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Indústria de Papel em Ponte do Sotam

(1821-1992)
Contribuição para o seu conhecimento
Autor: João Barreto Nogueira Ramos *
Edição do autor
Março de 2015

O texto é suportado em obras editadas e em documentos coevos.


Não é respeitado o novo acordo ortográfico.

* Natural de Góis. Licenciado em Engenharia Papeleira.


Ex-Administrador da INTAPE.

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Aos principais empresários que, nos 171 anos de vida deste
empreendimento, arriscaram os seus cabedais e criaram emprego,

José Joaquim de Paula


e seu filho
José Joaquim de Paula Júnior

Manuel Inácio Dias


seus filhos
Francisco Inácio Dias Nogueira
Alfredo Élio Nogueira Dias
e seu neto
Álvaro de Paula Dias Nogueira

Henrique da Veiga Malta de Paula Nogueira

e às muitas centenas de trabalhadores, que, ao longo de seis a sete


gerações, deram o melhor do seu esforço e saber.

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Dom Luís da Silveira teve um papel importante na
História de Góis. Mas o papel mais importante foi
o próprio papel da Companhia de Papel de Góis.

José Hermano Saraiva, em “Horizontes da Memória”

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Prólogo

O objectivo deste folheto é o de sintetizar, cronologicamente, a


história da indústria de papel em Ponte do Sotam. A história faz
memória e esta não deve ser apagada.
Ficará por se fazer a sua análise nos aspectos social e económico,
de um empreendimento que, pela contribuição dada ao concelho
de Góis nos 171 anos da sua existência, bem o justifica.

Mas o meu propósito também é trazer à memória a povoação de


Ponte do Sotam e a sua comunidade.
Ao longo do tempo, Ponte do Sotam, com os seus subúrbios,
transforma-se, por excelência, na aldeia-proletária do concelho de
Góis. O camponês torna-se artesão, o artesão vira operário. Com o
ganho do seu trabalho, a comunidade organiza-se e cresce em
torno da “fábrica”, constituindo um genuíno grupo social, em que
a convivência se prolonga para o interior das instalações.
Sindicalismo, contrato colectivo, comissão de trabalhadores,
capitalismo, greve, justiça social, produtividade, são vocábulos
novos trazidos para a mesa do café. E no aconchego das famílias,
delineia-se o futuro, os pais transmitindo aos filhos o testemunho
da sua vida profissional.

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A vida em Ponte do Sotam era diferente da vida das outras aldeias
serranas. Onde nestas se apreciava o sossego e o bucolismo, os
pontesotenses sofriam com o silêncio.
O ruído constante dos refinadores e dos cilindros, 24 horas por
dia, entranhando-se por todos os recantos da aldeia, fazia parte do
seu quotidiano. Sem ele a vida não era vivida. No amor. Na
refeição. No arraial. Na procissão. No dormir.
O som da sirene, ecoando pelos montes e vales ao redor, pautava
para todos a hora do trabalho e a hora do descanso. Doze meses
no ano, sete dias na semana, seis vezes no dia. Às 7 para acordar,
às 8 para mudança de turno, às 12 e às 13 para o almoço, às 16
para mudança de turno, às 17 para sair.
Quem trabalhou em Ponte do Sotam, quem ali viveu, quem ali
amou e sonhou, nunca mais o poderá esquecer. Ainda hoje,
calcorreando pelas suas ruas e vielas, há quem pareça entender
aquele ressoar prolongado, despertando-lhe emoções e avivando
recordações.
Com o encerramento definitivo da fábrica, o silêncio abate-se
sobre a aldeia. O tempo parece ter parado no tempo. O futuro
sonhado esfuma-se em miragem.
Demasiado doloroso. Grande número de trabalhadores são
colocados abruptamente no desemprego, tendo que procurar o
seu sustento, alguns emigrando com a família para terras distantes.

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Preliminares

Depois da pedra, do barro, do gesso ou da tábua, o homem,


necessitando de um suporte para transmitir gráficamente o seu
pensamento, recorre aos tecidos vegetais e animais.
O primeiro de que se tem conhecimento é o papiro, a planta
Cyperus papyrus, com grande desenvolvimento na Ásia Menor e
nas proximidades do rio Nilo.
Das películas tiradas do seu caule, colocavam-se umas junto a
outras, de modo a formar uma superfície plana e contínua, à qual
se sobrepunha uma nova camada em sentido perpendicular, e a
seguir prensadas e tratadas. Terá sido por volta de 2 500 anos a. C.
que os egípcios desenvolveram essa técnica.
De papiro, papyrus em latim, viria a palavra papel.
Os gregos compravam papiro em Byblos, cidade mediterrânica,
actual cidade Gebel, no Líbano. Por isso chamavam ao papiro,
byblo. As peças escritas eram as byblias, daí derivando o termo
biblioteca, depósito de livros.
Por reacção à dificuldade de importação de folhas de papiro, as
autoridades de Pérgamo, cidade na antiga Grécia, hoje Bergama na
Turquia, desenvolveram a técnica do pergaminho, a partir de peles
de animais, geralmente ovelha e cabra, depois tratadas. Tinham a

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vantagem de maior duração e permitir a reunião das folhas em
livro. O nome deriva daquela cidade, pela projecção que teve a sua
biblioteca, uma das mais importantes da época.
Ainda hoje se utiliza o pergaminho, em aplicações especiais.

Surge então o papel.


Enquanto no papiro e no pergaminho as plantas e as peles não
tinham a sua estrutura modificada, apenas eram preparadas e
melhoradas, no papel as plantas são desfibradas e, com as fibras
novamente unidas, maceradas e diluídas em água, são moldadas
em folhas.
Terá tido o seu início na China cerca de 100 anos d. C., ou,
segundo outros, em época mais remota, no século III a. C.
Durante muitos séculos os chineses guardaram o segredo. Depois,
a rota do papel passaria pelo Japão, Índia, Médio Oriente e Norte
de África. Daqui para a Europa, levado pelos muçulmanos, que
introduzem diversos aperfeiçoamentos, entrando pela Península
Ibérica (no século X) e Itália (no século XI).
Em 1799, é registada em França a primeira máquina de fabricar
papel em contínuo, substituindo-se o lento processo de formar a
folha, uma a uma. O papel entrava então em processo industrial.
No início, a matéria-prima era, entre outras, a amoreira, o
cânhamo, o bambu, a seda. Mais tarde, predominaria o trapo, até
termos a floresta como a sua principal fonte, através da celulose
retirada da madeira.

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Em Portugal, julga-se ter sido iniciada a utilização do papel no
reinado de D. Dinis. Contudo, a primeira fábrica de que se tem
conhecimento, se tal se pode chamar ao rudimentar moinho de
papel, movido a água, foi instalada perto de Leiria, na margem do
rio Liz, com licença concedida por D. João I em 1411.
Outras se seguiriam, concentrando-se, principalmente, em três
áreas: Santa Maria da Feira, Paços de Brandão e imediações
(onde, em duas antigas fábricas desactivadas, se inaugura, no ano
2001, o Museu de Papel Terras de Santa Maria); em Tomar e
imediações; e no interior do distrito de Coimbra.
Nesta última área, distrito de Coimbra, instalaram-se oito fábricas,
cinco de curta duração e três que adquiriram dimensão para
prosseguir a sua actividade: a Real Fábrica de Papel da Lousã,
fundada em 1714, posteriormente englobada na Companhia de
Papel do Prado; a de Ponte do Sotam, em 1821; e, em 1868, a de
Viúva Macieira e Filhos (Fábrica de Papel do Boque), em Serpins,
que entraria em decadência na década 80 do século XX.
1821 é o ano em que se inicia o fabrico do papel em Ponte do
Sotam, quando no país estavam a laborar cerca de uma dezena e
meia de fábricas. Encontrava-se em curso a revolução liberal e
eram aprovadas as bases da nova Constituição, proporcionando
maior liberalização às actividades económicas, ao mesmo tempo
que era criado o primeiro banco comercial em Portugal, o Banco
de Lisboa, ajudando as iniciativas particulares.

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Pedra encastrada num dos edifícios
(pormenor)

Algumas das primitivas marcas de água


em papel da Companhia de Papel de Góis

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Em Ponte do Sotam

Podemos considerar seis períodos na história da indústria de papel


em Ponte do Sotam.

DE 1821 À DÉCADA 70
No ano 1821, é instalado um moinho de papel por José Joaquim
de Paula e seu irmão, Manuel Joaquim de Paula, imigrantes que se
destacaram na sociedade goiense. Ambos ocupariam a cadeira da
presidência da Câmara Municipal de Góis, na década 40.
Segundo a tradição oral, decidem colocá-lo em Ponte do Sotam e
não em Góis, por a água do rio Sotam se manter mais límpida que
a do rio Ceira e de este ser de corrente muito remansosa. A água é
também referida com boas características para esta indústria,
nomeadamente de baixa mineralização.
Tratou-se então de um engenho de laboração artesanal, situado na
margem esquerda do rio, funcionando pelo sistema de formas
(formação de folha a folha e secagem ao ar livre).
José Joaquim de Paula, o principal empreendedor, morre em Góis
a 11 de Julho de 1863, com 74 anos de idade. Quando se organiza
o inventário dos seus bens, a fábrica é avaliada em 10 000 réis e,
através dele, tomamos conhecimento da existência, para além de

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outro equipamento, de casas do pisão, de enxugos com cordas de
esparto e linho, de uma casa para as prensas (oito de madeira e
uma de ferro), de tinas, de caldeiras para fervura do trapo e para
cozimento da cola, de maços de bater o papel, de grades para
cortar o trapo, de formas de arame em diversos tamanhos.
Entretanto, em 1859, José Joaquim de Paula Júnior (presume-se
que, a partir dos finais da década 50, já estivesse na gestão da
empresa com o seu pai), tinha instalado em Ponte do Sotam uma
máquina de formação contínua. Em Portugal havia nessa época
apenas quatro máquinas de papel, a primeira em 1841, na fábrica
da Abelheira, concelho de Loures. A de Ponte do Sotam seria
uma delas, transferida de Lisboa.
Era accionada por quatro rodas hidráulicas, uma de 4,40 m de
diâmetro, as outras de 3,30 m. Por falta de água durante a época
de estiagem, laborava normalmente oito meses no ano, com a
consequente pouca produtividade. Esta terá sido a principal razão
pela qual, em 1861, José Joaquim de Paula Júnior requere ao
Administrador do concelho da Lousã a mudança da sua máquina
de papel de Ponte do Sotam para Serpins, na margem direita do
rio Ceira, em frente ao lugar do Boque, depois de ter ponderado
também outros locais na região.
Esta mudança não viria a ser concretizada pela oposição movida
por empresários e habitantes nas imediações, por se sentirem
prejudicados pela instalação de uma fábrica de papel. *

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Posteriormente, em 1875, José Joaquim de Paula Júnior, depois
de ter alienado a fábrica de Ponte do Sotam, entra no capital social
da Companhia de Papel do Prado, em associação com um grupo
de capitalistas do Porto, ocupando o lugar de director técnico.
Desde o início da sua implementação que a empresa marca
presença no mercado papeleiro, introduzindo a sua própria marca
de água (filigrana), como adorno e para atestar a autenticidade de
origem do papel. Há documentos com datas a partir de 1822, com
or
as inscrições JJP e Paula J (iniciais dos seus proprietários) e
outros motivos.
Desde cedo, está presente nas Exposições de Lisboa, promovidas
pela Associação Promotora da Indústria Nacional, associação de
âmbito nacional, fundada em 1837 e génese da Associação
Industrial Portuguesa. Tem-se notícia que, na exposição de 1844, a
indústria do papel estava representada apenas por duas empresas,
a de Ponte de Sotam e a de Porto de Mós.
* Curiosamente, poucos anos depois, em 1868, no sítio do Boque seria
instalada a fábrica de papel Viúva Macieira & Filhos.

DA DÉCADA 70 A 1889
Em ano incerto na década 70, a fábrica é adquirida por Manuel
Inácio Dias. Natural de Serpins, concelho da Lousã, comerciante
em Góis, onde casara, fora Capitão de Ordenanças da Milícia de
Arganil, nomeado em 1832, bem como autarca durante vários
mandatos, nomeadamente Presidente da Câmara Municipal nos
anos 1839-40.

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Em 1878, Manuel Inácio instala uma nova máquina contínua,
vinda da Alemanha (Zeugbütte), de 1,65 m de largura, com oito
cilindros secadores, funcionando a vapor.
Entre outro equipamento complementar, um lixiviador, duas tinas
de colagem, quatro prensas, quatro calandras, uma cortadeira e
uma guilhotina.
Produz-se então papel de embrulho, almaço, de impressão, branco
e de cores, manteigueiro, para tabaco, e “de cores para embrulhar
palitos”. Como matéria-prima principal, trapo e apara de papel.
Em 1881, estão registados 80 trabalhadores, dos quais, 40 homens,
trabalhando de sol a sol, salários variando de 160 a 500 réis para
homens e de 80 a 120 para mulheres. Neste ano, labora apenas
seis meses, por falta de água.
Em 1886, há notícia de ter concorrido à Exposição Distrital de
Coimbra. E, em 1888, são 112 trabalhadores.

DE 1889 A 1933
O país atravessava um período de grande instabilidade, afectando a
economia nacional e, em particular, a laboração das empresas, o
que viria a precipitar a grande crise financeira de 1891 e o colapso
do sistema bancário.
Por escritura lavrada em 16 de Novembro de 1889, Manuel Inácio
Dias decide trespassar a fábrica a quatro dos seus filhos, Francisco
Inácio, Alfredo Élio, Aníbal e Clotilde, associados na firma Dias
Nogueira & Ca.

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Persistindo a crise, em 1906, por escritura feita a 13 de Janeiro, a
sociedade por quotas Dias Nogueira & Ca é transformada em
sociedade anónima, Companhia de Papel de Góis, SARL, abrindo
o seu capital ao exterior. Repartido por 1 250 acções de 100 mil
réis, o capital seria subscrito por cerca de três dezenas de pessoas,
entre outras, Francisco Inácio Dias Nogueira, Aníbal Dias, Alfredo
Élio Nogueira Dias, Manuel Nogueira Ramos, Manuel Martins
Nogueira, padre Francisco Pereira Pinto, padre Manuel Simões
Barata, António Torres Dias Galvão e Joaquim Antunes Garcia
Júnior (barão de Vila Garcia), todos goienses ou figuras com
destaque de sociedade local.
Como directores, são eleitos os irmãos Francisco Inácio, Alfredo
Élio e Aníbal. Os dois primeiros são os que se dedicam por inteiro
à empresa, dividindo entre si as dificuldades, os riscos e os louros
do empreendimento. Alfredo Élio é o director técnico, que instala
a sua residência dentro da própria fábrica. Francisco Inácio, o
presidente, com grande influência na vida política local, quer como
autarca (Administrador do concelho de Arganil e edil da Câmara
Municipal de Góis, de que foi Presidente nos períodos 1896-1898
e 1905-1910) e político muito activo (Partido Regenerador), quer
como co-proprietário, redactor principal e colunista de A Comarca
de Arganil (entre os anos 1905 e 1910).
Com determinação, lançam-se na reestruturação da empresa. São
instalados mais secadores na máquina contínua, com aumento da
sua capacidade para 4 ton/dia, adquirem-se novas máquinas, entre

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outras, calandra, bobinadora e cortadora, beneficiam-se as antigas
instalações fabris e constroem-se outras, reformam-se as condições
e hábitos de trabalho. A data em pedra que se encontra no portão
de entrada, 1912, deve assinalar o final desta fase de construção.
Melhora-se a qualidade do papel, continuando a competir com
outras fábricas nacionais similares. Pelo menos em 1915, já se
utiliza pasta de madeira. Fabrica-se sobretudo papéis de impressão
e de escrever.

Simultaneamente, é decidida a construção de uma central hidro-


eléctrica no rio Ceira, como fonte de energia para força motriz e
iluminação, aproveitando-se uma queda de água de cerca 12 m,
em Monte Redondo (Carcavelos). As obras da represa têm início
em Setembro de 1907.
Uma decisão arrojada para a época. Entre outras contrariedades,
registe-se a perda de 15 caixas de material vindo da Alemanha,
que, no seu trajecto para Portugal, foram parar ao fundo do rio
Douro, na histórica cheia nos finais de 1909, numa altura em que
uma equipe de técnicos alemães já se encontrava na fábrica e em
Monte Redondo, para a montagem do equipamento.
Meses depois, em Junho de 1910, o dínamo chegaria à estação de
caminho-de-ferro da Lousã, inaugurada uns anos antes. Em carreta
puxada a juntas de bois, é transportado para Monte Redondo, pela
encosta da serra acima, sem caminhos, depois a descida para a
central, com um peso superior a três toneladas, numa extensão de

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55 m e uma inclinação de 40 graus, que, segundo a impressa da
época, “chamou gente das circunvisinhanças, ávida de comoções
fortes”. Estava-se no início do século XX, no interior do país…
A 29 desse mesmo mês é inaugurada a estação de Monte
Redondo e, a 2 de Julho, a instalação eléctrica na fábrica.
A central tinha uma turbina de 175 KVA, em laboração contínua,
com excepção de três meses de maior estiagem.
A 9 de Junho de 1911, o Diário de Governo abria concurso para o
fornecimento de energia eléctrica à iluminação pública da vila de
Góis, que daria origem ao respectivo contrato estabelecido entre a
Câmara Municipal e a Companhia de Papel. A inauguração oficial
é feita a 2 de Agosto de 1912, embora Góis já estivesse a ser
iluminada desde o mês de Maio. Seria a primeira povoação do
distrito de Coimbra a ter iluminação eléctrica pública.

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Para fazer face ao grande investimento, a Companhia emite
obrigações, solicitando, em 1912, admissão à cotação na Câmara
dos Corretores da Bolsa de Fundos Públicos de Lisboa.
A produção de papel nesse ano cifra-se em 829 ton e, em 1913,
cerca de 1 000 ton.
Reconhecendo a importância do empreendimento para a região, a
Revista Industrial dedica-lhe duas edições, em 15 de Julho e 1 de
Setembro de 1918, descrevendo com pormenor a fábrica e
referindo-se a Francisco Inácio Dias Nogueira “...como industrial,
é-lhe designado o lugar de honra que por direito lhe pertence na
vida histórica da indústria nacional.”
Ao longo da década 20 a empresa atravessa uma grande crise
económica e financeira, motivada por falta de liquidez, pequeno
capital social e agravamento da situação económica do país. A
produção em 1924 é de 658 ton e, em 1925, 681 ton, reflexo das
dificuldades laborais e comerciais. Utiliza-se, como matéria-prima,
papéis velhos e trapo.
Para salvar a subsistência da fábrica e os seus postos de trabalho, é
cedida a exploração fabril a uma sociedade do exterior, Sociedade
Fabril e Comercial de Papeis, Lda, sediada no Porto, que, por sua
vez, abria falência, decretada a Junho de 1929.
A laboração fica parada durante muito tempo, com despedimento
do pessoal fabril e a consequente deterioração do seu material,
enquanto uma acção judicial decorria no Tribunal Comercial de
Coimbra, para que a empresa pudesse voltar às mãos dos seus

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legítimos proprietários e tentasse reiniciar a actividade, acção que
que se vai arrastar por alguns anos.
Entretanto, em Abril de 1925, Francisco Inácio, por insistência
médica, tinha deixado a gerência da empresa aos seus irmãos, a
que se juntaria seu filho, como director adjunto. Há cerca de cinco
anos que vinha sofrendo de grave doença, obrigando-o a estar
acamado por longos períodos.
Morre em Ponte do Sotam, a 20 de Outubro de 1931, com 66
anos de idade, sem ter tido a possibilidade de assistir à reabertura
da fábrica, pela qual se vinha batendo com denodo e entusiasmo.
Ao antigo Largo do Pombal seria dado o seu nome, onde, a 30 de
Março de 1949, era erigida uma estátua, por subscrição pública.

cc. 1820

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DE 1933 A 1951
A 8 de Maio de 1933, tem reinício a laboração da fábrica, após
alguns anos de paragem, com a instalação de uma nova máquina
contínua, de origem francesa, em substituição da anterior, também
de 1,65 m de largura. A sua capacidade é de 11 ton brutas diárias.
Também a central hidroeléctrica de Monte Redondo é equipada
com um segundo grupo gerador, de 400 KVA.
Um novo alvará é concedido em 25 de Novembro de 1935.
É agora administrador principal, Álvaro de Paula Dias Nogueira,
que sucedera a seu pai e já vinha trabalhando como técnico e
colaborador na gestão da empresa desde Julho de 1923.
Tinha concluído na Universidade de Lausanne (Suíça) o curso de
engenharia civil, com especializações em máquinas e electrotecnia,
e completada a educação profissional com estágios em fábricas no
estrangeiro.
A ele se deve a reestruturação e modernização da fábrica, nesta
nova fase, enquanto, na vida política local, era autarca, como fora
seu pai, ocupando igualmente a cadeira da presidência da Câmara
Municipal, no período 1941-1951. O seu nome está na toponímia
da vila, testemunho da sua acção na sociedade local.
Em 1940, a fábrica emprega 94 trabalhadores.
Em 23 de Março de 1933 é criada A Papeleira Portuguesa, Lda, em
Lisboa, (posteriormente dissolvida e substituída, em Fevereiro de
1953, por A Papeleira de Góis, Lda) como concessionária para a
venda dos seus produtos e dispondo de armazéns próprios.

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A década 40 é passada com turbulência. A Guerra Mundial, a
conjuntura económica e a falta de capitais próprios, precipitam
novamente a empresa para uma grande crise. E é no meio dela,
que morre em Góis, com 60 anos de idade, Álvaro de Paula Dias
Nogueira, no dia 10 de Agosto de 1951.

DE 1952 A 1970
Em 1952, assume a presidência da administração da empresa,
Henrique da Veiga Malta de Paula Nogueira.
De ascendência goiense, familiar dos anteriores administradores,
era então um pequeno accionista. Face à situação insustentável em
que se encontrava a empresa, na eminência de encerramento e o
desemprego de cerca de uma centena de trabalhadores, abandona
a sua actividade profissional, de médico e professor universitário
em Lisboa, adquire a maioria das acções e fica como principal
administrador.
Cercando-se de novos colaboradores, nomeadamente de um chefe
fabril com larga experiência no ramo, e com injecção de capital
fresco, é reposta a normalidade de funcionamento da empresa.
Em 1954, inicia-se um novo plano de apetrechamento industrial,
com renovação e modernização dos equipamentos, e aumento da
área dos edifícios, para nova sala de manuseamento e armazéns de
produtos acabados, no sentido de se alcançar melhor nível técnico-
económico-financeiro.
Em 1959 e 1963 fazem-se novos aumentos de capital.

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A matéria-prima básica passa a ser exclusivamente pasta de
madeira, de eucalipto e de pinho. Especializa-se em papéis de
escrita e de impressão, fabricando também papéis de registo e de
desenho, cartaz, kraft e cartolinas, gofrados, brancos e de cor.
Aumenta-se a produção, laborando continuamente durante todo o
ano, em três turnos, na capacidade máxima da máquina, atingindo-
se nos anos 1968 a 1970, as quantidades líquidas de 3 469, 3 591 e
3 683 ton, respectivamente.
O número de trabalhadores fixa-se em torno de 165 pessoas,
repartidos pelas áreas de fabrico de papel, engenharia, economia,
gestão, electricidade, carpintaria, serralharia e construção civil.

DE 1970 À DÉCADA 90
No início da década 70, e face à grande concorrência a nível
nacional, a administração projecta dois caminhos paralelos, numa
estratégia a médio prazo:
▪ montagem de uma segunda linha de fabrico completa,
triplicando a produção numa primeira fase, e
▪ implementação de uma fábrica de transformação de papel,
para escoamento da sua produção e conquista de nichos de
mercado.
A nova linha é agora instalada na margem direita do Sotam, com
uma máquina contínua de 2,20 m de largura útil, 220 m/min,
complementada com as máquinas de acabamento necessárias e
aumento da capacidade de produção de vapor.

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Em 1980, a produção cifra-se em 12 488 ton, com 285 postos de
trabalho.
Em finais de 1979 e inícios da década 80, novos investimentos na
linha II permitem aumentar a capacidade de produção, com
necessidade de 300 trabalhadores.
2
A área coberta é então de 15 000 m e os terrenos adquiridos para

futuras expansões fabris e habitações sociais de 20 000 m2.


Na década 80, com a crise papeleira e a dificuldade de obtenção
de crédito bancário, a empresa entra em grandes dificuldades
financeiras e é obrigada a suspender a actividade fabril. No sentido
de salvar os postos de trabalho, e após ter sido encarado algumas
hipóteses de ligação com outras empresas do seu ramo, a
Companhia de Papel de Góis integra-se no Grupo PORTO DE
CAVALEIROS, com sede em Tomar, e reinicia a laboração,
readmintindo os seus trabalhadores.
A falência deste Grupo, então constituido de várias empresas
papeleiras, vai arrastar consigo a Companhia de Papel de Góis,
que se vê compelida a terminar a laboração em 1991, produzindo
neste ano ainda 10 289 ton.
Encerrava-se assim um ciclo de vida de 170 anos.

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Entretanto, a 30 de Junho de 1971, e com um capital 12 000 000
escudos, repartido em 12 000 acções, é constituída a INTAPE –
Indústria Transformadora de Papéis, SA, por empresários e
técnicos ligados à indústria de papel, nomeadamente quadros
superiores da Companhia de Papel de Góis, da Porto Editora,
então já na primeira linha editorial do país, e da SARRIÓ -
Compañia Papelera de Leiza, um dos maiores grupos papeleiros
de Espanha.
A nova fábrica é instalada em terrenos a jusante da Companhia de
Papel de Góis, que lhe fornecia a principal matéria-prima (papel-
suporte para ser transformado).
Inicia a actividade com os denominados Papéis de Alto Brilho (do
tipo cast coated), estando contudo previsto, para fases seguintes,
outros tipos de papel, como Papéis Autocolantes e Papéis de
Parede, que, em grande parte, eram importados.
Projecta-se também um bairro residencial para colaboradores das
duas empresas. Perspectivava-se assim um complexo papeleiro de
média dimensão, que acabaria por ser travado pela conjuntura
económica que se abateu no país a partir de meados da década 70.
Para os Papéis de Alto Brilho, de alta qualidade, destinados às
indústrias de artes gráficas, rotulagem e embalagem, é adquirido o
respectivo know-how à empresa SARRIÓ, com exclusividade para
Portugal da sua patente EUROKOTE.
Com uma máquina “pintadora” de 2,40 m de largura, tinha
capacidade teórica de 4 000 ton/ano, em produção contínua.

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Após estágio de alguns dos seus trabalhadores em Leiza, Espanha,
nas instalações fabris da SARRIÓ, para especialização e melhoria
de conhecimentos, dá-se início à laboração em Janeiro de 1973,
atingindo-se o “pico” da produção no ano de 1986, com 2 487 ton
líquidas. A mão-de-obra necessária, ao longo deste período, variou
entre 35 a 44 trabalhadores.

A produção em Portugal deste tipo de papel veio terminar,


praticamente, a sua importação e originar a sua saída para os
mercados estrangeiros (chegando a atingir 20% da produção), com
economia de divisas para o país. E tornou-se um importante
cliente da Companhia de Papel de Góis, ajudando o escomento da
produção desta empresa e a sua rentabilidade.
Em 1985 aumenta o capital social para 30 milhões de escudos e,
em 1987, para 120 milhões de escudos.

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Em 1989, e acompanhando a Companhia de Papel de Góis, sua
principal fornecedora de matéria-prima, integra-se no Grupo
PORTO DE CAVALEIROS.
Os problemas financeiros da empresa-mãe do Grupo, que se
repercutem na sua gestão, e a dificuldade de obtenção da matéria-
prima principal, fazem suspender a laboração.
Em 1992, ainda retoma a autonomia, reestrurando-se fora do
Grupo PORTO DE CAVALEIROS e reiniciando a laboração.
Mas pouco depois, perante o avolumar da crise papeleira e após
ter perspectivada nova integração em outros grupos papeleiros,
nacionais e estrangeiros, a INTAPE fica na situação de ter que
terminar definitivamente a sua produção fabril.
*
A central hidroeléctrica de Monte Redondo seria adquirida pela
empresa Gesthidro S. L., em 2001, que recondiciona os dois
antigos grupos geradores e instala um terceiro grupo, de 55 KVA.

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A finalizar

É dificil quantificar o contributo destas duas empresas papeleiras


para a economia do concelho de Góis, até porque são muito
escassas e incompletas as estatísticas oficiais a nível concelhio.
Contudo, podemos assinalar alguns exemplos da sua relevância,
apoiando-nos em dados oficiosos:
▪ No final de 1958, o capital fixo era 61,4% da totalidade do
sector industrial do concelho.
▪ Em 1970, contribuíram com 46,6% para a criação do PIB total
do concelho (então distribuído por 49% na indústria, 40,2% na
agricultura e 10,8% no sector terciário).
▪ Em 1983, o número de trabalhadores em Ponte do Sotam
representava 80% do total dos trabalhadores do sector da indústria
transformadora do concelho.
▪ Nesse mesmo ano, a nível regional, o grau de industrialização do
concelho (VAB / população residente) era de 28,5, o segundo
maior dos concelhos da Beira Serra, apenas ultrapassado por
Oliveira do Hospital.
*

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Esta é a súmula da história da indústria de papel de Ponte do
Sotam, ao longo dos seus 170 anos de actividade. Desde o início,
lutando contra condições adversas locais, desde acessibilidades a
escassez de água, vimos que não deixou de acompanhar a
evolução tecnológica e empresarial.
De manufactura evolui para fábrica. Para ganhar músculo, passa
de sociedade individual a sociedade familiar por quotas, depois a
sociedade anónima, com novos accionistas, por último, a inclusão
em cluster papeleiro. Das poucas dezenas de trabalhadores nos
primórdios, às três centenas. De abastecedor do mercado
nacional, a exportador. Ocupa um lugar no patamar das primeiras
fábricas papeleiras do país, em qualidade e em especialização. Vê
os seus produtos serem requisitado pelas melhores editoras,
nomeadamente para publicações de luxo.
Todos os seus empreendedores são goienses ou inseridos na
sociedade local, ligados entre si numa corrente de elos familiar.
Força motivadora não lhes faltou. Cada um, no seu tempo, inicia
nova etapa de desenvolvimento, criando riqueza e postos de
trabalho, sempre com determinação e arriscando os seus bens.
Mas, ironia do destino, todos têm um fim idêntico, terminando o
seu ciclo em grande dificuldade, ou com a laboração parada ou à
beira de falência.
Na última fase, a grande crise económica e financeira dos anos 80
apanha o empreendimento justamente no momento em que estava
a solidificar os alicerces, diversificando a produção e aliando-se a

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outras empresas do ramo, nacionais e estrangeiras. Ainda que
inserida num conjunto empresarial, com sede em Tomar, vê-se
obrigada ao seu encerramento, tal como o foram nessa época
outras fábricas congéneres.

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QUANDO A FÁBRICA ESTEVE PARA SAIR
DE PONTE DO SOTAM...

Transferência da Fábrica de Papel de Goes *


Tivemos já por duas vezes o gosto de ver o estabelecimento fabril
do Illmº Sr. José Joaquim de Paula Junior, na ribeira do Sotão,
concelho de Goes. A primeira vez (1859) acabava ainda o sr. Paula
de montar a sua machina, que havia removido com grande
trabalho e custo de Lisboa para alli, e apenas tinha começado de
fazer algum papel que já dava esperança de bom resultado, se bem
que ainda apresentasse difficuldades que o sr. Paula incansável e
prescrutor esperava vencer, como venceu, a ponto de que no
principio do corrente mez (1861), tendo decorrido apenas uns 20
mezes, recebemos pela segunda vez o favor de nos ser mostrado o
mesmo estabelecimento, já com todas as difficuldades vencidas, e
augmentado com muitos melhoramentos que o tornam um
estabelecimento, senão perfeitíssimo naquelle género, pelo menos
dos melhores fora de Lisboa.
A sua machina de systema continuo produz hoje papel fino e
ordinario, como o quizerem fazer, assim na qualidade como nas
dimensões; e isto com tal rapidez que preparada em poucas horas
a massa por poderosos cylindros, e apllicada á machina, em menos
de alguns minutos temos papel para escrever. Com isto não quero
dizer que elle fique desde logo perfeito e acabado, pois para isso
tem de submeter-se a varias operações, como escolha, callandra de
polir e algumas outras; mas todas rapidas, sem as quaes não pode
prescindir o melhor e mais bem acabado papel, ainda que
preparado fosse pelo systema antigo, o qual por rutineiro de forma
alguma pode hoje competir com este genero de fabrico, assim na
rapidez do mesmo como na qualidade (quando apurado) e
barateza do custeio; e isto é tão palpavel, que basta dizer que pelo
systema antigo, alem de soffrer um processo braçal muito
trabalhoso, e para o que é necessário mais de um cento de
individuos (nos grande estabelecimentos), não pode dar-se papel
prompto menos que não passem alguns mezes, sendo necessario
ainda que o bom tempo não falte. (...)
Por occasião d’esta segunda visita nos disse o sr. Paula, que sendo

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sua a machina o não era a força motora (agua e assento da fabrica,
por o que dava grossa renda) por isso estava deliberado a remove-
la para Serpins, dalli 4 ou 5 quartos de legua: mas segundo a
descripção que me fez, para sitio tão desagradavel, que de todo se
me apertou o coração ao ouvir tal, porque sendo já o sitio onde
está muito agreste, isolado e sem sol em parte do anno, o
escolhido não é, em nosso entender, melhor: porque o horisonte é
pequeno, e o estreito rio Ceira correndo de nascente a poente,
tem pelo sul e norte altos e agrestes montes, e, ainda, mal
povoados (...)
Em presença de tal má escolha, lhe lembrámos que devia, atravez
d'alguns sacrifícios, procurar um outro melhor local, no qual
houvesse um horisonte mais largo, e se possivel fosse, melhor
campo e mais povoado; porque até disto resultaria proveito á
fabrica; e foi parecer nosso que o havia com estes predicados em
Foz de Arouce, onde de mais a mais passava a estrada da Beira. O
sr. Paula pareceu agradecer esta lembrança, e só perguntou quem
havia de fornecer alli o local (...)
Convencido destas razões ficou o sr. Paula de ir por aquelles dias
com os seus mestres a Foz d’Arouce, e apparecer eu tambem alli,
como mais conhecedor do local, para o reconhecimento indicado.
Deu-se este: e achou o sr. Paula que havia um em que somente
poderia assentar-se a sua machina, e era na margem direita do rio
em um olival (…)
Hoje porem (esperança inutil!) acabo de saber que o sr. Paula
esmoreceu no caminho, sem ao menos chegar ao fim delle com o
seu projecto, presistindo em o local de Serpins, sua primeira
tentativa, o qual fica entre Valle da Raiz e Povoa, sítio ermo,
antipatico e improprio para um estabellecimento daquela ordem
(...) Tudo se frustou. (...)
Abril 28 de 1861
O poiarense amigo de s. sª M. N.

* Transcrição parcial, tal e qual, do jornal O Conimbricense, de 30 de


Abril de 1861.

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