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Fenomenologia e estética

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Para Merleau-Ponty, a arte possui um estatuto ontológico privilegiado ao dar acesso a uma percepção
primordial do mundo

Cristiano Perius

“Antes de tudo importa que neste instante o poeta não admita nada como (pré-)concebido, que ele não parta
de nenhum traço positivo, que a natureza e a arte tais como conhece como lição não lhe falem nada, antes
que uma língua esteja lá para ele, isto é, antes do que isto que agora é desconhecido e sem nome no mundo
se torne conhecido e nominável por ter sido composto em concordância com a sua Stimmung [disposição]”.
Friedrich Hölderlin

Essa frase de Hölderlin resume, em poucas palavras, o projeto estético merleau-pontyano, mas também
implica, ao bom entendedor, duas coisas. Em primeiro lugar, que a arte conta, ao lado do saber positivo,
com um estatuto ontológico privilegiado, e, segundo, que não existe na filosofia de Merleau-Ponty um
projeto estético senão através de um projeto fenomenológico. A razão está no fato de que Merleau-Ponty
não tem uma obra de estética no sentido de uma “teoria do belo” (como na Poética de Aristóteles) mas
conceitos filosóficos desde sempre praticados pela arte, em especial o conceito de “expressão”, adequado ao
exercício artístico. Se é assim, isto é, se a reflexão estética merleau-pontyana se espraia numa
“fenomenologia da percepção”, ou numa “ontologia do sensível”, como os manuais de filosofia ensinam,
como podemos trocar em miúdos esses nomes ou essas rubricas? Ora, a fenomenologia tem por objetivo
descobrir o mundo antes do saber e do conceito – a partir do “ser bruto”, segundo o jargão merleau-
pontyano –, e por isso esse é um processo de “deslumbramento”, segundo o filósofo, pois o poeta procura,
mas nem sempre encontra, apoio na linguagem proferida. Razão pela qual Merleau-Ponty define, na famosa
introdução ao seu trabalho mais extenso, a Fenomenologia da percepção, que “a melhor fórmula da redução
é um espanto [étonnement] diante do mundo”.

Em outras palavras, se a fenomenologia é “o estudo das essências”, segundo a herança de Husserl, em


nenhum momento ela se afasta da existência, plano em que as idéias não são “puras”, isto é, regradas do
princípio cartesiano (idéias claras e distintas) ou kantiano (formas da intuição e categorias do
entendimento). Sabemos que no “mundo vivido” (outra expressão da fenomenologia) as razões estão
ocultas, não manifestas, segundo a idéia de uma “filosofia da ambigüidade”, isto é, o instante em que
sujeito e o objeto se abraçam (num primeiro momento a partir do “corpo próprio”: nem sujeito, nem objeto;
posteriormente relançado pela idéia, “sem nome na História da Filosofia”, de “carne”: raiz ontológica da
experiência que duplica, produzindo o duplo, o par, como fenômeno de diferença, tal como o sujeito e o
objeto, a matéria e o espírito, a consciência e a coisa etc.). Pois “procurar a essência do mundo não é
procurar o que ele é em idéia”, como se ele fosse um objeto para o pensamento, mas a experiência pré-
objetiva que, segundo Merleau-Ponty, “eu não domino porque é inesgotável” – mais ou menos como nestes
versos de Drummond: “E nada basta / nada é de natureza assim tão casta / que não macule ou perca sua
essência / ao contato furioso da existência./ Nem existir é mais que um exercício / de pesquisar de vida um
vago indício” (do “Relógio do rosário”). Ora, é exatamente esse contato, ambíguo e indiviso, entre o
“corpo” e o “mundo”, que não pode mais ser sublimado, da percepção ao entendimento, como fez a
metafísica clássica. No lugar dessa ascese — que Merleau-Ponty chamou de filosofia reflexionante, por
sobrevoar o mundo da percepção — está o lema husserliano da “experiência muda, que é preciso conduzir à
expressão pura do seu próprio sentido”. Pois se a “verdadeira filosofia é re-aprender a ver o mundo”, deve
então “recolocá-lo sob o signo do olhar”, sem “substituir o mundo pela significação do mundo”, segundo o
filósofo, na Introdução da Fenomenologia. Isso significa dizer que, como Marcel Proust, em “O tempo
redescoberto”, “as idéias formadas pela inteligência pura têm apenas uma verdade lógica”, quando
precisamos “reencontrar a verdade de nossa percepção”.

Tudo se passa como se estivéssemos cegos, acostumados ao mundo que nos circunda, enquanto a
verdadeira vida está ausente. Mas, se a verdadeira vida nos escapa nas estradas da existência, ela poderá ser
reencontrada sob o signo da memória involuntária, e por isso, para Merleau-Ponty, “ninguém foi mais longe
que Proust ao fixar as relações entre o visível e o invisível, na descrição de uma idéia que não é o contrário
do sensível, mas o seu duplo e profundidade”. O problema da percepção, que depois da obra de 1945 se
incorporou ao “logos do mundo estético”, nas filosofias da consciência, foi inteiramente ignorado. E é
exatamente a volta ao mundo da percepção que a arte esquematiza e re-coloca, re-aprendendo a ver o
mundo. Nela a vida não é representada sob o signo do entendimento, mas de imagens ou metáforas que,
mais do que estéticas, ou exatamente por isso, lançam luzes (laterais e sub-reptícias) sobre o mundo – a
ponto de Marcel Proust, no final do Em busca do tempo perdido, dizer que “a verdadeira vida, a vida enfim
descoberta e esclarecida, a única vida por conseqüência realmente vivida, é a literatura”. Mais ou menos
como na canção de Madredeus sobre o rio Tejo: “E a cidade, chamam-lhe Lisboa mas é só o rio que é
verdade…” Pois nesse espaço de procura, sugerido desde o título da obra proustiana, esses dois rios –
escrever (literatura) e descrever (fenomenologia) – desembocam no mesmo oceano: a existência.

Mas não é só isso que define o acontecimento estético (a descrição do mundo vivido através do imaginário).
“Estamos instalados no meio de um visível de que não temos a chave”, diria Merleau-Ponty, com o sotaque
de Drummond. Não ter a chave do visível significa a impossibilidade de visão por transparência,
iluminação frontal, sem interstícios. Pois a não ser no caso divino, no ponto de vista de Sirius, ou no
epiciclo de Mercúrio, que lembra Montaigne, ver significa ver em parte, de algum lugar, em algum tempo
humano e de feições humanas, ao menos por enquanto… Mas é essa incapacidade de iluminação total que
produz o fenômeno do visível: as coisas não estão simplesmente aí, o que quer dizer que precisam
ser vistas para que apareçam como objetos deste mundo. Ora, é essa idéia que pavimenta o texto inacabado,
devido à morte prematura, de O visível e o invisível. Há um gradiente de invisibilidade que alimenta o
visível na impossibilidade de passagem para o reino do “em si”. Uma pedra, em si, não é nada, perto do
edifício poético de Drummond, tanto quanto um rio, em si, não é nada, junto ao fluxo de imagens de O cão
sem plumas, de João Cabral de Melo Neto. Não ter a chave do meio visível significa a possibilidade de
contar, apesar do “dogmatismo do senso comum e do dogmatismo da ciência”, com o grande enigma da
existência. Deles a arte presta conta, não com a precisão da matemática, nesses tempos de técnica, mas com
a força das imagens que “barram o caminho e meditam, obscuras, contra a tentativa de decifração” (do
poema “O enigma”, de Drummond). Afinal de contas, se “a descrição de uma história pode significar o
mundo com a mesma profundidade do que um tratado de filosofia”, como diz Merleau-Ponty, então arte e
filosofia, estética e fenomenologia não estão aí para explicar, mas compreender o mundo constituído e
como as coisas são nomeadas.

Ultrapassando a objetividade do mundo, que é derrisória, não era a concordância com a Stimmung do poeta
o ponto de partida da reflexão fenomenológica sobre a obra de arte em Merleau-Ponty? Mas atenção: a
subjetividade do poeta, as tão famosas “vivências”, em sentido psicológico, eis aí o mais derrisório ainda.
Só resta a pedra do caminho, o rio Capibaribe, as obras primas, desafiando o tempo cada dia mais e mais
perdido.

Cristiano Perius é doutor em Filosofia pela UFSCar, com especialização na Université de Paris I (Panthéon-
Sorbonne)