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o Que É A FilosoFiA ?

H á muitas opiniões diferentes sobre a natureza da filosofia, mas provavelmente ne-


nhuma definição muito simples do assunto. Isso reflete o fato de que – de um modo que
não se verifica em nenhuma outra disciplina – a natureza da filosofia é em si mesma um
assunto importante de discordância filosófica, um assunto para o qual há uma longa his-
tória de opiniões que competem entre si. A nossa convicção, que muitos partilham, é que
ao final uma pessoa pode obter uma ideia realmente clara do que é a filosofia somente
estudando, com efeito, o assunto em mais detalhes.
Felizmente, contudo, há alguns pontos modestos sobre os quais há concordância su-
ficientemente ampla para proporcionar um ponto de partida razoável. Em primeiro lugar,
a palavra “filosofia” significa, literalmente, o amor pela sabedoria, e desde o início da sua
longa história os filósofos perguntaram e tentaram responder a questões muito difíceis
sobre os tópicos que pareciam os mais importantes para a humanidade, buscando, por
isso mesmo, a sabedoria.
Em segundo lugar, dado que o conhecimento parece importante, mesmo se não
suficiente para a sabedoria, poder-se-ia perguntar que tipo de conhecimento o estudo da
filosofia produz. Uma resposta tradicional é que os filósofos descobrem a natureza es-
sencial de várias coisas abstratas: verdade, conhecimento, pensamento, liberdade, dever,
justiça, beleza e, inclusive, a própria realidade. Uma versão mais contemporânea e talvez
mais modesta dessa reivindicação é que os filósofos descobrem o conteúdo ou a análise
correta dos conceitos que usamos quando pensamos sobre a verdade, o conhecimento e
temas semelhantes – ou, talvez, os significados das palavras correspondentes.
Em terceiro lugar, todos concordam que muitas áreas de investigação que come-
çaram como partes da filosofia depois se tornaram ramificações da ciência. Isso acon-
tece, aproximadamente, quando as questões envolvidas tornam-se definidas de modo
suficientemente claro para tornar possível investigá-las em termos científicos, através de
observação empírica e de teorização com base empírica. Assim, enquanto virtualmente
todo tipo de conhecimento foi parte da filosofia para o filósofo grego da Antiguidade Aris-
tóteles, a física e a biologia têm sido separadas da filosofia por muito tempo, com outras
áreas seguindo por esse caminho mais recentemente. (Por exemplo, até o final do século
XIX, a psicologia ainda era vista como parte da filosofia.) Isso sugere que a filosofia pode
ser identificada, ainda que um tanto indiretamente, como a origem daqueles temas que
as pessoas ainda não aprenderam a investigar em termos científicos. Isso inclui alguns
temas com respeito aos quais é difícil imaginar que isso jamais aconteça, porque são de-
masiado gerais, demasiado difíceis e, possivelmente, demasiado fundamentais.
Em quarto lugar, quase todos os filósofos concordam que a história da filosofia é
importante para a própria natureza da filosofia e para a contínua investigação filosófica
de um modo em que as outras histórias de outras disciplinas não são igualmente impor-
tantes para elas. Isso se reflete na proporção bastante grande de seleções históricas no
presente volume. Contudo, os filósofos também discordam sobre o quão importante a
história da filosofia é – e sobre por que ela é importante.
Uma abordagem da filosofia, oferecida pelo filósofo americano do século XX, Wil-
frid Sellars, pode ajudar a resumir alguma das ideias anteriores e também revelar um
pouco mais do sabor do assunto:

O objetivo da filosofia, formulado abstratamente, é entender como as coisas, no mais amplo


sentido possível do termo, estão conectadas no sentido mais amplo possível do termo. Sob
“coisas no mais amplo sentido possível”, incluo itens radicalmente diferentes, como não só
22 Laurence BonJour & Ann Baker

“repolhos e reis”, mas também números e deveres, possibilidades e estaladas de dedos,


experiência estética e morte. Alcançar sucesso na filosofia seria, para usar um modo de
expressão contemporâneo, “estar familiarizado com o entorno”, com respeito a todas
essas coisas, não naquele modo irreflexivo no qual o centípoda da história tinha fami-
liaridade com o seu entorno antes que encarasse a questão “como eu caminho?”, mas
naquele modo reflexivo que significa que nenhum apoio intelectual está barrado.1

Como isso sugere, nada está realmente além da competência da filosofia. Co-
locando esse ponto de uma maneira apenas levemente diferente, a filosofia busca
entender, de um modo plenamente reflexivo, de que maneira tudo está relacionado a
e conectado com, porém difere de tudo o mais.
Esta é uma concepção bastante abstrata, para dizer o mínimo, e também uma
concepção bastante exigente. Por um lado, existem pessoas que pensam que o único
modo de aprender filosofia é simplesmente começar lendo alguns textos filosóficos,
tentando compreender o que está acontecendo e qual é o ponto, sem qualquer ajuda
ou condução adicional. Essa visão está refletida em um antigo adágio de instrutor: jo-
gue-os na água e veja quem consegue nadar! Por outro lado, algumas pessoas pensam
que uma orientação inicial à filosofia, ainda que necessariamente uma orientação ape-
nas aproximada e parcial, pode ser de grande ajuda. Dado que cremos que essa última
concepção é correta, começamos este capítulo com um ensaio de Ann Baker sobre a
natureza da filosofia e, especialmente, sobre os elementos do pensamento filosófico.
Uma das atividades filosóficas centrais, refletida na tentativa de entender a na-
tureza essencial das coisas (ou dos conceitos), é a clarificação. Os filósofos estão cons-
tantemente levantando questões sobre o que vários tipos de coisas realmente vêm a
ser (ou o que as palavras em questão realmente significam). Muitos dos diálogos de
Platão estão focados sobre questões desse tipo, sobretudo questões relativas a noções
morais ou avaliativas: “O que é a coragem?”, “O que é a justiça?”, “O que é o conhe-
cimento?”, e assim por diante. No seu diálogo Eutífron, Platão faz a pergunta: “O que
é a piedade?”, que, para os gregos, equivalia aproximadamente à pergunta “O que é
a correção moral?”. Aprendemos no Eutífron que Sócrates foi acusado de corromper
a juventude de Atenas; e na Apologia de Platão temos um relato do julgamento de
Sócrates, no qual ele foi declarado culpado e condenado à morte – assim se tornando,
de fato, um mártir para a filosofia. Na Apologia, na medida em que Sócrates explana
por que não pode evitar a sua punição, desistindo da investigação filosófica, ele faz a
famosa afirmação de que “a vida sem reflexão não é digna de viver”. A perspectiva e a
integridade intelectual refletidas nessa afirmação foram frequentemente consideradas
como paradigmáticas do verdadeiro filósofo.
Enquanto muitas pessoas creem que a filosofia é obviamente importante e va-
liosa, existem aquelas que desprezam o pensamento filosófico como jogo mental ir-
relevante, desprezível, sem importância. Bertrand Russell argumenta que a filosofia
é valiosa mesmo que se revele como produzindo pouco ou nenhum conhecimento
seguro. Assim, pois, mais de 2.000 anos depois de Platão ter escrito o Eutífron e a
Apologia, Russell defendeu o estudo e a prática da filosofia como essenciais ao melhor
tipo de vida.

Ann Baker
Ann Baker (1953- ) é uma filósofa americana que leciona na Universidade de Wa-
shington, em Seattle, e é uma das coeditoras deste livro. Neste ensaio, ela explica o que
é a filosofia, apresenta as suas principais ramificações ou subáreas, explica os elementos
básicos do pensamento filosófico e discute como ler um texto filosófico.

1Wilfrid Sellars, “Philosophy and the Scientific Image of Man”, reimpresso em Science, Perception and
Reality (London: Routledge & Kegan Paul, 1963), p. 1.
Filosofia: textos fundamentais comentados 23

Introdução ao Pensamento Filosófico

Você decidiu então estudar filoso- de muitas alegações relacionadas), que


fia. Talvez você tenha uma ideia bastante têm o propósito de responder a questões
clara do que o estudo da filosofia envol- como aquelas listadas antes.
ve, ou pode ter somente uma vaga ideia Para generalizar a partir desses
ou mesmo nenhuma ideia. 1 Dado que exemplos, seria razoável dizer que o con- 1 Pare e pense
existem algumas concepções interessante- teúdo da filosofia diz respeito: O que você acha que a filosofia
mente diferentes de filosofia (os filósofos é? Você leu algum texto que
filosofam até mesmo sobre a filosofia!), e 1. à natureza fundamental da realidade chamaria de filosófico? Você teve
dado que precisamos de uma concepção – a natureza do espaço e do tempo, quaisquer discussões que consi-
deraria filosóficas? Há alguém na
singular da filosofia para guiar o nosso de propriedades e de universais, e em sua família que é especialmente
trabalho, começaremos o nosso estudo especial, mas obviamente não de ma- filosófico?
da filosofia desenvolvendo primeiramen- neira exclusiva, da parte da realidade
te uma concepção bastante específica de que consiste de pessoas (a ramifica-
filosofia. Ainda que nos baseemos nessa ção da filosofia chamada de metafísi-
concepção de filosofia ao longo do livro, ca);
é responsabilidade sua (como um filóso- 2. à natureza fundamental das relações
fo em potencial) pensar cuidadosamente cognitivas entre pessoas e outras par-
sobre ela e ter uma opinião sobre os seus tes da realidade – as relações de pen-
méritos no momento em que tiver con- sar sobre, conhecer, e assim por dian-
cluído o curso. Nesse meio-tempo, você te (a ramificação da filosofia chamada
pode pensar que deveria haver mudanças de epistemologia);
ou qualificações, pequenas ou mesmo 3. à natureza fundamental dos valores,
grandes, na concepção de filosofia que sobretudo valores que pertencem às
estávamos usando. relações éticas ou sociais entre as pes-
soas e entre as pessoas e outras par-
tes da realidade, tais como animais
O conteúdo da filosofia não humanos, o ambiente, e assim
por diante (a ramificação da filosofia
Comecemos construindo a nossa chamada de axiologia, que inclui os
concepção de filosofia, diferenciando campos mais específicos da ética, da
entre o conteúdo característico envolvi- filosofia política e da estética). 2 2
do na disciplina da filosofia e o método
pare Coloque cada uma das
característico do pensamento filosófico. questões do parágrafo
O conteúdo diz respeito (obviamente) O Método da Filosofia anterior em uma dessas três
categorias gerais.
àquilo sobre o que os filósofos pensam.
Por exemplo, os filósofos pensam tipica- Renunciaremos, de momento, a
mente sobre questões como essas: O que qualquer explanação posterior do conteú­
é o conhecimento? O que é a verdade? O do da filosofia, dado que essa é a tarefa
que são as mentes? O que é a consciên­ principal do restante do livro. Todavia,
cia? Somos genuinamente livres? Ser existem algumas acepções implícitas fei-
moralmente responsável requer ser li- tas pelos filósofos, e a sua clarificação
vre? Somos, por nossa própria nature- exigirá uma explicação do método do
za, egoís­tas? Há uma diferença genuína pensamento filosófico.
entre certo e errado ou bem e mal? O O método do pensamento filosófico
que é a justiça? Deus existe? E até mes- requer um conjunto de habilidade e al-
mo, como já vimos, o que é a filosofia? guns hábitos intelectuais distintivos, que
Ao tentar responder a essas questões, chamaremos de hábitos filosóficos da men-
os filósofos pensam sobre alegações* – te. Explanaremos sobre algumas dessas
asserções específicas, focadas, que são habilidades e desses hábitos neste ensaio
lançadas como sendo verdadeiras ou introdutório, mas a sua plena apreciação
falsas – e também sobre concepções ou requer exercitá-los nas concepções e nos
posições mais abrangentes (compostas argumentos filosóficos desenvolvidos no
restante do livro. Duas das habilidades
* mais básicas envolvidas no pensamento
N. de T. A palavra claims também poderia ser
traduzida aqui como “reivindicações”. filosófico são clarificar e justificar alega-
24 Laurence BonJour & Ann Baker

ções: na qualidade de filósofos, temos c) Nenhum homem solteiro* é feliz.


como ocupação fazer dois tipos principais d) Se uma pessoa é mãe, então essa pes-
de coisas, clarificar e justificar, em rela- soa é do sexo feminino.
ção a um tipo específico de objeto, uma e) Collies são cachorros.
alegação. O que queremos dizer com cla- f) Estudar filosofia tem valor.
rificar e justificar alegações? Vamos des-
montar esta frase. Essas alegações não são igualmente
Primeiro, o que é uma alegação? claras. Qual alegação mais tem necessi-
Como vimos há pouco, uma alegação é dade de clarificação? As alegações (a) e
uma asserção, algo que é dito com a in- (b) são ambas metafóricas, mas pode-se
tenção de dizer alguma coisa que é ou mais facilmente imaginar a explanação
verdadeira ou falsa. Aqui estão alguns do significado metafórico de (a). Sem dú-
exemplos: há cerejeiras no pátio; Chica- vida, você não pode literalmente comprar
go fica a oeste de Washington, D.C.; 7 + felicidade, dado que ela não pode ser en-
5 = 12; a relva é vermelha; nenhum cão contrada em nenhuma loja (nem pode
jamais foi perdido; os políticos são uni- ser comprada pela internet!). Porém,
formemente honestos. Note que as alega- esse não é o ponto real da alegação. Su-
ções podem ser tanto falsas quanto ver- ponha, por exemplo, que você estivesse
dadeiras. Nem tudo o que você diz é uma advertindo sua irmã mais nova de fazer
alegação, uma vez que a sua intenção não o que lhe parecia um casamento muito
é sempre afirmar verdades. Por exemplo, ruim: a única coisa boa que você conse-
uma pergunta não é uma alegação, nem gue ver sobre o futuro marido dela é que
o é uma exclamação ou um comando. ele é muito rico. Seria natural dizer à sua
Segundo, o que se quer dizer com irmã que dinheiro não pode comprar fe-
clarificação? Quando um filósofo clarifi- licidade, querendo dizer que se pode ter
ca uma alegação, ele explica ou expressa muito dinheiro e ser ainda muito infeliz.
em detalhes o significado da alegação. A (Obviamente, você estaria supondo que
clarificação é com frequência valiosa ou ela quer ser feliz.)
inclusive requerida, porque o significado Você pode clarificar uma alegação
de uma alegação tal como foi inicialmen- sem, através disso, dar qualquer razão
te formulada pode ser seriamente obscu- para pensar que a alegação é verdadeira.
ro de forma que se torna difícil discuti-lo Pense em como você poderia clarificar a
ou avaliá-lo. Considere, por exemplo, a alegação (c), de que nenhum homem sol-
alegação de que Deus é amor. Presumi- teiro é feliz. Essa é certamente uma ale-
velmente, a pessoa que diz que Deus é gação falsa, mas alguém ainda poderia
amor pretende dizer algo que é verda- ficar pensando sobre o significado de ser
deiro, mas algumas pessoas consideram “feliz”. Antes que você pensasse demais
essa alegação muito confusa. Isso signi- sobre isso, poderia pensar que certamen-
fica meramente que Deus é uma pessoa te entende o que é a felicidade. Contudo,
amorosa? Não – parece que a intenção é tão logo você tente defini-la claramente,
querer dizer algo muito mais significativo todos os tipos de problemas aparecem
do que isso. Mas o quê? Dado que o amor (ver os Capítulos 5 e 8). A clarificação,
é um tipo de emoção, o significado lite- às vezes, exige explicar somente um dos
ral da alegação não tem um sentido cla- termos na alegação (tal como em (c)),
ro (visto que Deus certamente não é um enquanto, em outros momentos, exige
tipo de emoção). Assim, talvez a alegação explicar o significado de diversos termos
seja metafórica, em vez de literal. É mui- (tal como em (f)). Às vezes, uma alega-
to mais fácil clarificar alegações literais ção simplesmente necessita ser tornada
do que clarificar alegações metafóricas. mais precisa. Por exemplo, alguém po-
No entanto, um trabalho importante de deria perguntar-se se todos os collies são
clarificação é feito mesmo ao se dizer que cães, ou só a maioria dos collies são cães,
a alegação é metafórica. ou só alguns collies são cães. O nível de
Obviamente, algumas alegações clarificação que uma alegação realmente
precisam de mais clarificação do que ou- necessita pode depender do contexto.
tras. Considere as seguintes alegações:

a) Dinheiro não pode comprar felicidade. *N. de T. Cf., no original, a expressão bachelor.
b) Deus é amor. Cf. também o Apêndice II.
Filosofia: textos fundamentais comentados 25
Terceiro, o que se quer dizer com dar suporte à conclusão: premissas que
justificação? Quando os filósofos ofere- são afirmadas (pela pessoa que está pro-
cem justificação para uma alegação, eles pondo o argumento) para torná-lo muito
dão razões para crer na alegação – e que provável ou, talvez, até mesmo para ga-
melhor razão há para crer numa alega- rantir que a conclusão é verdadeira.
ção do que uma razão para pensar que Uma das primeiras coisas que você
ela é verdadeira? A nossa concepção de aprenderá, ao desenvolver as habilidades
filosofia admite que uma razão para pen- que são importantes para o método filo-
sar que uma alegação é verdadeira é uma sófico, é tornar-se muito sensível à dife-
boa razão para crer nela. Além disso, tal rença entre a conclusão e as premissas de
razão parece, num primeiro olhar, ser o um argumento: a alegação que está sen-
único tipo de boa razão para crer numa do asserida por um filósofo (a alegação
alegação – dado que aceitar a alegação a favor da qual se argumentará) é a con-
é, afinal, aceitá-la como verdadeira. Em clusão, enquanto as alegações oferecidas
outras palavras, se você não tem uma ra- em suporte da conclusão são as premis-
zão para pensar que uma alegação é ver- sas. Um dos hábitos filosoficamente dis-
dadeira, nesse caso você aparentemente tintivos da mente é aquele que distingue
não tem nenhuma razão para crer nessa claramente entre premissas e conclusões,
alegação. (Se poderia haver alguma base entre aquilo a favor do que se está argu-
aceitável para crer numa alegação além mentando e o que está sendo oferecido
de uma razão para pensar que ela é ver- como uma razão.
dadeira, essa é uma questão levantada Uma questão que pode ser feita
explicitamente no Capítulo 7.) sobre as premissas de um argumento é
Suponhamos, para o restante desta se são verdadeiras – ou pelo menos se é
discussão, que uma razão para uma ale- razoável pensar que são verdadeiras. Po-
gação será sempre uma razão para a ver- rém, enquanto a questão relativa a se as
dade da alegação. Uma outra suposição premissas são verdadeiras é crucial para a
que faremos, ao explicar o que se quer força do argumento, ela não deveria ser a
dizer com justificação, é que as razões primeira questão que você faz ao avaliar
avançadas para a verdade de uma alega- um argumento. Antes de se preocupar se
ção serão elas mesmas sempre alegações: as alegações oferecidas como razões são
asserções feitas na tentativa de dizer algo verdadeiras, você deveria perguntar a si
verdadeiro. E a suposição feita ao tratar mesmo se, em sendo verdadeiras, elas ge-
dessas alegações como razões é que a ver- nuinamente dariam suporte à alegação.
dade das razões provê evidência ou aval* Razões podem dar suporte a uma alega-
de algum tipo para a verdade da alegação ção de modo mais ou menos bem-sucedi-
em questão (a alegação que estamos ten- do, e quando você pergunta o quão boas
tando justificar). são as razões oferecidas para a alegação
(admitindo que são verdadeiras), você
está perguntando sobre a força da relação
Argumentos e lógica de suporte: a relação evidencial entre as
premissas e a conclusão.
Lançar outras alegações em suporte Assim, a ideia central de um argu-
de uma alegação que você está defenden- mento filosófico é a ideia de dar razões
do é oferecer um argumento. Assim, pois, para uma alegação: oferecer premissas
de acordo com a nossa acepção de justi- para o propósito de mostrar que a con-
ficação, quando um filósofo justifica uma clusão do argumento é verdadeira.
alegação, ele normalmente oferece um Alguns argumentos são argumen-
argumento. Em filosofia, um argumento tos dedutivos válidos: argumentos cujas
não é uma discordância ou uma briga. De premissas, se verdadeiras, garantem a ver-
acordo com a definição filosófica padrão, dade da conclusão. Considere o seguinte
um argumento é um conjunto de alega- argumento para a alegação de que Maria
ções, uma dos quais é a conclusão, e as pegou o carro: ou João pegou o carro ou
outras são as premissas oferecidas para Maria pegou o carro, e eu sei que João não
pegou o carro, de modo que Maria deve
tê-lo pegado. Você pode avaliar a força da
* N. de T. Esta é a tradução que, via de regra, será relação de suporte desse argumento sem
proposta para warrant em sentido epistêmico. conhecer João ou Maria, ou sem saber
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qualquer coisa sobre o carro. Você sim- é falso), então a afirmação condicional
plesmente pergunta a si mesmo se as pre- (se Maria pegou o carro, então João não
missas, se verdadeiras, de fato dão supor- o pegou) é em si mesma falsa. Assim, se
te à conclusão. Elas dão. Se as premissas uma afirmação condicional é verdadeira
desse argumento são verdadeiras, então a e o antecedente é verdadeiro, nesse caso
conclusão deve ser verdadeira. você sabe que o consequente também
Contudo, alguns argumentos que se deve ser verdadeiro; e se uma afirmação
pretende dedutivos são inválidos: é pos- condicional é verdadeira e o consequente
sível que as premissas sejam verdadeiras, é falso, então você sabe que o anteceden-
enquanto a conclusão seja falsa. Conside- te também deve ser falso. Porém, nada
re o seguinte argumento para a alegação se segue da verdade de uma condicional
de que Maria pegou o carro: se Maria pe- e da verdade do consequente; portanto,
gou o carro, então João não o pegou; e eu argumentos que alegam tirar uma conclu-
sei que João não o pegou; assim, Maria são sobre a verdade do antecedente na
deve tê-lo pegado. Suponha que todas as base da verdade da condicional e da ver-
premissas são verdadeiras. A verdade da- dade do consequente estão cometendo o
quelas premissas garante (ou mesmo dá erro de raciocínio chamado de falácia de
3 suporte para) a verdade da conclusão? afirmar o consequente. 3
Não, esse argumento comete a falácia de Uma vez que as premissas, num
pare Há uma outra falácia, rela-
cionada a essa, chamada de afirmar o consequente. (Uma falácia é um caso de afirmar o consequente, na reali-
negar o antecedente. Você deveria equívoco no raciocínio.) Será útil digre- dade não dão nenhum suporte à conclu-
ser capaz de compreender o que é dir um pouco para ver claramente o que são, você poderia ser tentado a dizer que
aquele engano e por que ele é um
engano, dada essa explicação da é essa falácia e por que é um equívoco esse não é um argumento em absoluto.
falácia de afirmar o consequente. raciocinar dessa maneira. Todavia, não parece correto dizer de for-
Como você verá, muitos argumen- ma taxativa que esse não é um argumen-
tos filosóficos incluem afirmações condi- to: parece mais claro dizer que é um mau
cionais: afirmações da forma se A, então argumento e, melhor ainda, dizer exata-
B. Por exemplo, se Maria pegou o carro, mente o que é ruim acerca dele. (Quando
então João não o pegou. A primeira parte está diante de um argumento inválido,
da condicional, a parte A, é chamada de você não precisa se preocupar se as suas
antecedente, e a segunda parte, a par- premissas são verdadeiras, visto que, mes-
te B, é chamada de consequente. (Uma mo se elas o são, não oferecem sequer um
afirmação condicional pode ser confusa, suporte mínimo para a conclusão.)
num primeiro momento, antes que se pen- Há outros tipos de argumentos cujas
se com cuidado sobre o que exatamente premissas oferecem razões boas, mas não
ela está dizendo. Considere a alegação de conclusivas, para a verdade da conclu-
que, se George Washington era um polvo, são: argumentos que oferecem suporte
então George Washington tinha oito per- genuíno para as suas conclusões, mas em
nas. É essa alegação verdadeira ou falsa? que ainda é possível, embora improvável,
Alguns estudantes inicialmente dizem que a conclusão seja falsa, muito embora
que a alegação é falsa, mas, assim que a as premissas sejam verdadeiras. Os ar-
olham novamente, veem claramente que gumentos mais comumenente referidos
a alegação é verdadeira.) A verdade de como argumentos indutivos (ou, mais
uma afirmação condicional não requer explicitamente, argumentos indutivos
a verdade do antecedente (a alegação enumerativos) são dessa forma, e mui-
de que Maria pegou o carro), porque a tos argumentos científicos são desse tipo.
condiconal está alegando apenas que, se Quando, por exemplo, alguém raciocina
Maria pegou o carro, então João não o que todos os cisnes são brancos com base
pegou. A verdade da condicional requer em muitas observações diferentes de cis-
apenas que se o antecedente é verdadeiro, nes brancos, esse alguém está oferecendo
então o consequente deve ser verdadeiro um exemplo simples de um argumento
(não pode ser falso); em outras palavras, indutivo. Você não pode razoavelmente
se o consequente é falso, então o ante- concluir que todos os cisnes são brancos
cedente também deve ser falso para que com base em uma observação de um cis-
a afirmação condicional total seja verda- ne branco, ou mesmo de dois ou vinte;
deira. Contudo, se tanto Maria quanto porém, se existem observações suficien-
João pegaram o carro (caso em que o an- tes em locais e circunstâncias suficiente-
tecedente é verdadeiro e o consequente mente variados, então você pode razoa­
Filosofia: textos fundamentais comentados 27
velmente concluir que todos os cisnes o fato em questão realmente é um fato e
(não apenas aqueles que você observou que as outras considerações supostamen-
até aqui) são brancos. Quando você ra- te relevantes são também verdadeiras.
ciocina que o sol nascerá amanhã com Aqui está um exemplo simples: su-
base na alegação de que ele nasceu todas ponha que a polícia chame você no traba-
as manhãs até aqui por milhares de anos, lho para dizer-lhe que o seu carro esteve
você está oferecendo um argumento in- envolvido num acidente e que o motoris-
dutivo. Os filósofos não chamam o bom ta do carro abandonou a cena. A questão
argumento indutivo de válido, porque é como explicar o fato de que o seu carro
a definição de validade consiste em que esteve num acidente (ao invés de ainda
é impossível para a conclusão ser falsa, estar estacionado na entrada onde esta-
enquanto as premissas são verdadeiras. va, quando você saiu para pegar o ônibus
Argumentos indutivos, por definição, têm para o trabalho, nesta manhã). As seguin-
conclusões que poderiam ser falsas, ain- tes considerações posteriores parecem re-
da que as premissas sejam verdadeiras. levantes: que sempre só você e a sua irmã
Todavia, quanto melhor é o argumento Maria dirigem o carro, embora ela tenha
indutivo mais inverossímil ou imprová- sido recentemente proibida por você de
vel é que a conclusão seja falsa, ao passo dirigi-lo, devido às várias multas por ex-
que as premissas são verdadeiras. Bons cesso de velocidade que ela recebeu; que
argumentos indutivos, aqueles cuja rela- há somente uma chave para esse carro,
ção evidencial ou de suporte entre as pre- que fica pendurada num gancho na porta
missas e a conclusão é convincente, são dos fundos; que Maria é a única pessoa
normalmente descritos como fortes. Em (além de você) com acesso fácil a essa
tal argumento, a verdade das premissas chave e que a polícia encontrou o carro
oferece uma boa razão para pensar que a com a chave ainda nele. Então, poderia
conclusão é verdadeira. ser alegado, a explanação mais provável
Um tipo diferente de argumento do fato de que o seu carro estava no aci-
não-dedutivo – cujas premissas, nova- dente, ao invés de ainda estar no estacio-
mente, proporcionam boas razões, mas namento onde você pensava que estava,
não conclusivas, para a verdade das suas é que Maria o dirigiu (apesar de estar
conclusões – é o que é referido como um proibida de fazê-lo). Obviamente, você
argumento explanatório (também cha- terá evidência ainda melhor assim que
mado de uma inferência à melhor expla- falar com ela ou descobrir, a partir de re-
nação* ou um argumento abdutivo; e latos de testemunhas oculares, com quem
às vezes o termo “indução” é usado mais o motorista do carro se parecia. Mas você
amplamente, de maneira a também in- não tem, exatamente agora, uma razão
cluir argumentos desse tipo). A ideia de muito boa para a conclusão de que Maria
um argumento explanatório é que há pegou o carro? A sua razão não é conclu-
um fato afirmado, de algum tipo, a ser siva – isto é, a conclusão não está garan-
explanado, outras considerações que são tida como sendo verdadeira – porque há
relevantes para a explanação desse fato e outras explanações possíveis para o fato
alguma explanação que é alegada como de que o seu carro esteja na cena de um
sendo a melhor à luz daquelas conside- acidente que poderiam inclusive se reve-
rações. Assim, pois, as premissas de tal lar melhores no final das contas. (Talvez
argumento incluem tanto uma afirmação alguém tenha arrombado a sua casa, pe-
do fato afirmado a ser explicado quanto gado a chave e levado o carro embora.)
afirmações dessas outras considerações Usamos argumentos explanatórios
relevantes, e a conclusão é uma afirma- desse tipo na vida diária, e os cientistas
ção da explanação tomada como sendo fazem uso de argumentos explanatórios
a melhor. E tal argumento será forte (ja- para tirar conclusões sobre leis e entida-
mais válido) se a explanação oferecida des teóricas. Tais argumentos, com gran-
realmente for a melhor, admitindo-se que de frequência, também desempenham
um papel importante nas discussões filo-
sóficas.
* N. de T. Neste capítulo, para explanation e to
Resumindo, de acordo com a defi-
explain, além de “explanação” e “explanar”, serão
nição padrão de argumento com a qual
às vezes usadas, de modo equivalente, também começamos, se as premissas são ofere-
as expressões “explicação” e “explicar”. cidas com o propósito de dar suporte à
28 Laurence BonJour & Ann Baker

verdade de uma conclusão, nesse caso o Algumas vezes, o que é preciso para
conjunto de alegações que consistem na- tornar uma questão suficientemente clara,
quelas premissas e na conclusão constitui para ser razoavelmente discutida, é subs-
um argumento. O argumento é dedutivo tituir a alegação original por uma que é
se a verdade das premissas é destinada a clara e mais precisa, embora diga aproxi-
garantir a verdade da conclusão; se a ver- madamente a mesma coisa. Assim, pois,
dade das premissas é meramente destina- um tanto arbitrariamente, entenderemos
da a tornar a verdade da conclusão muito “estudar filosofia” como significando fa-
verossímil ou provável, mas não garan- zer e passar por pelo menos quatro aulas
tida, o argumento pode ser indutivo ou de filosofia* ou fazer algo razoavelmente
explanatório – ainda que existam tam- semelhante. (Provavelmente, você pode-
bém outras possibilidades que não consi- ria, por si mesmo, fazer o equivalente a
deramos aqui, como os argumentos que frequentar e a passar por quatro cursos
apelam para analogias. Um argumento de filosofia se estivesse suficientemente
dedutivo cujas premissas são relaciona- motivado e tivesse alguns recursos para
das à sua conclusão no modo correto de conferir o seu entendimento).
atingir o seu propósito é válido, enquanto Agora, o que você quer dizer com
bons argumentos indutivos ou explanató- “tem valor” na segunda parte da alega-
rios podem apenas ser fortes. Uma ques- ção? Tudo o que queremos dizer com
tão posterior sobre qualquer argumento é “valor”, aqui, é que é bom para você, que
se as próprias premissas são verdadeiras. você ficará significativamente melhor por
tê-lo feito. Você poderia duvidar de que
a nossa alegação é verdadeira, mas ago-
Uma Ilustração do ra você tem um sentido bastante bom do
Método da Filosofia
que queremos dizer com ele. Clarificamos
(embora, talvez, ainda não suficiente-
mente) a nossa alegação de que estudar
Temos pensado até agora, através
filosofia tem valor.
de uma explanação inicial, em duas das
Poderíamos fazer mais uma clari-
habilidades importantes envolvidas no
ficação. Alguém poderia perguntar se a
método da filosofia: clarificação e justifi-
alegação é que estudar filosofia tem sem-
cação. Consideremos, agora, uma ilustra-
pre valor, não importa quem o faça, ou
ção dessas habilidades, tentando clarifi-
apenas que normalmente tem valor. Por
car e justificar a alegação de que estudar
exemplo, pense sobre as seguintes alega-
filosofia tem valor.
ções que têm a forma de fazer A é B:
Correr uma maratona é exigente.
Clarificação: definindo Dar à luz é feito por pessoas do sexo
o que queremos dizer feminino.
Assistir à televisão é divertido.
Clarifiquemos, primeiramente, a Praticar exercícios regularmente é
alegação de que estudar filosofia tem importante.
valor. Você, de modo razoável, pergunta- Obter um grau universitário vale a
-se sobre o significado de ambas as par- pena.
tes da alegação: o que significa “estudar O contexto, às vezes junto com o
filosofia” e o que significa “tem valor”? conteúdo da alegação, determina nor-
Suponha que alguém leu o livro de Ber- malmente se alguém que afirma uma
trand Russell, Os problemas da filosofia, dessas alegações quer dizer “sempre” ou
numa noite – é isso o suficiente para se “na maior parte das vezes” – ainda que
ter “estudado filosofia”? De acordo com isso possa, às vezes, ser obscuro. Vamos
o que queremos dizer quando fazemos a admitir que o que queremos dizer quan-
alegação, não o é. Você tem de fazer mais do dizemos que estudar filosofia tem va-
do que ler um livro de filosofia para ter lor é que isso sempre tem valor.
estudado filosofia. Leva muito mais do
que uma noite para se estudar filosofia. * N. de T. Philosophy classes, ou seja, no sentido
Porém, não há uma quantidade exata de
de disciplinas de filosofia cursadas ao longo de
estudo que possa ser considerada como o um período acadêmico, como um trimestre ou
significado preciso de “estudar filosofia”. um semestre.
Filosofia: textos fundamentais comentados 29
Assim, temos agora uma reafirma- Sugerimos que a verdade das pre-
ção bastante boa da alegação original missas (se são verdadeiras) oferece uma
resultante desse esforço inicial de clarifi- razão muito boa para pensar que a con-
cação: a nossa alegação de que estudar fi- clusão é verdadeira. De fato, o argumen-
losofia tem valor significa que alguém que to parece ser válido: parece logicamente
faz o equivalente a frequentar e a passar impossível que as premissas sejam ver-
por pelo menos quatro cursos de filosofia dadeiras e a conclusão seja falsa. (Con-
se beneficiará disso significativamente. sideraremos mais tarde uma razão para
Um dos hábitos mentais distintivamente questionar se isso realmente é assim.)
filosóficos é aquele de perceber quando Esse argumento, portanto, oferece um
alegações são mais ou menos claras. bom exemplo da relação de oferecer uma
boa razão, que é o elemento central de
um argumento.
Justificação: oferecendo No argumento anterior, se as pre-
um argumento missas são verdadeiras, então a conclu-
são está aparentemente garantida como
Agora, desloquemo-nos da clarifica- sendo verdadeira. É evidente, porém, que
ção para a justificação, lembrando que a não podemos simplesmente admitir que
justificação filosófica tipicamente toma a as premissas são verdadeiras. E, visto que
forma de um argumento. Aqui está um a conclusão do argumento foi justificada
argumento para a alegação que acaba- somente se as premissas são verdadeiras,
mos de clarificar: a nossa tarefa de justificar a alegação ori-
ginal não está acabada até que tenhamos
1. Estudar filosofia sempre faz com que pelo menos defendido as premissas (dan-
você pense mais claramente. do razões para pensar que as premissas
2. Pensar mais claramente sempre tem são verdadeiras). Além disso, deveríamos
valor. também considerar e responder às mais
3. Portanto, estudar filosofia sempre tem óbvias objeções, caso existam.
valor.

O que faz disso um argumento? É Dando razões para


um conjunto de alegações, uma das quais a verdade das premissas
é a conclusão e as outras são premissas
postas para dar suporte à conclusão. Comecemos com a primeira premis-
(Quando você oferece um argumento sa: estudar filosofia sempre faz com que
para uma alegação, a alegação é a con- você pense mais claramente. Em anteci-
clusão do argumento.) Assim, as primei- pação, pense sobre o que estará envolvido
ras duas sentenças são as premissas, e a no estudo da filosofia: você lerá muitos
terceira sentença é a conclusão. textos filosóficos diferentes, de muitos pe-
Apenas faça de conta, por um mo- ríodos diferentes da história, aprendendo
mento, que as premissas são verdadeiras. o que diferentes filósofos disseram sobre
Se elas são verdadeiras, a verdade das muitos tópicos diferentes. Além disso,
premissas torna a conclusão provável como os autores são filósofos, eles nor-
ou até mesmo certa de ser verdadeira? malmente estarão argumentando a favor
Para esse argumento, como para muitos das suas concepções, de modo que você
outros argumentos, você precisa pen- precisa entender e avaliar criticamente
sar sobre as premissas e a conclusão no aquelas opiniões e aqueles argumentos
intuito de responder a essa questão – a numa tentativa de compreender o que
resposta a essa questão não é o resultado você pensa acerca do tópico filosófico em
de um teste mecânico claro. Na medida questão. Além disso, como os filósofos
em que você adquire o hábito intelectual têm de discutir muitos outros assuntos ao
de avaliar argumentos, você fica cada vez explanar e clarificar as suas concepções,
melhor em distinguir os bons argumen- apresentando argumentos e consideran-
tos dos maus. O que você deveria fazer do objeções a outras concepções (e, como
é supor que as premissas são verdadeiras veremos, inclusive às suas próprias), uma
e, então, tentar imaginar se seria possível obra filosófica é normalmente bastante
que a conclusão fosse falsa, mesmo sendo complicada, sendo que todas essas par-
dada a verdade das premissas. tes precisam ser devidamente resolvidas.
30 Laurence BonJour & Ann Baker

Estudar filosofia envolve realizar todos dos supervisores sugere a Doug que ele
esses procedimentos com cuidado. tome uma aula particular, Doug jamais se
O que, então, é “pensar claramen- pergunta por que ou como aquela aula se
te”? Sem dúvida, envolve ser capaz de encaixa no seu programa como um todo.
clarificar várias ideias e opiniões que Doug provavelmente não tem um plano
você encontra, mas também envolve ser claro, mas tem sim o desejo de terminar
lógico: considerar e, às vezes, descobrir a faculdade do modo mais eficiente pos-
razões para aquelas opiniões, junto com sível. Suponha que Joe esteja constan-
a capacidade de avaliar de modo bem- temente afiando as suas habilidades de
-sucedido quando aquelas razões são boas pensamento: ele sempre pede à super-
e quando não o são. Uma habilidade de visora para clarificar os seus conselhos,
pensar claramente é a habilidade de fazer sempre pergunta por que esse é um bom
malabarismos com combinações compli- curso para se fazer e tem em mente com
cadas de ideias, enquanto se atenta para clareza os requisitos de grau. É razoá­vel
as diferentes relações entre elas. E, como afirmar que, por causa da habilidade que
qualquer habilidade, leva tempo e práti- Joe tem de pensar mais claramente do
ca para tornar-se bom nela. Você precisa que Doug, Joe realizará o seu objetivo
pensar claramente para ao menos enten- mais provavelmente do que Doug – e este
der os filósofos e precisa ser capaz de nem sequer é o melhor exemplo, é? Você
pensar claramente para avaliar opiniões não tem de pensar com excepcional cla-
filosóficas. Quando avalia uma opinião, reza para realizar o objetivo de terminar
você decide se ela é uma boa opinião a faculdade do modo mais eficiente possí-
(provavelmente verdadeira) ou uma má vel. Imagine o quão claramente você tem
opinião (provavelmente falsa) e, como de pensar para ser um cidadão responsá-
filósofo, você deve ter razões para fazer vel ou um amigo afetuoso ou um ótimo
aquela avaliação. Portanto, alguém que pai. Ser capaz de distinguir entre crer em
estudou filosofia – dado o modo como alguma coisa com base em pensamento
clarificamos essa ideia – ou aprendeu a ilusório como oposto a crer em alguma
pensar claramente pela primeira vez, ou coisa com base em boa evidência pode fa-
então já sabia em certa medida como pen- zer a diferença entre realizar um bom tra-
sar claramente, mas teve agora grande balho e realizar um trabalho inadequado
quantidade de prática adicional nisso, e em muitas áreas das relações humanas.
assim presumivelmente pensa ainda mais Assim, pensar claramente tem sempre va-
claramente. Eis uma defesa da primeira lor porque o ajuda a conseguir o que você
premissa: uma razão para pensar que a quer: não importa que isso signifique ser
primeira premissa é verdadeira. um empregado da justiça, um bom pai ou
Agora, consideremos uma defesa um perfeito inútil.
para a segunda premissa: a premissa de Nesse ponto, oferecemos razões
que pensar mais claramente sempre tem para pensar que ambas as premissas são
valor. Com certeza, podemos todos con- verdadeiras, e parece inicialmente cla-
cordar que fazer alguma coisa que o aju- ro que, se as premissas são verdadeiras,
da a conseguir o que você quer tem valor então a conclusão deve ser verdadeira.
– que você se beneficia significativamente Logo, apresentamos e defendemos um ar-
ao fazer algo que aumenta a sua habilida- gumento, mas isso basta para justificar a
de de conseguir o que quer (a menos, na- alegação? Certamente é uma justificação,
turalmente, que o que você quer não seja mas ainda não é a mais forte justificação
bom para você). Defendemos que pensar que poderíamos dar. Uma justificação
claramente sempre faz isso. Suponha, por ainda melhor para uma alegação também
exemplo, que cada uma de duas pessoas – inclui considerar e responder a objeções
chame-as de Joe e Doug – quer terminar ao nosso próprio argumento.
a faculdade do modo mais eficiente possí-
vel e suponha, além disso, que Joe pensa
muito mais claramente do que Doug. Su- Objeções: considerando razões
ponha que Doug de fato jamais pensa de contra a verdade das premissas
modo suficientemente intenso para man-
ter na linha os requisitos de grau, ou até Alguns estudantes relutam em con-
mesmo perceber que existem alguns des- siderar objeções a um argumento que
ses requisitos. Suponha que, quando um estão tentando defender, porque lhes
Filosofia: textos fundamentais comentados 31
parece que estão enfraquecendo a sua lidades que você adquirirá à medida que
própria posição. Contudo, um argumen- desenvolver hábitos filosóficos da mente:
to que considere e responda a objeções você precisará ser capaz de assumir uma
é muito mais forte do que um argumen- atitude crítica, criticando os argumentos
to que não considere nenhuma objeção. de outros filósofos. Você também pode
Imagine que você está lendo dois edito- adotar esse mesmo ponto de vista com
riais no jornal, um dos quais expressa as relação ao seu próprio argumento, fazen-
suas próprias opiniões políticas, enquan- do de conta que você mantém o outro
to o outro expressa opiniões contrárias às ponto de vista e procurando fraquezas no
suas. Suponha que cada peça argumenta seu argumento original.
a favor da sua posição sem considerar Você poderia pensar, num primeiro
quaisquer pontos de vista alternativos momento, que o modo de objetar a um
que poderiam levar a objeções. Quando argumento é objetando a sua conclusão
você lê aquela com a qual você concor- – encontrar razões para pensar que a con-
da é – infelizmente – demasiado fácil clusão é falsa. Mas, de fato, isso não fun-
apenas acompanhar o argumento (você, ciona realmente muito bem se você está
afinal, já concorda com a conclusão). Po- tentando criticar o argumento original.
rém, quando lê aquela da qual discorda, Ora, se você oferece razões para pensar
você está provavelmente pensando em que a conclusão é falsa, então você sim-
objeções ao longo do caminho, e assim plesmente produziu um outro argumento
talvez não se sinta desafiado na sua pró- para a conclusão oposta. Você agora tem
pria concepção, porque você pensa que dois argumentos opostos, levando a re-
tem boas objeções para as razões dadas a sultados opostos, mas não está realmente
favor da conclusão de que você discorda. envolvendo um com o outro em qualquer
No entanto, imagine que o editorial de forma mais substancial. Eles não podem
que você discorda seguiu considerando ambos ser argumentos válidos com pre-
objeções similares àquelas nas quais você missas verdadeiras, e é improvável – ain-
está pensando à medida que o lê e ima- da que não impossível – que sejam ambos
gine que as repostas que ele dá àquelas fortes. Todavia, o mero conflito entre eles
objeções são bastante convincentes. não oferece em si mesmo nenhuma per-
Você não se sentiria mais desconfor- cepção de qual é equivocado ou – o que
tável negando a importância da opinião é até mesmo mais importante – de como
que ele defende nesse caso? Não pare- ele é equivocado. Assim, pois, se o objeti-
ceria o desafio à sua própria concepção vo é avaliar, criticar ou fortalecer o argu-
mais sério? Analogamente, não ficaria a mento original, o que faz mais sentido é
peça que argumenta a favor da opinião considerar objeções às suas premissas ou
com a qual você concorda até mesmo ao raciocínio das premissas à conclusão,
mais forte se também considerasse e res- em vez de razões para rejeitar a conclu-
pondesse a objeções? Qualquer opinião são. Se há boas razões para pensar que as
argumentada com base em um lado so- premissas de um argumento são falsas ou
mente, sem considerar perspectivas alter- que o raciocínio das premissas à conclu-
nativas e as objeções resultantes, não é são é falho, então o argumento falha em
tão convincente quanto uma opinião que dar suporte à sua conclusão; porém, se
considerou as mais fortes objeções e mos- aquelas objeções podem ser respondidas,
trou também como aquelas objeções, não então a posição total a favor da conclusão
importa o quanto pareçam fortes, podem é fortalecida.
receber resposta de um modo satisfató- Consideremos, inicialmente, uma
rio. Esse é um hábito mental filosófico objeção a cada premissa do nosso argu-
especialmente importante: veja muitos mento de amostra. Uma objeção a uma
lados de uma questão – não fique satis- premissa é uma razão para pensar que
feito com uma perspectiva apenas. a premissa é falsa. Consideremos a pri-
Queremos considerar e responder meira premissa: estudar filosofia faz com
a objeções pelo propósito de fortalecer o que você pense mais claramente. Alguém
nosso argumento, mas presumivelmente poderia objetar dizendo que estudar filo-
julgamos o argumento bastante convin- sofia é muito confuso. Para estudar filo-
cente (uma vez que o inventamos). De sofia, você tem de ler muitos autores dife-
que modo, então, proceder para encon- rentes, sobre muitas questões diferentes,
trar boas objeções? Essa é outra das habi- e muitos dos autores viveram há muito
32 Laurence BonJour & Ann Baker

tempo, de modo que o seu estilo de es- claramente ao estudar matemática). As-
crever é muito diferente do nosso e, em sim, você poderia argumentar que, mes-
geral, difícil de entender. Questões filosó- mo sendo verdade que estudar filosofia
ficas são difíceis de entender sobretudo ensinaria você a pensar mais claramente
porque são demasiado abstratas e remo- e que pensar mais claramente tem sem-
tas em relação às preocupações diárias. pre valor, é falso que estudar filosofia tem
Por isso, muitas pessoas que estudam fi- valor para você. É falso que você, em fun-
losofia acabam ficando muito confusas, e ção de tudo o que é verdadeiro sobre a
com certeza alguém que é muito confuso sua vida, deveria estudar filosofia. Essa
não é alguém que pensa claramente. Por- objeção desafia o raciocínio envolvido em
tanto, estudar filosofia não faz com que tirar a conclusão a partir das premissas
alguém pense mais claramente. em vez de desafiar uma das premissas.
O que dizer sobre a segunda premis- Nesse ponto, formulamos uma ob-
sa: pensar mais claramente sempre tem jeção a cada uma das nossas premissas e
valor? Alguém poderia objetar a essa pre- uma objeção ao raciocínio do argumento,
missa apontando que, quanto mais cla- tudo com o objetivo último de fortalecer
ramente alguém pensa, mais claramente a nossa posição a favor da alegação de
alguém vê o quão vulneráveis nós, débeis que estudar filosofia tem valor por res-
4 seres humanos, somos. Temos muitos de- ponder a essas objeções. 4
sejos grandiosos, mas a nossa habilidade
pare Você consegue pensar em
quaisquer outras objeções de “conseguir o que queremos” é ampla-
a esse argumento? mente dependente de condições além Respostas: mostrando por
do nosso controle, e assim todo o nosso que as objeções falham
planejamento e esquema é, no final, so-
mente patético. Quanto mais claramente Obviamente, precisamos responder
pensamos, mais claramente percebemos a essas objeções: precisamos mostrar por
isso e mais paralisados nos tornamos. Ob- que elas não são fortes o suficiente para
viamente, não nos beneficiamos em ficar afetar gravemente a força do argumento
tão paralisados. Pelo contrário, a ignorân- original. Ao responder a objeções, você às
cia e o pensamento obscuro são a maior vezes mostrará que o raciocínio das ob-
alegria. Portanto, pensar claramente não jeções é falho, enquanto em outros mo-
tem sempre valor. mentos você pode responder mostrando
Objeções podem também ser feitas que a afirmação original da premissa ou
ao raciocínio envolvido na argumentação do raciocínio precisa ser alterada ou qua-
de que a conclusão é provavelmente ver- lificada para acomodar a objeção (mes-
dadeira, dada a verdade das premissas. mo ainda sendo capaz de estabelecer a
Considere uma objeção ao raciocínio do posição a favor da alegação que você está
argumento de amostra. Suponha que al- defendendo).
guém reconheça a verdade de ambas as A primeira objeção alega que o es-
premissas, mas argumente que há outros tudo da filosofia, ao invés de levar ao
modos, com efeito muito mais fáceis de pensamento claro, é algo confuso. Porém,
aprender a pensar mais claramente do enquanto algumas pessoas de fato o con-
que estudando filosofia. Se a conclusão sideram confuso, num primeiro momento,
– de que estudar filosofia sempre tem va- aquele sentido de confusão quase sempre
lor – significa que qualquer um deveria, vai embora assim que se trabalha nele
consideradas todas as coisas, estudar filo- com um pouco mais de intensidade. Real-
sofia, então essa conclusão poderia muito mente não é muito fácil passar por quatro
bem ser falsa, caso em que o argumento disciplinas de filosofia sem adquirir as ha-
não é realmente válido no final das con- bilidades de pensar que resolvem a con-
tas. Suponha que você é um especialista fusão. Essa objeção poderia ter tido peso
em matemática; suponha também que sério se tivéssemos especificado a ideia de
estudar matemática ensina você a pensar estudar filosofia como significando passar
mais claramente; suponha ainda que, da- por somente um curso de filosofia, mas ela
dos os seus talentos e interesses, tomar o não tem nenhum peso sério contra a pri-
tempo para estudar filosofia tiraria tem- meira premissa quando estudar filosofia é
po de outras atividades de que você gos- entendido como requerendo que se tenha
ta, sem adicionar muito benefício (uma passado por quatro cursos de filosofia (ou
vez que você já está aprendendo a pensar feito o equivalente a isso).
Filosofia: textos fundamentais comentados 33
A segunda objeção alega que somos A nossa principal resposta a essa
virtualmente impotentes para obter o que objeção, então, é que a objeção repousa
queremos, não importa o quão cuidado- numa suposição muito controversa, mal-
samente planejamos e antecipamos, de defendida, uma suposição que nos parece
modo que o pensamento claro não tem como sendo manifestamente errada. Por-
de fato sempre valor. Mas que evidência tanto, a objeção falha em ter qualquer for-
pode ser oferecida para tal alegação? Que ça séria contra a premissa à qual se volta.
razão esse objetor pode oferecer para a O que dizer sobre a objeção ao racio-
concepção de que o nosso planejamento cínio do argumento? A principal resposta
e pensamento cuidadoso não faz nenhu- a essa objeção é que a objeção confundiu
ma diferença (ou tão pouca diferença a o conteúdo da conclusão. O ponto do ar-
ponto de ser irrelevante) para o resultado gumento não era argumentar que todos
dos nossos esforços? Suponha que você deveriam estudar filosofia, muito embora
indique que sabe de muitos exemplos de talvez não fosse inteiramente irrazoável
pessoas que, com frequência, foram bem- para o objetor interpretar a conclusão
-sucedidas em conseguir o que queriam, desse modo. Um modo de entender a
quando planejaram isso cuidadosamente, alegação de que estudar filosofia sempre
e de outras pessoas que não planejam tem valor é pensar que estudar filosofia
cuidadosamente e falham em obter o que terá valor para qualquer um. E isso sugere
querem. Esses exemplos são contraexem- enfaticamente que qualquer um deveria
plos 5 à opinião do objetor: exemplos fazê-lo. No entanto, poderíamos argu- 5 Comentário
que oferecem alguma razão para pensar mentar que a conclusão do argumento Uma outra importante ha-
que a opinião é falsa. Naturalmente, nin- não quer dizer que qualquer um, não bilidade filosófica é oferecer
guém defenderia que o planejamento cui- importa o que mais for verdadeiro a seu contraexemplos a alegações ou
dadoso garante bons resultados. A defesa respeito, deveria encontrar algum tempo teorias filosóficas. Para criar um
contraexemplo, você precisa pri-
para a premissa em consideração preci- para estudar filosofia. A conclusão, em meiro compreender o que exata-
sa apenas reivindicar que o pensamento vez disso, simplesmente significa que, se mente a alegação ou a opinião diz
cuidadoso, claro, torna mais provável a você estuda filosofia, então esse estudo e, então, pensar cuidadosamente
obtenção do que você quer – o que é o terá valor para você, no sentido de que sobre como ela se aplica a muitas
situações, procurando exemplos
bastante para tornar tal pensamento va- você se beneficiará dele. Essa conclusão é que mostram que ela está errada.
lioso. Assim, o objetor precisa oferecer completamente consistente com a alega-
alguma razão para pensar que é falso que ção de que, para qualquer pessoa em par-
o pensar cuidadosamente, claramente, ticular, ela não deveria estudar filosofia,
torna mais provável que você obterá o porque para aquela pessoa em particular
que quer. o estudo da filosofia, apesar dos benefí-
O defensor da objeção poderia res- cios que produz, não teria valor, todas as
ponder que todas aquelas pessoas que coisas consideradas, dado o que teria de
planejaram cuidadosamente tiveram ser sacrificado para dedicar-se a tal es-
apenas sorte e as pessoas que não plane- tudo e dada a possibilidade de adquirir
jaram bem foram apenas azaradas. Supo- aqueles mesmos benefícios, ou outros
nha que o objetor continue a fazer a mes- muito parecidos, de algum outro modo.
ma afirmação (que aqueles que planejam (Aqui, você pode ver o quanto a conside-
apenas têm sorte), não importa o quão ração de objeções também pode ajudar a
detalhados sejam os seus exemplos nem clarificar uma posição.)
com quantos exemplos você apareça. Não
há nada que alguém possa dizer que pro-
ve de forma conclusiva que temos mais Resumo
controle do que a objeção diz que temos,
de sorte que a opinião do objetor não Clarificamos e justificamos a ale-
pode ser mostrada de forma conclusiva gação de que estudar filosofia tem valor.
como estando errada. Por isso mesmo, é Para tanto, ilustramos muitas das habi-
legítima a insistência do objetor acerca da lidades e dos hábitos mentais filosóficos
opinião? É intelectualmente respeitável exigidos pelo método da filosofia. Você
insistir numa opinião, apesar de possíveis consegue ver como a alegação é clarifi-
contraexemplos, simplesmente porque a cada ainda mais no processo de justifica-
opinião não foi provada de forma conclu- ção? Você consegue ver o quão mais forte
siva como sendo falsa? Isso parece clara- é a justificação porque consideramos e
mente irrazoável. respondemos a objeções?
34 Laurence BonJour & Ann Baker

Como você agora pode ver, um dos outro filósofo): primeira, qual opinião
primeiros desafios do fazer filosofia é ou posição o filósofo está defendendo?
aprender a como dizer quando um filóso- Em um artigo, a resposta a essa questão
fo – seja se é você ou alguém que você está pode diferir em diferentes lugares: um
lendo ou ouvindo – está argumentado a artigo pode estabelecer mais do que um
favor de uma opinião, fazendo objeção a objetivo, e você deve perguntar como
ela ou respondendo a objeções. À medida esses objetivos conectam-se uns com
que você praticar o pensar filosoficamen- os outros. Note também que o que está
te, mais hábil você ficará em reconhecer sendo defendido num aspecto particu-
essas diferentes atividades, e você ficará lar pode ser muito simples e geral (por
melhor em clarificar alegações, realizar exemplo, a alegação de que Deus existe)
distinções e elaborar você mesmo argu- ou muito complicado e específico (por
mentos, objeções e respostas. exemplo, a alegação de que uma objeção
particular a um argumento particular de
que Deus existe é equivocada). A segun-
Lendo Filosofia da questão a perguntar é quais razões ou
argumentos estão sendo oferecidos em
Com um pequeno esforço, quase suporte da opinião que está sendo de-
qualquer um pode aprender a pensar fi- fendida. Tente esquematizar as respos-
losoficamente. Contudo, você poderia tas a essas duas questões enquanto você
perguntar o que é preciso fazer para tra- lê – na sua cabeça ou, o que é melhor,
balhar efetivamente na aquisição dessa no papel (talvez na margem do livro).
habilidade. O primeiro e mais valioso re- Você, então, estará numa boa posição
curso sobre o qual você deveria praticar para fazer as próximas duas questões: o
o pensar filosoficamente é o conjunto de quão fortes são as razões oferecidas e há
seleções de leitura neste livro (e quais- objeções a elas? É virtualmente impossí-
quer outros textos filosóficos que você vel fazer isso enquanto se está relaxando
puder ler). Todavia, aprendemos que os numa disposição passiva da mente. Ler
estudantes com frequência consideram a filosofia de modo bem-sucedido requer
leitura da filosofia muito difícil, num pri- uma disposição mental ativa, crítica,
meiro momento, e assim incluímos alguns imaginativa – um dos hábitos mentais
conselhos sobre ler filosofia junto com al- distintamente filosóficos que você preci-
gumas breves ilustrações. Embora esses sa cultivar no intuito de aprender a pen-
conselhos sejam dirigidos em especial à sar filosoficamente.
leitura da filosofia, os principais pontos Há uma fonte principal de confusão
também se aplicam ao ato de assistir a à qual se deve prestar atenção. Como a
uma conferência filosófica ou à participa- filosofia é essencialmente reflexiva e crí-
ção numa discussão filosófica. tica, um filósofo discutirá outras posições
O material filosófico é sobretudo e argumentos além do que foi defendido
argumentativo e crítico, quase nunca num artigo particular. Isso pode incluir
meramente expositivo. Você não lê filo- qualquer um dos seguintes pontos:
sofia com o intuito de reunir uma gran-
de quantidade de fatos que então me- . posições opostas àquela defendida;
1
morizará. Você deve ler filosofia como 2. posições semelhantes, mas ainda sig-
se estivesse pensando ativamente junto nificativamente diferentes em algum
com o autor do texto, como se estives- aspecto, daquela defendida (em que a
se tendo uma conversação intelectual diferença ajuda a clarificar a opinião
com ele. Os filósofos estão argumentan- principal);
do a favor de uma opinião ou posição. 3. argumentos em favor de posições
Você deve pensar no autor (ou no con- opostas àquela defendida, que serão
ferencista ou debatedor) como dizendo: criticadas;
“Olhe – isso é o que eu penso, e isso é por 4. objeções à própria posição do filósofo,
que eu penso assim. O que você pensa às quais se responderá;
sobre isso?”. Portanto, você deve sempre 5. às vezes, até mesmo argumentos a
ter quatro perguntas em mente enquan- favor da opinião defendida que o fi-
to está lendo (ou ouvindo conferências, lósofo não aceita e quer distinguir da-
ou envolvendo-se em discussões com um queles que de fato aceita.
Filosofia: textos fundamentais comentados 35
É obviamente importante distinguir Exemplo 1: uma
todas essas das próprias opiniões e argu- passagem contemporânea
mentos do filósofo, o que é relativamen-
te fácil de fazer se você está alerta. (Por Antes de analisarmos a primeira
exemplo, argumentos e posições diferen- passagem (apresentada a seguir), pre-
tes da sua própria serão frequentemente cisamos dizer algo sobre o seu contex-
introduzidos por frases de não compro- to argumentativo. A própria opinião de
metimento como “poderia ser alegado Mackie é que o problema do mal mostra
que...” ou “alguns escritores argumentam que Deus, concebido como onipotente e
que...” ou talvez por uma referência a totalmente bom, não existe. Contudo, ele
uma pessoa particular que mantém a opi- reconhece que algumas pessoas pensam
nião ou o argumento em questão.) que a resposta da vontade livre* ao pro-
Via de regra, é uma boa ideia pri- blema do mal desabona a sua opinião. De
meiro olhar de modo bem rápido, através acordo com a resposta da vontade livre
de uma leitura, para ganhar uma ideia ao problema do mal, Deus deu ao ho-
da “configuração” geral “do terreno” e, mem vontade livre, apesar do fato de que
então, lê-lo outra vez, mais cuidadosa e tal dom resultaria na ocorrência do mal,
criticamente. Do contrário, é muito fácil porque, de acordo com a interpretação
perder de vista o seu ponto principal na de Mackie dessa resposta: “seria melhor
medida em que se trabalha nos argumen- como um todo que os homens devessem
tos detalhados. Lembre-se também de agir livremente, e às vezes errar, do que
que uma releitura considerável será cer- ser autômatos inocentes, agindo correta-
tamente necessária, especialmente, mas mente de um modo totalmente determi-
não apenas ao ler-se uma seleção poste- nado” (p. 689 deste livro).
rior que discorda de uma anterior. Quase Assim, na passagem que analisare-
ninguém (incluindo filósofos profissio- mos, Mackie está objetando (dando ra-
nais) é capaz de apreender adequada- zões para rejeitar) a resposta da vonta-
mente um argumento complicado numa de livre ao problema do mal. Aqui está a
simples leitura. E o mais importante item passagem:
de aconselhamento: não desista! Quanto
mais você trabalha nessas habilidades e (...) se Deus fez os homens de tal modo
nesses hábitos, melhor você se tornará que, nas suas escolhas livres, eles às ve-
neles e mais você chegará a ver o propó- zes preferem o que é bom e, às vezes, o
sito da filosofia. Dessa maneira, a tenaci- que é mau, por que não poderia ter fei-
dade intelectual é um dos mais essenciais to os homens de tal modo que sempre
hábitos filosóficos da mente. escolhessem livremente o bem? Se não
há nenhuma impossibilidade lógica em
um homem escolher livremente o bem
em uma ou em diversas ocasiões, não
Duas Passagens de Amostra pode haver uma impossibilidade lógi-
ca em escolher livremente o bem em
Às vezes, uma caracterização geral toda ocasião. Deus, portanto, não esta-
de como fazer alguma coisa, tal como ler va diante de uma escolha entre fazer
filosofia, vai só até esse ponto, e o que autômatos inocentes e fazer seres que,
um estudante realmente necessita é de ao agir livremente, às vezes agiriam de
um exemplo concreto: um exemplo tex- modo errado: estava aberta para ele a
tual de filosofia com alguma discussão
sobre como implementar algo daqueles
* N. de T. Embora a expressão free will signifique,
conselhos gerais. Aqui, então, estão duas
literalmente, “vontade livre”, ela traz consigo, na
passagens de amostra, tomadas a partir língua inglesa, o sentido de “livre-arbítrio”; fos-
de seleções que aparecem mais adiante sem esses conceitos postos em um contexto pre-
neste livro: uma de J.L. Mackie, sobre o ciso de discussão filosófica, a expressão inglesa
problema que o mal põe para a crença para “livre-arbítrio” teria de ser, porém, free de-
na existência de Deus; e a outra de John cision. Em contextos de uso menos determinado,
como no caso de J.L. Mackie, que não faz uma
Locke, sobre o problema de justificar a
teoria sobre a “vontade” ou a “liberdade”, a ideia
nossa confiança de que os nossos senti- que se quer transmitir com a primeira expressão
dos proporcionam informação confiável é, de modo simples, “liberdade de decisão” ou
sobre o mundo. “capacidade de livre decisão”.
36 Laurence BonJour & Ann Baker

possibilidade obviamente melhor de fa- ocasiões, não pode haver uma impos-
zer seres que agiriam livremente, mas sibilidade lógica no seu escolher livre-
sempre fariam a coisa certa. Obvia- mente o bem em toda ocasião.
mente, a sua falha em valer-se ele mes- 2. Não há nenhuma impossibilidade
mo dessa possibilidade é inconsistente
lógica em um homem escolher livre-
com o seu ser tanto onipotente quanto
mente o bem em uma ou em diversas
totalmente bom (p. 689).
ocasiões.
Mackie começa a passagem com
A partir dessas duas premissas, se-
uma questão, que é frequentemente uma
gue-se que não pode haver uma impossibi-
escolha retórica efetiva para fazer com
lidade lógica em seu escolher livremente o
que o leitor pense na direção correta. Per-
bem em toda ocasião e segue-se imediata-
ceba, contudo, que ele a segue com uma
mente dessa conclusão intermediária que
alegação, uma alegação que é essencial à
é de fato logicamente possível que ele es-
sua objeção à resposta da vontade livre:
colha livremente o bem em toda ocasião.
Agora, qual suposição adicional está
Se não há nenhuma impossibilidade
sendo feita antes que se siga que Deus
lógica em um homem escolher livre-
mente o bem em uma ou em diversas poderia ter feito homens livres que sem-
ocasiões, não pode haver uma impossi- pre escolhem fazer o bem? Há ainda mais
bilidade lógica em escolher livremente uma premissa implícita, uma premissa
o bem em toda ocasião. com a qual Mackie está bastante certo de
que os defensores da solução da vontade
Imediatamente depois dessa alega- livre concordariam.
ção, Mackie tira a conclusão de que Deus
poderia ter feito pessoas livres que (como 3. Deus pode tornar atual tudo o que é
um resultado do modo como ele as fez) logicamente possível.
sempre escolhem livremente fazer o bem,
mas formula isso de uma maneira mais Assim, simplesmente com uma pe-
complicada e menos perspícua: quena reflexão sobre lógica e o que ela
entende satisfazer o argumento, podemos
Deus não estava, então, confrontado ver o que Mackie estava pensando quan-
com uma escolha entre fazer autôma- do fez o movimento da afirmação condi-
tos inocentes e fazer seres que, ao agir cional: “se uma pessoa pode livremente
livremente, às vezes agiriam de modo escolher fazer o bem algumas vezes, en-
errado: estava aberta para ele a possi- tão essa pessoa pode escolher livremente
bilidade obviamente melhor de fazer fazer o bem todas as vezes” para a con-
seres que agiriam livremente, mas sem- clusão: “Deus poderia ter feito as pessoas
pre fariam a coisa certa. tal que (como um resultado do modo em
que as fez) elas escolheriam livremente
A última parte dessa sentença com- fazer o bem todas as vezes”. Aqui está o
plicada na realidade formula a conclusão argumento todo:
recém-afirmada, enquanto o restante tor-
na claro como ela contrasta com a opi- 1. Se não há nenhuma impossibilidade
nião a que ele está opondo-se. lógica em uma pessoa escolher livre-
Quais outras premissas são reque- mente o bem numa ou em diversas
ridas para tornar esse argumento plena- ocasiões, não pode haver uma impos-
mente explícito? É óbvio que, Mackie está sibilidade lógica no seu escolher livre-
admitindo, sem explicitamente dizê-lo, mente o bem em toda ocasião.
que é logicamente possível para alguém 2. Não há nenhuma impossibilidade
escolher livremente o bem ao menos al- lógica em uma pessoa escolher livre-
gumas vezes. É difícil ver como o defen- mente o bem numa ou em diversas
sor da solução da vontade livre poderia ocasiões.
negar isso. Assim, temos agora duas pre- Assim, não pode haver uma impossi-
missas, uma explícita e uma implícita: bilidade lógica no seu escolher livre-
mente o bem em toda ocasião.
1. Se não há nenhuma impossibilidade Assim, é logicamente possível que ela
lógica em um homem escolher livre- escolha livremente o bem em toda
mente o bem em uma ou em diversas ocasião.
Filosofia: textos fundamentais comentados 37
3. Deus pode tornar atual tudo o que é A premissa desse argumento que é a
logicamente possível. mais provavelmente desafiável é, de fato,
a premissa 3. Embora soe inicialmente
Assim, Deus poderia ter feito pes­ muito razoável supor que um Deus oni-
soas que (como um resultado do modo potente pode criar qualquer coisa que é
em que as fez) livremente escolhem o logicamente possível, há um modo sutil
bem em toda ocasião. no qual isso pode estar errado. Embora
Observe que você ainda não obtém seja certamente possível que uma pes-
a conclusão de que Deus poderia ter fei- soa livre poderia sempre fazer a escolha
to pessoas que não fizeram nenhum mal, moralmente melhor (“escolher o bem”),
sem adicionar a premissa implícita adi- pode Deus fazer com que uma pessoa
cional de que as pessoas que escolhem sempre escolha dessa maneira, sem fazer
livremente o bem em toda ocasião não com que a pessoa não mais seja livre?
fazem nenhum mal. (Mas o quão explíci- A ideia subjacente, aqui, explorada em
tos realmente temos de ser? – essa é uma extensão muito maior no capítulo so-
questão para você decidir ao pensar so- bre a vontade livre, é que, quando uma
bre o argumento.) pessoa escolhe livremente alguma coisa,
A sentença final de Mackie, na pas- nesse caso é sempre verdadeiro que ela
sagem, diz mais do que o que ele precisa poderia ter escolhido outra coisa em vez
dizer para objetar à solução da vontade li- disso. Mas isso é verdadeiro a respeito
vre – você vê isso? Ele está ali reiterando a de alguém que faz a melhor escolha em
sua opinião principal de que nenhum Deus termos morais, porque Deus o criou de
que é totalmente bom e todo-poderoso modo a ocasionar que ele faça exatamen-
poderia permitir essa possibilidade parti- te aquela escolha?
cular: homens livres que cometem o mal, Alguém poderia ficar preocupado
quando os homens poderiam ser feitos com o fato de que, gastando todo esse
exatamente tão livres, mesmo sendo feitos tempo sobre cada parágrafo isolado da
assim, a ponto de não cometer o mal. sua leitura de filosofia, ela duraria para
Agora, lembre-se de que a sua tarefa sempre, e a resposta a essa preocupa-
é ler Mackie criticamente. Para fazer isso, ção é que você obviamente não faz isso
você deve primeiramente ver com clareza em todo parágrafo. Escolhemos passa-
o que ele está dizendo e por que ele pensa gens claramente argumentativas, espe-
que é verdadeiro, que é a razão pela qual cialmente importantes, para usar como
afirmarmos claramente a sua conclusão e exemplos. Agora, porém, você deve ser
as suas premissas. Expusemos claramente capaz de ver por que raramente lhe é pro-
o seu argumento e agora devemos tentar posto ler tantas páginas nos seus cursos
avaliá-lo: determinar o quão fortes são as de filosofia em relação à maioria dos seus
suas razões. Lembre-se de que a primeira outros cursos. Ler filosofia toma bastante
coisa a fazer é avaliar a forma do argu- tempo, reflexão, cuidado e imaginação.
mento: é ele forte – ou talvez até mesmo Note que poderíamos ter continuado
válido? Ele é tal que, se todas as premissas por muito mais tempo, dado que apenas
são verdadeiras, então a conclusão pro- começamos a fase de avaliação. O quão
vavelmente é verdadeira (ou mesmo está longe você vai com a fase de avaliação
garantida como sendo verdadeira)? A for- depende dos seus propósitos e do seu
ma do raciocínio parece muito forte, não nível de experiência. É o suficiente para
parece? (De fato, ele é válido.) simplesmente entender a passagem ofe-
Agora, procure ver quais, se alguma, recer respostas bastante curtas para as
das premissas são as mais questionáveis. questões que formamos antes, mas, caso
Embora haja alguns filósofos que aceita- você devesse escrever um trabalho ava-
riam todas as premissas de Mackie e, por liando o raciocínio de Mackie, você teria
conseguinte, aceitariam o seu argumento e de fazer mais.
a sua conclusão, há uma premissa que mui-
tos outros filósofos, incluindo muitos ou a
maioria daqueles que são simpáticos à con- Exemplo 2: uma passagem histórica
cepção que ele está criticando, rejeitariam.
Você consegue ver que premissa é essa? A outra passagem que considera-
Qual premissa seria a mais fácil de ser obje- remos foi escrita numa época muito di-
tada? (Essa não é uma questão fácil.) ferente, mas ainda é caracteristicamen-
38 Laurence BonJour & Ann Baker

te filosófica no sentido de que há uma Assim, qual vem a ser a sua razão
alegação filosófica sendo feita e razões para essa conclusão? Ele diz: “Os nossos
sendo oferecidas para a verdade daquela sentidos, em muitos casos, dão testemu-
alegação. No Ensaio sobre o entendimen- nho da verdade do relato de cada um
to humano, John Locke está defendendo acerca da existência de coisas sensíveis
a opinião bastante natural de que temos fora de nós”. Coisas sensíveis são sim-
conhecimento do mundo (material) exte- plesmente coisas que podemos (aparen-
rior e de que a nossa experiência sensó- temente) sentir – objetos materiais como
ria nos provê com justificação suficiente mesas e cadeiras. Mas o que ele quer di-
para fundamentar aquele conhecimento. zer com “dão testemunho”?
Nos capítulos anteriores do livro, Locke Atente para o exemplo que ele ofe-
enfoca a fonte e a natureza das nossas rece. (Exemplos são, com frequência, cru-
ideias, porque crê que o ponto de partida cialmente importantes no entendimento
razoável para responder ao cético é mos- de alegações filosóficas abstratas.) Como
trar como podemos confiar que os nossos diria Locke, o seu sentido de visão relata
sentidos nos dão as ideias corretas (isto é, a você que há um fogo e, então, o seu
ideias em grande parte verdadeiras). sentido de tato também relata a mesma
No Livro IV, Capítulo XI, ele ofere- coisa, porque ele também lhe dirá que há
ce quatro razões para a conclusão de que um fogo – se você puser a sua mão no
os nossos sentidos “não erram na infor- (ou perto do) local onde o fogo parece es-
mação que eles no dão da existência das tar. Se a sua percepção visual de um fogo
coisas fora de nós”. Abordaremos aqui a era uma “mera ideia ou imagem” (isto é,
quarta dessas razões. era algo como uma mera ilusão mental,
não causada “por”, nem corresponden-
Os nossos sentidos, em muitos casos, do “a” alguma coisa existente fora de
dão testemunho da verdade do relato você – alguma coisa real), quando você
de cada um acerca da existência de coi- tentasse sentir o que você estava ven-
sas sensíveis fora de nós. Aquele que vê do, então você não atingiria a sensação
um fogo, se duvidar que seja alguma
correta (isto é, você não experimentaria
coisa mais do que mera fantasia, pode
dor ou calor) – a menos, naturalmente,
também senti-lo e ser convencido a pôr
a sua mão nele. E essa certamente ja- que a sensação de dor ou de calor fos-
mais poderia ser posta em tal dor in- se uma ilusão (“uma fantasia”) também.
tensa por uma mera ideia ou imagem, (Mas o quão provável é que duas ilusões
a menos que a dor seja uma fantasia se ajustassem daquela maneira? – isso é
também: a qual, todavia, quando a parte do propósito de Locke.) Note ain-
queimadura está curada, ele não pode da que, quando a queimadura cura, não
trazer a si novamente, suscitando a se pode, através da imaginação somente,
ideia dela. (p. 72) fazer com que se experimente a mesma
dor que se tem quando realmente se põe
Primeiramente, o que significa a a mão no fogo – isso mostra, como pensa
conclusão de Locke? Ele está falando so- Locke, que a dor experimentada no caso
bre a percepção sensória ordinária. Com atual é mais do que simplesmente uma
“a existência de coisas fora de nós”, ele mera ideia.
quer referir-se à existência de objetos Assim, o exemplo sugere que, para
materiais ordinários – árvores, prédios, os diferentes sentidos “dar testemunho
montanhas, rios, e assim por diante – da verdade do relato de cada um”, sig-
fora de nós, ou seja, fora tanto dos nossos nifica, para um sentido, dizer-nos o que
corpos quanto das nossas mentes. Com o outro sentido também nos diz. Obvia-
“a informação que eles [os sentidos] nos mente, Locke pensa que isso dá suporte
dão”, ele simplesmente quer referir-se às à conclusão de que os nossos sentidos
crenças sobre tais objetos que natural- “não erram”. Contudo, precisamos dizer
mente formamos como um resultado da mais sobre como essa conclusão supos-
percepção sensória e que parecem refletir tamente se segue. Como podemos ra-
o conteúdo da experiência perceptual. E, ciocinar, a partir da premissa de que os
ao dizer que os nossos sentidos “não er- nossos sentidos concordam uns com os
ram” nessa informação, ele está dizendo outros dessa maneira, para a conclusão
que as crenças em questão são, ao menos de que o que eles nos dizem é verdadeiro
na sua maior parte, verdadeiras. (ou, pelo menos, muito provavelmente
Filosofia: textos fundamentais comentados 39
verdadeiro)? Algo parece correto sobre pelo qual as crenças resultantes não são
esse pensamento, mas como funciona o de fato verdadeiras)? Qual explanação é
raciocínio? a melhor: a de Locke ou uma dessas ou-
Locke parece estar pensando que, tras? E por quê?
se o que os nossos sentidos nos informam Uma outra coisa digna de nota é
não fosse verdadeiro, seria então pelo que não estruturamos esse argumento em
menos muito improvável que os nossos passos numerados, tal como fizemos com
sentidos concordariam uns com os outros o argumento de Mackie na passagem an-
dessa maneira. Mas por que pensar que terior. Isso poderia ter sido feito, mas, a
isso é verdadeiro? Um modo de dar senti- nosso juízo, não teria sido particularmen-
do a esse argumento é vê-lo como um ar- te de auxílio nesse caso. A estrutura des-
gumento explanatório ou uma inferência se argumento é muito simples: um fato
à melhor explanação. O que explanaria o alegado acompanhado pela reivindicação
fato de que os nossos sentidos concordam de que uma certa conclusão é a melhor
uns com os outros? 6 explanação daquele fato. O que é com- 6
Uma explanação possível, aquela plicado são as razões para pensar que o
pare Pense por si mesmo sobre
que Locke parece ter em mente, é esta: fato alegado é um fato e as razões para essa questão por um minu-
as nossas experiências perceptuais são pensar que a melhor explanação alegada to ou dois.
sistematicamente causadas pelos objetos realmente têm esse estatuto, e nenhuma
externos, de um modo que faz com que dessas coisas se presta muito bem ao tipo
a experiência perceptual reflita acurada- de formulação em passos numerados que
mente as propriedades daqueles objetos funcionou tão bem com o argumento de
externos. Esta é uma explanação do fato Mackie. A moral aqui é que formular um
em questão: se fosse assim, então os di- argumento numa série de passos – ou
ferentes sentidos, sendo afetados pelos de qualquer outra maneira – é uma fer-
mesmos objetos externos (quaisquer que ramenta para a clarificação e deveria ser
estejam presentes onde os nossos corpos usada onde ela é de auxílio, e não de ou-
estão localizados), deveriam concordar tra maneira.
uns com os outros tal como concordam. Um desafio para avaliar um racio-
Mas é essa a melhor explanação? Ou cínio de um filósofo, que surge com essa
existem outras explanações que são pelo passagem de Locke e também em muitos
menos igualmente boas – igualmente outros casos, é que os filósofos, com fre-
boas do ponto de vista a partir do qual quência, estão defendendo opiniões que
Locke está formulando esse argumento, já acreditamos ser verdadeiras. Porém,
um argumento em que a precisão das tenha cuidado! A sua tarefa como filósofo
nossas percepções e a própria existência é avaliar criticamente a cogência das ra-
do mundo material do senso comum es- zões oferecidas para uma alegação, inde-
tão em questão? pendentemente se você crê na alegação
De fato, existe um número de ou- ou não. Assim, para avaliar essa passa-
tras explanações possíveis, embora uma gem, você precisa escrutinar a razão que
avaliação completa delas não seja pos- Locke oferece realmente, perguntando
sível nessa discussão (ver o Capítulo 2 a si mesmo se é suficiente mostrar que
para mais detalhes sobre essa questão). a conclusão é verdadeira. Responder a
Talvez estejamos sonhando. (Concor- essa questão é difícil, porque avaliar ar-
dam as aparentes percepções umas com gumentos explanatórios requer decidir
as outras nos sonhos?) Talvez um ente qual de muitas explanações possíveis é
poderoso de alguma espécie esteja siste- a melhor – uma questão para a qual os
maticamente causando percepções que padrões relevantes não são inteiramente
não correspondem a qualquer realidade claros. No entanto, você pode começar a
material, mas que ainda concordam. Tal- fazer tudo isso lendo e tentando entender
vez, ao invés disso, a sua mente subcons- a concepção de Locke, mesmo que não
ciente esteja fazendo isso. Ou o que dizer consegue chegar até o final de tal linha
sobre a possibilidade de que as percep- de raciocínio. Quanto mais intensamen-
ções em questão sejam sistematicamente te você se força a entender exatamente
causadas pela realidade exterior (que é o o que ele está dizendo e a avaliar o quão
motivo pelo qual elas têm concordância), cogentes são as suas razões, mais habili-
mas de um modo que distorce aquela rea- doso você se tornará em ler filosofia e em
lidade muito gravemente (que é o motivo pensar filosoficamente.
40 Laurence BonJour & Ann Baker

Questões para Discussão

1. Por que precisamos de uma concepção de uma alegação e em dois contextos: um


particular de filosofia para os propósitos no qual a alegação precisa de clarificação
deste curso? O que aconteceria se alguém e um no qual a mesmíssima alegação não
dissesse “Não precisamos de uma concep- precisa de nenhuma clarificação.
ção particular de filosofia. Podemos traba- 4. Alegamos que razões para crer numa rei-
lhar juntos, fazendo filosofia, mesmo se vindicação deveriam ser razões para pen-
cada um de nós tiver diferentes concep- sar que a reivindicação é verdadeira. Isso
ções de filosofia”? Isso soa razoável? Por soa correto? Que outros tipos de razões
que sim ou por que não? alguém poderia pensar que são boas para
2. A área da filosofia chamada de metafísi- crer numa reivindicação? Suponha que a
ca estuda a natureza da realidade. O que sua melhor amiga diz que acredita que
você pensa sobre a realidade? Está claro ganhou uma loteria de US$ 10 milhões.
quais coisas são reais e quais coisas não Você deveria acreditar nela? Suponha que
são reais? Liste algumas coisas que são ela não oferece nenhuma razão real para
reais. Em seguida, liste algumas outras pensar que a sua reivindicação é verda-
coisas que não são reais. A ciência estuda deira, mas quer que você acredite nela de
a natureza da realidade? Qual você pensa qualquer maneira (talvez ela queira feste-
que é a diferença entre ciência e filosofia? jar). É essa uma boa razão para crer numa
3. Alegamos que o nível de clarificação de reivindicação: porque alguém quer que
que uma reivindicação necessita varia, você acredite nela? O que dizer sobre a ale-
dependendo do contexto. Considere, por gação de que Deus existe? Sob que base
exemplo, a reivindicação de que existem alguém deveria acreditar nessa alegação?
árvores no pátio. Agora, imagine o seguin- Você deveria ter alguma razão para pen-
te contexto, no qual a reivindicação não sar que tal alegação é verdadeira? Supo-
precisa de nenhuma clarificação: suponha nha que deixe você feliz pensar que Deus
que uma firma paisagística foi contratada existe. É essa uma boa razão para acreditar
para fertilizar todas as árvores no campus, na alegação? Pense em alguns exemplos
e os funcionários querem saber se preci- de alegações nas quais você considera
sam ir ao pátio. Você lhes diz que existem que alguém não deveria crer, a menos
árvores no pátio, e a sua alegação é sufi- que haja uma boa razão para pensar que
cientemente clara e precisa para os pro- são verdadeiras, e em alguns exemplos de
pósitos em questão. Suponha, porém, que alegações que você considera que talvez
haja um outro contexto: uma firma paisa- possam ser acreditadas sob outros moti-
gística foi contratada para fertilizar todas vos. Você obviamente terá de explicar o
as cerejeiras no campus, e os funcionários contexto dos últimos exemplos.
querem saber se precisam ir até o pátio. 5. Tente explicar para um amigo o argu-
Agora, a alegação de que existem árvores mento a favor da conclusão de que es-
no pátio precisa ser clarificada nesse caso tudar filosofia tem valor. Que tipos de
que foi tornado muito mais preciso: eles clarificações você teve de fazer? O seu
precisam ser informados se existem cere- amigo fez objeções? O seu amigo ficou
jeiras no pátio. Agora, pense no exemplo convencido?

Platão
Platão (427-347 a.C.) foi um dos dois maiores filósofos gregos da Antiguidade (sendo
o outro Aristóteles) e é universalmente reconhecido como um dos mais importantes filó-
sofos em toda a história da filosofia. (O lógico e metafísico britânico do século XX, Alfred
North Whitehead, observou certa vez que a história da filosofia ocidental “consiste numa
série de notas de rodapé a Platão” – um exagero, mas um exagero perdoável.) Os escritos
de Platão consistem em diálogos nos quais a figura principal é o seu mestre Sócrates
(469-399 a.C.). Normalmente se pensa que os diálogos iniciais, dos quais a presente sele-
ção é um, reportam de modo mais preciso as opiniões reais do Sócrates histórico, sendo
que os tardios desenvolvem as próprias opiniões de Platão – opiniões que ele talvez
Filosofia: textos fundamentais comentados 41

tenha visto como se desenvolvendo a partir das do seu mestre. Esse diálogo se passa
nos degraus da corte de Atenas, onde Sócrates detém-se no intuito de falar com Eutífron
sobre o assunto que cada um tem com a corte. O fundo do diálogo é real: Sócrates foi
acusado de corromper a juventude de Atenas. (A seleção a seguir é um relato do próprio
julgamento.)
Neste diálogo, vemos um exemplo de clarificação conceitual: Sócrates questiona
Eutífron numa tentativa de clarificar a ideia de piedade. Enquanto há conotações reli-
giosas na ideia de piedade, há também um significado mais amplo, mais apropriado aos
argumentos neste diálogo: a piedade equivale aproximadamente à retidão ou à corre-
ção moral. Porém, nesse caso, a própria ideia de uma ação moralmente correta precisa
de clarificação, e é sobre isso que o diálogo realmente trata. Eutífron está confiante de
que entende o que é para uma ação ser piedosa nesse sentido e tenta explaná-lo para
Sócrates.

Eutífron2

Eutífron: Que novidade há, Sócrates, mento de tão importante assunto. Ele
para te fazer deixar as costumei- diz que sabe como os nossos jovens
ras disputas no Liceu e passar o teu são corrompidos e quem os corrompe.
tempo aqui no pórtico do rei-arcon- Ele é provavelmente sábio e, quando
te? Certamente não estás, como eu, vê a minha ignorância corrompen-
colocan­do alguém em juízo junto ao do os seus contemporâneos, procede
rei-ar­­conte? acusando-me tanto diante da cidade
Sócrates: Os atenienses não chamam quanto diante de sua mãe. Creio que
isso de juízo, Eutífron, mas de uma é o único dos nossos homens públicos
acusação. a começar do modo correto, pois é
E: O que é isso que dizes? Alguém deve correto cuidar primeiramente que os
ter te acusado, pois não me dirás que jovens sejam tão bons quanto possí-
acusaste alguma outra pessoa. vel, assim como é provável que um
S: Não, de fato. bom lavrador tome cuidado primei-
E: Então alguma outra pessoa te acu- ramente das plantas jovens e depois
sou? das outras. Assim, também, Meleto
S: Exatamente. primeiramente se livra de nós que
E: Quem é ela? corrompemos rebentos, como ele diz,
S: Eu mesmo não a conheço, Eutífron. e depois, então, obviamente tomará
Aparentemente é um homem jovem cuidado dos mais velhos e tornar-se-
e desconhecido. Eles o chamam de -á uma fonte de grandes bênçãos para
Meleto, creio. Ele pertence ao demo a cidade, como parece provável que
de Pítia, caso tu conheças alguém da- aconteça com alguém que iniciou des-
quele demo chamado Meleto, com ca- sa maneira.
belos longos, pouca barba e um nariz E: Eu desejaria que isso fosse verdadei-
bastante aquilino. ro, Sócrates, mas temo que o oposto
E: Eu não o conheço, Sócrates. Que acu- aconteça. A mim parece que ele co-
sação ele traz contra ti? meça prejudicando o próprio coração
S: Que acusação? Uma acusação não da cidade ao tentar fazer algo errado
desprezível, creio, pois não é coisa contra ti. Dize-me o que ele afirma que
pequena para um jovem ter conheci- tu fizeste para corromper os jovens?
S: É coisa estranha ouvi-lo dizer, pois
afirma que eu sou um artífice de deu-
2 Extraído de Cinco diálogos (Five Dialogues, tra- ses, e segundo o motivo de que crio
duzido por G.M.A. Grube. Indianapolis: Hacket novos deuses, não crendo nos deuses
Publishing Company, 1981). antigos, ele me indiciou por causa de-
Nada sabemos sobre Eutífron, exceto o que les, tal como ele o afirma.
podemos obter a partir deste diálogo. Ele é obvia-
E: Eu entendo, Sócrates. Isso é porque
mente um sacerdote profissional, que considera a
si mesmo um especialista sobre rituais. afirmas que o sinal divino permanece
42 Laurence BonJour & Ann Baker

1 vindo a ti. 1 Assim, ele escreveu essa S: Meu caro senhor! O teu próprio pai?
Como será explanado na acusação contra ti como alguém que E: Certamente.
Apologia (p. 32), Sócrates faz inovações em questões religiosas S: Qual é a acusação? Sobre o que é o
crê ter ouvido por anos uma e vem ao tribunal para difamar-te, sa- caso?
voz que chama de sinal divino. bendo que tais coisas são facilmente E: Homicídio, Sócrates.
A voz geralmente lhe diz para
não fazer coisas que os deuses mal-interpretadas pela multidão. O S: Pelos céus! Por certo, Eutífron, a maio-
desaprovariam. (É difícil dizer o mesmo se dá no meu caso. Sempre ria dos homens não saberia como po-
quão literalmente isso deve ser que falo de questões religiosas na as- deriam fazer isso e estar certos. Não é
considerado.) sembleia e predigo o futuro, eles riem o quinhão de qualquer um fazer isso,
de mim como se eu fosse doido; con- mas de alguém que está muito adian-
2 Reafirmação/Resumo tudo, eu não predisse nada que não tado em sabedoria. 2
Sócrates faz de conta que tenha acontecido. No entanto, eles E: Sim, por Zeus, Sócrates, é assim mes-
acredita que Eutífron deve têm inveja de todos nós que fazemos mo.
estar muito certo de que sabe isso. Não é preciso preocupar-se com S: É então o homem que o teu pai matou
qual é a coisa piedosa ou correta eles, mas encará-los de frente. um dos teus parentes? Isso talvez seja
e qual não é, dado que está
disposto a fazer algo inicialmente S: Meu querido Eutífron, ser alvo de risos óbvio, pois não acusarias o teu pai
tão questionável quanto acusar o talvez não importe, pois os atenienses pelo homicídio de um estranho.
próprio pai. não se importam com ninguém que E: Acho ridículo, Sócrates, que penses que
consideram esperto, contanto que não faz qualquer diferença se a vítima é um
ensine a sua própria sabedoria, mas se estranho ou um parente. Dever-se-ia
pensam que ele faz com que os outros somente observar se o assassino agiu de
sejam como ele mesmo, nesse caso fi- modo justo ou não; se agiu justamente,
cam bravos, seja por inveja, como di- deixe-se que vá, mas, se não agiu as-
zes, seja por alguma outra razão. sim, dever-se-ia acusá-lo, mesmo se o
E: Eu certamente não tenho nenhum de- assassino partilha do teu lar e da tua
sejo de testar os sentimentos deles em mesa. A infâmia é a mesma, caso, sa-
relação a mim nesse assunto. bendo disso, mantenhas companhia
S: Talvez pareças fazer de ti mesmo só com tal homem e não limpes a ti mes-
raramente disponível e não estejas mo e a ele, levando-o à justiça. A vítima
disposto a ensinar a tua própria sabe- era um serviçal meu, e quando estáva-
doria, mas temo que o meu sentimen- mos trabalhando na terra, em Naxos,
to pelas pessoas faça com que pensem ele era um servo nosso. Ele assassinou
que despejo sobre qualquer um tudo um dos nossos escravos domésticos,
o que tenho a dizer, não somente sem irritado e sob o efeito da bebida, de
cobrar taxa, mas mesmo feliz de re- modo que o meu pai o amarrou nas
compensar qualquer um que quiser mãos e nos pés e jogou-o num fosso,
ouvir. Se, então, eles pretendem rir de tendo enviado então um homem até
mim, assim como dizes que eles riem aqui para interrogar o sacerdote sobre
de ti, não haveria nada desagradável o que deveria ser feito. Durante aquele
em que passem o seu tempo na corte, tempo, ele não concedeu nenhum tipo
rindo e motejando, mas, se forem sé- de cuidado ao homem amarrado, por
rios, não fica claro qual é o resultado, ser um assassino, e não importava se
exceto para vocês, profetas. morresse, o que de fato aconteceu. A
E: Talvez não dê em nada, Sócrates, e fome, o frio e as amarras causaram a
venhas a lutar pelo teu caso como sua morte antes que o mensageiro re-
pensas ser melhor, assim como penso tornasse do vidente. Tanto o meu pai
que lutarei pelo meu caso. quanto os meus outros parentes estão
S: Qual é o teu caso, Eutífron? És o acu- indignados que eu esteja acusando o
sado ou o acusador? meu pai por homicídio, em favor de
E: O acusador. um assassino, quando ele nem sequer o
S: A quem acusas? tinha matado, eles dizem, e mesmo se
E: A alguém que sou considerado louco tivesse o homem morrido não merecia
em acusar. um pensamento, dado que era um as-
S: Estás acusando alguém que com faci- sassino. Afinal, eles dizem, é ímpio que
lidade escapará de ti? um filho acuse o seu pai de homicídio.
E: Longe disso, pois ele é bastante idoso. Porém, as suas ideias sobre a atitude
S: Quem é ele? divina quanto à piedade e à impiedade
E: O meu pai. estão erradas, Sócrates.
Filosofia: textos fundamentais comentados 43
S: Ao passo que, por Zeus, Eutífron, crês uma forma ou aparência na medida
que o teu conhecimento do divino, em que é impiedoso? 3 3 Definição
bem como da piedade e da impiedade, E: Com toda razão, Sócrates. Ao perguntar pela
é tão acurado que, se aquelas coisas S: Dize-me, então, o que é o piedoso e o forma da piedade, Só-
aconteceram como dizes, não tens ne- que é o impiedoso? crates está perguntando por uma
nhum receio de ter agido impiamente, E: Digo que o piedoso é fazer o que estou definição ou um relato da própria
piedade: pelo que é que todas as
trazendo o teu pai a julgamento? fazendo agora, acusando o malfeitor, coisas ou ações piedosas têm em
E: Eu não deveria ter nenhuma utili- seja isso sobre homicídio ou roubo sa- comum em virtude do que são
dade, Sócrates, e Eutífron não seria crílego, ou qualquer outra coisa, seja piedosas.
superior à maioria dos homens se eu se o malfeitor é seu pai ou sua mãe, ou
não tivesse um conhecimento acura- qualquer outro; não acusar é impiedo-
do de todas as coisas desse tipo. so. 4 E observa, Sócrates, que posso 4
S: É de fato extremamente importante, citar a lei como uma grande prova de
pare Aqui está a primeira
meu admirável Eutífron, que eu me que isso é assim. Eu já disse aos ou- tentativa de Eutífron de
torne o teu aluno e, no que diz respei- tros que tais ações são corretas, isto responder ao pedido de Sócrates
to a essa acusação, desafie Meleto so- é, não favorecer o impiedoso, seja ele por clarificação: a piedade é o
que Eutífron está fazendo agora
bre essas mesmas coisas, dizendo-lhe quem for. As mesmas pessoas que cre- ao acusar o seu pai. Essa tentativa
que no passado também considerei o em que Zeus é o melhor e o mais justo é bem-sucedida em clarificar a
conhecimento sobre o divino como dos deuses concordam, contudo, que forma geral ou a ideia de piedade?
sendo o mais importante e que, como ele acorrentou o seu pai porque esse
agora ele diz que sou culpado de im- devorava injustamente os seus filhos
provisar e inovar sobre os deuses, eu e que esse último, por sua vez, cas-
me tornei o teu aluno. Eu diria a ele: trou o seu pai por razões semelhantes.
“Meleto, se concordas que Eutífron Todavia, eles estão indignados comi-
é sábio nesses assuntos, considera- go porque estou acusando o meu pai
me também como alguém que tem pelo seu mau ato. Eles contradizem a
as crenças corretas e não me leves a si mesmos naquilo que dizem sobre os
julgamento. Se não pensas assim, en- deuses e sobre mim. 5 5
tão acusa aquele meu mestre, e não a S: Com efeito, Eutífron, essa é a razão Porque Eutífron está
mim, por corromper os homens mais por que eu sou um acusado no caso, fazendo algo muito
velhos, tanto a mim quanto ao seu pró- porque considero difícil aceitar que parecido com o que Zeus fez,
prio pai, ao ensinar-me e ao exortá-lo coisas como essa sejam ditas sobre os qualquer um que disser que ele
está fazendo algo impiedoso deve
e puni-lo”. Se ele não ficar convenci- deuses, e é provável que seja a razão estar errado, dado que Zeus, com
do, nem retirar de mim a acusação ou por que deverá ser dito de mim que certeza, jamais fez qualquer coisa
acusar a ti ao invés de mim, repetirei faço algo errado. No entanto, se tu, impiedosa. (Sócrates não fica
o mesmo desafio no tribunal. que tens pleno conhecimento de tais impressionado com essa linha de
argumento.)
E: Sim, por Zeus, Sócrates, e, se ele ten- coisas, partilhas das opiniões deles,
tasse me acusar, creio que eu encon- nesse caso, assim me pareceria, tam-
traria os seus pontos fracos e o discur- bém devemos concordar com eles.
so no tribunal seria sobre ele ao invés Pois o que diremos nós, que concor-
de sobre mim. damos que nós mesmos não temos ne-
S: É porque percebo isso que estou ansio- nhum conhecimento delas? Dize-me,
so em tornar-me teu aluno, meu que- pelo deus da amizade, realmente crês
rido amigo. Sei que outras pessoas,­ que essas coisas são verdadeiras?
incluindo esse Meleto, nem mesmo E: Sim, Sócrates, e assim também o são
parecem te perceber, ao passo que ele coisas ainda mais surpreendentes, das
me vê de modo tão agudo e claro que quais a maioria não tem nenhum co-
me acusa de impiedade. Assim, dize- nhecimento.
-me agora, por Zeus, o que mantinhas S: E acreditas que realmente haja guerra
agora mesmo que sabias com clare- entre os deuses, inimizades terríveis e
za: que tipo de coisa dizes que são a batalhas, e outras coisas tal como são
piedade e a impiedade, tanto como contadas pelos poetas, e outras histó-
respeito a homicídio quanto a outras rias sagradas tal como são tramadas
coisas; ou não é o piedoso o mesmo e por bons escritores e por representa-
semelhante em toda ação, e o ímpio ções, com o que o manto da deidade é
o oposto de tudo o que é piedoso e adornado quando é levado até a Acró-
tal como ele mesmo, e tudo o que é pole? Devemos dizer que essas coisas
ser impiedoso apresenta-se-nos com são verdadeiras, Eutífron?
44 Laurence BonJour & Ann Baker

E: Não somente essas, Sócrates, mas, S: Também afirmamos que os deuses


como eu estava dizendo agora há estão num estado de discórdia, que
pouco, se quiseres, relatarei muitas vivem de mal uns com os outros, Eu-
outras coisas que sei sobre os deuses tífron, e que mantêm inimizade uns
que te deixarão maravilhado. com os outros. Também isso foi dito?
S: Não ficarei surpreso, mas me contarás E: Foi.
essas coisas com tempo livre, em algu- S: Quais são os assuntos de divergência
ma outra ocasião. De momento, tenta que causam ódio e ira? Verifiquemos
me dizer mais claramente o que eu es- isso do seguinte modo. Se eu e tu di-
tava perguntando agora há pouco, pois, feríssemos sobre os números quanto a
meu amigo, não me ensinaste adequa- qual deles é o maior, essa divergência
damente quando te perguntei sobre o nos tornaria inimigos e nos deixaria
que era o piedoso, mas disseste-me que irritados um com o outro, ou nos apli-
o que estavas fazendo agora, acusando caríamos a contar e, em seguida, re-
o teu pai de homicídio, é piedoso. solver a nossa divergência sobre isso?
E: E eu dizia a verdade, Sócrates. E: Sem dúvida, agiríamos desse modo.
S: Talvez. Concordas, contudo, que exis- S: Novamente, se divergíssemos sobre o
tem muitas outras ações piedosas. maior e o menor, voltaríamos à me-
E: Existem. dição e, em seguida, cessaríamos de
S: Lembra que não mandei que me rela- divergir.
tasses uma ou duas das muitas ações E: Isso é assim.
piedosas, mas aquela forma que faz S: E sobre o mais pesado e o mais leve,
com que todas as ações piedosas se- recorreríamos à pesagem e ficaríamos
jam piedosas, pois concordaste que reconciliados.
todas as ações impiedosas são impie- E: Naturalmente.
dosas e todas as ações piedosas são S: Qual matéria de divergência nos faria
piedosas através de uma forma, ou irritados e hostis um com o outro se
não te lembras? 6 fôssemos incapazes de chegar a uma
6 E: Lembro. decisão? Talvez não tenhas uma res-
Dar um exemplo de alguma
S: Dize-me, então, o que é essa forma posta pronta, mas examina como eu
coisa fracassa em clarificar em si mesma, de modo que possa te digo se esses assuntos são o justo
a ideia ou a forma geral, visto que atentar para ela e, utilizando-a como e o injusto, o belo e o feio, o bom e
você pode não saber como e por um modelo, possa dizer que qualquer o mau. Não são esses os assuntos de
que a coisa dada como um exem-
plo é o tipo de coisa em questão,
ação tua ou de um outro que for desse divergência sobre os quais, quando
e por isso falhar em realmente tipo é piedosa e, se não é dessa forma, somos incapazes de chegar a uma
apreender a ideia geral. Portanto, não é piedosa. decisão satisfatória, tu e eu, e outros
Sócrates está em busca de um E: Se isso é o que queres que seja, Sócra- homens, tornamo-nos hostis uns com
relato geral – algo como uma
definição – da piedade, e não sim-
tes, isso é como eu te direi. os outros sempre que o fazemos?
plesmente de exemplos de coisas S: Isso é o que eu quero. E: Esse é o desacordo, Sócrates, sobre
específicas que são piedosas. (Ver E: Muito bem, então, o que é caro aos aqueles assuntos.
a Questão para Discussão 1.) deuses é piedoso, mas o que não lhes S: O que dizer sobre os deuses, Eutífron?
é caro é impiedoso. Se realmente eles têm divergências,
S: Esplêndido, Eutífron! Agora respon- não será sobre esses mesmos assuntos?
7
deste do modo como eu desejava. 7 E: Certamente deve ser assim.
Sócrates mostra aprovação Se a tua resposta é verdadeira, eu ain- S: Então, de acordo com o teu argumen-
ao tipo geral de respos- da não sei, mas obviamente me mos- to, meu bom Eutífron, diferentes deu-
ta que Eutífron ofereceu, não
necessariamente ao conteúdo
trarás que o que dizes é verdadeiro. ses consideram que diferentes coisas
específico. E: Certamente. são justas, belas, feias, boas e más,
S: Vem, então, e examinemos o que que- pois não estariam de mal uns com os
remos dizer. Uma ação ou um homem outros a menos que divergissem sobre
caro aos deuses é piedoso, mas uma esses assuntos, estariam?
8 ação ou um homem odiado pelos deu- E: Estás certo.
Aqui está a segunda ses é impiedoso. Eles não são o mes- S: E gostam do que cada um deles consi-
tentativa de Eutífron de mo, porém deveras opostos, o piedoso dera belo, bom e justo, mas odeiam os
responder a Sócrates: a piedade é e o impiedoso. Não é assim? 8 opostos desses?
o que é caro aos deuses – torna-se
E: É, com efeito. E: Certamente.
claro, no que segue, que Sócrates
toma isso como significando caro S: E essa parece ser uma boa afirmação? S: Mas tu dizes que as mesmas coisas são
a qualquer um dos deuses. E: Creio que sim, Sócrates. consideradas justas por alguns deuses
Filosofia: textos fundamentais comentados 45
e injustas por outros e, na medida em S: Entendo que me consideras mais len-
que disputam sobre essas coisas, eles to de entendimento do que o júri, na
estão de mal e em guerra uns com os medida em que obviamente mostrarás
outros. Não é assim? a eles que essas ações foram injustas e
E: É. que todos os deuses odeiam tais ações.
S: As mesmas coisas, então, são amadas E: Eu o mostrarei a eles claramente, Só-
pelos deuses e odiadas pelos deuses, crates, se apenas eles forem me ouvir.
e seriam, pois, tanto amadas-por-deus S: Eles ouvirão se pensarem que mostras
quando odiadas-por-deus. isso a eles adequadamente. Contu-
E: Parece que sim. do, essa ideia veio a mim enquanto
S: E as mesmas coisas seriam tanto pie- você estava falando, e eu a estou exa­
dosas quanto impiedosas de acordo minando, dizendo a mim mesmo:
com esse argumento? “Se Eutífron me mostrar conclusiva-
E: Receio que sim. mente que todos os deuses consideram
S: Portanto, não respondeste à minha injusta tal morte, em que maior medida
pergunta, homem surpreendente. 9 eu aprendi dele a natureza da piedade
Não perguntei a ti qual mesma coisa é e da impiedade? Pois então essa ação,
tanto piedosa quanto impiedosa, mas parece, seria odiada pelos deuses, mas 9
parece que o que é amado pelos deu- o piedoso e o impiedoso não foram ago-
pare Assim, a segunda tentativa
ses é também odiado por eles. Assim, ra definidos, pois o que é odiado pelos de Eutífron de um relato
não é de modo algum surpreendente deuses foi também mostrado como sen- geral da piedade fracassa. Pense
se a tua presente ação, a saber, a de do amado por eles”. Assim, não insisti- sobre o problema com ele e
tente ver como isso poderia ser
punir o teu pai, pudesse ser agradável rei nesse ponto: admitamos , se dese- estabelecido.
a Zeus, mas desagradável a Crono e a jares, que todos os deuses consideram
Urano, agradável a Hefesto, mas de- isso injusto e que todos eles o odeiam.
sagradável a Hera, e assim com quais- Entretanto, é essa a correção que esta-
quer outros deuses que divergissem mos fazendo na nossa discussão, que o
uns do outros sobre esse assunto. que todos os deuses odeiam é impiedo-
E: Creio, Sócrates, que sobre esse assun- so, o que eles todos amam é piedoso e
to quaisquer deuses divergiriam uns que o que alguns deuses amam e ou-
dos outros, a saber, que todo aquele tros odeiam não é nenhum ou ambos?
que matou alguém injustamente de- É esse o modo como agora desejas que
veria pagar a pena. definamos piedade e impiedade?
E: O que nos impede de proceder assim,
...
Sócrates? 10
S: Vem, agora, meu querido Eutífron, S: De minha parte nada, Eutífron, mas
Aqui está a terceira tentati-
dize-me, também, para que eu me olha se da tua parte esse propósito te va de Eutífron, uma modi-
torne mais sábio, qual prova tens de capacitará a ensinar-me o mais facil- ficação ou correção da segunda,
que todos os deuses consideram que mente o que tu prometeste. como foi sugerido por Sócrates.
aquele homem foi assassinado injus- E: Eu certamente diria que o piedoso é o Perceba o quanto ela
difere da segunda tentativa
tamente, aquele que se tornou assas- que todos os deuses amam e o oposto, justamente no modo em que
sino enquanto estava a teu serviço, o que todos os deuses odeiam, é o im- precisa fazê-lo, no intuito de evitar
que foi amarrado pelo mestre da sua piedoso. 10 a objeção que foi levantada contra
vítima e morreu em suas amarras an- S: Nesse caso, examinemos novamente aquela tentativa.
tes que aquele que o prendeu desco- se essa é uma colocação válida, ou
11
brisse dos videntes o que deveria ser devemos deixá-la passar, e se um de
feito com ele, e ainda que é correto, nós, ou alguém outro, meramente diz A objeção de Sócrates à ter-
ceira tentativa de Eutífron
para um filho, denunciar e acusar o que algo é assim, aceitamos que isso é mais complicada e sutil do que
seu pai em nome de tal homem. Vem, é assim? Ou deveríamos examinar o qualquer uma das outras. Pense
tenta mostrar-me um sinal claro de que o proponente quer dizer? cuidadosamente sobre a questão:
que todos os deuses, definitivamente, E: Devemos examiná-lo, mas certamente a piedade de algo explica por que
os deuses o amam – ou o fato de
creem que essa ação é correta. Se pu- penso que essa é agora uma boa colo-
que os deuses o amam explica por
deres oferecer-me uma prova adequa- cação. que ele é piedoso? A ideia subja-
da disso, jamais cessarei de exultar a S: Nós em breve saberemos melhor se cente aqui é a de que se uma coisa
tua sabedoria. ela o é. Considera isso: é o piedoso A explica uma outra coisa B, então
A é quanto à explicação anterior
E: Isso talvez não seja uma tarefa fácil, amado pelos deuses porque é piedo-
a B – e B, portanto, não pode por
Sócrates, ainda que eu pudesse mos- so, ou é piedoso porque é amado pe- sua vez explicar A, ao menos não
trar-te muito claramente. los deuses? 11 da mesma maneira.
46 Laurence BonJour & Ann Baker

12 E: Eu não compreendo o que queres di- por todos os deuses, de acordo com o
zer, Sócrates. que dizes?
pare Talvez você tenha de ler
esse parágrafo lentamen- S: Tentarei explicar mais claramente: fa- E: Sim.
te e mais de uma vez. Sócrates lamos de alguma coisa sendo levada e S: Ele é amado porque é piedoso ou por
tenta deixar claro o que significa de alguma coisa levando, de alguma alguma outra razão?
que uma coisa seja, quanto à
explicação, anterior a uma outra,
coisa sendo conduzida e de alguma E: Por nenhuma outra razão.
considerando alguns exemplos coisa conduzindo, de alguma coisa S: Ele é amado, então, porque é piedoso,
posteriores. Qual coisa explica a sendo vista e de alguma coisa vendo, mas não é piedoso porque é amado?
outra coisa em cada um desses e compreendes que essas coisas são E: Ao que aparece.
exemplos?
todas diferentes umas das outras e de S: E porque é amado pelos deuses ele
13
que maneira elas diferem? está sendo amado e é caro aos deu-
E: Acho que compreendo. ses?
Assim, admitindo que o S: Assim, há alguma coisa sendo ama- E: É claro.
amor não é simplesmente
arbitrário, deve haver alguma
da e alguma coisa amando, e o estar S: O querido-a-deus, então, não é o mes-
outra razão por que alguma coisa amando é uma coisa diferente. mo que o piedoso, Eutífron, nem o
é amada por alguém: alguma ca- E: É claro. piedoso é o mesmo que o querido-a-
racterística particular que fez com S: Dize-me, então, se aquilo que está -deus, como dizes, mas um difere do
que alguém a amasse. E, uma vez
que é amada por aquele alguém,
sendo levado está sendo levado por- outro. 14
ela se torna, então, alguma coisa que alguém o leva ou por alguma ou- E: Como assim, Sócrates?
sendo amada. A outra caracterís- tra razão. S: Concordamos que o piedoso é amado
tica seria, então, anterior quanto E: Não, essa é a razão. porque é piedoso, mas não é piedoso
à explicação, tanto com respeito
à pessoa amando quanto com
S: E aquilo que está sendo conduzido porque é amado. Não é assim?
respeito à coisa sendo amada. é assim porque alguém o conduz, e E: É.
aquilo que está sendo visto porque al- S: E que o querido-a-deus, por outro
14 guém o vê? lado, é assim porque é amado pelos
Se o ser piedoso explica E: Certamente. deuses, pelo próprio fato de ser ama-
por que os deuses amam al- S: Não é visto por alguém porque está do, mas não é amado porque é queri-
guma coisa, nesse caso a piedade
sendo visto, mas, pelo contrário, está do-a-deus. 15
não pode ser a mesmíssima coisa
que os deuses amarem aquela sendo visto porque alguém o vê; nem E: É verdade.
coisa (a mesma coisa que o seu ser é porque está sendo conduzido que S: Contudo, se o querido-a-deus e o pie-
“querido-a-deus”). alguém o conduz, mas é porque al- doso fossem o mesmo, meu caro Eutí-
(Como uma analogia gros- guém o conduz que está sendo con- fron, e o piedoso fosse amado porque
seira: se uma pedra batendo
numa janela é o que explica a duzido; nem alguém leva um objeto era piedoso, então o querido-a-deus
janela sendo quebrada, então a porque ele está sendo levado, mas seria amado porque era querido-a-
pedra batendo na janela não pode ele está sendo levado porque alguém -deus; e, se o querido-a-deus assim o
ser a mesmíssima coisa que a o leva. Está claro o que quero dizer, fosse porque era amado pelos deuses,
janela sendo quebrada).
Eutífron? Quero dizer isso, a saber, então o piedoso seria também piedoso
15 que, se alguma coisa vem a ser, ou porque era amado pelos deuses; po-
é afetada, ela não vem a ser porque rém, agora vês que eles estão em casos
Por outro lado, ser amado
pelos deuses explica de fato
está vindo a ser, mas está vindo a ser opostos, na medida em que são intei-
por que alguma coisa é querida-a- porque vem a ser; nem é ela afetada ramente diferentes um do outro: um é
-deus, e não o contrário. porque ela está sendo afetada, mas de uma natureza a ser amada porque
porque alguma coisa a afeta. Ou não é amada, enquanto o outro é amado
16 concordas? 12 porque é de uma natureza a ser amada.
Portanto, os deuses amam E: Concordo. 16 Temo, Eutífron, que, quando foste
uma coisa porque ela é S: O que está sendo amado é ou alguma perguntado sobre o que é a pie­dade,
piedosa, e ela se torna querida- coisa que vem a ser ou alguma coisa não querias tornar a sua natureza ­clara
-a-deus porque eles a amam –
tornando claro que ser querido-a-
que é afetada por outra coisa? para mim, mas disseste-me [um traço]
-deus não pode ser a mesma coisa E: Certamente. ou uma qualidade dela, que o piedo-
que ser piedoso, uma vez que se S: Então, temos o mesmo caso quanto so tem a qualidade de ser amado por
encontram em diferentes relações às coisas recém-mencionadas: não é todos os deuses, mas ainda não me
explanatórias com os deuses que
amada por aqueles que a amam por- disseste o que o piedoso é. Agora, se
realmente amam aquela coisa.
(Um outro modo de colocar que está sendo amada, mas está sen- quiseres, não escondas coisas de mim,
a questão é dizer que a do amada porque eles a amam? 13 mas dize-me novamente, desde o iní-
piedade é de fato em dois passos E: Necessariamente. cio, o que é a piedade, tanto se é ser
explanatórios anterior ao ser
S: O que dizemos então sobre o piedoso, amada pelos deuses quanto se é ter
querido-a-deus e por isso, ob-
viamente, não pode ser idêntica Eutífron? Certamente que é amado alguma outra qualidade – não dispu-
a ele.)
Filosofia: textos fundamentais comentados 47
taremos sobre isso –, mas tenha ânimo S: Contudo, és mais jovem do que eu por
em dizer-me o que são o piedoso e o tanta medida quanto és mais sábio.
impiedoso. 17 Como digo, estás impondo dificuldades 17
E: Mas, Sócrates, não tenho como dizer- por causa da tua riqueza ou sabedoria. Eutífron fracassou nova-
-te o que tenho em mente, pois toda Recompõe-te, meu caro senhor, pois mente: desta vez, porque
proposição que fizemos avançar fica o que estou dizendo não é difícil de apenas especificou uma qualidade
que a piedade tem – ou, mais es-
girando e recusa-se a ficar parada compreender. Estou dizendo o oposto pecificamente, um resultado que
onde nós a fixamos. do que o poeta disse, que escreveu: ela produz (ela faz com que os
S: As tuas colocações, Eutífron, pare- deuses amem coisas). Todavia, ele
cem pertencer ao meu antepassado, Não desejas dar nome a Zeus, que o fez ainda não disse o que a piedade é:
ele ainda tem de clarificar a forma
Dédalo. Se fosse eu a colocá-las e e que fez com que todas as coisas cres-
geral ou a ideia de piedade.
adiantá-las, talvez estarias zomban- çam, pois onde há temor há também
do de mim e dirias que, por causa do vergonha.
meu parentesco com ele, as minhas
conclusões na discussão se vão em- Discordo do poeta. Devo dizer-te por
bora e não querem permanecer onde quê?
se as põe. Como essas proposições E: Por favor, faze-o.
são tuas, entretanto, precisamos de S: Eu não creio que “onde há temor há
algum outro gracejo, pois elas não também vergonha”, pois creio que
ficarão paradas para ti, como tu mes- muitas pessoas que temem doença e
mo afirmas. pobreza, e muitas outras coisas des-
E: Creio que o mesmo gracejo é adequa- se tipo, sentem temor, mas não estão
do à nossa discussão, Sócrates, pois envergonhadas das coisas que temem.
não sou eu aquele que as faz ficar Não achas isso?
girando e não permanecer no mesmo E: Acho, com efeito.
lugar; tu que és o Dédalo; portanto, S: Mas onde há vergonha há também
no que me diz respeito, elas permane- temor. Pois há alguém que, ao sentir
ceriam tal como estavam. vergonha e embaraço diante de algo,
S: Parece então que eu seria mais es- também não teme ao mesmo tempo e
perto do que Dédalo ao fazer uso das receia uma reputação por maldade?
minhas habilidades, meu amigo, na E: Ele está certamente com medo.
medida em que ele podia somente S: Então, não é correto dizer “onde há
causar o movimento das coisas que temor há também vergonha”, mas que
ele mesmo fizera, mas eu posso cau- onde há vergonha há também temor,
sar o movimento de outras pessoas, pois o temor cobre uma área maior
bem como o meu próprio. E a parte do que a vergonha. A vergonha é uma
mais notável da minha habilidade parte do temor tal como ímpar é uma
é que sou dotado sem querer sê-lo, parte de número, tendo como resulta-
pois eu antes desejaria que as tuas do que não é verdade que, onde há nú-
colocações a mim permanecessem mero, há também o ser-ímpar, mas que
imóveis do que possuir a riqueza de onde há o ser-ímpar há também núme-
Tântalo, bem como a inteligência de ro. Podes me acompanhar agora?
Dédalo. Mas basta disso. Dado que E: Por certo.
eu creio que estás impondo dificulda- S: Esse é o tipo de coisa que eu estava
des desnecessárias, estou tão ávido perguntando antes, se onde há pieda-
quanto tu para encontrar um modo de há também justiça, mas onde há
de ensinar-me sobre a piedade e não justiça não há sempre piedade, pois o
desisto antes que o faças. Examina se piedoso é uma parte da justiça. Deve-
consideras que tudo o que é piedoso remos dizer isso, ou pensas diferente-
é necessariamente justo. mente?
E: Creio que sim. E: Não, penso desse modo, pois o que di-
S: Então, tudo o que é justo é piedoso? zes parece ser correto.
Ou tudo o que é piedoso é justo, mas S: Atenta ao que vem depois: se o pie-
nem tudo o que é justo é piedoso, mas doso é uma parte do justo, devemos,
parte dele é e parte dele não é? parece, descobrir qual parte do justo
E: Não acompanho o que estás dizendo, ele é. Agora, se me perguntasses algo
Sócrates. do que mencionamos agora há pouco,
48 Laurence BonJour & Ann Baker

tal como que parte de número é o par mais. Ou pensas que o cuidado visa a
e que número esse é, diria que é o nú- prejudicar o objeto do seu cuidado?
mero que é divisível em duas partes E: Por Zeus, não!
iguais, não desiguais. Ou não pensas S: Visa a beneficiar o objeto do seu cui-
assim? dado.
E: Penso. E: Naturalmente.
S: Tenta, portanto, dizer-me qual par- S: A piedade, então, que é o cuidado dos
te do justo é o piedoso a fim de que deuses, visa a beneficiar os deuses
digamos a Meleto para que não mais e torná-los melhores? Concordarias
aja erradamente para conosco e não que, quando fazes algo piedoso, tor-
me indicie por impiedade, dado que nas algum dos deuses melhor?
aprendi de ti suficientemente o que é E: Por Zeus, não!
divino e piedoso, e o que não é. S: Nem eu penso que isso é o que queres
E: Creio, Sócrates, que o divino e o pie- dizer – longe disso –, mas é por esse
doso são a parte do justo que é con- motivo que te perguntei o que que-
cernente ao cuidado dos deuses, ao rias dizer com o cuidado dos deuses,
passo que o concernente ao cuidado porque não acreditava que tinhas em
dos homens é a parte restante da jus- mente esse tipo de cuidado. 19
18 tiça. 18 E: Exatamente, Sócrates, esse não é o
S: Tu me pareces pôr isso muito adequa- tipo de cuidado que tenho em mente.
pare Aqui está a tentativa final
de Eutífron para explicar o damente, mais ainda preciso de um S: Muito bem, mas que tipo de cuidado
que é a piedade. Tente entender o pouco de informação. Não sei ainda dos deuses seria a piedade?
que há de errado com ela. o que queres dizer com cuidado, pois E: O tipo de cuidado, Sócrates, que os
não te referes ao cuidado dos deuses escravos têm com os seus amos.
19 no mesmo sentido que o cuidado de S: Entendo. É provável que seja um tipo
outras coisas, tal como, por exemplo, de serviço dos deuses.
Um significado de “cuidado
dos deuses” é inaplicável,
dizemos, não é mesmo, que nem to- E: Precisamente.
dado que os deuses não precisam dos sabem como cuidar dos cavalos, S: Poderias me dizer para a realização
de benefícios produzidos por mas o criador de cavalos o sabe. de que meta está voltado o serviço
seres humanos. E: Sim, é dessa maneira que quero dizê- dos médicos? Não crês que seja para
-lo. atingir a saúde?
S: Assim, criar cavalos é o cuidado de ca- E: Creio que sim.
valos. S: O que dizer sobre o serviço dos cons-
E: Sim. trutores de navio? A que realização
S: Nem é o caso que todos sabem como ele é dirigido?
cuidar de cães, mas o caçador o sabe. E: Claramente, Sócrates, à construção
E: É assim. de um navio.
S: Desse modo, caçar é o cuidado de S: E o serviço dos construtores de casas
cães. para a construção de uma casa?
E: Sim. E: Sim.
S: E a criação de gado é o cuidado do S: Dize-me, então, meu bom senhor,
gado. para a realização de que objetivo está
E: É bem assim. voltado o serviço aos deuses? Obvia-
S: Ao passo que a piedade e a devoção mente sabes, visto que afirmas que,
são o cuidado dos deuses, Eutífron. É de todos os homens, tens o melhor
isso o que queres dizer? conhecimento das coisas divinas.
E: É. E: E estou dizendo a verdade, Sócrates.
S: Agora, o cuidado em cada caso tem S: Dize-me, então, por Zeus, qual é aque-
o mesmo efeito; ele visa ao bem e ao le objetivo excelente que os deuses
benefício do objeto de que se cuida, rea­lizam, fazendo uso de nós como
como podes ver que os cavalos cuida- seus serviçais?
dos pelos criadores de cavalo são be- E: Muitas coisas boas, Sócrates.
neficiados e tornam-se melhores. Ou S: Assim fazem os generais, meu amigo.
não pensas assim? No entanto, poderias facilmente me
E: Penso. dizer qual é o principal interesse de-
S: Então, os cães são beneficiados pela les, que é atingir a vitória na guerra,
criação de cães, o gado pela criação não é?
de gado, e assim com todos os de- E: Naturalmente.
Filosofia: textos fundamentais comentados 49
S: Os lavradores, também, eu creio, rea- S: E dar corretamente é dar-lhes o que
lizam muitas coisas boas, mas o ponto eles precisam de nós, pois não seria
central dos seus esforços é gerar ali- inteligente trazer presentes a alguém
mento da terra. que de modo nenhum necessita de-
E: Exatamente. les.
S: Bem, então, como poderias resumir E: Verdadeiramente, Sócrates.
as muitas coisas boas que os deuses S: A piedade seria, então, um tipo de ha-
realizam? bilidade de comércio entre deuses e
E: Eu te disse há bem pouco, Sócrates, homens?
que é uma tarefa considerável adqui- E: Comércio, sim, se preferes chamá-la
rir qualquer conhecimento preciso disso.
dessas coisas, mas, para dizê-lo de S: Eu não prefiro nada, a menos que seja
maneira simples, afirmo que, se um verdadeiro. Mas, dize-me, que bene-
homem sabe como dizer e fazer o que fício os deuses derivam dos presentes
é agradável aos deuses, em oração e que recebem de nós? O que eles nos
sacrifício, são ações piedosas aque- dão é óbvio a todos. Para nós, não há
las tais como preservar tanto casas nenhum bem que não recebemos de-
de família quanto questões públicas les, mas como eles são beneficiados
da cidade. As opostas a essas ações por aquilo que recebem de nós? Ou
agradáveis são impiedosas, pois per- temos tal vantagem sobre eles, na ne-
turbam e destroem todas as coisas. gociação, que recebemos deles todas
S: Poderias me dizer em muito menos as nossas benesses, mas eles não rece-
palavras, se desejasses, a suma do bem nada de nós?
que perguntei, Eutífron, mas não es- E: Supões, Sócrates, que os deuses são
tás animado para me ensinar, isso está beneficiados por aquilo que recebem
claro. Estavas a ponto de fazer isso, de nós?
mas voltaste atrás. Se tivesses dado S: O que poderiam ser aqueles nossos
aquela resposta, eu deveria agora ter presentes aos deuses, Eutífron?
adquirido de ti conhecimento sufi- E: O que mais, crês, do que honra, reve-
ciente da natureza da piedade. Com rência e o que mencionei agora mes-
efeito, o amante da investigação deve mo, gratidão?
seguir o seu amado por onde quer que S: O piedoso, então, Eutífron, é agradá-
ele o conduza. Uma vez mais, então, vel aos deuses, mas não proveitoso ou
o que dizes que são a piedade e o pie- caro a eles?
doso? São eles um conhecimento de E: Creio que seja, de todas as coisas, o
como fazer sacrifício e oração? mais caro a eles.
E: São. S: Desse modo, o piedoso é, uma vez
S: Sacrificar é oferecer um presente aos mais, o que é caro aos deuses.
deuses, ao passo que fazer preces é E: Com a máxima certeza.
pedir algo dos deuses? S: Quando dizes isso, ficarás surpreso
E: Definitivamente, Sócrates. se os teus argumentos parecem ficar
S: Seguir-se-ia dessa colocação que a girando ao redor, ao invés de per-
piedade seria um conhecimento de manecerem estáveis? E me acusarás
como dar e de como pedir dos deu- de ser Dédalo, que faz com eles se
ses. mecham, ainda que tu mesmo sejas
E: Entendeste muito bem o que eu disse, muito mais talentoso do que Dédalo
Sócrates. e faças com que eles girem em cír-
S: É por isso que eu estou tão desejoso culo? Ou não percebes que os nossos
da tua sabedoria e concentro o meu argumentos ficaram girando ao re-
pensamento nela, de maneira que dor e vieram de novo para o mesmo
nenhuma palavra da tua parte possa lugar? Tu certamente te lembras que,
cair no chão. Mas, dize-me, que é esse anteriormente, o piedoso e o queri-
serviço aos deuses? Dizes que é pedir do-a-deus foram mostrados não ser o
deles e dar algo a eles? mesmo, mas diferentes um do outro.
E: Digo. Ou não te lembras?
S: E rogar corretamente seria pedir-lhes E: Lembro-me.
coisas de que precisamos? S: Então não percebes agora que estás
E: O que mais? dizendo que o que é caro aos deuses é
50 Laurence BonJour & Ann Baker

o piedoso? Não é isso o mesmo que o receoso de correr o risco, a menos que
querido-a-deus? Ou não é? não estivesses agindo corretamente,
E: Certamente é. e terias ficado envergonhado diante
S: Ou estávamos errados, quando con- dos homens, mas agora bem sei que
cordamos anteriormente, ou, se es- acreditas que tens claro conhecimen-
távamos certos então, agora estamos to da piedade e da impiedade. Assim,
20 errados. 20 conta-me, meu bom Eutífron, e não
Sócrates alega que o relato E: Parece ser assim. escondas o que pensas que ela seja.
alternativo de “cuidado dos S: Então, devemos investigar novamen- E: Em algum outro momento, Sócrates,
deuses” é o mesmo que o relato já te, desde o início, o que é a piedade, pois estou com pressa agora, e é hora
refutado.
na medida em que não desistirei por de ir-me.
minha vontade antes de aprender S: Que coisa a se fazer, meu amigo! Ao ir-
isso. Não me julgues imerecedor, mas te, tiraste o meu alento de uma gran-
concentra a tua atenção e dize-me de esperança que eu tinha, de que iria
a verdade. Pois, se algum homem a aprender de ti a natureza do piedoso
conhece, és tu que a conheces, e eu e do impiedoso, e assim escaparia da
não devo deixar-te ir, como Proteu, acusação de Meleto, mostrando a ele
antes que me digas. Se não tivesses que eu tinha adquirido sabedoria em
nenhum conhecimento claro da pie- assuntos divinos, de Eutífron, e a mi-
dade e da impiedade, jamais terias te nha ignorância não mais causaria que
aventurado a acusar o teu velho pai eu fosse descuidado e inovador sobre
por homicídio em nome de um servi- tais coisas e que eu seria alguém me-
çal. Por temor dos deuses terias ficado lhor pelo resto da minha vida.

Questões para Discussão


1. Suponha que alguém peça a você para isso, um problema que veio a ser chama-
explicar algum termo particular. Por que do de o problema de Eutífron. Deus afirma
dar um exemplo de alguma coisa é uma que alguma coisa é correta ou manda
resposta inapropriada? Por exemplo, su- que a façamos porque é correta, ou en-
ponha que alguém pedisse a você para tão ela se torna correta porque Deus as-
explicar a música reggae – suponha que sim o afirma? Há novamente uma ques-
esse alguém perguntasse “O que signifi- tão de prioridade explanatória: é Deus
ca para alguma música ser uma música meramente um bom juiz daquilo que é
­reggae”? Se você deu a ele um exemplo de certo independentemente (de modo que
música reggae, isso explicaria a questão? o seu ser correto explica o seu comando),
O que você deveria fazer em vez disso? ou o comando de Deus torna alguma coi-
Como você clarificaria a ideia de correção sa correta (de modo que o seu comando
moral? explica o seu ser correto)? O que alguém
2. Muitas pessoas pensam que a fonte da que quer defender a ideia de que Deus
moralidade deriva dos mandamentos ou é a fonte da moralidade deve dizer em
das leis de Deus. Uma suposição desse resposta a essa questão? Qual é a obje-
tipo subjaz à observação de Dostoievsky: ção em se afirmar isso? (Deus poderia ter
“Se Deus está morto, então tudo é per- comandado qualquer coisa em absoluto
mitido”. Não importa o quão natural isso – mesmo o homicídio ou o genocídio –,
possa parecer, há um sério problema com tal que isso tivesse sido correto?)

Platão
Embora essa obra ainda seja referida como um diálogo, Platão de fato deixa Sócra-
tes realizar quase toda a fala. Sócrates está dirigindo-se a um júri bastante grande, um
júri que decidirá se ele deve ser condenado da acusação de corromper a juventude de
Atenas e, se condenado, qual será a sua sentença. (O procedimento após a condenação
era, tanto para a acusação quanto para a defesa, propor punições, com o júri então de-