1975). Eles foram importantes so­
tula uma forma legítima de produção de de­ bretudo por recolocarem o pensamento de
cisões coletivas —legítima por preencher seus Maquiavel em- relação à sua época (ao lado
próprios critérios, de inclusão de todos os de Guicciardini e outros), em relação aos seus

19
antecessores, os filósofos morais romanos, que percebem a sociedade como mera agre­
como Cícero, Lívio e Salústio, e em relação gação, ou seja, um estabelecimento instru­
àqueles que seriam influenciados por ele nos mental para a realização de interesses priva­
séculos XVII e XVIII, sobretudo nos países dos. Em seu lugar, ele apresenta o projeto de
de língua inglesa, dos dois lados do Atlânti­ uma associação, onde se cria uma verdadeira
co, isto é, radicais ingleses como Harrington identidade coletiva (Rousseau, 1964 [1762],
e M ilton e os promotores da Revolução p. 359). Essa associação não é guiada pela
Americana. busca do bem individual ou pela expressão
O M aquiavel dos D isco r si (1979 de um interesse majoritário, mas pela vonta­
[1513]),16 assim, ocupa uma posição central de geral, a categoria mais complexa do pen­
no republicanismo, ao lado de Jean-Jacques samento de Rousseau. Não é a vontade ma­
Rousseau, que no século XVIII apresentou a nifesta pela maioria, nem mesmo a “vontade
mais importante alternativa à teoria demo­ de todos”, que o autor desdenha como não
crática liberal. Tanto um como o outro se sendo mais do que “uma soma de vontades
encontram no pólo oposto da concepção in­ particulares” (Idem , p. 371). É a vontade do
dividualista e liberal, que localiza o exercício tpdo social, do “eu-comum” que nasce com a
da liberdade na esfera privada, que deve ficar associação.
imune, tanto quanto possível, da interferên­ A vontade geral não é, para o filósofo
cia repressiva do Estado. Eles entendem a li­ genebrino, a resultante do debate público de
berdade como “ausência de dominação”; por­ todos, como acreditam alguns intérpretes que
tanto, ela exige a participação ativa na vida tentam ver nele um “democrata deliberati­
pública. Como diz Skinner, ao defender a vo” (Wokler, 1995, p. 117). A vontade geral
atualidade de tais pensadores, o risco de tira­ possui um caráter metafísico. Gerada no mo­
nia sempre estará presente se não formos ca­ mento do estabelecimento da associação, ela
pazes de dar “prioridade aos nossos deveres permanece sempre pura e certa, ainda quan­
cívicos sobre os nossos direitos individuais” do a coletividade toma decisões erradas. É que
(1992, p . 223). Rousseau a diferencia da deliberação políti­
Ao mesmo tempo, ambos consideram ca, que tem por objetivo id en tifica r (e não
que tal participação deve ser marcada pelo produzir) a vontade geral, podendo ser me­
compromisso com interesses gerais da comu­ nos ou mais feliz no cumprimento da tarefa.
nidade, que estão acima dos interesses pri­ A discussão pública é útil como processo edu­
vados de cada um de seus integrantes. Ma­ cativo dos cidadãos, mas nada cria; a vonta­
quiavel, seguindo os autores clássicos, usa o de geral lhe precede e é superior a ela.
vocabulário da “virtude cívica”. Rousseau está Além disso, a abordagem que Rousseau
mais próximo da expressão contemporânea, faz da comunicação é peculiar. Em seus nu­
o “bem comum”. Num caso como no outro, merosos textos autobiográficos e sobretudo
o substrato é o mesmo, com ciaro' conteúdo no mais importante deles, as Confissões, fica
normativo. A ação política não pode se resu­ patente que uma das experiências decisivas
mir à barganha ou ao compromisso entre em sua formação foi o sentimento^ia opaci­
preferências individuais; ela deve pensar no dade de cada indivíduo em relação ao outro,
benefício da coletividade. que a linguagem era incapaz de superar
A expressão mais elaborada desta posi­ (Rousseau, 1959 [1770]). Já foi demonstra­
ção está na obra madura de Rousseau, em da a importância deste dado para a com­
sua crítica aos autores contratualistas liberais, preensão de sua teoría política (Starobinski,

20
1991 [1971]; Baczko, 1974 [1970]). É pos­ mocrática, sobre a fundamentação da moral
sível dizer que aré mesmo o isolamento qua­ e sobre a constituição do “eu”. Contra o uti­
se perfeito dos indivíduos no estado de na­ litarismo e o individualismo liberal, a cor­
tureza, tal como descrito no Segundo discurso rente afirma o encaixe (em beddedness) do ser
(Rousseau, 1964 [1755]), é a externalização humano no meio social (Maclntyre, 1981;
desta realidade íntima. Diante de tal descon­ Walzer, 1983;Taylor, 1997 [1989]). A iden­
fiança em relação às possibilidades da comu­ tidade pessoal e a concepção do bem dos in­
nicação, fica claro que Rousseau não seria divíduos são geradas na sociedade e só são
capaz de produzir uma teoria deliberativa da inteligíveis dentro desta moldura.
democracia. O alvo é Rawls (1997 [1971]) e, de fato,
Por outro lado, não é difícil traçar uma muito da corrente nasce como uma resposta
genealogia ligando o autor do Contrato tan­ a Uma teoria da ju stiça . Para apresentar sua
to aos republicanistas como aos participa- concepção de. uma sociedade bem ordenada
cionistas, o que será discutido na próxima como sendo aquela a que chegariam indiví­
seção. Dentro do republicanismo cívico, é es­ duos racionais desprovidos de preconceitos,
pecialmente marcante sua vinculação com Rawls cria o artifício da “posição original”.
uma subcorrente específica, o chamado “co- Nela, todos debateriam cobertos pelo “véu
munitarismo”; que valoriza a comunidade da incerteza”, isto é, desconhecendo suas ca­
como fonte de identidade, de valores e do racterísticas particulares - o que inclui desde
bem comum. sexo, orientação sexual e raça até a geração
A fusão que faço aqui, entre republica­ ou a própria concepção do bem. Assim, como
nistas e comunitaristas, não está isenta de meras encarnações de uma mesma Razão
arestas. Michael Walzer (1992), por exem­ universal kantiana, as pessoas deveriam che­
plo, divide diferentes correntes do pensamen­ gar aos dois princípios da justiça que o pen­
to político de acordo com o local que indicam sador estadunidense enuncia em seu tratado.
para a realização da “boa vida”: o mercado, No vocabulário dos comunitaristas, acu­
espaço da escolha e da liberdade, para o libe­ sa-se Rawls (e o liberalismo como um todo)
ralismo; o trabalho criativo, em que se obje­ de trabalhar com um concepção do indiví­
tiva a essência humana, para o marxismo; a duo como “separado” de suas características.
pátria, onde estão presentes os laços “reais”, Quer dizer, não leva em conta que “eu” só
de sangue, para o nacionalismo. E distingue sou “eu” porque tenho certas características,
o republicanismo, que localiza, a “boa vida” inclusive certa “concepção de bem”, que an­
na polis, onde os cidadãos afirmam sua li­ coram minha personalidade. Se as caracte­
berdade pelo ato de debater e decidir, do co- rísticas fossem outras, eu simplesmente não
munitarismo, para quem ela está na socieda­ seria eu: seria uma outra pessoa. Isto não quer
de civil, espaço da solidariedade. Mas creio dizer que o indivíduo não possa se trans­
que existem boas razões para fundir as duas formar, às vezes de forma radical, mas sem­
perspectivas, conforme pretendo demonstrar pre mediante um processo específico, de uma
adiante. . trajetória d e vida determinada. Como diz
A idéia subjacente à valorização da ex­ Maclntyre (1984, pp. 140-141), é preciso ver
periência comunitária é que, sem o sentimen­ o .^^constituído como parte de uma história
to de pertencimento a uma coletividade, ne­ de vida, situado numa trajetória, em relação
nhuma sociedade pode subsistir - o que aos outros, com suas outras trajetórias. E
combina discussões sobre a organização de­ Rawls, em suma, levaria às últimas conse­
qüências uma característica de todcro li­ da coletividade. Sandel afirma que os ativis­
beralismo, que considera o indivíduo uma tas dos direitos civis têm direitos porque pro­
abstração. movem uma sociedade melhor, ao contrário
A vertente comunitarista parece flertar, dos neonazistas. •
muitas vezes, com o discurso da direita mais Em última análise, porém, os direitos
tradicional, que enfatiza a necessidade de pro­ concedidos aos indivíduos seriam aqueles vin­
teger determinados “valores” (em geral fami­ culados aos valores compartilhados pela co­
liares e religiosos) contra os riscos do indivi­ munidade, que delimitaria os parâmetros da
dualismo. A obra.de Christopher Lasch, em diferença legítima —já que não há outro juiz
particular, exemplifica tal posição —num au­ para determinar quais fins são moralmente
tor que se considerava à esquerda no espec­ bons e quais são nefastos. Nas sociedades con­
tro político estadunidense. Ao lado da defesa temporâneas, marcadas pela pluralidade de
de uma concepção tradicional de família estilos de vida, de valores, de culturas, é difí­
(Lasch, 1991 [1978]), aparecem os vilões que cil imaginar que um tal consenso ou quase-
destroem as comunidades, uma lista que in­ consenso seja possível (ou mesmo desejável).
clui em primeiro lugar o mercado, mas tam­ Diante do desafio do m ulticulturalismo,
bém o feminismo, o declínio da autoridade Sandel (1994, p. 7) sustenta que a intolerân­
na escola e até a dessegregação racial n©s bair­ cia nasce do abandono das tradições e da per­
ros. Com isso, estariam sendo destruídas a da de raízes. Ou seja, a comunidade seria a
família, a vizinhança, a igreja e a escola, isto solução, não o problema. Mas isso é mais
é, as instituições que fornecem a “disciplina w ishful think ing do que uma conclusão sus­
formadora de caráter” e também o sentimento tentada em evidências.
de comunidade (Lasch, 1995, p. 117).r Por outro lado, como ainda observa San­
Mas os autores mais interessantes da cor­ del (1994, 1998), a solução de Rawls (e dos
rente se preocupam em assegurar que não liberais em geral) é buscar a “neutralidade”
negam os direitos individuais, nem julgam quanto a valores e concepções do bem. Mas
que. as minorias devem se curvar aos valores tolerância, liberdade e equanimidade são va­
da maioria. Michael Sandel (1998, pp. ix- lores também, e não podem ser defendidos
xvi), em especial, explica que o que ele com­ com a pretensão liberal de isenção de valo­
bate é a visão liberal de que os indivíduos res. A questão do aborto é o melhor exemplo
possuem direitos a p rio ri, independentemen­ de uma discussão ética em que fica claro que
te de sua concepção de bem. Para ele, trata- direito e valores não podem ser considerados
se do inverso: um direito é reconhecido como separadamente. -
tal quando serve a algum fim moralmente im­ Mais do que apresentar uma construção
portante. Essa regra ajuda a resolver alguns teórica que supere o liberalismo e, assim, aju­
casos espinhosos para a concepção liberal de de a construir uma teoria aprimorada da de­
justiça; permite, por exemplo, que se conce­ mocracia, o comunitarismo é útil para assi­
da liberdade de manifestação para ativistas nalar as aporias do pensamento liberal. O tom
pelos direitos civis dos negros, mas não para retrógrado que tinge suas abordagens tam­
neonazistas. Um liberal diria que todos pre­ bém reduz sua utilidade para o enfrentamen-
cisariam ter direitos iguais, independente­ to dos desafios da ordem política contem­
mente de seus objetivos. Um comunitarista porânea. Segundo Gorz, um crítico desta cor­
estrito observaria que somente teriam direi­ rente, há “a nostalgia de um mundo simples,
tos os que comungam nos ideais da maioria transparente, pré-moderno, no qual a socie-

22
dade funcionaria à maneira de uma comu­ tervenção corretiva do Estado, a comunidade
nidade originária' (1997, pp. 190-191; ver pode ser um viveiro da desigualdade e da pre­
também Mouffe, 1992). A aproximação com cariedade das condições materiais. O resul­
Rousseau, desta vez com o romantismo do tado é, muitas vezes, a tutela da comunidade
filósofo genebrino, mais uma vez é possível. por um “poderoso”, çomo revelam os esque­
Um dos alvos da vertente comunitarista mas políticos clientelistas e neoclientelistas.
é o Estado de bem-estâr social; de fato, a co­ Para quem está na periferia do capitalis­
munidade, entendida como o terreno da “so­ mo, fica claro que a crítica do Estado de bem-
lidariedade concreta”, opõe-se tanto ao neo- estar social exige antes a existência de um.
liberalismo como à intervenção estatal. O Não há dúvida de que a intervenção estatal
mercado promove o egoísmo e rompe a soli­ permanente desorganiza redes comunitárias,
dariedade social, mas o Estado de bem-estar induz à passividade, faz com que o sentimento
promove a passividade, rompe com o senti­ de responsabilidade mútua, que existe entre
do de responsabilidade social, substitui a so­ pessoas que vivem-em comum, seja substi­
lidariedade horizontal pela assistência verti­ tuído pela dependência em relação à insti­
cal e burocratizada. tuição protetora. Aliás, tudo isso já está em
Lasch (1995) extrai um exemplo eluci­ Tocqueville. Mas será que a “comunidade” é
dativo do livro clássico de Jane Jacobs (1993 a solução?.A interação “quente” entre mu­
[1961], p. 108) contra o planejamento ur­ lheres das favelas brasileiras, que cuidam dos
bano modernista - livro que, aliás, se tornou filhos umas das outras devido à ausência de
uma das grandes fontes de inspiração dessa atendimento pré-escõlar, pode ser vista sim­
corrente. Uma criança atravessa a rua sem paticamente como uma demonstração de so­
olhar para os lados e leva uma bronca do pi- lidariedade comunitária. Mas não seria me­
poqueiro da esquina. Muito mais importan­ lhor garantir a todas o atendimento “frio”
te do que a regra de segurança no trânsito, o proporcionado por uma creche sustentada
pipoqueiro está ensinando à criança uma li­ pelo Estado e operada por seus funcionários?
ção subjacente, pelo simples fato de ralhar com Aliás, o exemplo mostra também que a críti­
ela: as pessoas são responsáveis umas pelas ca ao Estado de bem-estar, que não é exclusi­
outras, sem que.sejam formalmente encarre­ vidade dos comunitaristas, possui um viés de
gadas disso. Tal lição é im possível de ser dada gênero: ela costuma ignorar o fato de que o
pelo Estado de bem-estar. Uma babá ou assis­ peso da “solidariedade comunitária” recai
tente social que ficasse plantada na rua cuidan­ quase todo sobre as mulheres (Fraser, 1989).
do dos moleques não poderia transmiti-la, já Em suma, a crítica comunitária oscila
que a força reside na gratuidade do gesto. . entre dois pólos: ou condena o liberalismo
Portanto, o sentimento de comunidade pela atomização do indivíduo, como faz
promoveria a cooperação entre seus integran­ Lasch, ou aponta como incorreta a visão li­
tes por meio de interações “quentes” e não- beral de uma sociedade de indivíduos atomi-
burocratizadas. E algo muitíssimo compli­ zados, mostrando a permanência e a impor­
cado, pois insinua que os serviços públicos tância dos laços comunitários, como fazem
podem ser dissolvidos nestas formas de coope­ os críticos de Rawls. Há, é claro, uma im­
ração —e, de fato, uma tintura comunitarista possibilidade lógica de que ambas as críticas
costuma aparecer em certos discursos de des­ sejam consideradas integralmente corretas.
monte do Estado, sobretudo na exaltação do Tanto quanto a teoria deliberacionista,
mítico “terceiro setor”. Mas, na ausência de in­ a democracia republicana se situa, em pri­

23
meiro lugar, no plano normativo. A política na” é comunitário, mas “compatível com for­
d eve perseguir o bem comum, o que ecoa o mas pluralistas modernas de sociedade”, e
Maquiavel dos Discorsi, sem dúvida o “he­ valoriza a participação, não como bem em si
rói” desta corrente. Em O prín cip e, por sua mesma, mas por ser necessária para o gozo
vez, somos constantemente lembrados daqui­ da liberdade como não-dominação. No en­
lo que a política é. Mesmo sob risco de sim­ tanto, muitas dessas distinções parecem ser
plificação excessiva, é possível dizer que a oobretudo retóricas. O apelo à participação
ponte que uniria os dois extremos —da reali­ cívica e à busca do bem comum tem pouca
dade ao dever ser —seria o reavivamento do substância se não se explica em que se emba-
sentido de comunidade, com a reafirmação saria tal civismo, ou seja, em que se fundaria
dos laços de solidariedade e identidade que o “‘comum’ do bem ”. A resposta estaria, pois,
ligam o indivíduo a seu grupo. na história, na cultura e nas tradições com­
Com a valorização da esfera pública, a partilhadas, na sensação de pertencimento em
concepção democrática republicana apresenta comum, na identidade construída; numa pa­
um campo mais fértil para o reconhecimen­ lavra, na comunidade.
to da importância da comunicação no pro­
cesso político. No entanto, também os auto­
res desta corrente tendem a ignorá-los. Em A Democracia Participativa
primeiro lugar, há a idéia de que a vontade
geral (ou o bem comum) é preexistente, algo Um dos problemas mais evidentes dos
que Rousseau afirma de forma explícita e regimes eleitorais, para quem busca resgatar
que está presente também entre os cornuni- o sentido ideal da democracia, é a baixa par­
taristas. Ao exaltarem o consenso social e os ticipação da maior parte dos cidadãos e das
valores compartilhados na comunidade, eles cidadãs na condução dos negócios políticos.
ignoram o fato de que não se trata de cons­ Embora a influência difusa da “opinião pú­
truções neutras, mas construções vinculadas blica” possa se fazer sentir nas decisões go­
a interesses de determinadas camadas; a pro­ vernamentais, é apenas esporadicamente, no
teção e o desafio a tal consenso fazem parte momento das eleições, que o povo comum
da luta pela hegemonia na sociedade. dispõe de poder efetivo. Os democratas par­
Com isso, ocorre uma redução da esfera ticipativos focam essa questão e propõem al­
da comunicação que é semelhante à promovi­ ternativas, que incrementem a presença po­
da pelos teóricos da democracia liberal. Tanto pular na política.
num caso como no outro, não há espaço para Mais do que qualquer outra das corren­
a construção coletiva das preferências. A co­ tes críticas aqui estudadas, a teoria da demo­
municação é, antes de tudo, informação - cracia participativa —que floresceu sobretu­
embora, para a vertente republicana, ela tam­ do nas décadas de 1960 e 1970 - se aproxima
bém possa desempenhar um papel significa­ de um modelo institucional a ser implemen­
tivo como parte de um processo educativo. tado. Deliberacionistas e republicanistas, co­
Cumpre assinalar, por fim, que nem toda mo visto, apresentam sobretudo normas gerais
a concepção republicana adota necessaria­ e critérios de apreciação dos sistemas políti­
mente uma posição comunitarista. Pelo con­ cos existentes, mas pouco avançam no dese­
trário, alguns autores preferem demarcar sua nho de instituições que pudessem efetivar seus
diferença. Pettit (1997, p. 8), por exemplo, ideais. Em menor medida, esse é também o
afirma que seu ideal de “liberdade republica­ caso dos multiculturalistas. Já os que defen­

24
dem a concepção de democracia participa­ universal. Chamado a tomar parte no pro­
tiva indicam, com razoável nitidez, que tipo cesso decisório, graças a seu direito de voto,
de ordenamento político deveria ser adota­ o cidadão ou a cidadã comuns teriam incen­
do para se alcançar uma democracia digna de tivos para ampliar seu conhecimento do mun­
seu nome. do social, escapando dos estreitos limites de
Em primeiro lugar, é necessário assina­ sua vida pessoal e de seu trabalho específico.
lar que —ao contrário do que afirmam al­ O resultado se faria sentir não apenas na po­
guns de seus críticos, como Sartori (1994 lítica, mas em todas as esferas da sociedade:
[1987]) - os participacionistas não vislum­ pessoas com horizontes mais amplos seriam
bram o retorno da democracia direta. O ar­ melhores profissionais. A introdução do su­
ranjo institucional que propõem, bem mais frágio universal, no entanto, logo destruiu
complexo, aponta para a possibilidade de as ilusões alimentadas pelo filósofo inglês.
aprimoramento da representação por meio O direito de voto mostrou-se um incentivo
da qualificação política dos cidadãos e das demasiado frágil para a qualificação cidadã,
cidadãs comuns. dado o intervalo entre as eleições e, em es­
Ao contrário dos comunitaristas, eles não pecial, o peso ínfimo de cada decisão indi­
vêem uma “comunidade” já formada, mas vidual para o resultado geral.
tampouco recaem na atomização social típi­ Os participacionistas entendem, assim,
ca da perspectiva liberal. A democracia vai que, para se alcançar a cidadania competen­
ser percebida e valorizada como um processo te almejada por Stuart Mill, é necessário am­
ed u ca tivo; por isso, mais ainda do que qual­ pliar os incentivos —isto é, as possibilidades
quer outra, a corrente participacionista rei­ de participação. Como o problema de escala
vindica Rousseau e John Stuart M ill como se revelou crucial (quanto mais pessoas in­
seus precursores intelectuais. cluídas, menor o peso da presença de cada
Na obra de Rousseau, é central a visão uma), um passo decisivo seria reduzir o âm­
de que a participação política possui um ca­ bito das decisões políticas, de forma a permi­
ráter eminentemente educativo. Participan­ tir a participação direta de todos os envol­
do da busca pela vontade geral, cada cidadão vidos. Rousseau pode ser incluído, mais uma
se aprimora na arte de identificá-la; há aí uma vez, entre os inspiradores dessa corrente. Se­
aproximação com a defesa da democracia na guindo o pensamento político antigo e, em
Grécia antiga, quando se argumentava que a especial, Montesquieu (1951 [1748], p. 362),
virtude cívica era fruto de um aprendizado ele considerava que a democracia só seria
prático (ver Wood, 1995, pp. 193-194). A possível em pequenas cidades-Estado.
glorificação da ampla participação política, Já os participacionistas contemporâneos,
com destaque para seu caráter educativo, ga­ que não advogam a redução do tamanho dos
nhou nova versão na obra de Stuart Mill (1995 Estados nacionais, se insurgem contra a rí­
.[1861]). Não se trata mais de descobrir uma gida separação entre Estado e sociedade civil
vontade geral, mas de ampliar os horizontes e advogam a implantação de mecanismos
dos cidadãos comuns, de outra forma limi­ democráticos nos espaços da vida cotidia­
tados por seu ambiente imediato. Da par­ na, notadamente bairros, escolas, locais de
ticipação política nasceriam indivíduos mais trabalho e famílias. Como afirmou Bobbio
capazes e competentes. (1987 [1984]), já foi resolvido o problema
Stuart M ill julgava que o grande meca­ de quem vota, com o sufrágio universal; falta
nismo da participação política era o sufrágio enfrentar o problema de on d e s t vota.18 Mais

25
próximos dos cidadãos, estes novos espaços a raiz da desigualdade de riqueza; por ou­
de decisão democrática promoveriam a par­ tro, a propriedade implica necessariamente
ticipação política. o controle sobre o processo produtivo, blo­
Mas é difícil imaginar um mundo em que queando a efetividade da participação dos tra­
todas as decisões mais importantes seriam balhadores. Se as decisões cruciais sobre in­
tomadas em fóruns pequenos e próximos dos vestimento, lucro e salário permanecem nas
cidadãos. Mesmo se regredirmos para peque­ mãos dos capitalistas, qualquer introdução
nas economias autárquicas, o que está longe de mecanismos democráticos-na empresa se­
de ser desejável, a gama de questões que não rá limitada e, em última análise, contribuirá
podem ser resolvidas em plano local é imen­ mais para legitimar a exploração do traba­
sa:19 trocas entre as comunidades, comuni­ lho. Assim, os teóricos participacionistas são
cações, transportes, epidemias, poluição etc. levados a afirmar, ainda que de forma im­
Assim, a participação na base precisará, neces­ plícita, a incompatibilidade do aprofunda­
sariamente, ser combinada com uma estru­ mento da democracia com a manutenção do
tura representativa piramidal; um dos efeitos capitalismo.
benéficos esperados do incremento partici- O modelo de planejamento centraliza­
patório é, aliás, a ampliação da capacidade do, típico dos países do “socialismo real ', tam­
de controle sobre os representantes. bém é contra-indicado, pois se amplia a
Há um ponto adicional, em que a in­ igualdade material, oferece, em contraparti­
fluência de Rousseau também é detectável: a da, pouco espaço para a participação efetiva
sensibilidade para as desigualdades concretas dos trabalhadores na tomada de decisões co­
que existem na sociedade e o reconhecimen­ tidianas. Mesmo que o plano econômico fosse
to de que elas interferem na esfera política. a resultante de gestões democráticas, uma vez
Com os participacionistas, o mundo material adotado apareceria como uma imposição ex­
faz-se presente na teoria política. Por isso, o terior (Gorz, 1988, pp. 56-61). A lógica da
problema da relação entre democracia e capi­ participação ampliada exige descentralização
talismo é central aqui, ao passo que é negado do poder. Assim, em geral os participacionis­
no pluralismo liberal (o mercado competiti­ tas inclinam-se para propostas de economia
vo é visto como fragmentador do poder, por­ autogestionária, que não excluem o merca­
tanto benéfico para a democracia), abstraído do, mas dão aos trabalhadores a administra­
no deliberacionismo e, no republicanismo, ção de cada empresa.
sublimado na questão dos efeitos nocivos, do Uma defesa abrangente das vantagens
comportamento egoísta que a economia ca­ p o lítica s da autogestão é apresentada por
pitalista exige. A democracia participativa, Robert Dahl (1990 [1985]), no livro em que
pelo contrário, traz à tona a constatação que alcança a distância máxima em relação a seu
já fazia Rousseau (1964 [1762]): é impossí­ liberalismo anterior. Contudo, os autores
vel manter a igualdade política em condições mais representativos da corrente participa-
de extrema desigualdade material, quando cionista foram a inglesa Carole Pateman.e o
uns são tão pobres que precisam se vender, canadense C. B. Macpherson —o verbo está
outros são tão ricos que podem comprá-los. no passado porque Macpherson faleceu e
Os dois pontos —a necessidade da práti­ Pateman há muito anos se dedica exclusiva­
ca cotidiana da democracia e a busca da igual­ mente à teoria feminista. O ponto de partida
dade material —convergem na discussão so­ da discussão, para ambos, é pensar se a de­
bre a propriedade privada. Por um lado, ela é mocracia precisa ficar limitada a uma com-

26
petição entre elites. Uma vez dada a resposta qualificação da cidadania. Uma proposta si­
negativa, cumpre analisar p o r que, historica­ milar é indicada pelo últim o Poulantzas
mente, isto aconteceu. A resposta, também (1985 [1978]).
para os dois, é que isto ocorreu devido ao ca­ Macpherson aponta que, para vigorar, o
samento instável entre mercado capitalista e modelo participativo exige não apenas uma
democracia m udança d e m entalidade, eliminando a ana­
O modelo esboçado por Pateman (1992 logia da política com o mercado e a autovi-
[1970]) enfatiza a introdução de instrumen­ são do eleitor como consumidor, mas tam­
tos de gestão democráticos na esfera da vida bém a redução das desigualdades econômicas,
cotidiana, sobretudo nos locais de trabalho que levam à disparidade de influência polí­
(a chamada “democracia industrial”, que exi­ tica. Como se pode observar, há um círculo
ge formas de autogestão). Com isso, haveria vicioso entre as. duas premissas, qual seja, as
tanto uma ampliação significativa do contro­ desigualdades promovem a apatia do elei­
le da própria vida, como do entendimento torado, de um lado, a apatia impede uma
sobre o funcionamento da política e da so­ participação no sentido de diminuir as de­
ciedade, o que permitiria maior capacidade sigualdades, de outro. Escrevendo em mea­
de interlocução com seus representantes e dos da década de 1970, Macpherson julgava
maior fiscalização destes. Em outras palavras, que esse círculo tinha pontos fracos, o que
a a ccou ntab ility (responsividade do represen­ lhe dava esperança quanto à possibilidade de
tante perante os representados), que na demo­ haver uma ruptura; hoje, talvez, não fôsse­
cracia eleitoral tende a funcionar precaria­ mos tão otimistas.
mente, seria aprimorada com o treinamento A corrente participacionista não con­
oferecido pela participação na base. A com­ testa o fato de que a maioria das pessoas, na
preensão deste vínculo entre os níveis micro maior parte do tempo, é apática, desinfor-
e macro, que recupera o caráter educativo da mada e desinteressada, mas ressalta que, em
atividade política apontado por Rousseau e p o ten cia l, todos temos condições para en­
Stuart M ill, entre outros, é essencial para que tender e ter um papel ativo na discussão e na
o modelo participativo ganhe sentido. gestão dos negócios públicos. Rompe-se com
Fica claro que a participação na base tem, a idéia, presente de forma aberta ou oculta
erítre suas funções, a de ser um meio para o na teoria democrática liberal, de que agir po­
aprimoramento das instituições representa­ liticamente é um dom da “elite”. Ainda as­
tivas. O modelo sugerido por Macpherson sim, ao julgar que a apatia seja somente um
(1978 [1977]) também julga que a amplia­ efeito da ausência de oportunidades e do de-
ção das oportunidades de participação gera­ sestímulo estrutural, a aposta na disposição
ria um salto na qualidade da representação. das pessoas para o envolvimento político é
Ele dá ênfase menos à democracia industrial talvez excessiva. -
do que a instituições de tipo soviético, isto é, Estudos sobre processos de tomada de
comitês a um só tempo deliberativos e exe­ decisão em nível local revelaram certas des-
cutivos, Com a participação de todos, para funcionalidades, bem como a permanência
gerir o cotidiano no bairro, no trabalho, na de desigualdades, que a teoria em geral igno­
escola etc. Além disso, administrando as es­ rava. Em especial, as relações interpessoais no
truturas maiores da sociedade, permanece­ ambiente de participação democrática inibem
riam os mecanismos da democracia liberal, a expressão de discordâncias; por outro lado,
só que providos de mais conteúdo, graças à o poder de quem faz a agenda de deliberação

27
permanece inconteste (Mansbridge, 1983). claro, mas a teoria pressupõe que a experiên­
Ademais, o entusiasmo com experiências de cia na gestão direta de poder na base amplia
autogestão, sobretudo as da antiga Iugoslá­ a capacidade de compreensão acerca da polí­
via, recuou à medida que se obtiveram dados tica em geral e de escolha dos representantes.
mais acurados sobre seu real funcionamento Fica claro que a participação do orça­
(Pateman, 1989). mento participativo está muito mais ligada
A partir do começo dos anos 1980, a teo­ ao sentido fraco do que ao sentido forte da
ria participativa da democracia perde fôlego palavra. Embora ocorram variações de local
no debate acadêmico. No Brasil, no entanto, para local e ao longo do tempo, trata-se tipi­
vai ganhar força, associada sobretudo às ex­ camente de uma estrutura delegativa pirami­
periências de “orçamento participativo” mu­ dal. A princípio, todos os moradores têm a
nicipal, consideradas as mais exitosas inova­ possibilidade de participar das discussões em
ções na gestão do poder local. Tal associação assembleias de base (embora apenas uma
reside, a meu ver, num equívoco de interpre­ minoria o faça), que culminam com a elei­
tação. Não se trata de negar a importância ção de uma lista de prioridades e de um nú­
de várias iniciativas de orçamento participa­ mero de delegados. Esses delegados, por sua
tivo na renovação de práticas políticas locais, vez, escolhem outros, num processo que ter­
na ruptura com esquemas clientelistas crista­ mina por produzir um “conselho” com po­
lizados e na abertura das instâncias decisó­ deres para negociar, amalgamar e substituir
rias aos movimentos populares urbanos. Mas as prioridades votadas. É o conselho que, no
é necessário perceber que o orçamento parti­ final das contas, elabora a proposta orça­
cipativo não é um instrum ento d e dem ocracia mentária - na verdade, um adendo à pro­
participativa. Vale analisar, ainda que breve­ posta orçamentária, já que o grosso dos re­
mente, o sentido da “participação política”. cursos públicos pertence a rubricas fixas e não
Por um lado, qualquer forma de engajamen­ passa pelo conselho de representantes da base.
to na.esfera política pode ser considerada uma Em todo o processo, a participação popular
participação; é a percepção que orienta a cons­ consiste sobretudo na escolha de delegados;
trução dos “índices de participação”, que pas­ nesse sentido, não é qualitativamente dife­
sam pelo voto, da presença em comícios, pela rente da participação eleitoral. As experiên­
contribuição financeira a partidos e candi­ cias de orçamento participativo promovem,
datos, pela discussão de temas políticos etc. assim, uma duplicação d e instâncias represen­
No seu modelo de democratização, Dahl tativas, sem a transferência de poder decisó­
(1971) apresenta a “participação” como uma rio real para os cidadãos comuns. E trata-se
das dimensões relevantes a ser considerada, de uma representação complexa, em vários
mas, como já visto, o termo, para ele, indica níveis, não só por causa da estrutura pirami­
apenas a expansão do direito de voto. Por dal de escolha de delegados, mas também
outro lado, a “participação” pregada pelos porque é necessário entender os participan­
teóricos da democracia participativa está vin­ tes das assembléias de base como represen­
culada a um sentido mais forte da palavra — tantes da população mais ampla, que na sua
significa o acesso a locais de tomada final de maioria não comparece.2()
decisão, isto é, implica a transferência de al­ A definição do orçamento participativo
guma capacidade decisória efetiva do topo como forma de política representativa reco­
para a base. Parte importante das decisões loca a democracia participativa em seus de­
ainda seria tomada por delegados eleitos, é vidos termos. Na medida em que engloba

28
necessariamente a transferência de capaci­ um rótulo que evita a discussão de fundo so­
dade decisória para os cidadãos comuns den­ bre racismo, sexismo, homofobia e outras
tro de espaços da vida cotidiana, ela não tem formas de discriminação negativa por vezes
como se esquivar do problema da reorgani­ “invisíveis” no mundo social. ■■
zação das relações de produção. Isto é, um Na arena especificamente política, o
ordenamento democrático participativo per­ multiculturalismo assume a forma da “polí­
manece incompatível com a manutenção do tica da diferença”, para usar parte do título
capitalismo. de um importante livro de íris iMarion Young
(1990). O deslocamento essencial que a po­
lítica da diferença faz, em relação ao libera­
O Multiculturalismo lismo dominante, é a inclusão à os gru p os so­
ciais numa reflexão política que, marcada pelo
O ponto de partida do multiculturalis­ individualismo, tende a exilá-los. Um grupo
mo —corrente de pensamento crítico que social não é simplesmente uma coleção de
floresceu nas últimas décadas, sobretudo no indivíduos, determinada de forma arbitrária;
ambiente acadêmico estadunidense —é a ele se define por um sentido de identidade
constatação de que as sociedades contempo­ compartilhada. Em suma, as pessoas podem
râneas são e serão, cada vez mais, marcadas formar associações, mas os “grupos, por outro
pela convivência entre grupos de pessoas com lado, constituem os indivíduos” (.Idem , p. 45).
estilos de vida e valores diferentes, por vezes Embora a filosofia liberal clássica não
conflitantes: A rigor, vivemos o prolongamen­ negue, em abstrato, a possibilidade de um
to de uma situação que se constituiu no prin­ interesse de grupo (que sempre será redutível
cípio da era moderna, quando os desdobra­ aos interesses de seus integrantes),, ela nega
mentos da. Reforma protestante sepultaram que os grupos possam ter direitos - o único
a possibilidade de efetivação da velha divisa: sujeito de direito é o indivíduo. Tal indivi­
“une foi, une loi, un roi’’ (uma fé, uma lei, dualismo é um traço constitütivo do liberalis­
um rei). mo desde seus primórdios. Quando Hobbes
O problema que se apresenta é a manu­ (1980 [(1651)) e Locke (1998 [1690]), por
tenção de uma mesma lei e de um mesmo rei exemplo, formulam suas teorias do contrato
para súditos' que professam diferentes fés; social, no século XVII, também delineiam
dito de uma forma atualizada, como garantir uma imagem atomística da sociedade. Seu
a unidade política e a igualdade de direitos fundamento é o bem individual, sem consi­
para cidadãos cujas origens, crenças e valores deração pela comunidade (termo, aliás, des­
fundamentais são tão diversos. De acordo provido de sentido para os dois autores). O
com o diagnóstico dos autores multicultura- único móvel para a constituição da socieda­
listas, existem muitos vieses nas sociedades de política é a vantagem pessoal —a preserva­
contemporâneas, que fazem com que idéias ção da vida, no caso de Hobbes, ou da pro­
e valores de determinados grupos sejam des­ priedade, no caso de Locke, ambas ameaçadas
qualificados de forma sistemática. A preo­ pela ausência de poder coercitivo imperante
cupação voltou-se, em grande medida, para no estado de natureza.
a denúncia dos preconceitos ocultos na lin­ Com Hobbes, há um desvio na direção
guagem, na mídia e no sistema educacional. do absolutismo. Em Locke, porém, a doutri­
Os exageros dessa denúncia foram folclori- na liberal ganha uma expressão inicial bas­
zados na fórmula do “politicamente correto”, tante satisfatória, isto é, o filósofo inglês de-

29
lineou com precisão as linhas mestras que representação mais efetiva. Além disso, acres­
guiaram o liberalismo político pelos séculos centa W illiams, a força moral da reivindi­
seguintes. O pressuposto indispensável é a cação está vinculada aos processos históricos
existência de direitos individuais, em geral que levaram à exclusão: “Os grupos em mais
considerados naturais (jusnaturalismo), que profunda desvantagem na sociedade contem­
restringem o âmbito do poder estatal (Bob­ porânea também foram sujeitos à exclusão
bio, 1988 [1986], p. 17). A idéia de direito legal da cidadania e à discriminação patro­
individual passa a ser a marca do Estado li­ cinada pelo Estado” (Id em , p. 17). Trata-se
beral. Nesse sistema de pensamento, é difícil de um critério que inclui trabalhadores, mu­
abrir espaço para a idéia de “direitos coleti­ lheres, minorias étnicas e homossexuais, pelo
vos” (salvo quando são entendidos como a menos.
mera agregação de direitos de diferentes in­ As propostas de mecanismos reparado­
divíduos). Basta observar a tensão permanen­ res, que incluam tais grupos na arena políti­
te entre o chamado “direito de autodeter­ ca, passam por formas específicas de finan­
minação dos povos”, um direito coletivo por
ciamento e apoio à auto-organização, por
excelência, e os direitos humanos individuais.
cotas eleitorais, partidárias ou parlamentares,
O multiculturalismo, portanto, opõe-se a
e mesmo, como propôs Young (1990, p. 184),
essa premissa do pensamento liberal, afirman­
pela fixação de p o d er d e veto sobre políticas
do a relevância e a legitimidade dos grupos
que os afetem.21
na arena política. Dentre os diversos gru­
A preocupação inicial dessa corrente,
pos identitários presentes na sociedade, alguns
convém salientar, é menos com uma teoria
estão em posição de desvantagem estrutural,
da democracia e mais com uma teoria da jus­
sendo sistematicamente oprimidos e domi­
nados - para Young (1990, p. 38), o termo tiça. A democracia é, de certa forma, deriva­
opressão refere-se aos processos institucionais da, como o arranjo político mais propício à
que impedem as pessoas de desenvolver suas realização da justiça. Vale introduzir aqui, pela
capacidades, ao passo que a dom inação de­ clareza expositiva, o esquema de Nancy Fra­
signa as condições institucionais que impe­ ser (1997, 2003), que aponta dois eixos para
dem as pessoas de participar na determina­ a realização da justiça: redistribuição (para al­
ção de suas ações. São esses grupos, oprimidos cançar maior igualdade material entre gru­
e dominados, que precisam ser protegidos por pos e indivíduos) e recon hecim en to (garan­
direitos que lhes garantam, entre outras coi­ tindo a todos os grupos o mesmo grau de
sas, um acesso efetivo aos espaços de repre­ respeito social). Os grupos subalternos ca­
sentação política. recem de redistribuição, de reconhecimento
Vale introduzir a contribuição de Melis­ ou, como é mais freqüente, de alguma combi­
sa Williams (1998, pp. 15-16), que define nação entre ambos. A perspectiva de Fraser,
os “grupos marginalizados imputados” como que gerou enorme polêmica com pensadores
sendo aqueles que sofrem com padrões de em posições próximas, como Butler (1998),
desigualdade estruturados de acordo com o Young (1997) ou ainda Feldman (2002), afir­
pertencimento de grupo, o qual não é expe­ ma tanto a estreita interdependência entre re­
rimentado Como voluntário, nem como mu­ distribuição e reconhecimento, como sua ir-
tável, e quando a cultura dominante atribui redutibilidade mútua. Opõe-se, assim, tanto
um sentido negativo à identidade dò grupo. ao .marxismo clássico, que tende a julgar que
São esses os grupos que podem reivindicar o reconhecimento deriva da redistribuição,

30
como à teoria de Axel Honneth (2003), que Afinal, os grupos não são apenas oprimidos
faz o movimento inverso. e dominados pela sociedade; eles também po­
Entre os problemás que a perspectiva da dem oprimir e dominar parte de seus inte­
política da diferença apresenta, três são espe­ grantes. Este ponto é destacado pela teórica
cialmente relevantes. O primeiro diz respei­ feminista Susan Moller€)kin (1999), em tex­
to à determinação dos grupos que merecem to que, tendo por alvo principal ô filósofo
os direitos compensatórios. Afinal, é possível canadense W ill Kymlicka (1995), discute a
pensar que os setores mais necessitados de relação entre o multiculturalismo e os direi­
proteção especial seriam aqueles cuja impo­ tos das mulheres. Não é uma questão de in­
tência política é tão grande que são incapa­ teresse apenas acadêmico; de fato, nos países
zes até mesmo de colocar em pauta sua pró­ capitalistas avançados, parte dos grupos cul­
pria privação. Não há uma solução “técnica” turalmente dominados mantém atitudes ex­
para a questão, que é política, mas um es­ tremamente repressivas em relação às mu­
boço de resposta, já visto acima, é dado por lheres. Okin afirma, então, que a ênfase nos
Young e Williams: são grupos que estão numa direitos das minorias culturais prejudica as
posição, historicamente constituída, de opres­ mulheres, retirando delas o apoio contra a
são e dominação. opressão que podiam encontrar num padrão,
O segundo problema é a relação da dife­ cultural dominante menos machista. A res­
rença com a igualdade. A posição progres­ posta de Kymlicka (1999) é incorporar “res­
sista “clássica”, que empunhava a bandeira trições internas” aos direitos de grupo, restri­
da igualdade, transforma-se na descoberta das ções ligadas à manutenção das liberdades e
vantagens da diferença. Como demonstrou dos direitos individuais. Mas as liberdades
Pierucci (1999), trata-se de um deslocamen­ e os direitos individuais não são decorrentes
to repleto de “ciladas”, uma vez que a afir­ da natureza, e sim construídos a partir de um
mação da diferença - entendida como si­ determinado conjunto de valores —que seria
nônimo de desigualdade ou, dito de outra imposto a todos, violando o princípio que se
forma, como diferença de mériro - é, desde desejava fazer progredir. Em outras palavras,
há alguns séculos, a bandeira da direita. A a distinção, que Kymlicka (1996, p. 159) ela­
tentativa de conciliação entre os valores di­ bora, entre “restrição interna” e “proteção
vergentes da igualdade e da diferença exi­ externa” só resolve o problema no nível retó­
ge contorcionismos teóricos e retóricos, e, rico. A primeira corresponderia ao direito do
quando traduzida para a linguagem mais .chã direito de o grupo impedir dissidências in­
da prática política, dá margem a equívocos. ternas, gerando tensões com as. liberdades in­
Slogans vazios (“diferentes mas não desiguais”, dividuais. A segunda refere-se ao direito de o
por exemplo) não suprem a necessidade de grupo se proteger das pressões da sociedade
enfrentamento da questão, que passa pela com­ mais ampla, e poderia ser maximizada sem
preensão da diferen ça en tre as próprias d ife­ contra-indicações. No entanto, uma e outra
renças, algumas das quais (como a diferença estão, na maioria dos casos, imbricadas.
de classe ou status) devem ser minimizadas Cumpre observar, de passagem, que há
ou abolidas, enquanto outras devem flores­ uma diferença de base entre a perspectiva
cer (Fraser, 1997, pp. 203-204)'. . de Kymlicka e a de autores como Young.
O terceiro problema, o mais gravè de to­ Kymlicka preocupa-se sobretudo com países
dos, diz respeito à acomodação entre os di­ como Canadá ou Bélgica, às voltas com na-
reitos de grupos e os direitos individuais. cionalismos minoritários. O multiculturalis-

31
mo de Young refere-se ao modelo estaduni­ campo mais amplo da teoria democrática
dense, com grupos identitários muito mais atual. E, também, evidenciar alguns dos ei­
fluidos e dispersos. A transposição do mode­ xos principais da discussão contemporânea
lo estadunidense, diz Kymlicka (1998), com­ sobre o significado e as possibilidades da
promete a compreensão das outras reali­ democracia.
dades.22 Kymlicka afirma estar solidamente Um destes eixos é o sentido e o valor atri­
posicionado dentro da tradição liberal, embo­ buídos ao consenso. Trata-se de uma questão
ra proponha adaptações, como, por exemplo, importante e complexa. A harmonia social é
a concessão de direicos excepcionais para um bem comumente exaltado pelo discurso
grupos minoritários. Young, por sua vez, ma­ político (Miguel, 2000b) e algum grau de
nifesta simpatia pela visão deliberativa da unidade é imprescindível para a manutenção
democracia, embora critique alguns dos fun­ da sociedade; entretanto, a democracia se fun­
damentos da teoria de Habermas, em espe­ da, como diz Claude Lefort, no reconheci­
cial a crença numa razão universal, capaz de mento da legitimidade do conflito. Para a
levar ao consenso. E a corrente multicultu- percepção liberal, o consenso relevante é pro­
ralista, como um todo, mantém uma relação cedimental - os interesses privados estão em
contraditória com o comunitarismo, já que permanente disputa e o ganho da democra­
incorpora a percepção da importância dos cia é proporcionar formas de solucionar tais
laços identitários primários - com destaque disputas, aceitas por todos e que excluem o
sobretudo nas formulações de Kymlicka —ao uso da violência física. De forma diversa, a
mesmo tempo em que contesta a visão de um idéia de consenso procedimental vai ser in­
“bem comum” único. corporada pelo multiculturalismo, mas aí os
agentes não são indivíduos com interesses
privados conflitivos, mas grupos com valores
Conclusão divergentes.
Deliberacionistas e republicanistas apre­
Da discussão acima, fica claro que as sentam uma visão bastante diversa do consen­
fronteiras entre as cinco vertentes são fluidas so. Ambas as correntes consideram o consenso
e imprecisas. Um autor como Robert Dahl substantivo, sobre políticas, mais do que o
flerta com o participacionismo e proclama mero consenso procedimental. Para a verten­
sua simpatia pela visão deliberativa da demo­ te deliberativa, o consenso genuíno é a meta
cracia, sem nunca abandonar uma perspecti­ da interação política. Para a republicana, um
va pluralista; Young e outros teóricos da di­ consenso sobre o bem “comum” que se bus­
ferença enxergam o debate público como ca é necessário para todos os que ingressam
mecanismo ideal para o funcionamento da de boa fé na arena pública. Os participa-
democracia em sociedades multiculturais e cionistas, enfim, possuem uma posição mais
assim por diante. Dentro de cada corrente, complexa. O que está em jogo não é tanto o
as diferenças também são muitas, como exem­ consenso ou o dissenso, mas a possibilidade
plificam os contrastes entre Downs e Dahl, de construção da autonomia coletiva. Um
entre Lasch e Sandel ou entre Kymlicka e acordo torna-se mais factível à medida que
Young. aumenta a igualdade de condições entre os
Portanto, a classificação apresentada ob­ participantes.
jetivou apenas indicar balizas que permitam Um segundo eixo reside na questão da
situar os diferentes autores e obras dentro do igualdade, termo que esteve associado à de­

32
mocracia desde seus primórdios - e ainda na A riqueza e a diversidade das teorias refor­
metade do século XIX, Tocqueville (1835­ çam a idéia da democracia como um projeto
1840) usava “democracia’ e “igualdade” pra­ inacabado ou, ainda mais, como horizonte
ticamente como sinônimos. Para os liberais, normativo cuja realização plena sempre nos
a igualdade relevante é a igualdade perante a escapará. No cerne de muitas das dificuldades
lei; em outras palavras, o reconhecimento de está a representação política, inevitável nas
um mesmo conjunto de direitos e liberdades sociedades contemporâneas, rfias que impõe
para todos os cidadãos. Nenhuma das outras grandes desafios - Como garantir a vincula-
correntes questiona a importância da igual­ ção de representantes e representados? Como
dade liberal. De fato, todas elas se movem den­ impedir a autonomização dos interesses dos
tro do universo do liberalismo, entendido governantes? Como manter a igualdade? - e
como respeito a direitos individuais inalie­ que exige ser reconhecida como uma realida­
náveis, desfrutados por todos os integrantes de complexa, multifacetada, que não se es­
da p olis, diante dos quais está limitado o ar­ gota no processo eleitoral (Miguel, 2003a).
bítrio do Estado. Mas acrescentam novas fa­ Por fim, cabe lembrar que, dada a divi­
cetas à questão. são internacional do trabalho intelectual, a
Os deliberacionistas enfatizam a igual­ quase totalidade das teorias influentes da de­
dade no debate público, que exige mais do mocracia é produzida na América do Norte e
que as liberdades formais: exige a abertura na Europa Ocidental, o que gera novos de­
deste debate a múltiplas vozes. O republica­ safios, quando são confrontadas com a reali­
nismo cívico postula uma igualdade identi- dade dos países periféricos (Miguel, 2003b).
tária, fonte dos valores comuns que possi­ Nossos problemas são mais básicos, mas nos­
bilitam a ação política. Mais do que as outras sas sociedades e instituições talvez sejam tam­
correntes, a democracia participativa se pre­ bém menos enrijecidas, permitindo novos
ocupa com a igualdade substantiva, nas con­ e mais ousados experimentos democráticos.
dições materiais, sem a qual o experimento Pois esta é, afinal, a razão da reflexão teórica
democrático estará fadado a se transformar sobre a democracia: não apenas entender o
em farsa. A posição multiculturalista é a mais mundo, mas contribuir para transformá-lo,
complexa, trabalhando permanentemente a no diálogo permanente com as forças sociais
tensão entre igualdade e diferença. em movimento.

Notas

1. Uma versão preliminar deste texto foi discutida no Grupo de Pesquisa “Democracia e
Democratização” (Demodê) da Universidade de Brasília. Agradeço as sugestões e comen­
tários dos participantes,^bem como de Regina Dalcastagnè.
2. Por ingênua que seja essa visão, ela encontra guarida, por exemplo, em Dahl (1989).
3. Ele usa os termos “democracia representativa” e “democracia participativa”, mas a segunda
reflete claramente o anseio por presença direta do cidadão nos espaços decisórios (Santos
e Avritzer, 2002; Santos, 2004).
4. Usei uma adaptação das categorias de Elster em texto anterior, que, em alguma medida,
serviu de primeira aproximação à elaboração que agora apresento (Miguel, 2000a).

33
5. Shapiro simplifica o modelo de Elster, identificando duas grandes correntes: “agregativa”
(vertente hegemônica) e “deliberativa”. Mas sua afirmação de que ambas partilham da
posição rousseauniana de que “a tarefa da democracia é expressar uma vontade geral que
reflita o bem comum” (Shapiro, 2003, p. 3) indica uma leitura insustentável da vertente
agregativa.
6. Uma antecipação do núcleo da tese schumpeteriana está em Weber (1993 [1918]).
7. Hoje, Dahl está claramente à esquerda da maior parte dos deliberacionistas, por suas críti­
cas ao capitalismo, por sua consciência das limitações do ordenamento liberal e mesmo
por sua denúncia dos aspectos regressivos da Constituição dos Estados Unidos (Dahl,
2002). Já os deliberacionistas, como procuro mostrar na próxima seção, caminharam para
uma crescente acomodação com o capitalismo, com o constitucionalismo liberal e, enfim,
com o modelo político estadunidense.
8. A idéia é que a negação de tal premissa levaria à legitimação de ditaduras paternalistas, que
dariam aos indivíduos aquilo que, embora eles não soubessem, melhor corresponderia a
seus “verdadeiros” interesses.
9. Esta seção está baseada em texto anterior (Miguel, 2002c).
10. Gutmann e Thompson (1996) são os principais autores de uma vertente alternativa, que
descarta explicitamente a influência de Habermas e toma Rawls como principal referência
filosófica. Rawls, no entanto, dificilmente pode ser tomado por um autêntico democrata
deliberativo. Em Uma teoria da ju stiça (1997 [1971]), ele postula uma razão supra-indivi­
dual que termina afastando a necessidade ou a possibilidade de deliberação coletiva, con­
forme já observaram vários críticos. Em O liberalism o p olítico (2000 [1993]), sua posição
é deliberativa, mas não democrática, na medida em que privilegia a deliberação em insti­
tuições exclusivas como a Suprema Corte dos Estados Unidos.
11. James Bohman (1996, p. 14) prefere ver, nos últimos escritos de Habermas, um “crescente
pessimismo” quanto à possibilidade de aprofundamento da democracia, mas trata-se de
generosidade sua: acomodação seria o termo mais adequado.
12. Parte destas respostas é discutida em Dryzek (2001, pp. 652-657).
13. Mas as limitações de tempo permanecem.
14. Dryzek não usa a palavra “consenso” para seu arranjo, que chama de “concordâncias ope­
rativas” (workable agreem ents). ■
15. Esta seção beneficiou-se da discussão sobre teoria republicana, conduzida no Grupo de
Pesquisa “Democracia e Democratização” (Demodê) da Universidade de Brasília por Ga­
briela Cavalcanti Cunha, a quem agradeço.
16. Embora seja possível argumentar, como faz Held (1996, pp. 50-55.), que Maquiavel pos­
. sui' uma visão de “democracia protetora”, isto é, que a participação política obedece à
necessidade de proteger interesses privados, seu comprometimento com o ideal cívico re­
publicano está bem evidenciado pela literatura (ver Skinner, 1996 [1978], pp. 178-182;
Viroli, 1998).
17. Cumpre observar que um dos núcleos da tese de Lasch -.qual seja, a cosmopolitização dos
grupos de elite tornou desprovidas de sentido as comunidades às quais o restante da popu-

34
lação permanece preso - está traduzido, de forma sociologicamente mais sofisticada e sem
ranço nostálgico, na discussão sobre a globalização realizada por Bauman (1999 [1998]).
Walzer (1990, p p./11-12), por sua vez, sintetiza a percepção da falência dos vínculos
tradicionais na idéia das “quatro mobilidades” contemporâneas - mobilidade geográfica
(migrações), mobilidade social, mobilidade conjugal (fim da crença na indissolubilidade
do matrimônio) e mobilidade política (declínio das lealdades partidárias).
18. Ver, também, a esse respeito Pateman (1970), Bachrach (1980), Macpherson (1977),
Gorz (1987 [1980]) e Dahl (1990 [1985], 1990).
19. Este argumento, na verdade trivial, é desenvolvido em Dahl (1991 [1982], pp. 24-25).
20. Um esboço de sustentação teórica para a compreensão da relação entre presentes e ausentes
como sendo uma relação de representação é dado por Mansbridge (1983, pp. 248-251).
21. A autora recuou da proposta em sua reflexão mais recente (Young, 2000). ■
22. A crítica à “importação” da discussão estadunidense está presente também em autores
latino-americanos, que negam relevância local ao que Beatriz Sarlo chamou de “identida­
des com hífen” (afro-americano etc.) e ligam a visibilidade do multiculturalismo ao “declí­
nio da crítica socialista ao capitalismo [que] contribuiu para desvalorizar as exigências
redistributivas” (García Canclini, 1999, p. 111).

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Resumo

Teoria dem ocrática atual: esboço d e m apeam ento

Este artigo discute e contrasta as diferentes teorias da democracia presentes no debate acadêmi­
co contemporâneo, agrupando-as em cinco correntes principais: pluralismo liberal, teoria de­
liberativa, republicanismo cívico, participacionismo e multiculturalismo.

41
Palavras-chave: Democracia, Teoria política contemporânea; Liberalismo; Republicanismo;
Multiculturalismo. ' .

Abstract

D em ocratic theory nowadays: a m apping draft


. . - - 1 • .

The article discusses and contrasts different theories of democracy that are present on the
contemporary academic debate, grouping them in five main currents: liberal pluralism, deli­
berative theory, civic republicanism, participative democracy, and multiculturalism.

Keywords: Democracy; Contemporary political theory; Liberalism; Republicanism; Multicul­


turalism.

Résumé

Théorie dém ocratique actuelle: esquisse d e m appage .

Cet article analyse et oppose les différentes théories de la démocratie présentes dans le débat
académique contemporain. Elles sont regroupées en cinq courants principaux: le pluralisme
libéral, la théorie délibérative, le républicanisme civique, la démocratie participative et le mul­
ticulturalisme. •

Mots-clés: Démocratie; Théorie politique contemporaine; Libéralisme; Républicanisme; Mul­


ticulturalisme.

42
O Impacto das Democracias Participativas na Produção Acadêmica no Brasil:
Teses e Dissertações (1988-2002)*

A lfredo A lejandro G ugliano

Introdução As multitudinárias manifestações pelas


D iretas Já, que unificaram partidos políticos
Nos últimos anos, a questão da partici­ de oposição e organizações sociais, entre ja­
pação dos cidadãos na gestão pública reper­ neiro e abril de 1984, representaram um
cute nos meios acadêmicos brasileiros e ga­ marco dessa mobilização da sociedade bra­
nha espaço em diversos eventos nds campos sileira pela redemocratização, postura reto­
das ciências humanas e das ciências sociais. mada alguns anos após a transição, em 1992,
O interesse por esse tema em um país como desta vez para destituir um presidente da re­
o Brasil, onde tradicionalmente a exclusão e pública envolvido com corrupção.
a desigualdade social impuseram barreiras que Das mobilizações de 1984 para cá, esse
retardaram conquistas cidadãs básicas para processo sofreu várias alterações perdendo,
uma parcela considerável da população, foi principalmente, seu caráter de manifestações
fruto de uma conjunção de fatores que per­ de massa. Abandonada a fase dos grandes co­
mitiram, em curto espaço de tempo, avanços mícios populares, os movimentos sociais brasi­
consideráveis no campo democrático. leiros estão passando por um novo momento,
Desde meados dos anos de 1970, estão no qual estão sendo criadas diferentes for­
se desenvolvendo no país diversas mobili­ mas de organização, como é o caso da funda­
zações da sociedade civil, articulando dife­ ção de expressivo número de organizações não-
rentes segmentos no meio urbano e rural, governamentais (ONGs); de diversas redes
que estão relacionadas com disputas polí­ de movimentos sociais; de grupos de represen­
ticas que interferem na gestão pública. De tação de atores sociais excluídos do sistema
acordo com Sader (1988, p. 313), “os movi­ de produção fòrmal (donas de casa, desem­
mentos sociais foram um dos elementos da pregados etc.); e, em especial, da fundação,
transição política ocorrida entre 1978 e 1985. em 1984, do Movimento dos Trabalhado­
Eles expressaram tendências profundas na so­ res Rurais Sem Terra (MST), que promoveu
ciedade que assinalavam a perda de sustenta­ maior mobilização dos trabalhadores do
ção do sistema político instituído”. campo.

* Trabalho realizado com o apoio do CNPq, da Fundação de Amparo à Pesquisa do Rio


Grande do Sul (Fapergs), e da Universidade Católica de Pelotas (UCPEL). Participaram da
coleta de dados os seguintes bolsistas de iniciação científica: Roberta Lemes de Oliveira
(Fapergs), Elautério Conrado da Silva Jr. (Fapergs), Cleomar Lemos de Jesus (UCPEL), San­
dra Mara Garcia Henriques (Pibic-CNPq) e Tiago Medeiros deTriarca (UCPEL).

■ ' -. ■ V . . ■ ' . -
BIB, São Paulo, n° 59, 1° semestre de 2005, pp. 43-60. • 43
Como afirma Gohn (2004, p. 22), sucedidas de ampliação da participação cida­
dã na gestão pública, como c desenvolvimen­
Sürge uma pluralidade de novos atores, to dos conselhos gestores que passaram a ser
decorrentes de novas formas de associati- obrigatórios em nível nacional, estadual e mu­
vismos que emergem na cena política. A nicipal, constituindo-se, apesar de suas lim i­
autonomia dos membros da sociedade ci­ tações, em mecanismo de participação da so­
vil deixa de ser um eixo estruturante fun­ ciedade na administração do Estado. Junto
damental para a construção de uma socie­ com os conselhos, outra experiência que es­
dade democrática porque, com a saída dos timulou fortemente o interesse pela partici­
militares e o retorno dos processos eleito­ pação cidadã foi o orçam ento p a rticip a tivo ,
rais democráticos, a sociedade política, tra­ proposta executada com grande êxito na ad­
duzida por parcelas do poder instituciona­ ministração petista da cidade de Porto Ale­
lizado no Estado e seus aparelhos, passa a gre e que, gradativamente, foi sendo adotado
ser objeto de desejo das forças políticas or­ por outras cidades e partidos políticos. .
ganizadas. Novos e antigos atores sociais A soma dessas experiências representou
fixarão suas metas de lutas e conquistas na importante avanço da cidadania e dos direi­
sociedade política, especialmente nas po­ tos sociais no Brasil, fenômeno acompanha­
líticas públicas. do pela respectiva abertura de horizontes dos
debates sobre esses temas. Em especial, cha­
Além da participação dos movimentos ma a atenção o deslocamento de um foco ana­
sociais, as conquistas cidadãs, no Brasil, de­ lítico fortemente influenciado por uma pers­
vem ser relacionadas com o rápido processo pectiva marxista, que restringia os fenômenos
de modernização de grupos e organizações sociais à ação de uma vanguarda operária, em
políticas que costumeiramente haviam assu­ direção ao reconhecimento de novos atores
mido o papel da representação parlamentar sociais e de novas formas de mobilização. Em
da sociedade civil organizada, particularmen­ especial, nos últimos anos, vem crescendo o
te no caso do Partido dos Trabalhadores (PT), interesse da comunidade acadêmica brasilei­
que nasceu, em 1980, como um partido de ra pelos processos de inclusão dos cidadãos
representação de classe, chamado na época na gestão do Estado, o que tem gerado pro­
de um partido operário independente, mas duções científicas divulgadas principalmen­
que rapidamente foi sendo absorvido pelo sis­ te em congressos, simpósios ou seminários;
tema de atuação parlamentar convencional, artigos de revistas científicas; livros; e em te­
fenômeno acentuado a partir da vitória de ses e dissertações.
Lula nas eleições presidenciais de 2001.1 Neste artigo, abordo uma parcela dessa
Como descreve Kucinski (2001, p. 185), produção acadêmica, através da análise das dis­
sertações e teses que versam sobre a ampliação
[...] à medida que foi chegando áo poder, da participação dos cidadãos na gestão pú­
em prefeituras e governos estaduais, o PT blica ou, como prefiro dizer, que abordam
acabou se institucionalizando e perdendo a problemática das democracias participati­
muito desse purismo inicial. Seu ativismo vas. A opção por esse foco de análise é fruto
de base perdeu muito de seu vigor inicial, da convicção de que os cursos de pós-gradua­
que era extraordinário. ção brasileiros são núcleos privilegiados de
formação e pesquisa acadêmica de qualida­
Da mesma forma, se destaca o impacto de, influenciando boa parte do que é veicu­
positivo gerado por várias experiências bem- lado na produção bibliográfica nacional.2

44
Processos Participativos do, esses avanços tornaram-se insuficientes
de Gestão Pública para a mediação de interesses entre o Estado
e a sociedade. Isso ocorreu porque, cada vez
Ao abordar as diferentes formas de os ci­ mais, o processo de eleição de dirigentes é in­
dadãos interferirem na gestão do Estado, vá­ dissociável do acompanhamento da gestão
rios autores optam pelo conceito de demo­ promovida pelos representantes eleitos e pela
cracias participativas. Porém, no caso desta eficiência dos serviços prestados pelos órgãos
revisão de literatura, nem todos os trabalhos públicos.
analisados utilizam essa classificação, algo A junção do adjetivo “participativo” ao
compreensível na medida, em que, entre es­ substantivo “democracia” representa a tenta­
tudiosos do assunto, são utilizados diferentes tiva de descrever uma experiência política que
conceitos para descrever fenômenos seme­ se diferencia pela articulação entre mecanis­
lhantes. mos eleitorais de representação política, me­
Dentre diversos exemplos, Fung e Olin canismos associativos de inclusão dos elei­
Wright (1999, p. 104), utilizam o conceito tores no processo de tomada de decisões do
de dem ocracias deliberativas para enfatizar a Estado e mecanismos de controle social das
criação de “espaços nos quais deliberações po­ ações da máquina pública. Nesse sentido, a
pulares genuínas podem acontecer”; Mouffe utilização desse conceito faz referência à maior
(1992, p. 196) emprega.o conceito de d em o­ articulação entre cidadãos e governo, não se
cracia radical, como a maneira mais apro­ restringindo apenas à descrição de formas de
priada de descrever processos que tendem a eleição de governantes. Conforme Pateman
transformar a estrutura de poder da socie­ (1992, p. 60):
dade, na medida em que “aprofundam a re­
volução democrática e conectam as diferentes [...] a teoria da democracia participativa é
lutas democráticas”; ou ainda Held (1987, construída em torno da afirmação central
p. 159), que se refere a um modelo de d em o­ de que os indivíduos e suas instituições não
cracia direta nó qual “a maquinaria do Esta­ podem ser considerados isoladamente. A
do liberal poderia ser substituída por uma es­ existência de instituições representativas em
trutura de comunas”. nível nacional não basta para a democra­
Sem a pretensão de invalidar outras ca­ cia; pois o máximo de participação de to­
racterizações, utilizo o conceito de dem ocra­ das as pessoas, a socialização, [...] precisa
cia p a rticip a tiv a porque o considero mais ocorrer em outras esferas [...]. Este desen­
adequado para descrever um processo de volvimento ocorre por meio do processo
transformação política no qual o modelo de­ de participação. A principal função da par­
mocrático representativo evolui em direção ticipação na teoria democrática é, portan­
à criação de novos elos entre os cidadãos e o to, educativa.
Estado. Desde as suas origens, o modelo po­
lítico democrático fez grandes avanços quanto Na maioria das teses e dissertações ana­
aos seus mecanismos representativos, incor­ lisadas, há um consenso em torno da idéia
porando gradativamente amplos segmentos de que as democracias participativas dizem
e classes sociais, notadamente no proçesso de respeito fundamentalmente à relação entre o
eleição dos dirigentes do Estado. Contudo à Estado e a sociedade civil, ou seja, às formas
medida que os meios de comunicação e os de administrar a máquina pública com a in­
sistemas de organização foram se aperfeiçoan­ gerência dos cidadãos. Desse ponto de vista,

45
as pesquisas, em sua maior parte, abordaram sões nesse segmento, antes razoavelmente
processos referentes ao sistema político for­ unido no combate à ditadura militar. Em
mal, inclusive nos casos em que essas expe­ especial, no que diz respeito ao tema da de­
riências ainda não receberam regulamenta­ mocracia, transparece uma divisão entre uma
ção jurídica. Mesmo sendo evidente que a concepção realista desse regime e outra que
questão da democracia participativa não ne­ idealiza uma democracia de base ou social.
cessariamente está restrita à esfera do Esta­ O surgimento de experiências de gestão
do, nas dissertações e teses consultadas há pública participativa, que se expandiram a
pouca ênfase nas políticas participativas em partir do final dos anos de 1980, represen­
outros âmbitos da sociedade, como na ges­ tou, para um número significativo de inte­
tão econômica ou no interior das organiza­ lectuais, a possibilidade de demonstrar a via­
ções sociais. bilidade de um modelo alternativo de demo­
Dessa forma, seguindo a tendência dos cracia, no qual a cidadania passasse a ser o
trabalhos examinados, adotamos neste estu­ elemento principal. Isso se refletiu na evolu­
do a caracterização de democracia participa­ ção da temática em teses e dissertações ela­
tiva identificada pela participação extra-elei- boradas nos cursos de pós-graduação stricto
toral dos cidadãos em processos de gestão sensu brasileiros, nos quais o crescimento do
pública. Essa participação, de acordo com os interesse pela questão da democracia foi
nossos critérios, pode ocorrer de diferentes acompanhado pelo da gestão participativa:
formas, variando a utilização de mecanismos dos 208 trabalhos que fazem parte do regis­
de participação direta ou representativa; cen­ tro de dados Ibict e nos quais uma das pala­
tralizados em processos estatais ou fruto da vras-chave é “democracia”, 88 (72 disserta­
iniciativa da sociedade civil; regularizados ções e 16 teses) foram dedicados a investigar
juridicamente ou legitimados pela prática temas relacionados à gestão participativa, es­
cotidiana. pecialmente o orçamento participativo (OP)
e os conselhos gestores. .
Em um primeiro momento, os pesqui­
As Dissertações e Teses sadores interessados na participação cidadã
sobre Democracias Participativas na gestão pública centraram seu interesse nas
emendas populares na Constituinte de 1988,
Para entender a evolução da produção na expansão de mecanismos de descentrali­
acadêmica sobre as democracias participati­ zação municipal e, especialmente, no desen­
vas no Brasil, é interessante contextualizar volvimento dos conselhos populares - orga­
esses trabalhos no processo de democratiza­ nismos criados em várias cidades brasileiras,
ção da sociedade brasileira, principalmente a a partir do final da década de 1970, com in­
partir de meados dos anos de 1980, período tuito de ampliar a participação cidadã nas
que marca um giro da intelectualidade brasi­ discussões sobre as políticas sociais (Fan­
leira para os debates sobre a questão demo­ tin, 1988; Demétrio, 1989; Michiles, 1989;
crática no país. Como afirmou Pecaut (1990), Moura, 1989; Perez, 1989). Nos anos de
ao analisar a relação entre os intelectuais, as 1980, esse núcleo de interesse foi se deslo­
classes sociais e a democracia, a redemo- cando para a discussão sobre os conselhos,
cratização brasileira apresentou novos desa­ gestores criados a partir da nova Consti­
fios para a inserção política dos cientistas tuição e, principalm ente, do orçamento
sociais no Brasil, que acabaram gerando ci- participativo.

46
Figura 1
Temática das Teses e Dissertações sobre Democracias Participativas
no Brasil, em números absolutos (1988-2002)

Nas teses de doutorado dedicadas ao A convergência para o tema em uma e


tema do orçamento participativo, é possível outra frente é fruto da grande popularidade
observar que, apesar de haver trabalhos cen­ que o orçamento participativo'ganhou não
trados na fundamentação programática da só devido aos bons resultados adm inistrati­
proposta (Merlin, 2000; Goulart, 2002; en­ vos, como também de sua receptividade junto
tre outros), têm sido privilegiados os estudos a observadores e agências internacionais de
de caso de locais onde o orçamento partici­ desenvolvimento, o que rapidamente trans­
pativo vem sendo desenvolvido com maior formou o tema em um dos carros-chefe da
êxito, a exemplo de Porto Alegre ou de sua literatura acadêmica sobre experiências alter­
região metropolitana (Dias, 2000; DAvilla nativas de administração pública. •
Filho, 2000; Dornelas, 2000; Silveira, 2001; O ciclo de dissertações sobre o orçamento
Mantovanelli Jr., 2001; Luchmann, 2002; M. participativo inicia com o trabalho de Gia-
K. Silva, 2001a). No tocante às dissertações comoni (1993), defendido no Programa de
de mestrado, vemos que o universo de abor­ Pós-Graduação em Administração da Facul­
dagens sofre considerável alteração: em nú­ dade de Ciências Econômicas da UFRGS,
mero de trabalhos produzidos e na abrangên­ cujo título éA com unidade com o instância, exe­
cia dos assuntos investigados. Mesmo assim, cutora do plan ejam en to: o caso do “orçam ento
o estudo do orçamento participativo mono­ p a rticip a tiv o” d e Porto Alegre. Essa disserta­
polizou grande parte das dissertações. ção analisou o orçamento participativo por-

47
to-alegrense enfatizando o seu papel na for­ nicipal da Saúde (E. M. Bispo, 1999a; Pupo,
mulação de uma nova maneira de elaboração 1999), do Conselho Municipal de Educação
do plano anual de investimentos do municí­ (Rosa, 2001), e dos Conselhos Estaduais de
pio, no qual as decisões foram, pela primeira Assistência Súcial (V. R. Silva, 2001b). Dife­
vez, compartilhadas com representantes de as­ rentemente do que foi visto com o tema do
sociações comunitárias, o que garantiu maior orçamento participativo, os trabalhos de pós-
legitimidade e racionalidade desse processo graduação sobre os conselhos gestores anali­
se comparado com as formas convencionais saram um leque amplo de experiências, como
de orçamentação. as das cidades de São Paulo (Coutinho, 1996;
No tocante aos casos analisados, a expe­ Bogus, 1997), Porto Alegre (Brandão, 1999;
riência de Porto Alegre recebeu o maior nú­ Heidrich, 2002; etc.), Recife (Silva, 2000),
mero de dissertações dedicadas ao seu estu­ Garanhuns (Rocha, 1998), entre outros.
do, dentre elas: Giacomoni (1993); Araújo .Além dos temas anteriormente mencio­
(1999); Fedozzi (1996); Pinto (1998); Pe­ nados, várias dissertações e teses destacaram
reira (2001); D’Avila Filho (2000); Schmidt a participação dos movimentos sociais na for­
(1994); e D. N. Silva (1997b). Além de Por­ mulação de novas formas de gerir o espaço
to Alegre, também foram analisados os casos público, aspecto central para grande parte da
literatura especializada que enfatiza o papel
' de Brasília-Monteiro (1998); Teixeira (1999);
da sociedade civil na constituição dos proces­
Schmitz (1997); e A. O. Silva (1999a) - ,
sos participativos (Carvalho, 1997; Konzen,
Campina Grande —L. Araújo (2000a) - ,
2000; Menegat, 1995; Mota, 1991; Petri,
Recife - R. S. Bispo (1999b); Cavalcanti
1992; Rabelo, 1998; Silva, 1993; Rodrigues,
(1999) Santo André - Ribeiro (1999);
1999). Além desses, outros trabalhos enfati­
Cecheti (1997) Betim - Sousa (1999) - , e
zaram a existência de diversos mecanismos,
Piracicaba - Silva (1997c), dentre outros.
principalmente no âmbito da estrutura ad­
Também foram realizados trabalhos sobre a
ministrativa local e regional, que poderiam
elaboração do orçamento público a partir das incrementar os referidos processos de inclusão
experiências de Salvador (Correia, 2001) e cidadã, como os fóruns de desenvolvimento:
Florianópolis (Mendonça, 1990).3 Dias (2001); Perez (1989); Pimentel (2001);
Outro dos temas predominantes entre as Rover (2000). Por fim, não foram poucos os
dissertações e teses sobre processos partici­ pesquisadores que centraram a atenção no
pativos de gestão pública foi o dos já referi­ papel cumprido pela Constituição de 1988
dos conselhos gestores, estruturas criadas com para a emergência de formas participativas
o fim de ampliar o controle social sobre as po- de gestão do Estado através da aprovação de
líricas públicas. Mesmo não havendo con­ uma série de mecanismos de descentraliza­
senso sobre uma possível equiparação entre ção da máquina pública (Horbach, .2001;
essas instâncias e as experiências de partici­ Lopes, 1998; Melo, 1996; Michiles, 1989;
pação direta da população na administração Ferreira, 1993).
estatal, não há dúvidas de que elas podem ser
enquadradas como elementos que democra­
tizam os instrumentos de gestão organizacio­ Algumas Características
nal. Sobre esse tema estão, por exemplo, os da Produção Analisada
trabalhos a respeito do Conselho Estadual de
Defesa dos Direitos do Homem e do Cida­ Em termos cronológicos, o final dos anos
dão (V. Araújo, 2000b), do Conselho Mu­ de 1990 é o principal momento de produção
de dissertações de mestrado sobre as demo­ e na UFPE, a maioria dos trabalhos de pós-
cracias participativas, enquanto a maior con­ graduação realizados é dedicada à análise das
centração de teses de doutorado se dá entre experiências locais de gestão participativa, es­
2000 e 2002. No que tange à distribuição re­ pecialmente os casos de Porto Alegre e Re­
gional, grande parte da produção acadêmica cife, respectivamente. Já na PUC-SP, vemos
estudada está concentrada em quatro estados que os estudos de caso são mais diversifica­
da federação: Rio Grande do Sul, São Paulo, dos, havendo um amplo leque de experiên­
Pernambuco e Rio de Janeiro. Juntos totali­ cias analisadas pelas teses e dissertações dos
zam quase 70% de tudo o que foi produzido programas de pós-graduação.
sobre o tema proposto nos cursos de pós-gra­ Além disso, é importante destacar o fato
duação brasileiros. de que as principais universidades onde fo­
Com respeito às instituições nas quais ram defendidas essas teses e dissertações têm
esses-trabalhos foram realizados, vemos que suas sedes em cidades nas quais ocorreram
boa parte dos estudos ocorreu na Universida­ experiências, com maior ou menor êxito, de
de Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), ampliação da participação dos cidadãos na
na Pontifícia Universidade Católica de São gestão pública, com a implantação dos con­
Paulo (PUC-SP) e na Universidade Federal de selhos municipais e do orçamento partici­
Pernambuco (UFPE). Um dado que chama pativo. A saber: Porto Alegre, Recife e São
a atenção é que, principalmente na UFRGS Paulo. ;

Figura 2
Produção Anual de Teses e Dissertações sobre
Democracias Participativas no Brasil (1989-2002)

I989 I990 I 99I I992 I993 I994 1995 I996 I997 I998 I999 2000 2 00I 2002

49
Figura 3
Principais Universidades com Teses e Dissertações sobre
Democracias Participativas no Brasil (1988-2002)

N o que tange aos autores desses traba­ âm bito das políticas participativas, assim
lhos, um dado im portante refere-se ao gêne­ como sobre a intervenção dos m ovim entos
ro de sua autoria. Sobre isso é válido desta­ de mulheres nessas instâncias.
car que, num a sociedade capitalista cerceada Mesmo existindo, nos últim os anos, um
por desigualdades dos mais diferentes tipos, crescimento dos trabalhos dedicados à ges­
a percepção da divisão sexual dos.autores nas tão participativa, é inegável que m uito p o u ­
áreas de conhecim ento não pode ser consi­ co se tem avançado na análise dos efeitos das
derada um a preocupação menor, na medida democracias participativas sobre as desigualda­
des políticas geradas por fatores extra-econô-
em que, entre outras coisas, ela contribui para
micos, como aqueles relacionados ao gênero,
um a radiografia do desenvolvimento da di­
à raça e etnia, à religiosidade ou à orientação
visão do trabalho no espaço acadêmico.
sexual. D entre as exceções, destaca-se Gênero
Ao analisarmos os dados coletados, é per­
e raça no processo do orçamento participativo:
ceptível o predom ínio de mulheres, autoras
Santo André, 1997-1998, dissertação a p re -.
de teses e dissertações sobre os processos par­
sentada na PUC-SP, em 1999, por M atilde
ticipativos de gestão pública. N ão obstante,
Ribeiro. Esse é um dos poucos trabalhos
o tem a da participação da m ulher nas de­ que, a partir de um estudo sobre os integran­
mocracias participativas é um a das grandes tes do processo de orçam ento participativo
ausências nos enfoques dos trabalhos ana­ na cidade de Santo André, questiona as for­
lisados. Dessa maneira, fica praticam ente im­ mas como as relações de gênero e raça são in­
perceptível o questionam ento sobre a exis­ corporadas às políticas públicas municipais
tência de desigualdades entre os sexos no participativas.

50
Figura 4
Autores de Teses e Dissertações sobre Democracias Participativas
no Brasil, por Sexo (1988-2002)

Considerações Finais rém, no m om ento em que a m aior parte dos


estudantes de pós-graduação de mestrados e
Para concluir, ressaltamos o caráter ain­ doutorado se concentra num único tema, in­
da em brionário dessa pesquisa e as dificulda­ d ubitavelm ente acaba ocorrendo um em ­
des em obter informações precisas sobre o pobrecim ento das pesquisas no setor, con­
conjunto das teses e dissertações a respeito siderando que análises sobre outras formas
do assunto, apesar da colaboração dos cole­ possíveis de participação dos cidadãos na ges­
gas envolvidos com esse campo de produção tão pública tendem a ficar à margem da pro-'
acadêmica. dução científica.
D o verificado até aqui, chama a atenção Esse fenôm eno ganha maior repercussão
o grau de aglutinação da produção temática se somarm os o fato de que grande parte dos
abordada. C om o se pôde perceber, a produ­ trabalhos sobre o orçam ento participativo
ção acadêmica está bastante concentrada re­ aborda o caso de Porto Alegre, precisamente
gionalm ente em estudos sobre um reduzido a experiência mais bem sucedida na aplica­
núm ero de experiências locais. Em termos ção da proposta em questão. N ão que os es­
temáticos tam bém há um a aglutinação de te ­ tudos sobre essa cidade não sejam im p o r­
ses e dissertações sobre um único assunto: o tantes e não contribuam para o avanço da
orçamento participativo. Isso é evidente, e não investigação do tema; porém, faltam traba­
deixa de ser compreensível e justificável, po­ lhos sobre experiências de desenvolvimento

51
do orçamento participativo em condições não do que sim plesm ente m udar as estruturas de
tão favoráveis quanto às de Porto Alegre, co­ adm inistração do Estado.
mo, por exemplo, em pequenas cidades do in­ Por fim, gostaria de acrescentar que o de- ,
terior do Brasil, onde os recursos econômicos bate sobre a contribuição das experiências
e administrativos são precários e os movimen­ de gestão participativa para a transformação
tos sociais parcam ente organizados. das estruturas de poder do Estado vem cres­
Do mesmo modo, na coleta realizada há cendo não só no Brasil, mas em diferentes
poucos trabalhos comparativos e, em m enor regiões do planeta, considerando que, atual­
núm ero ainda, dissertações e teses que abor­ mente, existem projetos de democracias par­
dem as políticas participativas de um prisma ticipativas em pleno desenvolvim ento na
diferenciado da análise política formal, tra­ maior parte da América Latina, em diversas
tando, por exemplo, de aspectos relaciona­ regiões da África e da Ásia, assim como na Eu­
dos às questões culturais, de gênero, de op­ ropa e na América do Norte. Desta forma, este
ção sexual, de raça ou etnia. A ausência dessas levantamento de teses e dissertações visou a
análises não se justifica, um a vez que a inser­ contribuir para a expansão das pesquisas so­
ção dos problem as da vida cotidiana pode­ bre esta temática, assim com o para o fortale­
riam potencializar a abertura de horizontes cim ento dos vínculos da produção acadêm i­
para a investigação de várias dessas experiên­ ca universitária com o desenvolvimento da
cias dem ocráticas que almejam m uito mais cidadania em nosso país.

Notas

1. Mesmo reconhecendo as perdas acarretadas por esse fenômeno, não podem os esquecer
que foi o P r, articulado com diversas organizações da sociedade civil, um dos responsáveis
pelas alterações relacionadas com a descentralização das políticas sociais na C onstituição
de 1988, form ando um a das bases do que atualm ente chamamos de ampliação da partici­
pação dos cidadãos na gestão do Estado.
2. Para com por este trabalho, foram utilizadas três fontes de coleta de dados. Inicialmente,
realizei um levantam ento de informações no Instituto Brasileiro de Informação em C iên­
cia e Tecnologia (Ibict) e no Banco de Teses e Dissertações da Coordenação de Aperfei­
çoam ento de Pessoal de Nível Superior (Capes), nos quais estão registrados os resumos
das teses e dissertações produzidos nos cursos integrados no sistema oficial de avaliação da
pós-graduação brasileira. A partir disso, fiz contato com todos os coordenadores de cursos
de pós-graduação das áreas de ciências hum anas e sociais, requerendo o envio de inform a­
ções sobre teses e dissertações defendidas sobre os temas pesquisados. Ademais, houve
contato direto com vários pesquisadores que, interessados em contribuir com esta propos­
ta de revisão bibliográfica, enviaram os textos completos das suas pesquisas.
3. Em term os quantitativos, a experiência participativa na cidade de Porto Alegre foi objeto
de análise de 23 trabalhos de pós-graduação; a de São Paulo de oito trabalhos; e a de Recife
tam bém de oito.

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Resumo

O impacto das democracias participativas na produção acadêmica no Brasil: teses e dissertações


sobre a questão (1988-2002) .

Nas últimas décadas, várias das mudanças que vêm ocorrendo na gestão dos Estados dem ocrá­
ticos indicam que tem havido maior envolvimento dos cidadãos com a política pública em
nível local. Essa constatação tem estimulado inúmeras investigações que visam analisar o seu
im pacto sobre a sociedade. N este artigo, realizo um a revisão bibliográfica das dissertações e
teses que versam sobre essa maior participação dos cidadãos na gestão pública, e destaco, den­

59
tre outros aspectos, as temáticas que abordam. Pretendo, com isso, contribuir para a divulga­
ção e expansão desses estudos, assim como para o desenvolvimento das práticas democráticas
no país.

Palavras-chave: Democracias participativas; Participação popular; Cidadania.

Abstract -

The impact o f participative democracies on the academic production in Brazil: papers and disserta­
tions on the matter (1988-2002)

M any o f the changes that have been seen in the m anagem ent o f the dem ocratic States show a
greater involvement o f citizens with public politics at a local level. T his finding has stim ulated
countless investigations seeking to analyze its impact on society. T his article presents a biblio­
graphic review o f dissertations and papers about such greater participation o f citizens in public
m anagem ent. It also highlights, am ong other issues, the topics that have been approached. In
doing so, it aims at contributing for the divulgement and expansion o f such studies, as well as
developing dem ocratic practices in the country.

Keywords: Participative Democracies; Popular participation; Citizenship.

Résumé

L’impact des démocratiesparticipatives sur la production académique au Brésil: thèses et dissertations


sur le sujet (1988-2002)

Au cours des dernières décennies, la gestion des Etats dém ocratiques a souffert de nombreuses
modifications. Elles indiquent une plus grande participation des citoyens dans la politique
publique au niveau local. Cette constatation a stimulé de nombreuses recherches, qui ont
analysé leur im pact sur la société. Dans cet article, nous proposons une révision bibliographi­
que des dissertations et des thèses qui portent sur cette participation accrue des citoyens dans
la gestion publique. N ous nous sommes attachés, parmi d'autres aspects, sur les questions
qu’elles abordent. N otre but est de contribuer à la divulgation et à l’expansion de ces études
ainsi qu’au développem ent des pratiques dém ocratiques au Brésil.

M ots-clés: D émocraties participatives; Participation populaire; Citoyenneté.

60
Política Comparada: Um Mapeamento do Debate entre
Propostas Teóricas e Metodologias de Pesquisa Alternativas*

Simone Bohn

Desde pelo menos a década de 1960, tem gias de pesquisa para a produção de estudos
havido um a intensificação na produção de científicos, há, no seio das ciências sociais,
estudos comparativos em ciência política (e um a concordância geral de que sua aplicação
tam bém em sociologia e antropologia), so­ nesse campo do conhecim ento é inapropria-
bretudo na literatura anglo-saxã. De fato, um da. Isso porque a m etodologia experimental
núm ero bastante significativo de trabalhos usualmente se baseia na premissa de que, na
contem porâneos de grande qualidade empre­ busca da causa dos fenômenos, é possível iso­
ga a análise com parada.1Além disso, alguns lar dois conjuntos de eventos —um exposto a
fenôm enos sociais —tais como o estabeleci­ um determinado estímulo (grupo experimen­
m ento de regimes autoritários, transições em tal) e outro não (grupo de controle) - , obser­
direção à democracia, implementação de po­ var suas similaridades e, em seguida, aceitar
líticas de liberalização da economia - também ou rejeitar o papel do estímulo na produção
ajudaram a fom entar estudos comparativos. dos fenômenos estudados (Van Evera, 1997,
Apesar do uso recorrente da análise com ­ p. 51).2 A imensa com plexidade dos fenô­
parada, poucos são os pontos consensuais no menos sociais (Weber, 1991 e 1993) torna ir­
que se relere à m etodologia de pesquisa e às realista essa premissa do m étodo experim en­
diferentes soluções para as suas principais tal, um a vez que (1) há um sem -núm ero de
debilidades. Pelo contrário, há um debate variáveis envolvidas na ocorrência de um
profícuo em torno de propostas de m eto­ fenômeno social específico e (2) que a reali­
dologias distintas. O objetivo deste artigo é dade social não é manipulável, ou seja, nem
m apear os principais pontos desse debate; sempre é possível sim ular as características
descrever a especificidade da análise com pa­ próprias a um experim ento.3 H á outras me­
rada, suas principais vertentes, procedim en­ todologias de pesquisa, no entanto, que ten­
tos metodológicos, vantagens e insuficiências. tam se aproxim ar da lógica básica do m éto ­
do experimental, dentre as quais, o método
comparativo.
Política Comparada: um De acordo com Lijphart (1971), a aná­
Mapeamento de Definições lise comparativa não se reduz a um a técnica
de pesquisa.4 Pelo contrário, trata-se de um
Embora o método experimental seja per­ conjunto de metodologias ou estratégias de
cebido com o um a das mais profícuas estraté­ pesquisa que se utiliza do estudo de contex-

* A análise bibliográfica que deu suporte a este artigo contou com o apoio financeiro de um a
bolsa de Pós-D outorado da Fapesp.

BIB, São Paulo, n° 59, Io semestre de 2005, pp. 61-80.' 61


tos societários diferentes (em um a ou várias rativa, um a vez que está se utilizando de um a
de suas dimensões: política, econômica, so- unidade macrossocial (uma sociedade con­
ciai, cultural, valorativa) para validar ou re­ creta, a Grã-Bretanha) para a explicação de
jeitar hipóteses.5 Apesar de essa definição um fenômeno social (a relação entre estrutu­
minim alista ser consensual, há divergências ra social e escolha partidária). Segundo Ra­
na definição do que sejam contextos societá­ gin, o mesmo trabalho perderia o status de
rios diferentes. • análise com parada se concluísse que a forte
Alguns autores aceitam a idéia de que associação entre “classe social” e “preferência
estudos longitudinais de um mesmo país pos­ partidária” na Grã-Bretanha se deve ao fato
sam ser categorizados com o análises com ­ de os cidadãos votarem cóm seus bolsos (isto
parativas (Idem). Para outros, análises compa­ é, com base na avaliação sobre o desem pe­
rativas têm que necessariamente envolver o nho econômico de adm inistrações passadas)
exame de pelo m enos dois países (Armer, ou ao fato de “as relações de produção m ol­
1973; Collier, 1993; Verba, 1973). H á ou­ darem a consciência política” {Idem, p. 5).
tros ainda, com o Ragin (1987), que consii- Nesses dois últim os casos, o padrão explica­
deram tam bém trabalhos com parativos os tivo prescinde da referência a unidades m a­
estudos que contrastam um a situação con­ crossociais concretas.
creta (por exemplo, a ocorrência de um a revo­ Essas considerações de Ragin servem
lução camponesa em determ inado país num para ilustrar um outro ponto contencioso.
período histórico específico) com modelos abs­ N a verdade, esse é o tópico em torno do qual
tratos (teorias sobre revoluções camponesas). boa parte do debate se organiza. Trata-se dos
Existem controvérsias tam bém no que se objetivos finais da análise.
refere à unidade de análise. Segundo Apter Para Przeworski e Teune (1970), a aná­
(1973), estudos comparativos podem traba­ lise com parada, com o todos os campos das
lhar tanto com macro com o com microuni- ciências sociais, não só pode com o deve ter.
dades. O u seja, as unidades comparadas não como objetivo primordial a elaboração do que
precisam necessariamente ser sociedades na­ eles consideram proposições “nom otéticas”,
cionais ou países, podem ser desde “civiliza­ ou seja, teorias que, apesar de terem sido cons­
ções, sistemas m undiais, sistemas cülturais, truídas com base em casos concretos, pos­
[até] instituições, grupos, organizações, co­ suem validade que não se lim ita a um único
m unidades” (Skocpol, 1984b, p. 388). Para contexto societário historicam ente definido.
Ragin, o que distingue a ciência social com ­ Desse m odo, de acordo com os argum entos
parada é “seu uso de atributos das unidades desses dois autores, no exemplo acima tecido
macrossociais nas explicações” (1987, p. 5): por Ragin, além de testar a associação entre
isto é, o. fato de o contexto societário em que “classe social” e “preferência partidária” na
o fenôm eno se desenvolve ser im portante na Grã-Bretanha, o pesquisador deveria esten­
explicação da ocorrência do mesmo. De acor­ der o estudo e com parar sociedades indus­
do com esse últim o autor, quando um estu­ triais e não-industriais com o objetivo de ana­
dioso afirma, por exemplo, que existe uma lisar a proposição teórica genérica de que “em
forte associação entre “classe social” e “prefe­ sbciedades industriais, há um a forte associa­
rência partidária” na Grã-Bretanha porque a ção entre estrutura social e escolha partidá­
sociedade britânica é industrial, esse pesqui­ ria”. Em outros termos, segundo Przeworski
sador está realizando um a pesquisa com pa­ e Teune (1970), o objetivo dos estudos ci­

62
entíficos, tam bém nas ciências sociais, é bus­ tanto, rejeita que a segunda perspectiva -
car padrões explicativos que ao mesmo tem ­ extremam ente eclética do ponto de vista teó­
po incorporem (na coleta de dados) e trans­ rico - seja derivada apenas das contribuições
cendam (na análise) o contexto no qual o weberianas.
fenôm eno explicado ocorre. O objetivo da próxima seção é descrever
Perspectiva antagônica transparece em brevemente as diferenças na estrutura do de­
Skocpol (1984a), Collier (1993), G oldstone senho de pesquisa de ambas as tradições.
(1997), Rueschemeyer e Stephens (1997),
M u n c k (1998), M cK eow n (1999), T illy
(2001), para quem o traço distintivo dos estu­ Análise Comparada Quantitativa
dos com parados consiste em sua capacidade e Qualitativa
de capturar cadeias causais de macroproces-
sos sociais em contextos societários diferen­ De acordo com Heckser (1963), Lijphart
tes, sem neglicenciar o papel desempenhado (1971), G oldthorpe (1997a, 1997b) e sobre­
pelas especificidades históricas de cada caso. tudo King, Keohane e Verba (1994), a lógica
Pelo contrário, a principal vantagem do com- da inferência causal em análises científicas nas
parativista, de acordo com essa segunda pers­ ciências sociais deve obedecer aos mesmos
pectiva, consiste, não em sua capacidade de princípios, independentem ente da tradição
tecer explicações potencialmente a-históricas, de pesquisa. Alguns autores —como G olds­
mas em seu profundo conhecimento dos casos to n e (1 9 9 7 ), R u esch em ey er e S tep h en s
examinados, o que lhe permite isolar cadeias (1997), M unck (1998), McKeown (1999) -
causais e, ao mesmo tem po, reconstituir, em advogam em torno da especificidade de al­
detalhes, eventos e circunstâncias que, ape­ guns problem as enfrentados por pesquisas
sar de serem historicam ente delimitadas (em comparadas qualitativas.
term os de espaço e tempo), contribuíram de­ Análises ^científicas nas ciências sociais,
cisivamente para a ocorrência do fenômeno segundo King, Keohane e Verba (1994), de­
social examinado. O u seja, trata-se de um de­ vem obedecer a um a série de princípios que
senho de pesquisa que, em bora não ignore, regulam fases distintas da pesquisa.8 N o que
não concede primazia à m eta de elaboração se refere à escolha do problem a de pesquisa,
de proposições teóricas genéricas. o objeto a ser estudado tem que se basear n u ­
D e acordo com Skocpol (1984a), a se­ ma questão socialmente relevante que dia­
g u n d a perspectiva surgiu em resposta às in­ logue com e contribua para o aperfeiçoamen­
suficiências do estruturalism o a-histórico, to de um segmento específico da literatura.
cujo trabalho mais representativo é Parsons Modelos ou esquemas teóricos, que susten­
(1951). LaPalombara (1968), apesar de cri­ tam as hipóteses examinadas, precisam ser
ticar profundam ente o chamado funciona­ falsificáveis (passíveis de serem testados e,
lismo estrutural, aponta para as contribuições sobretudo, invalidados9) (Kalleberg, 1966),
deste para as abordagens (e as estratégias de in te rn am e n te coerentes (não pode haver
pesquisas) que o sucederam .6 Para Ragin e subhipóteses e proposições que contradigam
Zaret (1983), por sua vez, as duas m etodolo­ umas as outras) e eficientés (baseados no
gias descritas são legatárias das tradições de m enor núm ero possível de variáveis explica­
pesquisa popularizadas, respectivam ente, tivas10). Além disso, as teorias devem prover
por D urkheim (1978a, 1978b, 1982, 1989) soluções para dois problem as potenciais que
e W eber (1981). Skocpol (1984b), no en­ afetam a pesquisa científica. O prim eiro de­

63
les é a questão da “endogeneidade”: a possi­ Se um analista está interessado nas circuns­
bilidade de que a variável explicativa seja con­ tâncias que levam à ocorrência do evento ‘X ’,
seqüência e não causa da variável dependen­ deve tam bém observar as circunstâncias em
te." Um segundo problem a refere-se ao viés que ‘X ’ norm alm ente não está presente.
da variável om itida: à possibilidade de que o Já durante o processo de coleta de da­
modelo teórico exclua variáveis im portantes dos, o pesquisador, segundo King, Keohane
para a explicação do fenômeno analisado.1’ e Verba (1994), deve levar em consideração
N o que tange à escolha da amostra, ain­ o problem a de validade tanto das medidas
da de acordo com King, Keohane e Verba empregadas como dos conceitos utilizados
(1994), o pesquisador deve atentar principal­ (Armer, 1973; Adcock e Collier, 2001). Por
m ente para os problem as de m ulticolinea- exemplo, um a pesquisa que objetive com ­
ridade e de viés de seleção. A multicolineari- parar, em nações diferentes, a participação
dade ocorre quando um a variável explicativa política utilizando-se dos níveis de com pare-
está perfeitam ente correlacionada com outra cim ento eleitoral m uito provavelmente pa­
variável independente tam bém incluída no decerá do problem a de falta de validade das
modelo (ou seja, quando as variações em uma medidas empregadas, um a vez que o voto
são perfeitam ente explicáveis pelas variações pode ser um a indicação do nível de partici­
da o utra).13 Esse problema.torna o modelo in­ pação política em algumas sociedades, mas
determ inado, na medida em que é impossível não necessariamente em países nos quais a
distinguir o efeito das variáveis explicativas. participação no processo eleitoral é com pul­
. N o que se refere à escolha dos casos, o sória. O u seja, o voto pode m ensurar fenô­
procedim ento ideal, caso seja viável, é a sele­ menos distintos em sociedades diferentes. O
ção aleatória da amostra. O pesquisador deve mesmo aplica-se aos conceitos utilizados nas
evitar a escolha deliberada de casos que ne­ pesquisas - eles podem assumir diferentes sig­
cessariamente validarão a hipótese (Lieber- nificados nos diversos contextos societários
son, 1985; Geddes, 1990). De acordo com com parados. Além do cuidado para evitar
King, Keohane e Verba (1994), o critério esses dois problemas, a coleta de dados deve
fundam ental para se evitar o problema do viés envolver mecanismos que, em prim eiro lu­
de seleção é basear a escolha dos casos na(s) gar, possam ser reproduzidos por outros pes­
variável(is) explicativa(s). É vital que haja quisadores e que, caso efetivam ente sejam
variação nessas últimas. Se o modelo teórico reproduzidos por outros analistas, levem à
estabelece, por exemplo, que “a industriali­ compilação de dados idênticos.
zação provoca a m elhora dos níveis educacio­ Por fim, no decorrer da análise dos dados,
nais em um a sociedade”, o analista tem que o pesquisador deve explicitam ente m encio­
incluir, em seu estudo, tanto países industria­ nar os problemas de seleção e a m agnitude
lizados (ou altam ente industrializados) como de eventuais erros de mensuração envolvidos
nações não-industrializadas (ou preponderan­ na pesquisa. Deve, ainda, revisitar o modelo
tem ente agrárias). Igualm ente im portante é teórico, tecer considerações inequívocas a res­
variação na variável dependente, ou seja, no peito do confronto entre teoria e evidência e
caso de um pesquisador que se interessa, por evitar testar teorias com os mesmos dados com
exemplo, pelo fenômeno da abstenção elei­ os quais elas foram construídas.
toral, é fundam ental que ele selecione tanto M uitos analistas com parativos concor­
votantes que não com pareceram às urnas, dam que boa parte desses princípios é apli­
com o os eleitores que efetivamente votaram. cável a qualquer tradição de pesquisa. É ine­

64
gável, no entanto, dizem eles, que haja dife­ muitas vezes a am ostra pequena é decorrên­
renças fundam entais em pesquisas com para­ cia direta da natureza dos fenôm enos polí­
tivas quantitativas e qualitativas.1-4 Essas d i­ ticos investigados (revoluções, por exemplo,
ferenças não se resumem som ente ao fato de não são eventos que acontecem em um gran­
as pesquisas com paradas qualitativas usual­ de número de casos). As proposições resultan­
m ente se basearem em amostras de tam anho tes da análise dos casos selecionados norm al­
pequeno,-enquanto as quantitativas traba­ mente são determinísticas, isto é, claramente
lham com am ostras grandes. apontam causas para os fenôm enos exami­
Pesquisas q u antitativas norm alm en te nados. São usualm ente variantes do seguinte
realizam um a seleção aleatória da am ostra e fraseado;- “se o(s) fator(es) A (A= a+b+c. ou
se utilizam de técnicas estatísticas para verifi­ A - a+b, não c)'está(ão) presente(s), então o
car a existência de associações entre as variá­ evento Y ocorrerá” (Lieberson, 1991). Com o
veis. Se um analista está interessado em en­ afirma Van Evera, “ [d]e maneira geral, os m é­
tender, por exem plo, o apoio popular ao todos baseados em am ostras grandes nos
sistema dem ocrático em países de transição dizem mais se as hipóteses são válidas do que
dem ocrática recente, deve constru ir um a porque são válidas. O s estudos de casos reve­
am ostra de tam anho grande (com centenas lam mais porque são válidas” (1997, p. 55;
ou alguns milhares de indivíduos em cada grifos meus); Pesquisas comparativas quali­
país) e examinar o efeito de possíveis variá­ tativas, além disso, produzem considerações
veis explicativas (tais com o, à título de ilus­ de natureza com binatória: buscam co n ju n ­
tração, gênero, idade, renda etc.) sobre a va­ tos de elementos que, combinados, contribuí­
riável dependente. As proposições geradas ram para produzir determ inado fenôm eno
por esse tipo de tradição de pesquisa tendem social (Ragin e Z aret, 1983; G o ld sto n e,
a ser intrinsecamente probabilísticas (Gold- .1997).
thorpe, 1997a). Se, no exemplo, acima, uma Para King, Keohane e Verba (1994) e
regressão apontar que “quanto maior a ren­ tam bém para Lijphart (1971) e Przeworski
da, m aior a probabilidade de um cidadão e Teune (1970), pesquisas com parativas in­
apoiar o regime dem ocrático”, o analista não teiram ente qualitativas devem ser levadas a
está concluindo que renda elevada causa apoio cabo quando seja impossível agregar um a
à democracia, mas apenas que renda e atitu­ am ostra de tam anho grande a respeito da
de de apoio ao regime dem ocrático estão po­ variável dependente. O u seja, form am , para
sitivam ente associadas (ou que as variações esses autores, um a espécie de “segunda me­
na renda explicam boa parte das variações no lhor” estratégia.
apoio à democracia). De acordo com os autores acima e p rin ­
Já em pesquisas com parativas qualita­ cip alm en te G o ld th o rp e (1997a, 1997b),
tivas, nem sempre a seleção de casos é aleatória. pesquisas com paradas qualitativas sofrem de
Pelo contrário, usualm ente os dados são se­ sérios problem as m etodológicos. Em p ri­
lecionados com base na variável dependente: meiro lugar, figura a questão do tam anho
caso o pesquisador se interesse pelas condi­ pequeno da amostra. Essa característica, se­
ções que levam à irrupção de revoluções an- gundo eles, origina dois tipos diferentes de
ticapitalistas (comunistas ou socialistas) após deficiências: um a é estatística e a outra, subs­
a Segunda G uerra M undial, então, um n ú ­ tantiva. Por um lado, a am ostra reduzida di­
mero seleto de países figurará entre os casos m inui significativamente os graus de liber­
selecionados. C om o afirma Collier (1993), dade do modelo explicativo e o torna pouco

65
robusto, um a vez que há poucos casos e m ui­ refere-se à seleção da am ostra (King, Keoha-
tas variáveis independentes (Lijphart, 1971). ne e Verba, 1994, pp. 144-149). Para Lie­
Além disso, erros de mensuração ou invali­ berson (1991), a seleção de casos com vistas
dade de conceitos - problem as listados an­ ao aum ento da semelhança da variável de­
teriorm ente - são m uito mais devastadores pendente inexoravelmente produz distorções
nesses estudos do que em análises baseadas nos dados e torna os resultados da análise fi­
em amostras grandes (Lieberson, 1991). Por nal enviesados. Embora reconheçam que, no
outro lado, amostras de tam anho reduzido exame de determ inados fenômenos sociais,
lim itam, de maneira severa, o potencial expli­ um a seleção aleatória dos dados é im praticá­
cativo da investigação científica, um a vez que vel,16 para Przeworski e Teune, “ [njenhum a
o pequeno núm ero de casos impossibilita o pesquisa baseada em um desenho outro que
teste e o exame de explicações teóricas rivais a seleção aleatória multifasica.de todos os sis­
(Lijphart, 1971; Collier, 1993; G oldthorpe, temas sociais perm itirá [a elaboração de] ge­
1997a). ■ neralizações universais” (1970, p. 37). O u
Os defensores da superioridade da pes­ seja, de acordo com esses dois autores, pes­
quisa com parada quantitativa propõem dife­ quisas calcadas num a seleção não-aleatória da
rentes soluções para o problem a criado por amostra dificilmente contribuirão, de m anei­
am ostras de tam anho pequeno. Para G old­ ra significativa, para a m eta de criação de teo­
thorpe, trata-se menos de um problem a de rias generalizantes.
m étodo do que uma questão de “simplesmen­ A independência real dos casos consti­
te aum entar o núm ero de informações que tui-se em outra das deficiências das pesquisas
nós temos à nossa disposição para análise” comparativas qualitativas baseadas em amos­
(1997a, p. 8). Além dessa estratégia, Lijphart tras pequenas. Com o garantir que a ocorrên­
aponta para dois caminhos adicionais. O pri­ cia do evento investigado ‘X ’ nos países B e
meiro consiste na dim inuição do núm ero de C não foi influenciada pela ocorrência pio­
variáveis independentes, seja pela com bina­ neira do mesmo evento no país A?
ção de duas ou mais variáveis, seja pela re­ A falta de independência entre as ob­
dução do “núm ero de categorias nas quais servações, conhecida com o “problem a de
um a variáveb esteja dividida (por exemplo, G alto n ” (Przew orski, 1987; G o ld th o rp e,
por interm édio da simplificação de um con­ 1997a; Gerring, 2001), trata da questão da
jun to de categorias num a dicotom ia)” (1971, difusão de fenôm enos sociais e é p articu ­
p. 687). A segunda alternativa busca aum en­ larm ente aguda em pesquisas comparativas
tar a com parabilidade da amostra, m ediante ■ qualitativas baseadas em pequeno núm ero de
a escolha de casos que possuam característi­ casos. N o exemplo acima, em bora o pesqui­
cas semelhantes no que se referé às variáveis sador esteja trabalhando com três países, o
marginais à análise, mas que, ao mesmo tem ­ N (núm ero de casos) de fato pode ser apenas
po, apresentem diferenças significativas no 1 (e o núm ero de graus de liberdade, zero):
que tange às variáveis centrais para a pesqui­ ou seja, a ausência de independência entre as
sa.15 O u seja, trata-se, conform e Stinchcom- observações reduz ainda mais o tam anho da
be (1978), de se utilizar da estratégia de “ana­ am ostra (Przeworski e Teune, 1970, p. 52).
logia profunda”. Torna-se difícil saber se o fenôm eno obser­
O segundo problem a apontado pelos vado resulta de difusão ou de qualquer outro
críticos de pesquisas comparadas qualitativas padrão de relações. Em situações como essa,

(,6
é fundamental que o pesquisador leve em con­ O Problema do Pequeno
sideração que pode estar diante de dois fenô­ Número de Casos
menos. A explicação para a ororrência de ‘X ’
no país A terá que ser diferente da explicação C onform e mencionado anteriorm ente,
para a ocorrência do mesmo fenôm eno em B a própria natureza de alguns fenôm enos so­
e C (no caso desses dois.últimos países, o efei­ ciais (como, por exemplo, guerras,, revoluções
to de. um a variável adicional - a ocorrência etc.) clama pela realização de estudos que
pioneira do evento ‘X' no país A - terá que necessariamente se baseiam em pequeno n ú ­
ser incluído).1 De acordo com G oldthorpe mero de casos (Collier, 1993). Além disso,,
(1997a) e G erring (2001), o “problem a de como reconhecem Przeworski eTeune (1970)
G alton” —originalm ente form ulado no cam­ e Lijphart (1971), m uitas vezes, informações
po da antropologia para pensar a questão da im portantes sobre o objeto de análise estão
difusão cultural —é com um ente encontrado indisponíveis - o que dificulta a formação de
em análises com parativas de políticas p ú ­ um a am ostra grande - ou sim plesm ente o
blicas, que enfrentam dificuldades para dis­ pesquisador não dispõe dos recursos neces­
tinguir se determ inadas políticas de alguns sários para agregar um a grande quantidade
países são resultados, por exemplo, da ação de dados.
de organismos internacionais (como o FM I, McKeown (1999) introduz dois outros
a O N U etc.) ou de um conjunto de fatores pontos. Em prim eiro lugar, segundo este au­
endógenos. tor, os críticos dessa tradição de pesquisa —
U m a últim a limitação de grande porte embora não King, Keohane e Verba (1994) -
que acomete as pesquisas comparativas qua­ cometem um equívoco ao considerar que um
litativas baseadas em pequeno núm ero de caso seja necessariamente igual a um a obser­
casos refere-se à questão da relação entre cria­ vação. O estudo de um determinado país po­
ção e teste de teoria, ou entre “lógica da des­ de gerar diversas observações: por exemplo,
coberta” e “lógica da falsificação”. Popper em vez de centrar a análise som ente no âm ­
(1975) e King, Keohane e Verba (1994) tra­ bito nacional, duas ou mais cidades, estados,
tam os dois pólos como atividades ontolo- províncias e regiões diferentes podem ser u ti­
gicam ente distintas - são, além disso,, se­ lizados com o objetivo de am pliar a com pa­
qüenciais. Segundo G oldthorpe (1997b), o ração. Desse modo, nem sempre no estudo de
problem a no caso da tradição de pesquisas alguns poucos países, o número de graus de li­
com parativas qualitativas é que essas duas berdade é baixo, conform e alegado.18
atividades aparecem indiferenciadas. De Em segundo lugar, a visão negativa dos
acordo com este autor, “nós [os pesquisado­ estudos de casos advém do fato de seus críti­
res] devemos sempre tentar ser claros sobre cos considerarem que a lógica da inferência
quando estamos engajados em um a ou em causal - processo fundam ental na produção
outra” (Idem , p. 125; grifos do autor). do conhecim ento científico - é in eren te­
As considerações dos defensores da es­ m ente estatística. Esse segundo p o n to de
pecificidade das pesquisas comparativas qua­ McKeown talvez consista na mais sólida de­
litativas baseadas em pequeno núm ero de fesa de análises qualitativas baseadas em
casos apareceram em um sem -núm ero de ar­ amostras pequenas. Segundo ele, é funda­
tigos e livros. Os principais argum entos são mental que os pesquisadores levem em conta
reproduzidos a seguir. que a análise estatística, em bora im portante,

67
constitui-se “som ente em um a entre várias histórico específico pode originar o problema
considerações” (1999, p. 169). Vários outros de conceptual stretching (Sartori, 1970, 1981,
autores propuseram alternativas à inferência 1991, 1994), isto é, corre-se o risco de to r­
causal estatística que tam bém são profícuas nar as categorias conceituais tão elásticas que
para a m eta de produção e acumulação do elas se tornam pouco explicativas - apesar de
conhecim ento científico. serem aplicáveis a m últiplos contextos.
■ Finalmente, o argumento segundo o qual Para Collier (1993), o principal mérito
o pequeno núm ero de casos inviabiliza o exa­ das pesquisas comparativas qualitativas ba­
me de teorias rivais (G oldthorpe, 1997a), o seadas em amostras pequenas consiste em sua
que, por sua vez, torna a análise produzida “in­ atenção ao detalhe, em sua capacidade de
determ inada” (King, Keohane, Verba, 1994) desvendar macroprocessos (Skocpol, 1984a)
é com batido por Rueschemeyer e Stephens e, ao mesmo tem po, incorporar e “reservar
(1997). D e acordo com esses autores, a im ­ um papel chave para eve'ntos únicos e con­
portância da pesquisa baseada em um núm e­ tingentes” (Goldstone, 1997, p. 116). Além
ro reduzido de casos reside no fato de que, ao disso, segundo este últim o autor, o alto nível
reconstituir as seqüências históricas, o com- de complexidade das análises comparativas
parativista elimina determ inados grupos de qualitativas as tornam , em alguns casos, mais
causalidades e, ao fazê-lo, fortalece outros, o profícuas do que estudos baseados em am os­
que lhe perm ite não só analisar modelos teó­ tras grandes e que se utilizam de técnicas es­
ricos rivais, mas tam bém invalidar alguns tatísticas e de um a lógica indutiva, na m edi­
deles. De fato, segundo os defensores dessa da em que as primeiras são m elhor equipadas
tradição de pesquisa, a principal vantagem para captar as interações múltiplas próprias
dessa abordagem consiste em sua capacidade aos fenômenos sociais.
de identificar mecanismos causais essenciais
ao entendim ento do fenômeno social estuda­
do. Se os mecanismos causais identificados O Problema da Seleção dos Casos
são generalizáveis para outros contextos ou
não, isso já é objeto de outra investigação De acordo com King, Keohane e Verba
científica, segundo McKeown (1999). (1994), a seleção dos casos deve basear-se na
D e acordo com M unck (1998), é fun­ variável independente — a escolha de casos
dam ental enfatizar que as teorias, no caso das com base na variável dependente ou de casos
análises comparadas, são sensíveis ao contexto em que não há variação na variável depen­
dos casos a partir dos quais são produzidas. dente cria o problem a do viés de seleção e
O u seja, o fato de serem historicam ente situa­ torna os resultados da análise inapelavelmente
das impõe limites claros à generalização das tendenciosos ou imprecisos.
considerações teóricas produzidas por esse M unck (1998) concorda que todas as
tipo de análise. A atenção ao contexto, por­ tradições de pesquisa devem, na m edida do
tanto, reduz o potencial para a formulação de possível, levar em consideração o princípio
proposições “nom otéticas” (na linguagem acima. Ele contra-argum enta, no entanto,
de Przeworski eT eune, 1970). O argum en­ que análises calcadas num desenho de pes­
to de M unck (1998) vai além, no entanto. quisa sem variação na variável dependente
Para este autor, a tentativa de se generalizar {no-variance design) são extrem am ente ricas
para outros contextos conceitos teóricos pro­ e im portantes para a acumulação do conhe­
duzidos a partir do exame de um contexto cim ento nas ciências sociais, um a vez que,

68
antes de elencar os elementos que explicam a análise - apesar de se basear num a am ostra
variação de um fenôm eno social, é funda­ truncada e possivelmente não representativa
mental, em prim eiro lugar, entender ás ra­ de toda a população de casos (Collier e M aho­
zões de sua existência. Portanto, de acordo ney, 2001) - se constituiria num a im portan­
com M unck (1998), apesar de esses desenhos te contribuição, científica em virtude da im­
de pesquisa carecerem de qualquer potencial portância (ou do valor crítico ou'extrem o) do
generalizante (ou seja, as proposições elabo­ caso examinado.
radas são válidas som ente no estreito limite
dado pelos casos examinados), eles consti­
tuem ur a etapa im portante do processo de A Independência dos Casos
investig; ;ão científica. e o Problema da Endogeneidade
Ro^ iwski (1995) argum enta de m anei­
ra similí '. Para ele, mesmo o estudo de um O problem a de G alton — ou a questão
único c; o pode ser extrem am ente útil para da difusão versus independência real dos ca­
as ciênc is sociais. Por exemplo, um estudo sos examinados —recebe solução mais adequa­
de caso >..ue desconfirmasse, de maneira ine­ da em análises comparadas históricas, segun­
quívoca, i validade da “lei de ferro da oligar­ do os praticantes dessa tradição de pesquisa.
quia’” (J ichels, 1962) teria um enorm e va­ D e acordo com Rueschem eyer e Ste­
lor ciem fico, apesar de a seleção do caso se phens (1997), ao reconstituir seqüências his­
basear r. i variável dependente e não haver tóricas, o analista com parativo (com conhe­
v ariação/'1O u seja, Rogowski (1995) chama cim ento detalhado do contexto — que só é
a atenção para o im portante papel - negligen­ possível quando poucos casos são exam ina­
ciado por King, Keohane e Verba (1994) - dos) é perfeitam ente capaz de dim ensionar e
exercido por análises baseadas em único caso, isolar o impacto da difusão sobre o fenôm e­
mas cujos resultados nos levam inapelavel- no social estudado. Por exemplo, em seu es­
m ente a concluir que determ inadas teorias, tudo sobre a relação entre desenvolvimento
antes aceitas, precisam ser revistas. capitalista e democracia, Rueschemeyer, Ste­
Finalm ente, McKeown (1999) aponta phens e Stephens (1992) encontraram um a
para mais um a questão neglicenciada por forte associação entre colonização britânica
King, Keohane e Verba (1994): eles não men­ e ocorrência de democracia. A princípio, os
cionam a utilidade e, consequentem ente, a autores assum iram estar diante de um fe­
im portância de estudos cujos casos são se­ nôm eno de difusão: ou seja, a colonização
lecionados em virtude de seus valores con­ britânica faz com que os órgãos coloniais as­
siderados “críticos” ou “extrem os”. Com o similem a tradição de dem ocracia represen­
assinala Van Evera (1997), quando um pes­ tativa. O exame de alguns países colonizados
quisador deseja testar proposições teóricas pela Grã-Bretanha, no entanto, revelou que
claram ente definidas, em algumas situações, a ocorrência de regimes dem ocráticos nesses
a seleção de um único caso com valor extre­ casos não é um a derivação direta do colonia­
mo pode ser bastante profícua. Por exemplo, lismo britânico. N o caso das índias O cid en ­
se um estudo dá A lem anha (no período de tais, por exemplo, a reconstituição histórica
1939-1945) invalidasse de maneira decisiva revelou que, na verdade, as elites coloniais
a hipótese de que “a participação na guerra foram um óbice e não um estímulo à adoção
causa um a severa dim inuição do PIB”, essa de instituições representativas (foram contrá-

69
rias, por exemplo, à extensão do sufrágio). King, Keohane e Verba (1994, p. 86),
Em outras palavras, não é possível falar em no entanto, criticam o uso desse procedim en­
difusão nesse caso específico. Esse exemplo to para deslindar a direção da causalidade:
serve para ilustrar que o problem a de Galton segundo eles, na busca de causas e seus efei­
pode, portanto, ser facilmente contornado: tos, “esta abordagem rapidam ente conduz a
requer apenas que o pesquisador tenha um um a regressão infinita”. O utros autores, como
conhecim ento histórico aprofundado dos M unck (1998), criticam essa consideração.
casos com os quais trabalha.21 McKeown (1999), por exemplo, advoga que
O projplema da validade dos conceitos e a utilização da técnica de reconstituição de
das medidas empregadas na comparação tam ­ cadeias causais {game trees) próprias à teoria
bém é mais facilmente resolvido por pesqui­ dos jogos consiste num im portante m eca­
sas qualitativas, segundo M unck (1998), em nismo para lidar com a questão da endoge­
virtude d o conhecim ento profundo que os neidade, sem levar a um a regressão ad infi­
analistas possuem a respeito das sociedades nitum , já que o malista decide o limite até o
que estudam . Por exemplo, um pesquisador qual o processo precisa ser rastreado.
interessado no im pacto do prestígio das pro­ Portanto, a objeção de King, Keohane e
Verba de que a tentativa de descrever os me­
fissões sobre a mobilidade social no Brasil e
canismos causais em um a situação concreta
no Japão^eertamente categorizará a profissão
leva a explicações que em princípio são infi­
de chef de maneira diferente (um a vez que
nitam ente longas é irrelevante, um a vez que
essa é um a ocupação altam ente prestigiosa na
as explicações não objetivam ser completas,
sociedade japonesa). Assim, term os aparen­
mas m eram ente responder à questão form u­
tem ente equivalentes podem , na verdade, as­
lada pelo pesquisador (McKeown, 1999, p.
sum ir significados bastante distintos. A fa­
177).22
m iliaridade com os contextos societários
com parados, portanto, reduz, na ótica de
M unck (1998), a probalidade de elaboração
Criação e teste de teoria
de conceitos ou do uso de medidas não-equi-
valentes.
Vários autores criticam a separação es­
U m conhecim ento minucioso dos pro­ trita entre construção e validação de teoria,
cessos históricos vivenciados pelos casos tal como aparece em trabalhos de inspiração
tam bém é fundam ental na superação do pro­ popperiana com o os de King, K eohane e
blema da endogeneidade (questão que ocor­ Verba (1994) eG oldthorpe (1997ae 1997b).
re quando a variável independente é conse­ De acordo com Rueschemeyer e Stephens
qüência e não causa da variável dependen­ (1997), analistas interessados em desvendar
te). Para M unck (1998), McKeown (1999) e as cadeias causais de um fenôm eno social ini­
Rueschemeyer e Stephens (1997), a técnica ciam suas investigações com um conhecim en­
de “rastreamento de processos” (process tracing), to de explicações teóricas prévias e escolhem
sugerida por George e M cK eo w n '(1985), casos a respeito dos quais têm um m ínim o
perm ite que o pesquisador resolva elegan­ de familiaridade. Por um lado, é irrealista, de
tem ente o problem a de endogeneidade. Isso acordo com esses dois autores, “dem andar que
porque a reconstituição m eticulosa da se­ as hipóteses desenvolvidas em pesquisas qua­
qüência de um- processo histórico clarifica litativas sejam testadas em casos novos a res­
inequivocam ente a direção da causalidade. peito dos quais não se sabe nada previam en­

70.
te” (1997, p. 68). Por outro lado, Ruesche- dida à problem ática de teste de teoria e no
meyer e Stephens consideram um procedi­ conseqüente negligenciam ento da questão
m ento totalm ente legítimo começar a inves­ da construção de teorias, com o se “o proble­
tigação com um modelo teórico rudim entar ma intelectual fundam ental enfrentado pela
e refiná-lo no confronto com as evidências disciplina [ciência política]” fosse a existên­
concretas. N ão se trata de modificar indefi­ cia de “um imenso acúm ulo de teorias atra­
nidam ente o modelo de m odo que ele con­ tivas e altam ente desenvolvidas à espera de
temple casos que, a princípio, o contradigam. teste” (McKeown, 1999, p. 183). De acordo
Pelo contrário, segundo esses autores, trata- com essa perspectiva, o teste de hipóteses deve
se de iniciar a pesquisa com hipóteses sim­ ser visto como um a etapa im portante, mas
ples e de complexificá-las em resposta às ca­ apenas com o uma das etapas do processo de
racterísticas dos casos estudados. acum ulação do co n h ecim en to científico.
O utros autores tam bém concordam que Igualm ente im portante é a identificação de
a lógica da descoberta e da falsificação es­ mecanismos causais que possibilite, em pri­
tão mais interconectadas do que o concedido meiro lugar, a construção de teorias —cujas
por trabalhos como King, Keohane e Verba proposições podem ou não ser confirmadas
(1994). Para M cKeow n, “teorias sugerem em estudos posteriores.
dados a serem adquiridos, ao mesmo tempo
em que dados sugerem teorias a serem inves­
tigadas - um não é logicamente anterior ou Considerações Finais
dependente [da realização] do outro” (1999,
p. 176). O processo de pesquisa, de acordo O objetivo desse artigo foi salientar que,
com este autor, deve ser entendido como uma a despeito da popularização de análises com ­
espécie de ciclo entre (re)formulação e ava­ parativas nas ciências sociais - facilitada, en­
liação de teoria. tre outros fatores, pela emergência de certas
• Um outro ponto im portante a ser salien­ temáticas que propiciam abordagens com pa­
tado, segundo os defensores das pesquisas radas - , há um dissenso considerável no que
com paradas qualitativas, é que a teorização se refere a questões metodológicas.
adhoc tam bém acontece em pesquisas quan­ Alguns trabalhos, como os de Przeworski
titativas com paradas baseadas em amostras e Teune (1970), L ijphart (1971), G erring
grandes. Diversas técnicas estatísticas - como, (2001), mas sobretudo King, Keohane e Ver­
entre outras, a técnica H endry/LSE e a m o­ ba (1994), propuseram um a espécie de guia
delagem que se utiliza do teste de Lagrange de desenho de pesquisa com o objetivo de
(R am anathan, 1998) - possibilitam que a fazê-lo balizar o processo de produção e
construção do modelo seja sim ultânea à aná­ acumulação de conhecim ento científico nas
lise dos dados. A diferença, de acordo com ciências sociais. Trata-se, principalm ente no
Rueschemeyer e Stephens (1997, p. 69), é caso do últim o trabalho citado, de um a com ­
que “a pesquisa é escrita como se isso não pilação de princípios de inferência causal que,
acontecesse”. segundo seus autores, devem ser observados
McKeown (1999) aponta para um a ou­ a fim de que pesquisas realmente científicas
tra dimensão desse debate. Segundo ele, um a possam ser elaboradas.
•das principais deficiências de guias de dese­ N o coração do guia de desenho de pes­
nho de pesquisa como King, Keohane e Ver­ quisa proposto por King, Keohane e Verba
ba (1994) consiste na grande ênfase conce­ (1994) subjaz a premissa de que a lógica da
inferência causal é fundam entalm ente a mes­ desse debate perm itiu a esse artigo delinear
m a no interior das ciências sociais. Diversos os traços primordiais dessas duas tradições de
autores opõem -se a essa idéia fundam ental. pesquisa no campo da política comparada. Em­
Para eles, apesar da grande utilidade de m ui­ bora as rivalidades e os pontos de contenção
tos dos princípios delineados nesse trabalho, tenham sido salientados nesse texto, diversos
as pesquisas qualitativas (sobretudo as aná­ autores argum entam que am bas as linhas,
lises com paradas qualitativas) diferem sig­ apesar de suas diferenças, são mais do que con­
nificativam ente de pesquisa quantitativas ciliáveis. Pelo contrário, segundo eles, boas
baseadas ein amostras grande . pesquisas m uitas vezes mesclam elementos
As características que os <. ticos de pes­ das duas tradições (Collier, 1993; Coppedge,
quisas com paradas qualitativas baseadas em 1999; Ragin, 1987 e 2000; Ragin e Zaret;
pequeno núm ero de casos vêem com o des­ 1983; Rueschemeyer e Stephens, 1997).
vantagens e insuficiências são vistas por seus Segundo Van Evera (1997, p. 55), não
defensores com o especificidades. Segundo há regras predeterm inadas para a escolha da
seus críticos, essa tradição de pesquisa deve m etodologia de pesquisa —em m uitos casos
ser encarada, na maioria das vezes, como “se­ é decorrência direta da natureza do objeto de
gunda m elhor” estratégia de análise. Seus investigação e dos dados disponíveis a seu
defensores, no entanto, advogam que a com ­ respeito. ParaM cKeown (1999, p. 169), m ais'
plexidade e causação m últipla próprias aos do que um seguidor de regras, o cientista so­
fenôm enos sociais a tornam mais adequada cial deve ser visto com o um artesão, já que o
no tratam ento de alguns temas. H á, além fundam ental na pesquisa em ciências sociais,
disso, segundo esses últim os, outras lógicas, segundo ele, não é a mera aplicação de parâ­
de inferência causal nas ciências sociais, além metros lógicos preestabelecidos, mas crafts­
da essencialm ente estatística presente em manship: ou seja, a habilidade tanto na tes­
King, Keohane e Verba (1994). situra do desenho de pesquisa como em sua
A reconstituição dos principais detalhes realização.

Notas

1. Desde, entre outros, M oore Jr. (1983), Paige (1975), Tilly (1975), Skocpol' (1979), até
alguns dos mais recentes, com o Collier & Collier (1991) Rueschemeyer, Stephens e
Stephens (1992), Skocpol (1994) e Przeworski, Cheibub, Alvarez e Limongi (2000).
2. Com o ilustração da utilização do m étodo experimental, pensemos, por exemplo, na ava­
liação do efeito do uso de fertilizantes sobre plantações. O pesquisador teria que trabalhar
com, no m ínim o, dois lotes diferentes, sendo que apenas um deveria receber a aplicação de
fertilizante. Em seguida, teria que controlar o efeito de outras variáveis, tais com o a q u an ­
tidade de irrigação (artificial ou natural), incidência de sol e vento, entre outras.
3. Para trabalhos que descrevem possíveis utilizações do m étodo experimental nas ciências
sociais, ver, entre outros, Achen (1986) e Shadish et al. (2002).
4. A realização de entrevistas com atores qualificados, a recorrência a surveys, a observação
participante são ilustrações de tipos diferentes de técnicas de pesquisa. O u seja, são instru­
m entos de investigação por meio dos quais é colhida a evidência que dialoga com a teoria
(na form a operacionalizada pelas hipóteses elencadas).

.72
5. Assim com o o m étodo experimental, os objetivos prim ordiais do desenho de pesquisa do
m étodo com parativo são basicamente dois: (1) a definição, com base num modelo teórico,
de variáveis independentes (ou explicativas) operacionalizáveis em piricam ente e (2) o con­
trole do im pacto de outras variáveis (Lijphart, 1971). Nos desenhos de pesquisa experi­
mentais, o segur do objetivo é de mais fácil realização. .
6. De acordo cor LaPalombara (1968), alguns dos principais legados do funcionalism o
estrutural cons tem nas constatações de que (1) um elemento presente na sociedade ‘X ’
pode adquirir t nções totalm ente diferenciadas na sociedade ‘Y ’; (2) os sistemas políticos
apresentam gn des variações intra-sistêmicas nos diversos países; (3) os sistemas políticos
r ão podem ser /istos com o apenas um conjunto de instituições —os valores e a cultura são
parte integrante dos mesmos.
7. De acordo com Ragin e Zaret, enquanto D urkheim privilegia a busca de constantes com
o intuito de produzir generalizações ou explicações potencialm ente a-históricas, W eber
interessa-se por estruturas e processos históricos específicos, em meio à diversidade histó­
rica. Ambos são legatários de tradições diferentes: D urkheim , da concepção positivista de
ciência e de sociedade; e Weber, da filosofia da ciência neo-kantiana (Ragin e Zaret, 1983,
p. 748). ' .
8. O conjunto de princípios compilados em King, Keohane e Verba (1994) será reconsti­
tuído aqui, um a vez que a defesa da especificidade da política com parada qualitativa se
baseia na crítica de algumas proposições que, apesar de não serem exclusivas a esse traba­
lho, aparecem de form a explícita nessa obra.
9. C om o reconhecem King, Keohane e Verba (1994), este princípio - de que as hipóteses
derivadas de teorias têm que ser operacionalizadas de maneira tal que possam ser testadas
e rejeitadas — foi desenvolvido por Popper (1975), para quem a falsificação de teorias
consiste num a etapa fundam ental da descoberta e do avanço científico. Para King, Keohane
e Verba, “nós [os pesquisadores] precisamos ser capazes de dar um a resposta direta à se­
guinte questão: que evidência nos convenceria de que estamos errados?’ Se não houver
resposta para essa questão, então, não temos um a teoria” (1994, p. 19). Para um excelente
m anual com instruções de como operacionalizar hipóteses de tal form a que elas possam
ser sujeitas ao princípio da falsificação, ver Van Evera (1997).
10. Przeworski e Teune (1970) e Lijphart (1971), duas décadas antes, já haviam salientado
que a parcim ônia é um dos critérios mais im portantes para avaliar modelos teóricos nas
ciências sociais.
11. N um estudo hipotético sobre o desemprego, poderíamos, a princípio, pensar que a m igra­
ção interm unicipal de fábricas (variável independente) provoca o aum ento dos níveis de
desemprego (variável dependente). Em determ inadas localidades, no entanto, essa causar
lidade pode se apresentar de maneira invertida. Em m unicípios baseados num a econom ia
predom inantem ente agrária, por exemplo, a perda em grande escala de empregos na agri­
cultura pode levar as pequenas fábricas locais a migrar para outras cidades, um a vez que o
desemprego reduz drasticamente o potencial do mercado consum idor local.
12. Por exemplo, observando as cidades A e B, com limites de velocidade 80km /h e 65 km /h,
respectivamente, um pesquisador poderia concluir que a menor quantidade de m ortes por
acidentes de trânsito (variável.dependente) no m unicípio B é conseqüência da velocidade

73
em que os m otoristas dirigem (variável independente). Um estudo adicional, no entanto,
pode dem onstrar que o fato de a cidade B possuir longas e convenientes linhas de m etrô (o
que dim inui os carros em circulação e, consequentem ente, a quantidade de acidentes fa­
tais) é, na verdade, a variável fundam ental na explicação do problem a.
13. Um modelo que, por exemplo, explique a preferência partidária pelas variáveis renda e
escolaridade (“quanto maiores a renda e o nível de educação formal, m aior a probabilida­
de de um indivíduo desenvolver a preferência por um partido político específico”) pode
sofrer de um problem a de m ulticolinearidade, um a vez que, em algumas sociedades, as
duas variáveis listadas podem estar perfeitam ente correlacionadas.
14. Boa parte da discussão que se segue aplica-se tam bém a pesquisas rião-comparativas. Al­
guns probiem as discutidos —como, por exemplo, o viés de seleção e o núm ero de casos —
são, no er.tanto, mais agudos no caso de pesquisas comparativas e, por isso, recebem aten­
ção especial neste texto.
15. Essa estratégia guarda similaridades com os m étodos de com paração propostos por John
Stuart M ill. Para um a descrição dessa m etodologia ver, entre outros, Skocpol e Somers
(1980), Skocpol (1984b) é Fernandes (2002). Lieberson (1991 e 1994), G oldstone (1997)
e G oldthorpe (1997a), por sua vez, consideram esses m étodos inaplicáveis no âm bito das
ciências sociais.
16. Com o'assinala Gerring, atarefa de assegurar que a am ostra seja aleatória (ou “randôm ica”)
não é simples: “Deve-se ter um conhecim ento significativo a respeito da população que se
está estudando e da relação causal sob investigação para se determ inar o que é represen­
tativo e o que não é. Além disso, deve-se ter certeza de que foram capturados casos em
núm ero suficiente para testar a relação causal de interesse. Se um tipo relevante é raro, mas
não obstante interessante para o pesquisador, então pode ser necessário sobre-represen-
tá-lo na amostra. A construção de um a am ostra aleatória pressupõe um a população gran­
de a partir da qual os casos são selecionados e um a am ostra relativamente grande” (2001,
p. 182).
17. W hitehead (1993), por exemplo, buscou analisar 0 impacto do contexto internacional
“dem ocratizanté” sobre o processo de democratização recente de alguns países.
18. Além disso, de acordo com G oldstone (1997) e M cKeown (1999), nem sempre, no es­
tudo de determ inados fenômenos,, o mero aum ento do núm ero de casos - tal com o su­
gerido por Lijphart (1971), Collier (1993), G oldthorpe (1997a) - implica em ganhos
explicativos.
19. Alguns exemplos de inferências causais não-estatísticas são, entre outros, a abordagem
de “contraste de contextos” (Skocpol, 1984b); “rastreamento de processos” (George e
M cKeown, 1985); “comparações ordinais”, “comparações nom inais”, “comparações no
interior dos casos” (Mahoney, 1999 e 2000b).
20. Um dos exemplos utilizados por Rogowski (1995) é o estudo de Allison (1971), cujos
resultados forçaram a reconsideração da teoria do Estado como ator racional uno (isto é,
não m ultifacetado).
21. As diferentes visões acerca do papel da história e seus possíveis usos na pesquisa com para-
tfVa é extensa demais para ser reproduzida nos limites deste artigo. Ver, entre outros, A m enta

74
(2003), Aminzade (1992), Boniface e Sharman (2001), Bonnell (1980), G oldstone (1997..
e 2003), G oldthorpe (1997b), Hall (2003), Katznelson (2003), Kiser e H etcher (1991),
M ahoney (2000a, 2003), M ahoney e Rueschemeyer (2003), Pierson (2003), Skocpol
. (1984b, 2003). '
22. Para G oldstone (1994 e 1997), um a outra vantagem da m etodologia de “rastream ento de
processos” consiste no fato de que ela leva em conta a natureza probabilística do com por­
tam ento hum ano no âm bito individual. Isso porque, ao buscar as causas dos fenômenos,
o analista pode chegar a reconstituir decisões ou com portam entos individuais que contri­
buíram para o processo, ou seja, r'o d e ir além do macronível e descrever a im portância de
um a som atória de ações realizad s na esfera do indivíduo.

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Resumo

Política comparada: um mapeamento do debate entre propostas teóricas e metodologias de pesquisa


alternativas - '

Apesar da popularização dos estudos no campo da política com parada, há um enorm e dissenso
no que se refere à m etodologia de pesquisa. Esse artigo reconstitui os principais pontos do
debate que opõe duas correntes fundamentais: por um lado, os comparativistas quantitativos,
para quem pesquisas comparativas qualitativas baseadas num pequeno núm ero de casos com ­
põem um a espécie de “segunda m elhor” estratégia de pesquisa e, por outro, os comparativistas
qualitativos, que advogam que pesquisas qualitativas são mais qualificadas para o entendim en­
to e a apreensão da especificidade e da complexificidade próprias aos fenômenos sociais.

79
Palavras-chaves: Política comparada; Metodologia; Desenhos de pesquisa; Pesquisas qualitati­
vas; Pesquisas quantitativas.

Abstract

Comparative politics: a mapping ofthe debate between theoreticalproposals and alternative research
methodologies .

D espite the popularization o f studies in Com parative Politics, there still exists a considerable
dissent in this field when it comes to research methodology. T his article reconstitutes the key
contentious issues o f a debate that opposes two alternative views. O n the one hand, there are
the quantitative comparativists, to whom qualitative research based upon a small sample is, at
best, a “second best” strategy. O n the other hand, there are the so-called qualitative com para­
tivists, who advocate that qualitative researches are better equipped, to understand and ap­
prehend the specificity and complexity intrinsic to the social phenom ena.

Keywords: Com parative politics; M ethodology; Research design; Q uantitative research; Q u a­


litative research.

Résumé
^ . • * ..

Politique comparée: identification du débat entre lespropositions théoriques et les méthodologies de


recherche alternatives .

M algré la popularisation des études dans le dom aine de la politique comparée, il existe une
énorm e dissension en ce qui concerne la m éthodologie de recherche. C et article reconstitue les
principaux points du débat qui oppose les deux courants fondam entaux : d ’un côté, les com-
paratistes quantitatifs, pour qui les recherches comparatives et qualitatives fondées sur un petit
nom bre de cas com posent une espèce de “seconde meilleure” stratégie de recherche et, d ’un
autre, les com paratistes qualitatifs, qui défendent que les recherches sont plus qualifiées pour
la com préhension et l’appréhension de la spécificité et de la complexité propres aux phénom è­
nes sociaux.

M ots-clés: Politique comparée; M éthodologie; Dessins de recherche; Recherches qualitatives;


Recherches quantitatives. '
Criminologia, Direito Penal e Justiça Criminal no Brasil:
Uma Revisão da Pesquisa Recente

Luís Antônio Francisco de Souza

Introdução tuições asilares sem a contrapartida de um


atendim ento am bulatorial, a descrença nas
Nas duas últimas décadas, o Brasil pre­ medidas de recuperação dos presos e de cura
senciou crescente preocupação com as ques­ dos esquecidos nos manicôm ios judiciários,
tões relativas à segurança pública e à justiça a tortura em delegacias de polícia e a eterna
crim inal. U m a verdadeira obsessão securi- lentidão e alheam ento das autoridades ju d i­
tária refletiu-se num nível jamais visto de de­ ciárias são faces terríveis que apontam para
bates públicos, de propostas legislativas e de um a crise de longa data em nosso sistema
produção acadêmica. As pesquisas têm se de­ criminal. N este m om ento, estamos nos per­
bruçado sobre as práticas de polícia, de segu­ guntam os sobre as razões para todas essas
rança e de justiça, sobretudo no contexto da dificuldades e vendo, por toda parte, a ex­
red em o cratização do país. N ão o b sta n ­ pansão da segurança privada, a dissem ina­
te, pouco tem sido feito, no âm bito político, ção de dispositivos eletrônicos de segurança,
para que se tornasse tangível um a efetiva re­ o aum ento do sentim ento de insegurança e
forma dessas instituições, tendo como preâm­ a constituição de verdadeiros enclaves forti­
bulo pesquisas e conhecim entos provenien­ ficados em que a tolerância em relação às vi­
tes tanto da m aior participação coletiva na olações das liberdades civis corre de par com
formulação, implantação e acom panham en­ a aceitação das hierarquias e das m últiplas fa­
to de políticas públicas, quanto da disponi­ ces da exclusão social.2
bilidade sem precedentes de pesquisadores As pesquisas de opinião estão dem ons­
aptos a discutir com o universo da política e trando o baixo grau de legitimação da dem o­
das instituições criminais as alternativas de cracia e da aceitação da gramática dos direi­
reforma, dentro de um contexto de aum ento tos hum anos. O poder público vem dando
do quantum de cidadania e participação de­ espaço à segurança privada e, ao mesmo tem ­
m ocrática.1 po, investindo consideráveis somas de recur­
Em outros termos, a redemocratização sos num sistema de justiça cuja capacidade
política do Brasil não foi ainda capaz de lan­ está no limite. A indústria da repressão penal
çar suas luzes sobre as práticas de nossas ins­ alimenta-se de um a virtual crise dos modelos
tituições criminais - estas, ao contrário, pare­ repressivos tradicionais (Christie, 1998). A
cem resistir à democratização, form ando um atual tendência global à cultura punitiva co­
enclave autoritário no cerne mesmo do Esta­ loca um ponto final ao estado social penal,
do dem ocrático. A violência letal, a super­ que teria vigorado nos anos im ediatam ente
lotação dos presídios, rebeliões e mortes, os posteriores à Segunda G uerra M undial, em
horrores vividos pelos jovens em instituições que a crença na hum anização da pena, nas
com o a Febem, o virtual abandono das insti­ medidas de reintegração de presos na socie-

BIB, São Paulo, n° 59, Io semestre de 2005, pp. 81-107. 81


dade e na eqüidade parecem ceder espaço para Giorgio Agamben (2002) indicou, a im­
form as mais duras de funcionam ento das portância da articulação da reflexão sobre
instituições criminais. O virtual retorno do biopoder de Michel Foucault com a da teo­
penal, na sociedade contemporânea, demons­ ria da soberania de H annah A rendt. N a base
tra ser a contra-face necessária de um a m o­ da vida política ocidental, haveria um cruza­
dernidade líquida, em que as elites globais m ento da constituição do poder soberano, da
definem à distância as estratégias de controle sacralização do corpo e da biopolítica. A con­
social das não-elites, imobilizadas pela se­ dição de nossa m odernidade política implica
gregação urbana, pela precariedade do em ­ a idéia de um a vida que vale a pena ser vivida
prego e pela mobilização punitiva em massa e que, nesse sentido, deve ser protegida pelo
(Garland, 2001; Bauman, 2000). direito. A noção contrária de um a vida nua,
Essas questões já haviam sido colocadas que não merece ser vivida, está presente na
por Michel Foucault (1987b). A prisão tor­ reflexão filosófica da antiguidade clássica.
na-se, a partir das reformas penais clássicas, Entre os gregos, enquanto zoé remetia à vida
um modelo de disciplina dos corpos dos con­ natural, bíos indicava um a vida qualificada;
denados, mas um modelo perm anentem ente a vida natural era excluída do m undo da po­
lítica. Agamben argum enta que o poder so­
em crise. Foucault procurou nos lem brar da
berano no O cidente explicitou e aprofundou
im portância da criminologia como um saber,
o vínculo secreto que se estabeleceu na sim e­
um discurso sobre a verdade que produz efei­
tria paradoxal entre a soberania e a vida poli­
tos de poder, que delim ita o campo jurídico-
ticam ente desqualificada. O autor encontra,
discursivo por práticas extrajudiciais de pro­
num a figuração do direito rom ano arcaico, a
dução da verdade. Em outros termos, a norma
alegoria mais acabada dessa condição: o homo
não som ente convive com as regras jurídicas
sacer. O hom em sagrado, com seu corpo san­
universalistas, como dá sustentação às práti­
tificado, lembra essa lim inaridade: ele abre
cas políticas nos espaços de exclusão, nos quais
um a exceção, ele é um a vítim a sacrificial. O
o direito não se universaliza. Assim, embora
assassino do hom em santo não seria conde­
sejam heterogêneas, as práticas jurídicas (so­
nado por homicídio. O desamparo do homo
berania) e as práticas punitivas (disciplina ou
sacer é um a das chaves para a com preensão
norma) estariam no fundam ento da política da soberania m oderna. O paradigm a da po­
e da justiça modernas. Segundo Foucault, nas lítica, o espaço de exceção por excelência em
teorias da soberania, o poder era concebido que os corpos podem ser sacrificados, é o cam­
com o poder de vida ou de morte. E o direito po de concentração. Agamben lembra que os
era a prerrogativa do soberano de fazer m or­ primeiros campos de concentração da Ale­
rer ou de deixar viver. N a m odernidade, o m anha foram criados por governos social-
poder apropria-se da vida, é um poder pro­ democráticos. Os campos são o fundam ento
dutivo, positivo, que incita, que transforma da política da soberania, que se institui com
e que normaliza os corpos dos indivíduos e o base em um estado de exceção, e todos os
corpo político; o poder torna-se um a biopo- espaços em que os corpos são vilipendiados e
lítica da população. Os saberes que emergem m ortos teriam como paradigm a o estado de
das estratégias de poder residentes nas insti­ exceção em que a m orte e a dor impingidas
tuições punitivas, psiquiátricas e nas estraté­ não podem (ou devem) resultar em condena­
gias governamentais inform am as técnicas de ção dos agressores.
punição e impossibilitam qualquer liberdade É possível ver, nos campos de concen­
substantiva (Foucault, 1999; 2001). tração, no encarceramento de prisioneiros de

82
guerra, nos acam pamentos de refugiados, nas zação do discurso médico-científico do sécu­
delegacias de polícia, nos gulags ocidentais, lo XIX, acom panhando o processo de u n i­
nos muros virtuais e reais que estão sendo versalização do capitalismo. A crim inologia
erguidos em todos os lugares e, mesmo na e as políticas punitivas, na esteira de um pro­
justificativa enervante dos órgãos de inteli­ cesso de dom inação política, teria sido im­
gência americanos para a prática da tortura posta como ideologia universal de controle
contra iraquianos, a presença do discurso da social dos trabalhadores; nelas, as classes po­
norma, de processos de normalização, em que pulares foram transm utadas em perigos so­
os direitos de cidadania não podem valer para ciais que deveriam ser contidos e debelados
aqueles que são definidos como estranhos à por técnicas criminais científicas (Del Olmo^
regra jurídica, como não tendo uma vida que 2004). A segunda baseia-se na idéia de que
mereça ser vivida. as políticas criminais, definidas pelas elites
Nos últimos anos, um conjunto signifi­ políticas e econômicas, são formadas a partir
cativo de pesquisas sociológicas e historiográ- da construção simbólica e da apropriação do
ficas tem perm itido não apenas aprofundar medo e da insegurança. As classes populares,
nosso conhecim ento histórico sobre a área as m inorias culturais, étnicas ou políticas se­
como tam bém estender suas conclusões aos riam persistentem ente vistas com o perigos
desafios das políticas de segurança e justiça sociais, devendo ser tratadas com violência,
na atualidade. A pesquisa acadêmica vem desprezo e descaso por instituições autoritá­
procurando devassar a história da segurança rias da justiça crim inal. O Estado e as elites
pública, do poder judiciário, da justiça cri­ políticas e econômicas, a partir das políticas
minal e da medicina legal. Essas pesquisas criminais, tendem a ocultar o papel ativo e
desvelam um a complexa história das práticas contestatório dos diferentes grupos e m ovi­
punitivas, das concepções de direito penal e m entos políticos. A prática repressiva e a ex­
das propostas de reform a institucional no clusão simbólica das revoltas, dos arrastões
Brasil, que marcaram profundam ente a fei­ ou mesmo do poder insidioso do tráfico de
ção da justiça contem porânea. " A insistente drogas nas com unidades am plia a política
crise do sistema de justiça crim inal, indicada dó medo e conjura a consciência política das
nessas pesquisas, estaria intim am ente ligada massas (Batista, 2003). A terceira maneira
às propostas de reforma das instituições que aborda a história da crim inologia e das insti­
foram elaboradas a partir de um conjunto de tuições criminais a partir de um a crítica in ­
novas idéias científicas sobre o crime, o cri­ terna aos discursos e às práticas, assinalando
minoso, a loucura, o criminoso louco e as as ambigüidades presentes na assimilação das
m últiplas faces da desordem social, surgidas teorias européias ao contexto local. Marcos
no final do século XIX, na Europa, e que teve Alvarez (2003), por exemplo, procura com ­
indiscutível impacto sobre o direito de punir preender e a contextuaiizar historicam ente o
e as práticas punitivas no Brasil. papel da crim inologia na emergência de

[...} um discurso da desigualdade no cam­


A Norma no Campo da Lei po da lei, discurso este capaz de propor, a
partir da articulação dos campos da lei e
H á três maneiras distintas de abordar as da norma, um tratamento jurídico-penal
práticas penais e punitivas no Brasil. A pri­ diferenciado para determinados setores da
meira afirma um processo de internacionali­ população e, conseqüentemente, num pla-
/~ ■

83
no mais geral, de estabelecer critérios dife­ dicos, psiquiatras e criminologistas estavam
renciados de cidadania (Alvarez, 2003, pp. interessados em aprim orar os mecanismos
32-3).4 disciplinares e expandi-los para um a am pla
esfera da vida social. N ão obstante a insis­
As pesquisas recentes mostram que, no tência de médicos e de criminologistas, os ju ­
âm bito da adm inistração da justiça criminal ristas não assimilaram integralm ente as idéias
e do processo penal, os juristas e os crim ino- da crim inologia ao direito penal. Eles procu­
logistas abraçam concepções sociais, políti­ raram, antes, “estabelecer um com prom isso
cas e jurídicas diferenciadas e nem sempre entre os dispositivos penais clássicos e as ino­
com plem entares. O direito penal e a justiça vações propostas pela escola criminológica,
crim inal foram palco de polêmicas, de deba­ entre as concepções liberais e as concepções
tes e de incertezas. A análise m inuciosa des­ cientificistas, entre o modelo da lei e o modelo
ses discursos tem o potencial de revelar as da norm a” (Alvarez, 2003, pp. 205, 239).
am bigüidades da adoção dos modelos de pu­ Essa peculiaridade da história jurídica bra­
nição no Brasil e, ao mesmo tem po, a convi­ sileira pode elucidar a dificuldade de legi­
vência do direito penal com disciplinas e sa­ timação do discurso dos direitos na área da
beres provenientes da antropologia criminal, justiça criminal: ainda hoje, as liberdades e a
da crim inologia e da psiquiatria. É a norm a segurança são consideradas exclusivas e con­
no campo da lei. Os saberes normalizadores traditórias. O lhando dessa forma, a crim ino­
constituíram projetos, instituições e práticas logia e o direito penal, bem como as ques­
punitivas que am pliaram o poder do Estado tões mais amplas ligadas ao reconhecim ento
sobre o crime, o crim inoso e a delinqüência. dos direitos de cidadania no Brasil, surgem
Além do interesse em controlar os grupos e como chaves interpretativas da ordem social
os indivíduos com propostas de exclusão per­ brasileira. Enfrentar a discussão por essa pers­
m anente, esses saberes pretendiam com bater pectiva parece ser bastante atual, na m edida
o crime, as desordens e os perigos m ediante em que a pauta das políticas criminais, nó
um a regeneração moral da sociedade. Esses contexto de luta contra o terrorism o inter­
saberes, especificamente sobre os loucos, as nacional, encam inha-se para o tratam ento
mulheres e as crianças, cam inham diferenciado de terroristas e de suspeitos e
para a virtual limitação das conquistas ju rí­
[...] do campo do contrato para o campo dicas dos últim os cinqüenta anos. Com o en­
da tutela, do modelo da lei para o modelo tender a ambigüidade de um a democracia que
da norma. Diante destes e de outros gru­ afirma os direitos de cidadania e aceita a exis­
pos que escapam à ficção contratual, serão tência de espaços punitivos alheios às regras
desenvolvidos mecanismos jurídicos e ins­ jurídicas?
titucionais tutelares e normalizadores, que
extrapolam as concepções originais do di­
reito clássico e as representações liberais Quai é a Importância da
acerca do Estado (Alvarez, 2003, p; 160). Criminologia no Brasil?

N o Brasil do final do século XIX e início N a Europa, durante a segunda m etade


do século XX, adaptando-se ao liberalismo do século XIX, a crim inologia5 passou a afir­
antidem ocrático, a crim inologia encontrou m ar que os problemas do crime, da desor­
um vasto campo de desenvolvimento. M é­ dem e da revolta relacionavam-se a aspectos
biológicos do com portam ento de determ ina­ cia dessas idéias. Em primeiro lugar, porque
dos grupos ou indivíduos (loucos, crim ino­ a crim inologia legitima as especulações so­
sos, prostitutas, anarquistas e delinqüentes bre a determinação dos com portam entos; em
juvenis). Rosa Del O lm o (2004) assinalou segundo, porque apela para uma crise sem pre­
que as ciências penais, nesse período, esta­ cedentes no sistema de justiça criminal; em
vam reagindo contra o individualismo, pre­ terceiro, porque ataca o fundam ento da igual­
sente no modelo penal clássico, em favor do dade jurídica e da proporcionalidade entre
determ inism o, m uito influente nas cham a­ delito e pena. E, segundo M ichel Foucault,
das ciências naturais. A respeito da mesma a crim inologia elimina quaisquer limites ao
época, Pierre D arm on (1991) indicou a rela­ poder de punir, sendo assim expressões de
ção entre aquilo que se denom inou de onda um a soberania “ubuesca” (Foucault, 2001, p.
do crime, o advento da imprensa sensacio­ 15). Mais ainda, as idéias presentes na an­
nalista e o surgim ento de “o hom em crim i­ tropologia criminal, é que ainda são encon­
noso” do médico italiano Cesare Lombroso tráveis em várias concepções sociais e ju ríd i­
(1835-1909). A partir daí surgiram revistas cas na m odernidade, sustentam mecanismos
de antropologia crim inal por toda parte e os de individualização, de diferenciação e de ex­
especialistas do gênero passaram a se reunir clusão no interior do processo judiciário.
em congressos. Os trabalhos dos primeiros Lilia M . Schwarcz (1993) m ostrou co­
criminologistas ecoavam no grande público. mo, no Brasil, diferentes correntes cientifi-
O s congressos, a partir de 1885, reuniam não cistas articularam a questão racial ao cam po
apenas médicos, mas tam bém magistrados, penal e jurídico. O discurso da ciência criti­
policiais, políticos e curiosos provenientes de cava os princípios universais que regiam o
diferentes países. N o estudo da delinqüên­ espírito hum ano, procurando ressaltar a dife­
cia, a crim inologia.introduzia a sistematiza­ rença em meio à unidade, processo em que a
ção presente nas classificações da ciência na­ crim inologia desem penhou im portante pa­
tural, adotando os modelos da psiquiatria e pel. Segundo a autora, a concepção de um a
do alienismo para com preender o criminoso unidade hum ana indivisível não era enfra­
como um tipo especial de doente mental. Em quecida pela diversidade das culturas, cons­
um curto período, a antropologia criminal tatada pelos estudos dos antropólogos. Mas
influenciaria tam bém o discurso e as práticas os estudos dos crim inologistas pretendiam
dos juristas, im pactando a legislação crim i­ pôr em evidênciãa existência de espécies h u ­
nal de váribs países. manas ontologicam ente diversas, que não
Houve críticas e contestações por parte seriam assimiláveis ao processo universal de
dos contem porâneos.6 N ão obstante, houve desenvolvimento. Assim, as diferenças eram
um a verdadeira maré lombrosiana na socio­ definitivas e irreparáveis e o papel da crim i­
logia criminal, na psiquiatria, na medicina nologia nascente seria estabelecer correlações
legal e nas técnicas policiais. Até hoje encon­ entre características físicas e atributos m o­
tram os afirm ações de que a antropologia rais dos indivíduos e de grupos. O Brasil foi
criminal, com sua ênfase no determ inism o bastante receptivo a essas teorias e, no século
biológico, não seria sequer um a ciência. Cer­ XIX, vamos encontrá-las nos museus etno­
tam ente, suas conclusões, aos olhos do leitor gráficos, nas faculdades de direito e nas fa­
do século XXI, são, no m ínim o, risíveis e in­ culdades de medicina. O pensam ento crim i-
gênuas. As pesquisas aqui resenhadas apon­ nológico encontrou solo propício no Brasil
tam , ao contrário, para a força e a persistên­ da Primeira República.

85
Sylvia Q ueirolo (1984) abordou a in­ legitimidade de sua ciência, eles puderam tan­
trodução do conceito de periculosidade no to assumir a m anipulação dos corpos das ví­
direito penal brasileiro. M ostrou claramente timas e dos locais de crimes, em busca de
que a noção era fundam ental ao pensamento evidências, como propor a criação de insta­
da psiquiatria e da crim inologia e qué foi res­ lações adequadas em repartições públicas para
ponsável pela presença do perito médico nas o exercício de suas funções.
ações penais. A autora faz a genealogia do O trabalho de Correa pode ser conside­
conceito, retornando às suas origens na an­ rado pioneiro nos estudos sobre a crim inolo­
tropologia criminal, principalm ente na cha­ gia no Brasil. Todavia a autora afirmou que o
m ada terza scuola, de Raffaele G arofalo processo de normalização não refletiu um a
(1852-1934). A introdução desse conceito com petição entre m edicina e direito. C ri­
teve im portantes conseqüências em term os ticando a concepção de norm alização de
do potencial de “intervenção do sistema pe­ Foucault, a autora afirma que não houve no
nal sobre a sociedade, incompatível com o Brasil um a passagem direta do controle vio­
estado de direito”. Segundo a autora, o con­ lento dos escravos para o controle sutil do
ceito de periculosidade dava ao Estado a prer­ corpo dos trabalhadores livres. Para ela, na
rogativa para a m anutenção da ordem. O verdade, as elites políticas do Brasil não pre­
Estado poderia intervir sobre um problema cisavam de mecanismos sofisticados de con- /
social, preventivamente, “pela necessidade da trole social:
sociedade defender-se contra tud o o que
ameace ou ofenda suas condições considera­ Não foi com a institucionalização da me­
das norm ais de existência” (Queirolo, 1984, dicina que se iniciou entre nós uma tecno­
pp. 9-11). logia de controle dos corpos dos homens,
Mariza Correa (1998) indicou a im por­ embora ela tenha tido aí um importante
tância dessas idéias para a conformação da papel a desempenhar [...]. Assim, se a subs­
área crim inal no Brasil. Seu trabalho deu tituição das estratégias de vigilância e puni­
destaque às idéias e aos desdobram entos ins­ ção dos escravos, e dos colonos mais tarde,
titucionais da obra dos médicos N ina Rodri­ de repressão e segregação de loucos, delin­
gues, O scar Freire A rthur Ramos e Afrânio qüentes ou crianças pela prevenção e cor­
Peixoto. Segundo a autora, não é possível reção de desvios do comportamento, são
com preender a constituição da medicina le­ estratégias reais, utilizadas no controle da
gal sem recorrer à recepção da antropologia população, são também estratégias retó­
criminal nos prim órdios da República. Esses ricas. A substituição da repressão pela pre­
autores consideram a igualdade política, con­ venção ou correção, típica do discurso dis­
signada na prim eira C onstituição republica­ ciplinar segundo Foucault, não passará em
na, com o um a mera ficção, sem base de sus­ muitos casos de uma retórica afinada aos
tentação diante da composição étnica do país. reclamos da ciência contemporânea, dificil­
Seu trabalho perm ite perceber que a medici­ mente posta em prática numa sociedade
na legal representou um primeiro resultado tão indisciplinada (Correa, 1998, pp. 72-3).
da confrontação entre medicina e direito, para
garantir a institucionalização da prática da A autora utiliza essa afirmação como for­
perícia médica. Os médicos queriam interfe­ ma de se contrapor aos estudos que viam a
rir de form a mais profunda e sistemática na maior presença da m edicina social e das es­
justiça criminal; e, m ediante a afirmação da tratégias dos higienistas em prescrever um

86
conjunto de regras para garantir o controle nova econom ia moral, sem, no entanto, eli­
sobre os corpos, a saúde, os hábitos alim en­ m inar os espaços de arbítrio, onde novas
tares e habitacionais, a estrutura familiar e a violências emergiram. Ao mesmo tem po, a
própria sexualidade das classes operárias no disciplina não deve ser sim plesm ente contra­
princípio da República no Brasil (M achado posta à indisciplina, pois esta pode ser vista
et a i, 1978; Costa, 1989). como um contra-poder, como um a reação ao
Seguindo a pista deixada por esses tra­ poder disciplinar. A questão que permanece
balhos, mas tentando apontar um a nova ten­ aberta é com preender como a morte, o su­
dência, José Leopoldo A ntunes (1999) bus­ plício, o sofrim ento físico e o moral integra­
cou dem onstrar de forma mais cabal as ações ram um a nova econom ia política do corpo
dos médicos brasileiros voltadas para a cons­ que, não apenas, provoca dor, mas so b retu ­
tituição do cam po da m edicina legal. Eles do busca a adequação à norm a, constituindo
conseguiram garantir, ao Estado e aos espe­ uma subjetividade. Em outras palavras, o pro­
cialistas forenses, controle sobre os proce­ cesso de mitigação das penas, de substituição
dim entos relacionados à perícia m édica e do suplício pela pena de prisão, apontou pa­
científica nos casos crim inais e civis. O autor ra a conformação de um a sociedade voltada
analisou artigos e polêmicas travadas pelos para a construção social do indivíduo e da
médicos, em especial médicos legistas, nas individualidade.
revistas médicas brasileiras, cobrindo o pe­ M aria C lem entina P. da C unha (1986),
ríodo de 1870 a 1930. Sua tese principal pro­ com m uito mais precisão e fidelidade ao pen­
cura criticar a concepção am plam ente aceita samento de Foucault, ressaltou o papel do
na literatura brasileira de um processo cres­ alienismo nas idéias e no projeto institucio­
cente de medicalização da sociedade (segun­ nal do médico psiquiatra Francisco Franco
do o qual vários problemas de ordem social da Rocha (1864-1933). N a Europa, a disso­
passaram a ser adm inistrados pelo saber mé­ ciação da loucura e da razão criou a possibi­
dico e pela saúde pública). Apesar da im por­ lidade teórica de um a loucura sem delírio,
tância em rever a tese citada, A ntunes não que está expressa no conceito de m onom a­
consegue delinear de form a inequívoca o nia de Jean-Etienne Esquirol (1772-1840),
campo de atuação e o status científico da me­ discípulo do famoso Philippe Pinei (1745­
dicina legal. Isso ocorreu, em parte, porque 1826), pai da psiquiatria c médico-chefe da
ele não analisou a rede de atuação institu­ Salpêtrière.8Tam bém perm itiu a formulação
cional da m edicina legal, mas som ente os do conceito de loucura moral de Pritchard
debates médicos publicados. O autor, adi­ (1786-1848). Por essa nova tipologia, os mé­
cionalm ente, parece confundir o poder dos dicos puderam abordar não som ente a lou­
médicos com o poder médico, ao afirmar, por cura visível, mas também os com portam entos
exemplo, que a m edicina legal, ao se deslocar desviantes, abrindo espaço para a institucio­
gradualm ente das polêmicas morais para as nalização dos perigos sociais. A degenerescên­
questões periciais, abriu mão de sua impos- cia hereditária de B. A. Morel (1809-1873),
tação política. que reconhece o demi-fou, portador de um a
Em defesa da tese da medicalização da doença invisível, abriu, por fim, espaço para
sociedade brasileira, talvez seja im portante a tematização de inúm eros com portam entos,
dizer que o controle disciplinar não substitui considerados inadequados, e que mereceriam
a repressão. Michel Foucault (1987b) mos­ investim ento dos-especialistas médicos. As­
tra que o poder disciplinar produziu um a sim, demi-fou e o degenerado passam a ser

87
relacionados a práticas anti-sociais: vagabun­ interior do presídio estabelecem os limites
dagem, jogo, vício e prostituição. Com o bem desse mesmo projeto. N a penitenciária, foi
salientou Sérgio Carrara (1998, p. 97), “A instalada um a seção de m edicina e crim ino­
degeneração claram ente patologiza e medi- logia para acom panhar a trajetória do preso
caliza o crim e”. Estão aí estabelecidas tam ­ e para a individualização da pena. Também
bém as conexões com os tipos de criminosos foi im plantado um conselho penitenciário
definidos por Lombroso como tipos especí­ para adm inistrar a progressão da pena e o
ficos de degenerados, que fundam entaram as direito de livram ento condicional. Para que
concepções da criminologia, da medicina le­ esses dois dispositivos funcionassem , foi
gal e da psiquiatria. Franco da Rocha, apro­ im plantando um sistema minucioso de ano­
priando-se da noção de loucura moral, re­ tações nos prontuários dos presos. Surgem as­
form ou as velhas casas de loucos e im prim iu sim, na confluência entre ciência e pragm a­
a marca da ciência na nova instituição asilar tismo, as inúmeras dificuldades e violações
m odelo, o Hospício do Juquery, com a pers­ que ainda hoje concorrem para a crise do
pectiva de com preensão, de tratam ento e de modelo punitivo nacional. -
cura da loucura. O hospício perm itiu o en­ E inquietante acom panhar as diversas
quadram ento da doença mental como um tentativas frustradas de disciplinam ento dos
problem a de saúde e de ordem públicas, e a presos rebeldes, dentre os mais famosos es­
institucionalização dos indesejáveis da socie­ tava G ino Amleto M eneghetti, que, nos dias
dade republicana. Os psiquiatras procuravam de visitas de autoridades de outros estados
com preender a loucura, criando prontuários ou de outros países, era colocado num a soli­
detalhados para registro e acom panham ento tária. Célia de Bernardi (2000) resgatou um
dos alienados. A psiquiatria e o direito com ­ pouco do debate, através da imprensa, em
partilharam a tarefa de conhecer, excluir e torno da tentativa frustrada de considerá-lo
norm alizar os males advindos da loucura. um degenerado incurável - um louco moral —
Fernando A. Salla (1999), inspirado por que, em vez de estar cum prindo pena de pri­
essas pesquisas, fez um amplo, profundo e são na penitenciária, deveria estar internado
meticuloso estudo sobre a história das pri­ no M anicôm io Judiciário (instituição criada
sões em São Paulo. Ele conseguiu dem ons­ após longa cam panha de Franco da Rocha
trar, corn profusão de docum entos inéditos oara receber os loucos criminosos), de onde
e originais, a presença da crim inologia na som ente sairia após improvável cura. Sabe­
form ulação, construção e funcionam ento mos que, durante o processo decorrente da
da Penitenciária do Estado de São Paulo, no m orte de um policial, ele foi subm etido a
C arandiru, considerada por todos como ins­ exame psiquiátrico e considerado responsá­
tituição modelo, a transform ar o preso em vel, mas, até o ano de 1954, o psiquiatra Sil­
cidadão cum pridor de suas obrigações e a va Telles ainda estaria afirm ando sua suposta
dim inuir as taxas de reincidência. O autor, loucura (Bernardi, 2000). M uitos outros de­
ao mesmo tem po que mostra como a crim i­ tentos acabavam tendo o mesmo destino de
nologia, a antropologia crim inal e a psiquia­ M eneghetti: eram encam inhados para a se­
tria contribuíram para a formação de um ção médico-psiquiátrica e passavam a ser con­
modelo de encarceram ento que ainda hoje siderados inadaptáveis ao regime prisional e
se faz presente, verifica como as práticas co­ term inavam no M anicôm io Judiciário. José
tidianas voltadas para o controle da massa Leopoldo A ntunes (1999) tam bém relata
carcerária e das pequenas delinqüências no casos encontrados, nas revistas médicas da
Prim eira República, de psicoses.provocadas rada nas definições opostas que mantemos
pela prisão, o que apontava a necessidade de a respeito do estatuto jurídico-moral dos
medidas de avaliação, controle e transferên­ habitantes de cada uma das instituições.
cia desses indivíduos para estabelecimentos Para a prisão enviamos culpados; o hospi­
adequados. . tal ou o hospício recebem inocentes (Car­
Fernando A. Salla (1999), por sua vez, rara, 1998, p. 27).
mostra, não obstante o presídio modelo apre­
sentar problemas desde a sua inauguração — O manicôm io obedece a um modelo ju-
ele nunca conseguiu apresentar dados con­ rídico-punitivo (loucos criminosos) e a um
clusivos sobre regeneração nem sobre m o­ modelo psiquiátrico-terapêutico (criminosos
ralização - , o discurso das elites poiíticas e loucos), mas não consegue desempenhar bem
judiciárias ainda manteve suas certezas e sua nenhum deles. Nesse sentido, deve-se lem­
virtual cegueira diante do im inente fracasso brar de Febrônio índio do Brasil, que no fi­
do projeto do complexo carcerário. E nquan­ nal dos anos 1920, foi o prim eiro interno do
to não adm itiam o fracasso do modelo, ou­ M anicôm io Nacional do Rio de Janeiro (Fry,
tras instituições foram sendo criadas e outras 1982).
tantas tragédias foram sendo replicadas, como N o caso mais específico da polícia, Ro­
a nefanda Casa de Detenção do C arandiru, berto K ant de Lima (1989) afirma que esta
que ainda aguarda um estudo aprofundado. exercia grande poder sobre os procedim en­
O sistema prisional, em sua grandiosidade e tos de culpabilização do crim inoso, num a
pretensão originais, caiu em virtual esqueci­ espécie de formação prévia de culpa. O in­
m ento de onde saía apenas nos m om entos quérito policial prefigura a culpabilidade do
de fugas espetaculares, de rebeliões sangren­ indivíduo. O processo crim inal brasileiro e o
tas e de violências inaceitáveis. A penitenciá­ inquérito policial preservaram elem entos de
ria quase secular continua lá, como emble­ uma lógica jurídica inquisitorial, um a vez que
ma da perm anência do frustrado projeto a polícia, além de controlar o inquérito poli­
disciplinar! . cial, exerce considerável poder discricionário
N a mesma direção, Sérgio Carrara (1998) sobre o suspeito e sobre toda a investigação.
dem onstra a im portância da antropologia Da ótica da polícia, o indivíduo permanece
crim inal para a definição do tratam ento jurí­ em estado de suspeição e durante todo o per­
dico dado ao problem a da delinqüência e da curso do processo deve provar sua inocência,
doença m ental, legando aos psiquiatras e aos invertendo a lógica jurídica clássica, segun­
juizes am plo espaço de poder, espaço am bí­ do a qual ninguém deve depor contra si mes­
guo, é verdade, para conter e tratar aqueles mo. A inda que seja necessário o ap ro fu n ­
criminosos considerados loucos e internados dam ento da pesquisa nessa área, o modelo
no M anicôm io Judiciário, que, segundo o inquisitorial pode ter sido atualizado com
autor, base em um fundam ento que som ente pode
ser originário do discurso da. crim inologia,
[...] se caracteriza fundamentalmente por pois a “verdade” sobre o crime está, de certa
ser ao mesmo tempo um espaço prisional forma, entranhada no indivíduo. A polícia
e asilar, penitenciário e hospitalar. Prenhe procura incrim inar o suspeito a todo o custo
de conseqüências práticas, a diferença en­ e, para isso, arranca-lhe a confissão e produz
tre asilo e prisão, visível através do Mani­ provas testem unhais e periciais. Caberia ao
cômio Judiciário, está amplamente anco­ sistema judiciário refutar as teses do inquéri-

89
to policial para garantir o princípio da plena somente as discussões que foram travadas nas
defesa, que não foi contem plado na fase do primeiras décadas republicanas, como tam ­
inquérito. N um a outra chave de leitura, M ar­ bém colocar em perspectiva argum entos do
cos Luiz Bretas (1997) e Sidney C halhoub passado que parecem atuais (Alvarez, 2003).
(1986) dem onstram as estratégias de contro­ Por exemplo, Elísio de Carvalho, um dos
le das classes* populares do Rio de Janeiro, principais m entores de inúm eras reformas
baseadas nas aquisições científicas vindas do da polícia carioca, afirmava, em 1910, que o
contexto europeu, e os arranjos de um a cul­ reincidente considerado perigoso deveria ser
tura popular que subvertia as imposições da
ordem, entre o final do século XIX e início [...] eliminado da comunhão social para
do século XX. todo o sempre, a não ser que dê provas sé­
Diferentes pesquisas dem onstraram, des­ rias de sua regeneração pelo trabalho for­
se m odo, que as práticas de prisão adm inis­ çado, o que é raro, raríssimo mesmo. Real­
trativa, repressão, expulsão e controle dos mente, é inadmissível, num a sociedade
hom ens, mulheres e crianças trabalhadoras civilizada, a existência de milhares de in­
foram com uns na sociedade republicana, sen­ divíduos que não vivem senão do assassi-
do legitimadas pelo discurso da ciência e da ' nato, do roubo à mão armada, da extor­
racionalização do trabalho. Diversas formas são, da rapina e fraude (Carvalho, 1910,
de moralização da família, da sexualidade p. 129).
operária, das crianças e das mulheres traba­
lhadoras foram postas em prática nas esferas Ele afirmava que o direito penal de base
do trabalho, do lazer e da cidade (Fausto, clássica é o grande responsável pelo cresci­
1984; Rago, 1985; Engel, 1989). Evidente­ m ento do crim e e lam entava a “brandura
m ente, esses processos foram seguidos por exagerada das penas”; o “tratam ento suavi­
inúm eras estratégias de afirmação de iden­ zado dos condenados”; as prisões em que os
tidades e por m uitas formas de resistência condenados vivem um a verdadeira vilegiatu­
que ainda estão a merecer estudo detalhado ra, a abolição do “bendito terror do chicote”,
(Rago, 1991; C halhoub, 1986). A Repúbli­ a redução das penas, as atenuantes, o habeas-
ca promoveu a legalidade jurídica como n o r­ corpus, a prescrição e a abolição da pena de
ma básica da sociedade, mas manteve zonas m orte (Carvalho, 1910, pp. 129-31).9 Eliza­
abertas ao discurso e às práticas normaliza­ beth Cancelli (2001) ressalta tam bém que o
doras, de um lado, e ao arbítrio institucional discurso da Nova Escola Penal legitimava as
e à exclusão social pura e simples, de outro reivindicações dos juristas e criminologistas,
(Bretas, 1997; C aulfield,.2000). As pesqui­ e mostra a autora que a historiografia brasilei­
sas assinaladas indicam a recepção, em bora ra havia negligenciado a presença da crim ino­
sempre problem ática, das teorias científicas logia na constituição da República no Brasil.
e crim inais no Brasil republicano. A antro­ Andrei Koerner (1998) escreveu um ex­
pologia crim inal e, mais particularm ente, a celente livro sobre o Poder Judiciário no Im ­
chamada Nova Escola Penal, deu suporte téc- pério e na República, captando com riqueza
nico-jurídico às práticas tradicionais de vio­ de detalhes e com rigor as questões de con­
lações aos direitos de indivíduos e grupos ao trole sobre escravos e imigrantes, mas não
mesmo tem po que as questionava e propu­ m enciona a penetração da crim inologia nas
nha m udanças no quadro das instituições idéias jurídicas do período. Essa lacuna veio
herdadas. Assim, é possível com preender não a ser com pensada em outro trabalho em que

90
o autor elabora detalhado estudo sobre a in­ esse m om ento em que um conjunto de sabe­
trodução, a legislação e a prática do habeas- res estava dando form a às concepções mais
corpus no Brasil. Em relação às arbitrarieda­ profundas e duradouras sobre a crim inalida­
des- com etidas pela polícia sobre as classes de, o crime, o criminoso e a violência. E “bem
populares, ele afirma que provável que as teorias da escola positiva te­
nham contribuído para que stigmas e pre­
[...] autoridades policiais, políticos, juristas conceitos acerca do crim inoso ou acerca de
e magistrados passam a utilizar o discurso certas categorias de indivíduos deitasr.em raí­
criminológico positivista para justificar es­ zes na sociedade” (Alvarez, 2003, p. 118). As
sas práticas, defendendo abertamente a elites econômicas e os legisladores, ao longo
restrição das garantias constitucionais dos da Prim eira República, indubitavelm ente,
indivíduos das classes perigosas, pela ne­ sonharam em construir um Estado nacional,
cessidade de vigilância policial permanen­ assentado na universalização do direito e do
te sobre eles. Eles tornaram-se “infracida- trabalho livre. Um a das facetas desse sonho
dãos”, excluídos do domínio dos direitos e era a constituição de um a racionalidade jurí-
garantias constitucionais, não só pelas prá­ dico-criminal segundo a qual os indivíduos
ticas de controle social a que estavam su­ deveriam ser subm etidos a um a extensa m a­
jeitos, mas também para o discurso crimi­ quinaria de normalização e controle, como
nológico qué as racionalizava (Koerner, forma aceitável de conjurar os males do atra­
1999, p. 222).10 so e de tratar desigualmente os desiguais.

O s espaços de arbítrio e de exclusão não


foram construídos a partir de um a pura e A Especificação da Criminologia
injustificável arbitrariedade, decorrente de nas Pesquisas Recentes
um a cultura senhorial afeita ao trato dos es­
cravos; ao contrário, as instituições e as prá­ O s adeptos das novas teorias criminais
ticas crim inais foram pensadas e justificadas procuravam criticar as noções da cham ada
no interior do discurso e das contribuições Escola Clássica de Direito Penal, cujos princi­
da antropologia criminal. A recepção da cri­ pais proponentes e defensores, no contexto da
m inologia representou, evidentemente, um Europa, foram Cesare Beccaria (1738-1794)
avanço —contraditório —em relação ao siste­ e Jeremy Bentham (1748-1832), que coloca­
ma institucional herdado do Império. A Re­ va o livre-arbítrio com o fundam ento da res­
pública, no Brasil, nasceu em meio à questão ponsabilidade penal. Para essa escola, a efi­
da incorporação de grandes massas de traba­ cácia da pena residia menos na severidade
lhadores imigrantes e livres; a crim inologia do castigo e mais no conhecim ento do crime
penetrou no país na mesma medida em que e da certeza de sua punição. Em bora não se
ocorria um a verdadeira “não-expansão” da saiba exatamente quem , no contexto brasi­
cidadania. A rede institucional m ontada na leiro, fazia a defesa incondicional do modelo
República baseou-se na crim inologia e de­ clássico, a crítica era direcionada particular­
finiu as estratégias de controle sobre indiví­ mente ao Código Penal brasileiro de 1890.
duos que não se inseriram no mercado de tra­ O edifício jurídico republicano baseou-se nos
balho, e que precisavam sofrer controle in­ princípios do livre-arbítrio, responsabilida­
tenso, suspeição sistemática e tutela jurídica. de penal, da legalidade e da anterioridade da
A crim inologia é um tem a im portante para lei penal. Dessa perspectiva, o indivíduo so-

91
m ente com etia um a infração tendo cons­ candários, os Asilos de Inválidos, os H ospi­
ciência de que seu ato era ilegal, sobre o qual tais Psiquiátricos e, finalmente, o M anicôm io
recaía um a sanção proporcional ao dano cau­ Judiciário, para dar conta dessü indefinição.
sado. A lógica do sistema punitivo, na con­ A concepção de reação social, co n tid a no
cepção jurídico-penal clássica, referia-se à Código, requer um em aranhado de dispo­
existência de um a infração, ao conhecim en­ sições e som ente perm ite ao aparato da jus-
to da sua autoria, à investigação, ao processo tiça-polícia agir após a realização do ato
justo e à imparcialidade do juiz de direito. A delituoso. Para m uitos juristas da época, a
este últim o cabia a qualificação do delito e a preocupação, expressa pelo direito clássico,
definição do dolo. O grau de prejuízo ou de com a repressão e reparação do delito consu­
dano social articulava-se à idéia de reparação mado, bem como com o princípio da respon­
social. Em síntese, o papel da justiça crim i­ sabilidade penal, amarrava as mãos das au to ­
nal ficaria restrito à prova material do delito, ridades e dificultava a preservação da ordem
à qualificação da intenção do autor, à avalia­ social. Com o já foi dito, é difícil encontrar,
ção da intensidade e dimensão do crime e às ao longo de todo o período com preendido
considerações sobre as excludentes.11 pelas pesquisas aqui referidas, os juristas que
A qualificação do crim inoso respondia defendiam integralm ente o direito clássico e
aos preceitos da im putabilidade. Isto é, os quais eram suas razões. M esmo Rui Barbosa,
menores de nove anos; os maiores de nove e inflexível defensor do liberalismo jurídico
menores de quatorze que agissem sem dis­ contra o autoritarism o presente na Primeira
cernim ento; os indivíduos considerados in­ República, apontava para certos aspectos da
capazes por imbecilidade nativa ou enfraque­ crim inologia dignos de atenção (Alvarez,
cim ento senil; aqueles que, no ato do crime, 2003).
fossem privados de sentidos (sic) e de inteli­ Para os juristas e crim inologistas que
gência; aqueles que fossem forçados a com e­ passaram a encabeçar a propar m da favorá­
ter crime por violência ou ameaça; aqueles vel à antropologia crim inal, a ordem jurídica
que cometessem crime casualmente no exer­ brasileira, instituída sob inspiração do direi­
cício de qualquer ato lícito e os surdos-mu- to clássico, não se mostrava capaz de acudir
dos de nascim ento não eram imputáveis, não às diversas transformações pelas quais a socie­
respondendo, conseqüentem ente, a processo dade estava passando; não acom panhava as
penal por seus atos. Esse espaço de inim pu- novas tendências do crime, nem auxiliava no
tabilidade, que o Código criou, foi grande conhecim ento do crim inoso; além disso, im ­
m otivador para que os defensores da Nova pedia a ação mais enérgica do poder público
Escola Penal fizessem sugestões e gestões para sobre os perigos sociais, porque estava presa
a construção de instituições tutelares, inexis­ ao excessivo formalismo dos procedim entos
tentes naquele m om ento de nossa história. legais. A antropologia crim inal, ao contrá­
Esse espaço tam bém perm itiu a introdução rio, reforçava a idéia de que o crime não era
de considerações de ordem médica e psiquiá­ um a mera figura jurídica; postulava um a fe-
trica na definição do estado real e subjetivo nom enologia do crime em que este deixava
dos inim putáveis, bem como quais medidas de ser um ato cuja existência se dava pela pre­
técnicas seriam necessárias para a sua devida visão legal para se tornar um com ponente
qualificação. Em São Paulo particularm ente, essencial e necessário do com portam ento de
foram criados o Instituto Disciplinar, as C o­ determ inados indivíduos. Nesse sentido, a
lônias Correcionais, os O rfanatos, os Edu- pena deixava de se referir ao ato crim inoso e

92
passava a se referir ao agente do crime. Mais maneceu aberto por muito tempo. Entre 1890
ainda, enquanto a escola clássica postulava e 1920, a ciência crim inal conheceu novos
que a ação do direito deveria ocorrer a pos­ aperfeiçoamentos, tendo contato com a psi-
teriori, como reparação, a crim inologia pro­ copatologia, a endocrinologia e a biotipolo-
pugnava a ação a priori, preventiva, dado o gia (em que o crim inologista apurava todas
conhecim ento existente sobre os tipos de cri­ as informações que pudesse obter sobre o bió­
minosos, seus hábitos, a gênese de seus crimes tipo do suposto crim inoso, seu caráter, tem ­
e suas afecções mentais e com portam entais. peram ento, constituição física, moral etc.).
A crim inologia partiu de um a hipótese Esses conhecim entos e práticas científicas
atávica: a inscrição do com portam ento cri­ foram introduzidos no Brasil pelas mãos da
m inoso no indivíduo: em sua biografia, em Nova Escola Penal, institucionalizaram-se e
sua ascendência e em seu Corpo. Um forte de­ passaram a fazer parte do cotidiano de nos­
term inism o estabelecia correlação entre as sas instituições criminais. Se a psiquiatria, ao
disposições orgânicas congênitas ou adqui­ especializar a observação do louco, am pliou
ridas, os caracteres físicos (biótipo e/ou fe- o universo virtual de clientes subm etidos às
instituições asilares, num a confirmação ter­
nótipo) e o com portam ento criminal. A con­
rível de “O Alienista” de M achado de Assis,
formação física constituiria um estigma, um
a crim inologia conjugada com as in stitu i­
sinal a ser detectado e analisado pelos especia­
ções de repressão.e controle, ao sonhar com
listas. Foi criada, com base nessas idéias, um a
o controle total sobre os crim inosos p oten­
parafernália de medição do corpo (antropo­
ciais, contribuiu para lançar um a som bra de
metria), incluindo toda um a padronização da
suspeita perm anente sobre os delinqüentes.
fotografia judicial e, por fim, a implantação
Porém,
de sistemas de classificação e arquivamento
de fichas dos crim inosos com base nas im­
[...] a perícia psiquiátrica, chamada ini­
pressões digitais (datiloscopia). O corpo, por­
cialmente para estabelecer a medida da
tanto, passou a ser visto como repositório de
participação da liberdade individual no ato
sintom as e compulsões mais ou menos inde­
criminoso, acabou por inr "ilár-se em todo
léveis. A crim inologia, partindo dessa matriz o processo penal, ao avaliar permanente­
biológica, passou a incorporar em seu discur­ mente o. comportamento do indivíduo e
so todo e qualquer tipo de má conformação sua possibilidade de cura ou recuperação,
e de assimetria físicas, de marcas intencio­ ganhando com isso o poder psiquiátrico
nais, de cortes, de lacerações, de hábitos so­ novas funções de controle social (Alvarez,
ciais. As características físicas e as biografias 2003, p. 43).
dos indivíduos, meticulosamente registradas,
poderiam ser um a via de acesso à personali­ Mais ainda, o controle tam bém se fazia,
dade crim inal, proporcionando aos médicos segundo um a das maiores preocupações dos
e juristas os meios necessários ao controle criminologistas, sobre o com portam ento dos
preventivo. Sobretudo, o “delito converteu- reincidentes, que, no interior do saber crim i-
se em problem a médico-psicológico e o cár­ nológico, era denom inado de recidivismo.
cere passou a ser um laboratório” (Del Olmo, Recidiva, de onde proveio o recidivism o,
2004, p. 67). com preendia a delinqüência como doença, e
O debate sobre a existência dos tipos de várias conseqüências daí decorriam. O uso
crim inosos e sobre o seu grau de perigo per­ do term o reincidência alastrou-se em meio à

93
contracorrente da crim inologia clássica, ba­ ro teriam im portante papel na luta pela iden­
seada no determinismo biológico (Del Olmo, tificação tanto da população criminal q u an ­
2004, p. 128). to da civil. Aí podem os encontrar um a in-
Para além da perícia psiquiátrica, havia quietante conexão entre a identificação civil
toda um a discussão entre juristas, psiquia­ generalizada com a idéia, fundam entada na
tras e criminologistas sobre o dom ínio deste criminologia, de defesa social (Correa, 1998),
campo híbrido denom inado medicina legal mas tam bém de eugenia (Stepan, 1996).
(Carrara, 1998). N ina Rodrigues, precursor N a últim a década do Império e nas pri­
da constituição desse campo no Brasil, cri­ meiras décadas da República, í >ram estabe­
ticava a regra do contrato, estabelecida ju ri­ lecidas as bases teóricas e as linhas gerais das
dicam ente, por não corresponder à realidade reformas institucionais e legais fundam enta­
social do país e por ser puram ente repressiva. das na antropologia criminal. Houve diver­
O s fundadores da Sociedade de M edicina gências e variações que garantiram um am ­
Legal e Crim inologia, criada em São Paulo plo ecletismo no pensam ento dos autores,
no começo dos anos de 1920, eram médicos mas alguns temas principais são recorrentes
e advogados que cultuavam o legado do mé­ em suas obras.12 A regra geral consistiu em
dico baiano. Oscar Freire, aluno e sucessor limitar a vontade do criminoso e atribuir seus
de N ina Rodrigues na cadeira de M edicina atos ou a sua essência mesma a um conjunto
Legal na faculdade da Bahia, foi o m entor de impulsos hereditários ou am bientais, que,
intelectual da m edicina legal em São Paulo. para os autores brasileiros, seriam a degene­
A lcântara M achado foi o principal anim ador ração da raça; o uso do álcool; a sexualidade
da criação da Sociedade. Com o senador es­ promíscua; a fraqueza moral hereditária; a
tadual, apresentou, em 1927, projeto de lei má conformação física; a senilidade precoce;
para a criação do M anicôm io Judiciário do as doenças sexuais; as condições precárias de
Estado, anexo ao Hospício do Juquery, para vida; e o contato precoce com doenças con­
dem onstrar que o local dos loucos crim ino­ tagiosas; além disso, os primeiros teóricos da
sos não podia ser a penitenciária. Franco da crim inologia no Brasil consideravam os efei­
Rocha, durante sua vida de observação dos tos do clima tropical sobre a crim inalidade
alienados do Juquery, havia concluído que os (Beviláqua, 1896). Evaristo de Moraes (1916)
loucos criminosos, por não poderem ser con­ afirmou que os maus costumes im prim em
siderados plenam ente inimputáveis, não de­ um a “marca indelével no espírito da crian­
veriam perm anecer nas penitenciárias nem ça”. Mesmo criticando as condições de vida
no hospício. Era necessária construção de um das classes operárias no Brasil e defendendo
espaço específico para esse tipo de anomalia a adoção de um a legislação que as proteges­
(Antunes, 1999). Tanto em São Paulo como se, M oraes insiste que essas condições favo­
na Capital Federal, “o m anicôm io judiciário recem o crime ou a mendicância. Apesar das
se impôs como solução para os casos em que ambigüidades, a crim inologia circulou entre
os acusados eram considerados crim inosos os hom ens de ciência e de letras. Os rótulos
natos ou degenerados” (Carrara, 1998, p. perm itiam incorporar ao discurso todo o
125). Os critérios utilizados para distinguir tipo de “desajuste” com portam éntal do cri­
“simples assassinos” de “psicopatas” acabaram m inoso, mesmo aqueles desajustes que se
se transform ando em instrumentos de conhe­ deram na infância, com o nos fazem lembrar
cim ento e de controle social. Os médicos le­ os inquisidores de Pierre Rivière (Foucault,
gistas Alcântara M achado e Leonídio Ribei­ 1988).

94
Nova Escola Penal: go de M enores, em' 1927, que previa a re­
Reformas Institucionais, Medida gulamentação do trabalho infantil e a am ­
de Segurança e Defesa Social pliação do acesso à educação. Nas discussões
travadas pela m edicina legal, há argum entos
Os adeptos da crim inologia não econo­ favoráveis à inimputabilidade de jovens e con­
mizaram esforços para reformar as institui­ trário à internação dos jovens em instituições
ções crim inais no país, como com plem ento penais (Antunes, 1999). Os menores serão,
necessário à reform a do arcabouço legal. diante da nova legislação, sistem aticam ente
Paulo Egídio, por exemplo, propunha qua­ institucionalizados e sobre eles recaíram mar­
tro grupos de instituições: a) instituições pa­ cas persistentes de abandono e delinqüência.
ra a prevenção dos delitos; b) instituições para Os juristas defendiam a idéia de que o me­
a repressão dos delitos; c) instituições para a nor, por ser inimputável, não t'o d ia estar sub­
correção de delinqüentes; d) instituições para metido às regras do campo da ação penal. Nos
a prevenção das reincidências. Todo esse ar­ ensinam entos d Nova Escola Penal, por­
senal seria com posto de estabelecimentos, tanto, surge a idéia de justiça preventiva, pe­
asilos, casas de trabalho para os vadios e m en­ dagógica e tutelar que se sobrepõe à idéia de
digos, sociedades de educação para as crian­ punição. Mesmo que tenha havido um des­
ças abandonadas, asilos agrícolas, asilos in­ locamento progressivo do discurso favorável
dustriais, orfanatos, asilos e estabelecimentos à institucionalização dos menores da crim i­
de educação para meninos viciosos, peniten­ nologia para o assistencialismo, nota-se cla­
ciárias, colônias agrícolas, sociedades de pro­ ramente a presença dos mesmos temas nas
teção para os menores e para adultos crim i­ justificativas para a criação da Fundação N a­
nosos após cumprirem pena, caixas de seguros cional do Bem-Estar do M enor, em 1964
e estabelecimentos para inválidos para o tra­ (Rodrigues, 2001).
balho. De todas essas propostas, certam ente Em relação ao tratam ento jurídico e ins­
a instituição para repressão dos delitos to r­ titucional do louco não houve cisões profun­
nou-se plena realidade com a construção da das entre médicos e juristas. O debate em
Penitenciária do Estado, não sem um enor­ torno do criminoso louco foi m uito mais sen­
me esforço de convencim ento por parte de sível e complexo, em bora as responsabilida­
Paulo Egídio. Em outros term os, controle des de médicos e juristas tenham ficado mais
social, institucionallzação/reform atórios e, ou menos definidas. Todavia, em relação ao
após tudo isso, vigilância por parte de um m enor e à mulher, os debates se mostraram
patronato ou mesmo da autoridade policial incessantes e inconclusos. Tobias Barreto afir­
(Salla, 1999; Alvarez, 2003). . mava que o desafio consistia em não tratar
O discurso da crim inologia foi insidioso igualmente seres desiguais. Lie adm itia que
a ponto de constituir toda um a estratégia ju- as diferenças entre sexos deviam justificar tra­
rídico-penal em cujo centro encontravam-se tam ento diferenciado tanto no âm bito do
as figuras dos loucos, das m ulheres e dos direito civil como no penal. O sexo fem ini­
menores. C ândido M ota, por exemplo, de­ no, em razão da educação, da exclusão, dos
dicou parte im portante de seu trabalho no “acessos de atavismo” e da participação polí­
M inistério Público e no legislativo estadual tica, equivaleria a um estado de m enoridade,
para propor reformas ao sistema de tutela dos de fragilidade social, pois as mulheres não
menores. Um dos efeitos mais tangíveis des­ teriam plena consciência da lei e de suas im ­
se discurso foi a adoção, no Brasil, do C ódi­ plicações. Viveiros de Castro seguiu a mes­

95
\
m a linha de argumentação, segundo a qual a fessor de direito penal Enrico Ferri (1856­
igualdade consiste, na verdade, em tratar de­ 1929), mais lembrado por ter incorporado à
sigualm ente os desiguais. O campo do saber antropologia criminal as objeções provenien-
da criminologia comportava muitas divergên­ , tes das chamadas escolas sociológicas do cri­
cias, mas havia muitos pontos com uns, prin­ me, particularm ente dos trabalhos de Ale­
cipalm ente em relação à adoção da terapia xandre Lacassagne e de Gabriel Tarde, foi o
como princípio da ação jurídico-penal (Es- criador da classificação dos crim inosos mais
teves, 1989). difundida no Brasil (Peixoto, 1933).13
C om o lem brou o médico-legista Leoní- M uitos criminologistas brasileiros, como
dio Ribeiro, anos mais tarde, quanto maior Afrânio Peixoto, foram favoráveis a u m asín -
fosse o núm ero de reformatórios, m enor se­ tese entre os clássicos e os positivistas, ten­
ria o de prisões. C om o o enfoque se dava-na dência que parece ter sido dom in an te no
restrição das garantias legais e processuais, não Código Penal de 1940, que introduziu, em
parece demasiado afirmar, que “a escola pe­ relação ao código anterior, a noção de n atu ­
nal positiva parece ter contribuído também reza hum ana próxima do deter 'inism o bio-
para que os direitos dos sentenciados fossem psíquico. Vários d , seus artigos perm item
durante tanto tem po negligenciados no inte­ um a abordagem crim inológica do ato deli­
rior da tradição penal brasileira” (Alvarez, tuoso e, por isso, adota medidas adm inistra­
2003, p. 129). Em bora os adeptos da Nova tivas contra o crime, como a m edida de se­
Escola Penal fizessem a crítica à situação ina­ gurança, que perm ite a prisão do crim inoso
dequada de nossas instituições penais, os através de um processo sumário. O Código
mesmos não foram m uito sensíveis às violên­ deixou de encarar o crim e apenas com o in­
cias praticadas contra presos, menores e in­ fração de um a lei penal e passou a relacioná-
vestigados pela polícia. Para a criminologia, lo à personalidade dos indivíduos.14
im portava a defesa da sociedade e o indivi­ Nesse sentido, Peter Fry e Sérgio Carra­
dualismo jurídico contribuía para desvirtuar ra (1986) afirmam que, no Código de 1940,
a legislação penal do seu verdadeiro propó­ passou a existir o chamado sistema do duplo
sito, que era a salvaguarda dos direitos da binário, que a com inação da pena era dada
sociedade. tanto pela gravidade do ato crim inal quanto
Os adeptos da Nova Escola Penal viam a pela periculosidade do acusado. Assim, con­
escola clássica com o um a peça de ficção, pois vivem duas representações do Estado: guar­
não considerava o com portam ento do crim i­ dião de rebanhos, m antenedor da ordem, e
noso. Houve dificuldades e resistências à idéia defensor da liberdáde, mas também interven­
de reform ar com pletam ente a legislação pe­ cionista e tutelar, em benefício do bem cole­
nal segundo os preceitos da criminologia. Na tivo. Através da figura legal da m edida de se­
verdade, ocorreu a adaptação, ao edifício ju ­ gurança, os juizes passaram a julgar, além do
rídico clássico, da noção de periculosidade. crime, a “alma do crim inoso”. O Código,
O conceito de periculosidade teve origem no assim, expressa a/'o lu ção de com prom isso
conceito de m onom ania - loucura sem delí­ entre os paradigma» do direito clássico e do
rio —de Esquirol e de tem ibilidade de Garo- chamado direito positivo.
falo —perversidade constante e ativa do de­ Sylvia Queirolc (1984) também nos lem­
linqüente e a quantidade de mal que dele se bra que a noção de periculosidade, nascida
pode esperar (Q ueirolo, 1984; D arm o n , na esfera médica (como m edida de interven­
1991). O utro seguidor de Lombroso, o pro­ ção sobre loucos e delinqüentes), foi incor­

96
porada ao discurso do direito (na form ula­ ço para incorporar as novas aquisições no
ção jurídica da m edida de segurança). Com âm bito da criminologia, da técnica policial,
ela, a dualidade delito-pena passou a ser ou criminalística, e da estatística crim inal.15
representada no tripé, delinqüente-delito- Leonídio Ribeiro, autor da m aior im p o rtân ­
sanção: cia na compreensão da trajetória da crim ino­
logia após 1930, resumiu assim as principais
Operacionalmente, a decisão sobre a pro­ contribuições desse campo do saber:
vável conduta futura do agente envolve
discussões a respeito da forma pela qual se O antigo critério do sistema de repressão
realiza a sistematização dos dados colhi­ foi substituído por novos e eficazes disposi­
dos nas etapas da observação criminológi- tivos de prevenção do crime, tratamento e
ca. Os principais métodos e técnicas utili­ reeducação do criminoso [...]. Renovou-se
zados nos Estados Unidos, Inglaterra e o aparelhamento técnico das prisões. Sur­
países nórdicos surgiram em função das giram anexos psiquiátricos das penitenciá­
necessidades apresentadas pela reforma rias, manicômios judiciários, laboratórios
dos estabelecimentos penais, em prol da de Antropologia Criminal, concorrendo,
humanização da pena e da intenção de'se com seus elementos de estudos rigorosa­
manter em regime fechado somente os sen­ mente técnicos, para o conhecimento in­
tenciados considerados perigosos e passí­ tegral da personalidade c,/'> criminoso, do
veis de reincidência em curto espaço de ponto de vis t físico e psíquico. [...] C o­
tempo. No caso específico dos Estados meçou-se, além disso, a estudar os proble­
Unidos teve-se em mira verificar a eficácia mas da criminalidade infantil, para desco­
. do instituto jurídico da liberdade condi­ brir na criança os primeiros sinais de suas
cional {parole) e, posteriormente, da sus­ anomalias, de maneira a poder realizar o
pensão condicional da pena (probation) diagnóstico precoce dos anormais predis­
(Queirolo, 1984, pp. 77-8). postos às reações anti-sociais, por meio
dos chamados “sinais de alarme” das ten­
A m edida de segurança, nesse sentido, é dências individuais para o crime (Ribeiro,
um a conquista da criminologia. Mas não o. 1957, p. 41).
bastante. Para além da reforma penal, havia
um conjunto amplo de mudanças que, como O s juristas brasileiros dem onstravam
foi indicado por Paulo Egídio, poderia con­ grande interesse nos congressos internacio­
figurar um a verdadeira sociedade de defesa nais, nos quais encontram os participantes do
social. Afrânio Peixoto sintetizou essas con­ Brasil. A ampla divulgação das obras dos prin­
quistas da seguinte forma: “A medida de se­ cipais autores da crim inologia provocou a
gurança tende a substituir a pena, remédio assimilação de m uitas propostas, com o foi o
tardio e sintom ático trocado por outro ante­ caso das técnicas de identificação e de inves­
cipado e causal ou ocasional”. As medidas tigação crim inais.16
eram vistas como “a grande esperança da m o­ D iante dos novos problem as que a so­
derna política criminal, que prevê, para não ciedade republicana precisava fazer frente,
ter de punir” (Peixoto, 1933, pp. 300-1). Celso Vieira propunha a doutrina da defesa
Nas prim eiras décadas do século XX, social no lugar d~ reação soc. .i. Para ele, por
acenderam-se as preocupações com um a nova exemplo, o anar juism o violento devia ser
dinâm ica da crim inalidade e todo um esfor­ matéria criminal-policial, ao passo que a ques­

97
tão social pertencia à m atéria econômica e de superior manifestação de av idade m en­
legal. A defesa social carecia tanto de medi­ tal”, não obteve sucesso, segundo C orrea
das penais com o legislativas, desde que o le­ (1998), porque, no Brasil não havia necessi­
gislador não se prendesse à teoria do livre- dade de um a violência sutil. Isso dem onstra
arbítrio (Vieira, 1920, pp. 137-9).^ A defesa que a crim inologia foi um conjunto de pos­
social é um discurso que propõe “um a m u­ tulados que não produziu efeitos para além
dança nos próprios fundam entos do direito do discurso. Os criminologistas adm itiam que
de punir” e, nesse sentido, “extrapola o cam ­ havia enormes dificuldades para estabelecer,
po puram ente penal, constituindo-se num inequivocamente, as bases científicas para o
discurso político” com um a esfera de atua­ com bate e profilaxia do crime e dos crim i­
ção mais am pla (AJvarez, 2003, pp. 150-1). nosos. Exatam ente em decorrência da im ­
.Talvez valesse com plem entar essa reflexão possibilidade em se conseguir estabelecer
indicando que a crim inologia e sua recepção parâm etros analíticos seguros, os adeptos
no Brasil tam bém esteve articulada à expan­ da crim inologia buscaram novos campos de
são das discussões favoráveis à eugenia e às pesquisa após 1940, principalm ente em dis­
práticas de controle racial (Correa, 1998; ciplinas díspares como a psiquiatria, a psi-
Stepan, 1996). Os temas da criminologia cris- • copatologia, a endocrinologia e a psicaná­
talizaram-se na consciência dos crim inolo- lise. N ão obstante, ocorreu a passagem de
gistas e juristas brasileiros, na forma da inde- um a abordagem biológica do crime para uma
term inação e individualização da pena, do abordagem sociológica. Essa passagem pode
determ inism o psíquico, da prevenção, da crí­ ser observada no Primeiro Congresso sobre
tica ao sistema de júri, do apelo aos cientis- prevenção do delito e tratam ento do delin­
tas-especialistas, da periculosidade, da defesa qüente, realizado em G enebra no ano de
social e da hierarquização social. Esses temas 1955, responsável i :las regras m ínim as para
ainda estão pautando as discussões sobre a o tratam ento dos reclusos, consideradas um
punição e o tratam ento dos delinqüentes.lfi marco no processo de humanização do trata­
m ento penal (Del O lm o, 2004, p. 126).
O am bivalente sucesso da crim inologia
O Futuro do Pretérito da Criminologia não deve ser m edido pela sua capacidade de
penetrar com pletam ente no discurso ju ríd i­
A relutância dos especialistas em elabo­ co ou nas novas instituições criminais, ele re­
rar um a legislação penal em conform idade side nas marcas profundas deixadas no dis­
aos preceitos oriundos sobretudo da crim i­ curso e nas práticas jurídicas e sociais, no
nologia indica o quão difícil era encontrar alargamento das fronteiras do universo cri­
um consenso no que diz respeito às medidas m inal e na perm anência do espaço para o
convenientes à preservação das regras sociais. exercício dos poderes de especialistas. Ruth
A discussão de N ina Rodrigues sobre a ne­ H arris (1991) parece cam inhar na mesma
cessidade de um Código Penal que fosse rea­ direção ao enfatizar que essas teses tiveram
lista em term os da desigualdade existente fortíssimo impacto no processo de julgam en­
entre as raças que com punham o Brasil, C ó ­ to. Enfim, Michel Foucault tem razão ao
digo esse que, com a ajuda da ciência, deve­ afirmar que o saber da disciplina constitui
ria propor um a escala de responsabilidade um verdadeiro infradireito, ou melhor, um
penal que iria do “inteiram ente inaproveitá- contradireito, que não exclui nem nega os
vel e degenerado, ao produto válido e capaz preceitos do direito. Eles são heterogêneos,

98
mas com plem entares; o saber médico legal e pediu o desenvolvimento de uma autênti­
o exame médico psiquiátrico produzem uma ca sociologia criminal [e] a criminologia
doublage no direito penal, “o essencial do seu pretendia principalmente constituir um co­
papel é legitimar, na forma do conhecim en­ nhecimento positivo do homem e da socie­
to científico, a extensão do poder de punir a dade, a partir do qual seria possível confe-
outra coisa que não a infração” (Foucault, . rir um status jurídico-político diferenciado
2001, p. 23). a determinados indivíduos e grupos sociais
A discussão sobre a crim inologia ainda (Alvarez, .2003,.p. 130).
esteve presente durante todo o período que
vai de 1930 a 1960, que ainda merece um Pesquisas recentes dem onstram que a
estudo aprofundado. Ribeiro (1957, p. 33) criminologia não foi apenas um com plem en­
continua afirm ando, ao longo da década de to necessário ao discurso jurídico. Ao con­
1950, que a Nova Escola Penal se afirmou trário, ela forneceu aos juristas e crim inolo-
através do “critério.central da periculosidade gistas argum entos contraditórios às garantias
do réu, pondo em vigor práticas hum anas e processuais, ao sistema do júri, ao habeas-
justas, perm itindo a defesa da sociedade por corpus, ao processo de hum anização das pe­
meio das medidas de segurança que exigem nas e às instituições da justiça crim inal, bem
o conhecim ento da personalidade integral do como deu aos julgadores legitim idade cien­
hom em crim inoso”. A periculosidade e os tífica para embasar suas concepções sociais
exames psiquiátricos ainda permanecem co­ hierárquicas. Para além de um fracasso da cri­
mo parte integrante do dispositivo jurídico, minologia,. tais pesquisas dem onstram que
em bora sua cientificidade esteja em constan­ um a certa concepção do crim inoso e a cren­
te disputa. A periculosidade, particularm en­ ça na diferenciação de tratam ento dos cida­
te, confundiu-se com noções do senso-co- dãos mantiveram-se como peças poderosas do
m um , mas não está desacreditada e continua discurso crim inológico em relação aos pro­
produzindo efeitos, distribuindo poderes en­ cedim entos de exclusão, encarceram ento, vi­
tre especialistas, e juizes, bem com o produ­ gilância e moralização da sociedade. As ins­
zindo criminosos e reincidentes. Em outros tituições acadêmicas há m uito procuraram
term os, as práticas penais, no Brasil, foram exorcizar seu legado e, para m uitos pesquisa­
de fato profundam ente influenciadas pelo dores, as obras dos criminologistas tornaram -
saber em anado pela crim inologia e, ao con­ se peças de museu (Shecaira, 2004). Mas as
trário do que pode parecer, a criminologia práticas do m undo jurídico ainda precisam
não foi, de forma alguma, um conhecim en­ enfrentar as am bigüidades de sua história
to que apenas provocou grande debate nos para, talvez, d ep u rar delas o “in fin itam e n ­
meios médicos e jurídicos do passado. Ela as­ te pequeno do poder político” (Foucault,
sentou raízes profundas na maneira pela qual 1987a), essas práticas cinzentas, esses micro-
a punição é com preendida e exercida no país. poderes, que continuam em ergindo dentro
Assim, das instituições da justiça crim inal, m undo
por excelência da desigualdade no cam po
[...] a criminologia, ao colocar o crime so­ jurídico.
bretudo como uma anormalidade moral, Parece-me, p o rtan to , que as questões
parece ter impedido que os juristas perce­ colocadas por essa experiência de assimila­
bessem os padrões sociais de conduta as­ ção das teorias crim inais ao contexto nacio­
sociados às práticas criminais, ou seja, im­ nal têm um rebatim ento nos dilemas enfren-

99
tados pelas democracias planetárias, na me- luntários dos ricos e da imobilização dos po­
dida em que, em todos os lugares, observa-se bres, a cultura do controle que emergiu do
o crescimento da legitimação de políticas dis­ pragmatism o penal, bem com o a guerra de­
crim inatórias, a supressão de direitos a pre­ clarada contra o terrorism o que se converte
sos e a m inorias étnicas, religiosas, nacionais num fundam entalism o sem precedentes a
etc. D iante dos problemas que o universo da crítica à crim inologia tradicional não é mais
punição nos coloca na atualidade — a ten­ um a crítica epistemológica, é, necessariamen­
dência à privatização de amplos aspectos da te, um a crítica política, em favor da liberda­
justiça crim inal e a exacerbação do encarce­ de, da universalização dos direitos e contra
ram ento penal, a existência dos guetos vo- todas as formas de tirania.

Notas

1. N os últim os anos, vários estudos têm sinalizado a im portância das áreas da segurança
pública e da violência como chave interpretativa da sociedade brasileira. O conhecim ento
nessas áreas tem crescido de forma significativa, como dem onstram os mais recentes ba­
lanços (Adorno, 1998, 2002; Zaluar, 1999; Misse, Lima e M iranda, 2000; Sadek, 2002;
Soares, 2000; e Pandolfi et al., 1999).
2. A crise do sistema de justiça crim inal é um dos maiores desafios à dem ocracia e à expansão
da cidadania no Brasil, sinalizando os paradoxos de um a dem ocracia sem cidadania ou de
um a dem ocracia disjuntiva (Pinheiro, 2001; M éndez et al., 1999; e Caldeira, 2001).
3. U m a fração significativa dessas pesquisas pode ser vista em Correa (1998), Carrara (1998),
Koerner (1998; 1999), A ntunes (1999), Salla (1999) Alvarez (2003).
4. O trabalho de Marcos Alvarez, que sistematiza as contribuições mais im portantes na área,
praticam ente inaugura um a sociologia das idéias e das instituições jurídicas no Brasil. O
livro percorre, entre 1884 e 1930, os temas, os debates, as polêmicas, mas tam bém os
projetos dos defensores brasileiros do direito penal, influenciados pela antropologia crim i­
nal. A análise mostra que a crim inologia disseminou-se por meio de congressos e pela
rápida recepção das obras dos seus principais autores, nos países centrais e nas periferias.
5. N este m om ento, utilizava-se o term o antropologia criminal; crim inologia surgiu com
Garofalo, em 1885; e Topinard tam bém usou o term o em 1889. O term o crim inologia
generalizou-se como crítica às teorias biológicas de Cesare Lombroso (1835-1909). Nova
Escola Penal é a denom inação que os juristas brasileiros deram às idéias penais influen­
ciadas pela crim inologia (Del O lm o, 2004; Alvarez, 2003).
6. Afirmou-se que as principais evidências apresentadas pela antropologia criminal eram o re­
sultado de um a manipulação artificial de características individuais, a partir de dados coleta­
dos aleatoriamente e grosseiramente reunidos. A obra principal de Lombroso, por exemplo,
não seguia os padrões da ciência, estando eivada de erros e disparates, como uso inadequado
de exemplos e de informações desprovidas de especificidade antropológica (Darm on, 1991).
7. A antropologia crim inal produziu efeitos jurídicos: Garofalo propôs medidas de exterm í­
nio e banim ento transoceânico. Ferri propôs prisão indeterm inada, castigos corporais,
duchas frias, choques elétricos, jejuns e insônia. Lombroso, favorável à pena de m orte,

100
elaborou planos detalhados de extermínio dos criminosos incorrigíveis (D arm on, 1991,
pp. 145-188). .
8. O sistema de saúde pública de Paris era com posto pelo Hôtel des Invalides (1670) e pelo
Hôpital Géríéral (1657). Este últim o era dividido em três unidades: La Bicêtre, para os
hom ens; La Pitié, para jovens; La Salpètriere, para mulheres. Em 1680, La Salpètriere
passou a abrigar mendigos, epilépticos, doentes mentais e prostitutas. Após a Revolução
Francesa e sobretudo durante o século XÍX, foram abolidas as correntes e houve um pro­
cesso de humanização do tratam ento e, gradualm ente, La Salpêtriere tornou-se um reno-
m ado centro de estudos psiquiátricos.
9. Explicava assim o aum ento da criminalidade: “Sob o nosso lindo céu, os maus instintos, as
paixões ferozes, os impulsos sinistros e os propósitos torpes florescem com o os cafezais; e o
sangue que faz derram ar o punhal dos nossos assassinos bastaria para tingir de vermelho as
águas da Guanabara, [...] Ao nosso orgulho nativo, ao nosso sensualismo m órbido que
inspira pela fêmea paixão extremada, ao uso inveterado do porte de armas e a essa vadia­
gem de frack, insolente e debochada, que m edra sobre os asfaltos das nossas avenidas, e
mais a situação política do país, a densidade da população, a má qualidade das correntes
imigratórias, provenientes de países, como Itália, Espanha e Portugal, que ocupam na
geografia geral do hom icídio os três primeiros lugares, ao alcoolismo e, finalm ente, à fra­
queza da repressão e a insuficiência da polícia devemos 90% do sangue derram ado cada
ano no Rio de Janeiro” (Carvalho, 1910, p. 132).
10. O referido discurso de Elísio de Carvalho m antém sua atualidade, na m edida em que
critica a justiça, por sua suposta indulgência em relação aos criminosos, e a sociedade, por
estim ular um a cultura favorável à crim inalidade. Anacronismo inquietante!? Elísio de C ar­
valho continua assim: “A filosofia penal vigente, que jamais penetrou, o fundo real das
coisas, nada mais fez que privar a sociedade do direito de defender-se naturalm ente. [...]
Depois, cada vez mais me convenço de que um a boa polícia vale pelo m elhor código
penal” {apud Carvalho, 1910, pp. 133-134). „
11. As circunstâncias atenuantes e agravantes já estavam presentes no Código Penal de 1890,
e nelas é possível ver um a prefiguração da periculosidade, mas sem referência ao aspecto
biológico ou hereditário (Queirolo, 1984, pp. 31-37). As circunstâncias atenuantes foram
introduzidas no direito penal francês como forma de proporcionar alternativas de conde­
nação para aqueles juizes que tendiam a inocentar acusados de com eterem crimes cuja
punição era a pena de m orte (Foucault, 2001, p. 12).
12. Os médicos, médicos legistas, juristas e criminologistas mais conhecidos são Tobias Bar­
reto, N ina Rodrigues, Clóvis Bevilácqua, Oscar Freire, A rthur Ramos, Afrânio Peixoto,
Aurelino Leal, Viveiros de Castro, Cândido M otta, Paulo Egídio, Alcântara M achado,
Evaristo de Moraes; Noé de Azevedo, Franco da Rocha e H eitor Carrilho. Paulo Egídio foi
nosso prim eiro sociólogo criminal. Para ele, a civilização deveria proporcionar os meios
materiais e morais que fariam o crime declinar ou desaparecer. Apesar de ser manifestação
de impulsos individuais, o crime devia ser o contra-espelho das características morais do­
m inantes num determ inado período. Logo, não seria o elemento biológico ou racial deter­
m inante do perfil da crim inalidade, mas sim o estágio de desenvolvimento moral da so­
ciedade. O autor, dessa forma, critica Emile D urkheim e defende Enrico Ferri, mas tenta

101
ultrapassar o marco do determ inism o biológico ao considerar aspectos sociológicos na
configuração do crim e (Alvarez e Salla, 2000).
13. Segundo Ferri, eram cinco os tipos de criminosos: criminosos natos ou instintivos; crim i­
nosos por ím peto ou passionais; criminosos ocasionais; habituais e alienados. Cada tipo de
crim inoso exigia, por parte da ciência e dos cientistas, um tipo diferenciado de tratam ento,
um tipo específico de instituição de contenção e um sistema complexo de terapias. N o
Congresso de Copenhague, de 1930, a União Internacional de D ireito Penal apresentou
um a classificação dos delinqüentes mais realista: reincidentes, alcoólatras, prostitutas e
proxenetas, rufiões, deficientes, mendigos, vagabundos,'enferm os mentais agitados, me­
nores abandonados e m oralm ente pervertidos (Queirolo, 1984, pp. 17-19). Para um a
visão am pla sobre a evolução dos conceitos da antropologia criminal, ver Del O lm o (2004).
14. Sobre o Código Penal de 1940, Leonídio Ribeiro afirma que são considerados perigosos os
condenados por crimes com etidos em estado de embriaguez habitual; os reincidentes em
crim e doloso; e os condenados por crimes associados a bandos ou quadrilhas. As medidas
de segurança são medidas detentivas voltadas para esses indivíduos e constituem interna­
ção em m anicôm io judiciário; em colônia agrícola; em instituto de trabalho; instituto de
reeducação ou de ensino profissional; em casa de custódia e tratam ento. C onstituem tam ­
bém medidas não-detentivas: liberdade vigiada e restrição de circulação. Ele festejava que,
ao lado da pena, figuravam agora as medidas de segurança e ao juiz cabia tom ar decisões
precisas, fundam entadas na perícia médica (Ribeiro, 1957; pp. 544, 550).
1 5. A crim inologia apontou para a necessidade do registro e organização dos dados estatísticos
relativos ao crime, mas a fragilidade das estatísticas no Brasil não deu opôrtunidade para
que os criminologistas colocarem suas teorias à prova. .
16. Em meados dos anos 1910, foi introduzida, de forma sistemática no Brasil, a elaboração e
m anutenção de prontuários de criminosos. Desde o início do século XX, havia tentativas
para o uso tam bém sistemático das impressões digitais ou datiloscópicas (Viotti, 1935) Ver
tam bém a introdução dos gabinetes de identificação na América Latina e a criação de
institutos de crim inologia em Del O lm o (2004, pp. 182-194).
17. Para Celso Vieira, a saída para o problem a do anarquism o residia na expulsão dos anar­
quistas e na adoção de um a legislação operária.
18. N um am plo processo de vigilância em escolas, colônias, internatos, vias públicas; proibi­
ção do .porte de armas; fiscalização da venda de bebidas; controle dos prostíbulos e dos
bairros de prostituição; internação hospitalar de loucos e abandonados; vigilância da vaga­
bundagem e da m endicidade; fiscalização profissional; identificação e folha corrida dos
empregos domésticos; publicidadè dos crimes e correção do sensacionalismo da imprensa
em relação aos crimes (Peixoto, 1933).

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105
Resumo

Criminologia, direito penal ejustiça criminal no Brasil: uma revisão da pesquisa reciente

A presente revisão procura ressaltar a im portância da literatura, surgida ao longo dos últim os
dez anos, que aborda o im pacto da crim inologia no Brasil. O artigo busca com preender as
propostas científicas, jurídicas e sociais que estavam subjacentes ao discurso da crim inologia,
particularm ente no contexto de reform a'das instituições da justiça crim inal, iniciada com a
instauração da República 1 10 país, no final do século XIX. Para isso, fazemos um a qualificação
do debate que aproxim ou ou mesmo opôs os juristas que mantiveram um a concepção de D i­
reito Clássico, baseada na reação social, nas garantias legais aos acusados, pela justiça e na
perm anência do júri àqueles que defendiam os postulados da nova ciência penal, que in tro d u ­
ziam no direito concepções e idéias provenientes da medicina, da psiquiatria e da m edicina
legal. O artigo conclui que a crim inologia teve com o efeitos fundam entais a afirmação de toda
um a agenda de reforma das instituições da justiça crim inal e a proposição de um processo
am plo de normalização de grupos sociais, a partir da concepção do tratam ento desigual aos
desiguais. O desafio, para os estudos das ciências sociais no Brasil, seria não perder de vista essa
origem problem ática e contem plar os debates recentes sobre a obsessão securitária e o aum ento
das taxas de encarceram ento, com o estratégia necessária de revisão das atuais práticas judiciais
e penais.

Palavras-chave: Crim inologia; Antropologia criminal; Sociologia jurídica; Sociologia históri­


ca; A dm inistração da justiça.

Abstract

Criminology, penal law, and criminaljustice in Brazil: a review o f the recent research

T he present review aims to show the im portance o f the literature appeared in the last few years
that approaches the problem o f the criminological thought in Brazil. T he article seeks to u n ­
derstand the main scientific, legal, and social purposes present in the criminological discourse,
mainly in the context o f the criminal justice system reform, during the foundation o f the
Republic, in the end o f the 19th century. T h e article accesses the debate that, in a sense, placed
in opposite sides legal experts that supported a conception o f the rule o f law, stressing legal
warranties to the defendants and the m aintenance of the jury and those that supported the
crim inology propositions.based on ideas borrowed from medicine, psychiatry, and forensic
sciences. T he article concludes that crim inology had a fundam ental im pact on the crim inal
justice system reform and on the control o f the poor through a conception o f unequal state
treatm ent for unequal people. T he social sciences in Brazil, in order to build new criminal
practices and policies, m ust not forget this historical pitfall. It must, nevertheless, observe
those recent debates on the new culture o f security, the growth o f incarceration, and the harde­
ning o f prison.

106
Keywords: Criminology; Crim inal anthropology; Juridical sociology; Historical sociology;
Justice management.

Résumé

Criminologie, droit pénal et justice criminelle au Brésil: une révision de la recherche récente

Cette révision a pour but de m ettre en valeur l’im portance des publications, parues au cours
des derniers dix ans, relatives à l’im pact de la crim inologie au Brésil. L’article cherche à com ­
prendre les propositions scientifiques, juridiques et sociales qui étaient sous-jacentes au dis­
cours de la crim inologie, particulièrem ent dans le contexte de réforme des institutions de la
justice criminelle, qui a com mencé .avec l’instauration de la république au Brésil, à la fin du
XIXe siècle. Pour cela, nous proposons une qualification du débat qui a réuni ou opposé les
juristes qui ont m aintenu une conception du droit classique, fondée sur la réaction sociale,
les garanties légales aux accusés et la permanence du ju ry à ceux qui défendaient les postulats
de la nouvelle science pénale, qui ont in tro d u it dans le droit les conceptions et les idées
issues de la médecine, de la psychiatrie et de la médecine légale. L’article conclut que la cri­
m inologie a eu pour effets fondam entaux l’affirm ation de tout un agenda de réforme des
institutions de la justice criminelle et la proposition d ’un large processus de norm alisation
des groupes sociaux, à partir de la conception du traitem ent inégal aux inégaux. Le défi, pour
les études des sciences sociales au Brésil, serait de ne pas perdre de vue cette origine problém a­
tique et de contem pler les débats récents à propos de l’obsession sécuritaire et l’augm entation
des taux d ’incarcération, en tant que stratégie nécessaire à la révision des pratiques judiciaires
et pénales actuelles.

M ots-clés: Criminologie; Anthropologie criminelle; Sociologie juridique; Sociologie histori­


que; A dm inistration de la justice.

107
Sociologia da Mística: Uma Revisão da Literatura

Carlos Eduardo Sell

O misticismo é apontado por diversos termo grego que denom ina “mistério” - mus-
autores (C ham pion, 1989; Hérvieu-Léger e tikós. É com este significado que ele adentra
C ham pion, 1989) com o um dos principais na reflexão filosófica grega e, a partir de D io-
traços da religiosidade contem porânea. Ele nísio Pseudo-Areopagita, na reflexão teoló­
não só está presente nos chamados “novos gica cristã.1 Vaz (1994) m ostra que no mis­
m ovim entos religiosos”, mas tam bém pode ticism o existem três âm bitos diferentes: a
ser identificado com o um a tendência im ­ experiência mística, o pensam ento místico
portante no interior das próprias religiões tra­ e o mistério místico. A experiência mística2 e
dicionais. M esmo no Brasil, diversos autores o mistério místico, segundo seus proponen­
(Siqueira e Lima, 2003) vêm cham ando a tes, não podem ser traduzidos por palavras.
atenção para os traços místicos de determ i­ Nosso ponto de partida, portanto, terá que
nadas igrejas e grupos religiosos. ser o “pensamento místico”, um a vez que está
Todavia, a mera constatação empírica dos situado no plano do discurso e é úm registro
traços místicos na religiosidade brasileira não empírico desta experiência religiosa. Trata-
tem sido acompanhada, da mesma forma, por se, como sabemos, de um discurso m uito pe­
um a reflexão conceituai aprofundada sobre culiar, que tenta traduzir de forma racional
o “conceito” de mística (ou misticismo) no algo situado no plano do irracional.
âm bito da sociologia. Visando a contribuir
Com o definir, então, a mística com o dis­
na superação desta lacuna, o objetivo deste
curso? U m a das definições mais famosas é a
texto é realizar um a revisão da literatura so­
de Lalande (1996), que apresenta quatro
bre o tem a da mística entre autores clássicos
grandes sentidos para o uso do term o m isti­
e contem porâneos do pensam ento sociológi­
cismo: como crença religiosa; como experiên­
co. Depois de apresentar um a definição ope­
cia psicológica; com o sistema filosófico; e
racional do term o, analisa-se a posição das
como falsa visão da realidade. Por outro lado,
principais escolas da sociologia clássica (mar­
Kolakowski (1965) questiona especialmente
xismo, sociologia francesa e sociologia com ­
três aspectos das definições tradicionais de
preensiva) e da sociologia contem porânea
mística: (1) a idéia de que a união mística
sobre o problem a da mística. Em seguida,
som ente é possível com divindades. Se parti­
mostra-se com o o tem a da mística tam bém
está presente nos estudos sociológicos so­ mos desse pressuposto, segundo o autor, fi­
bre a religião no Brasil. Por fim, realiza-se cariam excluídas da definição as religiões pan-
um “balanço” global sobre o tema. teístas, ãs formas não religiosas de experiência
mística e, inclusive, as formas de materialis­
mo; (2) a falta de um a definição mais precisa
O que é Mística? das condições que tornam possível a com u­
nicação direta com Deus (por exemplo, se
Conform e nos inform am os estudiosos todos são capazes disto ou apenas alguns elei­
(Davy, 1996), “mística” possui sua raiz no tos, seria resultado de um esforço pessoal ou

BIB, São Paulo, n° 59, I o semestre de 2005, pp. 109-127. 109


seria um a graça divina); e (3) a idéia de que a controvérsias e seus pontos de vista conver­
com unicação direta com Deus seria de cará­ gentes” {Idem, p. 37).
ter racional e discursivo, pois o misticismo é O principal traço que desejamos enfati­
a tentativa de racionalizar um a experiência zar na experiência e no pensam ento místico
intraduzível conceitualmente e não uma dou­ é a tensão interna entre os elementos racio­
trina como tal. Visando a superar esses proble­ nal e irracional desse discurso. E justam ente
mas, o autor apresenta a seguinte definição: essa peculiaridade que tem levado alguns
estudiosos contem porâneos a destacar o ca­
Doutrina segundo a qual é possível, dentro ráter crítico da m ística em relação ao que
de certas condições, que a alma humana - pode ser considerado um dos fundam entos
uma realidade diferente do corpo hum a­ da sociedade moderna: o racionalismo. Para
no —se comunique por meio de uma expe­ W ittgenstein, ainda que o pensam ento se li­
riência (não sensível, mas análoga por suas m ite ao m undo dos fatos, “sentim os que,
características diretas àquela que se produz mesmo que todas as possíveis questões cien­
no contato do sentido humano com os tíficas fossem respondidas, nossos problemas
objetos) com a realidade superior que con- vitais não teriam sido tocados. Sem dúvida,
• serva a primazia (no tempo ou na criação) não cabe mais pergunta alguma, e esta é pre­
cisamente a resposta” (1968, p. 128). A mes­
em relação a toda outra realidade; admite­
ma idéia está presente em Bergson, quando
. se ao mesmo tempo que esta comunica­
analisa a concepção do misticismo como con­
ção, ligada a uma intensa afeição de amor,
traponto do “maquinism o” (sociedade indus­
e também livre de toda participação das
trial), e em Heidegger (1999), em sua aber­
faculdades físicas do homem, constitui um
tura para o sentido e a verdade do “Ser”.3 Fi­
bem particularmente desejado e que é, ao
nalmente, de acordo com Rudolf O tto (1996),
menos nas suas formas mais intensas, o
a partir da sua distinção entre a face num i-
bem supremo que o homem pode conquis­
nosa e a face racional do sagrado, o misticis­
tar na sua vida terrestre (Idem, p. 35).
mo “é sempre, na sua essência, a exaltação
levada ao extremo dos limites não racionais
Essa conceituação, como atesta o próprio
da religião; assim definida, torna-se com ­
autor, perm ite englobar um a variedade im en­ preensível” (1992, p. 42).
sa de fenôm enos:'diferentes religiões (mono- Mas de que modo a sociologia (clássica
teístas, panteístas ou mesmo religiões sem e contemporânea) procurou lidar com o estu­
deus) e diferentes formas de união com Deus do da experiência e do pensam ento místicos?
(total ou parcial, ativa ou passiva), sejam elas
extraordinárias, sejam habituais, ligadas ou
não a estados físicos alterados. Tam bém ad­ Sociologia Clássica
m ite toda a variedade de condições conside­
radas necessárias para que se realize a união Podem os identificar reflexões sobre o
mística, tal com o a m anutenção ou mesmo a tem a da mística nas três principais escolas da
aniquilação da alma hum ana. C om porta ain­ sociologia clássica: a marxista, a francesa e a
da diversas concepções da alma e do absolu­ compreensiva. N a primeira, o tem a da m ísti­
to, e mesmo toda a diversidade de doutrinas ca aparece apenas de forma indireta, geral­
religiosas. Segundo o autor, “sobre a base de m ente, com o sinônim o de falsa visão da rea­
um a tal definição, pode-se, estimo, exami­ lidade. Contudo, em diversas ocasiões, há um
nar os diversos tipos de m isticism o, suas discurso místico implícito no próprio seio do

no
marxismo, com o se pode constatar nas refle­ mo reside na busca de um a form a de expe­
xões de Bloch (princípio esperança) ou de riência religiosa pura, o mais longe possível
W alter Benjamin (mística judaica), por exem­ das tradições históricas, culturais e sociais:
plo. Até o próprio Marx, com sua visão teleo- “sua essência é este m ovim ento de negação.
lógica da história, deixa transparecer a filo­ Por conseqüência, para bem com preendê-la,
sofia judaico-cristã do mundo. Há, portanto, no que lhe é absolutamente próprio, é preciso
* um a “mística do ainda não”, que nos remete virar as costas para a explicação sociológica”
diretam ente à idéia de utopia presente no (1996, p. 205). Em suma, na vertente fran­
marxismo. Mas, com o reflexão direta e siste­ cesa da sociologia do sagrado, a-reflexão sobre
m ática sobre o tema, não se pode delinear a mística não é desenvolvida. Apesar das m en­
um a sociologia do misticismo nessa vertente ções ao tema, não há um tratam ento am plo,
teórica. • sistemático e exaustivo sobre o assunto.
. N a França, o tema está pouco presente . Diferente é o quadro da sociologia ale­
entre os fundadores do pensam ento socio­ mã, em que o tem a das relações entre reli­
lógico francês. Em D urkheim e Mauss, por gião e m odernidade sempre foi fundam en­
exemplo, o term o mística aparece raras ve­ tal. Em Max Weber, por exemplo, o tem a
zes, sempre de forma ocasional.4 N o en tan­ atravessa praticam ente toda a sua obra socio-
to, há dois pensadores que desenvolveram essa religiosa.’ Do ponto de vista teórico, W eber
questão. M aurice Halbwachs (1952) trata do apresenta os tipos ideais de ascetismo e mis­
assunto na sua reflexão sobre a m emória co­ ticismo. N o obra Economia esociedade (1994,
letiva religiosa. Para ele, existe sempre uma p. 362), em que o tem a é apresentado de for­
relação de tensão entre a mística e a dogm á­ ma mais sistemática, o asceta é considerado
tica: o misticismo critica a rigidez e a secura um “instrum ento de D eus” {Wekzeug Gottes)
do pensam ento teológico oficial; o dogma - no m undo. Q uanto ao elemento místico, sua
com o evolução e cristalização da memória marca característica é ser um “receptáculo do
coletiva religiosa —precisa, por seu turno, sis­ divino” (Gefàss des Gôttilichen). Portanto, se­
tem atizar e desenvolver um a filosofia social gundo Weber, enquanto o prim eiro tipo de
que adapte o ideário cristão às exigências conduta religiosa é essencialmente ativo, o
seculares é políticas. Por isso, afirma H alb­ segundo é basicamente passivo. Todavia, na
wachs, “os místicos reprovarão a Igreja por fase final de sua obra, W eber atenua essa d i­
se deixar penetrar demais pelo espírito do sé­ ferenciação rígida entre ascetismo e misticis­
culo e a acusarão de infidelidade ao espíri­ mo, abrindo espaço para a possibilidade de
to de Cristo” (Idem , p. 207). Roger Bastide “com binar”, na realidade empírica, os tipos
(1928, 1996), por sua vez, apresenta um rico ideais. Vejamos com o o autor constrói sua
estudo sobre as “características” da vida mís­ tipologia no texto “Rejeições religiosas do
tica e suas principais “teorias explicativas”. m undo e suas direções”/' Em prim eiro lugar,
Bastide explica detalhadam ente as técnicas Weber, ao rever seus trabalhos anteriores,
místicas, o estado místico, as etapas da vida afirma: “tivemòs de usar repetidam ente as
mística, as graças-místicas, as provas místicas palavras “ascetism o” e “m isticism o” cóm o
e o estado teopático. Todavia, ao tentar ex­ conceitos polares” (1982, p. 373). Em segui­
' plicar as razões sociológicas que explicam tais da, relativiza essa distinção, ao dizer que
elementos, o autor afirma surpreendentem en­
te que a sociologia tem pouco a dizer sobre o O contraste diminui, porém, se o ascetis-
assunto. Segundo ele, a essência do misticis­ ■ mo ativo limita-se a controlar e superar a

ui
malignidade da criatura na própria natu­ com binam ou até mesmo podem desapare­
reza do agente. Nesse caso, ele fortalecerá cer. N o entanto, ele adverte:
a concentração sobre as realizações ativas e
redentoras, firmemente estabelecidas e de­ Em ambos os casos, o contraste pode de­
sejadas por Deus, a ponto de evitar qual­ saparecer realmente na prática, e pode
quer ação nas ordens do mundo (fuga as­ ocorrer uma certa combinação de ambas
cética do mundo). Com isso, o ascetismo as formas de busca de salvação. O contras­
te pode, porém, continuar até sob o dis­
ativo, em sua experiência externa, se apro­
farce de uma aparente semelhança externa
xima da fuga contemplativa do mundo
{Idem, ibidem). ■
(Idem, p. 374).
A seguir, resumimos esquem aticam ente
D ando seguimento a essa passagem, uma a revisão feita por W eber de sua tipologia,
se g u n d a p o ssib ilid a d e é exam inad a por com suas respectivas definições:
Weber:
■ Ascetismo intramundano : trabalho em
O contraste entre ascetismo e misticismo um a vocação.
também é reduzido se o místico contem­ ■ Ascetismo extramundano\ o crente deve
plativo não chega à conclusão de que deve lim itar a com bater no mal que está den­
fugir do mundo, mas, como ascético vol­ tro de si mesmo, por isso ele evita qual­
tado para o mundo, permanece nas ordens quer ação no m undo.
do m undo (misticismo voltado para o ■ Misticismo extramundano'. possessão con­
mundo) {Idem, ibidem). templativa do sagrado.
■ Misticismo intramundano-, o místico con­
Finalm ente, W eber apresenta ainda uma tem plativo não foge do m u n d o , mas
outra hipótese, qual seja, a de que os con­ com o ascético voltado para o m undo,
trastes não só se relativizam, mas tam bém se permanece nas ordens do m undo.

Quadro 1
Max Weber: Ascetismo e Misticismo

A SC ETISM O M IS T IC IS M O .

Tipo puro Ascetismo do m undo Fuga contem plativa do m undo


Tipo combinado Fuga ascética do m undo Misticismo orientado para o m undo

D o ponto.de vista empírico, nota-se que estética, erótica e intelectual. Em suas pala­
W eber sempre ressaltou a tensão existente vras:
entre a mística e o m undo m oderno. O autor
contrasta o m isticism o (e tam bém o asce­ [...] a unidade da imagem primitiva do
tismo) com as esferas econômica, política, mundo, em que tudo era mágica concreta,

112
cendeu a dividir-se em conhecimento ra­ cas, o dogm a e a moral) e filosóficas (a teodi-
cional e domínio da natureza, de um lado, céia mística, as técnicas místicas e a concep­
e experiências “místicas’ do outro. O con­ ção da semente divina), passando ainda por
teúdo inexprimível dessas experiências’ uma revisão histórica da mística protestan­
continua sendo o único “além” possível, te. Do ponto de vista sociológico, a religião
acrescido ao mecanismo de um mundo sem espiritual traduz-se na idéia de um a “igreja
deuses (Idem, p. 325). invisível”, definida por Troeltsch da seguin­
te maneira: “com unidade puram ente espi­
O utro autor fundam ental para a discus­ ritual, conhecida apenas por Deus, sobre a
são sociológica sobre a mística é o teólogo qual o hom em não precisa se preocupar, mas
protestante Ernst Troeltsch. Em sua princi­ que, invisível, governa todos os seguidores,
pal obra, Die Soziallehren der Christlichen und sem sinais externos ou outros instrum entos
Kirchen Gruppen (A doutrina social das .igre­ hum anos” {Idem, p. 745). Portanto, trata-se
jas e dos grupos cristãos), de 1912, Troeltsch, da concepção de um a com unidade puram en­
além de realizar um a das mais primorosas te espiritual, unificada apenas pelo poder
análises da evolução histórico-social do cris­ do espírito e na qual o indivíduo é liberado,
tianismo, oferece um conceito de mística bas­ conseqüentem ente, de toda a obrigação de
tante original e rico em virtualidades teóri­ evangelizar e de o rganizar in stitu c io n al-
cas. Sua análise sobre as diversas etapas his- m ente (como seita ou igreja) a religiosidade.
tórico-sociais do cristianism o m ostra as três Graças à idéia da semente divina, Cristo está
formas de esta religião se inserir na esfera presente em toda parte, entre todos os cren­
secular: trata-se dos tipos institucionais de tes e, inclusive, entre os não-cristãos. Por isso,
“igreja”, “seita” e “mística”. De acordo com o cristão deve ser tolerante e deve exercitar a
sua definição, o misticismo é essencialmente vida cristã na prática, independentem ente
um a experiência religiosa direta que surge de das instituições, ou organizações. De qual­
um a reação contra a excessiva objetivação da quer forma, a igreja invisível não significa
vida religiosa em práticas institucionalizadas. necessariamente a ausência de qualquer laço
Nas palavras do autor: social entre os indivíduos. O místico tam bém
é hum ano e sente a necessidade de contato
No sentido amplo da palavra, misticismo com outras pessoas. Por esta razão, explica o
é simplesmente a insistência em uma ex­ autor:
periência religiosa direta, interior e presen­
te. Não valoriza as formas objetivas da vida Entretanto, onde os místicos formam gru­
religiosa na adoração, no ritual, no mito e pos, eles não têm a intenção de tomar o
no dogma, pois é uma reação contra estas lugar da grande “igreja invisível” (como
práticas objetivas, aos quais ele tenta dar uma seita tenderia a fazer), ou de interferir
vida nova, ou ainda, é o suplemento para no trabalho de Deus de difundir a influên­
formas tradicionais de adoração mediante cia do espírito; o objetivo desses grupos é
o estímulo pessoal e vivencial (1931, p. puramente pessoal, são círculos íntimos
730). para a edificação {Idem, p. 746).

A reflexão que Troeltsch desenvolve so­ O u tra preocupação de Troeltsch é mos­


bre o tem a é bastante assistemática. Ele abor­ trar os impactos sociais da mística, ou seja,
da desde questões teológicas (as raízes bíbli­ seus efeitos sociológicos. Assim, ele m ostra

113
que o misticismo é o tipo de religião que mais reforçam o desejo de um a união direta, inte­
convém às necessidades religiosas das classes rior e presente, ou seja, a tendência mística.
letradas. E m bora algumas camadas sociais Retom ando a perspectiva de Troeltsch, Ar­
prefiram as seitas, em virtude do sentim ento naldo Nesti (2002) destaca tam bém que a
de segurança organizacional, e outras, as igre­ religiosidade mística é a que m elhor se adap­
jas, uma vez que estas podem ser usadas como ta ao caráter pluralista das opções religiosas
um instrum ento de controle das massas, é contem porâneas, abertas às escolhas indivi­
justam ente pelo fato de o individualism o duais. Para Collin Campbell (1978), enquan­
m ístico estar co ad u n ad o ao in d iv id u alis­ to as igrejas e as seitas estão em declínio, é a
mo da sociedade m oderna que as camadas religiosidade individual e subjetiva que se
mais cultas tendem a adotar esta forma de encontra em ascensão. Cam pbell (1997) ain­
religiosidade.8 da dem onstra que a absorção de um a teodi-
céià oriental, mais voltada para a mística, é
possível tendo em vista sua com patibilidade
Sociologia Contemporânea com a corrente mística já presente no pró­
prio cristianismo. •
Embora não tenhamos a pretensão de ser Todavia, para além das semelhanças nes­
exaustivos, podem os dividir a literatura con­ sa estratégia de resgate conceituai dos clássi­
tem porânea que trata dos fenômenos místi­ cos, existe um a sensível diferença na maneira
cos em dois blocos: a literatura de língua in­ com o cada um a das visões apresentadas se
glesa e a de língua francesa. apropria dos conceitos tradicionais em sua ta­
N a primeira,, o que predom ina é a tenta­ refa teórica. Com o vimos, W eber e Troeltsch
tiva de retom ar os conceitos clássicos de W e­ tinham posições diferentes sobre a relação en­
ber e Troeltsch. Do lado weberiano, Roland tre a mística e a m odernidade. Se para Weber
Robertson (1975), por exemplo, defende a havia um a tensão, em Troeltsch, a mística
tese de que a tendência intram undana se in- estaria adaptada às condições do individua­
• clina para o ascetismo, enquanto a extram un- lismo contem porâneo. Curiosam ente, os es­
dana aproxima-se do misticismo. Mas, vale tudiosos desses autores acabaram tom ando
dizer, ambas podem ser mitigadas, pelo mis­ direções diferentes de seus mestres. E nquan­
ticismo, no caso da primeira, e pelo ascetis­ to a literatura ‘'neo-weberiana" busca eviden­
mo, no caso da segunda. Assim, o atual mis­ ciar que o misticismo intram undano é uma
ticismo intram undano seria um a forma de forma de adaptação ao m undo secularizado,
adaptação dos indivíduos no interior da so­ a corrente “neo-troeltschiana” aposta na idéia
ciedade burocratizada e diferenciada da m o­ de crise da secularização. O u seja, a litera­
dernidade. Tese similar é a de D onald Stone tu ra w eberiana destaca a com patibilidade
(1978), para quem o misticismo também é entre misticismo (em sua versão in tram u n ­
com patível com a vida burocrática m oder­ dana) e m undo m oderno secularizado, e a
na, tendo em vista a centralidade que esta con­ troeltschiana aponta para a incom patibili­
fere ao indivíduo. Já para W illiam Swatos dade, na m edida em que o misticismo seria
(1981), é preciso revisar os conceitos tradicio­ a forma de religiosidade da sociedade pós-
nais na literatura, apontando para uma nova moderna. \
tipologia, a saber, os cultos e as seitas. Estas N a perspectiva sociológica francesa, al- '
tendem a estim ular a vida ascética, aqueles guns autores, para entender a mística, con­

114
tem porânea, preferem um tratam ento mais A Sociologia da Mística no Brasil
sócio-histórico, outros buscam inovações con­
ceituais. O prim eiro grupo concentra-se na N a sociologia brasileira, o tem a da mís­
análise de tendências místicas da história fran­ tica recebeu um tratam ento essencialmente
cesa, para encontrar ali algumas variantes empírico. Os trabalhos podem ser divididos
sociológicas que expliquem - em um a pers­ em dois grupos. N o prim eiro destacam-se
pectiva que poderíam os cham ar de nom oló- pesquisas que buscam explicar os traços ou
gica —o fenôm eno místico.9 O segundo de­ os aspectos místicos de um a determ inada re­
tém-se na religiosidade contem porânea, no ligião no Brasil. Assim, as mais im portantes
sentido de verificar em que m edida a vida tradições religiosas brasileiras são apontadas
religiosa atual possui traços místicos. Neste e analisadas: protestantism o, religiões afro-
g ru p o , destaca-se a socióloga F rançoise brasileiras, catolicismo e tam bém os novos
C ham pion, que criou o conceito de “nebu­ m ovim entos religiosos No segundo, os estu­
losa místico-esotérica”: dos são mais abrangentes, isto é, procuram
utilizar-se do conceito de mística para en ten ­
Ela é composta de grupos e redes diversos,
der aspectos do cam po religioso brasileiro
podendo vincular-se às grandes religiões
como um todo.
orientais, corresponder a sincretismos eso­
Sobre o pentecostalismo, o trabalho pio­
téricos mais ou menos antigos ou a novos
neiro é de Rubem Alves que já em 1984 re- ,
sincretismos psico-religiosos, ou, ainda,
feria-se ao “misticismo com o emigração dos
reagrupar pessoas em torno de diferentes
sem poder”. O autor sustenta que a realida­
práticas adivinhatórias (1990,.p. 17).
de m oderna vive a contradição entre possuir
aspirações e, ao mesmo tem po, ter consciên­
C ham p io n (1991, 1993) investiga as
cia de não poder realizá-las. É neste sentido
relações dos grupos místico-esotéricos com o
que o misticismo pode ser interpretado como
pensam ento holista e a visão que estes gru­
“emigração dos sem poder”. N esta mesma li­
pos possuem do conhecim ento científico
(1991). Assim, no contexto de um a recom­ nha de raciocínio, Prócoro Velasques Filho
posição do fenôm eno religioso, a “nebulosa (1988) entende que o misticismo vem sendo
místico-esotérica” parece situar-se no ponto recuperado pelas “religiões do espírito” (ou
de intersecção de três tendências da m oder­ seja, as igrejas pentecostais), que estariam
nidade. D e um lado, a transform ação da ocupando o lugar do protestantism o e do ca­
m entalidade, que implica na valorização ex­ tolicismo, um a vez que estes não mais satis­
trem a do indivíduo, isto é, de sua autentici­ fazem as necessidades religiosas dos fiéis.
dade, vontade e independência. De outro, o Tam bém para A ntonio G ouvêa M endonça
protesto social que acom panha o próprio (1988) o misticismo é essencialmente um a
desenvolvimento da m odernidade e que se reação antiintelectualista no âm bito da reli­
insurge contra o materialismo e o racionalis- gião. Partindo de Roger Bastide, o autor en­
mo típicos de nossa era. Por fim, em se tra­ tende o misticismo como um a reação aos pro­
tando de sensibilidade religiosa, os grupos cessos de institucionalização e elaboração
místico esotéricos parecem revelar um a for­ discursiva ocorridos ao longo da evolução
ma de otim ism o religioso (a noção é inspira­ religiosa. Em suma, trata-se sempre de um
da em W illiam James), ou seja, um a religião retorno ao “sagrado selvagem”, fonte de toda
do coração, mística e otimista. vida religiosa.

115
N o cam po de estudo das religiões afro- m ovim entos religiosos” ou a cham ada “nova
brasileiras, o pioneiro na identificação dos era”. A semelhança entre o caráter subjetivo
traços místicos desse segm ento religioso é desses modos de religiosidade e a religiosida­
Roger Bastide. N o texto “Castelo interior do de mística vem sendo fortem ente enfatizada
hom em negro’’, ele analisa as semelhanças pelos pesquisadores. Leila Amaral, por exem­
entre o “transe místico” e o “êxtase místico”, plo, na tentativa de entender “os errantes da
isto é, entre o misticismo na sua versão cristã Nova Era”, afirma: •
e o misticismo na sua versão afro-brasileira:
[...] interessa-me particularmente compre­
Que ninguém se espante com as compara­ ender o fenômeno do “nomadismo espiri­
ções que por vezes nós tentaremos fazer tual” como constituinte de novas versões
entre o misticismo cristão e o misticismo místicas no mundo contemporâneo, num
politeísta. Não se trata, evidentemente, de
movimento em que se entrecruzam as mais
identificar duas formas de misticismo opos­
diferentes tradições religiosas e não reli­
^ tas —ascensão da alma
' até-Deus e descida
giosas com suas combinações excêntricas
dos desuses sobre os “cabelos” —, mas so­
(1993, p. 19).
mente de ajudar o leitor a melhor sentir a
riqueza do transe místico africano, me­
José Guilherm e M agnani, em texto in ­
diante certos sistemas de semelhanças
trodutório e didático, no qual descreve “o
(Bastide, 1972, p. 59).
Brasil da nova era”, indica sua preferência pelo
conceito de neo-esoterismo para explicar esta
O s autores que buscam apontar os ele­
tendência religiosa, mas, segundo o autor, “há
m entos místicos do m undo religioso afro-
quem prefira complexo alternativo, oü novo
brasileiro seguem, basicamente, o cam inho
traçado por Bastide. Para N eusa Costa, por m isticismo, holismo [...]” (2000, p. 2 6 ).10
exemplo, o conceito central do misticismo O utro exemplo nesse campo de pesquisa é o
afro-brasileiro é a noção de transe místico: projeto “Práticas místicas e esotéricas do D is­
“durante o transe místico não há, pois, a in ­ trito Federal”, realizado na Universidade de
corporação de um a entidade estranha àquele Brasília entre 1994 e 2001. Ademais, a pu­
ser material que é o do filho de santo, o íyàwo, blicação de trabalhos sob a coordenação de
mas a transm utação do íyàwo na sua dim en­ Siqueira e Lima (2003) revela que a catego­
são divina ou, melhor dizendo, na sua por­ ria mais explorada nesta área foi a já citada
ção divina” (Costa, 1984, p. 96). José Jorge noção de “nebulosa místico-esotérica”. N o
Carvalho (1997) tam bém segue a via analí­ entanto, nesses estudos o espaço para um a
tica de Bastide. M ostra como os poemas dos discussão teórica deste conceito ou mesmo
cultos afro-brasileiros são textos literários que de outros conceitos sociológicos sobre a mís­
podem ser equiparados à grande tradição mís­ tica é bastante restrito. Apenas A driana Val-
tica ocidental. N um a análise comparada, o au­ le-H õllinger (2003, pp. 235-266) recorre ex­
tor identifica as semelhanças existentes entre plicitamente a autores como Weber e Troei tsch
os cantos aparentem ente simples da jurem a, para discutir a influência de tendências mís­
da m acum ba e da pajelança e as concepções ticas em escolas de Brasília. Fliguet apare­
de outras tradições místicas, form ulando, as­ ce tam bém com um im portante texto que
sim, um quadro de referência mais amplo. identifica um a “nova consciência religiosa”,
O conceito de mística tam bém começa na qual o misticismo ecológico é um traço
a ser explorado em análises sobre os “novos fundam ental:

116
Troeltsch. N a m inha tese de doutorado (Sell,
[...] está nascendo um “misticismo ecoló­ 2004)detive-m e tam bém sobre esse tem a,
gico” dotado de uma cosmologia alter­ mostrando que o discurso místico da teolo­
nativa, visão do m undo - amplamente gia da libertação representa um a recomposi­
compartilhada - em que se destacam os ção deste segmento do catolicismo tanto no
cuidados com a “espiritualidade”, com a campo religioso com o no social.
“natureza”, a “harm onia” entre os hom ens A inda sobre o catolicismo, existem tra­
e a recuperação de um equilíbrio corpó­ balhos que buscam investigar a questão da
reo, psíquico e cósmico perdido” (Higuet, mística no interior do m ovim ento carismá­
2001, p. 139). •• tico. Carlos Alberto Steil (2003), por exem­
plo, partindo da análise em pírica de grupos
E ntre os m ovim entos analisados por carismáticos na cidade de Porto Alegre/RS,
H iguet estão o Santo D aim e e a União do mostra com o esses grupos constituem formas
Vegetal;11 o autor discute ainda os trabalhos pelas quais penetram no catolicismo elem en­
de Leonardo Boff e Ivone Gebara no campo tos de compreensão e de com portam ento re­
da teologia da libertação. ligioso aparentem ente estranhos ao m undo
Sobre o catolicismo, podem os identifi­ católico tradicional.
car pesquisas que apontam elementos m ísti­ N o segundo conjunto de estudos de que
cos em cada um a das principais tendências falamos algumas pesquisas têm avançado no
internas dessa religião no Brasil. Um dos tra­ sentido de buscar um a avaliação global do
balhos mais abrangentes nesse sentido é o fenômeno do misticismo e seus impactos no
texto de Etienne H iguet (1984). De acordo campo religioso brasileiro como um todo.
com este autor, a mística estaria presente, em José Jorge de Carvalho, por exemplo,
primeiro lugar, no “catolicismo popular”, pois procura alinhavar um a teoria a respeito dos
o povo possui um a mística da natureza, na estilos de espiritualidade, já que os conceitos
qual o cosmos é visto com o manifestação da tradicionais de m ística, a seu ver, seriam
presença do sagrado. A relação entre catoli­ m uito restritivos e intelectualistas no sentido
cismo popular e misticismo tam bém é apro­ de fechar o cam inho para o reconhecim ento
fundada por Eduardo H oornaert (1998) em da experiência mística em outras tradições
seu estudo sobre o movim ento de Canudos. religiosas:
N esta obra, adotando como referência a teo­
ria de Ernst Troeltsch, o autor busca caracte­ [...] estou consciente de que uma resposta
rizar a religiosidade popular a partir da cate­ afirmativa para esta questão causaria uma
goria de “catolicismo devocional, místico ou verdadeira revolução nos estudos da mís­
beato”. . tica tal como têm sido realizados até o mo­
Q uanto à teologia da libertação, M arce­ mento, pois os estudiosos teriam que acei­
lo Ayres C am urça (2000) discute o que cha­ tar, pela primeira vez, a possibilidade de
ma de influência “new age” na Igreja C ató­ experiências espirituais qualitativamente
lica, analisando o “holism o” das idéias de ricas com expressões lingüísticas simples ou
Leonardo Boff e Frei Betto. Im portantes con­ pobres” (1994, p. 86).
tribuições nesse sentido tam bém são forne­
cidas por Carlos Alberto Steil (1999), que vê Carvalho propõe, então, quatro grupos
na teologia da libertação um a aproximação que encerram diferentes estilos de espiritua­
com a mística, apresentada na obra de Ernst lidade: 1) a grande mística letrada; 2) a espi­

117
ritualidade da possessão ritualizada; 3) o es­ Franz Josef Brüseke (2005) analisa o
piritism o; e 4) o meditativo oriental. tem a em pauta a partir de um conceito cons­
O ensaio de Cardoso (1999) tom a por truído por ele, denom inado m odernidade
base a teoria weberiana (ascetis;mo e m isti­ técnica.13 Embora Brüseke não investigue o
cismo) para entender o que denom ina “mis­ tem a em piricam ente nas religiões do Brasil,
ticismo contem porâneo”. Para esta categoria, sua obra se destaca pelo tratam ento teórico
ele busca estabelecer um novo conceito que, amplo e sistemático conferido ao conceito de
de um lado, abarque experiências não estri­ mística, de um lado, e, de outro, por sua preo­
tam ente religiosas e, de outro, apreenda vi­ cupação de relacionar o tem a à questão da
vências outras, que não as grandes experiên­ m odernidade. Do p onto de vista teórico,
cias místicas, mas suas formas mitigadas. Brüseke ressalta um a diferença fundam ental
Em am bos os autores podem os perceber entre a experiência mística e o pensam ento
um esforço no sentido de ampliar, a discus­ místico. A primeira, segundo o autor, seria
são sobre a questão da mística para um u ni­ com posta por seis elementos —unidade, pre­
verso que não se restrinja a um a religião em sença, felicidade, m orte, am or e tem po - ; o
particular. Carvalho busca incluir entre as segundo buscaria um a aproximação do tema
expressões da mística suas versões menos le­ pela via da razão, daquele “algo” situado para
tradas e Cardoso deseja dar conta de todo o além de qualquer definição. Ademais, Brü­
cam po religioso. C ontudo, apesar dos indí­ seke propõe um a relação do misticismo com
cios, não há em seus estudos um a discussão o tema da moral. Se à prim eira vista a m ísti­
sistemática, crítica e abrangente sobre a mís­ ca poderia representar um perigo para a m o­
tica como conceito teórico. Até mesmo o tra­ ral social, o autor lembra que não há oposi­
balho de Cardoso, diríamos, faz apenas uma ção entre a mística e a sociedade e que não se
adaptação dos conceitos de Weber para fins de deve reduzir a ética a um a moral social. N as­
pesquisa empírica, aliás bastante discutível. . ce daí o que ele cham ou de “mística da resis­
Vale a pena destacar ainda alguns traba­ tência”, m uito mais am pla do que se entende
lhos que, em bora não sejam estritam ente “so­ Dor’“ética da resistência”.
ciológicos” do po n to de vista disciplinar,
m ostram a preocupação de pesquisadores
brasileiros em relação ao tema da mística. A Considerações Finais
revista Rever do curso de pós-graduação em
ciências da religião da Pontifícia Universida­ N a primeira vertente teórica que abor­
de Católica de São Paulo traz bons exemplos. damos, constatam os que o tem a da mística
N o campo da análise comparada, podemos não é tratado de forma explícita. N o marxis­
citar os trabalhados de Crom berg (2003) e mo, não existe propriam ente um a teoria so­
Teixeira (2003) sobre a mística islâmica. Os ciológica da mística. O conceito aparece de
artigos de Leone (2003), Shoji (2003) e Pon- m odo difuso e sempre cunhando de forma
dé (2003),12 por sua vez, discutem a experiên­ negativa, como ocultação dos fundam entos
cia mística propriam ente dita. Mas pouca reais da sociedade. Assim, nesse paradigm a a
atenção é dada ao estudo do misticismo nas m ística reduz-se à mistificação. C o n tu d o ,
religiões brasileiras; apenas Shoji se pergunta constatam os que, de form a im plícita, há
textualm ente “se não existe um a mística bra­ um a presença recorrente do tem a nas idéias
sileira que não seja contem plada nos m ode­ de pensadores com o H orkheim er, Bloch,
los internacionais mais gerais (2003, p. 72). Lukács, Benjamim e até mesmo do próprio

118
Marx, o que deixa evidente que o racionalis- que diz respeito ao protestantism o. D o p o n ­
mo marxista acaba se .defrontando com os to de vista metodológico, o enfoque de W e­
aspectos “irracionais” (místicos), ocultos em ber, como não poderia deixar de ser, centra­
seus fundam entos, por interm édio de pensa­ se sobre ação social. Ascetismo e misticismo
dores que buscaram justam ente acentuar tal representam condutas religiosas diversas que
aspecto em Marx. Embora isso corrobore para implicam em diferentes formas de inserção
a im portância das questões levantadas pela no m undo. O enfoque de Troeltsch, por seu
experiência e pelo discurso místicos, com efei­ turno, é. mais institucional. Igreja, seita e
to a teoria marxista não nos oferece um a con­ mística constituem não só diferentes m anei­
tribuição relevante para pensar - de forma ras de organização coletiva, fruto de visões
sociológica - a realidade do misticismo. diversas da religião cristã, mas tam bém , e
N a corrente francesa, esse fenômeno foi principalm ente, três formas de vínculo com
analisado, a partir da categoria do sagrado, o m undo social (aceitação, negação e indife­
no âm bito da sociologia da religião. Segun­ rença). Interessante tam bém é perceber como
do D urkheim , a mística pode ser entendida cada um desses autores analisa a mística no
como todas as formas de com portam ento re­ âm bito da modernidade. O nde W eber enxer­
ligioso pelas quais o hom em abandona suas ga tensão, todo o esforço de Troeltsch quer
ligações com o m undo profano e dedica-se mostrar a religião espiritual com o o tipo de'
exclusivamente ao m undo sagrado. Mas a tra­ espiritualidade que mais se adapta ao indi­
dição “im anentista” de D urkheim , que ex­ vidualismo e ao subjetivismo das condições
plica o social pelo social, e a religião como contem porâneas. Assim, se para W eber a
expressão da superioridade do social sobre o mística é apenas um a força de resistência
individual, sempre relegou o tema da mística m inoritária num m undo desencantado, para
a um segundo plano. Isso nos leva a concluir Troeltsch o m isticism o significa um a das
que, se no marxismo o tem a da mística está possibilidades de sobrevivência da religião no
praticam ente ausente (a não ser sob um a for­ contexto da modernidade.
ma negativa ou implícita), na vertente fran­ A sociologia contem porânea avançou no
cesa da sociologia do sagrado, a reflexão so­ sentido de acom panhar e descrever as m utar
bre a m ística não teve continuid ad e. N a ções e a diluição do misticismo nas formas
realidade, a sociologia racionalista e laicizan- de com portam ento do indivíduo contem po­
te de D urkheim e de seus herdeiros da socio­ râneo. Avançou, portanto, em termos de acui­
logia do sagrado não estava aparelhada para dade para detectar as transformações na esfera
pensar o lado irracional do misticismo. do com portam ento religioso, mas tal ganho
De fato, é no âm bito da sociologia ale­ fez-se às custas da perda da capacidade da
mã que o tem a da mística receberá um desen­ própria sociologia de pensar, a partir da mís­
volvim ento teórico mais consistente. C om ­ tica, os fundam entos da m odernidade. Em
parando às teorias de Weber e de Troeltsch outras palavras: na sociologia clássica, a mís­
sobre o tema, pudem os perceber alguns con­ tica ainda era um tema pelo qual alguns pen­
trastes interessantes tanto da perspectiva de sadores (particularm ente.W eber e Troeltsch)
investigação como da m etodologia.14 Weber podiam discutir os aspectos “racionais” e “se­
busca entender a mística em fontes não oci­ culares” da sociedade m oderna; na sociolo­
dentais, especialmente nas religiões da C hi­ gia contem porânea, a discussão está restrita
na e da índia; Troeltsch, ao contrário, mer­ a seus efeitos no próprio campo religioso. O u
gulha nas raízes do O cidente, sobretudo no seja, o debate ganhou em term os de especia­

119
lização temática, acom panhando, portanto, A reflexão sobre a “magia” nas religiões
a própria evolução da sociologia da religião brasileiras proporcionou, sem dúvida, exce­
com o campo específico da sociologia, con­ lentes resultados teóricos, mas pouca aten­
tudo tal especialização abafou a dimensão ção foi dada até o m om ento a um elemento
“crítica” do tem a da mística como um locus central da religiosidade contem porânea, qual
privilegiado para pensar a “condição” e as seja, a mística. O s pesquisadores têm se lim i­
“contradições” da m odernidade racionali­ tado apenas a constatar a presença de el-emen-
zada dos tem pos atuais. zos místicos em um a determ inada esfera da
H á m uito que se fala da “magia” (Pie- vida religiosa no Brasil. Q uando observamos
rucci, 2001) no campo religioso brasileiro. a reflexão sobre a mística no âm bito da lite­
O s milagres no pentecostalismo, as curas no ratura internacional, percebemos o quanto
catolicismo carismático, os favores concedi­ este conceito perm ite aos teóricos ingleses e
dos pelos orixás nas religiões afro-brasileiras; franceses pensar, de forma global, as trans­
tudo isso indica que a magia, com o forma de formações que afetam a dinâm ica da vida
com portam ento religioso, está em toda a par­ religiosa contem porânea. C ertam ente traba­
te. Em bora haja consenso sobre esse fato en­ lhar com este conceito nos auxiliaria a pen­
tre os estudiosos, as interpretações são diver­ sar o campo religioso com a mesma profun­
sas. M esmo dentro da linha weberiana, que didade que o conceito de magia - em chave
tem no recuo da magia o elem ento central weberiana —nos perm itiu analisar nossa rea­
para entender o desencantam ento do m undo lidade religiosa. U m a razão a mais para vol­
(Pierucci, 2003), para alguns autores, a for­ tarm os a visitar e a desenvolver nossa refle­
ça da magia representa a “volta do sagrado” xão sobre o fenômeno místico, retom ando
(Alves, 1984); para outros, não há contradi­ suas formulações clássicas e reform ulando-as
ção entre esta reaparição da magia e a efetiva para pensar a religião na realidade brasileira
“secularização” da sociedade brasileira (Pie­ e, inclusive, a própria m odernidade, como,
rucci e Prandi, 1996; Pierucci, 1997, 1998). aliás, já faziam os clássicos da sociologia.

Notas

Todavia, como fenômeno religioso, o misticismo está presente em praticam ente todas as
grandes religiões universais. Para uma visão histórica, ver G raef (1972), Bernard (1994),
Albert (1996), Keller (1996), Borchert (1997), Sõlle (1999) e M aisonneuve (2000). Ver
tam bém o clássico de Gershom Scholem sobre a “mística judaica” (1972).
H á um a vasta literatura, tanto no campo da psicologia como no da “mística com parada”,
que trata dos elementos que com põem a experiência religiosa mística. N a psicologia, ver
especialmente James (1991); na “mística com parada”, ver U nderhill (1952) e Zaehner
(1973).
3. Para analisar as conexões entre o tem a da mística e o pensam ento filosófico, ver Brüseke
(2004).
4. As poucas menções desses autores sobre o tem a aparecem na coletânea que Karaky elabo­
rou sobre os “Textes” de D urkheim (1975, pp. 137-141) e nas “Oeuvres” de Mauss (1968).
Todavia, essa questão permanece ainda pouco explorada pelos estudiosos de Weber. Entre

120
os textos que discutem o assunto, ver sobretudo os trabalhos de A dair-Totteff (2002),
Nelson (1975) e Eister (1975).
6. N o original alemão o texto chama-se “Zw ischenbetrachtung” (Consideração interm ediá­
ria).
7. Tirando-se o uso da famosa dicotom ia “igreja e seita”, o conjunto da obra de Troeltsch
ainda é pouco estudado no Brasil. Para um a visão global do pensam ento do autor, ver
Séguy (1980), D rehsen (1987), Vermeil (1990), Disselkamp (1991), Gisel (1995) e Froi-
devaux (1999). Sobre o tem a da mística em particular, ver Steeman (1975), G arret (1975),
Gustafson (1975) e D aiber (2002).
8. O utro autor alemão que percebe o vínculo entre mística e classes letradas é Georg Simmel.
Apesar de não nos apresentar um estudo am plo e sistemático sobre a mística, no texto
intitulado “O conflito da cultura m oderna”, este pensador insere sua reflexão sobre a mís­
tica no quadro de sua sociologia das formas. De acordo com o argum ento de Simmel, a
mística preserva o conteúdo da religiosidade, mas rom pe com suas formas sociais. Para
maiores detalhes sobre a questão, ver W attier (1996, pp. 23-50).
9. D ada a brevidade deste texto, não podem os aprofundar o assunto. Mas, o leitor deverá
consultar principalm ente C ertau (1982), Poulat (1992) e Vidal (1998, 2001).
10. A respeito do neo-esoterismo, pode-se consultar ainda Amaral et al. (1994), D ’Andrea
(1998) e M agnani (1999).
11. Sobre o Santo D aim e, conferir o trabalho de Soares (1990). Este autor tam bém discute a
relação entre novos movim entos religiosos e misticismo ecológico (Soares, 1989).
12. O tem a da experiência mística tam bém é analisado por L uduena (2003, pp. 34-56) na
revista Númen. .
1 3 . 0 conceito de m odernidade técnica é construído por Brüseke incorporando a reflexão de
Heidegger sobre a “a questão da técnica”. Para maiores detalhes sobre este conceito, ver
Brüseke (1999, 2001, 2002a, 2002b e 2003).
14. Para um a análise comparativa, ver Seguy (1991, 1992) e M erz-Benz (2004).

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Resumo

Sociologia da mística: uma revisão da literatura

O objetivo deste artigo é examinar a trajetória da reflexão sobre o tem a da mística no pensa­
m ento sociológico. A prim eira parte analisa as concepções das sociologias marxista, francesa e
compreensiva sobre o tema. A segunda parte analisa essa discussão no âm bito da literatura de

126
língua Inglesa e francesa. N a terceira, são examinadas as produções no Brasil, particularm ente
as que tratam dos elementos místicos presentes nas religiões do país. Ao final, apontam -se para
algumas possibilidades que o tem a da mística levanta para pensar aspectos do campo religioso
brasileiro, bem como da própria modernidade.

Palavras-chave: Sociologia; M ística; Misticismo; Cam po religioso brasileiro; M odernidade.

Abstract

Sociology o f Mystic: a literature review .

T he article aims to examine the trajectory o f the reflection about mysticism w ithin the socio­
logical thought. T he first part analyses the conceptions presented by the M arxist Sociology, the
French Sociology, and the Com prehensive Sociology about the theme. T he second part exami­
nes the discussion w ithin the scope o f the literature in English and French. In the third part,
the production on the them e in Brazil is examined, especially those that deal w ith mystical
elements found in Brazilian religions. Finally, some possibilities raised by the discussion on
mysticism are pointed as a way o f thinking aspects o f the Brazilian religious field, as well as
m odernity itself. •

Keywords: Sociology; Mysticism; Brazilian religious field; M odernity.

Résumé , *

Sociologie de la mystique: une révision de la littérature

L’objectif de cet article est d ’examiner la trajectoire de la réflexion sur le thèm e de la mystique
dans la pensée sociologique. La première partie analyse les concepts de la sociologie marxiste,
de la sociologie française et de la sociologie compréhensive liés à ce sujet. La seconde partie
aborde cette discussion dans le cadre de la littérature de langue anglaise et française. D ans la
troisième partie, sont examinées les productions existantes au Brésil, particulièrem ent celles
dont le traitement s’applique aux éléments mystiques présents dans les religions du pays. En conclu­
sion, sont indiquées quelques possibilités apportées par le thèm e de la mystique pour repenser
certains aspects du dom aine religieux brésilien, et de la propre m odernité en tan t que telle.

M ots-clés: Sociologie; Mystique; Mysticisme; D om aine religieux brésilien; M odernité.

127
Programas de Pós-Graduação
e Centros de Pesquisa Filiados à ANPOCS

Casa de Oswaldo C ruz D epartam ento de Fundação Casa de Rui Barbosa


Pesquisa —C O C www.casaruibarbosa.gov.br
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Fundação Joaquim N abuco Instituto de
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to - CEBRAP www.fundaj.gov.br
www.cebrap.org.br
Instituto de Estudos da Religião - ISER
www.iser.org.br
C entro de Estudos Africanos —CEA —USP
www.fflch.usp.br/cea Instituto de Relações Internacionais IRI-
PUC-RJ
C entro de Estudos da Religião - CER-USP
w w w .puc-rio.br/sobrepuc/depto/iri
www.fflch.usp.br/cer
IUPERJ - Programa de Pós-Graduação em
Centro de Estudos de C ultura C ontem po­
Ciência Política .
rânea - C E D E C
w w w .iuperj.br/pos_graduacao
www.cedec.org.br
IUPERJ —Programa de Pós-Graduação em
C entro de Estudos Rurais e Urbanos
Sociologia
C ER U -U SP
www. iuperj.br/pos_graduacao
www.fflch.usp.br/prpesq/ceru/htm
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N úcleo de D ocum entação eTnformação
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N E P P - U N IC A M P Sociologia e Antropologia
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N úcleo de Estudos de População - N E PO UFPA —Programa de Mestrado em


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N úcleo de Estudos e Pesquisas Sóciais - UFPB - Programa de Pós-Graduação em


N EPS - U FC Sociologia
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- Gestão Cidades
Política
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Ciências Sociais
Antropologia
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UERJ - Programa de Pós-Graduação em
U FPE - Programa de Pós-Graduação em
Ciências Sociais •
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U F P R - Programa de Pós-Graduação em
Ciências Sociais Antropologia Social
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U FF - Programa de Pós-Graduação em UFRGS - Programa de Pós-Graduação e


A ntropologia Planejam ento Urbano Regional
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Política-UFF Antropologia Social
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U F G —Programa de M estrado em Sociolo­ UFRGS —Programa de Pós-Graduação em


gia Ciência Política
www.mestsociologia@fchf.ufg.br www.cienciapolitica.ufrgs.br

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Antropologia Social - M useu Nacional U N ESP-A raraquara - Programa de Pós-
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Sociologia e A ntropologia Social U N E S P /U N IC A M P /P U C -S P - Programa
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Desenvolvim ento Agrário U N IC A M P —Programa de D outorado em
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Antropologia Social U N IC A M P - Programa de M estrado em
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Sociologia Política U N IC A M P - Programa de M estrado em
w w w.reitoria.ufsc.br/prpg Ciência Política
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U N IC A M P —Programa de Pós-Graduação
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Científica Tecnológica
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w w w.centrodam etropole.org.br '
Arquivo Público do Paraná
www.pr.gov.br/arquivopublico/ C entro de Estudos de C ultura C o n tem p o ­
rânea (cedec)
Arquivo Público M ineiro (APM) www. cedec. org. br
w w w.cultura.m g.gov.br/program as/cultu-
ra027.htm Centro de M em ória da unicam p
w m v.unicam p.br/suarq/cm u/
Arquivo Público M unicipal de Além
Paraíba - M G (Arquivo Público Municipal C entro de Pesquisa e D ocum entação de
Geraldo de A ndrade Rodrigues) H istória C ontem porânea do Brasil
www.arquivodealemparaiba.hpg.ig.com .br/ (C P D O C )
index.htm l www.cpdoc.fgv.br/com um /htm /

134
Consórcio de Informações Sociais —CIS/ Associação Brasileira de Educação em
NAD D Ciência da Informação (abecin)
www.nadd.prp.usp.br/piloto/index.aspx w w w .abecin.org/H om e.htm

Fundação Arquivo e M em ória de Santos Associação Brasileira de N orm as Técnicas


www.web@santos.sp.gov.br (ABNT)
w ww.abnt.org.br/
Fundação Casa de Rui Barbosa
www.casaruibarbosa.gov.br/ „ Associação Brasiliense de Arquivologia
(ABARQ)
Fundação Joaquim N abuco w w w .m ontess.com .br/dom inio/abarq/
www. fu ndaj.go v. br/ forum /default.asp •

Fundação Osvaldo C ruz/D epartam ento de Associação de Amigos do Arquivo Público


Arquivo de D ocum entação do Estado de Santa C atarina
w w w .fiocruz.br/coc/dadl .html e-mail: associacaoamigos.sc@ bol.com.br

Fundação Patrim ônio H istórico da Energia Associação de Arquivistas de São Paulo


de São.Paulo (ARQ-SP)
www.fphesp.org.br/ www.arqsp.org.br/

Associação dos Arquivistas do Estado do


M arxists.org Internet Archive
Rio G rande do Sul (AARS)
www.marxists.org/
www.arquivologia.ufsm.br/aars/
N ational Archives and Records Adm inistra­
Associação dos Arquivistas Brasileiros
tion (NARA)
(AAB)
www.nara.gov/
www.aab.org.br/
N ational Archives o f Australia
Associação Nacional de Pesquisa e Pós-
wvvw.naa.gov.au/
Graduação em Ciência da Informação e
Biblioteconomia (ANCIB)
N ational Archives o f Canada
www.alternex.com.br/-aldoibct/ancib.htm l
mvw.archives.ca/
Associação Nacional de Pós-Graduação e
N úcleo de Altos Estudos Amazônicos — .
Pesquisa em Ciências Sociais (anpocs)
NAEA
www.anpocs.org.br
www.naea.ufpa.br
Conselho N acional de Arquivo (conarq)
N úcleo de Estudos em Políticas Públicas da
w w w.arquivonacional.gov.br/conarq/.
U nicam p (nepp)
index.htm
wwvv.nepp.unicamp.br
Fórum Nacional de Dirigentes de Arquivos
Municipais
Associações e Conselhos e-mail: forum dam @ uol.com .br

Arquivistas Associados (ARQAS) International Council on Archives


znap.to/arqas/ www.ica.org/

135
Bibliotecas Virtuais Instituto Superior de Estudos da Religião
'.vww.iser.org.br
ABU: la Bibliothèque Universelle
abu.cnam .fr/ Instituto Universitário de Pesquisas do Rio
de Janeiro (iuperj)
Bibliomania www.iuperj.br
w w w.bibliom ania.com /
V . . Pontifícia Universidade Católica de M inas
Biblioteca Virtual Carlos Chagas Gerais (Graduação em Ciência da Inform a­
www.prossiga.br/chagas/ ção)
w w w.inf.pucm inas.br/ci/
Biblioteca V irtual de Ciências Sociais
www.prossiga.br/csociais/pacc/ Pontifícia Universidade Católica de São
Paulo (Mestrado e D outorado em C o m u n i­
Biblioteca V irtual de Estudos Culturais cação e Semiótica - área: Tecnologias da
w w w.prossiga.br/estudosculturais/pacc/ Informação)
w w w .pucsp.br/-cos-puc/
Biblioteca V irtual Prof. José Roberto do
Amaral Lapa Universidade do Rio de Janeiro
143.106.59.6/index.htm (Graduação em Arquivologia)
w w w .unirio.br/cch/index.htm
Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro
Universidade Estadual de L ondrina/D epto.
wwvv.bibvirt.futuro.usp.br/
de Ciências da Inform ação/D epto. de
Bibliotecas Virtuais Temáticas H istória (Graduação em Arquivologia;
www.prossiga.br/bvtematicas/ Especialização em Gerência de Unidades e
Serviços de Informação)
U N ESBIB - Bibliographic records of w w w.uel.br/ceca/cinf/arquivologia.htm
Unesco docum ents, publications an Library
Universidade Federal de Santa M aria/ .
collections
Arquivologia (Graduação em Arquivologia)
unesdoc.unesco.org/ulis/unesbib.htm l'
.www.arquivologia.ufsm.br/
T h e Library o f Congress
Universidade Federal Flum inense/D epto.
www.loc.gov de D ocum entação (Graduação em A rqui­
h ttp ://catalog.loc.gov vologia, Especialização em Planejam ento,
Organização e Direção de Arquivos)
SiBi/USP
www.uff.br/#
www.usp.br/sibi
Universidade Nacional de Brasília/Depto.
Faculdades e Institutos de Ciência da Informação e D ocum entação
(Bacharelado em Arquivologia)
Instituto Brasileiro de Informação em wvvw. u n b .b r/deg/ cursos.htm
Ciência e Tecnologia (IBICT)
w ww.ibict.br/ Universidade N acional de Brasília/Depto.
de Ciência da Informação e D ocum entação
Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) (M estrado em Biblioteconom ia e D ocu­
(Especialização em Organização de mentação - área: Planejam ento de Proces­
Arquivos) sos Docum entários)
www.ieb.usp.br/ www.u n b .b r/dpp/stricto / stricto-13 .htm #s

136
Universidade Nacional de Brasília/Depto. M emorial do Im igrante
de Ciência da Informação e D ocum entação www.mem orialdoim igrante.sp.gov.br/
(D outorado em Ciência da Informação -
área^Transferência da Informação) M useu da Pessoa
w w w .unb.br/dpp/stricto/stricto-l 3.htm #s w w w2.uol.com .br/m pessoa/

Universidade de São Paulo/D epto. de M useum o f Television & Radio, T he


Biblioteconomia e D ocum entação (M estra­ www.mtr.org/
do e D outorado em Ciências —área:
Ciências da Informação e Documentação)
w w w.eca.usp.br/departam /cbd/cursos/ Publicações Eletrônicas
posgrad/index.htm
Archival Science
w ww.wkap.nl/journals/archival_science
Guias, Banco de Dados e Listas de
Discussão Arquivologia no Brasil
ww w.cpdoc.fgv.br/com um /htm /
Comissão de Patrim ônio Cultural (CPC)
www.usp.br/cpc/cpcinfo.htm l ASIS Thesaurus o f Inform ation Science,
2nd Edition (by Jessica Milstead)
G uia da Internet no Brasil para Cientistas
w ww.asis.org/Publications/Thesaurus/
Sociais, H istoriadores e Arquivistas (do
tnhom e.htm
CPDOC)
w w w .cpdoc.fgv.br/com um /htm / . '
Boletim do Arquivo Edgard Leuenroth - o
infocafé AEL via Internet
www. i n fo cafe.cj b .n et/ e-mail: andrew@ unicamp.br

Lista de Arquivistas, Arquivos e Boletim Eletrônico da Associação N acional


Arquivologia de Pós-graduação e Pesquisa em Ciências
Sociais (anpocs on-line)
br.egroups.com w w w .anpocs.org.br/boletim /boletim .htm
e-mail: owner@egroups.com
Bulletin des Archives de France-Publi-
Lista Eletrônica de H istória do Brasil
cations
(HBrasil-L)
www.archivesdefrance.culture.gouv.fr/fr/
w w w .clionet.ufjf.br/hbr-l/index.htm
publications/
e-mail: hbr-m od@ ah.ufjf.br

Rede Eletrônica de H istória do Brasil Bulletin o f the American Society for


(ClioNet) Inform ation Science and Technology
www.clionet.ufjf.br/ www.asis.org/Bulletin/ .

Journal o f the American Society for


Museus Inform ation Science and Technology
www.asis.org/Publications/JASIS/jasis.html
International M useum o f Photography and
Film (George Eastman House) Informação e Sociedade —Estudos
w ww.eastman.org/ www.informacaoesociedade.ufpb.br/

137
Revista Brasileira de História
w w w .fflch.usp.br/dh/anpuh/public_htm l/
revista.htm -
Scientific Electronic Library O nline (Scielo
Revista Ciência da Informação (Çionline ) Brazil)
w w w .ibict.br/cionline/300101 /index.htm www.scielo.br/

138
TRABALHOS PUBLICADOS: 1975-2005

BIB 1 BIB 10
Eli Diniz Cerqueira e Renato Raul Boschi, Lia F. G. Eukui, “Estudos e Pesquisas sobre
“Estado e Sociedade no Brasil: Uma Revisão Crí­ Família do Brasil”.
tica”.
BIB 11
BIB 2 Luiz Antonio Cunha, “Educação e Sociedade
Anthony Seeger e Eduardo Viveiros de Castro, no Brasil”; Licia do Prado Valiadares e Ademir Fi­
“Pontos de Vista sobre os índios Brasileiros: Um gueiredo, “Habitação no Brasil: Uma Introdução
Ensaio Bibliográfico”. à Literatura Recente”. .
BIB 3 BIB 12
Luiz Wemeck Vianna, “Estudos sobre Sindi­ María Teresa Sadek de Souza, “Análise sobre
calismo e Movimento Operário: Resenha de Al­ o Pensamento Social e Político Brasileiro”; José
gumas Tendências”. Guilherme C. Magnani, “C ultura Popular: C on­
BIB 4 trovérsias e Perspectivas”.
Lúcia Lippi Oliveira, “Revolução de 1930: BIB 13
Uma Bibliografia Comentada”.
Gerson Moura e Maria Regina Soares de Lima,
BIB 5 . “Relações Internacionais e Política Externa Brasi­
Bolivar Lamounier e Maria DAlva Gil Kin- leira: Uma Resenha Bibliográfica”.
zo, “Partidos Políticos, Representação e Processo
BIB 14
Eleitoral no Brasil, 1945-1978”.
Licia Valladares e Magda Prates Coelho, “Po­
BIB 6 breza Urbana e Mercado de Trabalho: Uma Aná­
Alba Zaluar Guimarães, “Movimentos ‘Mes­ lise Bibliográfica”.
siânicos’ Brasileiros: Uma Leitura”.
BIB 15
BIB 7 José Cesar Gnacarini e Margarida Moura,
Roque de Barros Laraia, “Relações entre Ne­ “Estrutura Agrária Brasileira: Permanência e D i­
gros e Brancos no Brasil”. versificação de um Debate”; Bila Sorj, “O Pro-
BIB 8 -cesso de Trabalho na Indústria: Tendências de
Amaury de Souza, “População e Política Po­ Pesquisa”.
pulacional no Brasil: Uma Resenha de Estudos BIB 16
Recentes”. Aspásia Camargo, Lucia Hippolito e Valenti­
BIB 9 na da Rocha Lima, “Histórias de Vida na América
Maria Valéria Junho Pena, “A M ulher na Latina”; Neuma Aguiar, “Mulheres na Força de
Força de Trabalho”; Pedro Jacobi, “Movimentos Trabalho na América Latina: Um Ensaio Biblio­
Sociais Urbanos no Brasil”. gráfico”.

139
BIB 17 BIB 26
Julio Cesar Melatti, “A Antropologia no Maria Rosilene Alvim e Licia do Prado Valla­
Brasil”; LuizWerneck Vianna, “Atualizando uma dares, “Infância e Sociedade no Brasil: Uma Aná- ■
Bibliografia: ‘Novo Sindicalismo’, Cidadania e Fá­ lise da Literatura”.
brica”.
BIB 27
BIB 18 Teresa Pires do Rio Caldeira, “Antropologia e
Rubem Cesar Fernandes, “Religiões Popula­ Poder: Uma Resenha de Etnografias Recentes”;
res: Uma Visão Parcial da Literatura Recente”; Cláudia Fonseca, “A História Social no Estudo da
Mariza Corrêa, “Mulher e Família: Um Debate Família: Uma Excursão Interdisciplinar”.
sobre a Literatura Recente”.
BIB 28
BIB 19 Maria Lúcia Teixeira Werneck Vianna, “A
Edmundo Campos Coelho, “A Instituição Emergente Temática da Política Social na Biblio­
Militar no Brasil”. grafia Brasileira”; Anette Goldberg, “Feminismo no
BIB 20 Brasil Contemporâneo: O Percurso Intelectual de
Maria Alice Rezende de Carvalho, “Letras, So­ um Ideário Político”; Maria Cecília Spina Forjaz,
ciedade & Política: Imagens do Rio de Janeiro”. “Cientistas e Militares no Desenvolvimento do
CNPq (1950-1985)”.
BIB 21
Sonia Nahas de Carvalho, “Um Questiona­ BIB 29
mento da Bibliografia Brasileira sobre Políticas Emilia Viotti da Costa, “Estrutura versus
Urbanas” e Tania Salem, “Famílias em Camadas Experiência, Novas Tendências da História do
Médias: Uma Perspectiva Antropológica”. Movimento Operário e das Classes Trabalhado­
BIB 22 ras na América Latina: O Que se Perde e o Que
Inaiá Maria Moreira de Carvalho, “Urbani­ se Ganha”; Berta G. Ribeiro, “Perspectivas Etno­
zação, Mercado de Trabalho e Pauperização no lógicas para Arqueólogos: 1957-1988” .
Nordeste Brasileiro: Uma Resenha de Estudos BIB 30
Recentes”. José Sávio Leopoldi, “Elementos de Etnoas-
BIB 23 tronomia Indígena do Brasil: Um Balanço”; Ra­
Roque de Barros Laraia, “Os Estudos de Pa­ fael de Menezes Bastos, “Musicologia no Brasil
rentesco no Brasil”; Pedro Jacobi, “Movimentos Hoje”; Laís Abramo, “Novas Tecnologias, Difu­
Sociais Urbanos no Brasil: Reflexão sobre a Lite­ são Setorial, Emprego e Trabalho no Brasil: Um
ratura dos Anos 70 e 80”. Balanço”.

BIB 24 BIB 31
Angela de Castro Gomes e Marieta de Moraes Helena Hirata, “Elisabeth Souza Lobo 1943­
Ferreira, “Industrialização e Classe Trabalhadora 1991”; Elisabeth Souza Lobo, “O Trabalho como
no Rio de Janeiro: Novas Perspectivas de Análi­ Linguagem: O Gênero no Trabalho”; Maria He­
se”. lena Guimarães de Castro, “Interesses, Organiza­
ções e Políticas Sociais”; Antonio Sérgio Alfredo
BIB 25 ■
Guimarães, “Classes, Interesses e Exploração:
Giralda Seyferth, “Imigração e Colonização
Comentários a um Debate Anglo-Americano”.
Alemã no Brasil: Uma Revisão da Bibliografia”;
Maria Helena Guimarães de Castro, “Governo BIB 32
Local, Processo Político e Equipamentos Sociais: Angela M. C. Araújo eJorge R. B. Tapia, “Cor­
Um Balanço Bibliográfico”. porativismo e Neocorporativismo: O Exame de

140
Duas Trajetórias”; José Ricardo Ramalho, “Con­ Americana Recente”; Nadya Araújo Castro e Mar­
trole, Conflito e C onsentim ento na Teoria do eia de Paula Leite, “A Sociologia do Trabalho In­
Processo de Trabalho: Um Balanço do Debate”; dustrial no Brasil: Desafios e Interpretações”;
Marcos Luiz Bretas, “O Crime na Historiografia Maria Julia Carozzi, “Tendências no Estudo dos
Brasileira: Uma Revisão na Pesquisa Recente”. Novos Movimentos Religiosos na América: Os
Últimos 20 Anos”.
BIB 33
Paulo Freire Vieira, “A Problemática Ambien­ BIB 38
tal e as Ciências Sociais no Brasil: 1980-1990”; Theodore Lowi, “O Estado e a Ciência Polí­
Guita Grin Debert, “Família, Classe Social e Et- tica ou Como nos Convertemos Naquilo que Es­
nicidade: Um Balanço da Bibliografia sobre a tudamos”; Luis Fernandes, “Leituras do Leste: O
Experiência de Envelhecimento”; Marco Antonio Debate sobre a Natureza das Sociedades e Es­
Gonçalves, “Os Nomes Próprios nas Sociedades tados de Tipo Soviético (Primeira P arte-A s Prin­
Indígenas das Terras Baixas da América do Sul”. cipais Interpretações O cidentais”; Julia Silvia
BIB 34 Guivant, “Encontros e Desencontros da Sociolo­
Olavo Brasil de Lima Junior, Rogério Augusto gia Rural com a Sustentabilidade Agrícola: Uma
Schmitt e Jairo César Marconi Nicolau, “A Produ­ Revisão da Bibliografia”.
ção Brasileira Recente sobre Partidos, Eleições e BIB 39
. Comportamento Político: Balanço Bibliográfico”; Marta T. S. Arretche, “Emergência e Desen­
Arabela Campos Oliven, “O Desenvolvimento da volvimento do Welfare State-. Teorias Explicati­
Sociologia da Educação em Diferentes Contex­ vas”; Luis Fernandes, “Leituras do Leste II: O
tos Históricos”; Wilma Mangabeira, “O Uso de Debate sobre a Natureza das Sociedades e Es­
Computadores na Análise Qualitativa: Uma Nova tados de Tipo Soviético (Segunda Parte - As
Tendência na Pesquisa Sociológica”. Principais Interpretações Marxistas”; Ronald H.
. J ■
BIB 35 Chilcote, Teoria de Classe”; Adélia Enqrácia
C>
de
Sérgio Adorno, “A C rim inalidade Urbana Oliveira e Lourdes Gonçalves Furtado, “As C iên­
Violenta no Brasil: Um Recorte Temático”; Chris­ cias Humanas no Museu Paraense Emílio Goeldi:
tian Azais e Paola Cappellin, “Para uma Análise 128 Anos em Busca do Conhecimento A ntropo­
das Classes Sociais”; Guillermo Palacios, “Cam­ lógico na Amazônia”.
pesinato e Historiografia no Brasil - Comentá­ BIB 40 '
rios sobrè Algumas Obras Notáveis”; “Arquivo de “Florestan Fernandes: Esboço de uma Traje­
Edgard Leuenroth”.
tória”; Luiz Werneck Vianna, Maria Alice Rezende
BIB 36 de Carvalho e Manuel Palacios Cunha Melo, “As
Maria Ligia de Oliveira Barbosa, “A Sociolo­ Ciências Sociais no Brasil: A Formação de um
gia das Profissões: Em Torno da Legitimidade de Sistema Nacional de Ensino e Pesquisa”; Laís
um O bjeto”; Maria da Glória Bonelli, “As Ciên­ Abramo e Cecília Montero, “A Sociologia do Tra­
cias Sociais no Sistema Profissional Brasileiro”; balho na América Latina: Paradigmas Teóricos e
Marieta de Moraes Ferreira, “O Rio de Janeiro Paradigmas Produtivos”.
Contemporâneo: Historiografia e Fontes - 1930­ BIB 41 j
1975”. .
Gustavo Sorá, “Os Livros do Brasil entre o
BIB 37 Rio de Janeiro e Frankfurt”; Mario Grynszpan,
Fernando Limongi, “O Novo Institucionalis- “A Teoria das Elites e sua Genealogia Consagra­
mo e os Estudos Legislativos: A Literatura Norte- da”; Jorge Ventura de Morais, “Trabalhadores, Sin­

141
dicatos e Democracia: Um Ensaio Bibliográfico BIB 45
sobre Democracia Sindical”; Maria da Gloria Eli Diniz, “Globalização, Ajuste e Reforma
Bonelli e Silvana Donatoni, “Os Estudos sobre do Estado: Um Balanço da Literatura Recente”;
Profissões nas Ciências Sociais Brasileiras”. Terry Mulhall eJorge Ventura de Morais, “Mapean­
do o Reino da Sociologia Histórica: Reflexões
BIB 42
Acerca do M odelo T eórico-m etodológico de
Alba Zaluar, Antonio Augusto Prates, Cláudio
Theda Skocpol”; Alfredo Wagner Berno de Almei­
Beato Filho e Ronaldo Noronha, “Antônio Luiz
da, “Quilombos: Repertório Bibliográfico de uma
Paixão, Intelectual e Amigo”; José Maurício Do-
Questão Redefinida (1995-1997)”; Lúcio Rennó,
mingues, “Evolução, H istória e Subjetividade
“Teoria da Cultura Política: Vícios e Virtudes”.
Coletiva”; Mareia de Paida Leite e Roque Apare­
cido da Silva, “A Sociologia do Trabalho Frente à BIB 46 .
Reestruturação Produtiva: Uma Discussão Teó­ Julia S. Guivant, “A Trajetória das Análises
rica”; Marco A. C. Cepik, “Sociologia das Re­ de Risco: Da Periferia ao Centro da Teoria So­
voluções Modernas: Uma Revisão da Literatura cial”; Carlos Aurélio Pimenta de Faria, “Uma Ge­
N orte-Am ericana”; Angela Alonso, “De Positi­ nealogia das Teorias e Modelos do Estado de
vismo e de Positivistas: Interpretações do Posi­ Bem-Estar Social”; Aloísio Ruscheinsky, “Nexo
tivismo Brasileiro”. entre Atores Sociais: Movimentos Sociais e Par­
\
tidos Políticos”; “D ebates sobre A utonom ia
BIB 43
Universitária: Carlos Benedito Martins e Sérgio de
Sérgio Costa, “Categoria Analítica ou Passe­
Azevedo, “Autonomia Universitária: Notas sobre
Partout Político-Normativo: Notas Bibliográficas
a Reestruturação do Sistema Federal de Ensino
sobre o Conceito de Sociedade Civil”; Luis Fer­
Superior”; José Vicente Tavares dos Santos, “A Cons­
nandes, “Leituras do Leste III: O Debate sobre a
trução da Universidade Autônoma”; Gilberto Ve­
Natureza das Sociedades e Estados de Tipo So­
lho, “U niversidade, A utonom ia e Q ualidade
viético (Parte Final - As Leituras Centradas na
Acadêmica”; Tomaz Aroldo da Mota Santos, “A
Prevalência do Capitalismo de Estado e/ou Buro­
ANDIFES e a Autonomia”.
crático e a Convergência Problemática no C on­
ceito de Stalinismo”; Eduardo C. Marques, “Notas BIB 47
Críticas à Literatura sobre Estado, Políticas Esta­ Eduardo G. Noronha, “A Contribuição das
tais e Atores Políticos”; Paulo J. Krischke, “C ultu­ Abordagens Institucionais-Normativas nos Es­
ra Política e Escolha Racional na América Latina: tudos do Trabalho”; Cecília Loreto Mariz, “A Teo­
Interfaces nos Estudos da Democratização”. logia da Batalha Espiritual: Uma Revisão da
Bibliografia”; Mauro Guilherme Pinheiro Koury,
BIB 44
“A Imagem nas Ciências Sociais do Brasil: Um
Luís Donisete Benzi Grupioni e Maria Denise
Balanço Crítico”; Jawdat Abu-El-Haj, “O Debate
Fajardo Grupioni, “Depoimento de Darcy Ribei­
em Torno do Capital Social: Uma Revisão C rí­
ro”; Christina de Rezende Rubim, “Um Pedaço de
tica”.
Nossa Flistória: Historiografia da Antropologia
Brasileira”; Glaucia Villas Bôas, “A Recepção da BIB 48
Sociologia Alemã no Brasil: Notas para uma Dis­ Priscila Faulhaber, “Entrevista com Roberto
cussão”; Carlos Pereira, “Em Busca de um Novo Cardoso de Oliveira”; Fernanda Wanderléy, “Pe­
Perfil Institucional do Estado: Uma Revisão Crí­ quenos Negócios, Industrialização Local e Redes
tica da Literatura Recente"; Flávia de Campos de Relações Econômicas: Uma Revisão Bibliográ­
Mello, “Teoria dos Jogos e Relações Internacio­ fica em Sociologia Econômica”; Celina Souza e
nais: Um Balanço dos Debates”. Márcia Blurnm, “Autonomia Política Local: Uma

142
Revisão da Literatura”; Fabíola Rohden, “H onra e cas Recentes”; Fabiano Toni, “Novos Rumos e
Famíiia em Algumas Visões Clássicas da Forma­ Possibilidades para os Estudos dos Movimentos
ção Nacional”; Clarice Ehlers Peixoto, “Antropo­ Sociais”; Celso F. Rocha de Barros, “A Transição
logia e Filme Etnográfico: Um Travelling no para o Mercado nò Leste Europeu: Um Balanço
Cenário Literário da Antropologia Visual”. do Debate sobre a Mudança do Plano ao Merca­
do”; Luiz Henrique de Toledo, “Futebol e Teoria
BIB 49
Social: Aspectos da Produção Científica Brasilei­
Licia Valladares e Roberto Kant de Lima., “A
ra (1982-2002)”.
Escola de Chicago: Entrevista com Isaac Joseph”;
Marcos Chor Maio e Carlos Eduardo Calaça, “Um BIB 53
Ponto Cego nas Teorias da D em ocracia:-O s ' Gláucio Ary Dillon Soares, “Homenagem a
Meios de Comunicação”; Luis Felipe Miguel, “De­ Vilmar Faria”; José Carlos Durand, “Publicidade:
finição de Agenda, Debate Público e Problemas comércio, cultura e profissão (Parte I)”; Angela
Socais: Uma Perspectiva Argumentativa da Di­ Alonso e Valeriano Costa, “Ciências Sociais e Meio
nâmica do Conflito Social”; Mario Fuks e Karl Ambiente no Brasil: um balanço bibliográfico”;
Monsma, “James C. Scott e a Resistência C oti­ Antônio Sérgio Araújo Fernandes, 'Path depen­
diana no Campo: Uma Avaliação Crítica”. dency e os Estudos H istóricos C om parados”;
Leonardo Mello e Silva, “Qualificação versus com­
BIB 50
petência: um comentário bibliográfico sobre um
Marcus André Melo, “Política Regulatória:
debate francês recente”; Carlos Benedito Martins,
uma Revisão da Literatura”; Roberto Kant Lima,
Gláucia Villas Boas, Maria Ligia de Oliveira Bar­
Michel Misse e Ana Paula Mendes de Miranda,
bosa e Yvonne Maggie, “Mestres e doutores em So­
“Violência, Criminalidade, Segurança Pública e
ciologia”.
Justiça C rim inal no Brasil: uma Bibliografia”;
Alejandro Frigerio, ‘Teorias Econômicas Aplica­ BIB 54
das ao Estudo da Religião: Em Direção a um Novo Maria Helena de Castro Santos, “Política
Paradigma?”; Angela Xavier de Brito, “Transfor­ Comparada: Estado das Artes e Perspectivas no
mações Institucionais e Características Sociais dos Brasil”;José Carlos Durand, ‘Publicidade: Com ér­
Estudantes Brasileiros na França”. cio, Cultura e Profissão (Parte II)”; Maria Lucia
Maciel, “Ciência, Tecnologia e Inovação: A Re­
BIB 51 lação entre Conhecimento e Desenvolvimento”;
Maria Hermínia Tavares de Almeida, “Fede­ Leila da Costa Ferreira e Lúcia da Costa Ferreira,
ralismo, Democracia e Governo no Brasil”; Liszt “Águas revoltas. Um Balanço Provisório da So­
Vieira, “Notas Sobre o Conceito de Cidadania”; ciologia Ambiental no Brasil”; Paolo Ricci, “A
Santuza Cambraia Naves e outros, “Levantamen­ medida das leis: do uso de noções genéricas à men-
to, e Comentário Crítico de Estudos Acadêmicos suração do imponderável”.
Sobre Música Popular no Brasil”; Lúcio Rennó,
BIB 55
“A Estrutura de Crenças d'e Massa e seu Impacto
Fernando Limongi, “Formas de Governo, Leis
na Decisão do Voto”; Priscila Faulhaber, “A Fron­
Partidárias e Processo Decisório”; João Feres Jr.,
teira na Antropologia Social: As Diferentes Faces
“A Consolidação do Estudo Sociocientífico da
de um Problema”.
América Latina: uma breve história cum estudo
BIB 52 bibliográfico”; Jorge Zaverucha e Helder B. Teixei­
Angela Maria Carneiro de Araújo, “Globa­ ra, “A Literatura sobre Relações Civis-Mili tares
lização e Trabalho”; Clara Araújo, “Participação no Brasil (1964-2002): uma síntese”; Delma Pes-
Política e Gênero: Algumas Tendências Analíti­ sanha Neves, “O Consumo de Bebidas Alcoóli-

143
* cas: Prescrições Sociais”; Ana Maria Kirschner, “A Cor Diferente Entra na Corrida? O Painel das
Sociologia Brasileira e a Empresa”. Estratégias Eleitorais dos Políticos Afro-america-
nos nas Eleições Municipais nos Estados Unidos”.
BIB 56
Walquiria Leão Rêgo, “Norberto Bobbio, um BIB 58
Clássico das Ciências Sociais”; Pedro Simões, Re­ Argelina Cheibub Figueiredo, “O Executivo nos
ligião, “Espiritualidade e Assistência Social”; Paulo Sistemas de Governo Democráticos”; R- Parry
César Nascimento, “Dilemas do Nacionalismo”; Scott, “Família, Gênero e Poder no Brasil do Sé­
Marcelo Ayres Camurça, “Secularização e Reen- culo XX”; Andrei Koemer, “Direito e Regulação:
cantam ento: a Emergência dos Novos M ovi­ uma Apresentação do Debate Teórico no Réseau
mentos Religiosos”; José Celso Cardoso Jr., “Fun­ Européen'Droit et Société”; Sérgio Eduardo Fer­
damentos Sociais das Economias Pós-industriais: raz, “Os Dados do Normativo: Apontamentos
um a R esenha C rítica de E sping-A ndersen”; sobre a Recepção das Teorias Contemporâneas de
Diana Nogueira de Oliveira Lima, “Antropologia Justiça no Brasil (1990-2003)”; Pablo Alabarces,
do Consumo: ATrajetória de um Campo em Ex­ “Veinte anos de Ciências Sociales y Deporte en
pansão”. América Latina: un balance, una agenda”.

BIB 57 BIB 59
Maria Arminda do Nascimento Arruda, “H o­ Luiz Felipe Miguel, “Teoria Dem ocrática
menagem a Octavio Ianni”; Giralda Seyferth, “A Atual: Esboço de Mapeamento”; Alfredo Alejan­
Imigração no Brasil: Comentários sobre a C on­ dro Gugliano, “O Impacto das Democracias Par­
tribuição das Ciências Sociais”; Christine Jacquet ticipativas na Produção Acadêmica no Brasil: Teses
e Lívia Alessandra Fialho da Costa, “A Sociologia e Dissertações (1988-2002)”; Simone Bohn, “Po­
Francesa diante das Relações Beaux-parents: En­ lítica Comparada: Um Mapeamento do Debate
teados nas Famílias Recompostas após Divórcio entre Propostas Teóricas e Metodologias de Pes­
ou Separação”; Marcelo Medeiros, “As Teorias de quisa Alternativas”; Luís Antônio Francisco de
. Estratificação da Sociedade e o Estudo dos Ri­ Souza, “Criminologia, Direito Penal e Justiça Cri­
cos”; Mareia Contins, “Objetivos e Estratégias da minal no Brasil: Uma Revisão da Pesquisa Re­
Ação Afirmativa: Uma Bibliografia”; Cloves L. P. cente”; Carlos Eduardo Sell, “Sociologia da Mística:
Oliveira, “O que Acontece quando um Cavalo de Um a Revisão da Literatura”.

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N ORM A S PARA APRESENTAÇÃO D E COLABORAÇÕES À BIB

As resenhas e balanços bibliográ­ C ritérios bibliográficos V ÍR G U L A / n o m e da e d ito ra /


ficos apresentados, inéditos, devem P O N T O . Exemplo:
ser entregues em três cópias impressas Livro: sobrenome do autor (em caixa
e um a em disquete, de preferência no alta) /VÍRGULA/ seguido do nome­ A B R A N C H E S , Sérgio H enrique.
program a W ord for W indow s, em iem caixa alta e baixa) /P O N T O / (1987), “Governo, empresa esta­
espaço 1,5 com margens razoáveis e data entre parênteses /V ÍRG U LA / tal e política siderúrgica: 19.30­
sem emendas. N ão devem ultrapas­ título da obra em itálico /P O N T O / 1975”, in Olavo Brasil de Lima
sar 30 laudas (de 20 linhas), ou seis nom e do tra d u to r /P O N T O / n° Jr. e Sérgio H enrique Abranches
mil palavras; as resenhas não devem da edição, se não for a prim eira / (org.), As origens da crise, Rio de
ultrapassar sete laudas. V ÍR G U LA / local da publicação / Janeiro, Vértice.
O texto deve ser acom panhado VÍRGULA/ nome da editora /P O N ­
de um resumo e de cinco palavras- Tese acadêmica: sobrenome do au­
T O . Exemplo:
chave, bem como de dados sobre o tor em caixa alta/VÍRGULA/segui­
autor (formação, instituição atual, do do nome em caixa alta e baixa/
SACHS, Ignacy. (1986), Ecodesenvol-
cargo, linhas de pesquisa e dois últi­ P O N T O / da data entre parênteses/
vime?ito, crescer sem destruir. Tra­
mos livros publicados, se for o caso). VÍRGULA/ título da tese em itálico /
dução de Eneida Cidade Araújo.
Os autores cujos textos forem P O N T O / grau acadêmico a quê se
2 ed. São Paulo, Vértice.
aprovados para publicação enviarão refere /VIRGULA/cidade da institui-
seu trabalho por e-mail, com a se­ ção/VÍRGULA/ instituição em que
Artigo: sobrenome do autor (em cai­
guinte organização: foi apresentada /VÍRGULA/sigla da
xa alta) /V ÍR G U L A / seguido do
instituição/P O N T O . Exemplo:
nom e (em caixa alta e baixa) /
• Quadros, mapas, tabelas etc. em
P O N T O / data entre parênteses /
arquivo separado, com indicações S G U IZ Z A R D I, E u n ic e H e le n a .
VÍRGULA / “título do artigo entre
claras, ao'longo do texto, dos lo­ (1986), O estruturalismo de Pia­
aspas /P O N T O / nome do periódico
cais em que devem ser incluídos. get: subsídios para a determinação
em itálico /V IRG U LA / volume do
• As menções a autores, no correr de um lugar comum para a Ciên­
periódico /VÍRG U LA / núm ero da
do texto, seguem a forma - (Au­ cia e a Arquitetura. Dissertação de
tor, data) ou (Autor, data, pági­ ed ição e n tre p a rê n te se s /D O I S m estrado, São Paulo, Fundação
na), como nos exemplos: (Jagua- P O N T O S / numeração das páginas. Escola de Sociologia e Política de
ribe, 1962) ou (Jaguaribe, 1962, Exemplo: > São Paulo, ESPSP.
p. 35). Se houver mais de um tí­
tulo do mesmo autor no mesmo REIS, Elisa. (1982), “Elites agrárias,
ano, eles são diferenciados por state-building e autoritarism o”.
uma letra após a data: (Adorno, Dados, 25, 3: 275-96.
1975a), (Adorno, 1975b) etc. O envio esp o n tân eo de q u alq u er
• Coloçar com o notas de rodapé Coletânea: sobrenome do autor em colaboração im p lica a u to m a tic a ­
apenas informações complemen­ caixa alta /VÍRG U LA / seguido do m ente a cessão integral dos direitos
tares e de natureza substantiva, n o m e ’ em caixa afta e baixa / autorais a A N PO C S. A revista não
sem ultrapassar 3 linhas. P O N T O / data entre parênteses / se obriga a devolver os originais das
• A bibliografia entra no final do VÍRGULA/ “título do capítulo en­ colaborações enviadas.
anigo, em ordem alfabética, obe­ tre aspas” /VIRGULAi/ in (em itáli­
decendo os critérios abaixo. co)/ nom e seguido do sobrenom e Endereço: Editoria RBCS
• O título do .artigo deverá ter, no do(s) organizador(es) /V ÍRG U LA / Av. Prof. Luciano Gualberto, 315 —
máximo, 80 caracteres com espa­ títu lo da coletânea, em itálico I I o andar - Cidade Universitária -
ços. V ÍR G U L A / local da publicação / CEP 05508-900 São Paulo - SP

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Publicações

Associação Nacional
de Pós-Graduação e Pesquisa
em Ciências Sociais

A REVISTA BRASILEIRA DE CIÊNCIAS A REVISTA BRASILEIRA DE INFORMA­


SOCIAIS (RBCS) existe desde 1986 e já se ÇÃO BIBLIOGRÁFICA EM CIÊNCIAS
consoiidou como o periódico mais impor­ SOCIAIS (BIB) é uma publicação semes­
tante na-área de ciências sociais stricto sensu. tral que já conta com 58 números que
Assinar a RBCS e estar em contato com oferecem balanços criteriosos, elabora­
os temas atuais e as pesquisas recentes dos pelos mais em inentes cientistas
realizadas na Antropologia, na Ciência sociais, da bibliografia corrente sobre
Política e na Socioiogía por pesquisado­ Antropologia, Ciência Política e Sociolo­
res do país e bons autores estrangeiros. gia. Resumos das teses defendidas, perfis
É um espaço de encontro das inovações de programas de pós-graduação e cen­
na refiexão e no discurso das ciências tros de pesquisa apresentados a cada
sociais em que a herança dos clássicos da edição transform am a BIB em pon to de
teoria social é desafiada pelos proble­ partida para a investigação e para o co­
mas postos à pesquisa contemporânea. nhecim ento das instituições voltadas
para as ciências sociais.

Assinatura anual da RBCS (3 edições)


Nacional: . RS 60
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