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Um sujeito sem subjetividade

Erik Porge
Tradução de Viviane Veras

Se o estado atual de dispersão dos analistas tem certamente a vantagem de


multiplicar as iniciativas de pesquisa, pode-se, contudo, constatar que os resultados de
tais iniciativas não encontram lugar de confrontação e de debate à altura dos desafios
que se lançam hoje à psicanálise. Não existe instância de garantia que possa fazer a
partilha entre o que leva adiante a descoberta de Freud e o que a faz retroceder. Freud
não está mais aqui para escrever sobre a questão da psicanálise leiga, nem Lacan, para
lançar seu retorno a Freud. No estado atual, somente os verdadeiros debates sobre
questões cruciais podem ajudar os analistas a não errar tanto.
Os múltiplos encontros certamente fazem aparecer os desacordos de fundo, mas
esses debates permanecem a maior parte do tempo sem conseqüências; seguem-se e
repetem-se como se os precedentes não houvessem existido ou como se não
houvessem resolvido nada. Aliás, se existem numerosas associações de psicanálise que
– diferindo por seu estilo, seu funcionamento, pelo que realizam – não são
equivalentes, qual delas pode pretender encarnar uma posição psicanalítica
reconhecida por todos como decisiva?
Aquilo de que se trata é bem de um reconhecimento partilhado daquilo que
constitui um desafio decisivo. Além das filiações institucionais, das transferências e
das fidelidades, parece que há uma dificuldade especial para discernir o que constitui o
próprio objeto de debate, para objetivá-lo em uma representação. É como se discernir o
objeto de um debate fizesse parte do próprio debate. Tudo se passa como se as
oposições, com o cortejo de argumentos e refutações, se perpetuassem sem que
pudesse se formular o ponto preciso do debate em torno do qual gravitam as posições
de uns e de outros. É possível se perguntar se não está em ação uma espécie de
desmentido (Verleugnung) do objeto do debate. De certa forma, ele é reconhecido, mas
suas conseqüências são desmentidas. Haveria talvez aí uma particularidade da
descoberta analítica, a de precisar se realizar no só-depois [après-coup], como Freud
observou no que concerne à existência de uma fase fálica na criança1.
Existe, assim, há muitos anos, uma corrente de pensamento, impulsionada
principalmente pelas publicações de Charles Melman e de Jean-Pierre Lebrun, que
preconiza a ideia de uma assimilação (ou de uma passagem contínua, não se sabe bem
de que operação se trata para eles) da economia psíquica à economia liberal de
mercado que nomeiam NEP, “nova economia psíquica2”. Essa nova economia teria

1
Brigitte Lernérer, “Négligences”, La psychanalyse : chercher, inventer, réinventer, Toulouse, érès,
2004.
2
C. Melrnan, Entretiens avec Jean-Pierre Lebrun, L’homme sans gravité. Jouir à tout prix, Paris,
determinado uma mutação do sujeito com produção de “neo-sujeitos”, para os quais
Jean-Pierre Lebrun provê uma “fenomenologia3”. As novas patologias seriam o signo
desses novos sujeitos. Assinalemos, de passagem, que se trata de uma radicalização
dos primeiros trabalhos de Jean-Pierre Lebrun, que então sustentava que a novidade
dessas patologias “devia-se não a uma nova estrutura da psique, mas a uma nova
possibilidade de transgredir as leis da linguagem4”.
Essa corrente de pensamento possui uma coleção na érès, dirigida por Jean-
Pierre Lebrun; coleção cujo nome, Humus, evocando o humano, afirma a concepção
antropológica do empreendimento. Essa dimensão é claramente reivindicada: “A
psicanálise é, no mesmo lance, uma antropologia5”. A situação atual, dominada pela
nova economia psíquica, “conduz-nos a ter de pensar uma mudança de grande
amplitude e de consequências antropológicas incalculáveis6”. Na trilha de Marcel
Gauchet, Jean-Pierre Lebrun fala de uma “virada antropológica7”. O declínio do pai, o
questionamento da legitimidade de seu lugar, “a morte da sociedade hierárquica”, a
desaparição da transcendência são as principais características dessa virada. “Nessa
nova economia psíquica que estamos evocando, o simbólico não teria mais seu lugar
de terceiro8”.
Não se trata de contestar as mudanças na sociedade e seus efeitos psicológicos
e sociais. Mas esse é o trabalho dos psicólogos e sociólogos. O ponto de vista do
analista é outro. No que diz respeito ao pai, ele se refere à estrutura, a da metáfora
paterna – anunciada de início por Lacan – e, depois, a borromeana, do pai nomeante.
Desse ponto de vista, a ação do pai, seja ela identificada à metáfora ou ao pai
nomeante, é independente de seu caráter na realidade ou de sua psicologia. Lacan não
cessou de se por em guarda contra a confusão de natureza psicológica entre as
carências paternas concretas na vida cotidiana e a falta do significante na metáfora9. O
único risco é que um pai se tome pelo pai. Levando em conta certas críticas, Jean-
Pierre Lebrun busca se demarcar de um “amálgama” pai e patriarcado10, mas não deixa
de estar menos preso a uma pesquisa em que são as modificações de comportamentos
de pais, em relação às mutações sociais – supostas representarem, por si só, o

Denoel, 2002. [Melman, C. O homem sem gravidade. Gozar a qualquer preço. Tradução de Sandra
Regina Felgueiras. Rio de Janeiro, Companhia de Freud, 2003]
3
J.-P. Lebrun, La perversion ordinaire. Vivre ensemble sans autrui, Paris, Denoel, 2007, p. 262.
4
J.-P. Lebrun, Un monde sans limite, Toulouse, éres, 1997, p. 195. [Um mundo sem limite: ensaio para
uma clínica psicanalítica do social. Tradução de Sandra Regina Felgueiras. Rio de Janeiro, Companhia
de Freud, 2004]
5
J.-P. Lebrun, La perversion ordinaire, op. cit., p. 14.
6
Prefácio de J.-P. Lebrun a L’homme sans gravité, op. cit., p. 13.
7
J.-P. Lebrun, La perversion ordinaire, op. cit., p. 251.
8
C. Melman, op. cit., p. 107.
9
J. Lacan, “Du traitement possible de la psychose”, Écrits, Paris, Le Seuil, 1966, p. 578. [“De uma
questão preliminar a todo tratamento possível da psicose”, Escritos. Tradução de Vera Ribeiro. Rio de
Janeiro, Jorge Zahar, 1998, p. 585]
10
J.-P. Lebrun, La perversion ordinaire, op. cit., p. 303.
simbólico – que vão se refletir na função metafórica do pai. “O pai, órfão do apoio do
patriarcado, não mais dispõe de uma legitimidade que claramente consolide sua
intervenção.”11
Esse tipo de empirismo encontra-se na designação das pretensas novas
patologias, chamadas a justificar a existência de neo-sujeitos. Tomemos o caso da
hiperatividade. Na obra de Charles Melman e Jean-Pierre Lebrun lemos: “J.-P. Lebrun:
Não seria possível evocar, a propósito do "parar quieta" [tenir en place] precisamente
essas crianças hiperativas que os pediatras chamam de hipercinéticas? Esse sintoma
não remeteria também à nova economia psíquica? – C. Melman: Certamente.”12
Uma coisa é afirmar que uma criança “não para quieta”, e outra é fazer disso o
“sintoma” (psiquiátrico) de uma doença que se vai chamar “hiperatividade”. Essa
doença, como se sabe, não tem nenhuma consistência estrutural, ela é o produto de
uma invenção de laboratórios ansiosos por vender Ritalina. O que significa, desde
então, que analistas retomem esse diagnóstico por sua conta e ainda por cima
considerem-no ilustrativo da nova economia psíquica, seja “a incidência efetiva sobre a
estrutura subjetiva das mudanças maiores que intervêm em nossa sociedade – tais
como, por exemplo, o fim do patriarcado –, ou ainda a dissociação recentemente obtida
entre gozo sexual e reprodução?13” Não haveria nessa diligência nosográfica algo
como uma denegação do valor significante do “parar quieto” que, em cada caso, toma
uma significação diferente segundo o significante ao qual ele remete? O nome
“hiperativo” transforma as crianças que não param quietas em crianças hiperativas;
crianças que vão fazer a alegria das estatísticas e dos mais sofisticados exames de
laboratório. Sem contar as elucubrações ditas analíticas.
Ao abrir essas comportas, a nova economia psíquica participa de uma
denegação das consequências do ato de nomeação e retorna a uma posição anti-
saussuriana, em que a linguagem seria uma nomenclatura. É a “nova economia
psíquica” que é um erro de nomeação, uma vez que conjuga, na prática e na doutrina,
uma confusão entre a psicanálise, a sociologia e a psicologia.
Em repetidas ocasiões, demos a conhecer nossas objeções às teses desse
movimento de pensamento e Jean-Pierre Lebrun, que é homem de diálogo, não se
recusava a ouvi-las. Entretanto, apesar de algumas tentativas abortadas, não havia sido
possível organizar um debate público sobre esse tema. Foi esse debate que conseguiu
reunir um grupo de diversas associações de psicanálise, entre elas a de Jean-Pierre
Lebrun, convidando-nos, Franck Chaumon e eu mesmo, a sustentar nossas posições
contrárias às suas em uma Jornada de trabalho em Bruxelas, no dia 13 de setembro
11
Ibid., p. 304.
12
C. Melman, op. cit., p. 120.
13
J.-P. Lebrun, op. cit., p. 16.
passado14. Foi, portanto, com gratidão por seu gesto, que respondemos a seu convite.

Ao retomar aqui, por escrito, as propostas que sustentei naquele dia, meu desejo
é o de contribuir para relançar um debate que, segundo entendo, não foi levado a
termo.
De imediato, o título que introduzia o debate pareceu-me estar fazendo, ele
mesmo, parte do debate. A questão que levantava constituía, de fato, implicitamente,
uma tomada de partido daqueles autores de cujas teses contestamos a validade – enfim,
os defensores da nova economia psíquica, para resumir.
“Que subjetividade para nossa época?” era o título que anunciava o
encontro. Começaremos por mostrar que essa questão já constitui, de fato, uma
resposta.
Esse título retoma uma citação do “Discurso de Roma” (1953) de Lacan, posto
em exergo ao argumento da “Jornada de encontros e de debates”:
Que antes renuncie à prática analítica aquele que não conseguir encontrar em seu
horizonte a subjetividade de sua época – escrevia Lacan em 1953. Pois, como
poderia fazer de seu ser o eixo de tantas vidas quem nada soubesse da dialética
que o compromete com essas vidas num movimento simbólico. Que ele conheça
bem a espiral a que o arrasta sua época na obra contínua de Babel, e que conheça
sua função de intérprete na discórdia das línguas…

De fato, essa citação deforma o original cuja abertura começa por: “Que antes
renuncie a isso, portanto, aquele que não conseguir alcançar em seu horizonte a
subjetividade de sua época […)15” O “que antes renuncie à prática analítica…”
substituiu o “Que antes renuncie a isso”, em que o “isso” não significa “a prática
analítica”, mas “o engajamento do sujeito em sua prática”, que se encontra no
parágrafo precedente, que termina em: “[…] o fim da própria análise didática separável
do engajamento do sujeito em sua prática.” Na citação em exergo “a prática analítica”
substitui o “o engajamento do sujeito em sua prática”. A distorção pode parecer
mínima, mas sua importância não escapará às orelhas advertidas dos psicanalistas. De
saída, o texto original adota o ponto de vista do sujeito e de seu engajamento, e não se
coloca em posição exterior e prescritiva sobre a prática. Em seguida, essa questão do
engajamento do sujeito é posta como não separável do fim da própria análise didática.
A questão do engajamento do sujeito em sua prática não é separável de uma versão do

14
Ver texto anexo da Jornada Quelle subjectivité pour notre époque?

15
J. Lacan, “Fonction et champ de la parole et du langage”, Écrits, Paris, Le Seuil, 1966, p. 321.
[“Função e campo da fala e da linguagem em psicanálise”, Escritos, p. 322]
fim da análise, na direção daquela que propõe Lacan em 1953, a saber – como ele diz
algumas linhas acima –, que “a questão do término da análise é a do momento em que
a satisfação do sujeito encontra meios de se realizar na satisfação de cada um, isto é, de
todos aqueles com quem ela se associa numa obra humana.” É então na medida dessa
“satisfação” (satis: o que é bastante, assaz) que se avalia o engajamento do sujeito. Em
seguida Lacan enunciará outras versões do fim da análise (em que não será mais
questão de alcançar em seu horizonte a subjetividade de sua época), é então em função
dessas versões que se manejará a apreciação do engajamento do sujeito na sua prática.
Ponderamos, além disso, que Lacan não fala de “subjetividade para nossa
época”, como o título pretende, mas de um “alcançar em seu horizonte a subjetividade
de sua época”. Não se trata de fornecer um atributo a essa subjetividade, mas de
alcançá-la, e mais, em seu horizonte. Dito de outro modo, não se a alcança jamais a
não ser no ponto de fuga da perspectiva – na montagem de um quadro, uma armadilha
para o olhar. A palavra horizonte é uma palavra que tem para Lacan um peso que deve
ser entendido justamente por sua referência à perspectiva, cuja entrada é
historicamente datada. No seminário O objeto da psicanálise (1965-1966) Lacan
mostra como a perspectiva introduz a problemática do sujeito (e mesmo de um sujeito
dividido entre ponto de fuga e ponto de distância) antes mesmo do cogito de Descartes.
O sujeito, tal como o entende a psicanálise, é então correlativo da introdução de uma
estrutura visual do espaço, dita geometria projetiva, feita de uma combinatória de
pontos, linhas, superfícies, cujo fundamento intuitivo se dissipa por trás das
necessidades combinatórias. Ora, a geometria projetiva não se refere a um mundo
esférico. “A coerência de um mundo significante com estrutura visual é uma estrutura
de envelope, e de forma alguma de extensão indefinida16” Lacan detalha em O objeto
da psicanálise, a passagem da geometria projetiva à topologia do plano projetivo, e
isso o conduz a concluir “que acima do horizonte não há o céu 17”, mas a continuação,
atrás de si, do plano projetivo.
Eis por que não é de espantar que ele retome o termo horizonte em seu texto
sobre o passe em 1967: “[Q]uero indicar que, de conformidade com a topologia do
plano projetivo, é no próprio horizonte da psicanálise em extensão que se ata o círculo
que traçamos como hiância da psicanálise em intensão.”18
Alcançar esse horizonte, que é também o da subjetividade, é ligar a psicanálise
em extensão (tudo o que presentifica a psicanálise para o mundo, o público, pesquisas,
apresentações, colóquios…) à psicanálise em intensão (o tratamento, especialmente sua

16
J. Lacan, L’objet de la psychanalyse, 4 de maio de 1966, inédito. Cf. J.-P. Georgin e E. Porge, “Au-
dessus de l'horizon il n'y a pas le ciel”, Littoral, n° 29, Toulouse, érès, 1989.
17
Ibid., 4 de maio de 1966, inédito.
18
J. Lacan, “Proposition du 9 octobre 1967”, Autres écrits, Paris, Le Seuil, 2001, p. 256. [“Proposição
de 9 de outubro de 1967”, Outros escritos. Tradução de Vera Ribeiro, Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 2002,
p. 261]
passagem didática) segundo uma topologia que não é a do círculo ou a da esfera, com
sua fronteira interior-exterior, mas a do cross-cap (ou do plano projetivo) ou da
superfície de Boy19 com seu ponto triplo.
Na fundação da Escola freudiana de Paris, Lacan enuncia que “a
psicanálise está em toda parte, e os psicanalistas, em outro lugar 20”. O alcançar o
horizonte de que ele fala é precisamente situar-se em “outro lugar”, no
cruzamento dos círculos interior e exterior da intensão e da extensão, seguindo o
corte em oito interior que separa e reúne o disco e a banda de Moebius,
formando o cross-cap.
Alcançar o horizonte é seguir um trajeto; o trajeto de um corte que engendra
uma superfície, aqui a do cross-cap. A dupla volta desse corte fechado opõe-se à
espira21 ou, diz Lacan no discurso de Roma, sua época arrasta o analista e –
acrescentamos – o aspira.
Falar de “subjetividade de nossa época” diz respeito hoje ao pior. Por quê?
Primeiro porque a questão se põe em tal nível de generalidade que não saberia
encontrar resposta satisfatória. Não haveria aí subjetividade geral comum a uma época.
Além disso, sua indeterminação autoriza todos os mal entendidos. Vamos dissipá-los
de imediato. O que nos importa é termos um uso um pouco rigoroso do termo sujeito
em psicanálise. Não se trata de seu uso nos discursos político, econômico,
sociológico... em que aparece a concepção de um sujeito transparente a si mesmo e aos
outros, e resumindo-se a uma soma de informações que o objetivam em uma
representação e o identificam. É a essa concepção que alguns reagem, opondo a ela a
subjetividade, a subjetivação, como o próprio do sujeito. Haveria então “falsos”
sujeitos sem subjetivação e “verdadeiros” sujeitos com subjetivação.
Não se saberia reconduzir esse modo de distinção em psicanálise. E, no entanto,
era o que constituía o argumento dessa jornada de Bruxelas: “que subjetividade para
nossa época?” Argumento que pressupõe que não haveria distinção entre subjetividade
e sujeito, que um implica o outro, que a subjetividade é a essência do sujeito como a
coisidade é a da coisa. Ora, ele não é nada para a psicanálise. Sujeito e subjetividade
são dois termos disjuntos que se excluem um ao outro no tempo em que aparecem.
“É preciso desenlamear o sujeito do subjetivo”, diz Lacan na sua Proposição de
9 de outubro de 196722. O sujeito não tem subjetividade, ele não se subjetiva, ele se

19
N. de T. Essa superfície foi descoberta pelo matemático Werner Boy, em 1902. Foi formalmente
descrita em 1981 pelo matemático Jérome Souriau. Nesse tipo de superfície apagam-se as fronteiras
entre os elos R.S.I., que passam a estar em continuidade. Mais detalhes e as figuras estão disponíveis em
Benno Artmann, http://www.math.umt.edu/TMME/Monograph3/Artmann_Monograph3_pp.3_16.pdf
Acesso em 20-10-2009.
20
J. Lacan, “Préambule à l’acte de fondation”, Autres écrits, op. cit., p. 237. [“Ato de fundação”, Outros
escritos. Tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, p. 243]
21
N. de T. Espira é cada uma das voltas de uma espiral.
22
J. Lacan, Autres écrits, op. cit., p. 248. [Outros escritos, p. 253]
institui na sua destituição (O desejo e sua interpretação, 1958) porque ele é apenas
representado por um significante para outro significante. Onde há sujeito há fading da
subjetividade. Nesse espaço-tempo entre dois significantes ele é foracluído, signo de
nada, pura hipótese. Suposto, ele nada supõe. Há a realidade de uma Spaltung, do
nada de um corte, aquele da banda de Moebius: “A banda de Moebius é uma
superfície tal que o corte traçado em seu centro seja ele uma banda de Moebius. A
banda de Moebius em sua essência é o próprio corte. Eis o ponto em que a banda de
Moebius pode ser para nós o suporte estrutural da constituição do sujeito como
divisível.” E: “Cada vez que falamos de alguma coisa que se chama o sujeito fazemos
dele um “um”. Ora, trata-se é de conceber o que é justamente isto: falta o um para
designá-lo.”23
Falar de “novos sujeitos”, como fazem os partidários da nova economia
psíquica, é então um nonsense do ponto de vista da psicanálise. Seu sentido só pode ser
psicológico, sociológico, jurídico…
O analista é um generalista do sujeito, não um especialista de subjetividades (da
criança, do adolescente, dos drogados, dos deprimidos… Das novas patologias, dos
novos sujeitos).
Generalizar de forma lógica a definição de sujeito (um significante o representa
para outro significante), assim como as operações que ela permite (a alienação e a
separação, por exemplo) permite escutar a fala de subjetividades a cada vez singulares.
Graças a essa generalização, Lacan pode escrever uma estrutura de um número restrito
de discursos que articulam uma relação entre uma subjetividade particular, diferente
para cada falasser, e a ex-sistência única do sujeito24.
De acordo com o lugar do sujeito, escrito $, em cada discurso, as relações entre
os enunciados e as enunciações sofrerão determinações diferentes e terão efeitos
diferentes sobre os outros no laço social. O sujeito, porém, permanece o mesmo,
também sempre dividido, e uma fala singular, em uma experiência subjetiva particular,
pode sempre liberar-se dessas determinações, por exemplo, passando a outro discurso.
Cada um dos discursos é suscetível de permutar com outro, pela rotação dos termos
para um lugar diferente. Disso resulta que não se fala do sujeito do ponto de vista de
Sirius, mas somente estando implicado por um discurso. Não há ponto de vista
totalmente exterior e objetivo a partir do qual se pudesse enunciar uma generalidade
sobre o sujeito. Se há ponto de vista exterior, ele é função de um lugar no discurso e,
portanto, ele também submetido a determinações que, por sua vez, dividem aquele que

23
J. Lacan, L’objet de la psychanalyse, 15 de dezembro de 1965, inédito.
24
Trata-se dos quatro discursos: da histérica, do mestre, do analista e do universitário, aos quais é
preciso acrescentar o do capitalista, por transformação do discurso do mestre.
aí se coloca.
Nesse caso, como discernir mais de perto o erro daqueles que confundem
subjetividade e sujeito? Esse erro volta a confundir o sujeito como termo lógico e o
“eu” [je] gramatical e, de sobra, a suprimir o espaço topológico de sua diferença pelo
qual desliza o desejo inconsciente. Porque o desejo é articulado logicamente, mas não
articulável por um eu [je].
Essa confusão não data de hoje. Nietzsche já a denunciava (em sua crítica a
Descartes, visto que o responsabilizava por ela), qualificando-a de rotina gramatical
(grammatischen Gewohnheit)25.
Definir a existência lógica de um sujeito do inconsciente, diferente do eu [je]
gramatical, é a forma que Lacan encontrou para responder à questão de Freud em sua
Metapsicologia: “Como chegar ao conhecimento do inconsciente” sem transformá-lo
em segunda consciência? O sujeito do inconsciente não é sujeito no inconsciente. Ele
nada tem de substancial, é momento de eclipse que se manifesta na fenda de um
equívoco [l'une bévue (Unbewusste)]. Para o “eu” [je] que fala, o sujeito do
inconsciente é um “ele” [il] e não outro “eu” [je]. O sujeito é a própria divisão entre
esse “eu” [je] que fala e esse “ele” [il]. Ele se situa “em um grau secundário da
alteridade26”. O que Freud chamava de “a hipótese do inconsciente” Lacan substitui
pela “hipótese do sujeito”, tomando hipótese no sentido literal (hypo, o que está
debaixo, sub). E o que está sob é o sujeito (sub-jet).
Para “desenlamear o sujeito do subjetivo” Lacan aconselhava lembrar-se de
Aristóteles. De fato, ele retornou muito, a partir de 1967, à noção de hypokeimenon na
medida em que ela antecipa a noção de sub-jectum, su(b)-jet.
Para ter uma medida da importância dessa noção na pré-história do sujeito,
podemos nos reportar às três grandes obras de Alain de Libera, em que ele retraça a
arqueologia do sujeito no período pré-cartesiano27. A leitura filosófica de Descartes,
que não é a de Lacan, realiza a junção entre o “eu” [je] agente do pensamento e o
sujeito como substrato ou ser, entre o “eu” [je] gramatical e o sujeito lógico. É isso que
Heidegger, em um livro sobre Nietzsche, chama de a passagem da subjectité (uma
metafísica do ser) à subjetividade moderna, em que o ego se tornou o sujeito28.
Apoiando-se em textos teológicos, particularmente aqueles que concerniam à Trindade,
Alain de Libera mostra que, de fato, a junção do “eu” [je] e do sujeito havia começado
a operar desde a Idade Média, particularmente com São Tomás (p. 343). Ele destrinça a

25
F. Nietzsche, Par-delà le bien er le mal, I, § 17.
26
J. Lacan, “ L'instance de la lettre dans l'inconscient”, Écrits, op. cit., p. 524. [“A instância da letra no
inconsciente ou a razão desde Freud”, Escritos. Tradução de Vera Ribeiro, Rio de Janeiro, Jorge Zahar,
1998, p. 529]
27
A. de Libera, Archéologie du sujet, 1. “Naissance du sujet”, 2. “La quête de l’identité”, Paris, Vrin,
2008.
28
M. Heidegger, Nietzsche, t. lI, Paris, Gallimard, 1961. [Nietzsche. Tradução de Marco Antônio
Casanova. Rio de Janeiro, Forense Universitária, vols. I e II, 2007]
complexidade de textos que contribuíram para o que chama de um “quiasma da
agência” (o sujeito é agente do pensamento) a partir do hypokeimenon aristotélico, que
não é nem “eu” [je] nem “eu” [moi], e que aparece dividido na medida em que há uma
dificuldade lógica para “dizer o sujeito”: trata-se do que é dito de um sujeito ou do ser
em um sujeito? Do sujeito de atribuição ou do sujeito de inerência? De um sujeito
lógico ou de um sujeito ontológico?
Lamentamos que nossos modernos economistas do psiquismo não tenham mais
essas delicadezas para falar do sujeito.
Se Lacan retornou com frequência aos textos de Aristóteles, e promoveu o
termo hypokeimenon, foi para dizer alguma coisa do sujeito, saindo da rotina
gramatical que faz o estofo do fantasma, aquele segundo o qual haveria “novos
sujeitos”.
Pierre-Christophe Cathelineau escreveu um livro esclarecedor29 sobre a leitura
que Lacan faz de Aristóteles, na qual aborda a questão da ambiguidade que existe nele
entre o hypokeimenon e a ousia, que ele propõe traduzir por “essência”, em vez de
“substância”, na medida em que esse último termo veicula justamente a ambigüidade.
Pela mesma razão, Lacan propõe a tradução de ousia por “ente” ou “ser”30. Segundo
Cathelineau, Lacan lê nessa ambiguidade um entrançamento que antecipa o seu, aquele
entre o sujeito lógico e o inconsciente – o x que é preciso supor no real para começar a
pensar, o sujeito da ciência –, entrançamento, portanto, entre esse sujeito e o objeto a,
causa de desejo, que vem tomar o lugar da ousia, o ser do sujeito, sob a forma de um
dos quatro objetos a, como o excremento.
O ser do sujeito não é a subjetividade, é seu excremento.
A distinção fundamental entre sujeito e subjetividade, que pusemos logo de
início, apareceu-nos no só-depois [après-coup] como tendo sido um objeto decisivo do
debate desse sábado de setembro em Bruxelas. Ele foi reconhecido como a questão
pendente do debate? De fato, não. E isso levanta questões, particularmente aquela que
pusemos ao começar, a saber, que o objeto do debate fazia parte do debate, as
consequências são objeto de um desmentido: sim há divergências, divergências de
opinião, apesar disso continuamos a discutir como se nada de decisivo, nessas
conseqüências, houvesse sido, e mesmo não pudesse ser, alcançado.
Contudo, essas consequências parecem-nos graves para a psicanálise. Fazendo
coincidir sujeitos e subjetividades com as determinações sociais (muito gerais e
imprecisas) esquece-se a fala singular. Ali onde os sujeitos são identificados de fora,
eles são fixados em uma identificação que faz identidade. O argumento de que essa
identificação possa ser retomada por sua conta por um indivíduo não deixa a
29
P.-C. Cathelineau, Lacan lecteur d’Aristote, Paris, Éd. de I' AFI, 1998.
30
J. Lacan, D’un Autre à l’autre (1968-1969), Paris, Le Seuil, 2006, p. 348 e p. 206. [O seminário, livro
16: de um Outro ao outro. Tradução de Vera Ribeiro, Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 2008, p. 336 e p.
190]
possibilidade de que não se reduza aí um desvio entre o enunciado e a enunciação. Que
se diga de um indivíduo “ele está deprimido” e que ele retome “eu estou deprimido”
não significa que o sujeito se identifique à depressão, que nela permaneça, que é
idêntico a ela (a identidade a si fazendo o ser) e que ela seja a palavra final da história.
Identificar o sujeito a um enunciado do discurso social – do qual, aliás, não
precisamos os termos, e que permanece muito geral, vago, um “se” [on], um rumor… –
é uma pesquisa objetivante que lança o sujeito em uma alienação imaginária e que
impede a análise. Não é de surpreender, então, que esses “novos sujeitos” sejam
considerados inanalisáveis.
De fato, eles são expulsos da análise por uma nomeação intempestiva. É de
saída que terá havido na escuta do analista uma demarcação que indicia uma recusa de
oferta especificamente analítica. Não se sabe, aliás, o que esses analistas da nova
economia psíquica propõem para esses “novos sujeitos”, e não dizem como podem,
com a psicanálise (e não com a psicoterapia), se desembaraçar disso.
Anexo
Psicanálise, campo social e saúde mental
Organiza uma jornada de encontros e debates
sábado, 13 de setembro de 2008

Que subjetividade para nossa época?

Com a participação de
Franck Chaumon (psicanalista, Paris)
Dany-Robert Dufour (filósofo)
Martine Menes (psicanalista, Paris, EPFCL)
Jean-Marie Forget (psicanalista, Paris, ALI)
Jean-Pierre Lebrun (psicanalista, Namur, AF)
Erik Porge (psicanalista, Paris, la Lettre lacanienne)

Que antes renuncie à prática analítica aquele que não conseguir encontrar em seu horizonte a
subjetividade de sua época – escrevia Lacan em 1953. Pois, como poderia fazer de seu ser o eixo de
tantas vidas quem nada soubesse da dialética que o compromete com essas vidas num movimento
simbólico. Que ele conheça bem a espiral a que o arrasta sua época na obra contínua de Babel, e que
conheça sua função de intérprete na discórdia das línguas…

Há alguns anos, autores situados em diferentes domínios das ciências humanas têm
observado e estudado as importantes mutações ocorridas em nossas sociedades no decorrer das
últimas décadas. Muitos psicanalistas tentaram distinguir a incidência dessas transformações
sobre a subjetividade de nossa época. As hipóteses e as conclusões às quais alguns chegaram
abriram um importante debate. Assistimos a uma mudança profunda que afeta a subjetivação
em nossas sociedades? Estamos lidando com novos sujeitos e com novas patologias? Devemos
conceber novas clínicas? Estamos às voltas somente com uma mudança na formulação das
demandas?
Para responder de maneira rigorosa, é necessário precisar o domínio de incidência das
mutações observadas. Trata-se da estrutura, isto é, do que é determinado pela exterioridade da
linguagem em relação ao vivente humano? Trata-se de estruturas, quer dizer, da posição
específica de um sujeito em sua relação à estrutura da linguagem. Ou diz respeito à entidade
social e jurídica da pessoa tal que ela se determina no estado presente do laço social e da
civilização? Aliás, que consequências tirar para a prática da psicanálise, assim como para outra
prática que convirja com ela quanto a sua intenção?
Psicanálise, campo social e saúde mental reúne psicanalistas de diversas associações e
propõe confrontar diferentes abordagens dessas questões, suscitando um debate entre cinco
analistas e um filósofo que recorreram aos meios teóricos de Freud e de Lacan para elaborá-las.
É a forma da confrontação, acentuando a importância das mudanças, que nos pareceu dever
prevalecer: a discussão será aberta logo após breves apresentações das condições do debate.

Comitê de organização: Christian Centner (EPSF), Evelyne Chambeau (Association de forums


du champ lacanien-Bruxelles), Michel Coddens et AnneMarie Devaux (Forum du champ
lacanien du Brabant), Michel Elias (Acte psychanalytique), Sylvain Gross (Questionnement
psychanalytique, EPSF), Jean-Pierre Lebrun (Association freudienne), Pierre Marchal (Associa-
tion freudienne), Martin Petras (Questionnement psychanalytique), Felix Samoilovitch
(Questionnement psychanalytique), Joseph Le Ta Van (Acte psychanalytique).

De 9h30 (recepção) às 17hs


15 avenue de Rodebeek, 1030 Bruxelas (metrô Diamant)
Contribuição: 30 € (estudante com apresentação de carteira: 20 €); inscrição no local.
Informações: dirigir-se a Michel Coddens, mcoddens@brutele.be, fone: 0495 25 00 35