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UNIVERSIDADE FEDERAL DO ESPÍRITO SANTO

CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS E NATURAIS


DEPARTAMENTO DE FILOSOFIA

HELESSANDRA GUMIERO

ENSAIO FILOSÓFICO:
O BEM, O MAL E O AGIR MORAL.

VITÓRIA
2016
HELESSANDRA GUMIERO

ENSAIO FILOSÓFICO:
O BEM, O MAL E O AGIR MORAL

Trabalho apresentado à disciplina Tópicos


Esp. Filosofia Social e Política IV do Curso de
Filosofia da Universidade Federal do Espírito
Santo, como requisito parcial para avaliação.
Professor Orientador Drº: Gilmar Francisco
Bonamigo.

VITÓRIA
2016
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O BEM

O homem sempre busca o bem, suas ações estão sempre pautadas na condição de
realizar aquilo que lhe trará o bem. Imaginar o contrário é praticamente inaceitável.
O bem está totalmente ligado a ideia de comum a todos, de bem estar comum, bem
estar de uma quantidade de pessoas, família, amigos, conhecidos, comunidade,
sociedade.

Buscar o bem para si e para o próximo sempre foi uma atitude almejada por todos
que viveram em comunidades, mas estranhamente nas sociedades civis atuais o
comportamento individualista aparentemente incentivado busca o bem apenas para
si, mas o bem comum é algo em desuso.

Agir consciente de que a prática da convivência não se resume apenas a meros


cumprimentos cordiais, de que respeito, compaixão e compreensão do que e de
quem está a nossa volta, são imprescindíveis para a realização da vida, mas
atualmente se tornaram ações e valores e serem resgatados. Somos a sociedade do
consumo rápido, de coisas, de pessoas de ideias. Tudo perde medida na velocidade
do click de um mouse ou do dedo na tela de um celular.

O bem deixou de ser prática moral para virar souvenir de vantagem, foto postada em
rede social que há de receber muitos ‘joinhas’ de estranhos. A ação do bem pelo
bem deixou de ser ensinada, tudo virou base de troca, as pessoas amam somente
quando esse amor tem algo a lhes oferecer, os pais trocam tempo com os filhos por
brinquedos caros, as relações de amizade são números de curtidas em redes
sociais e o bem deixa de ser fazer presente na vida do homem.

Vislumbrar futuro numa sociedade que abandona aquilo que deveria ser seu mais
precioso tesouro, a vontade de agir pelos outros, é enxergar um pote vazio tentando
ser preenchido, mas esse pote tem um furo e por mais que se tente enche-lo, tudo
que é colocado dentro dele se esvai. Sentimentos rasos, ações rasas, morais rasas,
desejos rasos, nada disso é capaz de preencher esse pote que somos nós mesmos
e a nossa vida em sociedade.
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Pensar em praticas morais, ações morais que sejam benéficas para todos os
indivíduos, sem nessas ações buscar vantagens pessoais talvez seja o exercício de
procurar ‘agulha em palheiro’. Somos seres de vaidade, desejo e confundimos
liberdade com libertinagem, esquecemos que liberdade é sinônimo de
responsabilidade e que responsabilidade não é apenas para consigo, mas que
ações responsáveis e irresponsáveis impactam diretamente no mínino os que estão
a nossa volta.

A partir dos estudos da obra de Eric Weil Filosofia Política, nasceu certo pessimismo
quanto o caráter das ações para o bem comum de nossa sociedade. Não é um
pessimismo generalista, existem aqueles que abrem mão da própria vida, dos
próprios desejos, para acalentar as necessidades daqueles que mais precisam, mas
em sua maioria os resultados das ações de bem comum são vagos, atingem poucos
e de maneira ineficaz, tendo por traz grandes corporações ou governos corruptos
que vestem máscaras de bondade, mas estão buscando apenas os próprios
interesses que em nada pretendem melhorar as condições de vida, o bem comum
daqueles que atingem direta ou indiretamente.

Seria tarefa fundamental do homem, realizar através de condutas conscientes, a


busca do bem comum, tanto no âmbito político, quanto moral. Nossa realidade nos
faz acreditar que isso é algo inalcançável ou que está muito longe de ser conseguido
e a pergunta que não cala é: Como conseguir tais mudanças no comportamento da
sociedade que façam enxergar o outro não como um oponente a ser vencido, mas
como igual a ser ajudado em suas necessidades?

O MAL

A partir do que entendo por ação violenta, contrapondo com a questão do mal ser a
negação do sentido e da razão e que o homem age pautado no mal porque não
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conhece o bem, cria-se uma imagem fantasiosa de natureza humana inconsciente


de sua própria realidade. Fantasiosa porque apenas estando em total estado de
selvageria o homem poderia usar o mal pelo mal como argumento de defesa para
suas ações. Mesmo aqueles que possuem acesso limitado a uma educação moral,
em algum momento da vida foram tocados mesmo que levemente pela ação do
bem, dentro da família, na igreja, no lugar onde viveu ou vive.

Acreditar que o homem em sua essência é mal e que isso se reflete por toda sua
existência é descreditar que algum dia alguém possa ter por escolha própria lhe
dado o direito a vida, lhe gerado por um período de tempo, o alimentado e cuidado.
Não nascemos sozinhos e por um longo período de tempo necessitamos sermos
cuidados e alimentados e isso não é feito por alguém que não escolheu estar ali,
logo antes de existirmos, existiu alguém que praticou uma ação de bem para
conosco.

Nossa criação e as ações da sociedade contribuem para as ações que viermos a


praticar? Sim, o meio está sempre nos influenciando e daí a necessidade de uma
educação moral, para que não enfraqueçamos diante das intempéries que se
colocam a nossa sempre. A educação moral é auxílio para compreensão e
superação da sociedade, instaurando assim formas dignas de realização dos nossos
anseios.

Sabendo que para não sucumbir ao mal é necessária uma educação moral que nos
faça compreender a nossa realidade e não entregar-se a ela, pergunto-me sobre
aqueles que não puderam acessá-la, aqueles que são considerados excluídos
socialmente e desprovidos do mínimo para uma vida com dignidade. Como agir
quando eles transgridem as regras morais? Como agir quando eles sucumbem às
ações do mal? Eles devem ser julgados na mesma proporção? Crianças de rua que
dormem ao relento, amontoadas umas sobre as outras nos dutos de ventilação de ar
quente das linhas de metrô das grandes cidades que possuem um inverno rigoroso,
devem sofre as penalidades, devem sofrer os preconceitos por agirem pautadas
pelo mal quando a sua necessidade as confronta?

A civilização de enormes buracos sociais não permite ao homem moral eliminar o


mal, mas sim negá-lo e o negando ele tenta camuflar, esconder aqueles que nela
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não se encaixam ou não podem se encaixar. O mal não admite a condição de


existência daqueles que infringem as regras invisíveis da sociedade do consumo.

O AGIR MORAL

A ação moral é a celebração da liberdade do homem pautada na sensatez de suas


decisões conscientes. Esse agir moral deve advir do desejo do bem comum, da sua
felicidade e da felicidade dos indivíduos que fazem parte da sua comunidade. O
homem não vive só e a individualidade ceifa o direito a experiência comum, das
relações de aprendizado, da verdadeira condição da vida que é a realização do
pleno sentido de liberdade.

Volto a afirmar que com a liberdade, vêm também grandes responsabilidades e me


pergunto o quão preparado estamos para lidar com a vida em sociedade. Aquela em
que ceder espaço, ser paciente, ouvir e ser ouvido (sem ter que se fazer ouvir) são
simples atitudes indispensáveis para não gerar um conflito.

Se a natureza do homem não é má, nem boa, mas fruto de seu meio, devemos nos
perguntar o quanto nesse ‘meio’ temos de responsabilidade? Como podemos agir
para que nossas ações tenham efeito benéfico ao bem comum e não a apenas nos
mesmos? Até onde temos a dimensão das nossas responsabilidades como algo
realmente importante para um todo e não apenas para saciar nossa necessidade de
participação sem ação iminente?

A moral de uma sociedade não é apenas aquilo que a rege como Estado, mas são
pequenas atitudes ensinadas no seio familiar de partilhar, de cuidar, de ser
atencioso, de respeitar a natureza e se responsabilizar pela sua continuidade.
Ensinamentos que colégios estatais não trazem que a sociedade de consumo não
dão mais valor, mas que ainda mantém viva o que conhecemos como humanidade.
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Talvez o maior exemplo de agir moral, de homem político que eu tenha absorvido
esteja no arquétipo daquele homem que ao ganhar um cargo de representatividade,
de importância para outros, comemore, dance, coma, solta fogos, faça festa, mas
não sinta o verdadeiro peso da responsabilidade que carregará e esse peso não
afete sua vida, sua consciência a ponto de ao invés de torná-lo feliz apenas pela
vitória, lhe traga seriedade e certa dureza pela possibilidade de não conseguir
através de suas ações a felicidade dos outros indivíduos que colocaram nele seus
desejos, sonhos e esperanças. Os exemplos das falhas morais estão aí, aos
montes, pra quem quiser ver.
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BIBLIOGRAFIA

BONAMIGO. Gilmar Francisco. O PROBLEMA DA SOCIALIDADE HUMANA. Texto


apresentado como mini-curso a ser ministrado na IX Semana de Filosofia da UFES,
2º semestre 2003.

FURTADO FILHO, Veríssimo dos Santos. A CONTRIBUIÇÃO DA MORAL NA


SOCIEDADE: Uma abordagem a partir do olhar de Eric Weil. Disponível em:
http://docslide.com.br/documents/a-moral-de-eric-weil.html. Data acesso:
11/05/2016.

SOARES, Daniel Benevides. UMA HERMENÊUTICA DO MAL NA LÓGICA DA


FILOSOFIA DE ERIC WEIL. Revista de Filosofia, Amargosa, Bahia – Brasil., v. 12, n.
2, dezembro 2015.

WEIL, Eric. Filosofia Política – tradução e apresentação Marcelo Perine – São Paulo
: Loyola, 1990.