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Todas as cartas de amor são

ridículas.
Não seriam cartas de amor se não
fossem ridículas.
Também escrevi em meu tempo cartas de
amor, como as outras, ridículas.
As cartas de amor, se há amor,
têm de ser ridículas.
Mas, afinal, só as criaturas que
nunca escreveram cartas de amor é
que são ridículas.
Quem me dera no tempo em que
escrevia sem dar por .isso cartas
de amor ridículas.
A verdade é que hoje as minhas
memórias dessas cartas de amor é que
são ridículas.

(Todas as palavras esdrúxulas,


como os sentimentos esdrúxulos, são
naturalmente ridículas.)
Copyright© Razzah
Todos os direitos reservados. Nenhuma parte
deste livro pode ser reproduzida ou utilizada no
todo ou em parte sob quaisquer meios existentes
sem autorização por escrito de editora e autora.

Cartas a Elizabeth é uma das categorias


do blog da autora, Confissões de Valentina.

Edição e produção Razzah


Revisão Christian Danniel

Cartas a Elizabeth
Gaio, Carolina
1ª Edição
Julho de 2018
ISBN: 978-85-94231-03-1

Razzah
Av. Mem de Sá, 126 - Lapa
20230-152 - Rio de Janeiro/RJ
Tel.: (21) 3852-5743

www.razzaheditorial.com.br
www.confissoesdevalentina.com
Cartas
a
Elizabeth
CAROLINA GAIO

Razzah
Yours is
the cloth,
mine is the
hand that
sews time
All my love – Led Zeppelin
Para Matheus, minha causa preferida.
Sumário
Parte 1| Preia-mar .8
Não acredito em coincidências .10
As cartas que mandei .18
- Eu nunca amei você .20
- 15h .22
- Ainda bebo esse homem .24
- 1.169km .26
- Como seríamos nós? .29
- Aquela camisa .33
- Você deixa? .35
- Antonomásia .38

Parte 2| Sizígia .40


Não acredito em coincidências .42
As cartas que mandei .48
- Analgia .50
- Quem dera fosse .52
- Com gelo e limão .53
- A porta fechada .63
- Nós só temos o agora .66
- Consignação .67
- Você vai saber .68
- Hoje só preciso falar que te amo .70
Parte 3| Ressaca .72
Não acredito em coincidências .74
As cartas que mandei .80
- Ponto e vírgula .82
- Madrugadas se conjugam no imperativo .85
- Como de lado, como de quatro .87
- Não posso encarar você de novo .90
- Que desperdício você, que desperdício nós dois .93
- Nada apaga você .95
- Dos insights psicanalíticos .97
- Quem vai colocar a mão na lareira? .104

Parte 4| Maresia .108


Não acredito em coincidências .110
As cartas que mandei .116
- Todos eles juntos num só ser .118
- Transitivo direto .123
- Aoristo .126
- Pudera ser você minha casa .128
- Toda a simbologia do mundo .130
- Como se chama mesmo? .131
- Talvez o amor não seja, esteja sendo .133
- Minha alma se parece com a sua .135

Post Scriptum .138


Eu preciso dela pra escrever .140
Parte 1| Preia-mar
8
9
Não acredito em coincidências

T
inha ido sozinho àquela festa pop no centro da
cidade, tequileiros distribuíam bebidas para
os convidados, de cabeça pra baixo apoiados
em uma extremidade do palco que parecia
tudo, menos firme o suficiente pra isso. In the end tocava
o seu It doesn’t even matter, as pessoas cantavam em um
uníssono assimétrico com braços para cima e glitter no
rosto. Eu estava suficientemente bêbado. O mainstream
do que precisava para um sábado à noite.
Subi para o terraço, agora era A verdade é que eu minto,
que eu vivo sozinho, não sei te esquecer que dava o tom. A
plenos pulmões, muitos não esquecimentos se reuniam,
um deles era o meu. Pensava na ciranda da vida, na
ciranda que são os nossos muitos não esquecimentos.
Um toque suave em meu braço me trouxe de volta à
efusão caótica; apesar de ser uma boate LGBT, era uma
mulher, com certeza. Me preparei para dizer que era gay,
não seria estranho ali, quando vi quem era. Elizabeth.
Pela cara dela, não me reconheceu, mesmo com
meus (julgava eu) inconfundíveis cabelos compridos
marcando presença justamente no evento e boate que
meses antes nos conhecemos. Demorei para concatenar.
Fiquei encarando. Elizabeth mora em Brasília, o que
estava fazendo aqui?
10
Parte 1| Preia-mar
– Não te reconheci – me disse.
– Não sabia que estava no Rio.
– Te falei que vinha no começo de março.
Sim, ela havia falado. Mas aquilo foi antes, e eu não
sabia se ela realmente… Mas por que logo ali? Na boate
em que por um total desencontro do acaso a conheci.
– Que coincidência, Elizabeth.
Ela fez aquela cara pra mim cuja tradução eu sabia.
Não acredito em coincidências. Mas era o Rio e a mesma
boate. A mesma festa. Eu queria acreditar que talvez
ela tivesse ido de propósito, pensando que poderia me
encontrar. Era isso. As músicas “da moda” ainda eram as
mesmas, nada havia esfriado. Nada em mim, que fosse
ela, havia esfriado.
– Você frequenta muito esse rolê – implicou ela, com
o sotaque denunciando as delícias, e crueldades, de se
apaixonar por alguém de outro estado.
Era a segunda vez que tinha ido àquela boate, na
verdade. E tinha motivo. Um motivo improvável, mas
que estava bem na minha frente. Elizabeth tinha cortado
os cabelos.
Não podia a culpar pela recusa das coincidências,
nossa história endossava isso.
11
Não acredito em coincidências
Nossa história endossava tudo. Viradas do calendário
atrás, tinha sido ali.
Um amigo do Rio tinha resolvido comemorar o
aniversário ali, ela ainda não conhecia a boate. Eu, bem,
era a boate mais perto de onde eu morava na época, dava
até para ir a pé, o tédio de um dia inteiro de trabalho me
consumia, e então. Dias e noites repetidamente normais,
só isso.
Saímos lado a lado em uma foto que fizeram assim
que chegamos, fomos ver depois na página do evento; na
hora sequer nos olhamos. Segui para o andar de cima;
ela, bem, não sei.
Depois houve várias outras. Pelos episódios de
que rimos juntos depois sobre aquele dia, estivemos
bem perto em vários momentos. O strip-tease de um
aleatório na fila do banheiro, aquela engasgada do som
revelando um Reginaldo Rossi engatado por engano,
a briga a unhadas por um motivo que ninguém nunca
soube.
Na hora daquela mesma música que agora tocava,
também nós erguíamos os braços engrossando o coro.
Nós dois berrávamos aquela letra, cabelos praticamente
grudados, de costas um para o outro.
12
Parte 1| Preia-mar
Não foi assim que nos conhecemos. Eu olhava uma
menina apoiada na mureta do terraço; Elizabeth, um
rapaz que “fazia a limpa” junto com a namorada.
Estávamos ambos imbuídos nos amores das nossas vidas
de uma noite. Ou menos que isso.
Mas a gente só encontra no inesperado, é o que
dizem, o segredo é o lapso do descuido. Foi quando
estávamos para ir embora. Eu brincava com meu
chaveiro entre os dedos na porta da boate quando olhei
para o lado. Então a vi. Ela me olhou de volta. Senti
que dei um sorriso involuntário. Não era um flerte, até
demorei pra perceber que sorria. Que talvez a estivesse
encarando com uma cara de desajustado.
Ela retribuiu junto com aquela erguida da
sobrancelha esquerda. O Uber chegou, algum amigo
entrou no campo de visão de Elizabeth. Vacilei
segurando a porta do carro. Queria ter ido falar com ela.
Que grande bobagem, uma mulher qualquer na noite.
O outro dia era domingo, com seus cheiros peculiares
que nos impõem a existência. Nada nos impõe tanto a
existência como domingos. Um amigo me chamou para
um festival do qual ele mesmo desistira. Elizabeth já
viera para o Rio pensando nesse show. Ela estava com o
ingresso comprado, eu fui catar na hora.
13
Não acredito em coincidências
Cheguei atrasado. E sozinho. O que não durou muito,
encontrei amigos por lá. Algum conhecido no meio deles
tentou me beijar, me afastei derrubando um pouco da
cerveja na calça. O show estava vazio, mas Elizabeth era
de headbangear na cara do palco. Eu sempre fui de viver
as coisas meio no mais ou menos. Na linha do tanto faz.
Ela era de extremos.
Reconheci a garota da festa do dia anterior ali,
mesmo míope e com uma memória fotográfica nojenta.
Hoje sei que seria impossível não reconhecer
Elizabeth em qualquer circunstância. Ela passou pra
comprar bebida, talvez. Avancei para falar com ela,
percebi que esbarrei em algum amigo meu, meu pedido
de desculpas saiu na mesma hora que vi outra mulher,
que puxava a mão de Elizabeth.
Namorada?! Não sei, parecia uma amiga, as duas
saíram correndo para a barraca de cerveja. Que cara?
Alguém me pediu justificativas. Sei lá que cara eu estava
fazendo. Me devolve essa cerveja.
Foi na fila. Horas depois disso. Um intervalo entre
uma banda e outra. Estávamos ali. Estávamos sempre ali,
mas dessa vez aconteceu. (Ou já tinha acontecido?) Nos
olhamos de novo. Dessa vez reparei melhor.
14
Parte 1| Preia-mar
Ela sorriu com seus olhos de vírgula. Adoro o formato
dos olhos dela. Arcados e apertados, como vírgulas. É um
pouco disso toda vez, totalidade inconclusa, continuação
interrompida.
Eu sabia que estava sorrindo; não era muito
intencional nenhuma das minhas expressões. Fiz um
gesto engraçado que não sei como Elizabeth entendeu,
porque nem eu mesmo entendi.
Eu estava na fila de uma das barracas do evento pra
cumprimentar uma amiga, Elizabeth estava na fila errada,
achando que ali vendia bebida. Eram camisas. Todas as
confusões dela têm uma beleza de instante. Eu amo.
Ela também me reconheceu do dia anterior, mesmo
míope e com uma memória fotográfica nojenta.
Conversamos pouco. Levamos alguns esbarrões
e tentávamos nos entender entre aqueles barulhos
embolados. Como? Nossa dicção é péssima e somos meio
surdos, ela me disse. Não sei, Elizabeth.
Lembro de algo sobre signos e tatuagens, ela me
mostrou a dela do Led Zeppelin na perna. Sempre achei
que apesar disso Led Zeppelin não era a banda preferida
de Elizabeth. Nunca perguntei.

15
Não acredito em coincidências
A tal menina que vi mais cedo com ela voltara,
Elizabeth se virou bem na hora que eu ia pedir seu
número, na pausa que isso engasgou nos meus receios. A
multidão aliviou na minha frente e fui falar com minha
amiga na barraca.
Elizabeth estava de costas, absorta em qualquer coisa.
Anotei meu número em um papel e deixei perto do
balcão, avisando a ela entre olhares. Daí em diante é só
blá-blá-blá de histórias triviais, e não faz tanta diferença
se não foi exatamente desse jeito.
O passado não é um quadro, tem seu próprio
dinamismo. Não sei por que insistimos que o que já foi é
estaticidade de natureza morta se causa tanta erupção
de estados adormecidos dentro de nós.
Sempre achei que tudo o que já aconteceu se move.
Dentro de nós, é claro, mas com um movimento
particular, que talvez não apreendamos completamente.
Sempre achei que o passado se recriava e alterava
de alguma maneira, fosse por percepção, fosse pelo que
fosse, nem que pelo desejo de contrariar nossa posse de
“achei que tivesse sido assim”.

16
Parte 1| Preia-mar
Hoje estávamos aqui. No mesmo lugar. De novo.
Eu sorria involuntariamente do mesmo jeito; ela me
sorria seus olhos de vírgula, mais uma minúcia do rosto
perfeito.
Segurei seus cabelos pela nuca, um pouco mais forte
do que ela gostava, eu sabia. Culpa desse hiato, sempre
ele. Elizabeth amoleceu nas minhas mãos.
Como sempre, veio me inundando… de trégua.

17
As cartas
que mandei
18
Sabe,
nunca Elizab
amei v eth, eu
Você p ocê.
meio s renden
piadas em gra do seu
óculos rudes ça com s cab
fundo no me ou per minh
de se a fanho u quar dendo
Nada fastar na voz to. Seu
disso p , em t , seu j
Eu nu ra mimantos s eit
entreg nca am nu n enti
sobran ue, aqu ei seu c a foi
olhos celhas ele sor abraço
invasi sorrind , mãos, riso de pouc
que te vo, pens o nos m desvio lado,
sem ru fazem ament eus, c de sept
porqu mo. Q pegar os inson heiro d
que sa e é tão ue te f o carro es e tu o
mesma be a fó dona d azem s de ma rb
, e fal rmula a verda e quest dru
Não, e ha. até pr de qu ionar
u nun a apli e acha
Amor ca am car a
juntos é aquel ei você si
e ímãs em um a coisa .
de gel papel brega
Amor adeira , escov de doi
e pens faz du . as de s nome
mesma arem c as pess dentes s
uma s s, e de oisas ruoas se d c
19 ompa
em nã úbita d scobrir ins sob ecepcio
su o s ese em re na
As cartas que mandei
Eu nunca amei você
Sabe, Elizabeth, eu nunca amei você.
Você prendendo seus cabelos meio sem graça com
minhas piadas rudes ou perdendo os óculos no meu
quarto. Seu fundo fanho na voz, seu jeito de se afastar,
em tantos sentidos. Nada disso pra mim nunca foi amor.
Eu nunca amei seu abraço pouco entregue, aquele
sorriso de lado, sobrancelhas, mãos, desvio de septo,
olhos sorrindo nos meus, cheiro doce invasivo,
pensamentos insones e turbulentos que te fazem pegar
o carro de madrugada sem rumo. Que te fazem se
questionar, porque é tão dona da verdade que acha que
sabe a fórmula até pra aplicar a si mesma, e falha.
Não, eu nunca amei você.
Amor é aquela coisa brega de dois nomes juntos em
um papel, escovas de dentes compartilhadas e ímãs de
geladeira.
Amor faz duas pessoas se decepcionarem e pensarem
coisas ruins sobre si mesmas, e descobrirem uma súbita
desesperança em não ser suficiente.

20
Parte 1| Preia-mar
Amor deve ser muito bom, mas corta de alguma forma
um pedaço que seja de asas bonitas e reluzentes demais
num voo de final de tarde. Asas que devem mesmo ser
livres pra se perderem de vista. Escaparem.
Amor faz as pessoas escreverem quadros, comporem
livros, pintarem músicas. E às vezes em uma ordem mais
certa; mas é do incerto que vem a arte, é do incerto que
vem a guerra, que no fundo não são assim tão diferentes.
E é por isso que amor salva vidas, empodera heróis e cura.
Mas, na maioria das vezes, encarcera almas no purgatório.
Prende em cativeiro o que é do mundo. Escreve, compõe,
enquadra — e nenhuma dessas palavras no fundo é boa.
E tudo isso serve a um propósito que come pelas beiradas
disfarçado de epifania, estagnação e registro.
Sabe, Elizabeth, eu nunca amei você. Eu não quero amar
você. Tudo o que você me causa ferve demais pra eu
querer massacrar e tornar estanque dessa maneira.
Tudo o que você me causa tem mesmo que brincar livre
por aí, indo e vindo sem aviso ou previsão, como os seus
súbitos retornos.
Se um dia nós dois formos um nós dois e se um dia nós
dois tivermos um dia, a gente inventa um nome melhor.

21
As cartas que mandei
15h
15h e eu acordava, vacilante de sono pela casa.
Na mão, o resto do café que bebi até o meio-dia, hora em
que consegui ir dormir terminando um trabalho do dia
anterior.
Andei com o copo frio na mão pela casa acolhedora.
Vaguei comemorando as ausências. Nunca fui muito
bom em morar com outras pessoas. É como fazer sala
e sustentar máscaras o tempo todo, uma extensão em
menor escala do que o convívio social impõe: sorrisos
forjados e cumprimentos por obrigação; tudo em prol da
preservação do eu.
Viver sozinho é o que sou. Viver sozinho te brinda com
todas as solidões de que a vida se compõe, e isso é bom.
Sempre foi o que me fez sentir imerso no real, a total
certeza de que ninguém viraria a chave na porta.
Apoio o copo na pia e verifico o celular. Os muitos
“tenho que” já me chamam. E-mails e mensagens em
grupos de WhatsApp. A visão ainda turva me conduz a
completar o copo com café.

22
Parte 1| Preia-mar
Não foram os “tenho que” que me tiraram da cama.
Deles eu sempre dou conta. No curto espaço de tempo
em que dormi, ela me apareceu em sonho, o beijo calado
em um toque abrasivo.
Foi só um sonho nebuloso. Eu e Elizabeth em uma casa
que não identifiquei, embolados em saliva e roupas que
se afugentavam de nós. Embolados em identidade.
Enquanto o café caía no copo, percebi o que me acordara
tão de súbito. Não foi despertador; não foram as muitas
mensagens de trabalho no celular. Não são os “tenho que”
que fazem textos me acontecerem. É ela. É sempre ela.
Alguns sonhos bons são ainda mais funestos que a
insossa trivialidade.
Confiro de novo o celular. Ainda são 15h. Natural,
quantas bocas não cabem no segundo de um
pensamento?
O café da cafeteira, também ele, está frio.

23
As cartas que mandei
Ainda bebo esse homem
e
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sob a cilada eralidade
E o f forma denrustida
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contnordo niilisrtock
no e r a
24 etoque
Parte 1| Preia-mar

No par
caos e adoxo do
da man
Vejo o sidão
que me equilíbr
tira o io
E que chão
Lacan Freud e
me dom
em
Talvez
caprich seja .
o iva
frugaolui uma à ess
dade io c
mea exe d a
m h
E in dad n
m ai aise
v s eu es
o
Mabebomem 25
h
As cartas que mandei
1.169km
Eu não queria me apaixonar por uma mulher de outro
estado. Ninguém quer; mas eu talvez não quisesse mais
que qualquer um. Talvez fosse, nesse âmbito, tudo o que
menos quisesse.
Coisas que me fazem sentir tolhido e que me direcionam
são o gosto mais fugidio que já senti. Compromissos em
seu sentido amplo. Uniformes e horários. Cumprimentos
e a contagem dos dias. Crenças e estruturas morais. São
prisões. São sempre prisões com que temos que lidar.
Prisões a que nos acostumamos, que, no cotidiano,
percebemos bem pouco. Que dificilmente nos apertam o
colarinho.
Amar alguém é a gravata mais justa do que devia no
pescoço. É a gola de número menor. É a sensação de
entrar água no submarino. Você ainda pode nadar, as
saídas são controladas e seguras na medida do possível.
Mas você ainda está submerso. Ainda se move conforme
a água permite e não na ilusão da autonomia ao nível do
mar.

26
Parte 1| Preia-mar
E se apaixonar por alguém de outro estado é, além disso,
areia entre os dedos no vendaval. É perceber o quanto os
acasos nos escapam; mais do que todas essas coisas, que
naturalizamos, nos fazem perceber.
Podemos evitar um certo nível de envolvimento, é
verdade. Podemos não alimentar.
Não olhar aquela foto mais uma vez. Pular a música.
Fingir que não percebemos os trejeitos similares. Ou os
que não têm absolutamente nada a ver, mas que mesmo
assim ainda associamos. Podemos fechar o arquivo
quando vem aquela vontade de escrever. Mas fazer
sumir nós não podemos.
E sempre vai ter aquele dia que vai incomodar diferente.
Olho com banalidade para todas as referências. Seu
sobrenome incomum, seu cheiro particular, seus nomes.
Sim, os dois. Que me aparecem em homens e mulheres,
eventualmente em animais. As músicas e os cabelos
compridos. Uma camisa que alguém ostenta do meu lado.
São sempre segundos. Mas segundos de pura enxurrada.
Sigo buscando poesia em outras coisas, e eventualmente
sendo encontrado por ela sem buscar, o que é bom.

27
As cartas que mandei
Mas a verdade é que meu coração está aí com você. O
que posso fazer a respeito?
Já perdi as contas das vezes em que me perguntaram, e
eu calo. Eu sempre calo. Porque o meu silêncio é antes
de tudo para mim.
Há pouco tempo me fizeram uma pergunta mais direta,
como seria se você viesse para cá. Meus lábios soltaram
em um ímpeto: “Ela nunca vai vir pra cá.”
Por que os vieses são sempre as respostas mais
definitivas?

28
Parte 1| Preia-mar
Como seríamos nós?
Às vezes me pego pensando em como seríamos nós.
Se você ia pegar o violão de madrugada pra gente
compor uma música digna de Johnny Cash, que nos faria
milionários se no dia seguinte não fôssemos esquecer de
cada linha e acorde.
Se eu ia pegar seu cigarro e suas camisas pra fazer fotos
e te mandar enquanto você trabalha pra te deixar meio
sem graça, meio com um sorriso bobo, meio sem juízo.
Se eu bancaria sair dessa cidade das mil cores e caos pra
encarar insossas esquinas simétricas, só porque você ia
colorir e apimentar todas elas.
Se você encararia ouvir s com som de x e outras coisas
que incomodam quem vive essas rixas bestas entre
estados desse país só por saber que meu cheiro ia encher
sua casa.
Será que a gente ia passar o rodo nas festas e depois
fingir crises de ciúme pra deixar os outros sem graça?
A gente ia ser filho da puta pra caralho, não ia? Ou
será que qualquer ciúme seria real? Será que isso faria
alguma diferença?
29
As cartas que mandei
Fico pensando se a gente ia se entender só com o olhar.
E se isso ia dar medo nas pessoas à nossa volta. Aquele ar
de que estamos sempre tramando algo bem sujo, sabe?
Faríamos uma tatuagem juntos ou ficaríamos tatuados
somente pelas marcas que o acaso nos fez?
Se escreveríamos compulsivamente um para o outro, se
transformaríamos nossas paredes nas nossas pautas pra
aliviar nossas mentes turbulentas.
Se nossas mentes turbulentas tacariam fogo no nosso
cotidiano. Se nossos corpos turbulentos tacariam fogo
em tudo o que a gente vivesse.
Se tentarmos dançar tango na varanda, eu desenhar
você, você me compor... tudo nos faria cair na
gargalhada pelados no tapete com nossas mãos e
ebulições suadas virando uma coisa só.
Nós iríamos “constituir família”, de branco e com
testemunhas, ou só nos jogaríamos como dois malucos
pelo mundo? Ou seriam as duas coisas juntas? Ou só
deixaríamos acontecer sem entrar nos méritos?
Nós compraríamos um barco e viveríamos sem porto,
cada hora em um lugar, conforme desse na telha quando
a gente acordasse, ou moraríamos em um apartamento
padrãozinho com “infra e portaria 24h”, todo ilibado?
30
Parte 1| Preia-mar
Ou só arrumaríamos nossos refúgios no meio de tudo
isso?
Eu daria nó na sua gravata e seguiria para meu emprego
8h-17h, mortificados, ou eu acordaria tendo que
terminar uma tradução enquanto você ensaia no nosso
estúdio pro show de mais tarde?
Ou eu já teria adiantado tudo só pra pagar de fã babando
você enquanto toca? E você se orgulharia ou teria
ciúmes das minhas apresentações de dança? Será que
riríamos de nós dois enquanto tento te ensinar uns
passos de samba na nossa sala?
Será que brigaríamos por quem lava a louça ou
deixaríamos pra lá enquanto transamos na mesa da
cozinha? E será que arrumaríamos essas picuinhas só
pra implicar?
Ou nossos TOCs e manias não iam permitir nada disso se
acumular?
Você estaria concentrado escrevendo e eu te agarraria
com tesão e cerveja, te atrapalhando e derrubando
tudo? Ou você viria com folk e seu charme enquanto
escrevo, me fazendo esquecer todas as línguas que não
sejam a sua?

31
As cartas que mandei
Nossas bocas nos continuariam, nos bastariam, nos
guardariam, nos protegeriam?
Como nós dois lutaríamos juntos contra os nossos
fantasmas? Você já tem um plano? Você quer desenhar
ele no meu corpo?
Seríamos destemidos, audaciosos, realizadores e
invencíveis só por estarmos juntos?
Ou apenas não seríamos... simplesmente porque... nunca
seremos nada disso.
We are here to laugh at the odds and live our lives
so well that Death will tremble to take us.

32
Parte 1| Preia-mar
Aquela camisa
Sabe, acho que nunca te contei.
Na primeira vez que transamos, aquela camisa que eu
estava usando caiu atrás da minha cama e esqueci ela lá.
Não é muito higiênico contar que só fui achá-la muito
tempo depois, mas foi o que aconteceu. Eu me esqueci
mesmo dela.
Semanas. Meses? Durante algum rompante de mudar
móveis e ideias de lugar, eu a achei. E, assim que a vi, tive
que engolir o coração de volta. A camisa me trouxe você.
Então a peguei. E tinha seu cheiro adocicado nela.
No instante que senti, seu cheiro preencheu a casa inteira.
E, embora isso tenha sido literal, vale como metáfora para
todas as coisas: seu cheiro me preencheu por completo.
Obrigações de higiene me fizeram lavá-la, é claro, mas tive
um desejo momentâneo de deixá-la ali mesmo, escondida
atrás da cama; igualzinho a você guardada em mim.

33
As cartas que mandei
Grades vazadas fingindo latência. Até que algo, assim,
desavisadamente, me mostre que você em mim é toda
superfície.
Meus poros e o seu toque. Saudade violenta.
Normal eu ter me esquecido da camisa lá. Foi a primeira
vez que, de mais de um jeito, nos vimos nus.
Aquela camisa — um dia tirada e jogada de lado — era
minha maneira inconsciente de prolongar a sensação de
você.

34
Parte 1| Preia-mar
Você deixa?
Eu escrevi muitas coisas para você. Muitas sobre você.
Muitas sobre outras pessoas, mas que eram você, ou nas
quais você estava presente. Você duvidou quando viu ou
as entrelinhas eram “explícitas” e óbvias demais?
Eu te mandei algumas coisas, publicadas ou não. Mas tem
muito aqui guardado, salpicado nos meus arquivos do
bloco de notas na área de trabalho. Arremedos de livros
e contos, eróticos ou não. Crônicas, sonetos e alguns
pensamentos esparsos. Coisas em que tento colocar
humor, falhando na maioria das vezes. Eu publiquei
muitas das coisas que queria te falar, but I don’t know how.
Eu sempre sinto que você me lê. Deixa a ambiguidade
acontecer. Você me leu quando nos conhecemos, quando
rolamos no chão daquele show ou nas ilegalidades no
aeroporto. Mas você não precisa estar perto para me ler.
Eu também leio você, mas prefiro não o fazer. É um
misto de desagrado e das suas reservas, sabe? Mas é claro
que você sabe. Eu queria que você me deixasse entrar.
Porque nós dois sabemos que, mesmo sem você deixar,
eu entrei, não foi? Você foi “escorregadia” desde o início.
Escorregadia, assim, feito peixes.
35
As cartas que mandei
Feito cardume que são muitos, mas também é um só.
Feito mar que é “onda que já foi”, ressaca e maresia, mas é
calmaria e paz, também.
Eu não tentei te conquistar, mesmo tendo falado que “se
você morasse perto eu tentaria de verdade”. Você me
disse que isso era tênue. Não, eu não tentei. Acho que no
fundo você também sabe. Eu fiz o oposto, e isso faz parte
de mim. Eu sinto como se você soubesse. Como se tudo
sobre mim fosse meio óbvio para você. “Quando você
conhece as pessoas, não há muitas opções.” É meio por aí.
Mas, como? “Mistério” ou ausência de coincidências?
Sabe qual é o problema?
O problema não sou eu querer você na minha garganta
ou sentir cada parte de você latejando no contato com a
minha pele. O problema não é sua boca me tirar o sono,
eu sentir falta das suas referências, da nossa identidade
ou do seu jeito de fingir que não se leva a sério, quando é
totalmente o oposto. O problema sou eu querer sua dor de
cabeça e ficar desesperado sem poder te dar corticoide.
O problema sou eu querer saber se é dipirona ou
paracetamol, ou nenhum dos dois. Se você também era
nerd, introspectiva e dedicada quando criança, ou se já
deixava o “lado B” aflorar.
36
Parte 1| Preia-mar
A fuga tão óbvia para evitar que as pessoas te conheçam.
Esses muros são tão seguros, não são? Também aprendi a
erguê-los.
O problema sou eu querer colocar o dedo na sua garganta
depois de uma noite de bebedeira e loucuras, mas
também suar frio com um termômetro marcando mais do
que deve. O problema não são as noites insones pensando
em id, ego e o caralho a quatro (ou algum trocadilho
sexual muito ruim que eu faria com essa expressão).
O problema sou eu querer cuidar de você. Ter a paz por você
ser minha, e também ficar puto por saber que nunca vai ser.
Porque esse é o certo. Nós só temos que ser de nós mesmos.
Ou, não, nada disso. Porque isso não é o ou um problema.
É solução. E o mais louco é pensar que você compartilha e
concorda com cada palavra.
Me pego pensando, tão inevitável, se nós dois realmente
nunca seremos um “nós”. Ou se, apesar do que quer
que seja, nós o seremos para sempre. Irremediável e
impossivelmente nós.
Eu estava aqui ouvindo When everything’s made to be broken,
I just want you to know who I am e precisei escrever você.
Porque é só isso mesmo. E vice-versa. Você deixa?

37
38
Parte 1| Preia-mar

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40
Parte 2| Sizígia
41
Não acredito em coincidências

A
lguns amigos tinham comentado comigo que
Brasília não tem submundo. Eu queria um
puteiro, casa de suingue, evento de BDSM.
Qualquer coisa bem trash pra aliviar a sexta
cheia que tinha tido. Era a primeira vez que eu pisava em
Brasília, e não consegui nem ver as torres do Congresso;
um puteiro era o mínimo.
Alguém me disse que ia me indicar o mais próximo
de submundo que havia em Brasília, eu já tinha perdido
as esperanças de encontrar qualquer inferninho.
Brasília tem toque de recolher; embora previsível,
eu também não sabia, e esse tal bar tinha um grande
galpão subterrâneo em que faziam festas só para os
chegados depois que fechava. Isso estou traduzindo em
carioquês, não me lembro qual foi a descrição original
que me deram.
Perto do que eu procurava, a festa era tudo, almoço
de família de domingo ou até uma missa do galo, menos
um inferninho, mas era o que tinha e ia ter que servir.
A baixista da banda era extremamente gostosa, e isso me
fez agradecer por estar ali e não em qualquer cenário
trash, como queria. Não era muito alta, bunda gigante,
jogou os longos cabelos enquanto tocava. Só pude rir do
quanto a vida é óbvia. A baixista era Elizabeth.
42
Parte 2| Sizígia
Eu sabia que Elizabeth tinha uma banda, mas não
era aquela. Era autoral, e a desse dia era cover de várias
bandas de rock famosas.
Eu já tinha visto fotos e vídeos, ela me mostrou. Também
o nome era outro. Bom, se essa era a pedida certa para o pé
na jaca do final de semana, era óbvio que Elizabeth estaria
aqui, eu não podia acusar muito as coincidências. Só eu que
não tinha suposto o óbvio.
Que coincidência é o amor saiu do vocal coordenado
com o momento em que ela me viu. Deu aquele meio
sorriso maldoso levantando a cabeça. Eu estava em
Brasília e não tinha avisado a ela. Não era bem isso, na
verdade, e ela sabia muito bem.
Eu tinha tentado vir duas vezes antes, ela me dispensou
em ambas. Em uma delas cheguei a comprar a passagem
e cancelar, inclusive. Eu pretendia avisar que estava aqui,
era claro. Mas o dia realmente tinha sido daqueles que você
não consegue nem (preencha como quiser). E meu dia de
turista só seria o domingo.
- A mulher de Brasília está aqui, não está? Sua cara.
É, eu não estava sozinho. Tinha vindo com Mire, uma
das minhas assistentes. Tentei evitar, mas era a única
que tinha disponibilidade, e eu não podia vir sozinho.
43
Não acredito em coincidências
Mire e eu tínhamos um caso. Não era um caso, ok,
era o mais próximo que tive de uma namorada em
anos, como comentavam os amigos mais próximos. Eu
não sabia que ela sabia de Elizabeth. Segundo ela, todo
mundo sabia que havia uma tal mulher de Brasília.
- Eu vou voltar pro hotel. Vou alugar outro quarto com o
cartão da empresa, tudo bem?
- Sim, eu.
- Não tem sentido dividirmos o mesmo pelo resto do
final de semana.
- Eu vou tamb.
- Não - me cortou categórica. - Você não quer ir. Está
tudo bem. Eu gostaria de estar puta pra dizer que você é
um canalha e coisas do tipo, mas seria injusto. Amanhã
conversamos.
A reação dela me fez sentir um completo canalha.
Talvez eu devesse ir atrás, mas Mire tinha razão, eu não
queria. Apesar das nem 10 vezes que estive com Elizabeth,
eu sentia como se traísse ela, não Mire. Estar com Elizabeth
era a única coisa que parecia certo e isso nunca mudou, em
circunstância alguma.
No turbilhão de pensamentos, o único que eu conseguia
distinguir era que não queria que Elizabeth tivesse me visto
com Mire. Talvez eu seja mesmo um canalha.
44
Parte 2| Sizígia
A banda já tinha parado de tocar há um tempo quando
fui pra fila pagar minha comanda. A covardia me levou
até ali. Não falar com Elizabeth seria falta de educação,
mas não sei bem se a palavra “educação” cabe nessas
situações, ou se tudo fica naquele limbo entre as coisas
que sentimos e as que temos que fingir que não sentimos.
Eu não queria ser inconveniente de ir até ela
arrumando as coisas no palco. Que se foda, saí da fila.
Talvez ela tivesse tido pensamentos semelhantes,
porque, na hora em que virei, vinha em minha direção.

- Não ia me avisar que está em Brasília?


- Eu estou no bar com sua banda tocando. Bem maníaco,
não? - O tom saiu mais sarcástico do que eu pretendia.
- Você não sabia que ia me encontrar. E essa nem é
minha banda, você sabe.
- Pois é - suspirei. - Coincidência?
- Você está muito ocupado. - É, Elizabeth tinha me visto
com Mire. - Tudo bem, eu também tenho...
- Eu não quero saber.
- Bom - Elizabeth ergueu a sobrancelha esquerda - você
já entendeu o recado, de qualquer forma.
- Eu vim a trabalho. Eu ia te avisar, é claro que eu ia.
Você tem alguma dúvida?
- Não sei, você é mistério. - Cínica.
45
Não acredito em coincidências
- Está ocupada agora? Ainda vai tocar?
- Não.
- Bebe uma comigo?
Elizabeth respirou fundo, como se ponderasse o que
ia falar; só balançou a cabeça e abriu um sorriso que me
desarmou inteiro. Pegou minha mão e me puxou mais pra
dentro do bar. Senti que, mesmo em Brasília, suei. Essas
entrelinhas são foda. As porras das entrelinhas. Acho que
as mesmas entrelinhas explicam a bizarrice que foi nosso
último encontro. Como se algum não tivesse sido assim.
Foram 3 vezes seguidas na mesma noite, em
diferentes bares de Botafogo. Nos encontramos por
acaso em todas elas, eu nem sabia que Elizabeth estava
no Rio. Na primeira ela veio toda dada, me beijando
como posse. Cedi, é claro. Se existe essa ideia de alguém
ter alguém, ela me tem, fato consumado.
Na segunda senti se esquivar quando me aproximei.
Recuei, como se fosse indiferente. Na terceira nenhum
dos dois fez nada, nos cumprimentamos como
conhecidos e só, no máximo trocamos alguns olhares
neutros durante a noite.
Olhares que se cruzaram por acaso, pelo menos da
minha parte. Eu não queria ver aquilo que não queria ver.
46
Parte 2| Sizígia
Teve uma quarta, aliás. Mas não foi no mesmo dia.
Nem em Botafogo. Fui atender a um cliente no baixo
Gávea. Elizabeth estava lá, no bar da frente. Nunca soube
se estava com alguém, não perguntei. Eu desmarquei
com o cliente, mesmo já estando lá. Eu desmarquei todos
os clientes daquela semana.
Elizabeth foi pra minha casa comigo, uma terça ou
quarta. Ficou até domingo, quando a levei ao aeroporto,
deixando um cheiro de leveza e aquela sensação de agora
fodeu que te faz respirar fundo em aceitação e ouvir
músicas que só deviam tocar em bares de caraoquê.
Tinha se passado só um mês. Um mês e uma semana,
na verdade, mas só agora eu me dava conta de que
pareceu muito, muito mais. Eu tinha clareza dos meus
sentimentos por ela. Mas sentir Elizabeth, de novo, aqui,
fez tudo vir a cavalo. E de uma coisa eu tive certeza.
Eu não ia continuar com o gosto na boca dos “como
seria” e “e se”. Eu ia pagar pra ver.

47
As cartas
que mandei
48
Ontem
àquele , assim
você m bar, o que ch
na por e para s ecos e
apreen ta. Ec lisara de
dem p os, refl m
As pes or aí. exos
A não soas qu
que co entend e amam
o lado nhecem em o l seu l
plana A. Tã seu la ado B.
se sen s e óbvi o caret do B d A
nessa te sozin as, tod a. Elas et
adian jornada ho. Va as elas, sã
seus mtam su que é gando e vo
evento uitos c a popul a vida. sozin
alegor s no me onvites aridad Não
um pe ias em smo di para i e ou
você é rson de pedido a e no número
odeie nada d você q s de fo mesmo s
anteri a repeti o que ue tud tos que ho
or. E ção pr você é. o que de
Aconte toda a onomi E tal diz d
compr ce que cacofo nal na vez voc
talvez eenda o não há nia. sente
Vago . Const u mini nada nç
Risos epelas r ato ess mamen no mun
são ig vozes uas coma fatal te tent do que
mim. uais, el passam algum realid e. Os l t
es são em fl a beb ade e ivro
Há mu todos ashes ida na vago
do que itos m iguais de cor49 mão.
huma a obvi undos m , repit . Eles
pe na eda a o par
As cartas que mandei
Analgia
Ontem, assim que cheguei àquele bar, os ecos de você
me paralisaram na porta. Ecos, reflexos tolos que se
apreendem por aí.
As pessoas que amam seu lado A não entendem o lado
B. As que conhecem seu lado B detestam o lado A. Tão
careta. Elas são planas e óbvias, todas elas, e você se sente
sozinho. Vagando sozinho nessa jornada que é a vida.
Não adiantam sua popularidade ou seus muitos convites
para inúmeros eventos no mesmo dia e no mesmo
horário, alegorias em pedidos de fotos que devotam um
personagem de você que tudo que diz de você é nada do
que você é. E talvez você odeie a repetição pronominal
na sentença anterior. E toda a cacofonia.
Acontece que não há nada no mundo que te compreenda
ou minimamente tente. Os livros, talvez. Constato essa
fatal realidade e vago. Vago pelas ruas com alguma bebida
na mão. Risos e vozes passam em flashes de cor. Eles são
iguais, eles são todos iguais, repito para mim.
Há muitos mundos mais do que a obviedade humana
permite viver, e você só vai conseguir vivê-los assim, em
fronteiras, sozinho.
50
Parte 2| Sizígia
Porque foi esse o decreto. Constato, apenas constato.
E vago. São rostos e estardalhaços. São também
possibilidades e propostas. Mas nada te interessa. E
talvez ler este texto te irrite, como tudo que escrevo,
dado meu pretenso sólido conhecimento de você, mas
no final talvez veja que só falo de mim.
Constato, é só o que faço, que tempos sombrios se dissipam,
mas a massa amorfa do desinteresse é perene. E, no final
das contas, sua efusão excessiva revela pura analgia.
Pensei que morar em um bairro residencial e bucólico
me desse paz ou, no Centro da cidade, me torturasse
com excessos. Bobagem. Sou inerte, sou anestesiado,
sou completamente indiferente. Dizem que isso é bom,
quem não ama também não sente dor. Falácia. Vago e
constato que as multidões de vazios só fazem a cada dia
mais me sufocar o peito.
Todos esses flashes me vieram naquele único flash, você
estufando o peito com seu sorriso torto tão artificial
para uma foto de felicidades alheias e vulgares, para
toda uma cena que te constitui e, no entanto, cada vez
menos é você. Ou me engano?
Senti mais do mesmo: o dilaceramento de viver com
alma, uma sutileza que poderíamos compartilhar. Mas
eu odeio condicionais. Fui embora.
51
As cartas que mandei
Quem dera fosse

52
Parte 2| Sizígia
Com gelo e limão
Quando Cupido foi flechado por engano, perturbado
com a beleza de Psiquê, não esperava amar alguém mais
bonito que a própria beleza. Ele não esperava amar,
aliás; toda a vida ele foi só isto: instrumento.
Caminho e processo, mas não fim. Psiquê não esperava
ser amada pelo próprio amor. Ela só amava o amor, e ele
é uma ideia. Era algo estrutural — sempre igual —, não
estava aplicado em uma pessoa — funcional. Talvez você
estivesse bêbado demais e não vá lembrar minimamente
por que faço essa referência a estrutura e função.
Mas meu ponto é que eles não sabiam que haveria
um depois. Nós também não sabemos, porque só
conhecemos o processo. E com o que nós precisamos
lidar é sempre com o depois. A vida, apesar de processo,
é destino e desfecho todos os dias.
É o veredito diário da rotina. Mutável. Mutável, sim. A
cada novo momento, a cada novo acontecimento. Todo o
resto já foi, e o agora recria novos mundos. Tudo muda.
E todo o processo, no entanto, é também sempre isto:
desfecho. Mesmo do que fica latente. São desfechos todo
o tempo.
53
As cartas que mandei
Cupido e Psiquê pararam na maldade dos deuses. E isso
tudo é besteira para quem precisa criar histórias para
dar sentido ao mundo. Mas as próprias palavras já são
mitos por si só.
Nós paramos na maldade do tempo (sim, a referência
é essa mesmo). Os dois, tanto Cupido quanto Psiquê,
sempre foram plenos. Mundos inteiros que se
complementam, ou se transbordam. Mas não parece
fazer sentido os dois separados, mesmo que amor não
seja só beleza. Mesmo que sentimentos escuros sejam
também belos, e no final tudo isso seja redundante
de algum jeito. É que amor e beleza, como nós, são
unheimlich. Unheimlich como o toque em um sonho que
você teve, como o toque no meio de uma rua que eu
jamais vou saber qual é.
Unheimlich. Sim, eu tive que procurar no Google essa
palavra. (Ou “esta”, mais bonito e mais certo. Digo “mais
certo” porque até o certo é corrente, opinião. Corrente.
Gosto desses muitos sentidos. Mas as correntes vou
deixar para o decorrer do texto.)
Eu não sabia como a escrevia. Você acha banal eu ter
conhecido essa ideia na fila de um McDonald’s de
shopping e não em uma noite na taverna? Ou será que
todo o mistério da vida se desenrola justamente nisto:
54
Parte 2| Sizígia
costura de situações não propícias, em retalhos e fios
de labirinto perdidos. É que nossa familiaridade é
totalmente unheimlich. Nós somos tão, tão opostos.
Tanto que parecemos o mesmo.
Gêmeos, como todos falam. (Mas os gêmeos do signo
são justamente os opostos, não é isso?) Apesar de essa
semelhança, para nós, não estar nada na aparência.
Nem no cabelo, nem no batom. Nem no nariz, nem
nas mãos. É semelhança na nossa ebulição e na nossa
quietude; mas mesmo elas se desencontram. Eu fervo
onde você é paz. Sou calmaria onde você é excesso.
Você é precisão forçadamente transformada em caos.
Perda e desencontro de propósito(s). Eu sou tentativa
(frequentemente frustrada) de colocar a bagunça na
linha. Somos tudo errado.
Tudo errado na e para a vida. (E em certa medida até
acho que seja esse o certo.) Tudo errado um para o
outro. Somos o nunca daríamos certo. Somos o nunca
ficaríamos juntos.
Somos também o teríamos o mundo juntos. Somos o nos
entenderíamos em um nível inimaginável juntos. É, é isso.
Tudo que somos é isto: condicionais. Sempre vai ser você,
e quero acreditar que sempre serei eu de algum jeito.

55
As cartas que mandei
(Você mesmo falou que tô há tempos tentando.) E, no
entanto, nunca seremos. Não acho que tenhamos mãos
atadas. Sei que temos escolhas; por um lado, você tem mais.
Por outro, eu. No final das contas, estamos nivelados, é o
que penso.
Mas não as faremos, não é? Nós nunca escolheremos.
Eu não posso culpar você pelo que eu também não vou
fazer. Na verdade, eu entendo. E isso não representa uma
falta. Sobre você, não tenho faltas. Sobre você não tenho
nem sobras. Porque no final das contas, mesmo tão torto
desde sempre e o tempo todo, enviesado e vacilante,
tudo se encaixa, tudo faz sentido. Unheimlich.
Talvez você nunca leia isto, e minha previsão, como
falei para você, esteja totalmente certa. Só foi no timing
errado. Maldito timing. Odeio bem essa palavra, e disso
você tem culpa, sim. Não é sem dor que escrevo isto, mas
fazer o quê? Talvez você leia, nada fale, ou sequer goste.
Talvez nosso contato só vá acontecer novamente quando
eu não suportar mais ter você só nas minhas linhas
e te mandar uma mensagem de um quarto de hotel
em outro estado, inundada de festejos, sorrisos e toda
a falsa alegria do mundo. Digo falsa porque ela está
à minha disposição o tempo todo. Mas como estaria
essencialmente dentro de mim? Me fala.
56
Parte 2| Sizígia
É um pouco do que falo sobre morar no Rio de Janeiro.
É impossível ser infeliz no Rio de Janeiro. Estar aqui
é uma das poucas (em muitos momentos foi a única)
coisas que me dão aquela paz de estar em casa. Aquela
paz de que viver faz sentido. Ver e sentir o Rio. Estar
aqui, respirando o Rio de Janeiro. Respirar o Rio de
Janeiro é minha melhor fuga para todas as coisas. E por
isso eu precisava estar aqui, entende? É meu decreto: é
impossível ser infeliz no Rio de Janeiro. E, no entanto.
Mas, sabe, não é infelicidade. Angústia, amargura ou a
corrente de filiação que quiser usar aqui. É só cinza. A
cor mesmo. Cinza e nenhum tom. É um pouco do que
uma amiga escreveu sobre nós dois, usando a metáfora
da morfina. Quando a dor é interrompida, e volta, parece
que dói mais. Não.
Ela sempre vai ser lancinante do mesmo jeito. Só que
depois que se experimenta a analgia, você percebe tudo
de uma outra forma. Ela foi bem precisa, você é meio
minha morfina. Meio. Ah, quem eu quero enganar, não é?
É que você é cor em coisas banais só porque seu cheiro
tá me invadindo tão perto. Bares de quinta, microfones
de caraoquê estourados, conversas com mendigos de
outros países e boates que não nos deixam entrar não
são nada de extraordinário.
57
As cartas que mandei
Mas como não teriam beleza? A nossa percepção está
além da materialidade das coisas. É claro que isso é
óbvio. Mas não é óbvio ter saudade de uma bebida
barata. De uma espera na fila. Não é óbvio amar uma
cicatriz mais do que todas as tatuagens. Ela também
é uma tatuagem. Uma que aconteceu de uma forma
que não escolhi, só aconteceu e foi. Assim como você.
Entende por que amo tanto essa cicatriz? Por que não foi
tanto brincadeira dizer que ainda tenho o outro lado das
costas “livre”?
É o potencial de prazer e felicidade da dor. Ou talvez
eu não queira certas liberdades. Ou queira, mas elas só
parecerão livres de verdade se forem com você. Você me
disse exatamente isso, mas de um jeito completamente
diferente. Mas, no fundo, foi isso. Só é liberdade de verdade
se for com você junto. Isso eu que digo, porque é tudo que
queima dentro de mim. Queima agora. Mas não de agora.
Você gosta de metáforas complexas, e ondas que já
foram parecem banais. Mas o que tentei te dizer, mesmo
com o álcool excessivo em mim me impedindo, é que ela
já é perfeita, porque, apesar de você ser todo água, em
Brasília não tem mar. Apesar de eu não ser nada água, o
Rio de Janeiro é só mar. E então eu fui mesmo. Corrente.

58
Parte 2| Sizígia
Mesmo que de primeira você que tenha ido, em um
sentido material. Fui, assim, sem nunca nem ter existido.
Como você, que está o tempo todo em tudo que vejo,
menos em mim. É claro que você está em mim. O tempo
todo. E, no entanto. Você entende, não entende?
Acho que só você entende. É um pouco daquilo do “essas
conversas só posso ter com você”. Isso é tão falso. É claro
que podemos ter qualquer conversa com qualquer um.
Mas é artificial quando não há sintonia. E nunca há, não
é mesmo?
É que apesar de você gostar dos vieses, dos julgamentos
tortos (ainda que às vezes te incomodem em mensagens
de pessoas recalcadas que você recebe), da dúvida e da
imprecisão, ainda assim é bom ser compreendido. Dá
uma sensação de estar em casa, de menos solidão nos
vazios do mundo. É saber que existe algum outro que
somos nós. E de algum nós que somos o outro. Sim,
“algum” mesmo, porque nós somos sempre um plural.
Unheimlich. De novo.
Eu sei como é bom encontrar em mim um pouco de
parceria sobre as impressões que você tem da vida. Sei
porque tenho o mesmo com você. E isso é um pouco
de tudo que somos. Igualzinho àquela onda que já foi.
Porque isso, mesmo ficando, é passagem; é corrente.
59
As cartas que mandei
Água sem mar, e um ruído presente. Ruído, é isso. Águas
têm sua beleza, elas não precisam ser mar para ser
plenas. Mas não é a mesma coisa, não é mesmo? Claro
que não é. Eu sei. E sei também que acabei com toda a
magia esmiuçando uma metáfora.
É minha missão instrumental e processual de Cupido:
destituir a magia das coisas, ainda que aparentemente
soe como se fosse o oposto. É que no final das contas
dá no mesmo: tudo é uma forma de destruir. Mas são
poucos os que realmente experimentaram a dor para
compreender isso, como aquela diferença entre Álvares
de Azevedo e Augusto dos Anjos que te fez “migrar”
da alegoria da funcionalidade para as profundezas da
estrutura.
E os dois têm as mesmas iniciais. E os dois foram, no
meio de estilos consagrados, incompreendidos em sua
particularidade. E no fundo é tudo sempre o mesmo.
E isso tem seu lado literal. E, claro, muitas metáforas.
Pense em todas. Estou pensando nelas agora, enquanto
escrevo. E tentando organizá-las, um pouco.
É, você gosta de metáforas. E nunca está satisfeito
com elas. Nunca parecem alegóricas o suficiente. Eu
sou vulgar. Não que eu não goste de metáforas, que
eventualmente não as faça.
60
Parte 2| Sizígia
Mas às vezes só preciso disto: escrever de um jeito mais
cru, com esse caráter quase crônica, quase documental,
quase confessional.
Mas, sabe, não acho que isso se distancie tanto das
metáforas. Pelo contrário, acho que o caráter “relato”
é totalmente metafórico. E não é só a superfície óbvia
da subjetividade. Por mais que eu escreva aqui coisas
tão incomodamente dadas, só você, mais ninguém, as
entende em totalidade.
É que às vezes o que achamos que é a realidade é a maior
de todas as metáforas. O modo como a vivemos e a
entendemos. Mais do que isso, como a compartilhamos.
Ou a atribuímos naquela flechada tão instrumental do
Cupido. Se só nós dois sabemos o sentido atribuído, então…
O eterno myse in abîme do sentido. Mas que quando nos
encontramos também ele parece um pouco “achado” e
menos inalcançável, não é? Bom, é assim para mim.
Foram tantas coisas que me aconteceram que não teria
como não virarem texto, e você mesmo escolheu o título
— que, não, claro que não é esse —, mas falhei em fazer
humor. Ainda vou fazer, é claro, isso é muito meu. E
sempre acho que merecemos.
Mas não por agora. Não de primeira. Porque foi tudo
uma realidade tão paralela, que para mim, ao mesmo
61
As cartas que mandei
tempo, parece que nada aconteceu. Você também sente
isso, que nada aconteceu?
Eu continuo aqui. Cinza. Parece que só acordei e já
era o outro dia. Tudo igual. E todo o resto são névoa e
lembrança; o que é um pleonasmo, só pra falar bonito.
Tudo se dispersa como fumaça da respiração em uma
madrugada de temperatura baixa.
É recente, mas muito, muito distante. E essa distância
atinge tantos níveis e sentidos. Igualzinho a esse texto,
só um reflexo muito óbvio de mim: muita informação
em pouco espaço.
Excessos.
E, no entanto, um vazio constante. Aquela tentativa
gêmea de segurar uma névoa e de significar uma
metáfora; de ter uma flecha material, que é mitológica;
de beber você. Mas também você é o que passa e o que
fica. Corrente. Unheimlich.

62
Parte 2| Sizígia
A porta fechada
Foi entreaberta que a deixei. Por que agora a porta parece
trancada? Eu tenho tantas chaves aqui comigo... por
que nenhuma delas consegue abrir de novo? Ela estava
escancarada há tão pouco tempo... eu tenho certeza.
Agora eu ouvia uma música sincopada, no escuro, daquele
artista que você também gosta. Bebia qualquer coisa
sozinha andando pela casa, deixando meu olhar vagar e
se perder na paisagem distante do outro lado da varanda.
Entrelinhas que envolvem um chamado perdido da lua...
Foi quando me deparei com a porta fechada. O corte
definitivo que me separava daquele outro universo
marcado na fresta de luz. Bem ali do lado.
Encostei de costas na porta, tudo em mim era torpor.
Deixei o corpo ceder e sentei no chão, encostada ali,
ouvindo, mas sem conseguir discernir o que se passava
do outro lado. Tudo eram só imagens distorcidas,
lacunas do desconhecimento que minha mente
preenchia. Eram ruídos e cenas instantaneamente
associadas. Mas tudo, tudo tão deturpado...
É que, ao contrário do que diz a música, você já me
acertou à queima-roupa. 63
pe it o
co v
S
ar o bl i
s g p u
R ar em rda
a
n gr g ua
sa x ar
B a i
me inunda
tudo em mim trem
e convulsiona, e se,
derrama, e grita e
que te ama
e trégua
64
H o j e s ó p r e c i s o
s a b e q u e
vocêsou anestesiado
Somos tudo err
ado
de você
ainda bebo
esse homem
o As cartas que mandei
65
As cartas que mandei
Nós só temos o agora
Quis me enraizar em você, armar abrigo. Mas somos
asas em correntezas distintas. Fôlegos de céus que se
dispersam.
No improvável reconhecimento, estranhos.
Familiaridade arredia. E na cisão ainda somos um.
O mesmo. Prazos, calendários e normas tácitas nos
limitam, e só temos ruínas como certeza. O amanhã nos
foi roubado. Não asfaltamos a estrada. Foi esse o veredito
desde que suores anônimos e álcool nos levaram à
mesma boca.
Mas no furto finito do seu toque, tenho toda a
eternidade, e o tempo me pertence. Sou integralmente
seu por direito. Da névoa que me escapa, o mundo é
vertido em posse nas minhas mãos. E se demora. E
perpassa a mentira do tempo. E sua voz em mim recria
nossa lógica particular.
Nós só temos o agora. Todo o resto é ilusão vestida de
coincidência. Então me inunde de você. Me transborde
com todos os fugidios agoras.
Eles são nossos.
66
Parte 2| Sizígia
Consignação
Peguei você emprestado. Não devolvi, me tomaram
de assalto. Ou a assaltante era eu, querendo tornar
residente o que era passagem. Não sei em que golpe de
bom grado a vida me entregou você naquele sábado;
entregou para uso que, eu não sabia, era temporário.
Mas prefiro pensar que a culpa foi minha. Que a vida
foi generosa e eu não soube ser grata, que de algum
jeito tudo poderia ter sido tão diferente. Que, sabe, você
poderia não ter sido só um empréstimo, mas uma parte
do que eu sou, porque foi meio isso que ficou agora.
Aconteceu, e o que eu faço a respeito? Mesmo você não
fazendo parte de jeito nenhum, mesmo eu tendo a maldita
sensação de caso encerrado e de que nunca mais vou
esbarrar com em de para etc. você de novo.
Peguei você emprestado. Já me tomaram você de volta;
assim, sujeito indeterminado, porque filho feio não
tem pai. E quem acha bonito se sentir desfalcado? O
empréstimo já venceu, perdi meu prazo, você já foi.
E mesmo a consignação já tendo encerrado e meu nome
sequer fazer mais parte dos registros e das planilhas de
Excel, não sei quando vou conseguir devolver você de
verdade. 67
As cartas que mandei
s
o r q u e s ão minha a
c o n fi s s õ es, sim, p Elas não são par
São c
.
onstantes ê. Aqui. Em mim.
r a ç õ e s
decla e l a s são voc ber.
r q u e
você, po . E v o c ê vai sa
Em todo
lugar éc n ic o, e m uma
t
tr a d u ç ã o de livro a vai ler, em um
Em uma c
i v r o q u e você nun rte improvável.
l o
orelha de mico. Em todo sup o, mesmo sem
adê cas
artigo ac rrar, assim, por a vai saber.
sba ocê
Se você e quem escreveu, v im, eu
ic a ç ã o d e en d e ria. S
ind t
n cia q u e só você en e você um dia
fer ê ei s
Aquela re u mostrar, eu não s saber que eu fiz,
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fiz. Eu nã r com ela. Pode nun -la torna você
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68
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Parte 2| Sizígia
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Po form
alguma

69
As cartas que mandei
Hoje só preciso falar que te amo
Tem dias que a gente pisa em ovos. Finge indiferença,
ignora a mensagem, não retribui o olhar. Mas nem
sempre dá pra fingir que é de ferro. Eu sou de carne
mesmo, e tudo em mim treme, e convulsiona, e se
derrama, e grita que te ama.
Então, só por hoje, só por hoje mesmo, eu tô aqui pra
falar que te amo. E foda-se.
A gente tenta manter a frieza, porque aprendeu que
é assim que tem que ser, assim é o certo. Não dá pra
ficar metendo bronca de amor todos os dias, mandando
mensagem e postando música melosa nas redes sociais,
que você sabe que é pra você, porque sempre é você.
Tem dias que a gente realmente nem sente, aliás.
E não é culpa de um estado de espírito melhor, olhares
correspondidos na balada, entorpecentes de melhor
qualidade ou músicas que transportam pra estados
mentais melhores. Tem dias que a gente simplesmente
não sente, e é isso.
Mas tem aqueles dias, dias como hoje, que você já acorda
e pensa “fodeu”.
70
Parte 2| Sizígia
Tem dias que a gente precisa de um ombro amigo ou de
uma barra de chocolate gigante. Tem dias que a gente
precisa de um carinho ou da nossa música preferida bem
alta.
Tem dias que a gente só precisa da gente, de respirar
sozinho, de sair sozinho, de se curtir. E tem dias como
hoje.
Hoje, eu preciso falar que te amo. Rasgar o peito e
sangrar em público. Baixar guarda e reservas, como se
não houvesse consequências, como se não houvesse o
segundo seguinte já batendo o arrependimento. Mas
fazer o quê se é isso, se eu sei e você sabe?
Tem dias que a gente tem mesmo que se expor e não se
importar. Tem dias, como hoje, que a gente só tem que
pagar a conta, com direito a 10%.
Hoje só preciso falar que te amo. E foda-se.

71
Parte 3| Ressaca
72
73
Não acredito em coincidências

E
u já tinha perdido as contas de quantas vezes
me mudei Brasília — Rio nos últimos meses,
se é que passar um mês em cada canto podia
ser considerado mudança. Os funcionários
das companhias aéreas já me conheciam e, previsível e
metódico que sou, sabiam o que eu pedia nas viagens, e
as milhas não só pagavam as viagens, como já estavam
acumuladas.
Não ter conseguido alugar meu apartamento no Rio
de Janeiro, o que naqueles meses parecia um tormento,
agora me dava o falso conforto de saber que eu ainda
tinha casa. Casa. Em algumas dessas vindas, eu só
buscava essa sensação, ignorando que há muito eu tinha
perdido isso em qualquer lugar em que estivesse. Em
outras, eu deliberadamente conseguia assumir para mim
mesmo que só estava fugindo de Elizabeth.
Agora eu olhava da janela do avião Brasília se
afastando, e a infinitude que é Minas Gerais no meio
desse caminho, por não sei qual milésima vez. Abri o
notebook pra conferir o arquivo da tese. Queria sentir
minha volta para o Rio de Janeiro simplesmente como
a necessidade de entregar a tese, mas como podia me
enganar sem uma passagem de volta?

74
Parte 3| Ressaca
O bloco de notas estava aberto naquela maldita
mensagem de aniversário. Na verdade, a única coisa que
eu tinha escrito era o desfecho: “É que eu me encontro
na sua bagunça.” Como se precisasse de muito mais
do que isso pra dar o recado. Como se isso não fosse
completamente suficiente para definir tudo. O que quer
que esse “tudo” fosse.
Fechei, excluí o arquivo. As fotos e as palavras não
ditas. Excluí também os meus planos. Meu foco era ir
à universidade entregar a versão final da tese, apenas
isso. As imposições do cotidiano sempre te tiram de
determinados lugares mentais, o que deveria ser bom,
mas pra mim só reforça o quanto a vida é ingrata.
Assim que desci do avião, nariz entupido, reação
típica da troca de clima Brasília-Rio, meu coração parou.
Era ela? Não, claro que não. Quilômetros nos separam
e ainda quê. Demorei pra me convencer de que não
era ela. Não podia, não havia fio de sentido. (E em tudo
o que nunca fomos, há algum?) Mas, puta que pariu,
parecia. Mais magra, mas com a mesma altura, o mesmo
tipo de óculos, pinta na coxa, até o mesmo maldito jeito
de deixar o cabelo desleixado meio preso. E. E até o jeito
de andar. E de virar o rosto revirando os olhos. Os lábios
entreabertos. E. Os punhos pareciam. E.
75
Não acredito em coincidências
Antes fosse “só” isso. A mulher estava com um
vestido preto e um sobretudo vinho. A exata mesma
roupa que Elizabeth estava da última vez em que a vi,
e impliquei: “Ainda bem que você veio do jeito que eu
gosto, bem trevosa.”
Tive um ímpeto de fazer uma foto, queria mostrar pra
ela. Mas como sou idiota! Me veio na hora o superego me
puxando para a realidade. O que eu ia falar? “Parei uma
desconhecida na rua e pedi pra fazer uma foto porque
ela parece você, está até com a mesma roupa que você
estava usando aquele dia”? Não, definitivamente. Meu id
já tinha me traído muito nos últimos dias.
Ir à universidade, arrumar o apartamento fechado,
seguir os caminhos mecânicos dos labirintos da existência.
A universidade e suas paredes geladas eram denotação do
que eu sentia. A efusão do calor do verão carioca — ou dos
cumprimentos ainda mais acalorados dos colegas que não
me viam já há algum tempo — não me atingia. Ainda que,
já adaptado ao clima de Brasília, me massacrasse de suor e
desconforto, tudo em mim era inerte.
Dizem que você só cura uma dor com uma nova.
Nunca segui essa crença, isso não existe. Na verdade,
você só percebe que estava curado da dor antiga
quando a nova se instala. Nos acostumamos à dor e a
76
Parte 3| Ressaca
reforçamos. Você só vai sair dali quando algo ou alguém
tirar você do lugar; geralmente, de uma forma ruim. Daí
esse endosso de que uma dor cura a outra.
Definitivamente, isso não existe. Schopenhauer tinha
razão. Eles sempre têm razão. Todos eles. É a dor que
te faz experimentar o real. É ela que te faz reorganizar
o seu caos, rever os seus labirintos. Perceber onde
você realmente está, se encontrando naquela bagunça.
Bagunça, mas que ironia.
Alguns colegas me convidaram para uma cerveja dessas
de final de tarde e supostas felicidades. Também a cerveja
me descia agora como um cumprimento de protocolos.
Recusei a Eisenbahn Dunkel que me ofereceram. E
me veio Elizabeth e sua expressão desconfiada dizendo
que não acredita em coincidências me trancando o
peito. Era a cerveja preferida de Elizabeth. Até aí tudo
bem, qualquer um que esteja familiarizado com a
mínima psicologia de banca de jornal sabe que a gente
se sensibiliza pra reparar em coisas em que já pensa, o
que nos leva a achar que o universo está conspirando
e enviando sinais. O que não quer dizer que não dói.
Mais ainda pelo simples fato de termos bebido juntos a
bendita Dunkel, da última vez, no deck do Lago Sul.

77
Não acredito em coincidências
- Às vezes eu penso em largar tudo e ir pro Rio ficar com
você - Elizabeth mandou do nada, depois de um silêncio
em que só nos olhávamos. O silêncio invasivo de Brasília.
- Já comentei isso várias vezes com alguns amigos.
Ela sabia que eu tinha ido pra Brasília por causa dela,
talvez só não acreditasse, mas a verdade era essa. Tenho
uma startup que me faz viajar muito a trabalho, mas
eu não precisaria me mudar, muito menos pra Brasília,
onde eu ainda nem tinha negócios, se não quisesse. Mas
eu sabia que aquilo que ela falava era da boca pra fora,
devaneios de quem ainda não se encontrou.

- Eu tô aqui. Em todo caso, ainda tenho meu


apartamento no Rio. - Levantei a cerveja como um
brinde. Eu sabia que tinha dado a resposta errada. Mas
nem eu mesmo podia exigir muito de mim depois de
uma porrada dessas. Só tentei devolver o tom frívolo
que Elizabeth gostava de fingir ser seu jeito de encarar a
vida. Que contraste do caralho com a realidade.
- Nenhum de nós dois está aqui.
- A gente nunca conversou sobre isso pessoalmente.
Quer fazer isso agora?

78
Parte 3| Ressaca
Elizabeth meneou a cabeça. Se arrependeu daquele
lapso, é claro. O céu mais bonito do país guardou as
nossas questões, mas nem ele foi capaz de as dissolver.
A lembrança veio como uma dor aguda, cruel
contraponto com o que me esperaria dali em diante. De
Elizabeth, durante quatro meses que passaram muito
mais arrastados do que o que esperamos do tempo que
convencionamos tratar como real, só tive o silêncio.
Até hoje.
Aqui, organizando uns papéis no escritório, me
preparando pra ficar uns tempos em São Paulo a
trabalho, desço atrasado pra ver se dá tempo de comer
alguma coisa, e ela está aqui.
Não era miragem, ilusão, devaneio. Era ela. Elizabeth. No
Rio de Janeiro. Na porta da minha empresa. Com a mesma
porra de vestido preto e o sobretudo vinho jogado de lado na
bolsa.

79
As cartas
que mandei
80
A típi
me in ca agon
em umvade se ia que
a mesm a únic tradu
a nece a e semz
É imp ssidad pre
a colo ulso o e: esc
que há car tud que me
tangen meses o no p obrig
em ou ciando venho apel, c
linhas tros est em ou represao
Princi . Como ilos, emtros tem n
você. palmen se nã outra a
te, como fossem s
Mas o o se n mi
meu p nó que ão fos
guerra eito me agora
receios entre mostr trança
bandei e nece ego, ex a o qua em re
que ag ra bra ssidade pectati nto ess de
cedo a ora est nca. E s preci vas, des a
o que endo, a ban sa de u ejos
Eu me tenho dentro deira b ma
todo e ntiria evitad de m ranca
vezes. sse tem se disse o. Escreivm, é est
na ma Mas eu po, é cl sse que er, exp
só em ioria, fugi e aro. E não t l
não m toda m com cer m toda u fiz. e escrev
ais qu inha v teza. s. Ou Eu fiz i
E fiz e três. ida, o (Vacil pelo m inú
tingin isso mu ) u talve ei… u enos
entrel do bem ito bem z dua 81ma vez
que só inha in de lev , apen s, mas
pe evi e a as
As cartas que mandei
Ponto e vírgula
A típica agonia que me invade se traduz em uma única e
sempre a mesma necessidade: escrever.
É impulso o que me obriga a colocar tudo no papel,
coisas que há meses venho represando, tangenciando
em outros temas, em outros estilos, em outras linhas.
Como se não fossem minhas. Principalmente, como se
não fossem você.
Mas o nó que agora trança em rede meu peito me
mostra o quanto essa guerra entre ego, expectativas,
desejos, receios e necessidades precisa de uma bandeira
branca. E a bandeira branca que agora estendo, dentro
de mim, é esta: cedo ao que tenho evitado. Escrever,
explicitamente, você.
Eu mentiria se dissesse que não te escrevi todo esse
tempo, é claro. Eu fiz. Eu fiz inúmeras vezes. Mas eu
fugi em todas. Ou pelo menos na maioria, com certeza.
(Vacilei… uma vez só em toda minha vida, ou talvez
duas, mas não mais que três.)

82
Parte 3| Ressaca
E fiz isso muito bem, apenas tingindo bem de leve aquela
entrelinha inevitável, que só percebo depois que reli
umas quatro vezes o que incontrolavelmente sai dos
meus dedos: você.
Tudo o que foi mais explícito, guardei. Guardei porque
assim calo. Guardei porque assim vira névoa, vira
dispersão, vira miragem. E porque, fundamentalmente,
te escrevo pra mim.
Eu insisto em pensar que é só isso mesmo, sombras,
embora a cada arrepio trocado nos pelos eriçados,
eu constate que não. Em um mundo de peças tão
irregulares e perdidas, você é oásis. É a respiração
que entra leve mesmo no ar rarefeito; e isso é
metaforicamente tão forte, que é também literal. Você é
minha lacuna de trégua de todas as coisas.
Então te escrevo agora. Baixando guarda e reservas.
Abrindo o jogo, portas, janelas, escancarando a porra
toda. De novo, e de novo, e de novo, e sempre.
Te escrevo não porque eu esteja sentindo seu cheiro
debaixo do céu estrelado mais bonito desse país
encarando seus olhos de vírgula. Alternando entre fugir
e me permitir me perder. Seu rosto apoiado nas mãos
perenemente marcado em mim. Seu toque que me
redesenha. Você reacendendo cicatriz.
83
As cartas que mandei
Te escrevo porque preciso. Te escrevo porque calar me
dói mais do que todas as nossas intuições, impressões e
(des)crenças em coincidências.
Sou toda imersão no acaso, e isso faz parte do meu
fatalismo. Você é fé. Você é a fé que eu prego, que eu
persigo, que eu materializo. Mas que essencialmente
não me constitui. Anda na minha busca paralela, a
lateralidade que, próxima, não me permite alcançar.
Como você, a fé somente me tangencia.
Sabe, certa vez me disseram que o que aproxima as
pessoas são as semelhanças, mas são as diferenças que as
fazem ficar. Isso faz um pouco de sentido pra mim, não é
à toa que aqui permaneço, crio raízes.
Raízes que crescem em solo infértil, despreparado,
arredio e repelente. Por isso te escrevo. Escrever é a
única maneira possível de nos fazer frutificar.
Acontece que o que foi feito para ser seco, como deserto
em altitude, não há de permitir brotar flor.

84
Parte 3| Ressaca
Madrugadas se conjugam
no imperativo
Aquele dia na sua casa, quando te pedi pra me ajudar a
escrever, eu te disse que madrugadas se conjugam no
imperativo.
Hoje, aqui, vendo a cidade que passa em câmera lenta da
minha janela, penso no quanto tantas coisas que falamos
e vivemos só fazem sentido depois.
Aquelas coisas que só sentimos de fato depois que
passam: a falta, a convicção, o peso da responsabilidade
do tempo, o pensamento no outro.
Essas madrugadas, conjugadas no imperativo, em que
você está aí, perdida nas linhas julgando se particípio
ou gerúndio vão fazer seu leitor ir procurar seu nome
na página de créditos, enquanto eu deixo as próximas
músicas já engatadas pra ter um segundo olhando o mar.
O mar que não é meu, é seu. Ou era?
Assim como essa sua janela se esconde atrás de um
lago que é meu, não seu. Irônico pensar nos nossos
desencontros provocados por um acaso que escolhemos.
Irônico pensar nas nossas imposições. Todas elas tão
imperativas e necessárias, e, no entanto, pra quê?
85
As cartas que mandei
Por quê?
Qual escolha nos faria pousar a cabeça no travesseiro e
fechar os olhos em consonância com nossas tão sábias,
certas e pensadas decisões?
Quais linhas nos dariam razão e confortariam, ignorando
que nem o concreto dessa cidade milimetricamente
projetada e certa faz sentido nenhum? Ignorando que
Cristo Redentor não é beleza natural pra poder tornar
uma cidade maravilhosa. Também ele está nadando
no caos completo. Reiteradamente. Reiterando-se,
vestindo-se da tão falsa sobriedade da razão. Fingindo.
Ah, merda de gerúndio.
Quando mesmo o imperativo dessas madrugadas que
por anos foram nossas passou a ser conjugado fora das
nossas bocas? Tão alheio aos nossos corpos quanto um
dia foram nossos sotaques se diluindo em nossas línguas,
se misturando. Perdendo o sentido de propriedade.
É, preciso trocar a lâmpada do banheiro

86
Parte 3| Ressaca
Como de lado, como de quatro
Eu como várias mulheres todos os dias.
Tímidas, despudoradas, sedentas pelo meu pau, de
metidas enviesadas, de sentadas profissionais, de
chupadas sem jeito, de boquetes homéricos, de tudo
muito no mais ou menos. De tudo e de nada.
E dos meios-termos.
Como de ladinho, como de quatro, como papai e mamãe,
como com força, como devagar. Como sem reservas,
como com pudores, como puxando a calcinha pro lado,
toda vestida na rapidinha.
Como fingindo que não vi a calcinha bege que ela
tira com vergonha, como de pau improvavelmente
duro pra calcinha de bichinho de algodão, como a que
vestiu minha cueca, como com cheiro de clichê a toda
impecável de espartilho. Como a que levou um chicote, a
que domina a porra toda. Como a que pega meu pau com
pouca intimidade.
Como a que fazia aula comigo, como a da academia,
como a da balada, como a do Tinder, como a prima que
não via há anos, como a que não se prende a nenhum
desses lugares. 87
As cartas que mandei
Como ouvindo Marcus Miller. Como ouvindo Led
Zeppelin. Como ouvindo Mc Livinho. Eventualmente
como ouvindo Raça Negra. Até ouvindo Odair José eu
como.
Eu como e sou comido. Em gemidos falsos, em arrepios
repentinos, em suores desgastados, em assados no dia
seguinte, em marcas pela pele, em nada demais, em nem
me lembro do nome, em até esqueci que transei ontem,
em fodas memoráveis em conjugados em outros estados.
Eu como também mentalmente nas minhas punhetas, é
claro. Mas, na esmagadora maioria das vezes, eu como.
Meto com força, meto sem me importar, meto com
carinho, meto com cuidado, meto pra eu gozar, meto
preocupado com ela, meto querendo impressionar, meto
pensando na escalação do Flamengo, meto chapado,
meto sem pensar. Eu meto, eu só meto.
Todos os dias. Todas as mulheres. De todas as ofertas,
físicas e mentais, possíveis.
Mas todas elas me deixam com o gosto de você. Da sua
sentada na minha cara. Da sua boca em mim. De você
escorrendo melada, da sua boca com meus gostos, do
restinho de nós escorrendo no canto da sua boca.

88
Parte 3| Ressaca
Dos seus cheiros, dos seus toques, dos seus pentelhos.
Seus cabelos grudados de suor. Sua respiração ofegante
reclamando do ar rarefeito. Seu hálito de nós dois.
Todas, todas elas. Todos os dias e sempre.
Porque eu posso comer várias mulheres — e eu como
mesmo, sem muitos princípios morais envolvidos
nisso. Afetos? Menos. Mas todas elas me trazem,
inevitavelmente, o vazio de você.

89
As cartas que mandei
Não posso encarar você de novo
Você não entende por que a gente vive combinando de
se ver e sempre tenho algum compromisso repentino, só
respondo seu convite depois que o evento passa e outras
coisas do tipo. Você pensa que sou muito atarefada, não
vi suas mensagens ou até que me esqueci de responder,
que você quase não passa pela minha cabeça.
Mas como eu esqueceria, se não paro de pensar em você
um minuto do meu dia sequer?
A realidade é que eu não quero te ver.
Não é que eu não sinta saudade. Veja bem, é o contrário.
Eu fiz um esforço do caralho pra você parar de doer,
pra sua imagem se tornar uma lembrança boa de novos
ares, pro seu cheiro ser só uma repentina coincidência
quando me invade sem aviso. E eu sei muito bem o que
vai acontecer se nos encontrarmos.
A realidade é que não posso encarar você de novo.

90
Parte 3| Ressaca
Melhor ficarmos assim, amiguinhos de redes sociais,
trocando mensagens bobas no WhatsApp sobre nossas
aventuras de bêbados da noite anterior ou até os áudios
existencialistas, mas com tudo permanecendo na ordem
tão protetora da superficialidade.
Eu não quero que você se sinta à vontade pra chorar do
meu lado. Eu não quero permitir que você me veja tendo
uma crise de ciúmes.
Eu não quero mais momentos engraçados juntos, que
criam aquelas lembranças de sorriso bobo olhando pro
nada com dorzinha no peito. Já tenho mais delas do que
eu gostaria, aliás.
Não me entenda mal se não paro de dizer que não posso
sair, se evito ir aos mesmos lugares, se atravesso a rua,
se finjo que não te vi, se respondo como se você fosse
só mais um contato de risadas artificiais e mensagens
fáticas.
É que em relação a você eu não sei ter meio-termo. Se
eu te encontrar vou querer te abraçar de novo, olhar
seus olhos de vírgula como se de alguma forma fôssemos
unidade, te beijar me fazendo propriedade e um pouco
dona.

91
As cartas que mandei
E sei muito bem também que o desfecho disso são dias
ouvindo Lenine e escrevendo compulsivamente você.
Eu não quero isso mais. Já bastam os dias que ouço
Lenine pela janela de algum vizinho. Já bastam os dias
que você sai naturalmente no papel.
Já bastam os dias que não consigo disfarçar pra mim
mesma que tudo em mim de alguma forma ainda é você.
Que nem tão cedo vai deixar de ser você. Eu não preciso
nem quero buscar coisas que me afundem mais ainda em
você. Entende?
É, Elizabeth. Não posso encarar você de novo.

92
Parte 3| Ressaca
Que desperdício você,
que desperdício nós dois
Sabe aquela pessoa que tira seus pés do chão e essas
coisas todas que a gente acha que só existem na ficção?
Que te tira o ar e que te faz respirar em paz, também?
Que te faz pegar fogo de tesão, que te nina bem uma
noite de sono, que é companhia boa pra conversa
filosófica e pras besteiras das madrugadas regadas a
bocas anônimas e toda sorte de entorpecentes?
Eu sei muito bem que sou eu.
Você sabe muito bem que é você. Sabemos muito, muito
bem mesmo, o quanto somos nós dois. Não é pretensão
minha justificada por arrimos astrológicos. Não
consultei um cartomante, psicólogo, cigano.
Tem coisas que a gente simplesmente sabe.
Mas é aquilo, quando um não quer dois não brigam.
Muito menos amam. Se não queimássemos um pelo
outro, eu entenderia. Se fosse uma ilusão só minha,
também. E eu tenho que aceitar e a vida segue, é assim
que funciona. Mas não consigo me conformar.
Não quero seus motivos.

93
As cartas que mandei
Dizem respeito a você. Mas nunca vou aceitar você
jogando fora algo tão raro de acontecer e que temos
tão fácil e à nossa disposição. A maldita sensação de “É
você”, de completude, de engolir o coração socando o
peito e todo o resto.
Às vezes tenho vontade de te sacudir, sabia? Dar uns
bons tapas na sua cara. (Entre mil beijos nesse seu rosto
esculpido, dizendo que te amo, é claro.)
Logo você, tão fiel ao destino, mistério e
incontingências, quer negá-los logo agora? O destino
agiu; eu, também. E você? O que falta?
O acaso pode trabalhar, pode tramar, pode nos colocar
em xeque. Eu posso estar disposta, posso me entregar,
posso pagar pra ver. Mas te obrigar, felizmente, não
posso nem quero.
Então ficamos assim mesmo, isolados por seus “deixa”,
“esquece” e “só-expectativas-provocadas-por-álcool-e-
madrugadas”. Vivendo falsos amores pela metade. Tudo
porque você me ama, eu sei, mas o seu “não quero nem
fodendo” ainda supera tudo.
Pena. Que desperdício você. Que desperdício nós dois.

94
Parte 3| Ressaca
Nada apaga você
Podem passar tempo, estações e outros homens.
O tempo, mesmo aquele que gastei gostoso com risadas
e algum entorpecente de final de tarde. As estações mais
leves de vento batendo no rosto e pôr do sol em viagens
a pé de cara e coragem. Ou até aqueles homens que
deixam o gosto da permanência, aqueles óbvios que me
fazem escrever sonetos, aqueles raros que ninguém lê.
Nada apaga você.
Tem dias que é foda. E a culpa não é da nossa troca de
e-mails com seu elogio improvável aos meus textos ou
seu áudio leviano sem motivo.
Tem dias que você simplesmente está aqui.
É o seu cheiro no aparelho da academia, é seu shampoo
que alguém usa e senti em uma rajada de vento no
corredor do mercado. É uma careta sua que alguém faz
do meu lado. Mas você nem mora na mesma cidade que
eu pra ter frequentado a mesma academia, e no mercado
não venta. E ninguém conseguiria reproduzir seu desvio
de septo.

95
As cartas que mandei
Nesses dias, que o gosto da sua boca aparece aqui sem
dó nem piedade, eu apenas afasto o pensamento. Como
quem fecha uma porta.
Mas é daquelas com defeito, sabe? Que qualquer
ventinho escancara, que ninguém conhece o jeito certo
de fazer a maçaneta funcionar.
E qualquer brisa, quando é você, é vendaval.
Se tantas outras coisas me doem tanto e tão fundo, ou se
tiram meus pés do chão em anestesia de felicidade, por
que nada consegue apagar você?
P.S.: Eu realmente queria lamber sua mente. (Não,
claro que não é só a mente.) Mas se querer só é poder
nos nossos sonhos, deve ser por isso que tenho essa
constante insônia maldita.

96
Parte 3| Ressaca
Dos insights psicanalíticos
Quando escrevo que eu queria chegar em casa e sair
catando a bagunça que você faz, irritada por você deixar
cada coisa em um canto e nos lugares mais improváveis,
queria que você entendesse que não estou supondo que
você seja assim.
Ou reclamando das vezes (sim, eu sei que foi um único
dia “na vida real”) que você fez isso lá em casa. Não
estou dizendo que te conheço muito e te meço por um
episódio isolado e que já te projetei como planta de
arquitetura na minha vida, ou já estruturei uma que
seria nossa.
Queria que você entendesse que não estou dizendo
que eu sou assim, também. Eu posso gostar ou não de
bagunça. Eu posso me irritar ou não. Eu posso reparar ou
não. Se eu poetizo, romantizo, não entenda como algo
pessoal ou muito menos já definido e decretado.
Quando escrevo coisas desse tipo, sobre personalidades
e convivência, presto um duplo serviço. Escritores
precisam criar imagens, escritores precisam gerar
identificação.

97
As cartas que mandei
E todo mundo, em algum momento, passou, passa ou
vai passar por essas cenas, não necessariamente em um
relacionamento.
Quando falo do seu desvio de septo, isso não me faz
descortinar tudo que você é, foi e será. Eu diria quem me
dera; mas, no fundo, acho que há vantagens em nunca se
saber a totalidade, talvez nem possível seja.
Quando falo dos seus olhos, de vírgula, gravados em
mim em algum lugar perto da Esplanada, queria que
entendesse que falo de sentimentos que estão além
de mim e de você, mesmo que estejam em todos os
textos que escrevo, todos os dias, para você. Mesmo que
ganhem materialidade nos meus textos nos seus olhos.
Como seres humanos, esses sentimentos nos atravessam,
independentemente de os capturarmos como Pokemóns.
(E quem faz isso é você, não eu.) Independentemente de
os tomarmos como próprios.
Faz parte do meu trabalho, ofício, ganha-pão, o que for,
colocar características e sentimentos em mim que nem
mesmo são meus.
E se falo de mim e me escrevo, ainda que travestida do
que não sou, você é consequência.

98
Parte 3| Ressaca
Simplifico dizendo que é porque gosto de você, mas
isso reduz tudo demais; e tudo é muito, e amplo, e sem
fronteiras estabelecidas pra só dizer que gosto de você.
Sabe o que é mais louco? Eu faço uma aposta de que
você entende. Gostar não define bem, a prova é você
insistentemente me colocar no seu divã toda vez que
falo isso. Mas eu só sei pintar com palavras, e o que
serviria pra definir? Eu não sei.
Eu só queria que você entendesse que quando escrevo
“você” é porque gostar de você inevitavelmente vai me
levar a te fantasiar de linhas, parágrafos, metáforas,
personagens e histórias.
Inevitavelmente haverá risadas que demos, dores suas
que parece que adivinhei (mas foi sem querer, eu juro,
sem dedos cruzados), lágrimas que derramei nas janelas
de alguns aviões, de ida e de volta. Porque é difícil
mesmo dizer qual das duas dói mais, sabia?
Inevitavelmente, haverá, principalmente, as risadas
que não demos. Que calei sozinha no meu peito, me
remoendo de vontade de compartilhar contigo, porque
só você ia entender e rir comigo daquele jeito. Ou ia
rir, mas no fundo, dentro de você e sem compartilhar
comigo, ia julgar e criticar, fingindo até pra você mesmo
que você não faz isso o tempo todo.
99
As cartas que mandei
Ok, parei por aqui de te “deitar no meu divã”, deixo essa
parte pra você, mais uma vez.
Eu queria que você entendesse que os textos que
realmente escrevo te pressupondo, ou até me
pressupondo, ou em que exponho o meu desejo doentio
por um nós — e talvez essa seja a pior pressuposição de
todas —, eu não publico. Eu nem te mando a maioria.
Nesses textos eu revelo todas as minhas suposições e
vontades. Mas eles são textos que calam. Não são textos
como este aqui, que gritam.
Os outros são textos de ordem prática que eu escrevo
porque trabalho. Essa é minha arte, você sabe que ela
tem que sair por algum lugar, você que disse. E, olha,
acho que a escrita é a mais ingrata das artes, porque
quem lê sempre lê de um lugar pessoal e mesmo assim
assume verdades alheias.
Isso é cruel conosco, escritores.
Mais cruel ainda ver esse julgamento vindo logo de você,
que também escreve, mas não por isso. É cruel porque
você compartilha comigo essa ausência que somos nós
dois.

100
Parte 3| Ressaca
Mesmo não sendo, mesmo estranhos, mesmo tudo,
você ainda compartilha esse monte de nadas comigo,
inexplicavelmente, e isso não é suposição minha,
achismo ou a roda da fortuna de alguma premonição
minha.
É o que é. Assim mesmo, incrustado com a descrença no
real.
Você fala dos textos psicanalíticos, e esses eu
eventualmente publico. Mas esses quem entende além
de você? Quem mais, que ler este texto, aparentemente
tão carta, tão relato, tão claro, tão exposto, entende?
Repare que eu não disse nós. Eu escrevo esses
insights psicanalíticos porque preciso, você sabe, e o
entendimento fica pra você. Sufocado nas muitas coisas
que eu e você sentimos (não digo em relação ao outro
necessariamente...) e que, nebulosas, nem sempre nos
damos conta.
Quando eu realmente já escrevi você na vida, estranhos
que somos de nós mesmos? Quando eu consegui não
escrever você?
Nunca é você. É você o tempo todo.

101
As cartas que mandei
Sempre vai ser assim, a corda bamba dessa rachadura do
entendimento. Sim, esquizo, com a típica confusão entre
cores e realidades. O pôr do sol em céus, com nuvens
baixas ou não, não é capaz de alterar as realidades.
Nunca foi a distância. Sempre foi a distância.
Mas ela não está em 1.169km. Ela está na impossibilidade
que existe em conjugarmos você e eu em um mesmo
tempo verbal e, principalmente, como uma mesma
desinência. E onde estamos pouco importa.
Quando eu amo você, você entende ainda menos. E
não tem um motivo, é só isso mesmo. Simples, direto,
transitivo.
Eu me rendo na minha impossibilidade de me explicar.
Eu queria que você entendesse, eu queria muito. Mas
mesmo como escritora ainda falho. Então deixo nadar
nesse limbo do quase, ir sendo levado pelas correntezas
do cotidiano.
Você nunca vai entender e, como sempre falo, é uma
questão só minha, e eu que tenho que lidar com ela. Eu
nunca vou conseguir explicar o que não se explica.

102
Parte 3| Ressaca
Nessa assimetria, fica o “nós” como se fôssemos falha
de comunicação, aquela coisa que não acontece, não se
desenrola.
O desentendimento, o erro do acaso, aquela certeza
sólida do “é projeção” e todas essas outras coisas que
sempre serão muito mais gêmeas e ao mesmo tempo
estranhas do que bairros com o mesmo nome em
cidades diferentes. Em estados diferentes.
Polissemias que nos constituem e falsamente nos
aproximam, porque, de fato, o que elas farão para
sempre é nós tornar opostos e estranhos.
Impossíveis.

103
As cartas que mandei
Quem vai colocar
a mão na lareira?
Eu queria que as coisas fossem diferentes, mas eu não
queria que você fosse diferente. Eu não quero mudar
você. Eu quero descobrir; mas mudar, não. E se essa é a
condição para que as coisas sejam diferentes, que assim
permaneçam, então. Um dia eu vou respirar de novo. A
gente se acostuma com esse ar rarefeito mais rápido do
que imagina.
Eu gostei de você assim, da forma como me foi
apresentado. Escuro, pesado, arrastado, nebuloso,
caótico, instável. Muitos e nadas em constante guerra.
Excessos descontrolados e ausências que parecem
infinitas. Uma tentativa de respirar e ser manso e
superficial contornando bem por fora isso tudo. Muros…
de vidro. Alegoria da incompreensão alheia.
Escritores desviam na regência verbal, sertanejos
compõem rock, modelos têm celulite, nossos pais
sentem medo, palhaços choram. Isso tudo é constitutivo,
está bem longe de ser um choque de opostos. Mas as
culpas não nos pertencem, nem deviam.
Sabe qual é a maior ingratidão nessa história toda pra
mim? Timing, sempre ele, e você não para de ter razão.
104
Parte 3| Ressaca
Toda essa rede que nos amarra e puxa com força nos
distanciando e jogando para cantos tão opostos, que há
muito tempo já te perdi de vista. Mas eu, aqui, do lado
oposto… sinto.
Há várias circunstâncias além desse “nós dois”, que
sequer existe (e não é sem dor que te dou toda a razão),
que pouco importa se conseguimos definir quais
são, porque elas ficam naquele limbo em que tudo se
presume e se torna verdade absoluta… e sedimenta
impressões, opiniões, sentimentos, conformações.
Eu queria muito que todo o contexto fosse outro, porque
não tenho como lutar com os meus demônios, os seus e
tudo o que nos envolve sem sequer saber que tudo é esse.
Mesmo que falar isso seja tão falso quanto a bandeira
branca que estendo, porque palavras são sempre
poeira, e, no final das contas, acho que o que vale é
aquela lembrança repentina de um cheiro que vem na
madrugada, meio doído, meio sem aviso. E nos enche de
certezas absolutas… momentâneas. Que achamos que
conseguimos afastar no terceiro gole de Catuaba.
Não é um capricho meu. Não é uma roleta-russa de olhos
vendados. Não são interesses (des)semelhantes ou citações
“coincidentemente” iguais. (Mas confesso que usar
“amiúde” em sonetos, ou escrevê-los, me amolece, sim.
105
As cartas que mandei
Mas é porque é em você, entende? Eu nunca fui dada a
escritores eruditos.) Uma ilusão? Você pode estar certo.
Porque ilusão é tudo o que temos da realidade o tempo
todo, e ter plena consciência disso atormenta.
Eu falo das minhas convicções, da minha experiência, da
minha visão, que, reconheço, é bem limitada. E turva, é
claro. Mas, ainda assim, daqui eu tenho certeza.
É sobre o que vivi e sou que falo, e esse território é
completamente meu. É claro que não desprezo esse mar
revolto do desconhecido que nos separa, que dilacera
esse maldito nós que insisto em apertar. Esse mar
que sempre vai nos separar, eu sei. Porque não se faz
conexão sem um pouco de dilaceramento bilateral.
E você nunca vai mergulhar. Você nunca vai se permitir
ver que já mandei um cruzeiro até o outro lado. Talvez
porque a simetria entre as formas que mostramos e
fazemos as coisas e como são percebidas seja sempre
uma cortante mentira.
Quem iria oferecer ombros para sustentar uma
caminhada compartilhada… que só se pode fazer
sozinho, não é mesmo? Quem se importaria com o que
te faz chorar à noite? Quem iria querer segurar sua mão
de um jeito diferente?
106
Parte 3| Ressaca
Quem iria querer se tornar seu porto? Quem daria
esse tiro no escuro, que pode ricochetear em qualquer
direção, inclusive de volta com o triplo de força e
velocidade? Quem se disporia a entrar nessa floresta
de aranhas-marrons sem guia e antídoto? Somente a
insanidade parece um quadro justificado. Como vou
discordar disso?
Mas, só dessa vez, pensa que as coisas podem ser
diferentes. Eu posso ser diferente, também. Pode não
ser insanidade, loteria, desespero, um gosto musical
interessante. Como você vai saber? Você não vai saber
nunca. A vida não nos deu nem vai dar manual. Nós
nunca vamos saber.
Quem vai assinar o cheque no final? Quem vai colocar a
mão na lareira?
Você quer saber a verdade? Há muito tempo, já assinei.
A minha mão está lá. E, por mais que eu feche os olhos
e disfarce isso em risadas falsas, textos aparentemente
inspirados e sublimação em supostos outros amores, eu
não vou conseguir tirar nem tão cedo.

107
108
Parte 4| Maresia
109
Não acredito em coincidências

Q
uando escrevo Elizabeth geralmente ela me
vem em paisagens noturnas. E a maioria das
vezes foi mesmo assim, mas não porque fosse
noite.
Houve, entretanto, contundentes cenários diurnos. E
este, em que hoje penso submerso em álcool e acordes
menores, foi um deles.
Era a orla de Copacabana, e nós dois andávamos de
bicicleta na ciclovia. Era uma sexta, por volta das 22h,
então estava relativamente vazio para os padrões do
calçadão de Copacabana.
Já tínhamos feito o trajeto desde Ipanema até o Leme
e voltávamos, na altura do Posto 5. Me veio um verso que
eu poderia elaborar em um soneto, mas o afastei para
sorver aquele momento. Talvez chovesse dali a pouco,
porque era verão e ventava, prenúncio comum das chuvas
que endossam as cenas românticas mais clichês.
Deixamos as bicicletas naqueles arremedos de
bicicletário perto dos quiosques. MPB e samba nos
ladeavam nos violões e vocais dos bares quando
descemos para a praia. A areia e o mar quentes em
contraste ao vento eram a alegoria perfeita do que falo:
é impossível ser infeliz no Rio de Janeiro.
110
Parte 4| Maresia
É impossível, mais ainda, ser infeliz no sorriso de
Elizabeth. E naquele dia, com gosto de começo, eu tinha
os dois.
E se fundiam indetectáveis naquela história toda de
borboletas no estômago, dopamina e alguma areia que
depois seria difícil de tirar da cueca. Ou talvez tudo fosse
só culpa dos seus olhos de vírgula, que agora me sorriam
salgados.
O mar estava baixo, e caminhávamos por ele indo
contra as ondas que batiam em diagonal em nossos
joelhos. Era uma parte da praia que agora estava pouco
iluminada. A lua desenhava irregular no mar.

- Confesso?
- Você primeiro.
“Confesso” era um jogo que sempre fazíamos,
geralmente bêbados, embora agora sóbrios. Era nossa
maneira de falar algumas daquelas coisas que não devem
ser ditas.
Ou que nos sufocamos por necessidade de dizê-las,
fingindo que não. Eram muitas linhas tácitas que nos
atravessavam desde sempre, e, ao mesmo tempo, tudo
era superfície.
111
Não acredito em coincidências
- Quando você se mudou, eu tinha medo de darmos
certo, confesso.
- Quando eu me mudei, eu queria que as coisas dessem
errado pra nós dois, confesso - falei. - Quis nos evitar.
O que sempre fizemos e nunca tivemos sucesso.
Na verdade era isso, e ela sabia. Seu olhar me atingia
enquanto a correnteza ia e vinha, fazendo subir uma
neblina. Esculpindo momentos.
Seus olhos de vírgula agora eram completas
interrogações; mas quem falou, como sempre, fui eu.
- O “confesso” de hoje admite um “por quê”?
- Porque eu sabia que você ia voltar.
- E, no entanto.
- Você voltou.
- Do jeito que você “sabia”?
- Não, claro que não. Mas voltaria mesmo sem mim.
Como a única coisa certa no mundo, a beijei, mas
quem tinha me feito cativo em sua boca fora ela. Por
mais que as iniciativas fossem minhas, as rédeas eram
completamente dela. Todas elas e em um reiterado
sempre.

112
Parte 4| Maresia
- No início, sim. Eu sabia que se as coisas dessem certo
eu teria um problema. E um problema que eu não queria.
Vacilei. Tinham me dito para só ir, sem pensar muito. Eu
nunca teria conseguido fazer isso, mas fui mesmo tendo
pensado o suficiente para não ir.
- Você se arrepende. Pelo menos um pouco. Isso não é
uma pergunta.
- Há muito tempo que decidi me mudar do Rio,
Elizabeth. E não foi quando saí daqui. - Elizabeth me
olhava bem perto enquanto eu fazia carinho em seu
rosto. - Mas quando decidi morar em você. Onde quer
que fosse, em você.
Ela me beijou. O jeito que me esquentava me
inundava de certezas. Elizabeth sempre foi o encontro das
certezas.
- Hoje já não faz tanta diferença pra mim onde estamos. E
meu confesso foi muito pior que o seu. Está me devendo -
falei a segurando pela cintura, aquele laço de familiaridade
das coisas como têm que ser, onde têm que estar.
- Eu não vim antes porque não acreditava. E eu não
quero falar sobre esse confesso.
- Sem mais confesso por hoje, então.
- Até porque você não vai conseguir mais.

113
Não acredito em coincidências
Meu olhar de questionamento durou os segundos
suficientes para ela me derrubar na beira da água
distraído. Me pegando indefeso e despreparado.
Denotação e metáforas sempre se embolavam como
nossos cabelos. Nos beijávamos na areia quando vi.
- Estão roubando as bicicletas.
- O quê?!
- Eu amo o Rio de Janeiro...
Peguei ela pela mão pra levantarmos e corrermos
até as bicicletas. Os caras disfarçaram, fingindo que “só
estavam procurando os donos” e tudo foi resolvido na
maior diplomacia, sem grandes danos.
Quando nos olhamos, mãos apoiadas no guidão,
tivemos um acesso de riso. Segundos que pareceram
horas depois, ela mordia o lábio inferior, com aquela
sobrancelha esquerda erguida, me encarando.
Seus olhos de vírgula eram todo o sentido do mundo.

114
Parte 4| Maresia
Era noite mais uma vez, eu sei. Mas foi o primeiro dia,
de verdade, que começamos a nos tornar um nós. Então
pra mim, quando lembro, Elizabeth é sol.
O que me trouxe esse dia não foi nem a Jurupinga
nem as músicas de Led Zeppelin.
Nem esse calor filho da puta que está fazendo agora,
os raios de sol já incidindo pela permissividade da minha
cortina. Mas o boquete de Elizabeth em que agora me
contorço, aqui, nesses mesmos lençóis que aquele dia
lavamos de areia, sal e destino.

115
As cartas
que mandei
116
Não es
Nem M crevo m
Nem o íchkin ais Ra
Nem G Diabo nem G s
atsby nem o ol
Já nã nem P Fid
Bertr o home atch
Nem Gam, Ge nageio
Nem o oku, o nnaro, Macár
forast nipôni Solfie
Nem O eiro d co de r
Nem o fir nem e ManueTo
Nem m Poeta Apol l
d
Os cat esmo e Emi lo de m
ivos do Dirceu liano arf
Nem S sertão de Ant
Nenhu auron pernamónio G
Nem E m cont , o senh bucan
Nem o beneze inua n or do o
Xangô r Scroo os meusescuro
Só voc do Ma ge, de plano de
Só voc ê, hoje ximili Charl s
Por qu ê, que eu escr ano es Di
erer eu que evo só
Não es ro, po você
De Jo crevo, rque q
De Al ão Uba de Rod uero
Nem o uísio, n ldo, ne rigues,
Miran em o b m o co Anjo N
De Qu da, tam aiano nselhe egro
Nem o eiroz, bém, nnem Joiro
Divino herói nem G em Je ão 117
Nem I homemsem ne onçalo rônim
va q nh ne o, o
As cartas que mandei
Todos eles juntos num só ser
(paráfrase de Lenine, “Todas elas juntas num só ser”)

Não escrevo mais Raskólnikov nem Ivánovitch


Nem Míchkin nem Goliadkin do Fiódor
Nem o Diabo nem o Fidalgo do portuga Gil
Nem Gatsby nem Patch do maior

Já não homenageio Macário


Bertram Gennaro Solfieri de Azevedo
Nem Goku o nipônico de Toriyama
Nem o forasteiro de Manuel de Macedo
Nem Ofir nem Apollo de marfim e prata
Nem o Poeta de Emiliano
Nem mesmo Dirceu de António Gonzaga
Os cativos do sertão pernambucano
Nem Sauron o senhor do escuro de Tolkien
Nenhum continua nos meus planos
Nem Ebenezer Scrooge de Charles Dickens
Nem o Xangô do Maximiliano

Só você hoje eu escrevo só você


Só você que eu quero porque quero
Por querer

Não escrevo de Rodrigues Anjo Negro


De João Ubaldo nem o conselheiro
De Aluísio nem o baiano nem João
Nem o Miranda também nem Jerônimo o pedreiro
De Queiroz nem Gonçalo nem Adão
118 Nem o herói sem nenhum caráter
Parte 4| Maresia
Divino homem que ri
Nem Ivanhoé de Walter
De José Rezende nem Tonico
De José de Alencar nem o Martim
De Salinger nem o estudante Holden
Nem Fup nem Daniel de J im
Nem Jake Miúdo nem Gastin
Dos deuses gregos de Riordan
Até dos seis Wesley de Rowling
E do Drogo do Martin eu abdico

Só você escrevo e metrifico só você


Só você que nem você ninguém mais pode haver

Nem aquele com gostos peculiares


E nem de James Carrick Grey
E nem Gabriel nem Alex de Palhares
Nem Ladrão Lalau de Walt Disney
Nem Riobaldo de Guimarães Rosa
Nem de Lobato o Visconde de Sabugosa
Nem o Bentinho de Assis
Nem Ed Mort de Luis

E nem o amor total de Vinícius


E nem o conquistador de Abreu
E nem o metódico de Amado
E nem o belo belo de Manuel
E nem o bad boy de Fitzpatrick
E nem os mal-amados de João
E nem o menino que sobreviveu
E nem Rocky & Hudson do Adão 119
As cartas que mandei

Só você
Hoje elejo e elogio só você
Só você
Que nem você não há nem quem nem quê

De Rimbaud com Verlaine


De Gonçalves Dias e Castro Alves
Não escrevo nem Javert nem Jean Valjean
Nenhum tem meus “vivas” e meus “salves”!

E nem o Ateneu do realista Pompeia


E nem Jasão de Eurípedes de Medeia
E nem os ladrões do naturalista Gerhart
E nem os meninos da rua do Molnár!

Moreno de Gaarder moreno de Allan Poe


Moreno de Exupéry o aviador
Mouro de Bourdoukan mouro de Herculano
Mouro de Shakespeare o vingador

Rei Lear e de Sófocles Édipo-Rei


Nem outro Rei o Rei Leão
Nenhum deles hoje escreverei
Só outro reina no meu coração

Só você rei aqui é só você


Só você o muso dentre os musos de A a Z
120
Parte 4| Maresia
Se um dia me surgisse um cara desses
Que com seus dotes e seus dons
Inspiram parte dos escritores
Na arte das palavras e dos sons
Tal como Anton de Cormac McCarthy
Ou como Antônio de Pedro Gabriel
Ou Tom o talentoso de Highsmith
Ou o amônio do vencido dos Anjos
Ou como de Carré o jardineiro fiel
E o muso inspirador coelho da Alice

Se me surgisse um cara desses


Confesso que eu talvez não resistisse
Mas veja bem meu bem meu querido
Isso seria só por uma vez
Uma vez só em toda a minha vida
Ou talvez duas mas não mais que três!

Só você mais que tudo é só você


Só você as coisas mais queridas você é

Você pra mim é o sol da minha noite


É como o caramuru de Rita Durão
É como acabar cem anos de solidão
As religiões do Rio de João
Você é como guilhotinas pelouros e castelos
Em crepúsculos amarelos de Sá Carneiro
Você é como todos os sonhos do mundo
De Fernando Pessoa ó meu parceiro
121
As cartas que mandei

Você é pra mim o meu amor


Crescendo como mato em campos vastos
Mais que a pedra no caminho para Carlos
Mais que o supremo pra Roa Bastos

Mais que a confissão de Claude pra Zola


Que o Rubempré pra Balzac Honoré
Que Baskerville pra Umberto Eco
E os discípulos de epícuro pra Baudelaire

Só você mais que tudo e todos é só você


Só você que é todos eles juntos num só ser!

122
Parte 4| Maresia
Transitivo direto
Você me disse algo como: “Se não fosse bizarro não
seríamos nós.” Está guardado aqui, mas não vou
procurar o certo agora. (Está tudo guardado de alguma
forma.) Isso é total verdade. Mas não é nosso único
padrão. Nós nunca nos despedimos. Já reparou? Nem
no dia que nos conhecemos, nem nunca. Interrupção e
continuidade.
Mesmo quando saímos brigados, com uma expulsão que
cada um insiste em dizer que partiu do outro ou quando
está tudo bem (eu deveria enumerar, porque tudo bem
entre nós dois também é sempre relativo). Nós sempre
saímos como se fôssemos nos encontrar cinco minutos
depois, mesmo sem fazer ideia de quando e se isso vai
acontecer.
E eu gosto.
Sabe, fico pensando em nós dois e naquele filme
bobo com o Ashton Kutcher, De repente é amor. Não
vivemos tantos anos nos nossos hiatos quanto aqueles

123
As cartas que mandei
personagens, mas tivemos os nossos hiatos. Tivemos
nossas ebulições e nossas escuridões.
Coisas passaram, sentimentos se misturaram.
É um reconhecimento, não é? Às vezes eu procuro
soluções. Às vezes eu procuro não pensar. Às vezes o
pensamento me invade, e é bom.
Às vezes eu só finjo que o pensamento não está ali. Mas
eu sei que ele nunca foi embora.
Às vezes eu me convenço, ou quase, de que é só meu
típico jeito de perverter a realidade. Às vezes eu procuro
racionalizar o que nunca vai ter razão, porque amar é
total erro. Amor é desvio de percurso. É tropeço. Pecar
vem mesmo de tropeçar, etimologicamente, e não tem
como existir amor sem pecado. Ele é todo transgressão.
Eu tenho às vezes aquele desejo louco de amor em
outdoor, sabe? Aquela coisa toda de pichações de muros
pela cidade, músicas em tom menor e um suborno para a
locutora do aeroporto fazer uma declaração por mim.

124
Parte 4| Maresia
Mas antes fosse só isso.
O que fode tudo sou eu querer te amar nos meus
silêncios. Quando o amor é sutil e mudo é tão mais
lancinante, e é isso. Quero amar você escondido, baixo.
Só para mim, como aquilo que é o maior segredo de tudo
que sou. Sibilante. Sinuoso. Somático. Mas Spinoza sabia
que corpo e alma não se separam, são o mesmo. E aí?
É irônico, eu sei. Porque só escrevo você. Eu escrevo você
o tempo todo, mesmo quando não vai para o papel.
Repare que é assim mesmo, transitivo direto. Como a
necessidade mais óbvia, dada por uma regra qualquer. É
que, de algum jeito, você me continua.
Mas o que a escrita expõe é o mesmo que cala. E eu
quero te transgredir nessas entrelinhas. Do sigilo
confessional. Dos códigos dados. Das nossas maneiras
bizarras e sem despedidas.
Ah, Elizabeth, se essas madrugadas fossem nossas…

125
As cartas que mandei

126
Parte 4| Maresia

127
As cartas que mandei
Pudera ser você minha casa
Acordei e não tinha você. Era o vazio na minha cama.
Vazio que ia de encontro ao burburinho dos meus
pensamentos, tão repletos de você. Acordei e não tinha
você, mas não era só na minha cama que você não
estava.
Era ausência daquele cheiro meio doce que me dá a paz
de você quando sinto um parecido desavisadamente na
rua. Era presença de tantas coisas que nem sei sobre
você não estar aqui. Era presença de tudo o que me faz
de algum jeito te deixar tão vivo.
Era presença do que foge ao meu entendimento
sobre você ser essa chama tão inextinguível, incêndio
inextirpável de feridas latentes findas em disfarces
patentes, explícitos para você nas minhas entrelinhas.
Acordei e não tinha você. Pudera! Sou toda praia e sol e
areia na sunga; você, beleza hermeticamente projetada
de ruas certas.

128
Parte 4| Maresia
Eu aqui tão errante e descompassada, te permitindo
minhas vielas e ladeiras, ainda mais errantes. Sou toda
oceano de incertezas desejando que seus cabelos fossem
impossivelmente minha casa.
Nossa estranheza óbvia, nossa familiaridade improvável.
Acordei e, olha, acho que era você. Porque algo de
você sempre está aqui comigo, em qualquer estado em
que eu esteja — de sonolência apaixonada a tesão em
embriaguez, com esse z pronunciado vertido em um s
muito bem assinalado.
Sibilante, se as aulas de Fonética não me traem.
É você, tão certeiro e irretocável, ainda que mascarado
de eco, o som em infinito retorno dos meus sonhos na
sala dos espelhos.

129
As cartas que mandei
Toda a simbologia do mundo

Entre identidades anônimas e irrelevantes


Na dela, o encontro das certezas
De riso fácil e venenos reais
Embolando glitter e cabelo comprido

Ela destrocou o que havia antes


Dizendo que no vazio que se constrói beleza
A única excecão na multidão de iguais
Me queimando em incêndio de brasa tingido

Só o inconsciente sabe o que era para ser dito


Dos muitos desejos na batalha dos aflitos
Compartilhamos nossas loucuras reflexas

Nas lacunas do sotaque de onda


que não se entende
E do amor que se dissolve
em névoa ardente
Todas as suas metáforas são complexas

130
Parte 4| Maresia
Como se chama mesmo?
Como se chama quando você sente aquela vontade
incontrolável de saber como tal pessoa era quando era
criança?
Se era briguenta, marrentinha como hoje. Se sofria
bullying por ser míope, se já botou fogo na saia de
alguma coleguinha, se espiava no banheiro. Se fazia
paródias e versinhos, se chorou pela sua primeira
paixão. Ou quando o cachorro morreu. Ou se teve
cachorro, se odiava animais.
Se era famosinho no colégio, porque com certeza
aquilo ali sempre foi lindo (ou será que não?), se ficava
no fundo escondido lendo, se não era sociável. Se era
chamado de quatro olhos, e se ficava injuriado.
E se ia tirar satisfação, se aproveitava a educação física
pra descer o cacete nos amiguinhos. Ou se fazia isso sem
desculpa alguma, sem minimamente se intimidar. Se era
aquele que só tirava dez, já escrevia bem pra caramba e
era o amorzinho das tias. Ou se confundia x com ch. Se
de uma forma improvável odiava português, e queria ser
de exatas.

131
As cartas que mandei
Se em casa era aquele que arrumava confusão, se
cantava no chuveiro usando o frasco de shampoo como
microfone (desconfio que faça até hoje), se dava dor
de cabeça pros pais, se fazia greve de fome, se sempre
levava o agasalho, se tinha medo do monstro embaixo da
cama.
Ou de trovoada.
Chorava quando chovia ou quando cortava o cabelo? Se
já queria usar o cabelo comprido, ou se já era assim, se o
elástico segurava ou descia escorregando quando corria
no recreio, aquele cabelo tão escorrido. Ficava indignado
quando ficava de castigo, fugia ou só ficava arquitetando
uma vingança? Ou absolutamente nada disso?
Como se chama mesmo?

132
Parte 4| Maresia
Talvez o amor não seja,
esteja sendo
Eu não sei o que é o amor, por isso esse texto é uma
aposta.
Eu rolo os dados e não sei se quero olhar o resultado.
Amor assusta, né? E às vezes é mesmo melhor não
termos uma resposta.
Essa palavra faz uns retesarem alguns músculos, se
esquivarem fechando os ombros. Também faz olhos
brilharem e carrega um súbito pensamento involuntário
em alguém.
Eu nunca achei que amor fosse algo decretado e muito
certo, ou que te enchesse de certezas, paz e segurança o
tempo todo. O nome disso é quitação de financiamento,
e amor tem um quê de nome no Serasa.
Eu sempre achei que o amor gosta de se esconder, e
dormir um pouco, e de aparecer em alguns momentos,
em alguns estalos.
Amor é algo entre brigar por quem lava a louça e
terminar trepando no chão da cozinha. É algo entre a
mecânica de um dia útil e lembrar do olhar enquanto
lava a louça e você se sentir feliz, esquecendo que
133
As cartas que mandei
acabou de quebrar a garrafa de Eisenbahn na cozinha,
sua única companhia para o final de semana.
Amor é algo entre o coração apertar e se sentir em
casa naquele cheiro na nuca. Amor é algo entre a plena
consciência e a total anestesia.
Amor te deixa confortável, amor te sacode. Amor dá
vontade de aconchego preguiçoso na terça-feira, amor
dá vontade de fazer faxina às três da manhã.
Talvez o amor seja tudo isso. Talvez o amor não seja
absolutamente nada disso.
Talvez o amor seja o abraço no portão no Lago Norte ou
aquela música fazer sentido na mesa do bar. Talvez o
amor não seja, esteja sendo, e justamente por isso talvez
sua solidez seja resultado de precipitação, se equilibrando
entre química, anacronismo e ambiguidade.
Eu não sei o que é o amor, eu não sei mesmo. Mas um
céu tão bonito quanto o de hoje me faz arriscar que te
abraçar ainda deveria ser minha melhor aposta.

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Parte 4| Maresia
Minha alma se parece com a sua
Seu cheiro doce meio untuoso me invade enquanto eu
sinto seu braço nas minhas costas. Abraçando minhas
costas. E me traz a constatação de você. Essa constatação
chega a ser ainda mais material do que eu por cima de
você em uma cama de motel, a vista de toda a cidade,
mais bonita do que de qualquer um de seus cartões-
postais, bem do lado.
A vista meio ignorada, uma certa falta de jeito e os
objetos do quarto. Sempre sinto como se tudo nos
tocasse da mesma maneira. Não por identificar nuances
nas mesmas músicas ou pelos olhares de desdém
praquela forma de arte que deveria morrer — e que
fazemos. Que arrogantemente fazemos.
Também não é porque nossa mente forma imagens
dentro da mesma categoria de algum teste psicanalítico
elaborado. Ou pelo nosso medo de morrer do mesmo
jeito. Ou pelas noias que batem parecido sem a gente
nunca ter conversado antes sobre elas. Ou pelas
divagações no carro sobre bandas, a umidade do ar ou as
ausências.

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As cartas que mandei
Ah, as ausências.
As nossas ausências deixam nossos assuntos pesados, teorizei.
Na mesa, no banco, no seu colo. Talvez fosse só meu
convite bem-mal escusado para nos vermos mais. Talvez
fosse só esse estado de familiaridade estranha em que
você me deixa me fazendo falar coisas sem nenhum
sentido. Talvez fosse só meu incômodo com seu esforço
contínuo para sermos sempre plásticos, arrematados,
estanques.
Mas será mesmo que toda essa, tão segura, preservação
de uma superficialidade é de fato real? Como pode ser
real se até nas ausências nossas almas conversam?
Essa é uma seara tão limítrofe que talvez nem exista.
Que não se explica. Como não se explica passarmos tanto
tempo como desconhecidos e seu toque continuar sendo
tão natural quanto respirar. Sua boca ainda ser encaixe.
Suas mãos, pernas, sobrancelha esquerda. E tudo sou eu.
Os olhos de vírgula me dando a mesma merda de
sensação de sempre, de todas as vezes, fodam-se
contextos, circunstâncias, blá-blá-blá Whiskas sachê: sua
presença é a única coisa que parece certa no mundo.

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Parte 4| Maresia
Todo o caos, faixa de Gaza, greve dos caminhoneiros,
adultério em puteiros de quinta. Tudo soa como brisa de
paz, tudo está na mais perfeita ordem, tudo é o próprio
sentido.
Eu poderia seguir o caminho óbvio e arriscar que é só
uma sensação que esse quase engavetou, nos deixando
presos em uma miragem.
Mas ainda prefiro acreditar que é porque, no fundo,
naquele fundo que nem a gente deve saber direito, sua
alma se parece com a minha.
Ou porque esse monte de devaneio só sirva mesmo pra
dizer que ainda adoro lavar seus óculos.

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138
Post Scriptum
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Post Scriptum
Eu preciso dela pra escrever
Todo artista tem algum nível de sacrifício em prol de
sua arte. Vide o amplo rol de filmes que transformam o
autoflagelo em heroísmo, tornando a arte algoz de seus
eleitos. O contraponto da nossa ferida aberta não se
retrai: todo artista tem algum nível de pecado a que se
permite em prol de sua arte. Talvez o feeling indefinível
da arte resida justamente nesse castelo de cartas em que
abnegação e egoísmo se apoiam disputando o equilíbrio.
Também eu tenho minha via crucis e meus tropeços.
Entre carrascos literais e simbólicos que permeiam o fel
cotidiano necessário a todo artista, meu pecado arrasta
correntes e desestabiliza as luzes do apartamento. O
meu pecado é ela. Eu preciso dela pra escrever. Pra
alcançar aquele estado de espírito inflamado que nada
no limiar em que criatividade e dor são indistinguíveis.
E preciso dela assim, do jeito que é, nublada, esporádica,
transitória, fugidia. Nos holofotes do proscênio, mal
iluminada. Sinuosa silhueta.
Não é simples ter discernimento sobre textos inspirados
quando envolvem tesão desenfreado de banheiros de
boates de quinta e de estacionamentos ao ar livre no
centro da cidade.
140
Post Scriptum
Não é simples ter discernimento sobre textos inspirados
quando envolvem paixões sufocadas em drogas baratas
de final de semana e em febres emocionais de óbvia
baixa imunidade decorrente.
Quando a realidade é útil para virar ficção, ela própria
precisa ser ficcional, tangenciar as fronteiras dos
acontecimentos, distorcer deliberadamente a memória.
Que me perdoem meus amores reais, meus crédulos leitores,
minha esquizofrenia entre expor e sentir. Que me perdoe,
principalmente, ela. Mas na simbiose que somos talvez ela
entenda, e até aprecie, que não a deixo porque não posso.
E, se em nome da arte pecar é louvável, a heresia
é autorizada. Pelo menos assim me escuso, entre
linhas explicitamente dedicadas, buquês de rosas
não entregues em aniversários e músicas de cuja
interpretação me aposso olhando pro teto.
Termino o texto. Caderno entre os lençóis com meus
garranchos que questionam o entendimento, caneta
pousada no criado-mudo, janela suada, cheiros
dissonantes. Acendo um cigarro.

Most of all I just don’t, I just don’t want to be free, no.

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Este livro foi composto em offset 75g/m2
impresso pela Gráfica Multifoco
Rua do Rezende, 63 – Centro/RJ