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Anotações do livro: Curso de Direito Processual Civil de Humberto Theodoro


Júnior. Volume III. 46ª edição. Editora Forense e Direito Processual Civil
Esquematizado de Marcus Vinícius Rios Gonçalves. 4ª edição. Saraiva.

Classificação da Sentença

Sentença, segundo o Código é a decisão do juiz singular que põe termo ao


processo, no primeiro grau de jurisdição (É ato do juiz que implica alguma das
situações previstas nos arts. 267 e 269 do CPC e que põe fim ao processo, ou à fase
cognitiva condenatória). Se o julgamento é proferido por órgão colegiado
(Tribunal) recebe a denominação de acórdão.

A classificação realmente importante das sentenças (considerando tanto a


decisão do juiz singular como o acórdão dos tribunais) é a que leva em conta a
natureza do bem jurídico visado pelo julgamento, ou seja, a espécie de tutela
jurisdicional concedida à parte.

Pode-se dizer que há três tipos de tutela nos processos de conhecimentos: a


declaratória, a constitutiva e a condenatória. Pontes de Miranda acrescenta mais
duas espécies, a mandamental e a executiva lato sensu que não podem ser
consideradas categorias autônomas, mas subespécies de tutela condenatória.

De par da tradicional classificação das sentenças, em condenatórias,


declaratórias e constitutivas, existem também as sentenças homologatórias, que
são aquelas de mera verificação de legitimidade de ato das partes para alcançar a
autocomposição do litígio. Assim, a sentença, que sobre o ato jurídico se profere,
por nada lhe acrescentar em termos substanciais, exerce um papel assemelhado ao
declaratório: torna certo que as próprias partes puseram fim à lide, nos termos do
acordo homologado.

Tutela declaratória

É aquela em que a pretensão do autor se limita a que o juiz declare a


existência ou inexistência de uma relação jurídica, ou a autenticidade ou falsidade
de um documento.

Com razão se diz que, em todas as sentenças, ainda que condenatórias ou


constitutivas, há sempre certo conteúdo declaratório, porque é preciso, antes de
tudo, que o juiz declare quem tem razão.
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Mas a ação será declaratória quando a pretensão do autor limitar-se ao


pedido de declaração. Nos demais tipos, conquanto haja algum conteúdo
declaratório, o juiz vai além, impondo uma condenação, ou constituindo uma
relação jurídica.

A tutela declaratória tem por finalidade afastar uma crise de incerteza. Há


dúvida entre os litigantes quanto à existência ou inexistência de uma relação, ou
sobre a autenticidade ou falsidade de um documento; ao proferir sentença, o juiz
irá apenas decidir se a relação existe ou não, e se o documento é verdadeiro ou
falso, afastando a dúvida, que gerava insegurança.

O juiz não imporá obrigações aos contentores, não criará uma relação
jurídica que até então não existia, nem desconstituirá uma relação que havia.

A tutela declaratória não produz nenhuma modificação, nem de uma


situação fática, nem de uma relação jurídica. O que ela faz é solucionar uma
incerteza, uma dúvida.

A declaração não pode ter como objeto fatos. O seu objeto limita-se às já
mencionadas hipóteses do art. 4 do CPC. Mas o parágrafo único desse dispositivo
traz regra importante.

Art. 4º O interesse do autor pode limitar-se à declaração:

I - da existência ou da inexistência de relação jurídica;

II - da autenticidade ou falsidade de documento.

Parágrafo único. É admissível a ação declaratória, ainda que tenha ocorrido a violação do
direito.

Uma vez que a tutela declaratória não cria relações jurídicas, mas apenas
declara se elas existem ou não, a sua eficácia é ex tunc.

Todas as sentenças de improcedência são declaratórias negativas,


declararam que o autor não tinha razão em sua pretensão.

Tutela constitutiva

É aquele que tem por objeto a constituição ou desconstituição de relações


jurídicas. Não se limitam a declarar se uma relação jurídica existe, mas visam
alterar relações jurídicas indesejadas.
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Sem se limitar à mera declaração do direito da parte e sem estatuir a


condenação do vencido ao cumprimento de qualquer prestação, a sentença
constitutiva “cria, modifica ou extingue um estado ou relação jurídica.”

Haverá interesse para postulá-la se o autor quiser constituir ou


desconstituir uma relação jurídica, sem o consentimento do réu.

As sentenças podem ser constitutivas positivas ou negativas, também


chamadas desconstitutivas, conforme visem criar relações até então inexistentes,
ou desfazer as que até então existiam.

As sentenças constitutivas têm eficácia ex nunc, produzem efeitos a partir de


então, do momento em que se tornam definitivas, sem eficácia retroativa. Assim,
em ação de divórcio, o casamento considerar-se-á desfeito somente após a
sentença, com trânsito em julgado.

Elas não precisam ser executadas, já que produzem efeitos por si mesmas.
Portanto, o seu efeito opera instantaneamente, dentro do próprio processo de
cognição, de modo a não comportar ulterior execução da sentença.

Enquanto na sentença declaratória o juiz atesta a preexistência de relações


jurídicas, na sentença constitutiva sua função é essencialmente “criadora de
situações novas.”

São exemplos de sentenças constitutivas: a que decreta a separação dos


cônjuges; a que anula o ato jurídico por incapacidade relativa ao agente, ou por
vício resultante de erro, dolo, coação, simulação ou fraude; as de rescisão do
contrato; as de anulação de casamento, etc.

Tutela condenatória

Na sentença condenatória, certifica-se a existência do direito da parte


vencedora, “como preparação à obtenção de um bem jurídico”. Exerce, pois, dupla
função: “Aprecia e declara o direito existente e prepara execução. Contém,
portanto, um comando diverso do comando da sentença declaratória, pois
determina que se realize e torne efetiva determinada sanção, isto é, que o vencido
cumpra a prestação de dar, fazer ou não fazer, ou de abster-se de realizar certo
fato, ou de desfazer o que realizou.”

A sentença condenatória impõe ao réu uma obrigação, consubstanciada em


título executivo judicial. A partir dela abre-se ao autor a possibilidade de valer-se
de uma sanção executiva, para obter o seu cumprimento. Ela é aquela que impõe
uma obrigação que precisa ser cumprida. As demais sentenças, quando declaram
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ou constituem relações jurídicas, não impõem obrigações, nem exigem medidas de


cumprimento, já que se efetivam por si mesmas.

Ao proferi-la, o juiz declara que o autor tem razão, e constitui o título


executivo em seu favor, concedendo-lhe a possibilidade de valer-se de meios
executivos, para fazer cumprir a obrigação imposta.

Ao contrário das demais, ela exige uma atividade do devedor, para alcançar
a sua finalidade, exige que ele a cumpra. Se não o fizer voluntariamente, a lei mune
o credor para fazê-la cumprir e tornar concreto o seu comando.

As sentenças condenatórias têm eficácia ex tunc, pois retroagem à data da


propositura da ação. Em regra, a execução só poderá ter início a partir do
momento em que se tornem definitivas, mas a eficácia retroage à data da
propositura, tanto que os juros de mora são devidos desde a citação, se o devedor
não tiver sido constituído em mora anteriormente.

Os arts. 461 e 461 A do CPC estabelecem que, nas condenações em


obrigação de fazer, não fazer ou de entrega de coisa, a tutela será, em regra,
específica, concedido ao credor exatamente aquilo de que ficou privado, por força
da ação ou omissão do devedor; ou medida que assegure a ele resultado prático
equivalente ao do adimplemento.

Art. 461. Na ação que tenha por objeto o cumprimento de obrigação de fazer ou não fazer, o
juiz concederá a tutela específica da obrigação ou, se procedente o pedido, determinará
providências que assegurem o resultado prático equivalente ao do adimplemento. (Redação
dada pela Lei nº 8.952, de 13.12.1994)

§ 1o A obrigação somente se converterá em perdas e danos se o autor o requerer ou se


impossível a tutela específica ou a obtenção do resultado prático correspondente. (Incluído
pela Lei nº 8.952, de 13.12.1994)

§ 2o A indenização por perdas e danos dar-se-á sem prejuízo da multa (art. 287). (Incluído pela
Lei nº 8.952, de 13.12.1994)

§ 3o Sendo relevante o fundamento da demanda e havendo justificado receio de ineficácia do


provimento final, é lícito ao juiz conceder a tutela liminarmente ou mediante justificação prévia,
citado o réu. A medida liminar poderá ser revogada ou modificada, a qualquer tempo, em
decisão fundamentada. (Incluído pela Lei nº 8.952, de 13.12.1994)

§ 4o O juiz poderá, na hipótese do parágrafo anterior ou na sentença, impor multa diária ao réu,
independentemente de pedido do autor, se for suficiente ou compatível com a obrigação,
fixando-lhe prazo razoável para o cumprimento do preceito. (Incluído pela Lei nº 8.952, de
13.12.1994)

§ 5o Para a efetivação da tutela específica ou a obtenção do resultado prático equivalente,


poderá o juiz, de ofício ou a requerimento, determinar as medidas necessárias, tais como a
imposição de multa por tempo de atraso, busca e apreensão, remoção de pessoas e coisas,
desfazimento de obras e impedimento de atividade nociva, se necessário com requisição de
força policial. (Redação dada pela Lei nº 10.444, de 7.5.2002)
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§ 6o O juiz poderá, de ofício, modificar o valor ou a periodicidade da multa, caso verifique que
se tornou insuficiente ou excessiva. (Incluído pela Lei nº 10.444, de 7.5.2002)

Art. 461-A. Na ação que tenha por objeto a entrega de coisa, o juiz, ao conceder a tutela
específica, fixará o prazo para o cumprimento da obrigação. (Incluído pela Lei nº 10.444, de
7.5.2002)

§ 1o Tratando-se de entrega de coisa determinada pelo gênero e quantidade, o credor a


individualizará na petição inicial, se lhe couber a escolha; cabendo ao devedor escolher, este a
entregará individualizada, no prazo fixado pelo juiz. (Incluído pela Lei nº 10.444, de 7.5.2002)

§ 2o Não cumprida a obrigação no prazo estabelecido, expedir-se-á em favor do credor


mandado de busca e apreensão ou de imissão na posse, conforme se tratar de coisa móvel ou
imóvel. (Incluído pela Lei nº 10.444, de 7.5.2002)

§ 3o Aplica-se à ação prevista neste artigo o disposto nos §§ 1o a 6o do art. 461.(Incluído pela
Lei nº 10.444, de 7.5.2002)

A lei busca dar ao juiz mecanismos para tornar efetivas as determinações


judiciais, que devem atribuir ao credor exatamente aquilo que ele obteria se o
devedor cumprisse a sua obrigação (ou, pelo menos, algo equivalente, ou que traga
resultados próximos). Daí os §§4º e 5º do art. 461, aplicáveis ao art. 461-A,
fazerem, alusão a numerosos meios de coerção, para impor o cumprimento.

De tal sorte, a sentença condenatória, em termos gerais, é aquela que tem


por conteúdo a imposição do cumprimento de uma obrigação já violada ou cuja
violação se ameaça. Pode-se, com efeito, recorrer à tutela condenatória, tanto para
reparar a lesão já consumada (tutela repressiva) como para impedir o dano temido
(tutela inibitória).

A conversão em perdas e danos fica restrita às hipóteses em que não for


possível o cumprimento específico, ou quando o credor preferir.

Tutela mandamental

Não constitui categoria autônoma, mas uma subespécie das tutelas


condenatórias. A sentença mandamental é aquela em que o juiz emite uma ordem,
um comando, que deve ser cumprido pelo réu no mesmo processo em que a
sentença foi proferida, dispensando, desta maneira, a actio iudicati. Cabe à lei
estabelecer as sanções aplicáveis para o descumprimento da ordem, e os
mecanismos de que o juiz pode se utilizar para torná-la efetiva. São exemplos as
sentenças proferidas em mandado de segurança, e nas ações que tenham por
objeto obrigações de fazer, não fazer ou entregar coisa.
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Tutelas executivas “lato sensu”

Também são espécies de tutela condenatória, que se distinguem por


prescindirem de uma fase de execução. Se a obrigação não for cumprida pelo
devedor, o Estado tomará as providências necessárias para que o seja,
independentemente dele. É o que ocorre nas ações de despejo ou nas possessórias,
em que o juiz determina a retomada de bem. Ele determinará a expedição de
mandado de despejo ou de reintegração de posse, sem necessidade de instauração
de fase executiva, nem do uso de meios de coerção.

A sentença que condena à declaração de uma emissão de vontade

Os arts. 466-A a 466-C tratam das sentenças proferidas nos processo em


que a pretensão do autor é de que o réu emita uma declaração de vontade, que ele
se recusa a lançar.

Art. 466-A. Condenado o devedor a emitir declaração de vontade, a sentença, uma vez
transitada em julgado, produzirá todos os efeitos da declaração não emitida. (Incluído pela Lei
nº 11.232, de 2005)

Art. 466-B. Se aquele que se comprometeu a concluir um contrato não cumprir a obrigação, a
outra parte, sendo isso possível e não excluído pelo título, poderá obter uma sentença que
produza o mesmo efeito do contrato a ser firmado. (Incluído pela Lei nº 11.232, de 2005)

Art. 466-C. Tratando-se de contrato que tenha por objeto a transferência da propriedade de
coisa determinada, ou de outro direito, a ação não será acolhida se a parte que a intentou não
cumprir a sua prestação, nem a oferecer, nos casos e formas legais, salvo se ainda não
exigível. (Incluído pela Lei nº 11.232, de 2005)

Imagina-se que o réu tenha-se comprometido a, passado algum tempo ou


verificadas determinadas circunstâncias, celebrar com o autor um contrato, ou
emitir uma declaração. Cumprido o termo ou as condições impostas, o réu se
recusa a prestar a declaração prometida.

Para a satisfação específica da pretensão, a lei determina que a sentença,


sendo possível, produzirá os mesmos efeitos que a declaração de vontade não
emitida, ou que o contrato não firmado.

Se o réu se compromete, por exemplo, a transferir ao autor um veículo, e, na


ocasião aprazada, não assina o termo, o autor poderá postular judicialmente que o
juiz profira os mesmos efeitos, isto é, que promova a transferência postulada.

A situação é muito freqüente nos contratos de compromisso de compra e


venda, em que, com o pagamento da última parcela, o compromissário comprador
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tem o direito de obter do promitente vendedor a escritura pública do imóvel


adquirido. Feitos os pagamentos, o vendedor nega-se a outorgar a escritura.
Cumpre ao comprador ajuizar ação de adjudicação compulsória, na qual, provando
a existência do compromisso e o pagamento de todas as prestações, obterá do juiz
uma sentença que substituirá a escritura pública negada, produzindo os mesmos
efeitos, inclusive o de permitir o registro no Cartório de Registro de Imóveis.

Sentença condicional

O art. 460, parágrafo único exclui a possibilidade de o juiz proferir sentença


condicional, quando aduz que “a sentença deve ser certa...”. Esse dispositivo
mantém correspondência com o caput do art. 286 que determina que o pedido
também seja certo.

Art. 460. É defeso ao juiz proferir sentença, a favor do autor, de natureza diversa da pedida,
bem como condenar o réu em quantidade superior ou em objeto diverso do que Ihe foi
demandado.

Parágrafo único. A sentença deve ser certa, ainda quando decida relação jurídica
condicional. (Incluído pela Lei nº 8.952, de 13.12.1994)

Art. 286. O pedido deve ser certo ou determinado. É lícito, porém, formular pedido
genérico: (Redação dada pela Lei nº 5.925, de 1º.10.1973)

I - nas ações universais, se não puder o autor individuar na petição os bens


demandados; (Redação dada pela Lei nº 5.925, de 1º.10.1973)

II - quando não for possível determinar, de modo definitivo, as conseqüências do ato ou do fato
ilícito; (Redação dada pela Lei nº 5.925, de 1º.10.1973)

III - quando a determinação do valor da condenação depender de ato que deva ser praticado
pelo réu. (Redação dada pela Lei nº 5.925, de 1º.10.1973)

No entanto, admite-se que a sentença possa decidir relação jurídica


condicional, que depende da verificação de evento futuro e incerto.

Não se confunde sentença condicional, em que a procedência ou


improcedência do pedido fica condicionada à verificação de evento futuro e
incerto, com sentença que decide relação jurídica condicional. Nesta, o juiz
acolherá ou rejeitará o pedido, mas a execução dependerá do implemento da
condição.

Imagine-se um contrato, em que o devedor se compromete a entregar ao


autor os peixes que caírem em sua rede, em determinado período. O juiz pode
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reconhecer o direito do autor de haver os peixes já pescados, e os que venham a


ser pescados nos meses subseqüentes. É evidente que a entrega destes últimos
ficará condicionada a que o resultado da pesca seja favorável, devendo aplicar-se o
art. 572 do CPC, que condiciona o início da execução à prova de que a condição se
verificou.

Art. 572. Quando o juiz decidir relação jurídica sujeita a condição ou termo, o credor não
poderá executar a sentença sem provar que se realizou a condição ou que ocorreu o termo.