Você está na página 1de 42

UNIVERSIDADE ESTADUAL DE SANTA CRUZ

PEDRO RIBEIRO GUIMARÃES

DEXTER:
A REPRESENTAÇÃO DO HERÓI NA FIGURA DE UM SERIAL KILLER

ILHÉUS – BAHIA
2009
PEDRO RIBEIRO GUIMARÃES

DEXTER:
A REPRESENTAÇÃO DO HERÓI NA FIGURA DE SERIAL KILLER

Monografia apresentada ao Curso de


Comunicação Social, no Departamento de
Letras e Artes da Universidade Estadual
de Santa Cruz, para obtenção do título de
bacharel em Comunicação Social.

Área de Concentração: Televisão

Orientador: Profª. Roberto Pazos

ILHÉUS – BA
2009.1
PEDRO RIBEIRO GUIMARÃES

DEXTER:
A REPRESENTAÇÃ DO HERÓI NA FIGURA DE UM SERIAL KILLER

Monografia apresentada ao Curso de


Comunicação Social, no Departamento de
Letras e Artes da Universidade Estadual
de Santa Cruz, para obtenção do título de
bacharel em Comunicação Social.

Ilhéus – BA, 15/06/2009

__________________________________________________
Roberto Pazos Ribeiro
Universidade Estadual de Santa Cruz - UESC
(Orientador)

___________________________________________________
Marlúcia Mendes da Rocha
Universidade Estadual de Santa Cruz - UESC
(Parecerista)

__________________________________________________
Marcelo Pires Oliveira
Universidade Estadual de Santa Cruz - UESC
(Parecerista)
DEDICATÓRIA

Aos meus pais, responsáveis pelas realizações de meus sonhos.


A Marianna, amiga, irmã, confidente e agora comadre.
A cidade de Itabuna, que me acolheu calorosamente durante essa jornada.
AGRADECIMENTO

A minha mãe, pela coragem e força para enfrentar as dificuldades impostas


pela vida, por ser exemplo de conduta e moral para com o próximo e por ter me
ensinado a ser a pessoa que me tornei hoje.
Ao meu pai, pelo esforço, dedicação e preocupação em sempre me
proporcionar tudo do bom e do melhor, pelo exemplo de superação e pela garra e
bom humor com que sempre encarou a vida.
A minha irmã, com quem eu sempre posso confiar em qualquer momento, em
qualquer situação.
Aos colegas de faculdade que se tornaram amigos pra vida inteira, em
especial Marianna, Salomão, Adrian, Aline, Gêiza, Flávia e Isabelle. Amo todos
vocês!
Aos amigos que fiz em Itabuna, em especial Danilo, Neudson, Will e Bruno,
pelas risadas e baladas compartilhadas. Vocês são “Mara”!
Aos meus tios Rubens e Cida, pela acolhida de braços abertos em sua casa
durante o tempo que morei em Eunápolis.
Aos meus tios e primos que sempre torceram e se orgulharam do meu
sucesso.
Ao meu orientador, Roberto Pazos, que além de professor é nerd, assim
como eu, e um grande amigo que desde o início se empolgou e me incentivou a
produzir este trabalho. “Vida longa e próspera!”
E aos demais professores e funcionários da UESC que me guiaram nessa
breve, porém proveitosa, jornada.
6

“Com grandes poderes, vêm grandes


responsabilidades.”

(Stan Lee)
7

DEXTER:
A REPRESENTAÇÃ DO HERÓI NA FIGURA DE UM SERIAL KILLER

RESUMO

Os personagens que se destacaram na história por seus atos de liderança


foram reconhecidos como heróis. Os meios de comunicação ajudaram esses
líderes a difundir seus ideais de maneira eficaz. O poder da mídia nas mãos de
poucos nos dias atuais faz com que o mito do herói tenha se tornado um
produto sintético. A Indústria Cultural retomou esse mito, transformando-o em
material de consumo, principalmente na forma de filmes, programas de
televisão e histórias em quadrinhos. Astros do cinema e da música são
constantemente coroados como reis e rainhas, simplesmente por estarem em
evidência na mídia. O público exalta personagens como se eles fossem reais e
isso é interessante e lucrativo para a indústria. Levando em conta o poder de
persuasão dos meios de comunicação, o estudo discute a série televisiva
norte-americana “Dexter”, que retrata a vida de um serial killer de serial killers,
considerando os atos do personagem principal que podem ser vistos como
heróicos, uma vez que sua narrativa pode induzir o telespectador a esse
pensamento. O estudo atenta para as representações midiáticas, visto que a
série em questão tem um público grande e cativo.

Palavras-Chave: Narrativa Seriada; Media; Heróis; Serial Killers; Dexter.


8

DEXTER:
THE REPRESENTATION OF THE HERO ON THE FIGURE OF A SERIAL
KILLER.

ABSTRACT

The characters who stood out in history by their acts of leadership were
recognized as heroes. The media helped these leaders to spread their ideas
effectively. The power of the media in the hands of a few today makes the myth
of the hero has become a synthetic product. The Culture Industry has taken
over the myth, transforming it into material of consumption, mainly in the form of
films, television shows and comics. Stars of cinema and music are constantly
crowned as kings and queens, simply by being highlighted in the media. The
public praises characters as if they were real and that is interesting and
profitable for the industry. Taking into account the power of persuasion of the
media, the study discusses the North American TV series "Dexter," which
portrays the life of a serial killer of serial killers, considering the acts of the main
character can be seen as heroic, since its narrative may induce the viewer to
that thought. The study careful to media representations, since the series in
question has a large and captive audience.

Keywords: Series; Media; Heroes; Serial Killers; Dexter.


9

SUMÁRIO

Resumo 7

Abstract 8

1. INTRODUÇÃO 10

2. HERÓI: O LÍDER QUE SE DESTACA NA HISTÓRIA E NA MÍDIA 12

3. NARRATIVA SERIADA NA TELEVISÃO 19

4. HERÓI ASSASSINO, OU ASSASSINO HERÓI 22

4.1 Motivação pessoal x Bem coletivo 23

4.2 Direcionamento e motivações 27

5 A CONSTRUÇÃO DO PERSONAGEM 30

6. CONSIDERAÇÕES FINAIS 39

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 41
10

1. INTRODUÇÃO

Os meios de comunicação, com sua capacidade de persuasão e


comunhão de idéias, têm o poder de criar ídolos que acabam por servir como
exemplo de conduta para os telespectadores. Personagens de novelas, filmes
e seriados são cultuados como seres reais e levam algumas pessoas a
seguirem seus exemplos, sejam estes bons ou maus. É comum alguém se
confundir e querer espancar nas ruas o ator que interpreta o vilão de
determinada trama, ou se compadecer da dor de uma mocinha indefesa que
vive uma saga sofrida e injusta.
O discernimento entre possível e o impossível, certo e errado, sonho e
realidade pode induzir o espectador a condutas questionáveis, cabendo, por
essa razão, ao idealizador da obra audiovisual dosar os elementos constantes
em seu produto, a fim de torná-lo ideal à exibição pública. Um serial killer pode
ser o centro de um enredo, por exemplo, desde que todos os lados da história
sejam cuidadosamente apresentados.
É nesse contexto que pretendemos discutir Dexter Morgan, personagem
central da série televisiva norte-americana “Dexter”, interpretado por Michael C.
Hall. Tendo em vista que a série em questão é um grande sucesso da TV
norte-americana e que ganhou considerável público no Brasil, questiona-se até
que ponto esse anti-herói, independentemente de seus motivos, pode levar o
receptor a considerá-lo um herói, apesar do fato de o que faz, do ponto de vista
ético, ser algo no mínimo questionável.
Esta indagação ainda precisa de muitos estudos para que lhe seja
oferecida uma resposta mais precisa, portanto, a fim de contribuir para tal,
discutiremos a estética e o enredo da série que são apresentados de forma a
levar o telespectador a questionar se as atitudes de Dexter são louváveis ou
deploráveis. E é, inclusive, nessa dualidade que a série se sustenta.
A temática dos assassinos em série é amplamente abordada no cinema
em filmes como “O Silêncio do Inocentes” onde Anthony Hopkins interpreta o
célebre personagem Hannibal Lecter; na literatura como no conto “Passeio
Noturno”, de Rubem Fonseca, onde um pai de família sai a noite para matar e,
assim, se livrar do stress do dia-a-dia; e na televisão como na série brasileira
“As Noivas de Copacabana”, onde Miguel Falabella faz o papel de Donato, um
11

homem bonito, inteligente e psicopata com o único objetivo de seduzir jovens


noivas para matá-las, e na série norte-americana “Dexter”, que é o objeto de
estudo deste trabalho.
Objetivo principal deste trabalho é identificar na série norte-americana
“Dexter”, as principais características que aproximam o seu personagem
principal do modelo de heróis que conhecemos, analisando a narrativa, em
termos técnicos, a fim de mostrar a construção deste personagem a ponto do
mesmo poder ser considerado como um herói.
Para a realização deste trabalho foi feito um levantamento bibliográfico
sobre os conceitos fundamentais para o mesmo e uma intensa pesquisa na
Internet, em sites especializados, fóruns de discussão e blogs. Foi realizada
também a decupagem e análises detalhadas de episódios da primeira
temporada da série. Foi feito ainda um levantamento das características
comuns entre alguns “heróis” consagrados da ficção, como o Batman, o Super-
Homem, Homem-Aranha, dentre outros, que serão utilizados como referencial
comparativo neste trabalho.
No primeiro capítulo serão abordados os conceitos que definem o termo
herói com representações tanto na história mundial – dando ênfase aos líderes
que se destacaram por suas atitudes – quanto nos meios de comunicação ao
decorrer das décadas – com destaque para as histórias em quadrinhos, cinema
e televisão.
No segundo capítulo será feita uma breve abordagem sobre as
narrativas seriadas no meio televisivo, tendo em vista a popularização desse
formato.
No terceiro capítulo será feita uma comparação entre o personagem
central do objeto de pesquisa deste trabalho com os conceitos de herói
discutidos e comparações com outros personagens da mídia – mais
especificamente os super-heróis de histórias em quadrinhos – que se
assemelham ao protagonista da série em questão, a fim de enquadrá-lo no
arquétipo heróico.
Por fim, no quarto capítulo será feita uma análise de trechos dos
episódios da primeira temporada da série, no intuito de exemplificar e/ou
justificar as ações de Dexter como sendo heróicas, apesar do fato dele ser um
assassino em série.
12

2. HERÓI: O LÍDER QUE SE DESTACA NA HISTÓRIA E NA MÍDIA

Os controles exercidos sobre a liderança em toda vida ou organização


social, mesmo que diferente de sociedade para sociedade, servem como
cenário para o surgimento de heróis, uma vez que há sempre líderes
disponíveis para arcar com as responsabilidades, decisões e ações inerentes à
liderança. Por isso é natural que os resultados obtidos sob determinada
liderança sejam associados ao líder em questão, mesmo quando, segundo
Hook (1962), esses êxitos obtiveram-se a despeito de sua liderança e não por
causa dela.

Um Hoover será responsabilizado por uma depressão cujas


sementes foram plantadas muito antes de seu advento. Um Baldwin
será considerado seguro e sensato se nenhuma catástrofe social
irrompe durante seu ministério, mesmo que ele tenha acendido um
lento estopim no paiol de pólvora da Europa. (HOOK, 1962, p.12)

Em nossa época, os meios de comunicação em constante


desenvolvimento e evolução tornaram possível uma veloz e eficaz transmissão
de decisões, com as quais líderes como César, Cromwell ou Napoleão jamais
puderam usufruir. Essa eficácia fez com que, por exemplo, Hitler, Stalin e
Mussolini expedissem ordens em todos os setores com cem por cento de
execução, por meio de escolas de todos os níveis, do rádio, da imprensa e do
cinema, levando sua “educação” até o subconsciente do povo. Para Hook, isto
é sinal de que, exceto o líder e seu séquito, todos perderam a vida privada sem
ter adquirido uma vida pública. A área e a força da autoridade executiva foram
fortemente expandidas também em países democráticos como a Inglaterra e a
América do Norte.
Não é de surpreender que o interesse pelos notáveis fosse tão forte,
uma vez que tão poucos parecem poder decidir tanto. Portanto, há justificação
13

e importância histórica a admiração do homem comum por aqueles que estão


no alto. Segundo Hook (1962), não há necessidade de nenhum refinamento
teórico para concluir que todos têm um interesse virtual da espécie mais
concreta em qualquer liderança que exista.
A educação da juventude é outra fonte de interesse no herói, já que a
história de cada nação é apresentada de forma a explorar os grandes
indivíduos, tratando-a como uma sucessão de aventuras pessoais, sejam elas
míticas ou reais. Mesmo que isso reflita o simples acesso à compreensão da
criança, esse tipo de educação deixa uma impressão permanente nas mentes
dos jovens.

Em algumas culturas antigas o herói era glorificado como pai da


nação, como Abraão para os israelitas, ou como fundador do estado,
assim Rômulo para os romanos. (...) Ascender do indivíduo para as
instituições sociais é caminhar do pitoresco e concreto para uma
abstração. (HOOK, 1962, p.15)

Para Hook, isso explica a tendência de muitas pessoas para personificar


“forças sociais”, “leis econômicas” e “estilos de cultura”. Por detrás de
metáforas, “em muito da literatura marxista ortodoxa quase se podem ver ‘as
forças da produção’ arrastando os grilhões com que o Capital e o Lucro as
acorrentaram enquanto seres humanos esperam com a respiração suspensa o
resultado”. Essas abstrações enfrentam e superam obstáculos quase como
antigos heróis.
Hoje em dia, quem quer que controle o rádio, a televisão ou a impressa
pode, de uma hora para outra, construir ou derrubar crenças, tornando assim o
mito do “herói” um produto sintético. O que corrobora com a questão do líder
moderno ter emergido num período de movimentos da massa, pois a crença
que esta lhe consagra antes que ela atinja o poder nasce “do desespero da
miséria e se nutre de promessas limitadas”. Segundo Hook, a apoteose de uma
figura histórica é relevante apenas quando lhe é permitida realizar coisas
historicamente significativas que ela seria incapaz de fazer se fosse impopular
e não contasse com a massa a segui-la. Qualquer um que surja com uma
14

liderança forte ou esclarecida será um herói, principalmente na política onde os


homens estão sempre na procura de alguém que os salve.

A História, ela mesma, pode, não inadequadamente, ser descrita


como uma crise após a outra. Quaisquer que sejam as forças sócias
e condições atuantes, elas estão sempre atuando (...) sentir-se-á a
necessidade de um herói que tome a iniciativa, organize e dirija.
(HOOK, 1962, p.19)

O grande homem exerce influência sobre seus seguidores por meio das
fontes psicológicas. Partindo do ponto de vista freudiano de que a maior parte
dos indivíduos vive em busca do pai que proporcionou segurança e
estabilidade emocional na infância, o líder geralmente pensa de si mesmo
como o “pai” de sua pátria, partido ou causa, sendo assim olhado por seus
seguidores como “pai” deles. Quanto mais difíceis os tempos e quanto mais
convencional a educação, mais forte será a dependência e procura pelo herói
salvador. Segundo Hook, sob outras circunstâncias históricas em que não
aparecem grandes líderes e indivíduos, alguma instituição como a Igreja ou o
Partido assumirá o papel primordial de autoridade.
Hook ainda fala sobre a importante atração exercida pelo líder sobre
seus seguidores que se encontra na satisfação de seus anseios através de
supostos traços e êxitos do líder, onde fatores como esplendor, força e brilho
são imaginariamente compartilhados. Isso é notado especialmente em relação
ao nacionalismo, em que “atitudes fetichistas em relação a abstrações como o
Estado e a nação foram desenvolvidas” (HOOK, 1962). Sendo assim, torna-se
possível que as disparidades e injustiças cotidianas da vida social, juntamente
com as deficiências e incapacidades da vida pessoal, gradualmente
desapareçam do centro de interesse.

Todos os sentidos do termo “herói” (...) pressupõe que, quem quer


que seja o herói, ele se destaca de um modo qualitativamente único
dos outros homens na esfera de sua atividade e, ainda mais, que o
registro das realizações em qualquer setor é a história dos feitos e
pensamentos do herói. (HOOK, 1962, p.29)
15

Feijó (1984) fala que o nascimento do herói seu deu com o mito. Todos
os povos “primitivos” têm em seus mitos e em seus ritos e cultos a presença de
vários indivíduos destacados, superdotados, valentes, diferentes da média dos
homens. Ou seja, o mito seria como um consolo contra a história e o herói vem
como consolo contra a fraqueza humana. Em seguida Feijó aborda o herói
histórico:

Com o surgimento da sociedade diferenciada em classes sociais; do


Estado com suas instituições organizadas; com a cultura escrita e
documentada, o herói, ultrapassando o mito, atingiu uma nova
dimensão. (...) A classe social dominante exerce o seu poder pelo
controle da economia, da política e até do imaginário, através da
ideologia. Nesse processo o herói torna-se figura real, palpável da
História. (FEIJÓ, 1984, p.22).

E é na Indústria Cultural, onde a concentração econômica implicou


também a concentração dos meios de comunicação nas mãos de poucos, que
Feijó identifica o ponto mais visível de uma nova ordem cultural encabeçada
pela grande imprensa, a indústria cinematográfica e a indústria musical, onde
“o herói é uma referência constante, como se o herói original retornasse em
novas bases” (FEIJÓ, 1984).
Segundo Feijó, a visualização do herói propriamente dita se deu com o
desenvolvimento dos meios de comunicação juntamente com a rapidez das
informações e dos acontecimentos que tornaram o jornal uma leitura
obrigatória. Isso, claro, até o aparecimento da televisão e do telejornal. Nesse
espaço, na década de 20, foi aparecendo aos poucos os quadrinhos
desenhados que trouxeram, para o cotidiano das pessoas, variados tipos de
heróis e com eles o hábito de acompanhar diariamente as tiras.
Mas foi na década de 30 que as histórias em quadrinhos atingiram sua
época de ouro com personagens como Flash Gordon, criado por Alex
Raymond e Super-Homen, criação original de Jerry Siegel e Joe Shuster,
abrindo assim caminho para “uma nova modalidade de herói: os super-heróis”
(FEIJÓ, 1984). Só que neste caso, para Feijó, o esquema é industrial e segue
uma linha de montagem onde as histórias são sempre as mesmas, atendendo
16

uma procura de público cada vez maior, “os super-heróis são frutos de uma
indústria altamente lucrativa, onde até o herói virou mercadoria” (FEIJÓ, 1984).
Segundo Viana (2003) o herói é um indivíduo que possui qualidades
consideradas especiais, tais como habilidades físicas, mentais ou morais, ou
seja, possui habilidades excepcionais, porém humanamente possíveis
enquanto que o super-herói possui habilidades sobre-humanas.

Um super-herói só é um super-herói quando tem que colocar em


prática seus poderes e isto só pode ocorrer havendo uma população
de seres poderosos num mundo em que ele vive e combate, ou seja,
o super-herói só pode existir, ao contrário do herói, em constante
relação com super-vilões e com outros super-heróis (VIANNA, 2003).

A história em quadrinhos surgiu como um produto típico da cultura de


massas, uma vez que, segundo Klawa e Cohen apud Moya (1977), elas podem
ser classificadas como novos veículos e novas formas juntamente com o
cinema, enquanto o cinema e o teatro foram transformados e adaptados à
Indústria Cultural (KLAWA e KOHEN apud MOYA, p.110, 1977).
Com o cinema também ocorre uma produção em escala industrial, mas
neste caso, segundo Feijó, os heróis são identificados pelos atores, não pelos
personagens. É o “culto ao ídolo” (FEIJÓ, 1984) que é aproveitado por outros
setores da indústria cultural até os dias de hoje. Para o autor existem três tipos
de heróis com que o público melhor se identifica. São eles: o herói tradicional, o
herói rebelde e o anti-herói. Sendo que o que, de todos esses heróis, o que
mais atingia a juventude era o herói rebelde.

A juventude mundial na década de 50 vivia o clima do pós-Segunda


Guerra (1939-1945), numa situação inédita: de um lado, um
desenvolvimento tecnológico nunca visto; de outro o risco de uma
guerra atômica. (...) James Dean se torna o ídolo dessa juventude
que via nele seus próprios anseios e dúvidas, como um espelho. (...)
O herói rebelde é sempre um “herói cultural”; isto é, ele transmite
algum valor de conhecimento, mas não ele que transforma a
realidade. (FEIJÓ, 1984, p.94 e 95)
17

Feijó ainda cita a presença do herói no rock que também foi aproveitado
pela cultura de massa e industrializado em grande escala. Jimi Hendrix, Janis
Joplin, Jim Morrison e Jonh Lennon foram os porta-vozes mais famosos do
movimento chamado “contracultura” segundo o autor, que se opuseram à
manipulação do conhecimento pelos que detinham o poder. Era como se eles
incorporassem as condições do herói de todos os tempos, “eles enfrentaram o
dragão, visitaram o inferno e liberaram os instintos” (FEIJÓ, 1984).

Porém, nisso tudo não podemos nos enganar: o herói é sempre um


elemento da cultura, onde quer que ele se encontre, manipulado ou
não, sofisticado ou mistificado, ele exerce o mesmo fascínio que o
mito exerce sobre os primitivos, porque este tem a ver com esferas
de nós mesmos que na maioria dos casos ainda desconhecemos.
(FEIJÓ, 1984, p.99)

Em relação à literatura, Kothe (2000) diz que as obras literárias são


sistemas que reproduzem em miniatura o sistema social, onde o herói é a
dominante que ilumina a identidade de tal sistema e que este não é
exclusivamente um problema literário, mas que atinge todas as narrativas, “seja
qual for o veículo”. Disjunto da linguagem de que se utilizam, esses produtos
de massa apresentam uma estrutura rigorosa e pobre, fazendo parte do que
Kothe chama de “narrativa trivial”, caracterizada basicamente "pelo
automatismo, pela repetição e pelos clichês, em nível de enredo, personagens,
temário, valores e final” (KOTHE, 2000), aspectos que tornam a leitura desses
textos acessível a qualquer leitor.

Segundo Kothe, as obras de direita levam a crer que tudo o que


pertence à classe alta é superior e que todo baixo é inferior. Em contrapartida
as obras de esquerda levam a crer que o que pertence à classe alta é, por isso,
baixo enquanto que todo socialmente baixo já seria, por este motivo, superior.
Nota-se uma procura de uma resposta aos conflitos de interesse de cada
classe. Os heróis que surgem em defesa de suas classes, do ponto de vista
que melhor lhes convir, são personagens contraditórios, questionadores e,
portanto, ricos em sua concepção.
18

Quando se quer criar um personagem apenas sublime, elevado,


acaba-se criando alguém artisticamente baixo porque carente de
veracidade. Todo personagem que apenas corporifique qualidades
positivas ou negativas é um personagem trivial, pois foge à natureza
contraditória das pessoas e não questiona os próprios valore.
(KOTHE, 2000, p.58)

Uma transição da literatura para os meios de comunicação seria


inevitável, como diz Fernandes (1995), uma vez que mitos e heróis, reis e
rainhas são expressões para indicar fenômenos ocorridos na sociedade. As
rainhas do rádio, o rei do futebol, as estrelas do cinema e os astros da televisão
surgiram no nosso século como “forma de representação para referirem-se
àqueles que ocupam um lugar de destaque no imaginário contemporâneo”
(FERNANDES, 1995).
Segundo Pena (2002), o espaço do herói nos meios de comunicação da
atualidade foi ocupado pelas celebridades. O valor supremo da virtude heróica
foi substituído pela superexposição onde as imagens são pré-concebidas, as
histórias já foram contadas, “e a encenação continua até mesmo após a morte
(PENA, 2002)”.
19

3.Narrativa seriada na televisão

O objeto de estudo deste trabalho foi escolhido pela popularização do


seu formato: a série televisiva. Aronchi de Souza (2004) diz que as séries
podem sobreviver anos e serem exibidas em qualquer país sem nenhuma
modificação além de legendagem ou dublagem. Em algumas delas, como é o
caso de “Dexter”, nem mesmo o nome é traduzido.
Machado (2000) identifica três tipos de narrativas seriadas na televisão,
sendo que o primeiro – onde estão inseridas as novelas e minisséries – possui
narrativas que se desenvolvem ao longo dos capítulos cujo último dará o
fechamento da história. Os capítulos, geralmente, começam com um gancho
começado no capítulo anterior e terminam com um elemento de conflito, no
intuito de manter o interesse do telespectador até a exibição seguinte.

Esse tipo de construção é teleológico, pois ele se resume


fundamentalmente num (ou mais) conflito(s) básico(s), que
estabelece logo de início um desequilíbrio estrutural, e toda evolução
posterior dos acontecimentos consiste num empenho em
restabelecer o equilíbrio perdido, objetivo que, em geral, só se atinge
nos capítulos finais. (MACHADO, 2000, p.84)

O segundo tipo é aquele que tem episódios fechados – aqui estão


inseridos os seriados – onde “cada emissão é uma história completa e
autônoma, com começo, meio e fim, e o que se repete no episódio seguinte
são apenas os mesmos personagens principais e uma mesma situação
narrativa” (MACHADO, 2000, p. 84). Os seriados norte-americanos têm
adotado os ganchos em seus episódios como forma de apreensão do público,
mas os conflitos e tramas apresentados geralmente têm começo e fim num
mesmo capítulo, sendo que, no próximo, novos enredos são apresentados aos
20

mesmos personagens. É uma releitura do formato. Ao mesmo tempo que a


trama se resolve em cada capítulo, existe um elemento de ligação, como uma
trama maior, que apenas terá sua resolução com a junção destes “fragmentos”.
O terceiro tipo é o que mantém somente a ideia geral da história, ou a
temática de seus episódios. Em cada capítulo, os personagens, atores,
cenários e até mesmo os roteiristas e diretores podem ser diferentes. A série
brasileira “Casos e Acasos” – produzida pela Rede Globo – é um recente
exemplo prático desse tipo de narrativa seriada.
A série “Dexter” se enquadra no segundo tipo, sendo que cada episódio
é uma história com começo, meio e fim, onde alguns personagens são
repetidos e a mesma linha narrativa é mantida.
Segundo Moreira (2007), a forma seriada de narrativa existe desde os
primórdios da literatura, passando pelas narrativas míticas e em seguida um
grande desenvolvimento com o folhetim – utilizada na literatura publicada em
jornais no século XIX – e que, posteriormente foi reproduzida no rádio com as
rádionovelas. Para Moreira, “no caso da televisão, foi o cinema que forneceu o
modelo básico de serialização audiovisual de que hoje se vale”. (MOREIRA,
2007, p.7)

O seriado nasce no cinema por volta de 1913. Nesta época, as salas


de cinema - conhecidas como nickeodeons - eram muito pequenas,
com bancos sem encosto, o que gerava incômodo ao espectador
quando o filme tinha uma duração mais longa. Adotou-se, então, a
exibição do filme em partes. (MOREIRA, 2007, p.7)

Na televisão a produção seriada toma forma diferente do cinema por


apresentar uma estrutura onde o telespectador está no seu espaço doméstico,
no conforto de seu lar sentando em frente a uma tela pequena e sujeito a
desvios de sua atenção. Sendo assim, “quanto mais o produto televisivo
apresentar painéis fragmentários e híbridos, obterá melhores resultados”.
(MOREIRA, 2007, p.8)
Um atrativo utilizado na série “Dexter”, apontado por Ilana Casoy,
especialista em investigar e analisar o comportamento de serial killers, em
21

entrevista ao site MundoFox – A TV Online1, é o fato de a história ser contada


do ponto de vista do protagonista. O personagem narra o seu dia-a-dia e
oferece ao telespectador a chance de conhecer a maneira como ele vê e
interpreta o mundo ao seu redor.

1
Ver Dexter: Quem é Dexter? em http://www.mundofox.com.br/br/videos/dexter
22

4.Herói assassino, ou assassino herói

“Dexter” é uma série televisiva norte-americana do canal Showtime que


conta a história de Dexter Morgan, interpretado por Michael C. Hall, um
assassino em série que trabalha como perito da polícia de Miami. A série é
baseada no livro “Dexter: a mão esquerda de Deus (Darkly Dreaming Dexter)”,
de Jeff Lindsay.
Dexter foi encontrado ainda criança na cena de um crime por um policial
que decide por adotá-lo. Sua mãe fora brutalmente assassinada na frente dele
e de seu irmão e com o passar do tempo, Dexter começa a demonstrar suas
tendências psicopatas. Aos poucos seu pai percebe em Dexter uma propensão
para a violência quando encontra animais que foram mortos por ele. Seu pai
adotivo resolve ensinar ao garoto a como lidar com o desejo de matar,
estabelecendo códigos rígidos e criteriosos de modo que Dexter direcionasse a
sua necessidade de matar apenas para criminosos que houvessem cometido
consecutivos homicídios.
Dexter Morgan apresenta-se como uma pessoa aparentemente normal,
que trabalha no Departamento de Polícia de Miami durante o dia como perito
especialista em sangue e à noite comete crimes em série conseguindo, assim,
se inserir bem na sociedade. Seu trabalho na verdade serve para ocultar sua
verdadeira ocupação, a de serial killer, que consiste em matar aqueles que
conseguiram escapar da polícia.
O relacionamento do protagonista com outros personagens da trama
também contribui para essa inserção na sociedade como é demonstrado na
relação afetuosa que Dexter mantém com Rita, sua namorada, e os filhos dela;
e na relação com Debra, sua irmã de criação. Eis a grande dualidade do
personagem principal: Dexter é um serial killer que mata com requintes de
23

crueldade e oscila entre ser insensível e ser afetuoso e caridoso com aquelas
pessoas que dependem dele.
No seu ambiente de trabalho, Dexter convive com a tenente Maria
LaGuerta, chefe da divisão de homicídios da polícia, que demonstra a princípio
ter interesses em um possível relacionamento pessoal com ele; o detetive
Angel Batista, que Dexter considera ser o mais próximo a ser tratado por ele
como um amigo; e o sargento Doakes, o único que não faz questão de
esconder o desprezo e as suspeitas que tem em relação ao protagonista.
Dexter consegue ser um sujeito muito educado, carismático, respeitado
pelo departamento de polícia e que adora crianças. Mas ele se esforça para ter
sentimentos que não consegue ter, para manter a aparência de um ser humano
"normal". Durante o dia, ele rastreia cada passo de assassinos em série,
seguindo suas pistas de forma meticulosa. Isso porque sua mente assassina o
guia através dos passos dos criminosos. Após o dia de trabalho, Dexter usa
todo o conhecimento e instinto de serial killer para achar e matar os criminosos
que ele caçou durante o dia. Isso faz com que ele viva um contraste diário
entre o bem e o mal. Mas ele canaliza toda a sua vontade de matar para
acabar com outros assassinos em série.
É este o fator que faz deste serial killer de serial killers uma espécie de
herói, uma vez que ele está apenas fazendo o trabalho não feito pela justiça
que, segundo a série, inocenta culpados por meros caprichos burocráticos.
Segundo Kothe “nenhum herói é épico por aquilo que faz; ele só se torna épico
pelo modo de ser apresentado aquilo que faz” (KOTHE, 2000, p.16).

4.1. Motivação pessoal x bem coletivo

Dexter Morgan é um justiceiro e assim como outros heróis da ficção ele


parte de uma motivação pessoal em benefício de um bem coletivo. Após sofrer
um trauma de infância ao presenciar juntamente com seu irmão o assassinato
de sua mãe, ele desenvolve tendências homicidas, que são logo reconhecidas
por seu pai adotivo que direciona os atos de Dexter para algo, do seu ponto de
vista, mais construtivo – matar aqueles que conseguiram escapar da polícia. E
assim como outros heróis, Dexter mantém uma vida dupla e se encaixa no que
Fernandes (2003) chama de “herói complexo”, que desliza do território do bem
24

para o mal, chegando até mesmo a se confundir ora com santo, ora com vilão,
ora com anjo, ora com demônio.
Uma gama de personagens pode ser utilizada para comparar o
protagonista da série “Dexter” a um herói, mas vamos nos atentar aos super-
heróis das populares histórias em quadrinhos que, devido a atual e frequente
adaptação destas para o cinema, têm aumentado em muito seu nível de
popularidade.
A começar pelo Super-homem (Superman em inglês), personagem da
DC Comics criado por Joe Shuster e Jerry Siegel2, tem como motivação
pessoal para combater o mal o fato de ter tido seu planeta natal destruído e ter
adotado a Terra como seu lar adotivo. Ele nasceu no fictício planeta Krypton e
foi mandado à Terra por seu pai Jor-El momentos antes do planeta explodir.
Sua nave aterrissou na cidade de Smallville (traduzida no Brasil a princípio
como Pequenópolis), onde ele foi encontrado pelo casal de fazendeiros
Jonathan e Martha Kent, que ao descobrirem com o tempo as habilidades
especiais do garoto lhe ensinou a esconder sua verdadeira identidade.
Clark Kent, após se formar em jornalismo, se muda para a cidade de
Metrópolis, onde a partir de seu local de trabalho, o Planeta Diário, ele vigia a
cidade perseguindo criminosos e enfrentando seus inimigos. Só que,
diferentemente de Dexter, o Super-homem não pune seus adversários com a
morte, apesar de sua força sobre-humana. Segundo Nogueira (1998), sob a
capa do "homem de aço" esconde-se um alter-ego, um reflexo em negativo que
serve uma função narrativa bem específica:

“aproximar o herói do comum cidadão, dar-lhe uma credibilidade sem


a qual seria difícil ao leitor ou ao espectador vulgar fazer a ponte
entre a realidade e a ficção, entre o reino da aventura, das forças
míticas e milagrosas e o quotidiano de fraquezas e incertezas. Por
3
isso, Clark Kent é tímido, desajeitado, medroso”.

2
Ver Superman em http://pt.wikipedia.org/wiki/Superman
3
Ver o Mito do Super-homem em http://www.bocc.ubi.pt/pag/nogueira-luis-mito-
superhomem.pdf
25

Outro herói do universo DC Comics que merece ser citado é o Batman,


criado por Bob Kane e Bill Finger4. Bruce Wayne testemunhou o assassinato
de seus pais quando criança, o que teria o levado a viajar pelo mundo tentando
entender a mente criminosa. Apesar de Batman também não matar seus
inimigos, suas semelhanças com Dexter são mais fortes, já que os traumas
sofridos na infância os levaram a busca por justiça.
Segundo os quadrinhos, Bruce Wayne treinou todo tipo de artes marciais
e técnicas de combate, visto que o trauma de ver seus pais mortos por tiros de
revólver lhe deu aversão a armas de fogo. Batman não possui poderes
especiais, usando apenas o intelecto, habilidades investigatórias, tecnologia,
dinheiro e um físico bem-preparado em sua guerra contra o crime.

Criminosos são, por natureza, covardes e supersticiosos. Para


instalar medo em seus corações eu me tornei um morcego. Um
monstro da noite. E, fazendo isso, será que eu me converti naquilo
5
que todo monstro se torna... Um solitário...?

O Homem-aranha (Spiderman em inglês), personagem da Marvel


Comics criado por Stan Lee e Steve Ditko6, segue o mesmo padrão de
vingança pessoal. Órfão quando pequeno, Peter Parker foi morar com seus tios
Ben e May. Cresceu e se tornou um adolescente tímido, mas muito inteligente.
Durante uma excursão do colégio ele é picado por uma aranha geneticamente
modificada, provocando assim mutações no organismo do jovem Peter.
A princípio Peter se empolga com os novos poderes e pensa em como
ganhar dinheiro com eles. Levado por esse tipo de pensamento não faz o
mínimo esforço para deter um ladrão que logo em seguida viria a matar seu tio
Ben. Ao descobrir que o assassino do tio é o bandido que ele poderia ter detido
sem grandes dificuldades, Peter se sente culpado e a partir de então começa a
utilizar seus poderes para combater os crimes na cidade de Nova York.
A tragédia famíliar também permeia a origem de um dos mais populares
integrantes da equipe de mutantes X-Men, Wolverine (palavra em inglês para

4
Ver Batman em http://pt.wikipedia.org/wiki/Batman
5
LOEB, Jeph. Batman Silêncio, p.78
6
Ver Homem-aranha em http://pt.wikipedia.org/wiki/Homem-Aranha
26

“carcaju”, um tipo de texugo das florestas do Canadá). Criado por Len Weine e
John Romita para a Marvel Comics7, o personagem era frágil e doente quando
criança. Filho de uma família rica e tradicional vê seu pai ser assassinado pelo
jardineiro da casa e, em um momento de fúria, revela sua verdadeira força
quando garras de osso saem de suas mãos e ele mata o assassino de seu pai.
Mais tarde é revelado que o jardineiro seria o na verdade o pai biológico de
Wolverine.
Outros acontecimentos como a morte de seu primeiro grande amor, a
mutante Raposa Prateada; as guerras em que participou, uma delas inclusive
ao lado do herói Capitão América; seu envolvimento com o projeto do governo
Canadense “Arma X”, onde os ossos de seu corpo foram completamente
cobertos por um poderoso metal – o fictício Adamantium – e seu o
recrutamento pelo professor Xavier para fazer parte da equipe dos X-Men
fazem parte da trajetória desse personagem até sua vida heróica.
Com um pouco mais de violência em seus atos, o Justiceiro (The
Punisher, em inglês), também do universo Marvel Comics, criado por Gerry
Conway, Ross Andru e John Romita8, é um vigilante que considera
assassinato, sequestro e tortura aceitáveis como táticas de combate ao crime.
A morte da família de Frank Castle por capangas de um mafioso, ao
testemunharem uma execução proveniente de uma guerra de gangues no
Central Park, fez com que ele, o único sobrevivente do massacre, saísse em
busca de vingança.
Primeiramente Frank procurou ajuda da polícia para que os assassinos
fossem presos, mas descobriu que eles eram de uma família de mafiosos,
tinham álibis forjados e alguns policiais foram comprados. Inconformado, o
Justiceiro jurou matar todos os responsáveis pela morte de sua família e
declarou guerra aos traficantes, mafiosos e criminosos em geral. Castle decidiu
fazer justiça com suas próprias mãos e após ter vingado sua família, ele
continuou sua cruzada contra o crime organizado e contra todos os criminosos
que encontrara.

7
Ver Wolverine em http://pt.wikipedia.org/wiki/Wolverine
8
Ver O Justiceiro em http://pt.wikipedia.org/wiki/Justiceiro_(Marvel_Comics)
27

As ações desses heróis aqui listados se assemelham com o modus


operandi do personagem Dexter Morgan que, devido ao treino recebido do pai
adotivo ao perceber suas tendências homicidas, parte de uma motivação
pessoal para o bem coletivo – apesar do fato dele ser um serial killer. Segundo
McCloud (1995), simplificar personagens e imagens pode ser uma ferramenta
eficaz em qualquer meio de comunicação. Essa proposta é empregada na série
“Dexter”, uma vez que é notável a tentativa de uma aproximação dos atos do
personagem principal com as ações “comuns” entre heróis. Para McCloud “a
criação de qualquer trabalho em qualquer meio sempre vai seguir um certo
caminho” (McCLOUD, 1995, p.169).

4.2. Construção de semelhanças

Para tentar entender os elementos que caracterizariam Dexter como um


herói, tomaremos como parâmetro comparativo alguns heróis do universo
ficcional e características comumente presentes nos mesmos. Eles são órfãos,
buscam fazer justiça com as próprias mãos, levam uma vida dupla, se
relacionam quase que superficialmente com uma figura feminina, e têm
inimigos que tentam a todo custo expor suas verdadeiras identidades.
O estado de orfandade é um sintoma recorrente em alguns heróis como
Super-homem, oriundo de outro planeta, que é adotado na Terra pela família
Kent; Batman, que é um órfão criado pelo mordomo Alfred; Wolverine, que
após presenciar o assassinato de seu pai, mata o culpado, sem saber que este
seria na verdade seu pai biológico; Homem-aranha, que perde seus pais e vai
morar com os tios (em seguida se torna órfão novamente, quando Ben Parker é
assassinado); assim como Dexter, que é adotado por um policial ao encontrá-lo
na cena do crime de sua própria mãe. Para Nogueira (1998), esse é um
momento importante na jornada do herói.

Esse momento primordial e absoluto de perda que os separa da


normalidade, quebrando os laços com um quotidiano profano para os
sacralizar, é usualmente o elemento que faz despoletar a ideia de
missão comum a muitos dos heróis, ou seja, gênese da vontade de
pôr os poderes e toda a energia ao serviço da Humanidade e do
28

Bem. Vingança, crença, missão e idealismo são tópicos comuns ao


9
seu modus operandi.

Em relação à vontade de se fazer justiça com as próprias mãos,


compartilhada por Dexter e os demais heróis, o Justiceiro é o que mais se
aproxima mais uma vez das ações do serial killer, tendo em vista que, segundo
Viana (2003), a idéia de justiça e a ação do super-herói nem sempre está de
acordo com a ordem jurídica institucional. Em contrapartida, Super-homem e
Batman, por exemplo, colaboram com as forças da ordem organizadas, tais
como o exército e a polícia do seu país.
Dexter, como qualquer cidadão, exerce uma profissão que não lhe
ocupa integralmente o tempo, pois isto, segundo Viana (2003), dificultaria a
ação do herói, como pode ser visto na profissão do Super-homem (o jornalista
Clark Kent) e do Homem-aranha (o fotógrafo Peter Parker), sendo que este
último, inclusive, ganha dinheiro tirando fotos dele mesmo em ação contra os
bandidos. Mesmo o alter-ego de Batman, Bruce Wayne, se ocupa em
administrar a fortuna da família.
A presença do ser feminino, que na série “Dexter” é representada por
Rita, a namorada – que após ser frequentemente estuprada pelo ex-marido
toma aversão ao sexo (o que pra Dexter é algo extremamente relevante, uma
vez que ele mesmo diz não ver sentido no ato sexual em si) – é citada por
Nogueira (1998) como forma intensamente erótica, mas nunca plenamente
consumada, na vida dos heróis. Lois Lane para Super-homem, assim como
Mary Jane para Homem-aranha, Jean Grey para Wolverine e até mesmo
Mulher Gato para Batman.

Ela é primeiro fugidia e impertinente, depois co-operante e terna, e


finalmente despojada perante o encanto do herói – reminiscências
do cavalheirismo que tem alimentado a história da afetividade
romântica ocidental. Esta figura constitui, naturalmente, ao mesmo
tempo, um reservatório de sentimento amoroso e luxúria que o
10
grande público não dispensa.

9
Ver o Mito do Super-homem em http://www.bocc.ubi.pt/pag/nogueira-luis-mito-
superhomem.pdf
10
Idem 9
29

Outro ponto importante de semelhança é o arqui-inimigo, que em


“Dexter” é representado pelo personagem Doaks, um dos poucos que percebe
algo de diferente por detrás da imagem de bom moço do colega de trabalho e
tenta, como todo bom inimigo que se preze, desmascarar seu rival. O Coringa
aparece como principal antagonista do Batman, chegando ao ponto de instigar
no herói a dúvida sobre uma possível semelhança moral entre ele e o vilão; e
para o Super-homem, dentre vários tipos “do mal”, Lex Luthor faz as vezes do
oposto mais frequente nas aventuras do homem de aço. Segundo Fernandes
(2003), é fundamental a presença de um antagonista.

“A figura exemplar do herói, entretanto, não está sozinha, pois as


histórias, os contos, os romances, as fábulas não vivem somente de
sua presença; em todas estas formas de contar e recontar histórias
aparece a figura de seu oposto, o duplo que é seu inverso e que
surge como inimigo da paz.” (FERNADES, 2003, p.4 )
30

5.A construção do personagem

A série “Dexter” traça o perfil de seu protagonista utilizando subterfúgios


como narração em off e flash backs. Dexter Morgan conta ao telespectador no
decorrer dos episódios como se sente em relação aos outros com quem
convive, a visão que ele tem do mundo e as lições que aprendeu com seu pai
adotivo para lidar com seu lado homicida. As lembranças do passado sempre
vêm à tona quando o personagem começa a se lembrar dos ensinamentos
recebidos desde a infância, como mostrado nos dois flash backs existentes no
episódio piloto da primeira temporada11:

Episódio nº1 (Piloto) da primeira temporada

Flash Back 1 - Dexter criança:

Dexter e o pai estão sentados em um barco e iniciam um


diálogo.

- Você é diferente, não é, Dexter?

- O que você quer dizer, pai?

- Os Philips disseram que Buddie desapareceu.

Dexter desvia o olhar envergonhado.

- Encontrei a cova, filho.

- Aquele cachorro era uma aberração barulhenta, pai. Latia


a noite toda enquanto mamãe estava dormindo e muito doente,
e aquele cachorro estava latindo pra toda folha que
aparecia na calçada...

- Havia muitos ossos lá, Dexter. E não apenas os de Buddie.

11
Copyright Showtime Network, USA, 2005 - todos os direitos reservados.
31

Continuação do flash back:

- Já quis matar alguma outra coisa? Sabe, algo maior que um


cachorro?

- Sim.

- Tipo uma pessoa?

- Sim, mas ninguém em particular.

- Por que não matou?

- Pensei que você e mamãe não iriam gostar.

Harry puxa o filho pra perto de si, na intenção de


confortá-lo.

Flash Back 2 - Dexter adolescente:

Dexter está em um tipo de depósito montando as rodas de um


skate, quando seu pai entra.

- Ei, pai.

Harry coloca um jogo de facas na mesma e lança um olhar


acusador ao filho. Dexter responde aflito:

- Posso explicar isso.

- Nós tínhamos um acordo! Sempre que tiver um impulso, vem


até mim, me conta e lidaremos com ele juntos.

- Eu te conto, pai.

- O caramba que conta! Tem sangue nessa faca!

- Animais. Luto com animais, e só.

- Tem certeza? Está me contando a verdade?

- Sim.

- Pensei que tínhamos isso sobre controle... Ainda não se


lembra de nada de antes? Sabe, de antes de te adotarmos?

- Não. É por isso que tenho esses impulsos?


32

- O que aconteceu mudou algo dentro de você. Chegou em você


cedo demais. Temo que seus impulsos para matar apenas
ficarão mais forte.

- Está dizendo que serei assim pra sempre?

- Você é um bom garoto, Dex. É sim. Se não teria sido bem


pior do que com apenas animais. Está bem, não podemos parar
isso. Mas talvez possamos fazer algo para direcionar isso.
Usar para o bem.

- Como é que algum dia serei bom?

- Filho, há pessoas lá fora que fazem coisas muito ruins.


Pessoas terríveis. E a polícia não consegue pegar todas
elas. Entende o que estou dizendo?

- Está dizendo... que merecem morrer.

- Isso mesmo. Mas é claro que tem que aprender como


identificá-los. Como cobrir seus rastros. Mas posso ensiná-
lo.

- Pai...

- Está tudo bem, Dex. Não pode evitar o que houve com você.
Mas pode tirar melhor proveito disso. Lembre-se disso pra
sempre: Você é meu filho. Não está sozinho e é amado.

- Está bem.

Fica claro nesta cena que Harry, o pai adotivo de Dexter, logo que
percebe a natureza sombria do filho se dispõe a treiná-lo, na intenção de
direcionar o seu “dom”. Na visão de Harry, existem pessoas no mundo que
merecem morrer, já que cometeram crimes horríveis e a justiça não consegue
punir a todos. A tragédia ocorrida no passado de Dexter gerou nele esse
impulso por matar. Impulso que Harry prevê não poder ser contido e com
tendências a ficarem mais fortes do que são na infância. Como é inevitável,
melhor que seja utilizado para o bem. Todo mundo sai ganhando: Dexter
mataria sua sede de sangue e a sociedade se veria livre da escória.
As ações de Dexter Morgan são guiadas pelo código que lhe foi
ensinado por seu pai, um policial. “O Código de Harry”, como foi batizado por
Dexter. Seus desejos poderiam ser realizados, desde que fossem realizados
juntamente com um bem maior.
33

Episódio nº3 da primeira temporada

Flash back 1 – Dexter adolescente:

Dexter e Harry estão juntos em frente a um armário de


armas. Harry abre o armário.

- O que vai querer hoje, Dex? A Winchester?

- Que tal a nove milímetros?

- Arma pequena? Não é exatamente a arma correta para


faisões. Precisa de um bom espalhamento de pólvora para
pegá-los.

- Já atirou em alguém, pai?

- Temo que sim.

- Algum deles morreu?

- Apenas um.

- Como é... matar um cara?

- Não é muito bom, Dex. Quando tira a vida de um homem, não


está apenas o matando. Está o privando de todas as coisas
que ele poderia se tornar.

Dexter manuseia uma arma e não presta muita atenção ao que


o pai está dizendo.

- Como tira só uso minha arma para salvar uma vida, é um


código que sigo. Matar tem que ter um propósito, senão é
apenas assassinato. Compreende?

- Sim.

- Mudei de ideia. Vamos levar a Rooter.

- Rifle? Pensei que as escopetas fossem melhores pra


faisões.

- Não vamos caçar faisões.

Corta para

Dexter e Harry caçando em um campo. Harry dispara um tiro.


34

- É um dos grandes.

- Sim.

Os dois se movem em direção a um animal abatido no chão.

- Esse veado colocará carne em nossa mesa essa noite.

- Ele ainda está vivo.

- Por ora, vai ser assim que controlaremos os impulsos que


sente. Canalize-os.

Harry tira uma faca do bolso e entrega a Dexter.

- Por que não vai em frente, filho?

- Sério?

- Tire o pobre animal do sofrimento.

Dexter se abaixa e esfaqueia firmemente o animal.

Aqueles que merecessem morrer deveriam ser meticulosamente


estudados, segundo “O Código de Harry”, para que não houvesse nenhum
engano. Uma vida não poderia ser tirada ao acaso. Seria necessário que a
pessoa fizesse jus a sua punição, como foi o caso da sua primeira vítima:

Episódio nº3 da primeira temporada

Flash Back 2

Dexter está com o pai moribundo em um quarto de hospital. A


enfermeira prepara uma injeção para aplicar em Harry, que
pede desesperadamente a Dexter:

- Impeça-a.

A enfermeira caminha na direção de Harry:

- Certo, meu bravo soldadinho, vamos aplicar essa injeção.

- Não, não!

Dexter segura a enfermeira pela mão.

- Espere.
35

- O que foi, querido?

- Ele não quer a injeção.

- Seu pai está muito doente. Está com muita dor. Precisa de
uma injeção.

Harry interrompe.

- Não, quero a dor.

Dexter reafirma.

- Ele quer a dor.

- Terei que contar ao médico. Ele não ficará feliz por


estar recusando a medicação.

A enfermeira sai do quarto.

- Pode perceber?

- Quanto a enfermeira? Sim, ela é... como eu. Como pode


perceber?

- Ela dá muita morfina e algo mais. Está me fazendo piorar.

- Ela está te drogando. Ela está te matando de overdose.

- Não apenas eu, outros também.

Harry, mesmo com dificuldades para falar, insiste com


Dexter.

- Impeça-a!

- O que quer dizer com isso?

- Chegou a hora. Antes que ela machuque a mais alguém.

Dexter concorda balançando a cabeça.

Ao final do episódio é mostrada a armadilha que Dexter preparou para a


enfermeira no apartamento dela. Ela foi a primeira pessoa a ser pega pelo
“Código de Harry”. Seu pai não morrera pelas mãos dela, mas se foi logo
depois, deixando Dexter com a certeza de que tinha uma missão em sua vida e
que essa missão deveria ser guiada pelos ensinamentos de Harry.
36

Mas o código não se referia apenas a identificação e constatação de


pessoas ruins, também ensinava a como encobrir seus rastros. Mesmo que
estivesse fazendo um bem a sociedade, Dexter era um assassino e se fosse
pego pela polícia sofreria duras penas. Uma forma de disfarce era o seu
emprego como perito em sangue no departamento de polícia de Miami, como é
mostrado em uma cena do episódio piloto em que ele chega á delegacia com
uma caixa de rosquinhas (!) para seus colegas de trabalho:

Episódio nº1 (Piloto) da primeira temporada

Dexter chega à delegacia com uma caixa de rosquinhas na mão


e um sorriso estampado no rosto. Se dirige ao balcão da
entrada e abre a caixa.

- Bom dia, Dex.

- Bom dia.

Continua andando e encontra uma dupla de policias.

- Ei, Dex.

- Ei, Sue. Dan. Como vão as famílias?

- Bem, e você?

Dexter não responde, apenas sorri cordialmente.

- Te vejo no próximo banho de sangue?

- Nunca perco uma festa.

Os policiais sorriem e vão ao encontro de outros colegas de


trabalho.

O trabalho e o disfarce perfeitos. As cenas de crimes são fáceis de


serem estudas por Dexter, umas vez que ele entende como ninguém sobre
derramamento de sangue. E ninguém jamais desconfiaria que ele apenas finge
ser um bom moço, que ele é incapaz de qualquer interação social. Ele apenas
finge interagir e, como o próprio Dexter diz no começo do episódio, finge muito
bem. Dexter não tem sentimentos quanto a nada, mas se tivesse, seriam por
sua irmã e colega de profissão Debra, já que ele reconhece que ela é a única
pessoa no mundo que o ama.
37

Dexter também se relaciona com Rita, afinal ele tem que aparentar ser
normal e ter um relacionamento com uma mulher. Para Dexter sexo não é
importante. Não que ele não goste de mulheres, é que ele acha sexo algo
indigno. O difícil, pra ele, era encontrar a pessoa certa. Até que um dia sua
irmã o apresenta a Rita, que acabava de ter sido salva de uma chamada de
briga doméstica. Para Dexter ela é perfeita por ser, em sua própria forma, tão
danificada quanto ele. O ex-marido de Rita era viciado em crack, a estuprou
repetidas vezes e batia nela. Desde então ela é desinteressada em sexo, o que
pra Dexter torna essa relação perfeita. E Rita tem dois filhos, que Dexter adora.
Ele brinca com elas e elas se divertem com ele.
Mas não é todo mundo que compra essa imagem de bonzinho “vendida”
por Dexter. O sargento Doaks não se dá bem com ele e sente que tem algo de
errado com o perito em sangue. Ele não sabe o que pode ser, não faz a menor
ideia, mas sente isso. E não se importa de não esconder suas dúvidas, como é
mostrado no episódio piloto da primeira temporada:

Episódio nº1 (Piloto) da primeira temporada

Dexter está sentado em sua mesa de trabalho quando chega o


sargento Doaks o abordando.

- Onde diabos esteve?

- Cena de crime.

Doaks joga algumas fotos em cima da mesa de Dexter.

- E quanto a isso? Os assassinatos no motel. Um traficante


e uma garota.

Dexter analisa as fotos.

- Esse casal não morreu nas mãos de um profissional, não.


Isso é... coisa de criança. Trabalho bagunçado. Todo esse
sangue na parede parece pintura com as mãos.

Doaks se irrita com o sarcasmo de Dexter.

- Você me dá uns arrepios da porra, sabia, Dexter?

- É, eu sei. Desculpa por isso.

- Vai se foder.
38

- Está bem. Tem algo...

- Sim, pode me trazer sua análise sobre o espalhamento do


sangue nessas mortes. Acha que estou aqui para convidá-lo
para o nascimento do meu sobrinho?

- Não sabia que era judeu.

- Cale a boca e escreva logo o relatório. Nem sei por que


preciso de você. Pegue um giz, seu doido, e anota isso:
Traficante rival entrou, dois pilantras picados em
pedacinhos, o traficante rouba as drogas. Whan, ban e
pronto. E não ligo a mínima pra o que disser, porque foi
isso que aconteceu. E é por isso que estou procurando.

Dexter se distrai olhando as fotos.

- Ei, estamos procurando por um filha da puta de traficante


ladrão. Entendeu?

- Está bem, claro. Eu suponho... Mas eu deveria ir até lá.

- Então vá logo, seu estranho. Preciso disso rápido.

- Pode deixar, sargento.

Por que em um prédio cheio de policiais, todos com um suposto olhar


atento para a alma humana, Doaks é o único a ter arrepios perto dele? Essa
pergunta não sai da cabeça de Dexter, mas também não o incomoda. Ele tem
coisas mais importantes com o que se preocupar, como por exemplo, quem
será o próximo a vigiar e descobrir se o próximo a servir como objeto de
satisfação dos seus impulsos merece morrer em suas mãos.
39

6.Considerações finais

Este estudo buscou discutir a abordagem de uma série em cima de da


criação de um personagem polêmico. Ao concluir esse processo,
destacaremos os pontos mais interessantes do estudo e, enfatizando as
opiniões a respeito do personagem.
Os estudos realizados nos fizeram notar que o culto ao herói, iniciado
com os povos primitivos, percorreu toda a história até ser adaptado e
representado nos dias atuais pela mídia em geral. Os livros, as revistas, os
jornais, o cinema, a televisão e a internet usam o termo herói para criar
personagens no intuito de que o público os admire, os acredite, os aceite e se
identifique, sendo heróis reais ou não.
Em meio a esse contexto, as histórias em quadrinhos e seus super-
heróis se tornaram imensamente populares ao ponto de serem adaptadas a
outras mídias com grande sucesso.
A série “Dexter”, objeto de estudo desse trabalho, gira em torno de um
assassino em série que mata outros assassinos. Com a apropriação de
características comuns aos heróis super poderosos da ficção, o personagem
principal acaba por receber a aceitação dos seus atos pelo telespectador, que
pode sim, considerá-lo como um combatente do bem contra o mal.
As obras ficcionais nos permitem aceitar a existência de seres de outros
planetas que venham morar na Terra, pessoas que sofrem acidentes nucleares
e ganham poderes, homens que usem de toda sua fortuna e tecnologia para
combater o crime com as próprias mãos e não seria diferente com um serial
killer que dá cabo de outros como ele para um bem maior e para saciar suas
próprias vontades. Dexter Morgan é um personagem bem construído, crível,
carismático e guiado por um código que justifica plausivelmente seus atos.
Assim, concluímos que é possível o herói ser representado na figura de
um serial killer que, neste caso, faz o que faz, mas não o faz somente por
40

fazer. O ideal por trás de seus atos o torna digno de ostentar a alcunha de
herói com toda a honra que o título lhe confere.
41

REFERÊNCIAS

• ARONCHI DE SOUZA, José Carlos. Gêneros e Formatos na Televisão


Brasileira. São Paulo. Summus Editorial, 2004;

• FEIJÓ, Martin Cezar. O Que é o Herói. São Paulo. Editora Basiliense,


1984;

• HOOK, Sidney. O Herói na História. Trad: Iracilda M. Damasceno. Rio


de Janeiro. Zahar Editores, 1960;

• KOTHE, Flávio R. O Herói. São Paulo. Editora Ática, 2000;

• MACHADO, Arlindo. Televisão levada a sério. São Paulo. SENAC.


2002;

• MOYA, Álvaro de. SHAZAM! São Paulo. Editora Perspectiva S.A., 1977;

• McCLOUD, Scott. Desvendando os Quadrinhos. São Paulo. Makron


Books do Brasil Ed. Ltda. 1995;

• FERNANDES, Evanil Rodrigues. O espaço do mito nas HQs


contemporâneas. UNINCOR. 2003. Disponível em:
http://74.125.47.132/search?q=cache:5ccczW-
ETeIJ:www.letras.ufrj.br/ciencialit/encontro/Evanil%2520Rodrigues%2520Ferna
ndes%2520-
%2520UNINCOR.doc+O+ESPA%C3%87O+DO+MITO+NAS+HQS+CONTEMP
OR%C3%82NEAS+Evanil+Rodrigues+Fernandes&cd=1&hl=pt-
BR&ct=clnk&gl=br&client=firefox-a

• FERNANDES, Thareja. O Mito Midiático: Um sobrevôo teórico. In: O


Sentido e a Época. Ensaios sobre cultura na era da comunicação.
Salvador: Facom/UFBA. 1995. Disponível em:
http://74.125.47.132/search?q=cache:u2843yhG6h0J:www.diaadiaeducacao.pr.
gov.br/diaadia/diadia/arquivos/File/conteudo/artigos_teses/FILOSOFIA/Artigos/
OMitoMidiatico.pdf+O+MITO+MIDI%C3%81TICO+Um+sobrev%C3%B4o+te%
C3%B3rico&cd=1&hl=pt-BR&ct=clnk&gl=br&client=firefox-a

• MOREIRA, Lílian Fontes. A narrativa seriada televisiva: O seriado


Mandrake produzido para a TV a cabo HBO. Rio de Janeiro. URFJ.
2007. Disponível em: http://www.uff.br/ciberlegenda/artigolilianfinal.pdf

• NOGUEIRA, Luís Carlos. O Mito do Super-homem. Universidade da


Beira Interior. 1998. Disponível em: http://www.bocc.ubi.pt/pag/nogueira-
luis-mito-superhomem.pdf

• PENA, Felipe. A vida é um show. Celebridades e heróis no


espetáculo da mídia. Universidade Estácio de Sá. 2002. Disponível em:
http://www.bocc.ubi.pt/pag/pena-felipe-vida-show.html
42

• VIANA, Nildo. Super-heróis e Axiologia. Revista Espaço Acadêmico.


Março de 2003. Disponível em:
http://br.monografias.com/trabalhos914/super-herois-axiologia/super-herois-
axiologia2.shtml