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27/08/2018 Ser humano, cultura e formação social: etnoconhecimento e correlações para formação do sujeito transformador da sociedade | Educação Pública

Ser humano, cultura e formação social: etnoconhecimento e


correlações para formação do sujeito transformador da sociedade

Eduardo Beltrão de Lucena Córdula

Glória Cristina Cornélio do Nascimento


Professores, biólogos e doutorandos (Prodema/UFPB)

Caminhos iniciais
Conhecer para aprender e aprender para conhecer são uma condição sine qua non para todo ser humano que
deseja mudar suas práticas, desenvolver-se e adquirir novos conhecimentos (Ventura, 2013).

O que somos e o modo como agimos são in uenciados por um complexo biológico-cultural, no qual a
biologia e a cultura in uenciam-se mutuamente e compõem a natureza humana (Albuquerque;
Medeiros, 2013, p. 11).

Evoluímos porque aprendemos dentro do contexto social e nas inter-relações entre os atores envolvidos no
processo, de forma direta ou indireta (Ventura, 2013). Assim, a humanidade foi alicerçada pelo agrupamento
social do ser humano, que gerou sua cultura ao longo do tempo e formou as sociedades existentes na
atualidade (Figura 1).

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Figura 1: Entrelaçamento do ser humano, da cultura e da sociedade na projeção da formação do sujeito


Fonte: Autores, 2018.

Para mudar o paradigma do processo de formação do sujeito, foi organizada uma comissão pela Unesco com
vista à formulação das diretrizes de orientação para o novo milênio, intitulado Relatório Delors (Brasil, 2010). “O
Relatório Delors pôs ênfase no respeito à diversidade e aposta na defesa do pluralismo como forma de
melhorar o entendimento entre os povos e a construção de um mundo melhor, além de rea rmar as ideias de
educação continuada” (Ventura, 2013, p. 37).

A sociedade vem despertando, porém ainda lentamente, para a necessidade de novos rumos para a educação
nacional e para a formação de um novo sujeito, transformador de suas próprias práticas (Córdula; Fonseca,
2013).

Cultura e sociedade
Para Albuquerque e Medeiros (2013), a transmissão do conhecimento nas mais diversas sociedades, sejam
elas primitivas/ancestrais ou evoluídas/modernas, se dá entre as gerações, dentro das famílias, reproduzindo
os comportamentos dos sujeitos. Estes podem se manifestar de forma individual mesmo dentro de um grupo,
em que cada um interage de forma única; nesse contexto, o conhecimento é produzido, reproduzido e
armazenado – tanto de forma individual como coletiva. Dessa forma ocorre a transmissão cultural, pela
imitação do que é observado ou pela oralidade contada pelos que a possuem, ao longo do tempo, no território
e pelas gerações. “As sociedades tradicionais albergam um repertório de conhecimento ecológico que
geralmente é local, coletivo, diacrônico, sincrético, dinâmico e holístico” (Toledo; Barrera-Bassols, 2009, p. 35).
Portanto, algumas comunidades encerram ainda em si mesmas uma cultura própria e parecem, quando
observadas sem contato íntimo, estar estagnadas no tempo, devido a uma aparente rusticidade peculiar,
sendo conhecidas pela ciência e popularmente como artesanais e tradicionais (Diegues, 2000).

As comunidades tradicionais são aquelas que possuem cultura própria, que diferem quanto à linguagem
adotada, à forma de interação com a natureza e sua dependência dela para sobreviver, possuem rituais
místicos e principalmente conhecimento muito íntimo dos recursos naturais utilizados por eles (Nascimento;
Córdula, 2016; Nascimento; Nascimento; Córdula, 2014a). As comunidades locais são as pessoas que
possuem essas características e estão inseridas nos centros urbanos, mudaram do território de sua
naturalidade e passaram a ocupar outro espaço geográ co ou passaram por um processo de modi cação de
seu modo de vida, mas ainda detêm saberes, praticas, costumes e crenças originais, em que esses “sistemas
cognitivos sobre os recursos naturais circundantes são, além disso, transmitidos de geração a geração”
(Toledo; Barrera-Bassols, 2009, p. 35). O conhecimento é transmitido de indivíduo a indivíduo; o primeiro
adquire e armazena o conhecimento em uma tríplice dimensão temporal (Quadro 1) (Soldati, 2013;
Nascimento; Nascimento; Córdula, 2014a) e assim repassa para somar aos conhecimentos do próximo, numa
cadência sociocultural geracional (Penso; Costa; Ribeiro, 2008).

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Quadro 1: Tríplice vertente da dimensão temporal do conhecimento de um só informante.

Dimensão Descrição

Experiência histórica “Acumulada e transmitida por meio de gerações por uma cultura rural determinada”.

Experiência social “Compartilhada pelos membros de uma mesma geração (ou um mesmo tempo
geracional)”.

Experiência individual “Pessoal e particular do próprio produtor e sua família, adquirida pela repetição do ciclo
produtivo (anual) paulatinamente enriquecido por variações, eventos imprevistos e
surpresas diversas”.

Fonte: Toledo; Barrera-Bassols (2009, p. 35-36).

O conhecimento se perpetua ao longo das gerações quando possui importância para seus membros; ele se dá
de forma intrafamiliar, extrafamiliar e transfamiliar (Figura 2). O conhecimento intrafamiliar é aquele que se
manifesta e ca retido no interior da família e as demais pessoas da comunidade não possuem acesso a ele; o
extrafamiliar extrapola a formação da família para outros sujeitos da comunidade ou forasteiros; o
transfamiliar é aquele que perpassa as famílias da comunidade (Penso; Costa; Ribeiro, 2008; Soldati, 2013).

Figura 2: Níveis de repasse do conhecimento na comunidade local/tradicional.


Fonte: Autores, 2018.

O fenômeno resultante é um processo histórico de acumulação e transmissão de conhecimentos não


isento de experimentação, que toma a forma de uma espiral em várias escalas espaço-temporais: desde
a do próprio produtor, já que durante cada ciclo produtivo sua experiência se vê paulatinamente
incrementada sobre a base do aprendido no ciclo imediatamente anterior, até a da comunidade cultural,
já que o conhecimento vai se aperfeiçoando (e adaptando), geração após geração, à realidade local de
cada presente (Toledo; Barrera-Bassols, 2009, p. 36).

Toda cultura é a gênese do acúmulo espaço-temporal do conhecimento, das práticas e das crenças de uma
população. Segundo Johnson (1997, p. 59),

cultura é o conjunto acumulado de símbolos, ideias e produtos materiais associados a um sistema


social, seja ele uma sociedade inteira ou uma família. Juntamente com estrutura social, população e
ecologia, constitui um dos principais elementos de todos os sistemas sociais e é conceito fundamental
na de nição da perspectiva sociológica.

Assim, a cultura se processa nas sociedades, representando cada etnia, hábito/costumes, crenças e a
in nidade de características próprias e que diferenciam umas das outras (Figura 3). E está intimamente
relacionada aos aspectos sociais e ambientais nos quais as sociedades estão imersas (Nascimento;
Nascimento; Córdula, 2014b; 2014c).

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Figura 3: Estruturação da cultura em uma sociedade.


Fonte: Autores, 2018.

Na coletividade da humanidade, as diferentes culturas que representam as diversas sociedades humanas


formam cada uma, a sociedade estruturada e alicerçada no acúmulo de conhecimentos vivenciados e
modi cados ao longo do tempo, tendo como base a família e o sujeito (Córdula; Nascimento, 2014; Córdula,
2015) (Figura 4).

Figura 4: Inter-relações partindo do sujeito e expandindo para a constituição da sociedade.


Fonte: Autores, 2018.

Para Johnson (1997, p. 213), sociedade,

especi camente, é um sistema de nido por um território geográ co (que pode ou não coincidir com as
fronteiras de Nações-Estado), dentro do qual uma população compartilha cultura e estilo de vida
comuns, em condições de autonomia, independência e autossu ciência relativas.

Sociedade, comunidades, cultura, famílias e sujeitos estão intrinsicamente conectados e interdependentes no


conjunto social humano em que ocupam territórios e realizam modi cações, ora no seu próprio modo de vida,
ora no ambiente em seu entorno, modi cando e alterando-o para suprir suas necessidades (Córdula;
Nascimento, 2014).
Essas modi cações, pelo desconhecimento da conexão entre as partes, com que atualmente apenas as
comunidades tradicionais e locais conseguem interagir e evidenciar, provocam alterações de todos os níveis e
intensidades (Córdula, 2012a). O desa o está em retornar à sociedade esses saberes para que se convertam
em práticas e passem a constituir e integrar a cultura e, assim, se perpetuem ao longo do tempo.

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Desa os à nova sociedade


O desa o da nova sociedade está em conseguir inserir os conhecimentos para que a sociedade possa voltar a
respeitar o meio ambiente e utilizar seus recursos de forma sustentável. Assim, sociedade e natureza podem
novamente interagir de forma salutar, proporcionando equilíbrio (Córdula, 2012b).

A crise ambiental que hoje ecoa nos cinco continentes é decorrente de décadas de atuação da humanidade
consumindo desenfreadamente os recursos naturais, poluindo o solo, os rios, os mares e o ar, provocando
desmatamentos para uso do recurso orestal e ocupando as áreas naturais com pastagens, monocultura ou
urbanizando para constituição de cidades. A ecologia planetária está deteriorando rapidamente e o
consumismo ainda está acelerado; a biodiversidade está sendo perdida e os desequilíbrios vêm aumentando.
A falta de consciência sobre toda essa perspectiva da ação antrópica sobre o planeta, mesmo tendo acesso à
era digital e à navegação na internet, leva-nos a uma fase de conhecimento e omissão perante toda a
magnitude das ações e danos provocados pelas gerações anteriores e pelas atuais (Dias, 1998; Capra, 2004;
Córdula, 2011; 2012a; 2012b). Assim, apenas a implantação de uma nova cultura social, por meio do sistema
educacional comprometido no refazimento da condição humana neste planeta, poderia reverter esse quadro.

Para tanto, o sistema educacional precisa mudar sua forma de atuação no processo de ensino-aprendizagem;
além deste, a ciência demanda esforço para que esses conhecimentos cheguem a todas as comunidades e
recantos da sociedade, além de tornarem-se materiais didáticos para que os professores possam lecionar para
seus educandos (Córdula, 2011; 2012a; 2013a; 2013b; Córdula; Fonseca, 2013; Córdula; Nascimento, 2012;
2014).

Nesse processo, necessita-se compreender como se dá a formação do sujeito e as in uências que interagem
sobre ele (Figura 5).

Figura 5: Formação do sujeito sob in uência dos setores que integram, na formação de uma base educacional
sólida
Fonte: Autores, 2018.

Essa formação ocorre na família, com participação da sociedade, da comunidade e da escola, em que o sujeito
educando se insere no centro do processo, que, conduzido de forma humanista, proporcionará um cidadão
atuante, transformador e que poderá reverter ao longo das próximas décadas todos os problemas
socioambientais provocados pelas gerações anteriores (Córdula; Nascimento, 2012; Córdula, 2012b).

Portanto, entender a cultura, registrar não só os conhecimentos da ciência moderna como também das
comunidades tradicionais e locais, que guardam os saberes das relações harmoniosas e dos possíveis
segredos da resiliência ambiental, será imprescindível para traçar novos rumos para o futuro da humanidade
(Córdula, 2012a).

No tocante ao acesso a esses conhecimentos artesanais e tradicionais, os novos rumos necessitam de uma
postura mais centrada da comunidade cientí ca. A Etnobiologia, que estuda a amplitude e a complexidade dos
conhecimentos dessas populações sobre a natureza, busca em suas pesquisas estreitar essas relações e
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disseminar esses conhecimentos. Para que sejam tomadas todas as precauções para preservação dos
saberes e acesso a eles, sem que prejudiquem as comunidades, a Etnobiologia toma como referência a
Declaração de Belém (SBE, 1988), o Código de Ética da Sociedade Internacional de Etnobiologia (ISE, 2006) e a
Resolução n. 510/16 do Conselho Nacional de Saúde para pesquisas com seres humanos (Brasil, 2016).

Assim, os estudos são conduzidos de forma ética, pro ssional e considerando acima de tudo o bem-estar da
comunidade, a proteção aos saberes, práticas e mitos, divulgando o que é necessário para a sociedade e para
a ciência, de forma menos invasiva e sem expor as comunidades estudadas.

Considerações nais
Na busca por proporcionar a sustentabilidade socioambiental para garantir o futuro da humanidade, a
sociedade esbarra na sua própria formação, que necessita ser repensada e reestruturada, visando a formação
de um novo sujeito humano, que busque atuar perante o planeta não de forma a continuar os processos de
degradação impostos pelo modelo socioeconômico, mas que traga a sustentabilidade e a sobrevivência da
espécie humana.
Nesse contexto, por muito tempo os conhecimentos tradicionais e locais de populações artesanais e
tradicionais foram desprezados, mas guardam em suas práticas, saberes e crenças a vinculação do uso dos
recursos naturais, de forma a garantir sua resiliência e assim proporcionar novos comportamentos de respeito
perante a relação entre ser humano e natureza.

Nesse sentido, um imenso esforço conjunto necessita ser realizado por toda a humanidade para que a cultura
que constitui a base das sociedades incorpore os comportamentos ambientalmente responsáveis, a
integração com a natureza e o respeito à vida.

Quando a humanidade atingir esse patamar, o ser humano dará um salto evolutivo e passará a um patamar de
tecnologia, de sociedade e de cultura nunca antes vislumbrado pelos que tentam projetar uma sociedade do
futuro. E tudo depende unicamente de cada indivíduo ser transformador de si mesmo e contribuir com os que
estão à sua volta.

Referências
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evolutivas. In: ALBUQUERQUE, Ulysses Paulino. Etnobiologia: bases ecológicas e evolutivas. Recife: NUPPEA,
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VENTURA, Jaqueline. Educação ao longo da vida e organismos internacionais: apontamentos para


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Publicado em 6 de março de 2018

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