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Espiritualidade na vertigem do tempo

Roberto E. Zwetsch

Resum o

E spiritualidade é a vivência da fé opinião, não há linguagem m ais p ro fu n ­


cristã sob a ação do Espírito Santo. Ela da e inspiradora do que a linguagem p o ­
abarca a vida integral da pessoa cristã. ética. N ão p o r acaso, a Bíblia está cheia
Essa vivência diz respeito a um a expe­ dela. Ao longo do texto, com enta p oesi­
riência radical de gratuidade e de segui­ as de diversos autores cristãos, m ostran­
m ento do evangelho de Jesus de N azaré. do com o nesses textos transparece um a
N este artigo o autor ensaia um cam inho percepção aguda da realidade hum ana e,
pouco com um para refletir sobre o tem a nela, a experiência do sagrado.
da espiritualidade: o da poesia. Na sua

Resum en

E spiritualidad es la vivência de la esp iritu alid ad , el de la poesia. En su


fe cristiana sob la acción d el Espíritu opinion, no hay lenguaje m ás profundo
Santo. Ella abarca la vida integral de la e inspirador que el lenguaje poético. No
p erso n a cristian a. E sta viv ên cia dice es po r acaso, que la Biblia está llena de
respecto a una experiencia radical de él. A lo largo dei texto, com enta poesias
gratuidad y de seguimiento dei evangelio de diversos autores cristianos m ostran­
de Jesús de N azaret. En este artículo el do com o en estos textos se trasluce una
au to r ensaya un cam ino po co com ún percepción aguda de la realidad hum ana
p ara re fle x io n a r so b re el te m a de la y, en ella, la experiencia de lo sagrado.

A bstract

Spirituality is the living out o f the using poetry. In his opinion, there is no
C hristian faith under the action o f the la n g u a g e th a t is m o re p ro fo u n d and
Holy Spirit. It com prehends the w hole o f inspiring than the language o f poetry. It
Christian life. T hat living out has to do is not by chance that the Bible is full o f
w ith a ra d ic a l e x p e r ie n c e of it. He com m ents on poem s by several
g ratuitousness and discipleship o f the Christian authors, show ing that in these
gospel o f Jesus o f Nazareth. In this article texts w e have a sharp insight into human
th e a u th o r a tte m p ts an u n c o m m o n reality and, within it, the experience o f
reflection on the topic o f spirituality by the sacred.

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“C ristianism o sem crise é um cristianism o dom esticado, com o aliás querem
todos os p oderes da te rra” . (Zero Hora, 23/01/2000, p. 22.)

Introdução

A cam inhada do povo de D eus e a C om o m otivação apresentei, antes


teologia que vem sendo form ulada no do texto, quatro transparências feitas a
Brasil e na A m érica Latina há pelo m e­ p artir de fotos do fotógrafo b rasileiro
nos três décadas não podem ser entendi­ Sebastião Salgado, hoje m undialm ente
das sem considerarm os a espiritualida­ conhecido, e que desenvolve um projeto
de que brota da fé em Jesus Cristo. O sobre A s M igrações no M undo, a p artir
tem a é tão oportuno e im portante que há do qual m ontou um a super-exposição
um a vasta bibliografia já publicada, tan­ com 500 fotos, que, neste ano, será apre­
to na form a de livros com o de artig o s1. sentada em diversas cidades do m undo:
Este trabalho foi apresentado inicial­ São Paulo, T óquio, N ova Iorque, Paris e
m ente com o A ula Inaugural na abertura outras. N elas aparecem a face de um a
do Io sem estre letivo de 2000 na Socie­ pessoa idosa do N ordeste brasileiro, os
dade Educacional T rês de M aio, na ci­ p és de trabalhadores rurais, um circulo
dade de T rês de M aio, RS, no dia 21/02/ de um a com unidade de base cristã ab en ­
2000. M ais de 300 estudantes e docen­ çoando o pão a ser repartido e um a m e­
tes estiveram presentes ao ginásio de es­ nina de um acam pam ento de sem -terras,
portes, onde proferi a palestra. São p es­ que aprende a escrever.
soas que estudam nos três cursos de gra­ C onstava ainda a audição do canto
duação que a instituição oferece: Peda­ Resistência, da autoria do P astor Ms.
g o g ia , A d m in is tra ç ã o e C iê n c ia s da R odolfo G aede Neto, que p o r m otivos
Com putação. E digno de nota que o tem a técnicos não pôde ser escutado. N a p o e­
foi escolhido em com um acordo com a sia desse canto o a u to r ap resen ta um
direção da escola: . exem plo d a n ova e sp iritu alid ad e que

1 Cf. entre outros: Gustavo G U TIERR EZ, B eber no próprio poço : itinerário espiritual de um povo,
trad. Hugo Pedro Bofif, P etró p o lis: Vozes, 1984. Pedro C A S A L D Á L IG A e José M aria VIGIL, Espi­
ritualidade da libertação, trad. Jaim e A. Clasen, São Paulo : Vozes, 1993 (Teologia e Libertação,
IX). Leonardo BOFF, Ecologia, m undiatização. espiritualidade : a em ergência de um novo paradig­
ma, São Paulo : Ática, 1993 (R eligião e Sociedade). Leonardo BOFF, Frei BETTO, M ística e espiri­
tualidade, Rio de Ja n e iro : Rocco, 1994. Roberto E. ZW ETSCH, Espiritualidade e antropologia : um
diálogo com Leonardo BotY, Estudos Teológicos, São Leopoldo, v. 38, n. 2, p. 141-155, 1998. Sobre
espiritualidade na form ação teológica: Jaci M A RASCHIN (Ed.), Q ue èfo rm a çã o espiritual?. São
Paulo/São Bernardo do Cam po : ASTE/PEPGCR, 1990.
; Agradeço particularm ente à sim pática acolhida que tive por parte do diretor, Prof. Seno Leonhardt,
do diretor adm inistrativo, Prof. M arcelo Blume, e da ProP Ms. Zerta Kupske, C oordenadora do
Curso de Pedagogia.

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com eça a brotar em com unidades evan- Num tem po som brio. Num país dom i­
g élico -lu teran as, esp ec ialm en te entre nado. N um a terra ocupada. E ainda as­
aquelas pessoas que se em penham pela sim , terra habitada p o r um povo sofrido,
justiça e a liberdade do povo pobre des­ esperançoso, cheio de sutilezas.
te pais’. Pois bem , a com unidade cristã vive
E necessário que esclareça desde já sua fé em m eio a esta gente brasileira.
o conceito de espiritualidade com o qual Q ual é a espiritualidade que a m otiva
trabalhei. N um livro escrito em 1978, hoje? O u que a questiona? E disso que
m eu antigo professor e am igo H erm ann pretendo falar com vocês nesta noite.
B randt assim definiu espiritualidade, a Peço licença para co n d u zir vocês
p a r tir de um d iá lo g o co m G u sta v o p o r um cam inho p ouco conhecido e va­
G utiérrez: espiritualidade é o dom ínio do lorizado nas escolas superiores, que é o
Espírito, é um a vivência da fé que abar­ da poesia. N ão há linguagem m ais bela,
ca a vida integral da pessoa cristã. Diz profunda e inspiradora do que a lingua­
respeito a um a experiência radical de gem poética. A Bíblia está cheia dela. É
gratuidade e de vivência do evangelho, um a pena que tenham os tanto pudor para
m ovida pelo Espírito Santo de Deus4. lê-la. Infelizm ente, puseram em nossos
Esse pequeno livro tem m e acom ­ olhos viseiras que nos im pedem de b e­
p anhado ao longo de m inha trajetória ber de suas fontes e conhecer vivencial-
com o cristão, m issionário entre povos m ente o p o d er de suas palavras, o fres­
indígenas, pastor e professor de Teolo­ cor de suas águas. Hoje, porém , vou bus­
gia. Sua inspiração m e fez ir adiante. No car inspiração em outros lugares.
que segue desenvolvo o tem a tendo como E que, com freqüência, visito po e­
contraponto a experiência da poesia bra­ tas, m ulheres e hom ens inspirados pelo
sileira, em especial aquela que faz refe­ poder criador das palavras. C om eço com
rência a conteúdos religiosos e de fé. um poem a de A délia Prado, conhecida
por revolucionar a poesia brasileira com
I sua erótica cristã.

N ós som os seres do tem po, seres da Parâmetro


história.
D eus é m ais belo que eu.
M as D eus é antes e depois do tem ­
E não é jovem .
po. E o acontecim ento m ais alucinante é
Isto sim, é consolo.
que ele não quis perm anecer na eterni­
(PR, 382).
dade. Ele tam bém se fez ser hum ano. E
entrou no tem po. E se fez hum ano, his­
Q ue poem a! Breve, lím pido, anim a­
toricam ente situado, datado, fragilizado.
dor. Poesia que liberta jo v e n s e pessoas
Deus e nós. O ser e o tem po. Eternidade
m aduras. Justam ente pessoas com o nós,
e fragilidade. Vida em busca de sentido.

' Cf. texto e partitura in O povo canta : cancioneiro II da Pastoral Popular Luterana, 5. ed.,C uritibanos,
1997. p. 264s.
4 Hermann BRANDT, E spiritualidade : m otivações e critérios. São Leopoldo : Sinodal, 1978, p. 43s.

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eternam ente preocupadas com o que vai educação, m oradia, investim entos que
ser de nossas vidas. seriam essen ciais p ara um pro jeto de
nação livre e so b e ra n a \
II Q ue dizer desse projeto? Haverá um
cam inho alternativo, um outro jeito de nos
V ivem os num tem po vertiginoso, inserirm os com o povo e país no cenário
m arcado por distintas e entorpecedoras das nações? Sou daqueles que teimam em
velocidades. A viões voam m ais rápido dizer que sim! E pequenos exem plos que
que o som. A rede m undial de com puta­ acontecem pelo país afora m e confirmam
dores, conhecida com o Internet, perm i­ que essa história do pensam ento único
te que as in fo rm aç õ es circulem pelo pregado pelo nova ideologia do sistem a
m undo de form a im ediata. O m esm o m undial das m ercadorias é apenas uma
acontece com o uso dos satélites das re­ das versões para descrever o m undo de
des de T V e rádio. hoje6. Esta é hoje a ideologia dom inante.
A velocidade é tam anha que nos sen­ Com o um a idéia, porém , pode ser con­
tim o s tontos, com o se perdêssem os o testada e transform ada pela própria so­
chão debaixo dos pés. Q uem está à m ar­ ciedade. Sigam os em frente. O uçam os
gem desse processo parece alguém fora m ais um a vez A délia Prado:
do tem po. É gente fora da história. Ex­
cluída. D escartável. III
O sistem a que hoje dom ina o m un­
do é altam ente seletivo. Q uem não se A cicatriz
adapta, fica fora. T om a-se um zero à es­
querda. Perde im portância. D eixa de in­ Estão equivocados os teólogos
te re ssa r até m esm o com o núm ero em quando descrevem Deus em seus tratados.
frias estatísticas. O sistem a é cruel na sua Esperai po r m im que vou ser apontada
ciência e onipotência. com o aquela que fez o irreparável.
C om o país, o Brasil desesperada­ Deus vai nascer de novo para m e resgatar.
m ente procura se inserir no circuito g lo­ M e m ata, Jonathan, com sua faca,
bal. O governo defende a globalização. m e livra do cativeiro do tem po.
E faz tudo para adequar o país, a sua Q uero entender suas unhas,
política econôm ica, ao sistem a m undial. o plano não se fixa, sua cara desaparece.
Vende as estatais a preços vis, segue à Eu am o o tem po porque am o este inferno,
risca o program a do Fundo M onetário este am or doloroso que precisa do corpo,
Internacional, corta gastos com saúde, da proteção de D eus para dizer-se

' Cf. José Luís FIORI, Os m oedeiros falsos, P etró p o lis: Vozes, 1997. Elio GASPARI, O s núm eros da
reuína tucana. Zero Hora. Porto Alegre, 13/02/2000, p. 4. Id., A lógica da ruína do andar de baixo.
Zero Hora, Porto Alegre, 20/02/2000, p. 5. Luis Inácio Lula da SILVA, Distribuir para crescer, Zero
Hora, Porto Alegre, 20/02/2000, p. 13.
'' O livro A opçào brasileira, escrito por vários intelectuais e lideranças políticas do Brasil, oferece
exem plos de um cam inho alternativo às políticas do governo FHC. Cf. C ésar BENJAMIN et alii, .4
opção brasileira, 3“ reim pressão. Rio de Janeiro : C ontraponto, 1998.

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nesta tarde infestada de pedestres. Segundo poema didático
Ter um corpo é com o fazer poem as,
pisar m argem de abism os, eu te amo. N ós ainda estam os resolvendo os assu n ­
Seu relógio, incongruente com o m eus tos de Roma,
sapatos, nós som os Roma
um a cruz gozosa, ó Felix Culpa! e o velho Egito e N ínive e B abilônia...
(PR, 392). E,
apesar das brincadeiras laboratoriais,
D eus, o tem po e os corpos. Amor. A ainda som os gerados da mesma maneira.
espiritualidade de que carecem os só se N ada nasce do ar.
faz plena se souber aliar corpo, tem po e O s próprios deuses,
eternidade com o liam e do am or. Por tão diversos,
isso, posso tranqüilam ente afirm ar que são,
to d a espiritualidade cristã que afoga o conform e a vez, o tem po, a ocasião,
corpo, que nega a vida e a paixão de vi­ as fan ta sia s su cessiv am en te u sad as e
ver, não é de Deus. despidas
Espiritualidade cristã assum e a vida, pelo D eus único e verdadeiro.
o corpo, a paixão de viver. Ela é um ra­ U m a divina m ascarada? Não!
dical grito pelo sentido divino da vida, Ele não tem a m ínim a culpa dos co stu ­
integralm ente: corpo, alm a, espírito. A reiros.
vida é sagrada. A vida hum ana é dádiva Por trás dos disfarces
divina e m aravilhosa. Por isso, a espiri­ - no m eio de todos e de tudo -
tualidade cristã se com prom ete com o sorri, com placentem ente,
resgate perm anente da dignidade hum a­ o D eus Nu.
na, com o aponta o tem a da C am panha Sorri, sobretudo,
da Fraternidade E cum ênica de 2000. para o poeta que toca o pandeiro
a lira
IV o pífano
o violoncelo profundo
C om o seres do tem po e da história, enquanto
vivem os em m eio a contradições. H ones­ ao pé de todas as cruzes
tam ente, eu diria: nós m esm os som os soldados jo g am aos dados
co n trad ição am bulante. D izem os um a os destinos de Rom a e do m undo.
coisa. Fazem os outra. Som os pela paz. (A H S, p. 81).
M as tecem os arm adilhas para a guerra.
A berta ou veladam ente. N ão im porta. É Então, os destinos do m undo, o nos­
preciso reconhecer isso. A té para recu­ so destino com um , o nosso futuro, nor­
p erarm os um m ínim o de saúde e senso m alm ente são jo g a d o s pelos poderosos
de justiça. E com preenderm os por que com dados e soldados. N ão ten h am o s
existe a palavra perdão! ilusões. E esse futuro incerto é decidido
O uçam os um agudo poem a do n os­ ao pé de todas as cruzes. A cruz não é
so querido e saudoso M ario Q uintana, apenas sinal do passado. Ela está crava­
sem pre genial em suas visões de solitá­ da no tem po, no nosso tem po. E a seus
rio poeta: pés nos encontram os. Ela é tam bém cruz

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plural, são cruzes as que hoje m arcam “Ó crux ave, spes unica
lugares, corpos e épocas. E com elas O passiones tem p o re” .
Cristo se identifica. Jesus tem um par de nádegas!
Q ual será nossa posição diante des­ M ais que Javé na m ontanha
sas cruzes, ou diante daquela única cruz esta revelação me prostra.
que nos salva? Pois este que nos salva é O m istério, m istério,
o D eus NU que é capaz de sorrir para suspenso no m adeiro
pobres e poetas, m as sabe dizer tam bém : o corpo hum ano de Deus.
“Ai de vós, os ricos! porque tendes a É próprio do sexo o ar
vossa consolação. Ai de vós os que estais que nos faunos velhos surpreendo,
agora fartos! porque vireis a ter fom e. em crianças supostam ente pervertidas
Ai de vós o s que agora rides! porque e a que cham am dissoluto.
haveis de lam entar e chorar. Ai de vós, N isto consiste o crim e,
quando todos vos louvarem ! porque as­ em fotografar um a m ulher gozando
sim procederam seus pais com os falsos e dizer: eis a face do pecado.
profetas” (L ucas 6.24ss.). Por séculos e séculos
os dem ônios porfiaram
V em nos cegar com este em buste.
E teu corpo na cruz, suspenso.
Volto a A délia Prado porque ela m e E teu corpo na cruz, sem panos:
faz lem brar de que o D eus NU é corpo olha para m im .
presente, desafiador para nós, seu povo Eu te adoro, ó salvador m eu
hoje e aqui neste país. E recorro a esse que apaixonadam ente m e revelas
poem a porque ele corrói nossas hipocri­ a inocência da carne.
sias e falsa m oral. O ra, espiritualidade Expondo-te com o um fruto
cristã não pode confundir-se com mora- nesta árvore de execração
lismo hipócrita ou falsidades de qualquer o que dizes é am or,
natureza. A espiritualidade cristã, que re­ am or do corpo, amor.
m onta à experiência da cruz e, nela, às (PR , 279).
cruzes de nosso tem po, precisa ser cor­
poralmente transparente, apaixonadamen­ C om o é possível ver am or num cor­
te com passiva, m isericordiosa, am ante po torturado e nu? Só m esm o quem am a
dos m ais pequenos e fracos, porque sabe- o torturado e nu e por ele é tran sfo rm a­
se ela m esm a fruto de fraqueza, angústia do. Essa pessoa, sim, desvenda o em bus­
e dor. Por isso mesm o, se tom a cantante, te, a m entira, e salva o corpo da execra­
exultando em esperança, pronta a sem ear ção, da m aldição e da tristeza.
novas possibilidades de vida. Q uando Jesus foi conduzido p era n ­
A o poem a, pois: te o governador rom ano Pôncio Pilatos,
torturado, enfraquecido e caluniado, o
representante do p oder im perial não en ­
Festa do corpo de Deus
controu nele crim e algum . M as, renden-
C om o um tum or m aduro do-se às m anobras políticas e à co n sp i­
a poesia pulsa dolorosa ração, lavou as m ãos e condenou Jesus à
anunciando a paixão: cruz. No G etsêm ani, o lugar da caveira.

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Jesus m orreu crucificado ao lado de dois lim itações. Ela é su cedânea do am or.
ladrões, sendo assistido de longe p or al­ A m or em tem pos de cólera, de dengue,
guns de seus m edrosos discípulos e mais de febre am arela e de insensibilidades
de perto por sua m ãe e um jovem am igo. brutais.
Solitário, abandonado, Jesus entre-
gou-se ao Pai, gritou e disse: “Tudo está VI
consum ado!” C om o se sabe do testem u­
nho bíblico, foi D eus quem m udou o fi­ Voltemos a M ario Q uintana. Vejam
nal dessa história de assassinato, com os o que ele diz a respeito de
fatos inusitados do dom ingo de Páscoa.
É essa surpresa hum anam ente inveros­
O Deus vivo
sím il que sustenta até os dias de hoje a
com unidade das discípulas e dos discí­ D eus não está no céu. D eus está no fun­
pulos de Jesus m undo afora. do do poço
Então, espiritualidade cristã só pode onde o deixaram tom bar.
ser um a espiritualidade crítica. Pois ela - Caim , o que fizeste do teu Deus?!
nasce da crise da cruz. De um a crise ra­ Suas unhas ensan g ü en tad as arranham
dical. Se o cristianism o vive hoje no em vão as paredes escorregadias.
m undo um a profunda crise, bem -vinda D eus está no inferno...
crise porque ela nos aproxim a do cerne E preciso que lhe em prestem os todas as
da fé. A cruz é a crise perm anente da vida nossas forças
cristã, diante da qual os argum entos tre­ todo o nosso alento
m em e o coração é sacudido até as en­ para trazê-lo ao m enos à face da terra.
tranhas. E sentá-lo depois à nossa m esa
A crise é constitutiva da fé e da es­ e dar-lhe do nosso pão e do nosso vinho,
piritualidade cristãs. Toda vez que al­ e não deix ar que de novo se perca.
guém im aginar vencê-la para colocar-se Q ue de novo se p e r c a ... nem que seja no
no lugar de Deus, reduziu a fé e a espiri­ céu!
tualidade às dim ensões hum anas e aquie­ (A H S, 64).
tou o E spírito do R essuscitado. Com
isso, acab ru n h a o E spírito. M anipula Tem um te x to no E v an g e lh o de
Deus. D eixem o-nos, pois, revolucionar M ateus, capítulo 25, que se to m o u ch a­
pela cruz de C risto7. ve na teologia latino-am ericana da liber­
A espiritualidade cristã não tem e as tação. Nele Jesus expõe por meio de um a
crises. Ela tem e é a preguiça, a desfaça­ parábola com o se dará o ju lg am en to fi­
tez, a covardia, a insensibilidade com o nal. O texto é surpreendente porque nele
sofrim ento alheio, o desam or, a im pie­ Jesus anuncia a form a de sua presença
dade, a om issão, a vilania. A espirituali­ no período de sua ausência. Q u er dizer,
dade cristã é antes paciente, teim osa, se hoje não vem os Jesus em carne e osso,
resoluta no cam inho da ju stiça e da paz. nem por isso ele está distante de nós.
Ela não se envaidece, m as reconhece suas A liás, está bem perto, só que nós não o

7 Roberto E. ZW ETSCH , Cristianism o, crise e cruz, p. 22.

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vemos. Porque ele nos parece pobre de­ A espiritualidade cristã é cam inho
mais, sujo e fam into dem ais, esfarrapa­ de vida. Ela perm ite um a experiência de
do e perseguido, um zero à esquerda. D eus que nos convence do seu am or por
E que ele está no inferno e nós não nós. Som os seres am ados. Som os gente
costum am os nos aproxim ar do inferno. perdoada. Som os gente libertada. Isto é
Preferim os a segurança do céu de nos­ obra divina em nós. Por isso tem os ra­
sos sonhos de classe m édia ao inferno zões para cantar e dançar diante do C ria­
onde está Deus. dor, nas ruas e nos tem plos, nas escolas
N o poem a a partilha do pão e do vi­ e nas prisões, n a terra e nas alturas infi­
nho é o m om ento de com ungar a p re­ nitas do cosm o.
sença de Deus. A presença libertadora Essa espiritualidade nos anim a ao
de Deus. Com ida e festa. Partilha de bens seguim ento do C ru cificad o . C o n tra a
e de alegria. C om o aconteceu com os banalização da vida e a exacerbação do
discípulos a cam inho de Emaús. D eus individualism o doentio de nossos dias,
no m eio dessa m esa partilhada com am or ela nos ensina a viver a liberdade das fi­
e paixão. Com paixão. A ntídoto para to ­ lhas e dos filhos de Deus. E tal expe­
dos os infernos conhecidos e desconhe­ riência é gratuita, am orosa e com prom is-
cidos. Compassion, com o disse o gran ­ siva.
de D alai Lam a - líder dos budistas - Com o isso acontece? Há muitas m a­
quando veio ao Brasil. neiras. Pode ser um encontro com a reali­
A espiritualidade cristã é partilha de dade, pode ser a revelação de um poem a,
pão e de vinho, de casa e de bens, de pode ser o am or por um a pessoa am iga ou
am izade e de conhecim ento, de esperan­ por um a causa maior. Pode ser o encontro
ças e de sofrim entos, de sonhos e de bus­ com as pessoas pobres e indefesas. Pode
cas, de utopias, enfim. Ela jam ais se con­ ser um sermão ou prédica. Pode ser até
form a com a injustiça. Sonha e se arris­ mesm o a solidão. Sempre, porém, ela se
ca pelas transform ações urgentes de que dá com o expressão do encontro com a Pa­
c a re c e a n o ssa casa co m u m : a te rra lavra do Deus Vivo. N ão só na literalidade
brasilis. Por isso m esm o, a espirituali­ do texto bíblico, m as na força do Espírito
d ad e cristã é ecu m ên ica e ecológica, que a letra revela. Nesse encontro, somos
abrange o todo, terra e céu. Por isso, ela duplamente derrotados, dele saindo, porém
não discrim ina diante das diferenças cul­ e paradoxalmente, vitoriosos. Com o na­
turais, antes as realça, valoriza, dignifi­ quela luta de Jacó com o anjo de Deus no
ca. N egros, povos indígenas, sem -terra, vau do Jaboque. Lutou, ficou m anco, m as
estrangeiros, m ulheres, pessoas idosas, saiu vivo! (Gênesis 32.22ss.). A gente luta,
indigentes, pessoas portadoras de defi­ perde, mas sai marcado para toda a vida. E
ciência, m enores, todas encontram nes­ a m arca é a liberdade de viver na graça de
sa e s p iritu a lid a d e g u a rid a , re sp e ito , Deus! Que diferença com a luta por so­
amor. Todas recebem dela o Espírito que brevivência no atual sistema capitalista.
dá Vida e intercede por nós diante de Aqui não há perdão. A com petição é desi­
Deus com gem idos inexprim íveis (R o­ gual e impiedosa. Poucos ganham, muito
m anos 8.26). poucos8.

* Cf. artigo de C lóvis ROSSI, No m undo novo, poucos chegam ao pico. Folha de S. Paulo, São Paulo,
06/02/2000, (2), p. 9. Um dado apenas: dos 6 bilhões de pessoas do m undo, 3 bilhões sobrevivem

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Paulo, o apóstolo, entendeu a fé em m uita ilum inação, com o neste dedicado
Cristo com o liberdade. Disse: “ Para a a sua m ãe, escrito em língua catalã e d e­
liberdade foi que C risto nos libertou” pois traduzido ao português:
(Gálatas 5.1). E com pletou este pensa­
m ento dizendo: “O S enhor é Espírito; e O nome novo
onde está o Espírito do S enhor aí há li­
berdade” (2 C oríntios 3.17)’. Pranto e silêncio e grito,
A característica dessa liberdade cris­ é a palavra que m e enche agora
tã é o serviço. Som os livres não para fa­ a boca e o espírito.
zer o que quiserm os, pois isto não é li­ Q ue nunca ainda
berdade. Servir livre e espontaneam en­ eu havia chegado
te. Servir para criar espaços e experiên­ a entender, mãe:
cias de liberdade. S ervir com o m arca da a li-ber-da-de!
vida com unitária cristã. M as que fique
claro, não confundir serviço com servi­ (Com todos os que lutaram e m orreram
lism o, com subserviência, com paterna­ por Ela:
lism o ou m aternalism o. Pois aí estam os com todos os que a cantaram e a sofre­
diante de relações desiguais e escravi- ram e a sonharam ...
zadoras. O serviço que brota da espiri­ eu a canto e a sofro
tualidade cristã é o que hoje poderíam os - e a faço, tam bém , um pouco - ,
traduzir por cidadania. C idadão ou ci­ a livre Liberdade!
dadã é a pessoa que coopera para o bem
de sua cidade e para que a liberdade seja A quela, quero dizer, mãe, total,
nela um a realização. Portanto, serviço, com que o Cristo nos libertou.)
cidadania e dem ocracia. C om o desdo­
bram ento da espiritualidade cristã. Se m e batizas outra vez, um dia,
com a água dos soluços e da m em ória,
VII com o fogo da m orte e da G lória ...:
diz a Deus e ao m undo
que m e puseste
D. Pedro C asaldáliga é bispo cató­
o nom e
lico rom ano da Prelazia de São Félix do
de Pedro-Liberdade!
A raguaia, M ato G rosso. E tam bém é
(AR, 189).
poeta. De seus poem as tenho recebido

com até 2 dólares por dia! Ele foi apresentado no encontro anual do Fórum Econôm ico M undial,
realizado em Davos, Suiça, neste m ês de fevereiro de 2000. Outra informação, esta de David Bryer,
diretor-executivo da OXFAM, ONG britânica: no século XIX, a renda dos 20% m ais ricos era apenas
três vezes superior à dos 20% m ais pobres. Nos anos 30 deste século passou a ser 30 vezes maior.
Hoje. é 74 vezes maior! E nada indica que essa tendência vá se inverter... Isto é, os ricos ficam
sem pre mais ricos e em m enor núm ero (concentração mundial da renda), enquanto os pobres sempre
mais pobres e em constante crescim ento (expansão e exclusão).
'' Cf. JoséCOMBL.IN, Vocação para a liberdade, 2 .ed., São P aulo: Paulus, 1998. Jürgen MOL.TMANN,
O Espirito da Vida : um a pneuniatologia integral, trad. Carlos Almeida Pereira, Petrópolis : Vozes,
1999 (especialm ente cap. V).

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Este poem a foi escrito enquanto D. Estações no caminho
Pedro e alguns de seus am igos da Igreja
de São Félix eram processados pela Di­
para a liberdade10
tadura M ilitar por subversão. Por vários
D isc ip lin a
dias ele ficou preso em sua própria resi­
dência, vigiado com o pessoa de alta pe- Se partes em busca da liberdade, apren­
riculosidade. de prim eiro
Só quem viveu nos lim ites da insti- a te r disciplina para os sentidos e para a
tucionalidade, roçando as botas dos sol­ alm a
dados a serviço do Poder, disposto a d e­ a fim de não seres levado p o r tuas co b i­
fender o direito dos pobres e vida digna ças, sem rum o,
para todos é que sabe o que é tem er pela de um lado p ara o outro. P rocura te r
própria liberdade. m ente e corpo bem castos,
A experiência de D. Pedro m e rem e­ sob teu controle e dom ínio, e sem pre
te a um outro poem a, este de um pastor obedientes
evangélico-luterano para quem a luta pela a fim de seguirem para onde se encontra
liberdade custou a própria vida. Refiro- a meta.
m e a Dietrich Bonhoeffer, condenado à N inguém chegará ao segredo da liber­
forca pela G estapo, a polícia de Hitler, dade, a não ser que
p o uco antes do térm ino da 2a G uerra com perseverança se exercite na sã dis­
M undial, no cam po de concentração de ciplina.
Floessenburg. Bonhoeffer ficou m ais de
três anos preso por sua coerência com o Ação
seguidor de Cristo. Logo que com preen­
deu aonde levava o regim e de Hitler, pas­ Evita de te p render a fazer coisa q u al­
sou para a oposição. Participou da Igreja quer, a não ser o direito,
Confessante, a igreja dos cristãos alemães faze-o com coragem ; não pares no sim ­
q u e re s is tir a m ao re g im e n a z is ta . plesm ente possível,
Com pactuou com os que queriam acabar agarra som ente o que é real, e nu n ca te
com o ditador e a loucura da guerra. Por percas na fuga
isso foi preso, m as nunca perdeu a fé e a de m eras idéias, porque som ente na ação
esperança. Aliás, com panheiros seus de se acha a liberdade.
prisão testem unharam com o ele, apesar A bandona o vacilar m edroso e enfrenta
de todo o sofrim ento, sem pre encontrava a tem pestade
forças para sorrir com altivez, anim ar seus do que aco n tece lá fora, apoiado p o r
colegas de infortúnio e alim entar a cha­ D eus e seu m andam ento
no qual sua fé se inspira e, eis, que com
m a da esperança nas prisões po r onde
júbilo indescritível
passou. E dele o poem a

Dietrich BONHOEFFER, Resistência e subm issão, trad. E m estoJ. Bem hoeft, Rio de Janeiro: P aze
Terra, 1968, p. 179s. Sobre a influência de Bonhoeffer na A m érica Latina, cf. Nélio SCHNE1DER,
Sinais da teologia e do testem unho de Dietrich Bonhoeffer na Am érica Latina, Estudos Teológicos,
São Leopoldo, v. 35, n. 3, p. 246-257, 1995.

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o teu espírito alcançará liberdade. VIII
S o frim e n to C hego ao ú ltim o p o em a, este de
M aravilhosa transform ação. A s m ãos tão m inha autoria, ao estilo dos salm os b í­
fortes, ativas blicos, que consta de m eu pequeno livro
tu as tens (agora) am arradas. Im potente, Vigília - salmos para tempos de incer­
na solidão estás vendo teza (p. 45s.). E que espiritualidade cristã
o fim de toda a tua ação. M as ainda res­ só subsiste quando se alim enta diutur-
piras e pões o direito nam ente da oração. Da oração co n trita e
bem calm o e com fé em m ãos m ais p o ­ alegre. Em horas boas ou ruins. No re­
tentes, bem satisfeito. cesso do quarto ou em m eio à m ultidão
A penas um instante tocaste, feliz, na li­ nas ruas. No alto de um penhasco ou no
berdade, fundo do abism o. N os te m p lo s e nos
logo a entregaste a Deus, para que Ele m osteiros. N a escola, no carro, no ô n i­
esplendidam ente a aperfeiçoasse. bus, em m eio ao trabalho, na loja, na
padaria, ao lado do fogão ou no m eio de
M o rte um banho restaurador. Em to d o s os lu ­
gares um a pessoa de fé ora, clam a, ca n ­
A gora vem, sublim e festival no cam inho ta e exalta o C riador e S alvador de todos
para a liberdade eterna. nós. Pois em Jesus de N azaré acabou a
M orte, descansa as algem as pesadas e antiga divisão entre sagrado e profano,
as altas m uralhas santo e pecador. É que a p artir da n o v i­
de nosso corpo m ortal, de nossa alm a tão dade m aior do evangelho da água viva,
iludida chegou a hora definitiva em qu e os ver­
a fim de poderm os ver afinal o que antes dadeiros adoradores de D eus Pai e M ãe
não perm itiram . o adoram em espírito e em verdade. E
P rocuram os-te, liberdade, na disciplina, são essas as pessoas que D eus procura
na ação e na dor; para seus adoradores e adoradoras (João
m orrendo, agora, reconhecem os no sem ­ 4.23). Por isso m esm o, tal esp iritu alid a­
blante de D eus a ti m esm a. de procura a com unhão, o conselho m ú­
tuo e o serviço de amor. D eixem os, pois,
A espiritualidade cristã anim a o ca­ fluir aquilo que nosso coração, p o r ve­
m inho em busca da liberdade. Hoje em zes, angustiadam ente, deseja cantar, m as
dia m uita gente m orre precocem ente em que a razão e a boca em luta conosco
n o sso p a ís, s o b re tu d o jo v e n s co m o m esm os procuram travar e desviar.
vocês. Esses não puderam b eber um gole
que fosse d essa liberdade. M orreram
“O grande escuro é Deus”
antes do tem po. M as nós, os vivos, não
p odem os desistir. E para tanto recebe­ Para A délia Prado
m os o Espírito de Cristo e o exem plo dos
Um dia abri o livro
que nos precederam e m orreram por essa
e lá estava escrito:
fé. Hoje, esses versos nos ensinam a can­
“O grande escuro é Deus
tar com gratidão um hino à liberdade e
e forceja por nascer da m inha carn e” .
sair em seu alcance.
Sim, é canto de m ulher parideira

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poetisa m ineira R esum indo: som os seres do tem po
solta nos prados e da história. E D eus é antes e depois do
colhendo as flores tem po. M as entrou no tem po, fragilizan-
que o vento sem eou. do-se com o ser hum ano igual a nós. Essa
presença divina no m eio de nós revela o
G rande és tu, m eu Deus,
sistema do m undo, as m uitas dom inações
e escuro com o o ébano africano
e exclusões. N isso, revela tam bém n o s­
que aqui reverencio.
sas próprias contradições, as cicatrizes
D esde sem pre forcejas
do tem po que m arcam no sso s co rp o s
po r nascer em nossas carnes,
m ortais, nossos desejos, sonhos, ilusões
nossas vidas,
e utopias.
nossos braços, barracos,
Deus, o tem po e os nossos corpos.
m ãos e m entes.
Deus nasce sem pre de novo para nos res­
M as com o é difícil gatar. A vida hum ana com o ela é: co n ­
aceitar-te pobre e frágil, traditória, m as sagrada, divina e m ara­
sem ter sequer vilhosa. Por isso, quis m ostrar aqui que
um a pedra onde reclinar a espiritualidade cristã é apaixonada pela
a cabeça cansada vida. Ela é um radical grito que se ju n ta
de peregrino ao grito de D eus pelo sentido da vida.
am bulante do evangelho Q ue m istério profundo!
da alegria maior. Tal espiritualidade vive do am o r e
do perdão de Deus. Ela desafia a nós e
Q uem se dispõe
aos poderosos que jo g a m nosso destino
a p arir o céu e a terra?
aos pés da cruz. Por isso m esm o, com o
O m ar, a distância febril?
fruto m aduro da cruz-crise ela é crítica
O novo canto da vida?
de todos os poderes que escravizam e que
O grito do pobre oprim ido?
se baseiam na injustiça. Ela é espiritua­
A do r da nova esperança?
lidade aberta, corajosa, com passiva. Pois
A luz no fim do túnel?
se alim enta da m isericórdia divina. Do
R ecolho cacos de vida am or maior. Com -paixão!
nas m inhas andanças descalças Ela não se c o n fu n d e com falso s
e de pedaço a pedaço tnoralism os. É capaz de am ar um corpo
vai se form ando um desenho nu pendido de um m adeiro ignom inioso
que nem eu im aginava e covarde. Ela vive do Espírito do Res­
n o s m ais lúcidos sonhos ignotos, suscitado que ilum inou um dom ingo de
Páscoa há m uito tem po e a partir do qual
Forjador do m undo novo,
o rum o da história m udou radicalm ente.
do escuro nasce o claro,
A espiritualidade cristã não foge do
céu aberto se espraiando
inferno, m as passa p o r ele com o única
na vigília dessa hora
m aneira de chegar à m esa em to m o da
de am or e gratuidade.
qual com partilham os pão e vinho na pre­
Sim , m eu Deus, tu és com o sença libertadora do próprio Deus. Por
o ferreiro que m alha o ferro isso m esm o, é espiritualidade solidária
da m inha vida querida. com gente pobre e indefesa e não nega o
Saberei suportar o teu m alho? outro, m as constrói com ele um m undo

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hum ano e fraterno, no qual a ju stiça é festar a com unitariedade da vivência es­
com o um beijo de am or e am izade. piritual da fé.
A espiritualidade cristã é vivência E spiritualidade cristã, finalm ente,
livre e libertada de quem conheceu a li­ recebe sua força da oração perm anente.
berdade para a qual C risto nos liber­ Essa oração não tem fronteiras, lugar ou
tou, com o escreveu Paulo, o apóstolo. hora preferidas. Ela se dá e se faz na ver­
Essa liberdade se tom a, hoje, serviço, tigem do tem po, em qualquer lugar onde
disposição voluntária para exercer com pessoas se abrem para o encontro com a
m aturidade a nossa cidadania. O exercí­ Verdade de nossas vidas, de nosso m un­
cio da cidadania é outra form a de m ani­ do e da nossa história com um .

Bibliografia

BONHOEFFER, Dietrich. Resistência e submissão. Trad. Ernesto J. Bemhoeft. Rio de Ja­


neiro : Paz e Terra, 1968.
CASALDÁLIGA, Pedro. Antologia retirante. Rio de Janeiro : Civilização Brasileira, 1978.
PRADO, Adélia. Poesia reunida. São Paulo : Siciliano, 1991.
QUINTANA, Mario. Apontamentos de história sobrenatural. 4. ed. Rio de Janeiro : Globo,
1987.
SALGADO, Sebastião. Terra. São Paulo : Cia. das Letras, 1997. Reproduzi as fotos das
páginas 21, 59,91 e 107.
ZWETSCH, Roberto E. Vigília - salmos para tempos de incerteza. São Leopoldo : Sinodal,
1994.
------------ . Cristianismo, crise e cruz. Zero Hora, 23/01/2000, p. 22.

Roberto E. Zw etsch
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