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UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO PAULO 

Campus Baixada Santista 
Eixo O SER HUMANO E SUA INSERÇÃO SOCIAL 
Prof.ª Dr.ª Cristiane Gonçalves da Silva  
 
 
JACQUELINE MAGALHÃES PAIVA 
 
 
Anotações de visita de campo: Morro da Nova Cintra 
 
 
 
Nosso   grupo  de  trabalho  se  dividiu  e  parte  dele,  eu,  Nathaan  e  Célia,  combinamos  de 
nos  encontrarmos  às  13h  na  Silva  Jardim,  para  irmos  juntos   ao  Morro  da  Nova Cintra. A Célia 
já  estava  indo  da  casa  dela  para  lá  e  só  esperava  nossa  ligação  para  que  ela  subisse   as 
escadarias  e  nos  encontrasse   perto  da  igreja.  O   Omar,  por  uma  organização  prévia  nossa 
sobre  o  que  cada  integrante  ficaria  responsável  de  observar  ­  no  caso dele, os adolescentes e 
jovens  ­,  ficou  de  visitar  o  local  no  final  de  semana,  pois  seria   uma  data   mais  propícia  para 
encontrar esse público utilizando os espaços públicos do território em questão.  
À  parte,  eu  estava  muito  preocupada  com  o  desenvolvimento  deste  trabalho,  uma  vez 
que  (1)  considerava  apenas  um  dia  de  campo  ser  pouquíssimo  tempo  para  o  contato  e 
observação  do  lugar  e  das  pessoas  e,  por  conta  do  fim  do  semestre  e  de  minhas  atividades 
familiares,  tornara­se  impossível  ficar  em  Santos  no  final  de  semana  para  fazer  outra  visita, 
infelizmente;  (2)  eu  não sabia que a visita de campo deste módulo seria feito em concomitância 
com  o  campo  do  módulo  Trabalho  em  Saúde,  cujo  relatório  possui  tópicos  muito diferentes do 
que  pretendíamos  observar  no  projeto  que  construímos  para  esta   etnografia,  sendo  que  só 
soube  dessas  exigências  formais  na  véspera  da  vista;  (3)   minha  experiência  profissional   com 
pesquisa  qualitativa  me  deixou  com  uns   hábitos  que  me  deixam  insegura  em  não  seguí­los, 
como  ter  sempre  em  mãos um roteiro de perguntas, que não fizemos e inclusive acho que nem 
caberia  bem  neste  trabalho  e,  (4)   a  preocupação  com  o  clima,   que  tem  estado  bastante  frio  e 
chuvoso  recentemente,  pois  este  fator  tira  as  pessoas  da  rua,  o  que  dificultaria  imensamente 
nossa pesquisa. 
Ficamos  aproximadamente  1  hora  esperando  o  ônibus  da  linha 100  na Av. Conselheiro 
Nébias,  no  ponto  próximo  ao  terreno   da  universidade.  A  questão  do  tempo  hábil  para visita se 
complica  ainda  mais.  No  letreiro  informativo  do  ponto  de  ônibus  informam  que  esta  linha,  em 
específico,  passa  de  17  em  17  minutos  neste  local.  Quando  este  chegou,  claro,  estava 
abarrotado  e  o  mal  estar  só  aumentou.  Ficamos   mais  30  minutos  no  trajeto,  o  que  significou 
quase uma hora e meia só de trajeto para chegar ao local.  
A  subida  do  morro   foi  pouco  a  pouco  desvelando  o  local.  Fui  percebendo  um  misto   de 
periferia,  subúrbio  e  decadência  histórica  e  material:  casas  grandes   em  lotes  grandes,  cuja 
construção  remetia  ao  período  do  início  do  século  passado,  algumas  de  alvenaria,  outras  de  
madeira,  conjuntos  habitacionais  populares,  casebres  com  pouca  infraestrutura  e  irregulares, 
terrenos  baldios,  mini  chácaras,  balcões  comerciais,  pequenas  lojas,  bares  do  tipo   botequim  e 
igrejas  evangélicas. Esta realidade já tinha se mostrado parcialmente em minha pesquisa sobre 
a  história  moderna  do   bairro,  a  saber  um  local  de  ocupação  tão  antiga  quanta  a   da  cidade  de 
Santos,  sendo  que  primeiro  foi   ocupada  por  trabalhadores   e  produtores  imigrantes 
portugueses,  segundo,  a  partir  dos  anos  1980,  passou  ter  um  crescimento  demográfico  nas 
favelas  que  limitam  a  região  norte do bairro e, terceiro,  atualmente, já  sofre com a especulação 
imobiliária,  tendo  seu  território  adentrado  por  grandes  construtoras.Tão  logo  percebi,  por  uma 
indicação  de  um  passageiro,  já  estávamos  no  centro  do  bairro,   no  ponto  perto  da  praça  da 
igreja.  Descendo  do  ônibus,  a  vista  do  local  evidenciou ainda mais este território  onde distintos 
tempos  históricos,  diferentes  usos  e   diferentes  classes  sociais   (classes  C,  D   e  E  e  classe 
média) se mesclam.  
Bem  em  frente  ao  ponto  de  ônibus  há  um  CRAS  (Centro  de  Referência  de  Assistência 
Social).  Mais  em  frente  há  o  largo  da  Praça  Guadalajara,  local  onde  fica  a  Paróquia  São João 
Batista,  padroeiro  do  bairro.  De  lá,  avista­se,  aos  fundos,  na  parte  norte  do  morro,  as   grandes 
favelas da Vila Progresso e Santa Maria. 

 
Logo  após  chegarmos,  fui  até  a  padaria  que  fica  bem  em  frente  ao  largo  da  igreja. 
Certificando  ainda  mais  a  minha  visão  de  que  o  local  é  periférico, tal qual tantos outros bairros 
periféricos pelos quais passei, nas cidades dos quatro cantos do país, lá encontrei um comércio 
grande  em  espaço,  mas  vazio  de   gente  e  com  produtos  escassos  nas  prateleiras  e  poucas 
produções  próprias  disponíveis.  A  prateleira  mais  completa  era  a  de  cigarros,  o  que   tinha  me 
levado  até  o  local.  Tentei  puxar  conversa  com  a  atendente  do  caixa,  uma  jovem  negra,  mas 
não  houve  a   menor  abertura.  Vizinho  à  padaria,  um  bar  cheio   de  senhores  de  idade;  uns 
bebendo,  outros  jogando  carteado,  outros  assistindo  e outro na porta do bar, cuspindo  no chão 
a cada minuto. De longe ouvia­se o sotaque lusitano. 
Enquanto  eu  fumava,  combinamos  uma  nova  separação  do  grupo. Eu e Márcia iriamos 
juntas  até  a  igreja,   pois  a  mim  foi  separado  entrevistar  os  adultos  e  a  Márcia,  os  membros  da 
igreja.  Nathaan  e  Célia  iriam  juntos  para  o  outro  lado  da  praça,  pois  o  primeiro  ficou 
responsável  por  entrevistar  os  comerciantes  e  a  segunda  ficou  responsável  por  captar  os 
discursos  dos   membros  das  instituições  do  Estado,  como  os  funcionários  da  subprefeitura, 
polícia  militar,  polícia civil, bombeiros e etc. A assertividade do método anterior (cada um por si) 
foi  colocada  em   prova  pela  escassez  de  pessoas  circulando  no  local,  pela  timidez  e  falta  de 
tato  em  relação  a  como  conduzir  uma  entrevista,  primeiro  pela  dificuldade  na  abordagem  e 
segundo  pela  dificuldade  em  ser  um  entrevistador  que  utiliza  bem  suas  possibilidades  de 
contato. Acho que esta segunda divisão que fizemos nos ajudou a contornar esses problemas. 
Na  porta  da  igreja entrevistamos  C., mulher, negra, de 35 anos de idade. Questionamos 
a  ela  sobre  o   bairro,  a  festa  junina  e  a  igreja.  Ela  mora  no  bairro  e  não  frequenta  a  igreja  em 
questão,  estava  lá  apenas  porque   marcara  ali  um  encontro  com  uma   amiga.   Entretanto,  mora 
na  Vila  São  Jorge,   um  bairro  circunvizinho,  e  sempre  frequenta  o  Morro,  pois   considera  um 
ótimo  lugar  para  passear,  levar  visitas  para  “turistar”  e   visitar  residentes  locais.  Ressalta  o 
quanto  o  bairro  é  tranquilo,  arborizado  e  diferente  do  resto  da   cidade.  Desde  pequena 
frequentava  a  festa junina e sente falta desta opção de divertimento na região. Considera que o 
problema  era  a  super  lotação  no  local,  mas  não  sabe  exatamente  qual  o problema central que 
impede a realização do evento.   
Adentrando  na  igreja,  vamos  até   a  lojinha  e  local  de  atendimento  que  fica  logo  na 
entrada,  sendo  estão  recepcionada  pela  funcionária  da  igreja,  A.,  uma  jovem  senhora  de  39 
anos  de  idade,  branca,  nordestina, que mora no bairro desde a infância. Os olhos desta mulher 
brilham  ao  falar  do  bairro:  considera  muito  bom,  calmo,  agradável  e pequeno,  lembrando a ela 
uma  cidadezinha  do interior; até o clima metereológico considera ser diferente. Disse que ainda 
que  as  coisas  estejam  mudando,  pelo  aumento  da  população  e  por  conta  das  mudanças  que 
qualquer  lugar  sofre  acompanhando  a  mudança  dos  tempos,  o  Morro  da  Nova  Cintra  ainda  é  
um  local  que  a  agrada  muito.  Sobre  a  festa,  disse  que  sempre  acompanhou  e  participou,  mas  
que  o  evento  não  estava  mais  de  acordo  com  o  motivo  religioso  para  a  sua  realização  e,  por 
isso,  a  comunidade  religiosa  achou  melhor acabar com a festa. Depois de três investidas neste 
sentido,  abre  a  guarda  declarando  que  a  farra  era  muito  grande  e   trazia  problemas  para  a 
igreja.  Ressalta,  entretanto,  que   não  vão  deixar   de  comemorar  o  São  João:  para  contornar  o 
problema,  optaram  por  fazer  uma  festa  no  salão  de  festas  da  igreja,  que  fica  em  uma esquina 
lateral,  em  frente  à  praça,  cobrando  R$10,00  pela  entrada.  Apesar  do  modelo   de  festa  mais 
reduzido,  comes  e bebes  tradicionais serão vendidos pela própria igreja e seus voluntários, que 
trabalham  na  arrecadação  de  doações,  preparação  e  venda  dos  itens.  Vemos,  então,  que  
cobrar   a  entrada  é   sempre  uma  ótima  estratégia  para  selecionar  o  público.  Após  mais  de  65 
anos de realização deste evento, a igreja não é mais uma amadora, não é mesmo? 
Após  esta  entrevista,  eu  e  Márcia  fomos  conhecer  mais  profundamente  a  paróquia.  E 
não  era  de  todo  mal.  Tinha  uma  arquitetura  modesta,  mas  bastante  funcional.  Pé  direito  bem 
elevado,  uma  boa  iluminação  e  sem  problemas  no  assoalho.  Deve  suportar umas 60 pessoas,  
apesar  de  A.  ter­nos  dito  que  quase  nunca   está cheia, pois boa parte dos moradores da região 
são evangélicos, frequentando outras denominações cristãs. 
Daí  em  diante  a  Márcia  foi  fazer  outras  entrevistas  com  outros  membros  da  igreja  e eu 
parti  para  os  locais  vizinhos,  em  busca de pessoas que pudessem me falar mais sobre o bairro 
e  sobre  a  festa.  Aguardando  o  semáforo,  puxo  conversa  com  uma  senhorinha  bem idosa, que 
pouco  tem  a   me  dizer,  pois  é  evangélica  e  pouco  frequenta  espaços  públicos  do  bairro.  Diz, 
todavia,  que  veio  do  nordeste  há  mais  de  30  anos  e  que  este  é  o  melhor  local  que  já  morou, 
pois  é  seguro,  calmo,  encontra  tudo  o  que  precisa   para  sobreviver,   inclusive,  apesar  dos 
problemas  comuns  do  sistema   único de saúde, a unidade básica de saúde (UBS/Policlínica) do 
bairro ajuda bastante. 
Ao  atravessar  a  rua,  avisto  uma   jovem  adulta  no  ponto  de  ônibus,  de  quem  me 
aproximo  puxando  assunto. É D., mestiça com passabilidade branca, de 21 anos. Ela disse que 
mora  no  morro  Santa  Maria,  uma  das  favelas  da  região,  e  que  trabalha  de   manicure  em  um  
salão  aqui  nesta  parte  mais  central.  Ficou  bastante  interessada  em  mim  e  no  meu  trabalho, 
perguntando  informações  sobre  a  faculdade,  o  curso  e  o  próprio  desenvolvimento  do  trabalho 
de  campo.  Disse  que,   mesmo  na favela, a vida aqui é diferente: é tranquilo,  seguro e com mais 
recursos  que  as  favelas  em  outros  locais  de  Santos,  que  “quem  visita   fica  doidinho  para  vir  
morar  aqui”.  Ela  tem   uma  criança  de  quase   três  anos  e  trabalha  para  ajudar  em  casa  e  para 
sustentar  o  filho.  No  dia  anterior  tinha  ido  com  o  filho  na  policlínica e acha o atendimento de lá 
razoável,  pois  é  pequeno  e  atende   muita  gente.  Diz  que  faltam  escolas  na  região.  Seu   filho  já 
frequenta  a  creche  do  bairro.  Sobre  a  festa,  ela  disse  que  fica  muito  infeliz  com  o  fim  deste 
evento,  pois  era  um  dos  poucos  eventos  bons  e  abertos   na  região,  onde  todos  participavam e 
se  divertiam.  Acredita  que  o  problema  seja  a   super  lotação  e  não  aceitarem  muito  bem  o  fato 
de  que  alguns  se  “divertem   mais  que  outros”,  diz  rindo.  Mas  não  vê  isso  como  um  problema, 
ressaltando  que sempre culpam os jovens da favela apesar de mesmo no canal 1, em plena  luz 
do  dia,  ser  fácil  encontrar  jovens  “riquinhos”  fumando  maconha  na   praia.  O  ônibus  dela  se 
aproxima,  ela  se  desculpa  por  precisar  ir,  me  beija  e abraça e entra no ônibus. Fiquei bastante 
tocada,  aproveitando  o  trocadilho,  pelas  palavras  que  trocamos.  Espero  que  as  coisas  fiquem 
bem para ela e para a família dela. 
O  ponto  de  ônibus  ficava  na  calçada  do  salão  de  festas  da  paróquia.  Enquanto 
conversava  com  D,  já  avistava  da  janela,  que  pode  ser  acessada  da  calçada,  um  tesouro:  um 
grupo  de  senhoras  reunidas  em  torno  de  uma  grande   mesa  praticando bordado. Rumei para a 
janela  e  chamei  a  atenção delas, que prontamente e muito prestativamente me atenderam. Era 
um  grupo  de  seis  senhoras  idosas  muito  simpáticas,  sendo  uma  na  faixa  dos  60  anos  e todas 
as  outras  com  mais  de  70  anos.  Dentre  as  mais  velhas,  apenas  uma  era  negra  e apenas esta 
não  tinha  sotaque  português.  Do  grupo  todo,  apenas   a  mais  jovem  nasceu  no  bairro,  tendo  
todas  as  outras  chegado  ali  muito  jovens.  Expliquei  o  meu  trabalho  e  comecei  a  indagá­las 
sobre  a  festa  e  sobre  a   vida  no  bairro.  Ficou  bem  claro  que  todas  respondiam  minhas  
perguntas  sobre  a  festa  com  muita  cautela,  levando  em  conta  um   acordo  tácito  ou  explicito 
estabelecido  previamente  entre  elas.  A  mais  nova demonstrou ser uma pessoa de participação 
bem   ativa  na  organização  do  evento  e  mesmo  da  paróquia.   Notei  isso,  porque   em  vários 
momentos,  elas  olhavam  para  a  mais  nova procurando por uma aprovação mínima na troca de  
olhares  enquanto  respondiam  alguma  das  minhas  questões,  principalmente  as mais “intrusas”, 
e  esta  senhora,  em  específico,  me  deu  respostas  bem  claras,  formais  e   com  detalhes  vívidos 
que  acredito  que  somente  quem  geria   de  perto  a  festa  poderia  dar,  como  o  caso  do   Ecad,  o 
imposto  sobre  direitos  autorais  pago  anualmente  pela  igreja  por  conta  da  festa  junina  e  outros 
detalhamentos  de  gastos,  por  exemplo,  com  cashês  de  artistas  e  bandas,  alimentação  dos 
bombeiros e dos policiais militares. 
Passei  um  bom  tempo  ali  encostada  na  janela  conversando  com  elas.  Sobre  a  festa, 
disseram­me  que  esta  sempre  foi  o  orgulho  da   comunidade.  Todas  participavam  ativamente 
desde  a  mais  tenra  infância  da  quermesse  e  achei  que  trazer  à  tona   estas  memórias 
proporcionou  um  momento  feliz,  ali.  Lembraram  da  organização  coletiva,  onde  a  comunidade 
realmente  se  empenhava  em  prol  da  festa  de  São  João,  trazendo  insumos  animais  e vegetais 
que  quase  todos  produziam  em  suas chácaras.  Uma delas  lembrou como participavam mesmo 
de  resguardo  da  maternidade:  trabalhavam  e  festejavam  enquanto  as  crianças  e  bebês 
dormiam  em  um  cômodo  reservado.  Destacaram  os  shows  que  foram  marcantes  para  elas, 
como  o  de  Roberta  Miranda,  Cauby  Peixoto,  Sérgio  Reis  e  outros  que  nunca  ouvi  falar  e  por 
isso  não   recordo  para   trazer  aqui.  Comparando  com o presente, fazem um juízo de valor sobre 
os  artistas atuais que tocaram nas últimas edições da festa, no sentido  de marcar a imoralidade 
das letras e das danças, sempre com um olhar saudoso do passado. 
A  maioria  delas  disse  que   deixara  de  frequentar  e  trabalhar  na  festa  porque  “o  tempo 
delas  passou”,  pois  tanto  a  energia  e  vitalidade  delas  não  é  a  mesma,  quanto  o  envolvimento 
afetivo  com  a festividade se desfez a partir da modernização da festa. Disseram diversas vezes  
que  tudo  está  muito   mudado  e  mesmo  o  espírito  da  festa  é  diferente  e  já  não  as  atraia.  Elas 
sempre  falavam  em   mudanças,  mas  tive  que  forçar  bastante  para  que  falassem  sobre  as 
mudanças.  Uma  delas,  a  senhora  M.,  de   76  anos,  uma  que  mais  falava,  disse­me  que  estava 
ciente  que  tudo  muda  e  por  isso  era  natural  que  a  festa   também  mudasse. Citou, inclusive, as 
tecnologias  que  hoje  ordenam  nossas  relações  como  fator  para  a  mudança  nas  atitudes  das  
pessoas,  das  criações  das  crianças  e  adolescentes  e  na conformação moral dos pais. Quando 
ela  disse  isso,  outra  senhora  disse  que os adolescentes eram os que mais tinham mudado, em 
comparação  com  os  jovens  da  geração  de  seus  filhos. Exemplificou com casos de abusos que 
ela  mesma  presenciou,  com  jovens  adolescentes  bebendo  demais  e  causando  balbúrdias 
durante a festa. 
No momento em que aparentemente as mais velhas estavam começando a confiar mais 
em  mim  e  abriam  seus  juízos  sobre  a  festa  atual  e os participantes, a  mais senhora mais nova 
interveio,  relatando  que  os   maiores  problemas  estavam  relacionados  à terceirização da festa e 
os  altos  gastos  decorrentes  disso.  Falou  que,  ano  após  ano,  a  comunidade  participativa  da 
paróquia  foi   diminuindo,  fazendo  com  que  muito  serviço  tivesse  que  ser  realizado  por  poucas 
pessoas,  o  que  resultou  em  terceirização  do  evento e consequente perda de controle por parte 
da  igreja.  Disso,  muitos  gastos  surgiram  com  a  contratação  de  pessoas  e  demais  taxas  que 
eram  pagas  para  que  tudo  funcionasse  bem,  como  a  estrutura  do  palco,  das  barracas,  dos 
banheiros,  dos  impostos,  dos  cachês, dos produtores e promotores de evento, etc, etc.  Pôs um 
fim   na  questões  sobre  a  festa  dizendo  que  chegou  um  momento  que  a  festa  não  se   pagava, 
principalmente  porque  o  lucro  não  vinha  em  decorrência  dos  gastos  e  da  diminuição  do 
consumo: “Somos uma comunidade pobre e a festa era muito cara”. 
Vendo  que  o  ciclo  tinha se fechado, indaguei sobre o bairro. A senhora M. disse com os 
olhos  brilhando  que  tem  plena  consciência  que  todas  ali  vivem  em  “um   pedacinho  do  céu”. 
Todas  confirmaram.  Disse  que  mesmo  hoje  com  a  mudança  do   mundo  e   do  morro,  ainda 
dormem  com  a  janela  aberta  e  sem grade. Que muitas  casas ainda mantém os muros baixos e 
portões  nada  ostensivos.  Ressaltaram  as   mais  de  4  linhas  de   transporte   coletivo que atendem 
à  região  e  a  localização privilegiada do morro, onde é possuem chegar  rapidamente aos quatro 
cantos  da  parte  insular  de  Santos.  Mercado  é  o  que  é  mais  difícil,  mas  estão  bastante 
entusiasmadas  com  a  iminência  da  abertura  de   um  supermercado  atacadista  de  uma  rede  
famosa  na  Baixada  Santista.  Outra  diz  que  criaram  seus  filhos  em  situações   muito  mais 
precárias,  com  atendimento  médico  e  escolar  mais  longe  e  de  mais   difícil  acesso.  Hoje  tudo 
está mais fácil. Não trocam suas casinhas no pacato bairro por nenhum outro lugar na cidade.  
De  longe  avisto  os  outros  três   integrantes  do  meu  grupo  se  aproximando   da  praça.  Já 
estava  muito  satisfeita  com   o  encontro  e  as  informações  que  recebi  dessas  gentis  senhoras 
que  permaneciam  entre  agulhas,  fios  e  tecidos.   Agradeci  por  terem me ajudado  a entender  um 
pouco  sobre  a  história  da  festa,  do  bairro  e  da  vida  delas  e  me  despedi,  indo  ao  encontro dos 
meus parceiros, que traziam a satisfação refletida em seus olhos e sorrisos.  
Da  praça,  fomos  à   Lagoa  da  Saudade  para  conversarmos  sobre  nossas  descobertas 
em  campo.  O  caminho,  um  estreita  rua  cercada  por  muito  verde  e  alguns  estabelecimentos, 
como  academia,  escola,  igreja  evangélica  e  novas  construções,  nos  levaram  a  uma  praça 
muito  agradável.  Como  tinha  chovido  muito   no  dia  anterior  e  hoje  ainda  garoava,  a  quadra  de 
skate  estava  fechada  e   os  quiosques  de  churrasco  à  beira  da   lagoa  estavam  ocupados  por  
alguns  adolescentes  e  jovens  que   usavam  estes  espaços  para  conversar.  Há  uma  ponte  que 
permite  a  passagem  para  outra  margem  da  lagoa,  sendo  que  este  lugar  não  é possível de ser 
avistado  daqui  por  conta  das  árvores  e  matas  que   ocupam  aquele  espaço.  Não  fomos  lá 
porque  o  espaço  já  estava  sendo  ocupado  por  alguns  jovens   que  fumavam,  bebiam  e 
circulavam  ali,  deixando  claro  que  o  fim  da  ponte  estava  sendo  dominado  por  eles  e  ninguém 
passaria  por  ali  sem  que  passassem  por  eles.  A  Célia,  nossa  stalker  nesse  bairro  (stalker,  do 
filme  de  Tarkovsky,  era  o  guia  que  levava  pessoas   para  um  zona  em  específico  que  sofria 
grandes  mudanças  conformacionais  e  que  só  era  compreendida  por  este;  o  trabalho   dele  era 
levar  os  intrusos  a  um  lugar  específico  que buscavam chegar e que trazia uma benção, que ao 
mesmo  tempo  era  um  fardo:  a  realização  de  seu  mais  oculto  desejo),  disse  que   os  ocupantes 
da  lagoa,  durante  a  semana,  tem  a  fama  de  se  ocuparem  em  repassar  drogas  ou  de 
explorarem  sexualmente  mulheres  que  ficam  ali  durante   a  noite.   Infelizmente   não  pude 
comprovar  esta  informação  nas  minhas  entrevistas  e  tampouco  tive  coragem   de  ir  lá  verificar 
com  estes  jovens  suas  vidas  e  o  que  faziam  ali.  Só o que pude perceber é que  o grupo que se 
escondia  da  minha  visão  por  entre  as  matas  ficou  um  tanto  alterado  com  a  nossa  chegada  e 
passou  a  circular  mais  e  a  nos   rondar  para  também  nos  investigar.  Sem  que  houvesse 
estabelecido  um  contato  intermediado  por  alguém  ou  por  alguma  situação,  eu  não  me  senti 
confiante  para  abordar  o  local  mais  escondido  que  eles  ocupavam.  Isso  por  considerar  que 
tanto  nós  quanto  eles  pudéssemos  sofrer   de  julgamentos  etnocêntricos  e  ambos  estávamos 
bastante  vulneráveis,  ainda  mais  nós,  os  intrusos  do  local. Vim de periferia, esses códigos não 
me  são  estranhos:  somente  se  adentra  em  alguns  territórios  mediante  aprovação  ou 
intermediação. Lembrei de Foot­Whyte e Doc. 
Escolhemos  um  dos  quiosques  disponíveis  e  passamos  a  trocar   as  informações  que 
obtivemos  em  nossas  entrevistas  e  em  nossos  olhares  atuantes  pelo  território  do  campo.   Não 
discutirei  aqui   os  detalhes,   deixando  isto  para  o  relatório  final,  mas  conseguimos  informações 
valiosas  que  nos  ajudarão  a  montar  o  conflito  observando  os  diversos  corpos  atuantes  e  suas 
respectivas  perspectivas  sociais  e culturais. Entretanto, observando este conflito,  está cristalino 
a  dificuldade  que  é  colorir  os  outros  com  as  cores  que  vemos  em  nós.  Mais  fácil  é  sombrear, 
ocultando  toda  a  vivacidade presente  no que é diferente e alheio a nós. Eu  já fui uma moradora 
do  pé  da  favela  que  tinha  vergonha  em  dizer  o  nome  do  bairro  de  onde  eu  vinha para não ser 
confundida  com  aqueles  que  se vestem a tal  moda, dançam ao ritmo de tal música, não sabem 
se  comportar  de  acordo  com  tal  etiqueta  nos   ambientes públicos. Penso  em como poderíamos 
trocar  nossas  lentes  se  um  dia  sentássemos  sob  a   mesma  mesa,  bebêssemos  da  mesma 
água,  compartilhássemos  do  mesmo  pão.  Por  fim,  se  chamássemos  para   perto  e 
aprendêssemos a ouvir, de verdade, as razões dos outros.