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HHIA DAS LETRAS E. P, Thompson Co stumes em comum ee COL cee nee re, 08 ensaios aqui reunidos dio a c TRé ADIC ONAL de tempo trazidas pelo capitalismo ecotr ey m desrespeit Pa Portes GR ete te Cet Ora S EM COMUM = TON “wo i wil | il | Boum ee eee eo dos historiadores mais importantes de todos os tempos. Expoente de uma ge Eric Hobsbawm ¢ Christopher Hill, sou bye, nas palavras do primeito, aliar “p eee oe ee ne re ee acy Seen er ce) formasao da classe operiria inglesa, Se Perera ree além de livros sobre pacifismo ¢ estu Pm Cae cI et Blake — tem sido recebida com entu do da histéria social, que ele abragou com clogiiéneia ¢ originalidade. Tradu ere ea et eee ene mee ee ee nt ee on 6 lido em paises tio diversos como India, Africa do Sul e Estados Unidos Pee ee ee et tem inspirado pesquisas originais sobre sindicalismo, partidos, movimentos so Dee Com Costumes em comum, 0 leitor Se ee eee eT Pern eee ee ba inglés. Os ensaios reunidos no livro con Se en eee thos de Hill (O eleito de Deus, Omun- a a ee ne ert es H core sremos) que respectivamente, abordaram os séculos XVII © XIX-XX. Costumes em comm See ceed radicalismo dos “niveladores” da Re volugio Inglesa & perplexidade do fim COSTUMES EM COMUM E, PR THOMPSON COSTUMES EM COMUM Tred ROSAURAFICHEMBERG AN (CRISTINA MENEGUELLO PAULO FONTES ae? Gontantiia Das Cras Consiglio PT RYE Thompson Titel gil: apa imine Bott sole detathede Caer ‘Goonge Sth Tats! 15) lene Indice noms Mario Clo Carvin Matos Prepari: Cristina ene Revisn tna Mora Barbosa Cevie ames Carmen da Costa 2 Canggu eor Hai Se8 er 3005 “Todos os dicitos dest ego reservados us Bandi Paulista, 702.6). 32 (04512-002 — Sto Paulo sr “Telefe: (11) 3907-3800 Fax (11) 3707-3801 ‘wu companhiadaletas com br SUMARIO Prefic eagradecimentos, 1 Introdugao: costume e cultura... 2, Patriciose plebeus. 3. Costume, lei e direito comum 4, A economia moral da multiddo inglesa no século Xvi. 5. Beonomia moral revisitada..... 6. Tempo, disciplina de trabalho eo capitalismo industrial .. 7.Avendade esposas... 8. Rough music. Notas. Lista de ilustragdes... Indice onomédstico. 1B 25 86 150 203 267 305 393 407 483) 48s Para Martin Eve uncommon customer [amigo incom PREFACIO EAGRADECIMENTOS (Os estucos contidos neste livro procuraram abranger um tinico tema, bas- tanie homogéneo, que é apresentado na Introdugao. Noentanto,o ivro me tomou :muito mais tempo do que planejara. Seu ponto de partida foram os trabalhos so- bbre“o tempo” e “a economia moral”, iniciados logo depois que publique’ A for magdo da classe operiria inglesa, hé mais de vinte anos, Sofreu um atraso, depois disso, devido a um estudo sobre o crime no século XVI, que resultou em Senhorese cagadores e Albion's fatal tree [A dvore fatal de Albion], este tltimo com a coluboragao de colegas do Centro de Estudos de Hist6ria Social, da Un versidade de Warwick. Por fim, no prine{pio da décaca de 1980, aemergéncia da ‘Segunda Guerra Fria” ¢ as pesadas demandas do movimento pacifista me desviaram de novo deste trabalho, Nao me queixo: estou convencido de que 0 movimento pacifista teve uma contribuigao importante na dispersao da Guerra Fria, que descera como uma nuvem de poluigdo sobre todos os setores da vida Politica e intelectual. Foram essas dificuldades, e também problemas de sade, que atrasaram seriamente a finalizagao de Costumes em comuun. Devo explicar agora o que fiz para manter a continuidade do tema, Dois capitulos foram reproduzidos de publicagdes anteriores, sem qualquer alte- ragio: “Tempo, disciplina de trabalho e eapitalismo industrial”, que apareceu pela primeira vez no n’ 38, de dezembro de 1967, de Past and Present: e°A economia moral da multidio inglesa no século xvii”, Past and Present, 1 50, 1971. No primeiro caso, embora tenh: ido trabalhos interessantes Sobre a questao do tempo, nenhum deles parece obrigar a qualquer revisio importante de meu artigo. Mantive “a economia moral” na forma original por outro motivo, A tese foi muito discutida, criticada e desenvolvida, e em alguns pontos ultra- passada pelas investigagdes subsequentes. A principio, dediquei-me a revisé-la © atualizé-la, o que se revelou uma tarefa impossivel: era como mudar retros- Pectivamente a posigio das traves de um gol. Percebi que estava modificando 9 lum texto que recera muitos comentirios de outros pesquisadores. Por isso. decidi republicar o estudo sem alteri-lo e eserever um artigo mais longo. ‘Economia moral revisitada”, no qual respondo aalguns dos criticose reflitoso: bre as questdes propostas por outros. Osdemaisestudos do livro foramextensamente revistos, ouaparecem aq pela primeira vez. A “Introdugao” e “Patricios e plebeus” ineluem trechos pu blicados originalmente em “Sociedade patricia, cultura plebsia’ Journal of So ‘ial History, vol. 7.4 (verdo de 1974), e “A sociedade ingles no século XVI {uta de classes sem classes?”, Social History, vol. 3, 2(maio de 1987). Uma vei so mais curta de “Rough music” apareceu sob o titulo de “Rough music’ : le charivari anglais”, em Annales: Economies, Sociétés, Chilisations, 27°ano, 1 2, margo-abril de 1972. Agradeco ds tevistas mencionadas e a seus editores por terem permitide a utilizagao desse material Registro também meus agradecimentos aqueles colegase instituigdes que ‘olherame me proporcionaram a oportunidade de lecionare de mantercon- tato com aatividade dos historiadores ao longo desse extenso perfodo: entre ou- tras, varias instituigdes nos Estados Unidos (Pittsburgh, Ruigers, Brown, Dartmouth College), assim como um circuito de universidades indianas ¢ as conferéncias Sir Douglas Robb, na Universidade de Auckland, na Nova Zelan- dia, Mais recentemente, devo agradecer em particular a trés universidades que ssumiram 0 risco de me convidar como professor visitante — embora enferru- jiado —, permitindo minha reabilitagdo como pesquissidor, depois do longo in- tervalo em que me dediquei 20 movimento pacifista, S20 elas, em primeiro lugar, a Queen's University de Kingston, Ontirio (1988); a Universidade de ‘Manchester, que me concedeu uma bolsa de pesquisa Simon Seniorem 1988-9; a Universidade Rutgers, que me designou como Distinguished Visiting Pro. fessor Raoul Wallenberg no ano acacémico de 1989-90, para trabalhar no seu Centro de Anilise Historica, Semessa assisténcia generosa, eo estimulo de tan- tos colegas amaveis. poderia ter perdido contato com minha profissao, Final- mente, devo agradecimentos calorosos a Universidade de Birmingham, que me abeiu sua biblioteca € me proporcionou recursos de pesquisa, na qualidade de participante do Instituto de Pesquisa Avangada em Humanidades, ‘Se me dispusesse a agradecer a todos aqueles que me enviaram referencias (por exemplo, sobre rough music ou a venda de esposas), este prefécio deman- daria varias pginas adicionais, Em algunscasos, reconheci essas contribuigdes «em notas, Peco desculpas por nao ter feito o mesmo em outros casos. Entre os que me forneccram dados ou idéias esto John Beattie, a falecida Kathleen Bumstead, Andrew Charlesworth, Robin Clifton, Penelope Corfield, Anna 10 Davin, Natalie Davis, Isabel Emmett, 0 falecido G. Ewart Evans, John Fine. John Fletcher, Vie Gammon, John Gillis, Inge Goodwin, Jack Goody. 0 faleci- ido Herbert Gutman, Julian Harber, Brian Harrison, J. F.C, Harrison, Martin In- ‘gram, Joan Lane, Louis Mackay, ofalecido David Morgan, Polly Mortis, Bryan Palmer, Alfred Peacock, lorwerth Prothero, Arnold Rattenbury, Ruth Richard- son, John Rule, Raphael Samuel, PeterSearhy, Rabest Shenton, Paul Slack, Len ‘Smith, Michael Sonenscher, Joan Thirsk, Keith Thomas, Dror Wahrman, John Walsh, E. R. Yarham, Eileen e Stephen Yeo. Devo agradecimentos muito espe- ciais a0 falecido E. E. Dodd, a quem encomendei muitas pesquisas no Public Record Office, assim como @ Malcolm Thomas (atualmente bibliotectio d Friends House, Euston Road), que me prestou servigos valiosos como assistente de pesquisa: a Adrian Randall, Wendy Thwaites ¢ John Walter, pelos comen- Larios precisos sobre meus textos a respeito da “economia moral”; a Douglas Hay e Peter Linebaugh, antigosco-organizadores de Albion's fata tree. por con- selhos recebidos sobre os temas da legislagdo, do crime e muitos outros: a Robert Maleolmsone Rex Russell, pela sua generosidade a0 me encaminharr feréncias sobre a venda de exposase temas da vida rural; Roy Palmer, porcom- partilhar seu conhecimento minucioso e inexaurivel sobre baladas e literatura distribufdaem folhetos;a Nicholas Rogers, porme manteremcontato comono- ‘vel trabalho que esté preparando sobre o povo de Londres e da provinci Jeanette Neeson, cuja obra sobre os commoners! no século XVint —a ser publ cada em breve — vai transformar nossa compreensio da hist6ria agrdriae social daquele século, ¢ a cujas percepgdes devo muitissimo, Agradecimentos espe- ciais sao também devidos a Eveline King. que competentemente decifrou datilografou meu manuscrito, sempre coberto de correydes: a dois amigos de muitos anos, que so também meus editores: nos Estados Unidos, André Schiffrin, até ha pouco aalma inspiradora da Pantheon Books, antes que a politi- ca mercendria da Random House acabasse com isso; na Inglaterra, Martin Eve da Merlin Press, que me socorreu toda ver que surgia uma dificuldade. Os dois Se mostraram extraordinariamente pacientes ¢ encorajadores em face de meus prolongados atrasos, Por fim, quero mencionar Dorothy Thompson, que du- ‘ante mais de quatro décadas foi minha colaboradora e compartilhou meus inte- ‘esses, tecendo comentarios sobre cada capitulo & medida que era escrito, Sem sua ajuda, sob muitas formas, nao teria sido posstvel realizar est livro. Devo também agradecimentosas bibliotecaseas repartighes de registroci- vil dos condados.citadas nas notas. Incluem, naturalmente, a British Library. © Gabinete de Gravura do British Museum e o Public Record Orfice. As trans- ss dosregistros que t&m copyright da Coros no Public Record Office Foram ()Nto-mesnheo da nobsers com dtetos is ters comnas (N. RL uw autorizadas pela diregio do H. M. Stationery Office, ¢ agradego a permissio, para reproduzir as ilustragoes V e vi. Agradego igualmente ao bibliotecario da Casa de Cecil Sharp: ao marqués de Cholmondeley (pela autorizagao para pesquisaros documentos Cholmondeley-Houghton, quese encontram agora na biblioteca da Universidade de Cambridge): ao biblioteesirio da Biblioteca William L. Clement, de An Arbor, Michigan, pela permisszio para consultar os documentos Shelburne: ao excelentissimo condede St, Alwyn, pelo acesso aos documentos de Charles Withers: 4 Sua Alteza. o duque de Marlborough, pelo ‘acesso aos documentos do conde de Sunderland no Paldcio Blenheim; a Lord ‘Crawford, pela permissaio para reproduziras ilustragdes XXIX e XXx:e a todas as demais fontes citadas nas notas eno texto, O trecho (ver p. 127) de A history of ‘he land (Uma hist6ria da terra] (Oxford, 2edigao, 1986), de A, W. B. Simpson, écitado mediante autorizagio da Oxford University Press, Agradego Finalmente British Library e a0 Gabinete de Gravura do British Museum pela autorizagio coneedida para reproduzir varias ilustragies, Worcester, decembro de 1990 1 INTRODUCAO: COSTUME E CULTURA ‘Todos os estudos reunidos neste livro estio ligados, por caminhos diferen- tes, ao tema do costume, assim como ele se manifestou na cultura dos trabalha~ doresnoséculo xviie parte do xix. Detendo atese de que aconscigneiae os usos costumeiros eram particularmente fortes no século xvut, Na verdade, alguns desses “costumes” eram de criagao recente e representavam as reivindicagdes de novos “direitos”. E clara nos historiadores que se ocupam dos séculos XVI € xvitatendéncia de vero século Xvitt como uma época em que esses costumes se encontravam em declinio, juntamente com a magia, a feitigaria e superstigoes semelhantes, © povo estava sujeito a presses para “reformat” sua cultura se~ undo normas vindas de cima, a alfabetizacao suplantava a transmissio oral, € oesclarecimento escorria dos estratos superiotes aos inferiores — pelo menos. ero que se supuna Mas as presses em favorda “reforma” sofriam uma resisténcia teimosa:€ © s8culo Xvilt viu abrir-se um hiato profundo, uma profunds alienagdo entre a cultura patricia ¢ a da plebe. No seu esclarecedor estudo Citra popular na Idade Moderna, originalmente publicado em 1978, Peter Burke sugere que isso ‘ovorreutem toda a Europa, que uma das conseqineias foi osurgimento do fol- lore, &i medida que observadores sensiveis (¢ os pouco sensiveis) nas camadas superiores da sociedade promoviam a investigagio da "Pequena Tradiglo” ple- bea, registranco seus estranhos habitos ¢ ritos. Quando surgiu o estudo do fol- lore, esses costumes jé comecavama ser vistos como “antiguidades”,residuos do pasado, ¢ John Brand, o grande pioneiro dos estudos foleléricos, achou necessario incluir no preficio de seu livro Observations on popular antiquities [Observagoes sobre antiguidades populares] um pedido de desculpas por Ihes dar ater |] nada relacionade com o mais fnflmo do que é vulgar pode ser estranho nossa fag, € menos ainda escapar a nossa atene3o: nada que dia Fespeito aque- investi B Jes que ocupam o fugar mais humilde.embora de modo alguin o menos importante distribuigao politica dos seres huanos, Assit, desde a sua origem, 0 estudo do folclore teve este sentido de distin: cia implicando superioridade, de subordinagao (Brand abservou que o orgulho e ‘as necessidadles da organizagio politica da sociedade tinham “dividido 0 género bumanoem|...]uma variedade de espécies diferentes e subordinadas”), vendoos, eostumes como remanescentes do passado. Durante século € meio, o método referido dos colecionadores foi reunir esses residuos come “costumes de al- ‘manaque”, que encontravam seu tiltimo refdgio na provineia mais remota, Como. declarou um folelorista no fim do. ulo xix, seu objetivo era deserever “os anti- £08 costumies que ainda subsistem nos recantos obscuros do nosso pais, ou que Sobreviveram 3 marcha do progresso na nossa agitad existéncia urbana’ Devemos a esses colecionadores descrigdes cuidadosas de well-dressings {costume religioso em que os pocos de gua eram decorados com arranjos flo ‘ais para agradecer o suprimento abundante de igua pura, rush-bearings vcri- ménia anual em que se levava junco para.aigreja a fim de espalhar pelo chio ou decorar as paredes] ou harvest homes [festa do final da colheita), bem como exemplos recentes de skimmingron ridings |procissio para ridicularizar um es- oso ouesposainfiel], Mas 0 que se perdeu, a0 considerar os costumes (plurais) come discretas sobrevivéncias, foi o sentido intenso do costume no singular (embora com variadas formas de expressio)—o costume niio como posteriora algo, mas como sui generis: ambiéncia, mentalité, um vocabulirio completo de discurso, de legitimacdoe de expectativa Nos séculos precedentes, 0 termo “costume” foi empregado para denotar boa parte do que hoje esté implicado na palavra “cultura”. O costume era a “se~ gunda natureza” do homem. Francis Bacon escreveu sobre costume como a ‘conduta inercial, habitual e induzida: “Os homens professam, protestam, com- prometem-se, pronunciam grandes palavras, para depois fazer o que sempre fi- zeram. Comose fossemimagens morta, instrumentos movidos exclusivamente elas rodas do costume”, Para Bacon, portanto, o problema consistiaem induzir melhores habitos © mais cedo possivel: “Como o costume é a principal diretriz ‘da vida humana, que os homens procurem ter bons costumes [...] O costume é mais perfeito quando tem origem nos primeiras anos de vida: éo que chamamos deeducagao, que, com efeito, nio passa de um costume cede adguirido”, Bacon no estava pensando na classe trabalhadora, mascem anos depois Bernard Man deville, Wo convencide quanto Bacon da “tirania dos costumes que prevalece sobre ngs".’estava muito menos inclinado a aceitar a educagdo universal. Era necessdrio que “toda uma multidao [...] habituasse seu corpo ao trabalho”, tan- oem seu proprio beneficio como para sustentaro lazer, o confortoe os prazeres s afortunados, i 4 Cece ue pando pane del sj ignorance pobre © cnheciment no amplia como mule sos dss] Porta, oBen-esare elcidade de _seupelnelomnmpsorbsinses pies censors en todo Estado ou Reino reque Fique confinado dentro dos limites de suas ve lag as voisas visiveis) além daguilo que se relaciona com sua mivst. Quanto mais um pastor, um arador ou qualquer outto camponés souber sobre o mundo & sobre o que é alheio ao seu trabalho € emprego, menos capaz ser de suportar 3 fadigas eas dificuldades de sua vida com alegria e contentamento. Por isso, para Mandeville, oaprendizado da leitura, da escrita e da aritmétioaé muito pernicioso aos pobres’ Sea muitos desses “pobres” se negava oacesso educagao, ao quemais eles io tra ra esada canga de ydiam recorrer senio A transmissio oral, com sua pesada carg Seo folelore do século Xs, ao separa scesiduos cultunis dose cones, perdeu 0 sentido do costume como contexto e mentafité, deixou igualmente de perceber a fungio racional de muitos costames, nas rotinas do trabalho disrio © semana, Muitos costumes eram endossados ¢ freqiientemente reforgados pela presse protesto populares, Naohidividade que noséculo xvi “costume” era ‘uma “boa” palavra: a Inglaterra hii muito se vangloriava de ser Antiga e Boa." E ‘era também um termo operacional, Se, de um lado, o “costume” incorporava muitosdos sentidos que atributinios hoje “cultura”, de outro, apresentava muitas afinidades com o direito consuetudinario, Esse derivava dos costumes, dos us hhabituais do pats: usos que podiam ser reduzidos a regrase precedentes, que em certas circunstancias eram coditicados e podiam ter forga de le Era o que acontecia, sobretudo, com a fex Jaci, os costumes do dominio se oral. As vezes eles sGestavannrexistrados namemsria dos idosos, mas inham feito legal quando nao contradiziam a lei estatutéria,’o que € discutido mais am- plamente no capitulo 3, Para alguns trabalhadores industriais, o costume tinha a ‘mesma forga legal —os mineradores de estanho da Comualha, com sta Stannary Court, os mineiros independentes da floresta de Dean, com seu “Livro de Den- nis” Os direitos reivindicados pelos mineiros de Dean talvez tivessem suas ori- gens no século Xit, mas as “Leis e costumes das mineiros” foram codificadas ‘uma investizagdode 1610, quando-48 mineitos independentes registraram seus costumes (publicada originalmente em 1687). Com freqiiéneia, a invocagio do costume” com respeito a um oficio ou ocupagaio refletia uma pratica tao antiga ‘que adquiria acor de um privilégio ou direito."Em 1718, porexemplo,quando.os fabricantes do Sudoeste tentaram ampliar em mela jarda cada pega de pano, os teceldes se queixaram de que isso contrariava “alei, osusose os costumes de tem- pos imemoriais”. E em 1805, os grificos de Londres reclamaram que seus em pregados abusavam da ignordncia dos trabalhadores diaristas “rejeitando ou Is discutindo o que constitufa um costume, e se recusando a reconhecer os prece= dentes, que até 0 momento tém sido a tinica referencia existente”.” Muitas das dlisputas eldssicas do infcio da Revolugdo Industrial diziam respeito tanto aos tepstuumes como aos saldrios e condigdes de trabalho, Em sua maioria, esses costumes podiam ser deveritos como “visiveis” e tavam coditficados de alguma forma, ou podiam ser justificados com exatidao. Mas medida que a cultura plebéia se tornaya mais opaca dinspegao por parte da gentry." outros costumes passavam a ser menos visiveis. As cerimbnias ¢ as pro- cissGes dos offcios, que no pasado faziam parte do calendtio corporative—sob © patrocinio do bispo Blaize, no caso dos cardadores de li: de so Clemente, com respeito aos ferreiros: ¢ de sao Crispim, com relagio aos sapateiros —, no sécur 4o xvii ainda podiam ser celebradas em ocasides especiais, como coroagses ¢ aniversétios, No século xix, porém, perderam o endosso consensual dos respec- tivos “oficios”; eram temidas pelos empregadores e pelas corporagies, por pro- Piciarem explosoes de alegria e distirhios, o que realmente as vezes ucontecia," ‘Sio Clemente nfoera cultuado nas ruas, mas nosclubes de oficio ou nas reuniges das sociedudes de socorro mituo que se reuniam nas tavernas." ____|sso sintomtico da dissociagZo entre as culturas plebéia e patricia no século xvii e no inicio do xix. E dificil no ver essa divisio em termos de classe. Um folclorista perspicaz, G. L. Gomme, via 0 folclore como um conjun- to de costumes, ritos e crengas do povo: Muitas vezesem antagonismo claro com relago aos costumes avcites,os tos eas «rengasdo Estado ou da nacio aque pestenciama pov ou certos grupos populates Esses costumes, ritos ecrengas sio mantidos pla tradigio[..] Dever sua preser- ‘ago em parte ao fato de que grandes massas populares nao participam da civi- lizagio que se ergue acima deles e que nunca & crag sua, No século xvi, o costume consttufaatetdrica de legitimagdode quase todo uso, pritica ou direito reclamado. Porisso,ocostume nao codificado —e até mes: mo 0 codificado —estava em fluxo continuo, Longe de exibir a permanénci gerida pela palavra “tradig2o",o costume era um campo par wu mudanga e Prem, optamos poe mano no orginal. Emaraa gem, pea sua riquezaeinfluencia pica, psc asa vetulment oe iss ohiintcnsnocemestodeanoneg ns €:4.uprap socal ditto dare. Da decesida ead tender seme imap depron ies te pure rapne: pol asera A weal hors England. Lon engin, 1919p 10. 1, 20, Ae Colne se spate Owe bTnpuac ao it is" umape- timieaexcepetonal” (ver ER Thompson, As pectaridadesdox mgt. se8¢onrasartigns. Campinas, wen Unieamp. 1995, c0. Texts Diddticos pp. S137. (NR) 16 disputa, uma arena na qual interesses opostos apresentavam reivinlicagdes con flitantes. Essa ¢ uma razao pela qual precisamoy ter cuidado quanto a genera- jizagdes como “cultura popular”. Esta pode sugerir, numa inflexao antropoldgica jnfluente no ambito dos historiadores sociais, uma perspectiva ultraconsensual dessa cultura, entendida como “sistema de atitudes, valores e significados com- ithadls, eas formas simbélicas (Jesempenhos ¢ artefatos) em que se acham incorporados”.* Mas uma cultura é também um conjunto de diferentes recursos, ‘emue ha sempre uma troca entre oescritoe oral, odominante eo subordinado, aaldeiaeametropole:é uma rena de elementosconflitivos, que somente sobuma pressiio imperiosa — por exemplo, o nacionalismo, a consciéncia de classe ou a ortodoxia religiosa predominante — assume a forma de um “sistema” E na ver: dade o proprio termo “cultura”, com sua invocagao confortivel de um consenso, pode distrair nossa atencao das contradigoes sociais € culturais, das fraturas eop0- sigdes existentes dentro do conjunte, Nesse ponto, as generalizagées dos universais da “cultura popular” se es- ‘variam, a nao ser que sejam colocadas firmemente dentro de contextos hist6ri- ceosespecificos. A cultura plebéia, que se reveste da retorica do “costume” e que corresponde ao tema central deste livro, nio se autodefinia, nem era indepen- dente de influéncias externas, Assumira sua forma defensivamente, em ‘oposigao aos limites e controles impostos pelos governantes patricios. Os con- frontos e negociagdes entre os patricios e a plebe sao explorados no capitulo 2, com a apresentagao de alguns casos de contlito entre mentalités costumeiras & inovadoras(baseadas no “mercado”). Noestudo desses casos, espero que a cul- tura plebéia tenha se tomado um conceito mais conereto e uilizavel, nd mais situado no ambiente dos “significados, atitudes, valores”, mas localizado den- tro de um equilfbrio particular de relagdes sociais, um ambiente de trabalho de exploragdo e resistencia i exploracio, de relagbes de poder mascaradas pelos r- tos do paternalismo e da deferéncia. Desse modo, assim espero, a “cultura po= Pular” ésituada no lugar material que Ihe correspond. ‘Vamos retoma os tragos caracterfsticos da cultura plebéia no século xvii, ‘Como ¢ natural, ela mostra certas caracteristicas atribuidas comumente as cul- ‘ras “tradicionais”. Na sociedade rural, mas também nas dreas manufatureiras € mineiras densamente povoadas (as regidies produtoras de tecido do Oeste da Inglaterra, o terrtGrio dos mineradores de estanho da Comuala, 0 Black Coun try)," encontramos uma herangaimportante de definigdese expectativas marca- das pelo costume, O aprendizad, como iniciagio em habilitagdes dos adultos, do se restringe a sua expresso formal na manulatura, mas também serve como ‘mecanismo de transmissio entre geragdes. A erianga faz seu aprendizado das ‘ Disintoinduseal miner nas Midlands. (N. R.) 7 tarefas caseiras prim (0 junto & mie ou avé, mais tarde (freq condigdio de empregado doméstico ou agricola. No que diz respeito aos mis. {érios da criagio dos filhos, ajovem mie cumpre seu aprendizado junto as ana. tronas da comunidade. © mesmo acontece com os oficios que nao tém um aprendizado formal. Com a transmissdo dessas técnicas particulares, dese igualmentea transmissdodeexperiéncias sociais ou da sabedoria con letividade, Embora a vida social esteja em perm seja considerivel, essas mudat entemente) na umdaco- nente mudanga ea mobilidade gas ainda nao atingiram o ponto em que se ad= Imite que cada geragdo sucessiva terd um horizonte diferente. Ea educagio for. imal, esse motor da aceleragio (¢ do distanciamento) cultural, ainda ndo se interp6s de forma significativa nesse provesso de transmissao de seragtio para geragao, AS priticas € as normas se reprocluzem ao longo das geragdes na atmostera lemtamente diversificada dos costumes. As tradigoes se perpetuam em grande Parte mediante a transmissie oral, com seu repert6rio de anedotas ¢ narrativas exemplares. Sempre que a tradigio oral € suplementada pela alfabetizagao cres. Cente, 08 produtos impressos de maior circulagao — brochurus com balalas Populares, almanaques, panfletos, coletineas de “éltimas palaveas" ¢ relatos anedéticos de crimes — tendem a se sujeitar a expectativas da cultura oral, em vee de desafis-las com novas opcies Essa cultura transmite com vigor —e possivelmente também gera —de- sempentos ritualisticos ou estlizados, na recreagao ou em formas de protesto E até possivel que a mobilidade geogratica, juntamente com a crescente alfa- betizagao, tenha ampliado a gama dessas formase as tenha distribuido maisam- plamente. A“ dado central dos distirbios relacionados com a venda de alimentos, se difunde por quase todo 0 pats (ver capitulo 4): 0 divi. pov denim vexiacrscong ies, macau a ais, controlar osritos de pas- ais importante é que a [greja devia, nos seus rituais, cont fe Sum iia peso canuaron tess poptarsase pio cl AA Igreja Anglicana do sécvlo Xvi nao era um instituiga0 desse tipo. Nao jrcunstancias incomuns, tinha padres a seu servigo, mas pastores. Exceto em circu re pein cont, Hosta pocm ls ts ples pan seu clero, Quando tantoslérigos serviam como magistrados temporaise oft jam se apresentar convincentemente co- vam a mesma lei que a gentry, no podiam se apreser ‘mo agentes de uma autoridade espiritual alternativa. Quando os bispos enn fruto de nomeagGes politicas, e quando os parentes da gentry recebiam beneti- ios eclesidsticos no campo, onde aumentavam o seu vicariato e adotavam 0 estilo de vida da gentry, era demasiado evidente de que Fonte provinha a auto- ridade da lgreja 31 Acima de tudo, a tg festas-e festivais , erdia 0 controle sobre 6 “lazer” dos pobres. suas “om isso, sobre uma grande dnea da cultura plebéia. O termo lazerevidentemente.em si anaerdnico. Nasociedaderuralem que persistiam 81 Pequena lavourae « economia domestica, bem como em srandes reas dain Asta manutatureira, a organizagio do trabalho era to variada eirepular que Hlusorio tragar uma distingao nitida entre “trabalho” e “lazet". Por um lade a reunides sociais mesclavam-se ao trabalho —o mercado, 2 tosa das ovelhas ce colheita 0 ato de buscar e carregar os materiais de wabalho, e assim por diante uranteo ano todo, Por outro ado, investia-se um enorme capital emovional. nd 40s poucos numa sequiéncia de noites de sibudo e manhais de segunda-feira, max em ocasides festivas e nos dias de festivais especiais, Muitas semanas de taba, [ho pesado diea escassaeram compensadas pela expectativa (ut lembranga) dessas ocasides, quando a comida e a bebida eram abundantes, loresciam ox nnamoros ¢ todo tipo de relagaio social e esquecia-se a dureza da vida, Para os Jovens, ciclo sexual doano giravaemtomodesses festivas, Significativamente a Pata essas oeasies que os homens eas mulheres viviam Ese a lereja tinh uma paticipagdo pouco significativa na orgunizagdo dessas lest, & poryue deixara bastante de se envolver com oealendkrio emocional dos pobres, Pode-se ver tudo isso num sentido literal. Embora os antigos dias dos sa {ose espalassem abundantemente pela folhin, ocalendiio ritual da lereja concentrava os eventos nos meses de trabalho mas lee, do inverno até a pi ‘mavera, do Natal aéa Pscoa, Emboraas pessoas ainda prestassem tribute tex, sas duas ditimas datas, que continuavam a ser os dias de maxima comunhae, 9 calendétio das festividades populares do século xvi coincide aproximaci, inente com ocalendirio arétio. As festa das alelase cidades para stgrayto Ais igrejas — as wakes — nfo 6 tinham passudo dos das dos santos para @ domingo mais préximo, como, na maioria dos casos, também haviam vido ne, Imovidas (quando necessério) do solsticio de inverno para ode verao. Por valia de 1730, 0 antiquério Thomas Hearne anotou o dia de festa de 137 akdeine ou cidadesem Oxfordshire earredores. Todas ocorriam entre mio. devembro: $4 {ou mais que ts quinios)cafam em agosto e setembro; nada menos que-13 fon uase um tereo) cafam na dtima semana de agosto e na primeira semana de Setembro (calendério antigo), Fora um grupo signifcativo de umas vinte, que ¢afam entre o fimde junhoe fim de utho, eque num anonormal provaveliments Catiriam entre o término da colheita do feno e o comego da colhcita dos cereai maior parte do calendio festivo emoci pois do fim da colheita.* O de. Mateoimson reconstr mal situava-se nas semanas logo de- it © calendario das festas de Northampton- shite mais parao final do século xvm, que mostea quase a mesma incidéncia ‘A seculatizagio do calendario & acompanhada de uma secularizagaio do estilo 52 rnovas fungSes seculares eram, go day estas, Sea festa no Fosse ps nt Os taVErneirOs, OS a 40 antigo ritual. Com suas numerosas tendas, os ta ml te estimulavam as festas quando seus clientes, esr ' Frcs lao anes entoordares a clea Em Whisunie ales a de cariace do fic€ncia assumiam as antigas ih so de caridade do vilarejo e os clubes de beneticéncia a ni aie Fs -veja na igreja. Em Bampton, a festa do clube na segunda-feira fests Jac pois do domingo de a iso atau darn um pala om ua sg aed "teas deine parsons un pra decspalecmun ola, uc nepaien ne is em imagens da Vrgem ov dos anos! asa auséncatalve7 sea poco notada NNenfuma as dezessete cangdes ou melodia reistadasinha a menor associa- gio religioss ntecostes ineluia uma procissio com tambores ¢ flautis- pathago com uma beni men is mor is les relations” [eraa igreja, & sombrada qual se entrelay etna ISS) trims dangne tou coed “indecent Ms um ceca. tj Pins octet orvoJoqua grva oe ards dense tgao 0 Sua oak of pr [ave Stat eee rte on “Sirocco. tpn nfo epee tia maa ein as qe em ade sand sa medieval em gue os figurants, com las sito per: lo) Dang gens lendiios(N.T.) {si Oh, ny Bly. my constan Billy When shall see my Billy agin 9 Whe he fishes ly verte mountain/ Then you" ilsee your Billy again 33 A experiéncia dupla da Reforma e do declinio da presenga puritana deixou luma extraordindria dissociagao entre a cultura de elite e a cultura plebgia na Inglaterra p6s-RestauracRo, Tampouco devemos subestimar o processo crative dle formagao de cultura a partir de baixo. Nao s6 os elementos mais Gbviow ve cangdes foleloricas, 0s clubes dos oficios ¢ as bonecas de sabugo — eram ali stiados, mas também imterpretagdes da vida, satisfagdese rtuais, A seu modo rude ¢ tulvez exotica, a venda da esposa desempenhava a fungiiode um divéreio. ritual mais acessivel e mais civilizado que qualquer alternativa que a cultura de elite pudesse oferecer. Os rtuais da murgh music, por mais erugis que as vezes Tossem, ndo eram mais vingatives nem mais exdticos que os rituais de uma comissio especial de ulgamemt. ‘lends do renascimentoda “alegre Inglaterra” depois da Restauragiog um dado que os historiadores talvez no tenham tido bastante paciéncia para exa- rminat: Mesmo se descontarmos algumas das afirmages mais sensacionais (co. mo bom contador, Defoe nos assegura que 6325 mastros de maio™ foram levantados durante os cinco anos depois dt Restauracio),* no hd dvida de que ocorreu um renascimento geral ¢ &s vezes exuberunte das diversGes populares, festasde saeracdo das grea, festivaisem que se cobriaochio daisrejacom jun, cose outrosrituais “Socorro, Senhor!"exelamouoreverendo Oliver Heywood, © Pastor expulso, ao telatar as brigas de gal a corridas de cavalo e as partides de stool-balt jogo inglés antigo semelhante wo criquete] endémices nodictrito de ‘Halifax na década de 1680: “Oh, quantas pragas proferidas! Quantas maldades Cometidast”. E a0 relatar as celebragdes do May Day de 1680, ele lamentara "Nunca houve nada igual em Halifax nos lkimos cingienta ano Eo eros" Estamos mais acostumados aanalisaraépoca em termos de sa historia inte ectuale a pensar no declinio do aos, Mas esse cuos da cultura plebéia, bem aléma do seu controle, era o pesadelo dos puritanos remanescentes como Heywood Banter. Os festivais paados que a fare tinha incluidoem seu calenditio na Idade Média (embora sem total sucesso) reverteram a festividades puramente seculares ho século xvi. As noites de vigilia acabaram, mas as festas do dia ou da semana Setuintes se omavam mais robustasa cada ccada. cerimonia de espalhar jun, cosnasgrejas ainda continuava aquicali,masas estividades que acompanhavam essa ceriménia ganhavam cada vez mais forga. Novamente perto de Falifan, 0 beneficiaco(um certo reverend Witer)tentou impediressas estas em 1682, pois nesses festivais (queixava-se Heywood) as pessoas se muinem de uma grande Guantidade de came e cerveja, vém de todas as partes “comem, bebem « herram dle um modo birbaro ¢ paso". O pove arrombou as portas do st: Wier e ele fot Xingado de*‘remendio".*A ceriménia dos juncosespalhados naigreja continuow ‘x Mastos decorados com flores fas pata as dangas do May Day. (N.R.) St c outros 150.anos. Mas,como na maioria dos dis- se distrito durante pelo menos out f armless thos ero iia Os sibs caro eae de vidas se tomavam sinos potes pintados. As vestimentaspitorescas dos homens, dos brancos eas grinaldas das mulheres pareciam cada vez mais pagios. ccaros alegsrics - ; ° a i fio, as virtudes, 0s vicios, Robin Hood e a ‘Adio e Eva, io Jorge ¢ 0 Drago, as virtudes, nes vidades terminavam com agulamento de animais,lutas, dangas e bebidas, e tezes com uma visitas casas da gentry e das famiias reas procura de bebidis. foohn Wi echere sobre as vigliasfestivas de Shropshire: “o yerendo John William de La Flechere soby h ve potent que evant conta elas 6 fez torent ctescer espn em jaeompero un’ Alemdso.opovoencontasdefersores oa dle I i node tours, LaFlechere presavacontaabebedeia, osespetieulose o aculamento det 9s taverneiros e os cervejeiros nao vo me perdoar. Acham que pregar contra a bebedeira e roubara sua bolsa é a mesma coisa ssounecheomrca Mas oressurgimento dessa cultura no pode ser atrbuidlo apenas comercial o promovida pelos tavereiros. Se desejasse, a gentry tinha meios, nas SessGes testis dos itu, de epimira desordem do pve, ss loescnca de fs tvidades difci mente teria ocorrdo sem uma attude permissiva da parte de muitos inembros da gen. Num certo seid, sso no era mas do que a zie dos tem- os, O materialism do séeulo xvi eo erastianismo de sua Igrea se unin ao ma- terialismo dos pobres. Os espeticulos de corridas dos ricos se tornavam os feriados populares dos pbres.Atolernciapermisiva ca gent er soliitada pees mutas tavernas que — como as tabuletas das estalagens ainda proclamam— procuravamn se colocar sob a protegiio dos poderosos. A gerry ni podia fazer campanhas mis sionérias convincentes para reformar os costumes e a moral dos pobres se io esta- isposta areformar seus vicios agradveis e pomposos. Comocxpcaio noes eon, long ese pala ial. Somete fi classe dominave que se seme ameagaateme ces um padiio dupe Mandeville ¢ apenas singular ao levar ao ponto de sétira o argumento de que: \icios privados cram beneficios publicos, De forma mais suavizada, 0 mesmo argumento — a fungio valiosa do luxo era oferecer emprego e espeticulo aos i jo econdmico convencional da época. Henry obres — fazia parte do repertério econdmi Y Fielding podia dizer 0 mesmo sem intengio satirica: “Nascer para nenhum ou {to fim seniio ode consumir os frutos da tera é privilégio |... de bem poucos. A iso pte uma eve sr prod ow de ota Forms as ciedade deixarii de cumpriros fins para os quais foi insti ; ‘Nise jon que stemenssien inxoeria” santos" Yaia pare do teatro dos poderosos. Em algumas dreas (a teoria dos salfrios, as leis de as- 55 sisténcia 20s pobres, o cédigo penal), o materialism dos ricos se casava sem di ficullade com um controle disciptinar dos pobres. Masem outras éreas — aati, {ude permissiva para coma robusta cultura popular di crsti. uma certa cautelg Ea delicadeza no wato dos distirbioy populares. una certaadulagto dos pobres ‘no que se referia &s suas liberdades ¢ direitos — defrontamo-nos com uin pro. blema que exige analive mais suil, Sugere-se alguma reciprocidade nas telacdes Entre 0s rcos¢ os pobres: uma inibigdo do uso da orga contra a indisciplinac ox distros; uma cautela (a parte dos ricos) em tomar medidas que indisporiann femicis os pobres (a patedaquele grupo de pobres que de tempos em tempos formava fileira tris do grito de “Igrejae Rei)" uma consciéncia de que havin vantagens palpdveis em solicitaro auxilio dos ricos, Claro, ninguém no século xvi feria pensadocem descrever a sua sociedade como uma sociedade de umas6 classe”. Havia os governanteseos governados, os de alta e os de baixa posigio social, pessoas ricas com hens independtentes ¢ © grupo clos desagregados e desordeiros. No meio, no lugar que seria das classes médias, dos protissionais ¢ dos pequenos proprietarios abastados, as elagiesde " Do século Xvi 0 inicio do século xix, hd evidéncias da continuidade dessa tratigdes das artes ¢offcios na cerdmica, nas insignias das sociedades de soesr os mtuos, nos emblemas e divisas dos primeitos sindicatos, bem como nos Uivrinhos de baladase versosdestinados.a cada oficio. Esse apeloalesitinilade uma relago bem pré {Gv fem do Cig Eisaetan, «ual era geralmene inca pla pe para defen der etos e costumes considera tach 1S. Rey 00 os precedenics(no Esato dos Arties) pode serencontadoemalguns ver Sos ae Essex do nal dosulo x ‘Também pode ser encontrado numa “Ode a mer er ejries ae serve de preticio ao relato do julgamento, em 1811, de uma causa de a dizado relativa aos seleiros de Londres A sue: meméiria ainda é cara aos oficiais diaistas Pois protegides pela sua ei, les agora resistem As injraydes, que do contra persistirian: Mestre tindnicos, roles inovadores Sao fisealizados elimitalos pelas suas gloviosas regres. Dos diteivos dis rabuthadores ela ainda é wma garantia || Eos direitos dos aficias, ela defene ¢ protege, serves inefeson, muitas veces Enquanto nds, pores mi “ Temos de andar de um lado para o onaro desta nagao liberal. Imelda dss grad Copan hs Rope Pet aban ede Bate Novos Fangucros de Coggeshall (165971698), souidas por aquela uansmtidas Ja companhia sum certo “Combers’ Purse”. ici er boca Es rt, ford i © amor que temos pelo Sr dea" eps dono amr mn © sentinento de soliredae de off poi se forte Musa suposiio e oficio necessariamente entrasse em contfito com ob- dequeessa fraternidade de ofi ati Na vertlade, Fev eolidaredaies sis amplos nent ln Respect Jos de Londres na dead de 1640 no ini 0 apoio a John Lil Fost ctteson ts cnsirjousuibretenreclaancacercosentaeoroe a comeitacia de offi pode tcdierentesgrupsde pratesconraseovcmpesadoes Manse puseos ‘ entre 0$ trabalhadores tr de lado esse postulado anacrénico, encontraremos entre os trabalhad tx) From such as would our sights invade/ Or would ined in our ade J Or break the law Queen ety made Libera os Domine stn a ad Who pr tp ental Aas ge i tizans to fee ation to and eo. or pathadoras do século xvii muitas evidéncias de solidariedade e consciéncia horizontais, Nas muitas lists de ocupagdes que examineiarespeito dos partic, antes dos motins da fome, dos motinsnasbarreiras de pedgioe sobre yuestdes Liberiias ou cereamentos nas terras comunais urbanss, fica claro que as sol, dariedades no eram segregads pelos oficios. Num regio em que predomi, nam os roupeiros, mineradores de estanho ou carvao, ha uma predomindncia Ghvia dessa ocupagdes na lista dos infratores, mas sem chegar ao ponte de on, cluit as outras profiss6es. Espero ter demonstrado, em outro lugar que dane {0s motins da fome todos esses grupos partlhavam uma consciéncia comunn ‘deologia objetivos — como pequenos consumidores dos géneros de primeira ‘evessidade, Mas essas pessoas também consumiam valores culturas, 1 1et6ri- impregnadas to doassassinato e da rebeliao |." Suspeita-se de que hi pert. dos, durante as décadas de 1760¢ 1770.em que parte do povo inglésestava mare disposta a se separar da Coroa do que os colonos americanos, s6 que tinham 4 infelicidade de nao contar com a protegaodo oceano Atantico Portanto, continuo fiel ao modelo patricios-plebeus ea metifora do cam. po de forga, tanto para a estruturagio do poder como para o cabo-de-guctra dia {ético da ideologia. Entretanto, nao se deve supor que essas formulas fomegamn tum recurso anaitico instantaneo para extrairo significado de cada agdo da mul {icio. Toda agio da multidio ocortia num contexto especffico, era influenciada pelo equilfbrio local das forgas,¢ Freqitentemente enconirava a sua oportus nidade e 0 seu roteiro nas divisdes faccionérias no interior dos grupos domi nantes ou em questies langadas no discurso politico nacional. Em Whigs and cities, Nicholas Rogers discute convincentemente essa questao. Ele suspeita (@alve? injustamente) que eu empregue procedimentos analiticos “essenciali tas". Se for assim, Rogers esté certo c eu errado, pois seu dominio do material é ‘magnifico e suas descobertas so fundamentadas por anos de pesquisa eundlise damultidio urbana,’ Naperspectiva de Rogers, deve-se vera maioriadasagbes