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Memórias

quase póstumas

de Machado

de Assis

qollless

FTD

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gráfico Andréaa

Cretna. Fabianodos Santos Mariano

iconográfica CéliaRosa Pesquisa

Sheila Moraes Ribeiro Supervisão

EtoileShawEscâner

c tratamento

de imagens Ana IsabelaPithan Maraschin Diretor de produção gráfica Reginaldo Soares

Da:nasceno

Alvaro Cardoso Gomes é professoruniversitário,

ensaísta,romancista e escritor para crianças e jovens.

Dados Internacionais de Catalogação na

Publicação (CIP)

(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Gomes, Alvaro Cardoso Memórias quase pósturnas de Machado de Assis/

Cardoso Gornes; ilustraçõesAlexandre Camanho. 1.ed.

Sio Paulo : FTD, 2014.

Álvaro

Bibliografia

ISBN 978-85-322-9284-1

l. Assis,Machado de, 1839-1908

2. Romance biográfico

Literaturajuvenil

I. Catnanho, Alexandre.

II.Título.

14-00934

índices para catálogo sistemático:

l. Biografia romanceada : Literaturajuvenil

()28.5

O grande Machado, nosso igual

Apresentação

TJIIIcaderno de memórias

Ao leitor

Capitulo Saldo de duas vidas

Olhos de cigana oblíqua e dissimulada

Capítulo11 0 filho da lavadeira

Incidente com Hermenegildo À velha casa

Anica doente

Os arrufos de Carola

Capítulo Um ajudante muito especial

São os homens animais?

O bruxo do Cosme Velho

CapítuloIV Ganhei um secretário'

Por favor, senhor diretor, lavre o parecer

Diálogo com um leitor curioso

Capítulov O crente e o descrente

11

15

18

20

33

. 46

. 52

55

57

62

64

70

73

76

. 81

84

94

112

capítuloVI Uma noite de autógrafos

Infância e juventude

capítulo

De médico

e de IOUCO

As virtudes de Carola

Crendices A cartomante

Capítulo

Cartas de amor

A difícil corte

FaustO e Mefistófeles

capít,no A teoria do tijolinho

A teoria do tijolinho

Vaidade das vaidades

II

Capítulox Ao pé do leito derradeiro

A vida sem Carolina

Um epílogo escrito

por Outra mão

Fotocronologia da vida

e da obra de Machado

de Assis

Créditos das imagens

Bibliografia

114

119

. 128

143

146

148

160

168

171

180

198

190

206

211

213

218

232

233

O grande Machado r

nosso igual

ao poucos os escritores contemporâneos,no

Brasil,que têm uma obra tão vasta e diver-

sa quanto a de Alvaro Cardoso Gomes. Nisso,

curiosalllente,ele se irmana a Machado de Assis.Am-

bos são autores de romances, ensaios críticos, cro-

nicas,volurnesde poesia,contos etc. Quase não há

oêneroque não tenham tentado e realizadobem.

Nunia época em que a especialização literária marca

carreirase pune a ousadia de autores, Alvaro Cardoso G01nescontinua falando as várias línguas do espírito

po em que pratica sua imensa variedade de opções.

Mas há, tannbém,outra questão que os aproxima, Os dois autores cultivam a rabula, adoram a ironia, abraçanl a paródia, incorporam em sua ficção o diá-

logo conl obras de matrizes diversase não evitam

os géneros populares. A ilnaginação alegórica que,

aliás,defineboa parte da contribuição de ambos

nos convidaa ver o mundo, tão familiar,como algo estranho.E não é estranho que nosso Realismoli-

terário comece,justamente, por um romance conta- do a partir da perspectivado além-túmulo?MemÓrias

póstuntas de Brás Cubas (1881) é a prova de que, se a

literatura de qualquer tempo quiser permanecer fiel à

sua capacidadede invenção,ela não pode abandonar

a ousadia:dela colhemos os melhoresfrutos de uma

fantasia crítica.

Pois as Menlórias quase pÓstumas de Macllado de

Assis,a despeito de sua aparente simplicidade,é obra

de ousadia.Alvaro Cardoso Gomes nos conduz a um

Machado de Assisoutonal; ele está no auge de sua

carreira e quase no fim da vida. Mesmo assim,não

é um Machado impacientepara com aquelesque o

acompanham. Muito pelo contrário. Quando a histó- ria que vocês estão prestes a ler começa, encontramos

Machado revisando trechos importantes de Dom Cas-

illtlrro(1899) em companhia de Carolina,sua esposa,

de quem ele recebe repelõesde consciênciae estilo.

Uma relação afetuosa,de imensa cumplicidadeentre

marido e esposa, marca essas Memóriasquasepóstumas do início ao fim. Carola tal como Machado costuma

chamar a esposa acompanha nosso herói-escritor

enquanto viva e ainda lhe sobrevive, após sua morte

na saudade.No início do livro,ambos vão ao morro

do Livramento, berço por assim dizer do próprio

Machado, onde encontram o jovem Hermenegildo,

que servirá de secretário e nova companhia ao escri-

tor. E Hermenegildo

quem lê, passa a limpo e prefa-

cia essasmemórias de Machado.Ao mesmo tempo,

Hermenegildo é também leitor curioso,uma espécie

de jovem Machado, que se dedica a desvendaro sen-

tido dos textos lidos. Hermenegildo

foi Machado e

somos nós. Além dele, também farão companhiaao velho autor Joana e Raimundo, nos serviçosda casa,

e o padre Siqueira, nas partidas de xadrez.Temos,en-

tão, um cenário íntimo completo. Porém, ninguém

duvide de que Carola seja mesmo a presençamais

fundamental em cena.

Essas Memóriasquasepóstumasnão evitam o tema

do preconceito nem as dificuldades de se lidar com

os colegas de profissão. Detalhes biográficos de Ma-

chado de Assis são intercalados com grande sutilezaa

trechos de sua própria ficção,fazendo homem e obra

compareceremsem receio nem monumentalização.

Hermenegildo discute com Machado suas opiniões

sobre a leitura dos contos e dos romancesdo autor,

ao mesmo tempo em que também se familiarizacom outros escritoresdo século XIX. Alvaro Cardoso Go-

mes, inventor de Hermenegildo, casacom grande as-

túcia fragmentos dos textos do próprio Machado com

a recriação de episódios importantes da vida do autor.

Vemos, por exemplo, instantâneos da formação do escritor em suaprojeção no jovem Hermenegildo,

o dificil noivado com Carolina, os rituais de contato

e socialização com outros escritores,além dos grandes

temas da ficção machadiana,tais como a vaidade e as

determinações de várias ordens, que, supostamente,

explicariamo comportamentohumano.E, ao lon-

go do livro, Carola cobra do marido uma visão mais

atenta à mulher e uma perspectivamenos cáusticada condição humana.

O resultado é uma história na qual o grande Ma-

chado de Assisse humaniza imensamente. Ele convive

com seus acompanhantes e com aspróprias memórias sem exigir deles nenhuma "chave"; ele tem prazer nas

conversascom Hermenegildo e nas partidas de xa-

drez com o padre Siqueira sem, tampouco, perder a

Nach.•Ao

Aaotn

oportunidade de transtortná-la«

instantes de cs-

clarecttncnto

de tetnas cruci.11K.Neqsas Alentórias (lilase

Machado «e torna no«o

igual, ouvindo

do

aparvntc Itupacléncta a própria eqpo«a, cultivan-

anugos c lidando cotil a frágil questão da

Alvaro Cardoso Gonies

convida a considerar

.Machado dc ASSIStnais pró.xitno a nós, leitores,e

para

a Itnaglnaçio de «ituaçõesInurnanasé, ao

mesmo tctnpo. prazerosa.útil e delicada.

Afonérias quase pósrtonas dc MaclladodeAssis é tí-

tu20 espcctalis«inaoda coleção Meu amigoescritor,por-

que ',.rrs.asobre aquele que, talvez, seja nosso autor

maior pela vida que viveu, pelas realizaçõesque al-

cançou, pelas obras que escreveu.E essaimportante históna lemos com grande proveitoe muita emoção.

José Luiz Passos

Professor titular de bteraturas brasileira e portuguesana

Unnrrsidade

da Califórnia, em LosAngeles (UCLA).Entre

outros livros, é autor do estudo Machado deAssis:o ropnance

comm soas(Edusp,

e do romance O sonâmbulo amador

(Alfaguara, 2012), vencedor do Grande Prémio Portugal Telecom de Literaturx

Apresentaçã0

tzcr que Machadode Assisé o tnaior

csctltor brasileiro dc todos os tempos

constitut lugar-cotnum. Há

muito

tcnzpo.os ma:s Itnportantcs críticos do Brasil e do

CXtct20tvêm chamando a atenção para seu excep- ctonal talento. Apesar disso, há quem tenha certo

prvconcctto contra ele, acusando-o de dificil,com-

plexo,

por contar suas históriasde um modo

difervnte do usual. De fato: Machado, utilizando-se da alusão e recusando-se a dizer diretamente as coi-

sas,procura, por meio de imagens sutis,sugerir algo

ao leitor que não poderia ser dito de outro modo.

Como é o caso da descrição que faz de Capitu, a

imortal figura feminina do romance Dom Casmurro. Seu retrato é quase todo sintetizado nos olhos, ima-

ginados como "de cigana oblíqua e dissimulada"

e "de ressaca".Ora, isso nem sempre é assimilado

por um leitor pouco afeito a sutilezase que, por

isso mesmo, prefere descrições pormenorizadas dos

Apresentação

izer que Machado de Assisé o maior

escritor brasileiro de todos

os tempos

constitui lugar-comum. Há muito

tempo, os mais importantes críticos do Brasil e do

exterior vêm chamando a atençãopara seu excep- cional talento. Apesar disso,há quem tenha certo

preconceito contra ele, acusando-o de dificil,com-

plexo, talvez por contar suas histórias de um modo

diferente do usual. De fato: Machado, utilizando-se

da alusão e recusando-se a dizer diretamente as coi-

sas,procura, por meio de imagens sutis,sugerir algo

ao leitor que não poderia ser dito de outro modo. Como é o caso da descriçãoque faz de Capitu, a

imortal figura feminina do romance Dom Casmurro.

Seu retrato é quase todo sintetizado nos olhos, ima-

ginados como "de cigana oblíqua e dissimulada"

e "de ressaca".Ora, isso nem sempre é assimilado

por um leitor pouco afeito a sutilezase que, por

issomesmo, prefere descrições pormenorizadas dos

ila

Maç

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a (Icfij)iüııjiı car;ltcv,

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A4('1116rias pöslıı

''Ç) Alicnista,

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G'i scvı caso amoroso

conı a anjantc: "Marccla anıoıı-ıjıc durantc

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c onzc contos dc rû•is”.Mas tanıbûm

possİvclver cnj Maçlıado

tom ıncnos âcidono

cıııc

rcvcla a perda da İnocöııcia dcjovcns,

coıııo açontccc nos contos "Uns braços c "Missa

do galoş', c ıııcsnjo no romancc Dom Casmurro.Mas,

tant() ınıııı caso coıjıo

outro, Maclıado visaa fa-

zer ıınıa crİtica h ganância dos homcns, a um mundo

açao

onde os mais fracos são vítirnas dos ruais tortes. "Ao

vencido, ódio ou cotupai.xào;ao vencedor, as bata-

tas" é a verdadeque enlana da filosofiado Flutua-

nitas de Quincas Borba, pertneando seus livros ruais

instigantes.

No entanto Machado de Assisnio nos charna

a atenção tão só por sua excelênciacomo escritor.

Há um aspectomuito importantenele que tatu-

bém me levou a pensar em escreveresta biografia

romanceada: a sua vida. E bem verdade que nada há

nela de heroico, de grandioso.Muito pelo contrá-

rio: Machado foi um homem pacato,funcionário

público exemplar, bem casado, respeitável burguês.

Mas talvez, por isso mesmo, sua vida seja tão atra-

ente e possa servir de exemplo para qualquerjo-

vem. Machado de Assisera mulato (o pai negro e a

mãe branca), viveu numa sociedade escravocrata e

preconceituosa, era pobre e tinha a saúde frágil, so- frendo de gagueira e epilepsia desde a infincia até a

velhice. Com a morte do pai, teve que ajudar a ma-

drasta (perdera a mãe bem cedo), vendendo doces

na rua. Apesarde todos essesproblemas,tornou-se

um leitor voraz, aprendeu francês sem dificuldades

MezOrias quase póstumas de Machado de Assis

(entre 15 e 16 anos), e, não demorou muito, veio a trabalharna imprensa,começando a publicarseus

versos.Em alguns anos de frutuoso trabalho,produ-

ziu mais de duzentos contos, oito romances,livros

de poesia, peças de teatro, traduções, crónicas e ar-

tigos de críticaliterária,tornando-se o escritor mais

famoso do seu tempo. Machado de Assis,por tudo o

que passou,é mesmo um verdadeirofenómeno, um

milagre da natureza. Com seu talento invulgar e sua

vontade férrea,é um homem a ser seguido e imitado.

Tanto na obra, quanto na vida.

Alvaro Cardoso Gomes

Um caderno de

memórias

ra em setembro,na primavera.A charnadodo Sr.

Machado,fui vê-lo em seu quarto,onde ele, rnuito

abatido, repousava. Tinha a pele macilenta, respira-

va com dificuldade, os olhos fundos, os lábios cheios de

feridas. Sentei-me num banquinhoao lado da carna, e

ele me disse:

Meu caro Hermenegildo, queria lhe pedir urn gran-

de favor

0 que eu não faria pelo Sr. Machado?Devotudo o

ele ter me acolhido quando eu

que sou hoje ao fato de

não tinha ninguém para cuidar de mim. Minha mãe havia

falecido, e meu padrastoera um homemcruel, que me

maltratava.Com sua natural bondade,o Sr. Machadoe

dona Carolina que Deus a tenha - adotararn-rne, corno

se eu fosse o filho que não puderam ter. Às ordens, Sr. Machado.

Apontou para algo sobre a cómoda.

Faça a gentileza de pegar aquele caderno.

Era um caderno pautado, desses co- muns, usados nas escolas.

- Meu caro, registrei nele as

nhas memórias. Como bem sabe, meu cursivol não é dos melhores e piorou

mais nos últimos tempos. Temo que não

me entendam

abriu um sorriso triste

e completou:- Quantoa você, já está

mais que habituado a decifrar meus

hieróglifos

Fez uma pequena pausa e prosse-

guiu:

0 favor que lhe peço é que passeà limpo minhas anotações. Sobrea escriva- ninha do escritório, encontraráoutroca-

derno destes, ainda sem uso, que poderá

levar consigo.

0 Sr. Machado tem alguma pressa?

Algum prazo? Não sei se me cabe agorateral-

guma pressa ou prazos. Portanto,nãose

1Letramanuscrita.

preocupe com isso. Redija devagar, com

seu capricho usual.

Umcaderno de morn6ria:g

Como ele se sentia muito cansado, deixei-o. Em casa, acomodei-me e abri o caderno,cuja primeira pá-

gina apresentava o seguinte título: Memórias quase

póstumas de Machadode Assis. Pus-me, então, a ler as memórias dele. E gostei tanto que deixei para depois a

tarefa de passá-las a limpo. Assim atravesseia noite, en-

tretido com a leitura do caderno.

Eis o que eu li.

Ao leitor

ou início a estas minhas memórias dizendo

que resolvi escrevê-lasnão só para tornar

suportável a minha solidão, acentuada desde

a morte de Carolina, mas também porque sinto que,

dentro em breve, irei morrer. A partir dos primeiros

meses deste ano de 1908, comecei a me sentir muito

mal, a ponto de ter que pedir mais uma licença no Mi-

nistério daViação, onde trabalho. Com a saúde abalada,

tinha na boca feridas que doíam muito, impedindo- -me de comer alimentos sólidos,e uma grave infec-

ção intestinal.Sem contar que meus ataques epiléticos vinham sendo cada vez mais frequentes. Fui consultar

o doutor Miguel Couto, e ele, com muito tato e deli-

cadeza, acabou por me desenganar.Pensei então que,

para esquecer os meus males, valeria a pena deixar re-

gistrados neste caderno alguns fatos relevantes, e outros

nem tanto, de minha vida.

Depois que tomei essa decisão,vim a descobrir

que, ao me propor a contar esta história, quandojá

contava com 69 anos, chegava,em parte, a imitar o

personagem do meu romance AleniÓriaspóstutnasde Brás Cubas.Digo "em parte", porque ambos contamos

nossa história começando pelo fim, mas Brás

Cubas, ao

fazer isso, estavamorto, e eu,

ainda que muito comba-

lido, estou vivo. Desse modo, narrando sua vida depois

de falecer, meu personagem acabou se tornando um

"defunto autor", e eu, de minha parte, acabareipor Ilie tornar um "autor quasedefunto", coisa mais ou menos

comum, em se tratando de literatura.

Devo confessartambém que resolvi compor essa

história do modo mais prazeroso possível,escrevendo

só quando me apetecesse,sem ao menos pensar num

enredo ou numa possívelordem dos capítulos,deixan-

do que os acontecimentosviessemdo fundo da me-

mória e se impusessema mim quando e como bem

entendessem. Sendo assim,não se surpreenda quem se

maisespera da vida, com as idas e vindas que a histó-

ria oferecerá.Aordenação dela,portanto, deverá contar com a benevolência de meus presumíveisleitores.

Antes,porém, de entrar em alguns fatos desta exis- tênciaque vai se findando aos poucos, gostaria de com-

parara minha futura morte com a de Brás Cubas. E o

quevirá expresso no capítulo I destas minhas memórias.

Capítulo I

duas

vidas

caro leitor, que já deve

ter lido Ji/cntóriaspÓstumas

de Brás Cubas, corn certe-

za se recordará do prirneiro capítulo:

Algum

tempo hesitei ge devia

abrir «atag

ou pelo tia, isto

moiro lugar 0

polo princípio

poria em pri-

nagciacnto ou a mi-

nha morte. Suposto o ugo vulgar seja

começar pelo nasciaento, duas consi-

deraç0ee

levaras a adotar diferen-

te aétodot a pri:neira é gae eu não sou

propriamente u.'aütor defunto, mas um defunto autor, para quem a ca:npafoi

Outro berço; a segunda é gue o escrito

ficaria

galante e mais novo.

Noi8égt que t.azbé:ncontou a sua norte,

não a pôs no Introito, nas no cabo: di-

ferença radicai entre este livro e o

Pentateuco:.

Dito isto, expirei às duas horas da

tarde de una sexta-feira do mês de agosto

de 1869, na minha bela chácara de Catan-

bi. rinha uns sessenta e quatro anos, ri-

jos e prósperos, era solteiro, possuía

cerca de trezentos contos e fui acon- panhado ao cemitério por onze amigos,

2 Cinco dos primeiros

livros do Antigo Testa-

mento

Génesis,Exo-

do, Levítico,Números

e Deuteronómio.

O

o

Onze amigos! Verdade é que não hou-

ve cartas nem anúncios. Acresce

que

chovia - peneirava - uma chuvinha

miúda, triste e constante, tão cons-

tante e tão triste, que levou

da-

queles fiéis da última hora a interca-

lar esta engenhosa ideia no discurso

que proferiu à beira de minha cova:

"Vós, que o conhecestes, meus se-

nhores, vós podeis dizer comigo que a natureza parece estar chorando a

'O

perda irreparável de

dos mais be-

10s caracteres que têm honrado a

manidade. Este ar sombrio, estas go-

tas do céu, aquelas nuvens escuras que

cobrem o azul como um crepe funéreo,

tudo isso é a dor crua e má que lhe rói

à natureza as mais íntimas entranhas;

Undiscevered country:

em inglês,país desco-

nhecido, inexplorado; é

um eufemismo para a

morte. Hamlet é per-

sonagem da tragédia do mesmo nome, da

autoria do dramaturgo

inglês William Shakes-

peare (1564-1616),au-

tor tambémde Ron:eu

eJulieta, Macbeth,entre

outras obras.

ilustre finado" .

Bom e fiel amigo! Não, não me ar-

rependo das vinte apólices que lhe

deixei.

E foi assim que cheguei à

cláusula dos meus dias; foi assim que

me encaminhei para o undiscovered

country de Hamlet 3, sem as ânsias nelll

as dúvidas

do moço príncipe, nas pau-

sado e trôpego, como quem se retira

tarde do espetáculo. Tarde e aborre-

Saldo dedua:gvidas

cido. Viram-me ir umas nove ou dez pes-

soas, entre elas três senhoras, minha

irmã Sabina, casada com 0 Cotrim, a fi-

lha - um lírio-do-vale,

- e4

. Tenham

paciência! daqui a pouco lhes direi quem era a terceira senhora. Conten-

tem-se de saber que essa anónima, ain-

da que não parenta, padeceu mais do que

as parentas. É verdade, padeceu mais .

Não digo que se carpisse, não digo que se deixasse rolar pelo chão, convul-

sa. Nen o meu óbito era coisa altamente

dramática. •• Um solteirão que expira aos sessenta e quatro anos, não pare-

ce gue reúna em si todos os elementos

de una tragédia. E dado que si.m,o que menos convinha a essa anónima era apa-

rentá-lo. De pé, à cabeceira da cama, com os olhos estúpidos, a boca entrea-

berta, a triste senhora mal podia crer

na minha extinção

Morto! morto! dizia consigo.

E a imaginação

dela, corno as cego-

nhas que um ilustre viajante viu des-

ferirem o voo desde o Iliss0 5 às ribas africanas, sen embargo das ruínas e dos

tempos - a imaginação dessa senhora tam-

bén voou por sobre os destroços presen-

tes até às ribas de uma África juvenil

4 Nas citações das obras

de Machado de Assis, optou-se por atualizar

a ortografiae a pon-

tuação, quando tiradas diretamente das publi-

cações originais.

5 Ilisso é um pequeno rio da Ática, região da

Grécia antiga.

Memórias quase póstumas de Machado de Assis

Deixá-la ir; lá iremos rnais tarde;

lá iremos quando eu rae restituir aos

primeiros anos. Agora, quero morrer

tranquilamente, metodicamente, ou-

vindo os soluços das damas, as fa-

1as baixas dos homens, a chuva que

tamborila nas folhas de tinhorão da

chácara,

e o som estrídulo

de una

navalha que um amolador está afian-

do lá fora, à porta de um correeiro. Juro-lhes que essa orquestra da mor- te foi muito menos triste do que po-

dia parecer. De certo ponto em dian-

te chegou a ser deliciosa. A vida estrebuchava-me no peito, com uns

ímpetos de vaga marinha, esvaía-se-

-me a consciência, eu descia à imo-

bilidade

física e moral,

e o cor-

po fazia-se-me

planta, e pedra, e

lodo, e coisa nenhuma.

Morri de uma pneumonia; mas se lhe disser que foi menos a pneumo-

nia, do que uma ideia grandiosa e

útil, a causa da minha morte, é pos-

ASSIS, Machado

de.

Memórias póstutnas de

Brás Cubas.São Paulo:

sível que o leitor me não creia, e todavia é verdade. Vou expor-lhe

sumariamente o caso. Julgue-o por

si mesmo

De maneira diversa de Brás Cubas, quando

morrer,de modo muito provável,com meus 69

anos,não diria que estesseria-n"rijos¯ e

nos "prósperos".

Cornojí

disse,ando bem doente, e o maco-

me-

ao

me desenganar,deu-me um prazode cinco ou seis

mesesde vida,para que vá desta para a meLhorou

para a pior, dependendo do ponto de vista.

Quanto à prosperidade,ela será muito rela:i- va-Morrerei remediado,sem fortuna.Ao contrá-

rio de meu personagem,se não deixareidinheiro

aos herdeiros, deixarei, porém, o legado de meus escritos,o que não é coisa de pouca monta.Tam-

bém diferente do solteirão Brás Cubas, que era re-

fratárioao casamento,fui muito bem casadocom

Carolina.

E, quando morrer, quase com certeza. serei

apenasonze

pessoas,como ele, mas por um grande numero de

amigos,alguns parentes e admiradores.Segundo

nhas determinações,enterrar-me-ão no jazigo per-

pétuo 1359,no cemitério SãoJoão Batista,onde já

repousaCarolina.

acompanhadoaté o cemitério nio pr

pp

O

cd

o

Mais ainda: Brás Cubas procurou

de forma

extravagante, inculpar um

emplast07 como o responsável pela sua

morte, como dissenos capítulos II eV

de suas memórias:

Q)

Coraefeito, urndia de manhã, estan-

do a passear na chácara, pendurou-se-

-me urna ideia no trapézio que eu tinha

no cérebro. Uma vez pendurada, entrou

a bracejar,

a pernear,

a fazer as mais

arroj adas cabriolas de volatins, qtüe

é possível crer. Eu deixei-me estar a

contemplá-la. Súbito, deu um grande

salto, estendeu os braços e as pernas,

até tomar a forma de

Ou devoro-te . Essa ideia era nada menos que a in-

X: decifra-me

venção de um medicamento sublime, emplasto anti-hipocondríaco, desti-

nado a aliviar a nossa melancólica hu-

7 Medicamento que, ao

calor,amolece e adere

à pele.

8Andarilho.

manidade.

Senão quando, estando eu ocupado

em preparar e apurar a minha invenção,

recebi emcheio

golpe do

logo, e aio

to no cérebro; trazia eomiqo

tratei,

Tinhao

fixa dos doidos e doe

Via-mo,

ao longe, ascender do chão dag

e renontar ao

comoumaáguia

tal, e nãoé diante dotao exeoloo

petáculo que u.'homem podo sentir a dor

que o punge. Nooutro dia egtava pior;

tratei-no

enfim, nag incomplotamon

te,

gea sétodo, nemcuidado, nempor-

gietência;

tal toi a origemdo malque

ae trouxe à eternidade. Sabem já que

morri

sexta-feira,

dia aziago, e

creio haver provado que foi a minha in•

vençáo que ne matou.

A minha morte, pelo contrário,

não se deverá a emplasto algurn,Mor-

rerei,como se sabe, em consequência

dasferidasna boca e de infecçãointes-

tinal,que vinha me afctandojá há um

longo tempo.

Como estou sozinho, no fina da

vida e sofrendo muito, vejo a morte

agora,e creio também que a verei mais

ASSIS,op, cite,p

24,

Memórias quase póstumas de Machado de Assis

tarde, como um bálsamo. Afinal, aos

mortos, só cabe o descanso, ou, como melhor diria Lucrécio:

Por quenão te retiras

da vida cono

unconensa2já satisfeito

ou te concedes serenamente, ó tolo

tranquilo

repouso? 10

Assim, quando chegar o momen-

to azado,deixarei a vida sem muitasla- mentações, ao contrário de BrásCubas,

que queria continuar vivendo a todo

custo, como ele revela no seu delírio do

capítulo VII:

10Em latim, "Cur non

ut plenus vitae conviva

recedis,/ aequo animoque

capis securam,stulte, quie-

tem?", Lucrécio, poeta latino (98a.C-55 a.C.),

Da natureza,III, 938-9,

In: BARELLI, Ettore;

PENNACCHIETTI,

Sérgio. Dicionário das ci-

tações.São Paulo: Mar-

tins Fontes,

1, p. 362.

- Não, respondi; nem quero enten-

der-te; tu és absurda,

tu és uma fábu-

Ia. Estou sonhando,

decerto,

ou, se é

verdade que enlouqueci, tu não passas

de una concepção

de alienado, isto é,

una coisa vã, que a razão ausente não

pode reger nem palpar. Natureza, tu? a

Natureza

que eu conheço é só mãe e não

inimiga; não faz da vida um flagelo,

nem, como tu, traz esse rosto indiferente, como o

sepulcro. E por que Pandora?

Porque

levo na ninha

bolsa os bens e os males

e o maior de todos, a esperança, consolação dos ho-

,

nens. Trenes?

o

Sim; o teu olhar fascina-me.

creio; eu não sou somente a vida; sou também

a norte, e tilestás prestes a devolver-ne o gue te

enprestei. Grande lascivo, espera-te a voluptuosi-

dade do nada .

Quando esta palavra ecoou, cono

trovão, 2a- guele inenso vale, afigurou-se-me gue era o último

son gue chegava a meus ouvidos;

sentir a

decomposição súbita de min mesmo. Então, encarei-a

con olhos súplices, e pedi mais alguns anos .

Pobre minuto! exclamou. Para que queres tu mais alguns instantes de vida? Para devorar e se-

res devorado depois? Não estás farto do espetáculo

e da luta? Conheces de sobejo tudo o gue eu te de-

parei menos torpe ou menos aflitivo: o alvor do

dia, a melancolia

da tarde, a quietação da noite,

Os aspectos da terra, o sono, enfim, o maior bene-

fício das ninhas mãos. Que mais queres tu, sublime

idiota?

Viver somente, não te peço mais nada. Quem me

pôs no coração este amor da vida, senão tu? e, se

eu amo a vida, por que te hás de golpear a ti mesma,

matando-me ?

- Porque já não preciso

de ti.

importa ao tempo o minuto que passa

mas o minuto gue vem. O minuto gue ven

é forte, jucundo", supõe trazer en

a eternidade,

e traz a morte,

e

ce como o outro, nas 0 tempo subsis-

te. Egoísmo, dizes tu? Sim, egoísno

não tenho outra lei. Egoísmo, conse:-

vação. A onça mata o novilho porque o raciocínio da onça é que ela deve

ver, e se o novilho é tenro, tanto ne-

lhor: eis o estatuto universal . Sobe

e Olha

12

Nunca

tive desses delírios em

vida, a não ser os delírios que inven-

tei para meus contos e romances,e

espero que, ao fechar os olhos, possa

descansar,sem ser importunado por

fantasmagorias. E, caso tivesse opor-

11Alegre, feliz.

12ASSIS, op. cit., p. 32-

33.

tunidade de encontrar a figura da

Natureza, ao contrário de Brás Cubas,

não lhe imploraria nem mais um liii-

nuto de vida. Não, não faria isso

não ia querer ser chamado de "idiota"

Saldo de duas vidas

nenl receber a lição de que a vida,de acordo com

o estatuto universal,é uma luta em que alguém

devora o próxin10,para ser devorado depois

tnuito Inenos ia querer a consolaçãoofertadapela

mãe Natureza:"Conheces de sobejo tudo o que

eu te deparei Ilienos torpe ou menos aflitivo:o

alvor do dia, a melancolia da tarde,a quietação da noite, os aspectosda terra, o sono, enfim, o maior

beneficio das Illinhas mãos". Recusaria o consolo

e talvez lhe dissesseapenas:"Afasta-tede mim, ó

infaustacriatura!Deixa-me,que nunca preciseide

ti e não será agora que irei implorar-te o que quer

que seja". Queria só que meu corpo repousasseem paz,

E

ao lado de minha querida Carolina

Quanto a estasminhasmemórias,o leitor verá

que eu, apesar de pobre, de saúde frágil e, ainda por cima, apesar de ser mulato, nascido numa sociedade

escravocrata,consegui dar rumo à vida.Fui sempre

um funcionário exemplar e um dedicado esposo

para Carolina. E,

como legado, deixarei para a pos-

teridade romances, contos, crônicas,poesias e peças

de teatro, que os leitores não se cansarãode louvar.

Mornado 'Io AaaJn

Já Brás Cuba«, apesar dc rico, saudável e

branco, diqsipoua existência num sem-

dolcefar nicnt('13,deixando,

depois da

ele Ilic•stnochegou a confessar:

Este último capítulo é todo de negativas. Não alcancei a celebri-

dade do emplasto, não fui :ninistzo

não fui califa, não conheci o casa-

mento. Verdade é que, ao lado dessac

faltas, coube-me a boa fortuna de

não comprar o pão com o suor do

rosto. Mais; não padeci a morte de

D. Plácida, nem a semidemência do Quincas Borba. Somadas unas coisas

e outras, qualquer pessoa imagina-

rá que não houve míngua nen sobra,

e conseguintemente que saí quite

com a vida. E imaginará

mal; por-

que ao chegar a este outro lado do

mistério, achei-me com um pequeno

Expressio itahana

que significa"ócio pra-

zeroso .

ASSIS,op. cit., p.

saldo, que é a derradeira negativa

deste capítulo de negativas: - lüao

tive filhos, não transmiti a nenhu-

ma criatura o legado da nossa misé-

ria. 14

Mas chega de delongas

vamos à história. E dou

início a ela com

uma cena que muito me apraz lembrar.

Nela, estava ainda bem de saúde, fazendo o que mais

aprecio,que é escrever.E junto a mim encontrava-se

Carolina, pronta a me assistirquando dela precisase.

Olhos de cigana oblíqua e dissimulada

Eu tinha os olhos postos na rua, entre os coqueiros do meu jardim eram oito horas da manhã. Quem me

visse,à janela de minha casa em Cosme Velho, cuidaria

que estivesseolhando para o movimento dos veículos e

passantes;mas, em verdade, vos digo que pensava em ou-

tra coisa.Cotejava o passadocom o presente. Que era eu,

muitos anos atrás? Um vendedor de balas e, depois, tipó-

grafo.Que sou agora? Funcionário de um ministério e escritor.Voltei os olhos, contemplando o escritório. Os

livrosnas estantes,a escrivaninha com seu tinteiro de pra-

ta -- presente de um amigo —,blocos de papel e canetas,

o abajur de bronze cuja base era uma estátua de Dia-

na, tendo aos pés uma corça ,meu confortável canapé,

onde costumava me sentar para ler tudo me dava a sen-

saçãode sossego,comodidade, convidando ao trabalho.

Eu vestia uma mupa leve por conta do intenso

s:

calor. As cigarras cantavalli enl coro, naquele sába-

do. Joana, a nossa cozinheira, costutnava dizer que

"cimrra cantando é sinal de chuva chegando". Seria

bom que chovesse,que urna canícula assilllnão

fazia bem aos nervos. Para nneu alívio, unna prinla-

vera, debruçada sobre urna dasjanelas, dava sonibra,

refrescando o escritório. Deixei a janela e voltei a

me sentar diante da mesa, sobre a qual as folhasde papel manuscritas e a pena mergulhada na tinta me

aguardavam.

Estavainspirado naquele dia e escreviacom ra-

pidez. Meu romance prometia, os personagens ga-

nhando um perfil definido,e os fatos do enredo se

concatenando com solidez. Assim, escrevi até me

doer a mão. Parei para descansarum pouco, tirei os

óculos e limpei as lentes com um lenço. Repondo-

frase,e reescrevi o parágrafo que começava por "Fui

devagar

"e

não me parecia nada bem. Uma hora

depois, satisfeito com o resultado, passei todo a limpo

o capítulo XXXII, que intitulara"Olhos de ressaca"

tarefa que me exigiu umas duas horas de trabalho:

ao

náo

Tudo

no

curIogJdades Catoohouver porém, no qual

ou ensinou, on

como

É o

contarei noOlitrocapítulo.

dl-

roi somente

pargoadorsalguns diaa

do

como agregado, fui ver a mi-

nha amiqa; oram dez horas da manhã.

D. Fortunata, que otgeava no quintal, nem esporou quo ou lhe perguntasse

polafilha.

- Fat3tána sala penteando o cabe-

lot disse-mo; vá devagarzinho para lhe

pregar um susto.

Fui devaqar, mas ou o pé ou o es-

polho traiu-me. Este pode ger que não

fosse; era um espelhinho do pataca" (perdoai a barateza), comprado a um

mascate italiano, moldura tosca, ar-

golinha de latão, pendente da pare- det entre as duas janelas. Se não foi

ele, foi o pé. Um ou outro, a verdade

é que, apenas entrei na gala, pente,

cabelos, toda ela voou pelos ares, e

só lhe ouvi esta pergunta:

- Há alguma coisa?

- Não há nada, respondi; vim ver

você antes que o Padre Cabral chegue

para a lição. Como passou a noite?

P '

Moeda de pouco valor.

tala?

thJIÇ;?

 

logo de

alto e por

um

ria,

primeiro 'dor go

- tem, tftm, interrompeu Câpit.v;,

toosopteelao alguémpara vencer j",

lho falaria,

influir

tanto;

Eu

acho

nem

Jog6

Cará todo,

você realmenve náo quer ser padre,

cangar? , , , Ele ó ôt«ndido;

porém,. ,

loto!Você teimo com ele, Bentinho.

- Teimo; hoje mesmo

- Voc6jura?

- Juro! Deixo ver on olhos, Capita,

de falar.

Tinha-mo lembrado

definição

Jozé

dera doleot "01h00 do cigana oblíqua e digai:tuiada".

Eu não gabia o quo era oblíqua,

diggi.nalad¿ r

bio, e queria ver

ge podiam chanar asgi:n.

doixou-oo fitar e examinar,

perguntava o

era, oe nunca os vira; eu nada achei eztraordinárro;