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UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA – INSTITUTO DE LETRAS

DEPARTAMENTO DE TEORIA LITERÁRIA E LITERATURAS


LITERATURA BRASILEIRA CONTEMPORÂNEA
Professora Regina Dalcastagnè

Comentário crítico
Diante da dor dos outros
(SONTAG, Susan. Diante da dor dos outros. Trad. De Rubens Figueiredo. São Paulo:
Companhia das Letras, 2003.)
Mariana Cardoso Carvalho

Escritora norte-americana, Susan Sontag faleceu antes de testemunhar a popularização


da internet; a preocupação de governos inteiros com as fake news; a era dos smartphones, com
câmeras que democratizaram a disseminação do horror; e toda sorte de aparatos tecnológicos e
fenômenos deles advindos que aceleraram o acesso das pessoas à informação em tempo real –
é possível assistir ao vídeo de um acidente automobilístico ou de um homicídio, por exemplo,
com a mesma naturalidade com que se consulta a previsão meteorológica ou a cotação do dólar.
Nada que Sontag não houvesse antevisto, contudo, ao analisar o impacto das representações do
sofrimento, principalmente a partir do surgimento das fotografias de guerra.

Ao longo de nove capítulos a autora destrincha, das telas de Goya às fotografias feitas
no 11 de setembro, a iconografia da dor humana: quem a produz e quais são suas motivações,
como e por que é consumida em todo o globo. Sontag destaca a força das imagens, peças-chave
para a comunicação e a expressão artística, em especial nos momentos em que a narrativa escrita
deixa vácuos ou não choca seu interlocutor o bastante. Exemplos não faltam: costumava-se
pensar que mostrar a alguém uma realidade dolorosa serviria para educar e impelir esse
espectador ao sentimento; era a prática, afinal, da Igreja no Brasil colonial, repleto de
analfabetos rincões adentro que, sem contato com as letras e a educação formal, “liam” nas
figuras das capelas histórias bíblicas e assim orientavam sua conduta, fiéis e súditos temerosos.
Sontag menciona também a “era do choque”, que teve início na Europa em 1914 e intensificou-
se. Dali a alguns anos, após a desilusão com o esvaziamento dos discursos, artistas como
Samuel Beckett optariam por apostar mais do que nunca em inquietas construções visuais.

Fotografia e jornalismo são intimamente atrelados quando o tema é guerra (joga-se no


texto com o sentido de disparar uma câmera e disparar uma arma, tendo em conta que a
visibilidade é um dos elementos fundamentais nas ações bélicas), e a autora questiona durante
todo o ensaio se as fotos de uma tragédia a denunciam, a defendem, apelam ao exercício da
solidariedade de quem vê ou, pelo contrário, esterilizam a sensibilidade dos que entram em
contato com as notícias e habituam-se ao horror. Não há, como conclui Sontag, uma resposta
universal ou uma fórmula única que possa mediar as relações entre a agonia alheia e os nossos
olhos, entre espantados ansiosos por vê-la, apaixonados, ainda que a contragosto, pela dor.

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