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Evocar a memória da República e dos Republicanos arcoenses foi uma das mais

difíceis propostas que me fizeram enquanto historiadora.

A Memória é sempre uma representação selectiva do passado, que nos permite


manter a continuidade do tempo, resistir à mudança, manter a nossa identidade.

Numa palavra a Memória, mesmo a da República, é uma construção de determinados


grupos sociais, que lhes permite determinar o que é “memorável” e as formas como a
podem recordar.

Assim, aqui estamos todos, com as nossas Memórias, colectivas e individuais, para
evocar homens, republicanos arcoenses, que nos habituámos a respeitar desde
crianças e com os quais, de uma forma ou de outra, nos identificamos.

Gostaria porém, que a minha intervenção fosse além de uma simples evocação da
Memória da República e dos republicanos. Como afirmou J. Le Goff que o “trabalho
da memória coletiva”[nos] sirva mais de libertação, do que para a servidão dos
homens”.(LE GOFF, 1994, p.477).

A República Portuguesa, nascida em 1910, vinha sendo construída desde há já algum


tempo. Vivia-se ainda na monarquia quando, entre 1878 e 1908 e apesar de um
interregno de quase seis anos (1884-1900), o Partido Republicano alcançou as
primeiras representações parlamentares.

De facto, a República vinha sendo preparada e interiorizada pela maior parte dos
portugueses , nomeadamente os que integravam os grupos sociais dirigentes, muito
antes do 5 de Outubro de 1910.

Porém, mais do regime político implantado pela Revolução, foi a cultura política
republicana que a distinguiu da monarquia e é no fundo essa cultura que nós
pretendemos evocar ao comemorar a República.

Lembremos pois a Ideia de República!

Uma Ideia que assentava na possibilidade de suster a “decadência” do país e de criar


uma força colectiva capaz de transformar Portugal1. Uma Ideia de Res publica como a
materialização do bem comum. Uma Ideia de culto da pátria indissociável da defesa
da República e do acautelar a construção de Estado republicano, por republicanos.

1 (R.Ramos p. 582),

1
Ou seja, o 5 de Outubro foi mais uma mudança de natureza ideológica do que
sociológica, como demonstram, aliás, os resultados das eleições de 1911, cujos
deputados eram quase todos juristas e médicos formados em Coimbra, ou então
militares, tal como os deputados dos partidos monárquicos

Ora, aqui em Arcos de Valdez esta realidade sociológica é perfeitamente visível no


perfil dos nossos homenageados hoje. Todos eles oriundos da burguesia letrada,
muitos deles estudantes da Universidade de Coimbra ou Porto, tinham em comum o
culto da educação, como forma de regenerar o indivíduo, o racionalismo como forma
de pensar a vida e a igualdade como princípio da vida colectiva de um povo.

Todos eles, de uma forma ou de outra lutaram pelos seus ideais e a sua luta política
não se dissociou da defesa dos valores e princípios republicanos na sua acção
quotidiana. Em todos vamos encontrar bons profissionais, solidários com os mais
desfavorecidos, defensores de uma comunidade politica de novo tipo. O tempo em
que viveram e as diferenças de idade entre eles marcaram o percurso individual de
cada um.

Assim, ordem pela qual os vou referir será a cronológica do nascimento, tendo em
conta que ter vivido entre a Monarquia e a República terá sido sempre diferente de ter
vivido a queda da monarquia, a revolução de1910 e a implantação do Estado Novo.

O primeiro republicano de que vos quero falar será pois Francisco Teixeira de Queirós.

Francisco Teixeira de Queiroz

Médico, nasceu 3.5.1848, em Arcos de Valdez, quando ainda governava D. Maria II e


o reino vivia profundas convulsões políticas provocadas pelas revoltas da Maria da
Fonte e Patuleia, seguidas do regresso de Costa Cabral ao poder.

Teixeira de Queirós, apesar de pertencer a uma família de lavradores abastados viu-

-se obrigado a trabalhar até aos dezasseis anos, como pastor, devido ao falecimento
prematuro de seu pai, José Maria Teixeira de Queiroz.

Porém, a generosidade de um tio abastado, permitir-lhe-ia estudar Medicina na


Universidade de Coimbra, onde se viria a licenciar em 1875. Durante esse tempo de
vida estudantil integrou um grupo dos poetas parnasianos

Ao contrário dos outros republicanos arcoenses, radicou-se em Lisboa.

2
Casado com Teresa Narcisa de Oliveira David, de quem teve seis filhos, o gosto pela
escrita levá-lo-ia a publicar em diversos jornais e revistas tais como Diário Ilustrado de
Lisboa (1876), Occidente e a Ilustração.

Foi na capital que exerceu a profissão e a actividade política, ao lado de grandes


vultos da Cultura republicana, sendo militante do PRP, fundado em 1876, entre os
anos de 1886 e 1889.

Eleito, em 1885, vereador da CML, anos depois, em 1893, foi deputado, pelo Partido
Democrático, às cortes, eleito pelo círculo de Santiago de Cacém, durante o governo
do partido regenerador de Hintze Ribeiro (João Franco). Durante a legislatura interveio
sobretudo nas áreas da economia, política externa2 e saúde pública.

Seria já depois da implantação da República, ou seja em 1911, que participou nas


Constituintes, como representante da Aldeia Galega-Montijo- cargo ao qual viria, aliás,
a renunciar.

Em 1915, aceitou ser nomeado Ministro dos Negócios Estrangeiros do governo


interino de José de Castro3, depois de tomar conhecimento do atentado contra João
Chagas - no Entroncamento - e de compreender a vontade do novo governo em
pacificar “família republicana”. 4

Ao seu lado esteve Magalhães Lima, como ministro da Instrução, com o qual anos
antes fundara o jornal O Século. Seria, aliás, Magalhães de Lima quem apontaria a
dificuldade de conciliar a prática política com as ideias de Res Publica, afirmando:

“Convenci-me de que há uma grande diferença entre as ideias que pregamos na


oposição e a realidade ministerial. Preferi, pois, e prefiro continuar na oposição, na
pureza do meu ideal e na elevação do meu espírito". 5

Também Teixeira de Queirós parece ter preferido ocupar-se de outros assuntos, pois
foi Director da Companhia das Lezírias, Águas e Caminhos de Ferro, e eleito
Presidente da Academia de Ciências em 1915.6.

2 Defendia então acordos bilaterais com Espanha no tocante ao comércio. Considerava as colónias um valor
económico a ter em conta, Na saúde pública procurou impor medidas preventivas contra a cólera.

3 José Ribeiro de Castro (Valhelhas, Guarda, 7.4.1848) Cursou Direito na Universidade de Coimbra. Foi advogado na
Guarda e Lisboa. Maçónico (1868) e Grão-Mestre Mestre adjunto. Foi monárquico, do Partido Progressista, em 1881
aderiu ao Partido Republicano Português (PRP).

4. 10º Governo (15 Mai. 1915 a 18 Jun.1915), José de Castro; 2º Presidente da República - Teófilo Braga( interino)

5 Magalhães Lima, Episódios da Minha Vida, I, p. 259. Dirigia em 1907 o Grande Oriente Lusitano
6 Dicionário Biográfico Parlamentar 1834-1910, Maria Filomena Mónica (Coordenação) .vol.III, ICS/AR.

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No campo das Letras, Teixeira de Queiroz, notabilizar-se-ia sob o pseudónimo de
Bento Moreno. Das suas obras destacamos Comédia do Campo, Comédia Burguesa e
O Salústio Nogueira, cujas críticas à sociedade lisboeta do tempo e à política nacional
foram, segundo Óscar Lopes e A.J Saraiva, tão contundentes ou mais que as de Eça
de Queirós, por visarem a intrincada relação entre a política e a economia.

Como sócio da Academia de Ciências, foram da sua responsabilidade, a partir de


1908, numerosos pareceres sobre candidaturas de figuras eminentes da sociedade
portuguesa, nomeadamente Alfredo da Cunha e em 1918 coube-lhe discursar nas
bodas literárias de Maria Amália Vaz de Carvalho .

Por fim, gostaríamos de destacar a sua actividade cívica.

Conhecendo de perto as vantagens da educação, na qual acreditava como todos os


republicanos, pois via nela os princípios da auto-regeneração dos indivíduos, Teixeira
de Queirós, participou ao lado de Bernardino Machado, Jaime Magalhães de Lima,
Ana de Castro Osório e Homem Cristo, na fundação em 1882 da Associação de
Escolas Móveis, pelo Método João de Deus, movimento responsável pela
alfabetização de numerosos portugueses desde que começou a sua acção.

Na qualidade de médico, Teixeira de Queiroz presenciou em 1885 a inauguração de


um Hospital em Arcos de Valdevez, deixando no livro dos visitantes as seguintes
palavras:

“Desejando muitas prosperidades à minha terra, felicito-a pelo magnífico hospital que
possue, como também louvo todas as pessoas que tenham por qualquer forma
concorrido para a existência de tão belo estabelecimento onde os desherdados da
fortuna encontrarão descanso e conforto nas suas doenças” Março 1885.

A vida em Lisboa não o fez esquecer a sua terra onde construiu uma residência de
Verão o “ Casal das Cortinhas”, enquanto em Sintra em 1892, na travessa da Cruz do
Torel, edificou um palacete, que mais tarde acabaria por vender.

Estava o país mergulhado em mais uma crise política, desta vez a monarquia do norte
chefiada por Paiva Couceiro e o seu derrube em pouco tempo, quando Teixeira de
Queirós faleceu em Sintra, já decorria o mês de Julho de 1919. Anos antes, em
Outubro de 1910, um seu conterrâneo, Germano Amorim, fervoroso republicano e seu
admirador lançaria o Centro Republicano Teixeira de Queiroz, que seria o primeiro em
Arcos de Valdevez e que, apesar de nunca ter chegado a ser oficializado sob esse
nome, ainda hoje é uma referência histórica da cidade.

4
José Cândido Gomes,

Em 10 de Dezembro de 1870, quase vinte anos depois de Teixeira de Queiroz, nasceu


José Cândido Gomes, em Barcelos. Reinava então D. Luís e pouco depois seriam
encerradas as Conferências do Casino.

O seu percurso difere, em parte, dos outros homenageados pelo ofício que exerceu ao
longo da vida. Em 1890 vivia no Porto onde se dedicou ao jornalismo, sendo sócio
desde 1894 da Associação de Jornalistas e Homens de Letras, fundada em 1882, e
cujos estatutos foram elaborados por Sampaio Bruno.

A vida na cidade levá-lo-ia a integrar-se nos movimentos revolucionários da época e a


participar quer na divulgação da Liga Patriótica do Norte, quer na revolta republicana
de 1891, cuja oportunidade foi, aliás, questionada pela maçonaria e pelo próprio PRP.

Cândido Gomes casou com Olívia Machado Tarroso, tal como ele natural de Ponte de
Lima e irmã de Domingos Tarroso, filósofo, que, juntamente com Sampaio Bruno,
Cunha Seixas, Antero de Quental, Oliveira Martins e outros pensadores, se
distanciaram do positivismo representado por Teófilo Braga ou Basílio Teles.

Como homem de letras, a sua obra monográfica “ As Terras de Valdovês” publicada


entre 1899 e 1903, é uma fonte preciosa para a História da cidade. Outra obra curiosa,
Inventos e descobertas dos portugueses, foi publicada em 1896.

Em 1901 Cândido Gomes respondeu em tribunal por querer derrubar a monarquia,


anos depois seria ele quem registaria em 1910 a tomada de posse da administração
autárquica republicana.

Foi por essa altura que afirmou a sua relação de amizade e profissional com Germano
José Amorim, em cujo cartório exerceu a actividade de ajudante de notário e depois a
de solicitador.

Assim, em 1916, ao lado de Germano Amorim de Albano Azevedo Amorim e de Álvaro


de Brito e Rocha de Aguiam, integrou o núcleo concelhio da Junta Patriótica do Norte.
Um ano depois, em 1917, foi eleito vereador da CMAV, por pouco tempo aliás, já que
7
o golpe de Sidónio Pais acabaria por o afastar. Porém, após o assassinato do

7 O golpe de estado de 1917. Sidónio Pais nasceu em Caminha, filho de Sidónio Alberto Pais, notário e
secretário judicial e de Rita da Silva Cardoso Pais, ambos naturais de Caminha

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Presidente, em Dezembro de 1918, Cândido Gomes acabaria por ser reintegrado para
ser novamente eleito em 1922.

Da sua vida de luta, como a da maioria dos republicanos, sobressai o seu empenho na
educação, sendo director do Externato de Arcoense, que ajudou a fundar e onde
gratuitamente leccionou.

Também ele acreditava nos princípios da auto-regeneração dos indivíduos pelo


estudo, apesar das dificuldades em manter a instituição. O Externato de Arcoense
acabaria por fechar em 1915, pouco antes de Portugal entrar na 1ª Guerra Mundial.

A homenagem à figura de Cândido Gomes deverá servir, entre outras coisas, para
manter viva a necessidade de reimprimir a sua obra monográfica, cujo interesse para a
cidade é inquestionável, e integrar o seu nome na toponímia da cidade como
republicano que foi empenhado na implantação e consolidação da república.

Tomaz Mendes de Norton de Mattos Prego.

A memória das eleições de 1949, com o general Norton de Matos8 a desafiar Salazar e
o Estado Novo, fez apagar injustamente a memória de um seu irmão de Tomaz
Mendes de Norton de Mattos Prego.

Nascido em 1871 em Ponte de Lima, seus pais foram Tomás Mendes Norton e D.
Emília da Conceição de Matos Prego e Sousa. Casou com D. Maria da Conceição
Machado Silva Dias.

Tomaz Mendes de Norton de Mattos Prego, tal como Teixeira de Queirós, estudou
Medicina, mas, ao contrário deste, escolheu a sua terra para o exercício de uma
profissão que na altura implicava uma enorme abnegação.

A pobreza e a ignorância que grassava entre a população obrigou-o a um trabalho


constante, quer no exercício da medicina, quer como divulgador da Ideia de República,
junto daqueles que apenas poderiam encontrar nesse ideal “o remédio para os males”
de que padeciam, ou seja as injustas condições de vida.

8 José Maria Mendes Ribeiro Norton de Matos (Ponte de Lima, 23 de Março de 1867 — Ponte de Lima,
Portugal, 3 de Janeiro de 1955), general, governador de Angola em 1912, esteve na conferência da Paz
em 1919, embaixador em Londres em 1924, grão-mestre da maçonaria em 1929.

6
Quando em 1910 a monarquia soçobrou, a ética republicana impediu-o de recorrer ao
irmão, figura maior do novo regime, em busca de cargos ou de recompensas, pelo
contrário, continuou com o trabalho que vinha há muito desenvolvendo, apoiando os
menos favorecidos e ajudando-os, sempre que tal era necessário, muitas vezes a
expensas próprias. É esta a cultura política republicana que hoje lembramos.

É este exemplo de homem e de cidadão, um entre tantos republicanos arcoenses,


que homenageamos hoje, cem anos depois, homenagem prestada também pela
CMAV.

Tomaz Mendes de Norton de Mattos Prego foi, de facto, exemplo de desapego, pois
para ele a Res Publica era isso mesmo, não terá sido por acaso que, ao falecer, o seu
funeral foi seguido por muitos daqueles a quem prestou auxílio, nomeadamente um
grupo de ciganos que lhe apontou a bondade mas, sobretudo a ausência de
preconceito com que sempre os tratou, apesar de ser um grupo social proscrito.

José de Sousa Guimarães

Nascido em Braga, na freguesia de São Jerónimo do Real, em 1871, filho de José


Joaquim de Sousa e Rosa Maria Pereira foi encaminhado para a vida religiosa.
Frequentou o seminário em Braga, entre 1890 e 1893. Pouco interessado em ser
sacerdote pediu dispensa de votos à Santa Sé e foi para o Porto estudar medicina na
Escola Médica e cirúrgica, onde se formou em 1095. No mesmo ano formar-se-ia
António Pereira Pinto Breda, brilhante aluno e seu grande amigo.

No ano seguinte, em 1906, era já director clínico do Sanatório do Seixoso na Lixa,


que pertencia ao Dr. António Cerqueira Magro. Foi pois nessa qualidade que
concorreu e foi admitido no cargo de Facultativo Municipal9. Casado em 1908 com
Ester de Araújo Nunes de Azevedo, da Casa das Pedrosas, o Dr. Guimarães veio a
tornar-se umas das figuras mais emblemáticas da República em Arcos de Valdevez,
ao assumir o cargo de Presidente da Comissão Municipal republicana e depois
Administrador do Concelho, logo após a queda da monarquia.

Desde jovem que o ideário republicano não lhe era estranho, na verdade a sua tese de
licenciatura era uma crítica contundente ao regime monárquico, sendo ainda um
desafio ao poder académico, razão pela qual foi aconselhado a alterar o referido texto.

9 As câmaras tinham competências obrigatórias e outras facultativas dependia das necessidades da


população.

7
Não aceitando as orientações, por considerar uma forma de silenciar o pensamento,
José de Sousa Guimarães recusou-se mesmo substituir o texto inicial.

Outro aspecto importante da sua vida foi a participação em jornais, em revistas, tendo
sido colaborador de jornais como A Pátria, A Montanha, Diário do Norte, A Concórdia,
Almanaque Arcuense, Alvorada 10e Voz do Minho.

As desavenças com Germano José Amorim marcaram o período inicial da República


nos Arcos.

Em 1919, na vigência do governo de Alfredo Sá Cardoso - ala moderada do partido


democrático, após a aventura da Monarquia do Norte, em Janeiro do mesmo ano e
pouco depois de ter sido assinado o Tratado de Versalhes (Junho) foi designado Vice -
Cônsul em Brest, lugar que ocuparia até 1928, ou seja, já depois da ditadura militar ter
chegado ao poder, mas ainda antes de Salazar ter sido nomeado, pela segunda vez,
ministro das Finanças. Durante os anos em Brest consta ter escrito ensaios como
Erros da História: lição a meus filhos, 192511 e a Lógica Integralista, 1926, mas o
pouco que sabemos sobre da sua obra poderá agora ser mais investigado.

Germano José Amorim

10 Orgão do partido republicano dos Arcos de Valdevez

11“ Entrementes, surge, porém, um livro do sr. dr. Guimarães, em que, sob a epígrafe «Erros de Historia» e o
sub-título «Lições a meus filhos » o meu ilustre c ontraditor reedita a nossa polémica do «Primeiro de Janeiro»
e a faz acompanhar de outras considerações, entre as quais figura a menção dos juízos e de parte dos documentos
devidos ao sr. dr. Queiroz Veloso.” António Augusto Mendes Correa (antropólogo, Prof. Fac. Ciências do Porto,
Presidente da Câmara Municipal do Porto e deputado à Assembleia Nacional entre 1945 e 1956

8
Nascido em 7 Abril de 1880, na freguesia de Mazedo, Monção, Germano José
Amorim, foi um destacado membro do PRP e um dos mais activos republicanos em
Arcos de Valdevez, local onde se radicou após terminada a licenciatura em Direito na
Universidade de Coimbra, em 1905.

Os estudos, custeados pelo irmão padre, aproximaram-no da situação vivida por


Teixeira de Queiroz que, tal como ele, recorrera a um parente mais abastado para
estudar. Essa admiração e a amizade por Teixeira de Queiroz levá-lo-ia aliás a fundar,
em 1910, um Centro Republicano com o nome do ilustre médico.

Germano Amorim iniciou-se na actividade política em Coimbra, comprometendo-se


activamente com a greve académica de 190712. Por essa altura seria já membro do
Grande Oriente Lusitano13, iniciado na Loja Pátria de Coimbra e Carbonário.

Regressado a Arcos de Valdevez casou-se com Joaquina Cândida Araújo Dias


Amorim, natural da freguesia de Valadares, uma das herdeiras da Casa da Amiosa.
Dessa união nasceram Bento Manuel, Maria Albertina14,, Virgínia Cândida e Maria
Júlia de Araújo Amorim de Sousa .

Germano Amorim, como atrás se referiu, fundou o Centro Republicano Teixeira de


Queiroz. Este, dois anos depois, tomaria o nome de Centro Republicano Arcoense,
cujo ideário estava próximo do Partido Democrático de Afonso Costa. Ao lado de
Germano Amorim estavam também Tomas Norton de Matos, José Cândido Gomes,
seu companheiro de luta e ajudante no cartório de notário, bem como outras
personalidades de profissões e estratos sociais distintos.

Seria em 1922, quando António José de Almeida do partido evolucionista se tornou


Presidente, que Germano Amorim foi eleito deputado pelo círculo de Braga, como

12 Esta greve teve inicio por causa de um exame de um aluno que os estudantes consideraram injustamente
reprovado. O aluno era José Eugénio Dias Ferreira, advogado e professor, filho do Doutor José Dias Ferreira, iniciado
em 1904, na Loja Pátria, de Coimbra, com o nome simbólico de «Littré».
Mais tarde a greve alargou os seus objectivos e propunha alterar os procedimentos na Universidade. Marcou o
governo de João Franco, tendo origem num incidente universitário, rapidamente se transformou num assunto de
repercussões nacionais.
13 Na altura-1907- o Grão-Mestre do Grande Oriente Lusitano Unido era Sebastião Magalhães de Lima,
sucessivamente reeleito, até 1928. Ocupou o cargo até à data da sua morte.
14 Esta casou com Joaquim Carlos da Cunha Cerqueira, o Dr. Cerqueira, também ele presidente da Câmara Municipal
de Arcos de Valdevez).

9
representante do Partido Democrático que alcançou nesse ano ¾ dos votos, contra ¼
dos católicos15. Germano Amorim exerceu as funções de deputado durante as 6ª e 7ª
legislaturas, sendo esta última exercida durante a vigência do governo do partido
democrático, quando o presidente já era Manuel Teixeira Gomes.

Após o abandono da actividade parlamentar dedicou-se à da Câmara Municipal, da


qual foi presidente e à Comissão Executiva dos Arcos de Valdevez. Nessa qualidade
destacou-se por se ter empenhado na instalação da luz eléctrica na sua terra.

Como cidadão e republicano fundou, com Cândido Gomes, o Externato Arcoense em


1911. Provedor da Santa Casa da Misericórdia havia de lançar o sistema de cédulas
para financiar a instituição. Destacou-se ainda como director dos jornais O Avante;
Alvorada do Vez; O Vez; A Trombeta e A Voz do Minho.

Profundamente convicto das suas ideias, teria atravessado incógnito a fronteira para
Espanha, com o fim de se refugiar das perseguições aos republicanos, conduzidas
pela Junta Governativa do Reino, comandada por de Paiva Couceiro no Porto, altura
em que foi instaurada a monarquia do Norte (Dezembro de 1918-Janeiro 1919).

Em termos políticos, combateu as ideias de Sousa Guimarães desde que este foi
nomeado Presidente da Comissão Municipal Republicana, em 1910. De facto, quando
Sousa Guimarães proclamou a República em 1910, nos Paços do Concelho, Germano
Amorim proferiu um discurso de oposição no prédio em frente à Câmara.

As circunstâncias políticas viriam a conciliar estes dois homens, pois a oposição ao


Estado Novo e a Salazar faria com que aderissem, a 5 de Julho de 1931, a uma
aliança Republicana - Socialista16, provavelmente inspirados pela República
Espanhola, proclamada a 14 de Abril. Para o efeito foi constituída uma Comissão da
qual fizeram parte Germano Amorim, Sousa Guimarães e Tomaz Norton de Matos,

15 O Centro Católico Português em1918 elegeu quatro deputados e um senador. Em 1922 teve votações expressivas
em Braga, Ponte de Lima, Guarda e em 1925, Braga, Ponte de Lima, Guarda, Vila Franca de Xira e Tomar.
Em 1912, o Centro Académico de Democracia Cristã, fundado em Coimbra em 1901, reorganizou-se sob a direcção
de Cerejeira e Salazar. Foi este centro que deu origem ao Centro Católico Português, que em 1922, é definido como
«um organismo político para actuar por meios políticos [com vista] à modificação das leis opressi vas da Igreja [e dos
direitos dos católicos o que o obriga] a intervir no acto eleitoral, a tomar assento nas Câmaras e a desenvolver nelas e
fora delas a acção mais enérgica, no sentido de conseguir da maioria a aprovação de medidas favoráveis, e dos
governos a manutenção [dos direitos dos católicos].
16 ,"Manifesto ao País", da Aliança Republicana Socialista, organização que reuniu elementos oriundos do Partido
Republicano Português, da União Liberal Republicana (ULR), da Esquerda Democrática, do Partido R adical, da Secção
Republicana, do PSP e do Partido Republicano Nacionalista.
No ano de 19131 foi publicado pela primeira vez o Avante jornal do PCP e foi também o ano da revoltada Madeira e
ilhas.

10
agora homenageados, Caetano de Faria Lima, Abel Nunes de Azevedo e muitos
outros que talvez fiquem esquecidos da memória colectiva, até que um dia se possa
fazer justiça aos muitos que anonimamente se opuseram à ditadura.

As desavenças com Germano José Amorim marcaram o período inicial da República


nos Arcos.

Em 1919, na vigência do governo de Alfredo Sá Cardoso - ala moderada do partido


democrático, após a aventura da Monarquia do Norte, em Janeiro do mesmo ano e
pouco depois de ter sido assinado o Tratado de Versalhes ( Junho) foi designado vice
-cônsul em Brest, lugar que ocuparia até 1928, ou seja, já depois da ditadura militar ter
chegado ao poder, mas ainda antes de Salazar ter sido nomeado pela segundo vez
ministro das Finanças.

Durante os anos em Brest consta ter escrito ensaios como Erros da História: lição a
meus filhos, 192517 e a Lógica Integralista, 1926,mas o pouco que sabemos sobre da
sua obra poderá agora ser mais investigado.

Permitam, porém, que também aqui evoque a memória de meu avô.

António Francisco de Sousa Araújo.

Nascido em 1889, em Melides, quando o seu pai António Cândido de Sousa Araújo se
encontrava a leccionar no Alentejo, estudou Direito na Universidade de Coimbra, onde
se licenciou. Casou com Maria Albertina, da Casa da Amiosa, em 1919. Quando se
fez fotografar ao lado de sua mulher, terá sido obrigado a refugiar-se, em Espanha,
durante a monarquia do Norte, tal como o seu cunhado Germano Amorim. Fizeram-no
separadamente e desconhecendo cada um a intenção do outro, razão pela qual no
caminho teriam parado várias vezes ao suspeitarem estarem a ser seguidos, quando
afinal tendo os dois o mesmo destino iam no encalço do outro.

17“ Entrementes, surge, porém, um livro do sr. dr. Guimarães, em que, sob a epígrafe «Erros de Historia» e o
sub-título «Lições a meus filhos » (1), o meu ilustre c ontrad itor reedita a nossa polémica do «Primeiro de
Janeiro» e a faz acompanhar de outras considerações, entre as quais figura a menção dos juízos e de parte dos
documentos devidos ao sr. dr. Queiroz Veloso.” António Augusto Mendes Correa( antropólogo, Prof. Fac. Ciências
do Porto, Presidente da Câmara Municipal do Porto e deputado à Assembleia Nacional entre 1945 e 1956

11
Sousa Araújo, ao contrário de alguns dos homenageados, viveu em Monção e a sua
vida política não teria sido muito agitada, limitando-se a manter as suas convicções
republicanas, a par da actividade profissional como advogado. Conhecido por dar
apoio aos que dele precisavam, muitas vezes exerceu a advocacia “pró bono”
sujeitando-se a retirar do exercício da profissão magros recursos.

A sua vida teria sido relativamente apagada se, em 1938, não se tivesse envolvido
numa conspiração cuja dimensão o ultrapassou. Na verdade, preso um ano antes da
2ª G.M começar, em Abril de 1938, acabaria por se condenado a dois anos de prisão,
por ter participado num movimento revolucionário destinado a pôr fim ao regime de
Salazar. Na altura, os implicados no movimento que foram presos totalizavam cento e
vinte indivíduos e o curioso é que, entre eles, constavam figuras de todos os
quadrantes políticos, pese embora o facto de o movimento ter por objectivo fazer
entrar clandestinamente no país Paiva Couceiro e o Conde de Silves. António
Francisco Sousa Araújo estava incumbido, em 1938, de encontrar um indivíduo que
transpusesse a fronteira com os dois exilados.

As razões que o levaram a envolver-se neste movimento, que agregava ideologias


díspares, não são claras no processo consultado por nós na ANTT / Arq,da Pide,
tanto mais que as informações que dele constam é por ser um advogado conhecido,
antes deste processo, e por ser reviralhista, o que dificulta a compreensão do seu
comprometimento num movimento político de tipo monárquico.

É, porém, o seu envolvimento posterior, em 1949 na eleição de Norton de Matos, na


qualidade de Presidente da Comissão Concelhia de Monção para a candidatura do
General, que nos permite entender que Sousa Araújo era um republicano, mas,
sobretudo, um firme opositor do Estado Novo. Aquando da candidatura de Norton de
Matos18, a sua acção no movimento ficou marcada pela difusão do Manifesto de
campanha de Norton de Matos em Monção, tendo os informadores da terra alertado a
PVDE para o facto de ser Sousa Araújo, vice-presidente do Grémio da Lavoura em e
um elemento destacado do MUD. Além dele, outros dois nomes constavam por
Monção e em Arcos de Valdevez seria Joaquim Carlos da Cunha Cerqueira o
representante do MUD.

Os informes da PVDE sobre todos estes homens são idênticos, acusam-nos de


reviralhistas desde sempre, desafectos à situação e no caso de Sousa Araújo é citada

18 A proximidade da família passava por um parentesco entre Maria Albertina, sua mulher, sobrinha de Angelina de
Araújo, casada com António Cândido Silva Dias e por isso cunhada de Tomas Norton Prego, irmão do famoso
oposicionista a Salazar.

12
a sua atitude quando a 2ª guerra começou, afirmando estar satisfeito por ouvir na
rádio que a Itália não iria permanecer neutral na guerra.

Quando faleceu em 1951, Sousa Araújo tinha 62 anos e o jornal da época “que a Pide
fez o favor de guardar” anuncia que muitos carros e pessoas o seguiram até ao
cemitério em Valadares, provando assim quanto o causídico era querido pela
população de Monção.Muito mais poderia contar sobre este processo que consta
cerca de 4 volumes, porém o tempo já é muito e penso que é chegada a hora de
acabar.

A República – isto é, o regime que governou o País entre 1910 a 1926 – não foi,
reconheça-se, apenas ou essencialmente, um espelho de virtudes. Desintegrou-se
devido às suas próprias contradições e ao isolamento em que se deixou cair.
Comemorar hoje a República não pode pois significar celebrar, sem mais, aquele
regime, mas celebrar, antes, o espírito generoso de muitos dos homens que por ela se
bateram, plenamente convictos de que assim se batiam pela Democracia e o
progresso do povo português. Comemorar a República significa pois celebrar as ideias
da Democracia, Justiça e progresso que muitos republicanos e muitos outros
democratas mantiveram acesas e transmitiram depois aos que anos volvidos fizeram o
25 de Abril de 1974. O que importa celebrar é a ideia de empenhamento e luta pessoal
pela Democracia e Justiça que esses homens, abnegadamente, consigo
transportaram, mesmo nos anos de sombra do regime que se lhe seguiu.
São esses democratas genuínos – como aqueles cuja memória hoje aqui revivemos –
que devemos, por isso, homenagear quando homenageamos a República. Foram
eles, porventura, o melhor que a República nos legou.

Termino como comecei que o “trabalho da memória coletiva”[nos] sirva mais de


libertação, do que para a servidão dos homens”.(LE GOFF, 1994, p.477).

E Viva a República, Viva Democracia!

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