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De que são feitos os homens?

Por Da Redação

Rafael Kenski

Em 1992, uma paciente da médica holandesa Stephanie Van


Goozen, da Universidade de Utrecht, na Holanda, iniciou a
transição para o sexo masculino numa experiência que acabou
virando referência entre os estudos de endocrinologia. Desde
criança, a mulher – cuja identidade é preservada até hoje –
desejava ter nascido homem e, naquele ano, decidira mudar
definitivamente de sexo. Ela passou a tomar injeções de
testosterona para que seu corpo adquirisse características
masculinas, preparando o terreno para a cirurgia que, mais tarde,
completaria a metamorfose. Depois de três meses de tratamento,
no entanto, ela passou a ver o mundo com outros olhos. Começou
a perceber melhor todos os objetos à sua volta, mas não
conseguia prestar atenção nos detalhes. Tinha problemas em se
expressar, confundia as palavras. Mas passou a formular
expressões mais concisas. Pensava menos e agia mais. Antes
costumava fazer várias coisas ao mesmo tempo, agora focava
uma coisa por vez. Perdera grande parte da coordenação motora
fina e, em muitas ocasiões, deixava os objetos caírem de suas
mãos. “Não era o que eu esperava. Preferia continuar do jeito
antigo”, afirmou na época.

O caso é peculiar, mas não inédito. “As sensações descritas por


essa paciente são comuns a mulheres que tomam grandes
quantidades de testosterona”, afirma o psicólogo James Dabbs, da
Georgia State University, nos Estados Unidos. “De certa forma,
elas começam a pensar e a sentir como um homem.” James é um
dos maiores estudiosos dos efeitos psicológicos da testosterona.
Desde 1935, quando foi isolada pela primeira vez, essa substância
jamais deixou de ser alvo de discussões, seja entre os cientistas
que a estudam, seja entre os esportistas que a utilizam para
conseguir melhor desempenho em competições. A testosterona é
o principal hormônio masculino. O problema é que, até hoje,
ninguém sabe ao certo a forma como ela atua no organismo, nem
quais são todos os seus efeitos. “Provavelmente ela define muito
mais características do que imaginamos”, diz James.

A testosterona tem um papel importante na diferenciação dos


sexos. Apesar de ser encontrada em ambos, a concentração do
hormônio no sangue dos homens é até dez vezes maior do que no
das mulheres. Essa diferença é suficiente para determinar as
mudanças no corpo que, em última análise, tornam um garoto
diferente de uma menina. Por volta da sexta semana de gestação,
o feto masculino produz uma grande quantidade de testosterona.
Entre outros efeitos, isso gera o desenvolvimento do pênis e dos
testículos. Na adolescência, o hormônio chega aos seus níveis
mais altos, desencadeando as alterações típicas da idade: o garoto
engrossa a voz, experimenta um crescimento acelerado nos ossos
e na massa muscular, desenvolve pêlos no corpo e sente o seu
desejo sexual aumentar. A partir daí, a quantidade de testosterona
no organismo diminui gradativamente até a velhice.

A manipulação dos níveis de testosterona no corpo, geralmente


empreendida por homens que se dedicam ao culto da aparência,
leva a uma série de resultados polêmicos. O aumento da massa
muscular costuma ser o efeito do hormônio mais desejado pelos
homens. Em decorrência disso, tornou-se comum, em academias
de ginástica, o uso de uma versão sintética da testosterona.
“Aumentar a testosterona de pessoas saudáveis é uma aberração”,
afirma o endocrinologista Bernardo Leo Wajchenberg, da
Universidade de São Paulo. O hormônio pode ser absorvido em
pílulas – que causam enormes danos ao fígado – ou por meio de
injeções, que não conseguem manter um nível constante de
testosterona. As injeções acrescentam, de uma só vez, grandes
quantidades do hormônio no sangue e produzem efeitos físicos e
psicológicos que vão desde uma explosão de energia e
agressividade, nos primeiros dias, até fadiga e depressão, em um
momento seguinte.

Uma nova versão em forma de gel foi lançada em junho do ano


passado nos Estados Unidos. Bastaria esfregar a quantidade certa
na pele para manter o nível ideal do hormônio no corpo. Os riscos,
no entanto, não diminuem para os candidatos a Schwarzenegger.
“O uso sem controle dessa substância faz crescer a próstata e
pode resultar em um câncer, além de dilatar os vasos sangüíneos
e aumentar o perigo de uma arteriosclerose”, diz Bernardo.

Além dos efeitos sobre o corpo, suspeita-se que a testosterona


seja um importante fator para definir a personalidade. A questão é
definir até onde vai essa influência. Para o sociólogo Richard Udry,
da Universidade da Carolina do Norte, nos Estados Unidos, ela
pode definir as diferenças fundamentais de comportamento entre
homens e mulheres. “Em qualquer primata, as diferentes
quantidades de testosterona a que machos e fêmeas estão
submetidos no segundo trimestre de gravidez modificam a
estrutura do cérebro e o comportamento”, afirma Richard.
“Posteriormente, a socialização apenas estimula ou reprime as
predisposições biológicas.”
As idéias de Richard são alvo de muita polêmica. Boa parte de
seus colegas das Ciências Sociais estão acostumados a
explicações simbólicas, históricas e culturais para os padrões de
comportamento e não aceitam a idéia de que as atitudes possam
ser definidas por fatores biológicos. Mesmo James Dabbs, um dos
maiores estudiosos dos efeitos psicológicos da testosterona, hesita
em estabelecer uma relação tão direta entre a testosterona e as
diferenças de comportamento entre homens e mulheres. “Muitos
elementos são explicados pela testosterona, mas outros são
causados por fatores que ainda não conhecemos”, afirma.

De qualquer modo, há evidências que sugerem a influência do


hormônio no comportamento. “Pessoas com alto grau de
testosterona são freqüentemente mais agressivas e aceitam correr
mais riscos”, diz o sociólogo americano Alan Booth, da
Pennsylvania State University. Autor de um estudo com veteranos
da Guerra do Vietnã, Alan constatou que os soldados com maiores
níveis de testosterona se engajaram com mais freqüência em
situações como enfrentar o fogo inimigo, encontrar minas, desafiar
emboscadas, ver combatentes mortos ou matar adversários. Da
mesma forma, James Dabbs analisou mais de 700 presidiários e
constatou que os que haviam cometido crimes violentos e que
violavam com freqüência as regras da prisão tinham mais
testosterona que os que nunca haviam ameaçado, ferido ou
assassinado alguém. James repetiu essa pesquisa em um presídio
feminino e os resultados foram os mesmos, o que confirmou a
influência do hormônio em ambos os sexos.

Além da agressividade, a testosterona estimula também a libido.


Estudos feitos por Richard Udry com adolescentes mostraram que
um alto nível do hormônio aumenta a predisposição a ter relações
sexuais. O mesmo acontece com adultos. Só que, entre esses, o
maior nível de testosterona costuma acarretar problemas no
casamento. James Dabbs e Alan Booth analisaram as relações
amorosas de 4 462 militares entre 30 e 40 anos e perceberam que
os homens com testosterona alta eram menos propensos a se
casar e se divorciavam mais facilmente. Além disso, os campeões
da testosterona tinham o dobro de chances de ter relações
extraconjugais do que os que apresentavam níveis mais baixos.
Pois é, risco e agressividade podem não combinar com a vida
conjugal.

Muitas outras características estão associadas à testosterona.


“Pessoas com níveis mais altos desse hormônio são mais
autoconfiantes, rudes, inquietas e sorriem menos”, afirma James.
“Elas também são mais propensas ao consumo de álcool e ao
fumo, mas ainda não sabemos por quê”, diz Alan. Além dessas, a
lista de peculiaridades que a testosterona pode produzir – mas que
ainda não foram provadas definitivamente – inclui uma maior
noção espacial, uma menor preocupação com o conforto, a
tendência a tomar decisões mais rapidamente, com um foco mais
estreito e bem definido. (Leia-se: características essencialmente
masculinas.) Em contrapartida, acredita-se que pessoas com
níveis mais baixos de testosterona são mais amigáveis, mais
comunicativas, atentas aos detalhes e capazes de exercer
diversas atividades simultaneamente. (Leia-se: características
essencialmente femininas.) Apesar de existirem poucas pesquisas
sobre o assunto, casos como o da paciente holandesa que queria
mudar de sexo parecem confirmar essas teorias.

A origem da relação entre níveis de testosterona e padrões de


comportamento, para os pesquisadores, pode estar no nosso
passado de caçadores. “Milhares de anos de evolução devem ter
selecionado os homens com maior nível de testosterona”, afirma
James. Força, resistência, concentração e libido eram muito
importantes em um ambiente em que era preciso caçar animais
selvagens e disputar as mulheres para conseguir procriar. Tudo
isso no braço, na cara e na vontade. Para as mulheres, no entanto,
a habilidade manual e o cuidado com os filhos eram mais
importantes do que a força física. Ou seja: a testosterona só traria
prejuízos.

Até hoje, situações de alta competição e de dominação são


freqüentemente associadas à testosterona. Alan e James
pesquisaram atletas de esportes tão diferentes entre si quanto o
boxe e o xadrez e perceberam que a quantidade do hormônio no
sangue aumenta antes do jogo. Quando a partida termina, o nível
de testosterona continua alto nos vitoriosos e diminui
drasticamente nos derrotados. Esse efeito talvez explique as
temporadas de sucesso ou de fracasso de alguns times. E aplica-
se também aos torcedores mais exaltados. James coletou
amostras de testosterona da saliva de torcedores brasileiros e
italianos antes e depois da final da Copa de 1994. Depois que
Roberto Baggio perdeu o pênalti e sagrou involuntariamente o
Brasil tetracampeão mundial, os torcedores brasileiros
aumentaram o nível de testosterona em até 100%, enquanto os
italianos apresentaram uma queda brusca no nível do hormônio.

Parece ridículo, mas, mesmo com força e habilidade, qualquer


competidor precisa também assustar o seu adversário. É o que diz
James Dabbs. E a testosterona parece ajudar o indivíduo nessa
hora em que é preciso ganhar a disputa “no grito”. James mediu o
nível do hormônio em 97 advogados e constatou que os que
trabalhavam em julgamentos – e dependiam de sua performance
para ganhar as causas – tinham, em média, 30% mais
testosterona do que os que não enfrentavam os tribunais. O
resultado mais surpreendente apareceu quando analisaram o nível
do hormônio em diversas profissões. A única atividade que
apresenta níveis médios de testosterona superior aos jogadores de
futebol americano – acostumados a muita violência e competição –
é a dos atores. Esse mesmo estudo colocou padres e pastores
como os profissionais com menor índice de testosterona.

O fato de a testosterona ampliar a chance de sucesso em um


ambiente competitivo não significa necessariamente que o
hormônio favoreça o sucesso profissional. Muitos desempregados
têm um índice altíssimo de testosterona. Acredita-se que o
hormônio deixe as pessoas mais impulsivas e com menos
paciência para estudar durante horas ou ficar o dia inteiro sentadas
atrás de uma mesa. É preciso lembrar que a competição e os
fatores de sucesso há dezenas de milhares de anos, quando
desconfia-se que começou a relação entre a testosterona e os
padrões de comportamento humano, não eram os mesmos de
hoje.

Ao longo da nossa evolução, os problemas relacionados à


testosterona parecem ter limitado a sua quantidade no nosso
corpo. “Níveis muito altos de testosterona estimulariam o sujeito a
correr tantos riscos que ele acabaria morrendo antes de procriar”,
diz James. Outros estudos indicam que indivíduos castrados – que
quase não produzem testosterona – têm a sua expectativa de vida
aumentada em 13,6 anos. (Se você está achando que essa pode
ser uma troca justa, pense no problema que será achar o que fazer
durante todo esse tempo extra.)

Apesar de tudo o que vem sendo descoberto sobre a testosterona,


as pesquisas acerca do hormônio ainda estão no começo. “Por
enquanto só relacionamos algumas características à testosterona.
Dentro de cinco anos saberemos 100 vezes mais sobre ela do que
hoje”, afirma Alan. No meio de tantos estudos, é possível que
apareçam muitas revelações impressionantes. E muitos mitos
caiam, como aquele famoso de que os homens vêm de Marte e as
mulheres de Vênus. “Talvez descubramos que a única diferença
entre homens e mulheres seja mesmo a quantidade de
testosterona”, diz James.

Para saber mais

Na livraria:

Heroes, Rogues and Lovers – Testosterone and Behavior James


McBride Dabbs e Mary Goodwin

Dabbs, McGraw-Hill Books, 2000

Na Internet:

Testosterone Research

http://www.csmngt.com/andro.htm

James Dabbs Testosterone Articles

http://www.gsu.edu/~psyjmd/VitaTesto.html

rkenski@abril.com.br

Menopausa de macho

É isso mesmo: como as mulheres, os homens também enfrentam


inúmeros problemas com a queda na produção de seu principal
hormônio
Todo mundo sabe que as mulheres, ao envelhecer, estão sujeitas à
menopausa, uma súbita queda na quantidade de estrógeno, o
principal hormônio feminino. O que poucos sabem é que os
homens passam por um processo parecido, a chamada
andropausa.

“A quantidade de testosterona no sangue diminui gradativamente


com a idade e pode ser responsável por sintomas como perda do
interesse em sexo e na vida, falta de memória e osteoporose. Além
disso, pode causar diminuição da concentração e piora do
desempenho em atividades físicas”, afirma o geriatra John Morley,
da Saint Louis University, nos Estados Unidos. Ele calcula que 5%
dos homens com 40 anos e 70% dos homens aos 70 anos sofrem
de problemas relacionados à menopausa masculina. “A solução
para esses casos é repor artificialmente a quantidade desse
hormônio”, diz John.

Mas é preciso ir com calma: a terapia aumenta a possibilidade de


câncer na próstata e de derrames. Cada caso é um caso e o
tratamento só deve ser decidido após exames clínicos rigorosos.
Segundo John, o tratamento vale a pena. “O perigo não é muito
grande e os benefícios são enormes. A reposição de testosterona
pode trazer de volta ao organismo características importantes
como disposição e masculinidade.”