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ANO edição

dez
abr
XXIII 91 2016
Carta ao leitor

O sétimo dia de Pessach – o último dia da festa em circunstâncias em que prefeririam não estar. Algumas são
Israel (na Diáspora, comemora-se um oitavo dia) – obrigadas a viver onde não gostam, outros trabalham em
celebra o milagre da abertura do Mar de Juncos. um ramo que não lhes interessa. Já outras são obrigadas a
A história de como D’us abriu o Mar, permitindo que lidar com pessoas com quem prefeririam não ter contato.
os judeus o atravessassem, e depois o fechou, afogando Há inúmeros exemplos de problemas e obstáculos que
os egípcios, é universalmente conhecida. A abertura do advêm de fontes externas. Mas há também uma outra
Mar foi, possivelmente, um milagre até maior do que forma de escravidão – sútil, mas não menos prejudicial.
as Dez Pragas. Certamente foi mais significativo, pois É a interna. É a escravidão que se manifesta por meio
representou a derrota absoluta do Egito. Foi somente de maus hábitos, vícios e características negativas que
após o episódio no Mar de Juncos que o Povo Judeu limitam o potencial do ser humano e, consequentemente,
finalmente se libertou de seus opressores. sua felicidade.

Nossos Sábios fazem a seguinte pergunta: por que as Dez Muitas pessoas acreditam que seriam verdadeiramente
Pragas não foram o suficiente para garantir a liberdade livres se conseguissem se livrar das formas externas
do Povo Judeu? De fato, por que foi necessário o episódio de escravidão. Elas imaginam que se as Dez Pragas
da abertura do Mar, que ocorreu sete dias após a saída do eliminassem os Faraós de sua vida, tornar-se-iam livres
Egito? Os egípcios já não haviam sido derrotados? e felizes: poderiam finalmente deixar seu Egito pessoal.
A religião idólatra egípcia já não havia sido desmentida? Mas muitas dessas pessoas se surpreendem ao descobrir
O Egito já não havia sido subjugado por D’us? que mesmo após deixarem seu Egito pessoal – após
superarem suas limitações externamente impostas –,
No dia 15 do mês hebraico de Nissan, primeiro dia o Faraó continua a persegui-las. Esse Faraó é a forma
de Pessach, o Faraó implorou a Moshé e Aharon que interna de escravidão: é o Faraó que levávamos
retirassem o Povo Judeu do Egito o mais rápido conosco mesmo após deixarmos o Egito. Para sermos
possível. Após a décima e última praga – a da morte dos verdadeiramente livres, precisamos não apenas libertar-
primogênitos – o Faraó e todo o Egito se encontravam nos de dificuldades e limitações externas, mas também
em estado de pânico. Acreditavam que se não liberassem das internas. Para que isso ocorra, é necessário partir o
os judeus de imediato, todo o Egito seria destruído. Mar de Juncos que existe dentro de nós e penetrar nas
Contudo, logo após libertar os judeus, o Faraó muda profundezas de quem verdadeiramente somos e revelar
de ideia e envia suas forças armadas para capturá-los e o que há de melhor em nossa alma. Essa lição vale tanto
trazê-los de volta. Foi essa tentativa de recapturar os para indivíduos como para o Povo Judeu como um todo.
judeus que levou ao milagre do Mar de Juncos. Assim, Como um grande Sábio judeu ensinou: é mais fácil tirar
a libertação do Povo Judeu ocorreu em duas etapas: os judeus do Egito do que o Egito dos judeus.
primeiro, as Dez Pragas, que resultaram no Êxodo, em
15 de Nissan, e segundo, a abertura do Mar, que ocorreu Pessach é a festa da liberdade. Que este tema e a santidade
uma semana mais tarde – no sétimo dia de Pessach. da festa ajudem cada um de nós a se libertar de todas as
limitações – tanto externas como internas.
Os livros místicos explicam por que as Dez Pragas
não foram o suficiente para garantir a liberdade do Pessach Sameach a todos!
Povo Judeu. A Cabalá explica que há duas formas de
escravidão e, portanto, duas etapas na busca humana pela
liberdade.

A primeira forma de escravidão é aquela imposta por


algum fator externo. Muitas pessoas se encontram em
nossas festas

As quatro facções
diante do Mar
“E Moshé disse ao povo: Não temais! Ficai e vede a salvação que
o Eterno vos fará hoje; porque os egípcios que vedes hoje
não voltareis a vê-los nunca mais! O Eterno lutará por vós, e
vós fiqueis calados! E o Eterno disse a Moshé: Por que clamas
a Mim? Fala aos filhos de Israel para que sigam em frente!”

(Êxodo 14: 13-15)

N
o 7o dia da festa de Pessach, 21 do mês de Um segundo grupo bradou: “Deixem-nos voltar ao
Nissan, celebra-se o milagre da divisão do Egito. Melhor é viver como escravos do que morrer”.
Mar de Juncos. Foi esse evento – e não as Um terceiro grupo disse: “Deixem-nos lutar contra
Dez Pragas – o que assegurou a libertação os egípcios. Se tivermos que morrer, ao menos deixem-
do Povo Judeu da escravidão egípcia. Pois nos morrer lutando”. E, finalmente, um quarto grupo
como nos conta a Torá, como resultado da décima disse: “Deixem-nos orar a D’us. Nada mais podemos
e última praga – a morte de todos os primogênitos fazer”.
egípcios – o Faraó finalmente permitiu que os judeus
deixassem o Egito. Mas ele se arrependeu e enviou seu Moshé, líder do Povo Judeu, agindo de acordo com
poderoso exército para capturá-los e trazê-los de volta a Vontade Divina, rejeitou a abordagem de todos os
ao Egito. quatro grupos. “E Moshé disse ao povo: Não temais!
Ficai e vede a salvação que o Eterno vos fará hoje;
Os judeus deixaram o Egito no 15o dia de Nissan – porque os egípcios que vedes hoje, não voltareis a vê-
primeiro dia de Pessach. Mas logo após sua partida, as los nunca mais! O Eterno lutará por vós, e vós fiqueis
forças armadas egípcias saíram em seu encalço. O Faraó calados! (Êxodo 14:13). “Não temais! Ficai e vede a
estava determinado a capturar os milhões de escravos salvação do Eterno…”, segundo o Midrash, foi a resposta
a quem dera permissão de deixar o país e os trazer de de Moshé àqueles que, no desespero de não vencer
volta ao Egito. Uma semana após o Êxodo, os judeus se a ameaça egípcia, queriam atirar-se ao mar.
viram aprisionados: diante deles, o Mar de Juncos, e por “Os egípcios que vedes hoje, não voltareis a vê-los nunca
trás, os poderosos exércitos do Faraó. mais”, dirigia-se àqueles que defendiam a rendição e o
retorno ao Egito. “O Eterno lutará por vós” foi a resposta
Como reagiram? Conta-nos o Midrash que o Povo àqueles que desejavam combater os egípcios. E “fiqueis
Judeu se dividiu em quatro facções. Um grupo disse: calados” foi a rejeição de Moshé àqueles que disseram,
“Deixem-nos atirar-nos ao mar. Será melhor “Tudo isso está além de nosso controle. Só nos resta
morrer do que voltar à escravidão no Egito”. rezar”.

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REVISTA MORASHÁ i 91

Os Filhos de Israel atravessam o Mar de Juncos em terra seca seguidos pelo Faraó e seus cavaleiros. Hagadá alemã, séc. 15

A festa de Pessach dura sete dias As reações do povo quando se viu facções. O primeiro grupo
na Terra de Israel (oito dias na aprisionado – pelo Mar, de um lado, defendia o suicídio: argumentavam
Diáspora) em virtude do processo e pelo exército egípcio, de outro – é que era melhor afogar-se do que
de libertação que levou uma semana. uma lição para cada um de nós sobre ser morto em batalha ou ser
O êxodo do Egito ocorreu no dia como lidar com os obstáculos e as capturado e levado de volta ao
15 de Nissan, mas os judeus somente adversidades da vida. Apesar dos Egito. O segundo grupo queria
se tornaram realmente livres no milagres que tinham testemunhado permanecer vivo a qualquer preço:
dia 21 do mês, quando um milagre no Egito, não há dúvida de que os nem queriam se afogar nem
duplo ocorreu no Mar de Juncos, judeus tinham boas razões para morrer lutando. O terceiro grupo
Yam Suf, em hebraico: a salvação do temer quando o exército egípcio se defendia o martírio: “Como vamos
Povo Judeu e a destruição de seus aproximava deles. Seria praticamente morrer, de qualquer forma”, diziam,
opressores. impossível cruzar o Mar – ainda “deixem-nos ao menos morrer
que alguns conseguissem salvar- com dignidade”. O quarto grupo
Os quatro campos se, certamente as crianças e os não queria morrer – nem no mar
bebês se afogariam. E se optassem nem em batalha – mas tampouco
A palavra Torá deriva da palavra por enfrentar o exército egípcio, queria voltar ao Egito. Como
hebraica Hora’á, que significa eles provavelmente seriam aparentemente não havia nenhuma
ensinamento. Cada relato na aniquilados. Afinal, não era o Egito solução natural para seu suplício,
Torá é uma lição para cada um a superpotência da época? Escravos eles argumentavam que a única
dos judeus em cada uma das fugitivos não se comparavam às coisa que os judeus podiam fazer era
gerações. Há muito a aprender forças bem equipadas do exército clamar a D’us e esperar que Ele os
da leitura do Midrash sobre a egípcio. salvasse.
divisão do Povo Judeu em
quatro campos diante do Mar de Ao se depararem com a morte, Essas quatro abordagens frente
Juncos. os judeus se dividiram em quatro a uma situação aparentemente

7 abril 2016
nossas festas

impossível ilustram como quase acorrentadas do que correr o risco parte dos outros dois. Para eles, a
todos os seres humanos lidam de se afogar ou morrer no campo ideia de ceder sem lutar – ou pior,
com as adversidades que lhes de batalha. Tais pessoas conciliam, se autodestruir – é absurda.
parecem intransponíveis. Algumas chegam a acordos e se subjugam. As pessoas que pertencem ao
pessoas querem jogar-se ao mar, Elas farão qualquer coisa para evitar terceiro grupo às vezes até gostam
metaforicamente, e, às vezes, até uma briga, mesmo se isso implicar de problemas e obstáculos. Afinal,
literalmente. Elas entram em em abrir mão de sua liberdade, seus é sua chance de exercitar seus
desespero e desesperança. Outras, valores, sua dignidade e crenças mais músculos, de mostrar como são
que D’us os livre, até contemplam o valiosas. poderosas, mesmo que elas, também,
suicídio. No mínimo, retiram-se do tombem em meio à batalha. Seu
mundo como forma de se retirar da Há um terceiro grupo de pessoas lema, como Sansão, é: “Que eu
realidade. que é a antítese do segundo. Essas morra com os filisteus” ( Juízes
adoram uma briga. Vivem para 16:30). “Pode ser que eu tombe”,
Um segundo grupo lida com a brigar. No que lhes diz respeito, argumentam, “mas farei tudo para
adversidade se rendendo à situação. quando surge um obstáculo, este tem que também caiam meus inimigos”.
Essas pessoas se submetem à que ser vencido pela força. Se um “Os exércitos do Faraó podem
situação ou à pessoa que as está inimigo se impõe, este tem de ser mesmo me vencer”, dizem, “mas eles,
ameaçando. E fazem quaisquer derrotado. Diante de um problema, também, sentirão o gosto de sangue
sacrifícios – de fato, até sacrificam sua reação é preparar-se para uma e cairão mortos”.
sua própria liberdade – em troca da luta. Essas pessoas não acreditam
vida. Metaforicamente, preferem no meio-termo, nas negociações e, Há um quarto grupo de pessoas:
continuar escravos do Faraó a ter certamente, na conciliação. aqueles que creem que a oração é a
que enfrentar suas legiões e arriscar resposta para todos os problemas.
sua vida ou sua integridade física. Quem pertence a esse grupo “Como D’us é Onipresente e
Para essas pessoas, é melhor viver geralmente despreza quem faz Onipotente”, raciocinam,

“E naquele mesmo dia, D’us tirou os judeus do Egito”. Iluminura, Seder Hagadah Shel Pessach, Hamburgo, 1730-1750

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REVISTA MORASHÁ i 91

Golden Hagadá, c.1320, Barcelona, ESPANHA. Iluminuras retratando três das Dez Pragas

“Ele pode bem cuidar de todos De fato, como ensina o Talmud, a a Torá nos ensina que
os meus problemas”. Tais pessoas vida é uma gigantesca roda-gigante:
obviamente não pertencem ao a sorte da pessoa pode estar a oração por si só,
primeiro grupo de pessoas, pois embaixo, hoje, mas pode estar no despida de ação,
quem tem uma profunda fé em D’us alto, amanhã. Na verdade, quando
não é a resposta para
não se desespera. Eles também não alguém chega ao fundo do poço,
pertencem ao segundo nem geralmente é sinal de que sua sorte os obstáculos da vida.
ao terceiro grupo, pois não creem está prestes a mudar. A história “Por que clamas a
em submissão nem em confrontação. de Yossef, filho de nosso Patriarca
Somente creem no poder da oração Yaacov, é um exemplo disso: ele, que Mim?”, D’us diz a Moshé.
– em invocar a ajuda do Altíssimo. ficou durante 12 anos nas prisões “Diga ao povo que
egípcias, tornou-se o Vice-Rei
A Torá nos conta que D’us não do Egito – o governador de fato siga em frente!”
aprovou as abordagens de nenhum daquela que era a superpotência da
dos quatro grupos – nem mesmo do época.
quarto grupo. Pelo contrário, D’us
diz a Moshé: “Por que clamas a Mim? A própria história de Pessach nos
Fala aos filhos de Israel, para que sigam ensina que é possível a sorte da
em frente!”. pessoa dar uma reviravolta. Nós, o
Povo Judeu, que fomos um povo
Isolamento, submissão escravo e oprimido, sujeito a torturas
e confrontação e genocídio, fomos libertados pela
Mão de D’us, que nos tirou do Egito
Não é difícil entender por que a Torá e nos levou ao Monte Sinai, onde
rejeita a abordagem que diz que a Ele nos escolheu como Seu povo e
maneira de lidar com os obstáculos nos deu a Sua Torá. Yossef se tornou
é se atirar ao mar. O ser humano Vice-Rei do Egito porque ele não
nunca deve ceder ao desespero. se desesperou na prisão egípcia. Os
Enquanto estivermos vivos, sempre judeus se tornaram o Povo Eleito
haverá esperança. Acreditar em D’us porque não se assimilaram, apesar
significa acreditar que Ele tudo de todo o sofrimento que nos foi
pode, inclusive arrancar alguém imposto nas centenas de anos em
Representação do Faraó Ramses III,
da mais difícil das situações. que vivemos no Egito. Vale dos Reis, antiga Tebas

9 abril 2016
nossas festas

A Torá condena todas as formas de significaria desistir – por inércia Mas muitas pessoas querem
autodestruição – física, espiritual, ou medo. Significaria escolher a lutar apenas porque anseiam
psicológica, emocional, social, sobrevivência em vez de escolher pela confrontação e guerra.
econômica ou cultural. Obviamente, uma vida plena e livre. Significaria Tais pessoas, especialmente se
há várias formas de “se atirar ao não assumir os riscos da vida. Os estiverem convencidas de que estão
mar”. Algumas pessoas, incapazes judeus que apoiaram a ideia de absolutamente certas e que D’us está
de lidar com o mundo, atiram-se em voltar ao Egito preferiam viver a seu lado, lutarão incansavelmente
um mar de vida religiosa. Essa é sua como escravos a lutar e arriscar sua contra qualquer pessoa ou coisa que
maneira de cortar todo o contato vida. Para eles, a única coisa que julguem estar em seu caminho.
com um mundo que lhes parece importava era continuarem vivos.
negativo ou desagradável. A Torá Com certeza, às vezes precisamos
não tolera esse comportamento, Essa atitude de submissão – de lutar. Se o Holocausto nos ensinou
ensinando-nos que o judeu deve ser ceder, de conciliar – se aplica tanto algum tipo de lição, foi que não
proativo no mundo. Se D’us quisesse a indivíduos quanto a grupos podemos silenciar e permanecer
que todos os judeus se trancassem de pessoas. Muitos indivíduos e indefesos. As grandes conquistas
dentro de uma sinagoga ou Casa de minorias costumam sacrificar sua e vitórias militares do Estado de
Estudos, sem nunca de lá sair, Ele identidade, seus valores e mesmo Israel proporcionaram segurança
não teria enviado suas almas à Terra. sua dignidade, apenas para preservar e orgulho aos judeus, em todas as
Se estamos aqui neste mundo, há a vida. A sobrevivência física vem partes do mundo. Contudo, há
um propósito nisso. Ser um reino de às custas de todo o resto. Pessoas uma diferença enorme entre lutar
sacerdotes e uma nação santificada submissas toleram e apaziguam os porque não há outra saída e lutar
significa envolver-se no mundo e faraós do mundo. Elas suportam pelo prazer de lutar. A luta pela
ter uma influência positiva sobre o opressão, brutalidade e injustiça preservação da vida, da liberdade e
mesmo. A Torá não deseja que nos porque têm medo de confrontar um da dignidade está sancionada pela
afastemos da escuridão, mas sim, inimigo a quem julgam ser muito Torá. A luta pela emoção da luta,
que iluminemos o mundo. mais forte do que elas. Seu lema é: pela glória ou como um canal para o
De fato, podemos e devemos nadar Melhor viver como escravos do que ódio é o anátema do judaísmo.
no “mar do Talmud”. Mas o que morrer como homens livres.
não podemos fazer é afogar-nos Como ensinam nossos Sábios, o
nele. Com raríssimas exceções, o Os judeus que pertenciam ao terceiro propósito da Torá é trazer paz ao
Povo Judeu não se pode imergir grupo – aqueles que desejavam mundo. Somente empunhamos as
totalmente no estudo da Torá e enfrentar os egípcios no campo armas quando necessário. Como
negligenciar o mundo, porque isto de batalha – podem parecer mais disse, certa vez, um de nossos
também é uma forma de suicídio. honrados do que os outros dois. Mas grandes Mestres, a missão do Povo
Muitas pessoas, temerosas, ou que lutar geralmente não é a abordagem Judeu é trazer luz ao mundo. Se o
não desejam enfrentar as “legiões correta face aos obstáculos e Povo Judeu apenas se dedicasse a
do Farão”, atiram-se ao mar, e, inimigos. A beligerância não é uma combater seus inimigos – vingando-
consequentemente, deixam de panaceia: não é a resposta a todos se daqueles que nos fizeram mal ou
contribuir para o Povo Judeu e o os problemas da vida. Mas há quem estivesse constantemente em batalha
mundo, em geral. adore uma boa briga. Essas pessoas contra os que nos odeiam ou a nós se
querem lutar com todos e com tudo: opõem – nosso povo não teria tempo
A Torá também condena a todos os inimigos – imaginários ou para nada mais. Nós, judeus, quer
abordagem do segundo grupo de reais, todas as ameaças e mesmo individual quer coletivamente, temos
judeus diante do Mar – aquela que qualquer ideia ou ideologia que eles importantes tarefas a cumprir neste
defendia que o povo devia voltar ao desaprovem. Geralmente, a bravata mundo. Não poderemos realizar
Egito. D’us criou o homem para ser dessa gente nos deslumbra. Nós nossa missão se estivermos ocupados
livre. O próprio tema de Pessach é os julgamos valentes e fortes. Os lutando contra todos aqueles que nos
o fato de termos sido escravos, mas judeus foram pisoteados pelo mundo odeiam.
quando D’us nos libertou, nós nos durante tanto tempo que muitos
tornamos Seus servos apenas – e de nós se deslumbram com aqueles A Torá não tolera a abordagem de
de mais ninguém. Voltar ao Egito que enfrentam nossos inimigos. atirar-se ao mar ou de voltar ao

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Egito ou, ainda, de lutar contra os


egípcios. Mas, por que também
rejeita a abordagem do quarto grupo
de judeus – cuja solução ao terrível
dilema foi voltar-se à oração? Não
deveria ser essa a recomendação da
Torá? Como a Torá é a Vontade e
a Sabedoria Divina, sua mensagem
a todos os seres humanos seria que
se alguém tem um problema, esse
alguém deve encaminhá-lo a D’us,
especialmente se for humanamente
impossível solucioná-lo. Por que
teria D’us rejeitado a abordagem até
mesmo da quarta facção, diante do
Mar de Juncos?

Oração e ação

A Torá ordena ao judeu orar todos


os dias de sua vida. A oração
tem importância fundamental
no judaísmo. Ensina o Talmud
que a oração é uma das coisas de
importância máxima no mundo que,
no entanto, as pessoas não levam
a sério. As rezas são o canal pelo
qual o homem canaliza as bênçãos
Divinas para o mundo. Mas, ainda
assim, não substituem a ação.
A oração ajuda em todas as Hagadá de Raban, 1925. Israel. Aquarela e pena, e tinta colorida sobre papel.
situações, mas o homem tem de Coleção da Família Schlesinger, Tel Aviv
se empenhar para aperfeiçoar a si
próprio e ao mundo. Não podemos são destruídos sem a necessidade ocasiões especiais – ela nos ensina
recusar-nos a tomar um remédio de guerrearmos. Mas, tudo isso que a oração por si só, despida
e deixar tudo por conta da oração, são exceções. Nós não somos nem de ação, não é a resposta para os
esperando a cura. Não podemos profetas nem grandes Tzadikim. obstáculos da vida. “Por que clamas a
recusar-nos a ir ao trabalho e confiar Tomamos remédios quando estamos Mim?”, D’us diz a Moshé. “Diga ao
na oração para ter o sustento. Não enfermos, trabalhamos e, quando povo que siga em frente!”
podemos recusar-nos a ir para necessário, pegamos em armas, e
o campo de batalha e confiar na oramos para que os medicamentos “Como podemos seguir em frente?”,
oração para que D’us aniquile nossos façam efeito, para que tenhamos o povo pergunta. “Sigam em frente”,
inimigos. sucesso em nossos empreendimentos D’us lhes diz. “Façam a sua parte e
e que saiamos vitoriosos da guerra. eu farei a Minha”. O Povo Judeu de
É verdade que às vezes tais milagres fato seguiu em frente e o obstáculo
ocorrem. Às vezes, as pessoas são A oração ajuda imensamente, mas se tornou um milagre – na verdade,
curadas, por milagre. Quando os com raras exceções, não substitui o um milagre duplo: pois não apenas
judeus estavam no deserto, o maná empenho humano. E como a Torá o Mar se partiu, salvando os judeus,
realmente caía dos céus. E como foi escrita para todos os judeus – não mas também voltou a seu estado
nos ensina o Tanach, às vezes, em apenas para os profetas – e para natural após o último judeu tê-lo
resposta à oração, nossos inimigos todas as épocas – não apenas para atravessado, afogando todos os

11 abril 2016
nossas festas

Hagadá de Charlotte von Rothschild . Hagadá de Pessach, com tradução ao alemão (Frankfurt), copiada por
Eliezer Sussman Mezeritsch, decorada por Charlotte von Rothschild, 1842

egípcios, que ainda estavam em seu judeus se atiraram ao mar, outros pedir pela vinda do Mashiach.
interior. O obstáculo – o Mar de “voltaram ao Egito”, outros, ainda, No entanto, ao longo de nossa
Juncos, Yam Suf – acabou revelando- decidiram que a solução para lidar história, e especialmente após o
se um milagre que salvou nosso povo com um mundo hostil era a luta, Holocausto, nós, o Povo Judeu,
de nossos inimigos, garantindo sua e outros concluíram que tudo que decidimos seguir em frente.
liberdade. podiam fazer era orar e esperar Retornamos à nossa pátria ancestral.
pelo melhor. Mas a melhor Erguemos um país extraordinário.
Esta história é verdadeira e vem abordagem tem sido a que é E tanto em Israel quanto na
sendo contada há milhares de anos, recomendada pela Torá: seguir em Diáspora,trabalhamos para fortalecer
geração após geração, e inspirou frente. Apesar de todos os nossos o Judaísmo como nunca dantes.
inúmeras pessoas – judeus e não inimigos e de todo o sofrimento
judeus. e perseguição, e mesmo apesar do A ordem Divina de seguir em frente
Holocausto, o Povo Judeu seguiu se aplica ao Povo Judeu como um
“Sigam em frente” em frente. Na esteira das grandes todo, e também a cada judeu em
tragédias, seria compreensível se os particular e a cada ser humano.
O tema principal de Pessach é a judeus tivessem cometido suicídio Precisamos constantemente seguir
liberdade, que, para o Povo Judeu, nacional – abandonando o judaísmo em frente, mesmo diante de um
adveio em estágios. Primeiro vieram – ou “voltado ao Egito” – através da Mar de Juncos, de nosso Yam Suf
as Dez Pragas, a seguir o Êxodo e, assimilação. Teria sido compreensível particular. E quando seguimos em
por fim, o milagre da divisão do Mar se o Povo Judeu se tivesse dedicado frente, os obstáculos não apenas se
de Juncos. Esses relatos e as lições inteiramente a se vingar contra desfazem – eles se transformam em
que deles tiramos são atemporais e todos os responsáveis pelo milagres.
universais. Holocausto. Os judeus poderiam
ter permanecido na Europa e
No decorrer de nossa vida, recorrido à violência e terrorismo
enfrentamos obstáculos – externos e para vingar o sangue de sete milhões BIBLIOGRAFIA
internos. Ao longo de nossa história, de seus filhos. Ou poderiam ter Rabi Schneerson, Menachem Mendel,
nós, judeus, enfrentamos muitos concluído que como somos um Likkutei Sichot volume 3
faraós, muitas legiões egípcias e povo pequeno, não há nada a Rabi Schneerson, Menachem Mendel
muitos Mares de Juncos. Alguns fazer além de rezar nas sinagogas e Sichot Kodesh 5740 vol. 2

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NOSSAS FESTAS

Lag BaOmer e o
Rabi Shimon Bar Yochai
Lag BaOmer, o 33º dia da contagem do Omer, é um dos dias mais
festivos no calendário judaico. É uma festa especialmente
popular em Israel. O país se enche de fogueiras. Essa data é
celebrada com excursões e outros eventos alegres e quase
meio milhão de pessoas visitam o túmulo – em Meron, no norte
de Israel – do grande Sábio e místico, o Rabi Shimon bar Yochai
– cujo aniversário de falecimento é justamente nesse dia.

L
ag BaOmer não é um Yom Tov – Nos textos judaicos, Lag Baomer é chamado de
um dia de festa religiosa – mas é um “Dia da Hilulá” de Rabi Shimon bar Yochai.
dos mais alegres do ano. No 33º dia A palavra “Hilulá” é aramaico e significa festa ou
do Omer, suspendem-se as práticas tristes de festa de casamento. Em geral, quando uma fonte
Sefirat HaOmer e há várias tradições sobre a judaica menciona a Hilulá de Rabi Shimon, está-se
maneira de celebrar o dia. Por exemplo, referindo à celebração feita em sua homenagem
na tradição sefaradita, faz-se um leilão público em que quando ele se casou, em sua juventude. Mas quando
se acendem velas em honra ao Rabi Shimon bar Yochai um livro sagrado judaico ensina que Lag BaOmer
e a outros grandes Sábios. Na Europa Oriental, é o “Dia da Hilulá de Rabi Shimon bar Yochai”,
o costume prevalente era fazer arcos e flechas para não quer dizer que esse dia era o de seu casamento,
as crianças, com os quais elas brincavam nas florestas. mas a data de sua morte. A mesma palavra, Hilulá, usada
Em Lag BaOmer, muitos judeus que vivem na para se referir ao casamento de Rabi Shimon também é
Diáspora ou em Israel, mas que não podem viajar a usada para o seu passamento deste para o outro mundo.
Meron, acendem uma fogueira ou, no mínimo, velas, em
homenagem ao grande Sábio, Rabi Shimon. A associação do termo Hilulá com o dia da morte
de alguém é intrigante. Afinal, ao longo das gerações,
Lag Baomer é mencionado em vários lugares da a data do falecimento de uma pessoa era guardada
literatura judaica, mas seu significado permanece pela família e filhos como um dia triste
meio que envolto em mistério. Uma tradição conta que – um dia de reflexão e expiação. Muitas pessoas
no 33º dia do Omer, uma praga cessou de afligir costumavam jejuar na data de falecimento de seus pais
os alunos de Rabi Akiva – mestre de Rabi Shimon. e mestres. Contudo, ao longo do tempo, a associação
Outras fontes nos contam que essa é a data do termo “Hilulá” com a data de falecimento de
do falecimento de Rabi Shimon bar Yochai e que todas Rabi Shimon se tornou tão aceita que a data de
as celebrações realizadas nesse dia se devem a esse falecimento de outras pessoas também passou a ser
motivo. designada pelo termo “Hilulá”.

13 abril 2016
nossas festas

Como é possível que o mesmo termo usado para o


casamento de uma pessoa – que se supõe ser um dos dias
mais felizes de sua vida – possa ser usado para se referir
a seu passamento deste mundo? Pode-se encontrar uma
explicação em um dos discursos do Rabi Shneur Zalman
de Liadi, autor do Tanya. O Baal HaTanya explica que o
principal tema de um casamento é a alegria da noiva e do
noivo, que advém da união de dois indivíduos que foram
destinados um ao outro ainda antes de terem nascido,
mas que estiveram separados durante muitos anos. Antes
que suas almas viessem a este mundo, eles se conheciam
e tinham um relacionamento, que foi cortado após seu
nascimento. Pois, como nasceram de pais diferentes,
que talvez até vivessem em países diferentes, em muitos
casos levou décadas até que essas almas voltassem a se
encontrar. A grande alegria de sua reunião, após anos de
separação, de saudade e nostalgia, é a fonte do júbilo de
um casamento.

De modo semelhante, quando uma alma desce a este


mundo, ela se separa de todas as almas que estavam
juntas a ela no Jardim do Éden.

Enquanto ela permanecer neste mundo, essas almas


sentem sua falta. Quando ela deixa este mundo e retorna

meron - túmulo do rabi shimon

14
calendário para
contagem do
omer atribuído
a eliezer sussman,
alemanha, meados
séc. 18. têmpera
sobre papel

a seu lar original, Gan Eden, essas Seu falecimento foi um tipo de Fogueiras para Rabi
almas celebram e se rejubilam com casamento: quando ele deixou este Shimon bar Yochai
essa reunião. O júbilo por essa volta mundo, ele se reuniu com as almas
e essa reunião nos Céus é tão grande que se encontram nas maiores alturas A prática de se acender fogueiras e
que supera a tristeza das pessoas dos Céus – aquelas que sentiram sua velas em Lag BaOmer advém de um
em nosso mundo quando de seu ausência e ansiavam por ele durante antigo costume – que perdura até o
falecimento. As pessoas que aqui os anos em que ele viveu neste nosso dia de hoje – o de se acender uma
ficam devem tentar – por mais difícil mundo físico. grande fogueira próximo ao túmulo
que seja – vencer sua tristeza de Rabi Shimon bar Yochai, em
e entender que a alma que deixou Meron. Como mencionamos acima,
este mundo está feliz de ter chegado quase meio milhão de pessoas viajam
a um lugar mais feliz. Um texto a Meron nessa data.
antigo recorda um elogio fúnebre
da época talmúdica: “Chore pelos O costume de se acender a fogueira
enlutados, mas não por quem para Rabi Shimon é, provavelmente,
parte; pois ele partiu para o descanso, remanescente de um costume
e nós, para o lamento”. observado à época do Primeiro e
do Segundo Templos de Jerusalém.
Rabi Shimon bar Yochai pediu Quando morria um rei, o povo
que as pessoas não chorassem fazia uma fogueira imensa, na qual
sua partida, mas se rejubilassem atiravam artigos pertencentes ao
pela subida de sua alma. Por esse monarca falecido. Era uma forma
motivo, a data de sua morte – Lag ilustração de
de lamentação, mas também uma
BaOmer – é chamada de sua “Hilulá”. Rabi Shimon bar Yochai expressão de solenidade, que

15 abril 2016
nossas festas

transmitia a majestade da realeza. exotéricas e esotéricas da Torá. Tel Aviv o fazem, ainda que muitas
A maior expressão de desonra para O Talmud ensina que se houve no delas pouco saibam sobre Rabi
um rei morto seria não se acender mundo um verdadeiro Tzadik, este Shimon. Mas não importa o quanto
fogueira quando de seu falecimento. foi o Rabi Shimon. Também nos se saiba sobre esse grande Sábio e
ensina que, por meio de seus atos e místico de Israel. Todos que acendem
Essa prática persistiu por muitos méritos, ele podia expiar todos os fogueiras ou velas em Lag BaOmer
séculos, mesmo quando já não havia pecados de Israel desde a criação do prestam-lhe homenagem. Rabi
reis judeus. O tratado talmúdico mundo até os dias em que ele viveu. Shimon bar Yochai continua um
Semachot (Avel Rabati) narra a mistério, uma lenda. Ele redefiniu
seguinte história: “Quando faleceu Nossos Sábios o comparam a Moshé nossa percepção sobre a morte.
Raban Gamliel, o Ancião, Rabeinu. De fato, alguns trabalhos E continua sendo um dos Sábios
Onkelos queimou por ele mais místicos alegam que Rabi Shimon mais reverenciados em toda a nossa
de 80 minas (uma enorme soma). era a reencarnação de Moshé. Como História. Foi um dos maiores alunos
Perguntaram-lhe: ‘Qual o propósito ele era “rei”, de estatura igual a de Rabi Akiva, um dos pilares do
de seu gesto? Ao que ele respondeu: qualquer outro rei, é mais do que Talmud e se tornou especialmente
‘Pois que está escrito: Hás de morrer justo que se acendam fogueiras famoso por ser o “pai” da Cabalá.
em paz; e assim como faziam lichvodó, em sua honra, como o Povo É mais do que justo iluminar ao
fogueiras para teus antepassados, Judeu fazia no passado pelos reis que máximo com muitas fogueiras
os reis que reinaram antes de ti, faleciam. E como ele mesmo via a e velas o dia de Lag BaOmer, pois
assim também queimarão para ti... sua partida deste mundo como uma Rabi Shimon bar Yochai foi um
( Jeremias 34:5). E não tem mais libertação e uma redenção – como homem que personificou o fogo da
valor Raban Gamliel do que cem uma forma de casamento – outros Torá e que iluminou o mundo com
reis inúteis?” também compartilham esta alegria e sua Luz Infinita.
celebram o dia de sua “Hilulá”, que
Rabi Shimon bar Yochai, um dos ocorre em Lag BaOmer.
pilares do Talmud e autor do Zohar,
BIBLIOGRAFIA
obra que é a base da Cabalá, foi Como já dissemos, nesta data
Rabi Steinsaltz, Adin (Even Israel),
um dos maiores Sábios de todos os acendem-se fogueiras em Israel e Lag Baomer Change and Renewal,
tempos – um gigante das facetas na Diáspora. Até as crianças em Maggid Books

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SHOÁ

A MISSÃO DE um
judeu em nuremberg
POR ZEVI GHIVELDER

Em junho de 1945, um mês depois do fim da Segunda Guerra Mundial,


o soldado raso americano Richard Sonnenfeldt, de 22 anos,
prestava serviço na Áustria, engajado no Sétimo Batalhão do
Exército Aliado. Certa manhã foi convocado por um tenente
que lhe disse: “Apronte-se, praça, o general quer Falar consigo”.
A partir daquele momento, o jovem combatente judeu, nascido
na Alemanha, saiu do anonimato para ter seu nome inscrito na
história COMO O PRINCIPAL INTÉRPRETE DO tribunal DE NUREMBERG.

O
rapaz foi ao encontro do famoso general cidade que pouco antes do fim do conflito foi palco de
William “Bill” Donovan, que, depois de um massacre perpetrado pelas tropas SS contra mais
sucessivos êxitos nos campos de batalha, de mil estrangeiros submetidos a trabalhos escravos.
era o diretor da OSS (Sigla correspondente Quando o pequeno Richard completou quinze anos
ao Departamento de Serviços Estratégicos, de idade, embora as leis antissemitas do Reich se
antecessor da CIA). Sonnenfeldt escreveu em suas avolumassem, a mãe decidiu mandá-lo, junto com o
memórias: “Eu imaginava o mítico Bill assim como uma irmão menor, Helmut, para Berlim, para que, como
espécie de John Wayne, com medalhas no peito e revólver disse, “pudessem viver o clima de uma cidade grande”.
na cintura. No entanto, deparei-me com uma pessoa de Mas, a capital alemã seria apenas um pouso, porque
cabelos grisalhos, afável, simples, que me perguntou se eu quando a guerra começou, a mãe contatou um parente
falava alemão e se eu seria capaz de me desincumbir como na Inglaterra e pediu-lhe que acolhesse os dois filhos.
intérprete. Respondi que o alemão era meu idioma nativo. Em Londres, ambos foram matriculados num internato,
Deu-me, então, um documento em alemão e me mandou onde Richard se tornou fluente no idioma inglês.
traduzir. Quando terminei, disse que eu era o melhor Entretanto, sua vida pacata sofreu um revés. Em 1940,
de todos que até então tinha entrevistado”. Em seguida, quando a Inglaterra rompeu relações e entrou na guerra
Sonnenfeldt foi encaminhado a um coronel chamado contra a Alemanha, ele acabara de completar dezesseis
Hinkel, que foi direto ao ponto: “Você gostaria de anos. Por isso, de acordo com as leis britânicas, passou
trabalhar para a OSS?” Poucos dias depois, acompanhado a ser considerado um “inimigo estrangeiro”. Portanto,
pelo dito coronel, estava a bordo de um avião rumo a devia ser expulso do país. Revoltado e destacando sua
Paris. Durante a viagem, ficou surpreso com as próprias condição de judeu, escreveu cartas para o primeiro-
contas que fez: eram decorridos apenas sete anos desde ministro Churchill e para o Rei George VI pedindo que
que deixara a Alemanha para escapar do nazismo. fosse reconsiderado seu mandado de expulsão. Inclusive
acrescentou que, assim como os ingleses, seu desejo
Heinz Wolfgang Richard Sonnenfeldt nasceu em 1923 era lutar contra o nazismo. Não adiantou e o rapaz
na pequena localidade alemã de Gardelgen, Saxônia, foi deportado para a Austrália. Enquanto isso, o casal

17 abril 2016
SHOÁ

Sonnenfeldt conseguiu custosos África do Sul, tendo como roteiro a da rua Pressbourg, perto do Arco
vistos para sair da Alemanha, via Jamaica, Trinidad-Tobago e, por fim, do Triunfo, que seria seu local de
Suécia, junto com o filho Helmut. Nova York. serviço durante os meses seguintes.
Rumaram para Baltimore, nos Sua tarefa consistia em analisar
Estados Unidos, após obterem a Nos Estados Unidos, em 1942, pilhas e mais pilhas de documentos
indispensável carta de chamada Sonnenfeldt pretendeu alistar-se no escritos em alemão e assinalar as
emitida por uma família americana exército, mas foi recusado por não passagens que julgasse importantes
que vagamente conheciam. ser cidadão americano. Entretanto, para serem usadas no futuro tribunal
foi convocado em novembro do de crimes de guerra. Além disso, em
Richard Sonnenfeldt ficou pouco ano seguinte e mandado para um face dos documentos apreendidos,
tempo na Austrália. Decidiu viajar centro de treinamento em Fort ele deveria apontar quais os nazistas
para a Índia e se fixou na cidade Meade. Dali seguiu para outro passíveis de serem levados a
de Bombaim (atual Mumbai). Ali, centro de treinamento na Flórida. julgamento, tendo encontrado mais
conforme escreve em suas memórias, Para encurtar a história, Richard de 800 nomes. Os soviéticos davam
viveu um tempo feliz, sobretudo por estava engajado em definitivo como preferência a Berlim para a sede
ter feito amizade com uma família soldado raso no exército americano do tribunal que seria instalado. Isto
Parsi, oriunda da Pérsia, seguidora em ação na Europa. Participou da provocou discussões acaloradas com
da doutrina de Zoroastro, e com feroz Batalha das Ardenas e, mais os russos. Um dia, já impaciente,
um grupo de jovens judeus alemães tarde, foi um dos primeiros militares Robert Jackson, promotor-chefe dos
que também tinham emigrado que libertaram o campo Estados Unidos, explodiu: “Então
para aquelas paragens. Certo dia, de concentração de Dachau. vocês julgam os seus criminosos
como nada tinha a perder, dirigiu- A imagem de cadáveres empilhados em Berlim e nós julgaremos os
se ao Consulado americano. Ele e de pessoas esqueléticas e famintas nossos aonde decidirmos!”
conta que quando entrou naquele nunca mais lhe saiu da memória. A escolha acabou sendo a cidade de
prédio, viu uma pequena placa onde Nuremberg porque ali se encontrava
se lia: Air Conditioned by Carrier. Voltemos a seu voo para Paris. quase intacto o Palácio da Justiça,
Ficou maravilhado. Nunca tinha Depois de descer no aeroporto capaz de ser reformado a tempo do
visto na vida um aparelho de ar de Le Bourget, foi conduzido início dos julgamentos e também
condicionado. Foi recebido pelo para uma mansão no número 7 porque a cidade havia sido o local de
simpático vice-cônsul Wallace La sucessivas demonstrações do partido
Rue que lhe informou que, naquele nazista. No final de julho de 1945,
então, ainda havia cotas disponíveis a equipe de promotores americanos,
para imigrantes alemães e pediu-lhe incluindo Sonnenfeldt, embarcou
uma certidão de nascimento. Richard num voo de Paris para Nuremberg.
não tinha, mas enfatizou que seus
pais já estavam em Baltimore a Richard jamais se esqueceu de
chamado de uma família de nome ter avistado do alto o estádio da
Lansbury. Por incrível coincidência, cidade, cenário das monumentais
o diplomata, que era de Baltimore, manifestações empreendidas por
conhecia os Lansbury e, após Hitler e seus comparsas. Também do
algumas formalidades burocráticas, alto ele pôde observar que a cidade
concedeu-lhe o visto. Richard estava quase toda destruída. Em
pensou em embarcar num navio solo, viu centenas de alemães que
que faria escala em Yokohama, no vagavam pelo pouco que restava das
Japão, e dali navegaria para a costa ruas, em andrajos, e sem quaisquer
oeste dos Estados Unidos. Porém, a expressões em suas fisionomias. Do
perspectiva de parar no Japão não o jipe aberto, jogou fora o cigarro que
entusiasmou. Já pairava a perspectiva acabara de fumar e logo viu um
de os japoneses entrarem em guerra bando de mulheres correndo para
contra os americanos. Embarcou disputar o resto do cigarro, para elas
em outro navio que fez escala na Richard Sonnenfeldt uma preciosidade.

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Julgamento de Nuremberg: Tribunal Militar Internacional que, representando as Nações Aliadas, julgou líderes nazistas
por conspiração de guerra, crimes de guerra e crimes contra a Humanidade

Sonnenfeldt foi acomodado numa era um coronel chamado Amen, Hitler não sabia sobre os campos
instalação provisória onde se que, conforme o protocolo, ordenou de concentração e nem sobre os
encontravam as celas destinadas que Richard fizesse um juramento extermínios. Quanto a mim, embora
aos futuros interrogatórios e foi segundo o qual traduziria fielmente algo chegasse aos meus ouvidos,
encaminhado para um escritório as perguntas e respostas a serem passei toda a guerra como principal
exclusivo. Escreveu: “Incrível! feitas do inglês para o alemão e do assessor de Hitler. Era um militar
Eu tinha apenas 23 anos de idade alemão para o inglês. muito ocupado e muito importante.
e era mais jovem do que a maioria Duas pessoas sabiam de tudo:
das secretárias ali em serviço”. Sua primeira intervenção: “Por favor, Himmler e Bormann. Um morreu
Ele soube que seu primeiro identifique-se”. Resposta: “Meu e outro desapareceu”. O coronel
trabalho como intérprete seria no nome é Herman Goering, marechal Amen fez uma pergunta que o
interrogatório do marechal Goering, do Terceiro Reich”. Em seguida, o deixou sem resposta: “Se você era
braço direito de Hitler quase intérprete dirigiu-se ao prisioneiro: tão próximo de Hitler como sabia
até o fim do conflito. Ficou “Herr Gering!...” O marechal de algo e esse algo nunca chegou ao
impressionado quando este ficou objetou: “Meu nome é Goering e conhecimento do Fuhrer?”
à sua frente. Vestia um uniforme não Gering”. Sonnenfeldt
de cor cinza do qual haviam sido havia distorcido o sobrenome O general Bill Donovan fazia
retiradas as insígnias militares. de propósito porque o vocábulo questão de que Goering confessasse
Exibia uma face amassada e alemão gering tem a tradução os crimes de guerra do nazismo, mas
enrugada e um olhar esgazeado, aproximada de “coisinha”. Num o acusado permanecia inamovível
consequência dos quarentas interrogatório subsequente, Goering nesse sentido. O general pediu-me
comprimidos que ingeria por dia, fez de tudo para eximir-se de culpa, que lhe perguntasse se era verdade
destinados a substituir seu vício pela declarando: “Muitas coisas foram que ele tinha mandado matar os
morfina. Vestia botas fornecidas pelo feitas usando meu nome e sobre as aviadores americanos e ingleses
exército americano. O inquisidor quais eu não tenho a menor ideia. que tivessem sido obrigados a

19 abril 2016
SHOÁ

saltar sobre o território alemão. os demais intérpretes lotados em


Goering respondeu: “Eu não admito Nuremberg. Mas, como seu status
isso”. Richard traduziu: “Eu não militar era nada expressivo, foi
concordo com isso”. Donovan, exonerado do exército e, no mesmo
que tinha algum conhecimento do ato, contratado como civil a serviço
idioma alemão, chamou a atenção das forças armadas dos Estados
do intérprete: “Você traduziu Unidos com salário equivalente
errado. Ele disse que não admite ao de um coronel. Dessa maneira,
isso”. Temeroso, por ser apenas um poderia se relacionar com mais
soldado raso, Richard argumentou desenvoltura com os oficiais
que no sentido da frase, o verbo superiores.
concordar era mais preciso do que
o verbo admitir. Com um sorriso No dia 19 de outubro de 1945,
irônico,
1
e para fustigar o intérprete, Sonnenfeldt foi convocado para
prisão de nuremberg
Goering falou em inglês; apresentar-se no escritório de
“O que eu disse, foi: eu não admito um dos principais promotores
isso”. A propósito desse tipo de era verdade que ele havia proibido a americanos, o coronel Williams.
controvérsia, Sonnenfeldt escreveu concessão de passaportes e de vistos Para sua surpresa, deu de cara com
em suas memórias: “Um trabalho de de saída para judeus da Alemanha. mais de uma dezena de oficiais de
intérprete de alta qualidade não era Antes que Ribbentrop pudesse alta patente num ambiente solene.
uma coisa automática. Na verdade, ouvir a tradução, Richard passou
a ida e volta das perguntas e uma nota por escrito para Jackson: O coronel ordenou que fizesse
respostas beneficiavam os acusados “O responsável por isso era Himmler um novo juramento de lealdade.
porque enquanto se processavam e não ele”. Assim evitou que Jackson A partir daquele momento, o
as traduções, eles tinham tempo deixasse registrada uma pergunta civil Richard Sonnenfeldt estava
para pensar nas respostas”. Em outra impertinente. enquadrado na equipe da promotoria
ocasião, o próprio Jackson americana que atuaria no Tribunal
interrogou Joachim von Ribbentrop, No curso dos interrogatórios de Nuremberg. Nessa função,
que servira como ministro das preliminares, antes do início dos competiu-lhe percorrer as celas
relações exteriores do Terceiro Reich. julgamentos, Richard Sonnenfeldt dos prisioneiros, chamá-los um por
O promotor-chefe perguntou-lhe se foi incumbido de chefiar todos um e ler para todos as acusações
que lhes competiam. O texto
comum era o seguinte: “Pesa-lhe
a acusação de ter cometido crimes
contra a paz, crimes de guerra,
conspiração para violências, crimes
contra a humanidade e genocídio”.
Goering foi o primeiro. Antes
que Sonnenfeldt lesse a acusação,
Goering atalhou: “Acho que vou
precisar mais de um bom intérprete
do que de um bom advogado”.
Assim queria dizer que faria sua
própria defesa. Hjalmar Shacht,
ministro da economia do Reich,
ouviu a acusação com indiferença
e murmurou: “Não sou culpado de
nada”. (Mais tarde foi absolvido
pelo Tribunal). O marechal Keitel,
Sonnenfeldt (à esq.) no interrogatório do ex-vice de Hitler, Rudolf Hess (à dir.).
chefe do estado-maior alemão,
Setembro, 1945 ouviu a acusação em posição ereta

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REVISTA MORASHÁ i 91

sem esboçar nenhuma reação. Mas


Sonnenfeldt percebeu que a artéria
de sua carótida latejava. Na equipe
da promotoria, Richard manteve
contato com três grandes advogados,
todos judeus e que falavam em
ídiche entre si: os americanos Jacob
Robinson e Raphael Lemkin e o
inglês Sir Richard Lauterpacht,
professor da Universidade de
Cambridge.

Sir Lauterpacht, até hoje considerado


uma das maiores autoridades do Goering falando com Baldur von Schirach no banco dos réus do Tribunal
mundo em matéria de Direito de Nuremberg

Internacional, nasceu no seio de


uma família ortodoxa na cidade de posteridade a palavra genocídio. uniforme de Himmler e duas páginas
Zolkiev, perto de Lvov, Polônia. Este termo aparece pela primeira vez de seu diário que Sonnenfeldt
Obteve o doutorado em Direito num livro que escreveu, intitulado O guardou para sempre. Anos mais
Internacional na Universidade de Regime do Eixo na Europa Ocupada. tarde, escreveu em suas memórias:
Viena e completou um segundo Lamkin nasceu na pequena cidade “Cheguei à conclusão de que para
doutorado na Escola de Economia de Nesvodene, a 250 quilômetros de as conquistas de Hitler não era
de Londres. Em 1944 foi convidado Varsóvia que, depois de sucessivas necessário o extermínio dos judeus.
para integrar o Departamento soberanias, hoje está situada na Ditadores precisam de inimigos para
Britânico de Crimes de Guerra. Bielorrússia. Graduou-se em direito que sejam venerados como salvadores
Nesta organização, insistiu para na Universidade de Lvov e foi ferido da pátria. No contexto da Alemanha,
que uma seção fosse dedicada com quando a Alemanha invadiu a somente os judeus poderiam
exclusividade aos crimes cometidos Polônia. Fugiu para a Lituânia, de lá desempenhar os papéis de inimigos e
contra os judeus durante o conflito. para a Rússia e chegou aos Estados de bodes expiatórios. Hitler precisava
Além disso, foi o formulador da Lei Unidos via Japão. Foi convidado por mais de inimigos do que de apoios
Universal dos Direitos Humanos, tal Jackson para integrar a equipe de para arrastar os alemães em sua
como aprovada anos mais tarde pelas promotores em Nuremberg. esteira”. E mais adiante: “As lições
Nações Unidas. da história acabam sendo esquecidas
Entre a leitura das acusações e o se não forem criadas instituições que
Jacob Robinson, o mais velho dos início dos trabalhos no Tribunal, evitem suas repetições. Todos aqueles
três, nasceu na Lituânia. Graduou- houve um período de folga que que acreditam que basta a simples
se em direito na Universidade de Sonnenfeldt aproveitou, por lembrança dos horrores de Hitler
Varsóvia e foi feito prisioneiro pelos curiosidade própria, para visitar a e lamentam os trágicos desenlaces
alemães durante a 1ª Guerra. Voltou viúva de Himmler. Esta lhe repetiu de suas vítimas, devem manter a
para a Lituânia, onde atuou como sem cessar que as atividades do consciência de que quando tiranos
advogado em favor de minorias, marido eram tão intensas que ele não assumem o poder são capazes de se
como hebraísta e conselheiro do tinha tempo para falar a respeito de comportar tal como Hitler”.
Ministério das Relações Exteriores tais assuntos no convívio da família.
nos anos 30. Escapou do nazismo A filha adolescente de Himmler O Tribunal de Nuremberg começou
e aportou com a família em Nova revelou que só tinha tomado os trabalhos no dia 20 de novembro
York, em 1941, via Portugal. Nos conhecimento da trajetória do pai de 1945, com traduções simultâneas
Estados Unidos, fundou o Instituto através de artigos publicados em em inglês, francês, alemão e russo. Os
de Assuntos Judaicos, vinculado ao jornais alemães. Quando Richard quatro juízes e eventuais substitutos
Congresso Judaico Mundial. pretendeu aprofundar a conversa, a se encontravam à esquerda de
Raphael Lamkin, o mais jovem moça saiu da sala chorando. A viúva Richard e os acusados e respectivos
do trio, foi quem cunhou para a deu-lhe de presente as insígnias do advogados bem à sua frente. Atrás,

21 abril 2016
SHOÁ

importância histórica do julgamento


antes de abordar seu significado
legal”.

Durante as sessões do Tribunal,


Richard ficou acomodado na
bancada dos promotores com a
missão de verificar se os depoimentos
dos acusados e das testemunhas
coincidiam com os relatos que
havia colhido anteriormente. Ficou
particularmente impressionado com
a forma pela qual o presidente da
corte, Sir Geoffrey Lawrence, se
mantinha imperturbável, mesmo
vendo desfilar na sua presença as
mentiras mais perversas, as manobras
O Presidente do Tribunal, Juiz da Suprema Corte, Sir Geoffrey Lawrence diversionistas dos advogados e as
distorções dos fatos. Também se
ocupou em observar as reações
havia um reservado para a imprensa; acima de seu conhecimento, pediu ao dos réus enquanto os trabalhos
pouco mais afastado, uma galeria coronel francês que o dispensasse. prosseguiam. Um parecia apoiar o
para pessoas que tinham recebido A acusação inicial do promotor-chefe outro, mas a maioria evitava sequer
convites especiais. Militares com Jackson foi objetiva e contundente: olhar na direção de Julius Streicher,
capacetes brancos estavam postados “O privilégio de abrir o primeiro o arauto do antissemitismo. Embora
atrás dos réus. A Sonnenfeldt ocorreu julgamento da história por crimes a mesma condição valesse para
o seguinte pensamento, conforme contra a paz no mundo impõe- todos, era evidente que Goering
escreveu: “Naquele momento o me uma grande responsabilidade. continuava a desempenhar um
Tribunal era o centro do mundo e eu Os crimes que vamos condenar papel de liderança, além de fazer
estava na linha de frente!” e punir foram tão calculados, tão charme à distância para as mulheres
malignos e tão devastadores que a sentadas na galeria. Algumas vezes
O diretor dos intérpretes era um civilização não há de suportar se chegou a piscar o olho para Richard.
coronel francês internacionalmente eles vierem a ser repetidos”. Anos Quando foram exibidos filmes
famoso como linguista e que pediu mais tarde, Sonnenfeldt assinalou: terríveis sobre as atrocidades e os
que Sonnenfeldt integrasse sua “Achei digno de nota que Jackson campos de concentração, Goering
equipe. Ele pôde então perceber tivesse começado por se referir à ficou indiferente. Sonnenfeldt soube
que o trabalho no Tribunal era depois que Goering considerava
bem diferente daquele que havia que tudo aquilo não passava de
exercido nas dependências dos propaganda, o mesmo tipo de
interrogatórios iniciais. Primeiro, propaganda que Goebbels havia
porque era complicado traduzir produzido para o nazismo.
os termos estritamente jurídicos.
Segundo, porque nas celas ocorriam Conforme a avaliação de
intervalos entre as sessões. Ademais, Sonnenfeldt, os promotores
se um intérprete não entendesse bem britânicos eram os mais eficazes.
o que um acusado dizia, pedia que Indagando os réus com fria cortesia,
este repetisse a resposta. No tribunal acabaram arrancando de Goering
o ritmo era completamente diferente. a confissão de que ele de fato tinha
Ciente de que talvez não pudesse sido responsável pelos assassinatos
se desincumbir a contento da tarefa dos pilotos das forças aéreas aliadas.
porque a linguagem jurídica estava albert speers, o arquiteto de hitler Concluiu, ainda, que os americanos

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REVISTA MORASHÁ i 91

eram os que mais trabalhavam,


enquanto os soviéticos se revelavam
pouco preparados.

Os réus com patentes militares,


Keitel, Jodl, Raeder e Doenitz, foram
unânimes em suas defesas: tinham
sido apenas leais subordinados do
Fuhrer. Sonnenfeldt ficou revoltado
com o depoimento de Albert Speer,
o arquiteto preferido por Hitler,
encarregado da produção de veículos,
aviões, armamentos e munições
durante a guerra. Speer se comportou
de maneira cordial e obediente, tendo
admitido sua culpa de forma tão
cândida que chegou a ser rotulado
pela mídia internacional como “o Richard Sonnenfeldt
bom nazista”.(Foi condenado a 20
anos de prisão).Mas, no decorrer
de seu interrogatório, omitiu o fato no ar. Você lhe contou a verdade?” um membro da monarquia europeia.
criminoso de que só foi capaz de Resposta: “Não. Eu disse que o Richard W. Sonnenfedt regressou
desempenhar suas tarefas porque teve cheiro era de uma fábrica de sabão”. aos Estados Unidos em 1946 e
milhões de trabalhadores escravos Sonnenfeldt conteve o ódio. Sim, de matriculou-se na Faculdade de
como mão-de-obra. fato era uma fábrica de sabão, mas Engenharia da Universidade John
feito com despojos de seres humanos Hopkins. Teve uma extraordinária
De tudo o que viu e ouviu exterminados. carreira profissional. Foi o diretor
em Nuremberg, o que mais da equipe de técnicos da RCA
impressionou Sonnenfeldt foi o Em Nuremberg, Richard fez boa que inventou a televisão em
depoimento que lhe prestou Rudolf amizade com Poul Kjalke, chefe da cores. Trabalhou na NASA, onde
Hoess, comandante do campo de delegação dinamarquesa e, durante participou do projeto que levou o
concentração de Auschwitz. Pergunta a guerra, chefe da resistência primeiro homem à Lua. Foi um dos
de Sonnenfeldt: “É verdade que clandestina na Dinamarca. Num fim principais executivos da rede
você ordenou a execução de três de semana, Poul levou-o para visitar de comunicação NBC e reitor de
milhões e meio de seres humanos?” Copenhague. Ali, Sonnenfeldt foi uma faculdade de administração.
Resposta: “Não, foram apenas dois convidado para participar de um A par dessas atividades, deteve
milhões e meio. Os demais morreram jantar de gala no Palácio Real. Na patentes de uma série de invenções
por outras causas”. Pergunta: “Que recepção que antecedeu o banquete, tecnológicas. Com mais de 70 anos,
outras causas?” Resposta: “Doenças, Richard manteve longa e agradável atravessou três vezes o Atlântico no
epidemias inevitáveis e fome quando conversa com um senhor de certa comando de seu próprio iate. Morreu
nos faltaram recursos para alimentar idade, vestindo fraque e uma gravata no dia 9 de outubro de 2009, vítima
os prisioneiros”. Pergunta: “Por que borboleta branca. A certa altura, este de um derrame, em sua residência de
os maiores e principais campos de disse: “Agora o senhor me desculpe, Port Washington, Nova York,
concentração foram situados fora mas tenho que começar a servir aos 86 anos.
da Alemanha?” Resposta: “Para que a mesa”. Era o chefe dos garçons.
a população alemã não soubesse o Durante o jantar, Richard sentou-se
que estava acontecendo”. Pergunta: ao lado do príncipe da Dinamarca. Bibliografia
“Quando você e sua família moraram Somente um pensamento lhe passava Sonnenfeldt, Richard W., Witness to
em Birkenau, no complexo de pela mente: era puro surrealismo que Nuremberg, Arcade, EUA, 2011.
Auschwitz, sua mulher revelou um simples judeu de uma pequena
que sempre havia um mau cheiro cidade alemã pudesse estar junto a ZEVI GHIVELDER é escritor E JORNALISTA

23 abril 2016
brasil

Memorial da
Imigração Judaica
A cidade de São Paulo ganha o seu primeiro Memorial da
Imigração Judaica. Localizado na sede da Sinagoga mais
antiga do Estado, a Kehilat Israel, na Rua da Graça,
no bairro do Bom Retiro, o museu reúne importante acervo
com documentos e obras raras que narram a história
e a contribuição dos imigrantes judeus ao desenvolvimento
do Brasil desde os seus primórdios.

O
Memorial da Imigração Judaica do Brasil Dayan e Leiman. Não faltaram, também, palavras de
surge como uma nova e importante agradecimentos a todos que, de uma forma ou outra,
instituição a ser incluída no roteiro contribuíram e ainda contribuem para iniciativas que
histórico e cultural não só da cidade, como garantem a manutenção da cultura, tradições e valores
do País”, afirma o Rabino Toive Weitman, judaicos.
coordenador da nova instituição.
“Nesta noite prestamos uma homenagem a todos
Alguns judeus estavam no navio de Pedro Álvares Cabral os imigrantes. Somos todos imigrantes ou filhos de
e, no século 17, já havia uma comunidade estabelecida imigrantes deste País que nos recebeu tão bem e
em Recife, na época sob domínio holandês. Raridades nos deixa tão à vontade para realizar muitas coisas.
como objetos, vestimentas, documentos e livros do século Tínhamos a obrigação de criar este Museu da
17, vindos de diversos países, são algumas das obras do Imigração Judaica e restaurar a mais antiga sinagoga
precioso acervo. O Memorial terá entrada gratuita e do Estado de São Paulo. Ela pode ser pequena em
contará, de forma didática, a história e contribuições que tamanho, mas é gigante em sua história e lembranças
os judeus trouxeram ao País. dos pioneiros e heróis que aqui fundaram a comunidade
judaica de São Paulo, em 1912. E este é um Memorial
Na noite da inauguração, prestigiada por lideranças que preserva a nossa história, os nossos valores e
comunitárias, autoridades e descendentes dos imigrantes, costumes, de forma extremamente profissional e
palavras emocionadas marcaram os discursos que tecnológica. Mas este é apenas o primeiro passo, pois
relembraram a trajetória dos primeiros judeus a se através da colaboração de toda a coletividade, com
instalar no Brasil, plantando as sementes de uma fotos e documentos, cada um ajudando dentro das
comunidade que ajudou a construir a cidade e o País. suas possibilidades, cresceremos cada vez mais”, disse
Homenagens foram prestadas àqueles que permitiram a Benjamin Steinbruch ao falar em nome da família.
concretização do projeto e, também, a sua continuidade A Sinagoga Kehilat Israel foi renomeada em
nas décadas seguintes: as famílias Steinbruch, Safra, homenagem a seus pais, Dora e Mendel Steinbruch.

24
REVISTA MORASHÁ i 91

Entre as inúmeras peças expostas, o apresentador Silvio Santos. Também que fosse preservada a lembrança
Memorial traz preciosidades como ali se encontra um documento com e a história dos pioneiros que
o diário de viagem de Henrique mais de 250 anos utilizado pelos construíram aquele templo. A partir
Sam Mindlin (da família Mindlin, imigrantes marroquinos como da ideia de que os imigrantes judeus
da Metal Leve e da Biblioteca talismã, que contém frases cabalistas estão no Brasil desde o século 17 e,
Brasiliana Guita e José Mindlin). de proteção e saúde, em hebraico. em decorrência de sua contribuição
O diário, escrito em 1919, quando histórica para a construção de valores
o garoto de apenas 11 anos, narra Um sonho realizado e da cultura brasileira, idealizou-se
sua migração de navio de Odessa este Memorial para preencher uma
(Ucrânia) até o Rio de Janeiro. O projeto para criação do Memorial lacuna sobre a história judaica. “É
Outra raridade é o livro Diálogos surgiu no ano de 2004, quando os uma forma de gratidão do povo
de Amor, de 1580, escrito por Judah responsáveis pela sinagoga Kehilat judeu ao acolhimento oferecido pelo
Leon Abravanel (ou Abrabanel), Israel manifestaram o desejo de Brasil em quase 400 anos, desde
também conhecido, em italiano, que se instalaram por aqui, e uma
como Leone Ebreo, de Veneza. Ele homenagem aos imigrantes judeus
era filho do renomado Rabi Don que aqui aportaram”, explica o
Isaac ben Judah Abravanel, que, no rabino Toive Weitman.
ano de 1492, após os reis Fernando
e Isabella terem proclamado o Por trás da ideia do memorial está
Edito expulsando todos os judeus o rabino Y. David Weitman, que
da Espanha, em desesperado apelo, sugeriu como ponto de partida
atira-se aos pés dos Reis Católicos, do projeto reunir relatos, objetos,
pedindo-lhes a revogação de tão livros, documentos, roupas, entre
infame decisão. Infelizmente, em vão. outros, das seis ondas migratórias
Abravanel foi um antepassado do judaicas que aqui chegaram

25 abril 2016
brasil

só lugar, que será referência para


aqueles que procuram cultura e
conhecimento. “Criamos o
Memorial da Imigração Judaica
para preencher a lacuna que faltava
sobre a imigração do nosso povo.
O Brasil sempre foi um país
tolerante, que recebeu os imigrantes
de braços abertos; e grupos de
outras origens, como, por exemplo,
os italianos e japoneses, já possuíam
centros próprios que retratam sua
história e percurso desde o país de
origem. E, até hoje não tínhamos
nada parecido sobre a comunidade
judaica no Brasil”, afirma Breno
Krasilchik, presidente do Conselho
Consultivo do Memorial da
desde o século 17. Para se tornar recordar seu passado e não deixar Imigração Judaica.
realidade, o Memorial contou com que as futuras gerações percam seus
o apoio de um grupo de idealistas costumes, valores e ideais mantidos Fazem parte do Conselho Curador
e patrocinadores, o que possibilitou nos últimos séculos.  Os imigrantes do Memorial Fábio Magalhães,
a reforma e ampliação dos cinco e seus descendentes doaram parte curador mor, e os membros Ary
andares da Sinagoga, mantendo de seus objetos, documentos, livros, Diesendruck, Bernardo Lerer,
a fachada original. O Memorial roupas, entre outras relíquias, Daniel Anker, Gershon Knispel,
passa a ser uma nova opção no ajudando a recontar a importância Guilherme Faiguenboim, Isser
roteiro histórico-cultural da cidade. histórica da presença judaica desde Korik, Joel Rechtman, Marcio
Além da mostra permanente que os primórdios do Brasil. Pitliuk, Maria Luiza Tucci Carneiro,
contempla diversas obras, pretende Paulo Valadares, Rachel Mizrahi,
receber exposições temporárias. “O Memorial nos surpreende Reuven Faingold, Silvio Band,
pelo tratamento humano, afetivo Terezinha Davidovich, Vera Frank e
O sonho começou a se tornar e pedagógico que foi dado a seu o Rabino Y. David Weitman.
realidade em dezembro de 2012, acervo, graças à adoção de uma
quando foi lançada a pedra novíssima concepção museológica, Design interno e
fundamental do Memorial, na permitindo ao visitante vivenciar conteúdo
presença do então prefeito da de modo intenso e abrangente os
cidade, Gilberto Kassab, e do grão- conteúdos expositivos. Os temas No primeiro andar do Memorial
rabino de Israel, Ionáh Metzger. religiosos, históricos e culturais está localizada a Sinagoga Kehilat
Simultaneamente, iniciou-se um são apresentados de modo atrativo, Israel, que conserva as características
extenso trabalho de pesquisa com pela interatividade ou pelos meios originais de sua inauguração em
a participação de historiadores tecnológicos de representação que 1912, e está totalmente restaurada
do Arquivo Histórico Judaico enriquecem nossa relação com os e preservada. Ao subir as escadas, o
Brasileiro e da BASE 7 Projetos temas abordados. Assim, as narrativas visitante é recebido por um áudio
Culturais, responsável pelo projeto se tornam fascinantes”, comenta o nas diferentes línguas faladas pelos
arquitetônico e expográfico, e pelo curador-mor do Memorial, professor imigrantes judeus que aportaram
Conselho Curador da entidade. Fábio Magalhães. no Brasil. No segundo andar, estão
expostos objetos e documentos
Para organizar o acervo, a equipe do Ações educativas fazem parte do históricos que retratam o ciclo de
Memorial contou com a ajuda da projeto museológico, que receberá vida de um judeu, do nascimento
comunidade judaica, que costuma visitas monitoradas de escolas. à morte, e, também, dos hábitos e
guardar lembranças e histórias para História, arte e cultura em um costumes milenares.

26
REVISTA MORASHÁ i 91

Vídeos educativos e interativos Análise do Acervo – CEAA Ações educativas


apresentam alguns dos principais está localizado nesta parte do
costumes e valores judaicos, as Memorial. fazem parte do
distintas tradições e diferenças projeto museológico,
regionais. Celebrações, feriados e Em 2017 será inaugurado o acervo
festividades são destacados, dentre do terceiro andar. Os 12 países de
que receberá visitas
elas, o casamento. Para isso, foi origem dos imigrantes, as conquistas monitoradas de
montada uma chupá, com uma taça pelo mundo, as diferentes razões escolas. História,
virtual que pode ser quebrada, assim para a imigração são alguns dos
como em uma cerimônia de verdade. temas apresentados no último arte e cultura em
andar, onde será montado também um só lugar, que
Do lado direito, foi construída o espaço dedicado ao Holocausto,
uma grande galeria com imagens relembrando esta parte da história. será referência
de diversas famílias imigrantes. para aqueles que
Telas interativas com as legendas No subsolo estão expostos painéis
dos personagens estão à disposição tecnológicos e interativos, e uma
procuram cultura e
dos visitantes. Além disso, judeus galeria de personalidades judaicas conhecimento.
podem encontrar seus antepassados
consultando estes monitores.

A comida é entendida como


nutrição espiritual e repleta de
simbolismos e benefícios.
Uma mesa virtual e interativa
foi montada com diferentes receitas,
que variam conforme as datas
comemorativas. Junto com
o Memorial foi criado um
centro de estudos e pesquisas
para que o tema da imigração
judaica continue a ser estudado.
Referência para pesquisadores e
todos interessados em aprofundar
na cultura e conhecimento do povo
judaico, o Centro de Estudos e

27 abril 2016
brasil

a inauguração foi prestigiada por autoridades de governo e representantes diplomáticos e comunitários

já falecidas que contribuíram, O Memorial estará aberto de o governador Geraldo Alckmin;


no decorrer dos séculos, para o domingo a sexta-feira, das 10h às Gilson Donizete Marçal,
desenvolvimento do Brasil. Em 17h. Para agendamento de grupos representando o Ministro da
outra ponta, foi montada uma que queiram fazer uma visita Cultura, Juca Ferreira; Marcelo
grande mesa que projeta um antigo guiada, será necessário marcar com Mattos Araujo, secretário estadual
mapa do bairro e como as diversas antecedência. da Cultura; Ari Friedenbach,
organizações judaicas foram-se vereador por São Paulo; Marcos
estabelecendo na região. Uma loja A inauguração do Memorial da Costa – presidente da OAB;
com artigos e livros da cultura foi prestigiada pelas seguintes Fernando Lottenberg, presidente
judaica e uma lanchonete com personalidades: Floriano Pesaro, da Confederação Israelita do Brasil;
comidas típicas também foram secretário de Desenvolvimento Bruno Lascovsky, presidente da
montadas no subsolo. Social de São Paulo representando Federação Israelita do Estado
de São Paulo; Yoel Barnea e
Osias Wurman, Cônsules de
Israel; Jack Terpins, presidente
do Congresso Judaico Latino
Americano, e muitos outros.

Aqueles que possuem


documentos antigos,
objetos da cultura
judaica, livros, ketubot,
etc. e quiserem doar ou
emprestar esses artigos
ao Memorial, queiram,
por favor, comunicar-
se com Yasmin, pelo
telefone 3331-4507,
São Paulo.

crédito -fotos:
andre nehmad e lilian knobel

28
ARTE

“O Filho de Saul”
uma viagem ao inferno

filme de estreia do diretor judeu húngaro, László Nemes -


“O Filho de Saul”, ganhador do Oscar 2016 de Melhor Filme
Estrangeiro, uma viagem arrepiante ao íntimo da mecânica
do assassinato em massa perpetrado pelos nazistas talvez
seja um dos trabalhos artísticos mais impressionantes
que já se fez sobre o Holocausto.

A
escolha do filme húngaro pela Academia de escreveu Luiz Carlos Merten no Estado de S. Paulo, em
Artes e Ciências Cinematográficas foi uma 3 de fevereiro de 2016, “O filme chega para perturbar.
vitória esperada, pois “O Filho de Saul” já Gostando ou não, é visceral. Tira o público de sua zona
acumulara inúmeros prêmios: o Grande de conforto...”.
Prêmio do Júri e o da Crítica, no Festival de
Cannes, em 2015, e o Globo de Ouro de Melhor Filme Para quem o assistiu, vai ser difícil esquecê-lo. Ao longo
Estrangeiro, este ano. Emocionado ao receber o Oscar, de 107 intermináveis minutos, Nemes nos faz vivenciar
László Nemes, que também é o autor do roteiro, afirmou o mundo de Auschwitz pelos olhos de Shaul Aslander,
que no filme há uma mensagem de esperança: “Mesmo nosso guia no inferno, protagonizado pelo poeta e ator
nas horas mais negras, pode haver uma voz dentro de nós judeu, Géza Röhrig.
que nos permite continuar humanos...”.
O filme se caracteriza por longos silêncios e imagens
“O Filho de Saul” é um filme emocionalmente exigente desfocadas. A fotografia, assinada por Mátyás Erdély, é
e angustiante. A intenção do diretor foi criar uma obra um dos elementos que faz do filme uma obra única. Em
claustrofóbica, levando-nos tão perto quanto possível da nenhum momento a carnificina é trazida em primeiro
“fábrica de morte” nazista, ao modus operandi da execução plano – há imagens fugidias de corpos em foco nítido,
do assassinato em massa. Ao mostrar o horror “nu e cru”, mas são fragmentadas – mas isso não minimiza o horror:
queria que absorvêssemos o cenário do inferno da hora o rosto de Saul espelha tudo o que está desfocado. Numa
mais negra da humanidade, num grau de realismo que entrevista, o diretor Nemes explicou por que adotou esse
poucos filmes de ficção tiveram a coragem de tentar. tipo de filmagem: “Acredito que o poder da imaginação é
moralmente muito importante, porque não podemos, não
Não há como escrever a respeito do filme sem dar aos há formas de recriar o horror, podemos apenas sugeri-lo”.
leitores a impressão de ser um daqueles filmes que devia
ser assistido, mas do qual tentamos nos esquivar por A história de Saul Auslander, um Sonderkommando, é
saber que iria mexer com emoções profundas. Como fictícia, mas o contexto histórico do filme é preciso.

29 abril 2016
arte

Primo Levi famosamente chamou


de “o consolo da inocência”.

Como o filme revela, os


Sonderkommando eram apelidados
de “portadores de segredos”
(Geheimnisträger), pois vivenciavam
dia após dia todo o processo da
“cadeia industrial” do “tratamento”
das vítimas. A morte fazia parte de
sua rotina diária, estando entranhada
em suas narinas, em sua pele, mente
– e espírito.

Há quem os condene moralmente


por sua suposta “colaboração” com
os carrascos, mas somente uma
profunda falta de conhecimento
sobre o nazismo e a “Solução
Final” permite a alguém supor que
os Sonderkommando dispunham
de alternativa ao que faziam,
Para escrever o roteiro, Nemes e Os Sonderkommando a não ser a morte. Ninguém
Carla Royer, co-roteirista, fizeram “escolhia” entrar e tampouco sair
extensa pesquisa histórica. A escolha de fazer de Saul um do “comando especial”. Se algum
membro dos Sonderkommando não deles se recusasse era morto no ato.
Ainda em entrevista, Nemes foi acidental, pois eles ocupam Tampouco havia como não cumprir
afirmou: “O filme representa um lugar especialmente doloroso as ordens nazistas. Houve casos de
diferentes formas de resistência e controvertido na história do Sonderkommandos que por terem
que ocorreram em Auschwitz, sendo Holocausto. Forçados pelos nazistas avisado judeus do que estava por vir
que a revolta armada foi apenas a fazer o serviço que precedia e foram atirados vivos às chamas dos
uma delas. Saul escolheu outra sucedia a morte dos judeus enviados fornos, na presença de todos os seus
forma de rebelião, de resistência, e pelos nazistas às câmaras de gás, aos companheiros de infortúnio, para
essa tentativa de busca pessoal será Sonderkommando foi negado o que servir de exemplo.
o que a define para ele. Ele está
constantemente se movimentando Os Sonderkommando eram melhor
entre diferentes lugares e alimentados para terem mais forças
comportamentos, como quando para cumprir suas “tarefas”; eram
busca um rabino para dar sentido à mantidos isolados, sem contato
sua forma pessoal de resistência. com os outros presos e eram, a
priori, “marcados para morrer”
Diante de uma situação em que – seu tempo de vida era de três,
não há possibilidade de esperança, quatro meses. Não poderia haver
a voz interior de Saul lhe ordena qualquer tipo de vazamento sobre
sobreviver para ser capaz de fazer o que testemunhavam. O próprio
algo que tenha significado. Essa Saul, interpelado por um de seus
ordem interior era para mostrar companheiros se queria ser morto,
respeito a um ato que desde os responde: “Já estamos todos
primórdios do judaísmo é muito mortos”... No filme, através de Saul
significativo e sagrado – o enterro de vemos algumas das horripilantes
um morto”. “tarefas” dos Sonderkommando.

30
REVISTA MORASHÁ i 91

Vemo-los encaminhar os judeus às cinzas para ser lançado no Vístula, que ficou inutilizado. Jovens judias
câmaras de gás, vasculhar roupas para não deixar rastro nem vestígios. haviam conseguido os explosivos.
e haveres pertencentes às vítimas Como vimos acima, a revolta serve
para entregá-los aos nazistas – Mas mesmo entre os de pano de fundo para o filme.
arriscando-se a guardar algo que Sonderkommando, assim como A retaliação nazista foi implacável.
“brilhe” para subornar guardas; entre tantos outros judeus durante
aguardar os 10 a 12 minutos após a Shoá, houve os que encontraram No final de dois dias, 452 membros
as portas das câmaras terem-se forma de resistir, de subverter as do Sonderkommando foram mortos
fechado – o tempo necessário para regras num mundo de silêncio e, para servir de exemplo, os nazistas
o gás matar a todos – para retirar os e trevas. Foi em redor dos seus liquidaram cerca de um terço dos
corpos nus, e após extrair os dentes barracões, mais do que em qualquer membros de outros “comandos
de ouro, arrastá-los e colocá-los no outro lugar dos campos, que especiais”. Quatro jovens mulheres
monta-cargas rumo ao piso de cima, foram encontrados fragmentos acusadas de fornecer dinamite
para os fornos crematórios. de papel enterrados, com relatos aos revoltosos foram torturadas
e descrições sobre o sofrimento, a e enforcadas diante dos demais
Vemos Saul esfregar o chão da máquina de extermínio nazista, as prisioneiros. Uma delas, Roza
câmara para limpar o sangue e plantas dos edifícios sobre o que Robota, de 23 anos, ainda teve a
excremento para que os que estavam os judeus chamaram “o Inferno de coragem de gritar: “Sejam fortes,
por vir não adivinhassem o que Auschwitz-Birkenau”. Deixaram- tenham coragem”, quando a porta do
os esperava. Manter as vítimas na nos também quatro célebres alçapão se abriu.
ignorância era a melhor forma de fotografias tiradas em Birkenau.
assegurar que a morte em massa O filme mostra o momento da A história de Saul
se desenrolasse sem “atrasos captura dessas imagens.
ou contratempos”. Enquanto Na primeira cena do filme o
isso, outros Sonderkommando Foram também os Sonderkommando espectador é catapultado à porta
alimentavam as fornalhas que deflagraram, em 7 de outubro de uma das câmaras de gás de
com carvão, onde os corpos de 1944, uma revolta, durante a Auschwitz. Vemos e ouvimos os
eram incinerados, e, no final, qual três guardas foram mortos judeus sendo ludibriados pelos
transportavam o amontoado de e foi explodido o Crematório IV, nazistas a se despirem e deixarem

31 abril 2016
arte

todos os seus pertences para “tomar certificar que o garoto estava vivo,
o banho antes de comerem uma sopa o médico o sufoca, e pede uma
quente”; “não esqueçam o número autópsia sobre aquele “exemplar”
do cabide onde penduraram suas humano pouco usual, para
roupas”. Vemos homens, mulheres, determinar a causa da “não morte”.
jovens e velhos sendo empurrados
para dentro da câmara de gás; Saul quer acreditar que o garoto
ouvimos sons e gritos terríveis. é seu filho. De repente, a vida de
A porta se fecha; a tela fica preta e a Saul volta a ter um propósito, um
viagem ao inferno se inicia. objetivo. Ele fica obcecado em evitar
que façam a autópsia, que é proibida
Vemos Saul e o grande X vermelho pela Lei Judaica; quer encontrar
pintado em suas costas, o sinal de um rabino para dizer o Kadish e
que ele era um Sonderkommando. tentar dar um enterro digno àquele
A vida para ele é nada mais que garoto. Tudo no rosto de Saul nos
um pesadelo acordado pelo qual ele diz que aquele gesto pequeno, mas,
vagueia. Saul fala pouco. Afinal, o no inferno nazista, muito arriscado,
que há para dizer quando sua vida é a é imperativo. É a última coisa que
de um escravo forçado a participar da podemos ouvir gritos vindos dos pode mantê-lo humano.
maior falta de humanidade cometida “chuveiros” atrás da porta. Depois
por homens contra outros homens? de encher as caixas com objetos À medida que ele segue em sua
de valor dos judeus para dar aos solitária missão, os Sonderkommando
Vamos acompanhá-lo, ver o que alemães, ele passa para sua próxima estão organizando a revolta.
ele vê. As diretrizes de Nemes à “tarefa”: a remoção “das partes”, Mas, para Saul, o levante ficou
sua equipe de filmagens foram como os nazistas grotescamente em segundo plano, pois agora
simples: “A câmera deve ficar chamam os corpos, das câmaras está impelido totalmente por sua
grudada em Saul, não ultrapassar de gás. De repente, Saul vê um determinação de tratar deste único
sua capacidade de visão e audição, garoto que sobreviveu ao gás. Um judeu, este único ser humano, com a
não fornecer um único plano médico nazista é chamado e Saul humanidade e o respeito que ordena
do conjunto. A câmera será sua então testemunha quando, após se a Lei Judaica. Ao tentar proteger o
companheira nessa verdadeira
travessia do inferno”. Somos
transportados em uma corrida
infernal, enquanto Nemes
nos mantém o tempo todo
emocionalmente fragilizados.

Podemos ver, em segundo plano,


imagens desfocadas e perturbadoras
de cadáveres humanos arrastados
como se fossem de carcaças de
animais. Mudando de idioma e
ocultando as legendas, o som do
filme também consegue nos afetar.
Os gritos das vítimas podem ser
emudecidos, mas não há como os
ignorar.

Observamos quando um Saul


apático escolhe os objetos de valor da esq. à dir.: atores Levente Molnar e Geza Rohrig, diretor Laszló Nemes;
do vestuário dos judeus, enquanto produtores Gabor Sipos e Gabor Rajna

32
REVISTA MORASHÁ i 91

corpo do menino, Saul vê a chance,


mesmo que de uma forma ínfima,
de repudiar o “trabalho” que tem
preenchido seus dias e noites.

Mas, apesar de ser nobre a sua


missão, o filme nos faz perceber que
em Auschwitz as escolhas são mais
do que difíceis, nunca há a certeza
de estar-se fazendo a coisa certa.
A busca obsessiva de Saul ameaça
a rebelião; a certa altura ele perde o
explosivo que uma mulher envolvida
na rebelião lhe entregara. Um outro
Sonderkommando o reprova: “Você
está prejudicando os vivos para
favorecer os mortos”. E ele não
estava errado...
Auschwitz em 1944. “Minha cumprindo a promessa que fizera
O filme termina com a primeira razão ao fazer este filme a seu avô adotivo. Mas, ao invés
rebelião e fuga de um grupo foi minha raiva”, disse. “Nunca pude de sair logo depois da visita, ele
de Sonderkommando, incluindo aceitar o que aconteceu, e quanto não conseguia se afastar. Visitou o
Saul que carrega o corpo de seu mais ouço falar sobre o Holocausto, campo diariamente, durante um mês,
suposto filho pela floresta e pelo menos eu entendo... Queria meditando. Após aquele mês, ele
rio, correndo o risco de se afogar, o transmitir aos espectadores o sentido foi a Israel, matriculando-se numa
que só não acontece porque um de “aqui e agora” de estar no meio do yeshivá. Queria saber o significado
seus companheiros o retira da água, processo de matança – tanto da de ser judeu, entender o legado
fazendo-o abandonar o corpo. organização e do caos”. espiritual de seus ancestrais.
O filme se encerra com o som
dos tiros que matam os judeus Para Geza Röhrig, que interpreta Ao responder por que concentrou
encurralados em uma cabana na Shaul, um Sonderkommando, sua história em um membro dos
floresta. Um fim previsível. “O crime mais demoníaco Sonderkommando, Nemes respondeu:
dos nazistas foi forçar os “Foi uma estrada direta ao âmago
As filmagens Sonderkommando a ajudar no do extermínio (......). Meu filme
processo de matança. Ao fazê-lo, não é sobre sobrevivência; é sobre a
Filmado em apenas 28 dias, com eles lhes tiravam até mesmo o realidade da morte. Durante a Shoá,
um orçamento de US$ 1.6 milhão, consolo de serem inocentes. Eles a sobrevivência era uma mentira,
desde o lançamento até o início faziam do Abel um outro Caim...”. uma exceção (…). Deixem-me
de 2016 a bilheteria já superava a Röhrig revelou, durante uma contar-lhes o que nosso assessor
marca de US$ 2.8 milhões, fato entrevista, que o filme foi muito histórico me disse; ele calculava que
considerado pelos produtores um importante para ele pois sua vida dos 430 mil judeus húngaros que
grande sucesso. A produção recebeu está impregnada das memórias do foram deportados, em oito semanas,
uma verba - US$ 50 mil - da Holocausto. Órfão aos quatro anos em 1944, 100 mil eram crianças com
Conferência para Indenizações, que de idade, foi adotado aos menos de 18 anos e que foram para
negocia restituições para as vítimas 12 de um orfanato em Budapeste as câmaras de gás. E essas crianças
do nazismo; e o restante veio em por amigos judeus de sua família. nunca tiveram um enterro (...).
grande parte do Hungarian National Seu avô adotivo tinha perdido toda É uma ferida aberta... As pessoas vão
Film Fund. a sua família próxima em Auschwitz dizer que o filme é mais uma história
e sobreviveu em um gueto do Holocausto... Não; não é só mais
A jornalistas, Nemes explicou húngaro. Como universitário na uma história. Para nós, judeus, é o
que seus bisavós pereceram em Polônia, Röhrig visitou Auschwitz, presente, não um mito.”

33 abril 2016
israel

Sheba Medical Center,


uma história de sucesso
Criado em 1948 como pequeno hospital militar para
tratar os feridos na Guerra de Independência de Israel,
o Sheba Medical Center tornou-se a maior instituição
na área de saúde do país, englobando atualmente
quatro hospitais especializados e centenas de clínicas
e laboratórios.

C
om o passar dos anos, seus idealizadores medicamentos e tratamentos. O hospital universitário,
fizeram da excelência no atendimento que é público, tem como principal missão curar pessoas,
à saúde um de seus principais objetivos, independente de sua religião ou origem, e é reconhecido
atraindo profissionais, pesquisadores, como um oásis de paz em uma região conturbada.
estudantes, investidores e doadores, todos O Sheba atua não apenas em Israel, como também
comprometidos com a ideia de garantir o melhor em missões internacionais e de ajuda humanitária em
atendimento aos pacientes visando sua reabilitação e regiões de risco, tanto afetadas por conflitos como por
reintegração na sociedade. fenômenos naturais.

Ao longo das décadas, tornou-se o maior hospital do Argentina, Armênia, Azerbaijão, Brasil, Camboja,
Oriente Médio, não apenas por sua dimensão física, China, Guiné Equatorial, Costa do Marfim,
mas principalmente por sua abrangência em termos Cazaquistão, Kossovo, Mauritânia, Peru, Rússia,
de especialidades e visão multidisciplinar do atendimento Ruanda, Sri Lanka, Ucrânia, Uzbequistão e Vietnã são
à saúde, revolucionando o serviço médico em Israel e alguns dentre os inúmeros países que já participaram
na região. No Sheba foram realizados a primeira de seus programas. O Departamento Internacional da
cirurgia de coração aberto do país, os primeiros instituição, além de oferecer programas para treinamento
implantes de coração artificial para correção de defeitos e formação de equipes da área da saúde, supervisiona a
congênitos em crianças, além de ter sido o primeiro a construção de hospitais e clínicas no exterior, atuando,
realizar, com sucesso, processos de inseminação artificial, muitas vezes, em parceria com os sistemas de saúde de
entre outros tantos. outros países.

Também um centro acadêmico e científico renomado, Em Israel, o hospital recebe, também, pacientes de
o Sheba Medical Center é responsável por 25% de toda todo o Oriente Médio, inclusive de nações árabes que
a pesquisa médica realizada em Israel, sendo grande não mantêm relações diplomáticas com Israel, e da
parceiro da indústria no desenvolvimento de novos Autoridade Palestina. O Sheba foi responsável pela

34
REVISTA MORASHÁ i 91

Sheba Medical Center

criação do Instituto de Cirurgia de Um pouco de história especialmente escolhido pelo então


Coração Aberto, em Ramallah, e do primeiro-ministro David Ben-
Centro de Câncer, em Bethlehem, Instalado na então denominada Gurion para o desafio de criar um
além de vários projetos implantados região de Tel Litwinsky hospital militar em meio à Guerra
na Cisjordânia. Seus profissionais (posteriormente renomeada Tel da Independência. Desde então, a
fazem parte da Associação de Hashomer – Montanha dos instituição não para de crescer. O
Médicos para os Direitos Humanos, Guardiões), o hospital teve à sua médico e militar esteve à frente da
órgão cujo objetivo principal é frente, durante décadas, o médico instituição até o seu falecimento,
melhorar a qualidade dos serviços Chaim Sheba, que comandou em 1971, quando então o hospital
médicos entre os palestinos. as equipes médicas das Forças foi renomeado em sua homenagem,
de Defesa de Israel. Ele foi tornando-se conhecido como Sheba
Dentro dessa perspectiva, o Hospital Medical Center.
Infantil desempenha um papel
fundamental no tratamento de Com cerca de 150 consultórios,
crianças palestinas, principalmente clínicas e centros cirúrgicos
nas áreas de oncologia e cirurgia equipados com o que há de mais
cardíaca pediátrica. Cerca de um moderno, possui aproximadamente
terço dos pacientes atendidos nessa dois mil leitos hospitalares, mais
unidade são oriundos da Cisjordânia de mil médicos, 5.800 enfermeiros,
e da Faixa de Gaza. O Centro além dos profissionais da área
Sheba do Oriente Médio para administrativa e técnica. Atualmente,
Moléstias Congênitas do Coração o Sheba Medical Center conta com
realiza anualmente dezenas de um orçamento anual de US$ 320
microcirurgias cardíacas complicadas milhões apenas para a realização de
em crianças palestinas. chaim sheba exames e testes, realizando cerca de

35 abril 2016
israel

dois milhões deles por ano. Mais sendo considerado um avanço no


de um milhão de pacientes passam tratamento da imunidade na luta
por suas instalações anualmente, contra o câncer, que usa polímeros
além de 200 mil nos prontos- (dos receptores CAR) das células
socorros. Parceiro de importantes dos pacientes contra as células
instituições acadêmicas, como cancerígenas. Foi iniciado, ainda,
as faculdades de medicina da o projeto para construção de um
Universidade de Tel Aviv, Bar Ilan novo Pronto Socorro para atender
e Instituito Weizmann, é o único o aumento da demanda. As novas
hospital israelense que recebe instalações deverão estar prontas até
apoio financeiro para pesquisas da o final de 2016, sem que, no entanto,
Associação Americana de Medicina. seja desativado o Pronto Socorro
atualmente em funcionamento.
Entre seus departamentos destacam-
se o de Cardiologia, Genética, No ano passado, foi inaugurada a
Hemato-Oncologia, Radiologia, o Rotstein. Há 12 anos à frente da nova unidade de oncologia para
Instituto para Fertilização Artificial instituição como CEO, repete pacientes jovens no Centro de
e Desenvolvimento, o Centro constantemente aos profissionais Câncer, com quatro andares, e,
Multi-diagnósticos, o Centro que eles são um tipo especial de também, o novo Departamento
para Tratamento de Queimados, profissionais: altamente qualificados, de Oncologia. A arquitetura e o
o Centro para Cirurgia Maxilo- devotados e comprometidos. “São design interno das novas áreas foram
facial e o Centro para Transplante eles que me inspiram a seguir idealizados para oferecer maior
de Medula Óssea, um dos maiores adiante e me dão a força necessária conforto não apenas aos pacientes,
da região e da Europa. Nele são para lutar pelo hospital, pelos mas, também, aos familiares e
utilizadas as mais desenvolvidas e recursos que nos incentivam a seguir equipes médicas.
inovadoras técnicas, já tendo sido em busca de novas realizações e
realizados centenas de transplantes, habilidades. Precisamos continuar Ainda em 2015 foram transferidos
além de milhares de transplantes de e justificar quem somos: o hospital dois departamentos de Pediatria
células-tronco. líder de Israel”. para suas novas instalações no
Hospital Infantil. Nele, cada detalhe
O Centro de Reabilitação da Rotstein atua no Sheba Medical
instituição, outro de seus destaques, Center há mais de 30 anos,
é o maior de Israel e inclui várias tendo iniciado sua carreira na
unidades especializadas, entre as instituição como cardiologista e,
quais, respiratória, neurológica, em seguida, assumindo a função de
ortopédica, psiquiátrica, geriátrica administrador sênior. É professor
e pós-trauma. O Instituto Nacional associado na Escola de Medicina e
Gertner de Epidemiologia e Pesquisa na Faculdade de Administração da
em Saúde Pública, equivalente Escola de Administração e Negócios
ao NIH, dos EUA, é referência na Universidade de Tel Aviv, onde
internacional na área. O Sheba leciona Políticas de Saúde e Temas
mantém, ainda, um banco nacional Econômicos, Gerenciamento de
de sangue venoso e cordão umbilical. Sistemas de Saúde, Gerenciamento
de Risco e Garantia de Qualidade
“Nosso lema é: Nós nos dedicamos à em Medicina.
saúde de nossos pacientes e estamos
comprometidos com a qualidade do Histórias de sucesso
atendimento. Queremos oferecer o
que há de melhor e mais avançado à Em 2015, foi colocada a pedra
sociedade sem abrir mão do aspecto fundamental do Instituto de
humano”, costuma dizer Dr. Zeev Imuno-Oncologia, que está

36
REVISTA MORASHÁ i 91

foi pensado para aumentar o bem- chefe do Instituto Ella para 2015. No ano passado o Instituto
estar das crianças hospitalizadas Pesquisa e Tratamento de Melanoma ultrapassou a marca de mil
e seus acompanhantes. “Tanto e Câncer de Pele, é o responsável implantes. Segundo Rotstein,
o Departamento de Oncologia pelo desenvolvimento de um novo graças a seus antecessores e aos
quanto o de Pediatria são sonhos e revolucionário medicamento, o milhares de profissionais devotados
realizados”, diz Rotstein. CKAM1, que foi vendido para a ao hospital ao longo de quase sete
Merck, uma das maiores empresas décadas, o Sheba Medical Center
Como sempre afirma o CEO da farmacêuticas do mundo. tem estado à frente de inúmeros
instituição, o Sheba é grandioso avanços médicos no país e no
em suas instalações, mas o que faz O professor Aviram Nissan, chefe exterior. “Temos desempenhado
a diferença são seu corpo clínico do Departamento de Cirurgia, um papel estratégico em várias
e acadêmico. Vários exemplos é o responsável pelo aumento áreas, destacando-se a área de
revelam a dedicação e a excelência significativo do número de reabilitação. Investimos milhões
dos profissionais que lá atuam e cirurgias realizadas na área de para oferecer a cura aos soldados
que se dedicam ao crescimento neoplasias malignas da cavidade feridos, às vítimas do terror e a
do Sheba. Em 2015, por exemplo, do peritônio. Ao lado do professor crianças, judias e árabes, vítimas
os professores Shlomo Noy, Motti Gutman e do Dr. Aviad de neoplasias e defeitos congênitos
vice-presidente para Pesquisa e Hoffman, o professor Nissan do coração, entre outros. No entanto,
Desenvolvimento, e Anat Achiron, realizou cerca de 100 cirurgias em não se trata apenas de oferecer a
vice-reitora, aprovaram junto ao 2015, combinando a remoção radical melhor tecnologia e os melhores
Conselho de Educação Superior a de metástases no abdômen seguidas medicamentos, mas também,
criação de um programa de de quimioterapia aquecida. Como confortar aqueles que nos procuram
Medicina de quatro anos no resultado, um terço dos pacientes aflitos pelas mais variadas razões.
hospital, um projeto conjunto se curam e a expectativa de vida de Nossos quase sete mil profissionais
do Sheba com a Universidade outro terço aumenta. estão comprometidos com o mais
Hebraica de Tel Aviv, a Universidade alto padrão de medicina e, o mais
St. Georges de Londres e a O Instituto de Audiologia também importante, com o que chamamos
Universidade da Nicósia. registra êxitos. Sob a coordenação de “o espírito Sheba”, o toque
da Dra. Yael Henkin, tem crescido humano, que é o que nossas equipes
O professor Gal Markel, o mais o programa de implante coclear, oferecem aos pacientes e seus
jovem professor de Israel e cientista- que se tornou o maior do país em familiares”.

37 abril 2016
personalidade

Karnit Flug, uma mulher à


frente do Banco de Israel
Em novembro de 2013, a Dra. Karnit Flug ganhou as
manchetes dos jornais israelenses e internacionais
por ter-se tornado a primeira mulher a assumir o cargo
de Governadora do Banco de Israel, função equivalente
à de presidente do Banco Central do Brasil.

A
Dra. Karnit Flug foi um dos nove como governadora interina, foram decisivos para sua
governadores de bancos centrais a receber confirmação na direção do Bank of Israel.
a classificação máxima na conferência O que teria feito para que Netanyahu decidisse
anual do FMI e Banco Mundial. Após confirmá-la no cargo? Durante um debate de rotina
a cerimônia, ela declarou aos jornalistas: perante o Primeiro Ministro e várias outras autoridades,
“O Bank Israel tem uma equipe do mais alto nível Karnit Flug explicou por que, em sua capacidade de
profissional e me sinto privilegiada de que nosso trabalho governadora interina do Banco desde 1º de julho, optara
tenha merecido, novamente, grande apreço na arena por reduzir as taxas de juros do país. Netanyahu ficou
internacional”. extremamente impressionado com sua análise e a clareza
de sua linha de raciocínio em seu relatório sobre suas
Karnit Flug já atuara como vice-governadora conversas com Ben Bernanke and Janet Yellen.
da instituição na gestão de seu antecessor,
Stanley Fischer, sendo que este último foi quem Como Governor do Bank of Israel, Flug é, por lei, o
indicou seu nome para sucedê-lo. Ela passou a assessor econômico do governo. E o Departamento
ocupar oficialmente o cargo 112 dias depois que seu de Pesquisas do Banco conduz os estudos sobre a
antecessor se afastou da função. Esse vácuo foi visto economia de Israel, delineando a base de pesquisa para
com preocupação pelos economistas israelenses, a discussão pública nas áreas que fazem parte da pauta
pois isso jamais ocorrera desde a criação do Banco. dos legisladores econômicos. Os problemas são vários
Segundo fontes ligadas ao governo, esse lapso se e em seu discurso de posse em 13 de novembro do ano
deveu à resistência do primeiro-ministro Binyamin passado ela mencionou os mais importantes:
Netanyahu em confirmá-la no cargo, pois sua preferência
direcionava-se a outros candidatos. Ainda segundo “Antes de mais nada, precisamos encontrar formas de
comentaristas econômicos israelenses, o trabalho aumentar a taxa de crescimento da produtividade na
realizado por Flug ao longo dos anos e, principalmente, economia israelense. Há um tremendo potencial nos
nos meses após a saída de Fischer, quando atuou trabalhadores do país, mas o PIB real por trabalhador

38
REVISTA MORASHÁ i 91

Karnit Flug recebendo o certificado das mãos do então presidente shimon peres

não se equipara ao das economias crescimento econômico inclusivo e melhorar nossas habilidades através
mais avançadas, e, por conseguinte, sustentável. E acredito que para esse do treinamento vocacional, melhorar
a economia não consegue fim há uma necessidade de aumentar a educação de todos os setores da
proporcionar aos cidadãos um a produtividade do setor empresarial; sociedade. Estas são as categorias
padrão de vida alinhado com o das e isto se baseia em infraestrutura, em gerais. Há a necessidade de
economias mais desenvolvidas. promover a inovação, melhorando o continuar nossos esforços de integrar
O principal objetivo do Banco é ambiente empresarial – não estamos grupos que têm baixos índices de
manter a estabilidade de preços, bem classificados no ranking “fazer participação no mercado de trabalho,
já que se trata de uma condição negócios” do Banco Mundial... – especialmente os homens ultra-
necessária para uma economia ortodoxos e as mulheres árabes”.
pujante e em desenvolvimento”.
Para a economista, aumentar
Em fevereiro de 2015, em uma a produtividade e enfrentar as
das primeiras entrevistas a um jornal questões relativas à pobreza são dois
desde que assumiu o cargo grandes desafios para o Governo.
de governadora interina do Banco Ela está muito preocupada em
de Israel, Karnit Flug, declarou, fortalecer o shekel perante o dólar,
como já o fizera inúmeras vezes, principalmente devido ao efeito
“que a economia de Israel é uma que causa sobre o desemprego. Em
economia aberta, e como tal, sua tese de doutorado, “Políticas
grandemente impactada pelos governamentais em um modelo de
desenvolvimentos no exterior”. equilíbrio geral entre o comércio
internacional e o capital humano”,
“A meu ver, o principal objetivo dedicou grande atenção ao mercado
da política econômica deve ser o com o primeiro ministro bibi netanyahu de trabalho israelense. Para ela, as

39 abril 2016
personalidade

afirmou que dificilmente essa taxa


subiria, no futuro próximo.
Sem tocar na taxa de juros,
Flug tem dando a entender que
estava querendo usar “outros
instrumentos”, como a flexibilização
monetária, a tão falada “quantitative
easing”, se necessário. Ela entrou
numa discussão, de igual para igual,
com o ex-Ministro das Finanças,
Yair Lapid, com o seu jeitinho
calmo, mas bem direto de falar,
contra políticas dele, como o já
extinto plano de habitação de IVA
zero.

Ao responder à pergunta se
apresentando a nova cédula de 50 shekels durante reunião com a imprensa, no
acreditava que a ameaça de boicotes
bank of israel, set. 2014 políticos fosse impactar a economia
de Israel, a governadora do Bank
empresas de tecnologia de ponta até financeira ou bancária, estamos of Israel respondeu: “Acredito
podem aguentar um dólar fraco, mas pensando no bem-estar das famílias, que, até agora, não vimos nenhum
as indústrias exportadoras low-tech dos consumidores e das pessoas”. efeito substancial causado pelos
que consequentemente dependem boicotes. Tampouco vimos boicotes
de mão-de-obra e que têm grandes Nessa mesma entrevista ela afirmou substanciais… E imagino que o
contingentes de funcionários que o fato de ser mulher nunca Ministério das Relações Exteriores
não o conseguem. Eles necessitam foi um problema para ela nessa esteja realmente monitorando e
pagar seus funcionários em shekel área dominada por homens. E tentando identificar essa questão
e recebem dólares desvalorizados demonstrou que não tem medo de com a antecedência necessária. Isto
em troca. O resultado será dar passos ousados, ao diminuir a dito, como somos uma economia
demissões em massa. É verdade taxa de juros a um patamar histórico pequena, aberta e voltada às
que as grandes indústrias se dão bem de 0,1%, um mês depois de assumir exportações, os mercados abertos e
com o empenho do Bank of Israel o cargo interinamente. E ainda receptivos são fator importante para
para enfraquecer o shekel vis-à-vis o nossa performance”.
dólar. Mas o que preocupa Flug é o
trabalhador e o desemprego... Sua Vida

A Dra. Flug acredita que a Pouco se sabe sobre a vida de Karnit


estabilidade financeira, lado a lado Flug, pois ela faz questão de manter
com a concorrência e a justiça social, sua vida pessoal longe da mídia.
interessa a todos os cidadãos e a
todas as famílias, em qualquer país. Ela nasceu na Polônia, em 9 de
“Passamos por crises no mundo janeiro de 1955. Seus pais, Noah
todo que incluíram crises financeiras e Dorota Flug nasceram em 1925
ou quebras bancárias, e o custo em Lodz, também na Polônia.
em termos de sofrimento humano Durante a 2a Guerra Mundial, eles
nesses países foi muito mais severo – se juntaram ao movimento juvenil
e há dados empíricos sobre isso – do subterrâneo no gueto de Lodz. Mais
que em países que não vivenciaram tarde, seu pai foi preso nos campos
esses problemas. Portanto, acho de Auschwitz, Gross-Rosen e
que quando falamos de estabilidade Mauthausen, ao passo que sua mãe

40
REVISTA MORASHÁ i 91

Karnit Flug foi nomeada para o lugar de Stanley Fischer, na foto, como governor do Bank of Israel

A Dra. Flug acredita que a estabilidade alguns anos no Departamento de


Pesquisa do Banco de Israel. Nessa
financeira, lado a lado com a concorrência função, publicou artigos sobre vários
e a justiça social, interessa a todos os temas, incluindo macroeconomia,
mercado de trabalho e políticas
cidadãos e a todas as famílias, em qualquer país. sociais. Ao longo de sua vida
profissional, a economista participou
de vários comitês públicos e privados,
foi levada a Auschwitz, Bergen- Casada com Saul Lach, diretor do incluindo o Comitê para Aumento
Belsen e Salzwedel. Departamento de Economia da da Competitividade na Economia,
Universidade Hebraica de Jerusalém, o Comitê para Mudanças Sociais
Sobreviveram à Shoá e, em 1958, Karnit Klug tem dois filhos, Maya e Econômicas (“The Trajtenberg
quando Karnit tinha 3 anos, a família e Michel, e vive com a família Committee”), Comitê do
fez Aliá para Israel. Seu pai trabalhou no bairro de Beit HaKerem, em Orçamento de Defesa (“The Brodet
no serviço civil durante 30 anos, Jerusalém. Committee”) e o Comitê para
como economista no Departamento Estudo do Aumento da Idade das
de Orçamentos do Ministério da Karnit formou-se em Economia Mulheres para a Aposentadoria.
Fazenda, como Assessor Econômico pela Universidade Hebraica de
do Comitê de Finanças do Knesset, Jerusalém, instituição onde fez o De 1994 a 1996 atuou como
como Cônsul Econômico em Mestrado em Economia, em 1980. pesquisadora em Economia no
Zurique e na Embaixada de Israel Fez o Doutorado em 1985, na Banco Interamericano de
em Bonn. Após se aposentar do Universidade de Columbia, em Nova Desenvolvimento, retornando à
serviço público, ele trabalhou para York (EUA), com a tese “Políticas instituição israelense em 1997,
proteger os direitos e a honra dos governamentais em um modelo de quando foi nomeada vice-diretora
sobreviventes e perpetuar a memória equilíbrio geral entre o comércio do Departamento de Pesquisa. Em
do Holocausto. Até o dia de sua internacional e o capital humano”. 2001, assumiu a chefia do setor e foi
morte, serviu como Presidente nomeada membro do Departamento
do Centro de Organizações dos Ela iniciou sua carreira no Fundo de Gerenciamento da instituição,
Sobreviventes do Holocausto, em Monetário Internacional, em 1984, posição que manteve até 2011,
Israel. Sua mãe, Dorota, sempre como economista, retornando a Israel quando foi indicada vice-governadora
trabalhou como pediatra. em 1988, onde trabalhou durante do Banco de Israel.

41 abril 2016
atualidade

O começo da
corrida à Casa Branca
jaime spitzcovsky

Embora ainda em eleições primárias, quando pré-candidatos


disputam a indicação de seu partido, a corrida para a Casa
Branca mostra contornos cada vez mais definidos, com um
cenário que, meses antes do pleito de novembro, já consegue
polarizar com intensidade o debate político nos EUA.

A
disputa interna, quando republicanos e fogo no pré-candidato. Em debate televisivo no
democratas escolhem seus candidatos, se começo de março, Trump teve que enfrentar uma
estende até a metade do ano, mas dois saraivada de críticas por posições como “neutralidade
nomes já despontam como franco favoritos: no conflito israelo-palestino”.
Donald Trump e Hillary Clinton. E
polêmicas ligadas a Israel e judaísmo ocupam papel de O primeiro golpe veio do senador Ted Cruz, do Texas.
destaque no início da campanha. “Como presidente, não serei neutro”, afirmou o pré-
candidato, para acrescentar: “Não creio que precisemos
O empresário Donald Trump monopolizou de um comandante-em-chefe que seja neutro entre
manchetes no começo de 2016 ao surpreender com terroristas palestinos e um de nossos maiores aliados no
sólido desempenho nas primárias iniciais e provocar mundo, a nação de Israel”.
rapidamente terremotos políticos, como a rápida
desistência de Jeb Bush, surpreendido por uma magra O pré-candidato Marco Rubio, senador pela Flórida,
votação entre republicanos. Trump adota um discurso que, em seguida, abandonaria a disputa, também não
com forte apelo conservador, atraindo setores da poupou o adversário com mais força desde o início
sociedade norte-americana preocupados, por exemplo, das primárias republicanas. “A política que Donald
com as mudanças demográficas no país. Estatísticas delineou, eu não sei se ele percebe, é uma política anti-
apontam, entre outras tendências no país, a manutenção Israel: Não há acordo de paz possível com os palestinos
do aumento da população hispânica. no momento atual”. Governador de Ohio de olho
na Casa Branca, John Kasich participou do debate
Trump, um megaempresário sem biografia política, e reforçou o coro de críticas: “Não acredito que haja
seduz republicanos cansados das lideranças tradicionais nenhuma solução de paz permanente no longo prazo”.
do partido. A inesperada ascensão e fortalecimento
promoveu um cataclisma político responsável por levar Donald Trump anunciou uma posição de neutralidade
seus adversários na disputa pela indicação a centrarem no conflito israelo-palestino, argumentando ser

46
REVISTA MORASHÁ i 91

Casa Branca, em Washington

pré-requisito para negociar um Ivanka Trump converteu-se ao No campo do Partido Democrata,


acordo no Oriente Médio. No debate judaísmo em 2009. Casou-se em questões judaicas e do Oriente
da CNN, ele reiterou a estratégia, seguida com Jared Kushner, de Médio também contribuíram para
definiu-se como ardente defensor família judaica de Nova Jersey. Em modelar o início da disputa pela
do Estado judeu e argumentou: “Eu entrevista à revista Vogue, a ex- indicação partidária. Hillary Clinton
gostaria de, ao menos, ver o outro modelo e empresária mencionou, voltou a pleitear o cargo, iniciando
lado pensar que sou relativamente por exemplo, que a família observa a a disputa como favorita, a exemplo
neutro em relação a eles, de forma tradição do Shabat (shomer shabat) e do que ocorreu em 2008. Naquela
que pudéssemos talvez fechar um da kashrut. ocasião, no entanto, foi surpreendida
acordo”. por um senador de Illinois, chamado
Donald Trump também foi fustigado Barack Obama.
O empresário, diante das câmeras, durante o debate da CNN por não
partiu para a ofensiva e afirmou se comprometer a anular o acordo Oito anos depois, a ex-primeira-
que, no palco, ninguém seria nuclear assinado com o Irã, em dama volta a sonhar com a Casa
mais pró-Israel do que ele. 2015. O pré-candidato definiu o Branca. E, no seu caminho, surgiu
Mencionou seu papel de liderança tratado, uma das maiores apostas um rival do Partido Democrata,
em uma manifestação em favor diplomáticas do presidente Barack chamado Bernie Sanders, senador
do Estado judeu, ocorrida em Obama, como um fracasso, mas pelo estado de Vermont. Com 75
Nova York, em 2004. “Eu tenho evitou sacramentar a anulação, caso anos, nascido em Nova York, o
muito, eu tenho um tremendo chegue à Casa Branca. Disse que, aspirante a candidato democrata já
amor por Israel”. Em seguida, antes de qualquer atitude, consultaria fez história, ao se tornar o primeiro
recorreu a temas familiares. “Por especialistas no assunto, em contraste judeu a vencer uma primária na
acaso, tenho um genro e uma filha com a posição de Ted Cruz e Marco corrida para a Casa Branca. O fato
que são judeus, ok? E dois netos que Rubio. Ambos falaram em desfazer o ocorreu em fevereiro, em New
são judeus”. entendimento com Teerã. Hampshire.

47 abril 2016
atualidade

Os candidatos: Marco Rubio, Ted Cruz, Bernie Sanders, Donald Trump e Hillary Clinton

Outros judeus disputaram primárias, víamos pessoas em suas lojas, com No enfrentamento com Bernie
como os senadores Arlen Specter, números em seus braços porque Sanders, crítico frequente do
da Pensilvânia, em 1996, e Joe haviam passado por campos de primeiro-ministro Binyamin
Lieberman, de Connecticut, em 2004. concentração de Hitler”. Netanyahu, Hillary Clinton buscou
Quatro anos antes. Liberman foi vice explorar diferenças de abordagem em
na chapa encabeçada por Al Gore, no Sanders, no entanto, não entusiasma relação a Israel. A ex-primeira-dama
pleito vencido por George W. Bush. o eleitorado judaico norte-americano, prometeu, caso eleita, convidar “Bibi”
tradicionalmente mais democrata do para a Casa Branca ainda no primeiro
Sanders, que se define como que republicano. Pesquisas recentes mês do mandato e “levar os laços
“socialista”, alimenta polêmicas sobre apontam que o partido do presidente bilaterais a um patamar superior”.
sua identidade judaica. Ao longo Obama conta com apoio de 64%
da carreira política, dedicou escassa dos judeus dos EUA, enquanto Hillary tem procurado construir
relevância ao assunto. Sobre Israel, republicanos amealhariam cerca de um discurso que amenize a tensão
assumiu posições bastante críticas 25% de preferências. registrada, ao longo dos últimos anos,
em relação a diversos governos no relacionamento entre o primeiro-
do Estado judeu, onde passou Hillary Clinton desponta, ministro israelense e o presidente
alguns meses, nos anos 1960, como portanto, como a candidata com norte-americano. A pré-candidata
voluntário em um kibutz. mais apoio entre eleitores judeus chegou a falar em “reconstruir o
norte-americanos. Apoia-se, além laço inquebrantável” que une os dois
Em debate na campanha das dos vínculos históricos entre a países e, em mais de uma ocasião,
primárias, o senador foi questionado comunidade judaica e democratas, falou de sua “conexão emocional”
sobre seu vínculo com o judaísmo. nas relações construídas ao longo com a Terra de Israel. E, de olho na
“Tenho muito orgulho em ser de décadas de ação política, como manutenção do tradicional apoio
judeu e ser judeu é parte tão primeira-dama, senadora e secretaria da maioria dos eleitores judeus aos
importante de quem eu sou”, de Estado, cargo que ocupou no democratas, sustentou que “fará
argumentou. “A família de meu primeiro mandato de Obama. todo o possível para fortalecer a
pai foi exterminada por Hitler no E existe também uma dimensão parceria estratégica e fortalecer o
Holocausto. Eu sei o que significam familiar. Chelsea, filha de Hillary compromisso de segurança dos
políticas extremistas, radicais, e Bill Clinton, casou-se em 2010 Estados Unidos com Israel”.
insanas. Aprendi essa lição como com o judeu Marc Mezvinsky,
uma criança pequena, quando minha filho de um casal de ex-deputados jaime spitzcovsky foi editor
internacional e correspondente da
mãe me levava às compras e nós democratas. folha de s. paulo em moscou e em pequim.

48
HISTÓRIA

Os Judeus e a Medicina
Sergio D. Simon

Há algum tempo, no final de uma consulta, recomendei à


minha paciente que procurasse um determinado especialista
para acompanhá-la junto comigo. A paciente, uma senhora
já idosa, católica, ostentando um grande crucifixo no
pescoço, me pediu: “Doutor, o senhor se incomodaria de me
recomendar um outro especialista, mas um que fosse judeu?

M
inha avó, que era portuguesa, sempre nos por Assaf ben Berechiahu (também conhecido por
ensinou que devíamos procurar médicos Assaf ha Rofé) e Yohanan ben Zabda. É um livro
judeus, porque esta é uma velha tradição que abrangia conhecimentos médicos da Mesopotâmia,
na nossa família. Parece que em Portugal, do Egito, da Índia e dos países mediterrâneos da
há séculos, se recomenda, sempre que época, principalmente da Grécia. Acompanhava o
possível, que se procure um médico judeu, porque são os livro um “Juramento de Assaf ”, que, de maneira muito
melhores”. Surpreso com esta observação, decidi buscar interessante, é bastante parecido com o Juramento
fontes históricas que confirmassem o que me contava de Hipócrates usado pelos formandos em Medicina
essa senhora. até os dias de hoje. Entre outros tópicos, o Juramento
de Assaf proíbe o médico, por exemplo, de causar
E foi sem muito esforço que descobri que realmente, ao intencionalmente a morte de um doente por meio
longo de muitos séculos, na Europa, reis e nobres, famílias de ervas ou poções; obriga o médico a guardar
abastadas e até o próprio Papa, optavam, quando possível, segredo sobre seus pacientes, além de inúmeras outras
por médicos judeus. Essa figura arquetipal de um médico considerações que continuam bastante atuais.
judeu remonta até mesmo à Babilônia do século III, onde
se dizia que um sábio talmúdico de nome Samuel, que se O Sefer Refuot advoga que os médicos dediquem
expressava em aramaico, era tão conhecedor da anatomia especial atenção aos pobres, num cuidado social
humana e das regras higiênicas dos judeus que era capaz provavelmente originado nos escritos dos profetas.
de curar todas as doenças, menos três1. O Sefer Refuot estabeleceu entre os judeus a
figura singular do médico como uma profissão
O grande livro de Medicina do povo judaico, o Sefer diferenciada, a ser cultuada com muito estudo
Refuot, entretanto, apareceu por volta do século IV, escrito e muita humildade. Talvez daí venha a fama dos
judeus como especialmente ligados à arte da cura.
Existem ainda 15 manuscritos completos do Sefer
1
Não há referência na bibliografia sobre quais seriam essas três doenças. Refuot, todos em coleções de museus europeus, a mais

49 abril 2016
história

médico italiano em visita ao paciente. iluminura do cânone de medicina de avicena

bem conservada no Museu de ainda tem considerável autoridade


Munique. canônica como uma grande
compilação da lei talmúdica.
No século XII, por exemplo, no Grande conhecedor das bases
Cairo, um rabino-filósofo judeu de da Medicina grega, Maimônides
nome Moshe, que se expressava em publicou dez volumes sobre temas
árabe e era grande estudioso da Lei e médicos, entre eles a grande
da Medicina judaicas, era procurado farmacopeia da época, com 405
durante as Cruzadas tanto por parágrafos sobre todas as drogas
monarcas cristãos quanto por califas então conhecidas, e com todos os
muçulmanos, devido à eficácia de nomes por ele traduzidos para o
suas curas. árabe, o grego, o siríaco, o persa, o
berbere e o espanhol. Maimônides
Na Europa medieval, entretanto, praticou medicina no Marrocos e no
a grande figura médica judaica Egito, onde se tornou uma referência
foi, sem dúvida, Maimônides. na época, recebendo pacientes de
Moshe ben Maimon, também regiões tão distantes como o Iraque e
conhecido pelo acrônimo de a Espanha.
Rambam, nasceu em Córdoba,
na Espanha, provavelmente em Mas nesta mesma Europa medieval,
1135, tendo morrido no Cairo vários éditos e legislações tentavam
em 1204 e levado a Israel para ser proibir que médicos judeus
enterrado em Tiberíades. O grande atendessem pacientes cristãos. Uma
Maimônides, homem de intelecto delas, por exemplo, promulgada por
privilegiado, tornou-se um grande Carlos II na Provença, em 1306,
filósofo, cientista e rabino, tendo dizia especificamente: “Ordenamos
lançado as bases da fé judaica como que ninguém, quando acometido
a conhecemos hoje em dia. Sua por enfermidade, busque um
moshe ben maimon, maimônides obra Mishne Torá, em 14 volumes, médico judeu ou qualquer outro

50
REVISTA MORASHÁ i 91

infiel para conseguir dele, ou através de médicos judeus em conventos


dele, conselhos e tratamentos. Um europeus. Na mesma Toledo do
médico judeu chamado por um Arcebispo Don Pedro Tenório, seus
cristão pagará uma multa de 10 padres apressaram-se a contratar os
libras da nova moeda (reforsas) e, se médicos Yosef (Yucaf ) e Avraham,
ele se recusar a pagar dita multa, ele o primeiro por um pago de 333
será flagelado...”. Mas estes éditos, maravedís2 por ano, o segundo por
aparentemente, eram ignorados por apenas 200...
grande parte da população. A figura
do médico judeu era simplesmente Todos os dignatários da Igreja
muito forte no imaginário popular. sabiam que transgrediam a lei.
Tanto assim que, em 1341, o Sínodo Numa interessante carta de
de Avignon revogou esta ordem, queixas de Arnoldo de Villanova
de maneira muito clara, alegando ao Rei Frederico III de Nápoles,
“utilidade pública”, “urgência” e esta frustração fica clara: “Não
“escassez de médicos cristãos”. há um só convento que não haja
Aparentemente a própria Igreja contratado médicos judeus. Vemos
sabia que não era possível proibir que o costume é de que nenhum
o acesso dos cristãos aos médicos outro médico entre nos conventos,
judeus. portrait de moses hamon, médico de
a menos que seja judeu. Isto tanto
suleiman, o magnífico. gravura em nos conventos dos padres quanto
madeira, nicolas de nicolai’s, lyon 1568
O próprio Papa Nicolau IV tinha nos das freiras...”. Alguma reação
como seu médico de cabeceira o era esboçada pela Igreja, como o
Mestre Gaio, o Judeu (Isac ben clérigos da Igreja contratando Cabildo Catedral de Cartagena,
Mordechai) até sua morte, em 1292. serviços de médicos judeus são em Murcia, que, em 1470,
E o importante Papa Bonifácio IX bem documentados também substituiu um médico judeu por
(papado de 1389-1404) teve dois na Alemanha, em Portugal, em um cristão chamado Martin Jaimes,
médicos judeus: Angelo Manuelis, Luxemburgo e na Espanha. argumentando que “será preferível
amigo íntimo e declarado “familiaris” ter um médico cristão do que um
pelo papa, e Salomão de Matasia de E quando chegamos aos próprios judeu atendendo a Igreja”. Com
Saubauducio, que continuou depois padres da Igreja Católica, há o mesmo sentimento, entretanto,
como médico do Papa Inocêncio inúmeros registros de contratos os padres do mosteiro de Burgos
VII, que sucedeu Bonifácio IX.

Entre o alto episcopado católico


o quadro não era muito diferente.
Em 1398 o poderosíssimo Don
Pedro Tenório, Arcebispo de Toledo,
contratou o Mestre Haim Ha-Levi
como seu médico particular. Já o
Bispo de Avignon, Don Nicolau,
contratou em 1443 o médico
Bonsenior Vitalis, que aparece pouco
depois como médico também do
Arcebispo de Aix-en-Provence.
Inúmeros outros exemplos de altos

2
Maravedí: Moeda de ouro ou prata (“maravedí
de plata”) da Península Ibérica, usada
principalmente na Espanha dos Almorávidas. corte transversal do olho, identificando as membranas e os humores aquosos.
Provem do árabe marabet. manuscrito da provença, c. 1400

51 abril 2016
história

em visita ao doente. praga, c. 1780. óleo sobre tela. museu judaico

também reconhecem que seria o médico judeu que os atendia, vontade em pagar pelos serviços
melhor um cristão, mas acabam um certo Dr. Samuel. Há ampla de um médico judeu, não pela sua
contratando Rabi Samuel (Simuel) documentação de dispensas papais eventual falta de competência, mas
como médico da instituição, com para médicos judeus a partir de simplesmente por ser judeu, numa
um salário de mil maravedís por ano. 1426, quando o Papa Pio II permitiu época de grande perseguição por
Assim, a medicina dos poderosos que dois médicos judeus atendessem parte da Igreja Católica. Quando
europeus era, quase sempre, cristãos. A última delas foi para se observa a deterioração global
praticada por médicos judeus ao “Doctor Benjamin (Gullielmo) da relação entre judeus e Igreja
longo de toda a Idade Média. Salamonis”, um médico judeu de Católica na época, com acusações
Massa, na Itália. Essas dispensas fantásticas, instituição do ghetto em
A situação piorou muito para papais eram documentos complexos, várias cidades européias, restrições
os judeus europeus no fim da nas quais se externava a esperança de à prática da usura, e, finalmente,
Idade Média e nos séculos da que, através do contato diário com a sua expulsão de vários países,
Renascença. A partir do século XV, pacientes cristãos, os médicos judeus não é de se admirar que a relação
a Igreja Católica aumentou muito encontrassem o verdadeiro caminho com os médicos judeus também
seu discurso contra “os inimigos da salvação. As dispensas lembravam tenha sofrido enormemente. Mas,
da cruz”, e esta perseguição e ainda aos médicos judeus que mesmo assim, os médicos judeus
discriminação acabaram levando à eles deveriam permitir a extrema- continuaram sua prática por toda a
expulsão dos judeus da Península unção aos seus pacientes cristãos, e, Europa.
Ibérica e ao aparecimento da inclusive, induzi-los a isto.
Inquisição. Mesmo nessa época, Descrições da época mostram
entretanto, os médicos judeus Mas a dispensa papal não era como eram vistos e como agiam
continuavam em voga. Os anciãos garantia de emprego e segurança os médicos. Relatos detalhados de
religiosos (“anziani”) de Lucca, para os médicos judeus da época. Kalonymus ben Kalonymus, de
por exemplo, eram temerosos de Há casos como os de Mestre Elia, Arles, e de Shem Tov Falaquera, de
continuar empregando médicos na cidade de Assisi, e de Daniel da Navarra, mostram os médicos como
judeus devido à intensa propaganda Castro, na cidade de Bagnoregio, pessoas de destaque e respeito na
antijudaica da Igreja. Mas passaram que terminaram desempregados. sociedade, mas muitas vezes com
a instituir, então, uma dispensa papal Apesar de possuirem a bolla papal, uma certa arrogância e pompa, por
(“bolla”)para manter empregado a população não mais se sentia à eles ridicularizada.

52
REVISTA MORASHÁ i 91

1 2 3

4 5 6
1. sigmund freud 2. albert sabin 3. jonas salk 4. Rita Levi-Montalcini 5. Robert Koch 6. Paul Ehrlich

Ambos descrevem como o médico, vestindo Em 1930, apesar de décadas de forte


um rico manto bordado, atendia em sua casa antissemitismo europeu, os estudantes judeus
vários pacientes de uma só vez ou fazia visitas ocupavam 11% das vagas nas faculdades de
domiciliares a pacientes acamados. Tomavam medicina na Alemanha - todos expulsos já
o pulso, examinavam a língua e os olhos, em 1933, meses após a ascensão de Hitler ao
1 cheiravam o hálito do doente e analizavam
2 poder. 3
longamente um frasco de urina contra a luz
de uma janela antes de darem seu diagnóstico Portanto, não foi surpresa quando, nos
e de receitarem laxantes, remédios à base de primeiros 100 anos de outorga do Prêmio
ervas, aquecimento do corpo e aplicação de Nobel, constatou-se que 26% dos laureados
sanguessugas. em Medicina eram judeus! Este número,
absolutamente fora das proporções esperadas
A situação dos médicos judeus na Europa, para um povo que constituia 1% da população
com um misto de admiração e ódio por européia na época, se deve à longa ligação do
parte dos cristãos, só veio a se modificar povo judeu com a Medicina.
com o advento da Revolução Francesa e
4
do movimento do Iluminismo alemão, 5
que De Assaf HaRofé a Maimônides,
5
passando
permitiu o acesso de estudantes judeus às por toda a classe médica judaica da Idade
grandes universidades. Média, chegando aos gigantes do século
XX, como Robert Koch, Paul Ehrlich, Karl
Devido à longa tradição médica judaica Landsteiner, Sigmund Freud, Otto Meyerhof,
na Europa, as faculdades de Medicina Rita Levi-Montalcini e inúmeros outros,
receberam um grande número de estudantes a Medicina tem sido um grande campo de
judeus, desproporcional à sua distribuição na atuação do povo judeu.
sociedade. Ao longo de todo o século XIX os
judeus foram ocupando postos de destaque Assim, ficou claro que minha paciente,
na pesquisa médica européia, principalmente pedindo-me uma indicação de um médico
Sergio D. Simon
é médico e na Alemanha e na Áustria. Vários professores que fosse judeu, seguia apenas uma tradição
presidente do catedráticos foram preenchendo vagas nas secular européia: a de associar judeus à boa
Museu Judaico
de São Paulo. grandes universidades. medicina.

53 abril 2016
israel

Mulheres por trás


das unidades de combate
As mulheres desempenharam um papel fundamental no
estabelecimento do Estado de Israel. Sem discriminação
ou preconceitos, ajudaram a escrever páginas e páginas
desta importante história.

Q
uando a existência de um Estado Judeu A situação mudou na década de 1980, quando o
era ainda um sonho, lado a lado com os alto comando das FDI tomou uma decisão: permitir
homens as mulheres judias exerceram a participação feminina como instrutoras de combate.
as mais diferentes funções, inclusive na Duas décadas depois, ficou evidente o acerto dessa
proteção dos kibutzim e das aldeias de decisão. Segundo a tenente coronel Shirli Karni, vice-
Eretz Israel. Aprenderam a lutar e atirar e ajudaram na assessora do diretor de Assuntos Femininos,
elaboração de estratégias para organizar a defesa. o treinamento de combates da FDI aprimorou-se
muito nos últimos 20 anos e atualmente os instrutores
A história está repleta de exemplos de mulheres são em sua maioria mulheres.
combatentes nas batalhas que antecederam a formação
do moderno Estado de Israel. Com coragem e No entanto, as mulheres ainda não podem servir em
determinação atuaram infiltradas como agentes, na todas as posições de combate. Mas Shirli acredita
retaguarda, e nas frentes de combate. Havia mulheres que a luta pela igualdade de direitos nas forças armadas
lutando no Palmach, na Haganá, no Irgun. Lutaram na israelenses já foi vencida. “Ninguém mais se pergunta
Guerra de Independência, estando inclusive presentes da se se deve ou não permitir a presença feminina em
defesa de Jerusalém, em 1948. posições de luta e comando. A única pergunta
é como e quando. As FDI passaram por mudanças
Em 1953, porém, cinco anos após a Declaração profundas em seus valores de tal forma que estas são
de Independência, o então primeiro-ministro David irreversíveis”.
Ben-Gurion decidiu que elas deveriam servir nas
Forças de Defesa de Israel (FDI) em funções Anualmente, cerca de mil mulheres jovens, ao término
burocráticas. Assim, nos 30 anos seguintes, com do Ensino Médio, tentam tornar-se instrutoras de
poucas exceções, atuaram em atividades ligadas à área combate das FDI. Apenas 25% das candidatas são aceitas
de saúde e nos escritórios das FDI como secretárias, e, após um breve período de treinamento generalizado,
porta-vozes etc. são encaminhadas a uma base específica para sua

54
REVISTA MORASHÁ i 91

capacitação. Pode ser uma base pelo povoado de Machtesh Ramon na mente os valores e ideais que
de infantaria, blindados, artilharia, e seguir em direção ao sul por devemos agregar ao treinamento”.
entre outras. A mais cobiçada, uma estrada na qual os ônibus não Lidar com jovens recém-saídas
no entanto, é a remota base dos avançam. do colégio não é tão simples. Sua
Batalhões de Engenharia, no primeira reação ao chegarem à base
Neguev. Para ostentar a boina A atual coordenadora dos cursos de
prateada e a insígnia desse batalhão treinamento de combate da base é
é preciso passar por um dos cursos a Tenente Liron, de 23 anos, cuja
mais completos e árduos das FDI. aparência é totalmente oposta ao
que se imagina para alguém nessa
Com quatro meses de duração, o função. Criada em um bairro da
programa é oferecido duas vezes cidade de Kochav Yair, não muito
por ano e tem como foco principal distante de Kfar Saba, ela não se
a destruição das defesas inimigas. alistou logo após o término do
Sabotagem e desmonte de minas Ensino Médio, optando por trabalhar
estão entre os temas principais do como voluntária durante um ano
treinamento. O uso de explosivos com crianças, em Afula. Muito bem
nos campos de batalhas, o articulada, termos como moral,
deslocamento em campos minados valores e sociedade estão sempre
e a explosão de barreiras são itens presentes em suas conversas. Sobre
presentes no programa. isso, diz aos visitantes: “Eu tento
mesclar aquilo em que acredito com
Para chegar à Base dos Batalhões de os valores do exército. Meu objetivo
Engenharia no deserto de Neguev, não é apenas treinar pessoas para uma
ao sul de Beersheva, é preciso passar possível guerra, mas, também, manter

55 abril 2016
israel

é de choque total. Ao entrarem no As jovens dão brilho e enceram


dormitório que deverão compartilhar o Puma a cada sexta-feira antes
nos próximos meses se defrontam de saírem de folga no final de
com uma simplicidade com a qual semana. Outra especialização são os
muitas não estão habituadas. equipamentos mecânicos pesados, ou
seja, enormes escavadeiras. A visão
Durante o curso, as participantes de uma garota de 18 anos operando
são isoladas em um espaço que uma dessas máquinas é surrealista
incluiu uma cozinha, seis chuveiros, para os visitantes da base. Minas
um espaço para lazer e conversas. e sabotagem são o terceiro campo
Este último é uma espécie de de especialização, sendo um curso
sala de estar; salas de aula e dois obrigatório para todas as unidades
dormitórios - cada um com de combate de elite.
capacidade para dez pessoas,
com beliches. Cada uma possui Em 1948, uma recruta da Haganá com Durante o período do curso, as
seu armamento
o tradicional lençol e saco de jovens só têm permissão para falar
dormir do exército. Sob a cama, com as outras recrutas, o que acaba
pequenas lembranças da sua antiga Depois de cinco semanas, levando ao aprofundamento dos
vida: xampu, hidratante corporal, encerra-se a primeira fase do curso. relacionamentos. “Após alguns
sapatos esportivos - itens que As recrutas são então divididas dias de convivência, já sabemos
devem ser escondidos diariamente em grupos por especialidade. tudo que é possível saber sobre as
antes da inspeção matutina. No Algumas serão preparadas para colegas, o que gosta ou não, se tem
mural do refeitório da base, várias treinar soldados no uso de veículos namorado, até os mais íntimos
informações, mensagens, desenhos blindados que podem passar por segredos. Isso leva ao fortalecimento
e piadas. Afinal, um pouco de bom cercas, minas e até trincheiras. do grupo como um todo”. Neste
humor para quebrar a rigidez é A peça fundamental dos veículos sentido, a Tenente Liron ressalta
sempre bem-vindo, visto que a blindados do Batalhão de que o conceito de grupo é um dos
maioria das jovens que ali estão tem Engenharia é o Puma, um tanque principais valores do exército. “A
pouco mais de 18 anos. com funções multivariadas. excelência do grupo vem antes da
excelência pessoal. Eu repito este
conceito diariamente para as alunas”.

Um dos momentos mais


significativos para as alunas e para
os instrutores é a conclusão do
programa. Para serem aprovadas,
as jovens devem tirar nota 80,
podendo repetir as provas quantas
vezes for necessário. Alcançar
esta nota é imprescindível para
quem quer se formar instrutora de
combate. Não é apenas o final do
curso, mas, também, o momento de
romper as barreiras e a formalidade
nas relações com os superiores.
Afinal, ao longo do curso, as jovens
precisam mostrar deferência em
relação aos comandantes, não
podem sorrir ou se divertir com eles.
Integrantes das Forças Auxiliares Femininas em uma parada militar.
Esta aproximação é feita em uma
Tel Aviv, julho de 1948 atividade especial.

56
REVISTA MORASHÁ i 91

A Tenente Liron fala sobre a “As soldadas ficam totalmente


cerimônia chamada de “Quebrando chocadas ao se verem face a face
a distância”. “Tudo é planejado nos com os superiores, mas as expressões
mínimos detalhes. As jovens são do rosto mudam quando percebem
acordadas no meio da noite para o que o programa chegou ao final.
que parece ser mais uma rodada de Elas começam, então, a rir, dançar
exercícios sendo informadas que e cantar. A marcha é retomada,
participarão de mais uma marcha mas com um estado de espírito
extenuante. O curso inclui inúmeras completamente diferente e termina
marchas deste tipo cujo objetivo ao nascer do sol”. Assim, sob os
é levar as mulheres ao seu limite primeiros raios da manhã, uma a
físico e elevar o seu nível de uma, as participantes são chamadas
atividades. Mas esta marcha é para receber a boina prateada. O
especial, pois ao seu final receberão choro e a emoção são gerais, um
a boina prateada dos Batalhões de momento comovente, sem dúvida.
Engenharia. Mas elas ainda não o
sabem”. “O curso dá às mulheres ferramentas
que as acompanharão até o final da
Ao se prepararem, fazem listas vida. Autoconfiança, maturidade
negras no rosto, amarram faixas e conhecimento para enfrentar
brancas ao redor da cabeça e partem situações físicas e psicológicas
para a caminhada de 15 quilômetros. extremas e a certeza de que podem
Repentinamente são obrigadas a confiar totalmente em um grupo
parar e os responsáveis pelo curso de amigos e pares”, finaliza a jovem
distribuem barras de chocolates, militar Liron.
balas e pequenos presentes,
contando fatos engraçados
que presenciaram ao longo do BIBLIOGRAFIA
treinamento. Revista Eretz

57 abril 2016
história

JUDEUS DURANTE
A PRIMEIRA CRUZADA
POR REUVEN FAINGOLD

“Morrer, mas não transgredir” é a expressão que melhor


descreve a postura dos judeus na época das Cruzadas.
Martírio e Kidush Hashem (Santificação em Nome de D’us) eram
valores essenciais para proteger os preceitos do Judaísmo.
Na chegada dos cruzados toda uma geração foi testada,
demonstrando atos de heroísmo pouco comuns.

HISTORIOGRAFIA DAS CRUZADAS Porém, nenhuma das linhas historiográficas outorgou


importância aos judeus da Europa. A temática “judaica”
As Cruzadas são um dos temas mais instigantes da lhes era totalmente esquecida: os positivistas não
história. Pesquisadores dos séculos 19 e 20 entendem as julgavam ser esse um assunto suficientemente relevante
Cruzadas como uma campanha medieval para libertar para ser pesquisado, enquanto para os marxistas era um
o Santo Sepulcro, local em Jerusalém onde se acreditava tema insignificante, sem maior interesse no contexto da
que Jesus fora sepultado, mas também as estudaram luta de classes.
tomando em consideração os interesses comerciais das
cidades italianas, a força política do Papado diante das Foi na visão globalizada dos professores Steven
monarquias europeias e a busca pela reunificação da Runciman, e Joshua Prawer que encontramos uma
Igreja Católica com a Igreja do Oriente nascida em análise detalhada sobre o papel dos judeus no decorrer
Bizâncio. das Cruzadas. Estes dois acadêmicos observam uma
mudança ideológica radical na Europa do século 11.
Historiadores positivistas explicaram as Cruzadas sob Para eles, a Primeira Cruzada transformaria o
uma ótica socioeconômica e política, mantendo como Cristianismo numa “religião combativa”, apropriando-se
eixo fundamental o choque entre duas religiões opostas, a da ideia de “guerra santa” - um conceito que nascia na
luta entre a cruz e o crescente. Assim, as Cruzadas devem contramão dos princípios morais da Igreja.
ser vistas como uma disputa pelo domínio geográfico O Cristianismo criou um movimento religioso
entre crenças que ofereciam a palavra dos Evangelhos ou legitimando a ideia de peregrinação a Jerusalém desde o
a do Alcorão. Velho Continente.

Com o advento do marxismo, as Cruzadas ganharam um JUDEUS NA EUROPA


olhar sustentado em respostas meramente econômicas.
Alguns historiadores do século 20 enquadraram-nas Nas peregrinações à Terra Santa participaram vários
dentro de um campo histórico amplo e universal. grupos sociais: condes, nobres, clérigos, camponeses

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REVISTA MORASHÁ i 91

Conquista de Jerusalém pelos cruzados. “Storie degli Imperatori”. Biblioteca Arsenal. Paris

e servos, todos buscando uma formação superior àquela encontrada habitavam em territórios do Império
absolvição de seus pecados. Nos anos na população local. Carolíngio, assim como os que,
1064-1065, sob a liderança na Península Ibérica, viviam sob
do Arcebispo Sigfred de Mogúncia e Vários pyutim (hinos hebraicos em domínio muçulmano. Porém, a luta
do abade Ingulf de Croyland, verso) descrevem as dificuldades entre o poder papal e o crescente
7 mil peregrinos se dirigiram a sofridas pelos judeus por rejeitar o poder político dos monarcas, criou-
Jerusalém, falecendo a maioria no Cristianismo como a “fé verdadeira”. lhes uma nova situação.
caminho. Desde a destruição do Segundo
Templo e o exílio de Roma em Em meados do século 11, era instável
Este processo de peregrinação 70 E.C., várias comunidades a situação dos judeus da Europa
se inicia no “Concílio de Clermont”, judaicas se espalharam pela Europa. central. Na França e na Alemanha,
em 1095, estabelecendo-se na dependiam da proteção dos reis,
Europa ordens militares como Seus membros jamais esqueceram com os quais mantinham relações
os Templários, que ocasionaram Jerusalém, como bem o denota a “aceitáveis” já que os reis careciam de
transformações na vida cotidiana e contínua entoação da prece seus talentos e suas riquezas.
no destino dos judeus, e criaram “O ano próximo, em Jerusalém”, e a
um abismo entre a civilização reafirmação de seu compromisso Os judeus concediam empréstimos
ocidental e o Judaísmo. Cresce, com a Terra de Israel. aos governantes, que, entre outros, os
assim, uma sistematização das incumbiam de coletar impostos para
hostilidades contra os judeus. VÉSPERAS DA PRIMEIRA o Tesouro Real, atividade que os
Como a Igreja os declara “inimigos CRUZADA tornaria cada vez mais impopulares
da fé”, as camadas populares iniciam entre os camponeses e a pequena
uma onda de violência contra os Na época medieval, desfrutavam nobreza que os culpava pelas
Filhos de Israel. Afinal, a maioria de tranquilidade e prosperidade penúrias pessoais e a impossibilidade
deles vivia nas cidades e tinha uma na Europa cristã os judeus que de progredir na vida.

59 abril 2016
história

Ao se iniciarem as Cruzadas, muitos considerados pelos cristãos como penúrias experimentadas pelos
cristãos mantinham dívidas com “colaboradores” dos muçulmanos. peregrinos que viajavam à Terra
judeus. A peregrinação à Terra Em 1064, na conquista de Barbastro, Santa. Além disso, os muçulmanos
Santa era não só uma forma de motivado pelos maus tratos a judeus, haviam profanado o Santo Sepulcro
receber perdão da Igreja e do Céu o Papa Alexandre II escreveu aos em Jerusalém e demais Lugares
pelos pecados, mas também um bispos hispânicos, lembrando-os Santos cristãos na Terra Santa,
meio de libertar-se das obrigações da diferença entre muçulmanos e fato que enfureceu as autoridades
econômicas. judeus: “Os primeiros são inimigos eclesiásticas. A resposta foi o
irreconciliáveis dos cristãos, discurso do Papa Urbano II, em
Alguns anos antes das Cruzadas, enquanto os últimos são meros Clermont Ferrant, em 26 de
aconteciam perseguições esporádicas. colaboradores”. novembro de 1095. A chamada do
Um cronista judeu anônimo relata Papa para as Cruzadas agitou o
o massacre de Otranto, uma vila Antes da Primeira Cruzada, os povo.
ao sul da Itália, em 930: “Judeus reis e as autoridades eclesiásticas
foram perseguidos... ao Rabino reconheciam o valor dos judeus PRIMEIRA CRUZADA
Yeshaya lhe atravessaram o pescoço oferecendo-lhes proteção e direitos.
com uma faca e o mataram Em 1084, o Bispo de Espira lhes A Primeira Cruzada foi proclamada
como a um cordeiro no pátio da outorgou uma carta de privilégios, em 1095, pelo Papa Urbano II,
sinagoga; e o Rabino Menachem reconhecendo-os como agentes com o objetivo duplo de auxiliar
caiu dentro de um poço, e a nosso colonizadores da cidade. Em 1090, os cristãos bizantinos e libertar
mestre o estrangularam”. Em 1007 o rei Henrique IV renovou-lhes os Jerusalém e a Terra Santa do
aconteceriam massacres na França privilégios, outorgando um direito jugo muçulmano. Na verdade, a
e a expulsão e conversões dos similar aos judeus de Worms. Esses Primeira Cruzada não foi um único
judeus de Mogúncia (Mainz), na documentos lhes permitiam exercer movimento, mas um conjunto de
Alemanha. livremente o comércio, garantindo ações bélicas de inspiração religiosa,
também suas liberdades religiosas. que incluiu a Cruzada Popular, a
Entre os séculos 8 a 11, os judeus Cruzada dos Nobres e a Cruzada de
da Espanha viviam em paz e No final do século 11, chegaram 1101.
integrados ao Estado islâmico, sendo notícias do Oriente relatando as
A conclamação era para libertar
Jerusalém dos infiéis, mas a Primeira
Cruzada deu vazão a uma longa
tradição de violência organizada
contra os judeus. Primeiro na França
e, depois, na Renânia, alguns líderes
de grupos populares interpretaram
que a guerra contra os infiéis podia
ser aplicável não só aos muçulmanos,
no Levante, mas também contra os
judeus, que viviam na maioria das
comunidades europeias. Muitos
cristãos não viam motivo para viajar
milhares de quilômetros para lutar
contra os inimigos do Cristianismo,
quando estes estavam, também, à
porta de suas casas.

O cronista Samuel ben Yehudá


descreveu o sentimento judaico por
volta de 1096: “... Caiu sobre nós
Mapa em francês indicando as rotas das oito cruzadas. Visões do mundo uma densa escuridão”.

60
REVISTA MORASHÁ i 91

Outro cronista do século 12 assim


se expressou: “As lagostas não têm
rei, mas andam todas em bandos”,
fazendo clara alusão à postura
devastadora dos cruzados. Uma
cruzada não era apenas a retomada
dos Lugares Santos cristãos tomados
pelos árabes; era também a vingança
pelo suposto crime de “deicídio”
cometidos pelos judeus.

Em 1096, os cruzados, liderados por


Godofredo de Bouillon e Robert
de Normandia, iniciam sua própria
guerra contra os infiéis, saqueando
e assassinando, sem trégua, todos os
judeus à sua frente. Na crônica de
Samuel ben Yehudá ficou registrada
a vinda dos cruzados: “Quando
passam por povoados onde há Jerusalém sitiada pelos francos (cruzados). Extraído do Livro dos Cruzados
do século 15. Biblioteca Nacional de Viena
judeus, dizem que viajam a terras
distantes à procura de vingança comunidade judaica importante rolos da Torá foram retirados das
dos ismaelitas; porém aqui vivem que havia recebido privilégios do sinagogas e destruídos. Os cruzados
também judeus cujos antepassados imperador. No entanto, em 3 de conseguiram batizar poucos judeus
mataram e crucificaram sem motivo. maio de 1096, os cruzados, junto à força. Muitos optaram por tirar
Portanto, devemos destruí-los como com os moradores locais, atacaram suas próprias vidas; mães mataram
povo para que o nome de Israel os judeus. Segundo crônicas judaicas, seus filhos para depois se matarem.
não seja lembrado..”. O conceito de 11 membros da comunidade que Segundo um cronista, “pelas ruas da
“deicídio” surgido no século 4 voltara resistiram ao batismo foram mortos, cidade somente se escutava o Shemá
revigorado. enquanto outros se refugiaram Israel”.
na sinagoga. O bispo da cidade,
Mesmo que as atrocidades Johannes, tentou reestabelecer a Dois dias mais tarde, chegou a
começassem em Rouen e Normandia, ordem, punindo os agitadores e hora dos judeus no Palácio
as maiores matanças se propagaram oferecendo asilo aos judeus em seu Episcopal. Diante da ameaça dos
em direção do rio Reno, região próprio palácio. Cruzados, o Bispo Adalberto
superpovoada por comunidades tentou convencer os judeus
judaicas. No início do verão de 1096, As notícias acerca dos sangrentos entrincheirados que se deixassem
cerca de 10 mil cristãos partiram em massacres de Espira chegaram converter. Eles pediram um tempo
cruzada, percorrendo o vale do Reno rapidamente a Worms. Boa parte para pensar. Esgotado o prazo, o
em direção ao Norte (direção oposta dos judeus da cidade procurou bispo abriu as portas e encontrou
a Jerusalém), iniciando uma série refúgio no palácio do Bispo uma cena dantesca. Não tinha
de pogroms. A proteção dada aos Adalberto, enquanto outros sobrado um único judeu com vida,
judeus por bispos e imperadores não tentavam confiar nos vizinhos, todos se haviam suicidado.
evitou uma catástrofe de dimensões para que não os entregassem. Eis o relato do cronista judeu:
gigantescas. “No dia 25 de Iyar, o terror se
Quando os cruzados apareceram instalou sobre aqueles judeus que se
MASSACRES EM ESPIRA, corria o boato que os judeus haviam abrigaram no Palácio Episcopal.
WORMS E MOGÚNCIA matado um cristão. Em 18 de Eles se fortaleciam pelo exemplo
maio de 1096 a cidade foi palco de de seus irmãos, santificando-se em
No Sacro Império Romano- grande matança. Famílias judaicas Nome de D’s, observando as palavras
Germânico, em Espira, vivia uma inteiras foram chacinadas nas casas, do Profeta ‘as mães caem sobre suas

61 abril 2016
história

Meschulam, presenciaram a
chegada dos cruzados, começaram
a se preparar para o combate. Mas,
pelas desgraças [ocorridas] haviam
jejuado debilitando-se muito, sem
poder resistir ao inimigo. Durante a
Lua Nova do mês de Sivan, chegou
o conde Emich com seu exército,
assassinando anciãos e moças, sem
ter compaixão pelo sofrimento nem
pela dor, nem pela fraqueza nem
pela doença... Quando viram que seu
destino estava selado, incentivaram-
se uns a outros dizendo: ‘Soframos
com paciência e heroísmo tudo
aquilo que nossa sagrada religião nos
O Rei da França Luis IX embarca para uma cruzada rumo a Oriente.
Iluminura Medieval. Desenho anônimo ordena...’. De imediato os inimigos
nos matarão, porém nada interessa
filhas e os pais caem sobre seus todos os seus objetos de valor. mais que nossas almas adentrando
filhos’. Um matava seu irmão, outro No entanto, ao adentrar Emich puras na Luz Eterna... Formando
seus pais, esposa e filhos. Todos com seus soldados no palácio, o um coral exclamaram: ‘Bem-
aceitavam de bom grado o Desígnio bispo sumiu subitamente e a aventurados aqueles que sofrem em
Divino, entregando suas almas ao guarda episcopal os deixou sem nome de um D’us único’ ”.
Todo Poderoso, gritando, ‘Ouve proteção. O cronista cristão
Israel, o Eterno é Nosso D’us, o Alberto de Aix testemunhou Um parágrafo mais adiante, o
Eterno é Um”. esses momentos: “Emich e sua cronista Shelomó bar Shimshon
turba, armados com picaretas e relata os últimos momentos dos
Segundo a crônica, os cruzados lanças, atacaram os judeus (...). judeus no pátio episcopal: “Homens
não respeitaram sequer os mortos. Depois de quebrar fechaduras piedosos [tzadikim] sentados no
Retirando os corpos do palácio, e destruir portões, alcançaram- meio do pátio, junto ao Rabino
cortaram-nos em pedaços e nos, matando 700 deles. Em vão Itzhak ben Moshé, rezavam
dispersaram seus restos. Apenas o tentaram defender-se; as mulheres embrulhados em seus xales de oração
judeu Simcha Cohen se salvou e foi foram assassinadas e os jovens, sem [talitot]... O Rabino foi o primeiro
batizado à força. Imediatamente, distinção de sexo, foram mortos a entregar seu pescoço para logo
tirou uma faca e feriu três carrascos, a facadas. Os judeus se armaram ser decapitado, caindo sua cabeça
porém o populacho o chacinou. contra si mesmos: correligionários, no chão. Enquanto isso, os demais
Naqueles dias de 1096 foram mortos esposas, filhos, mães e irmãs, tiraram judeus continuavam sentados no
800 judeus, todos atirados numa vala suas vidas mutuamente. Horror é mesmo pátio dispostos a atender a
comum. ter que contar isto... Somente um vontade do Criador. Os inimigos
pequeno número escapou com lhes atacaram com pedras e flechas,
Depois de Worms era a vez de vida desse cruel massacre. Alguns mas eles não se mexeram de seus
Mogúncia. Liderados pelo Conde receberam o batismo mais por temor lugares, morrendo todos. Aqueles
Emich de Leisingen, vários grupos à morte que por amor à fé cristã”. que estavam nos aposentos do
de marginais e cruzados fanáticos palácio, decidiram matar-se com
entraram na cidade. Os membros da A chacina de Mogúncia foi suas próprias mãos...”.
comunidade judaica pediram ajuda presenciada pelo cronista
ao Arcebispo Rutardo, obtendo Shelomo bar Shimon, um dos Os judeus feridos imploravam por
permissão para se refugiar até o poucos sobreviventes. Seu relato água, mas ao saber que essa seria a
perigo passar. Segundo o cronista, é comovedor: “Quando os filhos água para batizá-los se negavam a
mil judeus se aglomeraram no pátio da Aliança Sagrada, liderados recebê-la. O cronista Shelomó bar
episcopal após entregarem ao bispo pelo Rabino Kalonymos ben Shimshon descreve a coragem de um

62
REVISTA MORASHÁ i 91

judeu que matou três soldados com dispersos em localidades vizinhas. Metz, onde morreram 22 judeus,
sua faca. Imediatamente, foi morto. Houve judeus hospedados em casas teve batismos coletivos forçados.
Destaque para um grupo de judias de vizinhos cristãos. Ao encontrarem Famílias inteiras de judeus
refugiadas no palácio episcopal as casas judaicas vazias, os cruzados de Ratisbona foram lançadas
de Mogúncia. Elas “espalharam arrasaram tudo, queimando a brutalmente nas águas do Danúbio
dinheiro entre os cruzados, para sinagoga e a Torá. para serem batizadas. Durante
ganhar tempo e cometer o suicídio três meses o terror se instalou
coletivo, al Kidush Hashem”. As Apenas em Treveris e Ratisbona nas comunidades do Reno. Um belo
mulheres atiravam pedras aos (hoje Regensburg), na Baviera, poema judaico medieval lamenta as
soldados, mas também eram feridas os cruzados conseguiram batizar valiosas perdas: “No terceiro
no rosto com pedras lançadas com pela força a comunidade. Como de dia do terceiro mês as lamentações
estilingues. costume, a maioria buscou proteção não paravam... Cobrirei com
no palácio do Arcebispo Eguilberto, torrentes de lágrimas os cadáveres
Emich matou e queimou o bairro mas os cruzados os achavam e de Espira e me lamentarei
judeu. Nesses fatídicos dias retiraram assassinavam. Outros se jogavam amargamente pelos da comunidade
do palácio episcopal 1.300 cadáveres. no rio Mosel, situado ao nordeste de Worms, e meus gritos de dor
Aproximadamente 60 judeus, que da França. O cronista escreveu: ecoarão pelas vítimas de Mogúncia”.
fugiram e se esconderam na catedral, “Algumas mulheres encheram suas Entre maio e julho de 1096, nas
foram rapidamente localizados e mangas e sutiãs com pedras e se províncias do Reno foram mortos
mortos. Dois judeus que haviam jogaram ao rio desde uma ponte”. 12 mil judeus.
aceitado o batismo para salvar suas
mães foram presos: Itzhak ben O Arcebispo de Treveris e Ratisbona RUMO A TERRA SANTA
David e Uri ben Yosef. Ambos exigiu também o batismo. Um
buscaram refúgio na sinagoga, mas rabino de nome Micha solicitou que Nenhum dos grupos de cruzados
acabaram morrendo nas chamas. ele lhe ensinasse os princípios da que participaram da Cruzada
O Rabino Kalonymos com 50 judeus religião católica, mas logo desistiu e Popular, parte do movimento
fugiram rumo a Rudesheim, pedindo abandonou o Cristianismo. chamado de Primeira Cruzada,
socorro ao Arcebispo da vila. Em
vão o clérigo tentou convencê-los a
se converter. Rabino Kalonymos quis
agredir um nobre, mas rapidamente
foi impedido e executado.

O massacre de Mogúncia fortaleceu


espiritualmente os judeus. Para o
cronista Shelomó bar Shimshon,
mesmo sendo desigual, a chacina
consolidou o Kidush Hashem.
Sentindo na própria carne o
massacre. Shimshon atribuiu a
derrota “ao cansaço físico resultado
de rezas e jejuns”. Para ele, o
judeu, “pisoteado como lixo de
rua, se equipara em sua valentia ao
intrépido cavaleiro cruzado”.

Os judeus se defendiam como


podiam, porém era impossível vencer
um exército treinado. Quando
Emich invadiu Colônia em 1º de Dois judeus com seus chapéus (judenhut) sendo executados pela espada. Bíblia
junho de 1096, os judeus já estavam Iluminada do período das Cruzadas. França, circa 1250

63 abril 2016
história

Painéis de Paulo Uccello. Galeria Nacional de Urbino, Itália

chegou à Terra Santa. Pelas estradas, a santidade da Igreja não seja aumentando com o tempo, atingindo
eram contidos por outros grupos profanada pelos judeus”. seu ponto mais alto em 1215. Nesse
cristãos que tinham suas terras ano, o Concílio Latrão IV, liderado
devastadas. O cronista Albert de Em 1103 houve uma trégua pelo Papa Inocêncio III, ordena aos
Aquisgran comenta: “Depois das entre o poder político e religioso. monarcas da Europa aceitar uma
crueldades cometidas, carregando Os judeus poderiam voltar ao legislação que obriga todos os judeus
as riquezas roubadas aos judeus, Judaísmo mediante pagamento em a habitar em bairros separados e
aquela gentalha insuportável favor da Igreja, e os bens das vítimas portar em suas vestes o distintivo
composta por homens e mulheres, sem herdeiros seriam confiscados amarelo, sinal de humilhação e
continuou sua viagem rumo a em benefício do Tesouro real. discriminação. Dessa forma, ficava
Jerusalém, passando pela Hungria”. Todos saíram satisfeitos, inclusive os aberto o caminho para outras
Lá o rei húngaro Koloman os judeus que conseguiram reconstruir Cruzadas. Tudo era apenas uma
aniquilou. Para o cronista “tudo sua sinagoga em Mogúncia, apenas questão de tempo.
era obra de D’us contra peregrinos oito anos depois da Primeira
depravados que haviam pecado ao Cruzada.
matar judeus”. BIBLIOGRAFIA
PALAVRAS FINAIS Falbel, Nachman, Kidush Hashem:
O conde Emich e seu exército jamais Crônicas hebraicas sobre as Cruzadas.
Edusp, São Paulo 2001, 375 págs.
chegaram a Jerusalém. Ele morreu ao Os violentos ataques ocasionados
regressar à sua pátria. O dia de sua pelos cruzados entre 1096-1099 Prawer, Joshua, The History of the Jews
in the Latin Kingdom of Jerusalem.
morte em 1117, estrelas com formato poderiam ter sido apenas um Clarendon Press 1988, 310 págs.
de gotas de sangue teriam caído do episódio isolado na História
Runciman, Steven, História das Cruzadas.
céu. Medieval, no entanto essas Editora Imago. Rio de Janeiro 2002, 340
ações em busca de um “perdão págs.
O Imperador e o Papa se religioso” mudaram radicalmente Suarez Bilbao, F., Los judíos y
posicionaram contrariamente a mentalidade europeia. A procura las Cruzadas. Las consecuencias
diante dos excessos dos cruzados. de novos horizontes levou ao y su situación jurídica, em:
MEDIEVALISMO, año 6, págs. 41-75
Henrique IV emitiu uma enriquecimento ilícito e a uma e 121-146.
autorização para que as pessoas religiosidade extrema.
batizadas à força pudessem voltar
ao Judaísmo. Já o Papa Clemente As Cruzadas prejudicaram o
III replicou: “Ouvimos que judeus desenvolvimento do Judaísmo das Prof. Reuven Faingold é historiador
e educador, PHD em História e História
batizados estão desertando da Igreja, comunidades da Alemanha. Judaica pela Universidade Hebraica de
Jerusalém. É também sócio fundador
e tal coisa é pecaminosa; portanto Elas criaram um distanciamento da Sociedade Genealógica Judaica
nós exigimos de ti (Henrique cada vez maior entre cristãos do Brasil e, desde 1984, membro do
Congresso Mundial de Ciências Judaicas
IV) e de todos nossos irmãos que e judeus, um espaço que foi de Jerusalém.

64
COMUNIDADES

Os últimos 100 anos


dos judeus na Espanha
No ano de 1492, os judeus da Espanha que, no decorrer dos
séculos, haviam adquirido mais poder econômico e político
do que qualquer outra comunidade judaica medieval, foram
sumariamente expulsos do país. O Édito de 31 de março, outorgado
pelos reis Fernando de Aragão e Isabel de Castela, tornara o
judaísmo ilegal em seus domínios e, num prazo de quatro meses,
os judeus tiveram que escolher entre o exílio ou o batismo.

O
Édito foi um choque. Os judeus a Reconquista chegou praticamente ao fim, a atitude
acreditavam serem transitórias, como tantas dos monarcas em relação aos judeus se transformou.
outras, as perseguições e discriminações Não sendo mais necessários para administrar as terras
das quais tinham sido vítima a partir do reconquistadas, os judeus passaram a ser vistos apenas
final do século 14. Havia judeus vivendo como uma vultuosa fonte de renda para a Coroa.
na Península Ibérica desde a queda do Segundo Templo,
e, durante os séculos, haviam sobrevivido a invasões, Não há dúvida de que no século 14 o poder da Igreja
guerras, pogroms, ao domínio islâmico e cristão. Viveram Católica crescera em demasia e, consequentemente, a
épocas de ouro e de discriminações. Estavam convencidos situação dos judeus na Europa tornava-se cada vez mais
de que sua proeminência em todas as esferas da vida difícil. Após a Igreja determinar que as heresias cristãs
econômica, além da presença na Corte de judeus que deviam ser vistas não apenas com um flagrante desafio
atuavam como administradores e conselheiros dos reis, às doutrinas católicas, mas também como um desafio
serviriam de proteção contra a hostilidade da Igreja e à própria estrutura da Igreja Romana, e que deveriam
do povo. Ademais, acreditavam que os Reis Católicos, ser eliminadas nem que fosse pela força, era inevitável
nome pelo qual ficaram conhecidos Fernando de Aragão a pergunta sobre o que fazer com a presença judaica na
e Isabel de Castela, os protegeriam. Afinal, até 1491 e Europa.
mesmo no início de 1492, depois da captura de Granada,
os reis ainda nomeavam judeus para importantes postos A partir do Concílio de Latrão, em 1215, a Igreja passa
na Corte e haviam também renovado os contratos com a exigir dos governantes ações mais severas em relação
os judeus que arrecadavam impostos. O choque sobre a à população judaica. No entanto, por muito tempo, as
decisão dos Reis Católicos não era fruto de ilusões sem mesmas não foram acatadas pelos reis cristãos da Península
fundamento... Ibérica ainda dividida entre vários reinos autônomos.

No entanto, a expulsão foi o desfecho de um processo A atitude benevolente dos monarcas com os judeus era
lento e progressivo de mais de dois séculos. Quando guiada por interesses próprios. Em Castela e Aragão, por

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COMUNIDADES

toledo, espanha

exemplo, o benefício que os reis vida na Península Ibérica era melhor antijudaica que ocorreu em 1391.
obtinham através dos exorbitantes do que em outras partes da Europa, Agitador antissemita sem
impostos pagos pelos judeus ainda que crescesse a conscientização escrúpulos, Martinez iniciara,
superavam qualquer inclinação, de insegurança. no final da década de 1370, uma
decorrente de convicções próprias violenta campanha contra os judeus.
ou pressões da Igreja ou do povo, de Não há como entender a expulsão Em suas pregações, costumava
tomarem medidas mais drásticas. de 1492 sem examinar os “alertar” a população de Sevilha
acontecimentos de 1391, de 1412 e para a “iniquidade” desse povo,
Porém, quaisquer que fossem as 1413. encorajando a violência contra seus
atitudes da Coroa, entre as membros.
massas os sentimentos antijudaicos O primeiro desastre
eram cada vez mais fortes. – o ano de 1391 Em 1390, Martinez aproveitou a
Ataques verbais e físicos contra morte do Arcebispo de Sevilha e do
judeus se repetiam, também, com O ano de 1391 foi determinante Rei de Castela, que deixara como
frequência muito maior. Já estava na história dos judeus na Península herdeiro ao trono um filho menor
impregnada no imaginário popular a Ibérica. Frades franciscanos e de idade, para intensificar seus
figura do judeu como um ser maligno dominicanos, apoiados pelo papado, ataques. Para a maioria dos
– a “encarnação do diabo”, ou, no percorriam a Península e davam historiadores, Martinez foi o
mínimo, seus parceiros no mal, que sermões inflamatórios cujo intuito principal instigador dos pogroms
“visavam a ruína” do Cristianismo. era a conversão dos judeus. que, no ano seguinte, varreram a
Para as massas, o judeu era o culpado A instabilidade política e as Península. No dia 4 de junho de
por todo infortúnio e desastre. pregações do Arquidiácono de 1391, os judeus de Sevilha foram
Ecija, Ferrant Martinez, que atacados. Os pogroms espalharam-se
Vale ressaltar, porém, que apesar do vivia em Sevilha, armaram o rapidamente de uma cidade
clima antijudaico, para os judeus a palco para a ampla violência a outra, nos reinos de Aragão e

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REVISTA MORASHÁ i 91

Catalunha e nas Ilhas Baleares. haviam reduzido seus números, sua relações entre cristãos e judeus,
Massas ensandecidas impulsionadas riqueza e seu moral. visando minar a economia destes
por um grande fervor religioso últimos, suprimindo suas liberdades
avançavam sobre os bairros O judaísmo espanhol conseguiu e reduzindo-os à condição de párias.
judaicos obrigando os judeus sobreviver nos Reinos Cristãos Entre outros, os judeus foram
a optar entre a cruz e a morte. durante um século após a catástrofe despejados de seus bairros para
Milhares escolheram a morte, mas de 1391, principalmente, por causa separá-los dos cristãos, proibidos de
tantos outros aceitaram batismo, da determinação dos monarcas coletar impostos para os governantes,
sendo poupados, sem exceção. de Castela e Aragão em proteger que era parte significativa da origem
Famosas comunidades judaicas as comunidades judaicas, e o da riqueza judaica.
foram destruídas, como a de reconhecimento por parte de
Gerona, sinagogas foram tomadas e cristãos, que viviam em pequenos Os instigadores das novas leis
transformadas em igrejas. centros urbanos, de que a presença foram o pregador Vincent Ferrer e
de uma comunidade judaica lhes era Pablo Garcia de Santa Maria – um
Em Castela, como vimos acima, favorável. apóstata judeu que Ferrer convertera
não havia um monarca forte, e e que se tornara bispo de Burgos e
a devastação foi terrível; poucas O segundo desastre Castela. Em decorrência da união
comunidades foram poupadas. – os anos de 1412 e 1413 de Castela e Leon sob um monarca,
Apenas nos Reinos de Navarra embora os reinos permanecessem
e Portugal, governados por reis Os vinte anos que se seguiram após separados, as leis de Valladolid eram
poderosos, as comunidades judaicas os eventos de 1391 foram de uma válidas tanto em Castela quanto
ficaram em segurança. relativa calmaria na intensidade da em Leon. Também em Aragão,
perseguição. Para a grande maioria, Fernando I procurou estabelecer
Estimativas do total da população era um indício de que havia um ordenações parecidas com as
judaica, em 1391, variam futuro em terras ibéricas para os castelhanas contra os judeus.
amplamente, mas calcula-se que judeus. Mas muitos haviam perdido
300 mil judeus viviam na época a esperança e procuraram deixar
em terras ibéricas. Após um ano a Península estabelecendo-se em
de distúrbios, quando a ordem foi volta da bacia do Mediterrâneo.
restaurada, um terço da comunidade (Os governos passaram a restringir
havia sido assassinada; um terço a emigração judaica – não queriam
havia sobrevivido como judeus “perder” seus judeus, “apenas”
praticantes, conseguindo se esconder convertê-los.)
ou fugir para terras muçulmanas,
e cerca de 100 mil haviam-se A Igreja Católica, por intermédio
convertido. das suas campanhas contra os
judeus, colocava um número cada
Após a devastação, os judeus vez maior de obstáculos na interação
tentaram reerguer suas comunidades. entre eles e os cristãos. Queria isolar
A de Aragão foi salva da total a população judaica cada vez mais,
destruição, graças ao Rabi Hasdai querendo “preservar” os cristãos de
Crescas, uma das principais toda “contaminação” judaica.
autoridades rabínicas de seu tempo,
que liderou o judaísmo espanhol Nos anos de 1412 e 1413, as
durante um de seus períodos comunidades judaicas de Castela e
mais críticos. As aljamas foram Aragão sofreram novos desastres.
reconstruídas e a normalidade O primeiro ocorreu em 2 de janeiro
restabelecida. Mas, para os judeus se de 1412, quando, no Reino de
reerguerem era necessário mais do Castela, foi imposta, pelas Cortes de
que a reabilitação física nas juderías Valladolid, uma lista de restrições
arruinadas. Os pogroms de 1391 que passaram a regulamentar as entrada da sinagoga

67 abril 2016
COMUNIDADES

As novas restrições foram um envolvidas: compareceram mais Judaísmo, em um grande espetáculo


grande golpe para os judeus ainda de 60 cardeais, bispos e outras público, e despertar o entusiasmo
que continuassem a ser ignoradas personalidades religiosas e laicas. As popular pelo Cristianismo como
pelas classes governantes pelo tempo fontes judaicas mencionam cerca única religião válida, e então efetuar
que lhes conviesse. Na mesma época, de 20 participantes do lado judeu, uma conversão em massa dos judeus.
com a aproximação entre o Antipapa sendo suas personalidades mais Quanto ao desfecho da Disputa em
Benedito XIII – reconhecido como proeminentes os Rabis Zerahiah ha- Tortosa, historiadores concordam
Papa na Espanha, e Fernando I de Levi, Astruc ha-Levi, Joseph Albo e que a derrota judaica não foi plena.
Aragão, surgiu uma aliança política Mattathias ha-Yizhari. Mesmo diante das dificuldades e
entre a Igreja e a Coroa contra os da grande pressão que sofreram,
judeus. A “guerra contra os judeus” A disputa não foi um debate, os judeus se comportaram com
tornou-se uma política oficial desses mas uma exibição pública, e o coragem, fazendo uso de argumentos
dois poderes. método utilizado não privilegiou dignos e sensatos. A contestação
1
a discussão, mas a instrução. judaica aos argumentos cristãos
Em 1412, Benedito XIII, com o Os judeus tinham que apenas produziu as melhores respostas
apoio de Fernando I, ordenou que as responder aos questionamentos oferecidas dentre todas as disputas
comunidades de Aragão e Catalunha de Jerônimo de Santa Fé, sendo- judaico-cristãs na Idade Média.
enviassem delegados para Tortosa, lhes proibida a oportunidade de
para que fossem debatidas em sua réplica. A disputa foi um ataque Para a população judaica, as
presença as alegações de Gerónimo verbal cristão contra os judeus, consequências foram bastante
de Santa Fé, um apostata judeu acompanhado de pressão psicológica negativas. Enquanto os rabinos
de nome Joshua Lorki, que dizia – a ponto de intimidação e ameaças, eram obrigados a enfrentar as
poder provar em fontes judaicas a a fim de obrigá-los a aceitar os alegações cristãs em Tortosa, os
autenticidade do messianismo de argumentos de seus adversários. frades andavam pelas comunidades
Jesus. Como afirmara Benedito XIII na judaicas desprovidas de líderes,
abertura da disputa: “Eu não vos fiz e, como consequência, muitos se
A Disputa de Tortosa, que teve vir aqui para provar qual de nossas desesperaram e se converteram. No
início em 1413 e durou 20 meses, religiões é a verdadeira, pois para entanto, a intenção de Benedito
foi a mais longa e importante das mim é perfeitamente claro que a XIII, em tornar o Cristianismo um
disputas cristãs-judaicas impostas minha é verdadeira e que a vossa símbolo de identificação para todos
aos judeus durante a Idade Média. está ultrapassada”. Para os cristãos os habitantes da Península Ibérica
Essa Disputa de Tortosa, dirigida era indispensável que os judeus não se realizou.
por Benedito XIII, adquire maior reconhecessem falhas na própria
relevância não apenas pelo tempo interpretação do Talmud, no que diz A onda de antissemitismo, resultante
que durou, mas também pelo respeito ao Messias. da disputa em Tortosa acabou
número de autoridades eclesiásticas perdendo força. Quando Afonso V
Os motivos que levaram a instituir de Aragão assumiu o poder, tanto
a disputa são vários. As autoridades ele quanto João II de Castela e
eclesiásticas queriam desmoralizar o Leon, estavam mais interessados
em assuntos seculares do que em
fanatismo religioso. Ambos queriam
a sobrevivência das comunidades
judaicas para beneficiar seus reinos.
Entre 1419 e 1422, João II, Afonso V
e o Papa Martin V aboliram
todos os éditos antijudaicos desde
1391, juntamente com algumas
das restrições socioeconômicas.
Sefer Torá, Séc. 14 Outras restrições caíram em desuso.
ou 15, município de
Calahorra ou Tudela.
Algumas sinagogas e o uso do
(La Rioja), Espanha Talmud foram restituídos aos judeus.

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No reino de Castela-Leon, onde


viviam a maioria dos judeus
espanhóis, sua população judaica
conseguiu uma recuperação melhor.
Ainda restavam comunidades nas
principais cidades (Sevilha, Toledo,
Burgos), mas os judeus estavam,
então, mais dispersos por várias
cidades menores.

No entanto, prejuízos irreparáveis


tinham sido feito às comunidades,
pelos eventos de 1391, 1412 e 1413
não tinham volta. O judaísmo
espanhol jamais voltaria à condição
que desfrutava antes de 1391. Mas,
apesar de todas as depredações,
ainda restavam vários judeus de
posses nas grandes cidades, com Registros da Disputa de Tortosa, 1413-1414. Arquivo Histórico da Comarca das
conexões na Corte e no governo, que Terras dos Hebreus

atuavam como líderes comunitários.


Contudo, eles já não gozavam do haviam convertido e viviam como ao olho do historiador e escapa de
semi-monopólio das profissões cristãos; e os criptojudeus, que todos os registros escritos. Sabemos,
intelectuais, e os cargos que antes repudiavam os batismos forçados porém, que os conversos mantinham
possuíam, agora tinham que dividir e, no segredo de seus lares, estreitos laços familiares e comerciais,
com cristãos e conversos – sendo que permaneciam judeus. Segundo a lei e se casavam apenas entre si. Havia
havia agora muitos milhares destes judaica, os conversos ainda eram os que, no maior sigilo, frequentavam
últimos. judeus, pois as conversões forçadas sinagogas, evitavam alimentos
não têm validade, já que um homem proibidos, jejuavam, mantinham as
Os conversos só pode ser responsabilizado pelas festas e guardavam, na medida do
atitudes que toma por livre e possível, o Shabat.
A enchente de conversos do espontânea vontade.
Judaísmo resultante da violência Apesar de todas as promessas da
e insistente pressão exercida sobre Precisa ser ressaltado que nem Igreja, para os novos cristãos durou
os judeus, durante décadas, foi todos os cristãos-novos, como eram pouco a ilusão de viver em paz. Logo
um verdadeiro desastre para as também chamados, haviam sido descobriram que não podiam fugir ao
comunidades judaicas, e um aparente forçados a se converter. Alguns antagonismo antissemita
triunfo para a Igreja. Mas para o haviam feito por livre vontade da população, que os via com
o Cristianismo, foi um cálice de por acreditar na fé cristã, outros uma hostilidade ainda maior do
veneno. por quererem fugir da legislação que a que existia em relação aos
discriminatória de humilhações às judeus, e se referia a eles de forma
Estima-se que até meados de quais os judeus estavam submetidos pejorativa. Chamavam-nos de
1415 outros 50 mil judeus se e poder, assim, alcançar ambições marranos (porcos).
converteram, juntando-se aos 100 profissionais ou comerciais. Alguns
mil que já o haviam feito durante os dos cristãos-novos demonstravam Os conversos e suas famílias
pogroms de 1391. grande zelo por sua nova religião, tendiam a estar entre as pessoas
e, voltando-se contra seus irmãos, mais cultas dos Reinos Cristãos
Como resultado dessas conversões, foram veículo de grande sofrimento. e, apesar do preconceito que as
a população judaica ficou dividida É difícil para os historiadores estimar cercava, muitas famílias de conversos
em três grupos: os que haviam o número de conversos que eram prosperaram, tornando-se das
permanecido judeus, os que se criptojudeus. O criptojudaísmo foge mais ricas. Ao aceitar o batismo, os

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COMUNIDADES

recém-convertidos não estavam mais momento, as conversões em massa Fernando se tornou rei de Aragão.
sujeitos às leis que restringiam a de judeus haviam sido vistas pelas De 1479 em diante eles governaram
vida dos judeus. Nos anos seguintes, autoridades eclesiásticas como uma o que era, de fato, um único reino
vários deles galgariam posições de vitória do Cristianismo. Elas partiam unificado. Isabel e Fernando
destaque na administração real, na do pressuposto que, com o passar do gradualmente restauraram a ordem e
burocracia civil e até mesmo na tempo, mesmo os que haviam sido impuseram sua autoridade sobre toda
Igreja, chegando a casar seus filhos convertidos à força se tornariam a Espanha. Num primeiro momento,
com membro da nobreza. cristãos sinceros. Mas, no decorrer do os reis não eram hostis aos judeus,
século, a Igreja passou a ver o grande pelo contrário.
A rápida ascensão dos conversos contingente de cristãos-novos como
provocava inveja e ressentimento, um “um perigo oculto”, passando Havia inúmeros judeus e conversos
exacerbando o antagonismo cristão. a querer eliminar todos aqueles que foram nomeados para ocupar
Os conversos acabaram por se cuja lealdade a seu credo não fosse cargos importantes na administração
transformar em um problema social confiável. do Reino. Entre outros, havia duas
além de religioso. A judeufobia, o figuras de destaque: Rabi Isaac ben
antijudaísmo religioso das massas, Como vimos acima, os primeiros Judah Abravanel – que se refugiou
fundiu-se com um novo tipo de motins contra conversos irromperam em Castela após a morte do rei
antissemitismo – o racial. Depois em Toledo. Em junho de 1449, D. Afonso V, rei de Portugal, e Don
de 1391, o conceito de limpieza os que viviam na Ciudad Real, no Abraham Senior, de Segóvia, Rabino
de la sangre (pureza de sangue) Reino de Castela, reagiram após Chefe da comunidade judaica e
tornou-se incorporado na vida terem sido atacados por cristãos- Coletor-Chefe de impostos reais, em
espanhola nos séculos seguintes. Para velhos, tendo a luta durado 15 dias. Castela. Os dois eram encarregados
um cristão provar sua “pureza de Os ataques se repetiram em 1464, de administrar as receitas e fornecer
sangue” devia provar que não havia 1467 e 1474, sendo que esse último abastecimentos ao exército real.
nenhum judeu em sua linhagem. pogrom foi particularmente grave. A Outros estadistas cristãos-novos
A política de limpieza de la sangre intranquilidade popular causada pela prestavam serviços à Coroa e dentro
será adotada primeiramente, em hostilidade dos cristãos-velhos contra da casa real, Isabel conseguiu
1449, em Toledo, onde um conflito os conversos preocupava cada vez conceber o Príncipe Juan devido ao
anti-conversos conseguiu bani-los e mais os governantes. tratamento médico que recebeu de
a seus descendentes da maioria dos seu médico judeu, Lorenzo Badoc.
cargos oficiais. O objetivo do estatuto O ideólogo do antissemitismo que Havia também administradores e
de exclusão foi impedir uma maior se abateu contra judeus e conversos intelectuais judeus também na corte
inserção de cristãos-novos na vida espanhóis foi um franciscano, frei de Aragão e a serviço de vários
econômica e social, pois essa mistura Alonso de Espina, o superior da nobres e clérigos.
contrariava os interesses dos cristãos- Casa de Estudos de Salamanca, que
velhos. os odiava igualmente e defendia a Ademais, em várias ocasiões,
completa extirpação do judaísmo da Fernando e Isabel intervieram
A crescente hostilidade dos cristãos- Espanha por expulsão ou extermínio. pessoalmente para impedir distúrbios
velhos e o conceito de “limpeza Em seu devido tempo, todas as antijudaicos e punir os que haviam
do sangue” – que levaram a um sugestões de frei Alonso foram fomentado a violência. Para conter os
isolamento dos cristãos-novos, adotadas pelos governantes ibéricos. excessos dos nobres e das autoridades
foram fatores que levaram um municipais em sua tentativa de
grande número de conversos, Os Reis Católicos restringir os direitos dos judeus,
assim como seus filhos e netos – e a Inquisição Fernando havia deixado claro que
nascidos nominalmente no seio do não deviam ser prejudicados. Em
Cristianismo – a traçar o caminho de A história dos judeus na Espanha 1477, ao defender os judeus de
volta às suas raízes. vai dar sua guinada final em outubro Trujillo, Isabel declarou, “Todos
de 1469, quando Isabel de Castela os judeus do meu reino são meus
Ao longo do século 15 a questão dos se casa com o príncipe Fernando de e estão sob minha proteção, e cabe
conversos começou a preocupar os Aragão. Em 1474, Isabel ascendeu ao a mim defender e protegê-los, e
governantes e a Igreja. Num primeiro trono de Castela e, cinco anos depois, manter seus direitos”. São inúmeras

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REVISTA MORASHÁ i 91

as provas de que, até a véspera da monarcas espanhóis a Igreja e o A Inquisição tomou nova dimensão
expulsão, os governantes de Aragão Estado atuavam em conjunto, a quando Torquemada foi nomeado
e Castela consideravam os judeus Inquisição espanhola funcionaria Inquisidor Geral. Todos os tribunais
como súditos leais e merecedores de como um instrumento da Igreja, mas da Inquisição, em toda a Espanha
proteção. A confiança judaica em seu também de política real. cristã, achavam-se sob sua jurisdição.
apoio não se baseava, de fato, como Em novembro de 1478, uma Bula do Nos quinze anos seguintes, até
alguns estudiosos alegam, em ilusões Papa Sisto IV autorizou a criação de sua morte em 1498, ele teve um
fantasiosas. uma Inquisição única na Espanha. poder que rivalizava com o dos
Concedeu aos monarcas espanhóis o Reis Católicos. Sob Torquemada, o
Mas, Fernando e Isabel eram inédito direito de nomear e demitir trabalho da Inquisição prosseguiu
antes de mais nada monarcas os inquisidores. Em setembro de com renovada e diabólica energia.
católicos e levavam a sério suas 1480, dois dominicanos foram Na década seguinte, a Inquisição se
responsabilidades religiosas em nomeados inquisidores. ramificou, cobrindo quase todo o país
relação à Igreja. Não foi apenas por em fins do século. Talvez uns 30 mil
razões políticas que eles receberam O primeiro auto-de-fé se realizou conversos tenham sido queimados
do Papa Alexander VI o título de los em fevereiro de 1481, e seis vivos em todo o reino. Milhares
Reyes Católicos. conversos foram queimados vivos de pessoas ficaram aleijadas ou
na estaca. Só em Sevilha, no início enlouqueceram por causas das
Os constantes relatórios sobre as de novembro, as chamas ganharam torturas, arruinadas porque seus
alegadas atividades judaizantes mais 288 vítimas, enquanto 79 bens haviam sido confiscados. Desde
realizadas por conversos alarmavam foram condenadas à prisão perpétua. o momento de sua instalação, a
os Reis, principalmente Isabel. E, Segundo os registros, entre 1481 e Inquisição cobiçava a riqueza dos
uma vez consolidada sua posição 1488, houve 750 autos-de-fé apenas conversos e dos judeus. Nada podia
política, os Reis Católicos decidiram em Sevilha. deter as atrocidades, cuja relação
agir para resolver a questão dos ocuparia centenas de milhares de
conversos, de acordo com as páginas. A certa altura, os dignitários
diretrizes propostas pelos mais de Barcelona escreveram ao Rei
extremos fanáticos católicos: extirpar Fernando: “Estamos todos arrasados
a “heresia” dos conversos e tomar com as notícias que recebemos
severas medidas contra os judeus das execuções e atos que dizem
para impedi-los de influenciar a estar tendo lugar em Castela”. Em
população cristã. Castela, havia protestos contra o
renascimento de uma instituição
Em 1447, Isabel e Fernando foram bárbara, criada originalmente em um
convencidos pelo prior dominicano clima mais primitivo espiritual. Mas
de Sevilha, Alonso de Hojeda, de os críticos foram silenciados.
estabelecer a Inquisição em suas
terras. O dominicano alegava Desde o início, a Inquisição
de que os conversos se reuniam espanhola moveu-se com brutalidade
secretamente para praticar seus “ritos em seu uso de confissões secretas
antigos”, e essa ameaça só poderia ser extorquidas sob tortura, que era
adequadamente combatida se fosse considerada “a melhor maneira de
instalado na Espanha um Tribunal capturar o maior número de judeus
da Inquisição, sob controle real. secretos”. Em sua metodologia e
técnicas de intimidação e tortura, não
Ao contrário dos antigos Tribunais difere da Inquisição Papal, mas foi
do Santo instituídos no século 13, a certamente na Espanha que atingiu
Inquisição espanhola não seria um novas dimensões de intolerância,
instrumento do Papado. Prestaria cinismo, perversidade e terror. Todo
contas diretamente a Fernando e Ruela dos Arcos. Um dos espaços
urbanos mais conhecidos, de forte
tipo de tortura que a depravada
Isabel. Como nos domínios dos lembrança judaica imaginação dos inquisidores

71 abril 2016
COMUNIDADES

que eram vistas como crime pelos


cristãos, novamente se tornaram
fonte de honra e orgulho. De fato,
os judeus cada vez mais queriam se
arriscar mesmo à fogueira do auto-
de-fé de modo a permanecerem fieis
ao D’us de Israel.

A Inquisição embarcou em sua


própria e constante propaganda
antissemita, usando técnicas
que iriam ser adotadas cerca de
quatro séculos e meio mais tarde,
na Alemanha nazista, por Josef
Goebbels. Reiteravam-se e repetiam-
se acusações revoltantes, com o
conhecimento de que acabariam por
ser aceitas, pois “uma mentira muitas
vezes repetida se torna uma verdade”.
Utilizando-se do antissemitismo que
ela própria dera um jeito de provocar
na população, a Inquisição pediu à
Coroa medidas apropriadas.
A proposta de expulsar todos os
judeus da Espanha veio diretamente
da Inquisição.

Decreto de expulsão dos judeus de Granada, 31 de março de 1492. Manuscrito O Rei Fernando reconheceu que a
sobre papel. Cópia não certificada, Arquivo Geral de Simancas, Valladolid perseguição dos judeus e conversos
teria inevitavelmente repercussões
idealizava acabava sendo sancionado. e, supostamente, não tinham poder econômicas adversas para o país.
Há registros de que um inquisidor sobre membros de outras religiões. Nem ele nem a Rainha Isabel, porém,
falou aos colegas: “Devemos Mas, como a Inquisição considerava puderam resistir à combinada pressão
lembrar que o objetivo principal do o judaísmo um inimigo mortal da Inquisição e do sentimento
julgamento e execução não é salvar a da fé cristã, encontrava meios de popular. Numa carta a seus mais
alma do acusado, mas alcançar o bem implicar, arrastar e destruir os judeus influentes nobres e cortesãos, o
público e impor medo aos demais”. praticantes. A verdade é que todos Rei escreveu: “O Santo Ofício da
os que ocuparam cargos importantes Inquisição, vendo que alguns cristãos
O Édito de no Tribunal do Santo Ofício tinham são postos em perigo pelo contato
Expulsão de 1492 como objetivo se livrar dos judeus e comunicação com os judeus,
e, no final, conseguiram destruir o estipulou que eles sejam expulsos de
O ódio da Inquisição não era judaísmo na Espanha. todos os nossos reinos e territórios,
apenas em relação aos conversos. e convenceu-nos a dar nosso apoio e
Era maior o ódio aos judeus Para conseguir seu objetivo final concordância a isso... fazemo-lo com
praticantes, porque, em teoria, a Inquisição foi em frente em um grande dano para nós, buscando e
ficavam fora de sua jurisdição crescendo de histeria, paranoia e preferindo a salvação de nossas almas
legal oficial. Os inquisidores eram terror. Ironicamente, o horror dessa acima do nosso proveito...”.
autorizados a tratar de hereges, isto primeira década, fez com que um Em janeiro de 1483, para apaziguar
é, cristãos que se haviam desviado número ainda maior de conversos a Inquisição na Andaluzia, os
da ortodoxia da fé cristã, ou seja, voltassem a procurar suas raízes monarcas anunciaram que todos
cristãos-novos acusados de judaizar, judaicas. A religião e a tradição, os judeus da região deveriam ser

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REVISTA MORASHÁ i 91

expulsos. Em maio de 1486, todos os à tortura, ele “confessou” o nome Logo após a queda de Granada,
judeus foram enxotados de grandes de vários conversos e judeus começaram a circular rumores na
partes de Aragão. Mas a expulsão supostamente envolvidos num corte de que um decreto de expulsão
geral teve de ser adiada porque a complô para derrubar o Cristianismo, para todos os judeus estava para ser
Coroa precisava do dinheiro, expertise a Inquisição e matar todos os cristãos. decretado. As datas específicas para a
e outras formas de apoio dos judeus Ainda que nenhuma criança estivesse formulação, promulgação e anúncio
e conversos para a campanha em desaparecida em La Guardia, nem público do decreto continuam alvo
andamento contra os muçulmanos houvesse fundamento na patológica de discussão, mas provavelmente
do Reino de Granada. acusação de assassinato ritual, os foram assinados em fim de janeiro e
Em 1478, a batalha com o Reino judeus, uma vez mais, se viram promulgados no final de março.
de Granada foi retomada e, na vítimas dessa calúnia medieval.
década seguinte, Castela perseguiu, Torquemada indicou uma comissão Nesse ínterim, Rabi Abrabanel e
incessantemente, a ofensiva contra especial investigadora que, como se Rabi Seneor tentaram influenciar
o último reino muçulmano na previa, “julgou culpados” os acusados. os Reis Católicos a revogar o
Península Ibérica. Em novembro de 1491, duas decreto. Na introdução a seu
semanas antes da queda de Granada, comentário sobre os Profetas, Rabi
Torquemada aceitou o adiamento cinco judeus e seis conversos foram Abrabanel recorda ter-se reunido
pela Coroa da expulsão de todos os mandados para a fogueira em Ávila. três vezes com o Rei, implorando,
judeus da Espanha até que o Reino incessantemente, mas em vão, por
muçulmano de Granada fosse final O intuito de Torquemada era atiçar seu povo. Apesar de necessitar do
e definitivamente conquistado. Mas, ainda mais o povo contra os judeus apoio dos poderosos cortesãos judeus
nesse meio tempo, passou a preparar e conversos, e assim preparar os e conversos, Fernando manteve-se
o terreno. ânimos para o decreto de expulsão, firme, enquanto Isabel o estimulava a
que seria divulgado apenas três meses manter sua decisão de remover todos
Assim surgiu uma acusação de após o veredicto. os judeus da Espanha.
libelo de sangue, conhecida como
El Niño de la Guardia. Um converso, Em 2 de janeiro de 1492, quando Rabi Abrabanel é bastante sucinto
Benito Garcia, foi levado perante a o estandarte espanhol foi alçado na em sua descrição de seu dramático
Inquisição e acusado de participar torre de Alhambra, palácio-fortaleza encontro com o casal real, mas Rabi
da crucificação de uma criança cristã em Granada, a sorte dos judeus Moshé Capsali, Rabino Chefe de
na véspera de Pessach. Submetido estava selada. Istambul no século 15, e cronistas

francisco rizi, auto-da-fé na Plaza Mayor, Madri. Museu Nacional do Prado

73 abril 2016
COMUNIDADES

em uma grande cerimônia, em junho


de 1492. Ambos eram favoritos
da Rainha Isabel e é possível que
eles ou suas famílias tenham sido
ameaçados, até se submeterem.
Outro líder da comunidade, Rabi
Don Isaac Abravanel, recusou-se a
se converter e optou pelo exílio, mas
teve que renunciar a seus direitos de
restituição das grandes somas que
emprestara ao governo.

O número de judeus que se


converteram para evitar o exílio e
aqueles que partiram é puramente
especulativo. Entre os que partiram,
a grande maioria foi para Portugal.
O número destes últimos é estimado
entre 100 mil e 120 mil. É possível
Na esquina das ruas Mariet com Rincón del Viejo, há uma lápide com a inscrição: que mais uns 50 mil tenham-se
Rabi Shmuel Ha-Sardi exilado em vários outros destinos
partindo direto da Espanha em 1492,
para as terras mediterrâneas, alguns
que se basearam nos relatos de Os judeus estavam estarrecidos; para a África Ocidental, poucos para
Capsali, revelam detalhes da última eles teriam apenas quatro meses a Holanda.
defesa dos Mestres sefaraditas: de tempo para deixar a Espanha,
“Naquele dia, Don Isaac Abravanel onde seus ancestrais tinham vivido A História dos judeus na Península
recebeu permissão para falar e durante milênios. Ademais teriam Ibérica chegara ao fim. Uma
defender seu povo. E lá se pôs, como que deixar bens e propriedades e comunidade judaica famosa, tanto
um leão, em sabedoria e força, e, na lhes foi proibido levarem consigo por sua sabedoria e conhecimentos
mais eloquente linguagem, dirigiu- ouro, prata ou pedras preciosas. As quanto por sua importância
se ao Rei e à Rainha. Don Abram sinagogas (algumas das quais foram econômica e política foi abrupta e
Seneor, também, dirigiu-se aos convertidas em igrejas), cemitérios cruelmente desarraigada.
monarcas, mas vendo que era em vão, e a propriedade das aljamas foram Mas, sua extraordinária civilização
eles acabaram concordando em não confiscadas. A pedido dos judeus, a não desapareceu, pois, os
seguir adiante com o assunto...”. data fatídica de 31 de julho foi adiada judeus expulsos levaram seus
para 2 de agosto por causa de Tishá conhecimentos, sua sabedoria e
Apesar de assinado em 31 de março, B’av. tradições para outras terras. Mas isto
o Édito da Expulsão foi promulgado é um outro capítulo da História dos
somente entre 29 de abril e Imediatamente após ter sido Judeus Sefaraditas...
1º de maio. A razão dada no publicado o Édito, o clero
documento para a expulsão foi evitar começou uma ampla campanha
que os judeus infligissem de conversão. Houve um
mais injúrias à religião cristã. O número significativo de judeus
Édito enumera, em um estilo que que claramente não tinham BIBLIOGRAFIA
Cohen, Malcolm, A Short History of the
denota ter sido redigido pelos condições de enfrentar o exílio e Jews in Spain, eBook Kindle
inquisidores, os passos tomados se batizaram. Entre esses, dois dos
Gerber, Jane S., The Jews of Spain, eBook
durante os 12 anos anteriores para mais importantes membros da Kindle
“evitar que os judeus influenciassem comunidade judaica espanhola, Don
Lowney, Christopher, A Vanished
os conversos e para purificar a fé Abraham Seneor e seu genro, Rabi World: Medieval Spain’s Golden Age of
cristã”. Meir Melamed, que foram batizados Enlightenment, eBook Kindle

74
REVISTA MORASHÁ

O artigo “A conturbada vida judaica na Espanha


cristã”, publicado na edição de dezembro de 2015,
número 90, é uma aula magna sobre a história dos
Judeus de Sefarad -na Península Ibérica-, suas
comunidades, domínios a que foram submetidos,
resistência, reconquista e pogroms.
Deborah Simas
Curitiba - PR

Afirmamos nosso propósito Cada vez que recebo a Morashá, que Gostaria de parabenizar pela
de desenvolver, em parceria, completa a minha seleção e arquivo de revista Morashá pela edição
programas de incentivo à leitura assuntos importantes do judaísmo, fico de dezembro de 2015, está linda
e dinamização da Biblioteca encantado pela beleza gráfica e esmero e completa como sempre.
Pública do Espírito Santo, pelos assuntos de espiritualidade das Agradeço a toda equipe e “Parabéns”
consolidando-os como espaço nossas festas do Ano Judaico. O grato a todos!
de convivência e como referência e rico conteúdo de nossa sempre Danielle Chueke
quanto ao acesso à informação e ao atualizada vivência de judeus no Por e-mail
conhecimento. mundo atual. Encantou-me o artigo
Na expectativa de contribuir para sobre Marthe Cohn “Uma Heroína Não posso deixar de tecer elogios
valorizar nossas bibliotecas com para a História”. Como dizem no à Equipe que faz esta maravilhosa
ações e políticas públicas de ampliação Yad Vashem, “o centro de memória em revista direcionada à comunidade
e atualização de acervos e de estímulo Israel”, “De trás de cada pessoa tem judaica, seja pelo seu fantástico
às práticas de pesquisa e de leitura, uma história” dos que foram e dos que conteúdo, seja pela sua qualidade
agradecemos a cortesia do envio da estão. gráfica.
revista Morashá. Ernesto Strauss Claudio Sternfeld
Rita de Cássia Maia e Silva Costa São Paulo - SP São Paulo - SP
Gerente do Sistema Estadual de  
Bibliotecas Públicas do Espírito Santo
Como sempre, também a edição 90 de Morashá apresentou a seus
 
Morashá é de alto nível e representa leitores a História de Purim, de
Parabéns pela magnífica edição da os valores culturais judaicos. maneira criativa e ao mesmo tempo
revista Morashá número 90 e pelas didática. Impossível não fazer
Leopoldo Goldenberg
matérias sobre Chanucá, que são Por e-mail uma analogia aos tempos atuais.
ótimas. Como sempre, a revista merece   O Povo de Israel deve estar sempre
uma leitura integral, pois todos os Li a matéria sobre “Os Protocolos dos alerta para o surgimento de um
artigos são muito bons. Sábios de Sião” em que os judeus são novo Haman.
Elie Politi acusados de serem os seus autores.
São Paulo - SP Claudio Roitman
Achei bastante interessante o artigo e por e-mail
gostaria de receber informações sobre
À Equipe da Morashá desejamos fontes de pesquisa, documentários e Retratando a vida e a trágica
primeiramente um Feliz Ano Novo e referências do material utilizado em morte de Itzhak Rabin, a revista
agradecemos muito o envio da revista sua edição. É de suma importância ter Morashá resgata para o público
para a Alliance Israélite Universelle- fontes de pesquisa para desmentir o em geral a importância de líderes
Paris. mau-caratismo desses antissemitas no autênticos e comprometidos pela
Anne-Laure Lachowsky Brasil. causa de sua gente.
Assistente da Biblioteca da Alliance
Israélite Universelle Luiz Henrique de O. Rocha Marcia Sandowski
Paris - França Por e-mail por email

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