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PSI-2211 Circuitos Elétricos I

Resposta em Freqüência, Circuito Integrador e Circuito


Diferenciador
Vı́tor H. Nascimento
6 de junho de 2006

1 Resposta em freqüência
Já vimos como resolver um circuito RC de maneira completa (calculando tanto o transitório
quanto o regime permanente). Vamos agora analisar um pouco mais de perto o caso da
resposta em regime permanente, considerando inicialmente que o sinal de entrada é senoidal.
Considere o circuito da fig. 1, em que a tensão de entrada é

es (t) = E cos(ωt + θ), (1)

e vamos resolvê-lo pensando apenas no regime permanente — isto é, vamos desprezar o
transitório agora. Dizemos que o circuito está em r egime permanente senoidal, ou RPS.

vR (t)

+
eq (t) C vC (t)

Figura 1: Circuito RC.

Vamos resolver dois casos:

1. A saı́da é a tensão no capacitor;

2. A saı́da é a tensão no resistor.

1
1.1 Tensão no capacitor: circuito passa-baixas
Como estamos tratando apenas da tensão em regime permanente, e o sinal de entrada é uma
senóide, podemos usar fasores, e por divisão de tensão temos:
1
ZC jωC 1
V̂C = Ês = 1 Ês = Ês .
ZC + R R + jωC jωRC
Essa relação vale qualquer que seja a freqüência do gerador. Podemos pensar agora em
como varia o comportamento da saı́da do circuito à medida que a freqüência da entrada é
variada: podemos definir um “ganho” entre es (t) e vC (t), que depende da freqüência:
1
Gc (jω) = .
1 + jωRC
A função Gc (jω) é a resposta em freqüência do circuito da fig. 1, para o caso da saı́da ser a
tensão no capacitor. Note que esse ganho é um número complexo, que equivale à razão entre
o fasor da tensão no capacitor e o fasor da tensão no gerador, para uma dada freqüência ω
do gerador. Obviamente, isso vale apenas para sinais senoidais, em regime permanente, ou
seja, para RPS.
Vamos ver como a tensão vc (t) (em RPS) varia com a freqüência: em RPS, a tensão vc (t)
vale
vc (t) = A cos(ωt + φ),
em que
Ês
V̂C = A∠φ = Gc (jω)Ês = .
1 + jωRC
Assim, temos:
1
A = |V̂C | = |Gc (jω)| · |Ês | = p E,
1 + (ωRC)2
e
φ = ∠V̂C = ∠Ês + ∠Gc (jω) = θ − arctan2 (ωRC,1).
Os gráficos do módulo e da fase de Gc (jω) estão na fig. 2, para o caso de um resistor de
R = 1kΩ e um capacitor de 5µF . Na figura estão marcados os pontos correspondentes à
freqüência
∆ 1
ωc = .
RC

Essa freqüência é chamada freqüência de√corte do circuito. Repare que ela é a freqüência
para a qual o ganho |Gc (jωc )| é igual a 1/ 2. Nesse caso, ela também é igual à freqüência
em que a defasagem entre a tensão do gerador e a tensão de saı́da é igual a −45◦ .
Usar a resposta em freqüência é muito fácil: por exemplo, se a tensão de entrada for
es (t) = 2 cos(100t + 10◦ ),
para o caso de R = 1kΩ, C = 5µF temos que a resposta em freqüência vale
1
Gc (j100) = = 0,8 − j0,4 = 0,8944∠ − 26,5651◦ ,
1 + j100 · 1.000 · 5 × 10−6

2
1

0.8

0.6

0.4

0.2

0
0 1000 2000 3000 4000 5000 6000 7000 8000 9000 10000

−20

−40

−60

−80

−100
0 1000 2000 3000 4000 5000 6000 7000 8000 9000 10000

Figura 2: Resposta em freqüência de um circuito RC, com R = 1kΩ, C = 5µF, saı́da igual
à tensão no capacitor.

e portanto, a tensão no capacitor em RPS é


vC (t)|RPS = 1,7889 cos(100t − 16,5651◦ ).
Por outro lado, se a tensão no gerador for
es (t) = 2 cos(10.000t + 10),
a resposta em freqüência em 10.000 rad/s é
1
Gc (j10.000) = = 3,998 × 10−4 − j1,9992 × 10−2 =
1 + j10.000 · 1.000 · 5 × 10−6
= 1,9996 × 10−2 ∠ − 88,854◦ ,
e portanto,
vC (t)|RPS = 3,9992 × 10−2 cos(10.000t − 78,854◦ ).
Vemos que o circuito opera como um filtro passa-baixas, já que sinais de freqüência baixa
passam com pouca alteração, e sinais de freqüência maior são atenuados. Esse comporta-
mento é útil se lembrarmos que um sinal mais complicado pode ser decomposto em séries
de Fourier: usando um circuito com ganhos diferentes para freqüências diferentes, podemos
alterar a forma do sinal de saı́da de alguma maneira útil.
Vejamos um exemplo: um circuito que fornece uma tensão contı́nua proporcional à ampli-
tude de uma onda senoidal. É isso o que faz o circuito da fig. 3: o diodo corta os semi-ciclos
negativos da tensão do gerador, deixando passar apenas os semi-ciclos positivos para o RC
à direita1 .
1
O amplificador operacional está lá apenas para que o circuito RC à direita não interfira (não puxe
corrente) no retificador à esquerda. É possı́vel construir o circuito de maneira um pouco mais simples.

3
+ R


R1
+
eq (t) eo (t) C vC (t)

Figura 3: Circuito RC.

A fig. 4 mostra as tensões es (t) e eo (t).

es (t)
2

−1

−2
0 0.2 0.4 0.6 0.8 1 1.2 1.4 1.6
−3
x 10
eo (t)
2

1.5

0.5

0
0 0.2 0.4 0.6 0.8 1 1.2 1.4 1.6
t (s) x 10
−3

Figura 4: Tensões no gerador e na saı́da do amplificador operacional no circuito da fig. 4.

A série de Fourier do sinal eo (t) é a seguinte:

eo (t) = 0,63662 + cos(ω0 t − 80◦ ) + 0,42441 cos(2ω0 t − 160◦ )+


+ 0,084883 cos(4ω0 t − 140◦ ) + 0,036378 cos(6ω0 t − 120◦ ) + . . .

A resposta vC (t) em regime permanente agora é obtida por superposição, calculando-se


a soma das respostas para cada freqüência diferente. Pela resposta em freqüência, temos os
seguintes ganhos (lembrando que ω0 = 10krad/s): O sinal filtrado está na fig. 5. Observe
como o sinal agora apresenta apenas uma pequena ondulação residual, devida ao ganho não
ser exatamente nulo do filtro nas freqüências ω0 , 2ω0 , . . . . Usando-se um valor mais alto

4
ω |Gc (jω)| ∠Gc (jω) |V̂C (ω)| = |Gc (jω)| · |Ês (ω)| ∠V̂C (ω) = ∠Ês (ω) + ∠Gc (jω)
0 1 0 0,63662 0
ω0 0,019996 −88,85◦ 0,019996 −168,85◦
2ω0 0,009995 −89,427◦ 0,0042439 −249,43◦
3ω0 0,0066665 −89,618◦ 0 não definido
4ω0 0,004999 −89,714◦ 0,00042441 −229,71◦
3ω0 0,004 −89,771◦ 0 não definido
6ω0 0,003333 −89,809◦ 0,00012126 −209,81◦

para RC, seria possı́vel atenuar ainda mais a oscilação. Para se obter um sinal praticamente
constante e igual ao valor médio do co-seno retificado, no caso 0,63662.
vC (t)
2

1.8

1.6

1.4

1.2

0.8

0.6

0.4

0.2

0
0 0.5 1 1.5 2 2.5 3
t (s) x 10
−3

Figura 5: Tensão sobre o capacitor.

1.2 Notas e aplicações


Esse tipo de idéia é usado por exemplo em multı́metros analógicos (de ponteiro). Esses
aparelhos são calibrados para indicar valores eficazes de ondas senoidais: no caso de uma
senóide como es (t) na equação (1), temos
E
Eef = √ .
2
Um voltı́metro analógico normalmente procura medir a amplitude E da senóide de alguma
maneira, e o mostrador é desenhado de forma a já indicar valores eficazes diretamente. Uma

5
forma comum de medir E, indiretamente, é calcular o valor médio da onda retificada, como
faz o circuito da fig. 3.
Em um multı́metro analógico a separação entre o valor médio da onda retificada (com-
ponente contı́nua) e as senóides que compõe a onda retificada é feita através de um filtro
mecânico, já que o amortecimento (atrito) imposto ao movimento do ponteiro faz o ponteiro
funcionar como um filtro passa-baixas (lembre-se de que a equação diferencial que descreve
o movimento de um sistema massa-atrito é idêntica à equação que descreve um circuito RC).
Atualmente é mais comum calcular-se diretamente o valor eficaz de um sinal v(t) com
perı́odo T , pela definição: s
1 T
Z
Vef = v(t)2 d t.
T 0
Isso é feito montando-se um circuito que forneça um sinal x(t) proporcional ao quadrado de
uma tensão ou corrente (ou seja, x(t) = αv(t)2 ), e calculando-se a média de x(t) através de
um filtro passa-baixas como o descrito aqui. A raiz quadrada pode ser obtida através de
algum outro circuito eletrônico, ou, em voltı́metros digitais, computacionalmente.
Exercı́cio 1. Calcule quanto deve ser o valor de R e C no circuito da fig. 3 para que a ondula-
ção observada sobre o capacitor seja no máximo 0,01% do valor médio da senóide modificada
(considerando-se uma freqüência de 10kHz). Faça um cálculo aproximado, observando que
as harmônicas de ordem maior ou igual a 2 têm amplitude bem menor do que a primeira
harmônica.