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ANITA MILLS

O Sósia do Duque
SINOPSES
Era uma vez, a linda Johanna Sherwood, condessa de Carew, que esteve loucamente
apaixonada por Adrian Delacourt, o sombrio, atrativo, e devastadoramente encantador
Duque de Roxbury. Isso foi antes de casar-se com ele. Isso foi antes que ele mostrasse sua
verdadeira natureza quando a acusou de infidelidade, arrastando seu nome pela lama.
Isso foi antes que ela fugisse para Itália com o melhor amigo de Adrian, Gareth Sherwood,
que a resgatou da ruína total de seu divórcio ao fazê-la sua esposa. Agora Johanna retornou a
Inglaterra como uma jovem viúva encantadora só para descobrir que nada mudou. O escândalo
injusto ainda envolve seu nome e o amor impossível ainda ardia em seu coração.
A opção mais simples…
Johanna sabia muito bem que não deveria duvidar na escolha entre o Duque de Roxbury e
Lorde John Barrasford. O duque era exatamente como ela o recordava de seu breve e
desastroso matrimônio, arrogante, desconfiado, implacável e impaciente por acreditar o pior
dela, sempre rechaçando ouvir suas explicações.
Lorde John Barrasford era justamente ao contrário, atencioso, pormenorizado, elogiando-a e
comprometendo-se fazê-la a mais feliz das mulheres.
Obviamente isto não deveria fazê-la duvidar: voltar com o terrível duque ou abrir seus
braços e coração à adoração que lhe professava Barrasford.
Porque para Johanna era tão difícil escolher algo tão evidente.
CAPÍTULO 01
— Em realidade, querida, é de pouca importância onde a aflige a morte de
meu filho — a condessa viúva suplicou a sua nora. — Então, também podemos
retornar a Inglaterra.
Suas saias de seda negra rangeram ao mover-se pelo salão fracamente
iluminado.
— Johanna, nada pode devolver a vida de Gary, ambas sabemos. Sua
preocupação agora devem ser seus filhos, Justin deve crescer consciente de suas
responsabilidades.
— Mamãe, ele tem só cinco anos — protestou.
— Meu amor, ele deve saber que é inglês, não pode criá-lo na Itália e esperar
que aprenda o que significa sua herança. Por favor, Johanna, pelo amor de Gary
volte com seus filhos à Inglaterra.
Johanna Sherwood não se alterou pela suplica. Olhou tristemente o pequeno
jardim onde o sol banhava as flores da primavera com sua luz, em contraste
com a escuridão de seu coração. Com um suspiro olhou para sua sogra.
— E fazê-los viver com o escândalo? — perguntou amargamente. — Ouvir
que sua mãe foi acusada de adultério e divorciada.
— Razão a mais para transladar-se agora, quanto antes Johanna, voltemos
para New Haven, confrontemos os falatórios, conseguiremos que se esqueçam.
Novos rumores substituem sempre os velhos. Terá que se comportar
prudentemente, é obvio, como se a sociedade esquecesse.
— Eles realmente se esquecem? — Durante um momento seus olhos se
nublaram. — Esqueceram um divórcio, que me obrigaram a deixar o país,
esqueceram as humilhantes acusações públicas de Adrian, duvido-o muito.
— O tempo e a distância já tomou cuidado que se esqueçam da maior parte,
passaram seis anos desde que ocorreu e Gary...
— Ninguém sabe melhor que eu, o que deixou atrás por mim, mas não posso
voltar, não me peça isso, não posso.
— Johanna. — A mulher mais velha se aproximou e abraçou a jovem viúva.
— Me olhe, por nada no mundo quero te causar mais dor, mas deve fazê-lo.
Gary deixou por você sua casa, seu país, seus amigos, sua carreira política
porque a amou por cima de todas as coisas. Pode não encontrar em seu coração
razões para retornar com seus filhos para casa. Eles têm o direito de conhecer a
herança de seu pai. Justin deve crescer em New Haven, Gary desejaria que fosse
dessa forma e você sabe disso.
— Só tem cinco anos, podemos viver alguns anos a mais na paz do exílio.
Não devemos voltar tão cedo.
— Jo — sua sogra insistiu brandamente. — Só tem vinte e cinco anos, com
sua hierarquia e a fortuna de meu filho pode voltar a se casar, amar outra vez,
não deixe à amargura te privar disso, ou a meus netos, de encontrar de novo a
felicidade, não há nada para atá-la a esta casa, mas a herança de meu filho está
esperando por seu filho, não esqueça que Justin é agora o conde de Carew.
— Amar outra vez, terei sorte se encontro algum caçador de dotes cuja
necessidade de dinheiro lhe importe mais que o escândalo, outros homens com
sentido de decência não se permitirá oferecer-me precisamente matrimônio.
— Johanna... Johanna... tem que deixar isto para trás, Gareth a amou e se
casou contigo, encontrará outro homem decente que te amará também.
— Não. — A jovem negou. — Isso não acontecerá mamãe, Adrian se
ocupou disso. No dia que o parlamento aprovou o divórcio fui marcada como
adultera para toda a vida, além disso, Haven está muito perto de Armitage,
Justin escutará a história.
— Então conte a ele agora, será mais fácil do que esperar que ele seja um
homem ou que conte outra pessoa. — Procurou a maneira de convencer sua
nora. — Posso te dizer com certeza que não se encontrará com Adrian
Delacourt, faz anos que não visita Armitage.
— Adrian? — Olhou com incredulidade. — Custa-me acreditar, Armitage foi
o grande amor de sua vida, posso assegurar isso, para a descendência dos duques
de Roxbury é o símbolo de sua importância, prodigalizou a atenção a esta casa
como um pai a um filho.
— Entretanto, já não vive ali, possivelmente porque é um homem
terrivelmente orgulhoso, não suportava viver onde tudo ocorreu.
— Tolices! — rechaçou suas palavras. — Roxbury causou o problema, e
podem dizer muitas coisas de Adrian Delacourt, mas te asseguro que ele não dá
nenhuma importância à opinião de outrem.
— Nunca acreditei que causaria este tipo de escândalo, penso que a culpa é
de sua mãe.
— Helen sempre me odiou, lhe contou uma história sem ter nenhuma só
prova, ele não tinha que acreditá-la, verdade? Não era um menino, eu era sua
esposa podia ter me perguntado ao menos se era verdade antes de me expulsar
de sua vida.
— Sua preocupação agora não deve ser Roxbury, é por seu filho que deve
tomar seu lugar na sociedade.
— Não posso.
— Deve fazê-lo.
— Não conhece Adrian como eu.
— Visitou minha casa durante anos, sei como é — lhe recordou.
— Então pode compreender meus temores...
— Isso são tolices — cortou com firmeza. — Aposto que Roxbury não
saberá que retornou antes que tenha recuperado seu lugar entre a vizinhança.
Não sou uma pessoa sem importância, depois de tudo. — Contemplou sua
nora, a moça tinha sido uma beleza em sua Temporada de Debutante, uma
dúzia de homens se aproximou dela apesar de sua carência de fortuna. A filha de
um simples barão, tinha elegido seu amigo de infância, o duque de Roxbury,
casaram-se antes que terminasse a temporada só para se divorciarem depois de
um ano entre amargas acusações de adultério.
O escândalo tinha sacudido a sociedade, fazendo a jovem duquesa uma pária,
e para dar crédito às histórias, Gareth Sherwood, o conde de Carew, o melhor
amigo de Roxbury e suposto amante de Johanna, tinha estado ao lado dela.
Depois que Adrian solicitou o divórcio, Gary a levou a Itália casando-se no
mesmo dia que este foi concedido. Depois de seis anos e com dois filhos,
Johanna era livre de novo, desta vez por um acidente de navio.
Embora o destino tivesse sido cruel com ela, os anos não foram. A amargura
e a tragédia não tinham maculado sua beleza incrível, podia-se admitir que era
mais linda agora que antes. Seus brilhantes cabelos loiros como o trigo, olhos
azuis expressivos, nariz delicado, lábios sensuais e um corpo muito atrativo a
fizeram uma mulher invejada e desejada.
Um certo diplomático italiano se mostrava impaciente por consolar à
encantadora viúva e Anne não se colocaria de lado para permití-lo criar aos
filhos de Gary. A moça estava perdida em seus pensamentos considerando os
argumentos de sua sogra. Gary nunca a tinha pressionado para voltar, mas
estava morto, em seu coração sempre tinha sabido que queria voltar para seu
país com ela e os meninos. Sua expressão era séria quando levantou o olhar.
— Tem certeza que Adrian já não vive em Armitage.
— Querida, não pode suportar estar ali.
— Suponho que não será requerido que eu saia muito — suspirou. —
Duvido que eu seja recebida em alguma casa de todas as maneiras.
— Pode viver tranqüilamente se assim desejar. Tudo o que peço é que Justin
e Robin cresçam em seu próprio país.
Johanna voltou a olhar pela janela a instrutora no jardim brincando de
navegar navios de papel na fonte. O conde de cinco anos pôs o seu na água,
para o prazer de seu irmão de três anos, suas cabeças juntas enquanto a pequena
embarcação se balançava, ambos os moço eram muito bonitos de modos muito
diferentes, o maior era alto para sua idade, com seu cabelo negro e olhos
escuros, o mais jovem com uma massa de cachos loiros e avermelhados e
grandes olhos azuis, juntos eles eram muito alegres, tão curiosos e travessos que
mantiveram a mãe, a avó e a instrutora ocupadas. Justin se levantou rapidamente
quando o pequeno navio naufragou, seu jovem rosto de repente ficou muito
sério para sua idade.
— Não pensa que falaram dele? — perguntou de repente.
— Tenho certeza que vão fazê-lo, mas isso teria que ser confrontado um dia
de todos os modos, Gareth amou o moço e isto é tudo o que me importa.
Fora o menino recolheu o navio de papel e o jogo no chão, da janela sua mãe
o viu começar a chorar desesperadamente sepultando seu rosto contra a saia da
instrutora.
— Concordo — sussurrou. — Levarei-os a Inglaterra, possivelmente ali não
vão sentir tantas saudades de Gary.
CAPÍTULO 02
Adrian Delacourt passeava pela biblioteca de Armitage, com suas mãos as
suas costas. A mulher sentada na cadeira frente à lareira elevou a vista com
exasperação ao dobrar a carta que tinha estado lendo.
— Desejaria que se sentasse — disse com irritação.
— Sigo sem ver a necessidade de que Almeria venha a esta casa.
— É lógico que ela deve visitar a casa principal dos duques de Roxbury —
Helen Delacourt, duquesa viúva de Roxbury respondeu.
— Milady é uma decisão que não era sua para fazer, não havia necessidade de
convidá-la para aqui.
— Adrian, Armitage necessita sua atenção, que volte a residir aqui. Esta casa
não teve nem mesmo cortinas novas desde que aquela mulher partiu.
— Pensei que tinha deixado claro que não falaria de Johanna nem antes…
nem agora... e em nenhuma vez.
— Eu sabia que era um engano quando se casou com ela, — insistiu — era
toda uma beleza tenho que reconhecer, mas não tinha nenhuma categoria. A
filha de um simples barão sem fortuna e então o adverti, mas não me escutou. A
pequena Johanna Milford não era ninguém para ser uma duquesa, só uma puta
como demonstrou.
— Não havia nada incorreto com sua família ou educação.
— Apenas não era ideal para um duque, deve admiti-lo.
— Não admito nada, não tenho nenhum desejo de falar dela.
— Eu deveria pensar que não, depois que ela e Carew continuaram sua
aventura diretamente sob seu nariz.
— Mãe — advertiu.
— Não pode dizer que não o prognostiquei, estava tão claro como a água o
que sentiam, mas você Adrian lhe deu a possibilidade de ser uma duquesa que
ela aceitou e Carew...
— Deixe Gary em paz!
— Bom amigo resultou ser? — soprou zombando. — Perdendo o tempo
com sua esposa cada vez que você dava as costas.
— Acreditava que a discussão consistia em porque necessito aqui Almeria
Bennington. Não estou do todo seguro que eu…
— Adrian! — cortou. — Tem quase trinta anos é hora de tomar uma esposa
conveniente e ter um herdeiro.
Ele deixou de andar e ficou diante de sua mãe.
— Está decidida que eu consinta neste matrimônio, verdade?
— Se você estiver, a moça tem dinheiro, a educação e a família que se requer
da duquesa de Roxbury.
— Não tenho necessidade de uma esposa rica, mãe. Recordo-lhe que fui
capaz de conservar e aumentar a herança que me legou meu pai.
— Nunca se pode ter muito dinheiro, Adrian.
— Mas, Almeria Bennington...
— Não pode dizer-se que tenha preferência por alguma outra, e ela dará
prestígio ao título de duquesa.
— Uma verdadeira donzela de gelo — resmungou.
— Muito melhor que aquela desavergonhada com quem você se casou a
primeira vez. Nunca verá Almeria Bennington jogar-se nos braços do primeiro
homem que a lisonjeia.
— Mãe se decidir mencionar Johanna outra vez, deixá-la-ei sozinha durante a
estadia da lady Bennington e sua presunçosa família. Advirto-a pela última vez,
que não tenho nenhum desejo de falar de minha esposa.
— Sua antiga esposa — corrigiu. — Acredito que ela é Sherwood agora, não
posso imaginar como Anne a suporta.
Olhou-a com o rosto sombrio, os punhos apertados tentando controlar seu
caráter, sem uma palavra virou-se e saiu da biblioteca.
— Espere, Adrian, aonde vai? Não pode partir não terminei de falar — Vou
montar a cavalo, longe de sua presença, não quero seguir com esta discussão.
A duquesa voltou a sentar-se, tinha sondado a velha ferida e percebeu que
ainda estava ulcerada sob uma crosta de amargura. Era hora de terminar sua
paixão por Johanna Milford de uma vez e para sempre.
Reconheceu uma aliada em Almeria com uma linda frieza e uma fachada
imperturbável cujo único propósito era ser uma duquesa. Sim, desta vez Helen
Delacourt pensou ter uma nora digna do título, seus olhos se desviaram ao lugar
vazio sobre a lareira onde o retrato de Johanna tinha estado pendurado uma vez.
Tinha que pôr um ali, e rumores tinham vindo alguns meses atrás da morte de
Gareth Sherwood afogado na Itália, e Helen queria vê-lo sem perigo, casado
antes que a viúva retornasse a Inglaterra. Girou sua cabeça à outra lareira em
frente olhando fixamente o retrato de seu filho, este não lhe fazia justiça,
ninguém podia capturar a imagem de Adrian completamente.
Ah! Era fácil ver que era um homem muito bonito, com uma grande
aparência, com amplos e musculosos ombros, olhos escuros que pareciam
perfurar e ver a alma, o cabelo escuro ligeiramente encaracolado para lhe dar
uma forma tão natural que outros necessitavam horas em conseguir, a classe de
homem que as mulheres achavam muito atrativo, e até, à exceção de alguma
amante, estranha vez procurava com interesse as ladies de sociedade e ela
culpava Johanna por isso. A jovem não devia ter mais de treze ou quatorze anos
quando conseguiu ganhar o amor de Adrian e após não tinha existido nenhuma
outra para ele. A viúva apertando os lábios com desaprovação, suspirou. Se
depois de seis anos ainda não suportava a menção de seu nome, era até mais
imperativo chegar a um compromisso o quanto antes com Almeria.
CAPÍTULO 03
Os criados andavam ocupados tirando os lençóis que cobriam o mobiliário
de New Haven, enchendo de sons e aromas a extensa renovação na casa que
ficara vazia por tantos anos. Os carpinteiros martelavam, novas molduras de
gesso secavam, o aroma de pintura fresca impregnava o ar. Johanna inspecionou
o trabalho iniciado antes de sua chegada, depois se dirigiu ao pequeno escritório
que tinha sido utilizado por Gary.
Fez um balanço dos livros entregues pelo administrador do imóvel, e não
havia dúvida que era uma viúva muito rica.
— Mamãe! Mamãe!
Levantou o olhar para ver seu filho mais velho correndo pela sala passando
diante de sua instrutora, a senhorita Finchley. Pelo olhar desconsolado da
jovem, podia assegurar que o jovem conde estava em problemas. Divertida,
entretanto, encolerizou sua voz para perguntar severamente.
— O que é que tem feito desta vez, mocinho?
Justin Sherwood ficou diante de sua mãe com ar de culpabilidade. Não
esperando que ele respondesse a instrutora o agarrou pela mão.
— Perdão milady, desculpe a intrusão, asseguro-lhe que o assunto está
controlado.
— Sim, posso ver que está — respondeu com um sorriso. — Entendo que
por isso pretendia repreendê-lo e ele escapou. Justin?
Quando ele murmurou algo ininteligível, a instrutora decidiu deixá-lo entrar.
— Não foi nada milady, salvo que mesclou todas as tintas juntas e se
danificaram, mas posso enviar alguém pegar mais na cidade.
— Todas as cores, Justin? Por que fez isso?
— Travessuras de menino — interveio.
Ele levantou o olhar e seus olhos escuros brilharam brevemente.
— Caramba Finch! — replicou. — Fiz porque quis ver que cores ficariam. —
Confrontou sua mãe. — Disse-nos que mesclando o azul e amarelo obteríamos
verde, mamãe, então quis ver que cor fariam todas juntas.
— Já, entendi — assentiu. — Que cor conseguiu?
— Feio.
— Em primeiro lugar, possivelmente deveria ter perguntado, então a
senhorita Finchley o teria aconselhado que não fizesse. — Aproximou-se
afastando uma mecha de cabelo de seu rosto. — Sabia que podia perguntar a
sua instrutora.
— Sim! — veio à resposta mal-humorada.
— Que pensa que eu deveria fazer sobre isso? — perguntou brandamente.
— Se estivesse em minha posição, que deveria fazer contigo.
— Me açoitar — respondeu sem vacilar.
Ela pareceu considerar o assunto durante um momento, depois negou.
— Não, se tivesse perguntado e deliberadamente desobedecido, deveria te
bater, mas como não ocorreu isso, então, não vou fazê-lo. Em troca deve pedir
perdão por não perguntar, e também a seu irmão por destruir suas pinturas.
O alívio inundou o rosto do pequeno.
— Me perdoe Finch, não tinha a intenção de danificá-las, juro.
— Aceito suas desculpas, mas me pergunte quando quiser saber algo que eu
não tenha explicado.
— Agora, filho deve ir desculpar-se com Robin se sentirá melhor e todo o
assunto estará resolvido. Então pode voltar e faremos algo juntos, só você e eu.
— Ensinei a vários jovens Lady Carew, mas nenhum como sua senhoria. Ele
é assim… tão sóbrio, possivelmente não seja isto exatamente, mas…
— Eu sei. — Suspirou.
— Não posso culpá-lo, está em uma etapa tão delicada e perdeu seu pai
sendo tão jovem. Pensava que com sua idade se recuperaria mais rápido da
tragédia.
— Não será uma tarefa fácil esquecer Gareth e aliviar a dor ao mesmo
tempo. — Olhando a instrutora acrescentou: — Eles se adoravam mutuamente
desde seu nascimento. Gary estava sempre lhe contando histórias, levando-o a
toda parte. — Seu rosto se escureceu com lembranças ainda muito dolorosas, e
se encontrou limpando as lágrimas de seu rosto.
— Desculpe-me milady, não deveria ter abordado o assunto.
— Estou bem, asseguro senhorita Finchley, é que ninguém pode chegar a
imaginar como Gareth era realmente maravilhoso, fui muito afortunada de
havê-lo conhecido. — Tirou um lenço do bolso. — Sou eu quem deveria
desculpar-se por ser tão sensível. — Voltando para seu filho, sorriu. — Justin
esteve estudando bem o resto de suas matérias?
— Nunca vi ninguém como ele, milady Carew para ser tão jovem, tem um
entendimento e compreensão excepcional das coisas. Reconhece todas as cores,
faz somas simples, e lê melhor que muitos meninos maiores. Robert não é tão
inteligente ou inquisitivo, mas é pouco mais que um bebê.
— Oh! Não posso negar que é meu filho, Robin será um pícaro sem-
vergonha, muito mais parecido a mim que seu irmão.
— Não quis dizer milady…
— É obvio que não, mas é verdade, Justin será um brilhante estudante, é
provável que ocupe seu lugar no parlamento, enquanto que Robin passará em
uma raspagem atrás de outra. Eu era uma garota com aspecto de menino sem
esperanças até que eu…
— Mamãe! Oh, perdão por correr dentro da casa, mamãe?
Johanna pôs de novo o lenço no bolso, obrigando-se a sorrir alegremente.
— Enquanto que compreenda que não está bem e trata de se corrigir, está
perdoado, e se a senhorita Finchley pode ser persuadida a te dar permissão e,
terminar sua aula por hoje poderíamos andar por onde eu brincava quando era
uma menina, somente alguns anos mais velha que você. Tínhamos uma
fortaleza, e se me portava bem os meninos me deixavam ser um soldado e fazer
a guarda com eles.
— Uma fortaleza. Tinham armas? — exigiu saber.
— Não, eles tinham as mesmas armas que você, mas as armas de madeira
funcionavam muito bem para eles também. — Acariciou-o. — Se me lembro
corretamente, mantiveram a distância os soldados inimigos, foram sagrados
cavaleiros e combateram terríveis piratas.
— Quando? Quando podemos ir, mamãe? — seus olhos brilhando com um
entusiasmo que não tinha visto em meses. Olhou para a instrutora.
— Bem, senhorita o que devemos fazer? — perguntou. — Pode ser
perdoado de seus estudos por hoje, se amanhã terminar todas suas tarefas sem
causar problemas.
— Penso que não seria prejudicial, aproveitarei para praticar coisas mais
simples com Robert.
— Caramba! Obrigado Finch.
— Pedirei que o cozinheiro nos prepare uma cesta com o almoço e faremos
uma caminhada a fortaleza de três senhorios, então poderemos ver através do
rio a casa onde nasci.
— Podemos ir ali também, mamãe?
Johanna vacilou, o sorriso apagando de seu rosto.
— Não Justin, hoje não.
CAPÍTULO 04
Uma breve parada na cozinha para recolher a comida prometida e, mãe e
filho saíram para explorar os lugares familiares da infância de Johanna. O sol
secava os últimos vestígios da chuva da madrugada, o ar era limpo com o doce
aroma das flores campestres. Caminharam devagar, enquanto a avalanche de
perguntas não terminava, do nome de cada flor, se seu pai subiu nesta árvore ou
naquela outra. Depois de um descanso no alto de uma colina coberta de erva e o
consumo do pão, queijo e fruta, abandonaram a cesta e andaram agarrados pela
mão. Um coelho saltou de um matagal cruzando correndo diante deles, o prazer
do moço era imenso, que quis correr atrás dele, ouviam-se disparos na distância,
Johanna girou olhando de onde vinha o som.
— Devem ser os guardas-florestais — disse em voz alta.
— Onde, mamãe? Quem está aí, mamãe? Acredita que procuravam aquele
coelho?
— Não o buscavam — o tranqüilizou. — Estão muito longe, não penso que
alguém cace por aqui há muito tempo.
— Onde?
— Em Armitage.
— Quero vê-lo? — Puxou sua mão para onde se ouviram os disparos.
— Não há nada para ver ali, Justin. Vamos, voltemos para casa.
— Não, prometeu-me que me mostraria onde há a fortaleza de três senhorios
— lhe recordou. — Prometeu-me.
— Justin, não.
— Por favor, mamãe não quero voltar ainda.
Seu entusiasmo diminuiu com a lembrança de como estava perto de
Armitage. Johanna vacilou, acreditava que os anos apagaram a amargura e a dor,
mas sentiu uma pontada de perda em seu peito, sangrando ainda.
— Não devemos continuar, amor.
— Papai teria me mostrado isso, certeza, disseme que iria fazê-lo — insistiu.
— Prometeu-me mostrar a fortaleza.
Ela olhou para seu filho sentindo-se culpada por sua desilusão, era depois de
tudo para animá-lo que propôs a pequena excursão, e agora faltava com sua
promessa. Tinha vinte e cinco anos, era uma mulher, não uma moça tola,
repreendeu-se, seus sentimentos ao ver os velhos lugares eram irracional, tinha
optado por retornar, quanto antes confrontasse suas próprias perdas poderia
tratar com as de seu filho, apertando sua mão esboçou um sorriso.
— Tem razão amor e vou cumprir minha palavra, se lembro bem por sobre a
colina seguinte, acima do rio há uma corrente de água que divide as
propriedades, ali tínhamos nosso castelo, quando alcançarmos o lugar poderá
ver as chaminés da Abadia Winton, onde nasci, seguindo a borda do rio ao Sul
está Armitage.
— Posso ver a casa onde você nasceria? — perguntou inocentemente.
— Nasci — corrigiu. — Não, não podemos ir.
— Mas, por quê?
Incapaz de explicar a um menino que fora repudiada por seu pai, só negou.
— Porque não podemos.
— Mas eu gostaria.
— Quer apostar uma corrida até a colina? — adicionou para mudar de
assunto.
Por resposta, ele soltou sua mão e correu desordenadamente tão rápido
quanto suas pequenas pernas o levariam. Levantando sua saia, mostrando seus
tornozelos indecorosamente ela o perseguiu, tomando cuidado para não deixá-lo
muito atrás antes que alcançasse a cúpula, no topo girou triunfante.
— Sim! Ganhei! As miladys geralmente não correm, não é decoroso.
— Eu sei, mas papai disse que era extraordinária, para ser uma garota.
— Isto é algo que só diria seu papai.
Seus olhos escuros brilharam com lágrimas, ela se ajoelhou abraçando-o.
— Quero meu papai — gritou. — Odeio o mar, odeio-o.
— Shhhh, carinho — tratou de acalmá-lo. — Eu também sinto falta dele,
mas não podemos chorar para sempre, papai não desejaria isso, Justin — disse
acariciando com os dedos seu cabelo. — Me escute, ele queria que fosse forte
por mim e por seu irmão, é o homem da casa, para Robin também dói, mas é
muito pequeno para entender exatamente por que.
— Papai me amava mais.
— Não é verdade, e nunca deve repetir isto para seu irmão, será mais difícil
para ele recordá-lo sendo tão pequeno, não deve fazê-lo pensar que o papai não
o amava.
— Mas ele fazia mais coisas comigo.
— É obvio que fazia, mas é que é maior, venha te mostrarei onde papai lutou
contra os inimigos. — Secou suas lágrimas com seu lenço.
O lugar estava como recordava, os velhos troncos de árvores entrecruzados,
formando o que chamaram de sua fortaleza, ou seu castelo, conforme o inimigo
que enfrentassem. Mesmo sob as mais altas árvores, abrigadas entre suas raízes
estavam enterrados seus tesouros da infância, seus olhos se encheram de
imagens, de lembranças de uma época feliz alagando-a como uma corrente.
— Conhecia papai quando ele tinha minha idade?
A contragosto retornou ao presente para responder.
— Quando papai tinha sua idade eu era um bebê, foi quando era um pouco
mais velha que conheci a qualquer um dos moços, e só foi porque minha
instrutora se casou com o tutor de Delacourt, enquanto eles se cortejavam,
deixavam-nos fazer o que queríamos, nenhum de nossos pais nunca soube o que
acontecia, acredito que os meninos só me deixavam ir com eles para não ter
aulas. A senhorita Satterly e o senhor Bate se encontravam nesse prado, e nos
enviavam para brincar enquanto eles liam poesia, o que nos pareciam tolices.
Ficaram noivos durante anos, nenhum dos dois tinha dinheiro para casarem-se,
finalmente um tio do senhor Bate morreu deixando-lhe uma pequena herança,
fugiram juntos para Escócia.
— Parece estúpido — respondeu com repugnância.
— Foi comovedor, além disso, me deram a oportunidade de brincar jogos
emocionantes, em vez de me sentar irritada pintando aquarelas ou costurando
como outras moças, meu papai não se deu conta do que ocorria, estava muito
ocupado tratando de encontrar uma herdeira que arrumasse sua pobre fortuna
depois que morreu minha mãe. — A explicação foi muito séria para um menino,
que se afastou escalando os troncos, expondo uma imaginação que podia
rivalizar com Adrian e Gary, brandindo um pau como espada, gritou desafios
aos inimigos. Sua mente retornou a um passado quase esquecido quando eram
outras crianças que zombavam dos malvados piratas.
Ela era a princesa do castelo, eles seus protetores. Olhou onde tantas vezes
comeram os almoços afastados dos professores, o velho tronco seguia ali.
Andou para sentar-se sobre ele recordando os dias felizes da infância, Adrian tão
alto para sua idade, muito mais que Gary, então era um fato aceito que era o
líder, fosse Robin Hood, um cavalheiro ou um soldado. Uma vez antes de
partirem à escola, ela machucou seu joelho, rompendo sua meia e
ensangüentando seu vestido, Gary lavou a ferida acalmando seus lagrimas,
enquanto Adrian ficou de pé olhando estranhamente para a visão proibida de
seus joelhos, passaram anos até que aprendesse a reconhecer o que tinha
naquele olhar, desejo.
Com resolução se afastou das lembranças concentrando sua atenção em seu
esconderijo secreto, entre as raízes de uma árvore enorme, guardavam seus
tesouros mais queridos da infância, coisas tolas que lhes chamaram a atenção,
então, aproximou-se da árvore movendo com curiosidade a terra úmida com a
ponta de seu sapato. A caixa ainda se encontrava ali, ajoelhando-se na terra
úmida agarrou um pau e começou a desenterrá-la, quando uma ponta da caixa
apareceu, cavou debaixo dela fazendo alavanca para levantá-la, curiosa e
impaciente forçou a fechadura até abri-la olhando com fascinação os tesouros, a
caixa de rapé do pai de Gary, bonita apesar da falta de brilho, recordou como ele
ficou orgulhoso quando seu pai a deu de presente, a corrente do relógio
quebrado de Adrian que brilhava por cima de um envelope amarelado, o
medalhão de sua mãe, dado antes que tivesse morrido, intacta, apesar de cobri-la
uma mancha de ferrugem, deixou de lado a caixa de rapé, abrindo o camafeu
para revelar uma miniatura de sua mãe. Como pôde ter sepultado isto? Fechou-o
guardando-o em seu bolso, ignorando deliberadamente o envelope, concentrou
sua atenção nos outros papéis, seu pacto.
O acordo que assinaram os três de serem amigos para sempre e encontrarem-
se de novo em seu aniversário de vinte e um. Escreveram com a intenção de
deter suas lagrimas ao inteirar-se que iriam para Eton, prometeram-lhe escrever
a cada semana, um sorriso débil cruzou seu rosto, Gary tinha mantido sua
promessa, mas não foi assim com Adrian, pensado então que a tinha esquecido,
raramente escreveu.
Em sua apresentação a sociedade foi diferente, Adrian era um homem do
mundo muito mais sofisticado e encantador. Deixou-a apaixonada
completamente, lhe oferecendo matrimônio nessa mesma noite, até podia sentir
o cheiro das flores do jardim quando a beijou pela primeira vez, dizendo que
tinha esperado que ela crescesse para pedir-lhe aquele beijo e acendeu nela uma
paixão que não suspeitava que existisse, desde esse momento não houve
nenhum outro. Pobre Gary, por desgraça lhe ofereceu matrimônio nessa mesma
noite, aceitou sua declaração de amor por ser seu amigo tranqüilo e sereno.
Embora pudesse ver a dor de seus olhos. Como adivinhar que o bom, amável
Gary era o melhor dos dois? Não que não fosse bonito, era um prazer aos olhos
das mulheres, mas Adrian era emocionante, sombrio, temperamental, e foi
justamente seu ciúmes e temperamento que romperam seu coração. Tinha
perdido a ambos de maneiras diferentes, a dor de cada perda era muito difícil de
suportar. As lágrimas correram despercebidas sem controle por suas bochechas,
com cuidado dobrou de novo o papel, deixou-o com a corrente e a caixa de rapé
enterrando tudo de novo. Sacudindo as mãos contra a saia de seu vestido e se
virou.
— Faz-se tarde Justin — conseguiu dizer. — Devemos retornar antes que
Robin e a avó se preocupem conosco. — Não houve nenhuma resposta,
pensando que se escondia para saltar sobre ela, esperou.
— Justin — gritou. — Justin se está brincando, desta vez vou te açoitar saia
de onde esteja é muito tarde. — Não era normal ele zombar assim, ou ignorá-la,
indo à fortaleza de troncos com o coração acelerado pelo medo. Não havia
nenhum som, estava sozinha, alarmada subiu no tronco para chamá-lo repetidas
vezes, sem resposta. Deve haver se afastado enquanto estava absorta em seus
próprios sonhos. Revisando a zona não lhe deu nenhuma pista que direção
tomou, deixando-a mais assustada, não teria voltado para o bosque, mas lá
estava o rio que dividia as três propriedades, tinha curiosidade pela Abadia
Winton, mas disse-se que ele não podia ter ido ali.
O silêncio foi interrompido por mais disparos que vinham de Amitage,
Querido Deus! Teria caminhado para os caçadores, levantando sua saia correu
veloz, o administrador de Roxbury, ajudá-la-ia para buscá-lo, saindo do bosque
por onde o rio era pouco profundo, havia um vau para facilitar as viagens entre
as fazendas em tempos mais amistosos. Outro tiro soou muito perto.
— Não disparem, socorro — gritou sem fazer caso da água que se filtrava
por seus sapatos. Os homens apareceram em resposta a seus gritos, ficou quieta
de repente, suas mãos cobrindo seu rosto na consternação de voltar a vê-lo.
— Você — ofegou.
— Jo. — A palavra se formou em seus lábios enquanto a olhava aturdido.
Seu companheiro olhou-os perplexo por suas expressões de incredulidade.
— Milady estava pedindo ajuda — se adiantou. — Posso ajudar? —
perguntou solicito.
Relutante em olhar Adrian, virou-se para o outro homem.
— Viu um menino, senhor? Meu filho desapareceu.
— Lamento-o não o vimos, mas recentemente chegamos a esta zona —
respondeu. — Mas estamos dispostos ajudar na busca — a tranqüilizou.
Johanna contemplou os luminosos olhos cinza em um bonito rosto, muito
abstraída para desfrutar do excelente corte da jaqueta de caça, o ajuste perfeito
das calças, ou a forma inconfundível das botas de hobby, ficou impressionada,
picando com interesse imediatamente. O coríntio lhe dirigiu um sorriso
vencedor.
— Barrasford, John Barrasford a seu serviço, milady, se você me
proporcionar à descrição do moço, Roxbury e eu o buscaremos enquanto você
descansa, não deve estar muito longe dado o estado do caminho.
— Não — respondeu Adrian abruptamente.
— Roxbury — protestou Barrasford. — Não podemos deixar um menino só
perto do rio, perdoe milady a carência de maneiras de meu amigo, primeiro
cavalgarei pela borda do rio, para depois atravessar o bosque, tem alguma noção
em que direção se foi?
— Afastou-se enquanto estava distraída, se você for por este lado, voltarei
por onde vim, possivelmente ele tenha retornado.
Barrasford esteve de acordo e começou a partir.
— Como devo chamá-lo?
— Justin Sherwood, ainda não tem seis anos, mas não tem medo de
estranhos.
Ela pôde ver Adrian Delacourt ficar rígido, afastar-se sem uma palavra,
andando a pernadas para o bosque, onde pelo visto se encontravam os cavalos.
Seu companheiro de caça sacudiu sua cabeça com incredulidade.
— Não sei o que dizer, não está acostumado a ser tão áspero, milady
Sherwood.
— Não sou Sherwood exatamente, sou Lady Carew, meu marido era o
defunto conde.
O nome não parecia significar nada para ele, sinto-o foi tudo o que disse.
— Perdemos tempo o garoto pode estar assustado, se o encontrar dispararei
minha arma duas vezes para fazê-la saber.
O duque partiu depois que Barrasford só poderia considerar um grave
descumprimento de boas maneiras. A contragosto, Lorde Johnny, como era
conhecido nos círculos de Londres, abandonou à linda viúva para procurar seu
filho. Aborrecido com as mães casamenteiras da temporada com filhas de beleza
insípida, tomou algumas semanas livres para conhecer sua nova propriedade,
uma circunstância que de repente parecia prometedora, nunca tinha conhecido
uma mulher que pudesse comparar-se com a jovem condessa.
Desesperada pelo desaparecimento de Justin, e perturbada profundamente
por encontrar Adrian Delacourt em Armitage, Johanna cruzou o rio e procurou
ao longo das cercas, parando com freqüência para chamar seu filho, rezou para
ser ela quem o encontrasse primeiro.
Adrian podia ouvir ambos gritando o nome do menino quando montou seu
cavalo empreendendo a viagem de volta para sua casa. Um conflito de emoções
contrárias se apoderou dele, esquentando sua cólera e lhe enchendo de nostalgia,
foram mais de seis anos desde que a viu pela última vez, sua lembrança lhe tinha
feito injustiça fazendo a realidade tornar-se pálida, Johanna era mais que linda,
era a criatura mais encantadora que tinha visto em sua toda vida, e talvez fosse.
Inclusive, mais linda agora. Fechou seus olhos para excluir sua imagem, só para
ser açoitado pela visão dela de pé com o rosto branco e suas mãos tremendo,
quando a encarou por sua traição, no mesmo dia que a tinha abandonado.
Tinha-o enganado, sabia, e com seu melhor amigo, uma parte dele queria
mantê-la de qualquer maneira, mas no final, seu orgulho tinha ganhado sobre
seu coração.
Viu-a como tinha sido uma vez, aqueles olhos encantadores acesos de paixão,
seu cabelo cor de trigo pendurando como uma cortina de seda, brilhante à luz
das velas, deitou-se com outras antes, dúzias após ela, mas nenhuma podia
comparar-se com ela. Amou-a com loucura nos primeiros dias de casados, e o
tinha enganado. A amargura se elevou dentro dele, zangando-o de novo, tinha
sido um tolo, a fez sua duquesa sobre as objeções de sua família, e ela tinha sido
infiel, lhe roubando não só sua honra, mas também seu melhor amigo. Maldita,
maldita seja por voltar!
— Mamãe… Mamãe?
Era uma pequena voz, que vinha de algum lugar pela sebe, tremendo de
incerteza. Adrian começou a impulsionar o cavalo ao galope para afastar-se,
depois puxou as rédeas com um suspiro. Por algo que sua mãe tinha feito, o
menino não era culpado, dando um golpe no animal para retornar aonde ouvia o
soluçar ao moço.
— Aqui, venha para fora, não tenha medo — gritou.
Houve uma pausa no pranto, como um soluço, e o som dos arbustos
separando-se e saindo um pequeno que me chocou contra ele, agarrando-se a
sua perna.
— Quero a minha mamãe! Não pensei em vir sozinho.
Por impulso levantou o moço, quando o rosto do menino se aproximou, o
duque teve um violento sobressalto. Só podia olhar aturdido o cabelo negro, os
olhos escuros, as maçãs do rosto altas que eram um reflexo de seu próprio rosto.
Segurando sua respiração dolorosamente em seu peito, seu coração parou
durante um instante. O moço deixou de chorar para contemplar a expressão
estranha do homem que lhe sustentava. Durante um longo momento
contemplaram um ao outro.
— Deve ser Justin — disse simplesmente quando por fim encontrou sua voz.
O moço confirmou com a cabeça e esfregou seus olhos com os punhos
imundos.
— Quero a minha mãe! — repetiu mais tranqüilamente. — Por favor, senhor
quero ver minha mãe.
— Eu também. — Uma dúzia de perguntas sem respostas lotavam a mente
do duque quando colocou o menino contra seu ombro e andou atrás de seu
cavalo.
Sem medo, Justin Sherwood se agarrou a Adrian conversando
confidencialmente.
— Quis ver onde minha mãe nasceu, mas ela não me levaria — ofereceu
como explicação no princípio. Quando o homem que lhe sustentava não
respondeu, seguiu: — Minha mamãe é Lady Carew, sabe, e meu papai... — A
voz infantil se deteve e depois terminou, — …meu papai era um conde, mas ele
morreu. — Girou seu olhar para Adrian. — Conhecia meu papai? Eu... Eu sinto
falta dele, mas mamãe disse que tenho que superar isso, e não posso.
— Mas claro que não pode — acalmou o duque, seu próprio coração doendo
com a perda de Gareth Sherwood.
— Mas conhecia-lhe? — insistiu. — Ele vivia em New Haven quando era
pequeno, como eu.
— É obvio o conhecia. Estávamos sempre juntos quando meninos e desde o
momento que começamos a caminhar.
— E conhecia minha mãe?
Era uma pergunta inocente, Adrian suspirou e assentiu com a cabeça.
— Sim, também a conhecia.
— Ela era sempre tão bonita como agora?
— Sempre.
— Meu papai disse que ela era a melhor.
Desesperado para mudar o assunto sem fazer mal aos sentimentos do
menino, o duque perguntou: — Você gostou da Itália?
— Uh-ruh, mas à avó não. Ela fez a minha mãe voltar então eu poderia ser
um conde, mas não queria vir — confessou. — Não quero ser um conde.
— Por que não? — parou para subir o moço na sela e montou atrás dele.
— Porque todo mundo me chama, milorde, em vez de meu nome.
— Ora, isso é um problema — confessou o duque com um sorriso.
— Brinca!
— Asseguro-te que não.
— Bem, queria ser chamado milorde, todo o tempo?
— Nunca pensei nisso suponho, mas vivi com esse problema toda minha
vida.
— Tem? — Justin enroscou sua cabeça para olhar para trás. — É um conde,
também?
— Não, mas sou um duque, e se supõe que um duque está inflado com sua
própria importância, ou isso diz minha mãe.
— Tem uma mãe?
— A maior parte das pessoas a têm em um momento, ou outro.
— Bem, espero que ela seja tão boa como a minha, a minha é grande com
uma arma, sabe. Menos quando é infeliz, então chora. Como hoje.
— Hoje?
— Fomos procurar sua fortaleza, e era fantástica, mas então começou a ler
algo e começou a chorar, eu não podia suportar. Além disso, disse que três
propriedades de senhorios estavam aqui, e quis vê-los.
— Um dia terá que visitar Armitage e ver onde vivo.
— Não.
— Não?
— Minha mãe não quer visitar qualquer lugar, ouvi-a dizer à avó — suspirou.
— Mas… — esclareceu — posso contar a Robin que cruzei um rio sozinho.
— Robin?
— Meu irmão.
De algum jeito conhecer que Johanna deu a luz a outro filho era quase mais
do que Adrian queria escutar. Caiu em um silêncio preocupante que o moço não
notou.
Justin conversou sem cessar, narrando os processos de ter um irmão mais
jovem, e gabar-se finalmente: — Papai me amou mais, sei que o fez, mas mamãe
não quer que Robin saiba, porque é pequeno e não entenderia.
— Olhe! Ali está o rio!
Quase ao mesmo tempo em que o menino lançou um grito, John Barrasford
os chamou.
— Vejo que encontrou o moço! Bem feito, Roxbury!
Adrian se deteve e esperou seu companheiro de caça se aproximar.
— Milady Carew! Milady Carew! — Barrasford chamou através do vau. —
Roxbury encontrou seu filho!
A quebra de onda de gratidão pela segurança de Justin foi atenuada pela vista
dele no cavalo de Adrian Delacourt. Entretanto, andou pela água, para estar em
frente do homem que tinha amado uma vez mais que a nada.
— Obrigada, milorde — conseguiu dizer abruptamente quando alcançou a
seu filho.
— Jo…
— Mãe, ele é um duque, e quer que eu o visite.
— Não — baixou o menino ao chão e o inspecionou apressadamente. —
Está ileso?
— Uhn… ruhn… mas, estive assustado. Mãe, não quis…
Johanna caiu em seus joelhos e o envolveu em seus braços.
— Claro que não, amor, mas não foi o único assustado.
— Vai açoitar-me?
— Sim.
— Por Deus, Jo! Ele é só…
As palavras de Adrian foram interrompidas quando ela se endireitou e se
voltou.
— Mantenha-se à margem, milorde! Isto não é assunto seu!
Perplexo por algo que não entendeu, Lorde Barrasford olhou de um a outro
sentindo uma corrente de tensão entre os dois. Então olhou ao moço e outra
vez ao Duque de Roxbury. Como recém-chegado à vizinhança, em virtude de
uma herança recente, era inconsciente do escândalo, mas não era nenhum tolo.
O rosto de Johanna se ruborizou e agarrou a mão do moço.
— Bem, agora que foi encontrado, devemos retornar. Suponho que a avó
terá um pelotão de salvamento se não voltarmos logo. Justin, diga adeus a Lorde
Barrasford e ao duque, por favor.
Adrian observou impotente como puxava o moço atrás dela através do vau.
O interesse de Lorde Barrasford, à encantadora Johanna estava escrito em seu
rosto, gritou-lhe: — Lady Carew, possivelmente quando estiver instalada... quero
dizer, eu gostaria de visitá-la uma manhã.
Ela se deteve durante um momento, vacilou, e assentiu com a cabeça quando
seus olhos encontraram os de Adrian.
— Sim, certamente, se assim o desejar.
O rosto do duque se obscureceu, mas em lugar de fazer papel ridículo diante
de Johnny Barrasford, engoliu as perguntas que exigiam respostas. Mas havia
duas coisas que sabia com certeza.
Tinha um filho e aquele filho levava o sobrenome de outro homem.
CAPÍTULO 05
O famoso caráter de Delacourt, marcado pelo negro estado de ânimo e
dúvidas de si mesmo, deixou tensa a atmosfera em Armitage até que a duquesa e
os criados deixaram o duque em solidão para contemplar seu terrível
descobrimento. Um aviso débil que Almeria Bennington e seus pais deviam
chegar a qualquer momento propiciou tal amostra de aborrecimento que a mãe
de sua senhoria, pela primeira vez, absteve-se de brigar e se retirou.
Sozinho, refletiu, primeiro sobre a audácia de Johanna ao retornar, e a seguir,
sobre a dúvida persistente que poderia ter estado equivocado. E esta última
possibilidade era mais do que podia confrontar. À medida que sua raiva
diminuía, afundava-se em uma desagradável autocompaixão, sobre sua décima
garrafa de vinho Madeira em três dias, confrontou a pena pela morte de Gary.
O mundo não podia oferecer outro homem como Gareth Sherwood, não em
mil anos. Quantas vezes nestes seis anos quis compartilhar algum pensamento
profundo ou falar de algum problema complexo com ele, só para ser detido pelo
conhecimento que tinha roubado Johanna. Fez-o?
Houve um tempo que teria apostado tudo o que tinha na lealdade e amizade
de Gary. Inclusive depois que ele tinha reconhecido amar Johanna. Johanna.
Cada vez que sua imagem entrava em sua mente, tratava de apagá-la com outra
taça de vinho. Voltar a vê-la tinha sido suficiente para fazê-lo em pedaços, e
evocar de novo a terrível dor que havia sentido quando o traiu.
Agora, depois de seis anos, havia retornado para perseguir seus sonhos e
destruir sua paz. Inclusive quando a forçou a sair de sua cabeça, o rosto do
menino flutuava ante ele como um espelho fiel de outra época, quando ele era
um moço, sua imagem congelada no tempo.
Tomou o resto de sua garrafa quando o relógio marcou a hora, rompendo o
sonho melancólico e devolvê-lo ao presente. Em primeiro lugar se deu conta
que o sol não só tinha saído como estava bem alto no céu. Um rápido passar de
sua mão sobre seu rosto revelou o crescimento de dois dias de pêlo escuro.
Ainda poderia provar o vinho, que deixou um gosto forte em sua boca e o
aroma que o mesmo desprendia.
Então veio o reconhecimento que sua cabeça doía como o diabo. Levantou-
se cambaleante e fechou seus olhos pela dor. Foi um engano. O rosto do
menino, emoldurado pelo cabelo escuro e olhos escuros tão parecidos com os
seus. Com um gemido, deu tombos até a porta.
— Bem — sua mãe o reprovou sem elevar a vista quando entrou na sala —
já era hora que recuperasse seu juízo. A querida Almeria estará aqui…
— Ao inferno com Almeria! — cuspiu com tal veemência que ela o olhou
fixamente.
Um mau pressentimento se aferrou a seu estômago enquanto estudava seu
aspecto desordenado e a expressão selvagem em seus olhos. Ele se movia
devagar, cambaleando sobre seus pés, elevando-se como uma torre sobre ela.
— Está bêbado — o repreendeu em voz alta.
— Quero a verdade, mãe, e a quero agora!
— Está bêbado — repetiu.
— Sim, mas não estou tão bêbado que não sei o que faço — replicou.
Inclinou-se para frente, colocando suas mãos no respaldo de sua cadeira. —
Mãe me diga outra vez como ela foi infiel, e como você estava tão segura.
— O que? — desconcertada por aludir ao velho escândalo, conseguiu
esconder o medo repentino que sentiu. — Ah... sim, certamente, eu tinha
ouvido que ela estava de volta, mas eu mal podia acreditar em sua descarada
impudência. Mas me atrevo a dizer que não ficará muito quando
compreender…
— Não — interrompeu. — Não serei enrolado com sua conversa. Eu
gostaria de escutar a história outra vez. Diga-me o que viu e o que ouviu entre
Jo e Gary.
— Adrian, poderia se sentar? Depois de todo este tempo, ainda, não pode
duvidar…
— Mãe — advertiu.
— Nego-me a dizer uma palavra se insistir em espreitar como um falcão
sobre mim.
— Muito bem — levantou-se e retrocedeu. — Agora.
— Adrian, não pode esperar que recorde exatamente depois de tantos anos,
quero dizer não posso recordar de tudo.
— Não? — Suas sobrancelhas se elevaram com incredulidade. — Como é
possível? Cada vez que eu não quis falar sobre Johanna, estava mais que disposta
a deleitar-se em atenção com seus pecados.
— Adrian, é apenas o tempo ou lugar, agora mesmo Almeria…
— Disse ao inferno com Almeria!
— Eu gostaria que não utilizasse esse tom comigo — murmurou sua mãe,
ofendida. — Oh! Muito bem. Embora não possa imaginar porque quer recordar.
Adrian, vi-os com meus próprios olhos Eu vi… a pequena rameira cercar
Gareth Sherwood quando você estava fora de casa. Oh, você estava muito
apaixonado para ver, mas observei como ela se comportava e ele vinha aqui
continuamente em sua ausência. Tratei de te advertir, mas não quis me escutar,
verdade? Ela usava suas jóias e tratando de atuar como uma duquesa enquanto
entretinha outro homem nesta casa!
— Ela era uma duquesa, mamãe — lhe recordou secamente. — Era minha
duquesa!
— Hum! Ela nunca foi nada mais que a pequena Johanna Milford, no que a
mim respeita.
— Até agora não houve nada capaz de condená-la com algo mais que
entreter a meus amigos.
— Ele enviava-lhe presentes! Ela escreveu-lhe cartas de amor. Você estava
cego!
— Não vi nenhuma dessas cartas.
— Ela deu-lhe uma mecha de seu cabelo? Esqueceu o que disse sua donzela?
— Não, mas quero ouvi-lo de novo.
— Já ouviu, deu-lhe o cabelo para pôr dentro de um relógio. Ela disse a sua
criada: “darei isso a meu amor, algo que me recorde quando estejamos
separados”.
— Como sabia que era de Gary que Johanna falava?
— Oh, por amor de Deus! Foi a Gary a quem ela deu o relógio.
— Ele a amava. Inclusive quando éramos meninos, ele amava-a, mas isso não
significa que a seduziu.
— Ele não tinha que fazê-lo, Adrian, foi ela quem o seduziu!
— Como sabe? Diga-me outra vez!
— Vi-os entrarem no bosque, juntos. Segui-os, tinham um encontro. —
Helen Delacourt se levantou e caminhou atrás de seu filho. — Esquece que eu
sou uma mulher brandamente educada, não me faça dizer como ela estava em
seus braços? — exigiu.
— Não. Não. — Sentiu-se de repente muito frio, cansado e vazio. —
Deveria enviar, agora mesmo, um aviso aos Benningtons que sou incapaz de
receber visitas.
— Adrian, não pode! Eles esperam…
— Eles esperam que eu faça uma oferta a Almeria, mas não posso. Não me
casaria onde não há paixão. Não se pode pedir a um homem que conheceu o
fogo para contentar-se com gelo.
— Fogo? — Helen Delacourt curvou seu lábio com desdém. — Johanna
Milford é como o fogo de Harriet Wilson. Se me perguntar, foram apagadas
pelo mesmo pecado, só que Wilson se converteu em uma cortesã, enquanto que
você fez de Milford uma duquesa!
— Amava-a.
— Foi um tolo.
— Fui? Ainda me pergunto... — admitiu mais para si que para ela. Moveu
lentamente a cabeça. — Pergunto-me se alguma vez saberei realmente a
verdade. — Se voltou para partir.
Era muito para sua mãe. Ela o alcançou e agarrou a manga de sua camisa e
balbuciou indignada.
— Não sabe? É um grande pedaço de ignorante se não o souber. Se dúvida
de sua própria mãe, então considere porque se casou com Carew no instante que
o Parlamento aprovou o divórcio. Foi claramente para legitimar seu filho!
— Seu filho? — Deu meia volta para olhar para ela, e torceu a boca com
amargura. — Não, é essa a ferida final, não? São graciosos os truques que o
destino joga conosco, mãe, porque o herdeiro de Gary é meu filho.
— Não!
— Sim. Vi o menino, e mesmo um tolo não negará que é meu.
Por um longo momento mãe e filho se olharam, e depois se afastaram.
— Adrian, isto não muda nada! Almeria…
— Muda tudo para mim — lançou-se para ela. — Tenho um filho.
Helen Delacourt se afundou na cadeira mais próxima, seu desgosto escrito no
rosto. Que irônico! Murmurou para seus adendos, que Johanna tinha
conseguido trazer para o mundo um menino que se parecia com Adrian. Não
era que tivesse muita diferença no final. Depois de tudo, Adrian não podia
conseguir a guarda do menino sem parecer um tolo no final. Com esse
pensamento reconfortante, concentrou-se em Almeria. Já era hora que tivesse
uma conversa muito franca com a jovem. Sim, a chegada de Johanna a New
Haven complicariam as coisas, mas entre elas, a duquesa tinha poucas dúvidas
de que ela e Almeria poderia pôr a intrusa confabuladora no seu lugar. Algumas
poucas falações cuidadosamente deixadas cair entre os vizinhos e Johanna
Sherwood se encontraria completamente isolada.
CAPÍTULO 06
Banhado e barbeado, Adrian quase desceu quando escutou a agitação pelo
toque da companhia. Os Benningtons. Com um gemido, girou sobre seus
calcanhares e tomou a escada dos criados, cruzando a casa para sair através da
velha cozinha. Uma olhada rápida à carroça mostrava que Almeria e seus pais
pensavam fazer uma visita prolongada e de uma segunda carruagem que estava
sendo descarregada os criados tiravam vestidos envoltos em tecido. A cortesia
requer saudá-los, mas Adrian não tinha nenhum humor de suportar os pais
casamenteiros. Além disso, Almeria era tão arrogante, estava tão segura de seu
valor, que não lhe faria o mínimo dano esperar sua presença.
Sua cabeça ainda doía como o diabo, mas o sono ainda o evitava, por isso
recorreu a um passeio para limpar a cabeça com o ar de campo. O sol brilhava
apesar de um banco de nuvens no horizonte, o vento era quente e úmido com a
chuva não derramada. Necessitava a euforia da equitação durante semelhante dia
para classificar seus pensamentos desordenados.
Esperou enquanto um moço do estabulo selou a Ajax, sua égua favorita, e
posteriormente se balançou na sela. A égua estava agitada, mas Adrian sustentou
as rédeas sob controle até que trotassem pelo prado. O animal passou a cerca de
um salto grande. Galoparam ao longo dos campos, até que alcançassem as sebes
que limitavam com Armitage. Debaixo de uma encosta suave se encontrava o
rio e o vau.
Deteve-se para contemplar o lugar onde as propriedades de três senhorios
convergiram. Tinham transcorrido mais de seis anos desde que transpassou
aquele rio e ainda, parecia ser ontem. Seus olhos viajaram até onde ela se
encontrava no outro dia, mas o lugar estava silencioso e deserto. O que lhe havia
dito o moço? Que eles vieram para ver onde tinha brincado quando era menina?
Por impulso deu um golpe no animal e atravessou a sebe, desceu pelas rochas
molhadas que se estendiam pelo leito do rio.
Era estranho que a natureza pouco mudou apesar das voltas da vida do
homem, enquanto observava os velhos e ainda familiares lugares. Observou os
troncos caídos que ele e Gary tinham usado como uma fortaleza. Durante um
momento fechou seus olhos, esperando ouvir suas vozes uma vez mais.
Aproximando-se, viu a terra removida sob a velha árvore e se sentiu
inexoravelmente atraído para ela.
Desmontando, explorou a terra suave com a ponta das melhores botas de
hobby até que golpeasse a borda de algo metálico. O cofre do tesouro da
infância de três amigos. Descuidando de suas calças de cachemira, ajoelhou-se e
com impaciência exumou a caixa.
Suas mãos tremeram ao abri-la e ver de novo seu conteúdo. A caixa de rapé
de Gary, sua corrente, o camafeu de Johanna, mas o medalhão não estava ali.
Ela deve ter recolhido, decidiu. Desdobrou os papéis e leu suas promessas
infantis. Pobre Gary foi um companheiro fantástico, tão cheio de vida. Inclusive
agora, era capaz de recordar seu senso de humor sardônico. Quase sem ser
consciente lhe veio à mente o rosto de Gary, mas não era o rosto que queria
recordar. Em troca, viu-o como na última vez, com o rosto branco e zangado,
lhe chamando de tolo. Adrian dobrou de novo os papéis e pegou um envelope.
Estranho, não recordava dele ali. Derrubando-o de sua mão, sentiu um
nódulo duro, e o abriu. Atordoado, contemplou o anel de casamento de
Johanna, seus diamantes e safiras refletiam os raios do sol.
Agitando-o na palma de sua mão, recordando de novo a euforia que sentiu
quando o tinha aceito em vez de Gary. Ela era a moça mais encantadora, mais
linda que tinha tido o privilegiado de ver.
E tinha se convertido na mulher mais encantadora, mais linda que sua
memoria lembrava. Ele tinha somente vinte e três quando se casaram, recém
saídos de seus primeiros dias de adolescência, mas sabia o que queriam, até
então. Ah, ainda poderia ouvir seus pais destrambelhando cada palavra de
censura que jogaram contra ele. Que era a filha de um mero barão, seu pai havia
dito; que era uma coquete, uma aventureira faminta de dinheiro, sua mãe
acrescentou rancorosamente. Eles nunca deram uma oportunidade a Johanna.
Era muito doloroso continuar, estes sonhos dos melhores tempos que foram
esquecidos. Meteu no bolso o anel e pôs o resto dentro da caixa e atrás em sua
tumba de terra. Levantando-se, limpou suas mãos nas calças e andou até aonde
o cavalo esperava. Maldita Johanna! Pensou abruptamente por que teve que
voltar e lhe castigar com o menino?
O moço. Ela tinha dado a luz a seu filho sem lhe dizer nada, um filho que
levava o sobrenome e título de Gary. Montando de novo, empreendeu a viagem
de volta através do vau e parou na borda.
Não, tinha que saber, tinha que ouvir de seus lábios que o moço era dele.
Galopando abruptamente, se voltou para New Haven. Deve ter sido uma
brincadeira amarga para Gary saber que seu herdeiro era filho de Adrian, já que
só um cego poderia negá-lo. Ao menos nunca tinha tirado à ira ou amargura no
menino. Mas Johanna.
Johanna lhe devia algumas respostas.
Tão preocupado pelas perguntas em sua mente que mal notou que tinha
chegado até ver os aguilhões sobre os telhados. Antes que pudesse desmontar,
Perkins, o velho administrador, estava diante dele e não havia nenhuma boa-
vinda no rosto hostil do homem.
— Olá, Perkins.
— Está invadindo uma propriedade privada, milorde — o homem mais
velho lhe recordou com frieza. — Agradeceria-lhe se partisse antes que haja
problemas.
— Vim para ver Lady Carew. — De algum jeito, o nome quase colou em sua
garganta.
— Ela não quer lhe ver, Sua Graça.
— Confunde o assunto, vim para devolver algo dela.
— Pode deixá-lo comigo.
Parecia uma bofetada ouvir tal frieza de um homem que tinha levado uma
vez a dois pequenos moços para caçar, nos dias quando Adrian ficou em Haven.
O duque olhou ao redor e se encontrou rodeado por moços do estabulo com
cara severa.
— Perkins… — Nesse momento, viu os moços brincando na esquina da
casa. — Não importa. Justin! Justin!
O menino mais velho parou e girou.
— Duque! É o duque! — gritou a seu pequeno irmão. Ele trotava em suas
robustas pernas para onde Adrian estava sentado em seu cavalo. Detrás dele, o
moço menor tropeçou, seu cabelo vermelho e dourado igual ao de Gary.
— Justin! Justin, venha aqui! — Johanna gritou ao surgir da casa. Ambos os
moços pararam e deram a volta para ela.
— Mas, mamãe, é o…
Suas palavras foram cortadas quando se lançou sobre eles e revolveu o cabelo
de cada menino.
— Vão para dentro que a senhorita Finchley está lhes procurando.
— Mas…
— Justin — Não havia dúvida na advertência de sua voz.
— Ah, bem — capitulou abruptamente — mas…
— Não, vá com o Robin.
Durante um momento Adrian pensou que ela lhe falaria, em troca optou por
ignorar sua presença e começou a seguir aos moços.
— Espera, Jo! Jo, tenho que falar contigo! Tenho que saber! — desceu do
cavalo e andou a pernadas atrás dela.
Ela fez uma pausa breve e endireitou sua régia figura. Com suas costas ainda
para ele, respondeu, — Não tenho nada para lhe dizer, milorde. Tudo foi dito
em seu momento.
Ele agarrou seu braço e a fez girar para estar de frente a ele.
— O menino é meu, não é Jo?
Quase imediatamente foram rodeados por criados.
— Solte-a, Sua Graça, ou lhe darão um tiro por entrar ilegalmente nestas
terras — anunciou Perkins.
— Está tudo bem, Perkins. Sua Graça partirá sem violência, tenho certeza.
— Voltando seus olhos frios para Adrian, ela sacudiu sua cabeça
definitivamente. — Não, — respondeu categoricamente — o sobrenome com
que ele nasceu foi de Gary, foi a mão de Gary que balançou o berço quando
estávamos na Itália, Gary estava orgulhoso de chamá-lo de seu filho. — Seus
olhos caíram onde segurava seu cotovelo. — Agora, se me desculpar, não tenho
a intenção de lhe convidar para entrar.
— Deixe-a ir! Sua Graça — advertiu o administrador outra vez.
— Por que não me disse? — insistiu.
Ela se afastou, traindo a ira que sentia.
— Não teria acreditado em nada do que eu dissesse. Bom dia, milorde.
Vários dos homens o alcançaram, mas os empurrou e a perseguiu. Ela andou
mais rápido, mas ele a agarrou outra vez quando alcançou o degrau mais baixo
do pórtico. Desta vez, pôde ver a amargura em seu rosto encantador quando ela
se virou.
— Não fez suficiente? — exigiu.
— Tenho que saber Jo, é meu filho, verdade?
— Não, é meu. Agora, se não se opuser, eu gostaria de entrar.
— Não tenho que perguntar Jo, posso ver. Não tinha direito de me ocultar
isso Os olhos azuis encontraram os seus diretamente, e seus lábios se curvaram
com desdém enquanto olhou o homem que tinha amado uma vez. Um pequeno
sorriso zombador lhe escapou.
— Não Dree, comete um erro. Você perdeu qualquer direito sobre mim ou
ao que fosse meu quando em público arrastou meu nome e minha honra em um
divórcio. Sou uma adultera! Recorda-se, e Gary... O doce e leal Gary, marcaram-
no como meu amante. Nunca te perdoarei por isso, Dree. Justin pertence a
Gary. Justin é agora o Conde de Carew.
Ele conteve sua respiração e soltou o ar devagar.
— Esta é sua vingança, Jo?
— Não... Gary tinha razão, é um imbecil! Agora, nos deixe em paz, vamos
seguir cada um por nosso próprio caminho.
Quase como uma idéia de último momento, caçou em seu bolso e tirou o
anel. Agarrando sua mão, passou-o para sua palma.
— Encontrei algo que você perdeu.
Ela olhou para baixo quase imperceptivelmente e depois simplesmente virou
sua mão, deixando o anel cair ao chão.
— Não. Não, Dree, não foi perdido, foi sepultado com o resto de minhas
coisas de menina.
Desta vez, quando ela se liberou, não tratou de pará-la, observando
impotente como subia os degraus e entrava na casa.
CAPÍTULO 07
— Não pode fugir disto, querida — raciocinou lady Anne. — Devolver os
meninos a Itália só adiará o desagradável.
— Mas, mamãe. Adrian sabe
A condessa viúva olhou para a roupa de Johanna que estavam classificando
para embalar e sacudiu a cabeça. Tinha esperado ter mais tempo, mas não tinha
considerado a possibilidade que Adrian Delacourt estivesse na casa antes que
Johanna tivesse a oportunidade de restabelecer-se. Em voz alta protestou: —
Ele é civilizado, e não vai comportar-se estupidamente. Muito bem, sabe, mas
possivelmente é o melhor. Preferiria que o averiguasse quando Justin tenha
idade suficiente de conhecer a verdade e for prejudicado pelos murmúrios?
— Não se comportará como um tolo? — levantou a voz Johanna com
incredulidade. — Não se comportará como um tolo? Mamãe, veio aqui e
justamente chamou-o aos gritos frente ao senhor Perkins e todo mundo! Para
amanhã, estará em todas as bocas da vizinhança.
— E te alarmou desnecessariamente — murmurou a anciã com simpatia. —
Venha, vamos solucionar isto — tranqüilizou ela. — Então ele sabe, e todos os
outros com o tempo. Considerando a semelhança com Justin, sabíamos que isso
aconteceria, não? Mas, o que pode fazer a respeito? Não será bom para sua
imagem admiti-lo e então o reconhecerá uma vez que recupere o juízo. Foi sua
esposa.
— Divorciou-se por adultério — lhe recordou.
— Mais razão para sustentar sua língua. Se remover o assunto, ficará como
um verdadeiro tolo, e a simpatia de todos virá a Você. Posso assegurar isso,
querida, parecerá muito peculiar que a acusasse quando era óbvio que levava seu
filho em seu ventre.
— Ele nunca soube. Gary queria que lhe contasse, mas não fui capaz. Eu não
teria voltado com ele depois do que disse, mamãe. Gary chegou a compreendê-
lo.
— Sei que o fez — concordou ao aproximar-se para transmitir uma
consoladora carícia ao ombro de Johanna. — Não deve pensar que lhes
condenei, nunca, mas isso passou. Uma vez que Gary decidiu seu curso de ação,
pude ver que não havia como voltar atrás. Foi suficiente para mim saber que o
fazia muito feliz e que amava o menino. De fato, seu sentido da honra me fez se
sentir muito orgulhosa.
As lágrimas encheram os olhos de Johanna e as limpou furiosa, murmurando.
— Não entendo como me converti em um regador. A vida é tão injusta,
mamãe.
— Não deve dizer isso. Gary…
— Gary morreu! — o rosto do Jo se enrugou lastimosamente. — Mamãe,
não posso enfrentar todo mundo sem ele!
O braço de Anne Sherwood apertou o ombro de sua nora e lhe deu uma
suave sacudida.
— Pode e o fará! — falou com veemência. — Pelo amor de Gary e por seus
filhos.
— Não!
— Johanna, se controle! O tempo cura as feridas, casará de novo, tenho
certeza.
— Nunca! — respondeu lutando para recuperar o controle com um soluço
afogado. Assuando o nariz com o lenço, sacudiu a cabeça. — Não desejo fazer
tal coisa, mamãe, porque a dor da perda é muito grande.
— Educaria a dois meninos em uma casa cheia de anáguas, não? —
perguntou razoável. — Não quero apressá-la a outro matrimônio, mas chegará
um momento quando deveria considerá-lo. — Deixou cair sua mão e se voltou
para as servas que preparavam a bagagem. — É Inglesa, e seus filhos são
Ingleses. Peço-te, do fundo do coração de uma anciã, não abandone a terra de
nascimento de meu filho.
— Por quê? — exigiu amargamente. — Vão ser rechaçados porque sou sua
mãe.
— Não. Uma vez que a semelhança de Justin com Adrian seja contemplado,
dirão que foi uma vítima inocente dos ciúmes de Roxbury.
— Sua mãe, quer dizer.
Anne sentia que estava ganhando e se aproveitou da vantagem.
— Por favor, por nada no mundo quero te fazer dano, mas ao menos tenta
provar as águas. Se, até então, de verdade te for impossível de suportar, vou
voltar para a Itália com vocês.
— Diz de verdade?
— Os meninos e você, são tudo o que tenho.
— E é para mim mais que minha própria mãe — respondeu com um suspiro.
— Muito bem. Não tenho tão pobre espírito que não possa suportar os
desprezos da sociedade por um tempo. Mas duvido que convidem a algum
lugar.
— Bom, vamos começar nos sentando em nosso banco na igreja.
Um discreto golpe na porta a interrompeu, avisando a Johanna que duvidava
que alguém desse a boas-vindas a uma publica pecadora. Anne assentiu com a
cabeça a uma criada para abrir. James, o lacaio, tossiu em tom de desculpa pela
intrusão, e estendeu um elegante cartão branco.
— Há um senhor solicitando vê-la milady — se dirigiu a Johanna. — Disse-
lhe que não acreditava que o recebesse, mas insistiu que lhe pergunte antes de
sair.
Jô tomou o cartão e o voltou para ler.
— JTE Barrasford.
— Quem é ele? — perguntou com curiosidade.
— Lorde Barrasford — olhou o cartão perplexa, pensando em voz alta. —
Suponho que veio para comprovar como se encontra Justin. Foi ele quem te
mencionei que me ajudou a procurar meu filho.
Anne observou o bonito rosto de Johanna e duvidava muito que esse era o
caso.
— Então, por todos os meios, deve vê-lo. Esther, pegue um pano empapado
em água fria para os olhos da milady Johanna, e Kate, não guarde o vestido
cinza.
— Mamãe, é muito elegante para usar em casa — protestou Jô sem poder
fazer nada.
— Tolices! — a viúva rechaçou energicamente. — Quando alguém está de
luto, a elegância do tecido e o desenho terá que fazer o que a cor não pode.
— Mamãe!
— Além disso, vai tirar o negro em uma semana mais ou menos, de todas as
formas — adicionou imperturbável. — Vamos, depressa. James, informe a
Lorde Barrasford que sua senhoria descerá em seguida.
Se seu ânimo não estivesse tão saturado de tristeza, os esforços conjuntos da
Anne e as duas criadas para pô-la apresentável, diverti-la-iam. Agora, usava seu
vestido cinza, seu cabelo loiro estava penteado e recolhido cuidadosamente com
apenas umas mechas soltas para suavizar a severidade do estilo, e água de
lavanda foi esfregada para apagar as manchas de lágrimas em suas bochechas,
todo isso em quinze minutos.
John Barrasford girou ao vê-la entrar no salão azul, segurando a respiração.
Durante um dia e uma noite, afirmou-se a si mesmo que não podia existir uma
criatura como a que recordava, e aí estava ela. Sem palavras, observou a
perfeição de sua fisionomia, sua figura magra e estreita cintura. Esperou, uma
pergunta daqueles olhos azuis olhando fixamente os seus. Havia uma tristeza em
seus olhos, uma tristeza que estava desconjurado em meio de tanta beleza. Com
um esforço, controlou-se e conseguiu avançar para saudá-la.
— Lady Carew. Perdão por interferir depois de tão breve conhecimento, mas
eu gostaria de saber como se encontra o menino.
Um leve sorriso apareceu em sua boca, que não chegou a seus olhos.
— Se não contarmos com os dez açoites, milorde, não sofreu muito por sua
aventura — Ela fez um gesto para o sofá frente a uma lareira vazia. — Quer
sentar-se? Estaria contente de pedir um pouco de chá.
— Eu gostaria disto sobre todas as coisas — admitiu com um sorriso
encantador. — Estou sedento pelo passeio sob o sol.
— Sim, faz bem mais calor, não? Possivelmente prefira limonada.
— Sou uma pessoa muito fácil de agradar, Lady Carew. Tomarei o mesmo
que você.
Sentiu-se irritada com a presença do bonito estranho, perguntando-se se
tinha chegado para uma inspeção mais próxima de uma mulher infame. Suas
seguintes palavras dissiparam seus temores.
— Em realidade, vim porque sou novo na vizinhança e não conheço
ninguém além de Roxbury. A Milady Sheffield dá uma pequena festa com o fim
de me apresentar à nobreza local. — Fez uma pausa para olhar o vestido cinza e
perguntou: — Ainda está de luto por Lorde Carew, milady?
— Meu marido morreu faz um ano esta semana — respondeu em voz baixa.
— Oh! — esclareceu a garganta e seguiu adiante com valentia, sentindo-se
como um jovenzinho, em lugar de um homem de trinta e três anos. — Então,
deixará o luto na próxima semana, verdade?
— Não sei, — olhou-o curiosamente, e esperou.
— Bom... Quero dizer, espero vê-la em casa dos Sheffield.
— Não fui convidada.
— Tolices! Vou pedir que lhe enviem um cartão, Lady Carew, duvido que ela
saiba que esta residindo aqui. Eu não sabia. De fato, com muito gosto a levarei
comigo.
Johanna conteve a respiração tentando formar as palavras.
— Não pense que sou ingrata, milorde, mas não posso impor a sua bondade.
— Com resolução o olhou. — Pode não ter ouvido a história, senão, tenho
certeza que não se encontraria aqui.
— Desculpe?
— Milorde, falarei claramente — dito isto, procurou em seu rosto e se
perguntou como ia reagir a suas palavras. Era um homem bonito e bem
favorecido, seus olhos, apesar de serem cinza em lugar de avelã, recordavam-lhe
de algum jeito os de Gareth. — Talvez, então, nem sequer deseje esperar a
limonada. — Deu outra respiração profunda e começou sem rodeios. —
Milorde, meu primeiro marido foi Adrian Delacourt.
— Roxbury? — Os olhos cinzas olharam-na com sobriedade. — Então, isso
explica o menino.
— Sim. Fui duquesa de Roxbury, até que se divorciou de mim. O suposto
motivo foi por adultério, compreende. — Sua boca torcida para expor a
amargura que sentiu. — Lorde Carew, meu querido amigo de infância, estava
comigo, me apoiou e nos casamos no dia que o Parlamento aprovou o divórcio
que Adrian apresentou contra mim. Fomos para a Itália e vivemos ali até que ele
morreu. — Sua voz se reduziu a quase um sussurro. — Justin acredita que Gary
era seu pai, ele o amava. — Engoliu saliva para manter a compostura e, levantou
seu queixo desafiante. — Portanto, milorde, se você não pode aceitar me
conhecer melhor, entendo-o. Depois de tudo, meu próprio pai não fala comigo,
então, por que você deveria?
— Acredito que eu gostaria de beber a limonada, Lady Carew — respondeu
em voz baixa. — E, querida milady, tenho visto um grande número de mulheres
livres e seus favores. E posso dizer honestamente, que não acredito que você
seja uma delas. E será uma honra conhecê-la e estarei muito orgulhoso de ser
visto em sua companhia.
CAPÍTULO 08
— Se anime, meu amor — a condessa aconselhou Johanna quando a
carruagem Carew as deixou no pórtico da mansão Sheffield. — Recorde que
recebeu um convite como todos os outros.
— Provavelmente devido à bondade de Lorde Barrasford — resmungou em
voz baixa. Suas mãos úmidas alisaram a seda azul para apagar as rugas do
passeio, de resto não havia nada em seu rosto que traísse a confusão interna que
sentia em sua primeira incursão na sociedade inglesa desde sua volta. Em efeito,
inclusive o observador mais interessado teve que admitir que seus perfeitos
traços pareciam majestosamente serenos.
As cabeças deram volta quando suas sapatilhas seguiram os passos de sua
sogra, e ouviu que mais de um jovem sussurrava, “Quem é a beleza?” Johanna
irritada não queria escutar a resposta.
Embora fossem mais das nove, fora à noite ainda era muito quente e o ar no
interior sufocante. Quando entrou no salão de baile, poderia ver os criados
abrirem as janelas em cada extremo do salão e deixar entrar a brisa do jardim. O
ar renovado era refrescante com o aroma das rosas, avivando a lembrança de
Johanna. Tinha sido numa noite como esta quando fez sua apresentação em
sociedade em Londres.
— Foi amável por vir, querida Lady Carew — murmurou sua anfitriã ao
inclinar-se e plantar um amável beijo na bochecha brandamente empoada de
Anne Sherwood. — Passou tanto tempo, mas tínhamos a esperança de sua volta
ao país.
— Itália é encantadora, — confessou Anne — mas não há nada como estar
em casa, juro. — Com uma inclinação leve de sua cabeça para Johanna
acrescentou: — Tenho certeza que recorda de minha nora.
Por um breve instante Johanna pensou que seu coração se deteria. Para seu
alívio, Annabelle Sheffield simplesmente assentiu e ampliou sua mão.
— Lady Johanna.
— Então no final decidiu vir — uma voz masculina sussurrou em seu
ouvido. — Querida Milady, alegrou minha tarde.
Ela se voltou e quase se chocou com Lorde Barrasford. Seus olhos
mostraram um interesse que reconheceu durante um instante, mas a diferença
de tantos outros de seu sexo, eles mostravam também bondade. De fato, em
suas várias visitas, seu comportamento tinha sido exemplar.
— Obrigada, milorde — murmurou agradecida.
— Surpreendente a multidão, e duvido que tenham chegado todos.
Possivelmente gostaria de uma cadeira perto de uma janela e um copo de
limonada. Seria muito feliz de conseguir ambos, Lady Carew. — Sua boca
mostrou um sorriso e seus olhos quentes ao olhar o vestido de seda azul com
sua cintura alta, amplo decote, e saia estreita. Era elegantemente singelo e isto a
satisfazia à perfeição. — Sua beleza faz o vestido ficar charmoso. Muito
freqüentemente, encontro o inverso.
— Moeda falsa, milorde! — respondeu com um sorriso quando ofereceu seu
braço. Ela vacilou antes de tomá-lo.
— Absolutamente, asseguro. Serei a inveja de todos os homens aqui esta
noite.
— Continue querida — impulsionou Anne. — Vejo Margaret Thayer, e não
dialogamos em anos.
Ele colocou seu braço no oco de seu cotovelo e se dirigiu para um lugar mais
tranqüilo.
— Importaria se tomasse a liberdade de chamá-la Johanna? É tão confuso
falar com duas Lady Carew.
— Lorde Barrasford…
Havia uma desconfiança em seus olhos que lhe disseram que ia muito rápido.
— Muito bem, seguirei com Lady Carew.
Ela acessou.
— Johanna está bem, milorde.
— John. Meu nome de batismo é John e meus amigos me chamam Johnny.
Como se fosse um sinal, um homem jovem os alcançou.
— Johnny, apresente esta linda deusa. Não é justo que roube a oportunidade
do resto de nós.
Barrasford parou.
— Ah Symington, não? Muito bem, Lady Carew, posso lhe apresentar
Charles Symington? Charles, Lady Johanna, Condessa de Carew.
Houve uma mudança perceptível da atitude do jovem, uma audácia repentina
quando a contemplou com renovado interesse. Ela o olhou com frieza.
— Lorde Symington.
— Não sabia que estava de volta em…
Suas palavras foram interrompidas por uma mulher com o rosto magro que
abriu passagem para puxá-lo por sua manga.
— Charles! — pronunciou bruscamente. Fingindo não reconhecer Johanna,
dirigiu-se a Symington. — Lady Corville está aqui com suas filhas, Charles, e
assegurei que será cortês com elas. Se você nos desculpar, Lorde Barrasford. —
Sem esperar uma resposta, impulsionou firmemente o jovem a afastar-se.
— Sua mãe — ofereceu ele como explicação.
— Assim entendi que fosse — suspirou. — Temo que tenha testemunhado o
primeiro rechaço desta noite.
— Não vale a pena conhecê-la, de todos os modos, então eu não me afligiria.
— Despedindo-se dos Symington, mudou o assunto. — Me diga Lady Johanna,
dança a valsa?
— Sim, mas…
— Bom, vou esperar pelo menos dois bailes esta tarde.
Através do salão, as mães casamenteiras observaram com desgosto quando
Lorde Barrasford encontrou para Johanna uma cadeira e se filiou a ela em uma
conversa amistosa. Sua aparição na vizinhança tinha levantado várias esperanças,
em particular quando não só era um solteiro bonito, mas também possuía cerca
de trinta mil libras. E, entretanto se sentou com uma mulher cuja imoralidade
comprovada o tornou totalmente inelegível.
Ele notou o número de olhares em seu caminho com certa satisfação. As
mães pareciam como aves de rapina sempre descendo sobre um homem elegível
para apresentar às moças.
— Alguém pensaria — observou Lady Chatsworth com uma aspiração, —
que Lady Sheffield já teve melhor gosto, não está de acordo?
— Suponho que Anne Sherwood teve uma mão nisto — decidiu sua
companheira — já que ela nunca pôde ver Johanna Milford pelo que era, uma
intrigante descarada, com o coração voltado a destruição de Gareth.
— Bem, de minha parte não tenho a intenção de reconhecer sua presença, e
notei que Lavinia Symington lhe deu um corte direto.
— Não sei, Anne é para mim uma pessoa querida, talvez me limitarei a ser
indiferente.
— Ora, que seja! É hora de nos mantenhamos unidas e deixamos claro que
Johanna Milford não é bem-vinda na sociedade. Se não fizermos nada, cada
homem do condado estará atrás dela.
— Bem, — soltou à lady Carleton quando se uniu ao grupo — vai ser
interessante ver o que ocorrerá agora. A menos que esteja confundida, é
Roxbury que entra com lady Bennington. E sua mãe está detrás deles.
— Lady Bennington? — milady Chatsworth disse momentaneamente
divertida. Olhando fixamente para a entrada onde Adrian e sua comitiva tinham
feito uma pausa saudando a anfitriã, que respondeu saudando com a cabeça. —
Acredito que Lady Sheffield escutou à duquesa dizer que Roxbury pensa em lhe
fazer uma oferta. Uma pena que teve que ir a Londres para encontrar outra
esposa, mas suponho que é uma irreprochável moça.
O objeto deste zumbido do interesse, Almeria Bennington, pôs um braço no
duque mostrando sua propriedade ao entrar na sala, chamando a atenção a sua
passagem. Ela era ligeiramente mais alta do que estava em moda e seu cabelo era
tão escuro como o de Adrian, por outra parte ela encontrou todas as exigências
para um reinado como incomparável. Seu vestido de musselina rosada era
recatado, mas isto mostrava sua figura magra, casulos rosados diminutos foram
entrelaçados em uma coroa de cachos negros. Um fio de pérolas rodeava seu
pescoço esbelto e se acomodava no oco de sua garganta branca. O efeito era
devastador em cada lady e mãe na sala.
Lady Carleton foi à primeira em encontrar sua voz quando a beldade foi
identificada.
— Aquele vestido deve haver custado cem libras — comentou ligeiramente.
— Não haverá um lorde no salão que não notará seu vestido — se
pronunciou outra em tom grave.
— Enquanto, minha querida Charlotte é uma moça agradável, não posso
pensar que chamasse a atenção esta noite.
Atrás delas, Lady Symington, tinha esperanças de um contrato entre seu filho
e uma das moças Corville, fechou seus lábios em uma linha magra de
desaprovação.
— É toda uma prostituta, Annabelle Sheffield planejou isto para sua diversão
sem pensar no efeito que causaria em nossas jovens. Nossas moças serão postas
na sombra pela incomparável de Londres e a fresca de Sherwood, e nossos
jovens farão papel de bobos.
Lorde Barrasford olhou quando Johanna viu a chegada de Adrian Delacourt.
Além de certa rigidez em sua postura já perfeitamente reta e uma brancura em
sua boca, ela não mostrou nenhum sentimento ante a vista dele. Em
compensação, virou-se para Barrasford e lhe dirigiu um sorriso tentando
mostrar ao mundo que o Duque de Roxbury carecia do poder de feri-la.
— Acredito que ao final tenho sede, milorde.
Ele respondeu com prontidão.
— Ponche ou limonada?
— Limonada, por favor.
Instalando-se em sua cadeira, ela se refrescou com um leque e esperou sua
volta. Durante um incômodo momento elevou a vista para encontrar Adrian
contemplando-a, e lutou contra o impulso de fugir desse negro olhar. Em lugar
de baixar seus olhos, simplesmente girou sua cabeça para estudar uma fila de
ladies pouco atrativas, perguntando-se como se reuniam entre elas, em vez de
mesclar-se entre a multidão.
Duas damas passaram diante dela, suas vozes baixas. Uma terceira se filiou a
elas e olhou em sua direção, o que provocou um silêncio repentino e olhadas
geladas. Lamentou-se ter enviado Barrasford pegar bebidas.
— Lady Carew?
— Sim.
Um libertino envelhecido com seu espartilho rangendo se sentou na cadeira a
seu lado, inclinou-se mais perto de uma maneira familiar. Seus olhos
percorreram seu rosto para deterem-se em seus seios, seus lábios franzidos
apreciando a vista. Sua maneira, mais que ser amistosa, acabou sendo insultante.
Ela se ergueu com altivez e lhe deu um olhar frio.
— Você tem a vantagem, senhor, mas não tenho nenhum desejo conhecê-lo.
— Muito bom para seus gostos, não? — mofou-se. — Sabe, aqui há quem
não esqueceu que é a roupa desprezada de Roxbury.
— Está bêbado, Falburton — falou Lorde Barrasford com frieza detrás
deles. Dando a Johanna um copo de limonada, ficou diante do ancião. — Além
de ser um trapaceiro — acrescentou intencionadamente.
— Ouça aqui…
— Não. — Sua senhoria era firme. — Está em minha cadeira, agora que
penso nisso, receio que devo pedir que me devolva, Falburton.
O velho lhes dirigiu um olhar malévolo, levantou-se, resmungando, — Não
há algo que saiba fazer sem interferir no esporte de um homem, Johnny.
— Sinto muito, não devia deixá-la só para se defender de gente como ele —
murmurou suspirando.
— Talvez não devesse ter vindo.
— Tolices!
Helen Delacourt observou o pequeno contratempo entre Falburton e
Barrasford com satisfação e procedeu a tirar o máximo proveito disso. Era
suficiente suportar que Adrian estivesse embevecido, fazendo caso omisso de
Almeria e olhando para Johanna. Não deveria se permitir perder a fortuna
Bennington por uma paixão imprudente com a desventurada usurpadora. Com
determinação severa a duquesa procedeu a expulsá-la do baile.
— Ah, Sally! — aproximou-se da esposa do vigário. — Sempre tem que
questionar a sabedoria de convidar uma multidão para uma festa, não pensa
você assim? Quero dizer, uma festa pequena é preferível. Então se pode ter
certeza de não se encontrar com gentinha.
Sally Greenlea seguiu sua linha de raciocínio perfeitamente.
— Assim é. Não posso entender o que pensava Annabelle, devemos supor
que não desejou ofender Anne Sherwood.
— Anne, ainda, é uma estúpida se não sabe como é essa mulher, pobre
Gareth passou um escasso ano de sua morte e já tem Barrasford em suas garras.
— Pobre Gareth?
— Ah, nunca o culpei, foram às armadilhas dela que o arruinaram. E agora a
aventureira marcou uma nova vítima.
Era uma conversa que Johanna e Barrasford não podiam evitar ouvir.
Repentinamente com o rosto severo.
— Acredito que começa uma valsa, nossa valsa.
— Ah... uhh.
— Agora não é o momento para um coração débil, Lady Johanna mantenha
a cabeça alta e siga meu exemplo.
— Mas...
Ele tomou o copo de sua mão e o colocou na cadeira.
— Desafiá-los é a única maneira, — asseguro-lhe. Antes que pudesse
protestar, levantou-a de seu assento e caminharam para a pista de baile. Ela
fechou seus olhos brevemente quando seu braço rodeou sua cintura, e se
concentrou nos passos em silencio, em um esforço por manter a calma.
— Essa é a imagem — animou ele. — Agora, se puder, procure a forma de
parecer que aproveita, faremos essas fofoqueiras correrem.
Adrian, tendo ouvido por acaso os esforços de sua mãe para fazer
desacreditar Johanna, transladou-se para fazê-la calar.
— Falando de estúpidos, mãe — sibilou quando a agarrou — não posso dar
crédito que esteja determinada a ressuscitar um velho escândalo que não faz
honra a qualquer um de nós. Se ouvir como pronuncia seu nome outra vez esta
noite, deixá-la-ei sozinha para entreter aos Benningtons, e pode dar qualquer
desculpa que prefira.
— Não posso acreditar que você, de toda essa gente, aprove sua ostentação
entre a boa sociedade depois do que fez.
— Eu não chamaria estar sentada em silêncio alardear, mãe.
— E como chama a isto? — A viúva exigiu ao ver Johanna e Barrasford
dançar a valsa à vista de todos. — Ela se afundaria inclusive em um título
irlandês.
— Não há nada incorreto com Johnny — replicou Adrian. — O título pode
ser mais recente que o meu, mas de dinheiro bom. — Sentiu uma pontada de
inveja quando os olhou. Parecia mais linda cada vez que a divisava. Esteve de pé
paralisado, sua lembrança remontando-se a um tempo quando ela flutuava em
seus braços. Ela tinha sido uma jovem então e ele era um libertino consumado,
mas quando a sustentou, foi dominado por seus sentimentos. Adiantando-se a
Gary e ganhando Johanna Milford de uma dúzia de pretendentes.
— Ah, Roxbury. — Almeria, seu rosto ainda rubro pela última dança com
um jovem local, cortou seus pensamentos colocando uma mão em seu braço.
Ela seguiu seu olhar fixo e seus olhos se endureceram. Segura de seu atrativo,
sorriu coquetemente. — Prometeu-me dançar uma valsa, milorde.
— Eh! — A contragosto baixou seus olhos. Não havia nenhuma dúvida,
Almeria Bennington era uma incomparável. Uma olhada rápida aonde Johanna
dançava elegantemente fê-lo decidir-se. — Então vamos, lady Bennington —
esteve de acordo com um sorriso decidido.
Para Almeria, o triunfo foi breve. Independentemente do orgulho que obteve
por dançar com um duque, foi mitigado por sua manobra no chão. Logo, viu-se
ser espertamente conduzida ao ritmo da música, a alguns passos de sua antiga
esposa. E embora ele nunca perdesse o ritmo, era óbvio para todos que só tinha
olhos para Johanna. Quando a música misericordiosamente terminou, advogou
ter sede e foi recompensada, com uma oferta de um senhor próximo a ela de
levá-la a uma mesa de refresco. Adrian não notou sua saída.
Quando finalmente saiu de seu transe, encontrou o casal de pé, entre um
grupo de senhores jovens, seu sorriso frágil e seus olhos brilhantes como
sentindo-se observada. Sua mãe agarrou mal-humorada a manga de casaco e
sibilou, — Adrian como pôde, não era bastante se pôr em ridículo, outra vez por
aquela porca, mas deve insultar também a nossa convidada? Lorde Bennington
vai…
— Ao inferno Lorde Bennington! — resmungou ressentidamente.
Entretanto, seu sentido do dever o apressou a tentar reparar o mal feito à
encantadora Almeria. Não era culpa dela, que não pudesse esquecer-se de Jo.
Com resolução fez seu caminho à mesa de refresco, só para ser cortado pela
língua rancorosa da lady Bennington.
— De minha parte não me associaria com tal criatura, mas posso, me
compadecer dela, deve ser um golpe terrível ter perdido um marido como
Roxbury por uma loucura.
Maldita seja! Adrian jogou fumaça. A bela Bennington se assegurava que todo
mundo dentro da audiência recordaria outra vez o escândalo. Repentinamente se
voltou e cruzou o salão até onde Johanna conversava com Lady Carew. Ele
poderia dizer pela expressão em seu rosto que a condessa viúva era consciente
dos rumores desagradáveis, e não havia nem rastro de Barrasford. Sem pensar,
agarrou o cotovelo de Johanna firmemente e resmungou, — Se quer salvar sua
cara, venha comigo.
— Rogo-lhe…
— Não seja tola, Jo! — interrompeu. — Quero restaurar sua reputação.
O aperto em seu cotovelo era quase doloroso, mas sabia que afastar-se criaria
uma cena humilhante. Piscou umas lágrimas zangadas e forçou um sorriso rígido
enquanto a guiava à pista de baile.
Com o corpo tenso em seus braços se moveu ao som da música. Estava
rígida pelo choque, perdendo um passo, e logo exalou bruscamente.
— Pode fazê-lo Jo, pense que sou Gary, se for necessário — sussurrou
severamente em seu ouvido.
— Por favor, Dree…
— Não, estou decidido a terminar com isto. — Seu braço se apertou ao
redor de sua cintura, aproximando-a.
Ela captou a expressão indignada no rosto de Helen Delacourt ao passar a
seu lado, e por um breve instante sentiu uma pequena satisfação. Um silêncio
repentino varreu como uma onda sobre a multidão, fazendo-a intensamente
consciente de seu escrutínio. Fechou seus olhos para evitar as olhadas e tratou
de concentrar-se na música.
Os músicos, apanhados em algo que não entenderam, repetiram a valsa
melodiosa. Para Adrian, parecia um passo atrás no tempo. A brisa suave,
fragrante flutuou no presente. Era uma velha melodia, e Johanna cantarolou
para marcar o ritmo. Sua pele estava quente e viva através da seda de seu
vestido, e a coroa de seu cabelo igual a cetim contra sua bochecha. Assim era
como a recordava, e cada fibra de seu ser eram conscientes do desejo intenso
que sentia.
— Nunca te esqueci, Jo — murmurou contra o cabelo de ouro. — Senti
saudades de você.
Ela tinha sido quase seduzida pela beleza da música e a suavidade da brisa do
verão reclinada no calor de seu abraço, mas suas palavras a despertaram e a
amargura a alagou.
— Realmente, Dree? — ficou rígida e se afastou. — Também sentiu falta de
Gary? Foi você quem expulsou-nos, a ambos — recordou com frieza.
Seu braço se afrouxou quando lhe devolveu à realidade. Afastou-o e se
afastou antes que ele compreendesse sua intenção.
— Jo!
Ela deu meia volta.
— Pensou que te permitiria fazer um espetáculo público de mim duas vezes,
Dree?
Ele ficou branco com suas palavras, mas não se importou. Tinha que sair do
salão opressivo. Tropeçando cegamente, conseguiu chegar à porta e pedir seu
grande xale de seda.
— Não! — Era um grasnido rouco. — Espere! Jo! — Ele empurrou uma
multidão sobressaltada e a agarrou na entrada. Impulsionando-a pelo vestíbulo
sob o perplexo olhar dos criados, levou-a ao pórtico da entrada. — Sim, pensei
no Gary, Jo! E pensei em você! — confessou abruptamente. — E não tem
nenhum direito de manter meu filho longe de mim. Não negue que seja meu
filho, ele é minha própria imagem!
A cor desapareceu de seu rosto. Um nó doloroso em seu estômago.
— Me deixe em paz!
Estendendo a mão para ela, surpreendeu-se por suas impulsivas palavras.
— Estou disposto a te perdoar, Jo. Quero você e o menino.
As palavras penduraram entre eles. Seus olhos se alargaram de horror quando
as assimilou, e logo encontrou sua voz. Sentindo-se usada, gritou: — Me
perdoar? Não há nada para perdoar, Dree. Sou eu quem nunca te perdoará.
— Lady Johanna?
Adrian deixou cair suas mãos ante o som da voz de Johnny Barrasford e
retrocedeu inutilmente. O homem olhou de um a outro com incerteza.
— Me perdoe, mas…
— Não. — A voz de Johanna soou de repente oca. — Lorde Barrasford, eu
gostaria de ir para casa. Se pudesse encontrar minha sogra.
Seu xale de seda ainda pendia de seu braço. Barrasford estendeu a mão e
solicitamente o colocou sobre seus ombros.
— Roxbury, se nos desculpar, vou levar Lady Johanna para casa. Seja amável
de avisar a Lady Carew que partimos.
Silenciosamente Adrian deu a volta e andou para dentro. Foi recebido no
vestíbulo por Almeria Bennington, que posou suas mãos contra suas têmporas e
se queixou de dor de cabeça.
CAPÍTULO 09
Johanna apoiou sua cabeça contra o assento de veludo da carruagem de
Lorde Barrasford e olhou pelo guichê para a escuridão. O veículo se movia
devagar, entre as outras carruagens do pátio, até sair à estrada. Em silêncio sua
senhoria acendeu as luzes e se acomodou no assento de frente a ela. Passou
algum tempo antes que ela falasse, e sua voz era baixa.
— Foi uma tolice de minha parte pensar que esqueceriam.
A impotência de suas palavras o afetou muito mais que as lágrimas. Por seu
desejo de ser visto com ela, tinha animado suas esperanças, e agora podia ver
que estava equivocado. Seu coração doía, enquanto sua mente media palavras de
consolo.
— Não se apiede muito pelo rancor de umas fofoqueiras — ofereceu
silenciosamente. — Não eram mais que ciúmes.
— Era isso?
— Era a milady mais linda ali, Johanna. Possivelmente se tivesse ficado a seu
lado…
— Não, isto não teria servido de nada, milorde. Sinto por enredá-lo em meus
assuntos. — Um suspiro lhe escapou quando abriu seus olhos. — Sua amizade
comigo não vai beneficiar-lhe, milorde.
— Isso não tem nenhuma importância — assegurou. — Como homem,
posso manter a companhia feminina mais célebre sem causar comentários.
Ela estremeceu visivelmente, e ele desejou poder engolir suas palavras mau
escolhidas. Inclinando-se sobre o assento, roçou sua mão.
— E, não a considero inadequada, Johanna. De fato, não quero que pense
que minhas intenções não são honráveis. — Seus dedos agarraram os seus.
Seu olhar baixou a sua mão.
— Milorde…
— Por favor, escuta até o final. — Tinha pensado esperar, conduzir seu
cortejo à encantadora viúva com deliberada lentidão. Em troca, encontrou-se
explicando: — Tenho trinta e três anos não sou nenhum jovem imaturo
imaginando estar apaixonado pela décima vez em duas semanas. Sei o que
quero. — Quando ela não protestou, deslocou-se a seu lado e a olhou com
olhos sérios. — Estou louco por você, quero me casar contigo e te levar com os
meninos para longe daqui.
Ela o olhou, muda, e logo afastou sua cabeça para olhar a escuridão do
caminho rural. Sua mão livre sobre o tecido de seda em seu regaço.
— Não me conhece, milorde — protestou finalmente.
— Não se apresse a rechaçar minha petição, tal matrimônio não deixa de ter
vantagens. Ah, sei que meu título é irlandês, mas isto significa que podemos
reparar minha fazenda na Irlanda e nunca voltar a menos que você deseje. —
Sua voz era suave e relaxante. — Eu gosto dos meninos, e seria bom para seus
filhos, verá que sou um homem amável, de verdade. — Como ainda não
respondia, seguiu adiante, — alcancei o ponto em minha vida que estou
preparado para ter meus próprios filhos, não ache que ofereço rápido sem
pensar no futuro.
Virou-se e encontrou os olhos cinzas. Havia um calor atrativo neles. Um
sorriso triste curvava sua boca quando acrescentou: — E, por desgraça, não
tenho nenhuma mãe para incomodá-la, lamento a carência, é obvio, minha
família imediata é somente um membro, eu.
Profundamente comovida pela bondade de sua oferta, só poderia oferecer
um sorriso trêmulo. Com voz tremula refletiu devagar.
— Sabe que fala igual a Gary.
— Amou-lhe muito? — Não pôde evitar perguntar.
Ficou silenciosa vários segundos, enquanto formava sua resposta.
— Não a princípio, era bastante diferente, o que alguém sente por um marido
e o que alguém sente por um querido amigo — Sua voz um pouco mais baixa e
ele teve que esforçar-se por ouvi-la. — Mas cheguei a lhe amar pelo que
abandonou por mim. Se eu não o tivesse tido, não sei se poderia ter seguido
adiante, milorde.
Barrasford ficou desconcertado por sua confissão. Considerando os rumores
ouvidos esta tarde, pensava que Gareth Sherwood fora o grande amor de sua
vida. Não podia resistir a perguntar, — E Roxbury?
— Houve um tempo que ele era tudo para mim — confessou simplesmente.
— Entendo. — Ele olhou pela janela um instante para recolher seus
pensamentos. — Ambos deveriam ter sido muito jovens. As pessoas mudam. —
De repente retornou a sua oferta. — Se não pode me dar uma resposta agora, ao
menos me diga que já não sente amor por ele, e não me impacientarei.
— Não o amo.
— Então minha oferta segue em pé. Se não puder aceitar hoje, possivelmente
amanhã ou na próxima semana ou inclusive no próximo mês.
— Não sabe o que perguntas! — retorceu-se miseravelmente. — Sou…
— Silêncio — a interrompeu com um dedo sobre seus lábios. — Não
diremos nada mais esta noite. Não quero vê-la angustiada.
— Não posso te cargar com minha espantosa reputação. Temo que isto me
perseguirá onde vá.
— Johanna, não pretendo saber o ocorrido, não tenho nenhum desejo de
bisbilhotar. Mas tenho certeza, de uma coisa: não é uma puta. — Alcançou outra
vez sua mão. — Tanto que se aceitar minha oferta ou não, quero ser seu amigo.
Na carruagem detrás deles, Adrian compartilhava um silêncio sepulcral com
sua mãe e lady Bennington. Ambas as mulheres irritadas no que perceberam ser
sua teimosia tola com Johanna, e sua raiva interior se fez até mais evidente por
sua indiferença fria. Helen passou a maior parte do passeio planejando o que
diria uma vez que estivessem sozinhos, enquanto Almeria considerou seu
seguinte movimento. A indiferença e o desdém não era algo que estivesse
acostumada, e se perguntou, brevemente, se o título de duquesa pudesse
compensar sua falta de galanteria.
Quanto a Adrian, tinha só um cenho franzido fazendo-se mais profundo
quando a carruagem de Barrasford tomou a saída para New Haven. Inclinou-se
durante um momento, explorando o horizonte iluminado pela lua até que a
outra carruagem estivesse fora da vista. Então se afundou de novo na tristeza,
respondendo com um monossílabo quando Almeria se aventurou a perguntar se
a lua cheia era mais encantadora as noites?
A viúva, decidida a discutir com seu filho sobre sua loucura, ofereceu a
Almeria um boa noite no vestíbulo e procedeu a invadir a biblioteca. Fechando a
porta detrás dela, tirou a taça de sua mão e comentou acidamente, — Johanna
Milford zombou de você mais uma vez, Adrian, e se não tomar cuidado, fará
outra vez. Juro que eu poderia ter desmaiado quando os vi dançar esta noite!
Não tem nenhum orgulho? Não pode ver que pensa em acrescentar Lorde
Barrasford a suas conquistas? Seu comportamento vergonhoso esta noite será a
intriga da vizinhança durante semanas! Estremeço-me em pensar o que o senhor
Bennington dirá quando o escute! Ele... ele pensará que tem um parafuso solto!
— gritou.
— Terminou milady? — exigiu com frieza.
— Não! Como pode esquecer o que ela fez, é incrível. A forma que ela e
Gareth Sherwood conduziram sua aventura sob seu nariz. Não, não sustentará
minha língua desta vez. Deixe que volte a Itália ou em qualquer lugar que tenha
estado e que leve seus pirralhos com ela.
— Seu pirralho mais velho, como decidiu chamá-lo, é meu filho — cortou
furiosamente. — Seu neto, milady! Não significa nada para você?
— Não. Realmente Adrian, não posso acreditar que o tenha enganchado
outra vez com suas artimanhas. Se o moço em efeito é um Delacourt, por que
não falou antes? Lembro que ela não refutou o divórcio ou os encargos —
recordou triunfalmente. — Então, ele não se parece com Sherwood e isso o que
demonstra? Possivelmente — acrescentou abruptamente — sua querida
Johanna não podia ter certeza de quem era o pai. Posso lhe recordar que há
outros homens morenos neste condado?
— O menino é meu!
— Ele é agora o Conde de Carew! E até mesmo se fosse, como você diz, seu
filho, Adrian, o que vai ganhar reclamando-o? Ela estava casada com Carew
quando ele nasceu.
— Por direito, ele é meu filho.
— Por direito, é Carew. Se esqueça dele! Se esqueça dela!
— Não posso.
— Deve! Ela quase o destruiu uma vez, não pode esquecer isso?
Ele se afastou e arrojou a taça vazia na lareira. Rompeu-se, trazendo uma
pausa a seus gritos. Ele levantou seus olhos onde o retrato de Johanna tinha
estado pendurado uma vez.
— Adrian... — Sua mãe se moveu para pôr uma mão suave em seu ombro e
o enrolar, — cumpra com seu dever a sua família e se case com Almeria, ela será
uma duquesa exemplar. Vamos, não sigamos brigando sobre algo que é melhor
ser deixado no passado.
Sentiu-se tenso como uma corda de um violino, tinha visto Johanna,
sustentado-a outra vez em seus braços e sentiu a intensidade da paixão que só
ela lhe tinha dado. Não tinha pensado lhe dizer que queria sua reconciliação,
mas sabia que era assim.
— Não.
— Então é um tolo — replicou. — Esquece de Gareth Sherwood?
— Gary era meu amigo.
— Até que ela conseguiu por suas garras nele.
— Não está contente ferindo-me, não é, mãe? — perguntou amargamente.
— Mataria cada lembrança decente que tenho deles, verdade? Sempre a odiou.
— Era uma Maria ninguém.
— Ela era minha duquesa!
— Era um tolo quando se tratava dela.
— Era? — virou-se para perfurá-la com aqueles olhos escuros. — Ou era um
tolo por acreditar em você?
Seu rosto empalideceu.
— O que quer dizer com isto?
— Sempre a odiou, criticava tudo o que ela fazia. Possivelmente minha maior
loucura foi deixá-la aqui contigo. Tome cuidado, mãe, em não retorcer com a
verdade.
— É uma rameira.
— Levava meu filho.
— Isso não muda nada. Agora não há nada que possa fazer.
Um olhar estranho se mostrou em seu rosto, olhou-a por um momento.
— Não? Não se equivoque, mãe. Se tiver que ficar como um tolo absoluto,
se tiver que me confessar culpado de cometer um engano, que assim seja,
qualquer meio para ter meu filho. Quero-o e a amo.
A biblioteca era sufocante. Ele soltou sua gravata e a jogou em uma cadeira
antes de andar a pernadas para a porta. Ele a queria e queria paz.
— Aonde vai? — exigiu alarmada.
— Fora. — Alcançou o trinco para abrir a porta.
— Não quero que os Benningtons ouçam que brigamos sobre essa mulher.
— A menos que sejam surdos, posso garantir que já escutaram mais do que
desejavam. Boa noite, mãe.
— Adrian!
A porta se fechou de repente detrás dele. A viúva verteu um copo do vinho e
ficou bebendo. Seu filho era bonito, era tudo que tinha desejado para um duque
Roxbury, mas tinha uma teima e um sentido da honra desacertada que a irritava
mais que nada. Por que não podia entender o que devia a seu nome?
— Sua Graça?
Virou-se para estar de frente a Almeria Bennington.
— Entre, querida — murmurou cansada. — Suponho que não pôde evitar
ouvir tudo.
A moça começou a negá-lo e depois pensando melhor.
— Sim, mas não podia acreditar no que escutava, milady. Não sabia a
profundidade de seus sentimentos por ela.
— Humph! Não confunda o assunto, o que sente por Johanna Sherwood não
é diferente do que qualquer jovem sente por uma bailarina de ópera, se só
admitisse isso.
— Papai pensa que deveríamos partir.
— Não, ainda não terminei, querida. — Virou o copo e o deixou. Seus olhos
eram duros, sua boca retesada. — Não. Acredito que entre nós, até podemos
recuperar a situação se deseja ser uma duquesa.
— Ah, querida milady… — o interesse da garota ao título era muito
evidente.
— Então está decidido. Devo falar com seu pai, é obvio, antes de atuar. Se
houver uma coisa em que podemos confiar — refletiu a mulher mais velha em
voz alta, — é no ridículo sentido da honra que tem meu filho.
— Não vou…
— Não terá que fazer outra coisa que mostrar um interesse em visitar a
cidade de Wells. Penso em insistir que Adrian a acompanhe, é obvio, sua criada
se separará de você em algum momento. Seu pai insistirá que sua reputação foi
comprometida, e meu filho vai fazer o correto. — Helen levantou seus olhos ao
lugar vazio em cima da lareira. — Será uma perfeita Duquesa de Roxbury,
querida.
CAPÍTULO 10
Anne subiu a magnífica escada de New Haven com o coração oprimido,
perguntava-se de algum jeito se se equivocou ao insistir no retorno de Johanna e
os meninos. Certamente, não tinha esperado a censura que viu na casa dos
Sheffield, certamente, sabia onde jogar a culpa. Helen Delacourt tinha triunfado
uma vez mais. Era inexplicável pensar que a mulher pôde parir Adrian e que
gostava de lhe recordar.
Uma fresta tênue de luz aparecia por debaixo da porta de Johanna. Vacilou
quando o relógio na sala de abaixo deu três badaladas, e logo golpeou
brandamente nos painéis de reluzente mogno.
— Entre — foi à resposta amortecida.
Encontrou a jovem na cama com as cortinas abertas. Apoiada em meio de
vários travesseiros de seda com seu cabelo solto sobre seus ombros como uma
colegial; parecia muito jovem e vulnerável. Com alívio, podia ver que seus olhos
estavam secos.
— Não esperava te encontrar ainda acordada. Gostaria de um pouco de leite
quente.
— Não — a voz de Johanna soava oca.
— Oh, querida! Nunca deveria ter insistido em que fosse, mas…
— Não é tua culpa, mamãe. Não sabia que estariam tão impacientes por
recordar o assunto a todos.
— E não tinha pensado que alguém acreditaria em seu veneno — disse Anne
ao sentar-se na borda da cama. — Sinto-o muito, Jo. Se achar que não pode
permanecer na Inglaterra, apoiar-te-ei. Ainda podemos voltar para a Itália.
— Não. Eu não poderia confrontar minha imagem no espelho, mamãe, se a
abandonasse — o queixo de Johanna tinha determinação quando se voltou para
sua sogra. — Ela não tem nenhum motivo para me fazer isto, e não permitirei
mais seus insultos. Estou decidida, se quer dizer o conto assegurar-me-ei que
todo mundo saiba a verdade.
— Talvez se fosse ao Adrian agora mesmo e explicasse — se deteve,
sufocada pela indignação que pôs rígida Johanna e ameaçava seu controle. —
Não, vejo claramente que não deseja fazê-lo.
— Ele teve que acreditá-la. Não, se decido brigar, será por meus filhos,
mamãe. Não os quero nunca pensando… — engoliu — ...que sua mãe é uma
espécie de prostituta.
— Não sei o que dizer, só que me alegro, foi o que sempre quis. Durante
muito tempo venho pensando que sua história vai resistir a um próximo
escrutínio, se você questionasse suas palavras.
— Lorde Barrasford disse algo esta noite, mamãe, que podia ver claramente
que eu não era uma puta. Se alguém como ele pode acreditar, talvez outros
também o façam.
— É um homem bom, então. Tinha-o pensado que era outro lorde
preocupado com o corte de seu casaco, mas…
— Ele me ofereceu matrimônio.
— Ele o que?
Johanna assentiu com a cabeça. Um sorriso triste tocava os lábios.
— Quer dizer, é obvio, se puder suportar um título irlandês.
— Sem dúvida, nunca te disse isto.
Johanna assentiu com a cabeça.
— Disse.
— Mas os moços, um homem como Barrasford deve…
— Gosta dos meninos. Mamãe, deve ser o primeiro Coríntio em admitir isto,
não acha?
— Estou sem palavras... — olhou de perto Johanna, insegura de se devia
tomá-la a sério.
— Sim, e não tem uma mãe intrometida, que ele lamenta dizê-lo. —
Aprofundou o sorriso.
Anne ficou em silencio por um segundo, assimilando este novo giro da sorte.
Era a primeira vez que tinha visto um rasgo de humor em sua nora desde que
Gary morreu. Fez uma revisão mental de tudo o que sabia de Lorde Barrasford
não encontrou nada contra dele.
De fato, outro matrimônio era o que ela mesma tinha aconselhado uma
semana antes. Em voz alta só pôde dizer: — É tão repentino, o que respondeu?
— Não me pressionou. Tratei de lhe dizer que minha reputação também vai
atormentá-lo, mas ele não quis escutar. — O sorriso se desvaneceu e os olhos
azuis eram repentinamente sérios. — É muito tentador, sabe.
— É um homem muito bonito — interveio Anne.
— E penso que muito amável.
— Possivelmente deveria considerar sua oferta, querida, tem um sobrenome
antigo, uma fortuna bastante respeitável.
— E não teria que enfrentar à sociedade desprotegida — disse acrescentado a
favor de Barrasford.
— Bem, há muito que dizer a seu favor.
— Sim. — Olhava distraída. — Exceto que não o amo — admitiu
simplesmente. — Isso também deve ser considerado, não acha?
— Amava Adrian Delacourt com loucura — recordou. — E não se pode
dizer que o resultado foi feliz.
— Fomos felizes uma vez. — Os olhos de Johanna encontraram os de Anne
e manteve seu olhar. — Mas acredito que Lorde Barrasford se parece mais ao
Gary.
— Fez meu filho muito feliz. — Acariciou sua mão com afeto. — Mas, o
matrimônio é algo que só os interessados devem decidir. — Estando de pé,
sorriu. — Depois de tudo o que te aconteceu, meu amor, sigo pensando que é
afortunada. É que, nem todas as mulheres poderiam conseguir uma oferta de
Roxbury, Carew, e Barrasford.
Durante muito tempo depois de que Anne partiu, não fez nenhum
movimento para apagar as velas, sentou-se a revisar este último encontro com
Adrian e contemplando a melhor maneira de derrotar sua mãe. Não havia
dúvida; ele ainda acreditava na história que Helen havia dito, e inclusive depois
de ter passado tantos anos, feriu-a muito mais que algo que outros pudessem
dizer. O relógio abaixo golpeou quatro vezes, as velas estavam quase acabadas e
ainda não tinha respostas. A contragosto se levantou para apagar as chamas
parpadeantes e abrir as persianas. Um vento úmido soprou, prometendo chuva.
Sua camisola se colava contra seu corpo quente, abanando e refrescando. Ficou
ali olhando as nuvens escuras fazendo sombras à lua cheia, e recordando outra
vez a sensação de seus braços a seu redor. Incapaz de suportar as sensações que
tais lembranças evocaram profundamente dentro dela, refugiou-se em sua cama.
Entretanto, o sono não vinha. Podia chegar a esse inferno nebuloso entre
pensamento racional, e consciente esquecimento, mas não podia cruzá-lo.
Barrasford estava ali, impulsionando-a a tomar a segurança que prometia, detrás
dele estava Adrian, acusando-a de trai-lo. E estava Gary, tão bom e forte,
oferecendo protegê-la e ao bebê. E, por cima de todos eles, podia ouvir Helen
Delacourt dizendo: “Eu os vi. Vi-os com meus próprios olhos." "Me diga que
não é assim — suplicou Adrian. Pelo amor de Deus, me diga!” Mas o olhar de
seus olhos a impediu porque ele acreditava em sua mãe.
Com um gemido se afastou procurando um lugar fresco no outro travesseiro
e tratou de apagar a todos eles da mente. As primeiras gotas de chuva
golpeavam o telhado, o vento soprou força, e depois o céu verteu a chuva. Por
cima dela, havia um som constante que gradualmente se relaxou. Mas à medida
que finalmente começou o sono, ainda podia sentir seus braços em seu corpo.
— Mamãe! Mamãe!
Despertou com um sobressalto com a explosão da porta de seu dormitório
para deixar entrarem seus filhos. Dando a volta, protegeu os olhos contra o
brilho do dia e fez uma careta. As poucas horas de inquieto sono não foram
suficientes.
— Justin! Robert! — senhorita Finchley gritou forte quando os alcançou e
agarrou a cada menino por um braço. — Não devem despertar sua mamãe.
— Está tudo bem — murmurou, sentando sonolenta e esfregando os olhos.
— Pelos olhares deles, dormi muito.
A instrutora sacudiu a cabeça e lançou uma olhada significativa aos meninos.
— Mas disse que não a incomodassem, milady. Lady Anne pediu para deixá-
la descansar. — Puxando firmemente os meninos para estarem de frente a
Johanna, senhorita Finchley ordenou: — Peçam perdão a sua mamãe pela
intrusão, por favor, e nós retornaremos a nossos estudos.
— Mas eu não, por favor! — Robin se separou e se aconchegou na cama
com Johanna. — Mamãe! Olhe pela janela.
— Robert! — Havia uma nota de advertência na voz da instrutora que foi
desatendida.
Apesar da fadiga que sentia, dirigiu um sorriso a seu filho pequeno.
— Ver o que, carinho?
— Um arco-íris! — Justin explodiu. — É um arco-íris!
— Não é justo! — Robin se voltou para seu irmão e acusou. — Não é justo,
eu o vi primeiro! Eu queria dizê-lo!
— Meninos! — senhorita Finchley se aproximou da cama e agarrou o
menino. — Não devem brigar na frente de sua mãe. Venha, agora há trabalho
para fazer.
— Mas…
— Esta tudo bem — repetiu para apaziguar a instrutora. Concentrando sua
atenção em Robin, deu-lhe um rápido abraço. — Se sair dos lençóis, vou ver o
arco-íris.
O moço se deslizou obedientemente da cama e puxou sua mão.
— Por aqui, pode-se ver daqui.
Fazendo caso omisso de que estava de camisola, permitiu que a puxassem
para a janela, onde ficou olhando enquanto ele assinalava. Justin ciumento
obstinado a sua perna para competir com Robin do outro lado. Por um
momento só podia contemplar o grande arco de cores que iluminava o céu da
manhã. O ar limpo pela chuva, ainda estava fresco e o jardim debaixo de uma
profusão de cores brilhantes. A tormenta tinha cessado, substituída por uma paz
quente, fresca. Ela agitou a cabeça de cada menino, abraçando-os contra ela.
Esquecidas ficaram a amargura e agitação que tinham infestado sua noite,
contemplando a beleza do arco-íris e a manhã de verão. Aconteça o que
acontecer, recordou-se com ferocidade, era a mais afortunada das mulheres,
tinha dois filhos brilhantes e bonitos para amar.
— Mamãe — Robin perguntou — não se importa de levantar para vê-lo?
— É obvio que não, amor — assegurou com sinceridade. — Não queria
perder isso por nada. É que nem todos os dias se podem chegar a ver algo
assim.
— O que o faz? — Justin queria saber, sua mente inquisitiva já em busca da
causa.
— Não sei, mas talvez senhorita Finchley possa ajudar a encontrar a resposta.
— Papai teria sabido — respondeu decidido.
— Papai sabia muitas coisas, Justin, mas mesmo ele não sabia tudo. Conheci
seu papai muito bem — respondeu com um brilho em seus olhos azuis, — não
posso recordar se o ouvi dizer alguma vez de onde vem o arco-íris.
— Oh. Bom... — iluminou-se — suponho que poderia ter descoberto.
— Não me importa de onde vem — declarou Robin. — É bonito e eu gosto.
— E eu gosto também — ela esteve de acordo. — Além disso, não tem que
saber a respeito das coisas para desfrutar delas. — Seus dedos pentearam o
cabelo vermelho e dourado que lhe recordava tanto o de Gary. O menino estava
em posse da mesma doçura e generosidade de espírito que seu pai, pensou
brevemente, e que era algo para ser nutrido e entesourado.
— Poderíamos procurar onde toca o chão? — Justin perguntou em voz alta.
— Não, nunca o encontraríamos — respondeu. — Acredito que tocar a terra
é uma ilusão.
— O que é isso? — exigiu saber.
— Algo que só parece ser, mas não é verdade. E não me peça que explique
mais agora, Justin, porque não posso. Tudo o que posso dizer é que
frequentemente as coisas não são o que acredita que vê, e quando isto acontece
se chama ilusão. — Ela reconheceu a dúvida em seu rosto quando levantou a
sobrancelha escura e por um fugaz segundo viu Adrian nele. Então sua
expressão se apagou e uma compreensão alvoreceu em seu jovem rosto.
— Entendo, é como quando as cortinas da cama voam de noite e acredito
que algo está aí.
— Acredito que poderia chamá-la uma ilusão — respondeu ela. — Agora,
devem partir com senhorita Finchley para que eu possa me vestir. Vou em
seguida para ver os desenhos que têm feito. Ela me disse que são muito bonitos.
— Deu a cada um deles um empurrãozinho para a instrutora. — E obrigado
por compartilhar o arco-íris comigo, eu gostei muito. — Ficou junto à janela
durante algum tempo depois que saíram, contemplando a beleza e a paz da cena
ante ela. A noite anterior, tinha lutado com o passado, mas já era hora de deixar
tudo para trás. Não havia nada que pudesse fazer agora para mudar o que tinha
acontecido. Seus olhos se concentraram no arco-íris símbolo de melhores coisas
por vir, de esperanças para um dia mais brilhante. Haveria gente que seguiria
rechaçando-a, também quem se compadeceria com ela. Não ia correr mais das
mentiras que a tinham arruinado, enfrentar-se-ia com todas elas.
CAPÍTULO 11
— Milady, há um tal de senhor Thorpe que deseja vê-la.
—Senhor Thorpe? — Johanna deixou de lado o livro que estava lendo, uma
novela horripilante pedida de Londres, e tratou de lembrar-se do nome. —
Temo que não conheça ninguém com esse nome.
Anne levantou a vista de sua costura.
— Deve ser algum comerciante para fazer um pedido. Não esperávamos
alguém para reparar a lareira do salão?
— Com este tempo? — dedicou a sua sogra um sorriso irônico. — Duvido
muito que queira subir no telhado com a chuva, mas, talvez seja capaz de
estimar a obra sem fazê-lo. — Levantou-se, olhando para as janelas. — Onde o
levou, Thomas?
— Ao salão principal, milady.
— Muito bem. — Anne assentiu com admiração. — Então pode comprovar
onde tem o escapamento na lareira. — Acomodou-se de novo na poltrona e
alisou o tecido contra seu regaço. A chuva caía constante, mantendo-os no
interior da casa, e, entretanto, Johanna estava muito alegre apesar da derrota na
festa dos Sheffield. De fato, pensou enquanto cravou a agulha em seu desenho,
suas posições se inverteram. Agora ela temia que Johanna nunca recuperasse sua
posição na sociedade, enquanto que ela não parecia se importar. Possivelmente
era a influência de Lorde Barrasford. Era insistente em seus cuidados e mal
passava um dia sem uma visita. Mas, não havia nada que sugerisse que Johanna
pensava em aceitar sua oferta, a não ser de fato, justamente, o contrário. Tinha
descido na manhã depois da festa dos Sheffield sorrindo, e quando falaram da
oferta de Barrasford, tinha anunciado que preferia depender de sua amizade
mais que de seu nome para sair da encrenca. Com um suspiro, atou o centro de
uma pequena flor e começou a trabalhar nas pétalas.
Seu visitante estava à vista quando entrou no salão, mas a escuridão do dia
não fez nada para proporcionar claridade través das portinhas das janelas. Fora,
a chuva caía sem cessar, ricocheteando nos atoleiros que salpicavam a grama.
— Senhor Thorpe?
— Sim. — O homem se moveu de onde tinha estado observando o chorro
de água que descia pelos tijolos da lareira em uma caçarola estrategicamente
colocada. — Deveria fazê-lo reparar, milady, antes que arruíne o chão. — Seus
olhos percorreram a sala luxuosamente mobiliada, detendo-se no detalhe
elegante das molduras. — É um lugar muito elegante para que a umidade o
danifique.
— Sou consciente da necessidade, senhor — interrompeu —mas como se
propõe a solucioná-lo. A última pessoa para examiná-lo insistiu que era o
telhado e como pode ver não era.
— Eu? — pareceu surpreso.
— Oh, não esperamos que realize o trabalho você mesmo, é obvio —
observou o corte de seu casaco levita marrom e calça notando que era mais
próspero que muitos dos comerciantes da zona. Ele tinha feito, obviamente, um
grande esforço para estar apresentável em sua incursão para inspecionar uma das
casas principais da área. — Será capaz de avaliar por onde entra a água hoje,
não? Eu gostaria de começar o trabalho logo que o tempo melhore.
— Milady, Não saberia por onde começar, asseguro. Talvez…
— Não está aqui para inspecionar a lareira?
— Não! Quero dizer — Era evidente que estava ofendido pelo encargo e se
apressou em procurar no casaco seu cartão. — Aqui — explicou, entregando-o.
— Sou advogado e represento Sua Graça, o Duque de Roxbury — anunciou
dando-se importância. — Se pudéssemos nos sentar, poderia explicar a natureza
de minha visita, Lady Carew.
— Se Roxbury tiver alguma queixa sobre os limites do imóvel, pode discutí-
lo com o senhor Perkins, senhor Thorpe. Asseguro-lhe que eu…
— Não, não, nada pelo estilo, milady! É um assunto muito mais delicado de
que ia falar.
— Não tenho nada que dizer a Sua Graça — se voltou para a porta. —
Perdoará minha falta de maneiras, senhor, mas o duque e eu já não estamos em
processos civis.
A expressão advogado foi dolorosa.
— Confunde o assunto, Lady Carew. Por favor, sente-se, por favor. —
Quando não se virou, acrescentou: — Isto concerne ao jovem Justin.
Ela se voltou, seus olhos azuis cintilaram.
— Meu filho não é de seu interesse. Informe a Sua Graça que tampouco
tenho nada que dizer sobre o assunto.
— Milady, sugiro-lhe que me escute. Sua Graça está disposto a ser razoável,
mas quer seu filho. Certamente que pode…
— Seu filho? — Sua voz se elevou com incredulidade. — Seu filho! Se você
estive referindo-se a Justin Sherwood, tomo a licença de lhe informar, senhor
Thorpe, que agora é o conde de Carew. Nasceu como meu filho e de Gareth
Sherwood em Florença, Itália, faz quase seis anos, e nasceu dentro do
matrimônio. Não, pode dizer a Adrian Delacourt que ele não tem nenhum
direito sobre meu filho.
— Lamento lhe informar que Sua Graça acredita o contrário.
— Não importa o que acredita Sua Graça — respondeu terrivelmente
zangada. — Gareth Sherwood assinou o registro da igreja e confirmou no
registro de matrimônio quando meu filho nasceu. Agora, se você me
desculpar…
— Estamos dispostos a permitir que sejam os tribunais quem determine a
paternidade do menino, mas o duque prefere evitar mais escândalo pelo bem do
menino.
— Não se atreveria!
— Ai, mas acreditamos…
— Disse-lhe que não me importa o que ele acredita, senhor — Seus olhos
brilhavam perigosamente, precisando cada palavra. — Pode dizer a Adrian
Delacourt que o deixei manchar meu nome e minha honra uma vez, mas não
vou deixar que o faça outra vez. Se tentar apresentar uma acusação para
conseguir Justin, vou contar toda a história ao mundo. Eu fui uma tola por não
ter falado na última vez, e não deixarei passar a oportunidade duas vezes. Então,
veremos quem vai acreditar. Será o bobo do país antes que eu tenha terminado
com ele.
— A semelhança é marcante, eles são idênticos— lhe recordou severamente.
— Meu filho nasceu dentro de meu matrimônio com Gary e duvido que
qualquer tribunal na Inglaterra pusesse isto à parte sem meu consentimento.
Como certamente deve saber — acrescentou mordazmente. — Este é um país
cujas leis se apóiam em tudo o que ocorreu primeiro. Atrevo-me a lhe pedir que
me mostre um lugar onde um menino nascido dentro de um matrimônio e
reconhecido pelo marido tenha sido declarado herdeiro legal de outro homem.
— Não esperando sua resposta, dirigiu-se para abrir a porta. — Não se esqueça
de seu chapéu, senhor, ou vai perdê-lo, porque posso prometer que não se
permitirá sua entrada outra vez em minha propriedade.
— É sua última palavra sobre o assunto, milady? Sua Graça tinha a esperança
de evitar que fosse desagradável para você, mas…
— Sério? — Sua boca retorcida, traindo um momento a amargura que
ameaçou sua compostura. — Como tão amavelmente o fez no passado?
— Milady, não me escutou até o final — protestou o senhor Thorpe.
— Bom dia, senhor — Ela abriu a porta e esperou.
— Muito bem, Lady Carew, mas Sua Graça não se agradará. De fato, você
deve esperar saber notícias dele de uma maneira menos agradável. — O
advogado recolheu seu chapéu e saiu ao corredor, onde Thomas, Bekins, e o
mordomo, esperavam para deixá-lo sair sob a chuva.
Johanna retornou ao salão e ficou olhando detrás de uma cortina como a
velha carruagem passada de moda descia pelo caminho e saiu à estrada. Quando
as lágrimas de raiva e amargura ameaçaram, ela se negou com resolução e
considerou seu seguinte movimento. Então Adrian queria conseguir Justin, não?
Tinha pisoteado seu bom nome, tinha-a humilhado e a seu melhor amigo, e lhe
tinha deixado, mas desta vez era diferente, desta vez queria defender-se. Mas,
como uma adultera se defende contra um marido ofendido? Isso a fez parar.
Não, ela tinha outra carta para jogar. Barrasford. Explicaria tudo ao Senhor
Johnny, seria honesta e depois, se ele ainda quisesse casar-se, ela poderia fazer
algo muito pior.
— Mamãe?
Deixou cair às cortinas e dirigiu à força um sorriso tremulo a Justin. Seu rosto
delatava uma petulante impaciência com a chuva tenaz que o mantinha no
interior da casa.
— Bem, senhor estudante — disse com uma leveza que não sentia — como
conseguiu escapar de senhorita Finchley desta vez?
— Robin queria brincar de espadas de pau no quarto das crianças. — Ele
riscou o desenho do tapete com a ponta de seu sapato. — Não o fiz.
— Entendo. Pois bem, convido-o a unir-se a mim. Suponho que poderíamos
tentar jogar cartas ou poderia ler — ofereceu.
— Eu não gosto da chuva! Quero ir para casa!
— Este é sua casa, amor — lhe recordou brandamente. — Somos ingleses.
Sem advertência, pôs-se a chorar e se arrojou de barriga para baixo sobre o
sofá, soluçando no tecido adamascado.
— Odeio estar aqui. Quero papai.
— Justin... Justin… — murmurou em voz baixa enquanto se deixava cair a
seu lado e começou a acariciar seu cabelo escuro. — Sinto falta de papai
também, sabe.
— Não é justo! Papai me amava.
— É obvio que sim. E te amo muito também. Mas ele não vai voltar, Justin,
e deve aceitar isto. — Ela se sentou no sofá e o pôs em seu regaço. — De fato,
papai não quer que vivamos no passado. Ele quereria que nós seguíssemos
adiante e fazê-lo tão bem como podemos sem ele. — Deixou de chorar e
afundou a cabeça contra seu peito. — Talvez chegou a hora de olhar para uma
nova vida e um novo papai, — aventurou-se dizer em voz baixa enquanto
acariciava o cabelo grosso e escuro. Ele ficou rígido em seus braços e empurrou-
a com força.
— Eu não quero um novo papai! Quero a meu papai! — os olhos escuros
encheram-se de novo de lágrimas e o queixo me sobressaía suavemente. — Não
entende!
— Justin.
Ele saiu de seu regaço e correu para a porta, lançando um olhar por cima do
ombro.
— Não quero outro papai! Quero ir com o meu. Eu gostaria de estar com
meu papai.
— Justin! Justin!
Começou a ir atrás dele, mas pensou melhor. No corredor, Thomas e James,
os dois lacaios, agarraram-no, enquanto que Bekins exigiu com fingida
severidade saber por que o jovem senhor estava correndo pela casa. Desta vez,
as básicas boas maneiras de Justin se impuseram e balbuciou uma desculpa. E
então escutou Thomas lhe dizer como a chuva era suficiente para dar o diabo
azul a qualquer menino, mas se podia esperar até que o último de prato fosse
polido, brincariam de contrabandistas no porão. Não, melhor deixar que o lacaio
carinhoso aliviasse o estado de ânimo do menino, decidiu.
A penumbra da sala e a chuva golpeando nas janelas não fez nada para aliviar
seu próprio sentido de perda. Não, pensou com resolução, quanto antes
avancemos com nossas vidas, mas rápido tudo melhorará. E apesar de que
Justin rechaçou veemente a idéia, outro matrimônio era a única resposta fácil a
seu dispor se quisesse manter seu filho. Além disso, não duvidava nenhum
minuto que o amável e atrativo senhor Johnny poderia persuadir seus dois filhos
em pouco de tempo.
— Ainda está aqui? Pareceu-me ouvir Bekins abrir a porta faz algum tempo.
— Começou Anne ao entrar na sala, mas se deteve em seco. — Oh, querida,
está tudo bem não?
— Não — se voltou e lhe dirigiu um sorriso amargo. — Temo que o senhor
Thorpe não tinha o menor interesse em nossa lareira. De fato, ele é um
advogado que veio me dizer que Adrian pensa em conseguir a custódia de
Justin.
— Oh, não!
— Sim — assentiu com gravidade. — Mas ele não conseguirá, mamãe —
acrescentou com ferocidade. — Penso manter meu filho, inclusive se tiver que
me casar com Johnny Barrasford para tê-lo.
CAPÍTULO 12
— Querida milady, vim tão rapidamente quanto minha carruagem permitisse,
tendo em conta os caminhos lamacentos — John Barrasford anunciou ao cruzar
a sala para estreitar as mãos de Johanna entre as suas. — Deve perdoar meu
aspecto.
Seus olhos se alargaram com a calidez e entusiasmo em sua voz. De fato,
estava surpreendida, que tivesse chegado tão cedo depois que seu próprio
mensageiro havia retornado de Aston Glenn, suas terras recentemente herdadas.
Suas palavras desmentiram sua aparência não tinha mais que uma bolinha de
barro em suas botas perfeitamente lustradas ou em suas calças escuras. Outra
vez, era o epitome de Coríntio, com seus cabelos perfeitamente arrumados, sua
gravata branca atada ao estilo quase impossível de Wyndham, seu casaco escuro
da alfaiataria de Weston, adaptando-se a seus ombros amplos e atléticos, dava
uma impressão de riqueza e elegância. Mas eram os preciosos olhos cinzas que
chamaram a atenção a sua beleza. E hoje mostravam uma pergunta que teve a
intenção de responder.
Respirando fundo para organizar seus pensamentos. John Barrasford era
tudo o que ela poderia desejar em um homem, disse-se com resolução, e com
certeza poderia chegar a amá-lo. Dirigiu um sorriso de boas-vindas e indicou
uma cadeira frente à sua.
— Gostaria sentar-se, milorde, e possivelmente tomar um chá comigo? —
Sua voz soou estranha inclusive para ela. — Minha sogra está na cama com um
pouco de dor de cabeça, estava a ponto de tomar o chá sozinha.
Se ele percebeu a tensão, não deu sinal. A contragosto soltou suas mãos e
retrocedeu para tomar um assento. Seu bonito rosto nunca traiu a incongruência
de ser obrigado a viajar por milhas na chuva para tomar chá. Os olhos cintilaram
com seu sorriso.
Ela tocou o sino e disse a James que eles tomariam o chá. Então, quase como
se algo secundário, acrescentou que gostaria a senhorita Finchley descesse os
meninos. Voltando para Lorde Barrasford, desculpou-se.
— Espero que não se oponha, milorde, mas eu gostaria que conhecesse meu
outro filho. Embora não tenha quatro anos, comporta-se muito bem —
acrescentou orgulhosamente.
— Disse-lhe que eu gosto de crianças — lhe recordou em um sussurro.
— Sim... bem... — vacilou um momento e depois seguiu adiante — às vezes
podem gostar de crianças como um grupo, é diferente quando estão sozinhos.
A diversão brilhou nos olhos.
— Milady, trata de averiguar se eu gostarei de seus filhos?
— Sim e eu gostaria de saber se gostarão de você — confessou.
— Compreendo. Pois bem, coloca um grande cargo sobre meus ombros?
— Não, mas eu gostaria de ver se podemos seguir juntos.
Os olhos cinza ficaram sérios.
— Me acredite, Johanna, quando digo que tenho a intenção de ser agradável
com eles.
— Ah, não devo esperar então que os coma, milorde. — O humor da
situação começava a golpeá-la. Uma covinha se formou nas esquinas de sua
boca. — Eles são, lamento dizer, que meus meninos são capazes de ser sujos,
voluntariosos, e exasperantes.
— Pensaria estranho se fossem de outra maneira.
Johanna se levantou impetuosamente de sua cadeira e andou para apoiar-se
contra o suporte da lareira.
— Às vezes acho que as limitações das conversas educadas deixam tantas
coisas sem dizer! — Um sorrisinho rouco escapou enquanto seus olhos
encontraram sua expressão divertida. — Aqui estamos falando tudo o que é
apropriado em vez do que realmente queremos dizer!
Ele estava a seu lado imediatamente.
— Então não estou confundido, está a ponto de me aceitar Johanna…
— Com uma condição, milorde — interveio rapidamente. — Possivelmente
quando souber de tudo, pode ser que não…
Foram interrompidos, primeiro por James com a bandeja de chá, e logo pela
senhorita Finchley com os dois moços. A instrutora se deteve quando observou
a presença de Lorde Barrasford e contemplou Johanna perplexa.
— Perdoe a intrusão, milady, mas Thomas disse que desejava ver os
meninos.
— É correto senhorita Finchley. Posso lhe apresentar Lorde Barrasford?
Justin... Robert... venham, façam uma reverência a sua senhoria.
— Lorde Barrasford. — A senhorita Finchley inclinou sua cabeça, mas
quando seus olhos encontraram seu lindo rosto, ruborizou-se.
— Senhorita Finchley. — Ele andou mais perto e enrugando uma
sobrancelha, tratando de situá-la. — Dos Finchleys de Baxter Gray?
— Sim, mas…
— É lady Charlotte? — perguntou.
A cor da instrutora se fez mais profundo.
— Que amável de sua parte recordar depois de tanto tempo.
— Não, absolutamente. Senti tanto ouvir a morte de seu pai, lady Finchley —
disse com compaixão. — Encontrava-me na Espanha quando me inteirei. —
Virou-se para a Johanna e explicou: — Conheci a família da senhorita Finchley
faz alguns anos.
— Não é de importância — a instrutora tranqüilizou. — Como pode ver,
agora estou bastante bem. Justin — impulsionou o menino maior a avançar. —
Este é Lorde Barrasford. — Logo que o menino obedientemente saudou com
sua cabeça, ela empurrou ao outro para sua senhoria. — Lorde Barrasford, o
senhor Robert Sherwood.
Lorde Johnny olhou de um moço ao outro e foi sacudido por sua diferença.
Enquanto o maior era assombrosamente idêntico a Adrian Delacourt, o mais
jovem era completamente bonito, mas de um modo diferente de Johanna.
Como se ela sentisse seus pensamentos, Johanna saudou com a cabeça.
— Temo que eles se pareçam muito pouco.
Barrasford deu uma olhada quente às bochechas gordinhas de Robin e os
cachos vermelhos e dourados antes se voltar para compará-lo com sua mãe.
— Ele tem algo parecido contigo — se decidiu.
— Ele? Sempre pensei que é igual a Gary.
O menino robusto, ligeiramente gordinho, inquieto sob o escrutínio do
desconhecido, aproximou-se.
— Meu nome é Robin.
— Não sabia, — respondeu amavelmente — mas me lembrarei de te chamar
Robin.
Concentrando sua atenção no moço mais escuro, perguntou, — E a você
como gostaria que o chamasse?
— Eu não gosto que me chamem de milorde — Justin confessou. — Gosta?
— Nunca pensei nisso. Mas já que meus pais morreram quando era jovem,
acostumei-me a isso logo. De fato, não posso recordar quando eu não era
milorde.
— O duque tampouco se importa, mas a mim sim. Lamento que meu papai
não estivesse ainda aqui, então eu poderia ser só Justin.
— Entendo.
— Conhecia meu papai?
— Não, mas teria gostado. Não vivia por esta zona quando seu pai viveu
aqui.
— O duque o conhecia.
— Justin — Johanna não estava preparada para suportar outra explosão de
pranto, em particular na presença do Barrasford.
— Não, está bem — lhe assegurou antes de ajoelhar-se no tapete ao lado do
menino. — Sei que teria gostado de seu papai, — acrescentou — porque se ele
teve você e sua mãe, deve ter sido muito especial. — Trocando-o brandamente,
perguntou: — Monta a cavalo?
— Um pouco.
— Bem, se vier me visitar na Irlanda, tenho um estábulo grande com muitos
cavalos, e com certeza posso encontrar um só para você.
— Quero um! — Robin interveio de repente. — Quero um cavalo!
— Um pônei, — corrigiu com um sorriso — suponho que posso encontrar
um pônei e um carrinho, até que seja bastante maior para montar a cavalo
sozinho.
— Um pônei e um carrinho! — o moço disse assombrado.
— E também é um bom carrinho. Está pintado de verde e branco, e tem um
assento para um condutor e um lugar para levar a alguém mais. Eu estava
acostumado a pôr um cão no assento e dar longos passeios quando era pequeno.
— Quando? Quando podemos ir? Quando? — exigiu com impaciência.
— Isso depende de sua mãe — confessou Barrasford.
— Mamãe?
— Logo, querido. Penso que logo. — Ela sorriu para Robin e Lorde Johnny.
— Em efeito, penso que pode ser arrumado.
Justin, que tinha girado quando Robin perguntou, viu o olhar entre Johanna e
o convidado. Um sentido de inquietação se apoderou dele quando recordou sua
menção de um novo papai.
— Pois eu não quero ir — anunciou. — E não o farei. E tampouco quero
um cavalo.
— Justin! — A voz de senhorita Finchley o cortou bruscamente. — Tenha
boas maneiras e peça perdão por falar de tal maneira com Lorde Barrasford.
— E eu não gosto dele.
— Justin. — O tom de Johanna era tranqüilo, mas firme. — Pedirá perdão
neste instante a Lorde Barrasford, e logo voltará para o quarto das crianças,
enquanto Robin permanecerá para tomar o chá.
As lágrimas apareceram em seus olhos escuros e seu queixo tremeu quando
confrontou sua mãe, mas a expressão em seu rosto lhe disse que ela não
toleraria nenhuma insolência mais. Elevou a vista para Barrasford durante alguns
segundos, e logo saudou com a cabeça. Resmungando um rápido: — Perdão,
milorde — se voltou e correu para fora do quarto.
— Pois eu sim, quero ir — se decidiu Robin.
— É obvio que sim — acalmou Johanna. — E vamos.
Para Barrasford, os vinte minutos seguintes dedicados à conversa mundana
sobre o chá e bolos era interminável. A saída repentina do menino mais velho
tinha apagado o entusiasmo de Johanna que se sentou silenciosa, enquanto a
senhorita Finchley conversava sobre as pessoas que recordava de Baxter Gray.
De vez em quando, Robin conseguiu injetar na conversa pergunta sobre o pônei
e o carrinho prometido. As maneiras do menino eram realmente boas,
considerando sua idade, e Barrasford achou fácil entreter o moço. Uma vez, que
as xícaras foram retiradas, Robin se aproximou o bastante para examinar o
relógio de sua senhoria e foi recompensado subindo-o em seu regaço.
— Robin, não deve danificar as calças de Lorde Barrasford — protestou
Johanna.
— Calma já estão enrugados com a umidade do ar de todas as formas. E não
faz nenhum dano. Você gostaria de ver o interior do relógio? — perguntou. —
Reynolds pintou isto para meu pai é um retrato de minha mãe quando era
jovem.
Curiosas, tanto Johanna como à senhorita Finchley se moveram para revisar
sobre seu ombro a imagem de uma mulher encantadora, seu cabelo empoado e
amontoado no alto de sua cabeça, seu magro pescoço embelezado por um
camafeu em uma fita.
— Ela era linda — admirou Johanna. — Parece-se muito com você... — Ela
parou de repente consciente de como devia soar se terminava o pensamento.
Tinha estado a ponto de dizer que era óbvio onde tinha conseguido sua beleza,
mas não o disse se por acaso parecesse descarada. — Bem, — terminou sem
convicção — há uma semelhança marcante entre os dois.
— Isso dizem. Mal que posso recordá-la, então não posso afirmá-lo.
— O que é isto? — Robin acariciou um pequeno volume no bolso do colete
de Barrasford.
— Não deve ser tão curioso, meu amor.
Mas Barrasford parecia contente de esvaziar o conteúdo de seu bolso para o
escrutínio do menino. Quando o pequeno abriu uma caixa esmaltada de rapé em
sua mão, uma pequena quantidade de pó caiu em sua palma. Antes que Johanna
pudesse dizer algo, Barrasford foi rápido para pará-la.
— Não acontece nada, levo-o mais para espetáculo que outra coisa, se quer
saber a verdade. Eu não gosto disto muito. Aqui — tirou um lenço de renda
belga e começou a limpá-lo. Devolveu o lenço a seu bolso do casaco, deu ao
moço seu monóculo. — Olhe Robin faz às pessoas parecerem estranhas. Ponha
sobre o olho e olhe para sua mãe? Agora, dêem-me isso e te olharei. Verdade
que faz meu olho parecer horrível, se eu realmente desejasse lhe pôr em seu
lugar, eu o olharia assim — levantou sua sobrancelha e olhou abaixo a seu nariz.
O menino riu bobamente e Johanna não podia menos que unir-se a ele.
— Rogo-lhe que nunca trate de me pôr em meu lugar, temo que teria que rir.
— Sim, suponho que tenha descoberto meu segredo.
— O que fez? — disse com severidade apesar da cintilação em seus olhos. —
Conseguiu enrugar suas calças e seu bolso cheio do rapé, milorde. Estou com
medo que meu inquisitivo filho se aproveite de sua bondade. — Estendeu uma
mão para o moço, que tornou e se deslizar do regaço de Barrasford. — Agora,
vai com a senhorita Finchley e busque seu irmão…
— Mas, mamãe, eu gosto do Lorde Barrasford! Não posso…
— Não, o verá outra vez, Robin.
— Vou? — girou sua cabeça para sua senhoria justo quando a senhorita
Finchley o alcançava para tirá-lo da sala. — Vou, o senhor não se esquecerá do
carrinho e o pônei, verdade?
— Não o farei — prometeu solenemente. — Vou escrever para mandá-lo
pintar logo que retorne a minha casa. E sua mãe pode-te dizer quando virá me
visitar. — Elevou a vista para Charlotte Finchley. — Bom dia. Se houver algo
que posso fazer para ajudá-la, possivelmente, possa escrever a Charles.
— Não! Rogo-lhe que não o faça, não se incomode por mim, milorde —
emendou rapidamente. — Duvido muito que se importe. — Começou a partir e
vacilou. — Foi muito agradável voltar a vê-lo de novo, milorde — disse
brandamente. — Quase tinha me esquecido de Baxter Gray.
— O que foi exatamente tudo isto? — Johanna perguntou depois de que eles
partiram. — Não sabia que eram mais que simples conhecidos.
— Em realidade conhece melhor meu primo Charles, mas éramos vizinhos.
Tinha escutado que seu pai estava arruinado, mas não sabia que a deixou em tais
circunstâncias. Houve um tempo quando pensei que ela e Charles se casariam.
— Ele pareceu perdido em seus pensamentos durante um momento e logo
acrescentou. — Suponho que meu estimável primo não gostaria de ter uma
esposa sem dinheiro.
— Que horror!
— Sim, é uma lástima. Até onde eu sei, nunca houve nada para ser dito
contra a senhorita Finchley que é muito mais que pode dizer-se do musaranho
que a cortejava. É alguém quase tão egocêntrico como Almeria Bennington.
— Conhece lady Bennington?
— Quem não conhece? A Donzela de Gelo, chamam-na Brummell , sua
beleza é verdadeira, mas eu não a quereria. Cara e fria, isto é o que é, e não é o
que um homem deseja em uma esposa. — Com um brilho malvado em
acrescentou: — Agora, cara não importa, na condição de que haja um pouco de
fogo como recompensa. Ah! Ofendi-te dizendo isto? — Arrependeu-se
imediatamente. — Esta não era minha intenção, asseguro-lhe isso.
Simplesmente pensei que se aceitava minha proposição, deveríamos ser capazes
de falar claramente um ao outro. Não tenho nenhum desejo de ter um desses
matrimônios indiferentes tão comuns entre nossa classe. — Seu rosto ficou
sério quando examinou seu olhar. — Aceita minha proposição? É a razão pela
qual solicitou minha presença.
— Sim. — Para seu horror, ele se aproximava. — Quer dizer vou... se estiver
preparado para me ajudar na guarda de meu filho — terminou sincera. —
Possivelmente quando lhe diga que Adrian pensa voltar a reclamar o divórcio
como um meio para ganhar a custódia de Justin, pode me desejar em Jericó,
milorde.
— Johnny.
Ele estava só a alguns centímetros de seu rosto. Ela piscou para concentrar-
se.
— Não pense que aceitei você rapidamente, mi... Johnny, mas acredito que
você é a minha única esperança se eu tiver que lutar contra Adrian.
— Johanna. — Sua voz era suave e estava tão perto que sentia sua respiração
contra seu cabelo. — Não sabe que enfrentaria o diabo por te sustentar entre
meus braços? Não me preocupa o que Roxbury dizer, não me importa o que
digam os outros. Lutarei contra ele no Parlamento se for necessário. — Seus
braços se fecharam ao redor dela, envolvendo-a com o calor de seu abraço. Seus
lábios se abriram ao roce dos seus ligeiramente no princípio e depois com
paixão. Fechou seus olhos e sentiu outra vez a força do corpo de um homem
contra o seu. Fazia muito tempo desde que tinha sido abraçada desta forma, e
sentiu uma quebra de onda de desejo, afiado pela abstinência de um ano.
— Johanna. — Sussurrou quando por fim soltou seus lábios. Dominando
suas emoções, procurou em seu rosto algum sinal de que havia sentido o mesmo
que ele. Quando por fim ela abriu seus olhos, ficou eufórico pelo desejo que viu
neles. — Ah, moça! Não esperava… — Ele a abraçou outra vez, sussurrando
em seu cabelo dourado, — far-te-ei feliz, juro-lhe isso. Iremos à Irlanda com os
meninos logo que estejamos casados. — Se deteve e a afastou ligeiramente. —
Vou enviar o anúncio à imprensa imediatamente e podemos estar casados com
uma licença especial quando desejar, Jo.
Jo. Era como Adrian sempre a tinha chamado. Esperava que Johnny não
pudesse sentir a corrente de calor em seu corpo, não queria lhe fazer saber que
Adrian se interpunha entre ela e qualquer homem. Tinha impedido Gary
descobri-lo ao longo dos anos de intimidade compartilhada e teria que fazer o
mesmo com Johnny. Em seu coração, sabia que não importava as alturas que
sua paixão alcançasse, nunca seria o mesmo que sentia com Adrian. Ela
conseguiu assentir com a cabeça.
— Quando quiser.
— Durante este mês, então. Há tanto a fazer, tenho que enviar a notícia ao
administrador de minha fazenda na Irlanda para abrir e restaurar a casa... há
parentes para notificar... seu enxoval para comprar...
— E terei que dizer aos meninos. Não haverá nenhum problema com Robin,
mas ele não recorda Gary. Justin, como já vimos, é outro assunto, temo que não
será feliz com as notícias.
— Quer que o eu diga?
— Não, necessitará um pouco de tempo para acostumar-se à idéia. Ele
adorava Gary.
— Um mês, daremo-lhe um mês. — Descobriu a tristeza em seus olhos e
confundiu a razão. — Diga-lhe que trarei um pônei da próxima vez que venha e
podemos começar a nos conhecer melhor. Ele me aceitará — a animou. — Já o
verá.
A tormenta, que tinha diminuído antes, pareceu pronta a recuperar sua
intensidade. Um relâmpago caiu perto e um estrondo de trovões sacudiu a casa.
Lorde Johnny a liberou e foi olhar as nuvens escuras.
— Pela quantidade de nuvens — observou — terei que partir. O leito do rio
deve estar subindo, e a menos que queira ser o escândalo da vizinhança dando
proteção a seu prometido, melhor me colocar a caminho. — Ele voltou para seu
lado e levantou sua mão para beijar cada dedo galantemente. Uma luz estranha
dançava naqueles olhos cinza. — Eu gostaria de beijar seus lábios, mas temo
que nunca seria capaz de partir. — Apertou seus dedos ligeiramente e os liberou.
— Tem-me feito muito feliz. Não, não saia comigo. Quero te recordar em
minha mente esperando por mim, não dizendo adeus.
Ele abandonou o salão e cruzava o vestíbulo quando notou um movimento
detrás de uma mesa do corredor. Por impulso andou atrás, para a escada e
encontrou Justin Sherwood de joelhos com suas calças molhadas cheias de
barro, e seus sapatos danificados. Os rastros de barro vieram da parte traseira da
casa.
Barrasford se ajoelhou ao lado do moço.
— Esteve fora? — perguntou.
— Sim — era a resposta mal-humorada.
— A senhorita Finchley deve estar preocupada com você.
— Não me importa.
— Justin... — observou o obstinado queixo do menino. — Não posso
entender por que me tomou tal aversão, mas acredito que é justo que ao menos
nos conheçamos melhor antes de fazer tal juízo. — O moço o olhou em
silêncio. Barrasford suspirou e voltou a tentá-lo. — Acredita que penso levar sua
mãe longe de você? Se for assim, posso te assegurar que não é certo. Quero me
casar com sua mãe, mas isto não mudará as coisas entre vocês.
— Não te quero para ser meu papai! — explodiu. — Quero de volta meu
próprio papai!
— Seria estranho que fosse de outra maneira, — seguiu brandamente — mas
com o tempo, aprenderemos a nos amar um ao outro simplesmente porque
ambos amamos a sua mãe. Pode entender isso?
— Prefiro morrer e estar com meu pai — respondeu o menino zangado.
— Pensa isso agora, mas acredita realmente que seu papai teria querido que
se sentisse desta forma? Que ele quereria que partisse para sempre e que sua
mãe estivesse triste outra vez?
— Ela se esqueceria de mim, como se esquece de papai.
— Não acredito. Tampouco acredito que esqueceu seu papai, Justin. É
possível seguir adiante e fazer outras coisas sem esquecer a alguém.
— Não irei à Irlanda. E não quero um pônei.
— Esteve nos escutando detrás da porta.
— Sim. — O moço elevou a vista com olhos avermelhados pelas lágrimas.
— Saí pela janela do quarto das crianças e retornei pela porta dos criados.
— E que mais? — Barrasford perguntou em voz baixa.
— Nada, já partia.
— Então, deveria te dizer que sua mãe necessita minha ajuda em um assunto
de grande importância. E terei que me casar com ela para poder ajudá-la. Então
não deve criticá-la pelo que ela faz, Justin. — Outro trovão enorme sacudiu a
casa. — Deixar-te-ei para pensar nisto, e podemos falar disso outro dia. Com o
que chove, mal serei capaz de atravessar do rio. — Levantou-se apoiando-se
com a borda da mesa e acrescentou. — Se não me quiser como um papai,
possivelmente me deixará ser seu amigo.
— Prefiro ter o duque, pelo menos ele conhecia meu papai.
Barrasford suspirou outra vez. O cortejo do moço era muito mais difícil que
o da mãe.
— Não acredito que seja possível, Justin, porque o duque faz sua mãe muito
infeliz. Possivelmente um dia ela será capaz de te explicar por que, mas não a
pressione. — Alcançou a acariciar a cabeça escura. Justin esquivou furiosamente.
— As coisas parecerão melhores mais adiante, prometo-lhe isso. Bom dia,
pequeno.
O menino não se moveu até que Barrasford partisse, e logo deixou cair sua
cabeça contra seus joelhos e se balançou chorando lastimosamente.
— Não quero um novo papai — chorou. — Não vou tê-lo.
CAPÍTULO 13
Adrian se sentou em seu escritório examinando o informe de seu
administrador e as contas trimestrais dos comerciantes, enquanto o senhor
Bennington estava ocupado com os periódicos publicados em Londres. Para
ambos os homens, era uma pausa das atividades frenéticas impostas pelas
miladies, que durante este dia tinham optado por fazer visitas no povoado.
Adrian murmurou uma maldição em voz baixa enquanto ordenava as partes
de papel que sua mãe tinha deixado no escritório. O senhor Bennington elevou
a vista de seu periódico com compaixão.
— É uma maldita irritação preparar as contas do trimestre, quero dizer. Dez
a um, que um homem tem seu olho em um bom cavalo ou um artigo de
primeira, só para averiguar que as mulheres em sua família também gastaram o
dinheiro que era para ele.
— Minha mãe tem seu próprio subsídio — Adrian rompeu o selo de um
sobre e recuperou a conta de Thorpe. — São aos malditos advogados aos que
critico, já que esperam ser pagos se tiverem êxito ou não. — Enrugou o papel
em sua mão, resmungando concisamente. — Vinte e cinco libras em troca de
nada.
— Bem, a duquesa pode ter seu próprio dinheiro — persistiu Bennington —
mas garanto que é o seu que paga por esta casa, Sua Graça. E adivinho que a
pequena festa da outra noite também foi seu moedeiro quem a pagou. Não se
pode dizer que você não foi amável com minha Almeria, tinha minhas dúvidas
no princípio, sabe. Falando sem rodeios, estivemos a ponto de partir depois do
assunto de Sheffield, mas parece que você mudou após — fez uma pausa e
tossiu desculpando-se antes de mencionar um assunto tão delicado. — Suponho
que era o choque de estar vendo aquela mulher. — Quando o duque não
respondeu, foi encorajado para seguir. — Eu não estava ali, mas Almeria me
contou tudo, e sei que deve ter sido muito incômodo ver a mulher entre damas
respeitáveis.
Os punhos de Adrian se fecharam e os músculos de seu queixo se apertada
enquanto procurava controlar seu caráter. Embora tivesse estado
alternativamente perdoando e condenando Johanna do mesmo modo, não tinha
nenhum desejo de ouvir o Senhor Presunçoso falando dela. Com resolução
alcançou a conta do açougue e a olhou com determinação.
— Agora, olhe a minha Almeria não há uma moça que seria de mais valor a
um homem, se souber o que quero dizer. É uma beleza, tem que reconhecer,
mas não é tão chamativa como outras, e mantém distância como uma certa
milady deveria. Não a encontrará nunca lançando-se sobre um homem.
— Não — resmungou sucintamente.
Confundindo este comentário conciso por seu acordo, Bennington o
considerou uma abertura para uma conversa mais prometedora.
— Penso ser muito generoso por ela. Se o homem que oferecer matrimônio
tem o título correto, não há nenhum cifrão o que eu não poderia dar —
observou a cabeça inclinada de Adrian e esperou, mas não houve resposta. —
Quero dizer, seu dote vai ser de vinte mil.
Adrian não caiu na armadilha como ele esperava. Em troca, amontoou as
contas em pilhas ordenadas e começou às enumerar.
— Sete libras, seis xelins, — anotou arranhando com sua pluma no
pergaminho. — Cinqüenta e duas libras. Doze libras, três xelins. Cento e quatro
libras, oito xelins. — Quando tinha dominado suficientemente seu caráter,
sustentou a conta de um verdureiro. — O preço as ervilhas este ano é
escandaloso — observou intencionadamente.
A mensagem não foi perdida pelo Senhor Bennington. Acomodou-se na
poltrona e reajustou seu periódico para esconder seu desgosto. O Duque de
Roxbury deixava completamente claro, não tinha nenhum desejo de falar de um
matrimônio com sua filha. Isto não importava, decidiu, já que estava
determinado que se o duque não fizesse a proposta por si mesmo, seria forçado.
Era um negócio de dar e tomar, um que não tinha querido empurrar, mas
Adrian Delacourt não lhe deixava nenhuma outra opção. Era tempo de aprovar
à saída para Wells se Almeria queria ser uma duquesa.
Adrian terminou de somar os gastos domésticos e os pôs à parte. Depois de
três semanas de passear com Almeria e seus pais com rígida cortesia, estava
cordialmente doente da invasão de sua casa. Nada parecia reduzir as pretensões
a seu título, eles insistiram em seguir com seus projetos para estas bodas, até que
fosse a intriga da vizinhança e não ficasse mais remedeio que fazer uma oferta.
Levantou-se e se estirou, antes se voltar para o Senhor Bennington.
— Irei a Londres por negócios no final da semana, — anunciou por
casualidade, — e não posso assegurar quando voltarei. É obvio que você e sua
família podem permanecer aqui com minha mãe.
— Tão cedo? — O rosto rubro traia seu alarme. — Almeria expressou tal
interesse de visitar Wells, milorde!
Era um ponto dolorido, um que sua mãe e ele tinham tido muito mais que
umas palavras, faria seu dever pela última vez a seus convidados não desejados e
a seguir os deixaria a sua sorte. E não tinha uma só dúvida que partiriam umas
horas depois de sua saída. Começava a desfrutar do pensamento.
— Pensava levar lady Bennington um dia antes de partir, — acrescentou
agradavelmente.
— Muito amável de sua parte. — O homem mais velho relaxou visivelmente
e voltou sua atenção a seu periódico. Pardiez! — Releu um pequeno anúncio
discretamente colocado entre vários outros. — De todas as coisas. Eu não tinha
pensado que o homem fosse um tolo. — Elevou a vista, mas o duque não
emprestava atenção. — Sua Graça! — Agitou o papel em sua direção. — Não
acreditará, mas a Carew encontrou outro tolo.
Pelo tom triunfante na voz, Adrian sabia que se referia a Johanna. Andou a
pernadas através da sala e agarrou o periódico das mãos do homem. Lendo
atentamente a página rapidamente, encontrou a ofensiva nota e empalideceu. Ali
em invariável branco e negro, dizia: John, terceiro Lorde de Barrasford, anuncia
seus esponsais com Johanna Milford Sherwood, Condessa de Carew. As núpcias
privadas estão sendo planejadas.
— O que deve ter estado pensando Barrasford? — Bennington exigiu. —
Um homem de sua posição social deve saber as conseqüências. Maldito tolo,
casar-se com ela, deveria fazê-la nada mais que sua amante.
— Feche sua boca! Feche sua asquerosa boca — explodiu quando a cor
voltou para seu rosto. — Que diabos está pensando? Ela não pode amá-lo —
resmungou louco. Esquecendo de Bennington, começou a dar voltas e refletir
em voz alta. — Tenho que pensar nisto. Por quê? Por que voltaria a casar-se
outra vez e com um homem que mal conhece? Gary era uma coisa, mas
Barrasford?
— É tão claro como o dia, milorde — cheirou Bennington. — Ele é rico.
— Johnny? — Um bufo zombador saiu do duque. — Meu estimado senhor,
com o dinheiro que Gary lhe deixou, Johanna é uma mulher muito enriquecida.
Não, não é por dinheiro, nunca lhe interessou.
— Possivelmente ele seja quem está disposto a esquecer seu vistoso passado
por seu dinheiro — disse o homem mais velho. — Além disso, agora já não é
sua preocupação.
— Não. Johnny tem uma fortuna respeitável. Além disso, nunca foi um
caçador de dotes.
— Então não sei — foi interrompido pelo olhar que Adrian lhe deu. — Bem,
de todas as formas parece. Talvez ele a levará a aqueles estados irlandeses deles e
será o último tenhamos que ouvir dela.
— Irlanda! — disse como uma revelação. — Sim, fugiu para a Itália uma vez,
e agora é a Irlanda. Bem, não vou deixar que aconteça, não permitirei que se vá.
Antes que a visite Thorpe, e possa fazer outra oferta. Danou-o a última vez, mas
não haverá outra.
O Senhor Bennington recolheu o papel e jogou uma olhada malévola ao
anúncio, desejando ter mantido sua boca fechada e destruir o periódico. Através
da sala, o duque escrevia instruções a seu advogado que não pressagiava nada
bom para os projetos de Almeria.
CAPÍTULO 14
Embora fosse ainda muito cedo pela manhã, o clima era insuportável com
temperaturas altas, sem vento, e sem chuva. Os criados em New Haven tinham
aberto todas as janelas, portinhas, e portas com a esperança que entrasse um
pouco de brisa. Por sua vez, Johanna desejava as chuvas intermináveis que
pareciam uma praga no verão inglês. O tempo excepcionalmente quente fazia a
sua roupa aderir-se a seu corpo. Abanou com a saia de seu vestido de musselina
sua pele úmida e pensou naquelas miladies de moda que recorreram a umedecer
seus vestidos para que se aferrassem a sua figura. Era incrível, decidiu com
cansaço, mesmo a natureza confabulou para fazê-la miserável. Com seu estado
de ânimo no mínimo e uma abominável dor de cabeça, considerou voltar a
deitar-se. Se só os pensamentos de Adrian, Gary e Johnny não a incomodassem.
Mas era Adrian quem sobre tudo ameaçou sua paz.
Logo que parou a chuva, e os caminhos ficaram bastante secos para viagens,
tinha enviado seu advogado uma vez mais. A cólera e amargura a alagaram cada
vez que pensava no Senhor Thorpe. Tinha vindo de novo por desejo do Duque
de Roxbury, havia dito com tal sentido de presunção que teve vontade de rir,
com uma última oferta. Queria rechaçar vê-lo, mas Anne tinha prevalecido, e
desceu para lhe escutar até o final. O duque estava disposto, disse, a permitir que
o menino ficasse com ela, no momento, com duas condições, deveria
reconhecer que Adrian Delacourt era seu pai e, dois, Johanna não deveria voltar
a casar-se enquanto o menino fosse menor de idade. E no último momento,
acrescentou que o duque esperava ter direitos de visita a seu filho. Seu filho. Ela
não podia pensar como tal para Justin, e agravando a injustiça, Adrian exigindo
direitos quando simplesmente participou da concepção do menino. Não, era
Gary quem o tinha amado e Gary a quem o menino amava. Ela não ia ceder a
suas demandas.
E logo, a persistente negativa de Justin de aceitar Johnny. Cada tentativa do
homem foi rechaçada com tal hostilidade que começava a pensar que a situação
era desesperada. E agora seu filho se afastava dela. Só ontem tinha gritado que
ela poderia esquecer seu papai, mas ele não ia fazê-lo, de forma tão acusatória
que Anne e a senhorita Finchley lhe tinham afastado e o colocaram na cama.
Além disso, as distintas opiniões entre os criados quanto se ela deveria casar-se
com Barrasford. A casa inteira parecia estar dividida. Anne tinha mostrado um
apoio silencioso, e Robin a sua maneira infantil tentava consolá-la, Bekins
mostrou uma frieza imprópria para Johnny que Thomas e James tentaram
vencer. E a senhora Beech, a ama-de-chave, mal era civilizada quando ele a
visitava.
Se havia algum consolo em sua vida, era Johnny. Embora soubesse que não o
amava, ganhava cada vez mais seu respeito e admiração com cada dia que
transcorria. Os desprezos e falações escorregaram por suas costas como a água.
Mas ele tinha ido a Londres pedir uma licença especial e tomar cuidado de
alguns assuntos comerciais, não se esperava sua volta durante vários dias. Ele
não conhecia a última oferta de Adrian.
Recolheu a escova de sua penteadeira e começou alisar seu cabelo úmido.
Nunca tinha sido capaz de usar seu cabelo curto como estava na moda, e pela
primeira vez, o lamentou. Todos os homens em sua vida tinham admirado seu
cabelo, Adrian o chamou uma cortina de seda, Gary que brilhava à luz como o
cetim, e agora Johnny o pronunciava como o cabelo mais bonito que nunca
tinha visto.
Suas reflexões foram interrompidas por sua criada.
— Milady... — A moça disse nervosa e informou — Thomas manda lhe
dizer que Bekins permitiu outra vez a entrada desse Thorpe.
— Dei ordens que não estou em casa para o Senhor Thorpe.
— Sim, milady, mas Bekins disse que era importante.
Johanna girou, sua irritação evidente.
— Informe a Bekins que deve dizer ao Senhor Thorpe que estava
confundido e não estou em casa. — Estas últimas palavras às pronunciou com
precisão.
— Perguntarei à Milady Anne?
— A milady Anne tampouco está em casa. Não há nenhum objetivo para ser
incomodada durante um dia como este.
— Sim, milady.
— E, Maggie.
— Sim, milady?
— Comprove se há água de rosas fria no porão, por favor. Tenho dor de
cabeça e se pusesse um tecido úmido sobre meus olhos.
— Conseguirei um pouco — prometeu a moça.
Johanna esperou até que a tivesse deixado e tirou seu vestido para deitar-se
com sua fina camisola. Os lençóis estavam secos e frescos. Em alguns minutos a
moça voltou com o tecido empapado e o colocou em seus olhos fechados.
Abaixo no pátio, podia ouvir o som da carruagem do Thorpe ao sair.
Estava muito tranqüila, disposta a não pensar no passado ou dar voltas ao
futuro. Reconhecia que Johnny Barrasford e ela teriam que aceitar sua vida
como viesse. Com aquela decisão fatalista, concentrou-se na roupa que tinha
encomendado à modista. Depois de mais de um ano de luto, estava pronta para
as roupas bonitas.
Conseguiu cochilar com o calor apesar da dor de cabeça, até que a senhorita
Finchley chamou e bateu na porta.
— Com perdão, Lady Carew, mas Justin está com você?
— Não. — sentou sonolenta olhando a seu redor. Fazia mais calor e abafado
que quando se deitou. — Que horas são? — perguntou.
— Quase onze, milady, e Justin não foi visto desde que deixou suas lições
inacabadas esta manhã.
Havia algo sobre a voz da instrutora que traiu sua preocupação. E já que
geralmente era uma mulher extraordinariamente equilibrada, levantou-se e
colocou seu vestido.
— Entre.
— Eu não a teria incomodado, Lady Carew — pediu perdão outra vez na
entrada — não é normal ele desaparecer. E perguntei à condessa, Bekins, James,
Thomas, o cozinheiro, a senhora Beech, as criadas, até os moços do estabulo.
Ninguém se lembra de vê-lo durante algum tempo.
— Possivelmente disse a Robin.
— Robin e ele brigaram. — A instrutora vacilou incerta de como explicar
seus temores. — Deveria ter ido atrás dele, posso ver agora, mas estava tão
zangado.
— Como foi desta vez? Sei que sente falta de Gary, mas não sei o que fazer.
— Ah, não foi por isso. Esta vez foi porque Robin lhe dizia sobre seu
carrinho e pônei na Irlanda. Justin começou a gritar que ele não iria, que preferia
ir para onde estava seu papai. Como tem feito isto antes, deixei-lhe sair com a
esperança que retornaria disposto a trabalhar em suas somas. Então, Robin e eu
cortamos e colamos desenhos, e não notei o passar do tempo até
aproximadamente uma hora.
— Não se preocupe, senhorita Finchley — disse docemente. — Como disse,
não é a primeira vez que ameaça tratando de encontrar Gary — suspirou. — Ele
não entende realmente que é a morte. Esconder-se-á em algum lugar até que se
sinta melhor.
— Mas Thomas e James e os moços do estabulo passaram esta última hora
procurando por toda parte, milady, não está aqui.
Johanna se sentou na borda da cama e agarrou suas meias.
— Encontrar-lhe-ei — prometeu triste. — E desta vez, penso pôr fim a este
problema. Durante muito tempo usou sua tristeza para fazer o que lhe dá
vontade. — Atando as ligas sobre as meias, ficou de pé e olhou sob a cama em
busca de suas sapatilhas, deslizou seus pés nelas. — Fique com o Robin, ocupar-
me-ei de Justin.
Mas quando esteve abaixo, Johanna percebeu que a instrutora não tinha
exagerado. A ama-de-chave, não podia lembrar-se de vê-lo depois de seu café da
manhã. Thomas e James o tinham visto quando desceu do quarto das crianças
porque James tinha tratado de convencer o menino de voltar, mas Thomas tinha
sugerido que possivelmente ele simplesmente necessitasse de algum tempo
sozinho. Então Bekins recordou que ele estava fora da casa quando o Senhor
Thorpe chegou, mas não estava depois de que o advogado partiu.
Uma suspeita terrível arraigou na mente de Johanna.
— Está seguro que não o viu depois de que o senhor Thorpe se foi?
— Não o vi.
— Que fazia a última vez que o viram?
— Como disse à senhorita Finchley, milady, Justin se sentava nos degraus do
terraço quando o senhor Thorpe entrou na casa. O senhor se deteve e falou
brevemente com ele sobre seu cão.
— Entendo.
— Vou pedir que os homens sigam procurando, milady? Não pode ter
deixado as terras, como não o fez no passado.
— Ainda não. Bekins, disse o Senhor Thorpe algo mais a Justin?
O mordomo pensou durante um momento e logo assentiu.
— Disse-lhe que deveria visitar o duque algum dia, que o duque se recordava
dele.
— Adrian.
Milady Anne, que tinha estado escutando os criados descrever a busca do
moço, sacudiu sua cabeça.
— Johanna, Adrian Delacourt não se comportaria tão mal.
— Mamãe, ele faria qualquer coisa para me castigar — lhe recordou com
sentimento. — Esqueceu a última vez que veio seu advogado? Que de qualquer
forma ele teria meu filho.
— Não pode acreditar…
— Seu advogado estava aqui esta manhã e meu filho desapareceu! — disse
acusadora. — Bem, ele vai saber que lutarei desta vez. — Girou seus calcanhares
e foi para a escada. — Faça selar meu cavalo, por favor — disse sobre seu
ombro.
Anne Sherwood não acreditou que pensasse fazê-lo até que descesse em seu
traje italiano de equitação.
— Onde acredita que vai? — perguntou alarmada. — Johanna, não pode
só…
— Cavalgarei a Armitage, mamãe, e vou dizer isto a Adrian. Ele sabe que não
pode ganhar nos tribunais, então seqüestrou meu filho, e não o permitirei.
— Johanna, pense! Por que faria semelhante coisa? Por favor, nos deixe
enviar uma equipe de busca. Se Justin não for encontrado, Barrasford pode…
— Barrasford está em Londres, mamãe! — replicou. — E se esperar, Adrian
poderia escondê-lo ou tirá-lo do país.
— Mas Adrian não tem nenhuma razão... sempre foi uma pessoa amável…
— Amável? — O caráter de Johanna flamejou. — Amável? Chamaria amável
o divórcio? Chamaria o que fez a Gary amável? Não, fez isto para me ferir. —
Passou diante de sua sogra e andou a pernadas, furiosa, onde um moço
sustentava dois cavalos selados. Ela observou a sela de amazona em um
desdenhosamente, pôs seu pé no estribo do outro e subiu.
— Johanna! — Anne saiu no pórtico georgiano e ficou de pé sob a coluna
coríntia.
— Não pode ir sozinha! E não pode montar a cavalo escarranchada.
— Nunca chegaria ali nisto — afirmou quando pôs uma espora contra o
flanco do cavalo.
— Ah, senhor! Alguém tem que ir com ela.
Todos os homens olharam a sela de amazona e sacudiram suas cabeças em
harmonia.
— É uma grande amazona — um deles tranqüilizou a condessa de viúva.
— Johanna... — Anne, esquecendo sua educação por um momento,
levantou-se nas pontas dos pés e cavou suas mãos em concha para gritar: —
Tome cuidado!
CAPÍTULO 15
O ar se aferrou a Johanna como uma manta úmida, quente e pesada. As
nuvens se aproximaram sinistramente passando pelo horizonte contrastando
com o brilhante céu. Ela esporeou seu cavalo através do vau, cruzando o rio
sobre as rochas escorregadias, cobertas de algas, em terras Roxbury. Detendo-se
brevemente, notou a calma, pouco comum para um lugar onde o rio se unia aos
bosques. Acima, uma ave voava, grasnando, e logo posou em algum lugar além
das sebes. O calor era cansativo, a calma que vinha antes da tormenta.
Instigou o animal ao galope quando alcançaram o caminho de Armitage e
foram recompensados pela sensação do ar contra seu rosto. As mechas úmidas
escaparam da fita que atava seu cabelo e voavam ao redor de sua testa e
bochechas. As árvores enormes, sebes, e a extensão de erva do atalho, eram
exatamente como os recordava. Em mais de seis anos, nada parecia ter mudado.
Armitage surgiu diante si, uma magnífica coroa colocada na crista da colina.
Antes da entrada estava o parque, uma ampla extensão de prado esmeralda tão
lisa e exuberante como um tapete que dividia claramente um caminho
pavimentado com tijolos. A casa era de antiga arquitetura mesclada com nova
para criar uma estrutura imensa de Isabelina a Georgiana. A respiração ficou
apressada em seu peito ao ver a que tinha sido sua casa durante um ano de
felicidade.
Só quando alcançou o pátio e desmontou lhe ocorreu que Adrian poderia não
estar na mansão. Com resolução alisou suas saias contra suas pernas úmidas e
subiu os degraus para levantar a aldrava. Inclusive se não estivesse ali, não
partiria, não deixaria Armitage sem Justin. E se Helen Delacourt desejasse
repetir suas ridículas mentiras, desfrutaria de dizer a verdade. Ela já não era
nenhuma moça ferida, a não ser uma mulher, assim se Sua Graça de Roxbury
tinha intenção de criar problemas para ela com seu filho, estava preparada para
lutar. Seu coração se acelerou com a antecipação e as palmas de suas mãos
ficaram úmidas enquanto esperava.
— Milady Johanna! — O velho mordomo de Adrian olhou com olhos
exagerados um instante e logo se recuperou. — Algo errado, milady? —
perguntou cortesmente.
Temerosa que pensasse impedir sua entrada, tratou de jogar por cima de seu
ombro uma olhada para dentro, e respondeu em voz alta, — Pode informar a
Roxbury que vim por meu filho.
— Seu filho? Milady, tenho certeza que há um de engano. Sua Graça…
— E não se atreva a me dizer que não está em casa, esperarei.
— Não... não — ficou de lado para permitir sua entrada. — Ficarei feliz de
informar Sua Graça que está aqui. Não tenho certeza onde se encontra agora,
mas sei que não saiu.
Jogando um olhar furtivo para onde as vozes se ouviam no salão azul, fez
gestos para a porta aberta da biblioteca.
— Se o esperar ali, Lady Johanna, encontrar-lhe-ei.
Ela entrou na biblioteca e se deteve. Era como dar um passo atrás no tempo.
Estava exatamente como recordava, com a exceção de seu retrato que Adrian
tinha encarregado de pintar ao grande Lawrence por seu compromisso. Um
retrato de Adrian, ainda estava pendurado em cima da lareira oposta,
dominando a sala com seu olhar penetrante. Inclusive quando se voltou para
estar em frente, foi atraída pelo magnetismo daquelas profundidades escuras.
Lawrence tinha capturado aquele aspecto muito bem. Como recordou, aqueles
olhos poderiam esquentar-se com sua intensidade ou eles poderiam esfriar como
gelo, mas hoje parecia que eles simplesmente zombar. Possivelmente era o
sorriso débil nos cantos de uma boca muito sensual. Durante um instante o
velho desejo familiar inundou cada fibra de seu ser.
— Como se atreve a vir aqui?
Ela girou para enfrentar à fúria de Helen Delacourt e teria retrocedido ante a
expressão da mulher se não fosse por sua própria cólera.
— Meu negócio é com Dree — respondeu com frieza.
— Deixará minha casa neste instante!
Por resposta, pôs casualmente seu chicote de equitação em cima da
escrivaninha.
— Acredito que não, não antes que tenha recolhido meu filho.
— Então, este é seu estratagema desta vez, verdade? — a viúva cuspiu
rancorosamente. — Pensa usar o seu moleque para apanhar meu filho. Bem,
Johanna, gasta seu tempo Almeria Bennington vai ser sua duquesa.
— Isso não é meu assunto, Dree pode fazer o que lhe dê vontade. Só suas
demandas exigindo que eu entregue Justin é o que me importam. Ele é meu,
milady, e lutarei para guardá-lo. — Os olhos de Johanna encontraram os de
Helen diretamente. — Se realmente deseja se livrar de mim, sugiro-lhe persuadir
Dree que me devolva Justin. De outra maneira, Lorde Barrasford e eu
apresentaremos denúncia para sua devolução. E desta vez, minha querida
duquesa, Adrian só poderia conhecer a verdade.
A viúva empalideceu.
— Fora de minha casa! — sibilou. — Fora antes que te faça expulsarem!
— Não se atreveria.
Helen alcançou tira para puxar o sino, logo vacilou.
— Pela última vez, peço-te que saia de minha casa.
— Dê-me meu filho.
— Acredito que a casa é minha, mãe.
Ambas as mulheres ficaram imóveis com o som de sua voz. Johanna passou
adiante de sua mãe para ficar frente a ele e exigiu furiosa, — O que fez com meu
filho? Não deixo esta casa até que ele venha comigo.
— Aqui... o que está acontecendo? — O Senhor Bennington apareceu detrás
de Adrian.
— Papai... — Almeria se agarrou à manga de seu pai e logo olhou
atentamente onde Johanna estava frente ao duque. — Lady Carew! De todo o
que insuportável…
— Se cale! — Adrian pediu sem separar seus olhos de Johanna.
— Agora, vem aqui…— Bennington protestou.
— Saiam daqui, todos vocês. — A voz de Adrian era tranqüila, mas seu pulso
estava frenético com a visão dela. Contemplou a desordem de seu cabelo, a
camisa branca de algodão que se aferrava úmida contra seus seios, a saia de
equitação azul flamejava sobre a curva suave de seus quadris, e sua boca se
secou. — Nos deixem.
— Não vou! — Helen Delacourt tratou de afastar Johanna. — Não vou ver
você fazer ridículo por ela outra vez.
— Você o fez de tolo, não eu — Johanna respondeu. — Mas isso não
importa agora. — Seus olhos encontraram os de Adrian e sustentaram. —
Quero meu filho, Dree, onde ele está?
— Digo-lhe, Lady Carew, — protestou Bennington — mas…
— Nos deixem — repetiu ele bruscamente. — Quero saber por que minha
esposa pensa que tenho meu filho.
— Seu filho? — O lábio de Johanna torceu desdenhosamente. — Seu filho?
Isto é interessante, não é assim, Dree? Afastou-me como uma amante
desprezada sem dar nem sequer um pensamento que poderia estar equivocado,
e... E agora quer o menino que eu tive. Acredito que não! Justin é meu. Meu!
Ouve-me? Meu! E desta vez refutarei suas mentiras no tribunal. Também no
Parlamento.
— Não temos que escutar isto — Helen empurrou Johanna para a porta. —
Fora daqui, descarada!
— É vergonhoso… — Almeria contemplou a fúria nos olhos do duque e
fechou sua boca.
Adrian agarrou a sua mãe firmemente e a separou de Johanna. Então, com
um puxão pouco cerimonioso, levo-a até a porta.
— Não volte nunca a lhe falar dessa maneira. Ela era uma duquesa, como é
você. — Voltando-se para os Benningtons, indicou a porta. — Agora, vão ou
também necessitam ajuda?
— Realmente, milorde, não há nenhuma necessidade… — A expressão no
rosto do duque era ensurdecedora e Bennington temeu a violência. Agarrando o
braço de sua filha, tirou-a da sala.
Adrian deu uma portada detrás deles antes de voltar-se para Johanna.
— Agora, — perguntou em um tom mais calmo — quero saber do que se
trata?
— Sabe muito bem — replicou.
— Não, não sei, se deixar de se comportar como uma bruxa, quero ouvi-lo.
— Quero meu filho, Dree. Não pode escondê-lo de mim. Sou sua mãe, e até
todo seu poder político não pode mudar isso.
— Jo, que tolice é issa?
— Nega ter Justin? Aquele Senhor Thorpe o seqüestrou esta manhã?
— Falou com Thorpe? — perguntou. — Escutou minha última oferta?
— Se quer dizer a estupidez que posso manter Justin sempre e quando não
volte a me casar, tudo o que posso te dizer Dree é que está perdendo seu tempo.
Não tem nenhum direito em pôr condições em minha vida, estamos
divorciados, por seu rápido desejo.
— Não, essa não era minha última oferta.
— Dree — cortou com impaciência — onde está Justin?
— Não sei, me acredite Jo, não sei.
— Mentiroso! — cuspiu nele.
— Jo me olhe, — agarrou-a pelos ombros e lhe deu uma sacudida. — Posso
ser um tolo, mas não sou um mentiroso. Pode sinceramente dizer que alguma
vez te menti? — Seus dedos cortaram o fino algodão enquanto procurou seu
rosto.
Ela tinha o rosto branco, seus olhos azuis enormes.
— Sim, Dree, o fez — respondeu brandamente. — Uma vez, prometeu-me
amar para sempre.
Suas mãos desceram de seus ombros ao redor de suas costas e logo a
esmagou contra ele. Seus nervos eram como cordas de violino, esticados ao
ponto da ruptura. Seus seios apertados contra seu peito, seus dedos estendidos
através de seus quadris.
— Jo... Jo... — sussurrou em seu ouvido, sua respiração suave à fez tremer.
Ele dobrou sua cabeça para roçar ligeiramente ao longo de seu ombro onde a
camisa expôs a pele nua. Seus lábios queimaram como o fogo, um
estremecimento de desejo a atravessou, lhe roubando a respiração. Utilizando o
aborrecimento para esconder a necessidade física intensa que sentia, afastou-lhe.
— Detenha-se! — gritou. — Não serei postergada, Dree. Meu filho
desapareceu. Justin está perdido.
— Jo…
— E se não o tem, onde está ele?
Ele deixou cair suas mãos com cansaço e sacudiu sua cabeça.
— Não sei.
Um trovão soou, seu estrondo silenciado pela distância, a brisa agitada levava
o aroma de chuva. Embora fosse pouco mais do meio-dia, o céu se obscurecia.
— Jura-me, que não tem nenhum conhecimento do paradeiro de Justin? Não
acredita que Thorpe…
— Não.
— Possivelmente Helen.
— Jo, minha mãe saberia que viria atrás do moço. Pense nisso, acredita
realmente que ela faria algo que te faria vir aqui.
— Não. — virou-se para olhar sem ver a lareira vazia. Tinha estado tão
segura que encontraria Justin aqui, que Adrian lhe tinha seqüestrado e agora não
sabia o que fazer. Enganchou seus polegares nos bolsos de sua saia e tratou de
concentrar-se onde procurar.
Ele se moveu detrás dela e pôs uma mão consoladora em seu ombro.
— Me acredite, Jo, quando digo que nunca foi minha intenção te tirar o
menino. Mas não pode negar que seja meu filho, não pode, e quero a
possibilidade de conhecê-lo.
— Não tem nenhum direito, Dree, não tem nenhum direito em me pedir
nada — respondeu finalmente em voz baixa. — Gary era seu pai de muito mais
forma que o mero sangue.
— Gary se foi, Jo. — Ele enroscou uma mecha de cabelo contra seu
pescoço. — Me deixe ajudá-lo a superar sua dor.
— Destruiria a lembrança de Gary. — Pouco disposta a lhe deixar saber o
que poderia fazer ainda a ela, se afastou. — Sinto muito, Dree, mas não posso
permitir o que pede. Agora, se me desculpar, devo retornar para casa, vai haver
tormenta e tenho que procurar Justin. — Girando, conseguiu encontrar seus
olhos brevemente. — Mas tem razão em uma coisa, não pode repor-se da morte
de Gary. Ele não quer outro papai, entende, e ameaçou unindo-se a Gary.
— Meu Deus!
— Sim, mas tenho certeza que não sabe o que é a morte, Dree.
— Não acredita que poderia ter ido ao rio? — perguntou em voz baixa.
— Não sei onde pode estar.
— Como veio até aqui? — perguntou de repente.
— Montei a cavalo.
— Escute, vai chover, posso cheirá-la. Enviar-te-ei para casa em minha
carruagem, chamarei os homens para olhar neste lado do rio. Um dos moços
pode montar o cavalo até a Abadia Winton e lhes pedir para participar da busca.
— Meu pai não se importaria se meu filho se afogasse — lhe recordou
amargamente.
— Confie em mim Jo, vou encontrá-lo. Vá para casa e enviarei alguém logo
que saiba alguma coisa. É possível que já esteja em Haven, se for assim, envie
alguém para me avisar.
Um golpe discreto soou na porta. Adrian elevou a vista com impaciência e
vociferou, — Sim?
— Perdão, Sua Graça, mas há um homem de Haven aqui — o mordomo
respondeu quando abriu a porta.
Adrian dirigiu a Johanna um sorriso triunfante.
— Vê, já foi encontrado.
O homem entrou timidamente.
— Perdão, milady, mas a condessa me enviou para ajudá-la a trazer o moço
para casa.
— Ele não apareceu? Estão procurando-o? — Adrian tinha que saber.
— Sim, percorremos a casa e o imóvel até o rio, não está ali.
— Não se preocupe Jo. — Ele já estava no corredor. — Minha mãe pedirá a
carruagem para você, trarei o menino a sua casa assim que lhe encontre.
— Não!
Ele se deteve um momento.
— Dou-te minha palavra, Jo.
— Vou contigo.
— Vai chover, se molhará.
— Não. — Sacudiu sua cabeça suavemente. — Vou contigo, meu cavalo está
selado.
— Por todos os demônios, Jo! Se quisermos lhe encontrar, não podemos
manter o passo de uma milady. Vá para casa.
— Dree, é meu filho. Além disso, Gary sempre disse que eu podia montar,
como qualquer homem — lhe recordou.
Incerto do que poderiam encontrar, não a queria com ele. Exalou devagar e
sacudiu sua cabeça.
— Não.
Ela esperou até que tivesse desaparecido em direção ao estábulo antes de
deixar a casa. Um relâmpago cortando no horizonte fez seu cavalo se assustar
quando subiu na sela. Apertou as rédeas e esperou formarem a equipe de busca.
Gostasse ou não, Adrian Delacourt ia ver que Johanna não estava disposta a ir
para casa sem seu filho.
CAPÍTULO 16
— Johanna, você vai com Tompkins e Burk. Ficarei com Sims. Collins e Ellis
tomarão o caminho à Abadia Winton, Sims e eu iremos pelas bordas do rio, e
vocês seguirão o caminho daqui a New Haven.
— Não. — Ela sacudiu sua cabeça com determinação. — Vou contigo, Dree.
Eles se detiveram no cruzamento do caminho principal de Armitage.
— Jo, está molhado e cheio de barro ao longo da borda, não posso ser
responsável por você.
— Não te perguntei. — Para demonstrar sua teima, açulou seu cavalo ao lado
de Sims.
— Sempre foi uma menina metida a macho.
— Eu sei. Suponho que a querida Almeria é muito mais a seu gosto —
respondeu sarcasticamente.
Ele a olhou, tinha suas bochechas avermelhadas pelo calor, mechas de cabelo
úmido se aferravam a suas têmporas, um chorro de suor desaparecia sob o
pescoço de sua camisa, e o contorno de sua perna se marcava onde se sentou
escarranchada sobre o cavalo.
— De maneira nenhuma, — arrastou as palavras pesarosamente — não
posso acreditar que Barrasford gostaria de ver-te assim.
— Johnny?
— O lorde impecável, Johnny — lhe recordou.
— Embora não ache que se importaria. E se este calor contínuo, espero que
entenda — tirou um lenço e esfregou seu rosto e pescoço. — Agora, já estou
em condições ser vista com Sua Graça?
— Nunca disse que não estava. — inclinou-se para diante em sua sela e
olhou para a ribeira do rio. — Está completamente segura que deseja se arriscar?
Está escorregadio.
Por resposta, esporeou seu cavalo.
— Sou tão boa amazona como qualquer homem — replicou.
Abriram caminho devagar ao longo da borda lamacenta, com Sims
explorando o lado oposto do rio, Adrian procurava rastros, e Johanna mantinha
seus olhos nos matagais e bosques que separaram o leito dos campos. O amido
de sua camisa se sentia pegajoso contra sua pele.
— Eu gostaria que chovesse — murmurou.
— Não vai gostar se chover — respondeu ele. — E pelo visto vai começar
agora mesmo.
Uma brisa forte soprava sobre o rio, sacudindo as folhas a seu lado justo
quando as primeiras gotas de água caíram como perdizes. Logo o céu desabou,
molhando-os. Sims se inclinou sobre o pomo de sua sela e andou com passo
mais lento.
— Alguma vez foi capaz de seguir um conselho, verdade? — Adrian gritou
por cima do som da chuva.
— Nunca! — gritou atrás.
— Pode ver algo?
— Não muito bem
Ele se levantou em seus estribos e cavando suas mãos ao redor de sua boca,
gritu: — Justin! Justin! Justin Sherwood pode me ouvir? — gritou. —
Justinnnnn!
Era como se a chuva afogasse suas palavras.
— Sua Graça — Sims se voltou e gritou: — parece-me que devemos voltar.
— Não! Isto passará em seguida.
Johanna retomou a chamada, estando de pé em sua sela para gritar, — Justin!
Justin! Aqui! — repetidamente.
Depois de vários minutos, a tormenta se reduziu a uma garoa constante. A
chuva limpava seus rostos, gotejava por seu cabelo, empapando suas roupas. A
saia de Johanna pendurava pesadamente sobre suas elegantes botas, mas não se
importava. Seus olhos ansiosos escanearam ambos os lados do rio, a borda cheia
de barro e arbustos quando percorreram a passo lento quase uma milha.
— Ele não pode ter andado tão longe — decidiu Adrian em voz alta. —
Teremos que voltar atrás e cruzar o vau enquanto seja transitável.
O rio baixava como uma tromba de uma cor marrom leitosa, assustando-a.
Ela se não atrevia a pensar o que a água aumentada pela chuva faria no vau.
— De acordo.
— Sua Graça o rio está muito perigoso — falou Sims finalmente. —
Teremos que voltar quando deixar de chover.
— Não! Se estiver por aqui, poderia afogar-se! — Johanna chiou. — Dree,
não podemos abandoná-lo. Ele não sabe nadar.
— Não. — Adrian sacudiu sua cabeça tristemente. — Continuamos.
— Mas, Sua Graça.
— Sims, se fosse seu filho que estivesse perdido, deixaria a busca?
— Mas a chuva apagou qualquer rastro…
— Deixá-lo-ia, Sims? — o duque insistiu.
— Não.
Obstaculizados pelo barro e chuva, necessitaram mais de uma hora para
alcançar o vau, que estava submerso sob um redemoinho de água turva. Quando
o moço vacilou, Adrian esporeou seu cavalo a seguir adiante e cruzou pelas
rochas deslizantes. A corrente se precipitou contra as patas do animal, fazendo-o
cambalear-se.
— Espere aí! — gritou a Johanna, mas ela já estava na água. — Conceder-te-
ei uma coisa — lhe disse quando agarrou as rédeas de seu cavalo. — Sempre
tem sido uma milady valente.
Para não ser superado por uma mulher, Sims avançou e ao surgir ileso ao
outro lado, resmungou, — Se tivéssemos esperado que terminasse a chuva, o
nível da água teria descido em duas horas.
— Dree não! — inclinou-se para agarrar sua manga, com sua voz angustiada.
Adrian seguiu sua linha da visão e viu a aba do chapéu de palha de um
menino apanhado entre as raízes de uma árvore submersa no rio. Seu coração
deu um tombo doloroso e os dedos de sua mão livre cobriram os dela.
— Não há nenhum corpo Jo, é só um chapéu — tratou de tranqüilizá-la. —
Espere aqui, consegui-lo-ei.
Desmontando-se, caminhou lentamente pelo barro, descuidando de suas
botas ou algo mais pelo medo que o filho que acabava de descobrir estivesse
morto. Equilibrando-se na lama, conseguiu agarrar o ramo de uma árvore e
meter-se na água para alcançar o chapéu. Então se moveu cautelosamente,
varrendo com suas mãos a água em busca do corpo. Graças a Deus, subiu com
as mãos vazias. Retornando à borda, levou o chapéu até ela.
— Justin?
Ela observou o chapéu de palha molhado com sua fita azul e assentiu com a
cabeça e logo enrugou seu rosto.
— Oh, Dree, não pode ser! Ele é tão somente um menino pequeno. Não!
Desmontou-a de seu cavalo para envolvê-la em seus braços. Ela se apoiou
contra ele e sepultou seu rosto em seu peito para chorar convulsivamente.
Esteve de pé ali, um braço apertando-a fortemente, o outro alisando o enredado
matagal de seu cabelo molhado, enquanto suas próprias lágrimas corriam em
silencio por seu rosto para mesclar-se com a chuva. Sims os observou,
impotente, um momento e logo se inclinou para recolher o chapéu que tinha
caído a seus pés. Endireitando-se, tocou o ombro de seu amo brandamente.
— Não há nada mais para fazer aqui, Sua Graça, mas deveríamos conseguir
levar milady para algum lugar. Posso cavalgar a Haven para obter ajuda.
— Não. — A voz dela estava amortecida contra o peito de Adrian. — Não,
Dree, não posso deixá-lo aqui fora sozinho, não posso, é tão pequeno.
— Shhhhh — murmurou. — Encontrar-lhe-emos Jo, vai estar bem,
seguiremos procurando. — Encontrou os olhos de Sims sobre sua cabeça. —
Cruzarei de novo para olhar entre a corrente — disse. — Sims a levará para
Haven, eu prosseguirei com a busca.
— Não, vou contigo. Tenho que saber. — Ela agarrou seus braços e
suplicou. — Deixe-me ir contigo, por favor, Dree foi eu que dei a luz quando
ele nasceu, posso estar ali quando… — Sua voz parou, afogado com um soluço
reprimido.
— Concordo.
A água ainda se elevava, mas deram um jeito de cruzarem para o lado de
Armitage, onde a borda era mais plaina e mais ampla rio abaixo.
Minuciosamente cobriram aproximadamente três quartos de milha olhando
entre a corrente, Adrian se deteve outra vez.
— É inútil, ele não pode ter flutuado mais longe, Jo. Sims tem razão, temos
que encontrar um refúgio para você, deve se secar antes que adoeça.
— Perto daqui não há nada exceto a velha casinha de Crofter — o moço
recordou. — A água está muito alta para retornar a Haven. Talvez devêssemos
nos dirigir para Armitage.
— Não. — De algum jeito não podia suportar levá-la a sua mãe, não com
toda a amargura entre elas, não em seu estado emocional. — Levemo-la a
casinha de campo — decidiu.
— Dree, meu filho está aqui fora. Não... Não lhe deixarei!
Ele a alcançou para tomar suas rédeas.
— Tem que fazê-lo, Jo. Ele não está aqui. Vamos — explicou brandamente
— deve se cuidar. Há o outro menino Robert, verdade? Tem que se cuidar pelo
filho de Gary. — Com resolução açulou seu cavalo com seu joelho e a levou
para o refúgio. A chuva ainda seguia sendo constante, mas o céu clareava ao
oeste. — Prometo-te que quando a chuva parar, não vai ficar uma polegada de
Roxbury, Carew, ou as terras Milford sem procurar.
A casa de campo se apresentou como tinha estado durante duzentos anos,
um alojamento de pedra e palha, agora abandonada. A terra tinha sido alugada a
outro agricultor, que decidiu montar a cavalo para trabalhar em outro lugar do
que viver ali. Sims desmontou, forçou a fechadura, e empurrou a porta da
pequena moradia de dois cômodos para abrí-la, enquanto Adrian ajudava
Johanna a descer do cavalo. Um débil aroma de umidade os saudou, produzida
pela palha, mas os cômodos estavam secos.
A casa estava escura com as janelas fechadas. Sims abriu as persianas para
admitir a luz e a chuva e logo saiu para atender os cavalos, Johanna olhou ao
redor do pequeno cômodo e andou distraidamente para a lareira de pedra vazia
que ocupava a maior parte da parede.
— Lembro-me deste lugar, em tempos mais felizes Jo, recorda-o? — Adrian
perguntou brandamente detrás dela.
Ela fechou seus olhos para lutar contra o nó em sua garganta e assentiu com
a cabeça. Durante um breve momento, permitiu-se pensar naquele outro tempo,
quando eles se amaram neste abrigo, estendidos sobre o chão, nus. Mas naquele
tempo, Armitage estava cheio desses lugares. Nos primeiros dias de seu
matrimônio, parecia impossível terem o suficiente um do outro. Se se atrevesse a
pensar em tais coisas, poderia recordar uma dúzia de vezes ou mais quando eles
tinham sucumbido a tal paixão. Agora suspirou com força para apagar tais
lembranças. Girando, confrontou ao homem que tinha amado.
— Ele é um menino bom de verdade, Dree — quase sussurrou. — Tão
curioso para sua idade. Sabe, Gary realmente o amava.
Ele assentiu com a cabeça.
— Me fale sobre ele, Jo.
— Ele nasceu justo depois do Natal em Florença. Ele era... quero dizer ele
cumprirá seis no próximo inverno, Dree. Ele se atrasou e os médicos se
desesperaram que não pudesse nascer, mas nos demos um jeitinho. — Um
sorriso apareceu na comissura de sua boca. — É estranho o que alguém recorda,
verdade? Lembro-me de Gary molhando meu rosto e me dizendo que era um
menino. Tinha a esperança que fosse uma menina, de modo que fosse um filho
de Gary que fosse seu herdeiro. E logo que o vi Dree, percebi que tinha seu
cabelo negro. Meu primeiro pensamento foi que nunca poderíamos voltar para a
Inglaterra sem avivar de novo o escândalo. Sentime muito mal no princípio,
pensando como Gary tinha sido enganado e futuro não seria seu filho seu
herdeiro, mas ele nunca se importou. Amou-me cegamente.
— Por que não me disse?
— Te dizer o que? Que estava grávida, que esperava seu filho. — A amargura
apareceu em sua voz. — Com que fim? Teria abandonado a idéia do divórcio? E
se o menino se parecesse comigo, teria me acusado de novo de adultera? E sua
mãe sempre tão aristocrática — deu um pequeno bufo zombador — até
mesmo, se o menino se parecesse com você, ela haveria dito que eu dormia com
ambos e não sabia quem era o pai.
— Di-lo-ia?
— É estranho que me faça essa pergunta justo agora, não? Uma vez que eu
teria dado qualquer coisa por ser perguntada, em lugar de ser acusada, mas agora
não importa. Não sinto que te devo uma resposta.
— Gary me chamou de um tolo cego.
— Ele? Não sabia o que te disse salvo que lhe pedi que não tratasse de me
defender. — Seus olhos se encontraram. — Foi um tolo, Dree?
— Não sei. Paguei um preço muito alto por meu orgulho, então que talvez
fosse. Possivelmente eu deveria ter sido como o marido de Caroline Lamb e não
ter feito caso do assunto.
— Então pagou um alto preço — sacudiu sua cabeça incrédula. — Um alto
preço, você disse. Bem, senhor duque, foi uma miséria perto do preço que
pagamos. Arruinou minha reputação e a de Gary. Nem sequer podíamos ficar na
terra de nosso nascimento, por sua culpa. Meu pai me repudiou e meus filhos
nunca conhecerão sua herança Milford, por sua culpa.
— Jo — começou a andar para ela.
— Não me toque! Não te atreva a me tocar, Adrian Delacourt. Eu nunca
deveria ter retornado. Um olhar para Justin e faria qualquer coisa para consegui-
lo, verdade? Me adularia até ter o que quisesse. Pois bem, não pode! Tome a sua
lady Bennington e consiga seus próprios e perfeitos herdeiros de sua duquesa
absolutamente perfeita. E não se preocupe por Johanna Milford ou seus filhos.
Vamos para a Irlanda. — Ela se afastou e cobriu seu rosto com as mãos. —
Dree, o que vou fazer se estiver morto?
— Jo... Jo... — pôs uma mão em seu ombro.
— Por favor... recuperar-me-ei, só me deixe — apertou sua saia empapada
como se fosse um lenço e o torceu antes de soar seu nariz.
— Jo, sinto muito. — Deixou cair sua mão. — Houve um tempo que eu teria
preferido morrer, antes de machucar Gary ou você.
— Parece que termina a tormenta — Sims observou da porta. — Só há uma
pequena névoa agora. — Ele olhou do duque a Johanna. — Ela está bem?
— Não.
Ela limpou o nariz outra vez e fungou antes de virar-se para Sims.
— Estou bem, obrigada.
— A água do rio descerá antes do anoitecer e poderemos levá-la para casa,
milady — animou-a o moço.
— Primeiro tenho que encontrar meu filho.
— Milady deveria ir para casa e deixar Sua Graça ocupar-se disto.
— Quero estar ali.
O latido insistente de um cão não soava muito longe da casa. Sims escutou
durante um momento e foi à janela.
— Agora sei que há alguém mais lá fora com este tempo — disse a si mesmo.
— Alguém perdeu um cão.
— Encontrará seu caminho para casa, sempre o fazem — respondeu Adrian
distraído. — Encontrou algum lugar para guardar os cavalos?
— Coloquei-os em um dos abrigos.
Eles se contemplaram. Sem um lugar para sentar-se, estavam em uma posição
incômoda. Johanna se moveu sem descanso pelo pequeno quarto, dando as
costas para Adrian. Ele se aproximou da lareira vazia e começou a raspar o barro
de suas botas. Poderia ter escorrido a água de cada peça de roupa em seu corpo.
Estava seguro que seu casaco pesava cinco a dez quilos a mais. Finalmente o
tirou e o retorceu sobre o chão. Ela girou com o som da água golpeando as
pedras, e pela primeira vez, ambos se deram conta que sua camisa de algodão
estava empapada. Olhou para baixo onde seus seios se insinuavam contra o
tecido molhado e cruzou seus braços diante dela. Sims, sempre consciente das
barreiras entre ele e seus superiores, murmurou algo sobre comprovar se os
cavalos estavam bem, e saiu.
Depois do clímax de emoções de alguns minutos antes, o silêncio perdurava
entre Adrian e Johanna como uma cortina. Finalmente ele arrojou seu casaco
molhado ao chão com impaciência.
— De verdade vai casar-se com Johnny?
— Sim.
— Não pretende me fazer acreditar que o ama. Nem sequer o conhece.
— Recorda-me muito Gareth Sherwood.
— Ah. Nunca pensei que Gary fosse um dandi .
— Quis dizer com sua bondade e preocupação, Dree.
— Pensava que era por seu bonito rosto.
— Ele não é mais bonito que você, é sua disposição o que faz a diferença. —
Lhe deu um sorriso débil. — Como tenho certeza que a personalidade de
Almeria é completamente diferente da minha. Entendo que devo felicitá-lo por
seu compromisso. Mas de algum jeito não posso vê-la como uma mulher
apaixonada. — Olhou intencionadamente o chão diante da lareira. — Mas sem
dúvida ela te permitirá ter uma amante para esse tipo de coisa.
— Quem te disse que vou casar-me com Almeria?
— Sua mãe. — Ela levantou uma sobrancelha em sua expressão. — Meu
Deus, você não sabia? Pois ela parece estar tão decidida a te conseguir uma
duquesa apropriada como se desfez da última.
— Eu não estou.
— Que lástima. Então poderia ter duas mulheres para governar sua vida.
— Jo... — Ele deu um passo de advertência para ela. — Às vezes não sei se
rio ou torço seu pescoço, e quase sempre prefiro torcê-lo. Minha mãe não
governa minha vida.
— Possivelmente deveria lhe dizer isso algum dia.
— Sua Graça, Sua Graça — Sims chamou pela janela. — encontrei o moço!
CAPÍTULO 17
— É onde está ladrando o cão, Sua Graça — Sims explicou sobre o poço
abandonado. — Vim para pegar o cão e ouvi o menino.
O coração de Johanna se encolheu quando o viu. O cão que descobrira Justin
estava agora calmo, seu nariz entre duas tábuas podres que cobriam o buraco,
embaixo podia ouvir seu filho chorando assustado. Adrian deu um chute nas
madeiras e se ajoelhou na erva pantanosa.
— Pode me ouvir? — gritou.
O pranto se deteve em um soluço.
— Mamãe! Quero a minha mamãe.
— Ela está aqui — se moveu para lhe deixar espaço. — Tenha cuidado, o
poço é profundo e a erva está escorregadia — murmurou enquanto a ajudava a
ajoelhar-se. — Fale com ele até que eu possa decidir o que fazer.
— Justin! Justin! — Frenética quando não podia ver nas profundidades do
poço, e sabendo que ia anoitecer muito rápido para ir procurar ajuda em Haven
ou Armitage, tomou várias respirações profundas para dominar seu terror. —
Está bem? — gritou bobamente, sabendo que não podia estar.
Por resposta, ouviu-se um chapinhar quando tratou de mover-se, e começou
a chorar de novo. Adrian puxou-a para trás e se inclinou ainda mais sobre o
buraco.
— Justin, vamos tirá-lo. Tem que ser valente para mamãe, fale com ela para
saber que está bem. Vou procurar uma corda e atirá-la para baixo para que se
agarre nela, me entende?
— Duque?
— Vou tirá-lo daí — gritou de novo. — Pode ver a luz?
— Um pouco. — Outra vez o menino soluçou.
— Dree, há água no poço — exclamou Johanna. — É possível que se encha
de água subterrânea.
— Não sei — reconheceu sombrio. — Sims, veja se pode encontrar algo que
possamos utilizar, a corda do cubo pode estar armazenada em alguma parte,
qualquer coisa. Jo, siga falando com ele. E pelo amor de Deus não o deixe mais
assustado.
Ela assentiu com a cabeça. Estendida na erva molhada, baixou a cabeça sobre
o buraco.
— Sou mamãe, Justin, tudo está bem. O duque te tirará se tiver um pouco de
paciência. Amor, não deve chorar, ou não poderei te entender. Agora, quanta
água há ai abaixo?
— Não sei — chorou.
— Me escute — disse com firmeza. — Chega-te aos joelhos? A cintura? Os
ombros? Que profundidade esta a água?
— Por minha cintura.
Adrian murmurou um juramento a seu lado.
— Está de pé?
— Não!
— Então, ponha-se de pé.
— Eu... Não posso! — começou a chorar de novo. — Mamãe, dói-me a
perna. Não posso ficar de pé.
— Trate de fazê-lo, Justin. Vai entrar mais água e deve permanecer em pé.
— Não posso!
— Justin.
— Eu… tento, mamãe, mas não posso.
— Justin, por favor.
Houve outro chapinhar da atividade abaixo, seguido por fortes soluços.
— Já... estou de pé, mamãe, mas dói muito. Não suporto.
— Justin, me escute. Sou o duque. Vai ficar tudo bem se puder manter a
cabeça fora da água. Vai haver mais, mas estará bem. Até aonde te chega à água
agora?
— Por minha cintura.
— Isso é o que disse quando não estava de pé — lhe recordou.
— Então, também era por minha cintura. Mamãe, quero sair!
— Encontrei a corda, Sua Graça. É velha, mas deverá sustentar o menino. —
Sims chegou rapidamente, levando um cilindro de corda grosa com os extremos
desfiados.
— Obrigado, Sims. — O duque desenrolou a corda e julgou sua longitude.
— Justin, — gritou para dentro do poço — vou jogar o final da corda para
baixo, até você. Olhe se pode atá-la ao redor de sua cintura para que possamos
te tirar — dando a volta, adicionou: — Sims e você agarrem este extremo para
que não escorregue.
Retrocedeu a corda e o jogou contra a parede, onde caiu com um ruído surdo
ao salpicar na água.
— Pode vê-la, Justin?
— Não posso ver nada aqui embaixo.
— Busque-a
— Tenho-a!
— Ate-a ao redor da cintura.
— Não posso!
— Justin — Johanna se fez cargo. — Ponha ao redor de sua cintura e faça
um nó, por favor. — Esperou alguns segundos. — Atou-a?
— Sim.
— Vamos puxar agora para cima — Adrian gritou. Ele começou lentamente
a puxar a corda, provando a tensão. Por um breve momento era tensa e logo se
afrouxou.
— Mamãe, soltou-se.
— Dree, não pode atar muito bem. Talvez só tratou de agarrar-se e
equilibrar-se contra as paredes.
— Não, a corda esta mancha de barro e as rochas estão soltas. Vou ter que
descer.
— Caiará — advertiu Sims. — Se eu montar até Winton em busca de
ajuda…
— Não há tempo! — Adrian gritou, e se arrependeu. — Perdão, Sims, mas
não há tempo.
Johanna observou sua figura alta com receio.
— Se houver perigo que caia, sou menor que qualquer um de vocês, deixe-
me ir, Dree.
— Não.
— É meu filho — explodiu. — Não quero…
Ele apertou a mão sobre sua boca e sussurrou: — Não o diga, nem sequer o
pense, Jo. Quer que se assuste mais?
— É meu filho — repetiu ela entre seus dedos.
— É meu também. Tem outro que te necessita se acontecer algo, Jo. Eu, em
troca, não tenho ninguém — a soltou e assentiu com a cabeça para Sims. —
Não acredito que ambos possam manter meu peso traga-me Ajax.
Olhou-o aturdida e voltou o olhar para a escuridão do estreito buraco. Justin
estava chorando e não havia nada que pudesse fazer. Já estava começando a
chover de novo, grandes gotas de água golpeavam contra a terra molhada como
pedras.
— Jo tenho que tratar de tirá-lo — se aproximou retirando um cacho de
cabelo molhado de seu rosto. — Devo-lhe pelo menos isto.
Sims trouxe a grande égua atrás dele. Adrian deixou cair sua mão e recolheu a
corda. De pé, aproximou-se para verificar a grossura da sela e logo atou um
extremo ao pomo. Puxando-o apertado, provou-o.
— Venha aqui e sustente o cavalo, Jo — ordenou. — Quero que fique deste
lado.
O cão ladrou com entusiasmo nos tornozelos deles.
— Ponha o cão no abrigo, Sims, não quero que inquiete Ajax.
— Dree.
Ele parecia insuportavelmente cansado.
— Faça o que te peço de uma vez. — Caminhando de retorno à abertura,
começou a atar o outro extremo da corda debaixo dos braços. — Até isto forte
para que não escorregue, Sims.
— Sim, Sua Graça.
— Mamãe! Mamãe! — O menino chorava preso do pânico agora. — Está
subindo a água.
— Justin, estou descendo para te buscar — Adrian gritou. — Desço agora
mesmo.
— Dree — Se voltou ao ouvir o som de sua voz. Não havia nada mais que
ela pudesse dizer. Não queria que ele descesse, mas queria salvar
desesperadamente seu filho. — Tenha muito cuidado.
Eles estavam apenas há cinco pés de distância, separados pelo abismo de seis
anos de amargores. Ele conteve a respiração e assentiu com a cabeça.
— Vou estar bem, e também o menino. Mas se acontecer algo, quero que
saiba que inclusive quando a odiava pelo que ocorreu, nunca deixei de te amar.
— Mamãe! Mamãe me ajude.
— Preparado Sims? Jo não deixe que o cavalo se mova.
Ela deixou cair às rédeas e apanhou a brida para estabilizar o animal.
Puxando sua cabeça para perto, fechou os olhos e apoiou a testa contra seu
largo nariz. O cavalo deu um passo uma vez que a corda no pomo se esticou
com o peso de Adrian, mas forçou as patas e ficou nessa postura. O tempo se
deteve, mas não havia pensamentos confusos, nem orações frenéticas, só um
vazio completo.
— Cuidado! Caem rochas. Um lado vai ceder, milorde.
Podia ouvir a voz de Sims, mas em realidade as palavras não penetram em
sua consciência. Sua mente estava em branco, mas sua mão se manteve estável
na brida do cavalo. Ela não podia dizer quanto tempo passou antes que Adrian
gritasse: — Tenho-o mova o cavalo.
Quando não se moveu, Sims lhe gritou: — Tem que fazer o cavalo andar
vinte pés, milady.
O alívio a transbordou. Puxando a brida da égua para trás. Podia ouvir as
rochas caírem e golpeando a água dentro do poço, mas Adrian tinha conseguido
pegar seu filho.
— Estável... Constante… O tenho, Sua Graça.
Ela se voltou para ver Sims levantar o corpo inerte de Justin dos braços de
Adrian. Quanto a Adrian, meio corpo estava na abertura, apoiado suas botas nas
paredes de pedra e barro.
— Outros dois metros, Jo — gritou. Ela puxou o cavalo mais alguns passos
enquanto ele se retorcia para sair, de barriga para baixo na grama escorregadia e
lamacenta. Ficou ali um momento, recuperando a respiração.
Ela deixou cair à brida e voltou correndo aonde Sims sustentava seu filho.
— Está...?
— Está vivo Jo, — ofegou Adrian — mas tem a perna quebrada, uma pedra
o golpeou na cabeça, mas respira.
— Tem uma contusão e alguns cortes milady — adicionou o moço enquanto
o examinava, — mas nada que não se cure. — Sims parecia mais próximo e
sorriu abertamente. — Está despertando.
Ela se ajoelhou e embalou seu filho.
— Justin... Justin... Está tudo bem. Mamãe está aqui. Como se sente.
— Não. Não estou… — respondeu fracamente enquanto seus olhos escuros
piscavam. — Mamãe, dói...
Ela acariciou o cabelo negro molhado para trás de seu rosto e examinou o
hematoma que já se formava em sua testa.
— Oh, Justin, que susto me deu.
Ele tratou de mover-se e retrocedeu em seu regaço.
— Minha perna dói, Mamãe! — E depois, lhe ocorreu dizer: — Suponho que
vai me açoitar.
— Deveria, — admitiu quando recolheu os restos de seu cabelo — mas me
parece que já foi suficientemente castigado. O duque te salvou a vida. — Olhou
para onde Adrian se sentava. Sua roupa cara estava destruída, seu rosto cortado,
e suas mãos ensanguentadas. — Tem sorte de você estar vivo, Dree.
— Obrigado.
Ele olhou para outro lado.
— Dissete, eu lhe devia isto pelo menos.
— O menino necessita um médico, milorde, e vai escurecer. — Sims tirou de
sua roupa empapada. — Será um milagre se não cairmos todos doentes.
Adrian ficou de pé, com a roupa encharcada de água.
— Bem, não vamos cruzar o rio. Teremos que ir para Armitage.
— Não!
— Prefere ir para Abadia Winton? — perguntou em voz baixa.
— Sabe que não posso.
— Então terá que ser Armitage, não? — perguntou razoável. — Ali poderão
se secar os dois, pôr o menino na cama, e chamarmos um médico. Eu não sei
você, Jo, mas estou preparado para um banho quente e uma cama.
— Não posso ir aquela casa contigo.
— Não seja tola, Jo — gritou. — Não pode fazer nada mais, pode? Tem
medo do que Johnny vai dizer? Quando escutar a história, vai ver que não tinha
nenhuma outra opção.
— Não.
— Pelo amor de Deus, Jo. Sempre foi uma mulher teimosa.
— Não vou submeter meu filho às brincadeiras de sua mãe — explodiu.
— Isso é tudo? Deixe-me te assegurar, querida, que minha mãe não tem por
que ser levada em consideração.
— Desde quando?
— Desde hoje.
— Peço-lhe perdão, Lady Jo, — Sims voltou a chamá-la da forma familiar
como era conhecida há muito tempo — mas não vejo que haja muito que
discutir. Este menino necessita um médico — puxou a calça de Justin e expôs o
lugar onde o osso se sobressaía rompendo a pele em cima de um carroço feio.
— Isto tem que limpar-se para salvar a perna.
Ela olhou para baixo e se sentiu doente. Uma onda de náuseas ameaçou o
que ficava de sua dignidade.
— Não sabia — conseguiu dizer com voz débil. — É obvio que vou para
Armitage.
CAPÍTULO 18
Justin tomou um pequeno gole e se afogou.
— Não o farei!
— Por favor, amor — insistiu Johanna.
Ele virou sua cabeça para longe da xícara e sacudiu sua cabeça.
— Não.
— Sabe uma coisa, — comentou Adrian — posso recordar quando seu papai
era tão pequeno como você, Justin. Caiu de uma árvore nesta casa e rompeu seu
braço. Pensei que era muito valente porque não rechaçou tomar este remédio
mesmo que não tivesse um gosto muito bom. — Sustentou a xícara nos lábios
do moço. — Pelo que lembro, ele bebeu tudo. — Inclinou a xícara e esperou.
Os olhos escuros do menino estavam apagados com a dor. — Isto realmente o
fez sentir-se melhor — disse. Justin assentiu com a cabeça e pôs suas mãos
sobre a xícara para beber.
— Lady Johanna — a ama-de-chave tocou seu ombro. — Será melhor que
me acompanhe para colocar uma roupa seca.
— Logo que ele durma — prometeu. — Dree também precisa trocar-se. Vou
estar bem.
O doutor chegou antes que o láudano fizesse efeito e o exame deixou cada
um em lágrimas. Justin gritou quando a perna foi manipulada, mas não havia
outro jeito.
— É uma ruptura muito mal, — observou o doutor Goode com uma
sacudida de sua cabeça branca — não tenho certeza de que se curará
corretamente.
— O que quer dizer? — Adrian exigiu. — Ele é jovem, isto tem que curar-se.
— Perdão, Sua Graça. Foi uma má opção de palavras de minha parte. — O
médico apalpou o contorno da coxa já inchada e descorada de Justin, parando
onde a borda dentada do osso se sobressaía acima do joelho. — Este é o osso
mais longo no corpo e agüenta todo o peso. Posso pô-lo direito, mas não posso
prometer que será da mesma longitude que o outro quando sanar, — sacudiu
sua cabeça outra vez. — Vi casos onde a perna cura tão bem como antes e
outros onde há uma pronunciada claudicação. — Jogou uma olhada onde
Johanna estava de pé, com o rosto branco, e suspirou. — Lamento que não
possa envolvê-lo com linho limpo e dizer que ficará exatamente igual como era,
milady, mas não posso. — Voltando a olhar para Justin, assinalou sua respiração
profunda. — O láudano fez efeito, mas ainda vai sentir dor quando colocar o
osso em seu lugar. Lady Carew, eu lhe sugeriria que nos deixe enquanto o
fazemos. Você pode desejar banhar-se, mudar sua roupa e comer, se sentirá
muito melhor e posso lhe garantir que será muito mais necessária durante a
noite.
— Não.
— Ficarei Jo, vá trocar-se antes que pegue um resfriado ou algo assim —
ofereceu Adrian brandamente.
— Com este calor? — ela replicou. — Não, penso ficar, ele é meu filho,
Dree.
— Lady Carew...— A expressão do doutor foi dolorosa. — Não posso me
ocupar de mais de um paciente agora, e isto não vai ser nada agradável.
— Deixe-a permanecer se deseja — cortou Adrian com impaciência. — Jo
— seus olhos se encontraram por um instante. — Nunca foi o tipo de mulher
delicada que desmaia atoa. Muito bem, então suba de um lado e me porei no
outro. Entre nós dois, possivelmente, possamos acalmá-lo e o sustentar quieto.
Johanna se ajoelhou de um lado da cama e colocou para trás o cabelo escuro
de sua testa. Estava frio e úmida a pesar do calor e seus olhos fechados. Quase
ao mesmo tempo, Adrian e ela alcançaram suas mãos e as entrelaçaram
enquanto o doutor Goode se dispôs a colocar sua perna no lugar.
Os olhos de Justin se abriram e ficou rígido, suas mãos agarrando as deles,
como um louco, quando o doutor sondou para recolocar o osso quebrado.
— Mamãe! — gritava histérico.
— Está tudo bem, amor — cantarolou enquanto o seguravam contra a cama.
— Logo terá terminado.
— Calma, Justin. — Adrian se afundou para sentar-se na borda da cama. —
Só sustente forte a mão de sua mãe até que acabe.
O doutor Goode, tendo tomado a medida do tamanho da ruptura, agarrou a
perna pelo joelho e puxou para baixo.
— Mamãeeee! — O grito aterrorizado do menino cortou através do ar cheio
de vapor e logo morreu repentinamente quando caiu inconsciente.
— Graças a Deus, desmaiou — murmurou o doutor. Trabalhando com
habilidade agora, ele cortou a pele da ferida, lavando o sangue, e forçando os
ossos a ficarem juntos. O aroma de cabelo molhado, roupa úmida, e sangue
impregnou o quarto enquanto ele sondou, costurou, e estabilizou a perna com
talas. Endireitando-se por fim, contemplou a perna. — Nas próximas semanas
serão de provas de como sara, Sua Graça — disse para Adrian. — Não devem
permití-lo mover-se e não deve pôr nenhum peso sobre ela. — Dando-se volta
para a Johanna, perguntou: — Que idade tem o moço?
— Terá seis anos depois de Natal.
— Então temo que terá suas mãos cheia. Sentirá-se melhor muito antes que
seja capaz de andar.
— Quanto tempo passará para que possa levá-lo a Haven?
— Eu não me arriscaria durante um mês.
— Um mês? Mas nós não podemos, quer dizer não posso... — Sua voz
parou, mas seu rosto mostrava sua consternação.
— Ele pode ficar aqui, Jo.
— Não!
— Não pode ser movido, Jo. Escutou o doutor Goode, não pode se mover
— repetiu para dar ênfase. — Podemos falar do que devemos fazer mais tarde,
quando terminar seu banho e tenha comido. — Contemplou Justin, seu cabelo
negro revolto contra os travesseiros brancos, seu rosto pálido, sua respiração
lenta e profunda. — Vai dormir durante algum tempo, então te sugiro que nos
preparemos para quando despertar. Senhora Johnson preparará um banho
quente, roupa seca, e um pouco de comida para você, assim não tem que deixar
o quarto. Enquanto isso, também tenho a intenção de me banhar. Informarei a
minha mãe o que ocorreu, então não tem que preocupar sua cabeça com isso,
ela será educada, prometo-lhe isso.
O médico, apesar de certa curiosidade quanto à cortesia peculiar entre o
duque e sua antiga duquesa, manejou uma tosse desculpando-se por interrompê-
los.
— Ahnn. Acredito que fiz todo quanto possível por hoje, Sua Graça. Como
disse, o moço dormirá durante várias horas, e o problema será esta noite com a
agitação. Podem lhe dar outra colherinha de láudano em meio copo de água para
acalmá-lo, mas não recomendo mais que duas vezes durante a noite. Faço
insistência na necessidade de não mover muito a perna. É uma ruptura
particularmente grave e há perigo de infecção. — Jogou uma olhada furtiva a
Johanna, que tinha se aproximado para endireitar as mantas sobre seu filho, e
baixou sua voz perceptivelmente. — Se a perna se infectar, não gostaria das
consequências, Sua Graça.
— Não, é obvio não — respondeu em tom grave. — Devo lhe pedir para
não repetir isto onde Johanna possa ouvir.
— Estamos de acordo. — O doutor o saudou. — Virei outra vez pela manhã
para ver como se encontra o menino. — Então, sem pensar, acrescentou: — Ele
tem uma aparência notável com você, Sua Graça.
— Sim.
Havia um silêncio repentino, um desespero na voz do duque que deteve o
doutor. Pela primeira vez desde que tinha chegado a Armitage, concentrou sua
atenção em Adrian Delacourt e consciente dos cortes e contusões.
— Perdão, Sua Graça, em minha preocupação com o moço, não percebi que
você estava ferido. Se for amável de sentar-se e me deixar…
— Não há necessidade, simplesmente, são alguns arranhões — lhe deixou de
lado. — E parece que houve outra pausa na tormenta. Irá para casa melhor,
enquanto não chove. — Desviando sua atenção a seu ajudante de câmara,
anunciou: — Ficarei no quarto rosa, Blake. Mande preparar meu banho e leve
algumas de minhas coisas para lá.
Enquanto a ama-de-chave acompanhava o doutor, Blake reuniu algumas
coisas básicas da câmara, Adrian se aproximou de Johanna rondando sobre seu
filho. Involuntariamente sua mão se deslizou para acariciar o cabelo molhado
que estava solto, contra suas costas empapada.
— Não se preocupe, Jo, — consolou-a. — Vamos superar isto.
— Dree — sua voz pareceu vazia. — Dree, ouvi o que lhe disse sobre o
perigo de infecção. Certamente ele não pensa... Quero dizer, não parece
provável... — Incapaz de expressar seus medos, deu meia volta para estar de
frente a ele. — Ah, Dree! — chorou.
— Não, ele não vai perder a perna, Jo. Não vamos permitir que isso
aconteça. — Seus braços se fecharam ao seu redor quando seus ombros
começaram a tremer.
Blake, vendo este acontecimento incrível, apressou-se com uma braçada de
roupa, fazendo gestos às perplexas criadas para segui-lo. Fechando a porta
detrás deles, e lhes indicou o seguinte dormitório.
— Já escutaram Sua Graça, preparem o quarto rosa para sua senhoria, por
favor.
— Mas, Blake — protestou Martha — este era o dormitório usado pela
milady.
— Sua Graça é consciente disso — afirmou aos outros.
— Vai haver uma discussão como nunca ouvimos antes.
— Humhh! — Blake cheirou. — Sua Graça cresceu desde que viveu aqui. De
minha parte desfrutarei de vê-la recuperar sua posição. E, marquem minhas
palavras, breve é justo onde ela vai estar.
— Senhor Blake, observou o pequeno conde? É o sósia de Sua Graça —
Martha respirou.
— Sim, o que devemos fazer, Blake? — Bess perguntou com curiosidade. —
Não pensa…
— Está claro como a água — soprou Blake. — A duquesa viúva mentiu.
— Mas Mary disse…
— Mary! Mary de verdade. Uma pequena rameira tola. Sempre pondo olhos
de cordeiro degolado em Sua Graça e com ciúmes de Milady Jo, não é verdade?
— O ajudante de câmara se inclinou mais perto e baixou sua voz. — Alguma
vez se perguntaram como foi capaz de deixar o serviço aqui e instalar uma loja
de chapéus nesse povoado?
Passaram vários minutos antes que Johanna dominasse suas lágrimas e
retrocedesse de modo instável do abraço de Adrian.
— Deve pensar que sou uma chorona — disse quando limpou suas
bochechas molhadas com o dorso de sua mão.
— Acreditaria que seria uma mãe desnaturada se não o fizesse — respondeu
brandamente. — Deus sabe que teve o suficiente hoje, para subjugar a dez
mulheres? — Ele agarrou seu cotovelo e a conduziu para uma cadeira em uma
janela aberta. — O que necessita, é um banho e descansar um pouco — olhou a
cama onde estava Justin. — Se devemos lhe manter tranqüilo, teremos que
descansar enquanto ele o faz. — Endireitou seus ombros, sua própria fadiga era
evidente, e obteve um sorriso triste. — Nunca fui muito bom em cuidar de
alguém, só de mim mesmo Jo, mas agora penso tentá-lo. — Movendo-se para a
porta, parou momentaneamente. — Sei que não tem nenhum desejo de passar
nem um minuto nesta casa, mas não se pode evitar, me acredite. Farei tudo o
que possa para facilitar as coisas com Johnny. — Ele abriu a porta.
— Dree?
Vacilando, virou-se.
— Sim?
— Ele vai estar bem, verdade? — Não confiando em si mesmo para falar,
assentiu com a cabeça. Seus dedos se fecharam ao redor do trinco.
— Dree?
— O que?
— Obrigada por salvar sua vida. — Ele a olhou fixamente durante um longo
momento, com seus tristes olhos escuros. Ela estava molhada e desalinhada
como um garoto da rua agarrado em uma tormenta, seu cabelo se pendurava
desarrumado, e sua roupa rasgada e manchada pelo barro, mas ainda era a
mulher mais linda no mundo para ele. — Enviarei Bess para te ajudar com seu
banho, Jo. — Abrindo a porta com um puxão, escapou do quarto.
CAPÍTULO 19
Depois de enviar Sims a Haven para informar à condessa tudo quanto tinha
acontecido e obter roupa para Johanna e Justin, Adrian se sentou em um banco
estofado de damasco e tirou suas danificadas botas. Tinha as mãos doloridas e
raspadas de ter roçado contra as rochas no poço e lhe doíam todos os músculos.
Os recursos físicos e emocionais que tinha utilizado o abandonaram, deixando-o
insuportavelmente drenado.
Blake rondava por perto, provando a temperatura da água na tina de cobre e
acrescentando perfume.
— Deveria me deixar fazer isso, Sua Graça — comentou mal-humorado
quando a segunda bota caiu com um ruído surdo ao chão.
— Estavam sujas — respondeu razoavelmente. — Por que ambos
deveríamos parecer que brincamos pelo barro?
— Entretanto, é impróprio — apontou.
— Blake, se acreditar que sou a classe de homem cheio de floreiro incapaz de
me despir, equivoca-se. O dia que requeira ajuda para me despir será o dia que
entrei em minha velhice.
Um golpe rápido, decidido soou na porta, deixando Adrian com sua camisa
meio abotoada.
— Diabos! — resmungou. — Olhe quem é, Blake. E a menos que isto
concerna a Lady Carew ou o menino, não tenho nenhum desejo de ser
interrompido.
O ajudante de câmara mal teve tempo para alcançar a porta antes que Helen
Delacourt passasse diante dele e entrasse.
— Nos deixe, — pediu imperiosa — desejo falar com meu filho.
Jogando um olhar rápido ao duque, Blake vacilou. Este deu de ombros,
cansado e assentiu com a cabeça.
— Chamar-lhe-ei.
Sem esperar a porta fechar-se atrás do criado, a duquesa se inclinou sobre seu
filho.
— Adrian, como pode? — exigiu furiosa. — Juro que não posso acreditar
que seja tão tolo! O que deve pensar Lorde Bennington? E Almeria? Não pode
pretender que essa mulher seja a companhia adequada para uma dama. Não a
tolerarei me ouve.
— Mãe... — A voz de Adrian era baixa de advertência, seus olhos escuros
perigosos, mas a duquesa estava muito zangada para notar.
— Mande Johanna e seu pirralho ao diabo, ou me verei obrigada a sair desta
casa.
— Lamento que ainda não se foi.
— Adrian!
— Surpreendida, mãe? — Apesar da fadiga horrível que sentia, levantou-se
para estar de frente a ela. — Não tenho vinte e três anos desta vez.
— Adrian, me escute.
— Não. — Sacudiu sua cabeça com decisão. — A última vez que a escutei,
perdi minha esposa e o melhor amigo que um homem alguma vez teve, mãe.
— Ela é uma rameira.
— É? — exigiu de forma brutal. — Ou você enroscou a verdade com
mentiras? Pergunto-me, não posso evitá-lo, mas isso já não importa.
— Não importa! Adrian, sempre perdeu a cabeça no que se refere a ela.
— Disse que não importa — repetiu ele.
— Certamente não pode perdoar o que ela fez.
— Perdoar? — A sobrancelha negra arqueada. — Não pensa que pagou um
alto preço pelo que fez? Conduzi-a a seus braços, mãe. E logo expulsei a ambos
do país. Ela deu a luz a meu filho no exílio. Perdoar? Ela é a que não pode me
perdoar.
— Não sabe se o menino é seu.
— Possivelmente, depois de terminar de fazer suas malas deveria olhá-lo,
mãe. Então, responderei, a quem se atreva a dizer que não é meu filho. —
Deliberadamente voltando-lhe as costas, terminou de desabotoar sua camisa e a
tirou. Desprezando-a em uma cadeira ao lado da banheira, concentrou sua
atenção em tirar suas meias. — Agora, se me desculpar, quero me banhar antes
que este barro fique permanentemente colado a minha pele.
Alarmada, aproximou-se e agarrou seu braço.
— Não pode querer dizer isto Adrian, sou sua mãe! E os Benningtons?
Prometeu levar Almeria a Wells pela manhã. Adrian, seja razoável.
Olhou para baixo aonde seus dedos se frisaram em seu braço nu. Com
cuidado utilizou sua mão livre para retirar a de sua mãe, e se afastou.
— Acredito que quando se for, os Benningtons perceberão que também
devem partir. Como indicou, Almeria não pode desejar ser exposta à companhia
de Johanna — respondeu.
— Mas os projetos... Wells...
— Seus planos, mas se pensar que estará tão decepcionada, possivelmente
possa acompanhá-la até ali em sua viagem. Francamente, não me importa de
uma ou outra maneira.
— Não pode dar as costas a sua própria mãe, pense no que a sociedade dirá
— tentou desesperada. — Adrian, não vai sobreviver a uma intriga.
— Espero que a sociedade expresse certa curiosidade, — confessou — mas
ser um duque, como tão frequentemente indicou, tem suas vantagens. Meu
título e minha fortuna ainda me permitirão a entrada aonde deseje ir. — Sentou-
se outra vez no banco e terminou de tirar suas meias.
— Adrian, precisame — lisonjeou ela. — Se Johanna permanecer aqui esta
noite, terá que me ter na residência.
— Por quê? — exigiu sem rodeios. — Nós não tentamos ter reputação, não
é?
— Adrian, sou sua mãe e me preocupo com você.
— De verdade? — A sobrancelha negra se levantou outra vez com fingida
surpresa. — Não, mãe, acredito que não. Se lhe importasse algo, teria
perguntado por seu neto. Quase morreu hoje, e não é seguro que sobreviverá
por inteiro. Ele não pode ser movido durante algum tempo.
— Bem, suponho que não pode haver nenhum dano na permanência do
menino — permitiu — e posso pedir que alguém cuide dele.
— Não. Ele tem a sua mãe para isto.
— Mas ela não pode ficar aqui. Adrian, pense no escândalo.
— Sobreviveremos — ficou de pé desabotoando suas calças rasgadas. —
Agora, a menos que deseje ver-me nu, sugiro que me deixe em paz com meu
banho. — Seus olhos eram frios quando encontraram os dela. — E a proíbo de
falar com Jo, já que sei que não pode ser educada com ela.
— É tudo um teatro, não é verdade? — chiou abruptamente. — Johanna
sempre Johanna. Bem, posso te prometer isto, Adrian Delacourt, não irei
mansamente. O mundo inteiro saberá que você fica aqui com a porca que ela é.
Como resposta, ele desapareceu atrás do biombo, terminou de tirar sua
roupa, e entrou na água perfumada.
— Não fará tal coisa, mãe — indicou razoável. — De fato, se eu fosse você,
deveria fazer todo o possível para conter o escândalo. De outra maneira eu
poderia suspeitar que está promovendo a história, e nesse instante, encontrar-
me-ia pouco disposto a seguir pagando sua contribuição.
— Não te atreveria.
Ele ensaboou um tecido e começou a lavar seu rosto.
— Bem, eu estaria relutante em fazê-lo, é obvio, — confessou — mas não
teria me deixado nenhuma outra opção. E não seria exatamente indigente, já que
ainda tem a pequena herança de sua mãe para socorrê-la. As casas, entretanto,
são todas minhas, então não tenho certeza de onde poderá residir.
— Não posso deter os rumores, sabe que não posso fazê-lo.
Sua resposta foi amortecida pelo tecido ensaboado, que enviou um
estremecimento de apreensão por ela.
— Então vai depender do que eles façam.
— Mas sem dúvida haverá falatórios — protestou alarmada. — Adrian, está
prometida a Lorde Barrasford, não pode ficar aqui sem levantar falações. Sê
razoável, não sabe o que está me pedindo.
— Bem, mas se alguma vez ouço que uma só palavra de censura veio de
você... — Ele deixou a sua voz deter-se, assegurando de que ela entendia seu
significado.
Ela sabia quando estava derrotada. Nunca pôde entender a intensidade dos
sentimentos que sentia pela pequena Johanna Milford, e nunca ia entendê-lo.
Uma mulher a quem a hierarquia aristocrática era tudo, não podia compreender
a atração pela filha de um barão. A água salpicava detrás do biombo quando ele
enxaguou o sabão de seu rosto e peito. Incapaz de reter completamente seu
ressentimento, acrescentou rancorosamente, — Não sei o que esperas conseguir
tendo-a aqui. Ela está prometida a Barrasford!
Ele podia ouvir o sibilar furioso de sua saia contra sua anágua quando cruzou
o quarto. A porta se fechou de um ruidoso golpe detrás dela, lhe deixando com
suas reflexões pouco satisfatórias. Não tinha pensado conduzir o assunto dessa
forma, mas, tampouco enviaria de volta Johanna a Haven, e de alguma forma
sábia que chegariam a esta situação, simplesmente não havia lugar para ambas as
mulheres em Armitage. Aliviou seu corpo dolorido mais profundamente na água
quente para lavar suas contusões, e pensou em seu filho. Seu filho. Um orgulho
feroz o agarrou com a lembrança do menino, esteve mais calmo que muitos
adultos. Nunca esqueceria a confiança daqueles braços agarrando-se a seu
pescoço quando a corda os levantou. E Johanna. Quantas mulheres conhecia
que teriam desmaiado ante a vista daquele osso se sobressaindo da perna? Se
perguntou. Mas não Jo, estava muito absorta em consolar seu filho. Seu filho.
Por direito, deveria ter estado ali todos os dias de sua gravidez, naquelas horas
quando o trouxe para o mundo, e todos os anos após. Mas em troca foi Gary
quem viveu tudo isto, Gary que consolou Johanna, e Gary que tinha
compartilhado os primeiros anos do menino. Gareth Sherwood. O melhor
amigo que um homem poderia ter, havia dito sua mãe. Sua mãe. A suspeita
terrível que ela tinha mentido era uma pesada carga. Mas houve provas e
Johanna nunca refutou nenhuma delas.
— Sua Graça.
Encontrava-se tão absorvido em seus pensamentos que não tinha ouvido a
entrada do criado. Com resolução enquadrou seus ombros e voltou para o
presente.
— Sim, — recolheu o sabão e começou a lavar as feridas de suas mãos. —
Vou necessitar de algum bálsamo, Blake.
— Trouxe-o, Sua Graça. — O rosto magro de Blake foi aumentado com a
preocupação. — Suas mãos têm um aspecto repugnante, possivelmente o
doutor deveria havê-las cuidado.
— Não, se curarão bem. Alguma palavra do quarto ao lado?
— Lady Jo? — O criado a chamou pelo velho nome que os criados usavam
com Johanna. — Não, mas a senhora Johnson lhe preparou um banho. Que
coisa terrível aconteceu ao menino, senhor, mas espero que sane corretamente.
É a pobre Lady Jo quem nos preocupa.
— Ela quase perdeu seu filho.
— Verdade. Milorde, desejo que me deixasse ao menos enxaguar seu cabelo.
Aqui. — Ele recolheu a jarra de água clara e começou a lavar o sabão do cabelo
negro. — É uma bênção que os homens já não empoem seus cabelos, não acha
senhor? Para cobrir o seu necessitaria uma libra de pó.
— Nunca tinha pensado nisso.
— Pois, eu sim. Sendo o criado de um cavalheiro, pensamos nessas coisas.
Deseja sua senhoria a bata ou se vestirá para o jantar?
— O jantar? — esqueceu-se de comer. — Que horas são, Blake?
— Apenas sete, Sua Graça, e o cozinheiro está aborrecido com o atraso,
embora pense que comemos muito frequentemente com o horário do campo,
desta vez jantaremos a uma hora civilizada. Acredito que oito e trinta foi o que
disse a senhora Johnson.
Adrian fez uma careta ao levantar-se da banheira.
— Já que tomamos nossas outras refeições em horário do campo,
Bennington será infeliz de saber que trocamos a hora.
— A senhora Johnson já o informou, Sua Graça.
— E? — Um indício de um sorriso se formou nas comissuras da boca de
Adrian.
— Bem, não posso dizer que esteve contente, milorde — o ajudante de
câmara confessou quando lhe passou uma toalha. — Entendi que se queixou,
que ele não ficaria onde não seria alimentado.
— Que lastima que não pensamos nisso mais cedo — sorriu abertamente.
— Ehr... — Blake duvidou em mudar o assunto, mas tinham lhe pedido para
perguntar. — Lady Jo, quer dizer, Lady Carew descerá para jantar, Sua Graça?
— Não.
O criado com cuidado pôs a roupa de seu amo sobre o suporte ao lado da
banheira, enquanto Adrian se secava.
— Talvez alguém deveria dizer ao cozinheiro para preparar uma bandeja, a
senhora Johnson pensava que Lady Carew se uniria ao jantar.
Ainda secando-se energicamente com a toalha, jogou uma olhada à porta que
conectava os quartos, e a realidade de onde ele estava o pegou de cheio. Este
tinha sido seu dormitório quando ela era sua duquesa e ainda estava tal e como
ela a tinha deixado. Em sua ânsia por ter seu banho, não pensou nisto, mas
agora sim. Seus olhos percorreram o quarto, detendo-se nos detalhes, evocando
lembranças. Gostava de secar seu cabelo ante a lareira no inverno. Sem ser
consciente se deteve na cama com quatro colunas e seu dossel brocado. Tinha
passado muitas noites ali, quase tantas como ela tinha passado no seu.
Converteu-se em uma espécie de brincadeira entre eles que o tapete na porta se
desgastaria antes de cumprirem um ano de casados.
— Por que não vai abaixo e informa à senhora Johnson de enviar uma
bandeja — sugeriu. — Sou capaz de me arrumar sozinho, e você se acostumou
a fazer suas refeições cedo. Vá comer com o resto do pessoal.
— Ah, não quis dizer…
— Continue. De todas as formas a casa está uma confusão, duvido que
alguém note se minha gravata não está perfeita.
— Tem certeza, Sua Graça? Eu não disse que…
— Não, não... Vá.
Logo que a porta se fechou, Adrian se vestiu depressa, deixando sua camisa
aberta no pescoço. Por impulso andou a porta e tentou o trinco. A fechadura
cedeu sob sua mão, deixando a porta aberta e admitindo-o ao seu próprio
quarto. Seus olhos se dirigiram para Justin dormido, apoiado nos travesseiros,
sua perna elevada pela tabuleta de madeira. No princípio, Adrian pensou que
Johanna estava sentada na cadeira perto da cama, mas ao aproximar-se,
silencioso, podia ver que só estava o assento. Seu pulso correu apesar de sua
fadiga.
— Jo?
Houve um movimento de água detrás do biombo Oriental quando ela
agarrou uma toalha.
— Não venha para aqui, Dree — advertiu ela.
Era muito tarde. Quando elevou a vista, ele estava de pé ali, seu rosto traindo
a fome que sentia. Um tremor de entusiasmo correu por suas costas. Ela agarrou
a toalha contra seus seios, seu rosto rubro sob seu olhar.
— Sai daqui — pôde dizer.
— Vim para ver como se encontrava o menino.
— Está dormido como deve ter visto quando chegou rondando por aqui.
— Não me escondia.
— Farejando — repetiu. — Posso estar agradecida, Dree, por tudo que tem
feito por Justin, mas não te dei permissão para me observar.
— Já te vi assim. — Um sorriso surgiu em sua boca e acendeu seus olhos
escuros. — De fato, pode recordar que vi muito mais que isto.
— Lembro-me de muitas coisas, Dree. Agora, vai ou não?
— Não.
Seus lábios se apertaram com desaprovação para ocultar seu próprio coração
palpitante. Ela não se atrevia a encontrar seus olhos, e se concentrou no pêlo
encaracolado exposto por sua camisa desabotoada. Exalando devagar para
controlar sua mente, tratou de manter sua voz calma.
— O que quer?
— Jo — deu um passo mais perto.
— Fique onde está, Dree. Se pensar que pode só entrar e... me tocar, está
equivocado.
— Mandei minha mãe embora, Jo.
— Isso não me concerne agora, milorde.
— Ela me obrigou a escolher entre as duas.
— Que comovedor — observou sarcasticamente. — Uma lástima que não
pode ter feito essa opção há seis anos. — Impulsionada pela lembrança das
acusações de Helen Delacourt, sua cólera permitiu que encontrasse seus olhos.
— Agora é muito tarde.
— É? — perguntou brandamente enquanto caminhava detrás dela. Johanna
agarrou a toalha com mais força e ele se agachou para frente, quando colocou a
mão na água para recolher o tecido que tinha estado usando. — Recorda como
te lavava, Jo? Esqueceu como ensaboava seu cabelo? — recolheu o sabão antes
de inclinar-se para lavar suas costas. Seu toque era rápido, quase impessoal, mas
sua voz era íntima quando sussurrava. — Recorda isto, Jo?
— Não — mentiu. Ela teve que fechar seus olhos durante um momento para
dominar seus sentidos cambaleantes. Agarrando os lados da banheira, levantou-
se bruscamente, enviando um jorro de água em sua camisa e calça. Abriu seus
olhos deliberadamente agora, e zombou: — É isto o que queria ver? — deixou
cair à toalha molhada na água e ficou reta. — Olhe Dree, este é o corpo que
acreditava que compartilhava com Gary quando estávamos casados recorda?
Seus seios eram mais cheios, mas sua cintura ainda era estreita e seu abdome
liso. Ele conteve sua respiração à vista de seu corpo molhado e brilhante. Sentiu
sua boca muito seca para falar. Ela saiu da banheira pelo outro lado e alcançou
outra toalha. Apoiando sua cabeça de lado, secou seu cabelo loiro e depois se
endireitou para envolver-se. Ele olhou como se estivesse em transe.
Passou tão perto que pôde cheirar a fragrância de seu cabelo recém-lavado.
Involuntariamente alcançou-a com seus dedos nas mechas molhadas, parando-a.
Ela se sacudiu furiosamente, arrancando com tal força que a dor trouxe lagrimas
a seus olhos.
— Não faça isto! — sibilou.
Por resposta, sua mão se deslizou para baixo para remontar onde a toalha
úmida estava contra a pele lisa de suas costas. Um tremor seguiu seus dedos. Ela
fechou seus olhos e engoliu com força.
— Por favor, Dree.
— Shhhhh. — Devagar, deliberadamente, virou-a. Ela ficou quieta, como
uma estátua perfeita, cada músculo congelado para negar a necessidade que
sentia. Só o batimento do coração débil do pulso em seu pescoço enganava sua
confusão interna. Ele rodeou seu ombro com seu braço e a atraiu para mais
perto, saboreando o aroma fresco e doce. À medida que sua boca encontrou a
sua, faminta, ela fez uma tentativa débil de virar sua cabeça, e negar a corrente
de emoções. O beijo se fez mais profundo e suas mãos exploraram suas costas,
moldado, sustentando-a contra ele, provocando um desejo que emparelhava ao
seu. Seus braços se deslizaram em torno dele, lhe abraçando como apoio. A
toalha se soltou, sustentada agora só pela proximidade de seus corpos.
— Mamãe! — O pranto de Justin cortou a consciência de Johanna,
devolvendo-a a realidade de onde ela estava e com quem. Ficou rígida e
começou a lutar freneticamente.
— Mamãe! Mamãe!
Ela se separou e a toalha caiu entre eles. Adrian deixou cair suas mãos.
— Maldita seja! — murmurou decepcionado.
— Mamãe, onde está? — o menino exigiu queixando-se. — Mamãe, dói-me a
perna. E tenho tanta sede.
— Eu... já vou, querido — procurou freneticamente sua bata.
— Aqui. — Ele lhe deu a bata. — Vista-se, enquanto trato de acalmá-lo —
Ainda com sua respiração entrecortada, se aproximou da cama.
— Mamãe? — Os olhos do menino confusos, enquanto se movia agitado,
enredando-se com as mantas e a tabuleta. Adrian agarrou sua mão e a sustentou.
Durante um momento o pequeno corpo ficou imóvel. — Papai? — Os olhos se
esforçaram para concentrar-se na penumbra da tarde e logo o reconheceu. —
Duque — disse simplesmente.
— Não se encontra bem, verdade? — compadeceu. — Me deixe que o
levante mais alto nos travesseiros para que possa beber.
— Mamãe?
— Sua mãe acaba de tomar um banho, mas estará aqui logo que se vista. —
Levantando o moço, alcançou o copo. — Tome um pouco de água —
agarrando o copo com cautela para evitar derramar. — Isso, devagar — animou.
Ainda agarrando a mão livre de Adrian, Justin se afundou entre os
travesseiros.
— Duque — pronunciou solenemente — eu tinha medo.
— Eu sei.
Johanna surgiu então, seu corpo coberto com a bata. Tinha penteado seu
cabelo e estava suave e molhado contra suas costas.
— Tem febre? — perguntou ansiosa.
Adrian levou para trás o cabelo escuro e pôs a mão em sua testa.
— Não.
— Mamãe, minha perna dói como o diabo — Justin abriu um olho para ver
o efeito da declaração.
— Não diga diabo, amor. Já sei que isto dói, mas não se pode evitar. Sua
perna está quebrada e levará algum tempo para sanar. — Ela se sentou na cama
e acariciou seu cabelo grosso. — O que podemos fazer, é te dar um pouco mais
de láudano, então não doerá tanto.
— Arghn!
— Só um pouquinho, — concordou Adrian — mas ajudará — soltou a mão
do menino e agarrou a garrafa de láudano. — Me dê à jarra Jo, e mesclaremos
um pouco.
Entre eles, conseguiram que tomasse a colherinha cheia, e no tempo que se
seguiu entre a dose e o alívio, mantiveram sua atenção para distraí-lo de sua dor.
Johanna cantou brandamente até que sua voz, já dolorida dos gritos do dia,
deixou de funcionar. O menino exigiu mais, até que Adrian, com o comentário
triste que teria que suportar algumas canções de seus dias de Oxford, lançou-se a
um recital de melodias, por sorte desconhecidas para ela. Na quinta canção, a
cabeça do moço se voltou sonolenta no travesseiro. Cantou até estar seguro que
ele dormia, estendeu a mão para acariciar a de Johanna.
— Poderíamos ir ao quarto rosa — se arriscou em voz baixa.
Ela sacudiu sua mão.
— Não, eu não acredito — conseguiu dizer com frieza. Ela se levantou da
cama e se moveu para olhar para o crepúsculo.
— Deseja-me tanto como eu a desejo — murmurou atrás dela.
— Se me tocar outra vez, gritarei — se voltou para estar de frente a ele. —
Não o faça, Dree, por favor. Vamos ser educados pelo bem de Justin, mas não
trate de me enganar outra vez.
— Jo… — Sua mão agarrou seu ombro.
— Não me toque! — separou-se e retrocedeu. — Só porque estou sob seu
teto agora, não significa que possa me usar como uma prostituta, Dree. Se
esquece que estou prometida a Lorde Barrasford.
— Pode romper o compromisso.
— Deveria ter esperado isto de você, verdade? — perguntou amarga. —
John Barrasford é um homem decente, amável, e dei minha palavra. E por
estranho que te possa parecer, embora não queira acreditar, realmente guardo
minhas promessas.
— Manteve-as para mim?
— Jurei que nunca te responderia isto, mas já não importa mais. Temo que
terá que olhar dentro de você mesmo para ter a resposta. Gary tratou de dizê-lo
uma vez, mas não quis escutá-lo — Ela fez gestos à porta entre as duas câmaras.
— É muito tarde, Sua Graça, e não terminou de se vestir para seu jantar, então
sugiro que o faça. E antes que desça, seja amável de me dar a chave da porta. Na
próxima vez, espero que chame.
CAPÍTULO 20
A refeição foi tensa desde o começo até o final. Com a chegada tardia de
Adrian, a conversa repentinamente cessou quando todo mundo se virou para
contemplá-lo. Uma olhada rápida ao redor da mesa revelou o conto, o rosto da
duquesa mal ocultava sua indignação sob uma fachada de fria cortesia, o queixo
do senhor Bennington tremia pelo descaramento percebido, a boca de milady
Bennington congelada em um sorriso decidido, inclusive o rosto encolerizado de
Almeria mostrava sua amarga desilusão. Quando tomou seu assento à cabeceira
da mesa, a tentativa débil de milady Bennington de animação foi recebida por
resmungos que abandonou o esforço.
Só quando estavam na metade do terceiro prato o senhor Bennington se
atreveu a perguntar se essa mulher, fixava sua residência em Armitage. Adrian
ficou rígido do tom de censura na questão.
— Essa mulher, como elege chamar Lady Carew, foi minha duquesa —
Adrian lhe recordou com frieza. — E, sim, espero que fique aqui enquanto a
recuperação do menino o requeira. — Colocando outra colherada de ervilhas
em seu prato, levantou o olhar a um lacaio inexpressivo que esperava para servir
o prato seguinte. — Pode informar ao cozinheiro que seus medos foram
infundados, o jantar está excelente.
— George! — Milady Bennington agarrou o cotovelo de seu marido para
chamar sua atenção e sibilou em voz baixa. — Agora, não. — Com uma piscada
furtiva para onde Almeria rigidamente empurrava sua comida ao redor do prato,
acrescentou: — Não é uma conversa apta para que sua filha a escute.
— Como se não soubesse que tais mulheres existem — murmurou a jovem,
com cuidado, mantendo seus olhos afastados.
Um nó se formou no estômago de Adrian e sua comida se fez insípida em
sua boca. Queria repartir golpes a destro e sinistro, lhes dizer que estavam
equivocados sobre Johanna, que não merecia a reputação horrível que lhe tinha
dado, mas não importava. Em troca, ficou olhando Almeria, com frios olhos.
— Johanna Sherwood é uma lady tão digna e educada como é você milady
— lhe disse.
Duas manchas de cor iluminaram as bochechas de Almeria. Sua frieza,
conectada com o comentário conciso anterior de Lady Helen que a expedição a
Wells tinha sido cancelada, incitou-a.
— Se houver me convidado aqui para me insultar, Sua Graça, teve êxito. Não
permaneço na mesma casa ou até na mesma conversa com uma mulher
divorciada. É suficiente que tenha me convidado durante a Temporada, para
logo fazer alarde de suas preferências por ela. Faria-me a boba da sociedade,
milorde. — Ela se levantou regiamente da mesa, seu bonito rosto enroscado em
um amargo sorriso. — Nada poderia me induzir a permanecer nesta casa
enquanto ela viva aqui. — Virando-se para seu pai, acrescentou: — Me perdoe
papai, mas tenho dor de cabeça.
Houve um silêncio pesado depois que deixou a sala de jantar. Mortificado, o
senhor Bennington tratou de recuperar a situação que ela tinha causado.
— Deve perdoá-la, Sua Graça o ciúme a têm feito perder sua têmpera,
recuperar-se-á pela manhã.
— Possivelmente eu deveria ir com ela — se arriscou milady Bennington
duvidosa.
Adrian lançou seu guardanapo na mesa e se levantou.
— Não, a falta foi minha e é hora de pôr as coisas em claro. Irei.
Encontrou-a caminhando furiosamente pelo jardim detrás da casa.
— Lady Bennington — se aproximou por trás dela e esperou.
— O que quer? — Havia uma indireta de esperança em sua voz.
— Vim para pedir perdão por meu lamentável comportamento. Embora
discorde com sua opinião sobre Lady Carew, sou um mau anfitrião por falar
assim. — Quando ela não fez nenhum reconhecimento de sua desculpa,
continuou. — Acredito que veio aqui por um engano de meus verdadeiros
sentimentos. Minha mãe a convidou, não eu. Admiro-a, é uma jovem
encantadora, mas jamais foi minha intenção lhe fazer uma oferta de matrimônio.
Nunca deveria ter permitido sua visita aqui, já que não tenho o menor interesse
em me casar de novo.
— Nem sequer com sua linda Johanna?
— Lady Carew está prometida a Lorde Barrasford — respondeu
rotundamente. — E ela deixou claro que não me aceitaria outra vez.
— Entendo. Isto me esclarece as coisas, não?
— Johanna é a Duquesa de Roxbury em meu coração, e não há lugar para
nenhuma outra. — Sua voz era suave quando alcançou sua mão. — Venha,
passeie comigo e tratarei de explicar. — Colocando sua mão no oco de seu
cotovelo, conduziu-a entre as fragrantes rosas. — Não espero que entenda, mas
caí apaixonado por ela quando ainda éramos crianças, e nunca houve nenhuma
outra para mim. — Ele flagrou sua expressão incrédula e assentiu com a cabeça.
— Ah, houve as atrizes habituais e esse tipo de mulher desde que ela partiu, mas
nenhuma para tomar seu lugar em meu coração.
— Mas ela o enganou. Ela…
— Pensei assim uma vez, mas agora, não estou tão seguro. De tudo o que
poderia ser dito de Johanna, ela sempre foi honesta. Gary também. Não, não
tenho certeza que ela o fez — se deteve em seco. — É uma história que não
tenho nenhum desejo de contar.
As lágrimas cintilaram em suas pestanas quando contemplou ao homem mais
bonito que tinha conhecido. Era insuportável que estivesse dizendo que não a
queria.
— Se não poder casar-se com Lady Carew…
— Não prestou atenção a nada que disse? — perguntou brandamente. —
Estou lhe dizendo que vou desejá-la junto a mim todos os dias de minha vida,
lady Bennington, e sabendo disto, não posso, em sã consciência dar meu nome a
alguém mais.
Deixou cair sua mão e se voltou para estar de frente a ele, seu desgosto
evidente.
— E me seguiu até aqui para me dizer isto, Sua Graça? — exigiu. — E
acredita que ao me dizer que a prefere, vai fazer me sentir melhor. Bem, isto não
faz! Vim aqui para ser uma duquesa, milorde.
— Então, temo que terá que encontrar outro duque.
— Como se houvesse tantos — replicou com aspereza. —Teria me casado
com você, Sua Graça, e teria feito a vista grossa a suas atrizes e suas cortesãs e
até a Lady Carew.
— É a vida que deseja? — perguntou incrédulo.
— Sim! Surpreende-lhe, milorde?
— Repugna-me — se voltou para retornar a casa. — Mas com essa idéia,
sem dúvida encontrará facilmente um marido quando retornar a Londres. Boa
noite.
O senhor Bennington, sempre otimista no que concernia a sua filha, elevou a
vista de sua sobremesa quando Adrian entrou de novo a sala de jantar.
— Não há nada como um mal-entendido entre apaixonados para animar um
noivado, né, milorde?
— Não sei — replicou ao sentar-se à mesa.
O jantar terminou sem nenhum outro contratempo e os homens se retiraram
à biblioteca como era acostume para uma taça de vinho Oporto. A duquesa,
ante a perspectiva de responder mais pergunta sobre sua partida, advogou
também uma dor de cabeça, deixando a pobre milady Bennington sem nada que
fazer, que retirar-se para dormir.
— Bom, agora que estamos longe das patas dos gatos, por assim dizê-lo, —
começou o senhor Bennington — possivelmente deveríamos falar da melhor
maneira de recuperar a situação. Suponho que com o moço ferido, não poderia
dar as costas a Lady Carew, mas será um escândalo do demônio se a história sair
à luz. Mas se se casa com Almeria, isso fechará o pico dos fofoqueiros e… —
parou, sufocado pelo olhar de Adrian. — É... ahnn... bem, não estava tão
desejoso de lhe fazer uma oferta de matrimônio.
— Não — respondeu francamente. — A idéia, por muito que lamente, era
toda de minha mãe.
— Mas… — Confundido, sua senhoria procurou os meios de recuperar-se.
— Quero dizer…
— Sinto que se considere enganado, Bennington, mas deixei bem claro a sua
filha que não deveríamos satisfazer o gosto de minha mãe. Acredito que ela
entendeu perfeitamente.
— Mas sua mãe, a duquesa…
— Sua Graça não tem o poder de dirigir minha vida, não importa no que
possa acreditar. Espero que lhe tenha informado de suas intenções de partir pela
manhã.
— Sim, conto-me isso tudo, num sussurro. Ou seja, não pode ser verdade,
não com Lady Carew aqui, quero dizer, simplesmente isso não pode acontecer,
milorde. Pergunto o que vai pensar Barrasford?
— Ele é um homem honrável, e espero que aceite a inocência da situação.
Inclusive Bennington sabia quando aceitar o fracasso. Virou o resto de sua
taça e fixou em Adrian um olhar que raiava a pura aversão.
— Vejo claramente a disposição do terreno — replicou pesadamente. — Pois
bem, milorde, se está determinado a seguir este curso, e se Sua Graça não estará
na residência, não vejo nenhuma alternativa que tirar minha esposa e filha desta
casa. É possível que você seja capaz de beneficiar-se da associação com Lady
Carew, mas elas não podem. Partiremos pela manhã.
— Minha mãe está disposta a lhes acompanhar a Wells de modo que lady
Bennington possa visitar o lugar.
— Lamento, mas não vamos por esse caminho. Sem você, milorde, Almeria
não tem o menor interesse em ir a Wells — replicou rigidamente. — Boa noite,
Sua Graça.
Depois que o pai de Almeria partiu, Adrian verteu outra taça de vinho e
contemplou o lugar vazio sobre o suporte de lareira. O retrato de Johanna,
muito valioso para ser destruído, estava guardado no porão. E já que não tinha
nenhuma intenção de procurar outra esposa, poderia fazê-lo trazer e pendurar
de novo com seu lugar, próximo a seu companheiro, seu próprio retrato em
frente. Eles eram um casal, em mais de um sentido.
Seus pensamentos se dirigiram a aqueles poucos minutos em seu quarto.
Deus, como a tinha desejado, ainda a amava. Ela começava a lotar sua mente ao
ponto que não era capaz de manter um pensamento racional. Havia dito a si
mesmo, desde que ela retornou a Inglaterra que era o menino a quem queria,
mas agora tinha que admitir algo completamente diferente. Sem Johanna, ter a
seu filho seria uma vitória amarga. Já não importava se sua mãe havia dito a
verdade, fora há muito tempo e eles eram muito jovens. Agora era mais maduro,
havia adquirido experiência em seus dias de solteiro, e conhecido a muitas
mulheres. E ainda era Johanna a quem amava. O que havia dito ela sobre seus
esponsais com Barrasford? Algo como se ele acreditava ou não, ela cumpria sua
palavra. Bebeu em goles, pensativo e considerou seu significado, que ela
também tinha mantido suas promessas com ele. Ou procurava mais em suas
palavras do que havia dito? Olhou a parede vazia, tratando de rever seu retrato.
Usava um vestido azul e uma faixa vermelha escuro sob seus seios e seus
pequenos sapatos vermelhos que apareciam escondidas sob a prega. Devagar a
imagem tomou forma em sua mente ao recordar os detalhes. Um chapéu grande
de palha pendurava de seus dedos por sua fita vermelha e seu cabelo solto sobre
seus ombros em uma gloriosa desordem. E ao redor de seu pescoço branco e
perfeito um medalhão enjoiado, uma bagatela de sua infância que tinha utilizado
durante anos. Ela o tinha elegido por cima de qualquer das caras jóias que ele lhe
tinha presenteado, explicando: “Isto simboliza meu amor por você." Deteve-se
em seco em seu exame mental. Era o medalhão que ela tinha presenteado
Gareth Sherwood. O que poderia ter acontecido, o que ocorreu para fazê-la
mudar tanto no espaço de um ano? Ele tinha estado longe de casa muito
freqüentemente, sabia, mas ela o tinha recebido apaixonadamente em cada
retorno. Inclusive sua criada tinha confirmado a história de sua mãe. Qual era
seu nome? Mary? Mary Cummings. Sim, também podia recordá-la, como o
esperava na escada, sempre com uma pequena desculpa ou outra. Johanna não
achava isso nada divertido.
A contragosto permitiu que sua mente vagasse às acusações de sua mãe
contra Jo. Tratou de não pensar na história desde que aconteceu, mas agora não
podia evitá-lo. Ele nunca pôs as acusações em dúvida já que Johanna nunca
tinha tratado de negar, mas às vezes se perguntava se era verdade. Uma parte
dele quis procurar Mary Cummings e ter sua história repetida, enquanto outra
parte lhe advertia que esquecesse. Queria tanto saber a verdade como não
averiguou.
Um olhar ao relógio da lareira lhe dizia que era quase meia-noite. O menino
logo voltaria a estar agitado, e Johanna estava esgotada. Sua própria fadiga tinha
passado, substituída com uma mente que não podia descansar. Comprovaria
como se encontrava o menino antes de retirar-se.
Ambos estavam profundamente adormecidos quando abriu a porta de seu
dormitório. Não parecia que Justin se movera desde antes do jantar e Jo se
encontrava aconchegada em uma poltrona, sua cabeça inclinada em um ângulo
incomodo contra um dos lados. Quando tratou de despertá-la, simplesmente
mudou de posição e seguiu adormecida, sua respiração tão suave que era quase
imperceptível, seus lábios separados para expor apenas as bordas de seus dentes
perfeitos.
— Jo — ele tentou outra vez, só para vê-la acomodar-se na cadeira. — Pobre
Jo — murmurou compassivo. Com um suspiro, levantou-a. — Vamos Jo, estará
mais cômoda deitada. Só alguns passos até o canapé, isso minha menina — a
animou quando ela meio andou e meio se apoiava contra ele. Com um braço
rodeando a sua cintura, chegaram ao sofá, e a deitou com cuidado. Recolhendo
seus pés, ajeitou-os nas almofadas. O ar ainda estava quente, mas ela nunca
dormia desenrolada, recolheu um xale grande dobrado de um baú e o estendeu
sobre ela.
Retornando à cama, tirou seus sapatos e se deitou ao lado de seu filho. Se
despertasse, Adrian estaria ali de modo que Johanna pudesse dormir. Tocou a
testa ligeiramente úmida. Não havia nenhum sinal de febre, pelo menos ainda
não.
CAPÍTULO 21
A luz atravessando as janelas despertou-a lentamente, e quando se fez cada
vez mais consciente de seus arredores, Johanna se levantou de um sobressalto.
Empurrando para trás seu cabelo enlinhado, tratou de pôr em ordem seus
pensamentos. Seus pés tocaram a lã grosa do tapete Aubusson e por um breve
momento se perguntou onde estava. Então a lembrança do acidente a deixou
totalmente acordada.
— Justin?
Não havia nenhum som no quarto exceto a respiração estável. Deixando de
lado o xale grande que a havia coberto se levantou e caminhou silenciosamente
até a cama para olhar com surpresa. Ali estava seu filho, seu corpo enroscado
longe de sua perna entalada, seus pequenos ombros envoltos entre os braços de
Adrian, com sua cabeça embalada contra seu ombro. As duas cabeças escuras
em tão estreita proximidade que pareciam como duas ervilhas em uma vagem.
Aproximou-se para tocar a testa do menino e achou-o ligeiramente quente.
— Heim?
Quando o algodão suave de sua camisola emprestada o roçou, os olhos de
Adrian se abriram, piscou várias vezes, e depois esboço um triste sorriso que o
atirou dolorosamente as suas lembranças.
— Devo haver dormido — murmurou desculpando-se brandamente e
retirou seus braços do menino. Sentando-se, passou os dedos por seu cabelo
desordenado e esfregou a escura barba de seu rosto. — Que horas são?
— Não tenho nem idéia, — confessou — mas não deveria estar aqui. Sua
mãe propagará o fato pela metade da vizinhança que nós… — fez uma pausa e
seu rosto ruborizou.
— Que nós fazíamos amor na mesma cama com nosso filho? — cortou-a
com um sorriso. — Não, nem sequer minha mãe tem tanta imaginação.
— Dree! — vociferou uma advertência.
— Ele vai saber mais cedo que você imagina, Jo.
— Não, — sacudiu sua cabeça com decisão — é muito jovem para
compreender, Dree.
— Prefere que o ouça de alguém mais?
— Johnny e eu o levaremos para Irlanda, então duvido que alguém lhe diga
nada. — Olhou para baixo e recolheu uma penugem na colcha. — Quero
contar-lhe quando considerar que é o momento adequado, Dree. — Trocando
de assunto, tocou a cabeça de Justin outra vez. — Acredito que está quente.
Ele pôs a mão contra sua testa.
— Seria um milagre se não o tivesse, sabe. A pele estava rasgada e a água
suja, e Deus sabe quanto tempo estava ali abaixo antes que o encontrássemos.
— Sua mão se deslizou para cobrir a sua. — O veremos recuperar-se, é um
pequeno muito resistente.
— Não o ouvi em toda a noite.
— Estava esgotada. Não sabe nem como chegou ao canapé, verdade?
— Não, mas deveria ter despertado para lhe dar o láudano.
— Ele estava inquieto, e dei-lhe há aproximadamente três horas. Adivinho
que adormeci depois — tirou seu relógio e o olhou. — Tenho que me levantar e
me pôr apresentável. Se ouvir um grito histérico no quarto do lado, saberá que
Blake viu o que fiz a este casaco. Temo que o pobrezinho me acha um triste
caipira. — Um débil sorriso apareceu em sua boca. — Possivelmente poderia
lhe recomendar a Johnny, é um homem que faz sentir-se orgulhoso a um
ajudante de câmara.
— Sim, ele sempre usa sua roupa imaculada — esteve de acordo docemente.
— Mas se quer implicar que é efeminado ou algo assim, posso te assegurar, que
ele não o é.
— Ah, não há nada mau com Barrasford — replicou. — Considero-lhe um
amigo, de fato tem muito para lhe recomendar, é um bom cavaleiro, um
condutor perito, um dândi autentico, e bonito.
— Muito bonito — corrigiu ela.
— Suponho que é — pareceu considerar. — Sim, tem razão, Jo. A maioria
das ladies que conheço também o consideram assim.
— Dree, se quer dizer que tem uma horda de amantes…
— Não, não mais. Sua última amante o curou, acredito que lhe custou uma
fortuna sangrenta tirá-la de cima dele. — Jogou uma olhada a seu relógio antes
de devolvê-lo a seu bolso. — Realmente devo descer a tempo para oferecer a
mãe e os Benningtons um terno adeus, não acha?
— Dree…
Levantou-se da cama, recolheu seus sapatos, e lhe mostrou um simpático
sorriso.
— Jo não deveria preocupar-se com Johnny, pode ser um modelo de
virtudes, mas não é uma pessoa intransigente que não entenderá as
circunstâncias. Se desejar, escrever-lhe-ei uma explicação.
— Obrigada, prefiro fazer minha própria explicação, Dree. Vou fazê-lo
imediatamente, antes que descubra os meios de pôr fim a meu compromisso.
— Vou franquear a carta eu mesmo.
Esperou que se fosse e logo tentou abrir a porta entre os dois quartos.
Descobrindo-a satisfatoriamente fechado, vestiu-se rapidamente com um
vestido que a senhora Johnson tinha encontrado e se sentou ante uma pequena
escrivaninha revolvendo até encontrar papel, pluma e tinta. Escrever a John
Barrasford e explicar sua presença em Armitage não ia ser fácil, mas tinha que
ser feito. Compôs seus pensamentos durante um minuto e logo escreveu umas
breves orações perfilando o acidente de Justin e a lesão que tinha sofrido.
Debatendo durante um momento sobre se lhe dizia que a mãe de Adrian partia
por protestar por sua presença, decidiu que seria melhor ser totalmente honesta.
Ela terminou com uma promessa de mantê-lo instruído diariamente. Apenas
uma carta amorosa, refletiu com secura, mas as circunstâncias eram muito
torpes. Atrás dela, Justin se moveu agitadamente e gemeu. Ela deixou a carta e a
guardou.
— Está tudo bem, querido — disse ao cruzar o quarto. — Chamarei para
pedir o café da manhã, e depois de comer, pode ter um pouco mais de remédio
para aliviar a perna — puxou a corda do lado da cama e se sentou na borda do
colchão para alisar seu cabelo. — Quer beber algo?
Ele sacudiu sua cabeça. Seus olhos estavam opacos com a dor, mas tratava de
ser viril.
— Mamãe — esforçando-se por apoiar-se nos travesseiros, girou seu rosto
aonde a impressão da cabeça de Adrian permaneceu. — Papai estava aqui
comigo.
— Justin — vacilou, insegura se teria que contradizê-lo.
— Sei que estava, mamãe — insistiu. — Falei com ele e me respondeu, sei
que estava aqui. Senti-o, Mamãe.
— Era o duque, amor.
— Não, era Papai — sua voz tremeu na intensidade. — Disseme que me
amava.
— Ele... disse algo mais?
— Não sei, acredito que sim — se esforçou por recordar e seus olhos se
iluminaram. — Eu tinha tanto sono, mas me falou de quando era pequeno, e
como conheceu duque e você... e... e adormeci.
— Possivelmente era um sonho, meu amor — Ela tratou de manter sua voz
calma, mas interiormente estava zangada que Adrian tivesse levantado falsas
esperança em seu filho. — Aqui, tome um sorvo de água.
— Não era um sonho — bebeu os sorvos obedientemente e retrocedeu
contra os travesseiros. — Talvez deva ver-me outra vez.
Sem saber que dizer, Johanna estava agradecida pela interrupção da senhora
Johnson que entrava com a bandeja de café da manhã. A ama-de-chave o pôs
em uma mesa próxima e andou ocupada sobre o quarto. Abrindo as cortinas,
anunciou alegremente, — Faz uma manhã encantadora, sua... Lady Johanna. —
Recuperando rapidamente do lapso, acrescentou. — A chuva por fim terminou.
Sua Graça enviou alguém a New Haven por suas coisas e as do menino, e
parece que poderá atravessar o vau. — Retrocedendo à bandeja, levantou a
tampa expor um prato com salsichas, ovos mexidos, e pãezinhos. — O
cozinheiro tinha tudo preparado exceto os ovos quando você chamou. — Com
habilidade estendeu um guardanapo de linho sobre o peito de Justin, ela o pôs
sobre a colcha. — Então, você não gostaria de ter uma cama cheia de miolos,
não, jovem amo?
Observou à mulher eficiente com cautela.
— Quero que minha mãe me alimente.
— Ora, por Deus também seu braço está quebrado? Não, deixe sua mãe
tomar seu café da manhã, e se necessitar ajuda, eu cortarei. — Sem esperar
qualquer protesto, começou a cortar uma salsicha. — Não?
— Não tenho fome.
— Abra a boca como se chega um navio? — sustentou uma colher cheia de
salsicha. — Necessita-se de um porto. Isso mesmo mocinho — animou-se
quando tomou a salsicha. — Lembro como a enfermeira estava acostumada
fazer isto com seu papai.
— Conhecia meu papai?
A senhora Johnson elevou a vista rapidamente e encontrou os olhos de
Johanna.
— Ah… sim... quero dizer eu conhecia todos eles, seu papai, Lady Jo, e o
duque, quando eram pequenos.
A comida de Johanna estava insípida em sua boca. O quanto antes discutisse
o assunto com Adrian, melhor. Simplesmente não podia permitir que alguém
dissesse a Justin que Gary não era seu pai. Não se manteria a margem e que
destruíssem suas lembranças de Gary pela vaidade de Adrian. Pondo seu prato à
parte, assentiu com a cabeça à ama-de-chave.
— Já terminei, obrigada.
— Ah, milady, não quis dizer…
— Sei que não, mas posso cuidar dele.
Confundida, a pequena mulher ofereceu uma reverência precipitada,
apressando sua saída do quarto. Johanna a olhou e suspirou. Ia ser difícil viver
durante semanas em uma casa onde cada um conjeturava com a relação entre o
senhor da casa e o jovem conde. Quanto antes ele se recuperasse e se fossem a
Irlanda, melhor seria para cada um.
Havia um alvoroço no vestíbulo, mas Johanna não prestou nenhuma atenção.
Se Helen desejava fazer uma saída ruidosa, não era seu problema. Colocando
um pouco do ovo em um pedacinho do pãozinho, voltou-se para seu filho.
— Só um pouquinho mais, amor — lisonjeou. — E logo um pouco mais de
láudano.
— Eu não gosto.
— Sei, mas, faz-te sentir melhor?
— Faz-me sentir sonolento — Ele observou a garrafa com repugnância. —
Sabe que é horrível, mamãe.
— Sei, talvez amanhã não tenha que tomá-lo tão frequentemente.
A porta se abriu e um pequeno menino correu pela habitação para saltar na
cama. Justin se estremeceu de dor e deu a seu irmão um empurrão longe de sua
perna.
— Se afaste, Robin!
— Robert Sherwood, saúde corretamente sua mãe — falou Lady Anne
secamente da entrada. — E não suba à cama, seu irmão não deve ser
incomodado.
— Mamãe!
— Sim, por sorte, o vau era transitável esta manhã. — A condessa entrou no
quarto com uma cintilação em seus olhos. — Vim para ser sua carabina, querida.
E, sabendo quão preocupada que deve estar, escrevi a Lorde Barrasford para lhe
informar do acidente.
— Escrevi-lhe esta manhã — indicou a escrivaninha. — Ainda não foi
enviada.
— Ele sabe que estou aqui, então não deveria preocupar-se, meu amor. —
Concentrando sua atenção em Justin, Anne sorriu afetuosamente. — Desta vez
você nos fez uma boa, mocinho. Deu-nos um susto tremendo.
— Caí em um buraco, avó.
— Isso me disseram — Ela agarrou Robin firmemente e o desceu da cama.
— Seu irmão não foi dormir até que chegou a notícia que o tinham encontrado.
— Inclinando-se para plantar um terno beijo na testa de Justin, franziu o cenho.
— Está muito quente, Jo.
— Já sei, o doutor Goode vem esta manhã, e penso lhe perguntar sobre isso.
A ferida estava aberta e na água, mamãe.
— É um milagre que foram capazes de tirá-lo, Roxbury escreveu que o
encontraram dentro de um poço abandonado.
— Dree desceu para buscá-lo.
— Roxbury desceu em um poço?
— Sim, e era muito perigoso, as rochas se desprendiam, tinha certeza que
ambos seriam soterrados pelos escombros. Não nos atrevemos a esperar por
ajuda, mamãe, do contrário, a água se elevaria muito rápido e Justin teria se
afogado.
— Freqüentemente pensei que havia mais em Adrian Delacourt do que
acreditávamos — murmurou Anne judiciosamente. — E nunca pensei nele
como um covarde.
— Não.
Justin se esforçou para sentar-se.
— Mamãe não acreditou, avó, mas vi papai. Ele estava aqui ontem à noite.
Anne revolveu seu cabelo com simpatia.
— Foi um sonho, amor.
— Não, não era — contradisse com paixão. — Sei que não era, toquei-lhe.
Ele me disse que me amava. — Seu rosto retorceu na dor e retrocedeu.
— É obvio que esteve aqui — concordou ela. — Deve ter sido o láudano,
está lhe dando, Jo?
— Sim, mas… — Johanna jogou um olhar significativo para Justin. — Dir-
te-ei sobre isso mais tarde. — Tirou a tampa da garrafa de láudano e mediu uma
colherinha em um copo. Acrescentando dois dedos de água. — Agora, amor —
se dirigiu a seu filho mais velho — é hora de tomar o remédio.
Ele bebeu de bom grado, afastando seu rosto quando engoliu.
— Arghn. Robin, espero que nunca o façam beber disto.
O moço mais jovem, que tinha esperado enquanto seu irmão falava com sua
avó, tocou a perna de Justin.
— Dói-te muito?
— Como o diabo — resmungou com os dentes apertados.
— Foi muito valente — murmurou Anne brandamente quando se sentou a
seu lado e acariciou seu cabelo. — Estou muito orgulhosa de você, meu amor.
— Inclinando-se beijou sua testa. — Agora deve tratar de dormir, e quando
despertar, trouxe algumas coisas para fazermos juntos.
Suas mãos se deslizaram ao redor de seu pescoço durante um momento.
— Estou tão contente que está aqui, avó.
As lágrimas cintilaram nos olhos de Anne.
— Também estou feliz de estar contigo, meu amor.
Sempre cuidadosa para evitar o ciúme entre seus filhos, Johanna levantou
Robin em seus braços e o levou a janela.
— Vê o jardim abaixo, amor? É o melhor, e possivelmente o duque nos
permitirá que passeemos por ali quando Justin esteja dormido. Há um pequeno
labirinto mais à frente de sebe no que papai, Dree, e eu brincávamos. Lembro-
me que me perdi uma vez e como eles riam.
— Não quero me perder — lhe disse enquanto observava o jardim inseguro.
— Vou explorar contigo — prometeu ela.
— Mamãe, quem é Dree? — perguntou de repente.
— O duque que vive aqui.
— Deveria descansar enquanto possa — Anne o recordou da cama.
— Estou bem, dormi quase toda a noite. Dree… — Ela parou e seu rosto se
ruborizou no que sua sogra poderia pensar ao saber que ele ficou no quarto toda
a noite.
— Entretanto, deve conservar suas forças para o que vai ser um período
difícil para todos nós. Deixei à senhorita Finchley abaixo para ver a disposição
de nossa bagagem, seguro que ela levará Robin ao jardim.
— Não! — Robin se enroscou nos braços de Johanna. — Quero a mamãe.
— Trouxe também lady Finchely? — perguntou incrédula. — Roxbury
pensará que sua casa foi invadida.
— Foi o seu desejo expresso, meu amor. Traga o outro menino e uma
enfermeira quando vier, foi exatamente o que ele me escreveu. Mas ao invés de
uma enfermeira, trouxe à senhorita Finchley, pensando que seria mais útil para
manter a mente de Justin ocupado enquanto se repõe. — Levantou-se, alisando
sua saia. — Beijei a Helen e lhe disse adeus de sua parte, ela e os Benningtons
partiam quando entrei — acrescentou com um sorriso sereno. — Então como
pode ver necessita a presença de todos nós para suprimir as intrigas.
— Deve ser muito difícil para você, mamãe — respondeu devagar — estar
aqui depois de tudo o que aconteceu a Dree e Gary, mas estou muito agradecida
por ter vindo.
— Frescuras — rechaçou. — Ainda posso recordar Adrian Delacourt como
era antes. Além disso, culpo um pouco Gary por não falar a verdade.
— Eu não o permiti me defender, mamãe.
— Foi há muito tempo, Johanna. Vamos ocupar nossas mentes com que
Justin fique bem. Será difícil comportar-se como se não tivesse acontecido nada,
mas acredito que devemos fazê-lo — acrescentou com firmeza. — Pelo bem de
Justin.
— Pelo bem de Justin — esteve de acordo.
— Mamãe, poderíamos descer agora? — Robin tocou o cabelo de Johanna
com insistência. — Podemos? Não quero ficar com Finch agora.
— Se não quer se deitar, melhor sair um pouco — apressou em dizer Anne.
— E Justin ficará perfeitamente bem a meus cuidados, já sabe. Mas antes
comprove se a senhorita Finchley está colocada em um quarto? Lamentaria
pensar que ela perambula por este imenso celeiro, e não acredito que Roxbury
lhe prestará alguma atenção.
CAPÍTULO 22
O doutor veio, e examinou a perna de Justin, e sacudiu pessimista sua cabeça.
— Há sinais de infecção, deve ser sangrado.
— Não! — A voz de Adrian foi áspera. — Vamos envolver sua perna com
cataplasmas para tratar de curá-lo, mas não o sangraremos.
— Sua Graça, — se queixou doutor — não é um cavalo.
— Dree.
— Não.
— De verdade, milorde, deve reconsiderar. A infecção causará um
desequilíbrio no sangue entre as pernas. Se formos salvá-lo, devemos lhe sangrar
— protestou o doutor.
— Não estive muito tempo na Península, — cortou com frieza — mas vi
tantos homens morrerem por serem sangrados como foram salvos.
— Johanna, estou a favor de Adrian. — Anne elevou a vista ao outro lado da
cama. — Sangrá-lo pode ser eficaz em alguns casos, mas Justin é muito
pequeno.
— Dree, é meu filho — Johanna lhe recordou.
— O quer mais debilitado, Jo? — exigiu. — Viu alguma vez alguém que
ficou mais forte com esse tratamento? Não, verdade — respondeu para ela. —
Sua febre aumenta, não arriscarei nada que faça diminuir suas possibilidades.
Resistente em se indispor tanto com o duque como à condessa, o doutor
capitulou.
— Como queira, milorde. Posso prescrever um cataplasma, que deve ser
aplicado com esmero. Quanto à febre, não descerá enquanto que a infecção
permaneça. Deixar-lhe-ei algo que vai ajudar, é desagradável, mas eficaz em
alguns casos.
— Conseguirei que o beba — prometeu Adrian sombrio.
— E não o deixem descobrir-se quando suar, milorde, ou haverá risco de
uma inflamação dos pulmões. — Voltando sua atenção a seu paciente, o doutor
lhe fez uma carícia tranquilizadora. — Vou ter que reduzir a quantidade de
láudano, jovem, é o melhor. Vi muita gente acostumar-se a seus efeitos. — Os
olhos de Justin estavam brilhantes com a febre, mas conseguiu assentir com a
cabeça. — E tem que beber tanto quanto possa para limpar o veneno de seu
corpo com água. Entende-me? — Outra vez o menino assentiu com a cabeça.
— Bem. — O Doutor colocou a mão em sua bolsa e tirou um frasco de pó.
Dando-lhe a Adrian, instruiu: — Dê-lhe pelo menos uma colher dissolvida em
água e que beba tudo. Isto baixará a febre em menos de uma hora, mas não a
evitará. Ele suará prodigiosamente cada vez que diminua, e devem mantê-lo
seco. Isto não é nenhuma cura, Sua Graça, espero que isto o faça sentir-se
melhor.
— Com que frequência?
— Não mais de cada quatro ou cinco horas a menos que pareça convulsivo.
Nesse caso, use-o imediatamente e repita a dose em uma hora se a febre não se
reduzir.
— Convulsões? — O medo se agarrou a boca do estômago de Johanna.
— Doutor Goode, podemos falar em privado antes que parta — Adrian
perguntou em voz baixa.
— É obvio.
Eles seguiram o doutor no corredor enquanto Anne permaneceu com Justin.
— O que pensa realmente? — Os olhos de Adrian estavam fixos no rosto do
médico. — Queremos saber a verdade.
— Sim — Johanna esteve de acordo, incapaz de falar nada mais.
O doutor olhou de um ao outro e tomou ar.
— Sua Graça, acredito — respondeu finalmente — que será um milagre se
conservarmos sua perna.
— Se conservar sua perna. — As mãos de Jo voaram a seu rosto. — Não!
— É uma ferida má, milady. Já mostra algumas ulceras e a febre indica que a
infecção se estende. Vamos ter que fazê-lo tão cômodo como podermos e
esperar o melhor.
Ela lutou pela calma quando a mão de Adrian agarrou a sua.
— Entendo — falou ela finalmente.
— Não deixarei ninguém cortar sua perna, Jo. Não enquanto há uma
possibilidade de mantê-la e ele viver, — prometeu Adrian. — Quanto tempo
antes que saibamos? — perguntou ao doutor.
— Alguns dias como muito.
Logo que o doutor partiu, Adrian levou Johanna para fora e longe de todos.
— Agora pode chorar, se necessitar, mas quando acabar, temos que planejar
como cuidar melhor dele. Sugiro que dividamos o dia e a noite em porções de
quatro horas, contigo, Lady Anne, e eu controlando-o.
— Não o deixarei Dree, necessita-me.
— Ele necessita que esteja bem, Jo.
— É tão injusto, Dree! É tão pequeno, e… — Seu rosto contraído quando
não pôde agüentar as lagrimas, — perdeu Gary, e agora… ah, e se perder sua
perna, Dree?
— Rezaremos para que não ocorra, mas se perder, deve ser forte. Prefiro ter
um filho coxo que nenhum filho.
— Não pensa...? — ela soprou. — Sinto muito, não posso evitá-lo. Eu...
tenho que pensar... Devo recuperar meu senso comum? É tolo me preocupar
com sua perna quando sua vida…
— Não o diga, nem sequer o pense — a cortou. — Vamos manter a perna
envolta em cataplasmas até que deixe de supurar e logo ele estará bem. Quero
dizer, será se pudermos conseguir que o menino fique deitado na cama semana
após semana. — Levantou seu queixo com seu dedo. — Não vou deixar que o
perca, não enquanto haja alguma maneira de salvá-lo.
Havia tanta convicção de sua voz, tanta intensidade em seus olhos escuros,
que ela teve que acreditar. Fazia menos de um mês que ele não sabia que tinha
um filho, e agora lhe dizia que lutaria a seu lado para salvar Justin, que
compartilharia o cuidado do pequeno. Na verdade, eles não teriam um filho para
sanar se ele não tivesse descido ao poço. Fechou seus olhos pela gratidão que
sentia por este homem que tanto amava e odiava. Sua mão tomou seu queixo,
fazendo retroceder sua cabeça até que seu rosto esteve tão somente a alguns
centímetros da sua. Seus dedos eram fortes e quentes e reconfortantes. Podia
sentir sua respiração quando falou.
— Não descobri meu filho para deixá-lo morrer, Jo.
Um nó se formou em sua garganta, fazendo impossível responder. Muda
assentiu enquanto as lágrimas brotaram de novo deslizando-se por suas
bochechas.
— Por seu bem, peço-te que deixemos de lado nossas diferenças, Jo —
continuou em voz baixa — e juntos nos apoiemos para saná-lo. Inclusive se não
puder me suportar como marido, deve me deixar compartilhar a carga de um pai
até que isto acabe — fez uma pausa e procurou em seu rosto algum sinal que
estava de acordo. — Me olhe, Johanna, me diga que deixará nosso sofrimento
para trás no momento. Pode fazer isto?
O nó ameaçou afogá-la.
— Eu... Não sei, Dree — conseguiu responder.
Ele deixou cair sua mão e suspirou.
— Não tenho direito a te pedir nada, eu sei.
A dor em sua garganta se estendia para baixo, apertando seu peito
dolorosamente.
— Deu-lhe a vida, Dree, por isso estarei sempre em dívida contigo, mas... —
Incapaz de falar de seus anos de amargura, não terminou de pronunciar as
palavras.
— Mas não pode esquecer o que te fiz — terminou por ela.
— Sim.
— Eu tampouco posso. A dor ainda segue aqui quando olho para trás Jo, e às
vezes te odeio, mas me digo que toda a culpa não é tua... que éramos muito
jovens... que eu passava muito tempo longe de você... que Gary…
— Por favor Dree, não falemos mais disso agora.
— Eu gostaria de saber... oxalá que eu não tivesse razão... Lamento não
poder entender por que…
— E do que serviria isto? — lançou um grito doloroso. — Mudaria o
passado? Devolveria a vida de Gary? Decidiria meu pai de repente me chamar
de filha outra vez?
— Jo…
— Dree, perdi tudo o que amava há seis anos, minha família, meus amigos, e
você. Eu teria morrido de não fosse por Gareth Sherwood. E depois havia
Justin a caminho, meu aviso constante de como poderia ter sido. Gary o amou
apesar de tudo, e eu também. — Incapaz de conter a inundação de lágrimas,
afastou-se. — Não me fale de dor, Dree. Perdi Gary e agora posso perder Justin.
Tudo o que amo, perco.
— Jo... Jo...
Aproximou-se por detrás, deslizou seus braços ao redor de sua cintura, e a
embalou brandamente contra seu corpo. Ela se se voltou e sepultou sua cabeça
em seu ombro. Seu coração doía quando seu corpo foi sacudido pelos soluços
incontroláveis que a fizeram parecer tão indefesa e vulnerável. Acariciou ao
longo de suas costas uma mão e alisou seu cabelo contra seu ombro com a
outra.
— Estará bem, Jo, vai estar bem — murmurou repetidas vezes.
Finalmente, quando parecia que não podia haver mais lagrimas dentro dela,
estremeceu-se contra ele e ficou calma. Continuou acariciando suas costas até
que ela pôs suas mãos entre eles e se afastou.
— Eu... sinto muito, sinto-me transbordada, — pôde explicar — agora estou
muito melhor, — limpou seus cílios molhados com o dorso de sua mão, dirigiu-
lhe um breve sorriso. — Que tola sou, sentindo pena de mim quando só deveria
estar preocupada com ele? Geralmente não sou tão sensível.
— Eu sei — tirou seu lenço e o entregou. — Limpe seu nariz, Jo. Amor, não
pode retornar e deixá-lo ver-te assustada.
— Não o farei — prometeu com outro pequeno sorriso.
— Andaremos um pouco até que se sinta melhor, ou se acredita capaz de vê-
lo agora?
— Estou bem.
— Então, vamos.
Tomando sua mão a levou de volta a casa. Ela não estava consciente até que
estiveram na metade da escada, e encontrou calor e a força de seus dedos
agarrando aos seus reconfortantes. Fora da porta do dormitório, ele fez uma
pausa e se voltou para olhá-la.
— Me deixe ao menos te ajudar com ele. Entre nós três, poderemos
descansar um pouco e ainda cuidá-lo. De outra forma, estará prostrada na cama
em uma semana.
Ele tinha razão e ela sabia. Encontrou aqueles olhos escuros por um instante.
— Está bem — suspirou. — Mas me prometa que não interferirá em suas
lembranças de Gary.
CAPÍTULO 23
O relógio ornamentado na mesinha de noite marcava as horas, horas que
Johanna tinha deixado há muito de contar. Cada fibra de seu corpo gritava de
fadiga, mas tinha passado o tempo quando poderia dormir. Com olhos cansados
estudou o pequeno corpo agitado de seu filho quando se sacudiu irregularmente
na grande cama de Adrian. Uma das velas chispou e se apagou, deixando o
quarto em uma semi-escuridão misteriosa, mas ela não percebeu. Seus lábios se
moviam silenciosamente, em uma reza fervorosa, suplicando, prometendo tudo,
algo em troca da vida de seu menino. O caso era quase desesperado, o doutor
que Adrian fizera vir de Londres lhes havia dito isso. Já não era a perna o mais
importante, a não ser uma febre virulenta, causada pela exposição na água suja,
que atormentava o corpo do pequeno e nublava sua mente. Uma febre no
cérebro, o doutor Bascombe o tinha chamado, um inimigo ainda mais perigoso
que a gangrena que tinham temido no princípio.
Sentiu uma mão em seu ombro e elevou a vista para ver Adrian de pé detrás
dela. Parecia tão cansado como ela, mas seu aperto era forte e consolador
quando seus dedos massagearam seus ossos doloridos. Inclinou-se para trás um
momento, fechando seus olhos e saboreando a sensação enquanto trabalhava os
músculos retesados de seu pescoço e ombros.
— Não o ouvi entrar.
— Não queria interromper suas orações. — A época quando se afastou, e
acusou-o de violar sua propriedade quando estivera ali, tinha passado. Nos três
dias desde que a condição de Justin tinha piorado, surgiu entre eles uma causa
comum, uma batalha conjunta pela vida de um menino. E era uma união que a
casa Armitage inteira tomou como objetivo, não houve sussurros de escândalo
em cima ou debaixo da escada, do mais humilde moço dos estábulos à ama-de-
chave, havia só uma sacudida de cabeças sobre a tragédia que tinha acontecido
ao pobre pequeno. As portas do dormitório de Sua Graça foram deixadas
abertas para deixar entrar os criados, que realizavam silenciosamente seus
afazeres de atender seu duque e Lady Jo, como a chamavam popularmente. Só
uma ocasional pergunta ou observação rompiam o silêncio de uma unidade tão
completa entre todos eles.
— Acredito que deveríamos despertar ao doutor? — perguntou quando
Justin de repente gritou tratando de respirar.
Em vez de responder, Adrian se moveu para inclinar-se sobre a cama e
agarrar as mãos do moço. Murmurando palavras de consolo, sentou-se e atraiu
Justin contra ele, onde o menino se aconchegou, tremendo e incoerente. Com
um esforço, os olhos escuros se abriram tentando concentrar-se.
— Papai? — sussurrou com os lábios ressecados pela febre.
— Traga um pouco de água, Jo — ordenou bruscamente. — E um pano. —
Voltando-se para Justin, ajustou-o em seu ombro, e murmurou: — Papai está
aqui... Papai está aqui...
Fazia dois escassos dias, Johanna o teria reclamado por dizer tal coisa, mas
agora carecia de importância. Se Justin desejava pensar que tinha Gary junto a
ele, se de alguma forma o consolava, então ela não disputaria. Depois de tudo,
não havia confusão sobre a quem Justin procurava, e não houve nenhum intento
de Adrian de negá-lo. Mais tarde, pensou cansada, enquanto vertia a água, mais
tarde poderiam classificar tudo. Deu-lhe a xícara e o pano.
Inundou a ponta do pano na xícara com uma mão enquanto girava a cabeça
de Justin. Johanna subiu do outro lado da cama para ajudar sustentando a xícara.
Devagar, minuciosamente, Adrian estabilizou o tremulo menino e lhe obrigou
abrir sua boca para chupar a água do tecido. Justin teve náuseas no princípio e
logo começou a chupar como um bebe, engolindo a água.
Adrian repetiu o processo repetidas vezes antes de colocar o menino contra
os travesseiros. Depois retorceu o tecido e limpou a testa quente.
— Se não tivesse medo de engasga-lo, trataria de fazê-lo beber o remédio
outra vez — murmurou para si mesmo.
O pó que o doutor Goode lhes tinha dado resultava ser a única coisa que
aliviava a febre alta que o menino tinha, e era só um alívio temporário, como
muito. Johanna recolheu o frasco e o sustentou.
— Resta um pouco, Dree. Possivelmente se não tratarmos de fazer que o
beba, se só o pusermos sobre sua língua...
— É muito amargo.
— Já não nota seu sabor, Dree.
Ele olhou para seu filho. Eles tinham tão pouco tempo, Bascombe havia
predito a crise final a qualquer momento. Inclusive quando o olhou, as pernas e
braços tremeram com calafrios mais violentos.
— Muito bem, — decidiu-se. — E chame o doutor, Jo — tratou de manter
sua voz calma, para impedí-la de compreender seus piores medos. Se Justin
entrava em plena convulsão, poderia morrer ali mesmo. As mãos de Adrian
tremeram quando agarrou o frasco e verteu o pó amargo em sua palma. — Vai,
traga Bascombe. Agora, Jo, agora.
Johanna olhou alarmada nos olhos de seu filho quando Adrian o levantou.
Cegamente correu pelo corredor gritando: — Doutor Bascombe. Doutor
Bascombe! Por favor, querido Deus que alguém traga o doutor.
As portas de acima nos quartos dos criados se abriram e pés saíram em
disparada no corredor.
— Bascombe! Bascombe! — a senhora Johnson, despenteada e desperta do
sono, golpeou na porta do doutor.
— Calma, senhora — acalmou Blake quando Johanna apoiada contra a
ombreira da porta chorou.
— A senhora Johnson vai trazer o doutor, Lady Jo. — disse outro criado.
— Meu filho está morrendo, Blake — respondeu. — Eu sei. — Uma onda
de compressão a atravessou ao dar-se conta o que tinha posto em palavras. —
Meu filho morre.
Alarmado, o criado a agarrou e a sacudiu.
— Calma, não pode sabê-lo, o doutor já vem, milady.
Ela se aconchegou em seus braços, seu rosto retorcido horrivelmente à luz
débil das velas, e se apoiou contra ele, chorando na manga de sua bata.
— Johanna, que ocorre...? — Lady Anne surgiu de uma câmara ao fundo do
corredor e correndo descalça para eles. — Ah, querida!
Blake empurrou à chorosa mulher nos braços de sua sogra e se uniu para
despertar ao doutor Bascombe. O médico, aturdido de seu profundo sono,
finalmente abriu a porta.
— Qual é a moléstia? — exigiu com irritação ao ver todas essas pessoas
reunida no vestíbulo.
— É Justin — Anne lhe disse sucintamente.
Adrian não escutava o barulho. Separou o queixo de Justin e esvaziou o pó
amargo diretamente em sua boca. O moço vomitou quase pelo reflexo e lutou
como um louco. Banhando o tecido na taça de água, Adrian começou de novo a
destilação de pequenas quantidades de líquido na boca do menino. Inclusive
encarcerado em seus braços Justin lutava contra ele, com um abraço apertado,
ordenou severamente.
— Tem que beber pelo papai. Pode me ouvir, Justin? Tem que fazer isto por
Papai.
O Doutor Bascombe assim que entrou e viu que o menino tinha convulsões.
Gritou suas ordens ao pessoal que se abatia detrás dele.
— Tragam uma banheira de água agora mesmo. Água fria. — Para Adrian
gritou: — Domine-o não o deixe fazer mais dano que o necessário, milorde.
— Se o sustentar um pouco mais forte, vou romper qualquer coisa —
resmungou Adrian. Em seu desespero, deitou-se ao lado de seu filho e o
envolveu fortemente. — Está tudo bem, Justin, está tudo bem — disse ao
menino repetidas vezes. — Papai não deixará que nada te aconteça.
Parecia que o pequeno tinha a força de um homem quando se agitou como
um louco contra Adrian.
— Papai. Papai — gritou várias vezes. — Mamãe.
Johanna entrou correndo no quarto e subiu do outro lado da cama.
— Agarre-o, Jo — Adrian ordenou.
Ela rodou contra Justin, amortecendo suas pernas que chutavam contra as
suas e pressionando-o entre ela e Adrian. A cama se balançava com a violência
de suas sacudidas.
— Justin — ela gritou por cima onde sua cabeça foi metida em seu peito. —
Trate de permanecer imóvel, tente ficar quieto por mamãe.
— A água está preparada, Sua Graça, — anuncio Blake por detrás do
biombo.
— A água?
— Temos que inundá-lo na água, milorde, — explicou Bascombe. — Temos
que deter as convulsões ou o perderemos.
Adrian rodou da cama e recolheu Justin para levá-lo a tina, onde colocou o
menino, de camisão de noite e tudo quanto usava. A cabeça de Justin pendurou
um instante, e logo se agarrou violentamente de lado da banheira, gritando de
novo: — Papai! Papai!
— Papai está aqui, — murmurou Johanna detrás de Adrian. — Papai
sustenta sua mão, meu amor.
Adrian se apoderou da pequena mão e a segurou forte.
Os tremores violentos diminuíram lentamente quando a água refrescou o
pequeno corpo.
— Não conseguirá uma inflamação de pulmões? — Adrian perguntou
ansiosamente.
— Isso agora, Sua Graça, é a menor de minhas preocupações, — criticou
Bascombe.
Johanna, com seus olhos cheios de lágrimas e gratidão que as terríveis
convulsões se detiveram, começou a jogar água fria deixando-a correr sobre sua
cabeça. Ele balbuciou e se agitou na banheira. Seus olhos se abriram e tentaram
concentrar-se.
— Papai? — olhou aturdido onde Adrian estava de pé sobre ele. — Onde
está meu papai?
— Voltará — lhe prometeu.
— Mas estava aqui.
Johanna e Adrian se olharam impotentes e se deixou cair mais perto de seu
filho.
— Papai teve que partir, querido, mas não deve se preocupar, esteve aqui
quando você o necessitava.
Virando-se Bascombe para Blake, ressaltou: — As convulsões passaram por
enquanto, vamos tirá-lo e lhe secar, Blake.
— Me deixe fazer isto Sua Graça, — se ofereceu Blake. — É inapropriado
que você o faça.
— Tolices — Adrian replicou. — Ele é depois de tudo, meu… — se deteve,
incapaz de terminar a frase.
— Vamos eu te ajudo, Dree — cortou Johanna rapidamente para suavizar a
estupidez do momento. — Senhora Johnson, troque, por favor, os lençóis da
cama.
Juntos secaram Justin, puseram-no um camisão limpo, e o colocaram entre os
lençóis. Estava quente e agitado, mas não tão febril como antes.
— Está melhor, Jo se deite, e durma um pouco.
— Os dois parecem muito cansados — Anne lhes disse. — Vão vocês
descansarem e me sentarei com ele por um momento. Vou chamar-lhes se
piorar de novo.
— Não — Johanna sacudiu sua cabeça. — Depois disto quero estar com ele.
— Eu também — Adrian esteve de acordo, sombrio.
— As noites sempre são as piores — observou o doutor Bascombe à
condessa — possivelmente, seja melhor se sua mãe ficar. Não sei se haverá
outra crise esta noite ou se foi à última. Talvez prefira sentar-se com ele pela
manhã — ofereceu amavelmente.
Se foi a última. As palavras ressoaram no cérebro de Johanna. Ela olhou para
Adrian para ver se ele tinha ouvido. Tinha-o ouvido. Seus olhos se encontraram
em agradecimento mútuo. Ele estendeu sua mão e ela a estreitou com gratidão.
— Obrigada, Dree — disse simplesmente.
— Bem, não é saudável que todos fiquemos aqui em meio da noite — Anne
administrou por sua própria névoa de lagrimas. Plantando um beijo suave na
bochecha de Johanna, murmurou: — Me chame se me necessitar.
— Não acredito que haja nada mais por fazer neste momento, Sua Graça —
se decidiu Bascombe. — Estarei preparado se por acaso me necessita.
— Sim, é obvio.
Depois que todos tinham saído, Adrian se afundou na poltrona e se inclinou
para trás, drenado pela intensidade do que acabava de ocorrer.
— Deveria se deitar durante uma hora ou duas, Jo. Se não puder descansar
no canapé, pode tomar minha cama.
— Como se pudesse tentar dormir — replicou. Em troca, colocou uma
cadeira a seu lado e se sentou.
Por muito tempo, ambos estiveram calmos, cada um perdido em seus
próprios pensamentos. Na cama, Justin cessou sua agitação e se instalou em um
profundo sono. O relógio fazia seu tic-tac, medindo a noite com sua cadência
constante. Finalmente, depois de um tempo, Adrian se levantou para perguntar
em voz baixa.
— Por que ele ama tanto Gary?
Ela deu um sobressalto na brutalidade da pergunta e logo considerou a
resposta.
— Devido que Gary o amava demais — confessou.
— Não entendo.
Ela suspirou.
— Ele nasceu logo depois do divórcio, Dree, e a semelhança entre vocês dois
eram tantas que parecia que lhe tinham duplicado. No princípio, mal podia olhá-
lo. Gary, por sorte, não abrigou tanta amargura — olhou para a cama durante
alguns minutos. — Possivelmente, Deus me castiga, agora, porque não o amava.
— Tolices, Jo. Adora o menino.
— Agora. Mas às vezes me pergunto se ele sabe de alguma forma que desde
o primeiro momento Gary lhe amava mais que eu.
Um sentido de desolação se apoderou dele. Devia tanto a Gareth Sherwood
que nunca teria a justa oportunidade de reembolsá-lo. Sem pensar, perguntou
em voz alta.
— Acreditava que Justin era seu filho? Quero dizer, poderia ter pensado
assim até que o viu, não?
— Ele sabia que não poderia ser — respondeu quase ausente. — Ele amava
Justin porque te amava Dree.
— Mas certamente queria que Robin fosse seu herdeiro.
— Não lhe importava isso. Sua única pena era que não poderíamos trazer
Justin para a Inglaterra, devido a semelhança que tinha contigo. O sósia do
duque, chamava-o.
Ele ficou em silêncio outra vez, preocupado de novo pela culpa e as dúvidas.
Havia tanto que ainda queria saber, mas a paz recém-descoberta entre eles era
muito frágil para arriscar-se abrindo velhas feridas. Compartilhavam agora uma
causa comum, nascida por um interesse especial. Não ia destruir isto, nem
sequer por sua paz mental. Em uma perda completa e para não dizer nada mais
do caso, levantou-se para tocar a testa de Justin. Não sabia se era porque queria
tanto que fosse assim ou se era real, mas poderia jurar que a pele do menino não
estava tão quente sob sua mão. A respiração era mais relaxada. Olhou para trás
aonde ela estava sentada contemplando a penumbra. Nos cinco dias que estava
em Armitage, mal tinha dormido. Parecia mais magra, mais esgotada do que
podia recordar, e ainda assim, incrivelmente linda. E ele estava tão cansado, tão
cansado da luta interior, tão cansado de negar o que queria, que se sentia um
velho. Caminhado ao canapé, recolheu o xale grande.
— Ao menos um de nós deveria dormir um pouco — ofereceu em voz alta
enquanto estirava seu corpo no sofá. Seus pés se penduravam, e o xale não
chegava a cobri-lo.
— Vá para a cama, Dree.
— Assim não poderia despertar. Desta forma, ouvir-te-ei se me necessita.
— Parece estar melhor, não acredita, Dree?
— Talvez.
Ela mudou à poltrona e se preparou para sua vigília solitária. Detrás dela,
podia lhe ouvir virando seu corpo incômodo no sofá, e poderia dizer quando
finalmente dormiu. Não roncava exatamente, mas tampouco dormia sem fazer
ruído. O som do relógio foi ampliado com a respiração constante e pesada pelo
esgotamento.
Ela tratou de não pensar nele, concentrar-se em trocar em seu filho, mas era
uma tarefa impossível. Se Justin sobrevivesse, séria em grande medida devido
aos esforços de Adrian. Ele tinha dado sem descanso seus próprios recursos
físicos e emocionais, mal dormindo, sempre preparado para ajudar no cuidado
do menino. Se alguém lhe houvesse dito alguma vez que Adrian Delacourt se
entregaria como enfermeira de um menino, seu filho ou não, possivelmente não
teria acreditado. Mas o fez. Tinha destruído sua vida uma vez e, entretanto
estava disposto a arriscar a sua para resgatar seu filho. A contragosto deixou sua
mente vagar nas lembranças que tinha mantido bloqueadas no mais profundo de
seu coração por ser muito dolorosas. Quando Helen a tinha acusado, primeiro
Gary tinha insistido que Adrian era um homem honrável, que poderia ser
persuadido a reconhecer as acusações como mentiras, que escutaria a verdade.
Mas se sentia tão doída que poderia, inclusive, dar credibilidade à história,
quando ele se negou a escutar Gary. Se Dree queria acreditar que ela era capaz
de ser tão vil, tão falsa, então não tinha nada para lhe dizer. Deu um suspiro. O
que teria acontecido se tivesse lutado? Perguntou-se. Teria acreditado nela?
Acaso, seu orgulho, assumiria parte da responsabilidade pelo acontecido na vida
dos três? Inclusive depois de mais de seis anos, era muito doloroso para
contemplar o que poderia ter acontecido se não tivesse se calado.
Com resolução se inclinou para sentir a cabeça de Justin. Estava fria e úmida
sob as gemas do dedo. Ele se moveu e se esforçou por sentar-se.
— Mamãe? — perguntou quando abriu seus olhos.
— Olá, amor — gritou, enquanto o envolvia contra seu peito.
— Minha boca está seca — se queixou em seu peito.
Com o pulso acelerado de entusiasmo, com as mãos tremendo, verteu uma
taça da água e o ajudou a sentar-se.
— Beba devagar, amor — lhe recordou justo quando ele bebeu todo
conteúdo da taça. Quando o pôs contra os travesseiros, lhe ocorreu que os
milagres de fato aconteciam. — Me deixe cobrí-lo, não quero que pegue um
resfriado — se preocupou felizmente.
Ele se deitou para trás fracamente, mas sua mente estava obviamente clara.
— Onde está papai?
Ela vacilou, pouco disposta a abordar esse assunto.
— Papai está no céu, Justin — respondeu finalmente.
— Mas estava aqui quando o necessitava. — Não era uma pergunta, mas sim
uma declaração.
— Sim, amor, estava.
Muito fraco para prosseguir o assunto, fechou seus olhos.
— Estou contente.
Ela se sentou na borda da cama, sustentando sua mão por uma eternidade.
Quando por fim esteve segura que dormia comodamente e que sua febre não ia
voltar, levantou-se. O quarto banhado com uma estranha cor rosa, iluminada
pela primeira luz da alvorada. Por impulso se aproximou para despertar Adrian.
Muito cansado para compreender o que ela estava dizendo, simplesmente se
voltou e tratou de acomodar-se no estreito canapé. Não podia lhe negar
compartilhar suas notícias, sacudiu-o com mais insistência.
— Dree.
— Hummmm...
— Dree.
— O que? — disse com voz sonolenta, enquanto tentava sentar-se.
— Está melhor. Justin está melhor, Dree. A febre baixou e bebeu água. Dree,
pode me entender? Justin vai viver.
Totalmente acordado agora. Levantou-se dando tombos até a cama para
tocar a testa úmida de seu filho.
— Conseguimos Dree, — anunciou alegremente enquanto se agarrava a seu
cotovelo e o sustentava — conseguimos.
— Ainda não está totalmente curado Jo, — murmurou brandamente — mas
sim, acredito que conseguimos. — Virou-se e a segurou entre seus braços.
Vencido com a emoção que sentia, simplesmente a sustentou com força.
CAPÍTULO 24
— Não há razão para ficar encerrada no quarto, sobre tudo agora que ele está
melhorando — Anne assegurou a Johanna. — E se recorde que tem outro filho,
meu amor.
— Mas é tão inquieto — protestou.
— Como deve ser. Em realidade, se insistir em lhe mimar mais do que é
necessário, o estragará insuportavelmente. — A mulher mais velha cruzou o
quarto onde o convalescente se sentou na cama, uma perna curvada, a outra
estendida em suas tabuletas. — Trouxe as cartas, amor — se dirigiu a ele —
para que possamos passar algum tempo juntos enquanto sua mãe toma um
pouco de ar. — Apesar do gesto desafiante de seu queixo, sentou-se na cama e
começou a dividir as cartas. Seus olhos cintilaram a contragosto ao segurar as
cartas que oferecia sua avó. — Vamos, vai passear — acrescentou, sobre seu
ombro para Johanna. — Encontrará Robin em companhia de Roxbury perto
dos estábulos.
Johanna suspirou em capitulação. Sabia que estava sendo dirigida
desavergonhadamente, mas não podia disputar na verdade a sabedoria de sua
sogra. Tinha que escapar dos limites do dormitório, e Robin realmente a
necessitava, Justin estava imensamente melhor, desde que sua febre já não subia
a noite. Encontrava-se tão bem, que o doutor Bascombe tinha retornado a
Londres quase uma semana antes, pronunciando sua fé na capacidade do doutor
Goode de continuar o tratamento do paciente. Em efeito, a garrafa de láudano
tinha sido guardada há vários dias, e a dor de Justin tinha sido substituída por
aborrecimento.
— Muito bem, mamãe, mas te advirto que fica feito um Cristo quando perde.
— Tenho bastante experiência no cuidado e entretenimento de meninos
pequenos — recordou-a firmemente. — E realmente trata de tomar um pouco
de ar, meu amor, antes que eu perca por completo a paciência.
Humilhada, Johanna não teve mais remédio que seguir o conselho da mulher.
Cruzando pelo quarto rosa, onde tinha se instalado uma vez que a recuperação
de Justin foi assegurada, contemplou seu reflexo no espelho da penteadeira. Na
verdade estava uma bagatela de pálida, teve que confessar, apesar de que tinha
seu próprio dormitório e, com a ajuda da Anne e Adrian, conseguia dormir o
suficiente. Dree tinha decidido mudar-se para um dos quartos de convidados, e
para sua surpresa, nem sequer Blake achava isso estranho.
Ela discutiu momentaneamente se deveria responder à última carta de
Johnny, e decidiu não fazê-lo. Ele tinha escrito que tinha sido retido em Londres
por mais tempo do que esperava, pedindo para continuar sendo informado da
condição de Justin. Ela tinha enviado uma mensagem de que ele se recuperava,
que mais podia dizer? Além disso, o sol brilhava, e o tempo era mais suave que
uma semana atrás. Isto a decidiu e apressou-se em passar uma escova por seu
cabelo antes de sair para encontrar seu filho mais novo.
Não teve que procurar muito, trotava junto de Adrian para a casa justo
quando ela saía. Robin se separou quando a viu e correu para ela.
— Mamãe, Bury me levará para pesca.
— Ah — Ela lançou um olhar inquisitivo ao homem detrás dele.
— A água está baixa, e pensei que poderíamos pescar algo por cima do vau
— explicou.
Tinha seu rosto rubro, provavelmente pelo açoite de seu cabelo revolto, mas
o sorriso que mostrava era completamente encantador. Afastou os olhos de seu
rosto, onde sua camisa de algodão branca estava aberta no pescoço para revelar
o pêlo escuro por debaixo.
— Soa maravilhoso — conseguiu dizer enquanto seu pulso acelerado tomava
consciência de seu atrativo.
— Venha conosco — lisonjeou ele infantilmente.
— Justin…
— Ele está bem — interrompeu. — Segue rondando sobre ele, consentindo
todos seus caprichos e vai fazê-lo um neném. — Observou sua estranha
expressão e confundiu seu significado. — Minhas desculpas, Jo. Não deveria te
criticar por ser uma boa mãe.
— Por favor, mamãe, diga que vai vir. — Robin agarrou sua mão e puxou.
— A avó pode ficar com o Tin.
Ela teve que rir da forma como cortava os nomes a uma longitude
pronunciável desde que tinha nascido. Justin tinha sido Tin desde o começo, e
agora Adrian, que a condessa tinha insistido em chamar de Roxbury, fez-se
simplesmente Bury. Ela apertou sua mão.
— Que estranho, isto é exatamente o que sua avó também me disse.
— Vai vir? — insistiu com impaciência.
— Sabe de uma coisa, não sou uma boa pescadora — lhe confessou quando
seus olhos encontraram o Adrian outra vez. — Mas sim, irei. — Seu coração
deu uma sacudida em seu sorriso de resposta, um sorriso que a recordava tanto
do moço que tinha conhecido e amado uma vez.
— Que mentira, Jo. Como lembra, deixamos de levá-la para pescar conosco
para conservarmos nossa vaidade masculina.
— Bem, não recordo semelhante coisa, milorde, já que nunca gostei de
enganchar os pobrezinhos dos peixes e depois ter que tirá-los do anzol.
— Não, — discutiu — mas confessa que capturou mais peixes que qualquer
um de nós, porque sempre nos tinha ocupados colocando isca em seu anzol e
tirando o peixe pescado. Admita-o.
— Não admito nada — respondeu sem lhe dar importância. — Não acredite
nisso nem por um instante, Robin.
Suas palavras os deixaram em silêncio, e o sorriso desapareceu de seu rosto.
Aquelas eram as mesmas palavras que tinha usado naquele ultimo dia em
Londres "não admito nada" tinha respondido, e foi tudo o que conseguiu que
lhe dissesse.
Robin olhou de sua mãe para o duque. Inclusive em sua curta idade, podia
sentir a mudança de humor entre eles. E sua alegre disposição não podia
suportar a frieza repentina. Ele deixou cair sua mão e saltou para Adrian como
um cachorrinho impaciente por agradar.
— Por favor, Bury, podemos ir agora? Eu direi a Finch e ela não se importa,
prometo-o.
Havia tanto de Gary no menino que Adrian quase não podia suportá-lo. Só
os olhos que imploravam na carinha eram de Johanna. Ali, no pequeno menino,
havia rasgos das duas pessoas que mais tinha amado. A mão de Robin se aferrou
a sua coxa.
— Eu não tenho que ir, Dree — anunciou em voz baixa.
— Não, iremos todos. — Ele pegou o pequeno e pôs sobre seus ombros.
Robin chiou de prazer e se agarrou ao cabelo negro para manter o equilíbrio. —
Och! Se agarre a meu pescoço, pequeno travesso, do contrário te deixo cair —
ameaçou-o.
Sua saída foi observada silenciosamente de uma janela superior por Charlotte
Finchley, que deixou cair à cortina e se afastou bruscamente, insuportavelmente
afligida por Johnny Barrasford. Era um homem tão bom, refletiu, e não merecia
a infelicidade que Johanna Sherwood não podia deixar de lhe dar. Com o
coração pesado, recordou sua amarga decepção nas mãos do primo de
Barrasford.
Anne elevou a vista a tempo para flagrar a expressão afetada no rosto de
senhorita Finchley.
— Há algum problema? — perguntou recolhendo os naipes de Justin.
— Oh, não — a instrutora foi rápida para responder. — Quer dizer, vi a
saída para um passeio do duque com Robin e Lady Johanna.
— Passeio?
— Isso acredito, tinham varas de pescar com eles, milady.
— Varas de pescar — Justin uivou. — Não é justo.
— Silêncio, amor — o tranqüilizou a condessa. — Como pode se queixar
quando está ganhando todas as partidas?
— Caramba, avó. Deixa-me ganhar — queixou-se.
A sobrancelha delicada de Anne se elevou.
— Deixando ganhar? Não o faço, asseguro-te que é tão hábil como o Capitão
Sharp comparado comigo, mocinho.
— Mas…
— Mas acha a companhia de uma anciã aborrecida, certo? — compadeceu-
se.
— Não, mas eu gostaria de estar com o duque em vez de me sentar aqui com
minha perna amarrada.
— Você gosta do duque? — Anne perguntou causal.
— Ah, sim. — Olhou-a com receio. — Você não gosta?
— Muitíssimo, sempre gostei.
— Meu papai e ele eram amigos, verdade? Disseme que eram.
— O duque, sua mãe e seu papai foram amigos queridos, amor.
Considerando suas palavras, negou com sua cabeça.
— Às vezes acredito que sim, e às vezes acho que não.
— Sim, pois às vezes é terrivelmente confuso, mas penso que ainda gostam
muito um do outro, — atou uma corda ao redor das cartas e as pôs em uma
mesa próxima. — Suspeito que está cansado de jogar cartas, e a senhorita
Finchley está aqui com suas aquarelas. Deve ter muito cuidado de não derramá-
las pelos lençóis.
— Não quero pintar!
— Besteira. Tem que fazer algo, Justin. Pinta para sua mãe algo bonito, e
mais tarde retornarei e lerei uma história. E se se comportar muito bem e não se
queixa muito, posso persuadir ao duque que o leve para fora por um tempo.
— Você vai pedir? Aí, avó, estarei tão contente.
— Então não se queixe — lhe recordou quando se levantou para partir.
A senhorita Finchley recolheu um dos panos e começou a estendê-lo sobre a
cama. Anne foi até a mesa na janela para recolher as aquarelas e pincéis. O som
de uma carruagem no pátio chamou sua atenção para a janela.
— Meu Deus! — murmurou ao olhar para baixo.
— Milady... — A instrutora se aproximou por detrás para pegar as pinturas e
seguiu sua linha de visão. — Céus! — pronunciou com voz débil. — É Lorde
Barrasford
CAPÍTULO 25
Com sua saia colocada decorosamente sobre seus joelhos, Johanna se sentou
no grande xale de cachemira que Adrian havia trazido, olhando como ele
colocava a isca no gancho de Robin e o lançava à água. Estavam na borda, onde
o nível tinha deixado uma extensão marrom de terra lisa que brandamente
desaparecia entre as águas pouco profundas do rio. As folhas das árvores
sussurravam com a suave brisa, criando uma tranquilidade só quebrada pelo
canto dos pássaros.
Enquanto Adrian colocava uma minhoca resistente em seu anzol, Robin
começou a dançar com excitação a seu lado.
— Bury, Bury, olhe. — Em sua impaciência, deixou cair sua vara para tocar
no braço de Adrian, com um peixe pendurando nela, balançando-se loucamente
durante um instante antes de flutuar para águas mais profunda. — Minha vara
de pescar — Robin chiou consternado quando deixou cair sua mão e começou a
correr atrás dela.
— Não, mocinho. — Adrian lhe agarrou por detrás e firmemente o colocou
na borda.
— Mas meu cano — o menino chorou. Descuidando de suas botas ou calças,
Adrian entrou na água para recuperá-lo. — Fique aí — percebeu que a água
alcançava suas coxas. Podia ver claramente onde ficou presa sob as raízes de
árvore parcialmente inundadas ao outro lado do rio.
— Dree, tome cuidado com a corrente — Johanna gritou.
Não fazendo caso dela, atravessou com uma vintena de passos pela água
golpeando com força contra suas pernas. A borda era mais escarpada deste lado,
onde a água tinha desgastado o chão, as raízes, trepadeiras e arbusto se
penduraram e enredaram desde acima. Ele agarrou um ramo baixo, e provou seu
peso até chegar diretamente sobre a cambaleante vara de pescar. Deslizando-se
com cuidado pela água, desenredou o fio e agarrou o cano. Para sua surpresa, o
peixe de Robin ainda estava no anzol. Um sorriso se estendeu sobre sua infantil
cara e saltou levantando suas mãos.
— Ainda o tenho — gritou em sinal de triunfo — e é um peixe grande.
Com medo que o menino entrasse correndo na água, Johanna abandonou a
manta e se aproximou. Mas não estava em nenhum perigo. Ele se voltou quando
ela o alcançou, rindo.
— Mamãe, Bury tem meu peixe Ele tem meu peixe! — Quando Adrian
cruzou de novo, Robin dançou e saltou pela borda para encontrá-lo. — Bury!
Posso vê-lo?
Adrian surgiu, suas calças molhadas pela água do rio cheia de barro, sua
camisa úmida e suja, mas com seu sorriso ainda intacto. Deteve-se para que o
menino inspecionasse o peixe e exclamasse algo sobre ele, e depois andou a
contracorrente ao longo da borda com o peixe em uma mão e Robin
firmemente seguro com a outra.
— Se tivesse sabido que havia peixes tão grandes, viria mais frequentemente
pescar.
Seus olhos se desviaram do peixe a sua camisa molhada se colava contra seu
peito e braços, e uma corrente de desejo a atravessou quando viu o contorno
dos músculos masculinos. Afastando os pensamentos que ameaçaram sua calma,
olhou para baixo.
— Acredito que danificou sua roupa, milorde.
Ele não tinha confundido o olhar, já que também o havia sentido. Mantendo
sua voz suave apesar da tortura que sentiu, agitou os cachos brilhantes de Robin.
— Eu sei. Desde que chegou com os travessos, arruinei mais roupa do que
posso contar. Weston deveria te enviar uma parte de minha conta, amor.
— Blake não achará nada divertido — lhe recordou.
— Posso sustentá-lo? — Robin exigiu com um puxão no braço de Adrian.
— Posso?
— É seu peixe. Traga a cesta e pode pô-lo dentro dela.
O menino trotou em suas robustas pernas onde Johanna deixou o grande
xale, a cesta para peixe, e a de comida. Adrian sombreou seus olhos com sua
mão para olhá-lo.
— Parece-se muito com Gary, verdade?
— Muito. — Virou-se para olhar Robin. — Nenhum de meus filhos se
parece comigo. Gary estava acostumado a chamar Justin, o sósia do Duque, mas
era como um término de carinho. Sempre foi o Duque para ele, mesmo quando
éramos pequenos.
Um nó se formou na garganta de Adrian, comprimindo-o.
— Gary estaria muito orgulhoso deste menino — pôde dizer.
— Gary estava muito orgulhoso de ambos.
— Sabe que sinto falta dele.
Ela elevou a vista, com uma réplica amarga em seus lábios, mas se calou ao
ver a dor em seus olhos. Uma sensação de perda compartilhada se apoderou de
ambos.
— Eu também, Dree.
— Amava-o. — Foi uma declaração de fato, em vez de uma acusação.
Ela tomou ar e exalou devagar.
— Amava-o tanto quanto você, Dree. Ele era uma pessoa tão boa, teria sido
difícil não amá-lo, não acha?
Sua resposta a surpreendeu, levantando outra vez as dúvidas persistentes.
Havia tanto que queria saber, tanto que agora tinha medo de perguntar.
— Amei-lhe como um irmão, Jo.
— Sim — esteve de acordo simplesmente.
— Bury! — Robin sem respiração corria com a cesta de peixe. — Agora
posso segurá-lo?
Adrian olhou o peixe pendurando, agora quase inerte por estar fora da água.
— Deveríamos devolvê-lo ao rio antes que mora. Aqui, me dê à cesta e te
darei o peixe.
Depois do intercâmbio, Adrian abriu a cesta e a ofereceu a ele. O moço
deixou cair seu peixe dentro e esperou com expectação. Baixando seu joelho,
Adrian tirou o anzol da boca do peixe.
— Preparado. — Quase ao mesmo nível com o menino, sorriu-lhe. —
Venha, Robin vamos pôr a este companheiro na água e retornar à pesca. Sua
mãe pode preparar a comida dentro de um momento.
Johanna retornou à manta, e se apoiou contra uma árvore para contemplar, a
beleza do dia, embora quebrado por um aviso que ainda restava dúvidas que se
interpunham entre eles. A dor, que de maneira nenhuma se afastava, aliviou-se
um pouco, já poderiam mencionar pelo menos Gary, e poderiam compartilhar a
perda de seu querido amigo. E realmente tinha muito de que estar agradecida,
recordou-se. Depois de tudo Justin estava vivo.
Apesar dos chiados de alegria do pequeno e os gritos do homem lhe dando
ânimo, se encontrou outra vez fantasiando, recordando o passado quando ela
tinha sido uma menina seguindo a dois moços freqüentemente sujos. Tinha tido
uma infância tão feliz, pouco convencional, crescendo em uma casa
desmantelada depois de que sua mãe morreu, seu pai nunca se incomodou
muito com ela, uma circunstância que logo aprendeu a não lamentar. De fato, se
sua instrutora não se apaixonasse pelo instrutor de Adrian, ela nunca teria tido
que se fazer uma dama.
— Acordada, dorminhoca! — Adrian a despertou. Ela abriu seus olhos
devagar com o sol brilhante. Dormira, decidiu, quando se deu conta que Robin
sustentava uma cesta cheia de peixes, uma cesta tão pesada que mal podia levá-
la.
— Olhe, mamãe. Bury e eu os pegamos.
— Realmente, acredito que coloquei mais iscas nos anzóis que nada —
confessou modestamente. — Amor, este pequeno tem as qualidades para ser um
grande pescador.
— Dree, nego-me por completo em comer o almoço sendo observada por
uma cesta cheia de peixes — lhe disse com severidade.
— Deixo-o na água, Bury — ofereceu Robin.
— Não, menino. Farei-o eu enquanto você ajuda sua mãe a tirar a comida
para nós.
— Sabe mamãe, — Robin anunciou quando se sentou com as pernas
cruzadas na ponta da manta, — eu gosto de Bury, eu gosto mais que de
Barryford.
— Barrasford — corrigiu.
— Não quero partir daqui.
— Rogo-te que não diga isso ao duque.
— Oh, já o fiz — respondeu alegre. — Ele concorda de que deveríamos
ficar.
— Temo que seja impossível, Robin. — Cortou uma parte do queijo e o pôs
em um guardanapo com uma fruta. — Vamos viver com Lorde Barrasford na
Irlanda. Você gosta de Lorde Barrasford, recorda?
— Mas eu gosto de estar aqui, mamãe. — Seus brilhantes olhos azuis
estavam sérios quando a estudou. — Você não gosta de Bury?
— Isto não tem nada que ver, amor. Estou prometida a Lorde Barrasford, e
como tal, vejo-me obrigada a me casar com ele.
— Talvez gostasse de viver aqui também.
— Não podemos ser os convidados do duque para sempre, Robin — tratou
de explicar com paciência. — Em mais uma semana, quando Justin possa ser
movido, voltaremos para Haven. Tome, coma o pão e o queijo.
— Ora, vejo que não me esperaram — Adrian observou enquanto se sentava
ao lado deles. — Estou morto de fome, Jo.
— Não há muito, mas pode ter minha parte.
Ele a observou com curiosidade sua preocupação era evidente.
— Não se sente doente, verdade? Quero dizer, nunca foi acostumada a saltar
uma refeição.
— Não estou doente — replicou. — Estou simplesmente irritada, se quer
saber.
— Por quê? — perguntou sem rodeios.
— Não posso falar disso agora — jogou uma olhada significativa a Robin.
— Compreendo. Então possivelmente podemos tomar o chá na biblioteca
esta tarde quando retornarmos e pode me dizer então.
— Não há muito que dizer — recolheu uma maçã e começou a mastigar.
Entre mordidas, fixou seu olhar no rio e perguntou: — Quanto tempo pensa
que demorará para que Justin possa viajar?
— Semanas.
— É obvio que não. Vou perguntar ao doutor Goode amanhã.
Adrian fez uma nota mental para falar primeiro com Goode, já que não tinha
nenhuma intenção de deixar Johanna partir no momento. Não queria apressar
suas cercanias, mas tampouco ia deixá-la partir outra vez. Nas largas noites,
dilaceradoras enquanto lutaram pela vida de Justin, confessou-se culpado,
amava-a tanto quanto a desejava, que perdoaria tudo para recuperá-la. Agora, se
ela retornasse a Haven, sua possibilidade estaria condenada, ia se casar com
Johnny Barrasford por um ridículo sentido da honra. Exteriormente assentiu
com a cabeça.
— Como queira, amor.
Sua complacência no assunto a irritava mais que a aliviava.
— Não sou seu amor, milorde.
— Milorde? — Sua sobrancelha se elevou. — Que diabos se passou, Jo?
— Não blasfeme.
— Bem, então, que demônios se passa?
— Dissete que não posso falar disso agora.
— Não entendo por que não — indicou razoável. — A menos que me
equivoque, Robin está dormido.
Ela concentrou sua atenção na ponta da manta e descobriu que seu filho,
acostumado a fazer a sesta, tinha sucumbido ao sono. Estava aconchegado
contente junto aos restos de seu almoço, seus cachos brilhantes embalados
contra um antebraço rechonchudo. Seu pequeno peito subia e baixava
ritmicamente com o sono. Quando se virou, Adrian tinha se estirado a seu lado,
com sua cabeça apoiada em seu cotovelo. Seus olhos escuros com uma indireta
de diabólica diversão.
— E bem?
— Bem o que?
— Iria dizer-me a razão da qual de repente ficou mal-humorada, Jo.
— Não estou zangada, Dree.
— Não? Então, porque me fez acreditar. Venha Jo, o que fiz agora?
Ele estava muito perto para sua tranqüilidade. A camisa úmida, seu cabelo
revolto, não diminuíam seu atrativo, desejando voltar a ser a moça imprudente.
Não era justo o que podia fazer a seu corpo quando a olhava assim.
— Não pode me cortejar por meio de meu filho — explicou finalmente.
— É filho de Gary também Jo, como posso evitar amá-lo?
— Não tinha que fazê-lo querer viver aqui.
— Ah — suspirou— já entendi, está amuada porque gosto do menino.
— Não me importa, é o motivo pelo qual faz isto que desconfio. Sabe muito
bem que vamos para a Irlanda, por que trata de deixar isso mais difícil, Dree? —
Perguntou zangada.— Por que me faz isto ?
Em vez de parecer arrependido, dedicou-lhe um sorriso desenhado para
desarmá-la.
— Antes que me enforque Jo, possivelmente você gostaria de ouvir como
ocorreu.
— Não me importa, não vou consentir...
Fazendo caso omisso dela, seguiu.
— Ele disse que gostaria de viver aqui, e eu respondi que também gostaria, é
tão terrível desejá-lo? Eu consideraria um privilégio criar o filho de Gary. —
Seus olhos escuros eram quentes e atrativos quando procuraram seu rosto. —
Não faria menos por seu filho que o que ele fez pelo meu. Devo-lhe isto, Jo. —
Sua mão distraidamente acariciou seu vestido deslizando sua mão até sua coxa.
Ela se sentou imóvel, suas mãos fechadas com força para controlar sua
reação ante sua proximidade. Seu tato, tão suave como era, enviou uma onda de
um forte desejo que ameaçou inundá-la. Fechou seus olhos para esconder-se
dele e exalou devagar.
— Não.
— Não pode negar que o que tínhamos uma vez ainda existe entre nós.
— Muito mudou, Dree. Não podemos voltar para quando éramos jovens e
loucamente apaixonados. As acusações, o divórcio, destruiu o amor que uma
vez tivemos — respondeu devagar.
— É uma falsidade evidente, Jo. Acredito que te perdoei a primeira vez que
vi Justin — se inclinou mais perto, arrastando seus dedos por seu braço,
remontando o fogo.
Furiosamente se afastou e cambaleou sobre seus pés. Esquecendo o menino
dormido, explodiu indignada.
— Isto é extremamente generoso, milorde. Seu perdão não é procurado, é
sua fé em mim o que eu queria!
— Jo…
— Não! Escute-me até o final, porque é minha última palavra no caso. Eu
era uma esposa boa e fiel, Adrian Delacourt. Não te dei nenhuma causa para
desconfiar, mas acreditou nas mentiras rancorosas de sua mãe, deixou-a retorcer
atos inocentes de amizade em adultério. Divorciou-se de mim! Arruinou minha
reputação! E agora você me perdoaria? Parece gracioso.
— Amo-te, Jo.
— Se de verdade me amasse, teria acreditado em mim — replicou com
paixão.
Suas bochechas estavam rubras pelo arrebatamento, e seu peito subia e descia
pela indignação. Quando se manteve de pé por cima dele, Adrian quis deitá-la a
seu lado, acariciá-la até afastar sua cólera, acalmar sua crua dor, e começar de
novo, mas era impossível. Repentinamente ela se inclinou e despertou Robin.
— É hora de voltar, meu amor — disse ao menino. — A avó está
provavelmente doente da companhia de Justin.
Ele se sentou sonolento, esfregando seus olhos aturdidos. Privado de sua
sesta, pôs-se a chorar.
— Meu peixe. Quero meu peixe!
Adrian se levantou.
— Vou pegar o peixe — disse derrotado. — Recolhe a cesta, por favor.
Quando voltou com a cesta de peixe e os canos, ela estava de pé debaixo da
árvore com o cesto em seu braço e Robin em seu quadril.
— Pode levar o cesto? — ela perguntou. — Está muito cansado para andar.
— Levarei a ele e o cesto — ofereceu — você leva a do peixe.
— Prefiro levar a cesta de comida — respondeu, enquanto ele tomava Robin
e o levantava em seu ombro como um saco de grão. O pequeno moço se
aconchegou contra ele, embalando sua cabeça entre o pescoço e o ombro e
agarrando-se com um braço rechonchudo. Apesar de sua cólera, Johanna não
podia menos que ver a incongruência do Duque de Roxbury carregado de
canos, a cesta, e o menino sujo. — Não gosto do aroma de peixe, Dree —
explicou agüentando um sorriso.
— A água de rio não é muito recomendável quando seca — admitiu com
pesar — mas não parece que ele se incomoda.
— Só porque está dormido.
O longo caminho de volta foi tenso, cada um tratava de classificar suas
emoções em conflito. Para Johanna, era quase uma sensação de alívio. Tinha
necessitado mais de seis anos para falar de suas acusações, não que houvesse
dito muito. Mas ao menos tinha sido capaz de lhe dizer finalmente o que a tinha
ferido mais, que fosse capaz de acreditar nas mentiras de sua mãe. O divórcio, o
escândalo, empalideceu em importância contra a traição de seu amor. Adrian
caminhou a seu lado em silêncio, rasgado pela perda esmagadora que sentia.
Nos dias que estava vivendo outra vez em Armitage, permitiu-se a esperança de
encontrar a fórmula de reviver o amor de sua juventude. Sabia que a queria,
desejava, e amava mais que a nada no mundo. E suas palavras sobre Robin
foram sinceras. Podia e realmente amava ao simpático menino, tinha tanto de
Gary. Então teria fechado o círculo outra vez com Johanna, seu filho, e o filho
de Gary.
Ele não levantou a vista até alcançar o pátio, e se deteve incrédulo. Durante
um longo segundo contemplou a carruagem ante o pórtico, e resmungou.
— Caramba!
Ela também parou, despertando de suas próprias preocupações, e olhou para
diante. Com uma falta de entusiasmo, suspirou.
— Acredito que é Johnny, Dree.
O objeto desta observação os olhava pela janela da biblioteca desde que
entraram no pátio. Observando o duque com sua roupa cheia de barro, o
menino em seu ombro, e Johanna caminhando a seu lado, os três não formaram
uma imagem de amizade poética, mas sim de felicidade, sentiu uma sensação de
inquietação. Detrás dele, tinha notado o retrato pendurado de Johanna em
frente à de seu companheiro. E as olhadas de soslaio de compaixão que tinha
recebido de Charlotte Finchley, enquanto a condessa explicava a ausência de
Johanna não fizeram nada para tranqüilizá-lo. Enquanto esperava, tinha
realizado uma visita de cortesia ao doente, surpreso por encontrá-lo na
habitação do duque, uma circunstância estranha em uma casa do tamanho de
Armitage. Justin teve pouco prazer ao vê-lo, ah, o menino foi cortês, mas era
fácil dizer que ainda visualizava seu futuro padrasto como uma ameaça. E logo a
atitude dos criados que se abatiam sobre o jovem amo, e falaram de Lady Jo,
não Lady Carew ou Lady Johanna.
Quando se encontraram diante da casa, Johanna alcançou Robin de modo
que Adrian pudesse tomar a cesta de peixe e os canos pela entrada traseira. A
cena era tão doméstica aos olhos de Johnny que teve que afastar a vista.
Detrás dele, a senhorita Finchley murmurou.
— Vou recolher Robin, desejará ficar em privado com Lady Johanna.
CAPÍTULO 26
Johanna distraída se vestiu para a refeição, não fazendo uma só queixa
quando Bess, a criada, teve que trabalhar com força para eliminar um enredo
obstinado em seu cabelo. Uma inquietação persistente, um sentido de perda
iminente, apoderou-se dela ao olhar a lareira vazia.
— Tem um cabelo bonito, milady — a criada observou quando enroscou a
massa loira em uma fita e a atou em sua nuca. Dando um passo atrás para
admirar sua obra, assentiu apreciativamente. — É muito mais bonito que em seu
retrato, Sua Graça. É surpreendente que… — Ela se deteve com ar de
culpabilidade quando os ombros de Johanna ficaram rígidos. — Ah, eu... Isto
é... — Sua voz se foi apagando sem convicção ante a expressão de sua milady.
— Ah, Lady Jo, — quase chorou — sinto muito, não quis dizer…
— Não aconteceu nada — lhe assegurou, apesar de ter seus nervos de ponta.
— Foi culpa daquela Mary — Bess explodiu. — Martha, Blake e eu falamos
disso, ela não fez nada bem. Quando Sua Graça foi a Lunnon e a duquesa se
aproveitou pagando à tola ambiciosa por espiá-la.
— Está tudo bem, Bess, não se pode mudar nada agora.
— Mas se tivéssemos sabido, ou estivéssemos ali. Ah, ela não teria se
atrevido a dizer suas mentiras. Mas estávamos em Lunnon, sabe, e ela fez antes
de podermos nos inteirar. Não foi nada bom, Lady Jo, ela não tinha razão. E o
pobre conde, como um irmão para Sua Graça desde que usavam calças curtas,
nós sabíamos que não poderia ser verdade.
O arrebatamento inesperado e inusitado de um criado que conhecia seu lugar
comoveu Johanna profundamente.
— Obrigada, Bess, mas não devemos mais falar sobre isto — conseguiu
sussurrar com sua garganta apertada e com lagrimas. — Aí, Bess sou a mais
miserável das mulheres.
Alarmada pelo que seu arrebatamento tinha provocado, a donzela acariciou
sua milady torpemente.
— É culpa de minha língua maldita, Lady Jo, não deveria mencionar nada a
respeito. Agora, não quero manchar seu bonito rosto com pranto — lisonjeou
inutilmente. — Não com aquele Senhor tão bonito que a está esperando abaixo.
Barrasford. Johanna tratou de controlar-se, mas pensar em Johnny Barrasford
era quase muito para suportar. Naquele breve encontro depois de sua volta de
pescar, ele se comportou de uma maneira diferente, mais submetido, mais
reflexivo, e muito mais distraído. Não, que não fosse amável, é obvio,
confessou, mas parecia que algo tinha mudado de maneira sutil entre eles.
Possivelmente não fosse nada mais que sua imaginação, seu próprio sentido de
culpabilidade, porque sentia tão pouco entusiasmo por seu próximo
matrimônio. Mas não podia voltar atrás, nem sequer o consideraria, ele lançou-
se de cabeça quando ela tinha necessitado contra Adrian, e não podia em sã
consciência romper seu compromisso.
— Está bem, milady? — Bess perguntou curiosa. — Sinto havê-la deixado
aflita assim.
— Hmmmmm? Ah, sim é obvio. — conteve-se e mostrou um sorriso
pesaroso. — É só que estou cansada. Mas estou bem. — Levantou-se
rapidamente contemplando seu reflexo no espelho. — Está perfeito, Bess,
agradeço-lhe por me fazer apresentável, — alisando a seda rosa de sua saia sobre
seu quadril, voltou-se. — Comprovarei se Justin está bem antes de descer.
Cruzando a porta de conexão colocou um sorriso em seu rosto para seu filho.
Ao passar diante do biombo de banho, ruborizou-se, sua respiração apanhada
em algum lugar entre seu peito e sua garganta. Adrian estava ali, as mangas da
camisa arregaçadas, sentando-se na cama e absorvido em desembalar pequenos
objetos. Ele elevou a vista e sorriu abertamente.
— Os soldados que mandei trazerem chegaram hoje enquanto estivemos fora
— explicou sustentando uma peça de madeira grafite com vivas cores.
Ela se aproximou, seu coração golpeava dolorosamente à vista dos dois
sentados juntos, suas escuras cabeças inclinadas sobre a coleção de brinquedos
de madeira divididos sobre a colcha pelas cores de dois exércitos.
— Olhe, Mamãe! O duque me deu de presente um jogo inteiro dos dragões
da Rainha e seus inimigos. Podemos brincar de guerra, — virou-se de lado longe
de sua perna entalada. — Blake! Blake!
— Estou aqui, jovem amo — protestou o ajudante de câmara afetuosamente,
— não sou surdo.
— Viu a Finch e meu irmão? — Justin exigiu.
— Acredito que ainda estão no quarto das crianças.
O rosto de Justin ficou abatido.
— Queria mostrar a meu irmão meus soldados antes do jantar —
resmungou. — Ele seria o comandante dos franceses.
— Verei se posso encontrá-lo — concedeu Blake.
— E também traga a senhorita Finch — Justin chamou depois dele. — Ela
pensará que somos fantásticos.
— Agora que estão desembrulhados, terá que alinhá-los em campos
separados — Adrian aconselhou quando se deslizou da cama. — E se
retirarmos as mantas assim, pode fazer uma linha de batalha. Então sobe o
canhão como este. — Fez uma demonstração colocando a arma ao lado. —
Deve tomar cuidado, para ver que sua posição de disparo não ponha em perigo
a seus soldados, vê.
— Lembro-me dessas peças, é do jogo que papai te deu de presente há
alguns anos — murmurou Johanna detrás de seu ombro.
— A artilharia não veio, então terá que usar estes canhões.
Ele se voltou, seu corpo apenas a um pé do dele. O fresco aroma de água da
Hungria que desprendia, misturado com o aroma de seu sabão de lavanda.
Turvavam-na, estava muito perto para sua tranqüilidade, e seus nervos ainda os
sentia instáveis. Ela retrocedeu, suas mãos cruzadas defensivamente sobre seu
peito. Foi um gesto não perdido por ele. Ele se afastou observando por
casualidade.
— Entendi que Johnny pretende ficar alguns dias.
— Até que Justin esteja preparado para voltar para Haven.
— Não quero voltar para Haven — veio à réplica petulante do menino na
cama. — E tampouco quero ir para a Irlanda!
— Justin! — Adrian repreendeu. — Não falará assim com sua mãe enquanto
esteja nesta casa.
— Mas. Eu…
— Justin — falou com uma baixa advertência desta vez.
— Eu... Sinto muito, mamãe.
— Isso é mais a meu gosto, Justin. Deve se lembrar de não ser descortês com
as damas, e em particular com sua mãe. — Os olhos de Adrian encontraram os
de Johanna. — Nem sequer quando estiver irritado, meu querido amigo e te
asseguro que se sentirá molesto de vez em quando.
— Não pedi ao Johnny para vir, Dree.
— Não tenho nada contra sua estadia aqui, nenhuma absolutamente. Pode
me rodear de qualquer coleção de animais selvagens que ache adequado, Jo. Mas
posso imaginar os comentários que darão a volta pela vizinhança.
— Não gosta de importunar, — confessou — mas sente que deve me apoiar.
— Apoiar, agora? — A sobrancelha negra se elevou e a comissura de sua
boca tremeu com um sorriso reprimido. — Sim certamente que o faz.
— O que se supõe significa isto?
— Talvez viesse para observar o rival.
— Não seja ridículo, Dree, ele não tem nenhum rival.
— Possivelmente ele não se dê conta disto, querida.
Ela começou a refutar sua opinião e se deteve antes que sua boca se abrisse.
Havia algo completamente diferente sobre o Johnny, uma tensão despercebida
anteriormente.
— Então, terei que assegurar que ele compreenda — disse levemente. A luz
atrativa da tarde refletia em Adrian pelo o cristal da janela, destacando seus
musculosos ombros e suavizando as sombras de seu rosto, lhe recordando uma
vez mais quão bonito e viril ele era. Seu cabelo escuro e grosso penteado
perfeitamente, enquanto o pescoço de sua camisa aberta revelou a pele nua.
— Será melhor que termine de se vestir para o jantar, Dree — lhe recordou
desviando seus olhos.
— Ah... sim. — Ele olhou para baixo aonde as mangas de sua camisa
estavam desabotoadas, as abotoaduras se penduravam nas casas. Com habilidade
passou uma pelo buraco e logo sustentou a outra na mão. — Pode fazer isto
para mim, Jo? Minha mão segue um pouco inchada e tenho um diabo de tempo
para conseguir abotoá-la.
— Ah... uhh... sim, é obvio. — Seus olhos se arregalaram, mas chegou com
cautela para atirar o punho por seu pulso. — Está bastante inchado Dree.
Passou muitos dias devia haver-se curado.
— Uma torção simplesmente — deu de ombros. — Foi por uma torcedura
no poço.
Era outro aviso sutil do que tinha feito por ela e Justin, involuntariamente
devotado e ainda inquietante. Seus dedos tremeram quando ela trabalhou na
abotoadura na casa.
— Está terrivelmente apertado, possivelmente Blake deveria encontrar outra
camisa — murmurou. Sua mão estava quente e vital e seu batimento do coração
constante sob suas gemas do dedo, enviando uma corrente entristecedora de
desejo entre eles.
— Ah, vim ver como se sente o menino antes do jantar.
Eles se viraram com o som da voz de Lorde Barrasford. O rosto de Johanna
ruborizou-se durante um momento, nem tanto devido à expressão em seu rosto
a não ser devido aos pensamentos que atravessavam sua mente.
— Ele... ele está bem. — Ela deixou cair à mão de Adrian como se tivesse
sido um atiçador quente. — Lorde Roxbury lhe trouxe alguns soldados para
brincar.
Justin, que tinha sido totalmente absorvido no alinhamento de suas tropas
aproveitando antes que Robin chegasse, olhou para cima. Pela primeira vez, seu
prazer com os brinquedos ocultou sua desconfiança em Barrasford.
— Robin e eu vamos brincar de soldados! — cantou com excitação. — Olhe,
aqui estão os Dragões da Rainha.
— Me deixe dar uma olhada — Johnny ofereceu quando se inclinou para vê-
los. — Ah, é um exército fantástico, verdade? Posso te mostrar como foi
durante a campanha Peninsular.
— Foi soldado?
— Brevemente. — Os olhos de cinza cintilaram avaliando as peças. —
Teremos que mover estes homens desta forma e trazer estes para aqui embaixo.
E a artilharia deve se localizar-se em um terreno mais alto.
Adrian e Johanna observavam, Barrasford se sentou na cama e começou a
transladar as peças até lhe satisfazer. Nesse momento, Robin irrompeu, puxando
a senhorita Finchley.
— Tin, Blake me disse que tinha soldados. — Voltando-se para a instrutora,
puxou mais forte. — Olhe, ahh!
— Tem dragões — admirou ela apropriadamente. — E canhões.
— Não se pode lutar uma guerra sem eles — Justin disse dando-se
importância. — Sente-se, Finch, você e Robin podem lutar contra mim e Lorde
Barrasford.
— Bom, eu…
— Por favor. Por favor, Finch — suplicou Robin.
— O irmão da senhorita Finchley era um soldado — Barrasford lhes disse, e
logo franziu o cenho. — Sinto muito, não quis angustiá-la.
— Não se preocupe foi há muito tempo — a instrutora assegurou
aproximando uma cadeira.
— Se me desculpar Jo, acredito que terminarei de me vestir — murmurou
Adrian a Johanna. Aproximando-se, sussurrou-lhe ao ouvido. — Se anime, ele
não viu nada inapropriado.
CAPÍTULO 27
A comida foi um assunto tranquilo, caracterizado pela conversa agradável,
mas mundana, a maior parte dirigida pela condessa viúva e a senhorita Finchley.
Adrian, Johanna, e Johnny Barrasford se limitaram a responder ao que foi
perguntado. E, por sua vez, a instrutora tomando a tarefa admiravelmente de
prosseguir o discurso social, mostrando um engenho e vivacidade até agora
insuspeitada. A condessa viúva, e Adrian observaram à senhorita Finchley com
renovado interesse.
Depois de que os pratos fossem retirados, Johanna recusou a acostumada
conversa expressando fadiga, a senhorita Finchley a contragosto recordou sua
costura que simplesmente não esperaria, e Milady Anne decidida a agasalhar
pessoalmente seus netos. Deixando sozinhos, Adrian e Johnny se retiraram à
biblioteca para uma taça de vinho Oporto. Instalando-se em uma cadeira junto à
janela obscurecida, Barrasford olhou de um extremo ao outro tomado os
primeiros sorvos de vinho. Seus olhos se iluminaram apreciando o retrato de
Johanna.
— É trabalho de Lawrence, não é verdade? — perguntou com um gesto para
o retrato.
— Sim — Adrian reconheceu. — Encomendei ambos quando ela me aceitou
em matrimônio.
— Uma semelhança excelente. — Barrasford se acomodou em sua cadeira e
assentiu com a cabeça para o outro. — Sabe que o teu não é quase tão bom.
— De que maneira?
— Realmente não posso dizer, mas há algo inadequado a respeito. Ele
conseguiu retratar Johanna tal como ela é, mas no teu não chega a captar
completamente sua imagem.
— Pois, eu acredito que sim — Adrian pareceu estudar o retrato. — Sempre
gostei dele.
— Dê-me outra taça de vinho Roxbury — pediu ele inclinando-se para frente
e sustentando em alto sua taça. — Tenho em mente me embriagar esta noite. —
Esperou enquanto Adrian o servia, e logo revolveu o líquido ao redor do corpo
da taça, olhando-o atentamente como se fosse um adivinho lendo os sedimentos
de chá. — Está tão claro como um ás de espada que ela te ama — decidiu dizer
com pesar.
— Não. — Adrian sacudiu sua cabeça e olhou mal-humorado seu próprio
vinho. — Destruí-a, Johnny, não pode me perdoar.
— Tolo sangrento — murmurou Barrasford em voz baixa.
— O que?
— Disse que é um imbecil.
— Está bêbado, Johnny.
— Oxalá estivesse. — Sem prévio aviso, cambaleou e alcançou a garrafa. —
Perdão por te abandonar tão cedo, amigo, mas prefiro beber só, em meu quarto
se não se importar. Terríveis maneiras, eu sei, mas realmente não me sinto em
particular sociável agora.
— Johnny…
— Me deixe em paz, Roxbury, sobreviverei.
Adrian olhou impotente sua saída, depois se levantou para conseguir outra
garrafa de um gabinete. Voltando para sua cadeira, verteu o liquido na taça e
olhou os retratos, primeiro o seu e depois o dela. A arrogância débil de seu
próprio sorriso parecia zombar dele do outro lado do quarto, enquanto os olhos
de Johanna com um olhar inocentemente sedutor, era insuportável. Johnny
tinha razão. Lawrence tinha capturado Johanna como tinha sido desde menina.
Levantou seu cristal, em um brinde à mulher mais linda do mundo. Era um tolo
e sabia, mas não parecia haver nenhuma maneira de compensá-la por todo seu
sofrimento.
Um débil toque soou na porta, devolvendo-o ao presente. Sua primeira
inclinação era não fazer caso disso, mas então a curiosidade pôde mais que ele.
Com a taça na mão, levantou-se para abrir a porta de madeira escura. Para sua
surpresa, Anne Sherwood passou diante dele entrando na biblioteca.
— Não fique ai de pé como um bobo, Roxbury — lhe disse secamente — e
guarde em seu lugar essa taça. Não posso suportar os bêbados. —
Incrivelmente, sorria apesar do tom de sua voz. Ela o esperou fechar a porta, e
logo lhe estendeu uma caixa. — Gary quereria que te entregasse isto, Adrian.
— O que é?
— Algumas coisas que Gary resgatou. Abra-a — impulsionou-o.
Ele retrocedeu a sua cadeira onde foram colocadas uma série de velas e se
sentou. Abrindo a tampa da pequena caixa esmaltada, respirou fundo e olhou
para dentro. Ali, recostado entre as dobras de um pedaço de veludo azul, havia
dois elementos, um relógio de ouro e um medalhão. Ele não tinha que perguntar
sobre o medalhão, era o mesmo do retrato, mas suas mãos tremeram ao agarrar
o relógio. Seus olhos escuros perguntaram a Anne.
— Não entendo. Gary nunca ia…
— Gary está morto — cortou ela de maneira brutal.
Assentiu com a cabeça e exalou lentamente enquanto girava o relógio de ouro
na palma de sua mão. Com a unha do polegar abriu a dobradiça e olhou o
interior para descobrir um cacho familiar da cor do trigo atado com um fio de
ouro, cuidadosamente achatado detrás de uma concha de cristal. Do outro lado
do relógio, marcava suas horas com pequenos diamantes. Sem dizer uma palavra
fechou-o e virou para ler a inscrição: A Adrian, por ocasião de nosso primeiro
aniversário de matrimônio. JMD. Johanna Milford Delacourt. Ele sentiu como
se recebesse um murro entre os olhos.
— Ela nunca soube que Gary o guardava — Anne lhe explicou. — E não
acredito que ela gostasse que lhe mostrasse isso, mas penso que esta estúpida
briga durou muito tempo. Sei que Gary desejava que você conhecesse a verdade.
— O medalhão? — Sua voz grasnou estranhamente.
— Ela queria desfazer-se dele, disse que você lhe deu de presente como um
símbolo de seu amor e que não valia a pena conservá-lo mais. Gary o recuperou
de onde ela o tinha atirado. Quis te enviar ambos, fazê-lo saber que estava
equivocado, mas ela tinha deixado claro que se consideraria traída. “Ele não
acreditou em mim,” foi o que disse.
Ele fechou seus olhos e pôde vê-la outra vez, a maneira em que tinha estado
de pé, com o rosto branco e sem poder acreditar no que escutava, enquanto sua
mãe se regozijava. Ela tinha começado a falar, mas a duquesa a cortou,
acusando-a brutalmente, e ele deixou que acontecesse. Johanna tinha se virado
para ele finalmente e lhe havia dito: não pode acreditar isto de mim, acredita
Dree? E quando não pôde responder, ela fugiu do quarto. Quis segui-la, para lhe
dizer que queria acreditar nela, mas seu orgulho não permitiu. Quando se
acalmou o suficiente para falar com ela, informaram-lhe que tinha abandonado a
casa com nada mais que a roupa que usava. Ela correu para Haven, mesmo
sabendo, que era incorreto; fora primeiro a seu pai sendo rechaçada, que disse
que ela retornasse a seu marido. Foi, então, quando procurou Gary. Ainda podia
recordar exatamente como Gary o olhara, tão incrédulo como Johanna, quando
veio lhe pedir explicações. Chamou-o de maior tolo da terra, e tinha razão.
Fechou seus olhos mais apertados e sentindo de novo a dor ao escutar que
tinham fugido para a Itália e se casaram. Sua mão se fechou sobre o relógio para
esmagá-lo.
— Como devem ter sofrido por minha loucura — falou finalmente.
— Tolices — Anne rechaçou rotundamente. — Não se equivoque Roxbury,
tanto quanto te amava, meu filho amava mais Johanna. Posso admitir em seu
nome, que lhe deu o maior presente de sua vida quando se divorciou dela.
— Por que me diz tudo isto? — exigiu rígido, com seus olhos desafiantes.
— Eu a amo e a meus netos, a ambos, e não quero ver todos vocês infelizes
se posso evitar. Gary te perdoou, e eu gostaria que Johanna também o fizesse —
olhou em seus olhos azuis. — Ah, sei que Barrasford é um homem amável,
compassivo, mas não seria o mesmo. Justin e Robin estariam na Irlanda e
nenhum deles saberia de seu patrimônio. — Sua boca com um sorriso sardônico
e assentiu com a cabeça. — Sim, Robin é muito pequeno para recordar Gary por
muito tempo, e Justin vai saber um dia que é seu filho. Penso que é melhor vê-
los, a ambos, sendo criados aqui, sabendo que pode amá-los. E Gary gostaria
que fosse desta maneira.
— Ela me odeia.
— O ódio é uma palavra estranha, implica tal profundidade de sentimentos
que uma pessoa não pode evitar perguntar-se quão perto está o amor do ódio.
Vejo o que ocorre entre vocês quando estão juntos, e acredito que comete um
engano — vacilou, insegura de se devia seguir pressionando. Quando ele se
sentou derrotado, com seus ombros caídos, e seus cotovelos apoiados em seus
joelhos, suspirou. — Bem, cumpri com meu dever, e agora estou muito cansada.
Rogo-te que pense em tudo que disse e que não julgue a si ou a Johanna ou
Gary muito severamente, acredito que deveria reservar seu rancor para a víbora
que você chama de mãe.
— Nunca poderei compensar sua dor, seria muito melhor para ela casar-se
com Johnny — decidiu finalmente.
— Adrian Delacourt, de tudo o que conheci de você, nunca pensei que era
um covarde — declarou Anne ressentidamente. — Um tolo possivelmente, mas
não covarde. Dei minha opinião, em qualquer caso, e te deixo sozinho para
pensar.
Foi muito tempo depois que ela se fora que ele decidiu procurar seu quarto.
Em troca, ficou sentado pensando, olhando sem ver a biblioteca vazio e
repetindo o eco das recriminações acontecido há seis anos. As velas piscaram e
acabaram, enquanto considerava tudo, Johanna, Gary, Barrasford, seu filho, o
filho de Gary, e sua própria mãe. A garrafa de vinho ainda estava cheia quando
finalmente se levantou de suas próprias condenações e subiu a escada para seu
quarto. Blake estava ali, rondando solicitamente com a notícia de como o amo
Justin tinha brincado até a hora de deitar-se com seus soldados. Adrian se
sentou em uma cadeira, enquanto o ajudante de câmara tirava seus sapatos.
— Me diga — perguntou severo — recorda Mary Cummings?
— Hummh! Uma rameira descarada, sempre contemplando a melhor direção
de encher seu moedeiro, — despejou Blake.
— Alguém sabe o que aconteceu com ela depois... depois que minha esposa
partiu?
— Ela recebeu uma grande oportunidade, — respondeu Blake
intencionadamente — e abriu uma loja de chapéus em Paxton Grove.
— Paxton Grove.
CAPÍTULO 28
Era perto do meio-dia quando Johanna desceu a escada para encontrar John
Barrasford que a esperava. Ele elevou a vista, observando seu cabelo preso com
esmero, as linhas perfeitas de seu rosto, aqueles olhos encantadores, o pescoço
cremoso e os ombros, o vestido rosa de musselina se colava aos seios firmes,
antes de cair pela cintura marcada com duas fitas de um tom mais escuro. Era
como se tratasse de gravá-la para sempre em sua lembrança. Só quando ela
alcançou o último degrau notou a maleta e o baú junto à porta.
— Poderia te falar em privado alguns minutos? — perguntou sobriamente,
sua mão na porta do salão azul. Quando assentiu com a cabeça, ele retrocedeu
para deixá-la entrar, a seguiu, fechando a porta detrás deles.
— Há algo errado, Johnny?
Seu coração pulsava dolorosamente quando ela perguntou. Estava vestido
para viajar e sua figura viril corretamente coberto com um casaco cinza
perolado, colete de listras, e calça negra. Seu chapéu e bengala estavam sobre a
mesa. Havia uma tristeza indireta em seus olhos cinzas, mas o sorriso que lhe
ofereceu era quente.
— Falando claro, nada está fora de lugar que não possa ser corrigido — se
moveu para a janela com vistas ao jardim e apareceu observar a profusão de
flores do verão. — Frequentemente invejei Roxbury por este lugar, — refletiu
em voz alta para seu próprio benefício — e agora parece que tenho que invejá-
lo por ter você.
— O que disse? — começou com ar de culpabilidade e seus olhos se
arregalaram.
Ele se voltou e encontrou seus olhos por um instante.
— Deve confrontar o fato de que ainda o ama — disse em voz baixa. —
Sim.
— Mas não é verdade! — Explodiu quando encontrou sua voz. — Não é.
— Ah, querida — a disse com tristeza, — pode pensar que o odeia, que é
educada devido o menino, mas até um tolo cego veria a verdade.
— Johnny…
— Não. Escute-me até o final, já que não pensei em outra coisa desde que
cheguei e os vi juntos.
— Quando voltamos de pescar? Johnny, tínhamos brigado.
— Não, não foi isso, é o que ocorre entre vocês cada vez se encontram. É
esse sentimento que se estabelece entre os dois, que afasta a todos os outros do
mesmo ambiente.
— Johnny… — mediu as palavras para lhe refutar e não encontrou
nenhuma. Finalmente simplesmente perguntou: — Acha que desejo romper o
compromisso?
— Não querida, mas acredito que em seu coração, deseja-o.
— Não posso o amar — sussurrou desesperada. — Não posso, não depois...
— Johanna. — Ele se aproximou e colocou suas mãos em seus ombros. —
Eu gostaria de me casar contigo neste minuto, se você ainda desejar, mas não
acredito que possa chegar a te fazer feliz, — ao ver essa expressão dorida, seus
braços a envolveram. Ela se pôs a chorar contra seu ombro. Durante vários
minutos a sustentou, acariciando ao longo de suas costas com a palma de sua
mão, acalmando-a até que as lagrimas diminuíram. Então brandamente a soltou
e tirou seu lenço. — Não há necessidade de te sentir mal por minha causa, — a
tranquilizou — já que o superarei e você também superará.
Ela se afastou, seus pensamentos desordenados, feitos pedacinhos.
— Mas é impossível. Ele não pode... Não posso... quero dizer Justin... Justin
nunca vai entender…
— Justin é um menino pequeno, Johanna, e aprenderá o que lhe ensinem.
Com o tempo, pode lhe dizer o que aconteceu e ele, então, o aceitará. — Ele
veio por detrás e suas mãos se fecharam de novo em seus ombros. — Lamento
que não me ame, mas entendo — a abraçou e a liberou em seguida. — Boa
sorte, Johanna.
— Boa sorte, Johnny — ressoou vazia.
Ficou cravada no chão, incapaz de segui-lo. Fora, ouviu sua bagagem ser
recolhida, o fechamento da porta principal, e depois o som de sua carruagem
mais fraca conforme se afastava do pátio. Era como se outra porta tivesse
fechado uma parte de sua vida. Curiosamente, sentiu alívio e o agradeceu. John
Barrasford, era um cavalheiro, tinha procedido reconhecendo o que era correto.
Com resolução limpou seus olhos com seu lenço e o meteu no bolso.
— Mamãe.
A voz de Robin era provincial, curiosa, quando olhou ao redor da porta
aberta. Johanna assentiu e baixou seus joelhos enquanto ele corria para ela.
— Bem, senhor Robin — ela conseguiu sorrir — você gostaria de navegar
com um navio de papel na fonte? Ou alimentaremos os gansos de Roxbury?
— Alimentaremos os gansos.
— Talvez a senhorita Finchley gostasse de vir conosco, ou está com Justin?
— Finch prática as letras com Tin, mamãe.
— Então teremos que fazê-lo sozinhos, não acha? Vá pedir ao cozinheiro
alguns pedaços de pão e trocarei de sapatos.
Ela encontrou Justin e sua instrutora absorvidos com seu trabalho, enquanto
Anne manejava sua agulha junto a uma janela aberta. Sua sogra contemplou seus
olhos vermelhos, levantou-se silenciosamente e a seguiu ao quarto rosa.
— Johanna, minha querida menina, está tudo bem? — Anne perguntou.
— Sim — abrindo as portas do guarda-roupa procurou na prateleira seus
sapatos de caminhar. — Barrasford se foi, mamãe — murmurou — decidiu que
não combinaríamos.
— Brigaram?
— Não. Johnny é muito cavalheiro para isso, mamãe. Ele acredita que ainda
amo Dree.
— Querida…
— A culpa é minha — continuou — porque é verdade. Pareço uma
mulherzinha desumana, me aproveitando de sua bondade para manter Justin,
mamãe. Mas ele não me recriminou absolutamente por fazer isto.
— Recuperar-se-á — a tranquilizou.
— Isso é o que ele me disse.
— Tem trinta e três anos, Johanna, e está preparado para casar-se. Não
ficaria surpreendida se tivermos notícias dele outra vez, e logo, já que a menos
que me confunda, sente uma certa compaixão por Charlotte.
— A senhorita Finchley? — perguntou incrédula, sua própria situação
esquecida.
— A senhorita Finchley — Anne repetiu enérgica. — E por que não? Eles
não são desconhecidos entre si, e sua carência de fortuna não seria um
inconveniente para ele. E gostam de crianças.
— A senhorita Finchley não sonharia com…
— É uma mulher, Johanna, porque não. Então, eu não me afligiria pelo
coração quebrado de Lorde Barrasford, meu amor, aposto dez por um, que não
transcorrerá muito tempo antes que formem um casal.
— Parece muito satisfeita.
— Estou, nunca pensei nem por um momento que você e Barrasford seriam
felizes.
Johanna se sentou em um banco baixo e segurou seus sapatos.
— Não viu Dree hoje, verdade? — perguntou de repente.
— Tomei o café da manhã com Roxbury antes que fosse a algum lugar
chamado Paxton Grove.
— Paxton Grove?
— É tudo o que disse do assunto, mas não acredito que tarde muito. Quero
dizer, não pode haver muito negócio de que ocupar-se em um lugar chamado
Paxton Grove. — Observou os sapatos robustos com a repugnância. —
Certamente não pensa sair com esses sapatos.
— Robin e eu vamos alimentar os gansos do parque.
— Suponho que devem ser cômodos, mas…
— Mamãe, Bury pode vir também? — Robin dançava entrando no quarto
levando um saco de pão duro. — Acaba de chegar a cavalo, pode vir?
— Bem, eu... — elevou a vista de seu assento e sua respiração ficou apanhada
em seu peito ao vê-lo. Agachou-se para recolher o menino, abraçando-o
afetuosamente antes de passá-lo a sua avó.
— Não tão rápido, menino. Vá com sua avó, mamãe e eu desceremos em
seguida. Os gansos não morrerão de fome, prometo-lhe isso, e tenho que falar
com mamãe.
— Em realidade, Roxbury, vou levá-lo ao parque. — Anne se ofereceu. —
Não dou comida aos gansos desde que Gary e você eram pequenos.
— Quero ir com Bury — o menino protestou.
— É obvio — murmurou segurando-o firmemente em seus braços andando
para a porta. — E ele virá logo para alimentar sua parte das aves. — Ela se
deteve suficiente tempo para fechar a porta com cuidado.
Johanna ficou muito quieta, seu coração palpitava com mais força quanto
mais ele se aproximava. Sua boca estava seca quando se deteve diante dela, seu
corpo bloqueando todo o resto. Seus dedos agarraram as bordas do banco.
— Poderá algum dia me perdoar, Jo? — perguntou concisamente.
Seus olhos se arregalaram aturdidos pela incredulidade.
— Hoje fui ver Mary Cummings, e sei toda a verdade. Sei o que ocorreu Jo, o
que minha mãe te fez, o que eu te fiz, lamento não poder compensar toda sua
dor. — Ele se aproximou de todos os modos, até que sua perna tocou seu
joelho. — Daria tudo o que tenho por voltar atrás no tempo e fazê-lo de
maneira diferente. — Sua mão tocou seu cabelo provisoriamente, ligeiramente
apoiando-se. — Fui tão imbecil, um tolo tão orgulhoso.
Ela fechou seus olhos e engoliu com força para lutar contra o nó em sua
garganta.
— Por favor, Dree...
— Não tenho nenhum direito de esperar qualquer coisa, eu sei — continuou.
— Mas te amo, Jo. Sempre te amei e sempre amarei. — Seus dedos se fecharam
em seu queixo, fazendo-a subir. — Pode me perdoar? — perguntou outra vez
quando a liberou.
Suas pestanas estavam molhadas, sua garganta insuportavelmente apertada,
tão apertada que não podia falar. Em troca, assentiu com a cabeça e se inclinou
para deslizar seus braços com força ao redor de sua cintura. Era como se os
anos de amargura se evaporassem. Durante muito tempo, simplesmente
descansou sua bochecha contra seu plano e duro abdome. Suas mãos se
arrastaram para alisar e acariciar a coroa brilhante de sua cabeça.
— Quero me casar outra vez contigo, Jo — disse finalmente. — Quero te
levar a Londres e gritar à sociedade que você foi tratada injustamente, que era
inocente. Pode ser que não tenhamos um só amigo no mundo quando
começarmos, mas farei o impossível para que seja bem recebida.
— Isso não importa — foi à resposta amortecida.
— Não importa? — se engasgou. Atraindo-a contra ele, encerrou-a em seus
braços. — É obvio que isto importa. É a Duquesa de Roxbury, minha duquesa.
— De repente se deteve e olhou para baixo. — Vai casar-se comigo?
— Ah, Dree… — Ela teve que morder o lábio inferior que tremia, mas
conseguiu sorrir sonhadoramente. — Sabe que sim.
Seus lábios se encontraram, meigamente no princípio, provisoriamente
saboreando o gosto dela, e depois os anos desapareceram. Era verão em
Londres, a temporada gloriosa com uma promessa de juventude, a música
sedutora, e a brisa perfumada quando exploraram outra vez a maravilha de sua
paixão. Passou muito tempo antes que ele levantasse sua cabeça.
— Enviarei Sims para trazer o vigário de Greenlea e podemos estarmos
casados hoje — murmurou em algum lugar acima de sua cabeça.
— Hoje?
— Encontrei Johnny enquanto partia amor, e me deu sua licença especial, me
disse que eu a necessitaria antes dele. — Sorria, mas seus olhos escuros estavam
decididos em seu rosto. — Tem alguma objeção se a usarmos? Eu gostaria que
Lady Anne e os meninos presenciassem.
— Que diremos a Justin?
— O que você desejar, Jo. Se quiser, não direi nada até que seja mais velho e
possa entender alguma coisa. Ele é o herdeiro de Gary agora, e não me parece
correto por causa de Robin, mas… — uma luz diabólica se deslizou em seus
olhos, — estou disposto a seguir tendo herdeiros até que encontremos um lugar
para cada um deles.