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AGOSTINHO, Santo. O livre-arbítrio: livro II. Tradução Nair de Assis Oliveira.

— São Paulo: Paulus, 1995.


Ficha de Leitura
Leandro Januário Rodrigues de Santana1

Por que nos deu DEUS a liberdade de pecar? Agostinho afirma que “O livre-arbítrio
vem de Deus” (p. 73), Para tentar responder a pergunta norteadora inicial Agostinho irá entrar
em um diálogo com Evódio seu interlocutor na busca por respostas que esclareçam suas
dúvidas. O diálogo inicia-se com uma indagação ao pedir a Agostinho explicação sobre a
razão porque Deus havia concedido ao homem a capacidade de decidir sobre suas ações, uma
vez que se o homem não houvesse recebido tal liberdade não teria caído. Agostinho não só
afirma que há uma certeza na pergunta de Evódio como diz que este é um dom outorgado por
Deus aos homens. Também Evódio acaba por admitir baseado em discussão anterior com
Agostinho que possuímos o livre-arbítrio e isto era bem claro em sua mente ao afirmar que:
“O quanto me parece ter compreendido no livro anterior, é que nós não só possuímos o livre-
arbítrio da vontade, mas acontece ainda que é unicamente por ele que pecamos” (p. 73).
Nisto consiste toda a discussão permeada no diálogo entre os dois na busca pela
resposta da verdade, mas Agostinho com sua mente perscrutadora também coloca sua questão
ao indagar a Evódio sobre este assunto, quando coloca em seu diálogo ter chegado a uma
evidência a respeito do livre-arbítrio da vontade: “... Mas, no momento, eu te pergunto o
seguinte: esse dom que certamente possuímos e pelo qual pecamos, sabes que foi Deus quem
no-lo concedeu?” (p.73). Com isso Agostinho nos diz que Deus foi quem concedeu ao homem
sua liberdade através de sua graça, ou seja, um dom dado por deus aos homens, sendo esta
pergunta feita a Evódio respondida pelo mesmo quando afirma em sua opinião que senão o
próprio Deus, é que existimos e por Ele é que devemos ser castigados ou recebermos a
recompensa pelos nossos delitos, ao agir de forma transgressora ou agirmos conforme a
justiça.
Novamente Agostinho irá perguntar a Evódio se este ponto ficou-lhe claro e evidente
ou sendo impulsionado pela autoridade tivesse sido conduzidas a mais indagações a respeito
da liberdade humana. Respondido por Evódio que este ponto lhe havia sido recebido de
maneira dócil à autoridade, ao afirmar um axioma sobre a bondade de Deus: “... Tudo que é
bom procede de Deus. E tudo o que é justo é bom” (p. 74). Em seguida Agostinho volta mais
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Licenciatura em Filosofia, UFPE, disciplina: Seminário de Filosofia Medieval III, 2017.1. Prof. Drº.
Marcos Roberto Nunes Costas.
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uma vez a cogitar em suas indagações a respeito da resposta dada por Evódio, quando este o
responde afirmando sobre os desígnios de Deus, quando na verdade não passa de uma simples
repetição sobre os castigos oriundos de sua justiça divina. Tornando-se claro e evidente para
Evódio que de Deus provém toda a justiça, se perguntando que da bondade surgem os bons
atos de Deus para com os homens e estes quando erram sendo afligidos pelos seus atos
pecaminosos. Ao afirmar a bondade de Deus, Evódio também nos diz que o homem em seu
estado racional possui certo bem, ou seja, tem a possibilidade de viver retamente perante Deus
e os homens: “Porque o próprio homem, enquanto homem é certo bem, pois tem a
possibilidade, quando o quer, de viver retamente” (p.74). Ou seja, o homem procede de Deus,
e sendo cheio de bondade ao conceder-nos dons e mesmo assim justo em nos punir pelos
nossos atos transgressores.
E isto se caracteriza como um bem médio, dito por Agostinho em seguida ao dizer em
sua afirmação que Evódio não se contradiz na questão proposta por ele sendo claramente
resolvida, mas Agostinho volta mais uma vez a insistir na sua reflexão quando diz: ... “Se é
verdade que o homem em si seja certo bem, e que não poderia agir bem, a não ser querendo,
seria preciso que gozasse de vontade livre, sem a qual não poderia proceder dessa maneira”
(p.74). Como havíamos dito acima a respeito de certo bem, esta expressão possui em seu
significado um bem médio, ou seja, um bem não perfeito que necessita da intervenção Divina
para alcançar um bem Supremo.
Mais frente em sua conclusão deste tópico, Agostinho irá dizer que os desígnios de
Deus são emitidos sobre todos os homens por causa da má conduta por estes seguidas ao
expressar: “Eu te castigo porque não usaste de tua vontade livre para aquilo a que eu a
concedi a ti? Isto é, para agires com retidão” (p. 75).
Neste início de capítulo Evódio começa por admitir que Deus nos concede a vontade
livre, isto é, a capacidade de decidir entre o que é correto e o errado em nossas ações, mas
indaga que esta uma vez conferida ao homem não poderia levar-nos a pecar. Pondo a justiça
como exemplo outorgado ao homem no viver bem, ao passo que “poderia alguém diz Evódio
viver mal em virtude da sua retidão?” (p. 76).
Em sua primeira tentativa de resposta a Evódio, Agostinho diz que o próprio Deus nos
concedeu o Livre-Arbítrio ou livre vontade, e indaga se Deus não deveria ter nos dado este
dom, se já reconheceu em diálogos anteriores, Agostinho diz: “Com efeito, se fosse incerto
que Deus nos tenha concedido a vontade livre, nós teríamos o direito de indagar se foi bom
ela nos ter sido dada. Desse modo, se descobríssemos que foi bom, igualmente,

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reconheceríamos o doador naquele que deu ao homem todos os bens” (p. 76). Nisto consiste
a primeira tentativa de resposta a Evódio ao evocar a compreensão do doador, ou seja, Deus
certo que este nos concedeu a livre vontade, de qualquer forma que seja recebida esta graça ou
dom, diz Agostinho “Devemos confessar que Deus não estava obrigado de no-lo dar como foi
dada nem de modo diferente” (p. 76). Mas jamais podemos criticar Aquele que jamais se
achou dolo e também julgar com retidão uma vez que também somos injustos por conta do
pecado original, possamos julgar com retidão suas ações e desígnios uma vez que estamos
vendidos ao pecado.
Apesar de a fé ser uma segurança para a confirmação da existência de Deus, não
deverá limitar-se apenas a ela, mas procurar buscar seu entendimento mesmo com fé
inabalável, pois o entendimento ainda não está claro, por isso deve-se perseguir como se este
futuro lhe fosse incerto. Isto porque segundo Evódio a vontade é uma possibilidade incerta
por ter sido outorgada por Deus para procedermos em conduta reta, ou seja, pelo bem. Uma
vez que podemos cair em transgressão, gerando outras dúvidas diante da vontade livre ao
perguntar-se se o bem foi ou não positivo.
Evódio continua se questionando se esta dádiva delegada ao homem é incerta para nos
conduzir de maneira correta, e se esta é realmente um bem que nos traz benefícios diante dos
dissabores da vida. Vejamos o que diz Evódio diante de sua dúvida: “Por ai, não é igualmente
certo que seja Deus o doador. Com efeito, a incerteza sobre a conveniência do dom torna
incerta a origem, isto é, o fato de ser Aquele a quem não nos é permitido, crer que concede
algo que não deveria ter concedido” (p.77). Mas Agostinho o responde lhe indagando que:
“Pelo menos, uma coisa é certa para Evódio, que Deus existe?” (p.77). “Evódio lhe responde
ao levar em consideração que por meio da fé sim, mas pelo entendimento não” (p.77).
A discussão prossegue entre os dois perscrutadores na busca pela certeza da verdade.
Agostinho começa por responder a Evódio citando uma passagem do texto bíblico em que o
salmista afirma: “Diz o tolo em seu coração: Deus não existe” 2 E pergunta se lhe viessem a
dizer-lhe isto? Supondo por hipótese que este, ou seja, o tolo recusa a acreditar no que próprio
Evódio crer e procurasse investigar tal objeto da crença de Evódio se é verdadeiro. E
pergunta-lhe se era conveniente abandonar tal questionador de sua fé em sua própria
incredulidade ou compreenderia lhe demonstrar tal fé através de argumentos racionais através
do entendimento.

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BÍBLIA SAGRADA. Nova Versão Internacional, NVI, copyright. Todos os direitos reservados Bíblicos Brasil,
2014, p. 740.
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Evódio prossegue com suas indagações em apontar a figura do insensato como uma
perca de tempo, ou seja, não se deve discutir tal assunto sério com pessoa tola, pois discutir
sobre assunto tão importante com gente sem fé e obstinada não lhe garantiria certeza de
salvação. Agostinho pergunta á Evódio a respeito da existência de Deus, em seu parecer, isto
é, Evódio se lhe é conveniente acreditar na existência de Deus sem temeridades, em homens
que são exemplos de fé, porque o indaga desta forma? Pois a busca pela prova de sua
existência ainda se dar no campo da intelecção, ou seja, coisas que lhe são incertas e que se
manifesta de maneira desconhecida pela compreensão humana. Mas Evódio lhe responde com
uma afirmação: “Sim, mas é que pretendemos saber e entender aquilo em que cremos” (p.
78). Agostinho reconhece que este foi o objetivo colocado entre os dois no início da dialética,
e por isso não poderia ficar de fora tal decisão. Vejamos o que diz Agostinho a respeito deste
acordo entre ambos: “Com efeito, se crer não fosse uma coisa e compreender outra, e se não
devêssemos, primeiramente, crer nas sublimes e divinas verdades que desejamos
compreender, seria em vão que o profeta teria dito: se não o credes não entenderes” (p. 79).
Com isto Agostinho entra de vez na questão da prova da existência divina, mostrando
a três características da intencionalidade do espírito do homem, ou seja, o seu existir, viver e
entender. Nisto consiste a prova ou teoria do conhecimento a partir das verdades que me são
expostas pela realidade.
Os sentidos externos são conhecidos por Agostinho como sentidos corporais: a visão,
o ouvir, o olfato, o gosto e o tato são postos a Evódio como prova de conhecimentos se eles
existem, e por sua vez o mesmo lhe responde que sim (p. 82). Após discorrem sobre as
diversas funções dos sentidos corporais Agostinho os classificam como sendo do comum
quando discorre sobre as dimensões das coisas grandes e pequenas, quadradas ou redondas,
assim como as demais coisas pertencentes ao mundo abstrato não temos acesso de modo
direto as sensações pelo tato, como coisas que são percebidas pela vista, por não atribuirmos
os dois sentidos de modo único, mas apenas ambos os sentidos. Classificando-os como
sentidos comuns (p. 82).
O sentido interior, este sentido pertencente ao mundo interno do homem, ou seja, a
alma. Evódio pensa que este acesso ao mundo interior do homem se daria por meio da razão,
que compreenderíamos tal existência deste sentido, através dos cinco sentidos anteriores, ou
seja, os corporais que ficariam encarregados de captar e transmitir os conhecimentos
adquiridos ao longo deste processo sobre os objetos a ser conhecido. Ao exemplificar a figura
de um animal que vê e que busca evitar ou caça aquilo que viu, Evódio define este tipo de

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conhecimento sendo: “Com efeito, o primeiro sentido tem sua sede nos olhos. Ao contrário. O
segundo, no íntimo mesmo a alma” (p. 83). Isto significa para Evódio que a origem das
sensações da alma se inicia com aquilo que primeiro ele vê para dai então atingir o mundo
interno para então decidir se busca aquilo que vê e quer ou procura sua preservação.
A razão é classificada por Agostinho sem dúvida por sentido interior. E através do
processo transmitido pelos sentidos corporais poderá tornar-se objeto do conhecimento, ou
ciência. Porque tudo que advém da sabedoria que conhecemos e entendemos, vem da razão e
classificamos como sendo conhecimento. Agostinho prossegue seu exemplo de como a razão
apreende este conhecimento ou ciência nos termos modernos, quando fala das cores como não
passivas de obtenção através da sensação das cores pelo órgão da audição e nem pela visão,
Agostinho segue sua descrição de como funciona a captação do conhecimento racional e
prossegue com sua exemplificação afirmando que não é também pelos demais sentidos
corporais e tão pouco pelo sentido interior para onde vai toda a apreensão das informações
geradas pelos sentidos externos, mas por outra via de captação.
Evódio não compreende o que Agostinho quis dizer e lhe questiona a via do sentido
interior que os animais possuem: “O que se seguiria, com efeito, se mediante o sentido
interior do qual os animais não estão desprovidos, conforme o admites, chegassem a
perceber também, como nós, a impossibilidade de sentir as cores pelo ouvido, ou os sons pela
vista?” (p. 84). Agostinho segue sua dialética em busca da verdade ao retrucar as condições
em que Evódio coloca em sua pergunta quando lhe indaga a partir de seu questionamento:
“Mas acaso crês que eles possam mesmo distinguir entre si um sentido do outro: a cor da
qual tem a sensação; o sentido que tem sua sede nos olhos; aquele outro, o interior, que está
na alma; e até a razão que define e classifica tão bem cada uma dessas coisas?” (p. 84).
Agostinho dará seguimento a responder Evódio nos capítulos seguintes sobre as
funções do sentido interior, a razão que transcendo ao homem e as características de cada
sentido do interior. Agostinho começa seu desenvolvimento pela resposta da existência de
Deus sem abandonar a fé que lhe servirá de segurança, base e via inabalável por meio razão.
O viver e o pensar são outras características que fazem parte da realidade do homem, por isso
não poderá ficar de fora da busca pelo entendimento.
Agostinho aponta para Evódio como quem antepõe os dois mundo, o mundo do
sentido externo ou corporal ao sentido interno, uma vez que ambos os sentidos pertencem aos
seres que vivem, e por fim Agostinho lhe diz que este acaba por contrapor também os mesmos
sentidos internos aos exteriores. Evódio lhe responde que reconhece no sentido interior uma

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superioridade frente aos sentidos corporais, ou seja, uma espécie de juiz e guia dos sentidos
externos (p. 90). Quando para este os sentidos corporais falham com suas funções, o sentido
interior queixa-se dos seus serviços. E exemplifica sobre o sentido da vista ao mostrar que
esta não enxerga sua falta ou comparecimento (p. 90).
A razão transcenderá os dois mundos descritos por Agostinho e Evódio. Agostinho
começa de maneira brilhante distinguir os tipos de natureza existente no mundo físico,
classificando-as em natureza de corpos inanimados, em natureza que existe, mas também vive
sem ter a inteligência, comparando as almas dos animais que sente, mas acima desta uma que
se mostra superior em todos os sentidos perante a classificação dita por Agostinho, uma
natureza que além de existir, vive e compreende sua realidade, que chamamos de Alma
Racional do homem (p. 92).
Agostinho segue seu diálogo com Evódio lhe mostrando outra natureza superior a do
homem, isto é, a natureza divina ou realidade. Evódio é indagado por Agostinho se este
pudesse encontrar outra realidade superior e que esta existência torna-se conhecida através do
entendimento, mas tal existência fosse superior a nossa razão (p. 92).
Evódio de início não aceita de imediato que possa existir algo eterno e imutável acima
da razão, por achar esta sua melhor natureza, e admite que não proclamaria nada superior a
sua razão, aquilo que tem de mais excelente, pois não haveria nada que chamasse de imediato
Deus. Dai Agostinho lhe responde que é justamente isto, apontando para Deus como aquele
que outorgou ao homem a razão ao ser piedoso e verdadeiro com sua criação. Agostinho
pergunta a Evódio se este não encontrou nada acima da razão que chamasse de Deus, esta
verdade eterna e imutável não muda, mas as coisas no mundo sensível estão sempre em
mutação, ou seja, os corpos inanimados em suas variedades de estados manifesta a vida como
sendo evidências desta modificação (p.93).
Em seguida Agostinho mostra que esta mesma razão está sujeita a mudanças, pois esta
se esforça muitas das vezes para alcançar a Verdade e neste seu esforço a razão por vezes
falha em sua tentativa, em outras atinge o seu objetivo, mas em outras também não, e isto
mostra diz Agostinho: “Mostra-se está sujeita a mutações” (p. 93). Com isto Agostinho põe a
questão para Evódio de que sem nenhum órgão ou sentidos corporais e por sentido algum a
esta razão, mas possui a capacidade por si só de captar ou perceber algo acima de sua
capacidade, na qual denominamos de eterno e imutável, mas tornará necessário a esta razão
admitir sua inferioridade perante realidade superior, e que este Ser a qual abarca todas as
realidades seja proclamado Deus (p. 93).

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Em seguida Agostinho demonstrará a Evódio as características de cada sentido
externo, ou seja, aqueles sentidos corporais ditos acima como: os da visão, audição, do olfato,
paladar e tato. Sobre todos esses sentidos corporais apontadas por Agostinho são
pertencentes em cada indivíduo e mesmo assim cada indivíduo possui sua particularidade
daquilo que apreende da realidade, ou seja, não poderíamos ver um objeto com os mesmos
sentidos, pois cada sentido particular é distinto entre os indivíduos. Evódio aceita a
argumentação agostiniana dos sentidos corporais, exemplificando com os seguintes sentidos:
“Pois qualquer homem pode não somente ver, mas também ouvir o que outro não vê nem
escuta. E o mesmo acontece com todos os outros sentidos qualquer pode perceber o que outra
pessoa percebe. É manifesto, por aí, que teus sentidos são só teus e os meus, só meus” (p. 94).
Quanto ao sentido interior, Evódio irá indagar Agostinho se esta também responde as
questões dos sentidos corporais ou se há outra resposta. É o que Agostinho dirá a Evódio
quando o pergunta se pensa da mesma maneira que os sentidos corporais (p. 94). E traz a
questão da realidade sobre a razão quando a compreensão pode se dar apenas a uma das
partes, ou seja, eu posso compreender melhor as coisas do que outro, mesmo possuindo os
mesmos sentidos corporais e mesmo assim não podendo saber se eu as compreendi, ao passo
que só eu sei como compreendi.
Para Agostinho os sentidos são particulares, e não podemos possui coisa alguma do
mundo externo como particular, por exemplo: termos um sol ou uma lua, uma vez que os
compreendemos cada um com nossos próprios sentidos (p. 95).
Já o sentido da audição, poderemos ouvi-la ao mesmo tempo e assim não precisar de
outra voz para cada ouvido particular, ou que os sons são repartidos para cada um, mas chega
de maneira igual a todos em sua totalidade e integralidade não precisando assim de nenhuma
mediação particular para cada indivíduo (p. 95).
Quanto à questão dos sentidos do olfato e paladar, Agostinho também discorre de
maneira inteligível a discussão. Afirma serem estes sentidos como os anteriores no diz
respeito às sensações, por possui propriedades semelhantes (p. 96).
O tato também passa pelo mesmo processo de compreensão dos outros dois sentidos,
com isso Agostinho lembra á Evódio a questão das particularidades dos sentidos externos de
cada um ao afirmar que cada um desses sentidos percebe de maneira particular os seus, ao
afirmar que esses sentidos não podem ser sentidos no outro, ou seja, que nem ele (Agostinho)
sente os de Evódio e o mesmo o dele. O que Agostinho nos quer dizer é que a verdade
universal tão buscada pelos filósofos não pode ser apreendida através de elementos

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particularizados como descrito acima pelos sentidos corporais, por exemplo, mas esta
Verdade Universal só quem pode abarca-la de modo fortuito e compreensivo só Deus,
partindo de uma apreensão geral do seu particular e jamais pelos sentidos do homem limitado
e escravizado pelo pecado.
Agostinho entra agora na discussão da intuição divina, ou seja, aquela acima da razão,
destacando as partes menores dos corpos, isto é, a massa corpórea, que são apresentadas em
suas pequenas proporções ao afirmar que: “... Não podemos admitir que corpo algum seja
pura e realmente uma unidade. Se bem que não se possa contar nele tal infinidade de partes,
senão quando as distinguimos pelo conceito da mesma unidade” (p. 102). O que Agostinho
quer nos dizer é que, existe uma Iluminação Divina usada por ele para explicar o processo de
intuição nos homens, ou seja, uma espécie de conceito mental e abstrato.
Com isso Agostinho começa a afunilar o assunto junto a Evódio lhe falando que este
âmbito conceitual atinge de forma direta a razão, ou intelecto campo abstrato da mente.
Quando havia falada anteriormente sobre a verdade universal, Agostinho não havia falado
ainda sobre as universais, ou seja, aquelas dos números que se apresentam como verdades, as
dos números. Porque Deus as concedeu a todos aqueles que raciocinam e também a aqueles a
quem quis conceder um espírito, chamado no texto original em latim de Animus, para
diferenciar dos demais espíritos da razão, que serão classificados mais afrente por Agostinho.
Pois este ente mental concedido por Deus, que se manifesta através da razão contém verdades
que se manifestam em formas leis gerais como os números, por exemplo, que escapam aos
sentidos corporais tão insistidos por Evódio.
E sem falar dos bens da sabedoria natural levantados por Agostinho, aonde ele traz a
discussão do bem supremo, onde coloca a pergunta sobre se a sabedoria não poderia ser outra
coisa a não ser uma verdade, na qual contemplamos como um Sumo Bem (p. 106). Quando
responde a Evódio a respeito deste sumo bem, quando: “Com efeito, todos aqueles de quem
acabas de citar as opiniões divergentes, na busca da sabedoria, desejam o bem e fogem do
mal” (p. 107).
Agostinho nos diz que antes de adquirirmos a felicidade, nós estamos imbuídos e
influenciados pela felicidade em nossas mentes, isto é, quando pela mesma somos
convencidos sem hesitar que buscamos a felicidade. Mas há as divergências dos sentimentos
encontradas nas diversas acepções idealizada na figura do Sumo Bem, Agostinho diz: “Ora,
quem quer que, consequentemente, deseja aquilo que não deveria desejar, não deixa de estar
no erro ainda que não desejasse a não ser o que lhe parecia como bem. Pelo contrário, é

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impossível o erro, no caso de alguém não ter desejo algum, ou desejar apenas o que devia
desejar” (p.107). Assim sendo, Agostinho crê que a felicidade é oriunda da verdade e Deus o
seu autor, a alegria e a fé são outros bens outorgados por Deus aos homens, e como dito acima
esta ideia de felicidade estaria fixada na memoria humana, desse modo, poderíamos resgatá-la
em momento de angústia e sofrimento como uma reminiscência da alma, lembrança ou
recordação, e através destes valores outorgados a alma como a felicidade, poderíamos
comprovar a identidade dos valores em questão, mesmo não os observando ou seguindo.

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