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UFPB – Universidade Federal da Paraíba

CCSA – Centro de Ciências Sociais Aplicadas

Resenhas das obras de Nicolau Maquiavel e Jean Bodin

Autor:
Caroline Falcão
Raíza Morais
Renan Honorato
Robson Travassos

João Pessoa
2010

Salvo quando excetuado, a fonte de todas as informações deste trabalho se encontram


em A Teoria da soberania de Jean Bodin, de Alberto Ribeiro de Barros – 2001.

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No século XVI destacaram-se dois pensadores por suas idéias políticas que viriam a
ser utilizadas pela maioria dos soberanos de sua época.
Nicolau Maquiavel (1469 – 1527), importante figura da renascença italiana, suas obras
se destacam até os dias de hoje servindo como base para pensamentos políticos que perduram
até os dias atuais, é considerado o pai da política moderna. Apaixonado pela Itália, tinha o
desejo de vê-la unida sob um soberano apenas. Ele trabalhou a maior parte de sua vida como
diplomata da cidade Estado de Florença, onde conheceu a realidade do trabalho dos soberanos
e essa experiência serviu de base para sua maior obra: O Príncipe (Stanford Encyclopedia of
Philosophy).
Jean Bodin (1529/30 – 1596), filósofo da época da reforma protestante na frança (e
por isso, escreveu bastante sobre o assunto). Especializou-se em várias áreas de conhecimento
(de economia ao direito), porém se destacou na de teoria política, publicando o muito
discutido Seis Livros da República, tendo como seu maior ponto de debate a questão da
soberania, escrevendo sobre direitos e deveres de soberanos e súditos, numa época em que
este tema estava em voga devido à reforma religiosa que ocorria. (Stanford Encyclopedia of
Philosophy).
Ambos os autores viveram em épocas de muita violência, logo, suas obras refletem
este aspecto de suas vidas. Não por coincidência, o adjetivo “maquiavélico” passou a ser
usado como sinônimo de maldade, devido aos ensinamentos rígidos e frios do autor
renascentista.
Durante a renascença, a Itália ainda era dividida em várias cidades-Estado, tendo cinco
delas como mais importantes: o Reino de Nápoles, no sul; Roma e os territórios papais;
Milão, ao norte; Veneza, na cabeceira do mar Adriático; e a cidade mercantil de Florença.
Essas cinco lutavam pela soberania na península italiana, vivendo em constante conflito umas
contra as outras. A maioria dessas cidades eram governadas por homens que possuíam uma
grande quantidade de poder nu e cru em suas mãos, ou seja, detinham poder de facto (poder
realmente exercido, normalmente necessita de algum tipo de coerção para tal), mas não de
jure (aquele que é sustentado por uma lei ou constituição e, por isso, não necessita de métodos
coercivos) (Watson, Adam. 2004 p. 217-225). Foi nesse contexto que Maquiavel escreveu sua
obra O Príncipe, cujos pensamentos serão analisados no decorrer do trabalho.
Na Alemanha, Martinho Lutero começou a espalhar suas idéias de reforma para a
Igreja no começo do século XVI, não seria passado muito tempo até essas idéias chegarem à
França, onde conseguiram atingir um grande número de seguidores, num país governado por
um rei católico. Devido a esse grande aumento no número de seguidores, os protestantes

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foram logo caçados por Francisco I. Um grande número deles buscou refúgio em Genebra,
onde sofreram grande influência de Jean Calvin, logo, a maioria de protestantes na França,
seriam seguidores deste pensador.
Esses protestantes franceses passaram a ser chamados “huguenotes”. Em 1557, houve
a primeira grande revolta de católicos contra os huguenotes, porém, o rei Henrique II estava
ocupado demais com as Guerras Italianas para poder agir contra os huguenotes. Em 1559,
quando as Guerras Italianas chegaram a um fim, houve uma grande perseguição aos
huguenotes, com vários deles sendo executados ou mortos, que só se aliviaria – bem pouco –
com a morte de Henrique II e a ascensão de Catarina de Médici, regente de Carlos IX. Em
março de 1562, o duque de Guise ignorou um édito de tolerância e causou o massacre de
Wassy, que iniciou a primeira das oito guerras civis que a França estaria para enfrentar
durante o processo de reforma religiosa. Foi nesse contexto histórico que Bodin escreveu
(Museu Virtual do Protestantismo Francês).
O conceito de poder soberano foi introduzido pela primeira vez no capítulo III do livro
bodiniano Método, porém uma definição clara e precisa só aparece na República: “A
Soberania é o poder perpétuo e absoluto de uma República” (República I, 8, p. 179)
Bodin não utiliza o termo Estado para designar a comunidade política organizada, mas
sim “república” (Condorelli em Barros. Estado e governo em Bodin 1923 p. 77-86)
Para Bodin o poder soberano é perpétuo e absoluto. Perpétuo no sentido que não é
temporal, pois se houver uma restrição cronológica, por mais amplo que seja não será
soberano. Como já foi exemplificado na célebre frase dos juristas medievais: “O Rei está
morto. Viva o Rei.” O poder do monarca não pertence ao monarca em si, mas à posição que
ele ostenta, por isso, diz-se que o poder do soberano é atemporal.
Outro caso que ele introduz é o do depositário. Para Bodin, quando uma pessoa
assume o poder, mesmo ele sendo absoluto, por um determinado espaço de tempo, ela não é
soberana, pois ela não está na condição de possuidora do poder, mas numa condição inferior,
como se tivesse “pego emprestado” o poder. Como na Roma Republicana, pois a ditadura
realmente tinha plenos poderes, mas não era soberana, pois, por ter um tempo determinado era
uma depositária do poder, cuja guarda realmente pertencia ao povo.
O adjetivo Absoluto, também usado para definir o poder soberano, atribui a
característica de superior, independente, incondicional e ilimitado. Superior pois aquele que
possui o poder não pode estar submetido ou numa condição de igualdade à outros poderes.
Independente, pois seu detentor deve ter pena liberdade de ação. Incondicional, pois esse

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poder deve estar desvinculado de qualquer obrigação, e Ilimitado porque qualquer limitação
porque a própria idéia de limitação vai contra o ideal de poder soberano.
Bodin compara as relações do soberano com a república com as entre Deus e a
natureza, pois, assim como Deus, o soberano tem poder absoluto e governa de acordo com sua
vontade.
A fim de identificar um soberano verdadeiro, Bodin destaca certas marcas que não
estão presentes em súditos. No Método ele afirma que esses atributos são cinco: “O primeiro e
mais importante é nomear os mais altos magistrados e definir para cada um o seu ofício; o
segundo é promulgar ou anular as leis; o terceiro é declarar a guerra e concluir a paz; o quarto
é julgar e, última instância, acima de todos os magistrados; e o último é ter o direito de vida e
de morte até mesmo nos casos em que a lei não considera a possibilidade de clemência”
(Método VI, p. 359 B).
Porém, na República, além de listar mais características, Bodin enfatiza que a mais
importante de todas é o poder de legislar, e isso sem o consentimento de um maior, igual ou
menor que o soberano.
O filósofo deixa bem claro que os direitos de soberania pertencem apenas ao soberano
e a mais ninguém. Mas, ele abre a questão: os atributos de soberania podem ser transferidos
em algum momento aos magistrados? Bodin admite que alguns magistrados podem sim
assumir esses atributos, mas desde que isso não indique uma transferência, pois se o soberano
der a um de seus súditos os direitos de soberania, esse súdito deixa de ser subordinado ao
soberano e passa a ser seu igual, exterminando assim a condição de soberania.
Um soberano pode encarregar alguns magistrados, competentes e de confiança, de
criar leis, mas essas normas só entram em vigor com a homologação do soberano. Bodin
deixa claro que, não importa o quão vasto e amplo seja o poder do magistrado, ele sempre
será um executor subordinado ao soberano.
Bodin diz que, embora o soberano tenha poder superior e independente, este, na
realidade, não é ilimitado, pois deve respeitas a lei divina e a lei de natureza – as quais Bodin
não atribui uma distinção clara. O soberano, antes de qualquer coisa, é súdito de Deus, mas o
filósofo deixa claro que isso não significa uma sujeição à autoridade eclesiástica.
Dois casos claros da subordinação do soberano à lei divina e da natureza são a
obrigatoriedade dos contratos e a inviolabilidade da propriedade privada.
No primeiro caso, quando duas partes fazem um contrato entre si elas estão
comprometidas a manter sua palavra, mesmo que uma dessas partes seja o soberano. Essa
obrigação só cessa em duas situações: quando ambas as partes perdem o interesse, ou seja,

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“desistem” do contrato, ou quando as normas do mesmo se tornam injustas e passam a lesar
de uma das partes.
No segundo caso, Bodin combate veementemente a tese de Jason de Mayno,
conselheiro de Luís XII, que dizia que, pelo fato do soberano ser o dono legítimo de todas as
coisas, ele pode tomar posse da propriedade de seus súditos quando bem desejar. Mas, na
visão de Bodin, qualquer intervenção sem justa causa na propriedade dos súditos ultrapassa os
limites do poder público.
O confisco da propriedade privada só é justificado quando a existência da República
está comprovadamente ameaçada, mas sem essa causa, a ação de confisco deixa de ser
legítima e passa a ser sustentada apenas na força.
Sobre as idéias huguenotes de influência a rebeliões, Bodin afirmavam ser
extremamente errôneas, uma vez que caso o soberano seja desapossado, apenas sobrará a
anarquia ao Estado, o que, segundo ele, é pior do que qualquer tirano que possa estar
reprimindo os seus súditos. Ao invés disso, ele sugere duas alternativas que dependem de uma
circunstância: a legitimidade do soberano.
No caso de um tirano sem título, ou seja, aquele que se apossou do poder de maneira
coerciva, Bodin considera viável a resistência, já que já havia um soberano legítimo para essa
terra anteriormente, o que legitima a ação.
Porém, no caso de um tirano em exercício (aquele que é soberano legítimo de um
território), os súditos nada devem fazer, já que não possuem a jurisdição sobre o soberano,
logo, nem sequer julgado o soberano deve ser pelos seus súditos, muito menos estes se
armarem contra ele. A opção viável para este caso é um soberano de outro território defender
o povo do proclamado tirano, já que neste caso há jurisdição um sobre o outro.
Apesar de tudo, Bodin ainda recomenda – se assemelhando bastante a Maquiavel neste
ponto – que os soberanos sejam mais severos do que benevolentes, já que a bondade pode
resultar em “impunidade dos maus, que aproveitam para oprimir o povo” (p. 279).
Sobre a ação dos magistrados contra os soberanos, Bodin afirma que se encaixam no
mesmo dilema dos demais súditos, porém, caso o soberano descumpra alguma lei divina, os
magistrados não deverão agir contra o soberano, mas sim renunciarem aos seus cargos, para
que sua dignidade seja mantida, já que todo seu poder e jurisdição advêm do soberano. Isso,
apenas se o descumprimento for claro, em caso de dúvida, deve ser feita a vontade do
soberano. Sobre hipótese nenhuma os magistrados devem apresentar resistência, tendo em
vista que isso poderá influenciar os súditos a desrespeitar o soberano e então causar uma
rebelião. Da mesma maneira agem os Estados Gerais.

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Bodin faz pesadas críticas a Maquiavel, já que o segundo “ensina” os príncipes a
agirem de forma inescrupulosa e má, o que considera um incentivo à tirania, mesmo tratando
Maquiavel como um dos melhores historiadores conhecidos por ele e também o primeiro
autor a tratar de repúblicas em séculos.
Uma das críticas de Bodin a Maquiavel foi sobre a possibilidade da existência do
Estado misto, que, como o nome indica, é uma forma de governo em que há mais de um
soberano, podendo ser um, alguns ou todos (representando, respectivamente, estado
monárquico, aristocrático ou popular). Bodin negava tal possibilidade e deixava bem clara sua
crítica ao escritor renascentista.
Também, sobre a preferência de Maquiavel ao Estado popular, afirmando que a
escolha do italiano tinha sido equivocada e fruto de ingenuidade, o que impossibilitou a ele
notar as falhas do Estado popular. Porém, Bodin viria a escrever que o uso da violência e
coerção é viável, desde que utilizado como última alternativa, tendo em vista que Bodin
considera o bem estar individual tão importante quanto o da comunidade, completamente
diferente de Maquiavel, que afirma que caso uma escolha seja necessária, o bem estar público
deve se sobressair, sem que haja necessidade de refletir sobre o caso (talvez, essa seja a maior
diferença entre os dois autores) (p. 295).
Devido ao aparente uso dos princípios descritos em O Príncipe em massacres como o
da Noite de São Bartolomeu (confronto que iniciou a quarta das oito guerras civis francesas
citadas anteriormente, que se destacou por ter sido um verdadeiro genocídio de huguenotes,
organizado pela casa real francesa), fez com que os ensinamentos maquiavélicos fossem
ligados a valores anticristãos e qualquer autor que parecesse concordar com o renascentista
poderia ser acusado de ateísmo. Logo, não se sabe se Bodin escreveu essas críticas para
afastá-lo de acusações como essas, tendo em vista que ele pára de mencionar Maquiavel em
certo ponto de República.

Bibliografia:

BARROS, Antonio Ribeiro de. A teoria da soberania de Jean Bodin. São Paulo: Unimarco
Editora, 2001.

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BODIN, Jean. Seis Livros da República.

CHISHOLM, Robert. “A ética feroz de Nicolau Maquiavel”. In QUIRINO, C.G., VOUGA,


V. E

BRANDÃO, G.M. (ORG). São Paulo: Editora da USP, 2004.

WATSON, Adam. A evolução da sociedade internacional. 2004 UnB

Jean Bodin. In: Stanford Encyclopedia of Philosophy. Disponível em: <


http://plato.stanford.edu/entries/bodin/> Acesso em: 22 agosto 2010

Maquiavel, Nicolau. O Príncipe.

Museu Virtual do Protestantismo Francês. Disponível em:


<http://www.museeprotestant.org/Pages/Home.php?collid=1&Lget=EN> Acesso em: 24
agosto 2010

Niccolò Machiavelli. In: Stanford Encyclopedia of Philosophy. Disponível em: <


http://plato.stanford.edu/entries/machiavelli/> Acesso em: 22 agosto 2010