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LUCAS TÓFOLI LOPES

Nº USP 6440110
Resenha Montesquieu

O texto aqui resenhado é o capítulo 5 do livro “Clássicos da Política, Vol.1”, de Francisco


C. Weffort, 2000, Ed. Ática. O capítulo 5, “Montesquieu: sociedade e poder”, compreende
texto introdutório de J. A. Guilhon de Albuquerque e textos de Montesquieu extraídos do
original “Do Espírito das Leis”, contidos no livro de Weffort.

1. INTRODUÇÃO
1.1 Contexto histórico e introdução
Montesquieu: contexto, data de nascimento e morte.
O Barão de Montesquieu, nascido em 1689 na França, tinha origem nobre e aristocrática.
Político, filósofo e escritor, ele esteve a frente do seu tempo, trabalhando numa teoria política
que poderia ajudar os regimes políticos vindouros. De formação iluminista, estudou as razões
principais da decadência das monarquias - mas também deu atenção a como esse regime
político durou tanto tempo. Em 1748, lançou sua obra mais famosa, “Do Espírito das Leis”, a
qual será aqui estudada.

1.2 Principais ideias


No que nos interessa analisar, sua obra trata da questão do funcionamento dos regimes
políticos
Em ciência política, Montesquieu é quase sempre aquele que aparece como quem
desenvolveu a teoria dos três poderes, que até hoje permanece como uma das condições de
funcionamento do Estado de direito. Para chegar a essa teoria, ele também fez uma análise
sobre a tipologia dos governos, ou seja, a teoria dos princípios e da natureza dos regimes.

2. AS TEORIAS DE MONTESQUIEU
2.1 A lei
Montesquieu se debruçou sobre o conceito de lei. Até ele, a noção de lei era ligada
basicamente a três dimensões principais (todas, de alguma forma, ligadas a noção de Deus):
• estavam ligadas a uma ordem natural, vinda da vontade de Deus - ideia de
imutabilidade;
• leis exprimiam um dever ser, de acordo com as finalidades divinas - ideia de
idealização;
• leis expressavam autoridade - ideia de legitimação.
Em sua obra O Espírito das Leis, ao introduzir o conceito de lei, Montesquieu quebra com
o que vinha sendo pregado anteriormente. Ele retira a lei do campo teológico, da ideia
medieval cristã e a coloca num campo racionalizado, teórico com base nos ideias
humanísticos que floresciam em sua época.
Sua definição de lei é: “relações necessárias que derivam da natureza das coisas”. A partir
daí, o filósofo traça um paralelo das leis com as ciências empíricas que estavam sendo
desenvolvidas no período. Dessa forma ele afirma que é possível encontrar alguma
uniformidade e constância nas formas de organizar os homens. Ele também desfaz a antiga
confusão e mistura dos campos político, moral e religioso

2.2 Os três governos


A principal preocupação de Montesquieu é com relação a estabilidade dos governos. Essa é
sua grande diferença com relação aos principais autores que lemos com mais atenção até o
momento. Hobbes, Locke e Rousseau são autores fundamentalmente preocupados com o
pacto social: como o povo cede parte de sua autoridade a uma liderança. Montesquieu parte
por um outro caminho: o que deve ser investigado não é a existência das instituições políticas
e/ou como elas surgiram, mas sim, como elas funcionam.
Montesquieu irá então dividir o funcionamento político das instituições m duas principais
dimensões:
1. Dimensão natural, no que diz respeito a quem detém o poder - e a partir dessa análise,
poder entender como são feitas as leis e que tipos de leis existem em cada uma das
naturezas do governo. Essa dimensão natural pode ser dividida em:
• Monarquia, governo de apenas um, através de leis fixas e instituições;
• República, governo de todo o povo (ou parte dele, em repúblicas aristocráticas);
• Despotismo, governo da vontade de um só.
2. Dimensão do princípio de governo, a paixão que move esse governo, ou como ele é
exercido. Montesquieu divide essas paixões em:
• Honra, o princípio da monarquia. É o sentimento que move a nobreza em perpetuar
seu poder;
• Virtude, o princípio da democracia. É o sentimento que orienta a supremacia do
bem público.
• Medo, o princípio que move o despotismo. Se torna quase uma extensão do estado
de natureza, onde os homens são movidos pelos seus instintos e lutam pela
sobrevivência;
Em sua análise sobre os sentimentos que movem os modos de governo, fica claro uma
defesa da democracia como o modo virtuoso de se fazer política - mas que, por depender da
virtude dos homens, pode ser um sistema de governo frágil.
Enquanto isso, a monarquia é uma forma de governo baseada nas instituições. Nesse
modelo, a virtude não é necessária - e até as paixões desonestas da nobreza a favorecem.
É interessante pensar a teoria de Montesquieu sobre as luzes de uma sociedade desigual.
Quanto maior a desigualdade entre os homens, maiores serão as diferenças dos interesses de
classes. Nesse modelo, torna-se muito difícil manter uma atitude virtuosa e republicana na
tentativa de se chegar um acordo razoável a todos. Hoje, em 2015, parece que estamos cada
vez mais longe desse ideal virtuoso republicano. O que temos visto é cada um lutando por si e
somente pelos seus interesses, o que causa um empobrecimento da democracia e uma
intolerância cada vez maior à voz do outro.

2.3 Os três poderes


A partir de uma análise política do governo britânico de sua época, Montesquieu chega a
teoria dos três poderes. Esta, hoje, é divulgada como a separação dos poderes e a a
equipotência entre o executivo, legislativo e judiciário. Entretanto, no tempo e no contexto
que sua teoria foi escrita, no governo britânico, não havia uma efetiva separação dos poderes.
O judiciário, por exemplo, poderia ser considerado um “poder menor”.
Na teoria montesquiana, a separação de poderes é uma questão de controle. Um poder deve
ter a capacidade de controlar o outro poder e assim haver um mecanismo para que se evitem
excessos por parte de qualquer um. Não se trata aqui de uma questão de divisão de tarefas - no
próprio governo britânico da época, não havia uma organização de funções como a que
pensamos hoje quando ouvimos em tripartição de poder.
É importante lembrar que esse assunto é extremamente contemporâneo. Governos atuais de
todo o mundo seguem esse modelo de divisão de poderes. Também é importante lembrar que
há uma esfera social nessa força política. Os poderes têm função social e não podem
funcionar sem ter como foco o seu povo, para quem deve trabalhar.

Vamos agora nos ater à analise mais aprofundada dos principais trechos dos textos de
Montesquieu, trazendo paralelos e análises com outros pensadores e autores.

3. TEXTOS DE MONTESQUIEU
3.1 Das leis em geral
Na definição dada por Montesquieu, “As leis, em seu significado mais amplo, são as
relações necessárias que derivam da natureza das coisas”. Leis são relações, e logo, podemos
pensar que todos os homens possuem as suas relações, independente de sua cultura, sua forma
de organização, sua natureza ou religião, por exemplo - assim, é complicado pensar que o
modelo ocidental de vida, organização e de leis/direito deve ser o mesmo para todo o mundo.
Esse é um tópico polêmico que nós, como futuro juristas, devemos ter em mente.
Montesquieu não nega sua origem nobre. Seu texto possui marcas moralista e suas
concepções incluem o discurso religioso vigente em seu período - e, dessa forma, em
comparação com Rousseau, que se pretende ser muito mais racionalista, eles se afastam nesse
ponto. Um exemplo é um dos parágrafos que Montesquieu usa para abrir seu Do Espírito das
Leis, “Deus tem relação com o universo, como criador e como conservador: as leis segundo as
quais criou são as mesmas segundo as quais conserva. Ele atua de acordo com essas regras,
porque as conhece (…)” (p. 121).
Com relação as leis da natureza, Montesquieu retoma as concepções de Hobbes e Locke e
descreve esse estado como aquele em que o homem tem como prioridade a conservação e a
preservação de si próprio. Entretanto, Montesquieu refuta Hobbes diretamente ao afirmar que
o estado de guerra de todos contra todos é um produto da vida em sociedade. Essa vida em
sociedade é o último desejo do homem, após obter sua estabilidade e segurança com relação a
comida e paz. A vida em sociedade seria uma evolução do desejo do homem.
A partir da vida em conjunto é que se iniciam os conflitos. Para os evitar, é necessária a
criação de leis positivas, leis entre os homens para pautar sua forma de vida. Logo, o
princípio do direito e das leis é buscar e manter a paz. Segundo Montesquieu, “as diversas
nações devem, na paz e , com maior razão, na guerra, fazer a si próprias o menor mal
possível, sem prejudicar seus verdadeiros interesses” (p.125).
As leis pautam basicamente 3 tipos de relação:
1. Direito das gentes, leis sobre a relação em que os povos mantêm entre si.
Montesquieu diz que todas as nações têm um direito das gentes, mesmo aquelas que ao
nosso olhar parecem bárbaras;
2. Direito político, leis sobre a relação entre o governo e seu povo - e como esse governo
se dá;
3. Direito civil, leis sobre a relação entre os cidadãos.
As leis seriam feitas segundo a razão - e a de cada povo segundo sua razão e suas relações.
Logo, deveriam haver leis específicas de acordo com cada povo. “A lei, em geral, é a razão
humana, enquanto esta governa todos os povos da Terra; e as lies políticas e civis de cada
nação não devem ser senão os casos particulares aos quais se aplica esta razão humana” (p.
126). Como leis são relações segundo a visão de Montesquieu, ele pretende analisar quais são
essas relações -e a assim, poder chegar ao que ele chama de espírito das leis.

3.2 Das leis que derivam diretamente da natureza do governo


Montesquieu divide os tipos de governo em três: o republicano, o monárquico e o
despótico. Há leis que decorrem diretamente da natureza desse governo, são as leis
fundamentais.
No governo republicano, o povo (ou uma parte dele, no caso do governo aristocrático)
detém o poder soberano. O povo às vezes faz o papel de monarca e às vezes faz o papel de
súdito. Assim, as leis fundamentais desse governo estão ligadas ao direito de sufrágio. O voto,
como os representantes são eleitos e a mobilização do povo são fundamentais nesse governo,
suas leis devem ser estabelecidas segundo esse princípio. Montesquieu traz uma série de
exemplos da história para ilustrar as questões do governo democrático, aristocrático e qual
deveria ser a duração das magistraturas. Após citar exemplos de Roma, Veneza e Grécia, o
pensador afirma que a melhor democracia possível seria aquela onde todo o povo participa e
onde a parte do povo que não tem nenhuma parte no poder é tão pequena e tão pobre que a
parte dominante não tem nenhum interesse em oprimi-la” (p. 133). Nossa atual democracia
ainda está longe desse modelo. Hoje, jogamos nosso voto fora e a participação política da
população em geral é quase nula; todo a massa do povo está em condições de escravidão civil,
de massa a ser explorada pelas camadas dominantes que possuem o controle da maquina
política.
No governo monárquico, as leis fundamentais desse governo só podem fluir através de
poderes intermediários, subordinados e dependentes. Se houver apenas a vontade caprichosa
de uma única pessoa, não há lei fundamental que possa ser estável - e aí teríamos um governo
despótico. Portanto, a própria nobreza, conselhos e, em especial, a religião e o poder religioso
exercem papeis fundamentais na monarquia, limitando o papel do rei e o lembrando de suas
leis.
No governo despótico, governo todo concentrado num só homem, ele mesmo é a vontade
máxima. Sua única lei fundamental seria a permanência desse poder.

3.3 Dos princípios dos três governos


Natureza do governo, como acabamos de ver, é o que faz o governo ser como é. Já
princípio é o que o faz atuar, as paixões humanas que o põem em movimento.
Na democracia, seu princípio é a virtude. A democracia é virtuosa pois se pretende ser o
governo de todos para todos - o que é facilmente corrompido. Montesquieu descreve que, já
em sua época, a virtude era substituída pela soberba, pela busca incansável de lucros e pelo
desejo de apenas se obter melhores resultados para si próprio. Na aristocracia, o princípio é a
moderação, uma forma dos próprios detentores do poder político controlar seus próprios
apetites e não esmagar totalmente outros grupos.
Na monarquia, "a política faz com que se produzam as grandes coisas com a mínima
virtude possível” (p. 139). Não é a toa que aqui lembramos de Maquiavel e seu adjetivo
“maquiavélico” e todos seus ensinamentos ao príncipe. A monarquia eficiente deve ser
calculada, como um relógio. O princípio do monarca, de suas instituições e do seu próprio
povo, segundo Montesquieu, é a honra. A ambição, por exemplo, é uma característica útil na
monarquia, faz movimentar a política e, caso ultrapasse o nível do desejado, pode ser
reprimida.
No estado despótico, seu princípio é o temor. Aqui o povo apenas deve se subjugar ao
déspota e, enquanto houver temor a sua figura, esse governo continuará a existir.

3.4 De como as leis que o legislador produz devem ser relativas ao princípio do
governo
Leis devem ser feitas segundo a forma de cada governo. Montesquieu chega a ser
idealizador ao declarar que a grande virtude no estado político é o amor à pátria. Ideal ou não,
não deixa de ser verdade que a ligação com a pátria produziria legisladores melhores.
Na democracia, esse amor deve se exprimir como amor à igualdade. Como todos são
iguais e participantes da democracia, todos deveriam ter as mesmas chances e benefícios. O
legislador deve ter essa igualdade em mente, ao elaborar leis que não só a estabeleçam como a
mantenham. Entretanto, Montesquieu também ressalva que essa igualdade real é muito difícil
de ser obtida - e pode ser, até mesmo prejudicial para a democracia. Ao citar a acumulação de
dinheiro pelos comerciantes da época, Montesquieu parece começar a prever a tremenda
desigualdade social que começa a fomentar com velocidade cada vez maior no capitalismo
nascente. Na aristocracia, por ser um governo já calcado nas diferenças, o autor revela a
importância das leis serem feitas com base na moderação. É citado, por exemplo, que em
Veneza, os nobres são proibidos de serem comerciantes - e assim, poderem aumentar ainda
mais sua riqueza e as diferenças sociais.
Na monarquia, as leis devem se relacionar com a honra, o princípio desse governo. É
importante, por exemplo, manter as propriedades e riqueza entre as famílias nobres, tornando
assim coerente esse tipo de governo e não diminuindo a força dos que estão próximos ao rei.
Outra vantagem da monarquia, segundo Montesquieu, é a centralização do poder, que
possibilita que os negócios aconteçam de maneira mais rápida.
Já no governo despótico, os homens são como animais, amarrados ao príncipe pela força e
pelo medo. Nesse governo, não há a necessidade de muitas leis.

3.5 Da corrupção dos princípios dos três governos


“A corrupção de cada governo começa quase sempre pela dos princípios”, diz
Montesquieu. Portanto, recuperando os princípios ligados a cada tipo de governo, teremos:
• Na democracia, cujo princípio é a virtude, a corrupção aparece quando se perde o
espírito de igualdade ou se assume um espírito de liberdade extrema. O povo perde a
confiança em seus magistrados e legisladores e quer fazer tudo por si próprio. Montesquieu
liga a república a virtude do trabalho. Essa igualdade extrema pode eliminar a força de
trabalho, implementar a preguiça entre as pessoas. Criticamente, Montesquieu institui em
sua ideia de democracia princípios básicos da sociedade capitalista: o trabalho, a
“possibilidade” de igualdade (mesmo que ela não seja nunca alcançada) e a instituição de
diferenças. Já na aristocracia, cujo princípio é a moderação, a corrupção aparece quando o
poder dos nobres se torna arbitrário e aquela virtude dos governos democráticos desaparece;
• Na monarquia, cujo princípio é a honra, a corrupção aparece quando os corpos
intermediários de poder perdem sua importância, caindo assim num despotismo ou de
muitos (quando o povo já não se importa mais com seu príncipe) ou num despotismo de um
só (quando o príncipe concentra todo o poder em si). De uma maneira geral, tanto na
democracia (de todos, na república, ou de alguns, na aristocracia) quanto na monarquia, o
princípio da corrupção é que governantes e governados esqueçam suas leis e comecem a
agir arbitrariamente.
• Já no governo despótico, cujo princípio é o temor, temos um Estado já corrompido por
natureza.
É importante ressaltar que Montesquieu acredita que o tipo de governo esteja relacionado
ao tamanho do território. Assim, a democracia funcionaria bem em territórios pequenos, onde
o controle por todos pudesse ser efetivamente feito já que todos se conhecem e estão
próximos. Seu exemplo são as cidades-estado gregas. A monarquia é o tipo de governo ideal
para territórios medianos, onde o príncipe pode dividir com seus subcomandados parte de seu
poder. Estando estes próximos do príncipe, este ainda mantém controle total. Já impérios
grandes supõem autoridades despóticas para o controle da grande região e para haver decisões
rápidas, mesmo com as grandes distâncias.
Sendo assim, é interessante pensar que os ideais de Montesquieu sobre a divisão de
poderes e o funcionamento das leis estão pensados para um território pequeno - no caso da
democracia. Hoje. a teoria dos três poderes é totalmente colocada em prática no mundo todo,
mesmo que originalmente seu princípio tenha sido elaborado para territórios totalmente
diferentes.
3.6 Das leis que formam a liberdade política em sua relação com a constituição
Primeiramente, a ideia de constituição para Montesquieu não se restringe ao que pensamos
hoje como constituição, uma lei fundamental de um país (geralmente escrita). A constituição,
segundo o pensador, é aquilo que funda o tipo de governo (democracia, monarquia ou
despotismo ou algum tipo de governo misto).
Sendo assim, a liberdade dos cidadãos é diferente em cada uma dessas constituições.
Primeiramente, não há liberdade melhor ou pior. Há vários sentidos para a palavra
‘liberdade’. Geralmente a associamos com a liberdade do povo na democracia, onde cada um
faz mais ou menos aquilo que quer, entretanto, isso é apenas mais um tipo de liberdade. Quem
vive numa monarquia e está feliz com ela pode dizer que vive em ‘liberdade’- uma liberdade
diferente da que existe na democracia, mas ainda assim, uma liberdade.
Para Montesquieu, independente da constituição do Estado, liberdade é “o direito de fazer
tudo o que as leis permitem; e se um cidadão pudesse fazer o que elas proíbem, ele não teria
mais liberdade, porque os outros também teriam esse poder” (p. 172).
Sabendo disso, Montesquieu continua dizendo que todos os Estados tem uma finalidade
específica (além de se manter, que é a finalidade geral de todos os Estados). Há um Estado em
particular que sua própria finalidade é a liberdade política dos cidadãos. Esse Estado é a
Inglaterra e o pensador irá discorrer sobre sua constituição.
Para Montesquieu, a liberdade política da pessoa está intimamente ligada a divisão do
poder do Estado. Segundo ele, “a liberdade política num cidadão é aquela tranquilidade de
espírito que provém da opinião que cada um tem de sua segurança; e para que se tenha essa
liberdade, é preciso que o governo seja tal que um cidadão não possa temer outro cidadão.
Quando se reúne na mesma pessoa, ou no mesmo corpo de magistratura, o poder legislativo e
o executivo, não existe liberdade (…)” (p. 174).
A Inglaterra é o exemplo dessa separação de poderes. Lá é onde ocorre a divisão do poder
do Estado, que contrasta drasticamente com Estados na Turquia e na Itália, por exemplo,
onde, naquele momento, todos os poderes estavam concentrados na figura de uma só pessoa.
Vale ressaltar que muitas das concepções de Montesquieu para a divisão dos poderes soam
muito diferentes do que entendemos hoje pela tripartição. Alguns exemplos: o poder de julgar
deve ser exercido por pessoas do povo, não estando ligados a uma certa categoria nem a uma
certa profissão; “dos três poderes de que falamos, o de julgar é de certo modo nulo” (p. 177);
o tipo de governo ideal ainda é uma monarquia, onde o executivo está na mão de um monarca
e parte do legislativo, nas mãos de um corpo de nobres com cargos hereditários; o poder
legislativo não deve ter o direito de frear o poder executivo. Enfim, Montesquieu escreve para
os seus, os nobres, e para o seu tempo, as monarquias européias do século XVIII. Sua visão
de divisão de poderes se faz numa data muito específica e com casos muito específicos. Parte
do que Montesquieu escreveu não tem paralelos com o que vivemos hoje, em grandes
repúblicas democráticas.
Em todo o caso, sua contribuição para a racionalização das leis e do exercício do poder foi
inestimável para a vida em sociedade e para a humanidade. Mais do que entender como surgiu
essa organização social dos homens, Montesquieu se comprometeu a estudar como manter
essa estrutura da melhor maneira possível e como não se degenerar para uma vida de
despotismo e barbárie entre os homens.