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C r a ig L.

B l o m b e r g “Corno sempre, Craig Blomberg é lúcido, sensível


e interessante. A organização e o estilo do livro são
ilusoriamente simples. A té mesmo o leitor cristão
experiente se beneficiará da mestria de Blomberg nesse
material tão bem resumido e avaliado aqui. Blomberg
oferece detalhes suficientes para nos manter interessados
na intricada evidência, mas não tanto a ponto de nos
sentirmos submersos em minúcias. Este livro poderia
ser colocado com segurança nas mãos de amigos que, em
geral, são bons leitores, mas biblicamente analfabetos, pois
a combinação que Blomberg fa z de avaliação histórica
racional, teologia refletida e princípios elementares de
interpretação abre muitas portas. Espero que este livro
encontre muitos leitores diversos e tenha vida longa. ”
— D. A. Carson, Trinity Evangelical Divinity School

“Alguns estudiosos do Novo Testamento especializaram-


se em minúcias e ficam distantes das grandes questões
Q u e st õ e s c r u c ia is históricas e literárias, mas Blomberg não ê um deles.

DO Novo TESTAMENTO Em Questões Cruciais do Novo Testamento,


Blomberg trata das grandes questões da fidedignidade
histórica do Novo Testamento, similaridades e diferenças
entre os ensinamentos de Jesus e Paulo, e várias questões de
crítica literária com vigor, força e vitalidade. Seu estudo é
marcado por erudição cuidadosa, bem documentada e boa
argumentação. Este livro é um excelente ponto de partida
para aqueles que desejam discutir o Novo Testamento com
uma audiência pós-moderna cética. ”
— Ben Witherington III, Asbury Theological Seminary

“Craig Blomberg é um erudito ideal para introduzir


as três questões cruciais tratadas neste livro. Ele se destacou
antes em importantes tratamentos desses assuntos, e aqui
fornece uma introdução excelente e de leitura
agradável que beneficiará leitores básicos e avançados.
Esse tratamento reflete um pensamento
excepcionalmente claro e original, bem como total
familiaridade com a discussão erudita mais ampla. ”
— Craig Keener, Eastern University
Todos os direitos reservados. Copyright © 2009 para a língua portuguesa da Casa Publicadora das
Assembleias de Deus. Aprovado pelo Conselho de Doutrina.

Título do original em inglês: M aking Sense o f the New Testament


Published by Baker Book House Company, RUA
Primeira edição em inglês: 2 0 0 4

Tradução: Degmar Ribas


Preparação dos originais: Elaine Arsenio
Revisão: Verônica Araujo
Capa: Flamir Ambrosio
Adaptação de projeto gráfico e editoração: Oséas R Maciel

C D D : 2 2 5-Novo Testamento
ISB N : 9 7 8 -8 5 -2 6 3 -1 0 1 7 -9

As citações bíblicas foram extraídas da versão Almeida Revista e Corrigida, edição de 1995, da
Sociedade Bíblica do Brasil, salvo indicação em contrário.

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2 a Impressão: 2010
A George Kalemkarian
Com uma profunda gratidão por uma amizade que já
ultrapassou três décadas
Prefácio

M uitas pessoas são merecedoras dos meus agradecimentos, por pos­


sibilitar que este projeto fosse concluído. Jim Weaver, o antigo editor
de livros acadêmicos para a Baker Books, foi quem propôs que eu me
envolvesse, e estava disposto a me dar um contrato com uma data de
alguns anos no futuro, em razão dos meus muitos outros compromis­
sos. Jim Kinney, o atual editor acadêmico, foi suficientemente generoso
para continuar a me encorajar a desenvolver o projeto, mesmo quando
me arranjava material adicional para escrever mais à frente. Michelle
Stinson e Jeremiah Harrelson, ambos recém-formados no Programa de
Estudos Bíblicos do Sem inário Masters of Arts em Denver, dedicaram
inúmeras horas de ajuda na pesquisa, durante os anos acadêmicos de
2001-2002 e 2002-2003, respectivamente. Jeanette Freitag, como assis­
tente da nossa faculdade, ajudou-me com os estágios finais da edição.
Também sou grato à adm inistração e aos membros do conselho do
Seminário de Denver, por m e apontar para uma posição na primavera
de 2002, que me propiciou um pouco mais de tempo e significativos
recursos extras, os quais me capacitaram a com pletar este projeto, en­
quanto mantinha uma carga de trabalho de ensino normal, durante os
dois últim os anos acadêmicos.
M uitos livros cristãos afirmam destinar-se a uma ampla fatia do pú­
blico leitor, apresentando suas discussões em um nível prontamente
inteligível pelos adultos de nível superior, em bora reconhecendo que
os estudantes de faculdades cristãs e seminários, assim como líderes da
igreja e pastores, possam form ar o seu público leitor principal. Notas de
rodapé ou notas finais guiam leitores interessados, e particularmente
6 Questões Cruciais do Novo Testamento

acadêmicos, a estudos mais detalhados. Este livro deseja fazer todas es­
sas coisas também. Essas obras frequentemente também se referem ao
leigo instruído ou interessado como um tipo de "m eio-termo dourado"
dos indivíduos aos quais se destina o livro.
Ao mesmo tempo, os padrões de leitura entre o público norte-ame-
ricano, às vezes, fazem com que os autores se maravilhem com quantas
pessoas leigas ainda se encaixam nesta descrição!
Um indivíduo que claramente se encaixa nisso é George Kalemkarian.
Quando jovem solteiro, George dedicou muitas horas por semana, ao
longo de vários anos, como um voluntário no grupo de apoio de uma
Cruzada no campus universitário para falar a respeito de Cristo, e tam­
bém no trabalho de discipulado que se seguiu, no Augustana College
em Rock Island, Illinois. A minha principal educação cristã, durante
meus anos de faculdade, de 1973 a 1977, veio por meio desta assem­
bleia. George não apenas me proporcionava liderança afetuosa e ins­
trução bíblica consistente, mas também devorava literatura teológica
e era regularmente capaz de nos apontar o aprendizado cristão evan­
gélico essencial para responder às nossas duras perguntas. E tudo isso
acontecia, não porque ele tinha frequentado uma faculdade cristã ou
seminário, mas porque tinha estudado sozinho, além de ter um empre­
go secular em período integral. Posteriormente, George se casou com
uma jovem que ele tinha conhecido através da Cruzada, June Stunkel,
e ambos criaram duas belas filhas em Moline, Illinois, onde ainda con­
tinuam ativos na First United Presbyterian Church. Nós continuamos
em contato, e George continua sendo uma das pessoas que mais me
dá apoio sólido, e um de meus melhores amigos. E a ele, portanto, que
dedico este livro, com profunda gratidão por três décadas de amizade
e influência.
Sumário

P refácio................................................................................................................. 5

Introdução............................................................................................................. 9

1. O Novo Testamento É historicamente C onfiável?............................. 13

2. Paulo Foi o Verdadeiro Fundador do C ristianism o?....................... 69

3. Com o o Cristão Deve Aplicar o Novo Testamento à V ida?........... 107

R esum o.................................................................................................................. 147

N otas......................................................................................................................151
Introdução

Recentemente, a Baker Books publicou vários volumes apresentan­


do "três perguntas cruciais" sobre um tópico teológico ou bíblico par­
ticularmente controverso. Estudos auxiliares examinaram perguntas-
chave com respeito ao Espírito Santo e aos dons espirituais, a guerra
espiritual, os últimos dias ou o final dos tempos, as mulheres no m inis­
tério, e outras. Um volume que se desvia do form ato do enfoque em um
tema especificamente centrado é a obra de Tremper Longman, M aking
Sense ofth e Old Testament: Three Crucial Q u e s t io n s Neste livro, Longman
aborda três perguntas muito amplas — as "chaves para a compreensão
do Antigo Testamento", a comparação do Deus do Antigo Testamento
com o Deus do Novo Testamento, e a orientação para os cristãos com
respeito a como aplicar o Antigo Testamento hoje em dia.
Em razão da popularidade da obra de Longm an, a Baker Books me
propôs escrever um volume semelhante sobre o Novo Testamento. Mas
quais seriam as nossas três perguntas? Certamente, as duas maiores par­
tes do N ovo Testamento tratam da vida de Jesus (os quatro Evangelhos)
e do ministério de Paulo (grande parte do Livro de Atos e todas as suas
epístolas). As duas prim eiras perguntas provavelmente diriam respei­
to à obra destes dois hom ens. E embora o Novo Testamento não seja
tão difícil de aplicar como o Antigo Testamento, certamente ainda há
problem as cruciais de aplicação. Decidiu-se, portanto, formular três
perguntas sobre Jesus, Paulo e a aplicação. Agora, precisávamos nos
decidir sobre as perguntas específicas.
Comprovadamente, o aspecto mais controverso da vida de Cristo,
durante os últimos duzentos anos, desde a ascensão do aprendizado bí­
blico moderno, é se os retratos de Jesus de Nazaré, do Novo Testamento,
10 Questões Cruciais do Novo Testamento

são confiáveis ou não. Certam ente, há porções nebulosas dos


Evangelhos, mas qualquer pessoa razoavelmente instruída, com uma
boa tradução da Bíblia, poderá reconhecer rapidamente que Mateus,
Marcos, Lucas e João, todos acreditavam que o Senhor Jesus Cristo era
muito mais do que um grande professor, um rabino judeu e um contro­
verso profeta do século I. Eles acreditavam que Jesus também era o tão
esperado M essias de Israel ou o seu Libertador, um Mensageiro divi­
namente enviado, o Deus encarnado. Destas convicções, veio um coro­
lário crucial: — toda a humanidade será julgada um dia, com base nas
suas respostas a este Jesus. Os seus seguidores podiam ansiar por uma
era futura, já inaugurada durante a sua vida, mas consumada apenas
quando Ele retornasse do céu, para reinar sobre a terra. Os cristãos, que
é como estes seguidores vieram a ser chamados posteriormente, viven-
ciariam, então, uma eternidade de felicidade incessante na companhia
de Deus, e de uns com os outros, ao passo que aqueles que rejeitaram
Jesus e a mensagem do Novo Testamento a respeito dEle passariam
uma eternidade separados de Deus e de todas as suas bênçãos.
Aavaliação que uma pessoa faz das declarações do Novo Testamento
sobre Jesus, desta perspectiva, é, assim, a questão mais importante que
ela poderá enfrentar nesta vida, apesar das culturas do nosso mundo
que a substituíram vários interesses supostamente mais urgentes. Mas
esta linha de raciocínio pressupõe que, pelo menos, os contornos bá­
sicos do retrato que a Bíblia faz de Cristo são dignos de confiança. Se
Jesus não fizesse as declarações sobre si mesmo que o Novo Testamento
apresenta, então nós poderíamos relegá-lo a um papel inferior na his­
tória da humanidade, e continuar enfrentando eventos mais urgentes.
Uma das três perguntas cruciais que este livro irá tratar, portanto, en­
volverá a confiabilidade histórica do Novo Testamento. Ou, formulan­
do a pergunta de m odo mais preciso, as porções aparentemente histó­
ricas do Novo Testamento realmente comunicam a história confiável?
Isso significa que devemos examinar particularmente os Evangelhos e
o livro de Atos, que supostamente nos propiciam biografias de Jesus
e uma história da primeira geração do cristianismo, respectivamente.
Mas há reflexões autobiográficas nas cartas de Paulo, que também terão
de ser consideradas, juntam ente com o fornecimento de novas evidên­
cias indiretas sobre questões da natureza, em todas as cartas do Novo
Testamento, e também no livro do Apocalipse.
Uma pergunta intimamente correlata redireciona a nossa atenção
de Jesus a Paulo. Mesmo que o retrato básico de Jesus que o Novo
Introdução 11

Testamento nos pinta seja confiável, a sua m ensagem frequentemente


soa diferente da m ensagem do maior pregador e missionário do século
I, o apóstolo Paulo. As igrejas, em muitas épocas e lugares, por toda a
história cristã, dedicaram muito mais atenção a Paulo do que a Jesus,
quando tentaram resumir a mensagem do Evangelho. Poderemos con­
ciliar o ensinamento destes dois personagens formadores? Ou Paulo
distorceu tanto a m ensagem de Jesus que deveremos preferir uma à
outra? Terá sido Paulo, na verdade, o segundo fundador, ou talvez até
mesmo o verdadeiro fundador do cristianismo, da maneira como ele se
desenvolveu ao longo dos séculos? A nossa segunda pergunta crucial
deve, portanto, tratar da continuidade e descontinuidade entre Jesus
e Paulo, conforme eles são retratados no Novo Testamento. É um caso
de "Jesus versus Paulo", ou poderão os dois serem vistos como com ­
plementando, um ao outro, embora ainda conservando suas distintas
qualidades? Obviamente, nós podemos tratar desta questão somente
depois de termos um claro entendimento do que representaram os dois
homens. Quando tivermos lidado com estas duas importantes per­
guntas iniciais, então teremos "com preendido" uma grande porção do
Novo Testamento.
Como a interpretação realiza muito pouco, a menos que conduza à
aplicação, a terceira pergunta crucial será paralela à sua correspondente
no livro de Longman. Com o aplicamos hoje o Novo Testamento, espe­
cialm ente em culturas m uito distantes, em tempo e espaço, daquelas do
mundo mediterrâneo do século 1, em que Jesus e Paulo ministraram?
Mais exatamente, que princípios variados em ergem para a aplicação
das diversas formas literárias do Novo Testamento? Afinal, as parábo­
las de Jesus não devem ser interpretadas como história direta, e o m ate­
rial narrativo, de modo geral, não produz frutos de seus ensinamentos
da mesma maneira como as ordens mais diretas. E as biografias, as his­
tórias e cartas, todas são diferentes da literatura apocalíptica — o gêne­
ro literário que o livro do Apocalipse reflete mais intimamente. O que
os leitores devem fazer hoje, com esta coleção de visões que, às vezes,
se aproxima do bizarro?
Existem, sem dúvida, outros conjuntos de "três perguntas cru­
ciais" que poderiam nos ajudar a compreender razoavelmente o Novo
Testamento, mas o cam inho seria longo para alcançar este objetivo.
Como o escopo desta série de livros é com parativamente modesto, cada
capítulo irá investigar rapidam ente imensas extensões de terreno, sem
o obstáculo de uma pesada documentação acadêmica. Mas eu tentei
12 Questões Cruciais do Novo Testamento

inserir um número razoavelmente amplo de notas a cada capítulo, que


permitirão que os leitores investiguem as questões com mais detalhes,
onde desejarem fazê-lo. As notas tam bém irão demonstrar que todos os
pontos de vista que apresentei nesta obra são baseados no mais deta­
lhado e meticuloso conhecimento. M esmo quando defendo pontos de
vista resguardados por uma minoria de acadêmicos, acredito que es­
tes pontos de vista estão baseados em sólida argumentação. A maioria
deles, especialmente quando influenciados por pressuposições muito
liberais, nem sempre é correta! Os leitores devem abordar as questões
com mente aberta e decidir, por si mesmos, se as minhas apresenta­
ções, em cada ponto, são persuasivas. Voltemo-nos, então, para o Novo
Testamento, e vejam os se conseguimos compreendê-lo.
C a p ít u l o i

O Novo Testamento É
historicamente Confiável?

Jesus e as origens cristãs continuam a fascinar o público norte-ame-


ricano. As estantes dedicadas à religião, em todas as principais cadeias
de livrarias, exibem inúmeros títulos sobre esses assuntos. Infelizmente,
eles vão de livros escritos por acadêmicos responsáveis a obras de pura
ficção, impingidas a leitores desavisados com o a última "verdadeira
descoberta" sobre os prim órdios do cristianismo. Nós podemos discer­
nir três categorias destas obras, que não se incluem na corrente do co­
nhecim ento bíblico e sério.
Em primeiro lugar, existem os livros que são os mais perturbadores,
baseados em nenhuma evidência histórica genuína, de nenhum tipo.
Um professor aposentado de ciência atmosférica, em uma grande uni­
versidade pública, fica fascinado com OVNIs e publica dois livros sobre
um suposto documento em aramaico, encontrado no Oriente M édio,
mas depois (convenientemente) perdido outra vez, preservado apenas
em uma tradução em alemão, feita por um entendido "U fologista" que
reescreve o Evangelho de Mateus. Neste documento, Jesus é um alie­
nígena, que visita a terra para ensinar uma doutrina similar à m oder­
na filosofia "Nova E ra"!' Ou uma coletânea, líder de vendas, de ficção
cristã, quer seja a mais antiga ou a mais recente, chamada The Archko
Volume se propõe a divulgar ao público os verdadeiros relatos sobre
14 Queslões Crucl.ilN <lo N ovo TeKl.iiiHMito

Jesus e o início do cristianismo, sem admitir que nenhum historiador


responsável, em parte alguma do mundo, acredita que uma fração do
seu conteúdo reflita fatos históricos.2
Uma segunda categoria envolve a distorção de evidências recente­
mente descobertas. Quando os Rolos do mar Morto foram encontra­
dos, pouco depois da Segunda Guerra M undial, foram feitos todos os
tipos possíveis de declarações sensacionalistas sobre como eles rees­
creveriam radicalm ente a história da origem cristã. Isso nunca acon­
teceu, mas outro turbilhão de exageros fantásticos em ergiu no início
dos anos 1930, quando o últim o grupo de docum entos muito frag­
m entados, de Q um ram , o local da seita do mar Morto, foi finalmente
publicado e traduzido. Um dos m ais fam osos conjuntos de acusações
vem de uma série de livros escritos pela autora australiana, Barbara
Thiering. Ela alega que vários personagens nos docum entos que des­
crevem os m em bros da com unidade de Qumram, e outros no mundo
judeu do seu tem po, são codinomes para João Batista, Jesus e alguns
dos seus seguidores!3 No entanto, não há razão para suspeitar que
Qumram tenha inventado tais codinom es, principalm ente porque a
grande maioria dos seus docum entos tem data anterior ao século I
e ao nascim ento de Cristo. Não é de surpreender que Thiering não
tenha conquistado um número significativo de adeptos entre os aca­
dêmicos.
Distorções de novas descobertas também podem vir de círculos
conservadores. Carsten Thiede, um evangélico alemão, escreveu várias
obras recentes declarando que m inúsculos fragmentos de manuscritos
gregos, encontrados em Qumran, e contendo apenas algumas poucas
letras cada um, na verdade representam versículos do Evangelho de
Marcos. Se isso for verdade, estas descobertas exigem uma data para
este Evangelho anterior à que até mesmo os acadêmicos conservadores
normalmente têm defendido. Thiede também acredita que uma cópia
do Evangelho de Mateus, em grego, preservada por muito tempo na bi­
blioteca de M agdalen College, Oxford, data da metade do século I. Mas
praticamente todos os outros acadêmicos que examinaram estas decla­
rações consideram equivocada a equação que combina os fragmentos
de Qumram com o Evangelho de Marcos, e que o papiro de Oxford
vem do mesmo codex (ou livro) a que pertenciam os papiros datados
como sendo dos anos 200, agora conservados em Paris e Barcelona.4 Os
cristãos conservadores poderiam desejar que as hipóteses de Thiede
mostrassem ser prováveis, mas, com razão, eles ficam desacreditados
<) Noi’() linlniiifnli) I liislorii iunriili' Confiável?

aos olhos dos outros se tentarem respaldar teses altamente improváveis


sim plesm ente para promover a sua apologética.
A terceira categoria nos traz ainda mais perto dos limites do conhe­
cimento responsável. Há acadêmicos do Novo Testamento plenamente
credenciados na "extrem a esquerda" teológica, que desenvolvem pes­
quisa genuína, mas apresentam suas opiniões como se elas refletissem
um consenso de conhecimento quando, na verdade, representam a "ala
radical". Certamente, o m ais famoso exem plo disso nos últimos anos
foi o "Sem inário Jesus", um grupo de indivíduos, na maioria acadêm i­
cos do Novo Testamento (embora muitos não fossem especializados
em pesquisa sobre o Jesus histórico), que, inicialmente somava mais
de duzentas pessoas, mas acabou reduzido a menos de cinquenta, e
que conquistou a atenção dos meios de com unicação para as suas con­
ferências semestrais ao longo dos anos 1980 e 1990. Examinando cada
palavra e obra atribuídas a Jesus nos quatro Evangelhos, além do apó­
crifo Evangelho de Tomé5 o Sem inário Jesus concluiu que apenas 18% dos
dizeres e 16% das ações de Jesus contidas nestes documentos represen­
tavam algo próximo do que Jesus realmente disse ou fez.6
Essas conclusões, no entanto, foram praticamente determinadas
pelas pressuposições e pelo método do Sem inário Jesus. Em uma lista
particularm ente franca destas pressuposições, Seminário Jesus explica
que milagres não podem acontecer, de modo que todos os eventos so­
brenaturais dos Evangelhos são rejeitados desde o começo, e que Jesus
jam ais falou sobre si mesmo, ou sobre o futuro, ou sobre o juízo final
(um tópico indigno de um professor iluminado ou esclarecido).7 Essas
últim as pressuposições vão muito além da tendência antissobrenatural
das primeiras, que levariam à conclusão de que Jesus não poderia ter
acreditado que Ele era divino, nem ter predito o futuro de maneira in­
falível. Em vez disso, eles insistem numa verdade que não pode ser afir­
m ada sobre nenhum outro líder religioso na história, ou seja, que Jesus
não fez nenhuma declaração sobre a sua identidade nem especulou de
maneira alguma sobre eventos futuros. E, embora possa ser verdade que
certos liberais modernos não podem digerir a noção de um dia de ju í­
zo, quando toda a hum anidade será levada a prestar contas diante de
Deus, esta crença era praticam ente universal no mundo de Jesus, de
modo que seria assombroso que Ele não refletisse sobre este tema.
O Seminário Jesus agora concluiu a sua obra e foi dispersado, mas,
no início do novo milênio, um Seminário Atos semelhante se formou,
e publicou seus resultados iniciais, os quais sugerem que as m esm as
16 Questões Cruciais do Novo Testamento

abordagens imperfeitas são adotadas por eles.8 Felizmente, eles recebe­


ram muito m enos atenção dos m eios de comunicação; pode-se esperar
que eles desapareçam completamente.
Enquanto isso, um dos segredos mais bem guardados do público do
século XXI é o fato de que a assim chamada Third Quest (Terceira Busca)
pelo Jesus histórico, durante os últimos 25 anos, tenha, de modo geral,
sido cada vez mais otimista sobre o quanto nós podemos conhecer acer­
ca do fundador do cristianismo. A investigação de Ben Witherington das
abordagens na metade dos anos 1990 oferece uma excelente visão ge­
ral: Concentrando-se em diferentes partes dos retratos dos Evangelhos,
e comparando-os com a quantidade sem precedentes de informações
agora disponíveis sobre os mundos judaico, grego e romano do século
I, acadêmicos engajados no estudo do Novo Testamento demonstraram
as várias maneiras pelas quais Jesus foi um profeta de uma era nova e
futura, cheio do Espírito, um reformista social, um sábio e um Messias
marginalizado.9 Ligeiramente menos intenso está um renovado escrutí­
nio acadêmico sobre o apóstolo Paulo, que Witherington também pes­
quisou, incluindo uma reabilitação do valor histórico do livro de Atos,
especialmente as seções que tratam do ministério de Paulo.10
Mas fora dos círculos distintamente evangélicos, até mesmo na cor­
rente atual e centrista dos acadêmicos do Novo Testamento, ainda não
se acredita que qualquer parte substancial dos Evangelhos ou do livro
de Atos seja historicamente exata. Critérios padrão são empregados
para separar as partes mais históricas das menos históricas." Mas aqui,
estudos recentes sugeriram que estes critérios provaram ser inadequa­
dos para o que declaravam realizar. Os dois critérios mais comuns no
aprendizado dos Evangelhos se tornaram conhecidos como "desigual­
dade" e "confirm ação m últipla". O critério da desigualdade aceita como
autêntico aquilo que separa um evento ou expressão dos Evangelhos,
tanto do mundo judaico convencional da época de Cristo como do sub­
sequente cristianismo, uma vez que é improvável que qualquer judeu
ou cristão pudesse tê-lo inventado. O critério de confirmação múltipla
aceita como sendo mais provavelmente histórico aquilo que é apresen­
tado em mais de um Evangelho ou em mais de uma forma literária
ou fonte que os Evangelhos empregaram. Ambos os critérios podem
destacar elementos que estão seguramente ancorados no ministério do
Jesus histórico, mas não podem logicamente eliminar itens que não são
aprovados nos dois testes. Jesus se sobrepôs a seus antecessores judeus,
ao passo que os primeiros cristãos o imitaram com exatidão em vários
O N ovo Testam ento É historicam en te Confiável? 17

aspectos. Testemunhos isolados também podem comunicar verdades


históricas. Assim, precisam os de critérios mais sofisticados se preten­
demos desafiar detalhes nos Evangelhos com a justificativa de que não
refletem a história exata.12 Na verdade, vários acadêmicos desenvolve­
ram recentemente um critério de quatro partes que torna mais prová­
vel que vastas partes dos Evangelhos sejam historicam ente exatas. N. T.
Wright, bispo de Durham, Inglaterra, e comprovadamente liderando
o conhecim ento do evangelicalism o sobre o Novo Testamento hoje, o
chama de critério duplo de desigualdade e igualdade. Os acadêmicos
alemães Gerd Theissen, Annette Merz e Dagm ar Winter falam do cri­
tério com plausibilidade histórica. Dizem que, em cada caso, inúm e­
ras características nos Evangelhos simultaneamente demonstram (1)
suficiente continuidade com contextos judaicos, para serem dignos de
crédito em um ambiente israelita a partir do primeiro terço do século
I; (2) suficiente descontinuidade com o judaísm o convencional para su­
gerir que ele não fora inventado por um judeu comum; (3) suficiente
continuidade com o princípio do cristianismo, para mostrar que Jesus
não era mal interpretado pelos seus seguidores; e (4) suficiente descon­
tinuidade com o primeiro movimento de Jesus para sugerir que um dos
primeiros cristãos não o inventou. Quando todas as quatro condições
são satisfeitas, podemos ter certeza de que os Evangelhos nos apresen­
tam inform ações exatas. Wright é mais otimista do que os três alemães,
sobre a quantidade de m aterial que satisfaz estas condições, e os seus
textos aceitam muitos dos temas centrais dos Evangelhos, certamente
muito mais detalhes do que o conhecimento alemão moderno e alta­
m ente cético normalmente reconhece.13
O escopo modesto deste livro me impede de comentar, ainda que ra­
pidamente, cada um dos temas centrais ou porções dos dados do Novo
Testamento. Mas posso apontar inúmeras características mais genéri­
cas que suportam uma substancial medida de confiança na fiabilidade
histórica dos cinco livros do Novo Testamento que tradicionalmente se
supõe que apresentam um fiel registro da vida de Jesus e da primeira
geração da história cristã — os Evangelhos de Mateus, Marcos, Lucas
e João e o livro de Atos. Ao fazer isso, nós nos colocamos no lugar dos
nossos historiadores, e tentamos, por um m omento, delinear a fé cristã.
N ós não queremos ser culpados de fazer aquilo pelo que criticamos tão
asperamente o Seminário Jesus, que é pressupor as nossas conclusões.14
Mas m esm o se nos limitarmos às abordagens feitas pelos historiadores
clássicos que estudam outros povos, eventos e instituições dos mundos
18 Questões Cruciais do Novo Testamento

judaico, grego e romano de antigamente, um caso cumulativo emerge,


o que sugere que os Evangelhos e o livro de Atos são muito confiáveis
historicam ente.

A Crítica Textual
O ponto de partida comum para investigar a confiabilidade de um
documento antigo não tem a ver com a credibilidade do seu conteú­
do, por si mesmo, mas pergunta se nós podemos ser confiantes de ter
alguma coisa próxima ao que o autor daquele documento escreveu
originalmente. Na maioria dos casos, as mais antigas cópias que nós
temos de um determinado livro datam de séculos depois de quando ele
foi escrito. Nem existem muitas cópias de determinado livro das eras
anteriores à invenção da gráfica. Por exemplo, há apenas nove ou dez
bons manuscritos da Guerra de Gália de César, e os mais antigos datam
de novecentos anos depois das datas dos eventos descritos. Somente
trinta e cinco dos 142 livros de história romana de Livy ainda existem,
e estes em cerca de vinte manuscritos, dos quais somente um data do
século IV. Dos catorze livros de Tácito sobre a história romana, somente
sobrevivem quatro e meio, e estes em apenas dois manuscritos que da­
tam dos séculos IX e X I.15
Por outro lado, a evidência textual do Novo Testamento desde os
primeiros séculos depois que ele foi escrito é assom brosa. Acadêm icos
de praticam ente todas as classes teológicas concordam que os escribas
cristãos copiaram o Novo Testamento com extraordinário cuidado,
com parável som ente pela exatidão da cópia, pelos escribas judeus,
das Escrituras dos hebreus (o Antigo Testamento cristão). Som ente no
original em grego, mais de cinco mil m anuscritos ou fragm entos de
m anuscritos de porções do Novo Testamento foram preservados dos
séculos em que a Bíblia era copiada à mão. O mais antigo destes m a­
nuscritos é uma tira de papiro designada (p52) que contém partes de
João 18.31-33 e 37-38 e data da prim eira terça parte do século II d.C.,
menos de quarenta anos depois que o Evangelho de João foi escrito
nos anos 90. Mais de trinta papiros datam do período entre o fim do
século II até o início do século III. Alguns destes papiros contêm gran­
des trechos de livros inteiros do Novo Testamento. Um deles abrange
grande parte dos Evangelhos e do livro de Atos (p4S); outro, grande
parte das epístolas de Paulo (p46). Quatro Novos Testamentos muito
confiáveis e quase com pletos datam do século IV (A e B) e do século
V (A e C ).
O N ov o Testam ento É historicam en te Confiável? 19

Todos os tipos de pequenas variações distinguem estes manuscritos


entre si, mas a grande m aioria destas variações envolve meras m odifi­
cações de grafia, gramática e estilo, ou omissões acidentais ou duplica­
ções de letras, palavras ou expressões. Apenas quatrocentas (menos de
uma por página, em uma tradução norm al na língua inglesa) têm algu­
ma influência no significado da passagem, e as mais importantes varia­
ções são normalmente indicadas nas notas de rodapé das traduções nos
idiomas modernos da Bíblia. As únicas variações textuais que afetam
mais do que uma ou duas sentenças (e muitas afetam apenas palavras
ou expressões individuais) são João 7 .5 3 -8 .1 1 e Marcos 16.9-20. Alguns
entendem que nenhuma destas passagens reflita, provavelmente, o que
João ou Marcos escreveram originalmente, em bora a história no texto
de João — sobre a m ulher flagrada em adultério — ainda tenha uma
chance muito boa de ser historicamente precisa. Mas de modo geral, 97
a 99% do Novo Testamento original em grego podem ser reconstruídos
sem qualquer dúvida. Além disso, nenhuma doutrina cristã baseia-se
de m odo único, ou até mesm o basicamente, em qualquer passagem tex­
tualmente discutida.16
Até mesm o os membros mais liberais do Seminário Jesus concor­
dam com os acadêmicos evangélicos muito conservadores de que não
há evidência histórica de nenhum tipo que sustente as declarações de
alguns mórmons ou muçulm anos modernos de que o texto do Novo
Testamento tornou-se tão corrompido com o passar dos séculos que
não tem os como ter certeza do que continha o original. Essas declara­
ções, na verdade, contradizem os ensinamentos oficiais de ambas as
religiões. As declarações de Joseph Smith, armazenadas nas Escrituras
adicionais dos Santos dos Últimos Dias e o livro sagrado do Islã, o
Alcorão, referem-se à Bíblia como a Palavra de Deus e sustentam for­
temente a exatidão do seu conteúdo, embora não chegando a afirmar
uma infalibilidade total. M as os ensinamentos não oficiais de muitos
líderes nos dois m ovimentos frequentemente questionam, injustifica-
damente, esta exatidão.17

Autoria e Data
Um a vez que estabelecemos que possuímos uma reconstrução con­
fiável do que um docum ento antigo continha, com base na comparação
dos manuscritos que existem de uma data m ais antiga, estamos prontos
para com eçar a avaliar a confiabilidade do seu conteúdo. A próxima
pergunta padrão para os historiadores da antiguidade é se podemos
20 Questões Cruciais do Novo Testamento

determinar o autor do documento e a data em que ele foi escrito. Se


acontecer de o autor ser alguém que estava em posição para conhecer
os fatos sobre o povo ou os eventos descritos, se pudermos determinar
que o seu caráter era, de modo geral, confiável, a nossa convicção da
confiabilidade do documento aumenta. Se a data em que a obra foi es­
crita estiver dentro do período de duração da vida de testemunhas ocu­
lares dos eventos narrados, a nossa confiança aumenta, similarmente.
Se estas condições não se cumprirem, nós nos tornamos mais céticos a
respeito do conteúdo da história que é narrada.
Como os Evangelhos e o livro de Atos se mostram, quando testados
de acordo com esses critérios? Admiravelmente bem, pelo menos pelos
padrões antigos. A rigor, os autores destes cinco livros são anônimos,
uma vez que os nomes Mateus, Marcos, Lucas e João não aparecem
em nenhum versículo como os autores destes documentos. Os nomes
aparecem, no entanto, em todos os manuscritos existentes, como títulos
dos quatro Evangelhos. Mas é improvável que quatro dos primeiros
cristãos tivessem decidido independentemente chamar seus textos de
"O Evangelho segundo X" (onde "X " representa o nome do autor). E
mais provável que a Igreja Primitiva acrescentasse esses títulos parale­
los para distinguir um Evangelho do outro, quando eles foram combi­
nados para formar uma coletânea de quatro partes.18
Por outro lado, entre os muitos autores cristãos do período en­
tre o século II e o IV, que comentaram acerca das origens do Novo
Testamento, nenhum nome, senão Mateus, Marcos, Lucas e João, ja­
mais foi oferecido como um possível autor dos Evangelhos e do livro de
Atos. O mais antigo destes autores, Papias, foi um discípulo do apósto­
lo João e escreveu no início do século II, apenas uma geração depois da
morte deste último apóstolo. Uma consideração de tudo o que Papias
declarou sobre os Evangelhos está além do nosso alvo aqui, e há algu­
mas das suas declarações que não parecem completamente confiáveis.19
Mas a Igreja Primitiva teria uniformemente atribuído os três primeiros
Evangelhos e o livro de Atos a Mateus, Marcos e Lucas, sem crer que
eles tivessem sido os seus verdadeiros autores? Afinal, os Evangelhos
e os livros apócrifos de Atos do final do século II até o século V foram
todos (falsamente) atribuídos a cristãos primitivos influentes e de ele­
vada reputação, para tentar fazê-los parecer tão confiáveis e autênticos
quanto possível. Assim, nós temos Evangelhos supostamente escritos
por Pedro e Tiago, Tomé e Filipe, Bartolomeu e Matias (o substituto de
Judas, que traiu a Jesus) e até mesmo Nicodemos e Maria. De maneira
O N ov o Testam ento É h istoricam en te Confiável? 21

similar, os livros apócrifos de Atos aparecem em nome de André, João,


Pedro, Paulo e Tomé.20
Em comparação, Marcos e Lucas são personagens muito mais obs­
curos nas páginas do Novo Testamento. O nom e de Marcos não apa­
rece em nenhuma parte dos Evangelhos; no livro de Atos, ele é mais
conhecido como o com panheiro de viagem de Paulo e Barnabé, que
os abandonou na sua prim eira viagem m issionária (At 13.13). Lucas
aparece apenas nas saudações de encerramento em três das epístolas
de Paulo, que também nos informam que ele era um médico (Cl 4.14;
cf. também 2 Tm 4.11, Fm 24). Nem Marcos nem Lucas fazem parte do
grupo dos doze "apóstolos"; ambos provam ser candidatos imprová­
veis para uma atribuição de autoria, a m enos que realmente tenham
escrito os documentos a eles atribuídos (no caso de Lucas, o Evangelho
que traz o seu nome e o livro de Atos dos apóstolos). Mateus era um dos
Doze, m as, tendo sido um coletor de impostos que trabalhava (indire­
tamente) para os odiados romanos, ele teria sido o mais notório, de um
ponto de vista judeu ortodoxo. Como Simão, o Zelote (na extremidade
oposta do espectro político, violentamente oposto a Roma), Mateus não
teria sido um dos primeiros nove ou dez discípulos a ser escolhido, se
alguém estivesse tentando emprestar autoridade ou credibilidade a um
documento fictício escrito por outra pessoa.
João, por outro lado, pertencia ao círculo mais íntimo dos três discí­
pulos (com seu irmão, Tiago e Pedro) que compartilhavam de experiên­
cias na vida de Jesus das quais os demais não participavam. Um livro
apócrifo de Atos é atribuído a ele, como já observamos, e o testemunho
de Papias não deixa claro se ele pensava que foi João, o apóstolo, que
escreveu o Evangelho que trazia o seu nome, ou um João diferente, cha­
mado o Velho, que pertencia à segunda geração de seguidores do após­
tolo. M as a questão para a qual não apareceu nenhuma boa resposta é a
seguinte: Se o autor do Evangelho de "João" não era o filho de Zebedeu,
e o apóstolo do mesmo nome, por que este autor (diferentemente dos
Sinóticos — Mateus, Marcos e Lucas) sempre se refere a João Batista me­
ramente como "João" e espera que os seus ouvintes saibam de qual João
estava falando? E a aparente referência a si mesmo feita pelo autor deste
Evangelho, cinco vezes referindo-se ao "discípulo a quem Jesus amava",
é perfeitamente compatível com alguém que pertencia ao círculo íntimo
de Jesus (veja Jo 13.23-25; 19.26,27; 34,35; 20.2-5, 8; 21.1-7; 20-22).21
Acadêm icos liberais do Novo Testamento tendem, hoje em dia, a
colocar Marcos alguns poucos anos de um lado ou de outro de 70 d.C.,
22 Questões Cruciais do Novo Testamento

Mateus e Lucas-Atos em algum ponto dos anos 80, e João nos anos 90.
Quanto às datas, todos estes documentos são citados ou mencionados
em textos cristãos do começo do século II, de modo que dificilmente
poderiam ser datados mais tarde do que o século I. Declarações explí­
citas, combinadas com deduções razoáveis dos vários "Pais da Igreja"
levaram, no entanto, muitos acadêmicos conservadores a situar todos
os três Evangelhos Sinóticos, e também o livro de Atos, nos anos 60,
com João ainda nos anos 90.22
A evidência interna destes cinco livros combina bem com as datas
mais antigas. Jam ais foi dada uma explicação completamente convin­
cente para o abrupto final do livro de Atos, a menos que Lucas estivesse
escrevendo pouco tempo depois dos eventos que concluem o livro. Por
qual outro motivo ele teria passado mais de uma quarta parte da sua
obra narrando o aprisionamento, os juízos e a apelação de Paulo (ca­
pítulos 21 - 28), deixando-nos, então, em suspense sobre o período de
prisão domiciliar de Paulo em Roma, esperando os resultados da sua
apelação, a menos que Lucas estivesse escrevendo antes de saber quais
foram estes resultados? Mas, se esta lógica for convincente, então ele
deve ter escrito o livro de Atos aproximadamente em 62 d.C., uma vez
que sabemos, com base em outras fontes, que Festo subiu ao poder na
Judeia em 59. E sabemos, com base no livro de Atos, que Paulo apelou
ao imperador pouco tempo depois da ascensão de Festo, e que ele pas­
sou o inverno seguinte na ilha de M alta, depois do naufrágio, e os dois
anos seguintes em Roma.23
Podemos, então, deduzir que o Evangelho de Lucas foi escrito antes
do livro de Atos dos Apóstolos, uma vez que este último é a sequência
do primeiro. Como muitos acadêmicos modernos acreditam que Lucas
confiou parcialmente no Evangelho de Marcos, este deve ter uma data
anterior. Talvez estes três trabalhos tenham sido escritos, então, nos
anos 60. De acordo com Irineu, que escreveu próximo ao final do sécu­
lo II, Mateus compilou o seu relato "enquanto Pedro e Paulo estavam
pregando o Evangelho e fundando a Igreja em Rom a" (Against Heresies
3.1.1). Isto também exige uma data não posterior a meados dos anos
60, pois depois disso os dois líderes cristãos perderam suas vidas na
perseguição de Nero à Igreja (64-68 d.C.).
O que deve ser ressaltado, no entanto, é que com qualquer conjunto
de datas, seja o mais liberal ou o mais conservador, os Evangelhos e o
livro de Atos foram escritos no século I. Os que não foram escritos por
testemunhas oculares da vida de Cristo, como Mateus e João, foram es­
O N ovo Testam ento É h istoricam en te Confiável? 23

critos por pessoas em posição de entrevistar aquelas testemunhas ocula­


res — Marcos e Lucas. Isso também é verdadeiro mesmo se adotarmos
a abordagem mais cética, de que estes documentos eram originalmente
anônimos, seguindo a suposição liberal padrão de que os autores eram
cristãos da segunda geração, e seguidores dos apóstolos. Além disso,
devemos nos lembrar de que o cristianismo do século I enfrentou inú­
meros oponentes que teriam ficado satisfeitos em refutar as declarações
desta religião recém-nascida. O que seria melhor, do que declarar que os
Evangelhos e o livro de Atos simplesmente não narravam com exatidão
à história? Enquanto houvesse, ainda vivas, testemunhas oculares hostis
à vida de Cristo e à formação da Igreja, esta refutação sempre seria pos­
sível. Mas não há registro, em nenhum lugar, de que alguém tivesse feito
tal declaração. Na verdade, a mais antiga e mais duradoura acusação que
os judeus não cristãos fizeram contra as reivindicações do cristianismo, já
tendo começado durante a vida de Cristo, admitia tacitamente a confia­
bilidade dos seus registros históricos.
H oje, um período de trinta a sessenta anos entre uma série de
eventos e os registros históricos que os narram , parece um tem po
m uito longo. Se Jesus foi crucificado por volta de 30 d.C., e o prim ei­
ro Evangelho foi escrito nos anos 60, e o últim o nos anos 90, certa­
mente uma considerável distorção poderia ter se desenvolvido dentro
deste período de tempo. Parte da nossa resposta a esta alegação virá
m ais adiante neste capítulo. Aqui, são im portantes dois com entários.
Em prim eiro lugar, há razões para crer que M ateus, M arcos, Lucas
e João tenham usado fontes escritas anteriores, mais curtas que um
Evangelho inteiro, para pesquisar e escrever porções de seus livros.
Estas fontes anteriores podem ser datadas por volta dos anos 50. As
palavras idênticas em inúm eras frases de Jesus, traduzidas de seu ara-
m aico original ao grego, encontradas tanto no Evangelho de M ateus
como no de Lucas, mas não no de M arcos, sugerem a dependência
destes autores de uma fonte com um que não fosse o texto de M arcos.24
M enos seguro, mas ainda bastante possível, é o uso que João faz de
uma "fon te de m ilagres", frequentem ente datada nos anos 60, para as
suas histórias particulares de m ilagres, neste caso devido a um estilo
singular, perceptível em partes destas narrativas. É interessante que
até m esm o o Seminário Jesus aceita estas duas hipóteses como prová­
veis desta maneira reduzindo à metade o período de tempo em que,
segundo acreditam, m uitas das palavras e obras de Jesus circularam
antes de serem com piladas em algum tipo de documento escrito (de
24 Questões Cruciais do Novo Testamento

30-50 d.C. versus 30-70 ou 80 para os Sinóticos, e de 30-60 versus 30-90


para João).25
Em segundo lugar, mesmo 60 anos entre um conjunto de eventos e
uma história escrita sobre eles é um período de tempo admiravelmente
curto para os padrões antigos. As sagas lendárias dos antigos heróis
gregos e romanos circularam de boca em boca durante séculos, às vezes
durante mais de um milênio, antes de serem escritas. M esmo as biogra­
fias relativamente moderadas de Alexandre, o Grande, por exemplo,
que ainda existem datam do final do século I e início do século II d.C.
Mas Alexandre morreu em 323 a.C., de modo que há um intervalo de
aproximadamente quinhentos anos antes que seus biógrafos, Plutarco
e Arriano, escrevessem seus livros sobre a sua vida. Os dois autores,
no entanto, dedicam um copioso reconhecimento a fontes escritas an­
teriores, e os historiadores clássicos acreditam que a partir destas obras
possam obter, de maneira detalhada, informações históricas exatas so­
bre Alexandre, enquanto, ao mesmo tempo, reconhecem que elas não
são, de maneira alguma, isentas de falhas.26 A citação frequentemen­
te comentada, do historiador romano A. N. Sher-win-White, de uma
geração anterior a nossa, ainda resume a ironia que cerca o ceticismo
contemporâneo: "A ssim , é assombroso que, enquanto os historiado­
res greco-romanos crescem em confiança, o estudo das narrativas do
Evangelho no século XX, tendo começado de um material não menos
promissor, tenha sofrido uma reviravolta tão som bria..."27

Os Gêneros dos Evangelhos e do Livro de Atos


Tudo o que dissemos, até agora, pressupõe que os quatro evangelis­
tas pensaram estar escrevendo história e biografia relativamente diretas.
Isto é, certamente o que os Evangelhos e o livro de Atos parecem estar
apresentando, e é a maneira dominante como os leitores interpretaram
estas obras ao longo da História da Igreja. Mas será correta essa pressu­
posição? Na literatura do mundo mediterrâneo antigo, quais são os pa­
ralelos mais próximos a estes documentos, e o que podem os aprender
das tentativas de rotular a sua forma ou o seu gênero literário? Vários
esforços foram feitos pela crítica bíblica moderna, para declarar estas
obras como predominantemente fictícias, com base em supostos pa-
ralelismos com mito, lenda, romance e gêneros semelhantes. Durante
grande parte do século XX, uma grande parcela dos críticos declarou
que o seu gênero era sui generis (isto é, único, singular, ou, literalmente,
o seu "próprio gênero").28 Mas um grande número de estudos especiali­
O N ovo Testam ento É historicam en te Confiável? 25

zados recentes reconhece que os mais próximos paralelos são encontra­


dos entre as histórias e biografias relativamente confiáveis, de autores
como o historiador judeu Josefo, e os historiadores gregos Heródoto
e Tucíd ides.29 Particularmente instrutivos são os prefácios aos livros
de Lucas e Atos (Lc 1.1-4; At 1.1,2), que não somente são paralelos aos
prefácios das obras destes historiadores não cristãos, mas também des­
crevem a confiança de Lucas em fontes anteriores, entrevistas com tes­
temunhas oculares e tradição oral confiável. Em bora o esforço para pro­
var que Lucas era médico, com base no uso de um vocabulário supos­
tamente médico, tenha sido abandonado há quase um século, Loveday
Alexander demonstrou que os mais próximos paralelos à linguagem de
Lucas aparecem em "prosa técnica" greco-romana, o que ela define, em
um escopo amplo, como literatura "científica", incluindo tratados sobre
tópicos com o medicina, filosofia, m atemática, engenharia e retórica.30
Estes paralelos novamente distanciam os autores bíblicos da literatura
mais abertamente fictícia dos seus dias e inspiram confiança de que a
preocupação com a exatidão era uma das principais características da
composição dos Evangelhos e do livro de Atos.
O Evangelho de João obviam ente é mais diferente dos Sinóticos do
que semelhante a eles, nos detalhes que apresenta sobre a vida de Jesus,
incluindo o estilo linguístico das palavras de Jesus. Não é de surpre­
ender que os acadêmicos tenham questionado se o Quarto Evangelho
poderia ser identificado com o mesmo gênero, e prova ser tão exato
como os Evangelhos de M ateus, Marcos e Lucas. A declaração de in­
tenções do Quarto Evangelho aparece em João 20.31: "Estes [sinais],
porém, foram escritos para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de
Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nom e". Esta declaração
poderia sugerir que a vontade de João em promover a fé cristã teria so­
brepujado o seu interesse pela exatidão histórica. Mas alguém poderia
perguntar se a literatura abundantemente fictícia teria promovido tal
fé, quando outros, no mundo de João, poderiam ter menosprezado a
sua narrativa. Em outras passagens, fica claro que um dos principais
interesses de João é a "verd ad e" (veja, especialmente, 19.35; 21.24). É di­
fícil im aginar que ele tivesse pensado que uma narrativa grandemente
falsificada iria ajudar as pessoas a crer na verdade, em qualquer nível,
histórico ou teológico.31 A razão por que João inclui episódios tão dife­
rentes dos Evangelhos Sinóticos é provavelmente porque reconhecia
que os seus ouvintes (as igrejas de Efeso e redondezas) já conheciam
uma boa porção daquele m aterial, pelo seu ministério de ensinamento
26 Questões Cruciais do Novo Testamento

anterior entre eles.32 O estilo característico de João é claramente o seu


próprio. Mas a razão que ele apresenta para se sentir livre para escrever
sobre os ensinamentos de Jesus nas suas próprias palavras, mais do que
Mateus, Marcos e Lucas — especificamente, a inspiração do Espírito
Santo (Jo 14.26) — é uma razão fundamental para crer que João, apesar
disso, preservou com exatidão a essência dos ensinamentos de Jesus.
Em um espectro de obras antigas, que vão de crônicas altamente ob­
jetivas da história a obras de total ficção, João talvez caia ligeiramente
mais além do primeiro tipo do que os Sinóticos, mas os três primeiros
Evangelhos ainda continuam sendo os paralelos literários mais próxi­
mos a João na antiguidade.33
O que frequentemente confunde os leitores modernos é o fato de
que as convenções contemporâneas para escrever história e biografia
normalmente requerem padrões de precisão que as pessoas ainda não
tinham sequer inventado, e muito menos começado a seguir no mundo
antigo. Em culturas que ainda teriam que criar algum símbolo que cor­
respondesse as nossas aspas, ou sentir a necessidade de fazer isso, era
perfeitamente apropriado expressar com as próprias palavras as de ou­
tra pessoa, com a condição de ser fiel à "essência" ou intenção do ora­
dor original. Era considerado não somente apropriado, mas também
necessário abreviar ou resumir as narrativas longas, inserir os próprios
comentários no texto (como observações entre parêntesis, em um mun­
do que não tinha símbolos para parêntesis) e ser altamente seletivos
quanto ao que era narrado sobre uma determinada pessoa ou evento.34
Hoje, nós julgaríam os uma biografia deficiente se ela não narrasse algo
sobre o nascimento e a educação de um indivíduo, ou se passasse pra­
ticamente metade do seu tempo descrevendo os eventos imediatamen­
te anteriores à morte deste indivíduo. O mesmo seria verdadeiro se o
texto rearranjasse os eventos fundamentais da vida de uma pessoa por
assuntos, em vez de seguir uma cronologia estrita. Mas quando Marcos
e João fazem exatamente estas coisas, estão seguindo bons preceden­
tes mediterrâneos antigos. A obra Lives o f the Philosophers, compilada
por Diógenes Laércio no início do século III frequentemente é muito
parecida com os Evangelhos canônicos neste aspecto. Quando alguém
recorda que os cristãos acreditavam que o aspecto mais significativo da
vida de Jesus foi a sua morte (pelos pecados do mundo), a sua escolha
de ênfases faz sentido.
Com respeito ao livro de Atos, muitos estudos acadêmicos se dedi­
caram aos seus sermões. Por um lado, os críticos se queixam, às vezes,
I >N ovo Testam ento É h istoricam en te Confiável? 27

de que a mensagem central de cada sermão é a mesma, independen­


temente de quem o profira. Lucas — alegam eles — deve ter criado
um protótipo "tam anho ú nico" e o atribuído indiscriminadamente a
nula pregador cristão. Por outro lado, os críticos também observam a
ex Ira ordinária variação de detalhes específicos de um sermão a outro,
c novamente atribuem esta variedade à criação de Lucas. Certamente
o mesmo orador, por exem plo, Paulo, não teria variado tanto as suas
mensagens de uma ocasião para outra.
Na verdade, estas duas críticas se cancelam mutuamente! O que a
combinação de unidade e diversidade na pregação do livro de Atos de­
monstra é quão perfeitam ente cada mensagem é expressa sob medida
para o seu público particular. Paulo e Pedro podem se parecer quando
lalam para o mesmo tipo de público, como no templo judaico ou nas
sinagogas (conforme, por exemplo, At 3.12-26 com 13.16-48). Mas as
palavras de Paulo soam muito diferentes quando ele fala aos pagãos
em Listra, para quem o A ntigo Testamento e o cumprimento das es­
peranças dos judeus não significavam nada (14.15-18). Mas os pontos
comuns essenciais — a im portância da ressurreição de Jesus e a necessi­
dade do arrependimento dos pecados para receber perdão, e o Espírito
Santo residente em cada cristão — mostram que há uma unidade na
antiga m ensagem cristã que transcende qualquer contexto específico.35

O Sucesso do Empreendimento dos Evangelistas


Poderíam os concordar que Mateus, Marcos, Lucas e João pensavam
que estavam escrevendo um bom material de história e biografia, pelos
padrões do seu tempo. M as eles foram bem-sucedidos? Aqueles que
respondem negativamente a esta pergunta frequentemente baseiam a
sua opinião em uma ou em todas as três alegações a seguir.

I n ter esse H is t ó r ic o ?

Para começar, com frequência se discute que a primeira geração de


cristãos não teria estado terrivelmente interessada em preservar um
registro histórico preciso de suas origens. Três linhas de raciocínio, à
prim eira vista, parecem sustentar essa afirmação. Em primeiro lugar,
há a alegação de que os profetas cristãos antigos falavam, em nome do
Senhor ressuscitado, aquilo que acreditavam que Deus estava dizendo
às igrejas, por seu intermédio, e que estas palavras teriam se mesclado
com os ensinamentos do Jesus histórico. Afinal, era a mesma pessoa
28 Questões Cruciais do Novo Testamento

que falava em am bas as ocasiões, e os oráculos greco-romanos pare­


cem ter adotado prática similar. Em segundo lugar, a primeira gera­
ção do cristianismo certamente alimentava uma esperança viva do fim
do mundo, propiciado pelo retorno de Cristo, dentro do período da
sua vida. Sendo assim, quem estaria vivo para ler uma história sobre o
seu movimento? Finalmente, a tendência ideológica dos autores — um
comprometimento apaixonado com a teologia cristã — inevitavelmen­
te teria distorcido os seus relatos. Nós devemos considerar estas possi­
bilidades, cada uma por sua vez.
Com relação à profecia cristã, independentemente de possíveis ana­
logias com outras religiões da época, o único dado atual que temos em
o Novo Testamento contradiz a declaração de que as palavras de Jesus
durante a sua vida estivessem mescladas com o que os cristãos poste­
riores acreditavam que Ele estava dizendo às igrejas. As três referências
reais em que conhecemos o conteúdo da profecia cristã do século I dis­
tinguem claram ente as suas palavras das do Jesus histórico. Duas vezes
no livro de Atos, Ágabo aparece em cena para profetizar — a primeira
vez, a respeito de uma fome que viria à Judeia, e a segunda vez, sobre o
iminente aprisionamento de Paulo em Jerusalém (At 11.28; 21.11). Uma
vez no livro do Apocalipse, lemos que as palavras específicas de João
às igrejas locais lhe tinham sido dadas como profecia (Ap 2 - 3 como
resultado de 1.3). Em nenhuma passagem dos Evangelhos estas coisas
aparecem como se Jesus as tivesse dito durante a sua vida. A hipótese,
pelo contrário, é infundada.36
Com respeito à crença de que o mundo poderia acabar a qualquer
momento, é importante observar que esta não era uma convicção exclu­
siva dos cristãos. Os judeus, a partir do século VIII a.C., tiveram uma
sucessão de profetas que declaravam que o Dia do Senhor era chegado
(por exemplo, J1 2.1; Ob 14; Hc 2.3). Mas os séculos passaram, o mundo
continuou a existir na sua forma atual, e os judeus escreveram a pre­
gação destes mesmos profetas em livros que fariam parte do seu cânon
bíblico. No período intertestamentário, Salmos 90.4 tornou-se um texto
favorito para explicar como o judaísmo ainda podia crer em um imi­
nente dia do juízo: "M il anos são aos teus olhos [aos olhos do Senhor]
como o dia de ontem que passou".37 O que parece ser longo a partir de
uma perspectiva humana é muito breve da perspectiva eterna de Deus.
Além disso, a seita dos essênios de Qumran, que nos deu os Rolos do
mar Morto, abrigava uma esperança tão vívida como qualquer grupo
judeu pela intervenção iminente e apocalíptica de Deus neste mundo,
O N ovo Testam ento É h istoricam en te Confiável? 29

para punir os seus inimigos e defender os seus seguidores. Mas os essê-


nios produziram mais literatura, incluindo obras que permitem que os
acadêmicos de hoje apresentem a evolução da sua comunidade, do que
qualquer outro grupo judeu que conhecemos nos tempos pré-cristãos.
Uma vez que todos os prim eiros cristãos eram originalmente judeus,
é duvidoso que uma convicção de que Jesus pudesse retornar durante
o tem po da sua vida os im pedisse de estar interessados em registrar a
sua história.
Quanto à noção de que um forte comprometimento ideológico ne­
cessariam ente leva à falsificação ou distorção de registros históricos,
realmente, às vezes, o oposto é verdadeiro. Não há dúvida de que um
programa especial pode distorcer os fatos, mas em certos casos os m es­
mos compromissos ideológicos que levam a registrar uma determ i­
nada fração da história exigem que se conte a história corretamente.
Considere o exemplo dos historiadores judeus depois do holocausto
nazista na metade do século XX. Precisamente por causa da sua apai­
xonada preocupação de que tais atrocidades jam ais acontecessem no­
vamente ao seu povo (ou a qualquer outro), os cronistas judeus cuida­
dosamente coletaram e divulgaram , detalhe após detalhe, os horrores
que o seu povo tinha vivenciado, culminando na morte de seis milhões
de pessoas. Por outro lado, foram certos autores não judeus mais re­
centes, e não pessoalmente envolvidos nos eventos da Segunda Guerra
Mundial, que geraram os relatos "revisionistas", declarando falsam en­
te que um número muito m enor de vítimas estava envolvido.
A prática dos autores do Novo Testamento corresponde intim am en­
te a este exemplo dos historiadores judeus modernos. O que distinguia
as declarações de judeus e cristãos das declarações de todas as outras
religiões no antigo mundo mediterrâneo era a fé de que Deus tinha
agido de modo singular na história, por intermédio de seres humanos
reais e recentes, para propiciar a salvação para a humanidade. O que
distinguia o cristianismo de suas raízes judaicas era a declaração de
que a oferta decisiva, que expiaria os pecados de uma vez por todas,
era fornecida pela crucificação do homem Jesus de Nazaré, que foi sub­
sequentem ente justificado por Deus pela sua ressurreição corpórea da
sepultura. Se essas declarações não forem historicamente precisas, o
cristianism o desmorona.38 Portanto, a mesma teologia que os céticos
afirmam que teria deturpado os relatos do Novo Testamento muito pro­
vavelmente agia como uma proteção contra tal distorção. Além disso,
até onde sabemos, os antigos jam ais escreveram a história sem alguma
30 Questões Cruciais do Novo Testamento

lente ideológica por meio da qual estes eventos eram examinados. A


sua atitude, basicam ente, era perguntar que objetivo havia em registrar
a história se o povo não pudesse aprender algumas lições disso. Ao
mesmo tempo, contrariamente às declarações de alguns acadêmicos
modernos, eles poderiam distinguir a boa história da má, mesmo con­
siderando propósitos propagandísticos (veja especialmente Luciano,
On Writing History).39

H a b il id a d e p a r a E sc rev er a H is t ó r ia ?

Podemos admitir que os primeiros seguidores de Jesus estiveram


interessados em escrever a história da fundação do seu movimento.
Mas surge uma segunda pergunta. Eles seriam capazes de escrever uma
história confiável? Mesmo se aceitarmos as datas conservadoras para os
Evangelhos Sinóticos e o livro de Atos (os anos 60) e se reconhecermos
que estes livros dependiam de fontes escritas ainda mais antigas, de
testemunhos oculares e da tradição oral, trinta anos parece um tempo
longo demais para que tudo fosse preservado intacto. Bart Ehrman fala
em nome de muitos céticos quando compara o processo ao jogo infantil
do "telefone sem fio".411Em uma sala cheia com umas vinte pessoas,
sussurre uma frase comprida e complicada à primeira pessoa, peça que
ela sussurre à próxima pessoa o que ouviu e recorda, e o processo deve
continuar até que a mensagem tenha sido "transm itida" à última pes­
soa da sala. Quando você pedir que esta última pessoa repita em voz
alta a mensagem, para que todos ouçam, norm alm ente é cômico, por­
que a mensagem ficou muito deturpada. Como podemos imaginar se­
riamente os cristãos preservando, por todo o Império Romano, durante
toda uma geração, o enorme número de detalhes que encontramos nos
Evangelhos e no livro de Atos?
A resposta mais simples a essa pergunta é que o processo da trans­
missão de informações sobre Jesus e a Igreja Primitiva trazia pouca se­
melhança com o comportamento descontrolado de crianças brincando
de "telefone sem fio". O Império Romano do século I continha somente
culturas orais. Toda informação importante circulava de boca em boca.
A maioria das pessoas que vivia no império era analfabeta. Os homens
judeus tinham uma instrução muito maior do que o resto da população,
porque muitos deles frequentaram a escola em sinagogas locais, desde
os cinco anos de idade até os doze ou treze. Eles teriam aprendido o su­
ficiente para serem capazes de ler as Escrituras em hebraico, mas pou­
cos teriam meios para possuir suas próprias cópias. Assim a educação
() N ovo Testam ento É h istoricam en te Confiável? 31

acontecia, como também era o caso no mundo greco-romano, por m e­


morização. Muitos homens judeus tinham m em orizado consideráveis
I ragmentos do que nós cham am os de Antigo Testamento. Os aspirantes
a rabinos, que se submetiam a treinamento adicional durante a sua ado­
lescência como alunos de reverenciados professores judeus, em alguns
casos aprendiam todo o conteúdo das Escrituras. Há até mesmo relatos
de escribas que concluíam uma cópia do Antigo Testamento e então
um respeitado rabino a revisava, comparando-a com a versão que ti­
nha memorizado! Meninos que tinham acesso à educação no mundo
greco-romano, às vezes, memorizavam a Ilíada e a Odisséia de Homero,
parcial ou integralmente. N esse tipo de cultura, confiar o conteúdo de
um livro tão pequeno com o um Evangelho à memória teria sido com­
parativamente fácil, especialmente quando observamos que 80 a 90%
dos ensinam entos de Jesus são formulados em forma poética.41
Pode, no entanto, haver objeções de que nós não temos quatro
I vangelhos que sejam idênticos, palavra por palavra. A memorização
pode explicar algumas das similaridades, embora já tenhamos observa­
do que a dependência literária que um Evangelho tem de outro ou de
uma fonte comum provavelmente explique o número de textos em que
aparecem palavras idênticas. Mas o que acontece com todas as diferen­
ças? Um a das respostas a tal pergunta envolve uma segunda dim en­
são para o costume de memorização das antigas tradições sagradas do
Oriente Médio. As tradições sagradas transmitidas unicamente de boca
a boca eram narradas, algum as vezes até mesmo cantadas, por conta­
dores de histórias em pequenos vilarejos onde as pessoas frequente­
mente se reuniam ao redor de uma fogueira depois de anoitecer, depois
do jantar, em um ambiente (sem eletricidade) onde havia pouco para
lazer, se não fosse isso. Nestas situações, e principalmente para m an­
ter o interesse em histórias bastante conhecidas, qualquer contador de
histórias tinha o direito de om itir ou incluir, de expandir ou abreviar e
de inserir comentários sobre os vários detalhes das histórias. Mas essa
llexibilidade na transmissão tinha limites específicos. Os pontos fixos
em cada história, sem os quais os relatos não poderiam ser compreen­
didos apropriadamente, tinham que ser preservados com exatidão, e
.) com unidade tinha a responsabilidade de interromper e corrigir um
contador de histórias, se estes pontos fixos não fossem adequadamente
apresentados. Na maioria dos casos, uma dada "perform ance" variava
entre 10 a 40% da anterior. E interessante constatar que esta porcenta­
gem é muito similar à variação de um Evangelho Sinótico em relação
32 Questões Cruciais do Novo Testamento

ao outro, sempre que dois ou mais narram o mesmo episódio. Assim,


provavelmente nós precisamos caracterizar "a evolução na tradição
oral" além da cópia literária e da edição teológica, como um compo­
nente significativo na formação dos Evangelhos, da maneira como os
conhecemos.42
Dois outros elementos na antiga tradição oral cristã a separam dras­
ticamente da analogia do "telefone sem fio" de Ehrman. Em primeiro
lugar, existe evidência de que os rabinos permitiam que os indivíduos
tomassem nota depois dos ensinamentos, para facilitar o aprendizado
e a memorização. Embora esta noção tenha sido satirizada, não é, de
maneira alguma, irracional imaginar alguns dos discípulos de Jesus
rabiscando lembretes para si mesmos depois de um dia de exposição
ao seu ministério de ensinamento, para ajudá-los a recordar os seus
pontos principais. Algo semelhante a isso parece ter sido o processo uti­
lizado em Qumran, para preservar os ensinamentos do seu "Professor
de Justiça" anônimo.43 Em segundo lugar, o costume de Pedro, João
e Tiago no livro de Atos, e nas epístolas, de realizar viagens ou fazer
reuniões para acompanhar a chegada do evangelho a uma nova loca­
lização geográfica, mostra que a Igreja Primitiva desejava assegurar a
exatidão daquilo que era pregado ou ensinado (veja especialmente At
8; 15; 21; G 11 - 2). A Igreja recém-nascida não era uma entidade amorfa
e descontrolada como muitas vezes é retratada; mas, ao contrário, era
uma comunidade "im pulsionada por objetivos" com uma reconhecida
liderança e mecanismos de responsabilidade.44

E x a t id ã o no P r o d u t o F in a l ?

Nós vim os que os autores dos Evangelhos e do livro de Atos pro­


vavelm ente estiveram interessados na preservação das biografias de
Jesus e da história da prim eira geração do cristianism o. Nós observa­
mos que todos os m ecanism os estavam funcionando no mundo deles,
para que tivessem feito isto com um alto grau de exatidão. A últi­
ma pergunta desta série, de que devem os tratar agora, é: "M as eles
foram bem -sucedidos nesta tarefa?" Quando com param os os relatos
dos quatro Evangelhos, onde eles são paralelos, ou quando tentam os
adequar a inform ação no livro de Atos juntam ente com a informação
histórica encontrada nas epístolas de Paulo, percebem os harm onia ou
desacordo? Certam ente, foram elaboradas longas listas de supostas
contradições aqui e em outras passagens na Bíblia.45 Será que estas
seriam suficientes para refutar declarações de confiabilidade histórica
O N ovo Testam ento É historicam en te Confiável? 33

independentem ente dos argum entos mais genéricos apresentados até


aqui?

Os Quatro Evangelhos
A única maneira com pletamente adequada de responder a esta per­
gunta seria considerar as supostas contradições, uma por vez, o que
resultaria em um livro m uito mais extenso. Em outros trabalhos, in­
vestiguei praticamente todas as famosas supostas contradições, tan­
to entre os três Sinóticos, com o entre os Sinóticos e João, e recom en­
do que o leitor leia estas discussões com pletas.46 Uma considerável
maioria das aparentes discrepâncias desaparece, quando recordamos
os padrões mais livres de narração histórica do mundo antigo (veja o
tópico "O s Gêneros dos Evangelhos e do Livro de A tos"). Mas mesmo
o nosso mundo moderno e científico preserva convenções similares.
Ninguém pensa em acusar o repórter de um erro quando ele declara:
"O Presidente Fulano de Tal anunciou hoje que..." quando, na verdade,
foi o seu secretário de imprensa que leu um documento, escrito por um
roteirista e supostamente apresentado ao presidente, ainda que rapida­
mente. A ssim , não deveríamos ficar surpresos quando Mateus converte
a narrativa do centurião gentio que pedia um milagre de Jesus, por
meio de judeus intermediários (segundo Lucas 7.6) em uma narrativa
em que o próprio centurião vem com o pedido (Mt 8.5). Agir por meio
de um intermediário pode ser descrito como agir por si mesmo.
Inúmeros outros exem plos poderiam ser fornecidos. A Última Ceia
foi celebrada na noite da refeição da Páscoa (aparentemente segundo
Marcos 14.12-16), ou antes dela (aparentemente segundo João 18.28 e
19.14)? Provavelmente foi na Páscoa, uma vez que João 18.28 parece
fazer referência à festa da Páscoa que dura uma semana, ao passo que
0 versículo 19.14 pode ser interpretado como o Dia da Preparação para
1 >slibado durante a semana da Páscoa (como na NVI). Jesus enviou os

demônios aos porcos em Gerasa (Mc 5.1; Lc 8.26, ARA) ou em Gadara


(Mt 8.28)? Provavelmente foi perto de Khersa — uma cidade na mar­
gem oriental do mar da Galileia, cuja grafia em grego poderia facil­
mente resultar em Gerasa — na província de Gadara.47 O que queremos
dizer aqui é que nenhum destes problemas é novo. Os pais da Igreja
1 Yimitiva, escrevendo no período do século II a VI, estudaram o Novo
Iestam ento o suficiente para reconhecer todas as aparentes discrepân-
i ias no texto que os críticos modernos enfatizam. O famoso comentário
de Agostinho, do século V, intitulado Harmonia dos Evangelhos, trata de
34 Questões Cruciais do Novo Testamento

um grande número destas discrepâncias. Hoje, praticamente qualquer


comentário evangélico detalhado sobre um dos quatro Evangelhos ou
o livro de Atos incluirá possíveis soluções para estes problemas na sua
exposição, passagem a passagem. Nem todas as harmonizações são
igualmente convincentes, e m uitas "contradições" têm mais de uma
solução plausível. Mas a questão é que homens e mulheres cuidadosos
e atentos, ao longo da História da Igreja, e plenamente cientes destes
problemas, também reconheceram que nenhum deles precisa minar
a confiança do outro no que diz respeito à confiabilidade da Bíblia. É
muito frequente que céticos modernos deem a entender que, se nós
conhecemos hoje algo que nossos predecessores não conheciam, isso
agora torna indefensável a fé na confiabilidade histórica das Escrituras.
Essa declaração é simplesmente falsa.
De fato, o que mudou são as atitudes de muitos acadêm icos com
relação à harm onização. Com o observam os acim a, os historiadores
clássicos são m uito mais confiantes sobre a nossa capacidade de re­
cuperar fatos históricos de antigos docum entos, m esm o quando eles
parecem conter pequenas contradições, do que o são muitos acadêm i­
cos bíblicos. Um excelente exem plo disso vem da obra do historiador
canadense, Paul Merkley. A travessia de Júlio C ésar do rio Rubicon
quando retornava da Gália à Itália em 49 a.C. frequentem ente é apre­
sentada com o um fato indiscutível da história rom ana, que também
teve im portância histórica. Com este ato, César se com prom eteu com a
guerra civil, e o curso da república romana foi alterado, para sempre;
ela se tornaria um império. O que frequentemente não é mencionado
é que não sabem os, ao certo, a data exata, nem o local desta traves­
sia. Além disso, como acontece com os Evangelhos, nós temos quatro
relatos do evento, narrado por historiadores posteriores — Velleius
Paterculus, Plutarco, Suetônio e Appian. Som ente o primeiro destes
quatro hom ens nasceu antes da metade do século I depois de Cristo.
Todos afirmam ter confiado em uma mesma testem unha ocular, ou
seja, Asnius Pollio, cujas obras desapareceram com pletam ente. Os
quatro relatos variam aproxim adam ente da mesma maneira que os
Evangelhos, quando seus conteúdos se sobrepõem. Suetônio inclu­
sive chega a introduzir um m ilagre no seu relato, declarando que a
decisão de César foi m otivada porque ele viu "um a aparição de tam a­
nho e beleza sobre-hum anos" que "estava sentada à margem do rio,
tocando uma flauta de pastor". M as a travessia de César do Rubicon
continua a ser citada como um dos mais bem estabelecidos fatos histó­
() N ovo Testam ento É h istoricam en te Confiável? 35

ricos da antiguidade. Uma confiança sim ilar deve ser transferida para
os quatro Evangelhos, que perm anecem m uito próxim os, em tem po e
acesso aos eventos que eles narram .48
Em outros trabalhos, mostrei como os historiadores da vida de
Alexandre, o Grande, assim como estudantes de Josefo, que com pa­
ram os seus vários textos sobre uma dada pessoa ou evento, adotam
regularmente uma forma cuidadosa de harm onização de detalhes
aparentemente discrepantes. Somente porque algumas harmonizações
se mostram não plausíveis, isto não significa que todo o método deva
ser descartado. Por exemplo, é improvável que a solução ao proble­
ma das várias localidades onde Jesus cura o cego, perto de Jericó, dos
Evangelhos Sinóticos (quando Jesus estava "sain d o" da cidade — Mc
10.46; M t 20.29 — ou quando Ele estava "chegando perto" de Jericó —
1 ,c 18.35) se dá com a suposição de duas Jericós diferentes, uma delas,
o local do Antigo Testamento que está em ruínas, e a outra, a cidade
do Novo Testamento, com o já foi sugerido algum as vezes. Nenhum
ouvinte do século I suporia que um narrador tivesse em mente uma
cidade desabitada desde muitos séculos, quando falasse simplesmen-
te de "Jericó ". A expressão grega, traduzida com o "chegando perto"
pode simplesmente querer dizer "estando na proximidade de".4*' Por
outro lado, somente Mateus fala de Jesus curando dois cegos nesta nar­
rativa (Mt 20.30-34). Mas nem Marcos nem Lucas declaram que havia
apenas uma pessoa presente, de modo que é natural imaginar que es-
les dois autores do Evangelho, ou a tradição oral que eles herdaram,
tinham simplesmente sim plificado o relato e falado somente daquele
que interagiu mais diretamente com Jesus e cujo nome foi preservado
- Bartimeu. Esse tipo de harmonização "ad itiva" é comum em estudos
acadêmicos de outros personagens antigos.51’
Mas o que acontece com as diferenças muito maiores entre os
Evangelhos Sinóticos e o Evangelho de João? Novamente terei que re­
comendar ao leitor a minha discussão muito mais ampla deste tema, em
um livro inteiro sobre o assunto.51 Mas podemos fazer algumas genera­
lizações aqui. Em primeiro lugar, com o risco de declarar o óbvio, uma
das razões por que João parece tão diferente é porque ele não depen­
de diretamente de um ou mais Sinóticos, da mesma maneira como os
Evangelhos de Lucas e M ateus dependem do de Marcos. Se os quatro
evangelistas tivessem escrito, totalmente independente uns dos outros,
haveria tanta diversidade de detalhes entre os Sinóticos como há entre
os Sinóticos e João. Embora usando hipérboles, o comentário final de
36 Questões Cruciais do Novo Testamento

João, de que "H á, porém, ainda m uitas outras coisas que Jesus fez", de
modo que "se cada uma das quais fosse escrita, cuido que nem ainda o
mundo todo poderia conter os livros que se escrevessem ", certamente
se aplica a todos os personagens — principais, complexos e influentes
— da história. Se não tivéssemos três Evangelhos tão semelhantes, as
diferenças entre João e qualquer um dos outros não seria tão incisiva.
Em segundo lugar, e intimamente relacionado com isso, nós deve­
mos nos lembrar do quanto João e os Sinóticos têm em comum, e não
nos concentrar meramente nas diferenças. Uma lista parcial incluiria:

1. O retrato de João Batista como cumprimento de Isaías 40.3 e


como o precursor do Messias;
2. O contraste entre o batism o de João, com água, e o futuro
batism o do Messias, com o Espírito Santo;
3. O Espírito ungindo Jesus, como testificado por João Batista;
4. A refeição dos cinco mil;
5. Jesus andando sobre a água;
6. A ordem a um paralítico: "Toma a tua cama e anda";
7. A cura do filho de um centurião romano, à distância;
8. Curas milagrosas que infringem as leis do sábado, que
proibiam o trabalho neste dia;
9. A recusa de Jesus em realizar milagres m eramente para
satisfazer os seus oponentes;
10. O fracasso das tentativas de prender Jesus, prematuramente;
11. A amizade de Jesus com a reflexiva Maria e a atarefada
Marta;
12. A insistência de Jesus na necessidade de um novo
nascimento espiritual;
13. A promessa de uma colheita abundante para os lavradores
espirituais;
14. A rejeição de um profeta na sua terra natal;
15. O juízo pelas obras dos incrédulos;
16. O Pai revelando o Filho, e ninguém conhecendo plenamente
o Pai, senão o Filho;
17. Jesus e os seus discípulos, como "a luz do m undo";
18. O ensinamento de Jesus, funcionando, em parte, para
endurecer os corações daqueles que já o tinham rejeitado,
cumprindo Isaías 6.9,10;
19. Jesus como o bom pastor;
() N ovo Testam ento É historicam en te Confiável? 37

20. O verdadeiro discipulado como a atitude de servir;


2 1. Jesus resistindo à tentação para abandonar o caminho para a
cruz;
22. Receber Jesus é com o receber àquEle que o enviou;
23. Um discípulo não é m aior do que o seu Mestre;
24. A promessa de que o Espírito Santo dirá aos seguidores de
Jesus o que deverão dizer no futuro;
25. A futura expulsão dos crentes das sinagogas judaicas;
26. A dispersão dos crentes expulsos, por todo o mundo
conhecido; e
27. Os discípulos recebem a autoridade para perdoar ou reter os
pecados dos outros. 52

E a lista poderia ser ainda maior.


Em terceiro lugar, as circunstâncias singulares que conduzem à
com posição do relato do Q uarto Evangelho, pela decisão de João de
narrar episódios diferentes da vida de Cristo. Com binando evidências
internas e externas, parece que o Evangelho de João foi escrito no final
tio século I, para as várias congregações de Éfeso e das suas redon­
dezas, para com bater desafios semelhantes aos que a igreja daquela
com unidade estava enfrentando. Por um lado, o professor gnóstico
Cerinto tinha conquistado seguidores entre os cristãos dali, prom o­
vendo, entre outras coisas, um "docetism o" que aceitava a divindade
de Jesus, mas negava a sua hum anidade. As inúm eras referências, por
lodo o Evangelho de João, a Jesus realm ente se tornando carne, tendo
em oções, comendo e bebendo, sendo subordinado ao seu Pai, e não
lazendo nada além de realizar a vontade do seu Pai, o que finalm ente
incluiu m orrer uma m orte torturante e com pletam ente humana, tudo
isso, sem dúvida, está incluído para com bater este erro teológico. Por
outro lado, no final do século I, a separação entre igreja e sinagoga se
foz com pleta principalm ente porque os líderes judeus tinham exco­
mungado o seu próprio povo, que professava a fé em Jesus, como o
Messias. Assim , uma alta porcentagem das passagens exclusivas de
|oão envolve Jesus pregando a líderes judeus, ou discutindo com eles,
para justificar seus atos e suas declarações. A leitura destas histórias
devia encorajar os cristãos judeus de que eles tinham realmente to­
mado a decisão correta, seguindo Jesus e tam bém dar-lhes "m u n ição"
evangelística, para lidar com seus amigos judeus e seus fam iliares não
salvos.53
38 Questões Cruciais do Novo Testamento

Em quarto lugar, há inúm eros exem plos fascinantes de integração


entre o Evangelho de João e os Sinóticos em que um episódio ou de­
claração nos Sinóticos faz sentido somente se tiverm os informações
exclusivas de João, e vice-versa. Por exem plo, João 3.24 faz uma refe­
rência breve a um a época em que "ainda João não tinha sido lançado
na prisão", mas em nenhum a outra passagem no Evangelho de João
há qualquer referência a este aprisionam ento. Supostam ente João es­
tava presum indo que os seus ouvintes tivessem pelo m enos ouvido
falar sobre este evento, narrado em Marcos 6.14-29 e passagens pa­
ralelas. Ou, novam ente, no seu relato sobre os julgam entos de Jesus,
João quase om ite com pletam ente a aparição culm inante de Cristo
diante do Sinédrio, presidido por Caifás. Mas faz duas observações
breves que mostram que ele tem conhecim ento deste evento, quando
escreve: "A nás m andou-o, m anietado, ao sumo sacerdote C aifás" (Jo
18.24) e "levaram Jesus da casa de Caifás para a audiência..." (v. 28).
Novamente, João deve tam bém supor que o seu público conhecesse a
história (ela aparece em todos os Sinóticos — Mc 14.53-65 e passagens
paralelas). Enquanto isso, João está interessado em descrever uma au­
diência prelim inar diante do sumo sacerdote anterior, Anás, o sogro
de Caifás (Jo 18.13; 19-23).
Em outros casos, a integração trabalha na direção oposta. O s que
leem som ente os Evangelhos Sinóticos poderão se perguntar por que
os líderes ju d eus tiveram que enviar Jesus ao governador rom ano,
Pôncio Pilatos (Mc 15.1-3, e paralelas). Se tinham considerado Jesus
culpado de blasfêm ia, por que sim plesm ente não o apedrejaram de
acordo com a sua lei? Som ente João fornece a resposta: os líderes
judeus, sob o governo de Rom a, não tinham perm issão de executar
a pena de m orte nestes casos (Jo 18.31). De m aneira similar, os que
leem som ente os Evangelhos de M ateus, Marcos e Lucas poderão se
perguntar se os prim eiros discípulos de Jesus realm ente deixaram
suas ocupações im ediatam ente para segui-Lo na prim eira vez em
que Ele os viu. M arcos 1.16-20 e passagens paralelas certam ente po­
deriam ter esta interpretação, sem nenhum a inform ação adicional.
M as João 1.35-42 deixa claro que vários dos apóstolos encontraram
Jesus pela prim eira vez quando eram seguidores de João Batista.
Cada um deles teria testem unhado o seu batism o, fam iliarizado-se
com o seu m inistério, e m ais tarde respondeu a um cham ado m ais
form al para se tornar um dos doze que literalm ente trabalharam
lado a lado com Jesu s.54
O N ovo Testam ento É h istoricam en te Confiável? 39

O Livro de Atos
Finalmente, consideramos um tipo diferente de suposta contradição
no livro de Atos. Com o a narrativa do segundo volume de Lucas
contém muitas informações acerca da pregação de Paulo, frequente­
mente é feita a alegação de que a ênfase teológica que emerge dos seus
sermões no livro de Atos não se encaixam bem com os temas princi­
pais das cartas incontestáveis de Paulo (Gálatas, 1 Tessalonicenses, 1 e 2
Coríntios, Romanos, Filem om e Filipenses). Phillip Vielhauer escreveu
um clássico estudo, na metade do século XX, fazendo esta alegação. Ele
identificou quatro áreas em que acreditava que o Paulo do livro de Atos
ora fundamentalmente incom patível com o Paulo das epístolas. (1) No
livro de Atos, Paulo é favorável com relação à teologia natural ou à
revelação geral (a ideia de que as pessoas podem vir a ter algum conhe­
ci mento de Deus e até m esm o a salvação, tendo em vista o desígnio na
criação — veja especialmente o seu sermão no Areópago, em Atenas [At
17.16-33]); nas epístolas, Paulo permanece inteiramente negativo (veja
especialm ente Rm 1.18-32). (2) No livro de Atos, Paulo ainda trata a Lei
do maneira favorável, com o quando raspa a sua cabeça como parte de
um voto judaico (18.18), ou quando circuncida Timóteo (At 16.3); nas
epístolas, Paulo enfatiza que a lei meramente aponta a incapacidade
da pessoa de guardá-la, quando os rituais e cerimônias judaicos agora
pertencem ao passado (veja especialmente G1 3 - 4). (3) No livro de
Aios, o Jesus ressuscitado forma o centro da mensagem do Evangelho,
om praticamente cada sermão registrado; nas cartas, Paulo se concentra
unicamente na crucificação (1 Co 2.2). (4) No livro de Atos, a esperança
< lo iminente retorno de Cristo diminui; nas cartas, ela continua vibrante
(veja especialmente 1 Ts 4.15).55
Nenhuma destas quatro supostas contradições, no entanto, resume
bem os dados complexos no livro de Atos ou nas epístolas. Nada, no
livro de Atos, sugere que alguém realmente possa ser salvo, separado
do Cristo; o texto em 17.27 fala apenas das pessoas "achando" Deus
om algum sentido não especificado, mesmo quando Lucas emprega o
mcomum m odo optativo com o verbo, sugerindo que Paulo duvida de
que isso possa ser feito. Rom anos 1.19,20, ao contrário, declara que as
|lossoas deveriam saber que Deus existe, com base na criação. Quanto à
atitude de Paulo com relação à Lei, o livro de Atos pode retratá-lo como
o grande defensor da graça (At 13.39), e as epístolas podem mostrar
I’nulo guardando a lei, para tentar conquistar judeus para Cristo (1 Co
'1.20). A questão, tanto no livro de Atos como nas epístolas é se uma
40 Questões Cruciais do Novo Testamento

determinada lei é apresentada como necessária para a salvação. Paulo


irá resistir totalmente a isso.
Voltando à questão sobre o cerne do evangelho, Atos 20.28 ressalta
a expiação através do sangue de Cristo, ao passo que 1 Coríntios 15
ensina extensivamente sobre a ressurreição. Está claro que é uma ques­
tão de ênfase e não de contradição, o que leva os textos a destacar um
aspecto da obra de Cristo e não outro. Finalmente, as epístolas de Paulo
revelam que ele reconhece que pode não viver para ver o retorno de
Cristo (por exemplo, Filipenses 1.19-26), ao passo que o livro de Atos
retrata Paulo pregando que o seu tempo é o ponto decisivo nas gerações
que iniciarão o juízo de Deus (At 17.31). David Wenham habilmente
investigou estas questões e outras correlatas, e concluiu que as dife­
renças entre o livro de Atos e as epístolas de Paulo são suficientemente
substanciais para provar que Paulo não escreveu o livro de Atos! Mas
as diferenças dificilmente demonstram uma tensão fundamental entre
Paulo e Lucas. Cada autor tem suas próprias razões para enfatizar por­
ções complementares do ministério de Paulo.56

Palavras Severas e Tópicos Ausentes


Na seção anterior deste capítulo, eu respondi a inúmeros argumen­
tos contrários à confiabilidade das porções aparentemente históricas do
Novo Testamento. Agora é o momento de nos voltarmos para evidên­
cias positivas e adicionais a fav or da sua confiabilidade. Duas destas
evidências formam um par natural. Por um lado, há inúmeras "pala­
vras duras" de Jesus nos Evangelhos que os seus primeiros seguidores
provavelmente não teriam inventado. Um exemplo de palavra dura é
aquele que faz uma exigência muito rigorosa aos discípulos, mesmo
quando parece contradizer o ensinamento do próprio Jesus em outras
passagens. Por exemplo, Lucas 14.26 declara que Jesus disse aos seus
possíveis seguidores: "Se alguém vier a mim e não aborrecer a seu pai, e
mãe, e mulher, e filhos, e irmãos, e irmãs, e ainda tam bém a sua própria
vida, não pode ser meu discípulo". Esta declaração teria escandalizado
um público judeu que levava muito a sério o m andamento mosaico
de honrar pai e mãe, um mandamento que Jesus confirma em outras
passagens (por exemplo, Mc 7.10). Felizmente para nós, Mateus inclui
um ensinamento paralelo de Jesus em um diferente contexto, explican­
do o que Ele provavelmente quis dizer no contexto de Lucas também:
"Quem ama o pai ou a mãe mais do que a mim não é digno de mim; e
quem ama o filho ou a filha mais do que a mim não é digno de m im "
(> N ovo Testam ento É h istoricam en te Confiável? 41

(Ml 10.37). Os dois textos em grego estão, naturalmente, traduzindo


o nramaico original de Jesus, e nas línguas semitas "am ar" e "od iar"
frequentemente significavam "escolher" e "n ão escolher" ou "preferir"
r "não preferir".57 O nosso am or por Deus deve superar tanto o nosso
.imor pela família, que este se parecerá até m esm o com o ódio, quando
se fizer uma comparação. Agora, as palavras são, pelo menos, compre­
ensíveis, embora ainda incrivelmente desafiadoras. Mas se Lucas ou
Mateus se sentisse suficientemente livre para manipular as tradições
que tinha herdado, como afirmam muitos acadêmicos, certamente teria
sido muito mais fácil simplesm ente omitir este tipo de frase.
Em outros casos, o que torna uma frase "d u ra " é o fato de que ela
|>arece contradizer a divindade de Cristo, que a Igreja Prim itiva tão
rapidam ente veio enfatizar. Por exem plo, em M arcos 6.5,6 o poder
di* Jesus parece lim itado pela falta de fé em Nazaré: "E não podia
lazer ali obras m aravilhosas; som ente curou alguns poucos enferm os,
im pondo-lhes as mãos. E estava admirado da incredulidade deles".
( )u, em 13.32, o seu conhecim ento parece lim itado: "M as, daquele Dia
c hora [do retorno de C risto], ninguém sabe, nem os anjos que estão
no céu, nem o Filho, senão o P ai". A teologia cristã entendeu, afinal,
esses textos, e falou que Jesus não se utilizava de seus atributos di­
vinos (tais como a onipotência e a onisciência), exceto quando era a
vontade do seu Pai. Mas teria sido mais fácil que M arcos sim plesm en­
te om itisse estes dizeres, levando em consideração a confusão que
poderiam criar. Alguma coisa, no entanto, o im pediu de excluí-los.
Aparentem ente, estes eram "pontos fixos" na tradição que não pode­
riam ser elim inados se as narrativas nas quais eles apareciam fossem
relatadas outra vez.58
Um fenômeno inverso tam bém respalda a historicidade substancial
dos Evangelhos. Várias controvérsias da Igreja Primitiva, descritas no
livro de Atos e nas epístolas, jam ais aparecem nas páginas dos qua­
lm Evangelhos. Se os prim eiros cristãos se sentiam livres para atribuir
ao Jesus histórico os ensinam entos que eles acreditavam que o Senhor
ressuscitado estava revelando a eles, por que nenhum ensinamento de
|esus sequer trata destas controvérsias em particular? Nós sabemos, de
Atos 15 e Gálatas 2, que a questão da circuncisão, como parte da po­
lítica dos judaizantes para fazer com que os gentios, que estavam se
tornando cristãos, obedecessem a toda a lei judaica, ameaçou dividir
a Igreja Primitiva. O cam inho mais simples para solucionar a contro­
vérsia teria sido que um dos participantes do Concílio Apostólico de
42 Questões Cruciais do Novo Testamento

Atos 15 tivesse citado o próprio ensinamento de Jesus sobre o assunto.


Nós, então, esperaríamos que um dos Evangelhos contivesse algum
ensinamento de Cristo sobre o tema, se a circuncisão devesse ser exi­
gida dos seus seguidores. Mas nem o livro de Atos nem os Evangelhos
contêm uma única palavra atribuída a Jesus para solucionar este deba­
te. Aparentemente, a Igreja Primitiva não se sentiu livre para inventar
ensinamentos de Jesus, sabendo que Ele não os tinha proclamado du­
rante a sua vida terrena. Um exem plo similar vem de 1 Coríntios 12-14.
Falar em línguas provou causar muita discórdia em Corinto. Qual seria
a melhor maneira de solucionar o debate sobre falar em línguas, se­
não citar palavras de Cristo? E certamente nós esperaríamos encontrar
algumas palavras de Cristo sobre o tema nos Evangelhos. Mas estas
palavras jam ais aparecem! Na verdade, uma lista considerável de con­
trastes pode ser compilada entre questões que foram importantes para
Jesus durante o seu ministério pré-crucificação em Israel e questões que
eram importantes para a Igreja pós-ressurreição. E o Novo Testamento,
coerentemente, as conserva separadas.59
Além disso, pelo m enos em uma ocasião, quando estes interesses
se sobrepõem , Paulo claram ente em preende grandes esforços para
distinguir o que Jesus disse, durante a sua vida terrena, daquilo que
ele acreditava que Jesus lhe estava dizendo, quando escrevia suas
epístolas sob inspiração divina. O exem plo em questão aparece em
1 Coríntios, no tema de casam ento e divórcio. Em 7.10,11, Paulo pro­
clama: "A os casados, mando, não eu, mas o Senhor, que a m ulher se
não aparte do m arido... E que o m arido não deixe a m ulher". Aqui,
Paulo resume o conteúdo do ensinam ento do Jesus histórico em pas­
sagens com o M arcos 10.1-12 e paralelas. Mas sobre a questão de um
cônjuge incrédulo desejar deixar seu esposo ou sua esposa depois que
esta pessoa tivesse se tornado cristã, Jesus não tinha ensinado nada.
Assim, Paulo continua, em 1 Coríntios 7.12: "M as, aos outros, digo
eu, não o Senhor: se algum irm ão tem m ulher descrente, e ela consen­
te em habitar com ele, não a deixe. E se alguma m ulher tem m arido
descrente, e ele consente em habitar com ela, não o deixe". Paulo não
está dizendo aqui que ele já não está mais escrevendo sob inspiração
divina! O versículo 40 deixa claro que ele pensa que todas as suas
instruções neste capítulo são orientadas pelo Espírito. Na verdade,
Paulo aqui fala com um tom de ironia, uma vez que está com baten­
do oponentes em Corinto os quais declaram que somente eles têm
o Espírito. Na verdade, o versículo 12 quer dizer sim plesm ente que
I >N ovo Testam ento É h istoricam en te Confiável? 43

ele tem que confiar naquilo que acredita que Deus está lhe dizendo,
Ni*m ser capaz de provar isso, citando uma palavra da tradição dos
ensinam entos terrenos de Jesus. A mesma explicação, sem dúvida, é
v.ílida para o versículo 25. Longe de m esclar casualm ente os ensina­
mentos de Cristo anteriores e posteriores à ressurreição, Paulo cuida­
dosam ente os conserva separados. Tudo isso deve aumentar o nosso
i'rédito na confiabilidade histórica dos Evangelhos.60

A Evidência de Autores Não-Cristãos


Para algumas pessoas, a única evidência que prova ser defini ti va-
mente valiosa é a de antigos autores que nunca se tornaram cristãos.
Mesmo se admitirmos que os cristãos podiam escrever sobre a história
sem que suas tendências a distorcessem indevidamente, sempre há a
possibilidade de que não o fizeram com sucesso. Naturalmente, estas
mesmas pessoas raramente observam que os não-cristãos poderiam ser
muito m ais inclinados contra o cristianismo e desta maneira deixar de
apresentar adequadamente as suas origens históricas. Nós temos pro­
vas de que isso acontecia frequentemente no prim eiro milênio d.C., pois
.1 volumosa literatura judaica que formava o Mishnah, Talmudes e vá­

rios Midrashim, cada vez m ais censurava e excluía referências a Jesus (e


outros supostos apóstatas) com o passar dos séculos. Mas, apesar disso,
vale a pena investigar o que as literaturas mais antigas — judaica, grega
e romana — dizem sobre Jesus e outros personagens e eventos retrata­
dos nos Evangelhos e no livro de Atos. Especialmente, quando levamos
em conta a tendência destes autores, uma considerável quantidade de
evidências emergem, que, novamente, respaldam a confiabilidade his-
lórica dos documentos canônicos/’1

E v id ê n c ia s a F avor de J esu s

De longe, a informação m ais extensa e interessante vem de Josefo.


I íscrevendo próximo do fim do século I, este historiador judeu produziu
uma obra de vinte volumes, intitulada Antiguidade Judaica — uma histó­
ria do m undo, desde a criação até os seus próprios dias! Os manuscritos
que sobreviveram contêm duas referências a Jesus. Em 20.197-203, nós
lemos sobre a execução de Tiago, o meio-irmão de Jesus, pelas mãos do
Sinédrio, em 62 d.C. Especificamente, na seção 200, Josefo se refere a
"Tiago, o irmão de Jesus que era chamado o C risto".62 Nenhum acadê­
mico sério duvida da autenticidade desta observação breve, de modo
que ela já é suficiente para demonstrar que Jesus existiu.
44 Questões Cruciais do Novo Testamento

A outra passagem de Josefo é consideravelmente mais detalhada.


Ela diz:

Nesta época, ali viveu Jesus, um homem sábio, se é que realmente de­
veríamos chamá-lo de homem. Pois Ele foi aquele que realizou feitos
surpreendentes e mostrou que é o professor das pessoas que aceitam ale­
gremente a verdade. Ele conquistou muitos judeus e muitos dos gregos.
Ele era o Messias. Quando Pilatos, depois de ouvir que ele era acusado
por homens da maior autoridade entre nós, o condenou para ser crucifi­
cado, aqueles que tinham sido os primeiros a amá-lo não desistiram de
seu afeto por ele. No terceiro dia, ele lhes apareceu, restaurado à vida,
pois os profetas de Deus tinham profetizado estas e incontáveis outras
coisas maravilhosas sobre ele. E a tribo dos cristãos, assim chamados por
causa dele, até hoje não desapareceu (18:63-64).

O problema com esta passagem é que Josefo indica, no resto da su


obra, que continuou sendo judeu por toda a sua vida, e não aceitou
o cristianismo. De modo que é altamente improvável que ele tivesse
realmente escrito que Jesus era o Messias, questionado a sua verda­
deira humanidade ou acreditado na sua ressurreição. Quando nos da­
mos conta de que foram cristãos — e não judeus — que preservaram as
obras de Josefo nos primeiros séculos depois da sua escrita, é natural
supor que alguns escribas "m exeram " na obra de Josefo, para fazer com
que o seu testemunho respaldasse as reivindicações cristãs mais expli­
citamente. Além disso, uma obra árabe do século X, a História Universal
de Agápio se refere ao testemunho de Josefo sobre Jesus, e no seu re­
sumo faltam precisamente estes três itens, embora ele descreva Josefo
dizendo que os seguidores de Jesus disseram tê-lo visto vivo e que Ele
fosse talvez o Messias. Há um consenso cada vez m aior entre os acadê­
micos, portanto, de que a passagem em Antiguidade judaica, uma vez
reescrita nestes três pontos, se aproximaria intimamente do que Josefo
realmente escreveu.*’3
Testemunhos judaicos posteriores, a maioria deles encontrados no
Talmude, têm natureza mais tendenciosa. Em um texto, está escrito que
Jesus fora enforcado na véspera da Páscoa. Uma vez que os judeus já ti­
nham decidido que a crucificação era comparável ao enforcamento em
uma árvore, isso não entra necessariamente em conflito com os relatos
dos Evangelhos, particularmente o de João, que pode ser interpretado
como se Jesus tivesse sido executado na véspera da Páscoa (embora
() N ovo Testam ento É historicam en te Confiável? 45

devamos nos lembrar da nossa interpretação diferente, no tópico "O s


Quatro Evangelhos"). Este m esm o texto, no entanto, diz, a seguir, que
durante quarenta dias antes da execução, um arauto clamou: "E le vai
sor apedrejado, porque praticou feitiçaria e atraiu Israel à apostasia".
I )e modo que pode ser que o registro histórico aqui esteja um pouco
deturpado.
A acusação de que Jesus era feiticeiro, no entanto, aparece em outros
trecbos da literatura rabínica (veja especialmente b. Sanh, 107b), que
Inrnece corroboração indireta de que Jesus verdadeiramente realizava
milagres. Em vez de negar este fato, os autores judeus simplesmente
atribuíram o seu poder ao Diabo, em lugar de atribuído a Deus. O que
(’ interessante é que esta abordagem emerge, em primeiro lugar, nas
paginas dos próprios Evangelhos cristãos (Mt 12.24; Lc 11.15).64 A m es­
ma seção do Talmude que se refere ao enforcamento de Jesus também
dec lara que Cristo tinha discípulos com os nom es de Matha, Naqai,
Nezer, Buni, e Todah. Quatro destes nomes podem ser grafias alternati­
vas ou corrompidas dos nom es hebraicos de M ateus, Nicodemos, João
(■Tadeu, ao passo que Nezer pode se referir a um nazareno ou seguidor
de |esus, de modo mais genérico.
Outras referências explícitas a Jesus incluem uma tradição em que
um discípulo rebelde é com parado a alguém "que queima publica­
mente um alimento precioso, que é Jesus de N azaré", uma metáfora
que se refere à distorção do ensinamento judaico (b. Sanh. 103a). Em
vá lios pontos, Jesus é cham ado de "Jesus ben (= filho de) Pandera",
e ( )rígenes, um autor cristão do século II, explica que os judeus acredi­
tavam que Jesus fosse filho de Maria em um relacionamento adúltero
com um soldado romano que tinha este nome (Contra Celsum 1:32). O
nome, e consequentemente a lenda, talvez venha de uma adulteração
da [ialavra grega parthenos para "virgem ", refletindo, assim, um conhe­
cimento deturpado da tradição cristã da concepção virginal. Em outros
textos, Jesus não aparece m encionado por seu nome, mas há um amplo
consenso na tradição judaica de que a referência é feita a Ele. Por exem ­
plo, o rabi Abbahu, do século III, declara: "Se um homem diz a você,
I n sou (um) Deus', é um mentiroso; 'Eu sou (um) Filho do Hom em',
ira se arrepender disso; Se disser 'Eu vou subir para o céu', poderá ter
dito isso, mas não será capaz de fazê-lo" (p. Taan. 65b). Podemos reco­
nhecer ecos da tradição do Evangelho nestas três declarações.65
I listoriadores greco-romanos não-cristãos tam bém fazem algumas
leterências a Jesus. Thallus (preservado somente nos textos do historia-
46 Questões Cruciais do Novo Testamento

dor Júlio Africano, do século III) se referiu à escuridão que aconteceu


no momento da crucificação. Plínio, o Jovem, um embaixador roma­
no no início do século II, escreveu para o imperador Trajano, pedindo
conselhos sobre como lidar com os cristãos que se recusavam a ado­
rar o imperador. Nesta correspondência, ele explicou que os cristãos
se reuniam regularmente e entoavam hinos "a Cristo, como se a um
deus" (Letters 10.96.7). Tácito, historiador romano do início do século
II retratou os cristãos como aqueles cujo nome se devia a "Cristo, que
tinha sido executado por sentença do procurador Pôncio Pilatos, no rei­
nado de Tibério" (Annals 15:44). Aproximadamente na mesma época, o
historiador romano Suetônio se referiu à expulsão dos judeus de Roma,
durante o reinado de Cláudio, em razão de uma revolta instigada por
Chrestus. Muitos acadêmicos acreditam que esta é uma versão corrom­
pida de Christus (Cristo) e que Suetônio está descrevendo uma agitação
entre judeus e cristãos, de forma equivocada pensando que Cristo es­
tava pessoalmente presente para instigá-la. A referência "no entanto,
aponta para Jesus como líder de um grupo de judeus dissidentes, se
não o fundador do cristianism o".66 Mara bar Serapion, escritor grego
do final do século I, falou sobre Jesus, como o sábio rei dos judeus, ao
passo que Luciano de Samosata, filósofo e historiador grego, em sua
obra de meados do século II, A M orte de Peregrino, se referiu à crucifica­
ção de Cristo (seção 11) de uma maneira desdenhosa à credulidade dos
cristãos que reverenciavam seu fundador como um deus. Finalmente,
Orígenes narrou, com certo nível de detalhes, as acusações deste crítico
pagão, Celso, que reconhecia, mas menosprezava "o s ancestrais, a con­
cepção, o nascimento, a infância, o ministério, a morte, a ressurreição e
a contínua influência de Jesu s".67
Quando combinamos todo este antigo testemunho não-cristão de
Jesus, há material mais do que suficiente para refutar o mito persistente
que ainda existe em certos círculos, de que Jesus jam ais existiu!6HOs
leitores modernos podem se perguntar por que não há muito mais m a­
terial preservado, e para isso podemos dar duas respostas básicas. Em
primeiro lugar, naqueles primeiros anos, ninguém sabia ainda que o
cristianismo um dia se tom aria a religião dominante tanto no império,
como em muitas outras partes do mundo. Em segundo lugar, até boa
parte do século XX, a maioria dos escritos históricos envolveu as faça­
nhas de reis e rainhas, generais militares, os que detinham cargos em
instituições religiosas, e outras pessoas. O foco nos cidadãos normais
de uma nação particular e nos movimentos do povo que não estives-
O N ovo Testam ento É h istoricam en te Confiável? 47

sem relacionados com quaisquer poderes políticos ou eclesiásticos con-


linuou relativamente raro até o século passado. Nós poderíamos dizer
que é surpreendente que estas referências não-cristãs a Jesus tenham
sobrevivido.

O utros P erso n a g en s e E ven to s


Quando nos voltamos para outros personagens nos Evangelhos e
no livro de Atos, a situação é bastante diferente. Precisamente porque
muitos deles são pessoas poderosamente influentes, de vários tipos,
as referências não-cristãs são tão abundantes que podemos apresentar
aqui somente uma pequena seleção delas. Josefo, sozinho, fornece uma
considerável quantidade de informações sobre João Batista, Herodes (o
( ira nele), Antipas, Agripa 1 e II, Anás, Caifás e Pôncio Pilatos.69 Josefo
c os vários historiadores romanos, naturalmente, fazem detalhadas re-
ferências aos diferentes im peradores que também são mencionados no
Novo Testamento.
Copiando do volum oso catálogo de inform ações contido na obra
magistral de Colin Hemer, podemos destacar treze tipos de conheci­
mento histórico exibido no livro de Atos, que são corroborados ou pelo
menos estão bem de acordo com outras fontes históricas.70 Em cada
caso, nós vamos dar apenas um ou dois exemplos, embora na maioria
dos casos exista um número maior.

1. Conhecimento geral: Lucas reconhece que Augusto é o nome


do imperador (Lc 2.1), mas, corretamente, menciona que
um oficial romano se refere a ele pelo seu título (em grego,
Sebastos) em Atos 25.21,25. Ele também sabe que os navios
transportando grãos zarpavam de Alexandria rumo a Puteoli
(28.11-13).
2. Conhecimento especializado: Lucas entende que Anás ainda
era considerado com o sumo sacerdote pelos judeus, mesmo
depois de formalmente deposto por Roma (4.6). Ele também
tem ciência dos detalhes da organização de uma guarda
m ilitar — quatro grupos de quatro soldados cada (12.4).
3. Conhecimento local específico: Zeus e Hermes eram deuses
populares em Listra, por causa de uma lenda de que tinham
aparecido ali incógnitos, séculos antes. E compreensível,
portanto, que Barnabé e Paulo fossem confundidos com eles
(14.12). A viagem e o naufrágio de Paulo contêm inúmeros
48 Questões Cruciais do Novo Testamento

itens que dificilmente teriam ficado conhecidos, a menos


que alguém tivesse estado nesta viagem, ou fosse muito
familiarizado com a tecnologia náutica da época.71
4. Correlações de data: A inform ação do livro de Atos está em
conform idade com outras fontes históricas, e nos capacita
a fornecer datas para a morte de Herodes Agripa I, a fome
na Judeia, a expulsão dos judeus de Roma por Cláudio, o
governo de Gálio em Corinto, e a mudança de procuradores,
de Félix a Festo, na Judeia.
5. Capacidade de ajustar o restante do livro de Atos com estas
datas: Outras indicações de tempo no livro de Atos criam
uma concordância harmoniosa com estes detalhes —
um ano e meio de permanência de Paulo em Corinto,
aproximadamente três anos em Éfeso, e dois anos
aprisionado na gestão de Félix — o que possibilita que os
estudos da vida de Paulo datem com considerável precisão
(pelos padrões antigos), cada uma das viagens missionárias
de Paulo e as suas paradas em cada rota.72
6. Detalhes altamente sugestivos de datas: A Sinagoga dos
Libertos, em Jerusalém, foi destruída em 70 d.C.; a sua
descrição precisa em Atos 5.9 teria exigido o conhecimento
de condições anteriores a este ano. A Frigia e a Galácia
estiveram associadas durante um curto período de tempo no
século I, exatamente como Lucas as retrata em 16.6.
7. Correlações com o livro de Atos e as epístolas: Novamente, há
um enorme número de correlações. Gálatas 2.2,10 combinam
elementos da visita de Paulo a Jerusalém também descrita
em Atos 11.27-30. A superstição recriminada em Gálatas 3.1
se encaixa com o engano de Listra em identificar Paulo e
Barnabé como deuses gregos, como já observamos.
8. Correlações no livro de Atos: A natureza diversa dos sermões
de Paulo está em perfeita conformidade com o que sabemos
sobre as localidades às quais cada um deles é destinado,
desde a cética e filosófica Atenas em uma ponta (17.16-34)
aos anciãos cristãos de Éfeso na outra (20.17-35).73
9. Possíveis informações históricas preservadas em variantes textuais:
Embora provavelmente não seja o que Lucas escreveu
originalmente, o texto "ocidental" de Atos 19.9,10 acrescenta
que Paulo falava todos os dias na escola de Tirano, "da
(> N ovo Testam ento É historicam en te Confiável? 49

quinta à décima h ora" (isto é, de 11 da manhã às 4 da tarde


— a parte mais quente do dia, quando a sala provavelmente
estaria disponível), uma informação provavelmente precisa,
acrescentada por um escriba posterior.
10. Referências espontâneas: Informações secundárias,
historicamente precisas, e com pouca probabilidade de
terem sido inventadas conscientemente, incluem o nome de
Antioquia na Frigia, próxima à fronteira da Pisídia, como
Antioquia da Pisídia (13.14), como outros tinham feito, para
distingui-la de outra Antioquia, localizada mais centralmente
na Frigia, embora jam ais mencionada no livro de Atos. A
citação que Paulo faz com exatidão de poesia grega, de
Epimenides e Arato, em Atenas oferece um segundo exemplo
(17.28).
11. Diferenças de formulação no livro de Atos: Lucas emprega
corretamente o termo "helenistas", ou "gregos judeus" (na
versão BBE) quando se refere aos judeus que tinham adotado
a cultura grega, mas chama as pessoas de "gregos" quando
se refere a indivíduos não-judeus e não-cristãos. Saulo deixa
de usar seu nome judaico, não na conversão, como leitores
desatentos da Bíblia frequentemente pensam , mas quando
começa a ministrar entre os gentios (13.9).
12. Particular seleção de detalhes: Embora não mencionado
explicitamente em outras fontes históricas, a inclusão de
determinados detalhes de um significado não obviamente
teológico é conveniente ao gênero de texto histórico, em
um mundo que ainda não tinha inventado o que nós
chamaríamos de romance histórico.74 Podemos comparar os
papéis de Rode em 12.13,14 e Mnasom em 21.16.
13. Expressões idiomáticas especiais ou características culturais:
As palavras lisonjeiras de Tértulo (24.2-4) combinam
perfeitamente com a oratória aduladora de advogados
gentios ao falar a procuradores romanos. A opção do
governador de aceitar ou recusar a jurisdição sobre um caso
de uma província isolada é, de igual maneira, retratada
fielmente em 23.24.

Qualquer um destes itens específicos pode não provar muita coisa


por si só, mas o caso cum ulativo a favor da exatidão de Lucas como
50 Questões Cruciais do Novo Testamento

historiador no livro de Atos se torna esmagador quando percebemos o


volume de tais itens que existem na sua narrativa.

Evidências Arqueológicas
Uma categoria importante de evidências de corroboração fora dos
Evangelhos e do livro de Atos, ou de quaisquer outras fontes cristãs
explícitas, é o que a arqueologia descobre. Novamente, há livros cheios
de itens que confirmam o tipo de detalhes em o Novo Testamento que
se prestam como prova ou refutação arqueológica. Em nenhum caso
algum detalhe foi refutado; incontáveis itens foram corroborados.
Novamente, podemos ter apenas uma ideia inicial, com os exemplos
mais famosos ou significativos.75

Os Q u a t r o E va n g elh o s
Uma adm irável quantidade de detalhes circunstanciais nos
Evangelhos recebe respaldo de escavações realizadas em Israel. A maio­
ria delas serve para reforçar o nosso entendimento do cenário histórico,
religioso e sociocultural do mundo de Jesus. Assim, podemos ver ruí­
nas de inúmeros projetos de edifícios de Herodes, a disposição e a fun­
ção do templo, as dimensões e o conteúdo de uma típica casa palestina,
a natureza das estradas romanas e outras coisas. Pedras de moinho,
tanques para imersão ritual, e a "cadeira de M oisés" em uma sinago­
ga, tudo foi desenterrado, esclarecendo as referências do Evangelho a
esses itens. Em alguns casos, localidades inteiras foram escavadas — a
sinagoga de Cafarnaum, do século IV, provavelmente edificada sobre
as fundações de uma sinagoga da época de Jesus; o poço de Jacó em
Sicar, onde Jesus se encontrou com a samaritana; o tanque de Betesda,
com seus cinco alpendres, próximo à Porta das Ovelhas em Jerusalém;
o tanque de Siloé, também em Jerusalém; e possivelmente a pedra
(Gabatá ou Litóstrotos — veja João 19.13) do lado de fora do palácio
de Pilatos (supondo que se tratava da Fortaleza Antônia).76 O mesmo é
válido para a localização de cidades inteiras. Um mosaico de um barco
de pesca do século I, com a inscrição "M agdala", ajudou a conduzir à
descoberta da localização da terra natal de Maria Madalena. Ruínas de
uma igreja bizantina, a leste do mar da Galileia, provavelmente apon­
tam para a localização de Khersa, onde Jesus expulsou uma legião de
demônios de um homem.
Algumas descobertas são bastante recentes. Somente depois de 1961
foram desenterradas as evidências de inscrição (em oposição às lite­
O N ovo Testam ento É h istoricam en te Confiável? 51

rárias), em Cesareia M arítim a, de Pilatos com o governador da Judeia,


durante o reinado do im perador Tibério. Em 1968, um ossuário (isto
é, uma caixa de ossos) de um homem crucificado, chamado Johanan,
confirmou, pela primeira vez, que os romanos podiam cravar pregos
nos pés ou tornozelos de vítim as de execução. Um barco de pesca do
século I foi dragado do mar da Galileia em 1986, depois da pior seca
em Israel em mais de um século. E interessante que nele havia espaço
para treze pessoas, exatamente, a quantidade de espaço que teria sido
necessária para que Jesus e seus doze discípulos coubessem todos em
uma embarcação. No m useu em que os turistas agora podem vê-lo, o
barco foi apelidado de "o barco de Jesu s", em bora, é claro, não tenha­
mos como saber se o próprio Jesus chegou a usar este barco. Em 1990, a
sepultura que parece ser, provavelmente, do sumo sacerdote Caifás foi
descoberta no monte Sião em Jerusalém , perto do local tradicionalmen-
te conhecido como a Cidade de Davi no Antigo Testamento.77 O mais
recente centro de atividade arqueológica foi Betsaida. Embora, até hoje,
não houvera nenhuma descoberta dramática, muitos pequenos artefa-
los, incluindo inúmeros itens relacionados à atividade pesqueira, foram
escavados. Apenas quando este livro ia começar a ser impresso, surgia
uma controvérsia a respeito de outra descoberta, próxima a Jerusalém
— o possível ossuário de Tiago, o irmão de Jesus. A possibilidade de
que a inscrição da urna funerária, que diz "Tiago", tenha sido feita por
d uas m ãos diferentes, no entanto, deixa os acadêmicos incertos quanto
<t qual Tiago teria sido enterrado nela.78
Frequentemente, a arqueologia fornece boas "lições práticas" para
o leitor interessado da Bíblia. Em outras palavras, locais que não são
as reais localizações de eventos dos Evangelhos, apesar disso, asse­
melham-se provavelmente aos verdadeiros lugares. Assim, embora a
adornada Igreja do Santo Sepulcro, na parte velha de Jerusalém, esteja
próxima ao local autêntico da crucificação e do sepultamento de Jesus,
0 Calvário de Gordon — um afloramento de rocha na forma de caveira,
|'ouco acim a da atual estação de ônibus da moderna Jerusalém — é tão
semelhante ao terreno que provavelmente parece com o lugar original
do Gólgota, explicando por que este lugar foi apelidado de "Lugar da
C aveira". Ou, de novo, os turistas normalmente são levados a visitar
1 im considerável patamar, a algumas centenas de metros acima da costa
noroeste do mar da Galileia, e abaixo do tradicional "M onte das Bem-
,i vonturanças". Aqui, a acústica natural possibilita que alguém que está
no meio do caminho para o topo seja ouvido por grande multidão de
52 Questões Cruciais do Novo Testamento

pessoas ao mesmo tempo. Este poderia ser o lugar onde Jesus pregou o
seu famoso "Serm ão da M ontanha", mas nós simplesmente não temos
como afirmar isso, porque os Evangelhos não nos fornecem informa­
ções suficientes para determinar o local.
Artefatos desenterrados podem frequentemente fornecer esclareci­
mento sobre palavras ou costumes específicos. A palavra corbã ("con­
sagrado a D eus") foi encontrada sobre um sarcófago judaico, como
advertência para ladrões de sepulcros. Sepulcros "caiados" resplande­
centes ainda salpicam o vale do Cedrom e uma parte das encostas do
monte das Oliveiras, ilustrando visualmente a m etáfora de Jesus, em
Mateus 23.27. Abundante quantidade de moedas confirma o costume
de cunhar nelas a imagem de César, um ponto em que Jesus se baseou
quando evitou a pergunta capciosa dos líderes judeus sobre o paga­
mento de tributos.
A arqueologia ainda tem o potencial de esclarecer os silêncios dos
Evangelhos. Nos últimos vinte anos, grande parte das escavações se
concentrou em Sepphoris, a capital herodiana original da Galileia, antes
da construção de Tiberíades, nos anos 20 d.C. Curiosamente, Sepphoris
ficava somente a 8 quilômetros de Nazaré e solicitou grande quantida­
de de trabalhadores na construção civil, durante a mocidade e início
da vida adulta de Jesus. Foi aqui que Ele aprendeu o costume grego de
"atuar", de onde deriva a palavra hupokrites ("hipócrita"), uma palavra
não encontrada em hebraico ou aramaico, mas que Jesus usou repetidas
vezes contra certos líderes religiosos (veja especialmente Mateus 23)?
Afinal, um grande teatro em estilo tipicamente grego foi escavado ali.
O silêncio dos Evangelhos a respeito de Sepphoris pode indicar que,
quando Jesus iniciou o seu ministério público, Ele teria evitado esta
grande cidade gentílica, porque entendia que a sua missão era "prim ei­
ro para os ju d eus?"79 Ou o fato de que arqueólogos tenham desenterra­
do comparativamente alguns poucos ossos de porcos em Sepphoris —
uma característica de cidades altamente judaicas, em que as refeições
eram "kosher" e onde se evitava comer carne de porco ou presunto —
sugere que nós superestimamos o quanto esta cidade era grega?
Um artefato de uma natureza bem diferente merece um breve co­
mentário. Pequenos fragmentos do Sudário de Turim, cuidadosamente
guardados durante séculos na Itália por autoridades católicas, foram
submetidos a uma bateria de testes científicos em 1988, em três diferen­
tes laboratórios, ao redor do mundo. Todos os resultados, independen­
temente, provaram que se tratava de um pedaço de tecido do século
() N ovo Testam ento É h istoricam en te Confiável? 53

XI ou XII, recente demais para ter sido o Sudário de Jesus.80 Ainda não
há explicações convincentes sobre a origem da assombrosa impressão
ile um hom em crucificado, estampada neste tecido, mas é inútil conti­
nuar argumentando a favor da sua autenticidade.81 Uma vez que mui-
l.is pessoas ao redor do m undo já ouviram falar neste sudário, embora
nada mais saibam sobre artefatos bíblicos antigos, este ponto deve ser
rnlntizado.

O L iv r o de A tos
Q uando nos voltamos para a arqueologia dos inúmeros locais men­
cionados no livro de Atos, m al sabemos por onde começar, pois muitos
já íoram escavados. Deixar Israel significa, antes de mais nada, seguir
Paulo nas suas jornadas (At 13 - 28).82 Em Antioquia da Pisídia, refe­
rencias a parentes de Sérgio Paulo, o governador cipriota, foram encon-
Iradas, sugerindo um dos m otivos por que Paulo e Barnabé foram para
lá, depois de navegar, saindo de Chipre para o que hoje poderia ser
chamado de Turquia continental. Inscrições em pedras possibilitaram
que os arqueólogos localizassem Listra e Derbe, duas outras cidades do
miI da Galácia que Paulo visitou na sua primeira viagem missionária.
( írande parte da antiga Éfeso foi reconstruída das ruínas, incluindo o
leatro onde os ourives de prata se revoltaram. Uma estátua de Artêmis
em Éfeso, que parece ter mais de doze seios no seu peito, confirmou a
adoração daquela deusa da fertilidade e exemplifica o tipo de idolatria
contra a qual Paulo lutava. Em Tessalônica, evidências de inscrições,
pela prim eira vez, justificaram o uso que Lucas faz do termo "politar-
ca", que não aparece em outras passagens, com referência aos gover­
nantes civis locais (Atos 17.8 - "principais da cidade"). Em Filipos, um
possível local do breve aprisionamento de Paulo foi escavado assim
como a ampla Agora ou o mercado, e um possível local próximo ao rio
onde havia aquela oração, onde Paulo encontrou Lídia e seu grupo.
Corinto, como Éfeso, contém muitas ruínas que ainda existem ou
loram reerigidas. Ali a fam osa inscrição de Gálio nos possibilitou con-
II rmar a existência e a data do governador local diante do qual Paulo foi
julgado. Podemos até m esm o ver ruínas do bêma, ou "tribunal", onde
( lá lio teria se sentado para presidir o julgamento. Na imensa montanha
rochosa, chamada de Acrocorinto que se ergue no fundo, ainda estão
as ruínas da fortaleza romana que posteriormente substituiu o templo
pagão no seu cume, no século I. Ali, os "sacerdotes sagrados" ou as
"sacerdotisas" tinham relações sexuais com os "adoradores" para obter
54 Questões Cruciais do Novo Testamento

união com os deuses. Pouco admira que a moralidade sexual fosse uma
grande preocupação de Paulo na sua primeira carta à jovem igreja des­
ta cidade (veja especialmente 1 Coríntios 5 - 7). Um a inscrição mencio­
nando "E rasto", o "aedile" (palavra em latim, que significa um oficial
municipal) corresponde, assombrosamente, às saudações que Paulo
transmite de Erasto, "procurador da cidade", em Romanos 16.23, escri­
tas de Corinto. Atenas, naturalmente, contém o espetacular Partenon,
mas também o Areópago, onde Paulo falou, e uma stoa esplendorosa­
mente reconstruída e modernizada — uma passagem apoiada em pila­
res e coberta, em que se alinham lojas ao redor da ágora.93

As I g r e j a s do L iv r o do A p o c a l ip s e

Normalmente, não se pensa no livro do Apocalipse como um docu­


mento do gênero histórico. Mas os capítulos 2 e 3, que contêm as cartas
da João às sete igrejas da Ásia Menor, incluem várias referências que
são esclarecidas pelo estudo histórico e, mais especificamente, arqueo­
lógico.84 A promessa da "árvore da vida" aos que "vencerem " (Ap 2.7)
está em agudo contraste com a árvore do santuário ao culto de Artêmis
em Éfeso e o abrigo que esta dizia oferecer. A oferta de uma coroa a
Esmirna (v. 10) era apropriada para uma cidade que a tinha como seu
conhecido emblema de beleza. Pérgamo era um centro de adoração a
Zeus, de curas de Asclépio e o culto imperial, sendo qualquer um deles,
ou todos, bons candidatos ao "trono de Satanás" (v. 13). Tiatira era local
de associações de comerciantes, incluindo a de oleiros, que participa­
vam de cerimônias pagãs idólatras. Compare o quebrar da cerâmica no
versículo 27.
Contudo o mais importante esclarecimento arqueológico envolve a
sétima cidade, Laodiceia, que era famosa pela sua riqueza (ela foi re­
construída, sem ajuda romana, depois de um terremoto, em 60 d.C.),
pela sua indústria de lã negra, e uma escola de medicina que fabrica­
va bálsamo para os olhos. A guisa de comparação de cada um destes
três itens, Apocalipse 3.17 declara que os cristãos ali eram um povo
"desgraçado, e miserável, pobre, cego, e nu". Jesus bate à porta des­
sa igreja para tentar recuperá-los e conduzi-los a uma fé mais vibran­
te (v. 20). Essa gentil abordagem contrasta com a entrada forçada de
oficiais romanos exigindo alojamento nesta rica cidade, passando por
uma impressionante porta tripla nas muralhas da cidade. O que é mais
significativo é que Laodiceia não tinha seu próprio abastecimento de
água; a água tinha que ser canalizada das frias fontes montanhosas,
() N ovo Testam ento É h istoricam en te Confiável? 55

pei to de Colossos, ou das terapêuticas fontes de água quente perto de


I lierápolis.
De qualquer maneira, quando os aquedutos chegavam a Laodiceia,
.1 agua já estava morna. Assim, quando Jesus fala, por intermédio de

|t ».»o, que desejava que os laodicenses fossem frios ou quentes (v. 15),
m ilh a s expressões são m etáforas positivas. Este fato é conhecido, pelo
menos, desde a obra de Rudwick e Green, há meio século, de modo
<|iie os pregadores que perpetuam o mito de que aqui "frio " significa
.i li vãmente em oposição a Deus, conduzem m uitas pessoas a um equí­
voco !K5
Uma lista de tanto m aterial arqueológico de respaldo à historici­
dade básica do Novo Testamento não deveria dar a impressão de que
nno há problemas não solucionados a respeito da confiabilidade destes
documentos. Por exemplo, existem pelo menos duas, e talvez até mes­
mo três, localizações plausíveis para a cidade de Emaús. O problema
i lii data do governo de Cirênio, na Síria (Lc 2.1), documentada fora da
Híblia não antes de 6 d.C., pode ter sido solucionado por inscrições mi-
iTngráficas em moedas, que indicam que ele teve também uma posição
política anterior, mas as marcas são pequenas demais e incertas, para
i|iie tenhamos certeza.86 (Há problemas similares quando tentamos da-
liir o Teudas mencionado em Atos 5.36; Josefo parece atribuir uma data
posterior a esta rebelião.87 Fontes literárias, portanto, contêm os mes­
mos prospectos e as mesmas ciladas que as fontes arqueológicas). Mas
j esmagadora maioria de descobertas arqueológicas consistentemente
aponta na direção de confirm ar a confiabilidade destas porções de do-
i mnentos do Novo Testamento com os quais é possível fazer compa­
rações.

O u t r a s E v id ê n c ia s do P e r ío d o do I n íc io do
C r is t ia n is m o

As duas seções anteriores se concentraram nas evidências, literárias


c an|iieológicas, que não poderiam ter sido distorcidas por "inclina-
i , o i ’h" cristãs. Mas o argumento de que a evidência cristã deve ser "ex-

i liiida do tribunal" é enganador, como já vimos no tópico "O Sucesso


i li i l inpreendimento dos Evangelistas". Há um último tipo de testemu­
nho, portanto, que não deve ser negligenciado, e envolve outros textos
c i Kl.ios, fora dos Evangelhos e do livro de Atos. Nós investigamos estes
mnleriais na ordem cronológica inversa, do m enos importante para o
lihl is importante.
56 Questões Cruciais do Novo Testamento

No início do século III, se não no final do século II, praticamente to­


das as narrativas cristãs do ministério público de Jesus e a história da
primeira geração da igreja confiavam exclusivamente no material dos
Evangelhos canônicos e do livro de Atos. Mesmo a literatura apócrifa, na
sua maior parte, não coincidia com o material canônico, mas procurava
(ainda que ficticiamente) se encaixar nos "anos ocultos" da vida de Jesus,
revelar os seus ensinamentos supostamente secretos a determinados se­
guidores, depois da ressurreição, ou descrever feitos muito posteriores
dos apóstolos. Já na metade do século II, no entanto, a tradição oral dos
eventos relativos à fundação da Igreja continuava a circular juntamen­
te com os documentos escritos do Novo Testamento. Papias, bispo de
Hierápolis no início do século II, afirmou que confiava na tradição oral
que lhe fora transmitida pelos sucessores dos apóstolos de Cristo, mais
do que em quaisquer textos escritos (Eusébio, Eccl. Hist 3.39.3-4).88
Os P a is A p o s t ó l ic o s

A coletânea dos primeiros escritos, cristãos ortodoxos, posteriores


ao Novo Testamento, é conhecida como Pais Apostólicos. Escritos prin­
cipalmente durante as duas primeiras terças partes do século II, esses
documentos incluem duas epístolas escritas por Clemente, bispo de
Roma; um conjunto de cartas breves de autoria de Inácio, um famoso
mártir cristão; uma epístola de Policarpo, discípulo do apóstolo João; o
Didache, ou "Ensinam ento" dos apóstolos, um manual sobre questões
práticas de ética cristã e ordem na igreja; uma epístola dura contra o
judaísmo, falsamente atribuída a Barnabé; e uma coletânea de visões,
mandamentos e parábolas de doutrinas cristãs atribuída ao "Pastor de
Herm as".89 Frequentemente, essas obras citam tradições encontradas
em o Novo Testamento, mas com palavras ligeiramente diferentes, de
modo que não podemos ter a certeza de que estejam dependendo das
formas escritas destas tradições. Em um punhado de exemplos, elas ci­
tam ensinamentos ou eventos não encontrados em o Novo Testamento.
Estas duas características reforçam o comentário de Papias, sugerindo
que o testemunho oral independente continuava a circular, mesmo de­
pois que os Evangelhos e o livro de Atos foram escritos. Como os Pais
Apostólicos se referem a um número de detalhes da vida de Cristo e da
Igreja Primitiva, bastante maior do que os autores não-cristãos, inde­
pendentemente de até que ponto eles propiciam testemunho indepen­
dente, é confirmada uma porcentagem muito maior de informações so­
bre as origens cristãs do que poderia ser corroborado por nossas linhas
(> N ovo Testam ento É historicam en te Confiável? 57

.interiores de argumentação. Estas referências incluem grande material


sobre o ensinamento de Jesus no Sermão da M ontanha, uma significa-
liva porcentagem de outros ensinamentos exclusivos ao Evangelho de
Mateus, assim como exortações éticas de Jesus de modo geral, clara­
mente a parte mais comum dos Evangelhos e do livro de Atos citada
i tos prim eiros textos cristãos não canônicos.90
A p o c a l ip s e
Voltando ao final do século I, chegamos ao último documento do
Novo Testamento, o livro do Apocalipse. Greg Beale acredita ter identi­
ficado inúmeros pontos onde João, ao compor este livro do Apocalipse,
se inspirou nas mesmas tradições independentes, empregando as profe­
rias de Daniel do Antigo Testamento, que estão por trás dos Evangelhos
Sinóticos. O uso da analogia do Filho do Homem, extraída de Daniel
7.13,14, singular tanto aos Evangelhos quanto ao livro do Apocalipse,
v o seu exem plo mais proem inente.1'1 Louis Vos vai mais além, crendo
ler identificado vinte e cinco passagens no livro do Apocalipse que de­
monstram um conhecimento independente das tradições incorporadas
aos Evangelhos Sinóticos,92 porém muitas delas são excessivamente
alusivas para nós de fato.

1 P edro
A primeira epístola de Pedro é datada, por acadêmicos liberais, nas
últimas décadas do século I, frequentemente por volta dos anos 80. Os
conservadores, que acreditam que o próprio Pedro escreveu esta carta,
.ilribuem-na a uma data não posterior a meados dos anos 60, uma vez
que Pedro foi martirizado por Nero em Roma, entre 64 e 68 d.C. Esta
curta contém numerosas alusões aparentes à tradição dos Evangelhos,
em formas suficientemente diferentes, de modo que a dependência li-
lerária direta não pode ser demonstrada com certeza. Particularmente
notáveis são as alusões a palavras do Evangelho de João, que, se João
livesse escrito nos anos 90, não poderiam ter existido, em forma escrita,
nem na data mais tardia atribuída à primeira epístola de Pedro. Três
exemplos comumente citados são as declarações sobre nascer de novo,
em 1 Pedro 1.2 (cf. Jo 3.3); am ar a Jesus sem tê-lo visto, em 1.8 (Cf. Jo
.’0.29); e ser levado das trevas à luz, em 2.9 (cf. Jo 8.12).93

T ia g o
A epístola de Tiago pode, na verdade, ser a primeira de todos os
documentos do Novo Testamento, escrita no final dos anos 40. Mas
58 Questões Cruciais do Novo Testamento

a evidência é ambígua. Tiago, o irm ão do Senhor, poderia ter escrito


esta epístola já no início dos anos 60, uma vez que viveu até 62 d.C.
Aqueles que atribuem esta epístola a outro autor, em algumas ocasiões
datam-na nos anos 70 ou 80. M as praticamente todos acreditam que a
epístola é anterior à primeira epístola de Pedro, assim como a primeira
epístola de Pedro é anterior ao livro do Apocalipse. De todas as epís­
tolas do Novo Testamento, nenhum a contém tantas passagens que se
assemelham, verbalmente, aos ensinamentos de Jesus, como a epístola
de Tiago. Embora aqui não haja citações inequívocas, há aproximada­
mente três dúzias de referências ao Sermão da M ontanha/Planície em
Mateus 5 - 7 e Lucas 6.20-49.1'4
Não é preciso ir além do primeiro parágrafo da epístola de Tiago
para observar um padrão de referências que permanece consistente por
toda a carta. "M eus irmãos, tende grande gozo quando cairdes em vá­
rias tentações" (1.2; cf. Mt 5.11,12 — "bem -aventurados sois vós quan­
do vos injuriarem... Exultai e alegrai-vos" — e Lc 6.23); "para que sejais
perfeitos e com pletos" (1.4; cf. M t 5.48 — "Sede vós, pois, perfeitos, [ou
maduros] como é perfeito o vosso Pai, que está nos céus"); "peça-a a
Deus, que a todos dá liberalmente... e ser-lhe-á dada" (1.5; cf. M t 7.7
— "Pedi, e dar-se-vos-á" - e Lc 11.9); "Peça-a, porém, com fé, não du­
vidando" (1.6; cf. Mt 21.21 — "se tiverdes fé e não duvidardes" — e Mc
11.23). Essas referências envolvem as três fontes principais de Mateus
— Marcos, Q e M (exclusivamente material de Mateus) — m ostrando
que o conhecimento que Tiago tinha da tradição do Evangelho era am ­
pla. Mas mesmo que a carta tenha sido escrita tão tardiamente, como
0 ano 60 ou 61, é improvável que Tiago tivesse acesso ao Evangelho
completo de Mateus. Ele deve ter conhecido as fontes de Mateus, ou
as tradições orais por trás delas. Começam a se somar as evidências de
que os Evangelhos estavam baseados em tradições fielmente transmiti­
das, e não inventadas pelos evangelistas.

P au lo
Finalmente, chegamos às importantes epístolas de Paulo.
Comentaristas de todo o espectro teológico concordam que Romanos,
1 Coríntios e 1 Tessalonicenses foram escritas nos anos 50, cedo demais
para se basear em algum Evangelho escrito. Mas há mais ou menos
uma dúzia de citações ou alusões muito claras aos ensinamentos de
Jesus que os Sinóticos registrariam mais tarde. Romanos 12.14 traz o
mandamento: "Abençoai aos que vos perseguem; abençoai e não amai-
() N ovo Testam ento É h istoricam en te Confiável? 59

diçoeis" (cf. Lc 6.27b; 28a); 12.17, "a ninguém tom eis mal por m al" (cf.
Mt 5.39); e 13.7, "dai a cada um o que deveis: a quem tributo, tributo; a
quem imposto, im posto" (cf. M c 12.17). Em 13.8,9, Paulo resume toda
a lei no mandamento de am ar ao próximo (como em G1 5.14; cf. Mc
12.31); em 14.10, ele condena julgar um irmão, uma vez que todos se­
lemos julgados (cf. Mt 7.1,2a); e em 14.14, ele declara: "Eu sei e estou
corto, no Senhor Jesus, que nenhuma coisa é de si mesma im unda" (cf.
L c ll.4 1 ; M c 7.19b).
Três das mais explícitas citações de Jesus, feitas por Paulo, aparecem
em 1 Coríntios. Em 1 Coríntios 7.10,11, Paulo respalda suas opiniões
sobre o casam ento e o divórcio, com o m andamento "não eu, mas o
Senhor, que a mulher se não aparte do marido. Se, porém, se apartar,
que fique sem casar ou que se reconcilie com o marido; e que o mari­
do não deixe a m ulher". Ao enfatizar que isso vem do Senhor, ele não
quer dizer que o resto do seu ensinamento não é inspirado, mas que
nesta questão específica ele pode buscar o respaldo do ensinamento
do Jesus terreno.95 Em 1 Coríntios 9.14, Paulo escreve: "Assim ordenou
lambém o Senhor aos que anunciam o evangelho, que vivam do evan­
gelho". Aqui, ele está se referindo ao ensinamento que posteriormen-
le seria registrado em Lucas 10.7, ("digno é o obreiro de seu salário";
ef. Mt 10.10). A terceira citação de uma passagem semelhante à de um
I ívangelho Sinótico é a mais clara de todas. Ao tentar corrigir o mau uso
que os coríntios faziam da Ceia do Senhor, Paulo cita abundantemente
da tradição das palavras de Jesus na sua Ultima Ceia, particularmente
paralela à forma em que Lucas escreveria (cf. Lc 22.19,20). Em razão do
seu subsequente uso litúrgico, estas palavras ficaram conhecidas como
"palavras de instituição" (da Ceia do Senhor):

Porque eu recebi do Senhor o que também vos ensinei: que o Senhor


Jesus, na noite em que foi traído, tomou o pão; e, tendo dado graças, o
partiu e disse: Tomai, comei; isto é o meu corpo que é partido por vós;
fazei isto em memória de mim. Semelhantemente também, depois de
cear, tomou o cálice, dizendo: Este cálice é o Novo Testamento no meu
sangue; fazei isto, todas as vezes que beberdes, em memória de mim.
(I Co 11.23-25)

Os verbos "recebi" e "en sin ei" neste tipo de contexto são termos téc­
nicos para a transmissão fiel da tradição oral, como era a prática dos ra­
binos com a Torá.96 Paulo provavelmente recebeu esta informação bem
60 Q u e s tõ e s C ru cia is do N ovo T estam en to

cedo na sua vida cristã, como parte do discipulado cristão elementar


da sua época. Mas isso sugere que já nos anos 30 existia o conhecimen­
to detalhado das palavras reais das tradições que seriam escritas uma
geração mais tarde nos Evangelhos, uma vez que a data da conversão
de Paulo pertence ao período entre dois a três anos após a crucificação
de Cristo!
Em 1 Tessalonicenses 2.14-16, Paulo compara a perseguição que os
cristãos tessalonicenses suportavam à que os cristãos judeus sofreram
nas mãos de seus com patriotas, que levaram Cristo à morte. Esses ver­
sículos contêm numerosas alusões a partes de Mateus 23.29-38. Em 1
Tessalonicenses 4.15 - 5.4, há paralelos ainda mais claros. Paulo intro­
duz a sua descrição do retorno de Cristo em 4.15-17 como "pela palavra
do Senhor", e muitos dos detalhes desses três versículos são correspon­
dentes ao "Serm ão do Monte das Oliveiras" de Jesus (Mc 13), em que
o Senhor descreveu os eventos que envolveriam a sua segunda vinda.
Em 5.2-4, a dupla referência ao dia do Senhor que vem como um ladrão
à noite, certamente recorda a parábola do ladrão narrada por Jesus (Mt
24.43; Lc 12.39), uma vez que uma metáfora tão impressionante não
aparece em nenhuma das fontes anteriores. Inúmeros outros textos, às
vezes com alusões ligeiramente mais vagas, poderiam ser relaciona­
dos aqui. Mas a questão é clara — um corpo significativo, detalhado
e fixo de tradições orais dos ensinamentos de Deus circulava desde os
primeiros dias da igreja cristã. Os autores do Evangelho, por sua vez,
confiaram nesta tradição, que não era uma invenção fantasiosa, para
compilar o seu ensinamento.
Isso prova ser igualmente verdadeiro com respeito aos detalhes so­
bre a vida e as obras de Cristo. Um resumo das mais importantes infor­
mações biográficas que podem ser reunidas das incontestáveis epísto­
las de Paulo incluiria a sua descendência de Abraão e Davi, o fato de
ter sido criado na lei judaica, a sua convocação de discípulos, incluindo
Pedro e João, e o fato de que Ele tinha um irmão cham ado Tiago. Nós
também aprendemos sobre o im pecável caráter de Jesus e a sua vida
exemplar, a sua Última Ceia e a traição e inúmeros detalhes que envol­
veram a sua morte e ressurreição.97

Os Credos Cristãos Antigos

As mais antigas de todas são as passagens usadas por Paulo e Pedro


em suas epístolas, que os acadêmicos identificaram como, muito pro­
O Novo Testamento É historicam ente Confiável? 61

vavelmente, pré-datando as epístolas em que aparecem. Numerosos


textos em grego altamente poético, cheios de formulações densas da
doutrina cristã fundamental, em estilos que frequentemente são dife­
rentes dos estilos dos próprios autores das epístolas, e que parecem
se separar como entidades independentes dentro das epístolas em que
aparecem, são prováveis candidatos a credos cristãos antigos ou con­
fissões de fé. Os exemplos mais claros e mais comumente citados são
Filipenses 2.6-11, Colossenses 1.15-20 e 1 Pedro 3.18-22.1,8 Essas cartas
foram possivelmente escritas no início dos anos 60, de modo que credos
estabelecidos, incorporados a elas, provavelmente não são posteriores
aos anos 50. Mas essas (e outras) confissões tam bém mostram sinais de
um cristianism o judeu prim itivo que floresceu principalmente nos anos
30 e 40, de modo que elas poderiam ser ainda mais antigas.
Mas é precisamente neste material mais antigo que com frequên­
cia encontram os algumas am ostras da mais exaltada linguagem sobre
Jesus. Ele tinha "a natureza de Deus" (Fp 2.6, NTLH), era "é imagem
do Deus invisível" (Cl 1.15), e "está à destra de Deus, tendo subido ao
céu, havendo-se-lhe sujeitado os anjos, e as autoridades, e as potências"
(1 Pe 3.22). Essas crenças emergiram cedo na História da Igreja, não em
algum estágio avançado da "evolução da doutrina cristã".99 Tais passa­
gens tam bém conferem confiabilidade às declarações exaltadas feitas
por Jesus, e sobre Ele, nas páginas dos próprios Evangelhos.
A m ais significativa e assombrosa passagem pré-paulina é 1
Coríntios 15.3-7. Uma vez mais, Paulo usa a linguagem técnica da re­
cepção e transmissão da tradição judaica oral: "Porque primeiramente
vos entreguei o que também recebi". Aqui chegam os ao âmago da fé
cristã antiga acerca de Jesus:

... que Cristo morreu pelos nossos pecados, de acordo com as Escrituras,
que Ele foi sepultado, que ressuscitou ao terceiro dia de acordo com as
Escrituras, e que apareceu a Cefas [Pedro] e depois aos Doze. Depois
disso, Ele apareceu a mais de quinhentos dos irmãos e irmãs, ao mesmo
tempo, muitos dos quais ainda estão vivos, embora alguns estejam ador­
mecidos. Então, Ele apareceu a Tiago, e depois a todos os apóstolos...

O âm ago desta informação de discipulado deve ter sido ensinada


a Paulo pouco depois que se tornou um cristão. Uma dramática corro-
boração disso nos vem de um importante acadêm ico alemão que per­
correu o caminho do cristianism o liberal ao ateísmo durante os anos
62 Q u e stõ e s C ru cia is do N o v o T estam en to

1990. Escrevendo abundantemente sobre o tema da ressurreição, Gerd


Lüdemann afirmou que durante os dois primeiros anos do movimento
cristão, os seguidores de Jesus proclamavam confiantemente a sua res­
surreição corpórea dos mortos. Embora Lüdemann não cresse que um
evento genuinamente sobrenatural tenha acontecido, reconhece que a
declaração mais responsável que um historiador pode fazer é que os
primeiros cristãos creram, quase que imediatamente, que algo deste
tipo ocorreu.100 Não adiantará fingir que a história da ressurreição foi
uma invenção mitológica e muito posterior, muito tempo depois que
as pessoas que realmente sabiam o que tinha ou não acontecido já es­
tavam mortas!

Milagres
A única coisa que impede que Lüdemann passe da observação de
que os primeiros cristãos acreditavam que Cristo tinha ressuscitado dos
mortos para a convicção de que Ele ressuscitou fisicamente, é a sua sin­
cera pressuposição de que essas coisas, ou quaisquer eventos milagro­
sos, jam ais poderiam ocorrer. Embora pareça melhor deixar a questão
do miraculoso para outro livro, eu não consigo evitá-la completamente
neste capítulo, ainda que meus comentários devam ser breves.101

C e t i c is m o e R espo sta

Há três razões principais por que muitos acadêm icos modernos


acreditam que milagres não acontecem. Em primeiro lugar, alguns
acreditam que a ciência refuta os milagres. A mais famosa enunciação
dessa convicção vem do prolífico acadêmico do Novo Testamento e te­
ólogo alemão, de 50 anos atrás, Rudolf Bultmann, quando declarou que
"o conhecimento e domínio que o homem tem do mundo avançou a tal
ponto, em razão da ciência e da tecnologia, que não mais é possível que
alguém defenda seriamente a visão de mundo do N ovo Testam ento".102
Os povos antigos simplesmente não tinham o entendim ento das leis
universais de causa e efeito que nós temos, e por isso acreditavam no
que nós não podemos crer.
Em segundo lugar, outros admitem a possibilidade do miraculoso
em teoria, mas insistem que, na prática, sempre haverá uma probabili­
dade mais alta de que uma explicação naturalista se responsabilize pelo
misterioso. A clássica exposição deste ponto de vista vem do filósofo
escocês do século XVIII, David Hume, que defendeu essa afirmação
enfatizando quão frequentemente a declaração de testemunhas confi-
( ) Novo Testamento É historicam ente Confiável? 63

liveis pode estar equivocado, quão frequentemente pessoas ingênuas e


crédulas caem presas de interpretações equivocadas de eventos, e como
os outros estão simplesmente procurando milagres e por isso são inca­
pazes de analisar objetivamente causas de eventos incomuns. Hume
adotou um uniform itarianism o filosófico, isto é, declarando que uma
pessoa não pode atribuir uma causa a um evento que não observou
nem vivenciou diretamente (nem obteve a inform ação de alguém que
observou ou vivenciou o evento).103
Finalmente, um terceiro argumento apela para os aparentes paralelos
na antiga religião e mitologia. Histórias similares eram contadas sobre
os deuses e deusas gregos e romanos. Quase contemporâneos de Jesus,
por exem plo, Apolônio, no mundo grego e Hanina ben Dosa ou Honi,
0 que faz chover, no mundo judeu, são considerados como tendo reali­
zado milagres, alguns deles assombrosamente similares aos primeiros
prodígios e maravilhas cristãos. Portanto, este argumento tenta sugerir
que nós interpretamos mal o gênero literário das histórias de milagres
bíblicos, que jam ais teriam pretendido registrar fatos sérios, mas seriam
relatos fictícios designados a ensinar lições teológicas. Classicamente
estruturada nos meados do século XIX por David Strauss, esta é hoje
em dia a explicação dominante para as histórias de milagres da Bíblia,
entre o ramo mais cético dos acadêm icos.104 Cada um dos três argumen­
tos merece uma resposta.
Em resposta à reivindicação científica, é importante enfatizar que em
uma era pós-Einstein, pós-Heisenberg, os filósofos da ciência são cada
vez menos dogmáticos sobre o que pode ou não acontecer, reconhecen­
do que a ciência, por definição, é o estudo do que é repetível, e por isso
não pode avaliar a existência divina.105 Se Deus, por definição, é um ser
sobrenatural que criou o universo, realmente existir, então nós devemos
aceitar a possibilidade de que Ele ocasionalmente interrompa as leis cien-
iíficas normais de causa e efeito, para criar o que chamamos de mila­
gre. Curiosamente, mesmo nesta era altamente tecnológica e científica, a
substancial maioria dos norte-americanos adultos ainda crê em milagres,
porque respostas dramáticas a orações e curas físicas instantâneas e inex­
plicáveis continuam a acontecer com excessiva frequência para que se
possa negá-las.106 Por outro lado, devemos nos lembrar de que, já no perí­
odo do Novo Testamento, as pessoas sabiam que os mortos normalmente
não ressuscitam, e que os doentes não se curam instantaneamente. Muito
1requentemente, nós declaramos a ingenuidade dos povos primitivos de
maneira que simplesmente não são fiéis à história.
64 Q u e stõ e s C ru c ia is d o N ovo T estam en to

Embora ainda encontre adeptos, a objeção filosófica foi refutada


há m ais de três séculos. O testem unho de pessoas confiáveis ainda
deve ser levado em consideração, mesm o se o que elas descrevem
parecer inacreditável. Algum as pessoas são ingênuas, mas não todas,
e nem todas ao mesmo nível. A lgum as certam ente estão procurando
m ilagres, e podem acreditar que os encontraram , por meio de algum
processo de "cum prim ento de desejos". Mas os céticos endurecidos
também foram convertidos à fé cristã por causa dos milagres que de­
cididam ente não estavam procurando. E o uniform itarianism o pro­
va: pelo seu critério, ninguém que viva nos trópicos, em uma época
diante da com unicação global e tecnologia m oderna, teria qualquer
razão para crer no gelo! Além disso, o uniform itarianism o marcara
um determ inism o antropológico; isto é, ele não deixa espaço para que
o livre-arbítrio humano crie uma nova causa para um evento jam ais
imaginado antes.107
Quanto aos paralelos com outras religiões antigas, não é provável
que sejam responsáveis por gerar as histórias de m ilagres contidas nos
Evangelhos e no livro de Atos. O s mitos clássicos greco-rom anos eram
sobre deuses e deusas que jam ais viveram vidas hum anas verdadeiras
na terra. N as raras ocasiões em que os milagres eram atribuídos a he­
róis hum anos endeusados, com o Asclépio (em bora m esm o então haja
debates se este homem realm ente existiu), ainda eram pessoas de sé­
culos passados cujos retratos cresceram ao nível de lendas detalhadas
somente depois de centenas de anos. Os m ilagres que aconteceram
nos tem pos do Novo Testamento em santuários dedicados a Asclépio
provavelm ente podem ser explicados pelo que hoje seria chamado
de processos psicossom áticos.108 Apolônio de Tyana viveu depois da
época de Cristo e a com posição dos Evangelhos e do livro de Atos,
de modo que as suas supostas curas e ressurreições não podem ter
influenciado os prim eiros relatos cristãos. Hanina teve milagres de
cura atribuídos a ele, mas som ente por meio da oração, ao passo que
Cristo e os apóstolos ordenavam que as pessoas fossem curadas dire­
tamente, e elas realm ente ficavam curadas. O único m ilagre atribuído
a Honi, com o sugere o seu apelido, foi ter feito chover, um tipo de
milagre que jam ais é retratado nos Evangelhos ou no livro de Atos.
Mas, dada a fé cristã de que Deus realizou m ilagres por interm édio de
judeus fiéis, e de que Satanás pode realizar falsos m ilagres, não há ra­
zão necessariam ente para rejeitar todas as histórias antigas de outros
eventos aparentem ente sobrenaturais.109
(> Novo Testamento É historicam ente Confiável? 65

A E v id ê n c ia P o s i t i v a
Não apenas as objeções padrão ã aceitação das histórias de milagres
do Novo Testamento não convencem, mas a evidência positiva adicio­
nal respalda a sua historicidade. Nós já observamos que tanto a tradição
l abínica como Josefo concordaram que Jesus realizou milagres. As his-
lórias de milagres são encontradas em cada Evangelho, e cada suposta
lonte para o Evangelho, assim como para o livro de Atos, e as referên­
cias a Jesus e aos apóstolos realizando milagres estão espalhadas pelas
epístolas também (por exemplo, Rm 15.19; 2 Co 12.12; G1 3.5; Hb 2.4).
( ilobalmente, as histórias de milagres satisfazem plenamente até mesmo
o antigo critério da dupla igualdade e desigualdade (veja o início do ca-
pítulo 1). Há paralelos parciais nas fontes judaicas mais antigas e nas cris-
líis mais recentes, mas o âmago da singularidade dos relatos bíblicos é a
objetividade e a eficácia dos milagres e da sua função como indicadores
da chegada decisiva do reino de Deus. Os milagres, assim, também sa-
lisfazem o critério da coerência com o ensinamento de Cristo conhecido
como autêntico e essencial. John Meier, na mais abrangente investigação
acadêmica dos tempos modernos, sobre a historicidade dos relatos de
milagres do Evangelho, embora enfatize que nem todos os relatos satis-
fazem a todos os critérios, ainda assim conclui:

A curiosa conclusão da nossa investigação é que, considerada global­


mente, a tradição dos milagres de Jesus é mais firmemente respaldada
pelo critério da historicidade do que o são inúmeras tradições conheci­
das e com frequência prontamente aceitas, sobre a sua vida e o seu mi­
nistério (por exemplo, a sua condição de carpinteiro, o seu uso de "abba "
em oração, a sua própria oração no Getsêmani antes da sua prisão).
Explicando dramaticamente, mas sem grandes exageros: se a tradição
dos milagres do ministério público de Jesus tiver que ser rejeitada in toto
como não histórica, todas as outras tradições do evangelho a respeito
dEle também deverão ser.li0

Esta não é, naturalmente, a conclusão de Meier; na verdade, há for­


tes razões para crer, ainda que com bases puram ente históricas, na con­
fiabilidade substancial da tradição dos milagres.
A R e s s u r r e iç ã o

Novam ente, breves com entários parecem completamente inade­


quados, mas há excelentes livros que se dedicam mais plenamente ao
66 Q u e s tõ e s C ru cia is d o N ovo T estam en to

tema,111 principalm ente N. T. W right na sua recente e magistral obra,


The Resurrection o f the Son o f God [A Ressurreição do Filho de Deus].112
Nenhuma explicação alternativa convincente foi proposta para expli­
car a fé dos primeiros cristãos na ressurreição. As ideias propostas na
literatura popular mais antiga, de que Jesus na realidade jamais morreu
na cruz, de que os seus discípulos roubaram o seu corpo, de que as
mulheres foram ao sepulcro errado ou que mais de quinhentas "teste­
m unhas" durante um período de quarenta dias, em diferentes localiza­
ções geográficas, todas foram acometidas de idêntica "alucinação em
m assa", foram apropriadamente descartadas por grande parte de aca­
dêmicos contemporâneos. A alternativa acadêmica mais popular hoje é
a de que a ressurreição é o produto de um processo de mitologização
posterior de uma tradição original que não incluía um retorno sobrena­
tural dos mortos. Mas a evidência de 1 Coríntios 15 já basta para refu­
tar isso, como já vimos anteriormente nos tópicos "O s Credos Cristãos
A ntigos" e "M ilagres". Além disso, é o tipo de explicação que poderia
fazer sentido, se Jesus tivesse sido um grego que pregava em Atenas, e
se os seus seguidores, uma geração depois, tivessem se tornado predo-
minantemente judeus. A Grécia, de modo geral, acreditava somente na
imortalidade das almas. Os judeus eram comparativamente singulares
no mundo m editerrâneo do século I, crendo em uma ressurreição total
do corpo. Mas, naturalmente, isso é o oposto do progresso geográfico
real do evangelho. No mínimo, nós deveríamos ter esperado um cristia­
nismo helenista crescente, cada vez mais, para m inim izar ou eliminar
as referências à ressurreição de um corpo.113
As alternativas à ressurreição corpórea de Jesus não convencem, e,
além disso, seis argumentos adicionais também propiciam fortes evi­
dências a favor da sua historicidade. Nós já mencionamos o testemu­
nho terreno de Paulo. Além de 1 Coríntios 15, há m ais de uma dúzia de
outras referências à ressurreição de Cristo nas incontestáveis epístolas
paulinas, escritas antes dos anos 50 (Rm 4.24, 25; 6.4, 9; 8.11, 34; 10.9; 1
Co 6.14; 2 Co 4.14; 5.15; G 11.1; 1 Ts 1.10; etc.). Em segundo lugar, não há
alternativa que explique adequadamente por que os primeiros cristãos
judeus (isto é, não apenas gentios) alteraram o seu dia de adoração de
sábado para domingo, especialmente quando a sua lei fazia da ado­
ração no sábado (Sabbath) um dos Dez M andamentos invioláveis (Ex
20.8-11). Alguma coisa objetiva, assombrosamente significativa e com
data de alguma manhã de domingo em particular deve ter gerado a
mudança. Em terceiro lugar, em uma cultura em que o testemunho das
<) Novo Testamento É historicam ente Confiável? 67

mulheres era frequentemente inadmissível em um tribunal, quem in­


ventaria um "m ito" relacionado à fundação, em que todas as primeiras
testemunhas de um evento difícil de crer eram mulheres? Em quarto
lugar, os relatos contidos do Novo Testamento diferem dramaticamente
das bizarras descrições apócrifas da ressurreição, inventadas no século
11e depois. Em quinto lugar, nos primeiros séculos do cristianismo, ne­
nhum sepulcro jam ais foi venerado, separando a resposta cristã à morte
do seu fundador de praticam ente todas as outras religiões da história
da humanidade. Finalmente, o que teria levado os primeiros cristãos
judeus a rejeitar a interpretação que lhes foi dada como herança em
I )euteronômio 21.23, de que o Messias crucificado, pela própria natu­
reza da sua morte, demonstrou que Ele estava se colocando em uma
posição de maldição diante de Deus? Novamente, é mais fácil crer em
um evento aceito como sobrenatural do que tentar explicar todos estes
fatos estranhos através de algum a outra lógica.114

Conclusão
Neste capítulo, nós investigamos um vasto terreno, tentando ofere­
cer breves introduções a cada tópico, com referências onde cada uma
delas pode ser investigada com mais detalhes. Determinados argumen­
tos e determinadas partes das várias linhas de raciocínio acabam sendo
mais fortes do que outros. De forma cumulativa, no entanto, um caso
impressionante pode ser defendido a favor da confiabilidade geral dos
lívangelhos e do livro de Atos, exclusivamente pelos critérios históri­
cos. As pessoas que decidem crer nos relatos mais do que a argumen­
tação histórica pode respaldar o fazem, certamente, por um "salto de
fé". Mas é um salto na mesma direção para a qual a grande m aioria das
evidências históricas está apontando. E cada historiador do mundo an­
tigo regularmente obtém conclusões provisórias sobre a confiabilidade
ou não de determinada fonte, o que, então, predispõe a sua atitude com
relação às partes daquela fonte que não podem ser confirmadas nem
contraditas. Como os Evangelhos e o livro de Atos se mostram compro-
vadamente confiáveis em tantas passagens onde podem ser testados,
deveriam receber o benefício da dúvida onde não puderem sê-lo.
C a p ít u l o 2

Paulo Foi o Verdadeiro


Fundador do Cristianismo?

Na m etade do século XIX, o acadêmico alemão do Novo Testamento,


Ferdinand Christian Baur propôs uma drástica revisão do entendim en­
to tradicional das origens cristãs. Empregando a filosofia de história
de G. W. F. Hegel, o mesmo homem que inspirou Karl Marx na arena
política, Baur acreditou ver um processo de "tese-antítese-síntese" nas
primeiras gerações da História da Igreja. Um ramo do cristianismo se­
guia a Pedro, que permanecia relativamente fiel ao ensinamento judai­
co de Jesus. Paulo, no entanto, representava uma abordagem contrária,
influenciada mais pela cultura greco-romana. As gerações posteriores,
então, criaram uma síntese das duas tendências. No final do século XIX,
outro liberal alemão, William Wrede, expandiu a obra de Baur e chamou
Paulo de o segundo fundador do cristianism o.1Autores de outras dis-
ciplinas ficaram ainda menos discretos nas suas descrições. O famoso
d ramaturgo inglês George Bernard Shaw escreveu sobre "a monstruosa
imposição a Jesus", ao passo que o filósofo niilista Friedrich Nietzsche
chamou Paulo de "o primeiro cristão" e o "desevangelista judeu" (isto
é, alguém que traz más notícias, em lugar de um "evangelista", ou por-
tndor de boas novas).z
Uma comparação superficial entre Jesus e Paulo certamente reve­
la diferenças mais rápido do que similaridades. Paulo parece citar ou
70 Q u e stõ e s C ru cia is d o N ovo T estam en to

se referir aos ensinamentos de Jesus raramente, e dizer ainda menos


sobre a vida de Cristo. Em vez disso, Paulo se concentra no significa­
do da morte e ressurreição de Jesus e emprega categorias cristológicas
que fazem de Jesus um ser muito divino e exaltado. Particularmente
para as pessoas que não julgam os Evangelhos terrivelmente dignos
de confiança, que duvidam de que Jesus agisse como algo mais do que
um profeta, ou declarasse sê-lo, Paulo parece trabalhar em um mundo
completamente diferente.
Na primeira metade do século XX, Rudolf Bultmann se esforçou,
como muitos, para conservar Jesus e Paulo afastados um do outro. Mas
para Bultmann, a fé não dependia de evidências históricas, mas do tes­
temunho do Espírito de Deus a uma pessoa, por intermédio da sua
Palavra. Uma pessoa poderia afirmar a doutrina cristã tradicional como
crente, pela fé, mesmo que os seus estudos como historiador conduzis­
sem a retratos radicalmente diferentes das origens cristãs. Bultmann
também se fez famoso por apelar a 2 Coríntios 5.16 ("Assim que, da­
qui por diante, a ninguém conhecemos segundo a carne; e, ainda que
também tenhamos conhecido Cristo segundo a carne, contudo, agora,
já o não conhecemos desse m odo") e reivindicar que isso queria dizer
que, sendo incrédulos, os discípulos pensaram que era importante ava­
liar o Jesus histórico, mas que, sendo crentes, reconheciam que o Jesus
terreno não tinha importância. O que importava era adorar o Senhor
ressuscitado.3
Na segunda metade do século XX, o pêndulo começou a se afas­
tar destas posições de extremo ceticismo. Os comentaristas concordam
que 2 Coríntios 5.16 estava contrastando duas avaliações diferentes
de Cristo, antes e depois da sua ressurreição — uma que não o consi­
derava como o Messias divino, e outra que considerava.4 Acadêmicos
conservadores, como F. F. Bruce e J. W. Fraser escreveram livros impor­
tantes que destacam a continuidade entre as vidas e os ensinamentos
de Jesus e Paulo,5 gerando uma crescente confiança na similaridade
entre os dois homens, até mesmo em círculos menos conservadores.1’
Em anos recentes, ninguém fez m ais para defender esta causa do que
o evangélico inglês David Wenham, em dois importantes livros e em
vários artigos sobre o tema.7
Mas o ceticism o é difícil de eliminar, e antigas teorias ressuscitam
de roupa nova. No princípio deste novo milênio, Michael Goulder, da
Universidade de Birmingham, modificou e reapresentou a teoria de
Baur, pelo menos no que diz respeito à tensão em Corinto, sugerindo
Paulo Foi o Verdadeiro Fundador do Cristianismo? 71

que Paulo tinha que combater o cristianismo Petrino como uma parte
daquilo que ele considerava como falsos ensinos.8 E Gerd Lüdemann,
cujas opiniões sobre o assunto que discutimos no capítulo anterior, nos
tópicos "O s Credos Cristãos A ntigos" e "M ilagres", vão ainda mais além
do que Wrede, chama Paulo de verdadeiro fundador do Cristianismo.9
A ideia de que a mudança do ensino de Jesus para a teologia de Paulo
a respeito de Jesus possa ser resumida com o título "D e profeta judeu a
deus dos gentios",10 continua a vir à tona!

O Conhecimento de Paulo sobre os Ensinos de Jesus


O óbvio ponto de partida para responder a essas acusações envol­
ve os m esm os textos que apresentei rapidamente no capítulo anterior,
textos que demonstram que Paulo estava ciente dos ensinamentos de
Cristo. Ali, o meu propósito foi meramente argumentar que a presença
de citações ou referências às palavras de Jesus, em cartas escritas antes
da composição de qualquer Evangelho escrito, demonstrava que os en­
sinamentos de Cristo estavam circulando de boca em boca e eram re­
lativamente preservados com cuidado. Aqui, nós precisamos nos apro­
fundar nos detalhes, examinando estes e outros textos, para determinar
o quanto Paulo conhecia sobre Jesus e quão cuidadosamente ele usava
o que conhecia.

As R e f e r ê n c ia s m a is C laras

Um Texto Litúrgico
De longe, a mais abrangente citação direta de Jesus nas epístolas de
Paulo aparece em 1 Coríntios 11.23-25:

Porque eu recebi do Senhor o que também vos ensinei: que o Senhor


Jesus, na noite em que foi traído, tomou o pão; e, tendo dado graças, o
partiu e disse: Tomai, comei; isto é o meu corpo que é partido por vós;
fazei isto em memória de mim. Semelhantemente também, depois de
cear, tomou o cálice, dizendo: Este cálice é o Novo Testamento no meu
sangue; fazei isto, todas as vezes que beberdes, em memória de mim.

Aqui, Paulo apela à terminologia técnica dos judeus para a trans­


missão da tradição oral com os verbos "recebi" e "ensinei". Essas são
informações que lhe teriam sido ensinadas muito cedo, na sua vida
cristã. A celebração da Ceia do Senhor, em memória da Ultima Ceia
72 Q u e s tõ e s C ru cia is d o N o vo T estam en to

de Jesus, caracterizava a adoração da Igreja, desde a sua origem (veja


Atos 2.42). As palavras usadas por Paulo são particularm ente próximas
da versão que Lucas apresenta da Ultima Ceia (Lc 22.19,20), embora
todos os três autores Sinóticos incluam relatos razoavelmente similares.
Embora Lucas modifique regularmente o texto de Marcos, quando eles
compartilham relatos de um episódio na vida de Cristo, muitos acadê­
micos pensam que Lucas teve uma fonte especial, particularmente de
materiais exclusivos relacionados à última semana de vida de Cristo,
e que a versão compartilhada por Lucas e Paulo reflete o mais antigo
relato existente sobre a Ultima C eia.11 Seja este o caso ou não, Paulo
claramente veio a crer na morte substitutiva e expiatória de Jesus muito
cedo, com base nas mesmas declarações que o próprio Jesus fez sobre
a sua morte vindoura. Paulo certam ente explica de forma detalhada o
tópico em suas epístolas, muito mais do que Jesus o fez, mas os dois
estão em perfeito acordo quanto ao tema.

Ensinos Éticos
Uma referência menos direta ou abrangente a um ensinamento de
Jesus aparece em I Coríntios 9.14, em que Paulo escreve: “Assim orde­
nou também o Senhor aos que anunciam o evangelho, que vivam do
evangelho". Aqui, Paulo se refere ao ensinamento de Jesus, apresen­
tado em Lucas 10.7 e Mateus 10.10, de que os trabalhadores merecem
seus salários. Em razão do contexto financeiro mais explícito, Paulo
provavelmente está, de novo, aproveitando a forma usada por Lucas
de uma assim chamada expressão Q (material encontrado em Mateus
e Lucas, mas não em Lucas), e é a forma da expressão normalmente
considerada como a mais antiga, e mais literal tradução das palavras de
Jesus. Algumas vezes, se alega que Paulo se sente livre para desobede­
cer aos mandamentos de Cristo, uma vez que em Corinto ele se recusa a
aceitar dinheiro pelo ministério. Mas as palavras de Jesus enunciavam
um princípio de que aqueles a quem chamaríamos "trabalhadores cris­
tãos em período integral" m erecem apoio financeiro dos companheiros
cristãos. Ele jam ais disse que as pessoas não poderiam voluntariamente
abrir mão de seu direito de receber este sustento, por uma boa razão,
como a que Paulo acreditava ter.12
O texto de 1 Coríntios 7 envolve uma interessante interação entre
palavras que Paulo atribui diretamente ao "Senhor" e aquelas cujo cré­
dito é seu. No versículo 10, ele declara: "Aos casados, mando, não eu,
mas o Senhor: Que a mulher se não aparte do m arido". No versículo
Paulo Foi o Verdadeiro Fundador do Cristianismo? 73

12, no entanto, ele escreve: "M as, aos outros, digo eu, não o Senhor...",
quando continua a lidar com a situação de uma pessoa cristã com um
cônjuge incrédulo que deseja abandonar o casamento. Embora, à pri­
meira vista, possa parecer que Paulo esteja reivindicando inspiração
para a sua primeira declaração, e então meramente dê a sua opinião no
segundo caso, é mais provável que ele queira dizer que sabe que o Jesus
histórico ensinava, de m odo geral, contra o divórcio (veja Mc 10.2-12),
mas que Jesus não fez nenhum pronunciamento específico a respeito
de casam entos mistos. Paulo faz uma distinção sim ilar no versículo 25:
"Ora, quanto às virgens, não tenho mandamento do Senhor; dou, po­
rém, o m eu parecer, como quem tem alcançado misericórdia do Senhor
para ser fiel". Paulo realmente crê que o Senhor o guiou ao dar-lhe uma
convicção sobre o tema, mas reconhece que não pode citar o Jesus ter­
reno no processo. Finalmente, o versículo 40 conclui o capítulo com
outra das "cham adas à decisão" — sobre a felicidade pessoal de uma
viúva que continua sem se casar — e acrescenta a sua convicção de que
ele tam bém tem o "Espírito de D eus", provavelmente um gentil em ­
purrão nos professores elitistas de Corinto que pensavam que somen­
te eles estivessem em contato com o Espírito de Deus.13 Novamente,
a forma do ensinamento de Jesus a que Paulo se refere, no princípio
dos seus comentários, reflete a mais antiga versão entre os relatos dos
Evangelhos.14 É interessante, também, que a preferência de Paulo pela
vida de solteiro, por todo este capítulo, provavelmente reflete o ensina­
mento contracultural de Jesus, de que Deus dá a dádiva do celibato a
alguns crentes (Mt 19.10-12). Com o Jesus em Marcos 10.7 e passagens
paralelas, Paulo também apela ao relato do Gênesis sobre o casamento
(como deixar pai e mãe, apegar-se ao cônjuge e tornar-se uma única
carne) em um contexto próximo (1 Co 6.16) que sugere que ele conhe­
cia, com detalhes, os ensinamentos de Jesus sobre o tema.
Um grupo de alusões aos ensinamentos de Jesus aparece em
Romanos 12 - 1 5 . 15 Romanos 12.14 claramente se refere ao ensinamento
de Jesus no Sermão da M ontanha com os seus mandamentos de aben­
çoar àqueles que perseguem os crentes, com a conclusão "abençoai e
não am aldiçoeis". A ocorrência dos verbos para abençoar e amaldiçoar
na form a deste ensinamento, segundo Lucas (Lc 6.28), mostra que, no­
vamente, Paulo está mais próximo, nas suas palavras, da versão das pa­
lavras de Jesus consideradas como sendo a tradução mais antiga e mais
literal (compare com Mt 5.44). Romanos 12.17 ("A ninguém torneis
mal por m al") pode ser uma alusão a uma parte do sermão encontrado
74 Q u e s tõ e s C ru cia is d o N o v o T estam en to

apenas em M ateus (5.39 — "não resistais ao m al"). Os versículos 18-19


parecem fazer alusão ao m andamento de Jesus, de amar aos próprios
inimigos, especialmente da m aneira como vemos em Lucas 6.27 e 36,
que são, novam ente, as formas mais antigas da tradição.16
Rom anos 13.7, com suas palavras sobre dar a todos os que lhes
é devido, incluindo taxas e im postos, claram ente relem bra a respos­
ta de Jesus à pergunta sobre o pagam ento de tributos: "D ai, pois, a
César o que é de César e a Deus, o que é de D eus". Até m esm o o
extrem am ente cético Seminário Jesus marca em verm elho este texto
no Evangelho de M arcos (12.17), identificando-o como uma rara frase
de Jesus preservada intacta na sua forma original.17 O apelo de Paulo
aos rom anos, para que deixem de julgar os outros com respeito a
questões m oralm ente neutras (Rm 14.13) talvez seja uma alusão a ou­
tro ensinam ento essencial do Serm ão da M ontanha sobre não julgar,
para não ser julgado (Mt 7.1; Lc 6.37). O versículo seguinte (Rm 14.14)
reitera ainda m ais claram ente a declaração de Jesus de que todos os
alim entos agora são inerentem ente limpos (Mc 7.18,19 par.), uma de­
claração que está mais clara na sua forma mais antiga, a de Marcos. A
declaração de Cristo também pode estar por trás da ordem de Paulo
em 1 Coríntios 10.27: "Com ei de tudo o que se puser diante de vós".
Alternativam ente, esse texto pode aludir a Lucas 10.7, sobre comer
o que quer que as pessoas fornecessem aos discípulos, quando eles
prosseguiam em suas viagens m issionárias. Neste últim o caso, é inte­
ressante que versículos consecutivos do mesmo serm ão tenham sido
citados em diferentes textos de Paulo (lembre-se de 1 Co 9.14 sobre Lc
10.8), sugerindo que Paulo conhecia blocos de ensinam ento maiores
do que sim ples frases individuais de Jesu s.18 Finalm ente, Romanos
15.1-3 se refere explicitam ente ao modelo de Cristo, em não agradar
a si mesmo, usando linguagem que também pode fazer eco às suas
palavras sobre a servidão (cf. Mc 10.45).
Com a exceção da citação muito explícita e extensa do ensinamento
de Jesus na Ceia do Senhor, todas essas referências consideradas até
aqui caem em um claro padrão. Paulo faz alusão às palavras de Jesus,
em lugar de citá-las diretamente. Todos os textos envolvem a instrução
ética de Jesus. E as referências repetidas aos sermões extensos de Jesus
sugerem que Paulo conhecia mais do que ensinamentos individuais
que circulavam isoladamente uns dos outros. Ele estava, pelo menos,
ciente de grupos de ensinamentos sobre temas similares, se não da to­
talidade das próprias mensagens.19
Paulo Foi o Verdadeiro Fundador do Cristianismo? 75

Escatologia
O principal ponto teológico que aparece nas alusões de Paulo aos
ensinamentos de Jesus é a escatologia. 1 Tessalonicenses 2.15,16 compa-
ra a perseguição que os tessalonicenses estão vivenciando àquela dos
líderes judeus em Israel, "o s quais também m ataram o Senhor Jesus e os
seus próprios profetas, e nos têm perseguido, e não agradam a Deus, e
são contrários a todos os homens. E nos im pedem de pregar aos gentios
as palavras da salvação, a fim de encherem sempre a medida de seus
pecados; mas a ira de Deus caiu sobre eles até ao fim ". Essas duras pala-
vras nos lembram das palavras de Jesus a certos líderes hipócritas entre
os fariseus e escribas, em Mateus 23, especialmente os versículos 32-36.
Ali, Cristo declara: "Enchei vós, pois, a medida de vossos pais" (v- 32);
Ele descreve como eles tinham condenado profetas nas eras passadas,
e como agora iriam crucificá-lo (vv. 34,35), e conclui dizendo que "esta
geração" será responsável por todo este pecado (v. 36). Novamente, to­
das essas alusões também têm paralelos em Lucas (11.48-51), de rfiodo
que estam os olhando para tradições com raízes muito antigas.20 Ainda
que os comentaristas discutam se as palavras de Jesus e de Paulo foram
cumpridas na passagem do antigo concerto para o novo, iniciado com
a crucificação de Cristo (30 d.C.) ou na destruição de Jerusalém en^ 70
d.C. pelos romanos (ou em ambos os episódios), ainda há paralelos sur­
preendentes entre as declarações dos dois oradores.
Em 1 Tessalonicenses 4.15, Paulo anuncia: "Dizem o-vos, pois, isto
pela palavra do Senhor: que nós, os que ficarmos vivos para a v i n d a
do Senhor, não precederemos os que dorm em ". Nos versículos 16 e
17, ele prossegue, explicando que o próprio Senhor irá retornar d o céu
com alarido, e com voz de arcanjo, e com a trombeta de Deus; e os
que morreram em Cristo ressuscitarão primeiro, e então os crentes cIue
ainda estão vivos irão encontrar o Senhor "nos ares". Embora a lg uns
com entaristas pensem que esta é uma informação que Paulo r e c e b e r a
diretamente do Cristo ressuscitado, parece mais provável que ele e s t e ja ,
novamente, aludindo a ensinamentos do Jesus terreno. E difícil sab er
quanto do que ele acrescenta depois do versículo 15 faz parte d esta
"palavra do Senhor", mas é interessante observar vários paralelos ao
ensinam ento de Jesus no Serm ão das Oliveiras (em Mc 13; Mt 24 — 25 e
L c 21). Especificamente, Marcos 13.26 e paralelos descrevem o r e t o r n o
de Cristo do céu (como em 1 Ts 4.16a), quando envia os seus anjos (cf- v-
16b). O paralelo em Mateus acrescenta uma referência a um clam or de
trombeta (Mt 24.31; cf. 1 Ts 4.16c), ao passo que Mateus e Marcos c o n t i ­
76 Q u e s tõ e s C ru ciais do N o v o T estam en to

nuam falando de uma congregação de todo o povo de Deus (Mt 24.31;


Mc 13.27; cf. 1 Ts 4 .1 5 ,17).21
O fato de que a "palavra do Senhor" se refere aos ensinamentos de
Jesus no Apocalipse Sinótico, com o Marcos 13 e passagens paralelas
são frequentemente chamadas, é reforçado por alusões ainda mais cla­
ras em 1 Tessalonicenses 5. Nos versículos 2 e 4, a vinda de Cristo é
comparada à chegada surpresa de um ladrão durante a noite. Essa é
uma metáfora tão incomum e assombrosa (especialmente uma vez que
Cristo era reverenciado, mas os ladrões são considerados maus), que
Paulo provavelmente não a teria inventado. Quando vemos Jesus na
sua parábola do pai de família, em pregando a metáfora idêntica para
uma realidade idêntica (Mt 24.43,44; Lc 12.39,40), temos praticamente
certeza de que Paulo está fazendo alusão a esta passagem em particu­
lar. A repentina chegada do fim, quando as pessoas pensam que o mun­
do continuará normalmente (1 Ts 5.3), combina com o ensinamento de
Jesus na seção imediatamente anterior do Sermão das Oliveiras (Mt
24.37-42). A m etáfora das dores do parto, no mesmo versículo, corres­
ponde a Marcos 13.8 e passagens paralelas. Estar sóbrios e vigilantes,
como filhos do dia (1 Ts 5.4-6) repete o chamado à vigilância, em Marcos
13.33, e toda a parábola das virgens, em Mateus 25.1-13 (cf. também os
servos vigilantes em Lucas 12.35-38, que pode, originalm ente, ter feito
parte do mesmo sermão).22 2 Tessalonicenses 2.3-6 oferece vários equi­
valentes à descrição da abominação da desolação em Marcos 13.14-20
e passagens paralelas. Uma vez mais, Paulo parece ter conhecido todo
o sermão de Jesus e se refere a ele em várias ocasiões diferentes.23 E as
parábolas e metáforas citadas estão entre as passagens, nos Sinóticos,
mais amplamente consideradas com o autênticas, até mesmo por acadê­
micos céticos de grandes porções da tradição do Evangelho. As linhas
de continuidade entre Paulo e o Jesus histórico novam ente superam as
diferenças.

O u t r a s P o s s ív e is A lu sõ es a o s E n s in o s de C r is t o n o s
E s c r it o s d e P a u lo

Nós podemos facilmente nos entusiasmar, procurando por alusões


ou ecos aos ensinamentos de Jesus. Uma palavra ou frase normalmente
não é suficiente para estabelecer uma dependência direta, embora de­
terminados acadêmicos tenham exercido considerável esforço tentan­
do ampliar os possíveis pontos de contato entre Jesus e Paulo.24 Mas a
lista a seguir, de paralelos provavelmente intencionais, embora talvez
Paulo Foi o Verdadeiro Fundador do Cristianismo? 77

incluindo um ou dois itens além do que a evidência justifica, parece


atingir um razoável equilíbrio entre poucas e excessivas alusões adi­
cionais.25
1 Coríntios 13.2, com sua proverbial referência à fé que pode m o­
ver m ontanhas, possivelmente seja uma alusão à promessa de Jesus em
Marcos 11.23,24, sobre os discípulos sendo capazes de ordenar que um
monte se levante e se lance no mar. O paralelo de Mateus acrescenta
uma referência explícita à "fé " na primeira parte destas palavras (Mt
21.21); as duas versões se referem à crença na segunda parte. Mateus
17.20 descreve palavras similares de Jesus, com referência à fé, tão pe­
quena como um grão de mostarda.
1 Coríntios 1 - 2 , com seu contraste entre as pessoas que este mundo
considera sábias e aquelas a quem Deus se revela, contém inúmeros
ecos dos pronunciamentos de Jesus em Mateus 11.25-27 e Lucas 10.21-
22 em que Deus mostra a sua vontade, exclusivamente por intermédio
do seu Filho, e não àqueles que são considerados sábios na terra, mas
às "criancinhas". Paralelos verbais incluem as palavras gregas para sa­
bedoria, entendimento, o bom prazer de Deus, o que ninguém conhece,
o contraste entre o sábio e o louco, e as palavras para escondido, olhos,
ver e ouvir.2(>
Em 1 Tessalonicenses 4.8, Paulo exclama: "Portanto, quem despreza
isto não despreza ao homem, mas, sim, a Deus, que nos deu também
o seu Espírito Santo". Esse princípio pode aludir ao ensinamento do
próprio Jesus, em Lucas 10.16: "Quem vos ouve a vós a mim me ouve;
e quem vos rejeita a vós a m im me rejeita; e quem a mim me rejeita
rejeita aquele que me enviou". E interessante que a alusão novamente
reflete as palavras m issionárias de Jesus, confirmando as nossas sus­
peitas anteriores sobre o conhecim ento de Paulo de blocos inteiros de
tradição.27
Gálatas 1.15,16 descreve a conversão de Paulo quando Deus desejou
revelar o seu Filho "em " Paulo, sendo que depois disso Paulo não con­
sultou "carne nem sangue" — isto é, outros seres humanos. Uma vez
que Paulo está defendendo o seu chamado apostólico, tão autorizado
como o de Pedro, e uma vez que ele, em breve, irá descrever como teve
que se opor a Pedro diretamente, em Antioquia (2.11-14), é tentador
suspeitar de uma alusão à resposta do próprio Jesus a Pedro, quando
o confessou como Messias: "não foi carne e sangue quem to [ou "em "
ti] revelou, mas meu Pai, que está nos céus" (Mt 16.17). Embora esse
trecho do episódio não seja encontrado no Evangelho de Marcos, há
78 Q u e s tõ e s C ru cia is d o N o vo T estam en to

inúmeros semitism os nos acréscimos de Mateus que sugerem a proba­


bilidade de que Jesus realmente tenha dito essas coisas.28
Os leitores de 1 Coríntios 5.1-5 frequentemente se perguntam como
adequar os mandamentos de Paulo para excomungar o membro in­
cestuoso da igreja, com os princípios de Jesus, em M ateus 18.15-17. E
possível que os passos menos dramáticos, definidos na primeira parte
desta última passagem, já tivessem sido tomados sem alcançar o efeito
desejado. De qualquer forma, é surpreendente que as ordens de Paulo,
de entregar o homem a Satanás (v. 5) — pelo menos, a exclusão da co­
munhão — reflita precisamente as medidas extremas que Jesus invoca,
se todo o resto falhar, no final das suas instruções.
Em Gálatas 5.14, Paulo explica que "toda a lei se cumpre numa só
palavra, nesta: Amarás o teu próxim o como a ti m esm o". Essa conclu­
são corresponde intimamente à declaração de Jesus de que toda a lei
e os Profetas "dependem " do duplo mandamento de amor do Antigo
Testamento (a Deus e ao próximo) (M t 22.40). Tanto Jesus como Paulo ci­
tam explicitamente Levítico 19.18 nestes dois contextos; não é provável
que cada um deles tivesse escolhido independentemente o texto idênti­
co, para fazer parte de seus sumários do(s) maior(es) mandamento(s).
Colossenses 1.5,6 descreve "a palavra da verdade do evangelho"
como "frutificando" e "já em todo o mundo". Embora metáforas simi­
lares de agricultura fossem suficientemente comuns no judaísmo antigo,
podemos pensar na parábola do semeador, contada por Jesus, que tam­
bém relaciona a pregação da Palavra ao semeador; e algumas sementes
crescem o suficiente para produzir frutos (Mc 4.3-9). Uma vez que uma
variedade de outros textos, nas epístolas de Paulo, parecem ecoar a lin­
guagem dessa parábola e/ou da sua interpretação (vv. 14-20) — muito
notavelmente 1 Tessalonicenses 1.6 e 2.13, sobre receber a palavra com
alegria, a despeito da perseguição, e aceitar a palavra que se ouvia — é
muito possível que Paulo estivesse familiarizado com a própria parábo­
la. Curiosamente, em Atos 17.18, alguns dos filósofos de Atenas insultam
as palavras de Paulo, chamando-o de spermologos — etimologicamente,
um "paroleiro", uma palavra rara, expressão vulgar em grego, para um
orador de segunda classe, que meramente repete a filosofia de outra pes­
soa, sem compreendê-la realmente. Alguém se perguntaria por que a eli­
te cultural dos filósofos se curvaria para usar esta expressão, a menos que
ela capturasse particularmente bem uma das ênfases de Paulo — falar
sobre sementes. Paulo poderia ter usado o semeador e outras parábolas
sobre sementes de Jesus amplamente no seu ensino?29
Paulo Foi o Verdadeiro Fundador do Cristianismo? 79

Ao longo das cartas de Paulo, o contraste entre "carn e" e "E spírito"
ou "esp írito" tem um papel importante (veja, por exemplo, G1 5.16,17;
Rm 8.12,13; 1 Co 3.1-3). No idiom a grego, de m odo geral, "carn e" nor­
malmente não tem o sentido que emprega Paulo, de "natureza hum a­
na pecadora". O contraste tam bém não é com um nos Evangelhos, mas
as palavras de Jesus aos seus mais íntimos seguidores, no jardim do
Getsêmani permitem um paralelo assombroso: "O espírito, na verdade,
está pronto, mas a carne é fraca" (Mc 14.38). Parece provável que Paulo
estivesse familiarizado com a tradição das palavras significativas que
Jesus proferiu durante a sua agonia.
Muitos textos de Paulo se referem a servir uns aos outros, e frequen­
temente usam Cristo como modelo de servo (por exemplo, Rm 15.1-
4; 1 Co 10.33-11.1). Particularmente digno de nota é o famoso "h in o"
em Filipenses 2.5-11, em que a piedosa condescendência de Cristo para
com a hum anidade na encarnação é descrita com o "tom ando a forma
de servo" (v. 7). Podemos suspeitar que Paulo possa estar repetindo a
declaração do próprio Jesus de que "o Filho do Homem também não
veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate de
m uitos" (Mc 10.45).30
2 Coríntios 1.17 apresenta Paulo descrevendo a sua mudança nos
planos de viagem, não em razão de sua inconstância, mas devido à mu­
dança da situação em Corinto. Provavelmente antecipando acusações
contra ele, pergunta: "deliberando isso, usei, porventura, de levianda­
de? Ou o que delibero, o delibero segundo a carne, para que haja em
mim sim, sim e não, não?" Essa é uma maneira curiosa de descrever a
vacilação nos planos, a m enos que Paulo e/ou os coríntios estejam re­
petindo as instruções de Jesus, sobre juram entos, em Mateus 5.37: "Seja,
porém, o vosso falar: Sim, sim; não, não, porque o que passa disso é de
procedência m aligna".
Várias observações interessantes emergem desta lista de possíveis
alusões. Para começar, muitas se originam de palavras de Jesus, ampla­
mente aceitas como autênticas, de modo que Paulo está demonstrando
não o mero conhecimento da tradição do Evangelho, mas o conheci­
mento sobre o Jesus histórico. Em segundo lugar, a maioria se origi­
na das cartas indiscutíveis de Paulo (com a exceção de Colossenses,
que m uitos acadêmicos, no entanto, consideram de autoria de Paulo).
Em terceiro lugar, o fato de que Paulo faça alusões a ensinamentos de
Jesus, em lugar de citá-los literalmente, requer que os seus ouvintes
estivessem familiarizados com a tradição, com certo nível de detalhes,
80 Q u e s tõ e s C ru ciais d o N o v o T estam en to

de modo que reconhecessem as alusões.31 Finalmente, como muitos dos


textos citados mais diretamente (assim como os textos aos quais são fei­
tas alusões) não são formalmente descritos como palavras do Senhor, é
provável que outras passagens, nas epístolas de Paulo, tam bém aludam
a palavras de Jesus, não preservadas na tradição do evangelho (compa­
re o versículo m emorável em Atos 20.35).32

O Conhecimento de Paulo de outros Elementos da


Tradição do Evangelho
O capítulo 1 apresentou uma lista básica com as mais sólidas carac­
terísticas da vida de Jesus, além dos ensinamentos explícitos, de que
Paulo demonstra ter conhecimento. Stanley Porter apresenta uma lista
comparativa do que Paulo parece "conhecer sobre Jesus, o homem ":

Ele nasceu como humano (Rm 9.5) de uma mulher, e sob a lei, isto é,
como judeu (G14.4); Ele nasceu da descendência de Davi (Rm 1.3; 15.12);
embora não fosse como Adão (Rm 5.15), Ele tinha irmãos, incluindo um
chamado Tiago (1 Co 9.5; G1 1.19); Ele fez uma refeição na noite em que
foi traído (1 Co 11.23-25); Ele foi crucificado e morreu em uma cruz (Fp
2.8; 1 Co 1.23; 8.11; 15.3; Rm 4.25; 5.6,8; 1 Ts 2.15; 4.14, etc.), foi sepultado
(1 Co 15.4) e ressuscitou três dias depois (1 Co 15.4; Rm 4.25; 8.34; 1 Ts
4.14, etc.) e posteriormente foi visto por Pedro, os discípulos e outras
pessoas (1 Co 15.5-7).33

Mas provavelmente poderíamos ampliar esta lista.


"N ascido de m ulher", em Gálatas 4.4, é muito estranho, se tudo
o que Paulo quer dizer é que Jesus era verdadeiram ente humano, e
talvez ele esteja fazendo alusão à tradição de uma concepção virgi­
nal — isto é, nascido somente de uma mulher e não também de um
hom em .34
As palavras de Paulo sobre a salvação em Jesus, "que nos livra da
ira futura", podem indicar o conhecim ento do ensino de João Batista às
multidões, sobre a fuga da ira futura de Deus (Mt 3.7).
O fato de que Paulo acreditava no batismo como o rito de iniciação
para os cristãos, sugere que ele conhecia o batismo de João, de modo
geral, e o respaldo que Jesus dá a João, quando concorda em ser batiza­
do por ele (Mc 1.9-11). Mas pode haver uma alusão ainda mais especí­
fica à descida do Espírito sobre Jesus no seu batismo, quando Gálatas
Paulo Foi o Verdadeiro Fundador do Cristianismo? 81

4.6 proclam a que "D eus enviou aos nossos corações o Espírito de seu
Filho".35
2 Coríntios 5.21 declara a pureza de Cristo, e que Ele jam ais pecou;
isso exige um considerável conhecimento dos detalhes da sua vida.
Esta afirmação também pode sugerir que Paulo conhecesse a história
da bem -sucedida resistência de Jesus às tentações do Diabo, no início
do seu m inistério, uma ocasião que talvez fora a maior ameaça à com ­
pleta ausência de pecados na vida de Jesus, quando comparada a qual­
quer outro momento de sua vida (Mt 4.1-11).
Em 1 Coríntios 1.22, Paulo faz a generalização: "O s judeus pedem
sinal, e os gregos buscam sabedoria". Quanto aos gregos, isso é eviden­
te, com base no ministério de Paulo por todo o mundo greco-romano,
como revelam o livro de Atos e também as epístolas. Mas nada, em ne­
nhuma outra passagem destes livros, mostra que os judeus exigissem
sinais de Paulo. Nos Evangelhos Sinóticos, no entanto, alguns líderes
judeus repetidas vezes pedem que Jesus realize um milagre, como um
sinal completamente convincente da sua identidade. Sempre que Cristo
sente que tal pedido se origina meramente de um coração endurecido,
que deseja zombar dEle ou insultá-Lo, Ele se recusa a atendê-lo (Mc
8.11-13; Mt 12.38,39; Lc 23.8,9; Jo 4.48). Provavelmente Paulo tem em
mente esses tipos de situações.36
O interesse de Paulo pelos pobres, que em nenhuma passagem é
apresentado com mais detalhes do que em 2 Coríntios 8.9, claramente
se inspira no modelo de Cristo: "Já sabeis a graça de nosso Senhor Jesus
Cristo, que, sendo rico, por am or de vós se fez pobre, para que, pela sua
pobreza, enriquecêsseis" (8.9). No contexto, esta declaração não precisa
significar nada além do fato de que Cristo renunciou às incomparáveis
glórias e riquezas do céu para assumir as drásticas limitações da vida
na terra. M as também poderia refletir o conhecimento que tem Paulo
do estilo modesto de vida que Cristo adotou. No seu nascimento, a sua
família era pobre demais para oferecer os sacrifícios animais costumei­
ros, de m odo que tiveram permissão de substituir estes sacrifícios por
aves (Lc 2.24; cf. Lv 12.8). Com o carpinteiro, durante os seus anos de
mocidade, Jesus pode ter alcançado o nível do que hoje chamaríamos
de classe média baixa.37 Mas a sua adoção voluntária de um ministério
itinerante, em que dependia da hospitalidade de outras pessoas, sig­
nifica que muito provavelmente Ele teria estado, ocasionalmente, em
um nível mais próximo da linha de pobreza (cf. especialmente Lc 8.1-3;
9.57,58). E Paulo poderia saber de tudo isso, especialmente uma vez
82 Q u e stõ e s C ru cia is d o N o v o T estam en to

que ele parece vir de uma condição mais próspera e conscientemente


imitou Cristo, abandonando seus recursos para adotar a vida difícil do
ministério itinerante.38
Em 2 Coríntios 3.18, Paulo descreve os crentes como "transformados
de glória em glória, na mesma im agem ", usando o mesmo verbo grego
que é encontrado nos relatos do Evangelho para a transfiguração de
Jesus (Mc 9.2). Uma vez que o contexto mais amplo de 3.1; 4.6 exploram
os níveis contrastantes de glória, entre o antigo e o novo concerto, cor­
respondente ao brilho no rosto de M oisés quando ele desceu do monte
Sinai em com paração com o brilho maior de Jesus, é natural suspeitar
que Paulo conhecesse a história de Cristo no monte da Transfiguração.39
Se realmente conhecia, então uma sugestão mais especulativa é mais
provável. O mesm o original hebraico ou aramaico pode fundamentar
as palavras gregas normalmente traduzidas como "colu nas" e "em
pé", o que nos leva a nos perguntar se a razão por que Paulo diz que
os apóstolos líderes em Jerusalém eram considerados as "colunas" (G1
2.9) era o fato de que três deles estavam "em pé" na presença de Jesus,
quando Ele viu o reino de Deus vir com poder, na Transfiguração, como
predisseram Marcos 9.1 e passagens paralelas.40
Eu já mencionei que Paulo pode ter tido conhecimento dos ensinos
de Jesus, sobre vir, não para ser servido, mas para servir. Mas provavel­
mente ele conhecia muitos detalhes sobre a vida de Cristo, que seriam
correspondentes a um modelo mais amplo de liderança servil, por causa
dos repetidos ensinamentos de Paulo sobre este tema. Particularmente
interessante é 2 Coríntios 10.1, em que Paulo se refere à "m ansidão e
benignidade de Cristo" (ainda que ironicamente), sugerindo um conhe­
cimento desta conduta característica do Senhor, e talvez até mesmo das
bem-aventuranças, que especificamente recomendavam um comporta­
mento similar entre os discípulos.41
Inúmeros textos de Paulo recomendam a imitação de Cristo. As ve­
zes, a ordem é dada explicitamente (1 Co 11.1; 1 Ts 1.6); frequentemente
é mais implícita (Fp 1.21; 2 Co 3.18; Rm 6.17; 8.15,16; 13.14; 15.1-6). De
qualquer maneira, este tema requer conhecimento detalhado do com­
portamento de Jesus.42
Uma vez mais a nossa lista pode ser ampliada, m as alguns itens se­
riam mais especulativos. Usando somente as epístolas incontestáveis,
e fazendo referência a elementos dos Evangelhos normalmente consi­
derados abundantemente autênticos, eu compilei uma lista significati­
va de itens sobre a vida de Cristo que Paulo provavelmente conhecia.
Paulo Foi o Verdadeiro Fundador do Cristianismo? 83

A lista possivelm ente reflete apenas uma pequena quantidade do que


Paulo realmente conhecia, uma vez que estes dados, como as alusões ao
ensinamento de Jesus, em ergem somente quando as questões nas igre­
jas locais justificavam a referência a estes ensinamentos. E inerentem en­
te provável que alguém que tinha perseguido tão zelosamente a Igreja,
e então experimentado tal reviravolta depois da experiência na estrada
para Dam asco, tivesse desejado conhecer uma grande quantidade de
informações históricas a respeito de Jesus de Nazaré.43 A curiosidade
normalmente gera interesse histórico nas pessoas a quem o indivíduo
se opõe fortemente ou serve.44 As noções análogas, de que (1) há pouca
indicação nas epístolas de Paulo de que ele tivesse conhecimento do
Jesus histórico, e (2) que Paulo teria pouco interesse no tema, provam
ser altam ente improváveis.

Razões para o Silêncio que Persiste


Mas mesmo que todo o meu argumento prove ser convincente até
aqui, é natural perguntar por que não há referências ainda mais ex­
plícitas às palavras e obras de Jesus. (A questão se parece, em parte, à
questão do capítulo 1, sobre o motivo por que não há mais abordagem
não-cristã sobre Jesus). Sob certo ponto de vista, posso afirmar que é
surpreendente que tenhamos de fa to encontrado tanto, em vista do pou­
co ou nenhum conhecimento que Paulo tinha de Jesus durante o início
da sua vida, a sua personalidade e o seu ministério independentes, o
contexto modificado da sua m issão no mundo greco-romano, e outros
motivos. No entanto, há muitas outras coisas que podem ser ditas em
resposta à pergunta "por que não há m ais?"45
Em primeiro lugar, devemos nos lembrar de que nenhuma das cartas
de Paulo reflete a sua evangelização inicial das comunidades às quais
ele escrevia. Sem dúvida, quando Paulo e outros pregadores cristãos
da prim eira geração apresentavam o Evangelho às pessoas que não o
tinham ouvido anteriormente, tinham que contar a história de Jesus
com algum nível de detalhes. Mas nenhuma das epístolas reflete este
estágio do m inistério; na verdade, elas o pressupõem e o aproveitam e
ampliam. Em resumo, os ouvintes de Paulo sempre conheciam a histó­
ria básica da vida, morte e ressurreição de Jesus. Se não a conhecessem,
não teriam se tornado cristãos! Os sermões no livro de Atos que re­
presentam a pregação evangelizadora inicial são resumos drasticamente
abreviados do que seriam m ensagens claramente muito mais extensas.
Ainda assim, podemos detectar um esquema do que deve ter incluído
84 Q u e s tõ e s C ru cia is do N o v o T estam en to

consideráveis informações sobre os ensinamentos e as obras de Cristo.


Atos 10.36-38 reflete este esquema com mais clareza:

A palavra que ele [Deus] enviou aos filhos de Israel, anunciando a paz
por Jesus Cristo (este é o Senhor de todos), esta palavra, vós bem sabeis,
veio por toda a Judeia, começando pela Galileia, depois do batismo que
João pregou; como Deus ungiu a Jesus de Nazaré com o Espírito Santo e
com virtude; o qual andou fazendo o bem e curando a todos os oprimi­
dos do diabo, porque Deus era com ele.

C ,H . Dodd exagerou apenas ligeiramente, quando sugeriu que este


esquema poderia ter servido de estrutura para a narrativa escrita pelo
primeiro autor dos Evangelhos, Marcos.4'1 F. D. Moule mostra que um
padrão sim ilar pode ser detectado, de maneira genérica, em vários ou­
tros sermões no livro de Atos.47
Em segundo lugar, nenhuma das outras epístolas do Novo
Testamento tem um número maior ou referências mais claras à vida
e aos ensinamentos de Jesus, mesm o as cartas escritas em épocas sufi­
cientemente tardias para que tivessem conhecimento e fizessem uso dos
Evangelhos escritos. Nós vimos, no capítulo 1, que a epístola de Tiago
e a primeira epístola de Pedro têm, cada uma delas, algumas alusões,
mas não citam Cristo diretamente. As suas datas, no entanto, são alvo
de discussão. As cartas que os acadêmicos conservadores e liberais, de
igual maneira, normalmente datam de um período suficientemente
tardio para que tenham conhecimento dos quatro Evangelhos, são as
epístolas de João. Sejam o produto do próprio apóstolo, ou de uma "es­
cola joanina" dos seus seguidores, certamente era de se esperar que fi­
zessem referência às palavras e ao ministério de Jesus, apresentados no
Quarto Evangelho, similarmente escrito por João ou seus seguidores.
Mas as três epístolas de João não contêm nenhuma alusão incontestável;
a única alusão claramente possível envolveria o mandamento de amor
de Jesus (compare 1 Jo 2.7-11 com Jo 15.9-17). Assim, parece que as epís­
tolas simplesmente não são o lugar onde podemos esperar encontrar
muitas referências aos detalhes da vida de Cristo.
Em terceiro lugar, estes dois primeiros itens sugerem que as epístolas
representam um gênero literário que, na opinião dos primeiros cristãos,
não era adequado à disseminação de informações históricas básicas so­
bre o Jesus terreno. Eles não estavam acostumados ao que nós costuma­
mos chamar de "instruções de discipulado" para os fundamentos da fé.
Paulo Foi o Verdadeiro Fundador do Cristianismo? 85

Essa conclusão é corroborada pela literatura epistolar da primeira m e­


tade do século II. Novamente, podemos encontrar um número razoável
de alusões verbais às palavras de Jesus e algumas citações mais diretas,
mas não em maior proporção às referências que há nas epístolas de
Paulo. Isto se modifica quando passamos para a segunda metade do
século II, época em que os Evangelhos já são claramente considerados
como Escrituras e são citados mais diretamente e com mais frequência,
como poderíam os ter esperado que as epístolas anteriores também fi­
zessem. Mas se o período de 100-150 d.C. não revela ainda este padrão,
certam ente não deveríamos esperar vê-lo em cartas que já tinham sido
escritas por Paulo nos anos 40, 50 e 60 do século I.48
Em quarto lugar, a prim eira geração do cristianismo reconheceu
rapidam ente que os aspectos mais importantes sobre a vida de Jesus
eram a sua morte e ressurreição. Os seus ensinam entos éticos e os seus
poderosos milagres, em última análise, teriam se provado irrelevantes,
se Ele não fosse quem dizia ser, um Messias divino que veio para expiar
os pecados do mundo e derrotar a morte. Assim, quando Paulo se refere
ao Jesus terreno, é mais frequente que seja ao clímax da sua vida — quer
dizer, à sua morte e ressurreição (por exemplo, G1 3.10-14; 1 Co 2.1-4;
15.1-58; 2 Co 5.11-21; Rm 3.21-31). Outra maneira de deixar isso claro
é observar que Paulo, como os demais autores do Novo Testamento,
considerava os eventos da cruz, do sepulcro vazio, da exaltação e de
Cristo enviando o Espírito no Pentecostes, o início de uma nova era
na história da redenção. Depois do Pentecostes, existiram coisas muito
mais importantes a ensinar sobre Jesus do que apenas o seu ministério
terreno em Israel, por mais significativo que fosse.49
Em quinto lugar, como mostrará a próxima seção, há uma abundan­
te continuidade entre Jesus e Paulo, em temas teológicos mais amplos,
pressupondo um conhecimento abrangente da tradição de Jesus, até
mesmo quando citações, alusões, ou repetições não estão explicitam en­
te presentes. Quanto mais estam os de acordo com a tendência acadê­
mica atual de reconhecer Paulo como apoiado em antecedentes cristãos
judaicos m ais antigos e não em helenistas mais recentes, mais esta será
a conclusão natural.5"
Em sexto lugar, o mesmo sentido de orientação ou inspiração divina
que deu a Paulo a liberdade de declarar cada palavra como sendo um
ministério apostólico tão autorizado como os que tinham os líderes da
igreja em Jerusalém (veja especialmente G 1 1 - 2; 1 Co 9; 2 Co 10 - 13)
também lhe dava a liberdade de escrever as coisas usando as suas pró­
86 Q u e s tõ e s C ru ciais do N o v o T estam en to

prias palavras. Se ele podia citar ou fazer alusão ao Antigo Testamento,


sem estar limitado pelas suas palavras ou pelo seu sentido original, em
muitos casos, em razão da sua percepção do que Deus estava dizendo,
por intermédio do texto, ao seu povo, em uma nova era, certamente
também podia promulgar uma doutrina autorizada e um comporta­
mento ético, sem citar, de modo enfadonho ou insípido, as palavras
de Jesus a cada momento. E mesmo quando ele realmente se referia
às palavras de Jesus, elas formavam uma tradição "viva, tradição que
evidentemente era adaptável a diferentes necessidades e diversos con­
textos", sob uma forma que "ainda não estava definida".51 Na verdade,
é possível que as tradições das próprias palavras de Jesus existissem
em duas formas separadas, uma mais fixa, por causa do uso específico
(como a tradição litúrgica da Ultima Ceia) e outra, provavelmente uma
coletânea muito maior e mais fluida, por analogia às abordagens judai­
cas da Torá oral e escrita, respectivamente.52
Em sétimo lugar, qualquer que fosse o grau em que os apóstolos
de Jerusalém ou emissários que afirmavam representá-los enfatizassem
seus laços pessoais com o Jesus histórico (At 15; Gl 1 - 2 ) , laços aos quais
Paulo sabia que não poderia se equiparar, ele poderia ter preferido
conscientemente se distanciar da tradição das obras e palavras terrenas
de Jesus. Ao contrário, somente se concentrando no seu encontro direto
com o Senhor ressuscitado, e no seu subsequente chamado e na missão
recebida dEle, Paulo podia esperar convencer as pessoas da exatidão da
sua mensagem, e da autoridade que tinha para promovê-la.
Em resumo, qualquer que seja a maneira como avaliamos até que
ponto Paulo conhecia e utilizava a tradição sobre Jesus, há inúmeras
razões por que não a vemos com mais frequência e mais explicitamente
nas suas epístolas. Mas talvez seja mais fácil subestimar do que superes­
timar o quanto realmente aparece em suas epístolas, e o quanto Paulo
realmente conhecia.

Comparações Teológicas mais Abrangentes


Pelo m enos tão importante quanto à questão do conhecim ento
específico de Paulo a respeito da vida de Jesus é a questão da sua
congruência com o pensam ento de Jesus. Talvez Paulo tivesse um co­
nhecim ento razoavelm ente detalhado do Jesus histórico, m as isso não
assegura que concordasse com Ele! Para avaliar as reivindicações de
que Paulo foi o verdadeiro fundador (ou pelo m enos, um segundo
fundador) do cristianism o, devem os também com parar o que os dois
Paulo Foi o Verdadeiro Fundador do Cristianismo? 87

ensinavam , e em que acreditavam , como essencial ao seu entendi­


mento religioso. Aqui, naturalm ente, retornarem os à questão polêm i­
ca sobre quais partes do Evangelho podem ser aceitas com o m aterial
autêntico de Jesus. O capítulo anterior justificou poderosam ente a
aceitação de grandes porções deste m aterial, mas isso ainda é dife­
rente de defender a autenticidade de palavras e obras em separado.
Na pesquisa a seguir, portanto, em grande parte m e limito às caracte­
rísticas da tradição do Evangelho que são am plam ente consideradas
como sendo históricas. Isso quer dizer que grande parte das m inhas
com parações serão com as características dos Evangelhos Sinóticos, e
não com o de João, apesar da possibilidade de defender a autentici­
dade do Evangelho de João. Isso também quer dizer que farei as m i­
nhas com parações com elem entos da tradição aceitos por um am plo
consenso de acadêm icos m oderados, e não m e lim itarei ao quadro
muito truncado do Seminário Jesus. Nos casos em que me baseio em
detalhes m ais duvidosos, cito estudos específicos que me convence­
ram da autenticidade destes detalhes, mesm o que representem vozes
m inoritárias. Quanto a Paulo, nós podem os confiar plenam ente nas
sete cartas incontestáveis (Gálatas, 1 Tessalonicenses, 1 e 2 Coríntios,
Rom anos, Filipenses e Filem on) e ainda ter uma amostra adequada
dos seus tem as principais.53

A J u s t if ic a ç ã o pela Fé e o R e in o d e D eus

Poucos discutiriam que um tema essencial da teologia de Paulo en­


volve a justificação pela fé — ser justificado com Deus, não pelas obras
da lei, m as pela pura confiança na misericórdia e na graça de Cristo
(veja especialmente G1 1 - 4 e Rm 1 - 5 ) . Ainda menos pessoas dis­
cordariam da declaração de que o Reino de Deus, presente e futuro,
formava a essência da proclamação de Jesus. Certamente, este exemplo
já é suficiente para mostrar o quanto Paulo estava afastado de Jesus.
De fato, um olhar mais atento a ambos os conceitos revela exatamente
o oposto.
"Justificação" era uma m etáfora legítima comum no mundo greco-
romano do século I para a absolvição de uma pessoa perante um tri­
bunal. Quando Paulo declara que os seres humanos são justificados
com Deus somente pela fé, e não por obras da lei, ele está utilizando o
uso m etafórico de "justificação", ou dikaiosunê em grego. Mas a pala­
vra tam bém tem o sentido de "retidão". Teologicamente, Paulo enfatiza
que Deus nos "im puta" a "retidão" de Cristo quando confiamos nEle
88 Q u e s tõ e s C ru ciais do N o v o T estam en to

para a nossa salvação. Assim o nosso Pai celestial olha para nós, e vê,
não a nossa natureza pecaminosa, mas a natureza sem pecado de Jesus.
Somente desta maneira nós somos "purificados" para comparecer e vi­
ver na presença de um Deus perfeitam ente justo e santo.
Mas a "retidão" de Deus não se refere meramente à sua santidade,
mas também ao fato de que Ele é justo. Na verdade, não há uma pala­
vra específica no grego das cartas de Paulo para designar o fato de que
Ele é "ju sto "; dikaiosu n êe suas cognatas cumprem dupla função, para
ambos os conceitos. Nós devemos rever as nossas traduções e substi­
tuir a palavra "retidão" por "justiça", sempre que nos depararmos com
esta, para determ inar o significado adicional que pode estar presente.
Então reconheceremos que Deus não apenas nos "im pu ta" uma nova
postura, diante dEle, como nos dá a responsabilidade, e a autorização,
"em Cristo", para começar a im plem entar os seus padrões de justiça em
nossas vidas e neste mundo.54
De repente, "justificação" já não parece tão afastada da noção de
Jesus do Reino de Deus. A palavra grega para "reino" é basileia, tradução
de um termo hebraico subjacente, malkuth. Nos dois idiomas, "reino"
se refere mais a um poder do que a um lugar, mais a um reino do que a
um domínio. "R ealeza" pode traduzir melhor o conceito, ou, como Ben
Witherington gosta de traduzir, "o domínio de D eus".55 Quando ob­
servamos o grande paralelismo sinônim o na oração do Senhor "Venha
o teu Reino. Seja feita a tua vontade, tanto na terra com o no céu" (Mt
6.10), reconhecemos que Deus inicia o seu Reino na terra para que os
seus padrões de justiça influenciem o comportamento de seus súditos,
de forma individual, corporativamente e a tal ponto que possam ser
o sal e a luz da sociedade (Mt 5.13-16), até mesmo transformando um
mundo corrompido. Paulo pode ter usado uma expressão completa­
mente diferente, muito mais conhecida dos gregos e romanos, entre os
quais ele ministrava, do que a noção teocrática e muito judaica do reino
de Deus, mas dificilmente teria distorcido o espírito da proclamação de
Jesus.
Além disso, Paulo continua a se referir ao "Reino de D eus", ainda
que não tão frequentemente como Jesus. E essas referências refletem
o mesmo alcance básico das dimensões presente e futura do Reino,
como vemos nos Evangelhos (compare, respectivamente 1 Co 4.20,21;
Rm 14.17; e Cl 4.10; com 2 Ts 1.5-12, especialmente o versículo 5; 1 Ts
2.11,12; G1 5.21; 1 Co 6.9,10 e 15.50).56 Por outro lado, Jesus fala sobre
a "fé ", como algo fundamental para a resposta de um indivíduo com
Paulo Foi o Verdadeiro Fundador do Cristianismo? 89

relação a Ele, em inúmeras passagens, particularmente insistindo no


seu uso — quatro vezes — do slogan "a tua fé te salvou" [ou "te fez
bem "], em Marcos 5.34, e paralelas, Marcos 10.52, e paralelas, Lucas
7.50 e 17.19.57 Reconhecidamente, o grupo de palavras dikai- não é tão
comum. "Ju stiça", como substantivo, aparece principalmente no tex­
to de M ateus, referindo-se a um comportamento reto, ao passo que as
raras ocorrências de "justificar" como verbo nos Evangelhos norm al­
mente significam "confirm ar". Mas Lucas 18.14 conclui a parábola do
fariseu e do publicano com um pronunciamento de Jesus, de que o úl­
timo foi para casa "justificado", e o primeiro, não. O verbo é idêntico,
em forma e em significado, ao uso favorito de Paulo. E a oração do pu­
blicano a Deus — literalmente, "tem misericórdia de m im " — emprega
o verbo que é cognato ao termo essencial de Paulo, hilasterion para um
sacrifício de expiação que aplaca a ira de Deus (cf. Rm 3.5). Combine
tudo isso com a imagem do publicano orando, em uma postura de total
dependência de Deus, e não de si mesmo, reconhecendo a sua abjeta
pecaminosidade, e não devemos nos surpreender quando F. F. Bruce
declara que esta parábola é um dos fragmentos mais "paulinos" de en­
sinamento, encontrados nos Evangelhos.58
Ao incorporar uma significativa porção da ênfase de Jesus no seu
uso de "justificação pela fé", Paulo não está fazendo uma mudança
de term inologia mais drástica do que João quando ele, também, usa
"R eino" muito raramente (somente em João 3.3,5, e 18.36), mas norm al­
mente substitui "vida eterna" pela mesma ideia, quando fala ao seu pú­
blico muito mais helenista.59 Na verdade, o relato de Mateus do diálogo
de Jesus com o rico príncipe mostra como vários termos se tornaram
intercambiáveis no pensam ento cristão daquela época.
O jovem pergunta, "que bem farei, para conseguir a vida eternal"
(Mt 19.16). Jesus responde em termos de entrar no reino do céu e no reino
de Deus (vv. 23,24) e os discípulos prosseguem com sua pergunta sobre
quem pode ser salvo (v. 25) — o termo evangélico contemporâneo mais
comum para o processo!

O P a pel da L ei

Nenhum tema teológico, entre os ensinamentos de Jesus e Paulo,


gerou m ais interesse acadêmico recente do que a maneira como eles tra­
tam a Lei do Antigo Testamento. Claramente, nenhum deles acreditava
que a Lei pudesse "salvar" uma pessoa. Mas nenhum deles descartou
nenhuma porção das Escrituras hebraicas como irrelevantes ou não
90 Q u e s tõ e s C ru cia is do N o v o T estam en to

mais válidas para os crentes. Entre esses dois extremos, no entanto, am­
bos os professores foram acusados, na melhor das hipóteses, de estar
em desacordo um com o outro, e, na pior das hipóteses, de contradizer
a si mesmos.60 No entanto, novamente, um olhar mais atento revela
muito mais o que Paulo e Jesus têm em comum.
Desde a Reforma, intérpretes protestantes reconheceram três prin­
cipais propósitos para a Lei, no modo de pensar de Paulo — apontar
a extensão do pecado humano e, consequentemente, a necessidade de
um Salvador, dissuadir o pecado, para evitar que se tornasse ainda
mais difundido, e funcionar como um guia moral (mas não civil nem
cerimonial) para o comportamento cristão. Estes três propósitos podem
ser encontrados na epístola aos Gálatas (veja 3.19,20; 3.21-4.7; 3 5.13-26,
respectivamente) e com frequência em outras passagens (mais notavel­
mente, Rm 4-7). Intérpretes protestantes continuadamente deixaram
de captar importantes distinções entre Jesus e Paulo, e interpretaram
ensinamentos, com o o Sermão da Montanha de Cristo, como se Paulo
o tivesse escrito, e como se ele refletisse exigências legais impossíveis,
designadas a nos deixar de joelhos para confiar em Jesus, e abandonar
tentativas de obedecer à Lei. De m odo geral, no entanto, Jesus não im­
põe um comportamento ético, em conformidade com os dois primeiros
usos que Paulo faz da Lei.
Por outro lado, há uma considerável sobreposição entre o apelo
de Jesus às Escrituras legais e o terceiro uso que Paulo faz da Lei (ou
tertius usus legis, como os reform istas o chamaram). M ateus 5.17-20
condensa o entendim ento básico de Jesus sobre a função da lei, em
consideração à sua vinda: "N ão cuideis que vim destruir a lei ou os
profetas; não vim ab-rogar, m as cum prir". O Senhor Jesus conside­
ra todo o A ntigo Testamento com o uma autoridade; mas, ao mes­
mo tempo, Ele não se limita a aceitar este status quo. "C u m prir" a
Lei, como exem plificado pela subsequente "an títese" do Sermão da
M ontanha (5.21-48) significa que C risto se tornou o intérprete sobera­
no dela, algum as vezes internalizando-a ou radicalizando-a, às vezes
transcendendo ou excedendo-a, m as, de maneira algum a, deixando-a
intocada.61 Precisam ente porque está iniciando a era do reino, seus
seguidores terão que com preender como a sua encarnação, o seu en­
sinam ento, a sua morte e ressurreição redefinem a vontade de Deus
para uma nova era da história hum ana.
É interessante que Paulo use o mesmo verbo em sua declaração
em Gálatas 5.14: "Porque toda a lei se cumpre numa só palavra, nesta:
Paulo Foi o Verdadeiro Fundador do Cristianismo? 91

Amarás o teu próximo como a ti m esm o". Paulo repete o verbo nova­
mente, alguns versículos mais adiante, em 6.2: "Levai as cargas uns dos
outros e assim cumprireis a lei de C risto". A expressão "Lei de C risto"
aparece novam ente em 1 Coríntios 9, como, de alguma maneira, equi­
valente a "Lei de Deus para a era cristã", quando Paulo descreve como
tenta ser todas as coisas para todas as pessoas, de modo que possa sal­
var a algumas (vv. 19-23). Mas, ao se tornar como alguém que não tem
a Lei de Moisés, pregando entre os gentios, ele "não está sem lei para
com Deus, mas [está] debaixo da lei de C risto" (v. 21). Muita tinta já
foi gasta, discutindo o que Paulo quis dizer com "L ei de C risto"; mas
a m elhor síntese provavelmente é "a Lei com o era interpretada pelo
próprio C risto",62 incluindo tanto a enunciação por Jesus da m ensa­
gem do evangelho, como o entendimento que Jesus tinha do Antigo
Testamento, que se cumpriu nEle.
Uma consideração mais detalhada de Jesus e também de Paulo
no que diz respeito ao tópico da Lei pode m ostrar que eles estão de
acordo, fundam entalm ente, um com o outro, em vários pontos.63 Aqui
eu observo apenas quatro exem plos significativos, e todos eles con­
trastam drasticam ente com as form as com uns do judaísm o daquele
tempo.
Para começar, tanto Jesus como Paulo reconhecem a autoridade per­
manente do que frequentemente tem sido chamada de lei moral — os
princípios éticos fundamentais do Antigo Testamento, tais como amar
a Deus e ao próximo, honrar os pais, respeitar a vida e a propriedade,
as relações sexuais reservadas para o casamento monógamo e heteros­
sexual, e assim por diante. Nenhum deles, no entanto, separa os "Dez
M andam entos" (Êx 20) com o, de alguma maneira, distinto de todo o
resto. Na verdade, tanto Jesus como Paulo reconhecem que o manda­
mento do sábado não continuará imutável na nova ordem. Jesus não
somente desafia as tradições dos fariseus sobre o que era considerado
como trabalho no sábado, mas delineia um princípio que, se plenamen­
te implem entado, iria eliminar por completo o costume de deixar de
trabalhar um dia em cada sete: "O sábado foi feito por causa do ho­
mem, e não o homem, por causa do sábado", de modo que é sempre
lícito "fazer o bem " no sábado (Mc 2.27; 3.4). Assim, também, Paulo, se
aceitarmos o testemunho de Colossenses 2.16,17, conecta o sábado às
festas m ensais e anuais dos judeus que "são sombras das coisas futuras,
mas o corpo é de Cristo". Até que o imperador Constantino legalizasse
o domingo como um dia sem trabalho, no início dos anos 300, os cris­
92 Q u e s tõ e s C ru ciais do N ovo T estam en to

tãos praticam ente concordavam de forma unânime que descansar um


dia a cada sete refletia uma atitude "judaizante" e herege!64
Em segundo lugar, embora tanto Jesus como Paulo citassem o man­
damento de honrar pai e mãe, e reconhecessem a sua aplicação perma­
nente em vários contextos (Mc 7.9-13; Ef 6.2,3), ambos provaram ser al­
tamente contraculturais, como hom ens solteiros, em uma cultura judai­
ca que praticam ente exigia o casam ento de varões adultos e saudáveis,
particularmente os líderes religiosos. Ambos também promoveram
determinados valores que dificilmente poderiam ser chamados "pró-
fam ília" em nosso atual ambiente político (Lc 14.26; 1 Co 7.8,26,27,32-
35,38,40). De m odo mais genérico, ambos exibiam tendências definidas
e ascéticas, mesm o sem chegar aos extremos de alguns filósofos hele-
nistas ao exigi-las.65
Em terceiro lugar, ambos desafiaram o pensamento judaico conven­
cional, predizendo a destruição do Templo e do sistema de sacrifícios,
que seria substituído por um equivalente espiritual. Jesus anteviu ex­
plicitamente a derrubada de todas as pedras do Templo, o que literal­
mente aconteceu em 70 d.C. (Mc 13.2), ao passo que Paulo entendeu a
substituição dos sacrifícios animais pelo sacrifício "p ascal" de Cristo
(por exemplo, 1 Co 5.7). Para Jesus, o cumprimento das leis sacrificiais
acontecia no "tem plo" que era o seu corpo (Jo 2.19);66 derivativamente,
Paulo pôde chamar os crentes, corporativa e individualmente, de tem­
plo de Deus (1 Co 3.16,17; 6.19).
Em quarto lugar, ambos reconheciam as leis da alimentação, mes­
mo as decretadas no Antigo Testamento, como sendo substituídas em
Cristo. Jesus preparou o terreno para esta evolução, em Marcos 7.14-
22 e paralelas, em que comparou o que entrava no corpo de alguém
(que não contaminava uma pessoa) com o que saía daquele corpo (que
podia contam inar uma pessoa). Talvez escrevendo retrospectivamente,
Marcos acrescenta o comentário, em 7.19, de que Jesus, ao dizer isso,
declarou todos os alimentos como "puros". Paulo, de igual maneira,
reconhece a comida como uma das questões m oralmente neutras sobre
as quais os cristãos ainda têm escrúpulos, ao passo que outros se sen­
tem livres para comer qualquer coisa. Em 1 Coríntios 8 —10, a questão
provavelmente é a prática pagã de comer carne sacrificada aos ídolos,
mas em Romanos 14 e 15 é mais provável que fossem as leis alimenta­
res judaicas que estivessem em vista. Filipenses 3.18,19 também pode
se referir àqueles que ordenavam que a alimentação fosse kosher —- "o
deus deles é o ventre".67
Paulo Foi o Verdadeiro Fundador do Cristianismo? 93

A M is s ã o G e n t íl ic a e a I g r e ja
Se obedecer à Lei de Moisés não fosse um pré-requisito para a sal­
vação, os gentios viriam até Cristo muito mais facilmente. O tópico
natural a discutir a seguir, então, na comparação entre Jesus e Paulo,
envolve a sua concepção da natureza e da constituição da comunidade
de crentes. Há um século, o acadêmico católico radical francês Alfred
Loisy fez uma declaração que é frequentemente citada, e em que m ui­
tos creem: "Jesus predisse o reino de Deus, mas foi a igreja que v eio".68
Reformulada em termos da discussão de "Jesus versus Paulo", pode-
se alegar que Jesus não predisse a igreja, de modo que o foco central
de Paulo na igreja oferece provas adicionais de como ele se afastou de
Jesus. Não apenas isso, mas Jesus pregou praticam ente de forma exclu­
siva aos judeus, ao passo que Paulo pregou predominantemente aos
gentios, criando um movimento de pessoas, de uma diversidade de
origens que Jesus jam ais imaginou.
Novam ente, então, um escrutínio mais cuidadoso desmente es­
sas generalizações simplistas. Embora elas apareçam somente no tex­
to de Mateus, há inúmeras evidências de semitism os nos três textos
dos Evangelhos que usam a palavra "igreja" (ekklesia) (Mt 16.18; 18.17
[duas vezes]), sugerindo que elas podem, realmente, remontar a Jesus.69
Nestas promessas de uma igreja emergindo do grupo dos seus doze
mais íntimos seguidores, não devemos entender a instituição altam en­
te estruturada e organizada do século II e além. Na verdade, por trás
da palavra grega ekklesia provavelmente está a palavra hebraica qahal,
o termo padrão para a "assem bleia" do povo de Deus, nos tempos do
Antigo Testamento. Mas, com o naquela assembleia, que acabou se de­
senvolvendo nas sinagogas judaicas, teria havido alguma estrutura,
pelo m enos em congregações individuais, na verdade também havia,
entre os doze (com Pedro, Tiago e João designados como o núcleo cen­
tral de liderança), desde o início.70
De m aneira mais genérica, grande parte do ensinamento ético de
Jesus pressupõe uma com unidade dos seus seguidores, vivendo, du­
rante um significativo período de tempo, neste mundo corrompido,
tendo que enfrentar suas m uitas dificuldades — exatamente o que veio
a ser cham ado de "igreja". Assim , Jesus ensina sobre o casamento e o
divórcio (Mc 10.1-12), sobre impostos civis (Mc 12.13-17), sobre lidar
com as hostilidades de uma força militar de ocupação (Mt 5.41), sobre
questões legais e tribunais (Mt 5.25,26,33,39), e sobre uma perseguição
vindoura pela declaração de ser cristão (Mc 13.9-11). Os Evangelhos
94 Q u e s tõ e s C ru cia is d o N o v o Testam en to

Sinóticos devotam ainda mais detalhes ao ensinamento de Jesus sobre a


administração em geral, e ao dinheiro em particular.71 N ão é de surpre­
ender que seja precisamente nestes tópicos que Paulo faça mais referên­
cias aos ensinam entos de Jesus. Por outro lado, não se deve entender
que há muita estrutura (como em séculos posteriores) nas discussões
de Paulo sobre a igreja, particularm ente nas suas cartas incontestadas.
1 Coríntios 14.26-40, por exemplo, descreve uma comunidade razoa­
velmente "carism ática", com cada crente agraciado, de uma ou mais
maneiras, tendo oportunidades para compartilhar estes dons quando
cada casa/igreja local se reunisse para adorar.
É igualmente inexato declarar que Jesus jamais predisse uma mis­
são gentílica. A menos que estejamos preparados para dizimar a tradi­
ção Sinótica e rotulá-la como não-autêntica, quase na sua totalidade, é
necessário observarmos um ponto importante: falando humanamente,
Jesus não poderia ter imaginado incorporar os gentios ao seu movi­
mento; porém, há abundantes evidências de que Ele lançou a fundação
precisamente para esta evolução (pois, sendo Deus, Ele conhece todas
as coisas). O seu interesse incomum pelos excluídos da sua sociedade
— os pobres, as mulheres, os doentes, os ritualmente impuros, e, mais
notavelmente, os samaritanos72 — embora nem sempre ultrapassando
as fronteiras de Israel ou do judaísmo, certamente preparou o caminho
para a missão aos gentios. O seu mandamento para que amemos os
nossos inimigos (Mt 5.44) prepara o caminho para isso. O seu elogio
ao centurião gentio, por ter mais fé do que qualquer outra pessoa que
Ele tinha visto em Israel, passa pelo teste de "diferenças",73 e em razão
da sua autenticidade vitoriosa teria chocado um público judeu conven­
cional. E a sua "retirada" da Galileia e o seu ministério entre os gentios
(Mc 7.24; 8.10) certamente mostra o seu interesse por todos os povos,
mesmo se o seu ministério seguisse o padrão que o próprio Paulo pos­
teriormente enunciaria e imitaria, de ir "primeiro ao ju d eu " e depois
"tam bém ao grego" (Rm 1.16).74
Essas duas missões não foram conduzidas em uma perfeita separa­
ção, uma da outra. Mesmo antes das cartas ainda mais discutidas, como
Efésios e Colossenses, a unidade de gentios e judeus em Cristo foi uma
paixão predominante de Paulo (veja especialmente Rm 9 - 11). Mesmo
que ele não tenha podido contem plar um fenômeno idêntico durante a
vida de Cristo, precedentes suficientes tinham sido estabelecidos para
tornar o desenvolvimento natural. Wedderburn resume: "A ssim como
Jesus, como representante de Deus, tinha indicado que Deus aceitava
Paulo Foi o Verdadeiro Fundador do Cristianismo? 95

os pecadores, comendo com eles, também agora Deus indicava a acei­


tação dos pecadores gentios derram ando o Espírito divino sobre eles,
como sobre os cristãos ju d eu s".75 Ou, como explica John Barclay: "Para
Jesus e tam bém para Paulo, o núcleo das Boas Novas consiste na radical
demolição dos limites restritivos, na livre e piedosa atividade de um
Deus m isericordioso".76
Similarmente, várias das metáforas "corporativas" de Jesus sobre
os seus seguidores — por exemplo, "pequeno rebanho" (Lc 12.32), a da
anterior "ovelha perdida" (Lc 15.3-7), ou uma nova família com laços
mais íntimos do que os biológicos (Mc 3.31-35) — bem podem ter inspi­
rado os retratos frequentes de Paulo sobre a Igreja, como um "C orpo",
particularmente "o Corpo de C risto" (veja especialmente 1 Co 12). Um
corpo precisa de uma cabeça (Jesus), assim como um rebanho tem um
pastor guia, e uma família, no século I, tinha o marido e pai como a
suprema autoridade. Similarmente, a metáfora favorita de Paulo "em
Cristo" sugere uma conexão orgânica e coletiva entre Jesus e os seus
seguidores, edificando um relacionamento terreno íntimo, como um
grupo de associados muito próximos. Paulo pode ter tido em mente
o ensinam ento de Jesus sobre a Santa Ceia, representando o seu corpo
(cf. Mc 14.22 com 1 Co 11.27,29). Os dois professores previram clara­
mente a criação de um grupo coeso de crentes, de forma corporativa ou
comunitariamente desempenhando suas tarefas. Wenham resume este
pensamento da seguinte forma: "Jesus pode não ter se visto fundando
a igreja, da maneira como pensam os nela hoje, mas Ele realmente se
viu juntando as pessoas salvas por D eus".77 E, mais do que nunca, estas
pessoas viriam de todos os grupos étnicos do mundo.

O P a pel das M ulh eres

Intimam ente relacionada com a vida comunitária dos primeiros


cristãos, rompendo as barreiras entre judeus e gentios, é a ênfase co­
locada, tanto por Jesus como por Paulo, em um papel proeminente
para as mulheres, pelo m enos pelos padrões culturais do seu tempo.
Potencialmente, o aspecto mais escandaloso dos relacionamentos de
Jesus com as mulheres foi o fato de Ele ter permitido que um grupo de­
las literalm ente viajasse com Ele e seus seguidores do sexo masculino,
durante o seu ministério itinerante, apesar das suspeitas de im oralida­
de que este grupo inevitavelmente teria gerado (Lc 8.1-3). Ao permitir
que M aria de Betânia "se assentasse aos seus pés" e aprendesse com os
seus ensinam entos (10.39), Ele a aceitava, na qualidade de um estudan­
96 Q u e s tõ e s C ru c ia is d o N ovo T estam en to

te da Torá, precisamente o papel normalmente proibido às mulheres


pelo judaísmo ortodoxo do século I. E Ele não apenas permitiu o com­
portamento de Maria, como o elogiou e censurou a sua irmã, Marta,
por estar preocupada com papéis dom ésticos convencionais (vv. 41,42).
Por outro lado, Jesus não chegou a promover inequivocamente as re­
lações totalmente igualitárias entre os gêneros, pois escolheu de forma
exclusiva homens para formar o seu grupo de Doze seguidores mais
íntimos.78
Paulo, também, mostra incomum abertura para as mulheres líderes
nas suas igrejas. Frequentemente, ele inclui nomes de mulheres entre
seus "cooperadores" (veja especialmente as saudações em Romanos
16.3-16 e Filipenses 4.2,3). Ele reconhece que todos os dons espirituais
que Deus dá são para todos os crentes, exatamente como o Espírito
decidir distribuí-los (1 Co 12.7-11). Entre eles, estão os dons do profeta,
pastor e professor, embora eles não necessariamente correspondam aos
papéis ou funções formais (às vezes, chamados de "cargos") que podem
ter o mesmo nome. E, ainda mais surpreendente, Paulo antevê mulheres
apóstolas ("m issionárias" ou "fundadoras de igrejas" - Rm 16.7, NTLH)
e diaconisas (Rm 16.1, NTLH). No entanto, como Jesus, Paulo também
traça uma linha limite, e exclui o papel ou o cargo de presbítero para
as mulheres, aparentemente o "m ais alto" nível de autoridade nas suas
igrejas (1 Tm 2.12). Nas igrejas de hoje, este papel é, com frequência, o
equivalente funcional de um pastor presidente de uma igreja que pos­
sui uma equipe formada por m uitos grupos de obreiros, ou o único
pastor em uma congregação que tem apenas um grupo de obreiros.79

C r is t o l o g ia

Provavelmente, o que é mais controverso, Jesus frequentemente é


descrito como não tendo visões exaltadas de si mesmo, ao passo que
Paulo, mais do que qualquer outra pessoa, no início do cristianismo,
fez dEle o Cristo, o Filho de Deus, e o Senhor divino, igual, em alguns
aspectos, a Yahweh, o Deus de Israel, em pessoa. Uma vez mais, aqui
também devem os deixar de lado, não apenas o Evangelho de João,
mas também grandes porções da tradição Sinótica, para defender estas
drásticas generalizações. No entanto, é interessante que, mesmo se nos
limitarmos a considerar uma seção do material mais com umente aceito
dos Sinóticos, emerge abundante "cristologia explícita". Em outras pa­
lavras, há inúmeras indicações no ensinamento e no comportamento de
Jesus, completamente à parte do seu suposto uso de títulos específicos
Paulo Foi o Verdadeiro Fundador do Cristianismo? 97

e exaltados para si mesmo, que sugerem que Ele pensava em si mesmo


como m ais do que qualquer outro rabino judeu ou profeta.

A Cristologia Implícita dos Sinóticos


Podemos listar nada m enos do que treze fenôm enos que caem nesta
categoria, incluindo atos simbólicos, relacionamentos chave, e outras
características miscelâneas.80
A to s S im b ó l ic o s

1. E um amplo consenso que o batismo de Jesus é um fato histórico,


uma vez que cria o constrangimento potencial de Jesus tendo se sub­
metido a um rito que João proclamava como simbolizando o perdão
dos pecados.81 Mas é precisamente neste evento, no início do ministério
público de Jesus, que Ele ouve uma voz celestial, que combina trechos
de Salmos 2.7 e Isaías 42.1, o qual declara: "Este é o meu Filho amado,
em quem m e com prazo". Qualquer que seja a realidade por trás deste
evento de aparência sobrenatural, Jesus provavelmente acreditava ser
o cumprimento das profecias destes textos, sobre um Filho e Servo so­
fredor messiânico que viria.
2. Em bora os acadêmicos discordem sobre como eram realizados os
milagres, um consenso crescente aceita que o Jesus histórico era visto
realizando milagres, especialmente curas físicas e expulsão de dem ô­
nios. Também havia um grande consenso de que o ponto central desta
atividade de realização de milagres era demonstrar a chegada do Reino
de Deus, a era messiânica (veja especialmente M t 12.28).82 Mas, se a era
messiânica tinha chegado, então o Messias devia ter chegado. Um novo
reino requer um rei recentemente entronizado.
3. A "entrada triunfal", talvez um nome inadequado, no dia que
denominamos de domingo de Ramos, mostrou claram ente Jesus cum ­
prindo uma profecia messiânica — o rei chegando sobre um jum ento
(Zc 9.9). A aclamação da multidão demonstrava que eles reconheciam
esta declaração; o que não reconheciam era que Jesus vinha em paz,
para morrer, e não para derrotar os romanos e governar a partir de um
trono literal em Jerusalém (Mc 11.1-11).
4. A "purificação do tem plo", intimamente relacionada (Mc 11.15-
19) simbolicam ente prediz a destruição do Templo, que Jesus de forma
explicita prediz um ou dois dias depois (Mc 13.2).83 Mas, sem um tem­
plo, não haveria lugar onde realizar os sacrifícios de animais prescri­
tos pelo Antigo Testamento para o perdão dos pecados. Jesus deve ter
imaginado algum outro sistema sendo instituído no seu lugar, algo que
98 Q u e stõ e s C ru ciais d o N ovo T estam ento

somente alguém muito intimamente ligado a Deus poderia autorizar,


uma vez que as leis dos sacrifícios das Escrituras foram originalmente
apresentadas com o invioláveis.
5. Jesus sugere este novo sistema nas suas "palavras de instituição",
durante a Santa Ceia. Considerando o cálice de vinho como símbolo da
sua morte im inente, Jesus declara: "Isto é o meu sangue, o sangue do
Novo Testamento, que por muitos é derram ado" (Mc 14.24). Embora
Ele não forneça detalhes, aqui está a matéria prima para a epístola aos
Hebreus, onde há uma teológica reflexão muito mais detalhada sobre
Cristo como o sacrifício definitivo pelos pecados da humanidade.84

R e l a c io n a m e n t o s - C h a v e

6. Se João Batista foi o último e maior dos profetas da era do Antigo


Testamento, Jesus deve ter sido alguém maior (ou pelo menos julga­
va ser alguém maior). Afinal, Ele declara que "o m enor no Reino dos
céus" é "m aior do que" João Batista (Mt 11.11). Ele também faz alusão
a si mesmo, declarando, em outra passagem, que "está aqui quem é
mais do que Jon as" e "está aqui quem é mais do que Salom ão" (Mt
12.41,42).
7. Os relacionamentos de Jesus com os líderes judeus também re­
velam declarações assombrosamente audaciosas. Precisamente por­
que Jesus não desafiou a tradição dos fariseus, mas a aplicabilidade,
pelo m enos em um nível literal, de mandamentos tão fundamentais
do Antigo Testamento, como a observância do sábado, a adoração no
Templo e as leis alimentares, Ele deve ser entendido como fazendo uma
transição entre eras de história redentora, de uma maneira que só seria
permitida a Deus.85
8. Ao convocar doze discípulos, Jesus estava form ando o número
de um novo Israel, ou do Israel liberto (veja especialmente Mt 19.28).86
Não mais a etnia implicaria na escolha, mas o povo de Deus deve ser
constituído daqueles de qualquer nação que se tornaram discípulos de
Cristo. Mas novamente surge a pergunta, quem, além de Deus, tem a
autoridade para introduzir estas medidas?

O u tra s C a r a c t e r ís t ic a s
9. Em mais de uma ocasião, Jesus afirma que a resposta de Deus
aos humanos, no dia do juízo, será baseada nas suas respostas a Jesus,
nesta vida (Mc 8.38; Mt 10.32,33; Lc 12.8,9). Mas revelações prévias não
dão aos meros mortais o privilégio de funcionarem como um "filtro"
no juízo divino!
Paulo F oi o Verdadeiro Fundador do Cristianism o? 99

10. Assim , também, a maneira como Jesus declara a autoridade para


perdoar pecados vai muito além da função do sacerdócio judaico, como
reconhecem os líderes judeus que ouvem as suas declarações (veja es­
pecialmente Mc 2.1-12).
11. Em várias ocasiões, Jesus emprega m etáforas para si mesmo que
são com um ente usadas no Antigo Testamento somente para Yahweh.
Essas metáforas aparecem com especial frequência em parábolas que
contêm um personagem responsável, cujo comportamento justifica a
atividade sobre a qual Jesus está sendo questionado (veja, por exem ­
plo, Lc 15.3-7; 8-10; 11-32). Individualm ente, nenhuma destas m etáfo­
ras é tão impressionante, mas juntas elas formam uma evidência forte
de que Jesus se considerava como o representante terreno, único e ex­
clusivo, de Yahweh, funcionando exatamente com o o Deus de Israel
funcionou por toda a Bíblia hebraica. Entre estas funções, se incluem
a de Esposo, Rochedo, Diretor da colheita, Pastor, Semeador, Dono de
vinha, Distribuidor de perdão, Pai, Rei e Alguém que recebe o louvor
das crianças (Mt 21.16).87
1 2 .0 uso que Jesus faz do termo aramaico, Abba para Pai, ao se dirigir
a Deus, reflete uma intimidade incomum, rara entre os judeus do sécu­
lo I. O termo é explicitamente reproduzido na transliteração grega em
Marcos 14.32, e supostamente respalda outros usos de "p ai" por Jesus
nos Evangelhos, mesmo quando os autores dos Evangelhos traduzem as
palavras de Jesus usando a palavra grega mais tradicional, pater.ss
13. Finalm ente, mesmo um termo simples como amém, usado iso­
ladamente (ou duplicado, com o acontece constantemente em João),
introduz várias declarações de Jesus, dando-lhes um notável ar de au­
toridade. O termo é normalmente traduzido como "verdadeiram ente".
Mas ele se desvia dos padrões rabínicos tradicionais de justificar o en­
sinamento de alguém, apelando às Escrituras ou a pronunciamentos
anteriores dos rabinos. Jesus não emprega nenhuma destas técnicas.
Ele nem mesm o segue o modelo dos profetas, declarando, "A ssim diz
o Senhor". Na verdade, Ele anuncia com simplicidade, mas com so­
berania, "Em verdade vos d igo", como se não precisasse de nenhuma
outra justificativa para as suas declarações solenes e radicais. Somente
alguém que cresse possuir algum tipo de autoridade divina falaria des­
ta maneira.

A Cristologia mais Explícita


Uma vez que percebamos quão implícita a cristologia aparece no
centro do m aterial Sinótico, amplamente aceito como autêntico, passar
100 Q u e stõ e s C ru cia is d o N o v o T estam ento

para títulos mais explícitos para Cristo parece algo m uito mais natural.
Além disso, é mais fácil crer que o seu uso, nos Evangelhos, é histori­
camente preciso. Mesmo se nos concentrarmos apenas nos quatro títu­
los essenciais que conectam os Evangelhos e Paulo, podemos justificar
mais continuidade, e não descontinuidade, entre os ensinam entos des­
tes dois homens.
O título mais obviamente autêntico, que representa a forma favorita
com que Jesus se descrevia, é Filho do Homem. Mas este é o único título
que não aparece nos textos de Paulo.89 Mas "Filho" e "Filho de Deus"
aparecem. E quando investigamos o motivo para que Jesus use "Filho
do H om em ", descobrimos que essa expressão significava muito mais
do que "m eram ente hum ano" — como, por exemplo, frequentemente
em Ezequiel, quando Deus se dirige ao profeta com o uso desta expres­
são. Na verdade, o motivo mais relevante aparece em Daniel 7.13, em
que "um como o filho do hom em " foi conduzido à presença de Deus, e
foi-lhe dado o domínio sobre todas as nações do mundo. Quando reco­
nhecemos que "Filho de D eus" nos ambientes judeus, de igual maneira,
indicava frequentemente um Messias exaltado, e não a segunda pessoa,
igualmente divina, da Trindade, com o na teologia cristã posterior, então
os títulos "Filho do H om em " e "Filho de Deus" provam ser mais seme­
lhantes do que diferentes.90 Provavelmente o uso que Jesus faz de Abba
forma uma importante ligação entre os dois títulos, e também é uma
importante razão por que, mesmo nos Evangelhos, "F ilh o " e "Filho de
Deus" começaram a assumir tons cada vez mais exaltados. Alguém que
é especialmente consciente de uma intimidade filial sem paralelos com
Yahweh seria um Filho de Deus singularmente divino.91 E interessante
que outro autor do Novo Testamento, que não é um dos escritores dos
Evangelhos, que preserva Abba na transliteração em grego, seja Paulo
(Rm 8.15; G1 4.6), que considera o termo um título apropriado para que
os crentes usem quando se dirigirem ao seu Pai celestial adotivo. O uso
é tão incomum que Paulo deve ter se baseado, talvez já com preceden­
tes cristãos judeus, na própria tradição de Jesus.
O uso de "C risto" ou "M essias" forma um segundo elo de ligação
razoavelmente direto entre Jesus e Paulo. Embora esta não fosse a sua
maneira preferida de descrever a si mesmo, porque tantos judeus pro­
curavam um M essias militarista que iria derrotar os romanos, Jesus,
ainda assim, reconhecia tacitamente que era um atributo preciso em
pontos chave do seu ministério (mais notavelmente, M c 8.29; 14.62).
Paulo também reconhece que é um nom e adequado para Jesus, particu­
Paulo Foi o Verdadeiro Fundador do Cristianismo? 101

larmente em Romanos 9.5 onde os com entaristas concordam que o sen-


l ido titular permanece. Muitos acadêmicos pensam que a maioria das
ocorrências nos textos de Paulo m eramente reflete o início da tendência
posterior de converter "C risto" em um nome próprio, mas argumentei,
ein outras obras, que não é o caso.92 De qualquer forma, Jesus e Paulo
reconhecem que há maneiras legítimas com que Jesus pode ser cham a­
do de Libertador messiânico de Israel.
Um terceiro título frequente para Jesus, tanto nos Evangelhos como
nos textos de Paulo, é "Senhor". Evidente, aqui, é o histórico judeu e
do Antigo Testamento, pelo qual a palavra grega kurios norm alm en­
te traduzia o nome divino de Yahweh na Septuaginta. Nem todas as
ocorrências dos Evangelhos refletem este forte sentido. Muitas pessoas
se dirigiam a Jesus como Senhor simplesmente como um título de res­
peito, de alguma maneira equivalente a "am o" nos dias de servos ou
escravos. Mas, em alguns contextos, a palavra parece ter um significado
mais forte do que este (veja especialmente M t 14.28 ou Lc 5.8). E em
Marcos 12.35-37 e paralelas, o próprio Jesus se referiu ao Messias como
"Senhor", em um contexto que desafiava diretamente as expectativas
convencionais dos judeus de que o Messias seria um mero descendente
humano de Davi.93 Por outro lado, Paulo reconhece que kurios significa
Senhor, e também Deus, como a forma clássica que lemos na confissão
cristã de Romanos 10.9 — "Jesus é Senhor" (NTLH). Inseridos contra
um cenário de reivindicações cada vez mais ofensivas do imperador
como senhor humano absoluto, assim como divino, os cristãos, às ve­
zes, arriscavam suas vidas, elevando Jesus, e somente Ele, a essa posi­
ção.
M uito menos comum nos Evangelhos Sinóticos, mas ainda im por­
tante, especialmente para M ateus, é "Filho de D avi", termo que cla­
ramente se conecta com "M essias" por causa da linhagem davídica
esperada para o Messias. Um a passagem essencial nas epístolas de
Paulo, que demonstra conhecimento desta expectativa é Romanos
1.3, que descreve o "Filho" com respeito à sua vida "segundo a car­
ne" com o "descendente de D avi". Assim, embora cristologias distintas
obviamente apareçam, quando se compara os textos de Paulo com os
Sinóticos, assim como aparecem quando se compara cada um dos qua­
tro Evangelhos com os outros, dificilmente será exato dizer que Paulo
tomou a imagem de um simples profeta ou rabino judeu e a distorceu
em uma figura exaltada e divina, contrária à evidência histórica sobre
o que Jesus disse e fez.94
102 Q u e s tõ e s C ru ciais d o N ov o T estam en to

E s c a t o l o g ia
Um tema natural com o qual podem os concluir a nossa investiga­
ção teológica é a escatologia. Quão similares eram os ensinamentos de
Jesus e de Paulo sobre o fim do mundo? Podemos ver que há uma con­
siderável sobreposição. E o lugar apropriado para com eçar com a esca­
tologia é a morte de Cristo, uma vez que, como já vim os no meu estudo
sobre o ensinam ento do "reino", tanto Jesus como Paulo acreditavam
que os últimos dias (a presença do reino) começaram com a morte e a
ressurreição de Cristo.
Embora seja moderno negar que Jesus predisse o futuro sobre qual­
quer tópico, um a forte justificativa pode dizer que Ele predisse a sua
própria morte. Quem quer que fizesse o que Ele fez poderia ter espe­
rado hostilidade dos líderes judeus ou romanos, ou de ambos. A sua
tripla "predição da paixão" (Mc 8.31; 9.31; 10.33,34) leva à sua declara­
ção de que Ele veio "dar a sua vida em resgate de m uitos" (10.45 par.).
Tanto a tripla profecia, de modo geral, como as palavras específicas so­
bre o propósito da sua morte, mostram vários sinais de autenticidade.95
Mas a m etáfora frequente de Paulo sobre a "redenção" — o preço pago
pela liberdade de um escravo — vem do mesmo grupo de palavras de
"resgate" aqui nos Evangelhos. Paulo está simplesmente expondo, com
consideráveis detalhes, depois do evento, o significado da crucificação
que o próprio Cristo predisse.
As predições da paixão, no entanto, também predizem a ressurrei­
ção de Cristo. Se elim inarm os a possibilidade do sobrenatural como
uma pressuposição, então, naturalm ente, rejeitaremos estas predições
e as narrativas da própria ressurreição, com que cada Evangelho ter­
mina. Mas independentem ente desta exclusão a priori, há boas razões
para aceitar as tradições da ressurreição, de modo que Paulo está
claram ente se baseando nos ensinam entos e nos atos de Jesus ao en­
fatizar este tema (veja especialm ente 1 Coríntios 15). Mas, usando o
mesmo cenário do Antigo Testamento de que Jesus teria estado ciente
(mais notavelm ente Dn 12.2), Paulo reconhece que uma ressurreição
está, de m odo indissolúvel, ligada à ressurreição de todas as pessoas,
de modo que ele consegue pensar em Jesus como as prim ícias ou a
garantia da ressurreição geral (1 Co 15.20; cf. vv. 21-28).% E, contra a
crença helenista, que consiste apenas e basicam ente na imortalidade
das almas, Jesus e Paulo concordam que a esperança é uma ressurrei­
ção corpórea (vv. 35-49; cf. uma cena que, não fosse isto, seria enigm á­
tica em M t 27.51-53).
Paulo Foi o Verdadeiro Fundador do Cristianismo? 103

A ressurreição, no entanto, não é o fim da história. Mesmo antes da


sua ressurreição, Cristo repetidas vezes prometeu que retornaria outra
vez, em glória, no final da história humana, para introduzir o dia do ju ­
ízo (veja especialmente Mc 13). Assim, também, Paulo ensina em várias
passagens a respeito da "segunda vinda" de Jesus (veja especialmen­
te 1 Ts 4.12 - 5.11; 2 Ts 2.1-12). Nestes mesmos textos, ambos também
profetizaram que haveria "grande tribulação" na terra, pouco antes do
retorno de Cristo, envolvendo intensa perseguição de crentes, e a ira
de Deus liberada sobre os incrédulos. Mas, ao mesmo tempo, muitos
viriam a conhecer o Senhor, durante este período. Entre estes, parece
haver um grande número de judeus étnicos, que crerão em Jesus como
o M essias, talvez pouco antes da sua volta (Mt 23.29; Rm 11.25,26). E
tanto Jesus como Paulo concordam que todas as pessoas do m undo, ao
longo de toda a história humana, comparecerão diante de Deus para
julgamento, quando Deus os separará em duas categorias — os crentes,
que passarão a bem-aventurada eternidade na sua presença e na com­
panhia de todos os remidos, e os incrédulos que serão conscientemente
separados dEle e de todas as coisas boas para sempre (cf. especialmente
Mt 25.31-46 com 1 Co 3.10-17).1’7

O Papel da Conversão de Paulo


Muitas vezes, o tratamento do relacionamento entre Jesus e Paulo co­
meça — em 1ugar de terminar — com um exame de Gálatas 1. Ali, Paulo se
refere à sua conversão e declara "o evangelho que por mim foi anunciado
não é segundo os homens, porque não o recebi, nem aprendi de homem
algum, mas pela revelação de Jesus Cristo" (vv. 11,12). Frequentemente
se supõe que esta breve declaração define a questão — Paulo não sabia
quase nada sobre Jesus! Mas esta opinião não pode ser sustentada em
razão da grande quantidade de evidências contrárias, evidências que fui
capaz de enfatizar apenas brevemente neste capítulo.
O que, então, Paulo quer dizer com esta declaração? Claramente,
não foi nenhum evangelista cristão que conduziu Paulo ao Senhor;
foi o seu encontro sobrenatural com o Cristo ressuscitado, na estrada
para Dam asco (At 9.1-19). Seyoon Kim enfatizou quanto da teologia
fundamental de Paulo deve ter mudado, por causa deste encontro.
Claramente, a cristologia de Paulo foi transformada — Jesus não era
um apóstata cujos seguidores ameaçavam o bem -estar do judaísmo,
mas um M essias celestial. Jesus claramente ressuscitou, o que, como ob­
servamos acima, significava que os últimos dias tinham começado. A
104 Q u e stõ e s C ru ciais d o N o v o T estam en to

era messiânica estava presente, e culminaria na ressurreição de todas


as pessoas. M as a era messiânica foi aquela em que os gentios viriam a
Deus em rebanhos, por isso a ênfase de Paulo na m issão aos gentios, e
a incorporação de judeus e gentios em um corpo. E, naturalmente, se
Jesus foi o verdadeiro Messias, então a salvação vinha pela fé nEle, e
não por obras da lei, ao passo que a comunidade escolhida do povo de
Deus seria com posta daqueles que eram os seus seguidores, de qual­
quer antecedente étnico.'98
Estas declarações teológicas resultam, naturalmente, da revelação
que Jesus faz de si mesmo a Paulo. Mas, além disso, Paulo precisava ser
ensinado sobre os eventos do início da vida de Jesus, como qualquer
outro recém-convertido. Inevitavelmente, Ananias teria apresentado
um breve resumo do que Paulo mais precisava saber, quando o encon­
trou na sua casa em Damasco e o preparou para o batism o (At 9.17-19).
Paulo teria aprendido mais durante "alguns dias" com outros discípu­
los em Damasco (v. 19). E, para aqueles que suspeitam da confiabilida­
de do livro de Atos, as observações autobiográficas do próprio Paulo,
em Gálatas 1.18-20, admitem que, três anos mais tarde, ele passou mais
de duas semanas com Pedro e Tiago em Jerusalém, para "pedir infor­
mações" a eles (v. 18, NTLH). O significado exato do verbo (grego his-
toresai) tem sido discutido. Ele pode, na verdade, significar "entrevis­
tar" ou até mesmo "realizar investigação histórica", mas, mesmo que
não seja este o significado, Paulo teria de modo inevitável aprendido
consideravelmente mais sobre as origens cristãs durante este período.99
Como vimos anteriormente, nas suas cartas Paulo fala, mais de uma
vez, sobre transmitir o que tinha recebido pela tradição, o que sugere
um padrão de instrução de catequese. E nada disto deve ser considera­
do como uma contradição a Gálatas 1.11,12, que descreve meramente as
bases independentes das verdades centrais do entendimento que Paulo
tem do evangelho.,ÜU

Conclusão
Paulo foi o verdadeiro fundador do cristianismo? Ou, pelo menos,
um "segundo fundador" essencial? De maneira nenhum a. Ele tinha
conhecimento razoavelmente grande da vida e dos ensinamentos do
Jesus histórico, e a sua proclamação central dependia da veracidade da
morte e ressurreição de Cristo, precisamente conforme descritas nos
Evangelhos e preditas pelo próprio Jesus. Mas persistem distinções teo­
Paulo Foi o Verdadeiro Fundador do Cristianismo? 105

lógicas entre os dois homens, e os propósitos diferentes dos Evangelhos


e das epístolas devem ser levados em consideração quando se avaliam
as razões por que alguns assuntos aparecem ou não nestes livros. Mas
Jesus e Paulo se encontram em profunda concordância a respeito de
inúmeros tópicos centrais. Como conclui abertamente Dale Allison: “A
convicção persistente de que Paulo não conhecia quase nada do ensi­
namento de Jesus deve ser rejeitada. Jesus de Nazaré não era a pres­
suposição sem face da teologia de Paulo. Ao contrário, a tradição que
derivou de Jesus foi muito útil ao apóstolo, em suas funções de pastor,
teólogo e m issionário".101
C a p ít u l o 3

Como o Cristão Deve Aplicar


o Novo Testamento à Vida?

M uitos leitores do Novo Testamento se deparam , ocasionalmente,


com aplicações infames do texto. Alguns talvez tenham inventado al­
gumas. Contam a história, supostamente verdadeira, de uma mulher
em um casam ento difícil, que abriu ao acaso a sua Bíblia, quando seus
olhos caíram sobre o texto de Efésios 4.22 ("...vos despojeis do velho
homem, que se corrompe pelas concupiscências do engano"), e inter­
pretou que este versículo lhe dava permissão para dar início ao divór­
cio! Muitas aplicações inadequadas não são extrem as como esta, mas
eu ouvi pessoalm ente cristãos citando Filipenses 4.13 ("Posso todas as
coisas naquele que me fortalece") como respaldo para empreender uma
tarefa para a qual não são dotados nem cham ados, na opinião de quem
os conhece. Citando o versículo fora de seu contexto, não percebem
que Paulo estava falando de se satisfazer com toda e qualquer condição
socioeconômica. Como também ouvi crentes interpretando 1 Timóteo
5.8 ("se alguém não tem cuidado dos seus e principalm ente dos da sua
família, negou a fé e é pior do que o infiel") com o uma instrução de que
o marido deve ser o provedor principal do sustento de sua família. Eles
não percebem que o contexto se refere a filhos adultos, de qualquer
sexo, que devem cuidar de seus pais idosos e necessitados.
108 Q u e s tõ e s C ru ciais do N o v o T estam en to

Esses exemplos demonstram que a aplicação válida não pode se


separar da interpretação legítima. Até que saibamos o que uma pas­
sagem queria dizer, no seu contexto original, histórico e literário, e até
que tenhamos uma tradução confiável, que reflita significados exatos
de palavras e sentenças daquela passagem, não poderemos determi­
nar como aplicá-la aos nossos contextos, bastante diferentes, do século
XXI. Existem incontáveis manuais para auxiliar o intérprete inexperien­
te nos princípios da interpretação bíblica — "herm enêutica", como é
frequentemente cham ada.1 Mas é um número muito m enor o dos que
se concentram principalmente na aplicação.2 Em outra obra, escrevi
sobre alguns dos importantes princípios dos quais se deve ter ciên­
cia quando se interpreta cada porção do Novo Testamento, de acordo
com os gêneros literários dos seus livros (Evangelhos, Atos, Epístolas,
Apocalipse) e de acordo com as form as menores que aparecem nestes
livros (por exemplo, parábolas, milagres, listas de perversidades, hinos
e confissões, etc.).3 Eu também descrevi um processo básico, de quatro
etapas, para a aplicação bíblica legítima, independentemente da parte
das Escrituras que se está lendo. Em resumo, o processo envolve (1)
determinar as aplicações originais, pretendidas pela passagem; (2) ava­
liar o nível de especificidade destas aplicações, para ver se devem ser
(ou até mesmo, se podem ser) transferidas através do tempo e espaço
a outro público; (3) em caso negativo, identificar princípios intercultu-
rais mais amplos do que refletem os elementos específicos do texto; e
(4) encontrar aplicações contem porâneas apropriadas que incorporem
estes princípios. Eu também desejo fornecer orientação específica para
cumprir a etapa (2), em particular.4
Aqui, desejo fazer algo que é uma interseção entre as duas aborda­
gens que adotei anteriormente. Vou prosseguir pelo Novo Testamento
na sua sequência canônica, gênero por gênero, comentando os princí­
pios distintos de aplicação em cada etapa, ao longo do caminho. Os re­
sultados irão envolver abordar o mesmo terreno que abordei antes, mas
em um formato diferente, assim com o introduzir novos materiais.
Não há um conjunto abrangente de princípios que se possa formu­
lar de maneira abstrata, sem discussões de textos e form as individuais,
de modo que a minha investigação aqui não possa ser mais do que re­
presentativa. Há inúmeras5 obras que o leitor poderá consultar quando
tentar aplicar o Novo Testamento ao mundo moderno.6
Um último comentário introdutório é necessário. Seria errado come­
çar a nossa investigação de princípios para aplicação, sem enfatizar que
Como o Cristão Deve A plicar o Novo Testamento à Vida? 109

grandes porções da Bíblia continuam muito claras, mesmo muito dis­


tantes, em tempo e espaço, de seus contextos originais. Os reformistas
protestantes falavam regularmente da "perspicuidade" das Escrituras
ao com bater a noção católica medieval de que a Bíblia exigia uma classe
de intérpretes de elite (o clero) para interpretá-la. Naturalmente, en­
quanto a Bíblia foi lida em latim, na igreja, quando muitos europeus
não mais falavam este idioma, realmente era necessário ter ajuda espe­
cial! Mas os protestantes constantemente enfatizaram que, quando a
Bíblia é traduzida com exatidão aos idiomas nativos das pessoas, em
qualquer parte do nosso mundo, tudo o que é necessário para que eles
entendam o plano de Deus da salvação em Cristo, e o tipo de vida cristã
que Ele deseja que os seus seguidores vivam, se torna claro e cristalino.
Por outro lado, os reformistas jam ais declararam que as Escrituras eram
igualmente claras, em cada passagem ou sobre cada tópico. Vários tex­
tos e temas continuavam (e continuam, ainda hoje) a dividir os intér­
pretes com petentes e piedosos. Aqui é onde a disciplina da herm enêu­
tica entra em cena.7

Os Evangelhos
C o n s id e r a ç õ e s G e r a is

Lucas e João fornecem, cada um deles, declarações explícitas, a res­


peito do seu propósito em escrever relatos sobre o ministério e a men­
sagem de Jesus. Lucas explica que deseja que Teófilo "conheça a cer­
teza das coisas" de que já está informado (Lc 1.4). João acrescenta que
escreve o seu Evangelho "para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho
de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nom e" (Jo 20.31). Em
cada caso, os autores do Evangelho podem estar se referindo tanto a
uma experiência inicial de conversão quanto ao crescimento na fé cris­
tã.8 Assim, as mais fundamentais aplicações de um estudo de algum
dos Evangelhos, ou de todos, requer que as pessoas depositem a sua
confiança em Jesus como seu Senhor e Salvador, e então continuem a
segui-Lo no discipulado, por toda a vida. Afinal, os Evangelhos reco­
nhecem claramente que, no final, Deus irá dividir a humanidade em
dois únicos "grupos" — aqueles que irão passar uma bem-aventurada
eternidade com Ele, e aqueles que irão suportar a agonia de uma se­
paração eterna de Deus e de todo o bem (Mt 25.31-46; Jo 5.28,29; Ap
20-22). E o critério para a divisão das pessoas nestes dois grupos será a
maneira com o elas responderam aos cristãos que proclamaram o evan­
HO Q u e s tõ e s C ru ciais d o N o vo T estam en to

gelho, e consequentemente, como responderam ao próprio Cristo (veja


também Mc 8.38).
Mas e todo o resto dos ricos detalhes dos Evangelhos? Agora vou
analisar sequencialmente o Evangelho de Mateus, comentando formas
literárias ou tópicos específicos e os princípios conectados a eles, exem­
plificando principalmente com passagens deste Evangelho, mas incor­
porando alguns exemplos também de Marcos, Lucas e João.

P r i n c í p i o s E s p e c íf ic o s

Genealogias
O Evangelho de Mateus começa com uma das duas genealogias de
Jesus apresentadas pelos Evangelhos (Mt 1.1-17; cf. Lc 3.23-37). Pelo
menos, um princípio essencial na aplicação destas listas de nomes apa­
rentemente sem vida é observar com o elas diferem das genealogias
convencionais da época. A lista de M ateus inclui os nom es de cinco das
mães, todas as quais tiveram filhos que estavam envoltos com a sus­
peita de ilegitimidade. Aqui encontram os a primeira indicação de um
tema que irá dom inar grande parte das narrativas dos Evangelhos — o
interesse de Jesus pelos excluídos sociais. Na aplicação deste tema, de­
vemos identificar quem pode ser os correspondentes contemporâneos,
e começar a tratá-los com similar compaixão.1' A genealogia de Lucas,
de igual maneira, enfatiza a hum anidade de Jesus e o seu interesse por
todas as pessoas, mostrando como a sua genealogia se origina do pri­
meiro homem, Adão.
Narrativas do Nascimento
M ateus 1.18; 2.23 formam uma das duas narrativas do Evangelho
sobre os eventos relacionados com o nascimento de Cristo (cf. Lc
1.2; 2.52). Curiosam ente, am bos enfatizam a m aneira com o a vinda
de Cristo cum priu várias profecias (embora Lucas o faça de maneira
mais alusiva). Alguns desses cum prim entos estão refletidos nas narra­
tivas diretas de eventos anteriorm ente preditos, que agora ocorriam;
outros são "tipológicos" — veem a mão de Deus por trás de padrões
assom brosam ente recorrentes de com portam ento em pontos chave da
história da redenção. Sempre que algum tipo de profecia é cum pri­
do em o N ovo Testamento, os crentes podem ter m aior confiança de
que as profecias ainda não cum pridas das Escrituras (especialmente
as que dizem respeito ao retorno de Cristo e ao fim do mundo) irão
sim ilarm ente acontecer, e que Deus opera nas vidas hum anas com pa­
Como o Cristão Deve A plicar o Novo Testamento à Vida? 111

drões predizíveis e reconhecíveis de atividade, que os crentes devem


procurar.10

O Ministério de João Batista


Mateus 3 é um dos vários capítulos essenciais dos Evangelhos sobre
o profeta divinamente ungido, que deveria preparar o caminho para o
Messias. Se uma palavra puder resumir a m ensagem do ministério de
João Batista, esta palavra seria "arrependei-vos". Os exemplos especí­
ficos de como seria isso no mundo de João (por exemplo, Lc 3.10-14)
nos lembram de que o arrependimento bíblico inclui muito mais do
que arrependimento mental ou desculpas verbais. Ele envolve um giro
de 180 graus, ou uma mudança de comportamento. As boas obras de­
sempenham um papel crucial na vida dos crentes, não como base para
a salvação, mas como demonstrações dela. Essas boas obras começam
com o batism o, que Jesus também exemplifica aqui (Mt 3.13-16), e con­
tinuam, incluindo a obediência a tudo o que Ele ordena (Mt 28.20).11

As Tentações de Jestis
Mateus 4.1-11 forma um dos três relatos dos Evangelhos sobre a ten­
tação de Jesus. O autor da epístola aos hebreus capta melhor as aplica­
ções básicas e atemporais desse evento para os crentes: "Porque, naqui­
lo que ele mesmo [Jesus], sendo tentado, padeceu, pode socorrer aos
que são tentados" (Hb 2.18) e "não temos um sumo sacerdote que não
possa compadecer-se das nossas fraquezas; porém um que, como nós,
em tudo foi tentado, mas sem pecado. Cheguemos, pois, com confiança
ao trono da graça, para que possamos alcançar misericórdia e achar
graça, a fim de sermos ajudados em tempo oportuno" (4.15,16).

O Chamado e a Instrução dos Discípulos


A medida que o ministério de Jesus na Galileia está em andamento,
Mateus o resume como envolvendo pregação, ensinamento e cura. Jesus
chama os seus primeiros discípulos e pouco tempo depois os ensina (e
também a grandes multidões) com o seu famoso Sermão da Montanha
(Mt 4.12 - 7.29). Alguns princípios importantes entram em jogo na apli­
cação destes ou de quaisquer outros ensinamentos de Jesus.
Em prim eiro lugar, é preciso distinguir o que é explicitamente dirigido
somente aos doze. A maioria das pessoas que se tornou seguidoras de
lesus durante a sua vida, não deixou imediatamente as suas ocupações
e seguiram literalmente pela estrada, para acompanhar Cristo durante
o seu m inistério itinerante (como aconteceu com Pedro e seus amigos,
112 Q u e s tõ e s C ru ciais do N o v o T estam en to

em 4.18-22). A conversão e o discipulado, para a m aioria, envolvem


a confiança em Jesus e a adesão aos seus princípios de vida, nos seus
modos de vida com uns.12
Em segundo lugar, é preciso distinguir instruções específicas, dadas aos
doze para a situação em que se encontravam, que foram revogadas até mesmo
para eles posteriormente, nos Evangelhos. Quando Jesus enviou os doze
para pregar sem Ele, eles deviam falar somente aos judeus (10.5,6). Mas
esta foi uma prioridade temporária; a Grande Comissão deixaria claro
que no futuro eles deveriam pregar a todos os grupos étnicos (28.19).
Assim, também, a instrução de Jesus para que os apóstolos dependes­
sem de outras pessoas para seu sustento material (10.9-12) foi rescin­
dida na última noite da sua vida na terra (Lc 22.35-38), embora muitos
grupos religiosos contemporâneos pareçam não ter percebido isso, ain­
da exigem que seus adeptos lhes propiciem o seu próprio sustento.
Em terceiro lugar, é preciso observar o que pode jamais ter sido explicita­
mente limitado aos doze, nem form alm ente revogado, mas não poderia ser obe­
decido por cristãos em gerações futuras. Um exemplo clássico aparece no
Sermão de Despedida de Cristo, quando Ele promete enviar o Espírito
Santo como Consolador e Defensor. Em João 14.26, Jesus promete que
este "Paracleto" (anglicizando a palavra grega parakletos) "vos ensina­
rá todas as coisas e vos fará lem brar de tudo quanto vos tenho dito".
Obviamente, o Espírito de Deus podia fazer lembrar somente àqueles
que tinham literalmente andado com Jesus por Israel e nas regiões vi­
zinhas. Outras pessoas não tinham ouvido Jesus dizer nada a elas. Essa
profecia se cum priu quando os apóstolos se espalharam pelo mundo,
depois do Pentecostes, pregando a respeito de Jesus e, no caso de João,
também quando ele escreveu o seu Evangelho. Mas este versículo
não pode ser usado por cristãos posteriores para justificar alegações
de novas revelações feitas a eles, no mesmo nível que as inspiradas
Escrituras.13
Em quarto lugar, nós devemos estar alertas para que as metáforas ou ou­
tras figuras de linguagem não sejam interpretadas literalmente. Cerca de 80 a
90% dos ensinamentos de Jesus têm forma poética, e a poesia, norm al­
mente, emprega linguagem metafórica. Quando Jesus diz àqueles que
cobiçam que seria melhor arrancar seus olhos a perder os seus corpos
inteiros no inferno (Mt 5.29), Ele não está literalmente ordenando que
as pessoas se mutilem. Os cegos, afinal, podem cobiçar tanto quanto
os que têm visão! Na verdade, Jesus está empregando uma metáfora
vívida, que representa uma tomada de atitude drástica para evitar a
Como o Cristão Deve A plicar o Novo Testamento à Vida? 113

tentação.14 Então, também quando Jesus diz àqueles que dão esmolas,
"não saiba a tua mão esquerda o que faz a tua direita" (6.3), Ele não
quer dizer que os cristãos não devem controlar suas finanças e prestar
contas a outros pelos seus hábitos de caridade. Em outra passagem,
Paulo recomenda a responsabilidade escrupulosa (2 Co 8.16; 9.5). Na
verdade, os crentes devem realizar sua caridade de modo suficiente­
mente "ocu lto" (Mt 6.4), para que não sejam tentados a fazer caridade
pelo desejo de receber elogios ou adulações dos homens (v. 1).
Em quinto lugar, a compreensão do contexto histórico frequentem ente
é crucial na determinação de quão literalmente se deve aplicar uma das ins­
truções de Cristo. Incontáveis líderes cristãos bem intencionados têm
submetido inapropriadamente esposas espancadas a contínuos maus
tratos, dizendo a elas que devem continuar se submetendo à violência
de seus esposos, e citam a instrução de Jesus de "d ar a outra face" (Mt
5.39). Mas se alguém "batesse" na "face direita", em um mundo em que
muitas pessoas eram forçadas a ser destras, isso não seria o golpe agres­
sivo de um boxeador, mas uma bofetada, dada com as costas da mão,
frequentemente usada por um superior para insultar um subordinado.
Isso não infligiria danos físicos significativos. A aplicação correta da
passagem, portanto, estaria mais no sentido de "não retribua insultos,
nem faça retaliação quando sofrer maus tratos", e não "se submeta deli­
beradam ente a maus tratos físicos contínuos!"15 M uitas das palavras de
Jesus requerem similar compreensão do significado do comportamento
ou dos costum es no seu mundo, que frequentemente se perdem em
públicos em diferentes tempos e culturas.
Por outro lado, é igualm ente possível não perceber a natureza ra­
dical de m uitos dos m andam entos de Cristo, precisam ente porque nós
não estam os fam iliarizados com o contexto histórico. Hoje, nós pode­
mos interpretar a insistência de Jesus, para que amemos a Deus mais
do que aos membros da fam ília (Mt 10.37) com o um truísmo religioso
óbvio, sem perceber o quanto a fidelidade de Jesus era dedicada aos
sem elhantes espirituais acim a da família biológica (por exem plo Mc
3.31-35). Afinal, a sua cultura judaica considerava a lealdade a pais,
irm ãos e filhos mais fundam ental do que qualquer outra lealdade hu­
mana. Então, como acontece com alguns cristãos hoje, frequentem en­
te se assum ia que a lealdade aos m em bros da fam ília era a vontade de
Deus, m esm o quando as suas exigências contradiziam a Palavra de
Deus. Jesus, no entanto, se opõe diretam ente a esta suposição (veja
tam bém Lc 9.57-62 ).16
114 Q u e s tõ e s C ru ciais do N o v o T estam en to

Finalmente, os ensinamentos individuais de Jesus com frequência


estão embutidos em sermões mais longos, que contêm ensinamentos
aparentemente contraditórios. Nestes casos, a aplicação legítima deve levar
em consideração as duas tendências do ensinamento. Por exemplo, o ensi­
namento de M ateus 7.1 ("N ão julgueis, para que não sejais julgados")
é, normalmente, tirada do contexto, frequentemente por não-cristãos
que o jogam diante de cristãos que tentam rotular determinados com­
portamentos com o pecaminosos. M as os versículos 3-5 claramente con­
vocam os seguidores de Jesus a julgar, no sentido de "avaliar" o que é
certo ou errado. Esses versículos incluem a advertência de que, uma
vez que alguém tenha lidado apropriadamente com o pecado na sua
própria vida, tam bém deverá ajudar os outros a livrar suas vidas do pe­
cado. A gama de significados para a palavra grega traduzida como "jul­
gar" no versículo 1 sugere que o que Cristo está proibindo aqui é um
espírito excessivam ente "crítico" ou "julgador". Há ainda abundantes
aplicações contemporâneas para este termo, mesmo quando o texto é
interpretado corretam ente!17 Por exemplo, os crentes devem "julgar"
(isto é, discernir) que a prática homossexual é pecaminosa e explicar
aos outros que a Bíblia constantemente deixa isso claro, mas não devem
"julgar" (isto é, condenar) aqueles que se debatem com esta prática,
nem destacar este pecado em particular como algo que mereça maior
desaprovação do que os pecados heterossexuais.
Portanto, a menos que Jesus se contradiga flagrantemente, não uma
vez, mas duas, em três passagens consecutivas, a sua instrução para
que Pedro perdoe "setenta e sete vezes" (ou "setenta vezes sete" — Mt
18.21,22) deve ser abrandada pelo seu modelo de disciplina na igreja,
nos versículos 15-20 e pela parábola do servo que não perdoa, nos ver­
sículos 23-35. Embora Jesus não deseje nunca que os seus seguidores
alimentem ressentimentos contra aqueles que pecaram contra eles, o
perdão no sentido bíblico e global da restauração ao relacionamento
correto de uns com os outros não poderá ocorrer, a menos que o elemen­
to que pecou se arrependa. Deus irá julgar com dureza o impenitente
(vv. 23-35) e exigir que os crentes removam da comunhão aqueles que
se recusam a todas as outras tentativas de reconciliação (vv. 15-20).18
Um último exemplo lembra-nos de que, às vezes, versículos de equi­
líbrio aparecem em passagens fora do contexto imediato, interpretada
isoladamente, a promessa de Jesus, de dar aos que pedem, buscam e
batem (Mt 7.7-11) parece um cheque em branco, e cristãos desorienta­
dos, ao longo da História da Igreja, creram, às vezes, que Jesus assegura
Como o Cristão Deve A plicar o Novo Testamento à Vida? 115

saúde e riqueza, se simplesmente pedirmos com suficiente persistência.


Mas Jesus pressupõe que o seu público irá se lembrar do seu ensina­
mento do capítulo anterior, de que, quando eles orassem, deixassem
espaço para que a vontade de Deus prevalecesse à vontade deles (6.10).
Não é um princípio de hermenêutica sofisticado demais, lembrar que
todos os livros do Novo Testamento foram destinados à leitura de uma
só vez, de modo que os ouvintes aplicassem o que chamamos de capí­
tulo 6 a um texto no capítulo 7!

Histórias de Milagres
Os capítulos 8-9 contêm a m aior coletânea, no Evangelho de Mateus,
de relatos de milagres de Jesus, que aparecem também em vários outros
pontos dos Evangelhos. Provavelmente, o princípio mais importante
a ter em mente na aplicação destas passagens é o fato de que todos os
milagres pretendiam, originalmente, dem onstrar a presença do reino
e a chegada do Messias (veja M t 12.28).19 Assim, os milagres não nos
ensinam, antes de mais nada, como Deus deseja satisfazer as neces­
sidades humanas por intermédio de Cristo (embora certamente Ele
faça isso), mas como nós devemos reconhecer quem é Jesus. Apesar de
inúmeras mensagens sobre o acalmar da tempestade que afirmam que
"Jesus irá acalmar as tem pestades nas nossas vidas, tam bém ", o fato é
que muitas vezes Ele não nos removerá das "águas tem pestuosas", mas
nos preservará em segurança no meio delas (cf. 1 Co 10.13). A maneira
mais importante de aplicar o milagre é, na verdade, glorificar a Jesus,
espelhando a reação original dos discípulos: "E aqueles homens se m a­
ravilharam, dizendo: Que homem é este, que até os ventos e o mar lhe
obedecem ?" (Mt 8.27).
De modo similar, não podemos nos voltar aos milagres de cura física
e supor que a aplicação, para nós, é que a nós também está assegurada a
restauração da saúde depois de doença ou ferimentos. Afinal, cada um
de nós deverá, no fim, ter uma experiência terminal — ou seja, a morte.
Na verdade, como está explícito na cura do paralítico em Mateus 9.1-8 e
passagens paralelas, Jesus realiza milagres de cura física para dem ons­
trar a sua capacidade de cumprir uma promessa mais importante, com
a qual sempre poderemos contar — a cura espiritual, começando com o
perdão dos nossos pecados (vv. 4-6).

Histórias de Provérbios e Pronunciamentos


Espalhados pelos Evangelhos aparecem ensinamentos de Jesus que
são parecidos intimamente com os provérbios do Antigo Testamento.
116 Q u e s tõ e s C ru cia is d o N o v o T estam en to

Por exemplo, Mateus 9.12 e paralelas descrevem Jesus declarando:


"N ão necessitam de médico os sãos, mas sim, os doentes". O princípio
mais im portante que se deve ter em m ente na aplicação dos provérbios,
é o fato de que eles são generalizações sobre o que é frequentemente
verdadeiro, e não princípios rígidos que não admitem exceções. Havia
ocasiões, no mundo antigo, como há também hoje em dia, em que os
médicos davam conselhos aos pacientes saudáveis; mas esta não era
(nem é) a sua função principal. A mesm a coisa é verdadeira no nível da
"m edicina espiritual". Portanto, não devemos concluir, com base neste
provérbio, que os cristãos não devem jamais recorrer a Jesus, exceto
quando pecam, embora seja verdade que a expiação dos nossos peca­
dos era a razão principal do ministério de Jesus.
Em muitos casos, os provérbios ou outras frases curtas e culminan­
tes estão em butidos no que os acadêmicos chamam de "histórias de
pronunciam entos".20 Estes episódios colocaram Jesus em conflito com
várias autoridades judaicas, de modo que também são descritos como
"histórias de controvérsias" ou "conflito". Mateus 12.1-8 e paralelas for­
necem um excelente exemplo. Jesus e os seus seguidores são confron­
tados pelos fariseus, porque "colheram " grãos dos campos para comer
em um sábado. Jesus apela a vários precedentes do Antigo Testamento,
para justificar o seu comportamento, mas sucintamente encerra a ques­
tão, declarando que "o Filho do Homem até do sábado é Senhor" (v. 8).
Aqui está a parte mais radical e culminante da passagem. Jesus declara
que pode falar em nome de Deus, declarando com autoridade o signifi­
cado e a aplicação, para o seu tempo, de um dos dez importantes man­
damentos da lei do Antigo Testamento. Os versículos 9-13 fornecem
um segundo exem plo de Jesus desafiando as regras rígidas e farisaicas
sobre o sábado. Não é de admirar, então, que "os fariseus, tendo saído,
formaram conselho contra ele, para o m atarem " (v. 14). Em algumas
culturas cristãs da atualidade, os crentes, de igual maneira, irão des­
pertar a ira de seus próprios líderes, se implementarem os princípios
de Jesus e desafiarem as regras locais e legalísticas sobre o que pode ou
não ser feito no domingo. Mas a fidelidade na aplicação desses textos
requer exatam ente este desafio, ainda que diplomático, mesmo quando
vier com um preço a pagar!21

Parábolas
Mateus 13.1-52 nos apresenta uma série de oito parábolas. Talvez
nenhuma seção das Escrituras tenha gerado tanto debate interpretativo
Como o Cristão Deve A plicar o Novo Testamento à Vida? 117

ao longo dos anos como as parábolas de Jesus. Em outra publicação, co­


mentei a controvérsia a respeito de até que ponto as parábolas podem
ser consideradas alegorias, e defendi a abordagem de que podemos
deduzir uma lição principal de cada personagem principal em deter­
minada parábola.22 A aplicação destas lições frequentemente pode ser
auxiliada pela "m odernização" das narrativas — contar novam ente as
histórias, usando situações e personagens modernos que reproduzam
fielmente o impacto original que as parábolas de Jesus devem ter tido
sobre os seus ouvintes. M uitas vezes, o valor de choque das parábolas é
perdido, hoje em dia, por causa dos séculos passados na sua fam iliari­
zação. Até mesmo os incrédulos atualmente estão convencidos de que
um "sam aritano" é um "sujeito bom ", porque damos nomes a hospitais
e leis que protegem o povo com base no "bom sam aritano". Mas ao
chegar a esta conclusão precipitadamente, nós deixamos de perceber
completamente a força original da parábola de Jesus (Lc 10.25-37), por­
que os sam aritanos eram os odiados inimigos dos judeus antigos. Para
o público contemporâneo, nós precisamos contar uma história sobre
um soldado, à morte no campo de batalha, sendo resgatado por um
dos membros da tropa de elite (ou equivalente) do inimigo. Ao fazer
isso, conseguiremos transmitir com maior clareza a lição principal da
parábola, de que até mesmo o inimigo é o próximo de alguém, assim
como recriar a força original da narrativa, aplicando-a a uma situação
atual equivalente.
Ou considere um segundo exemplo de parábola. Imagine uma his­
tória sobre um homossexual ativo, que reconhece estar viciado em um
modo de vida pecaminoso, e luta para abandoná-lo, embora jam ais con­
siga ser mais do que parcialmente bem-sucedido. Insira um relato sobre
um honrado pastor evangélico conservador, que agradece com profu­
são a Deus por todas as suas bênçãos, incluindo o fato de que Deus o
poupou dos piores vícios sociais que regularmente infestam a nossa
sociedade. Conclua com o veredicto de Jesus, de que, sob determinadas
circunstâncias, o primeiro homem poderia ser salvo, e o segundo, perdi­
do. Agora nós estabelecemos novamente o valor de choque da parábola
de Jesus sobre o fariseu e o publicano (Lc 18.9-14), em um mundo em
que todos sabiam que os fariseus eram líderes judeus respeitados, que
buscavam obedecer fielmente à Lei em cada área da vida, ao passo que
os publicanos eram os coletores de impostos, os odiosos traidores que
tinham se vendido para trabalhar (pelo menos, indiretamente) para o
Império Rom ano invasor. A modernização, então, convida os ouvintes
118 Q u e s tõ e s C ru ciais do N o v o T estam en to

a pensar em outros equivalentes, talvez ainda mais próximos, no seu


mundo, para am bos os personagens, e a reconsiderar as suas atitudes
com relação ao próxim o.23

Confissão e M á Interpretação
Os capítulos seguintes de Mateus fornecem mais exemplos de for­
mas literárias já comentadas — particularm ente, mais histórias de mi­
lagres e controvérsias. No meio do capítulo 16, encontramos um ponto
decisivo, para o Evangelho de M ateus, em particular, e para o ministério
de Jesus como um todo. Em nítida justaposição, sucessivas passagens
narram o reconhecimento que Pedro, auxiliado pelo sobrenatural, tem
de Jesus, como o verdadeiro Messias (16.13-20), assim como a sua inca­
pacidade de aceitar a predição do sofrimento iminente de Jesus e da sua
morte (vv. 21-28). As duas partes são cruciais para a aplicação contem­
porânea. Por um lado, nós somos lembrados do propósito global dos
Evangelhos — trazer homens e mulheres a um conhecimento salva­
dor de Jesus Cristo. A menos que uma pessoa seja levada, como Pedro,
a confessar Jesus corretamente, nenhuma outra aplicação do Novo
Testamento im portará, uma vez que esta pessoa continuará perdida
no seu pecado. M as professar simplesmente para seguir a Jesus é ina­
dequado, especialmente quando a pessoa faz isso visando meramente
ganho pessoal. O caminho do verdadeiro discipulado é o caminho que
leva à cruz — a morte para si mesmo, a negação do "triunfalism o" que
perverte o evangelho, em uma fórmula de sucesso e prestígio terrenos,
e a disposição de dar a própria vida por Cristo, se isso for necessário,
ainda que signifique uma morte repleta de vergonha e agonia (o verda­
deiro significado de tomar a sua própria cruz e seguir Jesus — v. 24).24

Atos Simbólicos
Novamente, os capítulos subsequentes repetem formas já introdu­
zidas. A nova forma que aparece cada vez mais no relato de Jesus, à
medida que se aproxima da sua execução, é a do ensinam ento de ato
simbólico ou objeto profético, uma forma muito conhecida dos judeus
do século I, com base em atos similares que são frequentes nos minis­
térios proféticos de Isaías, Jerem ias, Ezequiel, Oseias, Am ós e Zacarias.
Na verdade, o primeiro exemplo cumpre a profecia de Zacarias 9.9,
quando Jesus entra em Jerusalém sobre um jumento, em uma procissão
aparentemente triunfante, com a adulação das multidões ao seu redor
(Mt 21.1-11). Eles reconhecem as suas reivindicações messiânicas, mas,
como Pedro, não percebem o significado do humilde anim al de carga.
Como o Cristão Deve A plicar o Novo Testamento à Vida? 119

O que a História da Igreja veio a chamar de "entrada triunfal" de Cristo


seria m ais apropriadamente chamada de "entrada não triunfal!"25 As
mesmas aplicações que derivaram da confissão e da má interpretação
de Pedro se repetem aqui. O Messias retornará, um dia, para libertar o
seu povo do sofrimento terreno, mas até então, o discipulado poderá,
na verdade, aumentar a possibilidade de tal sofrimento.
Vários dos atos simbólicos de Jesus são ameaças do juízo de Deus
sobre Israel e Jerusalém, em particular. A "explosão de ira" de Jesus no
Templo representa a futura destruição do Templo por Deus, se a sua
liderança não se arrepender.26 Comprimido junto a este evento, pelo
menos na narrativa de Marcos (Mc 11.12-25) está a maldição da figueira
por Jesus. Quando reconhecemos que as figueiras eram um símbolo
comum no Antigo Testamento para Israel, parece provável que aqui
a intenção fosse de um sim bolism o similar. Até mesmo as parábolas e
os "a is" que Jesus profere durante o seu ministério em Jerusalém (Mt
21.28; 22.14; 23.1-36) insistem neste tema do juízo. Muitos que julga­
vam pertencer ao povo de Deus acabam sendo seus oponentes. A apli­
cação contemporânea apropriada irá perguntar onde, na igreja visível
de Cristo, aparecem opostos similares. Infelizmente, não é preciso se
esforçar muito para encontrar paralelos, em muitas culturas em que o
cristianism o existe, àqueles que colocam cargas pesadas sobre os om ­
bros dos outros, sem levantar um dedo para compartilhá-las (23.4), que
exibem a sua piedade em público para obter elogios dos outros (vv. 5-7)
ou que se deleitam com os títulos de exaltação pelos quais são tratados
(vv. 8-10), e assim por diante. Aqui temos atividades cruciais para evi­
tar que sejamos encontrados lutando contra o próprio Deus.27

Discurso Apocalíptico
Os capítulos 24 e 25 do Evangelho de Mateus nos apresentam o
maior exem plo de literatura apocalíptica nos Evangelhos — um gêne­
ro literário conhecido, do Antigo Testamento, assim como de literatura
judaica do período intertestamentário, e da literatura greco-romana.
A sua principal ocorrência no Novo Testamento se dá com o livro do
Apocalipse, que comentarei no final deste capítulo. Aqui, no entanto,
podemos observar brevemente que o discurso apocalíptico tipicamente
retrata eventos passados, presentes e especialmente futuros, com rou­
pagem altam ente simbólica — não para possibilitar que alguém predi­
ga, com antecipação, quando e como as profecias se cumprirão (pelo
menos, não com detalhes), mas, em vez disso, para encorajar o povo
120 Questões Cruciais do Novo Testamento

de Deus, em tem pos extraordinariamente sombrios, com a lembrança


de que Ele continua no controle, e de que está conduzindo a história
humana a objetivos definidos, que, no final, irão incluir o resgate e a li­
bertação do seu povo, pelo menos espiritualmente, se não fisicamente.28
O discurso apocalíptico (ou escatológico) de Jesus, na verdade, se des­
tina a moderar um entusiasmo pelo "fim dos tem pos", que pensa que
consegue discernir, com base nos eventos atuais, que estam os vivendo
na última geração da história humana. Os "sinais" que Jesus fornece
aos seus discípulos são eventos que não deveriam alarmá-los, porque
"é mister que isso tudo aconteça, mas ainda não é o fim " (Mt 24.6).29
Embora os intérpretes discutam qual parte da mensagem de Jesus res­
ponde à pergunta dos discípulos, sobre a destruição do Templo nos
seus dias, e qual parte trata da sua pergunta sobre a sua volta (v. 3),
praticamente todos concordam que o objetivo de Jesus era encorajar
o modo de vida devoto e fiel, não importando quão longo ou curto o
futuro venha a ser (segundo Mt 24.43 - 25.46). Infelizmente, cada século
da História da Igreja teve aqueles que deixaram completamente de per­
ceber esta aplicação central, preferindo, em vez disso, especular sobre
quando, e em quem, os eventos do fim dos tempos se cumpririam. Até
hoje, a totalidade absoluta destas especulações provaram ser falsas, o
que deveria inspirar uma considerável humildade por parte daqueles
que estão dispostos a continuar fazendo conjecturas!30

Narrativas da Paixão
Os relatos da última noite que Jesus passou com os seus discípulos,
a sua prisão, os seus julgamentos e a sua crucificação (Mt 26 e 27) for­
mam as narrativas que são frequentemente chamadas de narrativas da
Paixão. A questão mais básica na aplicação destes textos é a distinção
entre o que era exclusivo ao contexto de Jesus e o que era exemplar
para todos os crentes. Obviamente, somente a morte de Cristo expiava
os pecados do mundo. E, como Cristo sabia, antecipadamente, que o
plano de Deus para Ele era que fosse crucificado, Ele também sabia
que não deveria lutar no jardim (26.52-54) nem se defender no tribunal
(v.62). Não podem os interpretar automaticamente esses comportamen­
tos como exem plos de um pacifismo exigido de todos os crentes, em to­
das as partes. Na verdade, Jesus prometeu que os discípulos iriam falar
e dar testemunho, quando levados a julgamento pela sua fé (10.19,20).
Mas todos os discípulos podem esperar algum tipo de perseguição e
dificuldades, por serem crentes, e alguns darão a sua vida como már­
Como o Cristão Deve A plicar o Novo Testamento à Vida? 121

tires (16.24-27). Aqui está a aplicação permanente das narrativas da


Paixão para os crentes, o que, novamente, desmente o assim chamado
Evangelho de riqueza/saúde ou prosperidade.

Padrões de Paradigma
Uma categoria especial de ato simbólico encontra dois exemplos na
narrativa da Paixão de Cristo. Jesus exemplifica duas vezes uma ver­
dade teológica profunda através das suas lições dramáticas e então or­
dena que os seus discípulos imitem-no. O evento que quase todos os
ramos do cristianismo reconhecem como "sacram ento" ou "ordenan­
ça", a ser repetida sempre que a igreja se congregar, é a Ultima Ceia de
Jesus (26.17-30). Os cristãos aplicam essa passagem, quando repartem e
compartilham o pão e o vinho, refletem sobre como eles representam o
corpo ferido e o sangue derramado de Cristo, e desta maneira celebram
o que veio a ser chamado de "Ceia do Senhor", "Santa Com unhão"
ou "E ucaristia".31 No Evangelho de João, no entanto, em lugar das
"Palavras de Instituição" que explicam o novo significado que Jesus
confere ao pão e ao vinho na Páscoa, Jesus lava os pés dos discípulos e
ordena que os seus seguidores façam o mesmo (Jo 13.2-17). Embora al­
guns ramos da igreja repitam literalmente esta cerimônia, regularm en­
te, no contexto da adoração, muitos reconhecem que esta prática é um
paradigma do estilo de vida do serviço humilde que os crentes devem
imitar.32

Narrativas da Ressurreição
Como uma subcategoria das histórias de milagres, as narrativas da
ressurreição não expressam de forma explícita a sua aplicação, com a
convocação para reconhecer quem é Jesus e para segui-Lo, como vemos
em outras passagens nos relatos dos milagres de Jesus. Mas esta reação
é claramente apropriada. Uma das passagens mais enigmáticas em to­
dos os Evangelhos, no entanto, pode, na verdade, indicar uma segun­
da e importante aplicação. Em Mateus 27.51-53, um pequeno grupo de
"santos" é ressuscitado, juntam ente com Jesus, saindo de seus sepulcros
depois da ressurreição de Cristo, e aparecendo a muitos.33. Inúmeras
perguntas sobre essa narrativa continuam sem respostas (quem eram
estes santos? quem os viu? durante quanto tempo continuaram a apare­
cer? etc.). M as pelo menos uma coisa pode ser dita com certa confiança.
Considerando a convicção dos judeus, de que todas as pessoas, um dia,
ressuscitarão, algumas para a vida eterna e outras para a punição eter­
na (veja especialmente Dn 12.2), Mateus parece querer dizer, pela sua
122 Questões Cruciais do Novo Testamento

inclusão desta passagem, que a ressurreição de Jesus é "as primícias"


da ressurreição geral futura de todas as pessoas, das quais algumas se­
rão ressuscitadas com Jesus, em antecipação a muitas mais. Paulo, é
claro, tornará isso mais explícito em 1 Coríntios 15.23.

Discursos e Diálogos no Evangelho Escrito por João


Marcos e Lucas correspondem grandemente a Mateus, com respeito
às formas literárias em que instruem sobre os ensinamentos e aos atos
de Jesus. João, por outro lado, inclui vários sermões mais longos e diá­
logos de Jesus com vários públicos. Essas formas, por sua vez, podem
ser divididas em várias subcategorias.
Em primeiro lugar, Jesus realiza diálogos longos com indivíduos. João
3 e 4 são grandemente dedicados à apresentação das conversas que
Jesus teve com Nicodemos e com a samaritana. Esses dois indivíduos
contrastam entre praticamente todas as maneiras imagináveis, incluin­
do sexo, religião, etnia, acesso à educação, moralidade, honra e poder.
Mas as contribuições de Nicodemos à sua conversa se tornam progres­
sivamente mais breves e demonstram a sua crescente perplexidade, ao
passo que a samaritana mantém o nível de sua conversa com o Senhor
Jesus, como uma parceira que responde a Jesus com fé, e se torna uma
evangelista para o seu próprio povo. A justaposição dos dois persona­
gens em capítulos consecutivos torna ainda mais evidente o contraste
entre eles, e sugere que o objetivo de João é surpreender os seus leito­
res com a revelação de quem crê ou não. Como acontece com o tema
da "grande inversão" nos Evangelhos Sinóticos, somos convidados a
considerar quem são as pessoas comparáveis a estas no nosso mundo,
e como elas desafiam as nossas expectativas a respeito de quem mais
provavelmente irá crer, e quem não o fará.34
Em segundo lugar, alguns dos discursos de Jesus, apresentados sem
interrupção por João, demonstram quiasmo, isto é, uma estrutura para­
lela invertida. João 5.19-30 possibilita um claro exemplo, como demons­
tra o esquema abaixo:

Princípio da imitação + raciocínio (vv. 19,20a) (v. 30)


Ensinamento sobre "m aravilhar-se" (v.20b) (vv. 28,29)
Exem plos de vida/juízo (vv.21-23) (vv. 26,27)
+ propósito ou razão
Um duplo "A m ém "
sobre a salvação (v.24) (v. 25)35
Como o Cristão Deve A plicar o Novo Testamento à Vida? 123

O propósito de um quiasmo é colocar o clímax da construção no


centro, e não no final, da passagem. Assim, a ideia principal deste "ser­
m ão" aparece nos versículos 24 e 25, com a ênfase repetida de Jesus de
que quem ouvir a sua palavra, e crer, viverá eternamente. A interpreta­
ção e consequente aplicação deverá se concentrar nesta "grande ideia".
Aqueles que confiam em Cristo podem vivenciar uma qualidade de
vida diferente neste mundo (v.24) assim como no mundo futuro (v.25).
É esta a nossa perspectiva para a vida cristã e para a vida das nossas
igrejas?

Todo o Sermão de despedida de Jesus (Jo 14-16) parece, sim ilarm en­
te, arranjado sob a forma de quiasmos, embora nem cada cabeçalho de
seção incorpore claramente todos os detalhes contidos nesta seção:

14.1 Introdução: Não se turbe o 16.33 Conclusão: Que em mim


vosso coração; credes em Deus, tenhais paz, apesar das aflições do
crede também em mim. mundo.

14.2-14 Jesus está indo para junto 1 6.17-32 Jesus está indo para ju nto
do Pai (preparar um lugar/ Ele é o do Pai (a tristeza se converterá em
caminho / o Pai está nEle) alegria / pedir ao Pai no nome de
Jesus)

14.15-21 Jesus promete o 16.5-16 Jesus promete o


Consolador (o Espírito da verdade, Consolador (o Espírito da verdade
para estar com os discípulos) para convencer o mundo e guiar os
discípulos em toda a verdade)

14.22-31 A revelação de Jesus 15 .1 8 -1 6 .4 O ódio do mundo


aos discípulos e não ao mundo (o e a rejeição ao testemunho dos
ensinam ento do Espírito versus o discípulos (o Espírito capacita às
príncipe das trevas) testemunhas)

15.1-8 A videira e os ramos: estar 1 5.9-17 Am ar como Jesus / dar a si


em Jesus / produzir muitos frutos mesmo com o sacrifício36

Se algo parecido com este esquema for o alvo, então certamente


o ponto mais importante, novamente, aparece no material central de
124 Questões Cruciais do Novo Testamento

15.1-17, que certam ente é crucial teologicamente. Os crentes devem es­


tar tão conectados a Jesus que o seu m odo de vida se torne como o dEle,
ao ponto de morrer pela sua fé, se as coisas chegarem a este ponto. No
nosso mundo ocidental, de incontáveis profissões de comprometimen­
to cristão, acompanhadas por tão pequenas modificações no compor­
tamento, vale a pena perguntar quantos crentes realmente pertencem
a Cristo.
Um terceiro tipo de discurso é bem exemplificado pelo sermão de
Jesus na sinagoga de Cafarnaum, em João 6.25-59. Este material (vv.
31-58) forma uma unidade que segue a forma literária e retórica dos
judeus, conhecida como um proem midrash?7 Um texto das Escrituras é
introduzido para discussão (v. 31), e então é comentado e parafrasea­
do (vv. 32-40). Certos elementos desta discussão levam a uma segunda
passagem das Escrituras (vv. 41-44), que é, então, explicada (vv. 45-47).
Finalmente, a atenção retorna à prim eira passagem, com explicações
adicionais (vv. 48-58). O tema que une aqui este material é a alusão
das Escrituras ao "pão do céu ".38 Audaciosamente, Jesus está declaran­
do ser o próprio Pão da Vida, propiciando nutrição espiritual para o
povo de Deus, assim como Yahweh tinha fornecido pão literal no de­
serto (o maná) durante as peregrinações dos israelitas nos tempos de
Moisés. As aplicações, portanto, devem se concentrar nesta passagem
das Escrituras e na reivindicação de Jesus de tê-la cumprido. A nutrição
espiritual tem precedência à nutrição física para os crentes, e somente
em Cristo este sustento está verdadeiramente disponível.
Uma quarta categoria de sermão de João encontra Jesus dialogando
com as multidões. João 7.14-52 revela um efeito característico desta forma
de sermão, ilustrado nos Evangelhos Sinóticos por Jesus falando em
parábolas (Mc 4.10-12), especificamente, a polarização da audiência de
Cristo (veja especialmente João 7.40-52). Embora o Novo Testamento
apresente inúmeros e diversos modelos para evangelização, mais cedo
ou mais tarde a nossa apresentação do Evangelho deverá ser clara e
indicar suficientemente que exige uma decisão. Quando isso acontecer,
se tivermos representado a mensagem adequadamente, alguns serão
atraídos para se tornar crentes, e outros serão repelidos. Se nós jamais
tivermos uma resposta que não seja a neutralidade ou a indiferença,
provavelmente não teremos explicado de forma adequada o que está
em jogo!
João 8.31-59 oferece um segundo exemplo de Jesus em diálogo com
as multidões, ilustrando vividamente um lado desta resposta polarizada.
Como o Cristão Deve A plicar o Novo Testamento à Vida? 125

Aqueles que pareciam, realmente, crer em Jesus no início do diálogo


(vv. 30,31) estão entre os que tentam apedrejá-lo no final do capítulo
(v. 59). Eles percebem somente blasfêmia quando Jesus se refere a si
mesm o com o nome divino de Êxodo 3.14 (v. 58 — "antes que Abraão
existisse, eu sou" [o itálico é meu]). M etodologicamente, essa passagem
ilustra vários princípios essenciais envolvidos na aplicação dos sermões
e diálogos expostos no Evangelho de João. Em praticamente cada um
deles, aparece uma declaração cristológica im portante, frequentemente
articulada na forma de uma declaração do tipo "Eu sou" — Jesus decla­
rando ser o Pão da Vida, a Água Viva, a Ressurreição e a Vida, e assim
por diante. Quaisquer que sejam os outros ensinamentos contidos em
cada passagem, a obediência não é completa, até que reconheçamos
Jesus por quem Ele declara ser — a encarnação do próprio Deus.
Além disso, não é a profissão inicial de fé, mas é "estar" nEle o que
importa (do grego, menõ — um verbo que a versão ARA traduz nor­
malmente como "perm anecer"). Paradoxalm ente, o Evangelho de João
tem algumas das mais fortes declarações em o Novo Testamento sobre
a segurança do crente (por exemplo, Jo 6.39,40; 10.29), ao passo que
insiste que aqueles que não permanecerem em Cristo serão "tirados"
(15.2). Aparentemente, João acredita que somente quando se examina a
vida de um indivíduo e se observa se ele permaneceu na fé ou se afas­
tou dela, é possível determinar se foi um crente genuíno (1 Jo 2.19). A
segurança vem quando a pessoa continua — verbo no presente — a crer
(1 Jo 5.13).39 E os sermões que João nos traz, de Jesus dialogando com
as multidões e as autoridades judaicas, fornecem alguns dos exemplos
mais claros do Novo Testamento deste princípio.
Finalmente, à medida que Jesus se aproxima do fim da sua vida,
João o retrata em extensas exortações aos seus discípulos. Praticamente to­
dos os princípios necessários para aplicar estas mensagens emergiram
em outro ensinamento do Evangelho sobre o discipulado. Mas uma
característica singular aparece em 17.20-23. Este é o único ponto dos
Evangelhos, em que Jesus se refere diretamente a nós, que vivemos no
século XXI! Aliás, Ele se refere a todos os crentes da era pós-apostólica,
quando ora, não apenas pelos discípulos presentes com Ele, mas "tam ­
bém por aqueles que, pela sua palavra, hão de crer em m im " (v. 20).
Todos os que vieram à fé depois da morte dos doze, o fizeram por causa
da Palavra oral ou escrita que preservou as verdades do século I. Assim,
deve ser muito importante ver o que Jesus pediu em oração para esta
comunidade de seus seguidores ao longo dos séculos. De maneira im­
126 Questões Cruciais do Novo Testamento

pressionante, Ele ora pela sua unidade, uma unidade que, de alguma
maneira, se assem elha à unidade que Ele tem com seu Pai, e para que
"o mundo conheça" que Cristo era realmente enviado dos céus (v.23).
Enquanto alguns divisores na História da Igreja, sem dúvida, foram
necessários para preservar a doutrina cristã fundamental, Deus não
pode estar satisfeito com as milhares de divisões da Igreja que tiveram
lugar ao longo da história e por todo o mundo, por questões muito mais
triviais. Os crentes genuínos e nascidos de novo devem se perguntar,
repetidas vezes, como podem ser mais parceiros, em unidade, de modo
que os incrédulos desejarão com partilhar deste amor singular gerado
por Deus.40

O Livro de Atos dos Apóstolos


Muitas das dificuldades para decidir o que fazer com os eventos do
livro de Atos derivam da sua natureza transitória. Com a crucificação,
a ressurreição e ascensão de Jesus e tendo Deus enviado o Espírito no
Pentecostes, nós encontramos a m udança da "era do Antigo Testamento"
para a "era do Novo Testamento". O que era perfeitamente apropriado,
talvez até ordenado para o povo de Deus, muda frequentemente du­
rante a transição da antiga para a nova aliança. A prim eira geração de
cristãos vem a crer que não é mais necessário que ofereçam sacrifícios
de animais, porque Cristo é o sacrifício definitivo para o perdão dos
pecados. "E de tudo o que, pela lei de Moisés, não pudestes ser justifi­
cados, por ele é justificado todo aquele que crê" (At 13.39). As leis ali­
mentares são rescindidas (capítulo 10) e não mais há uma terra santa ou
um templo único (capítulo 7), como o lugar ideal onde o povo de Deus
deva adorá-Lo. Mas os primeiros cristãos não despertaram na manhã
seguinte ao Dia de Pentecostes e reconheceram instantaneamente cada
uma destas mudanças. As transições vieram gradualmente, o que quer
dizer que as aplicações do livro de Atos não podem simplesmente su­
por que cada ato apostólico deva ser imitado.
Assim, não podemos necessariamente deduzir que a purificação
de Paulo e o pagamento por determ inados sacrifícios de animais dos
cristãos judeus tenha sido uma boa ideia, e muito m enos a vontade de
Deus, especialmente quando o plano desejado para reconstruir a con­
fiança entre os críticos de Paulo fracassa desastrosamente (22.20-36).
Ainda mais impressionante, os apóstolos lançando sortes (um tipo de
rolar do dado sagrado) para definir a substituição de Judas (At 1.26)
segue o precedente estabelecido no Antigo Testamento, mas não volta
Como o Cristão Deve A plicar o Novo Testamento à Vida? 127

a aparecer em o Novo Testamento. A vinda do Espírito Santo para ha­


bitar permanentemente nos crentes no Pentecostes propicia um tipo de
orientação indisponível em muitos contextos do Antigo Testamento e
torna obsoleto o lançar de sortes.41
Além de prestar cuidadosa atenção ao ponto em que uma prática
aparece no desenvolvimento do entendimento do novo concerto pela
Igreja, vários outros princípios nos auxiliam a aplicar o livro de Atos.
Um segundo passo essencial é procurar as indicações narrativas de Lucas.
Quando nenhuma instrução direta é dada aos crentes, é fácil se pergun­
tar se determinada história oferece modelos que devem ser imitados ou
evitados. O compartilhar comunitário dos primeiros cristãos, de Atos
2.42-47 e 4.32; 5.11 é citado, por um lado, como um modelo exem plar
e um motivo para apoiar o comunismo dos tem pos modernos, e, por
outro lado, como uma experiência fracassada e um costume a evitar!
Ambas as perspectivas vão além do que o texto declara explicitam en­
te, mas é impressionante que Lucas descreva os resultados de hábitos
como o cuidado com os pobres, a alegria, o louvor a Deus, a alta con­
sideração pelos apóstolos, as curas milagrosas e novas pessoas sendo
salvas (2.46-47; 5.12-16). O juízo que se abateu sobre Ananias e Safira
(5.1-11), o único resultado negativo, não veio pelo fato de participarem
ou não, compartilhando seus bens, mas porque mentiram sobre até que
ponto estavam participando (vv. 2-4). É melhor, então, concluir que as
imagens de compartilhamento comunitário são exemplos positivos a
imitar.42
Mas isso suscita uma nova pergunta, que nos leva a um terceiro
princípio para a aplicação do livro de Atos. Quão servilmente devemos
imitar o seu modelo? Quando o livro de Atos nos oferece narrativas de
exemplo, devemos perguntar com que constância o próprio livro de Atos
reproduz este modelo?43 No caso de satisfazer as necessidades dos pobres,
há três paradigmas essenciais, todos apresentados como úteis, mas
muito diferentes entre si. Em Atos 6.1-7, é estabelecido o precedente
para o cargo futuro de "diácono" — determinados líderes são escolhi­
dos para supervisionar uma distribuição diária de comida ou dinheiro
para os pobres. Os apóstolos não administrariam mais uma tesouraria
comunitária. Então, em 11.27-30, uma oferta especial é recolhida para
satisfazer as necessidades de cristãos que sofriam muito gravemente
durante um período de fome. Três diferentes modelos provam ser efi­
cazes em diferentes circunstâncias, mas o elo com um é a provisão m a­
terial para os pobres. Isso sugere que a aplicação contemporânea deve
128 Questões Cruciais do Novo Testamento

seguir qualquer um destes três m odelos, ou inventar outros, de modo


que os cristãos com posses materiais excedentes ainda compartilhem
generosamente com seus irmãos e irm ãs mais necessitados.44
Em outros casos, um modelo particular permanece imutável, por
todo o livro. Quando o carcereiro filipense pergunta a Paulo e Silas o
que deve fazer para estar bem com Deus, a resposta é "Crê no Senhor
Jesus Cristo e serás salvo" (At 16.31). Esse é o consistente meio de sal­
vação, por todo o livro de Atos. Na verdade, 4.12 generaliza, declaran­
do: "em nenhum outro há salvação, porque também debaixo do céu
nenhum outro nom e há, dado entre os homens, pelo qual devamos ser
salvos". Nós estam os certos em concluir que Lucas, como Paulo, acre­
ditava que a salvação vem unicamente pela fé em Jesus.
Em alguns casos, é difícil determ inar se o livro de Atos apresenta
um padrão inviolável ou modelos diversos. E o que dizer sobre a vinda
do Espírito Santo à vida de uma pessoa? Atos 2.38,39 parece apresentar
claramente uma norma universal: "Arrependei-vos, e cada um de vós
seja batizado em nom e de Jesus Cristo para perdão dos pecados, e re­
cebereis o dom do Espírito Santo. Porque a promessa vos diz respeito
a vós, a vossos filhos e a todos os que estão longe: a tantos quantos
Deus, nosso Senhor, cham ar". E o padrão normal no resto do livro é
que, sempre que alguém verdadeiramente crê, o Espírito Santo passa a
habitar nesta pessoa e a capacita para a obediência cristã. O que, então,
fazemos com a única e aparentemente gritante exceção a este padrão —
os samaritanos que reagem à pregação de Filipe com aparente fé, mas
não recebem o Espírito até que Pedro e João desçam de Jerusalém para
impor as mãos sobre eles (8.12-17) ?45
Alguns tentaram fazer desta exceção a norma, e insistem em uma
"segunda bênção" do poder do Espírito subsequente à conversão, mas as
exceções são más justificativas à regra! Outros argumentaram que não
existe padrão normativo, mas isso ignora a tendência geral do próprio
livro de Atos, assim como a convicta afirmação de Paulo, em Romanos
8.9, de que "se alguém não tem o Espírito de Cristo, esse tal não é dele".
Provavelmente a abordagem mais comum, adotada por comentaristas
evangélicos, é a de que esta é uma abordagem excepcional para uma si­
tuação excepcional. Como ela representava a primeira conversão geral
de samaritanos ao cristianismo, de maneira nenhuma assegurava que
a comunidade exclusivamente de cristãos judeus receberia bem estes
antigos inimigos, em igualdade de condições dentro da igreja recém-
nascida. Talvez os líderes apostólicos precisassem confirmar, por si
Como o Cristão Deve A plicar o Novo Testamento à Vida? 129

mesmos, a legitimidade destas novas conversões. Que melhor m aneira


haveria, do que o Espírito Santo manifestando-se de uma maneira tan­
gível, precisamente pelo ministério de Pedro e João?
Por outro lado, pode ser que esta passagem não seja a exceção que
parece ser. Simão, o Mágico, também é descrito com o tendo crido (v.13),
mas rapidam ente demonstra que o seu "coração não é reto diante de
Deus" (v.21), a tal ponto que Pedro profere uma maldição sobre ele
(v.20). Talvez a "crença" dos outros samaritanos seja, de igual m anei­
ra, apenas aparente, e é somente depois que Pedro e João chegam e
os instruem que eles verdadeiramente compreendem e são salvos.46 Se
esta passagem é ou não verdadeiramente uma exceção dentro do livro
de Atos, o importante, para a aplicação desta lei, é que ela não pode
ser convertida em um requisito de que todos os crentes devem ter al­
guma capacitação extra, subsequente, dramática do Espírito Santo de­
pois da sua salvação inicial, para que a sua vida cristã amadureça. Por
outro lado, nenhum texto das Escrituras exclui a possibilidade de que
o Espírito possa, em determinadas ocasiões, na sua soberania, decidir
abençoar alguns dos seguidores de Cristo, de maneira especial, como
aconteceu com os samaritanos.
Um quarto princípio essencial na aplicação do livro de Atos envolve
a contextualização — form ular o evangelho em linguagem que melhor
transmita a sua essência em um contexto específico.47 Talvez a razão
principal que se tem para examinar o livro todo a fim de determinar
quais modelos são consistentes e quais variam, seja que os primeiros
cristãos trabalharam arduamente para apresentar o evangelho às di­
versas culturas em que pregavam. Os sermões no livro de Atos forne­
cem um exemplo clássico. Por um lado, há elem entos comuns em quase
todos eles, independentemente de quem é o pregador — um apelo à
revelação geral ou especial para estabelecer bases comuns com a audi­
ência, referências a Jesus como o cumprimento de todas as aspirações
religiosas anteriores, um foco na sua morte e ressurreição como o cen­
tro da m ensagem cristã, e um apelo ao arrependimento ou para que se
tornem seguidores de Cristo.48 Por outro lado, não há duas m ensagens
idênticas. Paulo, cujos sermões ocupam a maior porcentagem de dis­
cursos no livro de Atos, cuidadosamente adapta cada mensagem ao seu
contexto. Aos judeus, na sinagoga, ele apela para a história do Antigo
Testamento e a inúmeras passagens das Escrituras que ele acredita que
apontem para Cristo (13.16-41). Aos pagãos em Listra, Paulo enfatiza
o testemunho de Deus na natureza (14.15-18). Aos atenienses interes­
130 Questões Cruciais do Novo Testamento

sados em filosofia, ele apela a um Deus desconhecido a quem erigiram


um altar, cita poesia grega e toca filosofias estóicas e epicurianas alter­
nadamente (17.22-31). E aos anciãos das igrejas de Éfeso e arredores,
ele se parece com o Paulo das epístolas — falando sobre a importância
da graça de Deus, a fé em Jesus, o seu sangue expiador, e o perigo dos
falsos mestres (20.17-35). Isso não é de surpreender, uma vez que todas
as cartas de Paulo são igualmente dirigidas a públicos cristãos.49
Infelizmente, em muitos pontos na história da igreja, os cristãos não
equilibraram cuidadosamente estas características de uma mensagem
essencial comum e contextualização cuidadosa. Ou eles criavam um
programa "tam anho único" de evangelização que não trata de situa­
ções, entendimentos e necessidades distintas de cada indivíduo ou
cada público, ou trabalhavam tão duro para se adequar a cada situação
diferente que o material fundamental ficava de fora. As palavras de
Kenneth Gangel permanecem tão verdadeiras hoje como quando foram
escritas, há uma geração:

Os intelectuais da sociedade de hoje não receberam do cristianism o


contem porâneo um testemunho tão distinto da verdade com o o que
foi ouvido pelos filósofos gregos em Atenas, naquele dia. A "pregação
da cruz" não precisa consistir de divagações verbais, calculadas para
evocar apropriadas respostas em ocionais. O sermão no Areópago nos
oferece um padrão de excelência, em profundidade e relevância. Que
os atenienses da era moderna ouçam, outra vez, a palavra do Cristo res­
suscitado.50

Um quinto princípio para ap licar o livro de A tos é enfatizar


aquilo a que Lucas dedica o m aior espaço na sua narrativa. Q uando al­
guém não está basicam en te tran sm itin d o ordens, m as n arran do a
história, um m ecanism o com um para en fatizar o m aterial m ais im ­
portante envolve o uso de espaço n arrativo. As h istórias que são
contadas com m ais detalhes ou de uma m aneira m ais lenta são
norm alm ente m ais im portantes. O u o narrador pod e retornar ao
m esm o evento m ais de uma vez. A ssim , em bora d ificilm en te seja
o m ais conhecid o discurso do livro de A tos, a "d e fe sa " de Estêvão,
diante do Sin éd rio (7.2-53) é narrad a com abundância de detalhes.
C onsiderando a liberdade que os historiad ores an tigos sentiam
ter para abreviar seus relatos, L ucas deve ter visto algo de grande
im portância aqui. Estêvão pode ter sido o prim eiro cristão a reco­
Como o Cristão Deve A plicar o Novo Testamento à Vida? 131

nh ecer até que ponto a vind a de C risto tin h a trazido a liberdade


da lei ju d aica, uma ên fase essen cial por todo o discurso. Esta lib e r­
dade era crucial para o d esenvolvim en to do cristian ism o, a p artir
de um a seita exclu sivam en te ju d aica, para um a religião u niversal
para todos os pov os.51 O nde a liberdade em C risto não p erm an ece
essen cial na experiên cia cristã con tem porân ea, o livro de A tos, de
m odo geral, e as palavras de Estêvão, em particu lar, devem ser
aplicad os literalm ente!
O encontro de Pedro com C ornélio nos fornece um excelen te
exem plo de ênfase por rep etição. N ão apenas Lucas relata o ep isó ­
dio m uito d etalh ad am en te (capítu lo 10), com o dedica outra grande
porção de texto, para que Pedro conte n ov am en te a sua h istória
aos líd eres da igreja em Jeru salém (11.1-18). A seguir, ele d escre­
ve com o Pedro se referiu a este incidente novam ente no C on cílio
A p ostólico (15.6-11).52 Está claro que o grand e progresso con h ecid o
com o "P en teco stes g en tílico " foi cru cial para o entendim ento de
Lucas sobre o crescim en to do cristian ism o. A igreja não som ente
se libertou da Lei de M oisés, m as o evan gelh o ficou dispon ível aos
gentios, nas m esm as con d ições que para os ju d eu s.
Um ú ltim o princípio é o reverso deste últim o. Com freq u ên ­
cia acontece que grande quantid ad e de d etalh es em n arrativ as ex­
tensas está presente sim plesm en te porque eles nos ajudam a com ­
preen der os pontos im portantes, m over a h istória para a sua cena
segu inte, ou acrescentar d eleite artístico ou estético ao relato. É
p reciso ter cuidado, p ortan to, e não atribu ir um significado ex cessi­
vo aos detalhes m ais periféricos das narrativas. O m elhor exem plo no
livro de A tos é a longa d escrição da viagem quase fatal de Paulo a
Rom a, e o naufrágio que resultou dela. As m uitas escalas e os ricos
detalhes náuticos do cap ítu lo 27 adicionam ao relato uma cred ib i­
lidade h istórica, além de um a sensação de su spense e av en tu ra.53 A
severid ad e da tem pestad e e a extensão dos p erigos am pliam a gra­
ça de D eus, ao poupar as vid as de todos os que estavam a bordo.
Mas não devem os nos esforçar para en con trar aplicações pessoais
para os cren tes de hoje, com base nos d etalhes da direção do v ento,
ou a passagem por uma ilha cham ada C aud a, o am arrar dos botes
salva-v id as, o m edo dos bancos de areia, o abaixar das ân coras, e
etc. (vv. 13-20). A s ap licações devem v ir de partes teológicas da
passagem , com o o en corajam en to para os m arin h eiros e as p ro m es­
sas de D eus a Paulo (vv. 21-26).
132 Questões Cruciais do Novo Testamento

As Epístolas de Paulo
N o r m a t iv a s o u E s p e c íf ic a s em R ela ção à S it u a ç ã o ?
Sem dúvida, a maior dificuldade na aplicação das epístolas está
na questão de quando as ordens específicas são atemporais por natu­
reza, e quando se aplicam somente sob determinadas circunstâncias.
Nós jam ais devem os perder de vista a natureza "ocasional" das cartas
do Novo Testamento, particularmente as de Paulo, na medida em que
todas as suas cartas foram, inicialmente, dirigidas a uma congregação
cristã ou a um indivíduo.54
Ainda que nenhuma lista possa jam ais vir a cobrir todas as possibili­
dades, a seguinte série de perguntas pode avançar razoavelmente para
determinar a extensão em que as instruções das epístolas deveriam ser
aplicadas.
Em primeiro lugar, o contexto imediato se justapõe a um mandamento
aparentemente contraditório? Caso afirmativo, então provavelmente cada
parte da passagem contém limitações implícitas da sua aplicação. A
passagem de Romanos 12.17-21 tem sido tomada como respaldo para
o pacifismo integral: "A ninguém torneis mal por mal... tende paz com
todos os homens... Não vos vingueis... se o teu inimigo tiver fome, dá-
lhe de comer; se tiver sede, dá-lhe de beber... Não te deixes vencer do
mal, mas vence o mal com o bem ". Mas Romanos 13.1-7 imediatamen­
te se volta para a responsabilidade de estar sujeito a autoridade, que
"não traz debalde a espada. E m inistro de Deus e vingador para casti­
gar o que faz o m al" (v. 4). Mesmo sem qualquer crença na inspiração
da Bíblia, norm alm ente se concede o benefício da dúvida aos autores
coerentes e inteligentes, que não se contradizem, dentro de limites.
Supostamente, Romanos 12.17-21 se refere à reação característica cristã
de crentes e igrejas com relação a seus inimigos, ao passo que Romanos
13.1-7 apresenta a responsabilidade dos governos.55
Em segundo lugar, a ordem parece contradizer o ensinamento em outras
partes dos textos de Paulo? Novamente, pode ser que uma ou ambas as
passagens em que se percebe a aparente tensão estejam sendo aplica­
das de maneira muito ampla. Assim, embora 1 Coríntios 14.33-38 não
venha imediatamente depois de 11.2-16, novamente é razoável supor
que o primeiro texto ajuda a qualificar o segundo.56 Em 1 Coríntios 11.5,
Paulo tacitamente aprova que as m ulheres orem ou profetizem , des­
de que tenham as cabeças apropriadamente cobertas. Quando, então,
ele declara, três capítulos adiante, que "A s mulheres estejam caladas
Como o Cristão Deve A plicar o Novo Testamento à Vida? 133

nas igrejas" (14.34), é provável que ele tivesse em mente algum tipo
específico de discurso. Sem entrar no complexo debate, os dois tipos
mais prováveis de discursos em mente são a avaliação da profecia (uma
tarefa que acaba atribuída à liderança da igreja e ao tópico mais recen­
temente discutido no contexto deste versículo) e interrupções pertur­
badoras baseadas em uma falta de educação prévia (que explicaria por
que as mulheres deveriam perguntar em casa, a seus maridos — v. 35).
E possível, até mesmo, com binar estas duas perspectivas. De qualquer
forma, a passagem não deve ser aplicada hoje com o sentido de silen­
ciar as mulheres nos ambientes da igreja.57
Em terceiro lugar, o raciocínio para uma ordem específica funciona igual­
mente bem em todas as culturas? Caso a resposta seja não, novamente, de­
vem estar presentes dimensões específicas para as situações. Retornando
a 1 Coríntios 11, é discutido se Paulo tem em mente algo que cubra
externamente a cabeça ou simplesmente o cabelo, nos versículos 4-10,
assim como se inspirando nos seus antecedentes judaicos ou na cultura
greco-romana dos coríntios. Em cada combinação de fatores conhecida,
no entanto, as cabeças descobertas ou cabelo curto nas mulheres, ou ca­
beças cobertas ou cabelo longo para os hom ens, sugeriam infidelidade
sexual e/ou religiosa. Em culturas onde este simbolismo está ausente,
a aplicação de fé dos mandam entos de Paulo significa não se preocupar
literalmente com as cabeças cobertas, mas perguntar quais equivalentes
culturais enviam os mesmos sinais enganadores. No mundo ocidental,
estes sinais poderiam incluir uma pessoa casada, recusando-se a usar
uma aliança de casamento ou flertando publicamente; juntamente com
qualquer crente, casado ou solteiro, o uso de roupas excessivamente su­
gestivas ou vestir-se de maneira semelhante a um adorador, em alguma
religião não-cristã.58
Nos versículos 14-16, no entanto, fica claro que Paulo está falando
sobre o cabelo curto e longo. Aqui as razões que ele apresenta, para
declarar que o cabelo longo, em um homem, é uma "desonra" (v. 14),
ao passo que, em uma mulher, "lhe é honroso" (v. 15), à primeira vista
parecem ser mais atemporais — "a mesma natureza" (v. 14) e o costu­
me de todas as igrejas (v. 16). M as a criação judaica de Paulo lhe teria
ensinado a respeito de pelo m enos uma categoria de homens consagra­
dos singularmente, que nunca cortam os cabelos — os nazireus (veja
especialmente Nm 6) — de modo que a "m esm a natureza" deve, aqui,
se referir aos costumes greco-romanos do século I. Assim, também, o
costume de todas as igrejas não pode significar nada além de "durante
134 Questões Cruciais do Novo Testamento

o século I", mesmo se as instruções de Paulo aqui se destinassem a to­


das as suas congregações.59
O texto em 1 Coríntios 11, obviamente, demonstra a necessidade
de que nós façamos um pouco da lição de casa de história, e compre­
endamos os fatores que estavam em ação no século I, quando as epís­
tolas foram escritas. Ao mesmo tempo, a aplicação pode recorrer a um
contexto histórico implícito com excessiva rapidez e deixar de perceber
a declaração clara do próprio texto. Por exemplo, 1 Coríntios 7.25-28
expressa a preferência de Paulo pela vida de solteiro. Como comparati­
vamente poucas pessoas, ao longo da História da Igreja, compartilham
dessa preferência, é natural procurar contextualmente algum fator limi­
tador que influenciasse Paulo. Alguns comentaristas recordam a fome
durante o final dos anos 40, e sugerem que efeitos prolongados torna­
ram a vida em Corinto particularmente difícil. Assim, a "instante neces­
sidade" do versículo 26 que torna a vida das pessoas casadas cheia de
problemas (v. 28) se torna algo que os outros cristãos, em outras épocas
e outros lugares, não enfrentam. Estes cristãos, então, devem procurar
de forma fervorosa se casar, como diz o argumento.
Mas os versículos 29-35 continuam, com considerável detalhe, es­
pecificando o que Paulo quer dizer com a "instante necessidade" —
"o tempo se abrevia" (v. 29), "a aparência deste mundo passa" (v. 31),
e as preocupações da pessoa casada são mais divididas do que as de
uma pessoa solteira (vv. 32-35). Os dois primeiros argumentos refletem
a ciência que tinha Paulo, de que o mundo poderia terminar a qual­
quer momento. O terceiro é claram ente intercultural. As três razões,
portanto, permanecem atemporais. O tempo é ainda mais curto agora
do que era nos dias de Paulo, quando os interesses das pessoas que
estão juntas ainda estão divididos. Os cristãos como John Stott e Lottie
Moon conscientemente optaram por permanecer solteiros para servir
ao Senhor com devoção ainda maior, e indivisa, e todos os crentes deve­
riam pelo m enos considerar seriamente esta opção. Paulo deixa claro,
ao longo de todo o capítulo 7, que ele não está declarando que esta
perspectiva é absoluta (vv. 9, 28a, 36, 38a, 39), mas quantos cristãos já
propuseram esta pergunta?60 Em quarto lugar, um mandamento apela ao
modo como Deus estabeleceu as coisas nos tempos do Antigo Testamento, ou ao
modo como Ele as está estabelecendo agora, nos tempos do Novo Testamento?
Em caso afirmativo, a instrução provavelmente contém uma dimensão
atemporal, que também reflete a restauração de algum padrão original
que tinha sido abandonado. O exem plo mais importante das cartas de
Como o Cristão Deve A plicar o Novo Testamento à Vida? 135

Paulo é o seu repetido argumento de que a fé é anterior à Lei. Como


Abraão foi justificado pela fé mais de quatrocentos anos antes que a
Lei fosse introduzida (e porque ele foi justificado pela fé na sua própria
vida, antes da sua clássica "boa obra" de preparar-se para sacrificar o
seu filho, Isaque), a fé tem prioridade sobre os mandamentos de Moisés
(Rm 4; G1 3.1-18). Aplicações destes temas das cartas de Paulo devem
confrontar legalismos, nom ism os e etnocentrismos no nosso mundo
— a tríade das manifestações do século I, de uma ênfase inapropriada
sobre as obras da Lei — e procurar substituí-los com a salvação pela
graça, através da fé.61
Mais controversos são os exemplos do que foi chamado "ordenan­
ças da criação". Poucos hesitam , nos Evangelhos, quando Jesus argu­
menta a favor do casamento monógamo para a vida, com base na m a­
neira como Deus criou Adão e Eva, antes das suas concessões para o
divórcio na lei mosaica, e até mesmo antes que o pecado corrompesse
toda a hum anidade (Mt 19.1-12). Mas quando Paulo apela para a or­
dem da criação a fim de respaldar a sua proibição para que as mulheres
ensinem ou exerçam autoridade sobre os hom ens na igreja, os debates
ficam acalorados (1 Tm 2.13). Naturalmente, um fator complicador en­
volve a dificuldade de traduzir palavras e frases essenciais na proibição
de Paulo, no versículo 12. Argumentei, em outra obra, que Paulo não
está proibindo dois atos desconexos (ensinar e exercer autoridade) mas
o papel do "ensinam ento autorizado", que 1 Timóteo posteriormente
equipara ao papel singular de um ancião ou supervisor (3.1-7; 5.17).
Mas é difícil escapar à conclusão de que, de qualquer forma que se en­
tenda a proibição de Paulo, ele tenciona que ela seja atemporal.62
Essa conclusão é reforçada pela lógica das suas instruções para m a­
ridos e esposas, em Efésios 5.22-27. E possível argumentar que funda­
mentar um mandamento na era do Antigo Testamento, antes da lei,
ainda reflita um período de tempo corrompido pelo pecado. É até m es­
mo possível declarar que uma ordenança de criação possa não ser in­
teiramente intercultual, uma vez que as condições da nova criação em
Cristo às vezes vão além da criação original. Veja como a encarnação de
Cristo representa um acréscimo permanente de uma natureza humana
à natureza divina que Ele tinha por toda a eternidade. Mas Paulo pode
ordenar tanto a submissão de uma esposa como o amor sacrificial de
um m arido, por uma analogia direta com Cristo. A submissão da m u­
lher deve ser "ao Senhor", a liderança do hom em espelha a autoridade
de Cristo sobre a igreja, e o seu amor deve ser um modelo do amor de
136 Questões Cruciais do Novo Testamento

Jesus. A menos que seja o caso que "a igreja está sujeita a Cristo" so­
mente em determinadas épocas e lugares (v. 24a), não pode ser que "as
mulheres sejam em tudo sujeitas a seu m arido" (v. 24b) somente em de­
terminadas culturas. A menos que Cristo tivesse amado e se entregado
somente por algum as pessoas, em algumas culturas (v. 25b), é absurdo
pensar que o marido deva amar a sua esposa, de uma forma sacrificial,
somente em determinadas épocas e lugares (v. 25a)!63
Em quinto lugar, um mandamento reflete um princípio intercultural de­
clarado explicitamente no texto? Caso afirmativo, podemos esperar que
seja atemporal. Quando Paulo insiste que somente pela fé em Cristo
o povo poderá ficar bem com Deus, o seu argumento é que "todos pe­
caram e destituídos estão da glória de Deus" (Rm 3.23). Com base em
Romanos 1.18; 3.20, fica claro que o termo "tod os" significa todos os
seres humanos, sem exceção, uma vez que Paulo primeiro se expressa
com respeito a todos os gentios (1.18-32), em seguida a todos os judeus
(2.1; 3.8) e, finalmente, através de dez citações do Antigo Testamento,
reforça a generalização de que ninguém, judeu ou gentio, seja justo,
nem mesmo uma só pessoa (3.9-20).64
Por outro lado, em outras passagens, o que a princípio parece ser
uma drástica generalização, pode passar a ter foco mais limitado, es­
pecialmente quando se observa o contexto mais amplo em que ela está
embutida. Romanos 14.24 literalmente diz: "Eu sei e estou certo, no
Senhor Jesus, que nenhuma coisa é de si mesma im unda". Esse texto
tem sido mal utilizado, ao longo dos séculos, para justificar vários ti­
pos de im oralidade, mas se lermos todo o capítulo fica claro que Paulo
está falando sobre os debates a respeito de comida pura e impura. Em
uma era em que alguns judeus cristãos ainda insistiam em conservar as
antigas leis alimentares, Paulo insiste que nenhum alimento é ineren­
temente impuro (como, na verdade, está escrito em algumas versões
bíblicas).65
Em sexto lugar, especialm ente quando uma das cartas de Paulo é
dirigida a um indivíduo, e não a uma igreja, devemos perguntar o que
é aplicável exclusivam ente a este indivíduo, em lugar de ser exigido de todos
os crentes? Por exem plo, em 1 Tim óteo 4.11-16, Paulo dá uma série
de instruções a Timóteo, no seu papel de pastor da igreja de Efeso. A
maioria delas pode se aplicar tam bém a cristãos que não são líderes
de igreja, mas o versículo 13 é claram ente mais lim itado: "Persiste em
ler [as Escrituras], exortar e ensinar, até que eu vá". O utros pastores
deveriam aplicar essa instrução às suas "descrições de trabalho" tam­
Como o Cristão Deve A plicar o Novo Testamento à Vida? 137

bém , mas Paulo não im aginaria todos os cristãos realizando estas três
tarefas.

O u tros P r in c íp io s
Aqui eu posso apresentar apenas alguns dos mais importantes con­
ceitos, com breves exemplos. Eu vou enumerar sete princípios adicio­
nais para aplicação das cartas de Paulo.
Em primeiro lugar, determine onde está a ênfase de uma passagem, es­
pecialmente se de form a aparente houver princípios conflitantes nela. Em 1
Coríntios 8.1; 11.1, Paulo comenta o alimento sacrificado aos ídolos e
outros temas moralmente neutros. Por um lado, o capítulo 8 enfatiza
que os crentes deveriam tom ar precauções para não levar outros cristãos
ao pecado (ou a pecar contra a sua própria consciência, envolvendo-se
em algo que não se sentem livres para fazer). Por sua vez, 1 Coríntios
9.19-23 enfatiza que os crentes são inerentemente livres para fazer suas
próprias escolhas nestas áreas cinzentas. Na verdade, quando se trata
de uma questão relativa aos incrédulos, eles deveriam evitar quaisquer
restrições legalistas potenciais ao seu comportamento que pudessem
colocar obstáculos desnecessários nos caminhos daqueles que ainda
precisam vir à fé. No final desta seção, Paulo repete estes dois conceitos,
mas como se fossem um sanduíche: primeiro a liberdade (10.25-27), e
depois a restrição voluntária (vv. 28,29a); e, novamente, a liberdade (vv.
29b-30). O mesmo padrão a-b-a, com os mesmos elementos, aparece em
Romanos 14.1-12, 14.13-15.4, e 15.7-13. A liberdade é o assunto princi­
pal; a restrição, o secundário. Assim, se alguém tiver que escolher entre
enfatizar a liberdade do Evangelho e enfatizar as restrições em áreas
moralm ente neutras, deverá escolher a liberdade — uma lição que in­
contáveis legalistas da História da Igreja jam ais aprenderam!66
Em segundo lugar, aplicações específicas podem frequentem ente ser
aplicadas a situações análogas que, não sendo assim, não seriam tratadas nas
Escrituras. O exemplo do alimento sacrificado aos ídolos novamente
fornece um exemplo clássico. Uma longa lista de questões análogas
pode ser mais relevante em outras épocas e lugares, incluindo o uso do
álcool, formas de recreação e vestir, estilos de música, e assim por dian­
te.67 Ou, para considerar um exemplo bastante diferente, não há nada
na Bíblia sobre "estar morto no Espírito" — quando uma pessoa cai fisi­
camente e, às vezes, se contorce, em resposta a algum tipo de atividade
"carism ática". Mas Paulo trata do fenômeno sobrenatural e, de alguma
forma, similar, das línguas, ao longo de 1 Coríntios 14. Supostamente,
138 Questões Cruciais do Novo Testamento

os mesmos princípios se aplicam às duas situações, resumidas na ins­


trução de conclusão de Paulo, de não proibir o exercício do dom, mas
usá-lo "decentem ente e com ordem " (isto é, de maneira que edifiquem,
e não dividam, a comunidade — vv. 39,40).68
Em terceiro lugar, observe o que deve ter se destacado, no mundo de Paulo,
como contrário à sua sociedade ou cultura. Essas são, provavelmente, as
práticas que Paulo mais enfatiza. As antigas literaturas judaica, grega
e romana, constantemente tratavam das responsabilidades das pessoas
em relacionamentos de autoridade e subordinação. A forma literária
das instruções a estes vários grupos de pessoas veio a ser conhecido
como "código dom éstico". Uma pequena parte do que Paulo disse às
esposas nos seus códigos teria parecido contracultural, mas a instrução
para que os maridos se envolvessem em amor sacrificial deve ter choca­
do muitas pessoas (cf. Ef 5.22-24, com versículos 25-28).69 Sem dúvida,
aqui é onde deve estar a ênfase hoje, embora poucos cristãos pareçam
reconhecer isso. De igual maneira, os princípios de Paulo a respeito da
caridade financeira (veja especialmente 2 Co 8-9) teriam parecido tolos
para os judeus, que proibiam que um indivíduo doasse mais de 20% da
sua renda, e para os gentios, que nem mesmo tinham um amplo esque­
ma, que abrangia todo o império, para satisfazer as necessidades dos
pobres, como tinham os judeus. A prática do dízimo gradual permane­
ce contracultural hoje, mas, na minha opinião, é o que a fiel aplicação
do ensinamento de Paulo exige.70
Em quarto lugar, distinga entre o que se aplica unicamente a Deus ou
Jesus e o que pode ser imitado por todos os cristãos. Filipenses 2.5-11 retrata a
encarnação, a crucificação, a ressurreição e a exaltação de Cristo. Paulo
insere, neste ponto, este hino, porque deseja que os cristãos, em seus
relacionamentos uns com os outros, tenham "o mesmo sentimento que
houve também em Cristo Jesus" (v. 5). Mas nenhum de nós é plenamen­
te divino, assim como plenamente humano, de modo que a nossa imi­
tação pode ser apenas parcial. Não podemos decidir deixar de usar de
modo egoísta a nossa "igualdade a D eus" (v. 6), porque não possuímos
esta igualdade. Nem podemos esperar ser "exaltados soberanam ente"
(v. 9), novamente à destra do Pai. M as podemos nos recusar a converter
os privilégios da vida cristã em algo a ser usado para nosso próprio be­
nefício, e podemos suportar melhor as injustiças nesta vida quando re­
conhecermos a gloriosa vida ressurrecta que espera por nós um dia.71
Em quinto lugar, tente discernir a estrutura global de uma epístola.
Frequentemente os pontos principais da aplicação irão emergir das
Como o Cristão Deve A plicar o Novo Testamento à Vida? 139

"grandes ideias" das principais divisões da carta. Também a sequência


de tópicos pode fornecer conhecimentos importantes a respeito da sua
aplicação. A epístola aos filipenses foi convincentemente esquem atiza­
da como uma carta "fam iliar" ou "de am izade":

Saudações e Ação de graças (1.1-11)


Confirmação sobre o remetente: Descrição do aprisionamento de
Paulo (1.12-26)
Pedido de confirmação dos destinatários: Chamado ao modo de
vida como o de Cristo (1.27; 2.18)
Inform ação sobre o m ovimento de intermediários: A respeito de
Timóteo e Epafrodito (2.19-30)
Preocupação especial: Advertências sobre os falsos mestres (3.1;
4.1)
Instruções finais, agradecimentos e saudações (4.2-23)72

As duas seções — advertência contra os judaizantes e agradecimen­


tos aos filipenses pelo dinheiro enviado — divergem do esquema pa­
drão e demonstram as razões imediatas para o texto de Paulo. Mas uma
aplicação principal pode ser obtida de cada seção do corpo da carta da
maneira como ela está: (1) Encorajar os outros a respeito do seu bem
estar no ministério; (2) desafiar os outros à unidade que resulta de tra­
tar os outros como mais importantes do que você mesmo; (3) elogiar
publicamente os crentes fiéis; (4) advertir diretamente contra a heresia,
quando a salvação das pessoas estiver realmente em perigo, mas so­
mente então; (5) agradecer às pessoas pelo seu apoio e ficar satisfeito,
seja este apoio grande ou pequeno.
No caso da parte da exortação de Romanos (12.1; 15.13), é a sequên­
cia de subseções que parece ser significativa. Em primeiro lugar, Paulo
ordena que todos os crentes se transformem, em corpo e mente (12.1-2).
A seguir, ele instrui que cada um descubra e utilize seus dons espiritu­
ais (vv. 3-8). O que parece, à primeira vista, uma miscelânea de ordens
(12.9; 13.14) na realidade está inserido na estrutura de mandamentos
de amor (12.9-13; 13.8-14); este material interveniente, de modo parti­
cular nas relações com os inimigos, certamente demonstra amor. Enfim,
Paulo comenta a tolerância cristã de modo mais genérico (14.1-15.13).
Quando observamos que 1 Coríntios 12-14 exibe uma estrutura similar
— transformação fundacional (12.1-3); uso de dons com diversidade
na unidade (12.4-31); amor (13.1-13); e tolerância mútua, equilibrando
140 Questões Cruciais do Novo Testamento

liberdade e restrição (14.1-40) — podem os suspeitar que a sequência


de Paulo é deliberada. Se um indivíduo realmente desejar conhecer a
vontade de Deus para a sua vida (Rm 12.2), deverá se entregar inte­
gralmente ao Senhor, exercer os dons espirituais com amor, tolerando
os outros, cujos dons podem ser diferentes. E faz sentido realizar estas
coisas nesta ordem.73
Em sexto lugar, distinga o que é central do que é periférico. Esse prin­
cípio é inerente a algumas das diretrizes e alguns dos exemplos que já
forneci, mas merece ser detalhado explicitamente. Um dos assombrosos
contrastes nas cartas de Paulo se dá entre a severidade com que ele con­
dena os falsos m estres, cujas crenças atacam o coração do evangelho, e a
tolerância com que permite que as pessoas discordem dele em questões
periféricas (cf. G1 1.6-10 com 1 Co 9.19-23).74 Intimamente relacionado
é o contraste, na epístola aos filipenses, entre a alegria de Paulo pela
pregação do evangelho por mestres rivais, com motivos impróprios (Fp
1.15-18) e seus anátemas para os judaizantes que pervertem o evange­
lho em uma obra de justiça (3.2-11). Aparentemente os primeiros, que
pregam por "interesse pessoal" (NTLH), ainda têm correto o cerne da
mensagem, ao passo que os últimos, por mais bem intencionados que
sejam, não. Infelizmente, hoje em dia a igreja frequentemente inverte
estas prioridades, seja tolerando maior heresia (particularmente em cír­
culos liberais) ou discutindo sobre questões que não são importantes
(particularmente em círculos conservadores). Os dois comportam en­
tos são contrários ao objetivo principal de Paulo, de conquistar para o
Senhor tantos quantos possível, pela pregação do verdadeiro evange­
lho de Jesus Cristo.
Finalm ente, reconheça quando Paulo estabelece princípios que não po­
deriam ser plenam ente implementados no seu mundo, mas que desafiam os
cristãos fu tu ros a prosseguir nas direções às quais ele já se dirigia. O exem ­
plo clássico aqui envolve a escravidão. A curta carta a Filemom parece
ser um pedido para que ele liberte seu escravo O nésim o, que tinha se
convertido a Cristo pelo m inistério de Paulo. 1 Coríntios 7.21 é difícil
de traduzir, m as provavelm ente ensina que os escravos que pudes­
sem obter a sua liberdade, deveriam fazer isso. Mas, em Colossenses
3.22-25, Paulo ainda ordena que os escravos se subm etam aos seus
senhores (cf. Ef 6.5-8). O cristianism o acabaria trabalhando para abolir
a escravidão em várias sociedades, em diferentes séculos, mas não há
evidência de que a igreja apostólica tivesse iniciado um movimento
deste tipo no século I. Inúm eras razões podem explicar isso: a sua
Como o Cristão Deve A plicar o Novo Testamento à Vida? 141

falta de qualquer base de poder, os variados tipos de escravidão no


Im pério Rom ano (m uitos dos quais não eram extrem am ente severos),
a prioridade da libertação espiritual sobre a física, e outras. M as pode-
se argum entar com F. F. Bruce, que mesmo o pouco que Paulo ensina­
va nos traz "a uma atm osfera em que a instituição somente poderia
definhar e m orrer".75
M uitos autores contemporâneos traçam paralelos explícitos entre os
ensinam entos de Paulo sobre a escravidão e a sua instrução sobre os
papéis dos sexos. Afinal, Gálatas 3.28 une claram ente as duas coisas,
declarando, "N isto não há judeu nem grego; não há servo nem livre;
não há macho nem fêmea; porque todos vós sois um em Cristo Jesu s".76
M as foram encontrados paralelos a Gálatas 3.28 em textos bastante pa­
triarcais no judaísm o antigo e no mundo greco-romano, de modo que é
difícil concluir que esse versículo apenas prove que Paulo anteviu que
não haveria distinções de qualquer tipo para qualquer povo, como os
cristãos.77 A questão terá que ser definida, por análise detalhada dos
textos que parecem preservar papéis determinados, como aqueles que
já foram objeto de menção neste capítulo (especialmente 1 Co 11.2-16;
14.33-38; Ef 5.22-33; e 1 Tm 2.8-15).

Hebreus e as Epístolas Gerais


Todos os princípios para uma aplicação válida nas epístolas de Paulo
trabalham bem com as epístolas de outros autores, também, embora di­
versos destes livros não estejam em tão íntima conformidade com o an­
tigo gênero de epístola, com o as cartas de Paulo.78 Mas em vários casos
nós não temos suficiente informação que nos capacite a determinar a
data exata, o público ou até mesmo o local dos destinatários. Em muitos
destes casos, no entanto, é possível reconstruir, com razoável número
de detalhes, as circunstâncias daqueles que iriam receber as cartas —
situações em que os autores das epístolas sentiam que seus públicos
precisavam de instrução. Uma abordagem adicional para a aplicação
das epístolas, portanto, é procurar situações similares no nosso mundo de
hoje. A aplicação destas cartas com parativamente negligenciadas terá,
então, uma urgência particular. As limitações de espaço impedem uma
análise de cada uma dessas cartas, mas iremos considerar brevemente
três delas, a título de exemplo.
A epístola aos Hebreus provavelmente se dirige a um grupo de igre-
jas-em-casa de judeus cristãos em Roma, no início dos anos 60, quando
a perseguição está começando a aumentar, e a epístola tem o objetivo
142 Questões Cruciais do Novo Testamento

de encorajar os crentes a não retornar ao judaísmo não-cristão mera­


mente para salvar suas vidas físicas. O autor é desconhecido, e mesmo
estas sugestões a respeito de data, lugar e público são discutidas. Mas
não há dúvida de que a carta apela aos cristãos que se sentem tenta­
dos a cometer apostasia, abandonando a sua fé, para que não façam
isso, porque todas as outras opções de religião levam apenas à punição
eterna. As aplicações contemporâneas devem procurar situações com­
paráveis em que as pressões do governo, outras religiões ou lealdades
de família tentem os cristãos professantes a renunciar a suas profissões
de fé. Para as pessoas que nunca colocaram literalmente a sua vida em
risco pela sua fé, a epístola aos Hebreus nos lembra de que não podere­
mos conhecer plenamente o verdadeiro caráter das pessoas até que elas
enfrentem uma crise.79
A epístola de Tiago parece se dirigir a um grupo de judeus cris­
tãos pobres, provavelmente em Israel ou na Síria, que trabalhavam em
grandes propriedades agrícolas, que pertenciam a senhores romanos
ou judeus ausentes, que nem sempre lhes pagavam pontualmente ou o
suficiente para que alimentassem suas famílias. A pungente repreensão
destes ricos opressores deveria despertar temor nos corações de seus
equivalentes contemporâneos — as corporações multinacionais que
deixam de pagar um salário decente a fazendeiros do Terceiro Mundo
ou trabalhadores de fábricas, para não mencionar ocidentais, incluindo
cristãos, que com pram seus produtos indiscriminadamente, sem tentar
determinar as condições sob as quais foram fabricados.80
O cenário de 1 Pedro assemelha-se, de muitas maneiras, ao da epísto­
la aos Hebreus, com a exceção de que parece ter sido escrita em Roma, a
várias províncias que hoje formam parte da Turquia. N ovamente a per­
seguição crescente, grande parte dela local, estava dificultando a vida
dos crentes, em bora aqui os cristãos gentios pareçam ser predominan­
tes. Os títulos de dois importantes estudos de 1 Pedro talvez reflitam
os dois temas centrais do livro: "um lar para os sem -teto" e "buscar o
bem estar da cid ad e".81 Longe de se contradizerem m utuamente, essas
ênfases aparentemente opostas refletem as responsabilidades internas
e externas da igreja em todas as eras — propiciando refúgio físico e es­
piritual do mundo, e funcionando com o o sal e a luz em uma sociedade
corrupta, para tentar melhorá-la. Particularmente em situações com re­
fugiados literais, hoje em dia, os princípios de 1 Pedro gritam, pedindo
que os apliquemos.
Como o Cristão Deve A plicar o Novo Testamento à Vida? 143

0 Livro do Apocalipse
Como com o sermão escatológico de Jesus, o livro do Apocalipse
representa literatura apocalíptica. Na aplicação desta literatura não
se deve tentar correlacionar eventos atuais com as imagens altam en­
te sim bólicas do livro, como se o livro do Apocalipse se destinasse a
nos capacitar a reconhecer, à medida que eles se desenrolam, todos os
eventos que irão dar início ao fim do mundo. Na verdade, Apocalipse
1 deve nos lembrar de que o livro apresenta vários temas teológicos
importantes — a soberania de Deus, a divindade de Cristo, a natureza
da Trindade, a expiação e a ressurreição e outros (veja, especialmente,
1.4-8) — e que mesmo a doutrina primária da escatologia se concentra
principalm ente no fato da volta de Cristo (v. 7), o que pode ser tudo
aquilo em que os cristãos podem esperar (ou precisam) estar de acor­
do.82 As cartas às sete igrejas (capítulos 2 e 3) nos convidam a com pa­
rar todo o espectro de fidelidade e infidelidade, representado na antiga
Ásia M enor com igrejas ou ramos análogos ao cristianismo em nosso
mundo. Os mesmos chamados ao arrependimento e as mesmas recom ­
pensas pela obediência se aplicam hoje em dia. Os capítulos 4 e 5 (e
outros hinos espalhados pelo livro) devem nos levar a louvar a Deus
pelas suas maravilhosas obras, como os habitantes do céu já fazem.
Aplicações das séries dos juízos dos selos, taças e trombetas, e os in­
tervalos que as separam (capítulos 6 e 19) variarão, de alguma maneira,
dependendo de o intérprete adotar uma abordagem passada, histórica,
idealista ou futurista (ou alguma combinação destas). Este debate pro­
põe a pergunta: Esses capítulos refletem basicam ente eventos do século
I (abordagem passada), evolução da História da Igreja (histórica), prin­
cípios atemporais da luta entre o bem e o mal (idealista) ou eventos
futuros (futurista)? Talvez a melhor abordagem seja uma basicamente
futurista, que, no entanto, reconheça paralelos parciais, tanto no sécu­
lo I com o em outros períodos ao longo da história, possibilitando que
princípios atemporais sejam derivados também.83 Desta perspectiva,
quer alguma geração venha a ser realmente a última ou não, nós pode­
mos, em cada era, reconhecer pelo menos os prenúncios de desenvol­
vimentos que o livro do Apocalipse retrata tão vividamente. Qualquer
poder anticristão do mundo se assemelha, pelo menos parcialmente,
ao retrato do Anticristo do final dos tempos; mas os cristãos podem
ter a esperança de que Deus triunfará no final sobre cada um desses
poderes.84 Eles podem enfrentar severa tribulação, mas estão isentos
144 Questões Cruciais do Novo Testamento

da ira de Deus (uma afirmação sobre a qual concordam, igualmente, os


pré-tribulacionistas, os midi-tribulacionistas e os pós-tribulacionistas).
Eles podem esperar ansiosamente o descanso e a bênção eternos, ao
passo que os ím pios somente se depararão com tormento incessante
(capítulos 20 e 22) — uma promessa sobre a qual concordam os pré-mi-
lenialistas, pós-milenialistas e amilenialistas. Afinal, praticam ente cada
detalhe varia de acordo com os variados sistemas teológicos, mas se
concordarmos no que diz respeito ao que é essencial, poderemos con­
cordar em discordar sobre o resto.85

Conclusão
Não existe nenhuma fórmula mecânica para aplicar apropriadamen­
te qualquer texto das Escrituras. Quanto mais entendemos o que uma
passagem em particular queria dizer para o seu autor e o seu público
originais, mais provavelmente poderem os entender a sua aplicação ori­
ginal. Quanto mais intimamente paralelos à situação nos encontrarmos
hoje, mais poderemos aplicar o texto de maneira similar. Mas muitas
vezes as nossas situações não são tremendamente comparáveis. Nós
ainda podemos reconhecer amplos princípios que transcendem tempo
e lugar, mas aplicações mais específicas podem ser mais controversas.
Compreender as questões singulares que estão relacionadas com as
diversas formas literárias da Bíblia nos capacita a progredir cada vez
mais rumo à aplicação válida, mas os cristãos irão discordar ainda so­
bre inúmeras questões.
Da mesma maneira, é crucial se lembrar da graciosa maneira que o
Espírito de Deus guia o seu povo. Embora ninguém deva deliberada­
mente usar mal um texto e culpar a Deus por guiá-lo neste processo, o
Espírito fala regularmente aos crentes, e por intermédio deles, mesmo
quando estes, de forma involuntária e inconsciente usam mal algumas
passagens, assim como o Espírito nos usa para realizar a sua obra no
mundo, mesm o quando os nossos m otivos são menos do que deveriam
ser. Nós devemos agradecer a Deus por Ele agir desta maneira. Se não
fosse assim, Deus poderia fazer muito pouco conosco, uma vez que nós,
com tanta regularidade, deixamos de corresponder aos seus padrões.
Mas, como em cada outra área do crescimento cristão, jam ais devemos
usar a graça de Deus como uma desculpa para a nossa preguiça, ou
algo pior (Rm 6.1). Nós temos mais recursos cristãos evangélicos para o
entendimento da Bíblia, em mais idiomas do mundo, do que em qual­
Como o Cristão Deve A plicar o Novo Testamento à Vida? 145

quer outra época da História da Igreja. Assim , é uma grande responsa­


bilidade, não nos aproveitarmos destes recursos, gerados por crentes
que honram a Deus e que estão respondendo ao seu chamado nas suas
vidas, ao produzir essas ferram entas.86Ao m esm o tempo, interpretar os
pensam entos de outras pessoas sobre a Bíblia jam ais deveria suplantar
a nossa luta detalhada e séria com o texto das Escrituras, buscando, em
oração, o que Deus deseja nos dizer, diretamente neste processo.
Resumo

Apesar de inúmeras declarações do contrário, há pelo menos uma


dúzia de boas razões para crer que os Evangelhos do Novo Testamento
e o livro de Atos apresentam informações históricas substancialmente
confiáveis. A crítica textual nos permite reconstruir o que os autores es­
creveram originalmente, com alto grau de confiança. Mateus, Marcos,
Lucas e João, todos estavam em boas posições para se lembrar ou apren­
der sobre a vida de Jesus. Todos escreveram seus Evangelhos no século
T, um período de tempo comparativamente curto depois dos eventos
que eles narram. O gênero do Evangelho se assemelha mais de modo
intimo àquele relativamente digno de confiança, de outras biografias e
histórias antigas. E provável que os quatro evangelistas tivessem de­
sejado registrar a história com exatidão, de m odo que a tradição cristã
cuidadosam ente preservasse informações sobre Jesus e os apóstolos, e
para que as aparentes contradições entre os documentos pudessem ser
harm onizadas de modo plausível. Isto é verdade, quer comparemos
os Evangelhos Sinóticos entre si, os Sinóticos com o de João, o livro de
Atos com as epístolas de Paulo, ou o Novo Testamento com a história
extrabíblica de modo mais genérico. As palavras duras de Jesus, junta­
mente com os tópicos que os Evangelhos não trataram, respaldam ain­
da mais a historicidade destes textos. Autores não cristãos, a evidência
da arqueologia e autores cristãos mais recentes, todos fornecem respal­
do adicional. Particularmente impressionantes são as referências à tra­
dição de Jesus nas epístolas do Novo Testamento, que antecipam a data
de composição dos Evangelhos. Essas referências demonstram que a
informação precisa sobre Jesus circulava oralmente muito tempo antes
que os primeiros registros escritos da sua vida fossem produzidos.
148 Questões Cruciais do Novo Testamento

Embora, à primeira vista, Jesus e Paulo possam parecer ter enfati­


zado temas muito diferentes, um olhar mais atento revela que os dois
homens são fundamentalmente compatíveis entre si. Paulo revela um
conhecimento abundante sobre a tradição de Jesus, mesm o que cite
Jesus de forma direta apenas ocasionalmente. O propósito e o gêne­
ro das epístolas não se prestam a abundante citação direta. Mas vá­
rias alusões aparecem nas cartas de Paulo a eventos da vida de Jesus,
juntam ente com uma ampla seção dos ensinamentos individuais de
Jesus, e seus serm ões mais longos. Um a comparação de vários com­
ponentes teológicos essenciais revela considerável sobreposição entre
Jesus e Paulo aqui também. A ênfase de Paulo na justificação pela fé
corresponde intimamente ao ensinamento de Jesus sobre o reino de
Deus. Os dois hom ens têm perspectivas comparáveis sobre o papel da
lei na era cristã, a necessidade da missão e da inclusão dos gentios na
Igreja, e o papel das mulheres no ministério. A cristologia implícita dos
Evangelhos Sinóticos retrata Jesus com uma visão elevada de si mesmo,
tornando a cristologia explícita de João e Paulo um resultado mais na­
tural do que alguns imaginaram. Jesus e também Paulo reconheceram
o papel essencial da morte de Cristo, a ressurreição e o seu retorno dos
céus. Embora o pensam ento de Paulo tenha sido modificado de várias
maneiras fundam entais, na estrada para Damasco, e assim o âmago do
"seu evangelho" pudesse ser atribuído â sua experiência de conversão
(G1 1.11,12), nada do que ele diz em suas cartas contradiz a conclusão
de que ele teria aprendido numerosos detalhes sobre o Jesus histórico
com outros cristãos.
A aplicação do Novo Testamento exige, entre outras coisas, um en­
tendimento de como variam as suas formas literárias. Os Evangelhos
foram escritos principalmente para alimentar a fé em Jesus. Eles enfa­
tizam o seu ensinamento contracultural, a compaixão pelos excluídos,
e os crescentes conflitos com as autoridades religiosas da sua época. O
uso regular que Ele fazia de metáforas significa que não devemos nos
preocupar em interpretar literalmente o que se destinava a ser figu­
rado. Os mandamentos mais duros ou mais controversos exigem cui­
dadoso entendimento de seus contextos histórico e literário, além da
distinção de quando Jesus está falando somente aos doze ou dando
outros mandamentos específicos para a situação. É preciso observar a
sua predileção por lições práticas proféticas, pelo discurso apocalíptico
e por extensos diálogos ou sermões (particularmente no Evangelho de
João), cada uma destas modalidades apresentando distintos desafios
Resumo 149

ao intérprete. As dificuldades essenciais na aplicação do livro de Atos


derivam grandemente da sua forma narrativa, e do período entre o an­
tigo e o novo concerto que ele descreve. Os leitores devem procurar
indicações indiretas que Lucas nos dá para determinar quão impor­
tante ou exemplar determinado incidente é. Essas indicações incluem
a maneira como uma passagem é introduzida ou concluída, com que
frequência um tema é repetido, se um padrão consistente de compor­
tamento emerge ou não ao longo do livro, e quanto espaço Lucas de­
dica a cada tópico. Todo o livro oferece um m odelo maravilhoso para
contextualização do evangelho. Nas epístolas, predomina a questão do
que é atemporal versus o que é específico de uma situação. Novamente,
devemos procurar aparentes contradições, os argumentos particulares
ligados a vários mandam entos, a possível base para um mandamento
na criação ou na nova criação, amplos princípios interculturais, e as
diferenças entre um ensinam ento dirigido a todos os cristãos e aqueles
que se aplicam somente a alguns. A epístola aos Hebreus e as epístolas
gerais também requerem o uso de todos estes princípios, mas também
apresentam novos desafios e oportunidades para os intérpretes, quando
m odernizam as circunstâncias sob as quais estas cartas foram escritas.
O livro do Apocalipse não foi escrito para nos capacitar a reconhecer
sinais singulares dos tempos imediatamente anteriores ao retorno de
Cristo, mas para dar esperança ao povo de Deus, em todos os tempos e
lugares, de que Ele é soberano, de que Jesus vence, e de que a história
se move em direção aos objetivos indicados. Diante disso, a maneira
como um indivíduo responde a Jesus de Nazaré reflete a decisão mais
importante que ele pode tomar nesta vida.
Notas

I n trodução
1 Tremper Longman, M aking Sense o f the Old Testament: Three Crucial Questions
(Grand Rapids: Baker, 1998).

C a p it u l o 1 :
O Novo T e s t a m e n t o É h is t o r ic a m e n t e C o n f iá v e l ?
1 James W. Deardorff, Celestial Teachings: The Emergence o f the True Testament of
Jmmanuel (Jesus) (Tigard, Oreg.: Wild Flower Press, 1990) (a letra "J" não é um
erro tipográfico; esta é a grafia que ele usa); idem, The Problem o f New Testament
Gospel Origins (San Francisco: Mellen Research University Press, 1992).
2 William D. Mahan, The Archko Volume: The Archaeological Writings o f the Sanhedrim
and Talmuds o f the Jews, ed. M. Mcintosh e T. H. Twyman (1887; New Canaan,
Conn.: Keats, 1975). Este volume continua a ser reimpresso e amplamente dis­
tribuído.
3 Veja Barbara Thiering, Jesus and the Riddle o f the Dead Sea Scrolls (San Francisco:
HarperSanFrancisco, 1993).
4 Veja Carsten P. Thiede (Rekindling the Word: In Search o f Gospel Truth [Valley
Forge, Pa.: Trinity Press International, 1995], 37-57,169-97); e Graham Stanton
(Gospel Truth? Neiv Light on Jesus and the Gospels [Valley Forge, Pa.: Trinity Press
International, 1995], 11-19,20-32).
5 O Evangelho de Tomé é um documento extracanônico, posterior ao Novo
Testamento, que, segundo a opinião de alguns acadêmicos, pode conter autên­
tica tradição de Jesus, independentemente do conteúdo dos Evangelhos canôni­
cos. Para uma pesquisa e uma avaliação negativa destas reivindicações e outras
declarações similares, defendidas, por um número muito menor de acadêmi­
cos, a respeito de outras obras da literatura cristã apócrifa, veja John P. Meier, A
152 Questões Cruciais do Novo Testamento

Marginal Jew: Rethinking the Historical Jesus (Nova York: Doubleday, 1991-), 1:112-
66. Veja n" 11 abaixo, para mais informações sobre a obra de Meier.
6 Os resultados são mais convenientemente acessados em Robert W. Funk, Roy
W. Hoover, e Seminário Jesus, The Five Gospels: The Search fo r the Authentic
Words o f Jesus (Nova York: Macmillan, 1993); e Robert W. Funk e Seminário
Jesus, The Acts o f Jesus: The Search fo r the Authentic Deeds o f Jesus (San Francisco:
HarperSanFrancisco, 1998).
7 Para uma análise e crítica abrangente da metodologia e das conclusões do
Seminário Jesus, veja Craig L. Blomberg, "The Seventy-four 'Scholars': Who Does
the Seminário Jesus Really Speak For?" Christian Research Journal 17, no. 2 (1994):
32-38. Para um sentido mais amplo, veja Michael J. Wilkins e J. P. Moreland, eds.,
Jesus Under Fire: Modern Scholarship Reinvents the Historical Jesus (Grand Rapids:
Zondervan, 1995).
8 Sobre as perspectivas iniciais, veja todo o exemplar de Forum 3, n° 1 (2000).
Fascículos subsequentes, embora com a publicação atrasada por dois anos,
mostram que o projeto está progredindo lentamente.
9 A linguagem se origina de vários dos títulos de capítulos da obra de Ben
Witherington III, The Jesus Quest: The Third Search for the Jew o f Nazareth (Downers
Grove, III: InterVarsity Press, 1995).
10 Ben Witherington III, The Paul Quest: The Renewed Search fo r the Jew o f Tarsus
(Downers Grove, 111: InterVarsity Press, 1998).
11 O mais ambicioso destes esforços, e uma das melhores abordagens é a de Meier,
A Marginal Jew, com três volumes que foram publicados por volta do ano 2000, e
há pelo menos mais um prometido.
12 Veja especialmente Stanley E. Porter, The Criteria fo r Authenticity in Historical-Jesus
Research (Sheffield, Inglaterra: Sheffield, Academic Press, 2000).
13 N. T. Wright, Jesus and the Victory o f Cod (Mineápolis: Fortress, 1996), 131-133;
Gerd Theissen e Annette Merz, The Historical Jesus: A Comprehensive Guide
(Mineápolis: Fortress, 1998), 116-118; Gerd Theissen e Dagmar Winter, The Quest
fo r the Plausible Jesus: The Question o f Criteria (Louisville: Westminster John Knox
Press, 2002).
14 De modo curioso, é precisamente isto o que alguns autores muito conservado­
res desejam que nós façamos. Veja especialmente Robert L. Thomas e F. David
Farnell, The Jesus Crisis: The Inroads o f Historical Criticism into Evangelical Scholarship
(Grand Rapids: Kregel, 1998).
15 F. F. Bruce, The Nerv Testament Documents: Are They Reliable ? (Downers Grove, 111.:
InterVarsity Press, I960), 16.
Notas 153

ln A introdução tradicional acadêmica à crítica textual do Novo Testamento, de que


estes e mui tos outros dados podem ser obtidos, é a obra de Kurt Aland e Barbara
Aland, The Text o f the New Testament, 2'' ed. (Grand Rapids: Eerdmans, 1989).
Para uma investigação muito mais breve, que não exige conhecimento técnico
no assunto, veja David A. Black, New Testament Textual Criticism: A Concise Guide
(Grand Rapids: Baker, 1994).
17 Sobre o mormonismo, veja Craig L. Blomberg e Stephen E. Robinson, Hon>Wide
the Divide? A Mormon and an Evangelical in Conversation (Downers Grove, 111.:
InterVarsity Press, 1997), 55-74. Sobre o Islã, veja Ghiyathuddin Adelphi e Ernest
Hahn, The Integrity o f the Bible according to the Qur'an and the Hadith (Hyderabad,
India: Henry Martyn Institute of Islamic Studies, lc>77).
18 Martin Hengel (The Four Gospels and the One Gospel o f Jesus Christ [Harrisburg, Pa.:
Trinity Press International, 2000], esp. 48-56, 96-105) desafia estas suposições, no
entanto, e julga que Marcos inventou o título e os outros autores dos Evangelhos
conscientes seguiram o seu modelo. A hipótese de Hengel é sugestiva e merece
séria consideração, ainda que, em última análise, seja especulativa e não possa
ser provada.
111 Para uma discussão abrangente sobre a "evidência externa" (o testemunho dos
primeiros autores cristãos) a respeito das origens tios Evangelhos e do livro de
Atos, veja os capítulos sobre os quatro Evangelhos e o livro de Atos, em qualquer
introdução detalhada ao Novo Testamento, por exemplo, Donald Guthrie, New
Testament Introduction, 4“ ed. (Downers Grove, 111.: InterVarsity Press, 1990); ou
Raymond E. Brown, An Introduction to the New Testament (Nova York: Doubleday,
1997).
211 A coleção padrão de textos apócrifos do Novo Testamento, na tradução para o in­
glês, é a New Testament Apocrypha, ed. Wilhelm Schneemelcher, 2“ ed., 2 volumes.
(Louisville: Westminster John Knox Press, 1991-1992).
21 Para uma discussão muito mais abrangente, veja Craig L. Blomberg, The Historical
Reliability o f John's Gospel: Issues and Commentary (Downers Grove, 111.: InterVarsity
Press, 2001), 22-40.
22 Novamente, veja qualquer das introduções padrão ao Novo Testamento.
23 Para uma cronologia detalhada e persuasiva, e as referências relevantes em ou­
tras fontes antigas, veja Ben Witherington III, The Acts o f the Apostles: A Socio-
Rhetorical Commentary (Grand Rapids: Eerdmans, 1998), 77-86.
24 Frequentemente designada como Q — da palavra Quelle cm alemão, para "fon­
te". Várias hipóteses adicionais sobre Q, elaboradas por acadêmicos liberais, com
frequência excedem o que a evidência real pode demonstrar, mas a simples hi­
pótese da existência de tal documento no século I permanece provável. Veja, por
154 Questões Cruciais do Novo Testamento

exemplo, Darrell L. Bock, "Questions about Q", em Rethinking the Synoptic


Problem, ed. David A. Black e David R. Beck (Grand Rapids: Baker, 2001), 41-64.
25 Funk, Hoover e Seminário Jesus, The Five Gospels, 12-13,16.
26 Veja Robin L. Fox, The Search fo r Alexander (Boston: Little, 1980).
27 A. N. Sherwin-White, Roman Society and Roman Law in the New Testament (Oxford:
Oxford University Press, 1953), 187.
28 Para uma boa investigação de abordagens anteriores e para conclusões variadas,
veja Robert Guelich, "The Gospel Genre", em The Gospel and the Gospels, ed. Peter
Stuhlmacher (Grand Rapids: Eerdmans, 1991), 173-208.
29 Veja especialmente Richard A. Burridge, What Are the Gospels ? (Cambridge:
Cambridge University Press, 1992); Colin Hemer, The Book o f Acts in the Setting o f
Hellenistic History, ed. Conrad H. Gempf (Tubingen: Mohr, 1989).
30 Loveday Alexander, The Preface to Luke's Gospel (Cambridge: Cambridge
University Press, 1993), 21.
31 Com frequência se argumenta que o Evangelho de João é de forma considerável
menos digno de confiança, historicamente, do que os Sinóticos, mas ainda confiá­
vel teologicamente. Um mérito de Maurice Casey, Is John's Gospel True? (Londres:
Routledge, 1996) é o fato de que ele reconhece a íntima conexão entre os dois,
embora, infelizmente, considere este Evangelho não confiável em ambos os as­
pectos. Para uma resposta bastante extensa, veja minha obra, Historical Reliability
o f John 's Gospel.
32 Veja especialmente Richard Bauckham, ed., The Gospels fo r All Christians:
Rethinking the Gospel Audiences (Grand Rapids: Eerdmans, 1998). Eu não estou tão
convencido quanto às fontes deste volume de que João podia pressupor conhe­
cimento dos textos escritos de Mateus, Marcos ou Lucas, mas parece altamente
improvável uma ampla consciência de seu principal conteúdo.
33 Veja especialmente Samuel Byrskog, Story as History — History as Story (Tubingen:
Mohr, 2000), 235-238; e Derek Tovey, Narrative Art and Act in the Fourth Gospel
(Sheffield, Inglaterra: Sheffield Academic Press, 1997), 273.
34 Veja Darrell L. Bock, "The Words of Jesus in the Gospels: Live, Jive, or Memorex?"
em Wilkins e Moreland, Jesus Under Tire, 73-99.
35 Veja Conrad Gempf, "Public Speaking and Published Accounts", em The Book
o f Acts in Its Ancient Literary Setting, ed. Bruce W. Winter e Andrew D. Clarke
(Grand Rapids: Eerdmans, 1993), 259-303.
36 Veja David Hill, Nezv Testament Prophecy (Atlanta: John Knox, 1979); Christopher
Forbes, Prophecy and Inspired Speech in Early Christianity and Its Hellenistic
Environment (Peabody, Mass.: Hendrickson, 1997).
37 Para textos e comentários, veja Richard Bauckham, "The Delay of the Parousia",
TynB 31 (1980): 33-36.
Notas 155

38 Veja Graham N. Stanton, Jesus o f Nazareth in New Testament Preaching (Cambridge:


Cambridge University Press, 1974), 189.
39 Veja Hemer, Book o f Acts, 63-100.
40 Bart D. Ehrman, Jesus: Apocalyptic Prophet o f the New Millennium (Oxford: Oxford
University Press, 1999), 51-52.
41 Veja especialmente Birger Gerhardsson, Memory and Manuscript (Lund, Suécia:
Gleerup, 1961), 43-66. Também são importantes duas obras em alemão, jamais tra­
duzidas ao idioma inglês: Rainer Riesner, Jesus ais Lehrer (Tubingen: Mohr, 1981); e A.
F. Zimmermann, Die urchristlichen Lehrer (Tubingen: Mohr, 1984).
42 Veja especialmente A. B. Lord, "The Gospels as Oral Traditional Literature",
em The Relationships among the Gospels, ed. William O. Walker, Jr. (San Antonio:
Trinity University Press, 1978), 33-91; e Kenneth E. Bailey, "Informal Controlled
Oral Tradition and the Synoptic Gospels", AJT5 (1991): 34-53. James D. G. Dunn,
em sua nova obra, (Jesus Remembered [Grand Rapids: Eerdmans, 2003], 173-254)
faz mais uso destas descobertas do que qualquer outro livro sobre o Jesus histó­
rico.
43 Veja especialmente Alan Millard, Reading and Writing in the Time o f Jesus (Sheffield,
Inglaterra: Sheffield, Academic Press, 2000), 210-229.
44 Na verdade, as sementes desta organização derivam do próprio ministério de
Jesus. Veja especialmente Meier, Marginal Jew, 3:148-163.
45 Por exemplo, C. Dennis McKinsey, The Encyclopedia o f Biblical Errancy (Amherst,
N.Y.: Prometheus, 1995).
46 Craig L. Blomberg, The Historical Reliability o f the Gospels (Downers Grove, 111.:
InterVarsity Press, 1987), 113-189; idem, Historical Reliability o f John's Gospel
47 Grande parte da construção deste parágrafo é emprestada de excertos de Craig
L. Blomberg, "Where Do We Start Studying Jesus?" em Wilkins e Moreland, Jesus
Under Fire, 35.
48 Paul Merkley, "The Gospels as Historical Testimony", EvQ 58 (1986): 328-336.
4l> Stanley E. Porter, "'In the Vicinity of Jericho': Luke 18.35 in the Light of Its
Synoptic Parallels", BBR 2 (1992): 91-104.
311 Veja Craig L. Blomberg, "The Legitimacy and Limits of Harmonization", em
Hermeneutics, Authority, and Canon, ed. D. A. Carson e John D. Woodbridge (Grand
Rapids: Zondervan, 1986; reimpressão, Grand Rapids: Baker, 1991), 135-174.
51 Blomberg, Historical Reliability o f John's Gospel.
52Para estes e outros exemplos, e todas as referências das Escrituras relacionadas a
cada um destes itens, veja minha obra Historical Reliability o f the Gospels, 156-159.
53 Para uma boa discussão sobre estas circunstâncias e outras relacionadas a elas,
veja Ben Witherington III, John's Wisdom: A Commentary on the Fourth Gospel
(Louisville: Westminster John Knox Press, 1995), 27-41.
156 Questões Cruciais do Novo Testamento

54 Para estes e vários outros exemplos das duas formas de integração, veja Leon
Morris, Studies in the Fourth Gospel (Grand Rapids: Eerdmans, 1969), 40-63; e
Richard Bauckham, "John for Readers of Mark", em Bauckham, The Gospels for
All Christians, 147-71.
55 Original em alemão de 1950. Traduzido ao idioma inglês como Phillip Vielhauer,
"On the Taulinism' of Acts", em Studies in Luke-Acts, ed. Leander E. Keck e J.
Louis Martyn (Nashville: Abingdon, 1966), 33-50.
56 David Wenham, "Acts and the Pauline Corpus II: The Evidence of Parallels", em
Winter e Clarke, Acts in Its Ancient Literary Setting, 215-258. Veja também Stanley
E. Porter, The Paul o f Acts (Tubingen: Mohr, 1999). Para uma resposta a uma série
de supostas contradições, muito menos importantes, de detalhes entre o livro de
Atos e as epístolas, veja Hemer, Book o f Acts, 244-307.
57 Veja, por exemplo, Darrell L. Bock, Luke (Grand Rapids: Baker, 1996), 2:1284-85.
58 Para um excelente estudo de várias "tradições pré-formadas" em todas as partes
do Novo Testamento que os autores das Escrituras possam ter absorvido pratica­
mente inalteradas, veja E. Earle Ellis, The Making o f the New Testament Documents
(Leiden: Brill, 1999). Ellis provavelmente superestima quantos podem ser iden­
tificados de maneira confiável, mas mesmo se uma substancial minoria dos que
ele comenta for genuína, as suas conclusões a respeito da natureza conservadora
da tradição do Novo Testamento serão lógicas.
59 Veja Eugene E. Lemcio, The Past o f Jesus in the Gospels (Cambridge: Cambridge
University Press, 1991).
60 Veja, por exemplo, Anthony C. Thiselton, The First Epistle to the Corinthians (Grand
Rapids: Eerdmans, 2000), 525-526.
61 A compilação mais abrangente de todos estes dados está agora convenientemen­
te acessível na obra de Robert E. Van Voorst, Jesus Outside the New Testament: An
Introduction to the Ancient Evidence (Grand Rapids: Eerdmans, 2000).
62 As traduções são tomadas da edição crítica padrão, encontrada na Loeb Classical
Library.
63 Veja especialmente Meier, A Marginal Jew, 1:56-88.
64 Sobre isto, veja especialmente Graham N. Stanton, "Jesus of Nazareth: A Magician
and a False Prophet Who Deceived God's People?" em Jesus o f Nazareth: Lord and
Christ, ed. Joel B. Green e Max Turner (Grand Rapids: Eerdmans, 1994), 164-180.
65 Grande parte da linguagem usada nesta seção, sobre as tradições dos rabinos,
vem da minha obra, Historical Reliability o f the Gospels, 198-199. Para mais de­
talhes, veja Graham H. Twelftree, "Jesus in Jewish Traditions", vol. 5 de Gospel
Perspectives, ed. David Wenham (Sheffield, Inglaterra: JSOT, 1985), 289-341, de
onde as traduções usadas acima também são adotadas.
Notas 157

66 Murray J. Harris, "References to Jesus in Early Classical Authors", em Wenham,


Gospel Perspectives, 5:356. Todo o artigo (343-368) fornece discussão mais detalha­
da sobre estas referências, juntamente com as traduções aqui adotadas.
67 Van Voorst, Jesus Outside the New Testament, 66.
68 Para exemplos recentes destas declarações veja a pesquisa em Ibid., 1-17.
69 Para uma boa visão geral, veja Paul W. Barnett, Jesus and the Logic o f History
(Grand Rapids: Eerdmans, 1997; reimpressão, Downers Grove, 111.: InterVarsity
Press, 2001), 59-89.
70 Excertos e abreviaturas de Hemer, Book o f Acts, 101-158.
71 Veja também, classicamente, James Smith, The Voyage and Shipwreck o f Saint Paulo,
4*’ ed. (Mineápolis: James Family Christian Publishers, 1880).
72 Para uma apresentação evangélica padrão, veja F. F. Bruce, Paul: Apostle o f the
Heart Set Free (Grand Rapids: Eerdmans, 1977), 475.
73 Não é de surpreender que este seja o discurso no livro de Atos que mais se as­
semelha ao Paulo das epístolas. E também o único lugar onde os públicos são
similares — uma igreja cristã já estabelecida — de modo que é exatamente o que
deveríamos esperar.
74 Os judeus produziram um pequeno número de romances fictícios, sobre indiví­
duos supostamente contemporâneos, mas todos eles contêm vários anacronis-
mos históricos que revelam a sua verdadeira natureza e origem. A coleção mais
completa aparece em Ancient Jewish Novels: An Anthology, ed. e trad. Lawrence M.
Wills (Oxford: Oxford University Press, 2002).
75 Para estudos essenciais, recentes e extensos sobre os Evangelhos, veja R. Arav
e J. Rousseau, Jesus and His World: An Archaeological and Cultural Dictionary
(Mineápolis: Fortress, 1995); Bargil Pixner, With Jesus through Galilee according
to the Fifth Gospel (Collegeville, Minn.: Liturgical, 1996) (o "Quinto Evangelho"
é o testemunho da arqueologia); e J. L. Reed, Archaeology and the Galilean Jesus
(Harrisburg, Pa.: Trinity Press International, 2000). Para a arqueologia do Novo
Testamento, de maneira mais genérica, com seções razoavelmente extensas so­
bre os Evangelhos e o livro de Atos, veja John McRay, Archaeology and the New
Testament (Grand Rapids: Baker, 1991); Jack Finegan, The Archeology o f the Nezv
Testament, ed. rev. (Princeton: Princeton University Press, 1992); e W. H. C. Frend,
The Archaeology o f Early Christianity: A History (Mineápolis: Fortress, 1996).
76 Pode-se formular, no entanto, um forte argumento a favor de situar o palácio de
Herodes no lado ocidental da antiga Jerusalém, próximo à atual Porta Jaffa. Isso,
então, situaria a Via Dolorosa e as "estações da cruz" de Cristo quase na direção
oposta em que tradicionalmente têm sido identificadas.
77 Para uma opinião divergente, veja William Horbury, "The 'Caiaphas' Ossuaries
and Joseph Caiaphas", PEQ 126 (1994): 32-48.
158 Questões Cruciais do Novo Testamento

78 Veja especialmente Hershel Shanks e Ben Witherington III, The Brother o f Jesus
(San Francisco: HarperSanFrancisco, 2003),
79 Segundo, especialmente, Richard A. Batey, Jesus and the Forgotten City (Grand
Rapids: Baker, 1991).
80 Veja também Stanton, Gospel Truth? 119-120.
81 Várias partes desta seção sobre a arqueologia dos Evangelhos reutilizam, reorga­
nizam e abreviam a linguagem encontrada em Craig L. Blomberg, Jesus and the
Gospels: An Introduction and Survey (Nashville: Broadman e Holman, 1997), 367-
370.
82 A este respeito, veja, classicamente, Sir William Ramsay, St. Paul the Traveler and
Roman Citizen, ed. e rev. Mark Wilson, 15a ed. (Londres: Hodder & Stoughton,
1925; ed. rev., Grand Rapids: Kregel, 2001).
83 Na verdade, como "Areópago" pode significar a Câmara Municipal, e também
a colina dedicada a Marte, muitos acadêmicos acreditam que Paulo falou a estas
autoridades em algum local próximo à Stoa, onde os filósofos visitantes normal­
mente eram convidados a falar.
84 Novamente, o estudo clássico é o de Sir William Ramsay, The Letters to the Seven
Churches o f Asia and Their Place in the Plan o f the Apocalypse (Londres: Hodder &
Stoughton, 1904). Um estudo moderno ainda mais valioso é o de Colin J. Hemer,
The Letters to the Seven Churches o f Asia in Their Local Setting (Sheffield, Inglaterra:
JSOT, 1986).
85 M. J. S. Rudwick e E. M. B. Green, "The Laodicean Lukewarmness", ExpT69
(1957-58): 176-178.
86 Para mais informações sobre este problema difícil, veja Craig L. Blomberg,
"Quirinius", em International Standard Bible Encyclopedia, rev. e ed. Edgar W.
Smith, Jr. (Grand Rapids: Eerdmans, 1986), 4:12,13.
87 Mas os dois Teudas podem não ser a mesma pessoa. Veja especialmente
Witherington, Acts, 235-339.
88 Para a opinião de que o aparente desprezo de Papias em relação aos textos es­
critos se aplicava somente a fontes não apostólicas, veja A. F. Walls, "Papias and
Oral Tradition", VC 21 (1967): 137-140.
89 A melhor introdução e tradução moderna para a língua inglesa é The Apostolic
Fathers, ed. e rev. por Michael W. Holmes (Grand Rapids: Baker, 1992).
90 Veja Blomberg, Historical Reliability o f the Gospels, 202-208, e a literatura aqui cita­
da.
91 G. K. Beale, "The Use of Daniel in the Synoptic Eschato logical Discourse and in
the Book of Revelation", em Wenham, Gospel Perspectives, 5:129-153.
92 Louis A. Vos, The Synoptic Traditions in the Apocalypse (Kampen: Kok, 1965).
93 Para listas consideravelmente mais longas, veja Robert H. Gundry, "'Verba
Christi' in 1 Peter: Their Implications Concerning the Authorship of 1 Peter and
Notas 159

the Authenticity of the Gospel Tradition", NTS 13 (1966-67): 336-350; e idem,


"Further Verba on Verba Christi in First Peter", Bib 55 (1974): 211-232.
94 Em útil e vantajosa apresentação em forma de tabela, em Peter H. Davids, The
Epistle o f James (Grand Rapids: Eerdmans, 1982), 47,48.
1)5 Segundo, especialmente, David Wenham, "Paul's Use of the Jesus Tradition:
Three Samples", em idem, Gospel Perspectives, 5:7-15.
% Veja, por exemplo, Raymond F. Collins, First Corinthians (Collegeville, Minn.:
Liturgical, 1999), 425-426.
97 Para referências, veja Blomberg, Historical Reliability o f the Gospels, 222. Fragmentos
dispersos da construção desta subseção sobre Paulo são extraídos das pp. 223-28,
que também oferecem um tratamento abrangente do tópico.
1)8Para mais informações sobre a identificação de tais credos, veja Ralph P. Martin,
New Testament Foundations (Grand Rapids: Eerdmans, 1978), 2:249-275.
99 Para mais detalhes, veja Larry W. Hurtado, Lord Jesus Christ: Devotion to Jesus in
Earliest Christianity (Grand Rapids: Eerdmans, 2003).
100 Gerd Lüdemann e Alf Ozen, What Really Happened to Jesus: A H istorical
Approach to the Resurrection (Louisville: Westminster John Knox Press, 1995),
15.
101 A melhor discussão filosófica recente sobre os milagres está em Douglas
Geivett e Gary R. Habermas, eds., In Defense o f M iracles: A Comprehensive
Case fo r God's Action in History (Downers Grove, 111.: InterVarsity Press,
1997). O melhor estudo recente da exegese dos milagres de Jesus está em
Graham H. Twelftree, Jesus the M iracle Worker: A Historical and Theological
Study (Downers Grove, 111.: InterVarsity Press, 1999).
102 Rudolf Bultmann, "New Testament and Mythology", em Kerygma and Myth,
ed. H.-W. Bartsch (Londres: SPCK, 1953), 4.
103 Para uma exposição mais detalhada sobre Hume, veja Colin Brown, M iracles
and the Critical Mind (Grand Rapids: Eerdmans, 1984), 79-100.
104 Um sucinto resumo aparece em Roy A. Harrisville and Walter Sundberg, The
Bible in Modern Culture: Theology and H istorical-C ritical Method from Spinoza
to Kasemann (Grand Rapids: Eerdmans, 1995), 89-110.
105 Veja Peter Medawar, The Limits o f Science (San Francisco: Harper & Row,
1984).
106 Veja especialmente Meier, A M arginal Jew, 2:520,521.
11,7 Uma das melhores defesas filosóficas dos milagres, nos tempos modernos,
é a de Richard Swinburne, na obra The Concept o f M iracle (Nova York: St.
Martin's, 1970).
108 Veja, por exemplo, W. K. C. Guthrie, The Greeks and Their Gods (Boston:
Beacon, 1950), 247-53. As antigas sátiras de Luciano frequentemente reve-
160 Questões Cruciais do Novo Testamento

lam o papel de "manufatura humana" em supostos milagres greco-romanos.


Para um excelente estudo dos supostos paralelos aos milagres do evangelho,
veja Meier, A M arginal Jew , 2:576-601.
109 Veja Harold Remus, Pagan-Christian Conflict over M iracle in the Second Century
(Cambridge, Mass.: Philadelphia Patristic Foundation, 1983).
110 Meier, A M arginal Jew, 2:630.
111 Sobre a questão da historicidade, veja Pinchas Lapide, The Resurrection o f
Jesus: A Jewish Perspective (Mineápolis: Augsburg, 1983); John Wenham,
Easter Enigma: Are the Resurrection Accounts in Conflict? (Grand Rapids:
Zondervan, 1984); e William L. Craig, Assessing the New Testament Evidence
fo r the H istoricity o f the Resurrection o f Jesus (Lewiston, N.Y.: Mellen, 1989).
112 N. T. Wright, The Resurrection o f the Son o f God (Mineápolis: Fortress, 2003).
113 Veja especialmente Murray J. Harris, From Grave to Glory: Resurrection in the
New Testament (Grand Rapids: Zondervan, 1990). Para uma resposta às ex­
ceções das tendências atuais, veja Gary R. Habermas, "The Late Twentieth-
Century Resurgence of Naturalistic Responses to Jesus' Resurrection", TrinJ
22 (2001): 179-196.
114 Para mais detalhes, veja os segmentos de autoria de William Lane Craig
em dois livros que contêm versões publicadas dos seus debates (com Gerd
Lüdemann e John Dominic Crossan, respectivamente): Paul Copan e Ronald
K. Tacelli, eds., Jesus' Resurrection: Fact or Figment? (Downers Grove, 111.:
InterVarsity Press, 2000); e Paul Copan, ed., Will the Real lesus Please Stand
Up? (Grand Rapids: Baker, 1998).

C a p ít u l o 2 :
P a u l o F o i o V e r d a d e ir o F u n d a d o r do C r is t ia n is m o ?

1 Para os dois estudos, veja a investigação histórica, em Victor R. Furnish, "The


Jesus-Paul Debate: From Baur to Bultmann", em Paul and Jesus: Collected Essays,
ed. A. J. M. Wedderburn (Sheffield, Inglaterra: JSOT, 1989), 17-50.
2 Para estas citações e resumos dos textos dos dois autores sobre Paulo, veja The
Writings o f St. Paul: A Norton Critical Edition, ed. Wayne A. Meeks (Nova York:
Norton, 1972), 288-302.
3 Veja especialmente Rudolf Bultmann, "Jesus and Paul", em Existence and Faith,
ed. e trad. Schubert M. Ogden (Nova York: Meridian, 1960), 183-201.
4 Além dos comentários tradicionais, veja o estudo razoavelmente liberal de
C. Wolff, "The Apostolic Knowledge of Christ: Exegetical Reflections on 2
Corinthians 5.14ff.", em Wedderburn, Paul and Jesus, 81-98.
5 F. F. Bruce, Paul and Jesus (Grand Rapids: Baker, 1974); J. W. Fraser, Jesus and Paid:
Paid as Interpreter o f Jesus from Harnack to Kilmmel (Appleford, England: Marcham
Manor Press, 1974).
Notas 161

6 Veja, por exemplo, Victor P. Furnish, Jesus according to Paul (Cambridge:


Cambridge University Press, 1993).
7 David Wenham, Paid: Follower o f Jesus or Founder o f Christianity? (Grand Rapids:
Eerdmans, 1995); idem, Paid and Jesus: The True Story (Grand Rapids: Eerdmans,
2002). Veja também idem, "Pan I's Use of the Jesus Tradition: Three Samples", vol 5
de Gospel Perspectives, ed. David Wenham (Sheffield, Inglaterra: JSOT, 1985), 7-37;
idem, "The Story of Jesus Known to Paul", em Jesus o f Nazareth: Lord and Christ,
ed. Joel B. Green e Max Turner (Grand Rapids: Eerdmans, 1994), 297-311; e idem,
"From Jesus to Paul — via Luke", em The Gospel to the Nations: Perspectives on
Paul's Mission, ed. Peter Bolt e Mark Thompson (Downers Grove, 111.: InterVarsity
Press, 2000), 83-97.
8 Michael D. Goulder, Paul and the Competing Mission in Corinth (Peabody, Mass.:
Hendrickson, 2001).
9 Gerd Liidemann, Paul: The Founder o f Christianity (Amherst, N. Y.: Prometheus,
2002 ).
10 Título de um livro de autoria de Maurice Casey sobre o desenvolvimento da cris-
tologia do Novo Testamento (Louisville: Westminster John Knox Press, 1991).
11 Veja, por exemplo, I. Howard Marshall, Last Supper and Lord's Supper (Grand
Rapids: Eerdmans, 1980), 30-56, e a análise da investigação ali contida.
12 Veja Anthony C. Thiselton, The First Epistle to the Corinthians (Grand Rapids:
Eerdmans, 2000), esp. 692-698. Thiselton observa que os autores patrísticos com­
preendiam o texto também desta maneira (692).
13 Para comentários similares sobre todos estes versículos em 1 Coríntios 7, veja
especialmente Gordon D. Fee, The First Epistle to the Corinthians (Grand Rapids:
Eerdmans, 1987), esp. 291.
14 Contra o estudo excelente de David L. Dungan (The Sayings o f Jesus in the Churches
o f Paul [Filadélfia: Fortress, 1971]) sobre as palavras de Jesus, em 1 Coríntios 7 e
9.
15 Sobre isso, veja especialmente Michael Thompson, Clothed with Christ: The Example and
Teaching o f Jesus in Romans 22.7; 75.23 (Sheffield, Inglaterra: JSOT, 1991).
16 Sobre cada uma destas alusões, veja também Wenham, Paul, 251-253.
17 Robert W. Funk, Roy W. Hoover e Seminário Jesus, The Five Gospels: The Search fo r
the Authentic Words o f Jesus (Nova York: Macmillan, 1993), 102.
18 Bruce (Paul and Jesus, 71) também destaca o provável simbolismo do envio dos
setenta, em Lucas 10, predizendo a missão aos gentios, de que Paulo se tornou o
principal instigador, na Igreja Primitiva.
19 Para outras possíveis alusões aos discursos missionários de Mateus 10 e Lucas
10, veja Wenham, Paul, 190-199.
20 Veja ibid., 320-321.
162 Questões Cruciais do Novo Testamento

21 Os paralelos são ainda mais próximos, quando se reconhece que o "arrebata­


mento" de 1 Tessalonicenses 4.17 é muito provavelmente pós-tribulacional —
isto é, ao mesmo tempo que o retorno público de Cristo. Veja, por exemplo, Bob
Gundry, First the Antichrist (Grand Rapids: Baker, 1997).
22 Sobre isso, veja especialmente David Wenham (The Rediscovery o f Jesus'
Eschatological Discourse [Sheffield, Inglaterra: JSOT, 1984]), que demonstra a plau­
sibilidade de um sermão conectado por trás da maioria das várias mensagens
apocalípticas de Jesus, em Mateus, Marcos e Lucas.
23 Veja David Wenham, "Paul and the Synoptic Apocalypse", vol. 2 de Gospel
Perspectives, ed. R. T. France e David Wenham (Sheffield, Inglaterra: JSOT, 1981),
345-375.
24 Entre os acadêmicos recentes, Seyoon Kim ("Jesus, Sayings of", em Dictionary
o f Paul and His Letters, ed. Gerald F. Hawthorne, Ralph P. Martin, e Daniel G.
Reid [Downers Grove, 111.: InterVarsity Press, 1993]), com sua tabela de "Possible
Echoes of Sayings of Jesus" (p. 481), parece excessivamente confiante na sua lista
de trinta e um itens.
25 Para investigações de listas similares, de perspectivas razoavelmente diferentes,
compare Dale C. Allison, Jr., "The Pauline Epistles and the Synoptic Gospels: The
Pattern of the Parallels", NTS 28 (1982): 1-32; e Frans Neirynck, "Paul and the
Sayings of Jesus", em L'Apotre Paul: Personnalite, style et conception du ministere, ed.
Albert Vanhoye (Louvain: Louvain University Press, 1986), 265-321.
26 Veja a tabela em Peter Richardson, "The Thunderbolt in Q and the Wise Man
in Corinth", em From Jesus to Paul, ed. Peter Richardson and John C. Hurd
(Waterloo, Ont.: Wilfrid Laurier Press, 1984), 96. Para um estudo mais longo,
embora mais especulativo de possíveis alusões a ensinamentos de Jesus em 1
Coríntios 1-4, veja Biorn Fjarstedt, Synoptic Tradition in 1 Corinthians (Uppsala,
Suécia: Teologiska Institutionen, 1974).
27 Para mais possíveis alusões em Paulo a este sermão, veja Wenham, Paul, 199.
28 Veja, por exemplo, Ben F. Meyer, The Aims o f Jesus (Londres: SCM, 1979), 185-
197.
29 Segundo Maurice A. Robinson. SIIEPMO AOTOX - Did Paul Preach from Jesus'
Parables?" Bib 56 (1975): 231-240.
30 Veja especialmente Larry W. Hurtado, "Jesus as Lordly Example in Philippians
2:5-11", em Richardson e Hurd, From Jesus to Paul, 113-126.
31 Segundo, especialmente, Christopher Marshall, "Paul and Jesus: Continuity or
Discontinuity?" Stimulus 5, n° 4 (1997): 32-42.
32 Donald H. Akenson, Saint Saul: A Skeleton Key to the Historical Jesus (Oxford:
Oxford University Press, 2000), 224.
33 Stanley E. Porter, "Images of Christ in Paul's Letters", em Images o f Christ: Ancient
and Modem, ed. Stanley E. Porter, Michael A. Hayes, e David Tombs (Sheffield,
Notas 163

Inglaterra: Sheffield Academic Press, 1997), 98-99. Veja também }. P. Arnold, "The
Relationship of Paul to Jesus", em Hillel and Jesus: Comparative Studies o f Two
Major Religious Leaders, ed. James H. Charlesworth e Loren L. Johns (Mineápolis:
Fortress, 1997), 256-288.
34 Muitos comentaristas argumentam, apropriadamente, que tudo o que pode ser
demonstrado, com segurança, a partir desta referência, é a crença de Paulo na ple­
na humanidade de Jesus. Mas Timothy George (Galatians [Nashville: Broadman
& Holman, 1994], 302-303), cujos comentários tratam mais de interesses sistemá­
ticos e histórico-teológicos mais amplos do que os de muitos outros comenta­
ristas, corretamente observa que "é inconcebível que Paulo, o companheiro de
viagens de Lucas, não tivesse conhecimento da concepção virginal de Jesus. O
fato de que ele não mencione o nascimento virginal em nenhum ponto de suas
cartas somente poderia significar que este fato era tão universalmente aceito en­
tre as igrejas cristãs, às quais ele escrevia, que não julgava necessário detalhá-lo
ou defendê-lo. Como observou J. G. Machen, 'O nascimento virginal realmente
parece estar implícito, da maneira mais profunda, em toda a visão que Paulo tem
do Senhor Jesus Cristo'".
35 Wenham, Paul and Jesus, 66-67.
36 Alfred Plummer, A Critical and Exegetieal Commentary on the First Epistle o f St Paul
to the Corinthians (Edimburgo: T & T Clark, 1911), 22.
37 Veja especialmente John P. Meier, A Marginal Jew: Rethinking the Historical Jesus
(Nova York: Doubleday, 1991), 1:278-85.309-15.
38 Veja especialmente Gillian Clark, "The Social Status of Paul", ExpT 96 (1985): 110-
111.
39 Veja especialmente A. D. A. Moses, Matthew's Transfiguration Story and Jewish-
Christian Controversy (Sheffield, Inglaterra: Sheffield Academic Press, 1996).
40 David Wenham e A. D. A. Moses, "There Are Some Standing Here...": Did They
Become the 'Reputed Pillars' of the Jerusalem Church? Some Reflections on Mark
9:1, Galatians 2:9, and the Transfiguration" NovT36 (1994): 146-163.
41 Veja também Christian Wolff, "Humility and Self-Denial in Jesus' Life and
Message and in the Apostolic Existence of Paul", em Wedderburn, Paul and Jesus,
145-160.
42 David Stanley, "Imitation in Paul's Letters: Its Significance for His Relationship
to Jesus and to His Own Christian Foundations", em Richardson e Hurd, From
Jesus to Paul, 127-141.
43 Akenson, Saint Saul, 173.
44 James D. G. Dunn, "Paul's Knowledge of the Jesus Tradition", em Christus
Bezeugen, ed. Karl Kertelge, Traugott Holtz, e Claus-Peter Marz (Leipzig: St.
Benno, 1989), 194.
164 Questões Cruciais do Novo Testamento

45 Vários destes pontos são apresentados de maneira mais clara e sistemática


em Rainer Riesner ("Paulus und die Jesus-Uberlieferung", em Evangelium,
Schriftauslegung, Kirche, ed. Jostein Adna, Scott J. Hafemann, e Otfried Hofius
[Gottingen: Vandenhoeck und Ruprecht, 1997], 356-365) do que em qualquer fon­
te de língua inglesa de que eu tenha conhecimento.
46 C. H. Dodd, The Apostolic Preaching and Its Developments (Londres: Hodder &
Stoughton, 1936), 54-56.
47 Charles F. D. Moule, "Jesus in New Testament Kerygma", em Verborum Veritas,
ed. Otto Biicher e Klaus Haacker (Wuppertal, Alemanha: Brockhaus, 1970), 15-
26.
48 Veja também Donald A. Hagner, "The Sayings of Jesus in the Apostolic Fathers
and Justin Martyr", em Wenham, Gospel Perspectives, 5:233-68.
w Um tema essencial, enfatizado por toda a obra de Herman Ridderbos, Paid
and jesus (Grand Rapids: Baker, 1958). Veja também Eduard Schweizer, "The
Testimony to Jesus in the Early Christian Community", HBT7 (1985): 77-98.
50 Veja, por exemplo, Paul W. Barnett, "The Importance of Paul for the Historical
Jesus", Crux 29 (1993): 29-32. Para uma investigação das tendências atuais na in­
terpretação de Paulo de modo mais amplo, veja especialmente Ben Witherington
III, The Paid Quest: The Renewed Search fo r the Jeiv o f Tarsus (Downers Grove, 111.:
InterVarsity Press, 1998).
51 Dunn, "Paul's Knowledge", 206-207.
52 Traugott Holtz, "Paul and the Oral Gospel Tradition", na obra jesus and the Oral
Gospel Tradition, ed. Henry Wansbrough (Sheffield, Inglaterra: JSOT, 1991), 380-
393.
53 E interessante comparar as duas teologias evangélicas mais recentes sobre Paulo.
James D. G. Dunn (The Theology o f Paul the Apostle [Grand Rapids: Eerdmans,
1998]) trabalha principalmente com as cartas incontestáveis, precisamente por­
que as outras são contestadas, ao passo que Thomas R. Schreiner (Paul: Apostle
o f God's Glory in Christ [Downers Grove,, III: InterVarsity Press, 2001]) inclui de
modo deliberado e igualmente as treze cartas atribuídas a Paulo em o Novo
Testamento. Apesar disso, as imagens que emergem dos dois estudos são, na
maioria dos casos, bastante consistentes entre si. E as diferenças que aparecem
derivam, principalmente, de outras considerações que não sejam a inclusão das
seis cartas contestadas ou não.
54 Veja James D. G. Dunn e Alan M. Suggate, The Justice ofG od (Carlisle, Inglaterra:
Paternoster, 1993); Elsa Tamez, The Amnesty o f Grace: Justification by Faith from
a Latin American Perspective (Nashville: Abingdon, 1993). As pessoas de lingua
Espanhola frequentemente poderão apreciar este ponto melhor do que as de lín­
gua Inglesa, uma vez que justicin traduz dikaiosurM nas traduções para a língua
espanhola. Como em grego, esta palavra é usada para os dois conceitos.
Notas 165

55 Veja especialmente Ben Witherington III, The Christology o f Jesus (Filadélfia:


Fortress, 1990), 191-215.
56 George Johnston, "'Kindgom of God' Sayings in Paul's Letters", na obra de
Richardson e Hurd, From Jesus to Paul, 143-156.
57 Sobre isto, veja especialmente Craig L. Blomberg, "'Your Faith Has Made You
Whole': The Evangelical Liberation Theology of Jesus", em Green e Turner, Jesus
o f Nazareth, 75-93.
58 F. F. Bruce, "Justification by Faith in the Non-Pauline Writings of the New
Testament", EvQ 24 (1952): 66-69.
59 Veja especialmente George E. Ladd, A Theology o f the New Testament, rev. Donald
A. Hagner (Grand Rapids: Eerdmans, 1993), 290-95.
60 Nenhum acadêmico investigou esta campanha de acusações mais consistentemen-
te do que o acadêmico finlandês Heikki Raisanen. Veja especialmente a sua obra
Jesus, Paul and Torah: Collected Essays (Sheffield, Inglaterra: JSOT, 1992).
61 Veja especialmente Douglas J. Moo, "Jesus and the Authority of the Mosaic Law",
JSNT 20 (1984): 3-49.
62 J. Louis Martyn, Galatians (Nova York: Doubleday, 1997), 549.
63 Veja especialmente toda a obra de Peter Stuhlmacher, Biblische Theologie des Neuen
Testaments, 2 volumes. (Gottingen: Vandenhoeck und Ruprecht, 1992-99), infeliz­
mente ainda não traduzida ao português.
64 O melhor estudo do conjunto completo de questões associadas com a observân­
cia do sábado/domingo, bíblica, teológica e historicamente é D. A. Carson, ed.,
From Sabbath to Lord's Day (Grand Rapids: Zondervan, 1982).
65 Veja especialmente Dale C. Allison, Jr., Jesus o f Nazareth: Millenarian Prophet
(Mineápolis: Fortress, 1998), 172-216; Vincent L. Wimbush, Paul: The Worldly
Ascetic (Macon, Ga.: Mercer University Press, 1987).
66 Embora encontrado no texto de João, este versículo é frequentemente conside­
rado a parte essencial da passagem, que é autêntica. Muitos acadêmicos acredi­
tam que João 2.12-25 é mais autêntico do que os relatos Sinóticos comparáveis da
purificação do templo. Veja Craig L. Blomberg, The Historical Reliability o f John's
Gospel: Issues and Commentary (Downers Grove, 111.: InterVarsity Press, 2001), 87-
91.
67 Embora, novamente, os comentaristas tenham opiniões divergentes, alguns pen­
sam que um costume gentio hedonista é o que se tem em mente aqui.
68 Citado em Ladd, Theology, 104.
69 Veja acima, pp. 79, 161 n° 28. Veja também Gerhard Maier, "The Church in the
Gospel of Matthew: Hermeneutical Analysis of the Current Debate" em Biblical
Interpretation and the Church: The Problem o f Contextualization, ed. D. A. Carson
(Nashville: Nelson, 1985), 45-63.
166 Questões Cruciais do Novo Testamento

70 Veja especialmente todo o vol. 3 de Meier, A Marginal Jew, resumido nas pp.
626-632. Em um sentido mais genérico, veja Richard Bauckham, "Kingdom and
Church according to Jesus and Paul", HBT18 (1996): 1-26.
71 Veja Craig L. Blomberg, Neither Poverty nor Riches: A Biblical Theology o f Possessions
(Leicester, Inglaterra: InterVarsity Press, 1999), 111-46. A respeito do material
comparável nas cartas de Paulo, veja pp. 177-212.
72 Mesmo os retratos mais céticos de Jesus reconhecem regularmente este elemento
essencial do seu ministério. Veja, por exemplo, toda a obra de J. Dominic Crossan,
The Historical Jesus: The Life o f a Mediterranean Jewish Peasant (San Francisco:
HarperSanFrancisco, 1991).
73 Ou seja, que de uma quantidade mínima de material autêntico de Jesus pode ser
determinado, aceitando palavras de Jesus nos Evangelhos, que nem o judaísmo,
que veio antes dEle, e nem o cristianismo, que veio depois dEle, teriam inventa­
do.
74 Para mais dados sobre as palavras de Jesus a não-judeus, veja C. H. H. Scobie,
"Jesus or Paul? The Origin of the Universal Mission of the Christian Church", em
Richardson e Hurd, From Jesus to Paul, 47-61.
75 Alexander J. M. Wedderburn, "Paul and Jesus: Similarity and Continuity", em
idem, Paul and Jesus, 139.
76 J. M. G. Barclay, "Jesus and Paul", em Dictionary o f Paul and His Letters, ed. Gerald
F. Hawthorne, Ralph P. Martin, e Daniel G. Reid (Downers Grove, 111.: InterVarsity
Press, 1993), 502.
77 Wenham, Paul, 190.
78 Veja especialmente Kathleen Corley, Women and the Historical Jesus (Santa Rosa,
Calif.: Polebridge, 2002); mais resumidamente, Grant R. Osborne, "Women in
Jesus' Ministry", WTJ 51 (1989): 259-291.
79 Naturalmente, é muito discutido se a autoria das epístolas pastorais é realmen­
te de Paulo. Mas a melhor explicação para a restrição de Paulo em 1 Coríntios
14.34-35, sobre a questão das mulheres falarem em público, também depende
de entendê-las fora do papel do ancião, na avaliação das profecias. A respeito
de todo o material desta seção sobre Paulo, e a exegese detalhada para respaldar
as minhas generalizações, veja Craig L. Blomberg, "Neither Hierarchicalist nor
Egalitarian: Gender Roles in Paul", em Two Views on Women in Ministry, ed. James
R. Beck e Craig L. Blomberg (Grand Rapids: Zondervan, 2001), 329-372.
80 Talvez o melhor estudo de algumas destas categorias, incluindo mais detalhes,
seja Witherington, Christology o f Jesus. Veja também toda a obra de N. T. Wright,
Jesus and the Victory o f God (Mineápolis: Fortress, 1996).
81 Veja especialmente Meier, A Marginal Jew, 2:100-116.
82 Para grande quantidade de detalhes, veja ibid., 509-1038.
Notas 167

83 Veja especialmente E. P. Sanders, Jesus and Judaism (Filadélfia: Fortress, 1985), 61-76.
84 A respeito deste significado original e uma possível malha de consequências his­
tóricas, veja Bruce D. Chilton, A Feast o f Meanings: Eucharistic Theologies from Jesus
through Johannine Circles (Leiden: Brill, 1994).
85 Veja em detalhes Meier, A Marginal Jew, 3:289-613.
86 Veja especialmente toda a obra de Meyer, Aims o f Jesus.
87 Veja especialmente Philip B. Payne, "Jesus' Implicit Claim to Deity in His
Parables", TrinJ, n.s., 2 (1981): 3-23.
88 Para uma avaliação ponderada de declarações conflitantes sobre o significado de
Abba, veja Scot McKnight, A New Vision for Israel: The Teachings o f Jesus in National
Context (Grand Rapids: Eerdmans, 1999), 49-65.
8U Apesar disso, pode-se propor uma sugestiva justificativa para conectar "Filho
do Homem" com a cristologia do "novo Adão" de Paulo. Veja especialmente
Romanos 5.12-21 e 1 Coríntios 15.22, 45-49.
90 Veja especialmente Seyoon Kim, The Son o f Man as the Son o f God (Grand Rapids:
Eerdmans, 1985).
91 Veja especialmente Richard Bauckham, "The Sonship of the Historical Jesus in
Christology", SJT31 (1978): 245-60.
92 Craig L. Blomberg, "Messiah in the New Testament", em Israel's Messiah in the
Bible and the Dead Sea Scrolls, ed. Richard S. Fless e M. Daniel Carroll R. (Grand
Rapids: Baker, 2003), 125-132. Neste livro, no entanto, simplesmente como uma
questão de variedade, adotei a prática pós-Neo Testamentária de usar "Jesus" e
"Cristo" intercambiavel mente, sendo dois nomes diferentes para o mesmo ho­
mem de Nazaré.
93 Veja especialmente Martin Hengel, Studies in Early Christology (Edimburgo: T & T
Clark, 1995), 119-225.
94 Veja também Ben Witherington III, The Many Faces o f the Christ: The Christologies
o f the New Testament and Beyond (Nova York: Crossroad, 1998) esp. 103-126.
95 Veja, respectivamente, Hans F. Bayer, Jesus' Predictions o f Vindication and
Resurrection (Tubingen: Mohr, 1986); e Sydney H. T. Page, "The Authenticity
of the Ransom Logion (Mark 10:45b)" no vol. 1 de Gospel Perspectives, ed. R. T.
France e David Wenham (Sheffield, Inglaterra: JSOT 1980), 137-161.
96 Veja, por exemplo, N. T. Wright, What St. Paul Really Said (Grand Rapids:
Eerdmans), 135-50, esp. 140-42.
97 Para abundantes detalhes sobre este item e outros correlatos, veja Ben Witherington
III, Jesus, Paul, and the End o f the World (Downers Grove, 111.: InterVarsity Press,
1992).
98 Seyoon Kim, The Origin o f Paul's Gospel (Grand Rapids: Eerdmans, 1981). Veja
também Richard N. Longenecker, "A Realized Hope, a New Commitment, and
168 Questões Cruciais do Novo Testamento

a Developed Proclamation: Paul and Jesus" em The Road from Damascus, ed.
Richard N. Longenecker (Grand Rapids: Eerdmans, 1997), 18-42.
w Richard N. Longenecker, Galatians (Dallas: Word, 1990), 37,38.
100 Veja Wendell Willis, "An Irenic View of Christian Origins: Theological
Continuity from Jesus to Paul in W. R. Farmer's Writings", em Jesus, the
Gospels, and the Church, ed. E. P. Sanders (Macon, Ga.: Mercer University
Press, 1987), 265-86.
101 Allison, "The Pauline Epistles", 25.

C a p ít u l o 3 :
C o m o o C r is t ã o D eve A p l ic a r o Novo T esta m en to
À V id a ?
1 Em um nível introdutório, veja especialmente Gordon D. Fee e Douglas Stuart, How
to Read the Biblefor All Its Worth, ed. rev. (Grand Rapids: Zondervan, 1993). Mais detal­
hes, veja William W. Klein, Craig L. Blomberg, e Robert L. Hubbard, Jr., Introduction to
Biblical Interpretation, ed. rev. (Nashville: Nelson, em breve).
2 Importantes e recentes exceções incluem Jack Kuhatschek, Taking the Guesswork
Out of Applying the Bible (Grand Rapids: Zondervan, 1990); David Veertnan, How
to Apply the Bible (Wheaton, 111.: Tyndale, 1993); e Daniel M. Doriani, Putting the
Truth to Work: The Theory and Practice of Biblical Application (Phillipsburg, N.J.:
Presbyterian & Reformed, 2001).
3 Klein, Blomberg, e Hubbard, Introduction to Biblical Interpretation, cap. 10; Craig
L. Blomberg, "The Diversity of Literary Genres in the New Testament", em
Interpreting the New Testament, ed. David A. Black e David S. Dockery (Nashville:
Broadman & Holman, 2001), 272-295.
4 Klein, Blomberg, e Hubbard, Introduction to Biblical Interpretation, cap. 12.
5 Uma série particularmente útil de comentários, iniciada em 1994, pode auxiliar
o leitor com pensamentos adicionais sobre as aplicações. Foi previsto que em
meados de 2004 a obra NIV Application Commentaries (Publicado por Zondervan
em Grand Rapids, Michigan) estaria disponível para todos os livros do Novo
Testamento, e os volumes relativos ao Antigo Testamento também estariam
chegando rapidamente. O formato singular desta série consiste em acompanhar
um livro bíblico, tomando passagens de extensão para pregação, e arranjando
comentários sobre estas passagens em três seções, intituladas "Significado origi­
nal", "Ligação de contextos" e "Significado contemporâneo". As duas últimas
seções são designadas a ocupar uma porção substancial do comentário sobre
cada texto, auxiliando os leitores a pensar metodologicamente sobre como pas­
sar do contexto antigo para o mundo moderno, e então gerar aplicações legíti­
mas. Como em qualquer série escrita por múltiplos autores, alguns volumes são
Notas 169

melhores do que outros, mas de modo geral, a qualidade dos comentários que
apareceram até agora é muito elevada. Outras séries recentes que dedicam sig­
nificativa atenção ã exposição e aplicação, com comentários consistentemente
precisos e úteis, incluem The Bible Speaks Today (sobre os dois Testamentos),
e InterVarsity Press New Testament Commentary Series (somente sobre o Novo
Testamento), ambos publicados por InterVarsity Press em Downers Grove,,
Illinois, e Leicester, Inglaterra. InterVarsity Press Reino Unido iniciou The Bible
Speaks Today; InterVarsity Press EUA iniciou a InterVarsity Press New Testament
Commentary Series.
6 Em um nível muito básico, muitos dos volumes da série Holman New Testament
Commentary (Nashville: Broadman & Holman) são úteis, bem como as explica­
ções de Kent Hughes (Wheaton, III.: Crossway) e D. A. Carson (Grand Rapids:
Baker), embora não pertencendo, nenhuma das publicações, a nenhuma série
formal. E vários volumes isolados sobre livros específicos do Novo Testamento,
também não pertencentes a nenhuma série, às vezes propiciam aplicações boas e
completas — por exemplo, Eugene H. Peterson, Reversed Thunder: The Revelation
o f John and the Praying Imagination (San Francisco: HarperSanFrancisco, 1988); Elsa
Tamez, The Scandalous Message o f James: Faith without Works Is Dead, ed. rev. (Nova
York: Crossroad, 2002); e Lyle D. Vander Broek, Breaking Barriers: The Possibilities
o f Christian Community in a Lonely World (Grand Rapids: Brazos, 2002), sobre 1
Corintios.
7 Veja especialmente James Callahan, The Clarity o f Scripture: History, Theology, and
Contemporary Literary Studies (Downers Grove,, 111.: InterVarsity Press, 2001).
8 Teófilo pode ter sido um "buscador" ou um novo cristão, mas as igrejas que rece­
beram o Evangelho de Lucas claramente criam que ele tinha valor para os crentes
depois da conversão e não apenas para que as pessoas viessem até Cristo. No
Evangelho de João, o tempo do verbo traduzido como "crendo" varia nos manu­
scritos, de modo que não temos certeza se João desejava se referir à fé inicial, ao
crescimento na fé, ou (muito provavelmente) ambas as coisas.
9 Veja Craig L. Blomberg, "The Liberation of Illegitimacy: Women and Rulers in
Matthew 1-2", BTB 21 (1991): 145-150.
10 Entre muitas boas abordagens destes temas, veja especialmetne D. Brent Sandy,
Plowshares and Pruning Hooks: Rethinking the Language o f Biblical Prophecy and
Apocalyptic (Downers Grove, 111.: InterVarsity Press, 2002).
11 Há muito poucas explicações evangélicas no Novo Testamento sobre João Batista,
embora nós saibamos mais a seu respeito do que sobre qualquer outros dos per­
sonagens dos Evangelhos, além do próprio Jesus. De uma perspectiva católica
contemporânea, grande parte de C. R. Kazmierski (John the Baptist: Prophet and
Evangelist [Collegeville, Minn,: Liturgical, 1996]) é útil.
170 Questões Cruciais do Novo Testamento

12 Para uma excelente investigação das diversas formas que estas vocações podem
assumir, tanto nos Evangelhos como hoje, veja Scot McKnight, Turning to Jesus:
The Sociology of Conversion in the Gospels (Louisville: Westminster John Knox
Press, 2002).
13 Veja D. A. Carson, The Gospel according to John (Grand Rapids: Eerdmans, 1991),
505.
14 John R. W. Stott (Christian Counter-Culture: The Message of the Sermon on the Mount
[Downers Grove, 111.: InterVarsity Press, 1978], 89) detalha: "Isto é, não olhe!
Comporte-se como se realmente tivesse arrancado os olhos e os tivesse atirado
para longe, e agora estivesse cego, e assim não pudesse ver os objetos que anterior­
mente lhe fizeram pecar".
15 Veja especialmente Robert C. Tannehill, "The 'Focal Instance' as a Form of New
Testament Speech: A Study of Matthew 5:39b-42", JR 50 (1970): 372-85.
16 Veja Stephen C. Barton, Discipleship and Family Ties in Mark and Matthew
(Cambridge: Cambridge University Press, 1994), 67-96. Para aplicação contem­
porânea incisiva, veja Rodney Clapp, Families at the Crossroads: Beyond Traditional
and Modern Options (Downers Grove, 111.: InterVarsity Press, 1993).
17 Veja D. A. Carson, The Sermon on the Mount: An Evangelical Exposition ofMattheiv
5-7 (Grand Rapids: Baker, 1978), 98,99.
1S Veja J. Carl Laney, A Guide to Church Discipline (Mineápolis: Bethany, 1985); e
também John White e Ken Blue, Healing the Wounded: The Costly Love of Church
Discipline (Downers Grove, 111.: InterVarsity Press, 1985).
19 O melhor estudo evangélico dos milagres de Jesus está agora disponível em
Graham H. Twelftree, Jesus the Miracle Worker (Downers Grove, 111.: InterVarsity
Press, 1999).
20 Sobre isto, veja especialmetne Marion C. Moeser, The Anecdote in Mark, the
Classical World, and the Rabbis (Londres: Sheffield Academic Press, 2002).
21 Veja especialmente William Barclay, The Plain Man's Guide to Ethics (Glasgow:
Collins, 1973), 26-48. Sobre as questões mais amplas, nos aspectos de exegese,
geologia e história, em questão, veja D. A. Carson, ed., From Sabbath to Lord's Day
(Grand Rapids: Zondervan, 1982).
22 Craig L. Blomberg, Interpreting the Parables (Downers Grove, 111.: InterVarsity
Press, 1990).
23 Veja Craig L. Blomberg, Preaching the Parables (Grand Rapids: Baker, em breve).
24 Essas aplicações são bem detalhadas na obra de David E. Garland, Mark (Grand
Rapids: Zondervan, 1996).
25 Veja especialmente Brent Kinman, "Jesus' Triumphal Entry in the Light of
Pilate's", NTS 40 (1994): 442-448; e Paul B. Duff, "The March of the Divine Warrior
and the Advent of the Greco-Roman King", JBL 111 (1992): 55-71.
Notas 171

26 Usando o agradável jogo de palavras de Ben Witherington III, The Chris-tology o f


Jesus (Mineápolis: Fortress, 1990), 107.
27 No nível popular, veja especialmente Tom Hovestol, Extreme Righteousness: Seeing
Ourselves in the Pharisees (Chicago: Moody, 1997).
28 De longe, a mais abrangente abordagem desta literatura, agora disponível, é John
J. Collins, ed., The Encyclopedia o f Apocalypticism, 3 vols. (Nova York: Continuum,
1998). No nível popular, veja especialmente B. J. Oropeza, Ninety-nine Reasons
Why No One Knows When Christ Will Return (Downers Grove, 111.: InterVarsity
Press, 1994).
29 Veja especialmente Timothy J. Geddert, Watchwords: Mark 13 in Markan Eschatology
(Sheffield, Inglaterra: JSOT, 1989).
30 Veja a investigação sobre abordagens notáveis, realizadas ao longo da história, em
Arthur W. Wainwright, Mysterious Apocalypse (Nashville: Abingdon, 1993).
31 Aplicações criteriosas e provocativas aparecem em Donald Bridge e David
Phypers, The Meal That Unites? (Londres: Flodder & Stoughton, 1981).
32 Para um comentário abrangente das questões, veja John C. Thomas, Foot-washing in
John 13 and the Johannine Community (Sheffield, Inglaterra: JSOT, 1991).
33 Sobre a pontuação correta desta passagem, veja John W. Wenham, "When Were
the Saints Raised?" JTS 32 (1981): 150-152.
34 Veja Craig L. Blomberg, "The Globalization of Biblical Interpretation — A Test
Case: John 3-4", BBR 5 (1995): 1-15.
35 Albert Vanhoye, "La composition de Jean 5,19-30", em Melanges Bibliciues en hom-
mage au R. P. Beda Rigaux, ed. Albert Descamps and Andre de Halleux (Gembloux,
França: Duculot, 1970), 259-274.
36 Modificação do esquema sugerido por Wayne Brouwer, The Literary Development
o f John 13-17: A Chiastic Reading (Atlanta: Scholars, 2000).
37 O estudo definitivo deste texto, com base nesta perspectiva, é Peder Borgen, Bread
from Heaven (Leiden: Brill, 1965). A forma também aparece em miniatura, com vá­
rias parábolas dos Sinóticos. O mais abrangente conjunto de sugestões dos textos
do Novo Testamento que adotam esta forma aparece disperso ao longo de E.
Earle Ellis, The Making o f the New Testament Documents (Leiden: Brill, 2002).
38 A linguagem, nestas três últimas sentenças, foi tomada de Craig L. Blomberg, The
Historical Reliability o f John's Gospel: Issues and Commentary (Downers Grove, 111.:
InterVarsity Press, 2001), 127.
39 Veja especialmente D. A. Carson, The Gospel according to John (Grand Rapids:
Eerdmans, 1991), 514-515.
40 Veja a explicação incisiva em Bruce Milne, The Message o f John: Here Is Your King!
(Downers Grove, 111.: InterVarsity Press, 1993), 247-252.
41 Veja, por exemplo, David J. Williams, Acts (San Francisco: Harper & Row, 1985), 17.
172 Questões Cruciais do Novo Testamento

42 Veja especialmente William J. Larkin, Jr., Acts (Downers Grove, 111.: InterVarsity
Press, 1995), 82-83.
43 Veja especialmente Walter L. Liefeld, Interpreting the Book of Acts (Grand Rapids:
Baker, 1995), 117-127.
44 Veja Craig L. Blomberg, Neither Poverty nor Riches: A Biblical Theology of Material
Possessions (Leicester, Inglaterra: InterVarsity Press, 1999), 161-71.
45 Alguns acrescentariam uma segunda exceção aparente — a experiência dos se­
guidores de João Batista, em Efeso (At 19.1-10). Estes indivíduos são chamados
"discípulos", mas, quando Paulo os entrevista, declaram nem mesmo ter ouvido
falar do Espírito Santo. Isso quer dizer que conheciam muito pouco sobre os mi­
nistérios de João ou de Jesus, dado o papel central que o Espírito desempenha em
ambos. Isso quer dizer que não poderiam ter sido judeus, pois se fossem, teriam
sabido do Espírito, pelas Escrituras hebraicas. Com tão pouca informação, é difí­
cil crer que o seu discipulado resultasse em uma fé verdadeira e salvadora.
46 Veja especialmente o tratamento desta passagem em James D. G. Dunn, Baptism
in the Holt/ Spirit (Filadélfia: Westminster, 1970), 55-72.
47 Veja especialmente Orlando E. Costas, Liberating News: A Theology of Contextual
Evangelization (Grand Rapids: Eerdmans, 1989).
4S Veja especialmente C. H. Dodd, The Apostolic Preaching and Its Developments (Nova
York: Harper, 1951).
4,1 Veja Philip H. Towner, "Mission Practice and Theology under Construction",
em Witness to the Gospel: The Theology of Acts, ed. I. Howard Marshall e David
Peterson (Grand Rapids: Eerdmans, 1998), 417-436.
50 Kenneth Gangel, "Paul's Areopagus Speech", BSac 127 (1970): 312. Cf. J. Daryl
Charles, "Engaging the (Neo) Pagan Mind: Paul's Encounter with Athenian
Culture as a Model for Cultural Apologetics (Acts 17:16-34)", Trinj 16 (1995): 47-
62.
51 Veja especialmente Martin Hengel, Between Jesus and Paul (Filadélfia: Fortress,
1983), 1-29.
52 Veja Ronald D. Witherup, "Cornelius Over and Over and Over Again: Functional
Redundancy in the Acts of the Apostles", JSNT 49 (1993): 45-66.
53 Veja, respectivamente, James Smith, The Voyage and Shipwreck of St. Paul, 4'1 ed.
(Mineápolis: James Family Christian Publishers, 1880); e Richard 1. Pervo, Profit
with Delight: The Literary Genre of the Acts of the Apostles (Filadélfia: Fortress, 1987),
esp.50'53 Infelizmente, e de forma desnecessária, como acontece com Pervo, que
lida brilhantemente com o aspecto artístico e de aventura do livro de Atos, é
muito frequente que o aspecto literário seja colocado contra o histórico.
54 A única exceção possível é Efésios, se interpretada como uma "encíclica". Veja as
introduções tradicionais ao Novo Testamento.
Notas 173

55 Veja, por exemplo, Douglas J. Moo, The Epistle to the Romans (Grand Rapids:
Eerdmans, 1996), 786: "Paulo não deseja que os cristãos usem a inevitabilidade
da tensão com o mundo como uma desculpa para um comportamento que des­
necessariamente exacerba este conflito ou como uma resignação que não nos leva
sequer a procurar conservar um testemunho positivo".
56 O oposto é menos provável, uma vez que os leitores de primeira vez não teriam
conhecimento do último texto quando se deparassem com o primeiro.
57 Veja Craig L. Blomberg, "Neither Hierarchicalist nor Egalitarian: Gender Roles in
Paul", em Two Views on Women in Ministry, ed. James R. Beck e Craig L. Blomberg
(Grand Rapids: Zondervan, 2001), 350-352.
58 Veja Craig L. Blomberg, 7 Corinthians (Grand Rapids: Zondervan, 1994), 207-220.
59 Ibid., 213-14; Blomberg, "Neither Hierarchicalist nor Egalitarian", 347.
60 Veja também Blomberg, 1 Corinthians, 150-158.
61 Notável aplicação prática aparece em Philip Yancey, What's So Amazing about
Grace? (Grand Rapids: Zondervan, 1997).
62 Blomberg, "Neither Hierarchicalist nor Egalitarian", 357-370.
63 Pontos convincentes na obra de Stephen F. Miletic, "One Flesh": Ephesians 5.22-
24,5.31 — Marriage and the New Creation (Roma: Biblical Institute Press, 1988).
64 Como Moo, Romans, 33. Comentaristas mais antigos frequentemente dividiam
1.18; 3.20 em duas partes, com 1.18-32 ou 1.18; 2.16 destinadas primeiramente aos
gentios, e 2.1; 3.20 ou 2.17; 3.20 destinadas primeiramente aos judeus. A universa­
lidade do pecado, no entanto, permanece clara em todos estes esquemas.
65 por exemplo, a NVI. Mas perceba que a TNIV substitui "nenhum alimento" por
"nada", adotando uma tradução mais literal.
66 Veja também Blomberg, 1 Corinthians, 202-6. Sobre a aplicação do princípio
da liberdade do legalismo, de maneira mais geral, veja especialmente Charles
R. Swindoll, The Grace Awakening (Nashville: Word, 1991); Chap Clark, The
Performance Illusion (Colorado Springs, Colo.: NavPress, 1993).
67 Veja, por exemplo, Gary Friesen com J. Robin Maxson, Decision-Making and the
Will of God (Portland, Oreg.: Multnomah, 1980), 382-383.
68 Para excelentes aplicações de 1 Coríntios 14, a vários contextos, veja D. A. Carson,
Showing the Spirit: A Theological Exposition ofl Corinthians 12-14 (Grand Rapids:
Baker, 1987), 77-136. Para uma teologia bíblica equilibrada de dons espirituais, de
modo mais geral, veja Michael Green, I Believe in the Holy Spirit (Grand Rapids:
Eerdmans, 1975), 161-196.
69 Veja especialmente Harold W. Hoehner, Ephesians: An Exegetical Commentary
(Grand Rapids: Baker, 2002), 720-729.
70 Veja Blomberg, Neither Poverty nor Riches, 190-99. Cf. Ronald J. Sider, Rich
Christians in an Age of Hunger, 4a ed. (Dallas: Word, 1997), 193-196.
174 Questões Cruciais do Novo Testamento

71 Em razão das características singulares, que se aplicam apenas a Cristo, alguns


defendem a tese de que o hino se destina a funcionar como um exemplo. Mas
isso altera radicalmente a situação. Para um histórico completo da interpretação,
com conclusões equilibradas, veja Ralph P. Martin, A Hymn of Christ: Philippians
2:5-11 in Recent Interpretation and in the Setting of Early Christian Worship (Downers
Grove, 111.: InterVarsity Press, 1997).
72 Veja Loveday Alexander, "Hellenistic Letter Forms and the Structure of
Philippians", JSNT37 (1989): 87-101.
73 Veja Robert Jewett, Christian Tolerance (Filadélfia: Westminster, 1982).
74 Veja especialmente D. A. Carson, "Pauline Inconsistency: Reflections on 1
Corinthians 9.19-23 and Galatians 2.11-14" Churchman 100 (1986): 6-45.
75 F. F. Bruce, Paul: Apostle of the Heart Set Free (Grand Rapids: Eerdmans, 1977),
401.
76 Veja especialmente Willard Swartley, Slavery, Sabbath, War, and Women (Scottdale,
Pa.: Herald, 1983). Mais recentemente, em um importante estudo de três questões
parcialmente paralelas e altamente controversas, William J. Webb "Slaves, Women,
and Homosexuals: Exploring the Hermeneutics of Cultural Analysis [Downers Grove,
111.: InterVarsity Press, 2001]) desenvole o que ele chama de uma hermenêutica
de "movimento redentor". O principal do seu argumento é que assim como al­
guém pode rastrear o desenvolvimento do entendimento sobre vários tópicos,
em sucessivas etapas de revelação do Antigo Testamento, assim como do Antigo
Testamento para o Novo, também pode haver pontos em que a "trajetória" do
pensamento bíblico sugere que os cristãos hoje devem ir além do ensinamento do
Novo Testamento. Webb crê que os cristãos fizeram isso na questão da escravi­
dão. Ele mostra, de maneira convincente, que os dados bíblicos sobre a homosse­
xualidade não se encaixam em tal trajetória. A prática homossexual é igualmente
condenada nos dois Testamentos. Mas ele crê que o ensinamento bíblico sobre
as mulheres é mais semelhante àquele sobre a escravidão. Ele não interpreta o
ensinamento bíblico sobre os papéis dos sexos, como promovendo a igualdade
de direitos, como fazem as feministas bíblicas, mas vê o desenvolvimento do
pensamento evoluindo em uma direção que apoiaria os cristãos de hoje indo
além do Novo Testamento, para apoiar a total intercambiabilidade de papéis dos
sexos, no lar e na igreja. Grande parte da obra de Webb é persuasiva, mas ainda
permanecem algumas questões perturbadoras. Na realidade, não há texto bíblico
sobre os papéis dos sexos análogo a 1 Coríntios 7.21. A Bíblia jamais encoraja
as mulheres a se tornarem presbíteras ou líderes sobre seus maridos, se houver
oportunidade. Se interpretarmos os textos essenciais sobre os papéis dos sexos,
como declarando a qualidade complementar e não igualitária, nas palavras de
Paulo, então será difícil ver onde aparece a trajetória do desenvolvimento, dentro
Notas 175

do Novo Testamento, para justificar novos movimentos em uma direção que irá
explicitamente além do Novo Testamento.
77 Veja especialmente Ben Witherington III, "Rite and Rights for Women — Gl.
3.28", NTS 27 (1981): 593,594.
78 Veja Blomberg, "Diversity of Literary Genres", 283-285.
79 Todas estas generalizações são de forma proposital designadas a serem suficien­
temente amplas de modo que arminianos e calvinistas de igual maneira pos­
sam concordar com elas. Para uma reconstrução convincente de como poderia
ter sido a vida de um jovem judeu cristão em Roma nesta época, escrita como
uma obra de ficção histórica, veja a obra de George H. Guthrie, Hebrews (Grand
Rapids: Zondervan, 1998), 17,18.
80 Embora suas reivindicações ocasionalmente vão além do texto propriamente
dito, Tamez (Tiago) faz uma interpretação atenta do texto de Tiago, com base em
uma perspectiva liberacionista latino-americana, que cada cristão ocidental de
classe média deve encarar.
81 Veja, respectivamente, John H. Elliott, A Home fo r the Homeless: A Sociological
Exegesis o f I Peter, Its Situation and Strategy (Filadélfia: Fortress, 1981); e Bruce
W. Winter, Seek the Welfare o f the City: Christians as Benefactors and Citizens (Grand
Rapids: Eerdmans, 1994). Winter faz uma importante abordagem de 1 Pedro,
mas também leva em consideração uma quantidade significativa do material de
Paulo.
82 Sobre estes temas e correia tos, veja especialmente Richard Bauckham, The Theology
o f the Book o f Revelation (Cambridge: Cambridge University Press, 1993).
83 Veja especialmente Grant R. Osborne, Revelation (Grand Rapids: Baker, 2002).
84 Para um fascinante estudo da especulação cristã sobre o Anticristo, ao longo da
história cristã, veja Bernard McGinn, Antichrist: Two Thousand Years o f the Human
Fascination with Evil (San Francisco: HarperSanFrancisco, 1994).
85 Para comparações úteis das posições sobre o milênio, veja Robert G. Clouse, ed.,
The Meaning o f the Millennium: Four Views (Downers Grove, 111.: InterVarsity Press,
1977); sobre a tribulação, veja Richard Reiter, ed., The Rapture and the Tribulation:
Pré-, Mid-, or Post-tribulational (Grand Rapids: Zondervan, 1984). Sobre quatro
abordagens ao livro do Apocalipse como um todo, com explicações de passa­
gem por passagem, veja C. Marvin Pate, ed., Four Views on the Book o f Revelation
(Grand Rapids: Zondervan, 1998), que apresenta a perspectiva passada, idealista,
e duas futuristas diferentes.
86 As bibliografias impressas de recursos essenciais rapidamente ficam obsoletas.
Mas podemos ver as biografias do Antigo Testamento e do Novo Testamento,
organizadas por divisões, atualizadas duas vezes ao ano, no Denver Journal, uma
publicação online de resenhas de livros, acessíveis na página principal do Denver
176 Questões Cruciais do Novo Testamento

Seminary (www.denverseminary.edu). No entanto, recentemente duas excelen­


tes bibliografias foram publicadas: John Glynn, Commentary and Reference Survey,
ed. rev. (Grand Rapids: Kregel, 2003); e David R. Bauer, An Annotated Guide to
Biblical Resources fo r Ministry (Peabody, Mass.: Hendrickson, 2003).
Craig L. Blom berg (Ph.D ., University

o f Aberdeen) é um distinto professor de

Novo Testamento do Seminário de Denver,

no Colorado, onde ele ensina há mais de

quinze anos. Ele é autor e editor de mais de

dez livros e regularmente dá palestras sobre

o assunto em várias igrejas e instituições

educacionais. Casado, tem duas filhas.


Q uestões c ru c ia is
DO Novo TESTAMENTO
C r a i g L. B l o m b e r g

O Novo Testamento é historicamente confiável?

Paulo foi o verdadeiro fundador do cristianismo?

Como o cristáo deve aplicar o Novo Testamento à sua vida?

Com essas três questões cruciais, este livro procura tratar o Novo Testamento
de uma forma diferente, através de uma abordagem pós-moderna que nós
podemos classificar como “as chaves da compreensão do Novo Testamento”.
Questões Cruciais do Novo Testamento é um livro escrito por um respeitado
professor do Novo Testamento do Seminário de Denver (EUA) com mais de
quinze anos de experiência no assunto. Como a interpretação realiza muito
pouco, a menos que conduza à aplicação, vale a pena você ter em casa um livro
completo, que, além de tratar de assuntos tão importantes para o cristão da
atualidade, ainda traz uma parte prática que certamente ajudará muitos leitores.