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ESTUDOS DE t\NTROPOLOGIA DA CIVILIZAÇAO

I. O PROCESSO CIVILIZATóRIO - Etapas da Evolução Sócio-Cultural

Três edlçõe$ brasileiras:Editora Civilização Brasileira, Rio, 1968/1975


5• e ·50 edições brasileiras: Vozes, Petrópolis, 1978/1981
· 4•,
O PROCESSO
edição:. portuguesa: C. L. B., Lisboa, 1976
1'.
l•
ediçãc:>. Inglesa: Smithsonian lnstitution, Washington, 1968
2•.
edição inglesa: Harper & Row, New York, 1971
CIVILIZATôRIO
..Três edições venezuelanas: EBUC, Caracas, 1970/1975
Duas edições argentinas: CEAL, Buenos Aires, 1971/1974 ESTUDOS DE ANTROPOLOGIA
1• edição mexicana: E:z:temporaneos, México; 1976
Edição alemã: Suhrkamp Verlag, Frankfurt, 1971 DA CIVIUZAÇÃO
Edição Italiana: Feltrinellt, Milão, 1973

II. AS AMJ!:RICAS E A CIVILIZAÇÃO - Processo de Formação e Causas de


Desenllolvimento Desigual dos Povos Americanos DARCY RIBEIRO
.l• edição brasileira: Editora Civilizai;ão Brasileira, Rio, 1970.
2., 3• e 4• edições brasileiras: Vozes, Petrópolis, 1977 /1979
Duas edições .nglesas: E. P. New York, 1971/1972
1' edição argentina: CEAL, Buenos Aires, 1969 <3 volumes>
2• edição argentina: CEAL, Buenos ·Aires, 1972
l• edição mexicana: E:z:temporaneos, ?.téxlco, 1977
l• edição Italiana: Glulio Einaudi, Torino, 1973 (3 volumes>

III. o' DILEMA DA AMl!:RICA LATINA - Estruturas de Poder e Forças ln.surgente.•


Etapas da Evolução
Nove ediçi)es mexicanas: Siglo XXI, México, 1971/1979
1' edição italiana: ll Saggiatore li, Milão, 1973
Sócio-Cultural
l•., 2• e 3• edições brasileiras: Vozes, Petrópolis, 1978/1979

IV. OS BRASILEIROS - <I - Teoria do Brasil)


Edição
l• edição uruguaia: Arca, Montevldéu, 1969
1• edição argentina: CEAL, BÚenos Aires, 1976
l• edição francesa: Les Editions du Cerf, Paris, 1970
l• edição brasileira, Paz e Terra, 1972
2• edição brasileira: Civilização Brasileira, Rio, 1975
3•, 4•, 5• e 6• edições brasileiras: Vozes, Petrópolis 1978/1981
l• ediçjio alemã: Surkamp Verlag, Frankturt, 1981

V. OS tNDIOS E A CIVILIZAÇAO - A Integração das Populações lndlgenas no


Brasil Moderno

l• edição brasileira: Editora Civilização Brasileira, Rio, 1970


2o, 3• e 4• edições brasileiras: Vozes, Petrópolis, 1977/1979
Quatro edições mexicanas: Siglo XXI, México, 1971/1976
1' edição italiana: Jaka Books, Milão, 1973
l• edição francesa: UGE 10/18, Paris, 1978

Petrópolis
1987
© 1978, Editora Vozes Ltda.
Rua Frei Luís, 100
25689 Petrópolis, RJ
Brasil

SUMARIO
Diagramação
Valdecir Mel/o

Prefácio. à Primeira Edição, 7


Este livro foi composto e .impresso
nas oficinas da Editora Vozes Limitada Apresentação
Petrópolis - RJ - Brasil Anísio ::reixeira, 11
Rua Frei Luís; 100
_______ Petrópolis, · RJ
--· Tel.: (0242)43-5112
Prólogo à Edição Norte-Americana
Betty J. Meggers, 1;5
UNl Oàlxa Postal 023 - End. Telegráfico: VOZES
ih, ... ÇGÇ- /0001-04 - Inser. Es-t. 80.647.050 Prefácio à 41! Edição Venezuelana, 21
\

,I· e8). (, 3_-:., ç; 1(; :',\·' .


1! e. • · . _ .. , ,.. : - - úRIAl -r:{';,._ INTRODUÇÃO: AS TEORIAS DA EVOLUÇÃO

Rª'·-:/_.. ____ q
..,,J.tft, . . '... . .
SÓCIO-CULTURAL, 29
1 Pressupostos Teóricos; 34 ..
\ Esquema Conceitua!,, 41
_.._)__ 1 Je L,;,Je_ . Revoluções Tecnológicas e Processos Civilizatórios, 47
Atualização Histórica e Aceleração · Evôhitiva, 55
FICHA CATALOGRAFICA
PRIMEIRA PARTE - AS SOCIEDADES ARCAICAS
CIP-Brasil. Co.talogação-na,fonte
Sindicato Nacional. dos Editores de Livros, RJ.
I - A .Revolução Agrícola, 65
Ribeiro, Darci, 1922- Aldeias Agrícolas Indiferenciadas e Hordas Pastoris Nômades, 69
R368p 0 Processo civilizatório : estudos de antropo- II - A Revolução Urbana, 73
logia da civlllzação; etapas da evolução sócio-
cultural / Darcy Ribeiro. - 9. ed. -Petrópolis • Estados Rurais Artesanais e Chefias Pastoris Nômades, 80
Vozes, 1987. ·•
256p.
Bibliografia.
SEGUNDA PARTE - AS CIVILIZAÇÕES REGIONAIS
1. Antropologia social 2. Antropologia social III - A Revolução do Regadio, 97
- América 3. Etnologia 4. - Etnologia - América
5. Evolução social. I. .Titulo II. Titulo: Estudos Impérios Teocráticos de Regadio, 99
de antropologia da civilização III. Titulo: Etapas
da evolução sócio-cultural. IV - A Revolução Metalúrgica, 109
"' Os Impérios Merca:rftis Escravistas, 110
CDD - 301.2
301.297 v· - A Revolução Pastoril, 118
301.298 Os Impérios Despóticos Salvacionistas, 120
572
572.97
572.98
CDU - 39 TERCEIRA PARTE - AS CIVILIZAÇÕES MUNDIAIS
39(7/8)
572
78-0362 672(7/8) VI - A Revolução Mercantil, 129
Os Impérios Mercantis Salvacionistas e o
Colonialismo Escravista, 130
O Capitalismo Mercantil e os Colonialismos Modernos, 136
VII - A Revolução Industrial, 148
Imperialismo Industrial e Neocolonialismo, 152
A Expansão Socialista, 162 PREFACIO A PRIMEIRA EDIÇAO
QUARTA PARTE - A CIVILIZAÇÃO DA HUMANIDADE
VIII - A Revolução Termonuclear e as
"Sociedades Futuras", 179
Sumário, 195 .
INICIAMOS com este livro a publicação de uma série
Epílogo à Edição Alemã
Heinz Rudolf Sonntag, 203
de estudos sobre o processo de formação dos povos america-
nos, sobre as causas do seu desenvolvimento desigual e sobre
as perspectivas de auto-superação que se abrem aos mais atra-
Observações Sobre a Bibliografia, 217 sados. O objetivo deste primeiro estudo é proceder a uma re-
visão crítica das teorias da evolução sócio-cultural e propor um
Bibliografia, 228 novo esquema do desenvolvimento humano.
Bem sabemos quanto é temerária uma tentativa de refor-
mulação das teorias de alto alcance histórico como a que aqui
apresentamos, que focaliza a evolução sócio-cultural nos últimos
dez milênios. No entanto, esta tarefa se impôs como requisito
prévio ·indispensável àquele estudo da formação dos povos ame-
ricanos. Na. verdade, só poderíamos eludi-la se deixássemos
inexplícito o esquema conceituai com que trabalhamos ou se
apelássemos para esquemas evolutivos clássicos, visivelmente
inadequados para explicar as situações com que nos deparamos .
. Com efeito, queiramo-lo ou não, agimos todos com base
numa teoria global explicativa do processo histórico, quando
usamos conceitos referentes a fases evolutivas - tais como
escravismo, feudalismo, capitalismo, socialismo - ou conceitos
concernentes a processos universais de mudança sócio-cultural
- como revolução agrícola, revolução mercantil ou revolução
industrial. Isto é o que faz a maioria dos cientistas sociais de
. perfil acadêmico, mesmo em contextos em que negam a pos-
sibilidade de estabelecer seqüências evolutivas. Os cientistas
de orientação marxista, aceitando embora uma teoria geral do
processo histórico, pouco têm contribuído para desenvolvê-la,
em virtude da tendência a converter a maioria dos seus estu-
dos em meras exemplificações, com novos materiais, das teses
marxistas clássicas. Acresce ainda que, nas últimas décadas,
acumulou-se copioso materia1 etnográfico, arqueológico e his-
tórico descritivo das sociedades humanas de diversos tipos,
bem como uma. sé!ie de estudos especiais sobre os processos

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de mudança cultural e sobre certas vias multilineares de evolu- elaborar uma primeira esquematização dos passos da evolução
ção sócio-cultural que tornaram viável, e inadiável, a formula- tecnológica, social e ideológica das sociedades humanas, de
ção de uma teoria geral da evolução. desdobramento posterior resultou este trabalho. Ela é aqui
Por sua própria natureza, os nossos estudos sobre as cau- apresentada como formulação preliminar de um estudo que
sas da desigualdade de desenvolvimento dos povos americanos continuaremos desenvolvendo, mas cujo aprofundamento exige,
tanto exigiam a formulação de um esquema das etapas evolu- nesta altura, o exame critico de outros especialistas.
tivas quanto possibilitaram sua elaboração. Exigiam-na porque Cumpro o dever de registrar que· o presente estudo só
tomavam imperativa a construção de uma tipologia para clas-
sificar diversos contingentes que se conjugaram para formar as pôde ser realizado graças ao amparo da Universidade da Repú-
sociedades nacionais americanas de hoje. Como classificar, uns blica Oriental do Uruguai, através de um contrato do autor
em relação aos outros, os povos indígenas que variavam desde .. como professor de tempo integral. E tenho a satisfação de
altas civilizações até hordas pré-agrícolas e que reagiram à assinalar que este trabalho, na forma em que se apresenta,
11
'Ii. conquista segundo o grau de desenvolvimento que haviam_ muito deve à colaboração de minha colega Betty J. Meggers
li alcançado? Como situar, em relação àqueles povos e aos euro- e, sobretudo, de minha mulher, Berta Ribeiro.
Il11i peus, os africanos desgarrados de grupos em distintos graus de
desenvolvimento para serem transladados à América como mão- Montevidéu, março de 1968
de-obra escrava? Como classificar os europeus que regeram a
(.ii conquista? Os ibéricos que chegaram primeiro e os nórdicos
''I
que vieram depois - sucedendo-os no dominio de extensas
11
I• áreas - configuravam o mesmo tipo de formação sócio-cultu-
1
ral? Finalmente, como classificar e relacionar as sociedades
ili nacionais americanas por seu grau de incorporação aos modos
Ili de vida da civilização agrário-mercantil e, já agora, da civiliza-
!! ção industrial? Todas estas questões e muitas outras igual-
I11 mente cruciais exigiam a elaboração de uma teoria geral do ·
processo evolutivo que definisse de forma mais precisa os con- ·
ceitas faseológicos (geralmente usados de maneira arbitrária)
e que explicitasse mais acuradamente os modos pelos quais
interagem as sociedades diversamente desenvolvidas.
Conforme assinalamos, aqueles estudos não só exigiram a ·
elaboração desta teoria, mas também possibilitaram sua for-
mulação. Isto porque nos deram uma perspectiva não cêntrica
de análise das causas da desigualdade de desenvolvimento e ·
também porque forneceram uma extraordinária base fatual.
Aquela perspectiva nos permitiu critic9rr o eurocentrismo das
teorias correntes sobre a evolução cultural; esta base fatual
- representada pela copiosa bibliografia americanista de fontes
primárias e por nossa própria experiência no estudo antro-
pológico de sociedades tribais e nacionais -
nos um conhecimento acurado de sociedades que exemplificam
quase todas as etapas da evolução e quase todas as situações
de conjunção de povos, nos permitiu reexaminar a teoria evo-
lucionista com maior amplitude de visão.
Desse modo é que, no esforço por estabelecer critérios de
classificação ·dos povos americanos, tivemos de alargar nossa
perspectiva de análise no tempo e no espaço, acabando por

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APRESENTAÇÃO

Anísio Teixeira

DIFICILMENTE se poderia conceber livro mais oportu- ·


no do que esse que acaba de publicar Darcy Ribeiro: O Pro-
cesso Civilizatório. ir: que, no período de transição em que
vivemos, a necessidade de uma visão de conjunto da evolução
e história do homem se faz imperiosa.
H. G. Wells escreveu o seu famoso Outline of History,
quando a Primeira Guerra Mundial abria uma crise que, dizia
flle, se resolveria pela educação, ou pela catástrofe. Tivemos
a catástrofe. A sua profecia não a evitou. Mas o seu livro, lido
por milhões, ainda hoJe, constitui uma nova weltanschaung do
período contemporâneo então iniciado.
ir: que, então, desejávamos saber como havíamos chegado
a 1914! Como, depois de 6.000 anos de civilização, havíamos
chegado à decadência do Ocidente (Spengler), ou ao raio de
esperança com que acenava Wells, em meio às sombras da ca-
tástrofe, que chegou com a Segunda Guerra Mundial, emergi-
mos em 1945, para a prolongada agonia que se estende até
hoje, até agora... ·
Em todo esse período, tão grande quanto o progresso da
ciência física tem sido o da ciência social e da história, mar-
cndamente no campo dos estudos da arqueologia e da antro-
pologia, esta a princípio reduzida ao homem primitivo e à
cultura primitiva. Penetramos além dos 4.000 anos de história
escrita. A arqueologia deu-nos pelo menos 6.000 anos mais. E
Gordon Childe nesse período aprofundou-se no conhecimento
do homem.
Cinqüenta anos depois de Wells, Darcy Ribeiro, à luz do
saber e da cultura de hoje, dá-nos a sua visão da história
humana. Ao historiador, ao arqueólogo, juntou-se o antropólo-
fiO. Li de um jacto o seu pequeno grande livro.
Fala-se hoje muito de uma revolução no ensino. Essa re-
volução é, sobretudo, a de que não se ensinam fatos mas idéias,
estruturas de pensamento, moldes ou modos de pensar, para

11
com eles estudarmos e interpretarmos os fatos. Os fatos temos fácil distingui-lo. Por vezes, ele se revela até entre os mais
que estudá-los nós mesmos. O mestre dá-nos os instrumentos, raramente inteligentes. Em Lobato, acho que se pode !obrigar
a ferramenta para percebê-los, compreend_ê-los e aprendê-los. vestígios desse traço. Costumo dizer que Lobato tinha certo
Assim se ensina a matemática, a física, a biologia, que pudor do seu país, preferindo manifestá-lo como vergonha de
são linguagens, modos de pensar. Também assim tem-se de si mesmo. Dava então às coisas mais sérias que dizia um tom
estudar a sociedade, que também tem a sua linguagem, suas de brincadeira, se não de "pilhéria", e, quando resolveu fazer
estruturas de pensamento. O livro de Darcy Ribeiro é uma mesmo a sua obra, fê-la para as crianças, deixando para os
introdução ao método de estudo da sociedade humana. Assim adultos o seu riso e o seu sarcasmo. . . •
como há ferramenta e máquina-ferramenta, há livro-ferramenta Em Darcy Ribeiro nunca senti esse traço, o qual se mani-
e livro-máquina-ferramenta para se estudar e compreender a festa comumente entre aqueles "muito cultos",. cuja devoção
história humana. O seu livro é desta última categoria. aos padrões mais altos da cultura estrangeira de que se con-
Há poucos anos a Universidade de Keele projetou para ini- sideram "expressão" comunica um tipo de orgulho todo espe-
ciar os cursos universitários um programa de iniciação à civi- cial, que consiste em se considerar superior ao meio ambiente
lização contemporânea, em que previu professores de astrono- - o que lhes empresta aquela "soberana arrogância" com que
mia, geologia, física, biologia, sociologia, economia, política, encara essa "choldra" - que é o seu país.
teologia para abrirem o curso, em cujo primeiro ano o jovem "Com esse ensaio", como diz Edison Carneiro, "a antropo-
redescobria a perspectiva do desenvolvimento do homem. logia brasileira ganhou categoria mundial, intervindo decisiva-
O livro de Darcy Ribeiro é indispensável a um curso dessa mente na elucidação dos grandes problemas da evolução das
natureza. É uma introdução ao estudo da sociedade humana: sociedades humanas".
para fazê-lo um "livro de fontes", bastaria ilustrá-lo com cita- . A sua obra compreenderá além de O Processo Civilizatório,
ções antológicas dos autores que compõem a sua rica, extensa que acaba de sair, As e a Civilização, o Brasil Emer-
e atual bibliografia. oenti e Jndios e a Civilização. O exílio que afastou de nós
Mas, embora um texto introdutório, uma iniciação, não é Darcy Ribeiro por quatro anos deu-nos esse presente magní-
reprodução de saber convencional, mas visão geral, ousada e fico e, . com os livros, dá-nos ele também a sua renovada
de longa perspectiva e alcance. Darcy Ribeiro é realmente uma presença.
inteligência-fonte e em livros deste tipo é que se sente à vontade.
A algum leitor ocorrerá que, como este, muitos livros po-
deriam ser escritos. O autor fez uma escolha, uma opção entre
múltiplas alternativas. Sem dúvida, sua interpretação trai uma
filosofia, um ponto de vista. Mas isto não retira a extrema \
originalidade, penetração e fecundidade de sua hipótese e sua
visão. Não desfaz das outras classificações, mas acrescenta-lhes
algo. Vejo a sua hipótese, sobretudo, como um desenvolvimen-
to pós Gordon Childe.
Mas o fato de havê-la concebido um homem do Terceiro
Mundo tem, sem dúvida, conseqüências. Considero Darcy Ri-
beiro a inteligência do Terceiro Mundo mais autônoma de que
tenho conhecimento. Nunca lhe senti nada da clássica subor-
dinação ,.mental do subdesenvolvimento.
O aspecto mais paradoxal de certa falta intrínseca de auto-
nomia da inteligência do subdesenvolvido está na consciência
demasiado lúcida do subdesenvolvimento: isto leva o "subde-
senvolvido" a considerar "presunçoso", "ridículo", levar-se "mui-
to" a sério, Como esse traço se confunde muito com humil-
dade intelectual, que é um traço de autonomia, não é sempre

12 13
PRóWGO A EDIÇÃO NORTE-AMERICANA

Betty J. ]M:eggers

Ü TEMA deste livro abrange o segmento mais recente


da história humana, ou seja, a décima parte da duração do
Homo sapiens sobre a Terra e menos de uma centésima parte
do tempo a partir do qual os primeiros homínidos começaram
a fabricar utensílios. Esta fração representa, ainda assim, cerca
de dez mil anos, no decorrer dos quais ó homem viveu sob
condições muito diferentes das de hoje. Por que nos preocupar-
mos com ressuscitar história antiga? Não seria mais ajuizado
dedicar nosso tempo a problemas contemporâneos? Para res-
ponder a essas perguntas precisamos considerar alguns fatos.
O mundo atravessa hoje um estado de sublevação. Guerras,
rebeliões, golpes, guerrilhas, greves e outras manüestações de
tensão comparecem diariamente nos jornais. Nos Estados Uni-
dos nos defrontamos com problemas de crescente magnitude.
Os conflitos dos "guetos negros" estão se tornando tão inevitá-
veis quanto os dias quentes de verão e agora ameaçam destruir
porções apreciáveis de nossas principais cidades. Os conflitos
raciais explodem por todos os lados. As enormes diferenças
no acesso às vantagens econômicas e educativas não apenas
criam ·problemas específicos como düundem seus efeitos dila-
ceradores através de toda a ordem social. Como se isso não
fosse suficiente, o cidadão comum é acossado pelo balanço de
pagamentos desfavorável ou é obrigado a lutar numa guerra
distante, cuja validade seus próprios líderes contestam publica-
mente. Com exceção dos mais jovens, todos recordamos "os
bons dias de antigamente", quando parecíamos ter poucos pro-
blemas sérios e a vida era confortável, serena e previsível.
Que terá mudado?
Uma das tendências mais significativas dos últimos anos
tem sido a intensificação da rebeldia, não apenas por parte
dos despossuídos que lutaram, com freqüência, ao long0 da
história contra seu destino, mas também por parte dos :mem-
bros mais jovens das classes média e alta. Esse comporta-
mento já é tão notório que foi preciso inventar novas palaYras,

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tais como hippy e beatnik, para descrever os que transgridem violência semelhante à de um terremoto. As incertezas, os ter-
normas de vestimenta. e de conduta, criando graves conflitos rores, a angústia, a rebelião, a alienação e a frustração que
entre gerações. Pais, que lutaram para garantir educação e sentimos foram experimentadas, certamente, por aqueles que
segurança econômica a seus -filhos, não conseguem comunicar- se viram enleados no bojo da Revolução Industrial ou de re-
se com eles nem impedir que abandonem os estudos, procurem voluções tecnológicas precedentes, como a da Irrigação. Agora,
alívio em drogas, se vistam como o sexo oposto, ou se recusem contudo, possuímos técnicas sofisticadas de observação cientí·
a lutar por sua pátria. A "alienação" dos valores tradicionais fica e de processamento de dados que nos permitem, pela
ameaça crescentemente a manutenção da ordem social. Que primeira vez, compreender o que está ocorrendo.
terá acontecido? Em que erramos? Entretanto, levamos a desvantagem de estar psicologica-
Como se tudo isso não fosse suficiente, a população hu- mente imersos nas situações que nos cabe analisar. Nossa ta-
refa é dissecar a própria cultura - e a cultura, aparentemente,
mana aumenta em ritmo tão acelerado que os especialistas só tem eficácia quando rege os atos humanos sem a consciên-
prevêem que ultrapassaremos um limite fatal dentro de pou- cia de que está agindo. Quando pomos em dúvida nossas
cas gerações, a menos que se tomem medidas de controle. Há. crenças e os fundamentos de nosso modo de agir, corremos o
muito que o homem vem remodelando arbitrariamente ·a su- risco de pôr à prova toda a ordem social. É por esse motivo
perfície terrestre, desviando rios, aplanando montanhas, derru- que os hippies, os ateus, os homossexuais e toda sorte de
bando flo"restas, abrindo túneis debaixo da terra e das águas . conduta discrepante tendem a ser encarados com suspeita e
e capeando o solo com cimento e asfalto. Procedendo assim, hostilidade, como o desvio de normas compartilhadas, e sem-
altera inadvertidamente o delicado equilíbrio da natureza, po- pre foram tidos como uma ameaça à solidariedade social. Em
luindo o ar e a água, modificando os padrões de revestimento séculos pretéritos, os indivíduos assim eram condenados ao
florestal e pondo em movimento forças que podem, um dia, ostracismo, queimados na fogueira, crucificados ou atirados
tornar o planeta inabitável. Mesmo os conservadores se aper- nos leões. Atualmente, são tolerados nas grandes sociedades,
cebem da ruina iminente, mas os interesses comerciais lutam mas estigmatizados como radicais ou mesmo subversivos e pu-
cada vez mais denodadamente por uma oportunidade de aufe- nidos socialmente dos modos mais sutis.
rir lucros. Aonde levará tudo isso? Sem embargo, do ponto de vista social, esses "radicais"
A. solução de qualquer problema depende de uma com- são necessários. A evolução social não poderia ter ocorrido
preensão dos fatores nele envolvidos. A existência de opiniões Hem eles. A perspectiva histórica de dez mil anos demonstra
diametralmente opostas sobre o manejo das questões com que que numerosas crenças antes "inadmissíveis" alcançaram pos-
hoje nos defrontamos é o melhor indício do pouco que sa- terior aceitação, ainda que a um preço demasiadamente alto.
bemos a respeito de suas causas. Coagidos pela necessidade Quantas pessoas foram perseguidas ou mortas por insistir em
de fazer alguma -coisa, recorremos ao remédio tradicional, que que a terra era redonda e não plana; ou por afirmar que o
é o uso da força. Dado que o recurso a medidas de força só mundo girava em torno do sol e não o contrária; ou porque
pode suprimir os sintomas sem alterar suas causas, apenas se duvidavam que o destino humano fosse guiado pelos astros;
adia o ajuste de contas.· Eo desespero cresce à medida que ou ainda porque demonstravam que o homem evoluíra a par-
se toma evidente a inoperância dos remédios policiais e mili- tir de formas mais simples de vida? Suponhamos que um
tares para os males sociais de nosso tempo. Sentimo-nos en- estudo científico da cultura venha a revelar serem falsas algu·
curralados, enredados· por forças que não controlamos, aban- mas das crenças que hoje acalentamos. Que tal se descobrir-
donados pelos deuses e lançados violentamente à destruição. mos, por exemplo, que o capitalismo não é a forma derradeira
Que se passará conosco? de ordenação social, ou que não existem deuses, ou que o
Se a compreensão é o primeiro passo para a ação racional, comunismo não é intrinsecamente diabólico? O medo do que
o que nos cabe é alcançar essa compreensão. A perspectiva possamos descobrir nos impele a rejeitar o exame de nossas
aberta por Darcy Ribeiro neste trabalho mostra claramente , crenças mais profundas, mas esse exame é ineludível se qui-
que estamos envolvidos numa das grandes revoluções culturais 11ermos alcançar uma compreensão científica do mundo de
que periodicamente traumatizam a humanidade. Nossa tecno- nossos dias.
logia avançou mais rapidamente do que os setores sociais e Os instrumentos de pesquisa sobre o modo de ação da
ideológicos ::la cultura, criando tensões que se distendem com cultura são fornecidos, na sociedade contemporânea, pelas ciên-

16 17
cias sociais. Entretanto, como se movem sobre terreno social- Gerais, recebeu formação em antropologia, sociologia ·e ciência
mente perigoso, os cientistas sociais sofrem pressões para neu- política na Escola de Sociologia e Política de São Paulo. A
tralizar a eficácia de suas pesquisas. Em conseqüência, os so- primeira década de sua vida profissional foi dedicada princi-
ciólogos restringem seus estudos a temas seguros como a estru- palmente ao trabalho de campo entre tribos indígenas da
tura social, empregando métodos impessoais de pesquisa como Amazemia e do Brasil Central, como os Kadiwéu, Terena,
os questionários e as estatísticas. Pela mesma razão, os antro- Kaywá, Ofaié-Xavante, Bororo, Karajá, Urubus-Kaapor, Kaingáng,
pólogos transformam num credo profissional o preceito de Xokléng e diversos grupos da área do Xingu. Nesse período,
que só podem analisar objetivamente suas ·próprias culturas também realizou um estudo de aculturação, de dois anos de
depois de mergulhar nas culturas dos povos primitivos e, em duração, sob os auspícios da Divisão de Ciências Sociais da
conseqüência, raras vezes se entregam ao estudo dos estágios UNESCO, e organizou o Museu do fndio do Rio de Janeiro.
mais altos da evolução sócio-cultural. Os economistas e cientis- Em 1956, iniciou sua carreira universitária como professor de
tas políticos são mais ousados, mas encontram maiores resis- etnologia da Universidade do Brasil, no Rio de Janeiro, que
tências às inovações que propugnam, tal como o seguro de culminou com sua nomeação, em 1961, para primeiro Reitor
renda ( guaranteed income), porque elas afetam enormes inte- · da nova universidade criada em Brasília, que em grande parte
resses investidos. O problema geral com que se defrontàm. planejou. Entre 1958 e 1961, na qualidade de chefe da Divisão
os cientistas sociais é o de se lhes reconhecer a qualidade de de Pesquisas Sociais do Ministério da Educação e CUitura,
especialistas, com fundamento em sua longa experiência direta · Darcy Ribeiro dirigiu um programa de estudos sobre as varian-
de estudo da sociedade e da cultura. Lamentavelmente, ainda tes regionais da sociedade brasileira e sua significação para o
hoje, um cientista político não merece maior respeito que um . avanço da urbanização, da industrialização e da educação pú-
político profissional; a um economista se dá menos crédito blica.
que a um empresário e se confia menos num sociólogo ou Em 1962, Darcy Ribeiro iniciou uma terceira carreira ao
antropólogo do que num oficial das forças armadas ou num ingressar na vida política como Ministro da Educação e Cul-
ministro de Estado, sob a alegação de que os primeiros são tura do Brasil. Nesse período, projetou e pôs em execução o
"teóricos", enquanto que os últimos têm experiência "prática". primeiro plano qüinqüenal de erradicação do analfabetismo,
Felizmente, há indícios de que esta noção começa a alterar-se do reorganização e democratização do sistema de ensino secun-
em face da evidência crescente de que a ação e a assessoria dário e lançou as bases da reforma da estrutura universitária.
desses "práticos" não conduzem aos resultados desejados. Deixou o cargo para voltar à Reitoria da Universidade de
Dentre todos os cientistas sociais, os antropólogos são os Brasflia, mas foi chamado, em seguida, pelo Presidente João
mais bem preparados para explicar a cultura. A história de · Ooulart, para chefiar a Casa Civil da Presidência, um orga-
nossa disciplina se caracteriza, todavia, por violentas disputas nismo de acessoria geralmente comparado ao Executive Office
entre evolucionistas e antievolucionistas; entre os que vêem a do Presidente dos Estados Unidos. Serviu nesse cargo até a
derrocada de Goulart a 31 de março de 1964, que levou ao
cultura como uma entidade a ser estudada em seus próprios exflio os colaboradores mais destacados daquele governo. Desde
termos e em consonância com suas próprias leis e os que a
então, Ribeiro reside em Montevidéu, Uruguai, onde retomou
entendem como uma livre criação do intelecto humano, obe- sua carreira acadêmica como professor de antropologia da
diente a seus caprichos; entre aqueles que acham que a Faculdade de Humanidades e Ciências da Universidade da Re-
compreensão do passado permitirá vaticinar o futuro e os que pública Oriental do Uruguai.
consideram o futuro imprevisível. No presente momento, ga-
Esta multiplicidade de experiências proporcionou a Darcy
nham terreno os evolucionistas e se generaliza a aceitação do Ribeiro uma oportunidade única de obeservar o funcionamento
ponto de vista de que o desenvolvimento cultural decorre da da cultura sob as mais diversas condições: conviveu com gru-
ação recíproca de forças definidas, atuando sob condições es- pos indígenas no seu estágio mais primitivo; e participou do
pecíficas. 1ovemo de uma das maiores nações modernas. A par disso,
O autor do presente ensaio representa a escola evolucio· estudou comunidades humanas que experimentavam desde um
nista de antropologia e nos oferece aqui uma nova abordagem processo de aculturação da condição mais primitiva à inte-
do "processo civilizatório". Ele traz qualificações singulares pa- iração em uma nação moderna, até a ascensão de sociedades
ra essa tarefa. Nascido em 1922 no Estado brasileiro de Minas nacionais da condição agrária à industrial. Como antropólogo

18 19
profissional, Ribeiro analisa todas essas situações com ·uma
abordagem diferente da do sociólogo, do economista Ou do
cientista político, .alcançando uma percepção nova e estimu- ·
lante de como age o processo civilizatório.
O trabalho de Darcy Ribeiro merece especial atenção por PREFACIO A QUARTA EDIÇÃO VENEZUELANA
um motivo mais. Nos Estados Unidos, herdamos a tradição··
da civilização ocidental européia por nós considerada como a ·
corrente principal ou central da evolução humana. Em conse-
qüência, medimos todos os demais povos à, nossa medida e
os consideramos carentes. Nossos objetivos políticos nacionais
se baseiam· no pressuposto de que o sentido do progresso con-
siste em fazer os outros povos mais parecidos a nós, do ponto
de vista político, social, industrial e ideológico. Acresce ainda PUBLIQUEI este livro com muito medo. Temia que a
que os melhores estudos sobre a evolução cultural foram ela- · ousadia de enfrentar temas tão amplos e complexos me levasse
borados por estudiosos europeus ou norte-americanos e, em · n um desastre. Meu medo devia ter aumentado quando um co-
virtude disso, corroboram, implícita ou explicitamente, esse nhecido intelectual marxista, ledor de importante editora, deu
ponto de vista. Ribeiro, entretanto, não é um produto da nossa um parecer arrasador sobre O Processo Civilizatório. Dizia ele
tradição política ou acadêmica. É úm cidadão do chamado .· que o autor, etnólogo de índios, brasileiro, que não era ne;n
"Terceiro Mundo". Como tal, encara o desenvolvimento cultu- 1mquer marxista, pretendia nada menos que reescrever a teor:..a
ral soõ um prisma distinto e percebe nuanças que para nós <11L história, o que equivalia, pensava ele, a inventar o moto

permanecem encobertas. O fato de não compartilhar do nosso continuo. O diabo é que eu pretendia mesmo! Só não fiquei
parcialismo não significa, simplesmente, que ele seja imparcial. llplnstado debaixo daquele parecer competentíssimo porque fui
Todavia, os pontos focais de sua análise que mais se contra- Nnlvo por um ataque de raiva possessa contra todos os que
põem a nossas concepções não podem ser rejeitados sob a pnnsam que inteléctual do mundo subdesenvolvido tem de ser
alegação de preconceito. Não apenas porque suas qualificações f!Ubdesenvolvido também.
profissionais o recomendam à nossa atenção, mas, sobretudo, Mas logo surgiram vozes de alento para levantar meu âni-
porque só combinando outras perspectivas com a nossa pró-· mo. Principalmente as de alguns amigos e colegas tomados de
pria poderemos distinguir entre a verdade e a distorção e al- tmtusiasmo pelo livro. Entre eles, o mais competente arqueó-
cançar, finalmente, uma compreensão realista do processo ci- · lni.to que eu conheço: Betty Meggers. Além de me estimular,
vilizatório. A conquista de tal percepção é,. sem qualquer dúvi- nctty se propôs ajudar na revisão dos dados sobre a evolução
da, crucial para a existência humana sobre a Terra. ttknica e na fixação das cronologias. Depois, se dispôs a tra-
thtzir O Processo Civilizatório ao inglês, o que fez admiravel-
monte. Afinal, conseguiu também que ele fosse editado pela
Smtthsonian Institution, que, sendo o mais vetusto dos órgãos
dn pesquisa antropológica deste mundo, lhe garantiria a me-
lhor atenção profissional. A tudo isto a Smithsonian aliava a
qualidade, ainda mais simpática para mim, de ter sido a edi-
tora de obras de Lewis W. Morgan, cujo texto fundamental
- Ancient Society - eu retomava via F. Engels - em
O Processo Civilizatório.
Agora, com dez anos de idade, O Processo é um filho
bem sucedido: 15 edições e cerca de 160 mil exemplares ven-
didos fazem dele o meu principal livro. Só menos querido
do que o meu filho caçula -, o romance MAIRA - que, por
outras razões, é meu xodó.

·20 21
,,..-,
Ili
'1
:1
Grande e generosa foi, também, a fortuna crítica de O A primeira atualização que experimentamos · ocorreu com
Processo, recebido com carinho em vários países. Foi, inclusi- os índios e os negros . que, atingidos pela expansão
ve, objeto de um debate coletivo promovido Currefft An- não evoluíram da tribalidade à civilização, mas foram tao-so-
thr<YpOlogy, para os livros que seus editores consideram impor-· mente arrastados à condição de forçá de trabalho das colônias
tantes.' Este debate (CA treatment> consiste em remeter a escravistas mercantis que as nações ibéricas fundaram no Novo
obra selecionada para debate a uns vinte antropólogos para . Mundo no curso da Revolução Mercantil. A segunda ocorreu
que a critiquem; em recolher, depois, e remeter ao autor. os com trânsito que sofremos da condição Colonial à Neo-
diversos comentários para que ele redija a réplica; e, por fim, colonial, no corpo da Revolúção Industrial, e que nos confir-
na publicação conjunta de todo o material. mou na situação de povos de segunda .classe, enquanto ôs
Os comentários assinalam tanto os aspectos com que os EUA, por exemplo, se integravam_ por acele-
críticos concordam, como aqueles de que discordam. Entre os ração evolutiva, na nova civilizaçao. A terceira e a que
primeiros, recordo agora o gosto que me deu ler as aprecia- nossas classes dominantes gerenciais, na qualidade de associa-
ções freqüentes assinalando que O Processo . Civilizatóri_o .pro- .· dos das corporações multinacionais, estão promovendo em nos-
porcionava, pela primeira vez, um quadro conJunto dos ultrmos Ros dias com a maior eficiência. A luz dos conceitos de Atua-
cinco séculos da história, que possibilitava tratar as sociedades lização versus Aceleração, fica evidenciado que seus esforços
avançadas e as atrasadas não como etapas sucessivas da evo- de modernização só visam nos atrelar à civilização
lução humana, mas como pólos interativos de um mesmo sis-
tema sócio·econômico tendente a perpetuar suas posições re- :
!ativas. O hoje dos povos avançados não é, pois, o nosso
trlal outra vez na condição de povos dependentes que · conti-
nuarão' contribuindo tanto para a prosperidade
. . que nao
alheia, -
amanhã: nós e eles encarnamos posições opostas, · mas coetâ· ·
poderão cuidar de sua própria prosperidade.
neas. As principais reservas apresentadas contra . as proposições
Esta integração teórica que nos permitiu fundir, a partir do nosso esquema conceituai vêm de duas vertentes: as dos
de 1500, nosso esquema evolutivo com nossa reconstituição o contestam por ser "marxista", e as dos que, ao contrario,
o desmascaram como infiel ao "verdadeiro marxismo". As pri-
do processo histórico tomou-se possível graças ao apelo aos
meiras, tolas demais para merecer atenção, caem ora em
conceitos complementares de aceleração evolutiva e de atuali- . objeções irritadas contra a idéia de progresso, ora em
zação histórica. Nos últimos anos, tive a alegria de vê·los re- t.anclas escandalizadas contra a admissão de que as revoluçoes
produzidos nestes termos e em variantes semânticas deles em aoclais violentas possam ser socialmente positivas.
diversos estudos. Com sua ajuda, muitos autores puderam su- .
perar tanto as visões unilineares que mediocrizam as teorias As últimas merecem maior atenção, embora sejam, às ve-
evolutivas como as proposições desenvolvimentistas das teo- igualmente tolas. Este é o caso de todos os que,
rias da n{odemização, que fazem supor uma progressão espon- quo existem respostas finais de Marx para todas
tânea ·do subdesenvolvimento ao desenvolvimento, através da consideram uma ousadia repensar os esquemas ditos marxis-
t111, porque só admitem recitá-los.
industrialização substitutiva..
Foi também assinalado que esta concepção de duas linhas Estes ruminantes de Marx deviam, no presente caso, con-
divergentes de trânsito de uma a outra etapa da cordar que, haveP.do dois esquemas legitimamente
tinha tanto a virtude histórica de facilitar a compreensao das ao marxismo sobre a evolução sócio-cultural humana, caberia
vicissitudes dos povos subdesenvolvidos no passado, como a pelo menos o esforço de engendrar um terceiro que os con-
qualidade predictiva de possibilitar a antevisão dos riscos que aUlasse. Efetivamente, isto é o que sucede, uma vez que o
eles enfrentam, agora, de serem outra vez atualizados no curso •quema de Engels em A Origem, etc. (1884) - que Marx
do processo civilizatório posto em. marcha pela Revolução oonheceu e aprovou ......: é não só diferente, mas oposto ao es-
Científica. quema do próprio Marx nos Grundrisse (escritos em 1857/59,
mu só editados em 1939 e difundidos depois de 1950) o qual,
por aua vez, Engels conhecia muito bem. A divulgação tardia
1. Este debate foi publicado no Vol. 11·4 de 1970 de Current Anthropology e
republicado em livro sob· o titulo de Configurações Histórico-Culturais dos Povos
do texto de Marx veio criar uma grande celeuma, porque
1' Americanos, no México (1972), em Montevidéu C1972l, no Rio de Janeiro (1975) e em 11 revelou muito superior ào de Engels ou, pelo menos, mais
1

1.,
Buenos Aires Cl976l. oonotliável com os conhecimentos antropológicos acumulados

1.'
22 23
no último século. Onde ·ficamos neste debate entre os dois Uma reserva surpreendente ao nosso esquema conceituai é
ilustres defuntos, se não nos consentimos repensá-los? u. de quem o inquina de "evolucionista". E daí, quê? Desejariam
Este tipo de contestação é especialmente iITitante quando que fosse funcionalista? Mais do que surpreendente, porém,
parte dos pretensos marxólogos que convertem o marxismo <1sta reserva passa a ser absurda quando parte de pretensos
marxistas. Que são os esquemas de sucessão das formações
numa técnica erudita de exegese de tex;tos. Eles querem que se uconômico-sociais de Marx e Engels, senão teorias evolutivas?
leia as obras de Marx partindo da suposição de que nelas
- como na Bíblia, para Lutero - residisse toda a sabedoria. Aqui se somam, provocando curto-circuitos, diversas confu-
Uma sabedoria, aliás, só recuperável se lidos ·e relidos com a sões. Primeiro, a de jogar na mesma lata-de-lixo das doutrinas
ultrapassadas, junto com o evolucionismo meio unilinear de
devida atenção e com a indispensável obediência ao guia pa- Tylor ou do progressivismo de Spencer, nada menos do que a
risino que esteja em moda.
concepção vital para as ciências sociais de que o processo his-
Penso que a verdade, no que tenha de apreensível, não tórico, não sendo arbitrário nem errático, é, por isto mesmo,
está em texto algum, mas na vida e na história. Penso que oxplicável e, em certa medida, até previsível. Segundo, o de
ela só pode ser lida através da observação direta ou da re- opor-se nominalmente ao academicismo sócio-antropológico nor-
constituição histórica criteriosa de contextos sociais concretos t.o·americano, apenas para beber suas piores águas de lavagem.
e da comparação sistemática dos mesmos. Os clássicos - e, Inclusive, o reacionarismo antievolucionista de quantos detes-
com eles, todos os que teorizaram fecundamente, com base t.nm e repelem qualquer idéia de evolução como umà'. predispo-
em pesquisas científicas e histórieas - nos provêm no má- Mlção perigosa à revolução. Leslie White (1945), demonstrando
ximo de orientações, diretrizes, a partir das quais temos é de como e por que razões políticas e não científicas se constituiu
abrir os olhos para olhar e ver e rever a experiência vivida n difundiu esta estultice teórica, fez dela a vergonha das ciên-
dos povos, como a única fonte de saber -referente à sua vida olns sociais norte-americanas com que, hoje em dia, ninguém
e ao seu destino. Nosso papel é, pois, o de nos fazermos. nmis se identifica.
herdeiros do discurso da ciência, apenas para refazê-lo corri Só resta assinalar aqui que assim como as ciências da vida
base na exploração exaustiva do valor explicativo tanto dos nno podem passar sem um esquema da evolução biológica -
contextos sociais concretos que observamos, como das circuns- o que não converte ninguém em darwinista - assim também
tâncias de lugar e posição, desde as quais vemos a eles e aos ttH ciências da sociedade e da cultura não podem prescindir do

seus contornos. Para fazê-lo com a ousadia de Marx, porém, 1\ntco esquema teórico capaz de tornar a história inteligível -
é indispensável observar, comparar e interpretar de olhos pos- " oste será inevitavelmente evolutivo, ainda que não necessa-
,tos no trânsito entre o que foi e o que pode ser, e com a rlnmente evolucionista, de estilo tylonista ou spenceriano.
predisposição de conhecer para intervir e influir, no sentido Tudo isso significa que, quando não se conta com uma
tnoria explicita da evolução, se corre o grave risco de cair num
de que venham a se concretizar na história, amanhã, as possi- '1V01ucionismo irresponsável por si mesmo, porque inexplícito.
bilidades mais generosas dela. ·
Qunndo se fala, por exemplo, de Revolução Industrial no plano
Com esta postura é que escrevemos O Processo Civilizatório. tncnológico, ou de Revolução Socialista no político, se está usan-
Ele é o melhor discurso que podíamos formular sobre o ca- do categorias que só têm sentido dentro de uma concepção
ráter necessário - e, portanto, compreensível - de nosso 1volutiva da história. Isto é, aliás, o que se faz habitualmente
passado de nações que fracassaram na história. É também a aem maiores conseqüências. Fazê-lo, porém, pretendendo ser
mais clara advertência que podíamos escrever sobre as. amea- expressamente antievolucionista é pecado de indigência teórica.
ças que pesam sobre nós de recairmos na condição de povos· Quero comentar ainda duas ordens de objeção nominal-
explorados e subalternizados; ameaça tanto maior porque este mente marxistas que se opõem às teses de O Processo Civili-
é o projeto de nossas classes dominantes. É, por fim, a expres- 1tdórto. A primeira diz respeito à noção de feudalismo, que
são mais eloqüente que consigamos formular sobre as possi- oonceituamos não como uma etapa da evolução sócio-cultural
bilidades reais que se abrem à nossa frente de ruptura revo- lltuada entre o Escravismo e o Capitalismo, mas como uma
lucionária dos fatores causais do atraso autoperpetuante, para inlt&ncia geral de regressão histórica. Assim concebida, seria
a realização das potencialidades dos nossos povos, dentro aa um tipo geral de vicissitude em que até agora tendiam a cair
civilização emergente. 1 at.S a recair reiteradamente todas as altas civilizações.

24 25
Os europeus e os norte-americanos (como um transplante como o Escravismo romano e o Escravismo brasileiro - o
ultramarino de sociedades européias) têm dificuldades de assu-, que, se ratifica por um iado sua relevância, comprova, por ou-
mir esta visão porque, identificando o feudalismo com a Idade tro lado, sua desvalia como critério distintivo de etapas da
Média que está no seu próprio passado, são levados a concebê- evolução. Em segundo lugar, porque os componentes estraté-
lo como uma ponte histórica entre o Escravismo greco-romano l{lcos do modo-de-produção para o estudo da evolução social
- seus supostos ancestrais, mais dignificatórios do reais : rd\o precisamente os meios-de-produção, vale dizer, a tecnologia
- e os alvores do Capitalismo Mercantil, no Renascunento. o não as relações-de-produção, que seriam os antagonismos de
A luz desta percepção eurocêntrica, o milênio de atraso me- classe acima referidos.
dieval - em que desaparece toda a produção mercantil, em
que a imensa estrutura do Império Romano se coalha em mi- Contestar em nome de Marx a utilização do critério tecno-
lhares de feudos - é alçada fantasiosamente da condição de lógico no estudo da evolução social humana é tanto mais absur-
seqüência histórica específica à de categoria teórica geral da do porque é o próprio Marx quem reclama no primeiro tomo
1to O Capital (1961:303) a necessidade imperiosa de se escrever
evolução humana. Tenta-se até fundamentar .a tese, buscando " história crítica da tecnologia. Isto porque, a seu juízo, ela
no Feudalismo assim concebido signos do progresso que atra-
vés dele se teriam dado no trânsito da Escravidão ao Trabalho no plano social, o equivalente da obra de Darwin no
Assalariado através da Servidão. A verdade é que não há tais plano da evolução das espécies. Com efeito, depois de salientar
1\ importância da história da tecnologia natural de Darwin,
avanços. O' que se toma por sinal deles já são prenúncios das
novas formações pós-feudais. Marx pergunta: Será que a história da criação dos órgãos pro-
tfuttvos do homem social (quer dizer, dos meios-de-produção,
o grave, porém, desta concepção, é que dado o seu caráter INto .é, das técnicas produtivas, esclareço eu) que são a base
genérico, ela conduz à tendência nefasta de catalogar
natural de toda organização específica da sociedade, não merece
"feudalismo" tudo que não seja Escravismo puro nem Capita-
tJmesma atenção? Conforme se verifica, foi Marx quem me
lismo pleno. Nossa concepção de Feudalismo, ao contrário,
além de proporcionar explicações satisfatórias para as regres- pndiu que escrevesse O Processo Civilizatório. Obviamente, ele
sões cíclicas que experimentaram as civilizações egípcia, meso- tiNperava uma obra mais lúcida e alentada do que minbas for-
potâmica, indiana e chinesa, etc., permite superar a estreiteza IJ"" permitiam. Ainda assim, fico com o direito de crer que,
da concepção anterior. Esta, além de não explicar nada - nem. nposar de tudo, o herdeiro de Marx sou eu.
mesmo a história medieval européia - impossibilita entender
a natureza real das revoluções socialistas não obreiras nem D. R. - Rio, Abril, 1978
pós-capitalistas que são, aliás, as únicas que se conhece. Esta
qualidade é que fazia aquela concepção tão cara a Stalin quanto
sua obsessão pelo caráter democrático-burguês - porque pós-
feudal - de toda revolução nas áreas neocoloniais. Dentro
desta percepção, Fidel haveria feito a revolução por ignorância.
Outra reserva pseudomarxista ao esquema conceitua!· de
o Processo Civilizatório vem da escolha do desenvolvimento
da tecnologia como o critério básico de construção do nosso
esquema de evolução sócio-cultural. Alega-se, aqui, que esta
postura importa em invalidar o critério marxista que faz das
lutas-de-classe o motor da história e do desenvolvimento dos
modos-de-produção o critério fundamental da evolução social.
Não há nesses argumentos senão palavreado vazio. Primeiro,
porque não negamos a luta-de-classes, apenas assinalamos que
apesar de serem tão importantes, não se. prestam ao
de categorias diagnósticas da evoluçao humana. Tanto é assun,
que muitas das suas formas básicas se reiteram em formações
sociais inteiramente . diferentes e com defasagem evidentes -

26 27
INTRODUÇÃO

As Teorias da Evolução Sócio-cultural

NOS ÚLTIMOS anos, praticamente todos os antropólo-


gos retomaram a perspectiva evolucionista, reformulada, agora,
em termos explicitamente multilineares e descomprometida do
caráter conjetural de muitos dos antigos ensaios sobre a ori-
gem de costumes e instituições. Entretanto, não se conta ainda
com lJ.m esquema global das etapas da evolução sócio-cultural
formulado com base nas contribuições mais recentes da ar-
queologia, da etnologia e da história, que permita situar qual-
quer sociedade, extinta ou atual, dentro do continuum do
desenvolvimento sócio-cultural.
A inexistência de esquemas desse tipo tem levado as ciên-
cias sociais a pelo menos quatro ordens de deformações. Pri-
meiro, à tendência a tratar nos termos das teorias de alcance .
médio problemas que, por sua natureza, como os estudos do
desenvolvimento e da modernização, exigem uma abordagem
mais ampla e compreensiva. Segundo, a redução dos estudos
antropológicos sobre dinâmica cultural a micro-análises -
como no caso dos estudos de aculturação - cuja contribuição
para o conhecimento dos processos pelos quais se plasmam
as tradições culturais e se formam e transformam as etnias
é praticamente nula. Terceiro, a privilegiar os estudos funcio-
nalistas, condenando, assim, a antropologia a formular explica-
ções teóricas em termos da interação entre os conteúdos pre-
sentes de cada cultura e crestando a criatividade que alcançara
na busca de generalizações dentro da antiga perspectiva dia-
crônica. Quarto, à contingência de deixar implícita, em muitos
estudos, uma teoria da evolução sócio-cultural que jamais se
discute diretamente. Acresce ainda que até mesmo os estudos
realizados à base da metodologia da evolução cultural freqüen-
temente se formulam dentro de limites tão acanhados, que ·não
proporcionam uma explanação da dinâmica cultural em termos
de causalidade, nem conduzem à formulação de teorias explica-
tivas dos modos de ser e de interagir das sociedades contem-

29
porâneas, enquanto resultantes de longos complexos proce:;- Friedrich Engels publicou em 1884 uma reelaboração do
sos históricos. · esquema de Morgan, à luz da concepção marxista das forma-
Com o objetivo de contrib'Üir para superar esta carência ções econômico-sociais, definidàs como tipos históricos de so-
- que ultrapassa, evidentemente, a capacidade de uma só ciedades caracterizadas pela combinação de um modo de pro-
pessoa - é que nos propusemos elaborar uma reformulação dução (tecnologia + divisão do trabalho) com uma forma
preliminar das concepções da evolução sócio-cultural para ser- determinada de organização social e com um corpo particular
vir de base aos nossos estudos sobre o processo formação de concepções ideológicas. Nesse estudo clássico (1955), Engels
étnica e sobre os problemas de desenvolvimento com que se distingue cinco formações: o Comunismo Primitivo, o Escra-
defrontam os povos americanos. Focalizamos o desenvolvimen- vismo, o Feudalismo, o Capitalismo e o Socialismo, que se
to sociedades humanas nos últimos dez milênios, oÚ seja, sucederiam historicamente, sempre· nesta ordem, para todas as
depois do surgimento dos primeiros núcleos agrícolas. Apenas sociedades.
ai;; etapas anteriores nos limites mínimos indispensá- Karl Marx, em seu estudo das formações pré-capitalistas
veis para situar as que se seguiram. (redigido em 1857/1858, mas só publicado pela primeira vez
De especial valia na realização deste trabalho foi o apelo em 1939/41), assinala que o rompimento evolutivo da condição
a estudos clássicos sobre a evolução sócio-cultural que abordam primitiva pode assumir diversas feições, conforme o tipo de
·O probelma globalmente, muitos dos quais têm, ainda hoje, propriedade que o dinamize. Dentre elas cita especificamente
um flagrante valor de atualidade. Recorremos igualmente a a Formação Asiática, que designamos como teocrática de re-
estudos contemporâneos que reconstituem seqüências parciais gadio; a Antiga Clássica, que chamamos mercantil escravista;
do processo evolutivo ou analisam problemas particulares da a Eslava, que ele não definiu claramente; e a Germânicá, que
dinâmica cultural.* Marx identifica com os primeiros passos do feudalismo euro-
peu. Os dois primeiros caminhos não constituem necessaria- ·
Dentre as fontes clássicas queremos destacar Ancient So-
mente, a seu ver, etapas sucessivas. e obrigatórias da evolução
ciety de Lewis H. Morgan, publicado em 1877, que demons-
cultural, mas formas alternativas (de ruptura com a condição
tra, pela primeira vez, que a história humana é "una em sua tribal), através das quais diferentes sociedades podem ter che-
origem, em sua experiência e una· em seu progresso", gado ao Feudalismo, passando ou não pelo Escravismo. Para
sendo, por isso, suscetível de dividir-se uniformemente em três Marx, a universalidade do processo evolutivo parecia estar
etapas gerais de evolução. Tais são a Selvageria, a Barbárie antes no progresso continuado dos modos de produção e na
e a Civilização, cada uma das quais subdividida em três idades: sua resultante histórica, que era o sistema capitalista indus-
a Inferior, a Média e a Superior. A partir da Selvageria Inferior, trial de base mundial tendente ao socialismo, do que na unili-
correspondente à economia de simples coleta de frutos, raízes nearidade da via de ascensão do primitivismo à civiliz.ação.
e nozes, o homem alcançaria a etapa Média com o uso do
fogo e a economia de pesca; e a Superior, com a descoberta É de assinalar, porém, que poucos aspectos das teorias
do arco-e-flecha. A Barbárie teria início com a cerâmica, des- de Marx foram tantas vezes revistos por ele próprio e por
dobrando-se, na etapa Média, com a domesticação de plantas Engels, e também por outros estudiosos marxistas, do que
e animais, a irrigação, a edificação com tijolos e pedra, e pas- estas seriações de etapas da evolução sócio-cultural. Eles pró-
sando à Superior com a fabricação de instrumentos de ferro. prios as encaravam, provavelmente, como tentativas pioneiras
A Civilização iniciar-se-ia com a escrita fonética. A cada uma de distinguir as formações econômico-sociais fundamentais e de
destas etapas de progresso tecnológico, Morgan faz correspon- estabelecer algumas ordens possíveis de sucessão das mesmas.
der modos particulares de organização social e conteúdos espe- Embora trabalhando com a melhor bibliografia da época e
ciais da visão do mundo e dos corpos de crenças e valores .. capacitados a tirar dela o máximo proveito, Marx e Engels
não podiam suprir lacunas só posteriormente preenchidas pe-
los estudos arqueológicos, etnológicos e históricos. Entretanto,
• Nas observações sobre a Bibliografia, o leitor encontrará um comentário sobre
as fontes bibliográficas que utilizamos no tratamento de cada tema. As referências
mesmo passado um século, as anotações de Marx sobre este
são feitas citação do nome do autor seguida do ano de publicação campo - As Formações Pré-Capitalistas - constituem uma
da obra citada e das páginas respectivas, no caso de citação textual. Na bibliografia das formulações teóricas mais ousadas e fecundas de que se
geral, os autores são citados por ordem alfabética e o titulo de cada uma de suas
obras vem precedido pelo ano de publicação da edição que utilizamos. dispõe.

30 . 31
Lamentavelmente, o próprio Marx não retomou o ten. lizações fundadas na agricultura de regadio, Steward demonstra
posteriormente, cabendo a Engels rever os antigos estudos co· q:ie todos ,,eles se podem distinguir "etapas homotaxiais
muns com base na bibliografia publicada mais tarde, princi·" nao smcrônicas de desenvolvimento. A primeira delas é a de
palmente na contribuição de Morgan. Os estudos marxistas Caça e Coleta (correspondente à Selvageria da classificação
posteriores encaminharam-se para uma orientação cada vez mais se estenderia até o cultivo de plantas e a
unilinear e dogmática (J. Stalin 1946; O. V. Kuusinen 1964; de animais, quando teria início a etapa da Agricultura
A. Viatkin [ed.] e outros s.d.), pouco acrescentando às contri- Desta passar-se-ia à Formativa, com o surgimento
buições originais e até medibcrizando-as em seus esforços ori- da irngaça? da cerâmica. A partir daí se desdobrariam qua-
ginais por formular leis universais de transição entre etapas, t:o. eras distintas (Florescimento Regional - Conquistas Ini-
e empobrecendo-as com o abandono dos estudos sobre a For- ciais - Idades Obscuras - Conquistas Cíclicas e Idade do
mação Asiática e a redução do conceito de Feudalismo a um Ferro) caracterizadas por certos avanços na tecnologia e nas
mero pré-capitalismo. Só recentemente, com a publicação das de organização social, até atingir a Revolução Industrial.
Formações de Marx (1966), estes estudos foram retomados :i::oster1?rmente, à luz da crítica de diversos espeéialistas, num
com maior amplitude de visão, restabelecendo-se a concepção de (ed. 1955) introduziu algumas mo-
da pluralidade de formações econômico-sociais e dos modos conceituais e taxonômicas em seu esquema. As prin-
alternativos de transição de uma à outra <E. Hobsbawm 1966; cipais .delas a fusão do Florescimento Regional com as
M. Godelier 1966; J. Chesneaux 1964; O. dei Barco 1965). Conquistas Imciaxs e a reformulação das Conquistas Cíclicas
Gordon Childe (1937, 1946, 1951), a quem se devem os me- como uma Era Militarista.
lhores estudos modernos sobre a matéria, fundados nos desen- Karl Wittfogel 0955 e 1964) retomou o conceito clássico
volvimentos recentes das pesquisas arqueológicas e etnológicas, de "Despotismo Oriental" desenvolvido especialmente por Marx
segue as linhas mestras do esquema de Morgan. Estende, po- <F<;>rmação Asiática) e, com base nos seus estudos sobre a
rém, a Selvageria até a Revolução Neolítica, representada pela Chma, procurou generalizá-lo como uma das linhas básicas do
difusão da agricultura e do pastoreio (que dariam início à desenvolvimento evolutivo. Para isso realçou antes 0 caráter
Barbárie). Esta é dividida em duas etapas: a Barbárie Neolítica supostamente despótico do que o hidráulico destas formações
e a Alta Barbárie da Idade do Cobre, que ele estende até a chegan_do a abandonar este último. As "Sociedades Hidráulicas';
Revolução Urbana, iniciada com o desenvolvimento das se opoem, para Wittfogel, às "Socieâades Estratificadas dé
Começaria, então, a Civilização, que Childe divide em três eta- Pastores'', às "Sociedades Agrárias não-Hidráulicas e não-Feu-
pas: as Idades do Bronze e do Ferro e o Feudalismo, que se dais de Grécia e Roma republicanas" e às "Sociedades Feudais
prolongaria até a Revolução Industrial. da Europa e do Japão". Ele não procura relacionar todavia
Leslie White (1949 e 1959) foi o primeiro dos antropólogos esses tipos sócio-culturais uns com os outros; nem
modernos a retomar a· perspectiva evolucionista em toda a sua num evolutivo. Seu interesse fundamental é formular
inteireza e profundidade. Utiliza como critério de determina- uma geral do totalitarismo pela análise das culturas de
ção das etapas de evolução cultural o grau de controle e de regadio, com rego ou sem rego.
utilização das fontes de energia alcançado por cada sociedade. Nosso esforço principalmente, em sistematizar os
Discrepando mais do que Gordon Childe do esquema de esq:iiemas faseológ1cos e os princípios dinâmicos da evolução
Morgan, White propõe uma etapa inicial de Selvageria que se sócio-cultural, formulados nos estudos clássicos e modernos. A
estenderia até a Revolução Agrícola, através da qual o homem isto acrescentaremos um corpo de conceitos analíticos novos.
coloca a seu serviço a energia solar, mediante o cultivo de Esper.amos que tentativa de sistematização e de renovação
plantas. A partir de então, até a Revolução Industrial, se des- conceit':1al contribua para determinar as etapas básicas de de-
i dobraria a Barbárie, a que se seguiria a Civilização. Em ux:n senvolvimento tecnológico distinguíveis no continuum da evolu-
de seus estudos, White fala de Idades da Caça e da Coleta, ção humana; para os modos de vida correspondentes
•r. dos Cereais e do Carvão (1945) . a evolutivos, em termos de formações econômico.
l<
Devemos a Julian Steward (1955, caps. 2 e 11) contribui- sociais ou soc10-culturais para identificar as forças dinâmicas
o ções assinaladas à teoria da evolução cultural. Comparando o responsáveis pela sucessão de etapas e de formações· e final-
l, desenvolvimento de seis focos . culturais (Mesopotâmia, Egito, mente, para definir as condições em que esta sucessão ace-
índia, China, Peru e Mesa-América), em que floresceram civi- lera ou se retarda, ou entra em regressão e estagnação.

32 33.
Pressupostos Teóricos
conexões em termos de etapas evolutivas que combinem certo
A história das sociedades humanas nos últimos dez milê- grau de desenvolvimento tecnológico com certas características
nios pode ser explicada em termos de uma sucessão de revolu- de organização social e certos modos de configuração da cul-
ções e de processos civilizatórios através dos quais tura.
a ma1ona dos homens passa de uma condição generalizada de A muitos autores parece demasiadamente amplo e até mes-
caçadores. e coletores para diversos modos, mais uniformes mo arbitrário o âmbito das respostas sócio-culturais possíveis
d? que ?iferenciados, de prover a subsistência, de organizar a às formas tecnológico-produtivas, para que seja praticável cor-
vida social e de explicar suas próprias experiências. Tais modos relacionar umas às outras e classificá-las numa tipologia de
diferenciados de ser, ainda que variem amplamente em sel.Ís aplicação universal. Outros estudiosos, admitindo embora a
conteúdos culturais, não variam arbitrariamente, porque se en- possibilidade de lograr-se esta esquematização de etapas, pon-
quadram em três ordens de imperativos. Primeiro o carát.er deram que não teria qualquer valor operacional porque, para
acumulativo 'do progresso tecnológico que se desde serem universais, deveriam formular-se tão genericamente que
formas mais elementares a formas mais complexas, de acordo "não seriam nem discutíveis, nem úteis" (Steward 1955a:17).
com uma seqüência irreversível. Segundo, as relações recipro- Ainda que o argumento fosse válido, justificar-se-ia a elabora-
cas entre o equipamento tecnológico empregado por uma socie- ção de um esquema global da evolução sócio-cultural por seu
dade em sua atuação sobre a natureza para produzir bens e valor de. explanação mais geral dos nossos conhecimentos so-
a magnitude de sua população, a forma de organização das bre a dinâmica dos fenômenos culturais. É muito provável, po-
relações internas entre seus membros bem como das suas re- .rém, que tal esquema possa ter também certo valor operacional,
lações com outras sociedades. Terceiro, a interação entre esses desde que proporcione um quadro geral da evolução sócio-
esforços de controle da natureza e de ordenação das relações cultural do homem, desdobrável em subquadros revestidos de
humanas e a cultura, entendida como o patrimônio simbólico qualificações especificas, aplicáveis a situações concretas. Na
dos modos padronizados de pensar e de saber que se mani- realidade, enquanto faltar este quadro geral, os cientistas so-
materialmente, nos artefatos e pens; expressamente, ciais não poderão sequer propor-se problemas que permitam
da conduta social e, ideologicamente, pela comunicação entender as relações entre o nivel de objetividade dos estudos
s1mbóllca e pela formulação da experiência social em corpos históricos, etnográficos e arqueológicos e as categorias abstratas
de saber, de crenças e de valores. das explicações antropológicas ou sociológicas. Uma teoria ge-
. três ordens de imperativos - tecnológico, social e ral da evolução sócio-cultural é, por isso, indispensável, até
- e o caráter necessário de suas respectivas cone- mesmo para situar e dar amplitude explicatica às generaliza-
xoes fazem com que a uma classificação de etapas evolutivas ções científicas fundadas na análise de relações sincrônico-
de base tecnológica devam corresponder classificações comple- funcionais.
mentares fundadas nos padrões de organização social, e nos O conceito básico subjacente às teorias de evolução sócio-
moldes de configuração ideológica. Se isto é verdade torna-se cultural é o de que as sociedades humanas, no curso de longos
possível uma tipologia evolutiva geral, para as períodos, experimentam dois processos simultâneos e mutua-
três esferas, amda que fundada na primeira delas, e em cujos mente complementares de autotransformaçãó, um deles respon-
termos· se possam situar as sociedades humanas em ·um núme- sável pela diversificação, o outro pela homogeneização das cul-
ro limitado de modelos estruturais seriados numa seqüência turas. Por força do primeiro processo, as sociedades tendem
de grandes etapas evolutivas.
11 multiplicar seus contingentes populacionais, a desdobrar as
Existe um alto grau de concordância entre os estudiosos entidades étnicas em que estes se aglutinam e a diversificar
quanto ao poder de determinação dos conteúdos tecnológicos aeus respectivos patrimônios culturais. Por força do segundo
sobre os sociais e ideológicos e quanto à possibilidade de seriar processo, porém, esta diversificação, em lugar de conduzir a
o desenvolvimento tecnológico em passos evolutivos do progres- uma diferenciação crescente dos grupos humanos, conduz à
so humano. O acordo é igualmente amplo quanto ao caráter homogeneização de seus modos de vida através da fusão das
. conexões entre o sistema tecnológico, o social
e o ideolog1co de uma sociedade. Mas é muito menor com entidades étnicas em unidades cada vez mais inclusivas e da
respeito à possibilidade de definir padrões necessários dessas construção de seus patrimônios culturais dentro de linhas pa-
ralelas, tendentes· a uniformizá-los.

35
/ 1

i 1

O primeiro processo, de carát.er diversificador, responde dizer que a lógica das coisas se impõe _às culturas,
1

ao imperativo de adaptação ecológica diferencial que colore as a desenvolver-se mediante a percepçao de seus pnncipios e
com qualidades particulares a cultura de cada sociedade, es- o ajustamento a eles.
pecializando-a a certo ambiente ou desviando o rumo do
desenvolvimento, em virtude de acontecimentos históricos par- Três contingenciamentos básicos, de natureza
ticulares. Estes coloridos, ainda que decisivos na explicação do somam-se a este imperativo para conformar as culturas, impn-
modo de ser de cada sociedade particular, não podem entrar mindo-lhes as mesmas pautas; todos eles referem-se à chamada
no exame do processo evolutivo, exceto quando criam formas "natureza humana". Primeiro, os decorrentes da estrutura bio-
gerais de adaptação humana, adotáveis por outras sociedades lógica do homem, cujos atributos especiais de inteligência,
porque não decorrentes do simples ajustamento a particulari- flexibilidade individualização e socialização - resultantes do
dades ambientais e do impacto de vicissitudes históricas sin- processo de' evolução biológica - o uniformizam como espécie
gulares. cm face de todas as outras (G. e. Simpson, 1966 e Julian Huxley,
O segundo processo integrador e homogeneizador é a evo- 1952 e 1955). Esta uniformidade elementar se imprime às cul-
lução sócio-cultural. Radcliffe Brown o definiu como um pro- turas fazendo-as essencialmente homogêneas, enquanto modos
cesso de "atualização progressiva de potencialidades presentes, de controle do meio ambiente por agentes biológicos especia-
quando os primeiros seres humanos começam a viver em so- lizados. Em virtude deste contingenciamento, todas as culturas
ciedade" (1961). Desdobrando esta conceituação poderia dizer. desenvolvem normas uniformes de orientação da ação adapta-
se que a evolução sócio-cultural se processa através da realiza- tiva sobre o meio para tirar dele os materiais específicos in-
ção de possibilidades limitadas de resposta aos mesmos impe- dispensáveis à sobrevivência e à multiplicação biológica d_os
rativos fundamentais, dentro dos mesmos enquadramentos con- seres humanos (coleta, caça, pesca, etc.). Segundo, os contm-
dicionadores, conducente à reiteração das mesmas formas cul- da vida associativa, cujo desenvolvimento e ma-
turais e, deste modo, à criação de estruturas uniformes, clas- nutenção exigem a criação de pautas capacitadS:O a
sificáveis dentro de uma tipologia genética universal. propiciar o cqnvívio e ordenar a interação social para os _efeitos
de reprodução do grupo (incesto, família, parentesco,
O exame das variedades de modos de ser das sociedades o da produção econômica (divisão do trabalho, estratificaçao,
humanas, a respeito das quais contamos com documentação etc.). Terceiro, os contingenciamentos de natureza psicológica,
adequada, revela que elas são classificáveis em diferentes ca- mais difíceis de precisar, mas responsáveis, ao menos, pela
tegorias, de acordo com a grau de eficácia que alcançaram no unidade essencial da estrutura neuropsicológica e ·mental dos
domínio da natureza. Demonstra, também, que elas são ativadas seres humanos, que, segundo dizia Adolph permite. en-
por um processo de desenvolvimento que, embora não opere contrar as mesmas soluções ante idênticos desafios causais.
simultaneamente · com o mesmo ·vigor sobre cada uma delas,
não atua arbitrariamente, mas de forma regulada e direcional. Aquele imperativo elementar e a estes
Tal se dá em virtude da atuação de uma série de forças cau- - todos de natureza extracultural - acresce um outro impe-
sais uniformizadoras, entre as quais devemos incluir um impe- rativo geral, este de natureza propriamente cultural, co_n-
Histe na capacidade especificamente humana'
rativo geral e três condicionamentos básicos, de caráter extra- simbólica responsável pelo enquadramento da vida social _den-
cultural, bem como uma série de fatores causais de natureza tro de de herança cultural, transmitid_?S de geraçao. a
propriamente cultural.
Keração, e que faz com que todos os _posteno-
O imperativo básico consiste na uniformidade da própria res dependam das características do patrimomo preexistente.
natureza sobre a qual o homem atua, que o obriga a ajustar-se Dentro do âmbito destes diversos condicionamentos, as cul-
a regularidades físico-químicas e biológicas externas à cultura. turas se desenvolvem pela acumulação de compreensões
O papel homogeneizador deste imperativo se exprime princi- e pelo exercício de opções, como um desdobramento
palmente na tecnologia produtiva que, por seu caráter de modos das potencialidades de conduta cultural, cuja e o
de ação sobre a natureza, deve ater-se necessariamente aos fenômeno humano em toda a sua variedade. A contmgencia de
requisitos desta. Como resposta a este imperativo é que en- 1erar-se dentro destes enquadramentos uniformizadores é que
contramos em todas as culturas um corpo mínimo de conhe- permite às culturas evoluir direcionalmente. Em lugar de re-
cimentos objetivos e de modos estandardizados de fazer. Vale começarem sempre a partir de suas bases, concatenam as
36 37
humanas através de gerações, para compor seqüên- cializante, o mesmo não ocorre com respeito à difusão e às
cias evolutivas equivalentes às da evolução da vida. Estas se- compulsões externas. Sua importância é tão decisiva no pro-
são, a um tempo, mais capazes de variação e mais cesso geral, que uma teoria da evolução sócio-cultural só será
uniformes do que as biológicas. Enquanto a natureza, evoluin- satisfatória se combinar esses três motores básicos da evolu-
do mutação genética, não pode voltar atrás e é regida por ção: as invenções e descobertas, a difusão e a compulsão social
_ritmo lento de transformações, a cultura, evoluindo por uculturativa.
de corpos de significado e de normas de ação, e difun- O presente estudo procura demonstrar que o desenvolvi-
pela , aprendizagem, pode experimentar mudanças rá- mento das sociedades e das culturas é regido por um princípio
sem grandes limitações espaciais ou tempo- orientador assentado no desenvolvimento acumulativo da tec-
rais, e redef1mr-se permanentemente, compondo configurações nologia produtiva e militar; de que a certos avanços nesta
cada vez mais inclusivas e uniformes. linha progressiva correspondem mudanças qualitativas de ca-
Toda a bibliografia antropológica comprova exaustivamen- ráter radical, que permitem distingui-los como etapas ou fases
te o caráter universal daqueles condicionantes bem como a da evolução sócio-cultural; de que a essas etapas de progresso
uniformidade das respostas culturais dadas a 'eles, expressas tecnológico correspondem alterações necessárias, e por isso
na presença das mesmas classes de elementos nos diversos mesmo uniformes, nos modos de organização da sociedade e
patrimônios culturais, formando uma estrutura básica comum de configuração da cultura que designamos como formações
a todas as culturas (G. P. Murdock, 1947; c. Kluckhohn 1953). sócio-cu!turais.
Comprova, por igual, o caráter reiterativo das respostas regis- O fato de atribuir-se um poder determinante às inovações
tradas no curso da história para os diferentes desafios causais tecnológico-produtivas e militares não exclui a possibilidade de
com que se defrontaram as sociedades, expressas, estas, na atuação de outras forças dinâmicas. Assim é que, dentro de
presença de tantas formas comuns de estratificação social de escalas reduzidas de tempo, é igualmente identificável um
institucionalização da vida política, de conduta religiosa, 'etc. poder condicionante das formas de ordenação da vida social
Comprova, ainda, a sucessão de sistemas tecnológicos fundados sobre as potencialidades de exploração do progresso tecnoló-
nos mesmos princípios físico-químicos e biológicos e dotados gico, bem como um papel fecundante ou limitativo de certos
de crescente eficácia, tanto no plano da produtividade e da conteúdos do sistema ideológico - como o saber e a. ciência
capacidade de manutenção de contingentes humanos cada vez - sobre a tecnologia e, através dela, sobre a estrutura social.
maiores, como no poder de compulsão das sociedades umas Exemplos desta capacidade condicionante ou limitativa dos
sobre as outras. Por todos esses motivos é que o processo sistemas sociais e ideológicos são oferecidos pelo estudo do
evolutivo deve ser conceituado como homogeneizador e dire- papel dinâmico representado na vida social e na evolução
cional (Leslie White, 1959). cultural pelos fenômenos de solidariedade (P. Kropotkin, 1947)
A evolução sócio-cultural tal como conceituada até aqui é ou de conflito entre classes econômicas (K. Marx, 1956) ou
um processo interno de transformação e auto-superação que entre outras unidades sociais estruturadas através do desen-
se gera e se desenvolve dentro das culturas, condicionado pelos volvimento de lealdades culturais, como as étnico-nacionais (F.
enquadramentos extraculturais a que nos referimos. Na reali- Znaniecki, 1944) e as religiosas (Max Weber, 1948). Ainda que
dade, porém, as culturas são construídas e mantidas ·por socie- tenham conexões com conteúdos tecnológicos, estas formas de
dades que não existem isoladamente, mas em permanente in- solidariedade e de conflito não são redutíveis a tais conteúdos,
teração umas com as outras. Destas relações externas diretas nem explicáveis em sua variedade de formas e de funções
e indiretas, decorre um outro modelador do processo npenas por tais conexões. Leslie White exprime esta mesma
que, aos fatores de desenvolvimento interno, acrescenta fatores concepção quando afirma que "todo sistema social se apóia
externos. Assim, à criatividade interna, responsável por ino- embre um sistema tecnológico e é determinado por este último.
próprias, somam-se a difusão, responsável pela Mas todo sistema tecnológico funciona dentro de um sistema
mtroduçao de novos traços culturais, e as compulsões sociais 1ocial e é, em conseqüência, condicionado por ele" (L. White,
decorrentes da dominação externa, ambas igualmente capazes 1059:353).
de alterar o curso do desenvolvimento evolutivo de uma socie- É precisamente a focalização conjunta da interação entre
dade (L. Gumplowicz, Embora seja possível isolar con- estas diversas ordens de determinação, a global - de base
ceitualmente as variações devidas à adaptação ecológica espe- tecnológica, que se imprime como uma linha contínua no pro-

38 39
1 ii 1

'1''
11! cesso civilizatório -geral e é comprovável nas análises de alto plexos de traços que compõem· os Kulturkreise, pelo geogra-
alcanc. - temporal - e as particulares - de natureza social fismo do conceito de área cultural e pelo psicologismo em que
111 ou cultural, observáveis nas análises de alcance médio, que descambam tantas vezes as buscas de típicidades (R. Benedict,
condicionam o surgimento e a generalização do processo tec- 1934).
1
'I nológico, acelerando-o ou retardando-o - que nos pode dar Por tudo isso, aproxima-se mais da reformulação do con-
uma compreensão realista da evolução sócio-cultural. Para tanto ceito de tipo cultural devida a J. Steward (1955a, cap. 11),
será preciso combinar-se uma perspectiva de conjunto da evo- que também se opõe claramente às antigas noções de áreas
lução humana com visões parciais, através da utilização de culturais e de etapas evolutivas. Mas supera a limitação casuís·
conceitos válidos para distintos âmbitos históricos e para dife- l.lca deste último, mediante a análise do processo civilizatório
rE. .tes níveis de abstração. Esta integração conceitua! importa 1-toral através da utilização conjunta das noções de revolução
na admissão da possibilidade de combinar uma perspectiva tecnológica, como fator causal básico; de formação sócio-cul-
mais abstrata concernente à evolução sócio-cultural com pers- tural, como modelo teórico de resposta cultural àquelas revo-
pectivas complementares de base histórica, assentadas no estu- luções; e do conceito de civilização, como entidade histórica
do das inter-relações de correntes civilizatórias através da difu- concreta cristalizada dentro daquelas formações.
são cultural e das compulsões aculturativas.
Esta perspectiva importa no salto a um plano de abstra-
Trata-se, portanto, já não de tomar partido entre as doutri- ção ainda mais alto do que aquele em que operou Steward,
nas relativistas, privilegiadoras do difusionismo, do paralelismo, uo superar o nível de análise funcionalista para examinar dia-
da convergência e as explanações evolucionistas mais radicais, cronicamente grandes grupos de sociedades com-:> as hordas
fundadas na proclamação da unidade psíquica da humanidade pastoris nômades e as civilizações fundadas no Este
ou na superapreciação da freqüência de invenções independen- nivel mais alto de generalização compele, obvian,ente, a um
tes. A superação destas duas estreitezas será possível mediante icrau maior de abstração na definição dos traços "à.iagnósticos"
a adoção de uma perspectiva mais ampla de análise, que con- elo cada formação. Resta saber se em tal nível ainda será pos-
ceitue a diversificação e a homogeneização das sociedades e. 11ivel alcançar generalizações explicativas da evolução sócio-cul·
de suas culturas como o resultado tanto de invenções originais tural global e instrumentais para a classificação dos seus com-
- naturalmente mais raras - quanto da adoção de desenvol- ponentes concretos dentro de uma escala geral de passos evo-
vimentos alcançados por outros povos, através da difusão e lutivos. Cremos haver demonstrado que isto é possível mesmo
da expansão civilizadora e, ainda, de seus próprios esforços nos limites deste estudo preliminar.
de adaptação ecológica e de integração das diferentes esferas
de suas culturas.
O conceito de processo civilizatório permite essa aborda- ICicquema Conceituai
gem conjunta porque ressalta, na sua acepção global, a apre-
ciação dos fenômenos de desenvolvimento progressivo da cul- A grande dificuldade que apresenta a formula-;;;:ão de um
tura humana tendentes a homogeneizar configurações culturais. 01quema evolutivo global consiste na necessidade de combinar
E valoriza, na sua acepção limitada, os fatores de diferencia- dllerentes abordagens temporais e funcionais, emprestando-lhes
ção das culturas singulares, só explicáveis como esforços de a devida fidedignidade e congruência, a fim de permitir a
adaptação a condições ecológicas e históricas específicas e compreensão tanto da grande corrente de evolução cultural
como produto de uma criatividade própria, capaz de apresentar humana quanto dos seus passos tumultuários de progresso e
respostas alternativas aos mesmos incitamentos básicos. Esta retrocesso histórico.
conceituação aproxima-se, de certo modo, do sentido geral atri- Tentaremos, nas páginas seguintes, estabelecer as bases e
buído aos ciclos culturais dos difusionistas (Schmidt e Kop- OI limites dentro dos quais nos propomos formular um esque-
pers, 1924; Graebner, 1925; G. Montandon, 1934), às áreas cul- ma evolutivo geral com os atributos assinalados. Ou seja, uma
turais <C. Wissler, 1938; G. P. Murdock, 1951; A. L. Kroeber, explanação teórica ideal, construída pela redução con('.eitual da
1944; 1947) e ainda aos tipos culturais (Linton, 1936; 1955; R. multiplicidade de situações concretas registradas pela arqueo-
Benedict, 1934). Mas a eles também se opõe pela teimosia anti- lo11a, pela etnologia e pela história, a um paradigma simplifi-
evolucionista que os impregna, pelo caráter cerebrino dos com- Oldo da evolução global das sociedades humanas, mediante a

40 41
definição de suas etapas básicas e dos processos de transição teórica de cada formação sócio-cultural como uma constelação
de uma a outra dessas etapas. particular de certos conteúdos do seu modo de adaptação à
Para isto conduzimos nossa análise dentro de diversos ní- natureza, de ·,certos atributos de sua organização social e de
veis de abstração, através do emprego dos conceitos de proces- certas qualidades de sua visão do mundo.
so civilizatório geral com um significado próximo àquele em Estas três ordens de fenômenos correspondem, por seus
que A. Weber (1960) fala de "processo civilizador"; de proces- graus de organização interna, a três sistemas. O sistema adap-
sos civilizatórios singulares com a significação que P. Sorokin tativo compreende o conjunto integrado de modos culturais de
(1937/1941) deu à expressão "supersistemas culturais"; de nção sobre a natureza, necessários à produção e à reprodução
revoluções tecnológicas num sentido mais restrito do que o tias condições materiais de existência de uma sociedade.
atribuído ao conceito de "revoluções culturais" por Gordon sistema associativo compreende, fundamentalmente, os modos
Childe (1937; 1951) e Leslie White (1959); de formações sócio- estandardizados de regulamentação das relações entre as pes-
culturais com o significado que K. Marx (1956; 1966; Marx e soas para o efeito de atuarem conjugadamente no esforço
Engels 1958) deu à expressão formações econômico-sociais; de produtivo e na reprodução biológica do grupo. Como decor-
modelos e tipos estruturais no sentido weberiano (1964); e, rência do desenvolvimento das formas de conduta adaptativa
ainda, de configurações histórico-culturais, com um significado o associativa surgem, em certas etapas da evolução sócio-cul-
próJ9,mo ao de J. Steward para "tipos culturais" (1955a). Em- tural, tendências à institucionalização de outras esferas de vida
pregamos, também, os conceitos de progresso e regressão (Gor- social, além ,da família e das formas elementares de divisão
don Childe 1960), de estagnação, de atualização histórica e de elo trabalho. Entre outras destacam-se a forma da propriedade,
aceleração evolutiva com sentidos particulares que serão pre- a estratificação da sociedade em camadas diferenciadas por
cisamente definidos. Nos termos da conceituação proposta ti- sou papel no processo produtivo e a ordenação do convívio
vemos também de redefinir as noções de civilização, cultura Hocial através de instituições reguladoras de caráter político,
,, autêntica e cultura espúria (Sapir 1924), de autonomia cultural, roligioso, educacional, etc. A terceira ordem de elementos que
i: defasagem cultural (Ogburn 1926), de traumatização, restaura- compõe uma formação sócio-cultural corresponde ao seu sis-
ção e cristalização cultural (Foster 1964), bem como os concei- tema ideológico. Compreende, além das técnicas produtivas e
tos de aculturação e deculturação (Barnett e outros 1954), de <lns normas sociais em seu caráter de saber abstrato, todas as
etnia., macro-etnia, etnia. nacional (F. Znaniecki 1944; G. Welt- formas de comunicação simbólica como a linguagem, as formu-
fish 1960) e, ainda, os conceitos sociológicos de assimilação, llLf;ões explícitas de conhecimentos com respeito à natureza e
de desenvolvimento e de modernização (Eisenstadt 1963). h sociedade, os corpos de crenças e as ordens de valores, bem
Concebemos a evolução sócio-cultural como o movimento como as explanações ideológicas, em cujos termos os povos
histórico de mudança dos modos de ser e de viver dos grupos uxplicam e justificam seu modo de vida e de conduta.
humanos, desencadeado pelo impacto de sucessivas revoluções Numa sociedade considerada historicamente em certo local
tecnológicas (agrícola, industrial, etc.) sobre sociedades con- n cm certo tempo, esses três sistemas, em seu caráter de cor-
cretas, tendentes a conduzi-las à transição de uma etapa evo- poR simbólicos de pautas socialmente transmitidas de geração
lutiva a outra, ou de uma a outra formação sócio-cultural. n geração, formam sua cultura. Um conjunto particular de so-
Empregamos esta última expressão para designar as etapas olodades suficientemente homogêneas pode ter essas três esfe-
evolutivas enquanto padrões gerais de enquadramento sócio- rns de conduta descritas genericamente em termos de um mo-
cultural dentro dos quais se desenvolve a vida dos povos. Ou, dolo estrutural como, por exemplo, o modo de ser dos povos
em outras palavras, como modelos conceituais de vida social, lnclfgenas agricultores da floresta tropical da América Latina.
fundados na combinação de uma tecnologia produtiva de certo O conceito de formação sócio-cultural deve ser operado em
grau de desenvolvimento, com um modo genérico de ordena- nlvcl de abstração ainda mais alto porque engloba numa só
1 ção das relações humanas e com um horizonte ideológico, den- untogoria, por exemplo, todos os povos tribais que vivem da
tro do qual se processa o esforço de interpretação das próprias caça. e da coleta, ou todas as sociedades classificáveis dentro
experiências com um nível maior ou menor de lucidez e de do sistema mundial capitalista mercantil, seja como seus cen-
racionalidade. tros metropolitanos, seja como suas áreas coloniais.
Procuramos emprestar maior congruência e instrumentali- Por esta razão, o grau de especificidade dos sistemas adap-
dade ao conceito de etapas evolutivas, mediante a construção '-tivo, associativo ou ideológico correspondente a uma formação

42 43
sócio-cultural deve ser, necessariamente, muito genérico, mas dupla característica basta considerar que, embora se escalo-
não tanto que torne o esquema inservível para efeitos classi- nem temporalmente como etapas da evolução sócio-cultural,
ficatórios. A grande dificuldade que se apresenta para a constru- sua seqüência não é histórico-temporal, porque em cada mo-
ção teórica dos paradigmas de formação sócio-cultural cànsiste, mento coexistem sociedades classificáveis nas etapas mais dís-
por isso, na seleção dos. aspectos distintivos dessas formações pares: por exemplo, os povos tribais e as estruturas industriais
que, por seu caráter crucial e por sua capacidade de influen- imperialistas, contemporâneas mas não coetâneas dentro do
ciação sobre as demais, devam ser incluídos entre suas qualifi- mundo moderno.
cações
1
mínimas. O âmbito de variação dos patrimônios cultu- Esta caractP.rística geral das etapas evolutivas, que levou
rais, embora não impossibilite a definição desses traços distin- Julian Huxley (1952 e 1955) a defini-las como "homotaxiais não
tivos, obriga-nos a utilizá-los apenas em seu sentido diagnós- Hincrõnicas", a focalizar problemas especiais decor-
tico, ou seja, com o objetivo de situar sociedades concretas rentes da coexistência e da interação de sociedades classificá-
em certas formações de escala evolutiva, sem esperar que todos veis em diferentes etapas de desenvolvimento. As relações
os traços estejam presentes em cada sociedade. entre estas formações defasadas conduz, freqüentemente, a si-
A solução ideal para este problema seria a determinação tuações ambíguas em que uma sociedade apresenta, ao mesmo
de um tipo de traços diagnósticos homogêneos referentes aos tempo, traços· correspondentes a "momentos" evolutivos muito
sistemas adaptativo, associativo e ideológico que atravessassem distanciados. Este é o caso, por exemplo, dos índios Xavante
todas as formações, apresentando em cada uma delas certas recém-pacificados, que utilizavam instrumentos de metal; ou da
alterações significativas. Entretanto, esta construção ideal está Implantação de indústrias modernas em áreas de populações
muito distante do possível, em virtude do âmbito de dispersão "trasádas na história. Estas duas situações, longe de invalidar
das variações de conteúdo de cada cultura. Nestas circunstân- os esquemas evolutivos, antes comprovam sua imperatividade.
cias, cada etapa ou formação terá que ser caracterizada pelos Mas compelem-nos a considerar, em toda a sua complexidade,
elementos que nela possam estar presentes, sem exigir que tunto os processos autônomos de desenvolvimento, como os
os mesmos traços devam compor, com conteúdos distintos, as roflexos, decorrentes da difusão e da aculturação, e as conse-
etapas anteriores ou posteriores. Nem mesmo nas designações c1Uências de uns e outros sobre os povos que os experimentam.
descritivas de cada formação sócio-cultural podemos ·alcançar O segundo atributo da formação sócio-cultural é seu cará-
a homogeneidade desejável, pela contingência de nelas combi- tor mais de movimento direcional-temporal do que de etapa
nar termos baseados em diferentes critérios, a fim de torná-las do um continuum, o que toma muitas vezes imperativo dividi-
mais expressivas e permitir relacioná-las com as designações lii em passos de manifestação incipiente (formativo), quando
11.11111
111'
11'
da bibliografia clássica sobre a matéria. Assim é que apelamos mnerge ainda indiferenciada da formação anterior, e de ama-
l...' 11 para elementos referentes a atividades produtivas (caça e co- durecimento (florescimento), quando se intensifica a expressão
l 111·
leta, pastoril, agrícola, rural-artesanal, regadio, industrial); a dns características diagnósticas da nova formação. Entre duas
elementos concernentes à estratificação social e às relações de e1tnpas sucessivas, o período florescente de uma e o formativo
1.111'1.'
do outra, ambas se confundem em muitos casos concretos.
iTI trabalho e propriedade (indiferenciada - em oposição à estra- IJ é inevitável que assim seja, porque, nos casos de progressões
tificada - coletivista, privatista, escravista, mercantil, capita- 1volutivas continuadas, o florescimento é o conduto à nova
lista, socialista); e ainda a termos descritivos de unidades po- etapa; e no casos de progressões interrompidas é o clímax
líticas (tribal, horda, aldeia, chefia, estado, império, colônia); 1 partir do qual começa a decadênêia. Só dentro deste âmbito
e, finalmente, a qualificativos do perfil ideológico e de atribu- dl variação se pode situar, na tipologia proposta, algumas
tos especiais de certas formações (teocrático, salvacionista, 1ooiedades concretas que se encontram· em situações de trau-
despótico, revolucionário, evolutivo, modernizador). matização cultural ou em estágios de transição entre duas ou
A construção teórica das formações sócio-culturais apre- mala formações, nas quais se registram qualidades de todas
senta ãuas dificuldades adicionais, dada a sua natureza de cate- llu, umas como sobrevivências de formas arcaicas, outras
gorias abstratas de análise. A primeira delas decorre da neces- oomo emergências de qualidades novas ainda não configuradas
sidade de conciliar seu caráter de etapa do continuum evolu- oomo seus traços dominantes.
tivo das sociedades humanas e, portanto, de uma categoria Só em condições excepcionais as sociedades têm oportuni-
temporal, com seu caráter assincrõnico. Para perceber esta de experimentar processos evolutivos contínuos puramen-
1 !

44 45
1
1
te ascendentes que as conduzam a viver sucessivamente diver- Revoluções Tecnológicas e Processos Civilizatórios
sas. etapas da evolução. Via de regra, são interrompidos por
várias causas conducentes à estagnação e à regressão cultural Empregamos o conceito de revolução tecnológica para in-
ou a desenvolvimentos cíclicos· de ascensão e decadência. Pare- dicar que a certas transformações prodigiosas no equipamento
ce mesmo haver certa correlação entre maturidade e tendência de ação humana sobre a natureza, ou de ação bélica, corres-
à regressão, explicável, em certos casos, pela coincidência da pondem alterações qualitativas em todo o modo de ser das
maturidade com a saturação da exploração das potencialidades sociedades que nos obrigam a tratá-las como categorias novas
criativas de uma tecnologia; em outros, pela tendência ao ex- dentro do continuum da evolução sócio-cultural. Dentro desta
pansionismo que se desenvolve com a maturação. Este último, concepção, supomos que ao desencadeamento de cada revolu-
conduzindo à criação de relações de dominação fortemente ção tecnológica,· ou à propagação de seus efeitos sobre. con-.
tensas por sua própria natureza opressora, pode provocar a textos sócio-culturais distintos, através dos processos civiliza-
ruptura da constelação sócio-cultural, pela reversão do contex- tórios, tende a corresponder à emergência de novas formações
to de povos dominados sobre o centrô dominador. Esta tendên- sócio-culturais. •
cia é que explica o .desenvolvimento do militarismo e do colo- A maioria dos estudiosos concorda com a classificação de
nialismo como categorias gerais, presentes em certa etapa do Gordon Childe, que distingue três "revoluções culturais" a par-
desenvolvimento de todas as formações avançadas, e, por este tir de uma pré-revolução que se confunde com o próprio pro-
caráter universal, não utilizáveis como traços diagnósticos ge- cesso de humanização que fez o homem transcender da escala
rais .na definição de etapas evolutivas particulares; mas, por v.oológica para situar-se no plano da conduta cultural (Hockett
esse mesmo caráter universal, decisivamente importante no o Ascher 1964; Washbúm e Howell 1960). Tais são a Revolução
estudo geral de um dos motores básicos da evolução que é a Agrícola que, introduzindo o cultivo de plantas e a domestica-
compulsão social aculturativa, principal responsável pela cria- uAo de animais no sistema produtivo, transfigura a condição
ção e transformação das unidades étnicas. humana, fazendo-a saltar da situação de apropriadora do que
As sociedades concretas, como formas vivas nas quais se a natureza provê espontaneamente à posição de organizadora
estão continuamente processando alterações - decorrentes tan- utlva da produção; a Revolução Urbana, fundada em novos
to da interação de seus componentes quanto da influência de progressos produtivos como a agricultura ·de regadio, a meta-
outras sociedades - apresentam descompassos e defasagens lurgia e a escrita, que conduziu à dicotomização jntema das
mais ou menos profundos. Diferem, por isso, das formações 1ociedades numa condição rural e numa condição urbana e à
construídas conceitualmente, porque estas são meros paradig- aua estratificação em classes sociais, além de outras profundas
mas expressivos de um estado ideal de maturidade e de equi- \ mudanças na vida social e no patrimônio cultural das socie·
líbrio, dificilmente encontrável na vida real. As situações co- dades que atingiu; e a Revolução Industrial, que emergiu na
mumente classificadas como de "dualidade estrutural" são ex- Europa Ocidental com a descoberta e a generalização de con·
pressões de um tipo similar de descompasso, explicável pela versares de energia inanimada para mover dispositivos mecâ-
nicos, responsável também por novas alterações fundamentais
diferença de ritmos de transformação dos vários conteúdos na estratificação social, na organização política e na visão do
de uma cultura, sujeitos aos mesmos agentes de mudança.
mundo de todos os povos.
Tudo isto significa que a classificação das sociedades con- No esforço por correlacionar as revoluções tecnológicas
cretas dentro dos esquemas evoltttivos deve ser feita depois oom as formações sócio-culturais, fomos levados a identificar
de despojá-las conceitualmente do que têm de peculiar, para maior número delas e a desdobrar algumas em distintos pro-
atentar somente no modo como nelas se conformam as qua- oessos civilizatórios. Assim é que, em nosso esquema, à Revo-
lidades diagnósticas atribuídas a cada modelo de formação. lução Urbana fazemos suceder uma Revolução do . Regadio,
E, também, focalizando-as em largos períodos, que tornem que proporcionou as bases tecnológicas para a configuração
perceptível o sentido das alterações que estão experimentando. das primeiras civilizações regionais, através de inovações pro-
dt1losas na construção de grandes canais de irrigação e de
novos barcos para a navegação; de sistemas de estradas, de
tdlficações ciclópicas - pirâmides, templos, palácios - de
oldades urbanizadas, além das escrituras ideográficas, de sis·
46 47
temas unifonnes de pesos e medidas e de desenvolvimentos
científicos, sobretudo no campo da matemática e da astrono-
mia. Vem, depois, a Revolução Metalúrgica - correspondente
aproximadamente à Idade do Ferro dos arqueólogos - no
curso da qual se aprimoraram e difundiram a tecnologia do
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ferro forjado, a manufatura de ferramentas, a moeda cunhada, o
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e se inventaram o alfabeto e a notação decimal. Segue-se a oa: rn
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Revolução Pastoril com ·a aplicação criadora de algumas destas a:
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inovações aos problemas da utilização de animais para tração
e para a cavalaria de guerra, bem como o aperfeiçoamento do
emprego da energia hidráulica e eólica para fins produtivos.
A Revolução lndustrial acreditamos que deva anteceder uma
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Revolução Mercantil, assentada na tecnologia da navegação
oceânica e das armas de fogo e responsável pela ruptura com ....ã:
o feudalismo europeu. E se deve açrescentar uma Revolução
Termonuclear, que parece desencadear-se em nossos dias com
a eletrônica, a energia atômica, a automação, os raios laser, ..
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etc., cujas potencialidades de. transformação da vida humana .2 õ
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serão provavelmente tão radicais quanto as das revoluções tec- e. :;;
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nológicas anteriores. Consignamos, portanto, oito revoluções
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tecnológicas, caracterizáveis pelo vulto das inovações que in- :::> (3.
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sistema adaptativo, associativo e ideológico dos povos que as
experimentaram, direta ou reflexamente.
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conseqüências, mas sua propagação sobre diversos contextos
sócio-culturais e sua aplicação a diferentes setores produtivos.
Neste sentido, a cada revolução tecnológica podem correspon-
der um ou mais processos civilizatórios através dos quais ela
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A Revolução Agrícola, como motor do primeiro processo c3
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caçadores e coletores nômades e dá lugar a uma nova forma- o<(
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ção sócio-cultural - as Aldeias Agrícolas Indiferenciadas. Con- o
duzida, depois, por um segundo processo civilizatório - cor-
respondente à domesticação dos animais e à especialização
funcional de alguns grupos humanos nesta atividade produtiva o_. o
- dá nascimento a uma nova formação, as Hordas Pastoris :;;- :;;
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QUADRO II dade privada e da escravização da força de trabalho em alguns
Estado& Rurais Artesanais, opondo-os como formação àqueles
SEQül!:NCIAS BÁSICAS DA EVOLUÇÃO SôCIO-CULTURAL que Institucionalizam a propriedade estatal da terra e estabe-
EM TERMOS DE REVOLUÇÕES TECNOLóGICAS, lecem uma estratificação social baseada antes na função do
DE PROCESSOS CIVILIZATÓRIOS E DE que na exploração econômica, o que desdobra os Estados Ru-
FORMAÇõES SôCIO-CULTURAIS rais Artesanais em dois modelos diferenciados: o Coletivista
e o Privatista. A propagação de alguns desenvolvimentos tecno-
Revoluções Processos Formações
lógicos, como a utilização do cobre e sua aplicação às ativi-
Tecnológicas ctmllzatórioa Gerais Sócio-Culturais dades pastoris, corresponde ao quinto processo civilizatório
com o qual surgem as Chefias Pastoris Nômades.
I Revolução l 9 Revolução Agr:lcola Aldeias Agr:lcolas Tupinambá (Séc. XVI)
Agr:lcola Indiferenciadas Guaná (Séc. XVIII) O amadurecimento da mesma tecnologia básica da Revolu-
29 Expansão Pastoril Hordas Pastoris K!rguiz (Séc. XX) ção Urbana, principalmente a das grandes obras de irrigação,
Nõmiid.es Guallwru (Séc. XVIII)
II Revolução 39 Revolução Urbana Estados Rurais .Arte-
Urartu (Séc. X aC)
provoca o desencadeamento da Revolução do Regadio e, com
Urbana sanais Coletivistas
Mochlca (Séc. II) ela, o sexto processo civilizatório, que dará lugar ao apareci-
49 Expansão Estados Rurais .Arte-
Escravista
Fenícios (Séc. XX aC)
sanais Privatlstas
Kushan (Séc. V aC)
mento das primeiras civilizações regionais como uma nova for-
5• Segunda Expansão Chefias Pastoris Hiksos (Séc. XIII aC) mação sóci<Hmltural: os Impérios Teocráticos de Regadio.
Pastoril Nômades Hunos (Séc. IV)
III Revolução 6• Revolução do Impérios Teocráticos
Egito (Séc. XXI aC) O sétimo processo civilizatório corresponde já à Revolução
do Regadio Regadio de Regadio Incas (Séc. XV) Metalúrgica, assentada na generalização de algumas inovações
IV Revolução 7• Revolução Impérios MercantisGrécia (Séc. V aC)
Metalúrgica Metalúrgica Escravistas Roma (Séc. II) tecnológicas como a metalurgia do ferro forjado, que permite
V Revolução 8• Revolução Islão (Séc. VII)
Impérios Despóticos o desenvolvimento de uma agricultura mais produtiva nas áreas
Pastoril Pastoril Salvaclonistas OtoDlllDO (Séc. XV>
VI Revol,pção 9• Revolução Impérios Mercantis Ibéria (Séc. XVI) Oorestais, a fabricação de uma multiplicidade de ferramentas
Mercantil Mercantil Salvacionistas Rússia (Séc. XVI) de trabalho e, com elas, o aprimoramento dos veleiros. A estes
Colonialismo Brasil (Séc. XVII)
Escravista Cuba (Séc. XVIII) elementos se acrescentam a cunhagem de moedas, que viabi-
1()9 Expansão Capitalismo Mercantil Holanda (Séc. XVII) Uzaram o comércio externo, o alfabeto fonético e a notação
Capitalista 1ngiaterra (Séc.. XVII) decimal. Com esta base tecnológica amadurece uma noV'a for-
Colonialismo Indonésia (Séc. XIX)
Mercantil Guianas (Séc. XX) mação, configurando os Impérios Mercantis Escravistas.
Colonialismo de USA (Séc. XVIII)
1
Povoamento Austrália (Séc. XIX) O oitavo processo civilizatório é acionado pela Revolução
![I'' VII Revolução 119 Revolução Imperialismo Inglaterra (Séc. XIX) Paatonl, fundado na aplicação de elementos da mesma tecno-
Industrial Industrial Industrial USA (Séc. XX)
li1!ll! Neocolonialismo Brasil (Séc. XX) loKta básica, sobretudo o ferro fundido, aos problemas de pro-
1'11111
129 Expansão Socialismo Venemela (Séc. XX) duQllo e de guerra das Chefias Pastoris Nômades, permitindo
Socialista Revolucionário URSS (1917)
Socialismo China (1949) a pnerallzação do uso de selas e estribos, de ferraduras, de
, I'
',,
1:111'11·;·' Evolutivo Suécia (1950) •Padas e do arnez rígido que multiplicam a eficiência dos
111 Nacionalismo
Inglaterra ,. (1985)
Egito (1953) animais de montaria e tração. Com base nesta tecnologia de-
Modemimdor Argélia (1962) ancadeia-se um movimento de expansionismo messiânico da-
VIII Revolução 139 Revolução Sociedades Futuras queles povos que atacam áreas feudalizadas de antigas civiliza-
Termonuclear Termonuclear
pa e as cristalizam como Impérios Despóticos Salvacionistas.
O nono processo civilizatório corresponde já à Revolução
A Revolução Urbana desdobra-se em quatro processos ci- ll1roantil, com a qual se expandem as primeiras civilizações
vilizatórios. O terceiro, correspondente ao surgimento das cida- mundiais na forma de Impérios Mercantis Salvacionistas e
des e dos estados, à estratificação das sociedades em classes IUU áreas de dominação conformadas principalmente como
sociais, aos primeiros passos da · agricultura ·de regadio, da Oolontzações Escravistas. O décimo processo civilizatório é um
metalurgia do cobre e do bronze, da escritura ideográfica, da dlldobramento desta mesma revolução tecnológica responsável
numeração e do calendário, enseja a cristalização de uma nova lida configuração das primeiras formações Capitalistas M ercan-
formação, os Estados· Rurais Artesanais. Nessa etapa amadu- 11 e de seu contexto de Colônias Escravistas Mercantis e de
rece o quarto processo civilizatório, com a adoção da proprie- 1"oamento.
50 51
A Revolução Industrial dá lugar à estruturação dos Impe- ., oxpansão do regadio na Mesa-América, que constituiu um pro-
rialismos Industriais e do Neocolonialismo como undécimo pro- <JOsso civilizatório singular, responsável pelo amadurecimento
cesso civilizatório e, como décimo-segundo, ao surgimento das nu de diversas civilizações fundadas na irrigação. Processos
primeiras formações sócio-culturais implantadas mediante a in- oquivalentes produziram os mesmos efeitos no Egito, na fndia,
tervenção racional na ordem social: as Socialistas Revolucioná- utc.
rias, Socialistas Evolutivas e Nacionalistas Modernizadoras. No corpo desta concepção ganham novo sentido os con-
A emergência de uma -nova revolução tecnológica, a Termo- cnttos de Etnia e Civilização. As civilizações são cristalizações
nuclear, com suas imensas potencialidades de transformação elo processos civilizatórios singulares que nelas se realizam co-
da vida material de todos os povos da Terra que ela já encontra mo um complexo sócio-cultural historicamente individualizável.
unificados num mesmo sistema de interação, deverá agir como <:uda civilização, ao expandir-se - a partir de centros metro-
um acelerador da evolução dos povos atrasados na história e tmlltanos - difunde-se sobre uma área, organizando-a como
como o configurador de novas formações sócio-culturais ·que 11mu território de dominação político-econômica e de influencia-
designamos como Sociedades Futuras, em que, supomos, de- cllo cultural (civilização egípcia, asteca, helênica, etc.). As etnias
vem ser superados tanto a estratificação classista quanto o 111lo unidades operativas do processo civilizatório, cada uma
apelo à guerra nas relações entre as nações. correspondente a uma coletividade humana, exclusiva em re-
Com base na conceituação exposta, será pos8ível falar tanto lnção às demais, unificada pelo convívio de seus membros
de um processo civilizatório global, que se confunde com a nt.mvés de gerações e pela co-participação de todos eles na
própria evolução sócio-cultural, como a visão de conjunto dos mosma comunidade de língua e de cultura (Etnia Tupinambá,
dez últimos milênios da história humana, quanto de processos Ourmânica, Brasileira, etc.). Falaremos de Etnia Nacional quan-
civilizatórios gerais e singulares, ocorridos dentro do global e c1o estas entidades se constituem em estados organizados poli-
que, contribuindo para conformá-lo, modelaram diversas civi- t.lmmente para dominar um território; e de Macro-Etnias,
lizações. A visão global é-nos oferecida pela perspectiva tomada q1111.ndo tais estados entram em expansão sobre populações
desde agora sobre o passado. Ela permite apreciar como diver- 11111lttétnicas com a tendência a absorvê-las mediante a trans-
sas tradições culturais particulares, desenvolvidas por diferen- fll(uração cultural. Uma horda caçadora, composta de grupos
tes povos em épocas e lugares distintos, se concatenaram umas f1unil1ais que se movem sobre um território, ou uma minoria
com as outras, interfecundando-se ou destruindo-se reciproca- nnclonal unificada pela língua e pela tradição e aspirante à
mas conduzindo sempre adiante uma grande tradição autonomia, são etnias. Ou, ainda, uma coletividade que cultiva
cultural e contribuindo, assim, para conformar a civilização onrtas tradições comuns integradoras, cujos membros se unifi-
humana comum que começa a plasmar-se no mundo de nossos aam pelo desenvolvimento de lealdades grupais exclusivistas,
dias. \ oomo os ciganos ou os judeus. Um povo estruturado em nacio-
Os processos civilizatórios gerais correspondem . às seqüên- nRlldnde, com seu território e governo próprio, é uma etnia
cias evolutivas genéricas, em que vemos difundirem-se os efei- ftMlonal. Um complexo multiétnico unificado por uma domi-
tos de um surto de inovações culturais como um movimento naQft.o imperial que se exerça sobre seus povos, com propensão
de dinamização da vida de diversos povos, em conseqüência a transfigurá-los culturalmente e a fundi-los em uma entidade
do desencadeamento de uma revolução tecnológica. Cada um mais inclusiva, é uma macro-etnia (Macro-etnia Romana, Incai-
deles, ao propagar-se, mescla racialmente e uniformiza cultu- 01, Colonial-Hispânica, etc.).
ralmente diversos povos, incorporando-os a todns em novas A evolução sócio-cultural, concebida como uma sucessão
formações sócio-culturais, como núcleos cêntricos e como áreas Cio processos civilizatórios gerais, tem um caráter progressivo
dependentes. É o caso, por exemplo, da expansão da grande QUO se evidencia no movimento que conduziu o homem da
agricultura de regadio que, em regiões distintas e em épocas OOndlção tribal às macro-sociedades nacionais modernas. Os
também muito diferentes, ativou a vida de diversos povos, re- proonssos civilizatórios gerais que a compõem são também
modelando suas sociedades e suas culturas dentro das mesmas tnovtmentos evolutivos através dos quais se configuram novas
linhas gerais. · formações sócio-culturais. Os processos civilizatórios singulares
Conceitúamos os processos civilizatórios especificas como . llo, ao contrário, movimentos históricos concretos de expan-
as seqüências históricas concretas em que se desdobraram os . · , que vitalizam amplas áreas, cristalizando-se em diversas
.Processos civilizatórios gerais. Um exemplo é-nos dado pela · Uzações, cada uma das quais vive sua existência histórica,

52 53
alcançando clímax de auto-expressão, para depois mergulhar nológicas sobre as sociedades, estruturando-as em.
em longos períodos de atraso. As civilizações sucedem-se, desta formações sócio-culturais. No estudo dos _
forma, alternando-se com períodos de regressão a "idades obs- ospecíficos visualizam-se as expansões de tradiçoes culturais
curas", mas sempre reconstruindo-se nas mesmas bases, até Hlngulares associadas a movimentos econômicos e políticos de
que um novo processo civilizatório geral se desencadeie, confi- dominação que se cristalizam em civilizações individualizadas,
gurando processos civilizatórios específicos com os quais emer- 11m núcleos centralizados por redes metropolitanas. Estes úl-

gem novas civilizações. timos atuando através da subjugação, da deculturação e da


No âmbito desses processos civilizatórios singulares ga- cultural de etnias dominadas, assimilam-nas como
nham clareza os estudos dos problemas de dinâmica cultural parcelas indiferenciadas de macro-etnias ou. as
1.1 vam para amadurecerem como entidades etmcas aspirantes a
decorrentes da difusão ou da aculturação. O primeiro conceito
não exige definição especial, porque será sempre empregado nutonomia e à expansão.
no sentido geral de transferência de traços culturais de qual-
quer tipo, de forma direta ou indireta, sem importar no esta- Atualização Histórica e Aceleração Evolutiva
belecimento de relações de subordinação entre a entidade doa-
dora e a receptora. O conceito de aculturação, porém, tera A problemática do desenvolvimento, posta
que ser redefinido de modo a não se restringir exclusivamente 1111 largo alcance histórico, se ilumina, tornando mais evidente
aos efeitos da conjunção de entidades culturais autônomas. o caráter transitório das instituições, mais inteligíveis a natu-
Esta conceituação, que é a corrente na literatura antropoló- rt•ia e o papel dos conglomerados de interesses
gica, só abrange as relações intertribáis porque neste caso de ordenações sociais e mais facilmente perceptivel o cara-
as culturas são efetivamente autônomas e oferecem concreta- t.o r progressivo ou regressivo das tensões que se processam
mente seus patrimônios umas às outras em condições que tor- 1tontro das sociedades em transição. A luz da perspectiva dos
nem possível a livre seleção e a adoção completa de traços 111osmos processos civilizatórios podem-se superar as limitações
culturais alheios, sem o estabelecimento de vínculos de depen- J11orentes ao tratamento dos problemas de dinâmica social no
dência (Herskovits 1938; Redfield e outros 1936; R. Beals 1953; c1uudro das teorias de alcance médio (R. Merton 1957) e das
Bamett e outros 1954). Em lugar desta acepção restritiva usa- i>osições funcionalistas, ambas predispostas a explicaz: os pro-
remos o conceito de aculturação para indicar também os mo- hlomas sócio-culturais pela interação dos seus conteudos pre-
vimentos de confluência de altas tradições culturais e a expan- •ontes como se as sociedades não tivessem história, ou à base
1 1
são delas sobre complexos culturais mais atrasados como o do de que todos esses têm iguais P?-
1
principal processo de formação e transfiguração de etnias. t.ancialidades determinativas. Pode-se, tambem, superar d01s
i l.ili!ll
1 1 ''''
1
É o que ocorre com a expansão de uma civilização de mais tipos de concepção aa dinâmica social. Primeiro, o que consi-
111111:,:
1111111 alto nível tecnológico sobre contextos de povos atrasados na dtira os povos dependentes como sobrevivências de etapas
llilll1,,1, história, os quais são subjugados e engajados nos sistemas de t4ritas da evolução humana. Segundo, o que confere às socie-
,,,,,1,1··
'1l1 ,, dominação e de influenciação da sociedade civilizadora como dades mais desenvolvidas a qualidade de términos do processo
! 1 '!!'
dela dependentes, passiveis de assimilação ou de re- tvoluti:vo, figurando-as como o modelo ideal de ordenação sócio-
constituição posterior como novas entidades étnicas. Nessas oultural para onde marchariam todos os povos (D. Lemer
sociedades traumatizadas, as compreensões comuns que regem a w. w. Rostow 1961 e 1964; A. Gerschenkron 1962; S. N. E1-
vida social configuram-se como uma cultura espúria. Só através Hn1tadt 1963).
de longos períodos tais culturas podem refazer-se pela combi- Dentro desta gama de problemas, alguns conceitos espe-
nação de traços sobreviventes do seu antigo patrimônio com olals deverão ser definidos, como os de atualização e de acez:-
elementos tomados do complexo cultural em expansão, amadu- f'O(lllo histórica, por um lado, e, por outro, o de estagnaçao
recendo para aspirar à retomada da autonomia na condução oultural, de atraso ou regressão histórica.
de seu destino. Por aceleração evolutiva, designamos os processos de de-
No estudo dos processos civilizatórios gerais visualizam-se, llftvolvimento de sociedades que renovam autonomamente seu
principalmente, as alterações nos sistemas adaptativo, associa- l&lttma produtivo e reformam suas instituições no
tivo e ideológico decorrentes do impacto das revoluções tec- t&do da · transição de um a outro modelo de formaçao sócio-

54 55
cultural, como povos que existem para si mesmos. Por atraso sociedades que experimentam· uma revolução tecnológica com
histórico, entendemos o estado de sociedades cujo sistema base em sua própria criatividade, ou na adoção completa e
adaptativo se funda numa tecnologia de mais baixo grau de autárquica de inovações tecnológicas alcançadas por outras so-
eficácia produtiva do que o alcançado por sociedades contem- ciedades; ou, ainda, com base em ambas as fontes. Identifica-
porâneas. Por atualização ou incorporação histórica, designa- mos, também, como situações de aceleração evolutiva, os pro-
mos os procedimentos pelos quais esses povos atrasados na cessos de reconstituição étnica através dos quais sociedades,
história são engajados compulsoriamente em sistemas mais evo- nntes avassaladas por processos de atualização, reconstroem seu
luídos tecnologicamente, com perda de sua autonomia ou mes- próprio ethos para conquistar sua independência política e re-
mo com a sua destruição como entidade étnica. Este foi o tomar a autonomia perdida. Isso foi o que ocorreu em alguns
caso, por exemplo, da incorporação de povos autóctones sub- movimentos de emancipação dos povos coloniais, como o da
jugados pelo conquistador e de populações africanas transla- América do Norte. Classificam-se na mesma categoria as revo-
dadas como mão-de-obra das minas e das plantações tropicais, luções sociais em que uma vanguarda política, agindo em nome
nas formações coloniais escravistas da América. O conceito de dos interesses das camadas subalternas, induz, revolucionaria-
atualização retrata, por isso mesmo, tanto situações de caráter mente, uma reordenação da sociedade segundo os interesses
regressivo - do ponto de vista das entidades étnicas avassaladas, destas camadas e de modo a afastar óbices estruturais à ado-
traumatizadas ou destruídas - como conteúdos progressistas, cllo e generalização de uma tecnologia produtiva mais eficaz.
enquanto um procedimento de incorporação de povos atrasados Jr.stão no mesmo caso, ainda, se bem que em menor grau, os
a sistemas sócio-econômicos mais avançados. A característica nH!orços intencionais de indução do progresso sócio-econômico
fundamental do processo de atualização histórica está no seu ntravés da ação de lideranças renovadoras ou de programas
sentido de modernização reflexa com perda de autonomia e Kovemamentais de desenvolvimento planejado, sempre que se
com risco de desintegração étnica. orientam para a acentuação da autonomia econômica e política.
No corpo desses processos de incorporação ou atualização Dentro desta concepção, os povos desénvolvidos e subde-
histórica é que se devem situar os movimentos através dos 11m1volvidos do mundo moderno não se explicam como represen-
quais uma sociedade sofre os efeitos indiretos de alterações tnções de etapas distintas e defasadas da evolução humana.
havidas no sistema adaptativo de outras sociedades. Em muitos JCxplicam-se, isto sim, como componentes interativos e mutua-
casos, esses efeitos produzem profundas transformações pro- mente complementares de amplos sistemas de dominação ten-
gressistas em seu modo de vida, mas conduzem fatalmente ao dnntes a perpetuar suas posições relativas e suas relações sim-
estabelecimento de relações de dependência entre a sociedade blótlcas como pólos do atraso e do progresso de uma mesma
reitora e a sociedade perüérica, sujeita à ação reflexa. Tal ocor- otv1llzação. No mundo contemporâneo, são desenvolvidas as so-
re, por exemplo, com a düusão dos pràdutos da revolução ciedades que se integram autonomamente na civilização de base
industrial, como instalações de ferrovias ou de portos que industrial por aceleração evolutiva; e são subdesenvolvidas as
"modernizaram" enormes áreas em todo o mundo extra-europeu, que nela foram engajadas por incorporação histórica como "pro-
apenas para fazê-las mais eficazes como produtoras de certos lotariados externos", destinados a preencher as condições de
artigos, mas que, nada obstante, as tornaram importadoras de Ylda e de prosperidade dos povos desenvolvidos com os quais
bens industriais. Por esse processo é que as populações latino- l i relacionam.
americanas, com a Independência, desatrelaram-se da condição Resta-nos definir os conceitos de estagnação cultural e de
de áreas coloniais de uma formação mercantil-salvacionista para ,.gressão histórica. O primeiro indica a situação das sociedades
cair na condição de áreas neocolonialistas de formações impe- que, através de longos períodos, permanecem idênticas a si
rialistas industriais. meamas sem experimentar alterações assinaláveis no seu modo
O conceito de aceleração evolutiva será utilizado para indi- dl vida, enquanto outras sociedades progridem. J!: o caso, por
C} : os procedimentos diretos, intencionais ou não, de indução tnmplo, de tantas tribos pré-agrícolas, assim como de tribos
do prorresso com a preservação da autonomia da sociedade dl lavradores da floresta tropical latino-americana, que perma-
1ue o experimenta e, por isso mesmo, com a conservação de neceram no mesmo estágio cultural através de milênios, en-
ma figura étr..ir a e, por vezes, com a expansão desta como uma . .&nto outros povos do continente ascenderam ao nível de
mac'.."o-etnia assilr .J.ladora de outros povos. Tal é o caso das l&Yillzações urbanas. As situações de estagnação têm sido expli·

56 57
cadas, tanto pela presença de elementos . dissuasores do pro- As situações de regressão sócio-cultural são explicáveis por
gresso - as condições opressivas e desestrmulantes da _floresta vários fatores, como o resultado do impacto de uma sociedade
úmida, oµ o contrário, a dadivosidade da natureza tropical que de alto nível sobre povos mais atrasados em que estes conse-
não estimularia o esforço - como pela carência de fatores •:uem sobreviver pelo recuo, evitando, assim, sua descaracte-
dinâmicos - ausência de animais domesticáveis, sobretudo o rização étnica, mas compelidos a acoitar-se em áreas inóspitas
gado e, em virtude disso, ausência de povos pastores agressivos ou nas quais seu antigo sistema adaptativo não pode atuar
ou de contatos externos; em termos do peso esmagador do c:om eficácia. Isto foi o que. sucedeu a diversos povos ameri-
repto decorrente do meio ou da conjunção social_ !iveram canos ante o avanço europeu sobre seus territórios. Situações
de enfrentar e, ainda, em termos da superespeciahzaçao que, de regressão podem produzir-se, igualmente, como resultado
garantindo a algumas sociedades uma adaptação adequada ao do traumas internos que conduzam ao desencadeamento de
meio, as teria tornado incapazes de progresso. Insurreições das classes subalternas, ocasionando a destruição
Entre inúmeros exemplos possíveis deste último fator de <ln velha ordem social, sem a capacidade de implantar uma
estagnação pode-se citar a superespecialização de certos povos nova, mais progressista. Isto foi o que ocorreu, entre muitos
das regiões frígidas ou das estepes, que configuram modos de outros casos, com a sociedade egípcia, 2 200 anos antes de
adaptaÇão genéricos, e por isso mesmo so- nossa era, paralisando e fazendo regredir Mênfis, que jamais
ciedades muito diversificadas em suas demais caracteristicas, voltou a .florescer, e também com o Haiti, após a Indepen-
mas peculiares, porque só se desenvolvem onde . as 111\ncia, em que só uma reordenação global e intencional de
ecológicas se reproduzem nas mesmas os t ocln a vida social, que superava suas possibilidades, teria per-
mós polares e os Timbira do cerrado brasileiro exemphficam 111ltldo criar uma estrutura economicamente tão eficaz quanto
modelos gerais de adaptação ecológica que alcançaram
mos de especialização cultural criativa face do o colonialismo escravista, mas capacitada a atender às aspira-
CJlios de liberdade e de progresso da própria população. '
Fizeram-no, porém, trilhando antes desvios do
alternativos do desenvolvimento humano. A excelencia de al- Também conduzem a regressões os movimentos anti-histó-
gumas destas adaptações, que permitiram a criação, a repro- ricos desencadeados por classes dominantes que, sentindo-se
dução e o crescimento de comunidades humanas onde pari:; "11waçadas em sua hegemonia, submetem seus próprios povos
ciam inviáveis, não lhes tira o caráter de complexos margi- " t.ranfigurações intencionais de caráter involutivo. Isto foi o
nais, não multiplicáveis e condenados a tornarem-se, a certa llllO se deu com a caricatura espartana da cultura grega, re-
1,
altura da evolução cultural geral, atrasadas ou estagnadas. 1111111.unte de um projeto obsessivo de perpetuação do seu do-
Para comprovar este caráter basta considerar que, tanto nas mlnlo sobre um contexto escravista. E também com a Alemanha
111
'I·'"li.
11 l zonas árticas como nos cerrados, tornaram-se possíveis, com hltlerista e a Itália fascista, desfiguradas no esforço desespe-
11: !I base na tecnologia científica moderna, adaptações muito mais r1cto de frear movimentos socialistas emergentes ·e por se cons-
,l 111" 111
eficazes em termos da magnitude da população que podem Utulrem em novos núcleos de dominação imperialista. Todas
manter (C. D. Forde 1966; P. Gourou 1959; A. Toynbee 1951/64; 1111ns irrupções anti-históricas descambam em expansionismos
1.11.1111.1111.!

1 ·11111r1 M. Bates 1959). mtlltares de decadência e em regimes despóticos que, primeiro,


l'I
Ainda que se possam alcançar certas generalizações d11(radam as bases da vida social e cultural de seus povos e,
os fatores da estagnação - quando menos pelo uso com smal d1pois, os conduzem a guerras desastrosas.
inverso das indicações dos fatores de progresso - ela só se Outra causa de regressão cultural é a superutilização de
explica histórica e ecologicamente .. qu? . importa uma tecnologia eficiente, mas destruidora em seu nível de satu-
para o estudo geral do processo civihzatorio, e süficiente re- raQAo, como a agricultura de regadio. Exemplos desta forma
gistrar que estas sociedades de culturas estagnadas Ili regressão são-nos dados por tantas regiões que configura-
dem a povos que ainda estão à margem de alguns · ciclos. do
processo, mas serão fatalmente atingidas .por eles e,. afinal,
conscritas seja para se atualizarem historicamente, seJa para
-o,
ram, no passado, civilizações florescentes, fundadas na irriga-
mas que mergulharam na estagnação e, depois, na regres-
llo cultural. Isto foi o que sucedeu nos vales do Indo, do Nilo,
experimen'tar um processo de aceleração evolutiva, as llo Tigre e do Eufrates, do Hoangho e do Yangtsé, onde milhões
condições em que entrem em contato com povos mais avança- ü hectares de terras de cultivo foram perdidos por efeito da
dos que penetrem territórios. 90110, da alcalinização ou da salinização das terras e da pu-

58- 59
trefação das águas, provocadas por deficiências de drenagem, cialidades de um sistema produtivo ou de uma forma de orde-
através de longos períodos de cultivo por inundação (R. Revel- nação social, constituindo, por isso, recuos episódicos de povos
le, 1965). exauridos no esforço de auto-superação ou abatidos por outros
As regressões culturais têm tido, porém, como causa em ascensão. Os passos evolutivos representam, ao contrário,
principal o esgotamento das potencialidades de uma formação processos de renovação cultural que, uma vez alcançados e
sócio-cultural que, nos limites de sua aplicação, enrijece a es- difundidos, alargam a capacidade humana. de produzir e de
trutura social e acumula tamanhos conflitos de classes contra- utilizar energia, de criar formas de organização social crescen-
postas a ponto de tornar inviável a vida social ulterior sem temente inclusivas e de representar conceitualmente o mundo
o desenvolvimento de instituições despóticas de contingencia- com fidedignidade cada vez maior.
mento da força de trabalho e de repressão aos levantes das Como se vê, entendemos a evolução sócio-culturai como
camadas subalternas. Nesta forma de regressão representam uma série genética de etapas evolutivas expressas numa se-
papel especial os ataques de povos relativamente atrasados do qüência de formações sócio-culturais geradas pela atuação de
seu contexto, que conseguem vencer e subjugar sociedades mais "ucessivas revoluções culturais e respectivos processos civiliza,,.
avançadas, cuja rigidez estrutural ou cujas crises internas as tórios; mas, também, como um movimento dialético de pro-
tornaram vulneráveis. Este é o caso típico da mais importante irressões e de regressões culturais, de atualizações históricas e
das formas de regressão sócio-cultural que consiste no mergulho do acelerações evolutivas. Esta concepção tem, provavelmente,
de sociedades relativamente avançadas nas chamadas "idades " virtude de substituir a compreensão corrente de evolução
obscuras", empurradas pelos célebres VOlkerwanderung. . nomo A sucessão de etapas fixas e necessárias - seja unili-
Tal é a natureza do feudalismo, que não identificamos nonres, seja multilineares - por uma perspectiva mais ampla
como uma formação sócio-cultural, ou como uma etapa da • matizada que reconhece o progresso e o atraso como movi-
evolução humana, mas como uma regressão provocada pela montos necessários da dialética da evolução. Dentro desta con-
desintegração do sistema associativo, das instituições políticas unpção, cada revolução tecnológica, ao agir sobre um novo
centralizadoras e do sistema mercantil de uma antiga área in- oontexto, não repete, em relação às sociedades nele existentes,
tegrada numa civilização, fazendo-a recair numa economia de " história daquelas em que ocorreu originalmente, em virtude
mera subsistência. Ao produzir-se a regressão feudal, as cidades do quatro fatores de diferenciação. Primeiro, porque mais fre-
são destruídas ou se despovoam e a tradição cultural erudita qUontemente os .povos são chamados a reviver o processo por
que delas irradiava tende a ser substituída por uma tradição ernlto da düusão do que conduzidos por esforços autônomos
popular rústica, de transmissão principalmente oral. Nesse pro- dn auto-superação. Segundo, porque a difusão não coloca ao
cesso deterioram-se, igualmente, as antigas formas de conscri-
ção de mão-de-obra, como a vassalagem ou o escravismo, dando almmce das sociedades os mesmos elementos originalmente de-
lugar a novos modos de contingenciamento das camadas subal- Mmvolvidos, nem na mesma ordem em que ::;e sucederam e,
ternas e senhorios militares locais. tampouco, com as mesmas associações com outros elementos
Regressões feudais desse tipo se sucederam, como com- na forma de complexos integrados. Terceiro, porque os pro-
passos necessários a todas as expansões civilizadoras, até a °"'"ºs civilizatórios são movidos por revoluções tecnológicas
emergência da Revolução Mercantil. Esta, prontamente seguida caue privilegiam os povos que primeiro as experimentam, ense-
pela Revolução Industrial, impôs às sociedades humanas mu- lando-lhes condições de expansão como núcleos de dominação.
danças progressivas de intensidade infínitamente maior que fauarto, porque os povos atingidos- pelos mesmos processos
todas as anteriores, não dando lugar a regressões feudais, a livUlzatórios, através de movimentos de atualização histórica,
não ser em casos excepcionais. Isto só ocorreu em áreas que perdendo o comando do seu destino e condenados à subjugação
se marginalizaram economicamente por curtos períodos ou cujas 1 • dependência, vêem estritamente condicionado todo o seu
estruturas sociais inigualitárias se enrijeceram demasiadamente dllctnvolvimento ulterior.
. para perpetuar interesses patrimonialistas, impossibilitando a Este é o caso, por exemplo, das civilizações regionais que
renovação tecnológica e a reordenação social correspondente. lntearraram düerentes povos numa mesma tecnologia básica,
Na verdade, a história humana se fez mais de passos re- flltndo-os, porém, encarnar os papéis mais díspares, conforme
gressivos dos tipos mencionados do que de passos evolutivos.
As regressões porém, o esgotamento das poten- •tes.
M configurassem como centros imperiais ou como áreas depen-
l!: o caso, ainda, da formação mercantil-salvacionista,

60 61
primeira das civilizações de base mundial que engajou povos
tanto para a posição de metrópoles mercantis como para a de
colônias escravistas, umas e outras só inteligíveis em sua com-
plementaridade, mas que subµietiam os povos nelas enqua-
drados a condições de vida totalmente distintas, conforme se PRIMEIRA PARTE
situassem num ou noutro dos pólos do grande complexo.
Outra conseqüência da perspectiva aqui adotada é que
impõe a integração ·conceitua! dos vários processos civilizató-
rios singulares - correspondentes às linhas divergentes dos
distintos evolucionismos multilineares - num processo global,
tal como ocorreu efetivamente na história. Este procedimento As Sociedades Arcaicas
permite valorizar os efeitos tanto fecundantes quanto destrui-
dores de suas interações. Permite, também, reconstituir, em
suas linhas mais gerais, as relações dos povos modernos de
todo o mundo com os processos civilizatórios que plasmaram
as grandes tradições culturais dentro das quais cristalizam suas
presentes culturas. E permite, por fim, fixar uma tipologia das
revoluções tecnológicas, dos processos civilizatórios e das cor-
respo:ndentes formações sócio-culturais, aplicável à classüicação
tanto das sociedades de diversos níveis de desenvolvimento de
um passado remoto, como das sociedades contemporâneas, atra-
sadas ou avançadas.

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1/A REVOLUÇÃO AGR1COLA

Ü PRIMEIRO processo civilizatório corresponde à Revo-


luQlo Agrícola,. que se desencadeou originalmente, há cerca de
to mil anos passados, sobre os povos da Mesopotâmia e do
Jr.rlto e se repetiu, mais tarde, por efeito da difusão ou como
dn11envolvimentos independentes, na fndia (6000 a.C.), na China
(6000 a.C.), na Europa (4500 a.C.), na África Tropical (3000
1.C.) e nas Américas (2500 a.C.) ..
Esta revolução tecnológica desdobrou-se em dois processos
tilvllizatórios com os quais surgiram a agricultura e o pasto-
l'C11o, configurando modos de vida tão diferenciados de todos
011 anteriores que cumpre identificá-los, desde suas formas
m1ds incipientes, como . duas novas formações sócio-culturais.
O primeiro processo cristalizou-se em Aldeias Agrícolas Indife-
ronciadas (não estratificadas em classes) dos povos que se
llMoram lavradores de tubérculos ou de cereais, a exemplo das
tribos da floresta tropical, nas Américas, e de inúmeros povos
'
tribais de outros continentes. Alguns deles combinaram, mais
111.·.·.ll !. tarde, a agricultura com a criação de animais, mas ainda não
, "I.li o• utilizavam nà. tração. O segundo processo conformou as
! 11 llordas Pastoris Nômades dos povos que, posteriormente, se
11pocializaram na criação de animais, ajustando todo o seu
,,11 I modo de ser às condições de sobrevivência e de multiplicação
do• rebanhos.*
-·---
• Na caracterização das Aldeias Agrícolas Indiferenciadas tivemos em mente, prln·
•1111monte, os grupos indígenas agricultores da floresta tropical americana, tal como
• pudemos observar em nossos estudos de campo e como são descritos na bibllo-
lhflr. etnográfica pertinente (H. Baldus 1954; J. Steward [ed.] 194611950). Consideramos,
fllnlMlm, as fontes arqueológicas que revelam a antigüidade e a dispersão desses
lf'Qlol nas Américas e, ainda, com objetivo de comparação, as reconstituições arqueo-
. . .lau de outros continentes, tal como resenhadas por Gordon Childe (1951).
. Clom respeito às Hordas Pastoris Nômades tivemos em mente os primeiros grupos

.
Ili erladores de gado maior da Asla, da Sibéria, da Mongólia, e do Norte da Africa,
"""1do registros históricos, bem como as populações pastoris modernas dessas mes-

E
'reaa e da Africa Oriental como são descntas na bibl!ografia etnológica, além
font.ea americanas concernentes à adoção do cavalo pelas tribos chaquenhas da
rlor. do Sul e das planicles da América do Norte.

65
Antes da Revolução Agrícola o homem vivera sempre em dom ter desempenhado um papel importante na difusão de
pequenos bandos móveis de coletores de e frutos! de ocrtas técnicas.· ·
caçadores e pescadores, rigidamente condicionados ao ntmo Em alguns desses núcleos, por efeito da acumulação de
das estações, engordando nas quadras de. !artura e observações e de experimentos, através de milênios, surgiram
do nos períodos de penúria. Só em 1\11 primeiras formas de agricultura. Estas se iniciam, prova-
dadivosas, como as costas marítimas ncas em ma;iscos, e por volmente, pela horticultura de frutos e tubérculos nas áreas
isso mesmo muito disputadas, esses bandos podiam alcançar tropicais e, nas regiões temperadas e frias, pelo cultivo de
maiores concentrações. Ainda assim o m?ntante cada gru- coreais, uns e outros anteriormente coletados nos mesmos sítios.
po era limitado pela capacidade de provimento alimentar nas Tais procedimentos acabam por fixar-se cqmo um processo
quadras de maior escassez e pelas de ordenar so- produtivo novo que, permitindo reordenar intencionalmente a
cialmente o convívio de unidades sociais maiores. natureza, a colocava a serviço do homem pàra prover a massa
Nesse largo período de vida pré-agrícola, avaliado em mei? principal de alimentos vegetais de que carecia (N. I. Vavilov
milhão de anos, o homem dominara o fogo; aprendera a 11126; E. C. Curwen e G. Hatt 1947; Ch. B. Heiser 1965; C. O.
car instrumentos de trabalho que compensaram suas carencias Hauer 1952).
físicas com meios de ataque e de defesa, e A domesticação de animais, surgida em certas áreas, per-
eficiência produtiva. Desenvolvera idiomas, mitiria enriquecer a dieta humana com uma provisão regular
sociais reguladoras da vida familiar e grupal e elo carne e também de leite e peles. Mais tarde, alguns dos
d6 sentimento de lealdade étnica. Acumula:ra de 1mlmais domesticados proporcionariam uma nova fonte de
saber e de crenças que explicavam sua expenência e orie?tavam m1orgia muscular, além da humana, como montaria ou força
sua ação; bem como fantas:µiagorias, através das. quais pro- do tração de arados e carros, multiplicando, dessa forma, a ca-
curava alcançar segurança emocional em dos nscos a que imcidade produtiva do homem e sua mobilidade espacial.
estava sujeito e dos quais se tornara consciente, como a dor Tal como a agricultura, a domesticação de animais desen-
e a morte. volveu-se progressivamente, a partir de procedimentos ocasio-
o característico fundamental dos grupos humanos pré- • nnls que familiarizaram o homem com as condições de sobre-
agrícolas era sua multiplicidade e a disparidade de mo-;. vivência e de reprodução dos animais. Segundo o testemunho
dos de ser. cada pequeno bando, vivendo isolado, sub.dividindo- . 11!.nográfico, os grupos caçadores têm gosto em levar para suas
se sempre que crescia, conformava uma fabe , moradas, e entregar ao cuidado das mulheres e das crianças,
111 Ii düerenciada do humano, ho&til a todas as outras. Nestas cir- filhotes dos animais que eles caçam, para serem criados como
' cunstâncias, prevaleciam as tensões centrifugas. que nm brinquedo animado. Esta atividade está, provavelmente, na
ram a espécie humana à dispersão, desde hnse da domesticação que, começando pelos cães de caça, se
até cobrir a Terra inteira, atingindo as regioes mais mvias e tt111tonderia às aves, porcos e muitas outras crias de terreiro e,
1,
adaptando-se às condições mesológicas mais atra·.' dttpois, a animais de maior porte, criados já em rebanhos, co-
1 vés da diversificação e especialização de seus hU> as renas, os camelos, as ovelhas, os eqüinos e os bovinos,
ijl'iill
turais (J. Steward 1955a; R. C. Owen 1965; M. D. Sahlms 1968\' cmjns condições de crescimento conduziriam ao pastoreio como
As instituições do tabu do incesto e exoga1:1iª: atuando. atividade especializante.
como vinculadoras de diversos grupos sociais, contribmram para, Supunha-se que o pastoreio surgiu independentemente da
aglutiná-los em unidades tribais cooperativas ou, ao menos,;. qricultura, a partir do encurralamento de reservas de animais
não necessariamente hostis. O intercruzamento resultante. des".:·. obtidos na caça, ou por um processo paralelo àquele que con-
sas instituições permitia a _criatividade de duziu algumas tribos americanas a redomesticar cavalos e
contingentes humanos através da avanços culturai&;; lado bovino trazidos pelos europeus, que se haviam multipli-
alcançados por cada grupo, assim criar e .u · Oldo astronomicamente.. em rebanhos selvagens, nas imensas
corpo crescente de compreensoes (L. White 19_49, e-,. putagens naturais do 'Norte e do Sul do continente (Schmidt
Lévi-Strauss 1949). A julgar pelos da etnol_ogia, t Koppers 1924). A ausência de comprovação arqueológica para
vem-se acrescentar aos referidos procedimentos de vmculaçaQ,. 11ta hipótese com respeito ao Velho Mundo torna mais veros-
intergrupal alguns o_utros, como o rapto de mulheres, que PC>'! 1lmil que o pastoreio se tenha desenvolvido a partir da domes-
66 67
ticação de animais por parte de grupos laVradores ao nível aubdividirem-se em novas unidades étnicas à medida que cres-
de Aldeias Agrícolas Indiferenciadas. Selecionadas as espécies cia sua população.
por esses agricultores, Sl\a multiplicação ulterior - nos terre- Como vanguardeiros da nova tecnologia, os povos agricul·
nos apropriados e à distância conveniente das plantações - !.ores e pastores, divididos em grupos tribais, avançaram sobre
conduziria a uma especialização ocupacional crescente. Esta vustas áreas, desalojando suas antigas populações, sempre que
acabaria por diferenciar, primeiro funcional e ocupacionalmen- tiMtas ocupavam terras agricultáveis ou pastagens naturais.
te, e em seguida até mesmo etnicamente, as populações de agri- Conformam-se, desse modo, em diferentes regiões do mundo,
cultores e as de pastores *, bipartindo a condição sócio-econô- 1\reas de ocupação agrícola e pastoril cada vez mais extensas,
1 1 mica dos grupos humanos mais desenvolvidos em duas linhas corcadas por contornos marginais. Mais tarde, esses contornos
marcadamente diferenciadas (Gordon Childe 1951). reduzir-se-iam a meras ilhas, onde grupos de caçadores e cole-
O efeito crucial da agricultura e do pastoreio na esfera tores continuam vivendo a antiga existência, como poyos atra-
das relações do · homem com a natureza foi um enorme incre-
Hu.dos na história. Quase todos eles, porém, seriam paulatina-
mento demográfico, causado pela relativa fartura alimentar que mente atingidos pelo processo civilizatório fundado na Revolu·
çllo Agrícola, tendente a integrá-los tamPém na condição de
proporcionou. A fecundidade humana "natural", antes compri- l\l{ricultores ou pastores.
mida pelo condicionamento aos ciclos estacionais da coleta,
da caça e da pesca, experimenta uma primeira expansão que
teria, doravante, não a carência de alimentos como limite prin- Aldeias Agrícolas Indiferenciadas e Hordas Pastoris Nômades
cipal ao incremento do grupo humano, mas os efeitos letais
das enfermidades e outras causas de ordem social que abate- As sociedades estruturadas nos dois tipos de formação sócio-
riam, periodicamente, os aumentos mais desbordantes. Esta oultural - as Aldeias Agrícolas Indiferenciadas e as Hordas
!
explosãô demográfica processar-se-ia, dai em diante, enquadrada l'u.storis Nômades - dedicam-se, essencialmente, à reprodução
por dois modeladores. Primeiro, a cissiparidade e a expansão do seu modo de vida através de economias de subsistência.
1 ' horizontal que se mantêm enquanto atua como fator dinâmico Mns suas disputas recíprocas e os conflitos com os povos mais
l a Revolução Agrícola. Depois, a aglutinação e a estamentação
vertical que seriam desencadeadas pela Revolução Urbana, con· .
1\1.ra.sados sobre cujos territórios se expandem ·já c9meçam a
ruzcr da guerra uma ocupação fundamental, garantidora das
duzindo já os grupos que as experimentaram a se configura- : MllUS condições de sobrevivência e de expansão. A unidade
rem como novas formações sócio-culturais. dtnica, fundada na comunidade lingüistica e cultural, já nessa
O primeiro modelador consistiu na tendência, ainda pre- dpoca enseja associações periódicas de muitos grupos locais
valecente, da subdivisão dos grupos, cuja população excedesse ou de hordas independentes para ações conjugadas de ataque
certos limites, em novas unidades tribais, em virtude da rudi· ou de defesa, começando a gerar, desse modo, unidades étnicas
mentaridade da tecnologia e da inaptidão dos sistemas sociais muls amplas. A vida e as posses de cada família não dependem,
para dar coesão a grupos populosos ou para unificar, num 1mrém, destas uniões eventuais. Ao contrário, elas é que encon-
mesmo corpo étnico, muitos núcleos dispersos. As novas técni· • trnm nos grupos de parentesco as unidades estáveis que po-
cas produtivas, conquanto capazes de aumentar o contingente · dum ser eventualmente conjugadas (R. Linton 1936; J. Steward ·
de cada núcleo, eram ainda insuficientes para sedentarizar o l055a).
homem e para criar grandes unidades sociais extrafamiliares. •· Nestas circunstâncias, as relações anteriores de mero usu·
Assim, os primeiros grupos de lavradores e criadores · fruto dos bens do território pelo qual transitam os grupos pré-
compelidos a uma vida transumante em busca de terras virgens . IKricolas, como um rebanho, se alteram pela necessidade de
para os roçados e de pastagens novas para os rebanhos e a ·· dofesa coletiva do território de exploração tribal. Ainda não
1urgira a propriedade territorial como instituição, mas as uni-
• o desenvolvimento do pastoreio como ocupação exclusiva só se daria tardia• : dades tribais já se fazem co-possuidoras da terra beneficiada
mente, porque exigiria, como condições prévias, o estabelecimento do comércio com polo trabalho humano ou das pastagens indispensáveis para os
grupos agrícolas, bem como a criação e o aperfeiçoamento da metalurgia. Foram
identificados restos fósseis de diversas raças bovinas domesticadas na ÃSia e no rtbanhos, enquanto membros de um grupo coletivamente res-
Egito que o faz supor que as tentativas originais de domesticação de gado boVino ponsável por sua preservação, como condição fundamental da
datam de cerca de 6000 a.e. e as das raças eqüinas de 3000 a 4000 a.e. (Bibliografia 1ua sobrevivência e autonomia.
em K. Dittmer 1960).

68 69
········"··--·----------------------------
Tal como as economias precedentes de caça e coleta, estas srrnndemente exigentes, mas episódicas, porque concentradas no
novas economias agrícolas e pastoris incipientes ainda não en- tumpo, ensejando-lhe oportunidades de refazer-se dos esforços
sejam condições de düerenciação de categorias sócio-econômicas ctlr-1pendidos em longos períodos de repouso. As mulheres, to-
capazes de estamentar as comunidad:s. O étnico. clnvia, cabem novas tarefas cotidianas que, como a manutenção
- apenas dividido em famílias e distribuindo as atr1bu1çoes ctn casa, o preparo da comida, a coleta, o cuidado das crianças,
produtivas segundo o sexo .e a idade - devota-se às :aref.as ?e 11xlgem um esforço continuado e sem interrupções para repouso.
subsistência como um esforço coletivo que ocupa igualitana- Simultaneamente com esta diferenéiação_ de papéis produ-
mente todos os seus membros. O domínio tribal coletivo das 1.lvos surgem crenças e cultos destinados a impor a dominação
áreas de caça, pesca e coleta, estendendo-se, depois, áreas 11msculina, que se vira virtualmente ameaçada. Com o apelo
de cultivo e de pastoreio, permite mante:i; cada fa;níha como " mitos e ritos - como os do Jurupari entre os grupos Tupi
unidade de produção e de consumo. Nesta etapa nao há lugar <to Brasil, de instituições como a Casa dos Homens e os sis-
ainda para a acumulação privada de bens, nem· para a apro- t.11mas de castigos a que ambos estão associados - perpetua-se
priação dos produtos do trabalho alheio. Os uma precedência social que já não corresponde ao papel más-
tares ou de outro tipo - geralmente produto da dadivos1dade uulino na nova economia dos povos agricultores.
da natureza em certas quadras do ano - são destinados a
gastos supérfluos, com atos de fé, ou ao consumo festivo. Mes- As Hordas Pastoris Nômades não parecem .enfrentar esses
mo quando esses bens são apropriados pelos chefes dos grupos problemas, em virtude da relevância do papel masculino no
familiares, revertem geralmente à coletividade, após su.a. mort_e, ': 11lrct.ema produtivo. Em conseqüência, nelas se aprofunda essa
ou são transferidos segundo regras de parentesco class1f1catóno rtominãncia que assume as formas patriarcais mais despóticas.
que incluem grande parte, senão a totalidade, do grupo local. 'fümbém nos grupos de economia mista, em que o cuidado dos
itnlmais de criação cabe aos homens, a precedência social destes
Nestas formações, diversas modalidades de organização so- . •o ressalva. Por último, a guerra age também como fator de
cial baseadas nos sistemas classificatórios de parentesco per· '. fortalecimento da precedência masculina dentro das sociedades
mitem atender às necessidades de respostas institucionais ao ·
crescimento da capacidade produtiva. Tanto os sistemas bili· , •Krlcolas e pastoris, determinando, desde muito cedo, o apare-
olmento de diferenciações sociais que ampliam e dignificam
neares de parentesco, com as respectivas formas de organiza. :
ção das unidades familiares, quanto os unilineares, tendentes. u antigas formas de chefia, cujas responsabilidades vinham
11ondo aumentadas. Agora lhes cumpre fazer face aos riscos
a desdobrarem-se em estruturas clânicas, são suscetíveis de'
ampliar-se para atender à necessidade organização de uni· ': do saque das safras e dos rebanhos e a condução das lutas
dades étnicas mais inclusivas. Essa a razao por que malograraxn pala conquista de novas áreas de cultivo e de pastagens.
as tentativas de correlacionar os modelos de parentesco classi· · Amplia-se, igualmente, na mesma etapa, o número de espe-
ficatório com formas progressivas de desenvolvimento sócio- : Dll\listas no trato com o sobrenatural, que são chamados ao
cultural. Na realidade, este é um setor em que a amplitude: txorcfcio de funções mais complexas, como a salvaguarda do
das respostas possíveis aos desafios da renovação do · lntpo contra variações estacionais e a garantia da fertilidade
produtivo, ainda que não arbitrária, dificulta sua utihzaçao · do solo e das sementes, junto aos povos agricultores, e da
para a construçãó de seqüências genéticas (G. P. Murdock 1949; 11\lde e da multiplicação dos rebanhos, junto aos pastores.
C. Lévi-Strauss 1949, 1953). Ainda no curso da Revolução Agrícola, algumas sociedades
A renovação institucional mais assinalável desta etapa experimentam grandes progressos na sua capacidade produti-
encontra-se, provavelmente, no aprofundamento da divisão de va, devidos à substituição da enxada pelo arado puxado por
trabalho entre os sexos, que atribui às mulheres as tarefas lntmais e ao uso de fertilizantes. A tecnologia geral se enrique-
relacionadas com a semeadura, a colheita e a preparação de Ot com a descoberta e a generalização da cerâmica, que intro-
alimentos cultivados. Esta nova carga de trabalho reacentua . duz o hábito de consumir principalmente alimentos vegetais
a linha tradicional que já atribui à mulher funções rotineiras . 001tdos, e, também, com o surgimento da fiação e tecelagem,
e ao homem as tarefas mais cansativas. Assim como a ele ca- · que substitui as vestimentas de couro por tecidos de fibras
bia antes a caça agora lhe incumbe a derrubada dos bosques "letais e animais e enriquece a tralha doméstica com uma
e o preparo terrenos para a lavoura. Ambas são tarefas l\Ultiplicidade de utensílios.

70 71
Estas atividades artesanais recairão
as mulheres, tomando mais penosa sua rotma, que vira
aliviada com a substituição da coleta de frutos . e tuberculos
silvestres pela produção dos roçados. Ao homem mcumbe, ago-
ra, menos que caçar e preparar a paraA a II/A REVOLUÇÃO URBANA
e cuidar dos animais domesticados. Com isto, .º de
circulação espacial rotineiro de cada pessoa vai dimmwndo,
iniciando-se a tendência à sedentarização, que se acentuará
cada vez mais.
Esta nova tecnologia agrícola e artesanal não supõe, ainda,
0 surgimento de especialistas de tempo integral e, A esta
via a estratificação da sociedade em classes economicas. O
classificatório continua sendo o sistema
tal de ordenação da vida social e .os grupos bem
e OM O desenvolvimento da Revolução Agrícola, algumas ·
aociedades foram acumulando inovações tecnológicas que, ao
como as comunidades locais, continuam a ser as urudades 11lcançar o nível de uma nova revolução, lhes imprimiram um
operativas e os núcleos de lealdade dos movimento de aceleração evolutiva que acabou' por configurá-
de cada sociedade. Todos se dedicam à produçao de alimentos l11s como novas formações sócio-culturais. Seus motores foram
e apenas conhecem formas elementares de troca de produtos uma acumulação de inovações técnicas que ampliaram progres-
e serviços. Dentro de cada comunidade local, os novos mem- Nlvamente a eficácia produtiva do trabalho humano, provocan-
bros alcançam dii:eitos iguais aos de todos outros, pelo cto alterações institucionais nos modos de relação entre os
mesmo processo através do qual aprendem a lmgua se tor- homens para a produção e nas formas de distribuição dos
nam herdeiros do patrimônio cultural comum. A .de produtos do trabalho. Tal se deu sucessivamente em várias
membro do grupo é que os faz usuários do domrmo , rcigiões do mundo, a partir de diversas condições ecológicas e
sobre a terra e 0 rebanho e co-participantes do esforço coletivo <to diferentes contextos culturais, tanto por e.feito da difusão
de provimento das condições de sobrevivência e de crescimento .• quanto de desenvolvimentos independentes e, mais freqüente-
de sua sociedade. Cada individuo sabe fazer o mesmo que mente ainda, pela combinação de ambos.
qualquer outro; dedica-se a tarefas idênticas - os pa- Em todos os casos, estas sociedades aumentaram o núme-
péis já diversificados de chefes e sacerdotes - em . ro de plantas cultivadas, aprimoraram as qualiçiades genéticas
um pequeno mundo social em que todos os adultos se conhe- <tostas e revolucionaram suas técnicas agrícolas com a adoção
cem e se tratam pessoal e igualitariamente. do métodos de trabalho e de instrumental maiiS eficazes para
o preparo do solo destinado às lavouras, tranS'porte e estoca-
11nm das safras. Algumas sociedades de econorÍlia pastoril ou
mista também alcançam os mesmos resultacfos. mediante a
1111leção genética dos rebanhos e a especialização do criatório
para obter animais de montaria e de tração ou para o provi-
mento de carne, de leite e de lã.
As inovações mais importantes da. Revolução Urbana con-
1t1tem, porém, na descoberta das técnicas ainda incipientes
do irrigação e de adubagem do solo que, controlando os dois
fatores essenciais da produtividade agrícola, asseguram colhei-
tas cada vez mais fartas. Tal se dá tanto em terras . baixas,
mediante o controle de processos naturais cie fertilização do
1010 pelas enchentes, como em terras altas, através da constru-
Qlo de complexos sistemas de captação e distribuição da água
por meio de canais artificiais. outras inovações fundamentais

72 73
crescente aplicação de recursos em bens de produção. Surgem,
foram: a generalização do uso do arado e de veículos de roda, 1dmultaneamente, novos modos de ordenação das unidades
ambos de tração animal, bem como de barcos a vela capaci- dtnicas, que as tornam cada vez mais diferenciadas, mediante
tados para a navegação costeira. De modo geral, esses sistemas " segmentação interna em estratos sociais contrapostos, em-
de tração e de transporte apresentaram-se juntos no Velho bora mutuamente complementares, no corpo de entidades plu-
Mundo, mas dissociados na América, onde a ausência de ani- rlcomunitárias, e mais inclusivas, mediante o aumento das po-
mais domesticáveis de grande porte conduziu o desenvolvimen- pulações aglutinadas nas mesmas unidades etnopolíticas e a
to por outras linhas. Incorporação nelas de gente de outras etnias.
Com base em diferentes combinações desta tecnologia di- Dentro de algumas dessas sociedades de tecnologia avan-
versos povos revolucionam sua capacidade de produção de un.da, os prisioneiros de guerra já não são sacrificados nos
alimentos, ensejando o advendo das primeiras cidades e, nelas, onrimoniais de antropofagia ritual, mas apresa.dos como traba-
de novas técnicas de fabrico de tijolos e ladrilhos, a arte da Umdores cativos, surgindo, desse modo; o escravismo. A pre-
vidraria, a metalurgia do cobre e do bronze, os silos, a escri- 11nnça de escravos tomados a outros povos e despersonalí:zados
turação ideográfica, a numeração, o calendário e, por fim, a pnra serem possuídos como instrumentos de produção· afeta
arquitetura monumental. Gordon Childe (1946) demonstra que profundamente todo o modo de vida dessas sociedades, que
esses desenvolvimentos tecnológicos se concentram no período dnlxam de ser 1·gualitárias, ao mesmo tempo que se transfor-
relativamente breve dos dois milênios que antecederam a 3000 rnnm em comunidades multiétnicas caracterizadas pela polari-
a.e., tendo por isso um caráter nitidamente explosivo, pelo J\l\çllo de escravos em contraposição a senhores e em competi-
contraste com a infecundidade criativa dos longos períodos an- uno com os trabalhadores livres.
teriores e dos dois milênios imediatamente posteriores. Das primitivas comunidades agrícolas igualitárias e das
As sociedades vanguardeiras desta revolução tecnológica, hordas pastoris, fundadas ambas na propriedade coletiva da
ampliando a capacidade de produção de cada lavrador, passa- t.t1rro. e dos rebanhos e na garantia a cada unidade familiar
ram a contar com excedentes de alimentos que permitiram f1m1 do seu trabalho, passa-se, assim, progressivarnen-
desligar um número cada vez maior de pessoas das atividades ·. tt\ a sociedades de classe, assentadas na propriedade privada
de subsistência. Ensejou-se, desse modo, o surgimento de for- ' nu om outras formas de apropriação e de acumulação do pro-
mas mais complexas de divisão social do trabalho através da chato do trabalho social. Urnas e outras tornam-se cada vez
especialização artesanal e do comércio, tanto interno como ex- numos solidárias internamente, porque as relações entre pes-
terno, entre lavradores e pastores. 11mi11, antes reguladas pelo parentesco, começam a ser condi·
Por este caminho é que os progressos da tecnologia produ- . clonadas por considerações de ordem econômica.
tiva puseram em ação um segundo modelador da vida· social Os motores básicos desta diferenciação social, além da re-
- a estratificação ocupacional - que imporia reordenações nnvnção tecnológica, foram a contingência de regular a distri-
tendentes a transformar toda a estrutura interna da sociedade•. bulçl\o, dentro da comunidade, dos excedentes de bens que se
A expansão horizontal que, desde muitos milênios, vinha mul· tomara capaz de produzir; o imperativo de útilizar o poder
tiplicando etnias começa, então, a ser contida por uma nCllÍfil dn compulsão que se capacitara a exercer sobre grupos estra-
orientação reordenativa, no sentido vertical, que enseja o in· : nho!\; e a necessidade de ordenar a vida social interna de
cremento de cada unidade étnica e a fusão de várias delas: onmunidades humanas cada vez mais populosas. Estes desafios
em entidades cada vez maiores. t1nrnuns apontavam para algumas formas possíveis de ordena-
Esta reordenação se rege fundamentalmente pelos proces- oAo, dentro das quais se foram enquadrando uniformemente
sos de estratificação social e de organização política que pas-,, U diferentes sociedades. Uma delas era a propriedade privada
sarão a operar, de então por diante, acionados por sucessivos. da terra e o escravismo; outra, a preservação da acessibilidade
progressos tecnológicos. Com eles surgem mecanismos de com-' dt todos à terra, combinada com novas formas de ordenação.
pulsão do aumento da produtividade, de acumulação de riqueza . poUtico-religiosa da vida social, que também incentivavam a
e de concentração ·desta em mãos de grupos minoritários que, ·: produtividade e a acumulação de riquezas.
na defesa de seus privilégios, atuam como incentivadores do Os progressos técnicos acumulados pelas sociedades que
desenvolvimento econômico. No curso desse- processo, --u-siste- · uoendem à economia agrícola superior - pela irrigaçào arti-
ma produtivo vai-se tornando cada vez mais complexo, exigindo . ftoial e o uso de fertilizantes ou pela utilização de animais
74 75
de arados e carros - tomam aqueles desafios ' nmdeiam suas relações ou exercem outras funções sociais. Com
ainda mais imperativos. O esforço por enfrentá-los é que induz, luum nesta diferenciação configuram-se dois modelos de socie-
a certa altura, o aparecimento da especialização ocupacional e- c11Ules, as regidas por princípios coletivistas, fundados na pro-
de formas mais altas de troca de bens e de serviços bem prlodade coletiva ou estatal da terra e em procedimentos não
como o contingenciamento da força de trabalho e elas 1111ernvistas de contingenciamento da mão-de-obra; e as regidas
a. diferenciação progressiva dos indivíduos por categorias 11or princípios privatistas, principalmente a propriedade pri-
mdas segundo o seu papel e o seu lugar na produção. Surgem vn<ln e a escravização da força de trabalho. Estas linhas dife-
assim, as classes sociais, diferenciando os produtores das · l'f'nciadoras, dando lugar a distintas formações sócio-culturais,
madas parasitárias de apropriadores dos excedentes produzidos. 1hwom ser classifi.cadas como dois processos civilizatórios: o
Estas concentram, de preferência, nas vilas que começam . iu·tmeiro, correspondente ao trânsito de Aldeias Agrícolas Indi-
a configurar-se como cidades, atuando como exatores de im- . fnrnnciadas a Estados Rurais Artesanais de Modelo Coletivista;
postos ou como intermediários entre os setores já diferencia- o 1mgundo, correspondente à configuração de Estados Rurais
dos de lavradores e pastores ou entre todos eles e os artesãos. , Art1!sanais de Modelo Privatista, desenvolvida por evolução in-
Também estes, à medida que se especializam no fabrico de 1.ctrnn, desde as aldeias agrícolas, ou através da subjugação
instrumentos de trabalho, de objetos de uso comum e de bens · 11nKl.as por Hordas Pastoris Nômades.
supérfluos, tendem a abandonar as atividades de subsistência Simultaneamente, atuava em certas áreas um terceiro pro"
alimentar e, por isso, a se concentrarem nas cidades nascentes. """"º civb.izatório, fundado nos desenvolvimentos da Revolução
Em algumas sociedades, a propriedade individual de bens . Urhnna, através do qual algumas Hordas Pastoris Nômades,
circunscrita originariamente aos produtos do trabalho de . ••1>0cializadas na criação e no adestramento de animais de
indivíduo ou de cada familia, se estende, progressivamente, montaria e de guerra, integrando-se na tecnologia metalúrgica,
com o aumento da capacidade produtiva, até fazer-se o prin- aacondem à condição de Chefias Pastoris Nômades.
cipal sist.ema de ordenação da vida social. Acaba por abranger · Os Estados Rurais Artesanais dos dois modelos emergem,
os própnos agentes da produção, os animais de tração, os tra- . •fnttvamente, com a superação da condição igualitária das so-
escravizados e-; finalmente, a condição básica da · alndndes primitivas regulamentadas ·pelo parentesco e com o
produçao agrícola, que é a terra. Desse modo, são aumentadas; IUrl(lmento do Estado, que instaura um tipo novo de ordena-
as possibilidades de acumulação de bens e estes se tomam não, oao social baseada nos vínculos cívicos e na estratificação social.
apenas mera riqueza concentrada em algumas mãos e consu- .· Llwts Morgan (1877 e 1880) acentuou esta transmutação, cha-
mida de modo ostentoso, mas um instrumento utilizável na' mn.ndo societas ao antigo modelo de vida social, civitas ao novo.
produção contínua de mais riqueza. O Estado se configura com a implantação do domínio político
Em outras sociedades, preservam-se as formas coletivas: IObro território, o que coincide com o início da vida urbana.
de propriedade, geralmente em associação com o desenvolvi- Nos Estados Rurais Artesanais de modelo privatista, a
de técnicas novas, como o regadio, e a criação de i?lSi, 11oravização assume cunho pessoal e ganha impulso crescente,
titmço.es reguladoras das atividades produtiva.si lltlmulando guerras de conquista que não apenas expandem o
e de mtegraçao do artesanato com a agricultura em domfnio territorial, como ensejam a conversão das populações
auto-suficientes. Nestes casos, a estrutura social pode; dai ireas conquistadas em escravos-pessoais apresados como
evolmr para formas mais altas de comunitarismo que, sem mio-de-obra tanto para a agricultura como para manufaturas
apelo à propriedade privada e à escravidão pessoal do traba-; 1 transportes cada vez mais ativos. Esta nova modalidade de .
lhador, preenchem, por outras vias, os requisitos indispensáveis· IOntingenciamento da força de trabalho afeta tanto os povos
à expansão étnica e ao progresso sócio-cultural. l\lbJugados - porque os desenraíza e converte em condição
_ esses caminhos criam-se formas de material de vida de outros povos, equivalente ao gado ou a
dencia social que exorbitam da solidariedade meramente fami- •u&lquer recurso natural apropriado - quanto os próprios
liar e da mutualidade de nível local. Novas tramas de .: IUbJugadores, porque lhes impõe modos de vida e de ordenação
dependência passàm a regular o intercâmbio dos setores dife- IOOial opostos aos anteriores, por inigualitários e multiétnicos.
renciados destas sociedades: dos produtores de alimentos com . Introduz-se, assim, um fator dinâmico que passará a reger
os artesãos especializados e as camadas parasitárias que inter- : todo o desenvolvimento social ulterior. As relações do senhor

76 77
com seus escravos assumem caráter de dominação, impossível muito maiores, cujas origens e identificações étnicas podem ser
de alcançar-se com respeito a qualquer outro bem, e se imprj- nmplamente diferenciadas e cuja estratificação social pode ser
mem sobre as sociedades que as adotam, transmudando o muito mais diversificada.
caráter da sociabilidade vigente entre seus membros que, de Um dos reptos principais com que se defrontaram essas
igualitária e homogênea, se vai tornando categorial, privile- primeiras sociedades estratificadas consistiu na necessidade de
giando uns e transformando outros em párias. 1toscnvolver princípios integradores capazes de dar unidade
Com o alargamento das camadas servis e dos estratos imcial e coesão moral a suas populações divididas em estratos
corr,,espondentes de amos liberados da obrigação de trabalhar, 1mciais profundamente diferenciados e contrapostos, a fim de
surge um modo peculiar de vida, sustentado por novos valo- torná-las entidades políticas unificadas e operativas. A fonte
res, não mais assentados na virilidade ou na operosidade, mas l11l'lica desta coesão foi encontrada nas velhas tradições religio-
na riqueza ou no poder. Aos poucos, esses novos estratos se ims, que para isso tiveram de ser redefinidas, a fim de resignar
configuram como uma camada senhorial tendente a exercer do- - u pobre com sua pobreza e também com a riqueza dos ricos,
mínio, não apenas sobre seus escravos, mas sobre a sociedade n todos permitindo viver e interagir e encontrar gosto e signi-
inteira, a fim de preservar e ampliar sua condição privilegiada. rlcução para suas existências tão contrastantes.
Nos dois modelos de Estado Rural Artesanal, com a trans- Os especialistas no trato com o sobrenatural, cuja impor-
formação das aldeias em vilas e cidades, emerge um campe- 1.1\ncia social vinha crescendo, tornam-se, agora, dominadores.
sinato que progressivamente se diferencia até configurar-se, Constituem, não apenas os corpos eruditos que explicam o
enquanto camada social e enquanto condição humana, num
ctolitino humano, mas também os técnicos que orientam o tra-
estrato distinto e oposto aos novos componentes da sociedade,
desobrigados das tarefas de produção alimentar. Estes últimos, lmlho, estabelecendo os períodos apropriados para as diferentes
concentrando-se nas vilas, as transformam em cidades, cujo ntlvidades agrícolas. Mais tarde, compendiam e codificam todo
núcleo residente se compõe, predominantemente, de artesãos o saber tradicional, ajustando-o às novas necessidades, mas
profissionalizados (oleiros, tecelões, vidreiros, metalurgistas e, ttmtundo fixá-lo para todos os tempos. Este caráter conserva-
depois, inúmeros outros) dedicados à produção de bens para dor era inarredável à sua posição de guardiães de verdades
troca, e de comerciantes incumbidos do intercâmbio, dedicados à ruvcladas, cujà autoridade e cujo poder não se encontravam
acumulação das safras e dos produtos artesanais. A estas cama- 11olcs, mas nas divindades a que eram atribuídas.
, das juntar-se-ão, sucessivamente, novos estratos de especialistas Os xamãs convertem-se, assim, em sacerdotes e, para
- sacerdotes, funcionários, soldados - encarregados de man- dur às novas funções, organizam-se em corpos burocráticos e
1 li
ter a ordem na sociedade ampliada e enriquecida, de defendê- ln11titucionalizam em igrejas a antiga religiosidade co-participa-
la contra saques tornados altamente atrativos pelo seu enri- d". Estas se tornam, em seguida, as principais agências de
quecimento, bem como de abrir espaço à expansão étnica sobre urücnação da sociedade a partir de centros cerimoniais cons-
novas áreas e, ainda, de prover massas de escravos para as.' Lrutdos com crescente magnificência. Sua edificação e manu·
atividades produtivas. Os conteúdos rural e urbano da socie- Lcmção tem dois efeitos cruciais. Primeiro, ao exigir a apropria-
dade evoluem, desde então, sempre correlacionados, mas cres- qao de parcelas cada vez maiores de bens e de serviços, pro-
centemente diferenciados, como duas tradições culturais distin- : porcionam as motivações de caráter sagrado necessárias para
tas por seus modos de vida discrepantes. lnduzir o campesinato a produzir mais do que consumia, asse-
Na verdade, com a cidade é que surge o próprio campesi- 1urnndo, desse modo, uma direção externa ao processo produ-
nato como categoria social anteposta à sua contraparte urbana, , tivo. Segundo, a necessidade de aliciar temporariamente traba-
como parcelas da mesma sociedade, mutuamente dependentes , lhlLciores das aldeias para a edificação dos templos permite
para o preenchimento de suas condições de sobrevivência (R. ' dtiHgarrar massas rurais cada vez mais numerosas para cons-
Redfield 1953 e 1956; H. Barnett e outros 1954). Esta nova es- · tltuir a força de trabalho urbano. Dela selecionam-se os arte-
trutura societária de rurícolas e citadinos capacita-se a fazer •los mais talentosos para a manufatura de jóias, adornos e
do território, e não da descendência, a base da unidade social artigos de luxo destinados ao culto e a outros usos. O governo
e, desse modo, a incorporar numa mesma unidade sócio-política doK homens, que fora, até então, matéria de lideranças tradi-
diversas comunidades locais, cujas populações já podem ser Olonais, vai-se tornando função de uma classe burocrática dife-

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,[ 1

i 1
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renciada, na qual a posição de precedência cabe a figuras novas Jlllltas podem ser exemplificadas pelos "povos de areia", como
que, fazendo-se divindades viventes, encarnam, conjuntamente, 011 Hiksos, os Hititas e os Kassitas (1750 a 1500 a.C.), que se
o poder político e o religioso. IAnçaram sobre as civilizações egípcia e mesopotâmia; pelos
Arlos Orientais (1300 a.C.), por Citas C5PO a.C.>, Hunos (400 E.C.)
" Sa.kas (120 a.C.) que avançaram em várias ondas sobre as
Estados Rurais Artesanais e Chefias Pastoris Nômades 11lv1lizações orientais; pelos guerreiros Teutônicos, Celtas e Es-
l!Mdinavos que atacaram a Civilização Romana a partir do sé-
Na fixação do paradigma de Estados Rurais Artesanais ti- 1,ulo III; e, também, pelos árabes, Bérberes (600 E.C.), os
vemos em mente dois modelos básicos correspondentes a dois 1
1'1\rtaros e Mongóis (1200 E.C.) e Mandchus (1500 E.C.). Alguns
processos civilizatórios distintos. Primeiro, as cidades-Estados ctn11tes últimos, por seu desenvolvimento tardio, tiveram a opor-
que inauguram a vida plenamente urbana, com base na agri- tunidade de integrar-se na tecnologia do ferro e de se configu-
cultura de regadio e em sistemas sócio-econômicos coletivistas, r1uom como um novo tipo de formação sócio-cultural: os
antes de 4000· a.e. na Mesopotâmia (Halat); entre 4000 e 3000 Impérios Despóticos Salvacionistas, no curso de outro processo
a.e. no Egito (Mênfis, Tebas); na índia (Mohenjo-Daro, por tilvlllzatório.
volta de 2800 a.C.); antes de 2000 a.e. na China (Yang-Shao, A Revolução Urbana, atuando através dos três primeiros
Hsia); e, muito mais tarde, na Transcaucásia (Urartu, 1000 a.C.); pror.essos civilizatórios referidos, que deram lugar àqueles dis-
na Arábia Meridional (Hajar Bin Humeid 1000 a.C.); na Indo- tintos modelos de organização sócio-política, provocou, além
china (Khmer, 500 a.e., Champa, 700 E.e., Annan; 1000 E.e., dA dicotomização das sociedades em conteúdos rurais e urba-
Sião, 1'200 E.C.); na Indonésia (Xrividjava 750 E.e., Madjapahit, no11, a emergência de duas formas divergentes de vida rural:
1293 E.C.); e, ainda, no Altiplano Andino (Salinar e Galinazo, A rural artesanal e a pastoril. Ensejando, embora, em muitas
700 a.e., e Mochica, 200 E.C.); na Mesa-América (UJanal, 300 dttlus, a manutenção de singularidades que continuaram a di-
E.C.); na Colômbia (Chibcha, 1000 E.C.); no primeiro milênio Y1m11ficá-las culturalmente, unificou-as como estilos de vida.
de nossa era no Japão (Jimmu), reiterando-se diversas vezes lt1rl(em, assim, em oposição a um estilo de vida citadino, dois
(Heian, 782 E.C.; Kamakura, 120 E.C.). ••lllos rurais, o camponês e o pastoril, cujas düerenças cultu-
O segundo modelo é representado pelos Estados Rurais rtd11 passam a ser menos relevantes do que suas semelhanças
Artesanais de organização privatista, que se exemplificam nas pomo estruturas sociais, decorrentes de unüormidade dos res-
primeiras talassocracias maduras como a Fenícia (Tiro, Sidon, · ptl(itivos sistemas adaptativos. Estes é que imprimem, tanto
Biblos, entre 2000 e 1000 a.C.); as Minóicas (Knossos, 1700 a.C.) . àa populações urbanas quanto às camponesas e taml;>ém às
e Micénicas 0700 a.C.), além dos Etruscos (século IX a.C.); de·· putoris do mundo inteiro, uma feição comum que sobressai
Atenas do século VI a.e. e Roma anterior ao século III a.e. tntro todas as suas variedades de línguas e de costumes.
A elas podem-se acrescentar, ainda, o Estado Sacerdotal Judaico
(1000 a.C.) e os estados que se estruturaram como entrepostos Os dois modelos básicos de ·Estados Rurais Artesanais
comerciais da Asia Central (KÜshan, 500 a.C.), da Rússia (Kiev : ocmrtguram-se com o surgimento de unidades políticas supra-
e Novgorod, 1000 E.C.). É duvidoso o caráter dos chamados'. oomunitárias, como centros de poder instalados em cidades que
"reinos" africanos fundados aparentemente no escravismp co- · dominam populações rurais muito maiores que elas (80 a 90%
mo Ghana (século IX E.C.), Zimbabwe (século X E.C.), Malli Ili população total), dispersas no seu contorno imediato ou
(século XII E.C.), Gao (século XIv" E.C.), Congo (século XV' lllutinadas em comunidades camponesas. Estas têm sua vida.
E.C.) e Songhai (século XVI E;:.C.). Estas formações de ama- "•oiplinada por uma tradição milenar e não experimentam
durecimento mais tardio, tendo ocasião de adotar uma série li ruterações radicais que se desencadearam sobre as popula-
de desenvolvimentos tecnológicos difundidos por outras áreas, · IOt• citadinas. Nelas, as unidades familiais e a solidariedade
como a metalurgia, e de se impregnarem de valores de grandes fundada no parentesco continuam representando o papel de
tradições culturais, configuram já de forma distinta sua es- prlncipios ordenadores da vida social; a existência permanece
trutura de Estados Rurais Artesanais. fOtineira, marcada apenas pelo suceder das estações, cada uma
O terceiro processo civilizatório provocado pela Revolução ... quais as obriga a reiterar as mesmas atividades. Homens
Urbana, correspondente à expansão experimentada pelas forma- 1 mulheres trabalham, sucessivamente, na lavoura, na criação
çê)es pastoris a:rcaicas, deu lugar às Chefias Pastoris Nômades. ·.. animais domésticos e nas indústrias caseiras de fabricação

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de artefatos. Há pouca margem para a especialização, Já que torls Nômades no terror dos povos ruralizados, incapazes de
todos conhecem as técnicas produtivas básicas, não obstante ch•l'csa contra seus ataques e, por isso, freqüentemente obriga-
atribuídas segundo linhas de sexo e de idade. Tampouco · 1los a pagar-lhes tributo ou a sofrer saques periódicos e, por
lugar para a competição aberta ou para o espírito aventureiro, tlm, a se submeterem a seu domínio, mediante a substituição
e renovador. O que prevalece é antes um profundo sentimento antiga camada dominante pela chefia pastoril que os vença
de que a vida é sempre igual, de que a tradição contém todo · " 11ubjugue.
o saber, de que os bens terrenos são limitados. Ante as popu- Essas formações pastoris . na orla dos
lações das cidades, desenvolvem um arraigado sentimento de· 11:Ht11dos Rurais Artesanais, como provedores especializados de
aversão, fundado na idéia de que os citadinos são incapazes hovlnos para atrelar a arados ou a carros, de ·asnos para
de dedicar-se a um trabalho verdadeiro, vivem da exploração· 1•1u·Ka, de cavalos e camelos para montaria e para a guerra.
dos camponeses e são os culpados das desgraças desencadeadas A documentação arqueológica comprova que em princípios do
sobre o mundo rural, como as guerras e as pestes (R. Redfield '1111{tmdo milênio antes de Cristo alguns destes grupos pastoris
1953; G. M. Foster, 1964, 1965; E. Wolf 1966). J1\ dominavam a tecnologia metalúrgica indispensável à fabri-
Nas cidades nascentes começa um estilo de vida voltado rnu;ilo dos freios dos cavalos e de grande parte de sua tralha
para o futuro, pleno de elã expansionista e de ambição, infor- · 110 uso comum. Começam, então, a lançar-se sobre as popula-
mado por um saber explícito que, conquanto deificador IJl'los ruralizadas, transmudando-as étnica e socialmente e, mais
tradição, permite o cultivo de certo espírito de indagação. Uma t.nrcle, sobre os próprios centros de civilização urbana que
mobilidade social maior estimula a competição pelo controle nut.es proviam de animais domesticados ou aos quais serviam
das fontes de riqueza, de poder e prestígio, entendidas todas. c•omo condutores de tropas de animais de carga.
elas de modo mais objetivo e enfrentadas de forma prática e· Seu modo de vida, viabilizado por uma economia mercan-
combativa. Um desenvolvimento particular é experimentado por· t.11 lucrativa, fundada na exploração do crescimento natural
algumas destas estruturas, que se especializam como núcleos. 11011 rebanhos e na valorização dos animais através do adestra-
de traficantes e de guerreiros do mar. São as talassocracias. 1111111to, lhes permite uma multiplicação constante do gado e
Crescendo, colocam a serviço dos seus centros de poder marí- 11011 pastores. Seleciona o gado e os homens; a estes, pelas altas
timo vastas populações que passam a dominar ou com as quais '1XIKl\ncias de tenacidade, agilidade e resistência que a lida
comerciam, absorvendo seus excedentes. Algumas destas estru• 111rnt.oril impõe, infundindo atitudes senhoriais, bem como am·
turas alcançam grande desenvolvimento e exercem um papel lih;i'ies de riqueza e domínio que os tornariam; mais tarde, os
de dinamização do processo evolutivo só equiparável ao das. nnt.urais dominadores dos povos sedentarizados.
formações pastoris, como núcleos de difusão cultural que atuam Como se vê, a Revolução Urbana não apenas· aprofundou
através do comércio e da guerra. "" diferenças entre os modos de vida agrícola e pastoril, mas
As Chefias Pastoris Nômades, condicionadas ao atendimen-. tnnibém os contrapôs um ao outro, da maneira mais drástica.
to dos seus rebanhos transumantes, jamais chegaram a sedefü' A Interação entre estas duas formações teve um papel dinâ-
tarizar-se; apenas desenvolveram uma estratificação incipiente niko de importância capital na linha evolutiva das sociedades
e só raramente diferenciaram conteúdos citadinos. Sua rotina humanas. O elã expansionista e conquistador dos povos pas-
de vida mais uniforme, em núcleos sociais menores e mais, \orns é que compeliu muitas sociedades agrícolas a ascender
isolados, porque dispersos sobre enormes áreas, bem como. ' condição de Estados Rurais Artesanais, seja pela necessi-
seu sistema alternado de trabalho que, por vezes, exige grande dndo de defesa cont.ra seus ataques, seja por efeito de sua
esforço mas proporciona, depois, largas quadras de recupe-' dominação por hordas pastoris guerreiras. Esta conjunção teve,
ração, não dão lugar a uma estamentação rigida. A mobilidade, 1lnclu, dois efeitos cruciais. Primeiro, porque, conduzindo à
que o cavalo ou o camelo lhes asseguram, somada ao espírito auustituição de sociedades multiétnicas, fortaleceu os vínculos
aventureiro que desenvolvem, acaba por imprimir a estes po- · po11ticos em detrimento dos familiares e tribais e permitiu
vos pastores um estilo peculiar de vida e certas qualidades aomitituir amplas unidades nacionais capacitadas a expandir-se
especiais de agressividade e brio que os fazem, não apenas do modo imperialista sobre vastos territórios, através da sub-
diversos, mas opostos •ao campesinato. Esses fatores de dife-; Jul(ação e do engajamento de todos os seus povos em amplos
renciação transformaram as Hordas e, depois, as Chefias Pas- • llltemas de dominação econômica e política. Segundo, porque

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contribuiu, provavelmente, para o surgimento de sociedades merciais, guerreiras e colonialistas, é que estas primeiras so-
de modelo privatista, uma vez que, projetando as formas de ciedades privatistas de traficantes do mar puderam crescer
repartição dos rebanhos sobre as terras e sobre as populações· para empreendimentos cada vez mais ambiciosos que as fariam,
conquistadas, pôs em causa a propriedade coletiva dos campos por fim, uma das principais forças destruidoras dos núcleos
de cultivo, antes co-participada por lavradores, e, desse modo, de civilização que haviam viabilizado sua existência.
ensejou sua divisão em lotes de terras e grupos de homens para Em suas formas mais avançadas, a camada superior destas
apropriação pelos conquistadores. Mociedades privatistas pode chegar a apropriar-se das terras
A institucionalização dos Estados Rurais Artesanais faz-se do seu próprio campesinato, reduzindo-o a uma força de tra-
através de duas linhas básicas de ordenação da vida social que hnlho alienada dos seus interesses e submetida a vontades
atuam simultaneamente e em constante interação uma com a nstranhas. Como o objetivo desse domínio é obter lucros pela
outra: primeiro, a regulação da vida econômica mediante a npropriação dos excedentes produzidos pelo trabalho, o con-
institucionalização da propriedade privada ou estatal, como um Mumo dos trabalhadores tende a ser comprimido até limites
sistema de incentivo à produção de excedentes e de apropria- nxtremos. Assim, as potencialidades da nova tecnologia, con-
ção destes por uma camada minoritária; segundo, a institucio- <Ucionadas por certas formas de organização social para a pro-
nalização do poder político através da organização do Estado. <lução de bens, acabam por condenar à penúria não apenas
Os exemplos mais expressivos de Estados Rurais Artesanais 11strangeiros escravizados, mas uma parcela crescente da pró-
fundados na propriedade privada e no escravismo pessoal ·nos pria etnia nacional. E o que é mais significativo: a urna pe-
são dados pelas talassocracias. Estas surgem e se desenvolvem míria que já não decorre de imperativos naturais ou da ru-
para a exploração das possibilidades de comércio' e de guerra, ' 11lmentaridade tecnológica, mas das formas de organização das
tendendo a crescer como unidades multiétnicas de ordenação · rolações de produção, ou seja, do poder constritor de uma
social rigidamente classista. Suas populações se dividem em '. privilegiada. Esta tendência conduz algumas socieda-
categorias de homens livres, de diversas condições sociais que . <los a aprofundar o processo de estratificação até atingir a
variam conforme sua riqueza em bens acumulados, escravos e população inteira, dividindo-a numa minoria de proprietários
terras, ou sua pobreza e dependência, e numa ampla camada <llL terra, do gado e dos instrumentos humanos e materiais de
subalterna de escravos composta dos estrangeiros apresados' ' t.mbalho, e numa maioria de dependentes, transformada em
na guerra, mas na qual podem cair os antigos cidadãos livres dnsse subalterna, livre ou escrava.
que perdem seus meios de vida. O modelo coletivista de Estado Rural Artesanal funda-se
O desenvolvimento desses Estados de modelo privatista se principalmente na agricultura de regadio e na propriedade es-
deve mais a fatores externos do que a um processo evolutivo · t.ntnl da terra, controlada por um poder central de caráter
autônomo. Efetivamente, isto seria impraticável sem o amadu·; Mncerdotal e por sua burocracia, e assenta antes no avassala-
recimento prévio das sociedades com as quais puderam comer•. monto da massa camponesa através da cobrança de tributos
ciar suas manufaturas, para assim viabilizarem-se econornica·. tt de contribuições em serviço do que na escravização pessoal
mente. Um mínimo de desenvolvimento próprio era, cl1L força de trabalho. Os Estados desse modelo, embora de-
indispensável para os tornar capazes de especialização no setor:• ttlcados também às guerras de conquista para ampliar suas
manufatureiro e comercial ou para empreender façanhas como: l\rons de domínio, nelas não têm uma função permanente, ao
a construção de veleiros marítimos, que exigem a combinaçãC), oontrário dos Estados de tipo privatista que exigem um con-
de diversos materiais e uma organização de esforços só prati·.: tinuo suprimento de escravos para operar seu sistema produ-
cável numa sociedade ordenada por uma autoridade supracO: tivo. Suas camadas dominantes, recrutadas por critérios tradi-
rnunitária (F. Cottrell 1958). Seu poderio se amplia paralellli> cionais, tendem a preservar um grau mais alto de responsabi-
mente ao seu enriquecimento, porque com os mesmos veleirot lldude social para com sua própria população de camponeses
faziam o comércio e a guerra, tanto ofensiva como defensivai 1 urtesãos concentrados principalmente em pequenas aldeias.
e também porque desenvolveram os primeiros sistemas de Nos passos iniciais do desenvolvimento deste modelo de
ploração colonial-escravista que colocaram a serviço de suas · Jr.11tado Rural Artesanal coletivista, a organização da produção
classes dominantes enormes massas humanas escravizadas fora 10 faz com base nas instituições tribais de cooperação inter-
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de seus territórios. Através dessa combinação de atividades coo comunal (J. Steward 1955 e 1955b). Mais tarde, estas tendem

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a ser substituídas por formas cada vez mais imperativas de funções de planejamento, execução e controle de de
conscrição da por parte do Estado e sua buro- h1Loresse coletivo, como a construção e manutenção de redes
cracia, que crescem e se fortalecem no exercício das funções ' elo irrigação e muitos outros tipos de serviços que se vão tor-
de conscrição e de exação, à medida que se alargam os sist& 111mdo cada vez mais complexos e exigentes.
mas de irrigação. Este poderio político, ensejando, a certa . Os Estados têm suas instituições básicas conformadas prin-
altura, o empreedimento de obras cada vez mais ambiciosas, . t•lpnlmente pelo tipo de regulamentação da propriedade que
tanto destinadas ao regadio (que fortalepe o sistema econômi-. orientou sua constituição. Serão principalmente ordenações do
eo) como obras faraônicas (que o conduzem o· llllder patronal fundado na exploração econômica nas socieda-
Estado a um crescente despotismo. Estes desenvolvimentos já ' 111111 de modelo privatista, baseadas na propriedade privada e
ocorrerão, porém, no corpo de um novo tipo de formação e 1111 escravidão; e, principalmente, institucionalizadoras do poder
na fase dela. lml.ricial fundado nas funções técnico-burocráticas, nas socie-
A estrutura econômica dessas formações coletivistas, não 111\clcs de modelo coletivista, que se assentam na propriedade
incentivando uma viva competição pelo enriquecimento nos es- 11Mt.utal da terra. Ambos são reptados, porém, a cumprir um
tamentos sociais superiores, poderia levar à estagnação sócio- 111111lmo de funções gerais de preservação da ordem interna, de
cultural. Contra essa tendência, porém, atuam mecanismos pró- t1111'esa externa, de prestação de serviços, de administração e
prios de dinamização social, que conduzem também ao aumento in·ovlsão de recursos e, sobretudo, de regulamentação formal
da produtividade e à reaplicação produtiva dos . excedentes ge- ·• th\ vida social. Suas principais expressões foram alcançadas,
rados. Nessas sociedades, a tendência ao consumo conspícuc): noK Estados de modelo coletivista, através da compendiação
por parte das camadas parasitárias encarregadas de funções', t1n11 normas sociais em códigos. Esta foi uma tarefa de sacer-
públicas como agentes do poder político ou como altas hierar", d11tes que se incumbiram de ajustar a tradição às novas exi-
quias sacerdotais e burocráticas e comandos militares enseja: 1ll11cias da vida social diversificada, estatuindo em textos legais-
também um fomento das ·atividades de produção de artigos de' l'lllli.tiosos a ordem social inigualitária como uma ordem sagra-
luxo, de construção de residências e de usufruto de serviçoil:: ctlt, cujos preceitos e regras passam a vigorar em todo o âmbito
subalternos, à custa de sacrifícios crescentes das camadas do <laminação do Estado.
possuídas. Em certos casos, a exploração da massa da
lação por parte desses estratos dominantes se torna tão opres• Nesses códigos encontram-se as expressões mais clara.S dos
siva que conduz, aqui também, a insurreições camponesas; ul.JJutivos gerais da sociedade, cuja consecução cabe a todos os
como a egípcia de 2200 a.e. Entretanto, a circunstância de o u1uu.dãos, bem como das metas individuais socialmente pres-
principal fator dinâmico assentar-se mais nas disputas pel , ur1Lu.s como desejáveis, em termos de consentimentos, prêmios
poder como a fonte real de todas as regalias do que na conJ 1 a1u.nções. Neles se definem, também, as atividades ou condutas
quista do enriquecimento pessoal através de atividades prodú · raoomendadas ou proibidas e os direitos individuais salvaguar-
tivas e de intermediação, garante a esses Estados Coletivist dados. Estabelecem-se, assim, menos com fundamento na tra-
uma estabilidade social e política muito maior que a das soei ' dhJÍ\O do que nos imperativos da nova estrutura sócio-econô-
1'1 dades configuradas segundo o modelo Privatista. bllcu., as regras gerais dentro de cujo enquadramento se pro-
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A outra forma básica de ordenação dos Estados Rurai 0t1111u.m a vida social e a competição entre os diferentes estratos
Artesanais corresponde ao advento do próprio Estado, atravé h sociedade.
de um esforço de institucionalização de sistemas de govern Institucionalizada e garantida pelo Estado, a ordem social
incipientemente desenvolvidos. Este esforço processa-se com ·· &ntiiualitária, que já se implantara espontaneamente nas rela-
resposta a várias .ordens de imperativos. Primeiro, o da preser fÕt1• sociais, impõe extremos de riqueza e de pobreza, de poder
vação da solidariedade grupal e da capacidade de autodefes ..1pótico e de opressão. A igualdade dentro das etnias tribais
em sociedades internamente diferenciadas, em que o destin t a fraternidade familiar ou clânica dão lugar, daí por diante,
de cada pessoa se rege, fundamentalmente, por sua posição d 1 mutualidades e interdependências categoriais dentro de uma
classe. Segundo, a manutenção da ordem interna em socieda- nova forma de solidariedade - o vinculo cívico - e de um
des tornadas inigualitárias, o que só se torna praticável atra- trltério novo de qualificação social: a estratificação. O pri·
vés da criação de complexos serviços de controle social e de. · llMtlro, encarnando a figura étnica do grupo dominante, impõe
repressão. Terceiro, a necessidade de delegar a órgãos centrais: , IUI lingua, seus costumes, suas instituições e crenças a todos

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os povos incorporados na órbita de dominação estatal, desa- · h11lecimento de condições básicas de convívio pacifico e de
trelando-os de suas próprias tradições para integrá-los na· nova ' flf1KUrança para os mercadores que transportam grande volume
sociedade como camada subalterna chamada a uma partici- cio bens, que só podem ter lugar sob a égide de autoridades
pação parcial na vida cultural e institucional. O segundo, estra- · r1111peitadas por todos.
tificando a sociedade, torna a condição de classe muito mais A implantação da ordem interna nas primeiras áreas de
determinante do papel e do destino das pessoas do que a con- . 11:11t.ndos Rurais Artesanais de caráter coletivista constitui, assim,
dição familiar ou tribal. 11111 pré-requisito indispensável ao desenvolvimento ulterior de
O exercício das funções de poder instituidor e mantenedor riuidodades mercantis de base pastoril ou marítima. Os primei-
·da ordem social interna e de poder promotor do expansionis- .· 1·111-1 núcleos da civilização Minóica e Micênica, bem como a

mo ·étnico conduz o Estado a ampliar incessantemente seus l1't111fcia - que representaram um papel crucial na difusão dos
serviços administrativos, de controle social, de repressão e de· i1roKressos alcançados na Mesopotâmia e no Egito - constituí-
guerra. Para custeá-los, introduz .tributos que consomem par-. rnrn, por isso, desdobramentos externos daquelas civilizações.
celas ·cada vez maiores da produção, ao mesmo tempo que. O papel dos mercadores não foi, porém, meramente passi-
absorve massas crescentes de pessoas em atividades não pro-: vo neste processo. Em muitos· casos, foram eles que forçaram
dutivas, como a guerra, as edificações suntuárias e a burocracia.. A nhertura do comércio, exercendo-o como uma atividade pouco
Simultaneamente, o Estado passa a assumir novas funções· dlíorenciada da guerra, que oferecia a oportunidade· de escam-
antes exercidas por outros órgãos. A justiça deixa de ser ma-: ho como uma alternativa ao saque. No plano cultural, o trafi-
téria privativa da família ou do clã para se tornar atribuição mmto surge, sobretudo nas costas marítimas, como um agente
de especialistas. A tranqüilidade social se torna, por igual,· l11t.11rcultural desenraizado de sua comunidade de origem e ca-·
objeto das polícias estatais. Por fim, a atividade guerreira, ou- tml'lt.ado a agir intersocietariamente. As características de alie-
trora obrigação de todos os homens, passa a ser cumprida tlllçi\o que desenvolvera em sua própria sociedade, como agente
por chefes especializados e tropas permanentes, mobilizáveis suunsitário de intermediação entre setores produtivos,
não só contra inimigos externos, mas, também, contra as amea- vsnn, agora, um nível de marginalidade. Em suas formas exter-
ças de sublevação das classes subalternas. Este é um h1&11, esse estamento já não guarda lealdades étnico-culturais a
vimento inevitável nos Estados Rurais Artesanais, coletivistas 11·11po algum, senão àqueles que lhes assegurem o exercício de
e privatistas, em virtude da sedentarização dos seus campone- l\11\ função e a garantia da acumulação e fruição dos seus bens.
ses e da especialização de seus artesãos que, fazendo-os cada. Nas sociedades em que prevalece a propriedade estatal, o
vez mais inaptos para a guerra, tornam a sociedade vulnerável 11l111tndo tem como opjetivo perpetuar a ordenação social na
aos assaltos das chefias pastoris nômades, ávidas de saque e fnrmn. de uma. comunidade de co-possuidores livres e iguais,
de domínio. Todavia, o ingresso de comandos militares perma- Obrigados todos ao cultivo de suas terras, à produção artesa-
nentes. no corpo do poder estatal passa a constituir um dos nnl dentro de unidades auto-suficientes e à produção de um
principais fatores de agitação interna, em virtude das ambições txucdente de que o Estado, através de tributos, se apropria.
que suscita a existência de um poderio guerreiro autônomo
apto a apropriar-se da máquina do Estado. llnt.rotanto, a simples presença de um comando político extra-
oomunitário com funções de direção e de corpos diferencia-
Na ordem externa, cumprem ao Estado, como funções bá: do• de arrecadadores de tributos, de guerreiros e de sacerdo-
sicas, as atividades de defesa e a promoção da guerra, enquantq tu, tende a romper a estrutura igualitária, diferenciando uma
imperativos de perpetuação do domínio étnico sobre seu ter-'
ritório e, por conseguinte, da autonomia e da liberdade d eamn.da dominante, cujas pautas de consumo se enriquecem,
cidadãos, e instrumento de expansão sobre outros povos. in· •ll{lndo destacar crescentes parcelas da força de trabalho
também o Estado quem garante as condições de estabilidade paro. atendê-Ias. O Estado se corporifica, neste caso, como um
10vnrno central permanente, assentado sobre toda a sociedade,
e ordem indispensáveis ao comércio. Antes de serem alcança:
das, é impraticável o comércio entre sociedades distintas, pela· •U• opõe uma minoria dominante à massa da população in-
torporada nas classes de súditos. Esta minoria, chamada a
ausência de um mínimo de garantias aos mercadores para o·
exercício de suas funções. Ainda que, no nível tribal, se re- •roer um papel ordenador e capaz de impor-se a todos -
gistrem certas práticas de escambo, o desenvolvimento çlestas,. porque monopoliza o uso legítimo da força - acaba, também,
ao nível de intercâmbio mercantil internacional, exige o esta.:, ,. por quebrar a autonomia da unidade familiar, clânica e tribal,
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para fazer valer, sobre todas as qualidades, a de súditos de Os Estados Rurais Artesanais de modelo coletivista estru-
uma entidade política suprema implantada sobre o território. t.11 ram-se como Estado-Igreja (Leslie White 1959), regidos por
Este grupo dominante estatal é recrutado entre os antigos monarquias de base tradicional, com forte tendência centralista,
líderes de prestigio fundado na tradição e na guerra e tende 11110 concentram na figura do rei a propriedade nominal da
a perpetuar e a alargar seus privilégios através da sucessão t.11rra, a condução suprema da vida religiosa (freqüentemente
hereditária nos postos e da educação erudita de sua prole. tmla identificação do soberano com a própria divindade), o
Consegue, assim, constituir-se também numa camada privilegia- . superior da guerra e a direção da máquina burocrá-
da que estrutura o Estado, não como um poder neutro, supe- Ucu de arrecadação e de serviços. Sua organização é basica-
rior às classes sociais opostas pelo antagonismo de seus inte- : 11111nte de castas, porque, dentro desta estruturação, os corpos
resses conflitantes, mas como o poder mantenedor dos interes· 1111cluis que mais se diferenciam e impõem são a aristocracia
ses investidos, destinado a assegurar às camadas privilegiadas 1·111il, o sacerdócio, as chefias militares e a burocracia, todos
o gozo tranqüilo e a frutificação de suas regalias. Por tudo, hmdentes a recrutar seus membros por critérios hereditários
isso, também nos Estados do modelo coletivista se destaca, 1i11n os transformam em castas privilegiadas e propensas, tam-
com toda nitidez, o circulo dos poderosos, formado pela no- · lulm, a tornar a condição camponesa e artesã igualmente he-
breza hereditária, pelos chefes militares, pelas·· hierarquias sa- 1·11<11 tária.
cerdotais e pela alta burocracia, unidos todos entre si por seu Uma configuração militarista do Estado estrutura-se mais
antagonismo ante a massa socialmente indiferenciada, mas L1mliamente com o predomínio de uma hierarquia guerreira
sempre em conflito virtual uns com os outros, no esforço por q110 se impõe despoticamente sobre seu próprio povo ou sobre
ordenar a vida social do modo mais conveniente a cada 11ovos dominados, nos Estados de modelo tanto coletivista
Uma vez instituídos, os Estados tendem a uma regula- 11111110 privatista. Os Espartanos oferecem um exemplo extremo
mentação cada vez mais restritiva das atividades sociais em &t111üo modelo desenvolvido nos quadros ·de uma economia es-
termos de preservação dos interesses dos grupos dominantes.· uru vista. Outros exemplos são os diversos Estados fundados
Contra esta tendência atuam, porém, forças mais profundas; 1&1.mvés da conquista de sociedades agrícolas por chefias pas-
advindas tanto da dinâmica da oposição de interesses das di'"' tnrlR, como o período de domínio Hikso sobre o Egito ou os
versas categorias sociais quanto, e principalmente, das inovM 11:11t.ndos Kassita e Hitita da Mesopotâmia e, ainda, os domínios
ções tecnológicas que ampliam as fontes de riqueza e de poderi lni1mstos a diferentes regiões da fndia por ataques de povos
Estas forças invalidam sucessivamente as ordenações alcança.o piu1toris, bem como diversas sucessões dinásticas exercidas
das, impedindo o esclerosamento social porque forçam conti. por chefias mongólicas na China.
nuamente a redistribuição dos frutos do trabalho ou das opo Uma terceira configuração de desenvolvimento ainda mais
tunidades de exercício do poder e de gozo do prestígio soei •1mt10 é representada pelas cidades-Estados de organização de-
entre as camadas dominantes. mocrática, como as gregas e romanas dos períodos iniciais, em
Em todos os modelos de Estados Rurais Artesanais, a lu flUn .um patronato escravista integrado por mercadores, lati-
1! pelo poder entre os corpos diferenciados da camada dominan fUnd1ários e empresários de. ergasterions * participa na forma-
cria problemas de legitimação formal do regime à base fio e na condução dos órgãos de poder político. Estas socie-
concepções religiosas, militares ou cívicas, sempre discutíve dades de modelo privatista, propiciando maiores oportunidades
pela ambigüidade das tradições cd'ntraditórias em que se fun dt ascensão social ao empresariado de comerciantes e à oligar-
dam e por seu earáter de meras justificações do exercício d·· fluJa rural de grandes proprietários escravistas, alargam o es-
mando, já conquistado por um dos corpos contra os demais$ trato dominante e ensejam o de instituições
O certo é que em todos eles se registram as mesmas estrutui , dlniocráticas. Embora circunscrita ao âmbito patricial esta es-
ras básicas de poder classista. Estas, entretanto, variando d · V\lturação política se opõe, como modelo, ao caráter centrali-
acordo com o modo de recrutamento e a composição da elite: lldor dos Estados-Igreja e das dominações militaristas e enseja
dirigente, tendem a assumir a forma de Estado-Igreja, nas, 1 1ubstituição dos critérios hereditários de recrutamento dos
formações coletivistas, e a de democracias patronais-patriciais; ,lltnibros dos corpos dominantes por procedimentos mais igua-
nas privatistas; ·ambas ameaçadas permanentemente sub"
mergir sob ditaduras militaristas.

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litários e competitivos. Tais estruturas mais democráticas de ' c1tedades que primeiro se integram na nova tecnologia e pri-
poder jamais alcançaram a estabilidade dos outros modelos e · meiro experimentam sua ação renovadora. Em cada sociedade
tenderam todas as degenerar em tiranias. Assentando-se na opo- 1!0 economia agrícola ou rural-artesanal somaram-se, ao
sição irredutível entre estreitas camadas de cidadãos-proprietá- · monto demográfico tornado possível pela disponibilidade de
rios livres e a plebe, que mesmo quando livre já não é igual, nllmentos, novos contingentes, pela integração no corpo social
e a escravaria, nem livre nem igual, viram-se compelidas a · do pessoas desalojadas de outros povos através da escraviza-
criar instituições formais de controle social e de repressão que, c.il\o e a ela incorporadas por meio da deculturação e da assi-
fortalecendo as tendências militaristas, as conduziram a regi- milação.
mes ditatoriais. Combinam-se, deste modo, um despotismo es- · Através dos diversos processos civilizatórios desencadeados
sencial - exercido por toda classe dominante sobre a massa iwla Revolução Urbana - tal como já ocorrera com a Agrícola
escrava e sobre camadas livres mas empobrecidas e por isso · · cumpriu-se a redução da miríade de povos tribais diversi-
alienadas socialmente - com uma democracia de participação · rtcndos em micro-etnias,· cada qual com sua língua e cultura
limitada ao estrato patronal-patricial ou com uma tutela mili- · imculiar, a um número mais reduzido de etnias, correspondente
tar exercida em nome desse patriciado. Os traços mais carac-· " unidades políticas mais populosas. Em outros termos, as
terísticos de tais sistemas políticos decorrem da ausência de forças libertárias da nova revolução tecnológica não atuaram
uma dominação sacerdotal e de uma estamentação em castas 11os quadros étnicos das velhas formações tribais, mas através
e de desenvolvimento de camadas médias entre as populações· 1111 configurações étnicas que ela própria gerou, ao demolir
urbanas que, assegurando mais amplas oportunidades de espe' "" antigas estruturas.
culação intelectual e de debate, estabelecem condições propi- Estas etnias, alargadas como Estados expansionistas, en-
cias para que intelectuais e artistas exerçam mais livremente tmndo em conflito umas com as outras, dão lugar a novas
suas atividades criadoras. ordenações étnico-nacionais que projetam sobre áreas cada vez
Todos esses tipos de ordenação da vida política agem co- i nmts amplas seu poderio, suas línguas e seus costumes, junta-
mo um poder condicionador do progresso social, tendente a· 11111nte com a nova tecnologia produtiva. Depois de· alcançar
tudo subordinar aos objetivos de dominação dos grupos cmrto grau de expansão, mediante o domínio de diversos po-
gentes. A expansão da produtividade, que se vinha vo11, essas etnias alargadas acabam sendo abatidas pelo ataque
tando desde o alvorecer da Revolução Urbana, em conseqüêncilÍ· ctn ulguns povos que subjugaram, os quais, por via da própria
de contínuos progressos tecnológicos, passa a ser 11ominação, haviam assimilado a nova tecnologia e amadure-
uldo para a independência. Sucedem-se "idades obscuras" ou
de então por diante, aos imperativos da preservação dos inteJ.
protofeudalismos em que as relações mercantis e os vínculos
resses investidos, ou seja, da manutenção da riqueza dos ricos·• dtt rmzerania se interrompem e cada população volta a recons-
e da sua contraparte necessária, a pobreza geral. Tanto â
tituir pacientemente seu próprio ethos até que uma delas con-
disponibilidade de grandes massas de mão-de-obra submetida$. 1l11n alçar-se sobre as demais, iniciando novo ciclo expansio-
à vassalagem generalizada no modelo coletivista de Estadol; nt.ta, ou que a emergência de um novo processo civilizatório
como as disponibilidades de escravos apresados na guerra, n · ponnita interromper esses movimentos reiterativos, gerando no-
modelo privatista, desestimulam a renovação tecnológica. Pot vu formações sócio-culturais.
isso é que os progressos alcançados nos dois primeiros milê'i
nios anteriores a 3000 a.e. foram tão maiores que os Nos dez milênios em que vem atuando a REivolução Agri-
oola, e nos seis mil anos que já dura a Revolução Urbana,
mentados nos dois milênios posteriores (Gordon Childe 1946l 1lu acabaram por afetar todos os povos. Mesmo os grupos
1960; S. Lilley 1957). ;
marginais que resistem, ainda hoje, à íntegração nos estilos
Vemos, assim, que os progressos da Revolução dt vida por elas criados, sofreram profundamente seus efeitos
embora potencialmente mais libertários pela promessa de flflexos.
tura com que acenavam, representaram para a maior parte'
das populações humanas a condenação à escravidão ou à vas:: ·.
salagem, desconhecidas antes. Difundiram-se, não como meras :
descobertas técnicas livremente adotáveis por qualquer povo,
mas como forças de dominação externa controladas pelas so-

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SEGUNDA PARTE

As Civilizações Regionais

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III/A REVOLUÇÃO DO RE.GADIO

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APESAR DE suas imensas potencialidades, a Revolução
1 1 Urbana apenas propiciou, durante os primeiros milênios, a
i criação de Estados locais em disputa que se sucediam nas
mesmas áreas, incapazes de dar forma e estabilidade a uma
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! civilização regional. Seus círculos concêntricos ainda se expan-
diam sobre os espaços culturais pré-agrícolas e de agricultura
incipiente, quando uma nova revolução tecnológica entra em
curso e cristaliza uma nova formação, capacitada a constituir
as primeiras civilizações regionais.
Tal se dá com o desencadeamento da Revolução do Regadio
que provê as bases tecnológicas dos Impérios Teocráticos de
Regadio, que surgem primeiro na Mesopotâmia, corn os Impé-
rios Acádio (2350 a.C.) e Babilônico (1800 a.C.); no Egito,
com o Império Médio (2070 a.C.) e com o Império Novo (1750
a.C.); na índia, com os Impérios Maurya (327 a.C.) e Gupta
(320 E.CJ; na China, com as dinastias Chou (1122 a.C.), Chin
e Han (220 a.C.), Tang (618 E.C.), Ming (1368 E.C.) e Ching
(1644 E.C.); na Indochina, com o Império da Cambódia (600
E.C.). Mais tarde, estruturam-se nas Américas com os Maia
(300 E.C.) e, finalmente, com os Inca e os Asteca, que o con-
quistador espanhol ainda encontrou pujantes e rapidamente
1 esmagou. * O Japão emerge também para a civilização no corpo
de uma formação teocrática de regadio, inspirada no modelo
chinês, com Tokugawa (1603 E.C.).
Seus requisitos tecnológicos, institucionais e ideológicos que
se vinham acumulando, havia muito, nos Estados Rurais Arte-
sanais de modelo coletivista, configuram-se plenamente como

• Os Maia, como os Khmer, são incluídos aqui pela presença, em ambos, de


obras de controle das águas. Todavia, nenhum deles desenvolveu uma agricultura de
regadio comparável à dos demais, em parte pelas peculiaridades ecológicas das zonas
tropicais onde estas duas civilizações floresceram. Este mesmo caráter tropical e a
disponibilidade de madeiras e outros materiais de construção perecíveis é que expll·
cam o contraste entre suas majestosas edificações de centros cerimoniais e a "pobreza•
de suas cidades, carentes ou pobres de edifícios de moradia, capazes de deixar teste-
m\Ulho arqueológico.

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civilizações baseadas na agricultura de regadio, através de com- alternavam a guerra e o comércio. As, manufaturas instaladas
plexos sistemas de comportas e canais, regidos por centros no campo e nas cidades se padronizaram e, em alguns casos,
urbanos que, a seguir, se tornariam metropolitanos, como ca- se orientaram para a produção mercantil. Onde a metalurgia
beças de extensas redes de cidades. se difundiu mais amplamente, a guerra. passou a fazer-se com
Alguns desses processos civilizatórios brotaram de gesta- armas de metal e com carros de rodas reforçadas. O comércio,
ção autóctone, cumprida passo a passo, como parece ter ocorri- exigindo formas mais elevadas de troca, ensejou o surgimento,
do na Mesopotâmia e nas Américas. Outros. podem ter surgido em certas áreas, da moeda metálica.
da fecundação de um velho contexto cultural· pela adoção de
inovações tecnológicas e institucionais originalmente desenvol-
vidas em diferentes lugares. Em qualquer caso, todos se con- Impérios Teocráticos de Regadio
figuram como formações sócio-culturais tão radicalmente dife-
renciadas das anteriores e das posteriores que só podem ser No plano sócio-político, esta nova formação caracterizou-se
compreendidas como uma nova etapa da evolução humana ou pelo poderio alcançado pela organização estatal, grandemente
como o fruto .amadurecido de uma nova revolução tecnológica, centralizada e poderosamente integradora de todas as forças
a do regadio. de compulsão social, o que não ensejava qualquer oposição
Algumas destas civilizações brotaram da gestação de des- de interesses que lhe fosse inibitória. Tal concentração de
cobrimentos técnicos e institucionais desenvolvidos depois da forças foi atingida pela unificação, dentro de uma mesma enti-
sedentarização das comunidades agrícolas e de sua estrutura- dade, dos controles políticos e militares, bem como da capa-
ção em sociedades estratificadas. Dentre eles tiveram papel cidade reguladora e integradora da religião, e, ainda, pela mo-
decisivo os sistemas de engenharia hidráulica que abriram no- nopolização das atividades produtivas e comerciais. Por esse
vos horizontes à agricultura irrigada e adubada, dirigidos por mótivo, em tais formações não surgem igrejas independentes,
governos centralizados, que propiciaram um prodigioso acrés- nem empresariados privatistas que se oponham ao poder cen-
cimo da produtividade àas áreas cultivadas, com o aumento tral. Ao contrário, todos se unificam nele, cada qual contribuin-
correspondente dos excedentes alimentares. Estas disponibili- do com elementos de integração e fortalecimento do seu do-
dades não somente ensejaram novos ascensos demográficos, mínio.
mas permitiram a manutenção de grandes massas desobriga- Armados desse poder monolítico, os Impérios Teocráticos
das das atividades de subsistência, aliciáveis para outras tarefas, de Regadio se capacitam a alargar as bases de sua economia
que variavam desde a construção de grandes obras hidráulicas interna através da ampliação portentosa dos sistemas de irri-
necessárias à irrigação em alta escala até a edificação de obras gação e de defesa contra inundações e da construção de enor-

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faraônicas e as guerras de conquista. Suas contribuições tec- mes obras hidráulicas, a fomentar o crescimento das cidades
nológicas fundamentais, além da engenharia hidráulica em que através de programas de urbanização e da construção de aque-
se assentava a agricultura de regadio em alta escala, foram a dutos, diques e portos e, ainda, a edificar gigantescos templos,
generalização da metalurgia do cobre e do bronze e a· cerâmica, palácios e sepulcros, bem como amplíssimas redes de cami-
a invenção dos azulejos, de novas técnicas e ·novos materiais nhos, monumentais muralhas defensivas e enormes canais de
de construção, de novos procedimentos baseados na polia, na navegação.
prensa e nos cabrestantes e, ainda, o desenvolvimento da es-
A base econômica dessas estruturas imperiais era a apropri-
crita ideográfica e da notação numérica. Estas invenções, em ação das terras cultiváveis pelo Estado teocrático e o desen-
combinação com outros elementos, conduziriam algumas socie- volvimento de complexos sistemas administrativos de controle
dades humanas a avanços revolucionários, na linha da acelera- da força de trabalho.
ção evolutiva, e, em outras, provocariam as mais profundas
alterações reflexas, por via da atualização histórica. A primeira condição foi alcançada mediante a atribuição
ao Faraó, ao Inca ou seu equivalente, enquanto divindade viva,
O provimento das matérias-primas, sobretudo minérios, da propriedade nominal de todas as terras. Isso permitiria
tornadas indispensáveis, levou os Impérios Teocráticos de Re- intervir na rotina de trabalho dos camponeses e regular a
gadio a melhorar as técnicas de transporte por terra e por sucessão hereditária, de modo a fomentar a produtividade e
mar e impôs vínculos externos em que se combinavam e criar procedimentos regulares de apropriação, depósito e dis-
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tribuição . dos excedentes. Dentro desse sistema, as terras de se. voltam a.penas para a defesa contra invasores e para a
cultivo permaneceram entregues em usufruto às comunidades repressão interna, mas para as guerras de conquista.. Esses
locais, sem a intermediação de proprietários individuais. Mas exércitos, mesmo quando recruta.dos nas antigas cama.das do- ·
se conseguiu romper com a auto-suficiência das aldeias cam- minantes, já não se identificavam como um estrato indiferen-
ponesas e transformá-las em parcelas ativas de um sistema ciado dos demais (aristocratas, sacerdotes e burocratas), mas
econômico global. como uma entidade nova, apta a disputar o poder nas áreas
A segunda condição foi preenchida com a criação de for- conquistadas e, mais tarde, até mesmo no próprio centro im-
mas complexas de controle da totalidade da força de trabalho perial. Em conseqüência, torna-se intrinsecamente subversiva.,
e de sua direção na realização de grandes obras através de porque as estruturas de poder que compõe não dependem
um vasto corpo sacerdotal, tendente a estruturar-se como uma unicamente da fonte tradicional de legitimação do mando -
burocracia gerencial. A envergadura dos empreendimentos esta- que é de natureza. religiosa. - mas do simples uso da força.
tais e a complexidade técnica dos mesmos obrigaram este corpo Sua presença faz com que a ambição de saque que antes ani-
burocrático a especializar-se e, em certa medida, a secularizar- mava as sociedades marginais - pastoris e navegantes - con-
se, de modo a capacitar o pessoal necessário ao planejamento tagie também os grandes centros de civilização.
e à direção das obras de engenharia hidráulica, rodoviária e Desencadeia-se, assim, um expansionismo funda.do na capa.-
construtiva, à implantação de sistemas uniformes de pesos e cid!.'de dessas sociedadE)s ricas de mobilizar e armar grandes
medidas, de tributação, de medição e alocação de terras de exércitos, mas destinado, não a preencher suas condições de
cultivo, de recolhimento de excedentes de alimentos e sua dis- existência., senão a canalizar e atender às ambições de mando,
de riqueza e de prestígio de uma cama.da funcionalmente di-
tribuição, à criação de procedimentos contábeis de registro de ferenciada (J. Schumpeter 1965). Com esse expansionismo so-
bens e de sistemas de conscrição e capatazia da mão-de-obra, brevém uma série de tensões dentro da classe dominante e
ao exercício monopolístico do comércio exterior para o supri- problemas econômicos internos, conducentes à. acentuação do
mento de certas matérias-primas, como minérios, madeiras, sal, despotismo.
além da implantação de instituições educacionais de transmis- Em certas circunstâncias, o surgimento do militarismo ex-
são formal do saber tradicional e também do técnico-científico. pansionista pode ser explicado por pressões internas, de ordem
Este desenvolvimento organizacional fez crescer, ao lado demográfica, decorrentes da escassez de recursos para atender
da nobreza hereditária e dos corpos sacerdotais que original- a uma população crescente. Em outros casos, que parecem
mente se haviam incumbido destas tarefas, um vasto corpo ser os mais freqüentes, o militarismo surge como_ uma pauta
de servidores do Estado. Seu recrutamento, que de início de- de conduta advinda da subjugação dos impérios por socieda-
via proceder-se pela seleção de talentos, tendeu, depois, a cir- des mais aguerridas que, a.o integrar a classe dominante no
cunscrever-se ao mesmo círculo social, em virtude da atuação período de restauração, lhe imprimem seus antigos corpos de
de dois fatores: primeiro, a necessidade imperativa de capaci- valores (J. Stewa.rd [ed.] 1955). Isto é o que parece ter ocor-
tação dos corpos técnico-burocráticos através da educação rido com os Impérios Teocráticos de Regadio que se sucede-
mal; segundo, os impulsos de defesa dos privilégios e direitos ram na Mesopotâmia e no Império Asteca, ambos convulsio-
adquiridos por parte das camadas dominantes. A burocracia nados por um militarismo extremado. Quando o poder teocrá-
foi-se fazendo, assim, uma casta, pela sucessão dos filhos aos tico cede lugar ao militarismo, ou com ele se associa, tende
pa.Is nos mesmos postos, mediante o adestramento seletivo e a agravar-se o despotismo, pela necessidade de impor à popula-
a crescente vinculação com a nobreza e com o clero, bem ção uma economia de guerra que exige maiores sacrifícios a
como pela oposição de interesses entre todos esses estratos e todos. Nestas condições, anula-se também nas camadas domi-
o conjunto da população. nantes dos Impérios Teocráticos de Regadio o sentido de res-
Um outro elemento organizacional dos Impérios Teocráti- ponsabilidade social em relação às populações subalternas, que
cos de Regadio foi a profissionalização de uma cama.da guer- assegurava a cada camponês e até mesmo a.o cativo certo grau
reira tornada indispensável para compensar a debilidade com- do autonomia quase equivalente à liberdade, em comparação
bativa das populações agrícolas sedentarizada.s e, sobretudo, a com as formas escravistas pessoais de submissão da força de
vulnerabilidade dos sistemas de rego em face de a.taques ex- trabalho a proprietários individuais que se assenhoreavam das
ternos. Mais tarde, esses corpos militares profissionais já não terras e dos homens.

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Nos Impérios Teocráticos de Regadio, o camponês, perma- tributos e ao provimento de mão-de-obra para grandes em-
necendo, embora, jungido à terra e obrigado a sofrer a extorsão preendimentos públicos, com maior eficácia do que qualquer
dos excedentes que produzia, só encontrava acima dele, como outro setor da sociedade.
estrutura dominante, a própria comunidade solidária dentro Um exemplo do desenvolvimento extremo dessa atribuição
da qual vivia; e, num segundo plano, a burocracia real repre- aliciadora e coordenadora dão-nos os templos egípcios. Um
sentada por agentes apropriadores dos excedentes de produção, deles, ao tempo de Ramsés III (1198/1167 a.C.), atuou como
através da cobrança de tributos ou formas similares de cap- uma vastíssima empresa financiadora e administradora de um
tação de bens e de imposição de serviços forçados. Entretanto, enorme patrimônio produtivo. Contava com ·750 mil acres de
mesmo essas formas de apropriação e de conscrição encontra- terras cultiváveis, 107 mil cativÇ>s engajados no trabalho, 500
vam certa justificativa social, porque não se destinavam ao mil cabeças de gado e uma frota de 88 navios, além de 53 fá-
enriquecimento de um senhor, mas, em grande parte, ao custeio bricas e estaleiros (L. White 1959:326). A este papel econômico
de serviços públicos fundamentais, a cargo do poder central, dentro do sistema egípcio, a Igreja acrescia outras funções
como a construção e manutenção dos enormes sistemas de gerais, como as de reguladora da vida social através de corpos
irrigação, de barragens e canais, da rede de transportes, da de normas que atingiam todo individuo. Ela é que prescrevia
produção de instrumentos de trabalho, do comércio de matérias- e celebrava os ritos· que marcavam sua existência, do nasci-
primas e da guerra. O próprio luxo da camada dominante era mento à morte e para além dela e que compunha e executava
extraído das sobras dessas apropriações e constituía a forma o calendário de atividades religiosas e produtivas. Era ainda
de ressarcimento aos nobres, sacerdotes, chefes militares e ela que dirigia as instituições educativas que preparavam seu
burocratas, pelos serviços que prestavam como encarregados próprio corpo sacerdotal e os quadros superiores dos outros
do exercício de funções sociais explicitamente definidas como estratos dominantes .. Somando a seu poderio econômico e às
contribuições à manutenção do sistema global (K. Marx 1966). suas funções reguladoras o seu caráter de intermediária entre
Mesmo quando aliciados para a edificação de obras faraô- o mundo dos vivos e as forças sobrenaturais, a Igreja alcançava
nicas, como os templos e as pirâmides, o camponês e o artesão um extraordinário poder de compulsão e de disciplinamento.
estavam contribui1;1do para o culto a valores, crenças e glórias Fundida com o Estado, formava uma entidade política monolí-
que também para eles tinham sentido. Os próprios cativos tica e todo-poderosa.
trazidos de terras longínquas para trabalhar nessas obras po- O aspecto mais negativo dessa forma de ordenação da so·
diam viver juntos, criar seus filhos e preservar a lingua e os ciedade era o seu custo, representado pela manutenção do
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costumes que fossem compatíveis com a nova vida. O cativeiro corpo sacerdotal parasitário, a edificação de templos e, sobre-
dos judeus no Egito mostra-nos que estas massas avassaladas tudo, das tumbas reais que absorviam a parcela maior do exce-
não se inseriam no sistema como propriedade de senhorios dente produzido pela sociedade inteira. Avalia-se que a edifica-
individuais, mas como povos vencidos e subjugados a um poder ção da pirâmide de Cheops tenha ocupado 100 mil trabalhado-
estatal que poderia libertá-los amanhã ou fixá-los em novas res durante cerca de vinte anos. Sua alimentação e vestimenta,
terras e assim integrá-los etnicamente como parte do campesi- mesmo no padrão mais baixo, ao nível do desenvolvimento
nato e dos corpos de artesãos e soldados da macro-etnia impe- tecnológico egípcio, deve ter absorvido a capacidade de pro-
rial. Todavia, a situação dos cativos concentrados nas minas dução de excedentes de cerca de três milhões de camponeses.
e nas edificações ciclópicas, ainda que distinta do escravismo Conforme vimos anteriormente, já os Estados Rurais Ar-
individual, era a da sujeição mais despótica. tesanais haviam criado cidades diferenciadas das aldeias pre·
O aliciamento dessas grandes massas humanas para o tra- doÍninantemente camponesas, por suas funções de centros das
balho produtivo deve ter sido facilitado pelo próprio caráter atividades político-administrativas, militares, religiosas e mer-
do Estado-Igreja, polarizado em torno de reis-divindades que cantis. Com os Impérios Teocráticos de Regadio, porém, al-
outorgavam ao clero uma soma extraordinária de funções so- gumas destas cidades alcançaram categoria de metrópoles como
ciais, políticas e econômicas e atuavam em nome dos valores capitais políticas de impérios em expansão, que as transfor-
mais transcendentes. Com base na autoridade de porta-vozes mam em cabeças de amplas redes urbanas dispersas por vas-
de uma regência sagrada, os sacerdotes podiam compelir as tos territórios e em poderosos centros de criatividade cultural
massas trabalhadoras a produzir excedentes, ao pagamento de e de difusão das grandes tradições culturais de cada civilização.

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Suas populações crescem e se diversificam, tanto ocupacio- do monopólio de certas atividades econômicas, as
nalmente, pelo desdobramento das especializações funcionais, e, ainda, o crescimento dos gastos suntuános nos
quanto etnicamente, pela coexistência entre gente originária de atos de fé, como a construção de templos e pirâmides. Segun-
diferentes povos. Suas antigas funções ganham também uma do o desenvolvimento do militarismo, que fortaleceu um com-
nova dimensão, ao se fazerem grandes centros imperiais de societário capaz de impor sua· hegemonia sobre os
comércio, vinculados a extensas áreas, das quais trazem ma- demais e tendeu a deformar o sistema econômico pela expan-
térias-primas e artefatos e para as quais exportam moedas e são do poderio imperial sobre áreas não exploráveis pela tec-
manufaturas, e, também, núcleos difusores de uma nova tec- nologia do regadio, mas cuja posse era cobiçada pela existência
nologia mais avançada e de uma tradição cultural formalizada. de minérios ou para provimento de mão-de-obra cativa ou de
Nessas grandes metrópoles cosmopolitas, as camadas di- tributos.
ferenciadas de intelectuais - quase sempre sacerdotes - acres- Ambas conduziram os sistemas teocráticos de regadio à
centam à cultura societária, já bipartida num patrimônio rural decadência, por minarem as bases mesmas de sua estruturação
i.
e outro citadino, um conteúdo novo, de caráter erudito, mais social. A deterioração burocratizante é exemplificada pelos .Inca,
1 ' especulativo e já capaz de desenvolver um corpo de conhe- pela índia e pela China, onde surgem tendências à reconstru-
cimentos explícitos distintos do saber vulgar, transmitido oral- ção da economia em linhas privatistas por parte .da nobreza
mente entre a população comum. Por seus esforços desenvol- e da burocracia. A militarista se desenvolveu especialmente na
veram-se a escrita, as matemáticas, a astronomia, bem como, Mesopotâmia e em menor medida no México, mas ocorreu
pela fusão do saber erudito com as técnicas correntes de pro- em todos os impérios, a certa altura do seu desenvolvimento,
dução, a arquitetura monumental, o aprimoramento da meta- gerando tensões que- contribuíram decisivamente para se1:1 e_n-
lurgia do cobre e do bronze e, mais tarde, do ferro. Os arte- fraquecimento e quebra diante do ataque de povos marginais.
fatos de metal, que já eram um progresso em si - espadas, Assim é que, uma vez atingido certo nível de desenvolvi-
pontas de -arado, ferragens de rodas e eixos - passando a ser mento e de exploração do seu contexto, estas fonnações
utilizados como ferramentas, possibilitam a fabricação de todo líticas caíam todas em regressões feudais. Para tanto contri-
um complexo de bens materiais, como as pirâmides, os tem- buíram ainda várfos outros fatores, como o esgotamento das
plos, os palácios, as casas, os barcos, os moinhos, etc. potencialidades da tecnologia de regadio sobre terras superex-
Algumas civilizações urbanas_ fundadas na agricultura de ploradas, o desestímulo de técnicas em
regadio sobreviveram por milênios, constituindo, por isso, as virtude da disponibilidade quase ilimitada de mao-de-obra e a
formações mais estáveis que a história conheceu. Contando carência inquietações intelectuais ou o seu ?elo
com menor número de fatores dissociativos internos, em virtu- peso das tradições religiosas estatizadas, que faziam da mte:
de das caracteristicas estamentais de sua estratificação social, lectualidade um corpo de guardiães do saber sacramentado, so
puderam perdurar por longos períodos através de fases cíclicas muito raramente capaz de criatividade.
de ascensão e decadência O alto grau de integração de suas Minados por esses efeitos dissociativos, os Impérios Teo-
culturas e a centralização de suas instituições sócio-políticas cráticos de Regadio, após atingirem aos cumes. de
assegurava à população uma forte coesão social e uma solida- entraram em regressão feudal, abatidos pelas disputas no am-
riedade orgânica. Seu poder central, embora tendente ao des- bito das camadas dominantes tornadas hereditárias, pelas guer-
potismo, tirava sua força do caráter social e necessário das ras intestinas e, finalmente, ,por ataques externos que os pros-
funções econômicas que exercia como construtor de grandes travam através de séculos de feudalização, da qual apenas
obras públicas, como monopolizador da produção e do comér- podiam ressurgir para a reconstituição das antigas formas,
cio, e também da soldadura que alcançou, num mesmo corpo num esforço exclusivamente restaurador.
da ordem política com a religiosa, através da teocracia. Os ataques externos são uma _em todos o_s casos
Duas tendências dissociativas manifestam-se, porém, nessas de desmoronamento das estruturas imperiais de regadio, mas
formações_ Primeiro, o custo econômico da vasta camada pa- atuaram; provavelmente, como um fator adicional sobre civi-
rasitária, tendente a ampliar-se e a enriquecer pela acumulação lizações levadas já à decadência por um complexo de
de regalias, na forma de concessões de terras e de trabalha- dissociativas de caráter econômico-social e cultural. Seu efeito
dores para exploração privada ou de atribuição a indivíduos crucial foi sempre a perda da integração macro-étnica e da

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capacidade de autodefesa de sociedades cujas classes subalter- Ch'tan, que lhes impuseram a dinastia Liao. Depois, sob o
nas, vendo-se despojadas de tantas de suas instituições solida- ataque das hostes de Jurchen, que fundaram a dinastia Chin;
rizadoras e conscritas a um sistema de produção cada vez mais a seguir, pelo domínio mongol que deu lugar à dinastia Yuan;
despótico, deixavam de identificar-se organicamente com as e, finalmente, pela invasão mandchu que lhes impôs sua últi-
camadas dominantes e se tornavam suscetíveis de sucumbir, ma dinastia. A cada uma dessas ondas invasoras sucedeu um
quase sem luta, ante ataques externos. Esta reação passiva período de em que os invasores foram acultura-
constituiu, provavelmente, uma forma de resistência ou ao me- dos para iniciar-se um lento processo de restauração imperial.
nos de protesto das camadas subalternas contra a opressão Graças a esta capacidade aculturativa, a China· é, de todas as
a que eram submetidas. formações estruturadas como Impérios Teocráticos de Regadio
A civilização egípcia foi abatida, primeiro, pelos cavaleiros - e até mesmo de todas as altas civilizações do passado -
Hiksos, conseguindo reestruturar-se, depois, sob o comando da a única que conseguiu sobreviver conservando seu perfil macro-
chefia vitoriosa. Mais tarde, já como Império Novo, sucumbiu étnico fundamental. Seus experimentos mais recentes - como
ao ataque dos Aqueus, Líbios e Núbios, que submergiram toda as comunas populares e a Revolução Cultural - são, por isso,
a região numa regressão feudal de que jamais conseguiu re- em grande medida, uma retomada de antigas instituições so-
I' cuperar-se (Gordon Childe 1934; L. White 1959; R. Turner 1963). ciais e um novo enfrentar de velhas ameaças de despotismo
As civilizações de regadio da Mesopotâmia tiveram uma burocrático que arrostou sem sucesso, através de milênios (K.
existência ainda mais agitada, sofrendo sucessivos ataques de Wittfogel 1964; O. Lattimore 1940; Zaburov 1960).
grupos Arios, Kassitas e Hititas, Citas e, finalmente, dos Me- As civilizações de regadio das Américas jamais defronta-
dos e Persas. Restauraram-se várias vezes após esses ataques ram tensões desta ordem, exceto os mesa-americanos, por parte
e os mergulhos correspondentes no feudalismo. Sob cada nova
chefia estrangeira experimentaram profundas transformações dos Chichemecas; mas foram afinal abatidas pela expansão
étnicas, mas conservaram sempre as bases tecnológicas e os mercantil salvacionista dos espanhóis (J. Steward 1955a e 1955b;
mesmos princípios estruturais, até que estes também foram E. R. Wolf 1959).
afetados, já no curso de um novo processo civilizatório que Muitas das afirmativas sobre o caráter supostamente es-
transfiguraria os povos mesopotâmicas (G. Childe 1934; R. tacionário e despótico das civilizações fundadas no regadio se
Braidwood 1952). baseiam, sobretudo, na observação destas sociedades depois
A civilização do regadio da fndia sofreu ataques dos Arios, de mergulhadas no feudaHsmo. K. Marx (1955 e 1966), por
dos Sakas e Hunos e de diversos outros grupos tártaro-mon- exemplo, caracteriza essas formações como essencialmente es-
gólicos que a mergulharam também em sucessivas feudaliza- tacionárias, com base em dados referentes à fndia e à China
ções, de que conseguiu restaurar-se algumas vezes para cair, do século XIX. K. Wittfogel (1955 e 1964), para caracterizá-
por fim, num longo período de estagnação feudal. As últimas las como intrinsecamente despóticas, engloba na categoria de
invasões responsáyeis pela restauração dos povos do Indus e "soéiedades asiáticas" muitas formações que nada têm de· co-
do Ganges e sua : incorporação em novos processos civilizató- mum com as civilizações fundadas no regadio.
rios foram, primeiro, a Irânica, que resultaria no Sultanato Nenhuma destas conceituações resiste à crítica, quando se
de Delhi, a Tártara, que lhe imporia a regência Timurida, so- considera o vigor social e a criatividade cultural dos Impérios
mando ambas quase seis séculos de dominação, e, finalmente, Teocráticos de Regadio no clímax de amadurecimento das suas
a britânica, que subjugaria a fndia por um século e meio potencialidades de desenvolvimento; quando se pondera que
através de um processo colonial de atualização histórica, con- a alternativa da forma de contingenciamento da força de tra-
duzindo o povo hindu ao subdesenvolvimento em que se debate balho que utilizavam, naquela altura da evolução sócio-cultural,
até nossos dias (M. Wheeler 1962; S. Piggot 1950; A. J. Toyn- era a escravização individual associada à propriedade privada da
bee 1951/64). terra, muito mais alienadora e despótica; quando se admite
As civilizações chinesas experimentaram uma pressão cons- que elas, como todas as civilizações, são suscetíveis de cair na
tante dos povos do seu contexto, principalmente dos grupos feudalização com perda de sua integração macro-étnica, de sua
pastoris euro-asiáticos da Alta Asia, sob cujas chefias sucum- estrutura política e da vitalidade de seu sistema econômico,
biram quatro vezes. A primeira, pela dominação dos bárbaros afundando numa condição regressiva que não pode ser atri-

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buída a qualquer das formações de que se originaram, porque
é ·característica da própria feudalização; e, sobretudo, quando
se conta com outras categorias conceituais para classificar as
fonnações realmente despóticas, nenhuma das quais se baseou
principalmente no regadio ou é explicável como um desenvol- IV/A REVOLUÇÃO METALúRGICA
vimento de suas características.

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A EXPANSÃO dos Impérios Teocráticos de Regadio se
viu restringida p,or uma limitação essencial: a inviabilidade de
generalizar a irrigação sobre as áreas conquistadas, em virtude
das exigências ecológicas que lhe são inerentes. Nas áreas pro-
picias à irrigação, tendiam a implantar sua tecnologia básica,
mediante programas de colonização ou da transladação de po-
pulações que acabavam por incorporar-se à etnia dominadora.
Onde ó regadio era inviável, apenas puderam exercer uma do-
minação débil.
Entretanto, a tecnologia desenvolvida pelos Impérios Teo-
.1.
cráticos de Regadio, uma vez aprimorada e aplicada a sistemas
produtivos novos, pôde florescer e expandir-se amplamente,
atingindo extensas áreas e revolucionando o modo de vida de
inúmeros povos. Seu impacto foi tão profundo e seus efeitos
renovadores tão radicais que, a nosso juízo, cumpre tratar
esta expansão como uma nova revolução tecnológica, a
lúrgica, responsável pela configuração de uma nova formação
sócio-cultural: os Impérios Mercantis Escravistas.
Sua base tecnológica consistiu, essencialmente, na genera-
lização e no aprimoramento da metalurgia, do ferro forjado
para a fabricação de ferramentas, armas, machados,· pontas
de arado, rodas e eixos e partes metálicas de embarcações, e
ainda da moeda cunhada, dos carros de transporte e de guerra,
dos barcos mercantes e de guerra, do alfabeto fonético e da
numeração decimal. A estes elementos, tomados de outras for-
r.;1ações e transfigurados pela nova, ela acrescentou máquinas
hidráulicas, moinhos movidos a água, o aqueduto, a nora, a
mó rotativa, cabrestantes e gruas, bem como os faróis ma-
rítimos.

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Os Impérios Mercantis Escravistas de cada Império Mercantil Escravista multiplicam-se as manu-
i 11 faturas organizadas como ergasterions: serrarias, carpintarias
Os Impérios Mercantis Escravistas, como desenvolvimentos e marcenarias; estaleiros, metalúrgicas e caldeirarias; olarias e
dos Estados Rurais Artesanais de modelo privatista, caracte- cerâmicas; vidrarias, curtumes; e oficinas de ourives, selei:os,
rizam-se pela institucionalização da propriedade individual da correeiros, sapateiros, onde dezenas e até centenas de artesaos,
terra, pelo incentivo à liberdade de comércio e pela mais na sua maioria escravos, produziam artigos padronizados para
ampla generalização do apresamento de prisioneiros de guerra comércib.
'1'
i
para convertê-los em escravos pertencentes a senhorios indi- As potencialidades da formação mercantil escravista só se
i viduais. São modelos característicos desta ,formação, em sua manifestaram incipientemente na civilização assíria e aquemê-
'1,
maturidade, a civilização Assíria (século XII a VII a.C.), a nida. Sua antiga economia de mercadores e sua expansão
Aquemênida (século VI e IV a.C.), a Helênica (século V a sé- guerreira de saque levaram-nas apenas a uma
culo I a.C.); a Cartaginesa (século VI a II a.C.), a Romana de tipo mercantil escravista em que começava a predommar
(séculos I a.e. a IV de nossa era) e a Bizantina (séculos VI a propriedade privada e a conscrição da força de trabalho
a X de nossa era). Entre elas registram-se grandes diferenças, através da escravidão.
nos históricos, que decorrem das tradições Expressões superiores dessa formação seriam alcançadas
culturais que haviam herdado e das vicissitudes particulares com a civilização grega, a expansão colonialista cartaginesa
que enfrentaram. Todas estas civilizações são, porém, variantes e, sobretudo, o Império Romano. Estas últimas, começando
de uma mesma formação sócio-cultural fundada na escravidão pela ampliação e multiplicação de cidades-Estados regidas por
da maior parte da mão-de-obra e no fomento do colonialismo patronatos de comerciantes, proprietários de terras agrícolas
mercantil. e de escravos, acabaram por estruturar-se em vastos sistemas
Armados da tecnologia desenvolvida na mesma ·área ou unificados pela guerra e integrados pelo comércio. Após largos
alhures, essas formações estruturam-se de forma oposta aos períodos de amadurecimento como cidades dominadoras dos
impérios fm:idados no regadio. Com a técnica do ferro forjado, territórios rurais circunvizinhos, fundadas na igualdade de sua
que se podia produzir em qualquer parte pela ampla distri- camada patrícia, todas elas se entregaram ativamente à fun-
buição do minério e a simplicidade do processo produtivo dação de colônias externas, na Europa e na África. Aí con-
generalizam-se os instrumentos de metal. Torna-se com centraram mão-de-obra escrava apresada na guerra, instauran-
possível abater as florestas para abrir extensas áreas de cultivo do os primeiros ergasterions • e plantations destinados a pro-
dependentes das chuvas, menos produtivas por unidade-área duzir alimentos e manufaturas para exportação. Configurou-se,
do que a agricultura de regadio, mas passíveis de expandir-se assim, um mercado internacional ativado por uma economia
por am?líssimas regiões. Os mesmos efeitos foram alcançados monetária e uma cultura erudita que se desenvolveram simul-
no apnmoramento dos veleiros marítimos e dos carros de taneamente em várias cidades. O passo seguinte foi a disputa
transporte e de guerra. A escrita fonética, facilitando a alfabe- entre estas cidades-Estados por áreas externas de dominação,
tização, permitiu recrutar uma intelectualidade numerosa e que abriu o caminho para a constituição dos Impérios Mer-
independente do sacerdócio, ensejando a ampliação de todos cantis Escravistas.
os conhecimentos. A moeda cunhada, dando lugar à economia O caráter mercantil escravista do novo sistema econômico,
do dinheiro, alargou extraordinariamente os horizontes do co- conduzindo a uma radicalização das formas de ordenação so-
mércio externo. Todos estes desenvolvimentos associados cria- cial, levou ao extremo as guerras de conquistd. e apresamento
ram um tipo de sociedade mais livre que estimulava façanhas
aos tipos empreendedores, amplas opor- • A palavra grega erga.terton indica manufaturas. ou "fábricas• em que eram
reunidos, desde dezenas até mais de uma centena de trabalhadores, principalmente
turudades de ennquecimento. escravos, para produzir ceràmica, vidro, ferramentas, armas, móveis, etc., como
mercadorias destinadas ao comércio. Os ergastertons, que foram os predecessores,
r · · · · -· O principal incentivador desse processo foi a economia muito rudimentares, das fábricas modernas, se destinavam a produzir
" mercantil que, por terra e por mar, vinculava centenas de certas categorias de bens com base na concentração da mão-de-obra especializada,
comunidades, levando a cada uma delas as necessárias trans- por vezes com utilização de lmplementos mecânicos, tais como: tomos de oleiro,
moinhos rotativos de traçãq animal, rodas e marteletes hidráulicos, etc. Demóstenes,
formaçõe.s internas para saltar da produção de subsistência o célebre orador ático, é conhecido também como *industrial" proprietário de dois
para a produç:.ão de artigos de troca. Nas principais cidades erga.stertons, um ocupando 20 escravos para produzir móveis; outro utilizando 32,
1 para tabr1car escudo& <V. Gordon Chllde 1937; Mu Weber 1964, vol. 1:99).
1,

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de escravos para prover :mão-de-obra, bem co:mo a competi- Reagindo contra esta ameaça, na Grécia como em Roma apela-
ção interna pelo enriquecimento, estimulada pela economia se para um superestatismo legiferante e para regimes ditato-
de dinheiro. Em Atenas e em Roma, as massas de escravos riais. Em vão. O sistema alcançara os limites supremos de suas
alcançam quatro quintas partes da população, e concentrações potencialidades, gerando contradições insanáveis e mergulhan-
e percentagens ainda maiores nas colônias externas, distribuí- do, também, em regressão feudal.
das por todo o contorno europeu e africano do Mediterrâneo Dada a flexibilidade do caráter mercantil do seu empre-
(G. Childe 1946; K. Marx 1966). sariado, a aplicabilidade de suas técnicas produtivas a qual-
A racionalização dos procedimentos econômicos alcança, quer ambiente e o poder compulsório do seu sistema de cons-
também, desenvolvimentos assimiláveis, liquidando com as so- crição da força de trabalho, os Impérios Mercantis Escravistas
brevivências das formas comunais de propriedade (ager pu- atuaram como centros difusores de cultura muito mais dinâ-
blicus) e com as últimas instituições reguladoras fundadas no micos que os Impérios Teocráticos de Regadio. Ao engajar no
parentesco. Este, de classificatório - que designava os pa- seu sistema de produção escravos tomados a todos os povos
rentes colaterais e lineares com os mesmos nomes, formando dominados e concentrá-los nos núcleos metropolitanos, decul-
grandes categorias de pessoas solidárias - transforma-se em turaram e aculturaram essas massas escravas, mas também
descritivo-, que distingue com termos especiais os parentes li· alteravam a composição étnica de sua própria gente e geravam
neares, restringindo a estes o âmbito da solidariedade lamiliar tensões sociais que terminaram por inviàbilizar o próprio sis-
e da herança. Mais tarde, dão-se novos passos neste caminho
de racionalização da conduta, através da secularização de uma tema. "Ao difundir, através do comércio e da guerra, suas téc-
série de setores antes regidos por critérios religiosos e da nicas produtivas e militares sobre amplos contextos externos,
individualização das relações sociais. Institucionaliza-se a usura, aceleraram o amadurecimento de outras etnias, suscitando
cria-se a hipoteca sobre a terra e com ela a escravização por ambições de saque que terminariam por vitimar a eles mesmos.
dívida; legaliza-se o regime de herança de bens através de Ao colonizar povos próximos ou distantes, mediante a explo-
testamento. Por fim, o empresariado se torna hegemônico em ração escravista, também os incorporavam intrinsecamente à
todos os setores, colocando os poçleres do Estado a seu serviço. sua civilização, assimilando cultural e lingüisticamente alguns
A minoria rica torna-se, assim, cada vez mais .Poderosa, e deles como variantes da macro-etnia imperial, mas, simultanea-
as massas subalternas, livres ou escravas, cada vez mais, mi- mente, amadurecendo estes e outros como aspirantes à eman-
seráveis, agravando as tensões sociais até limites extremos. cipação. Desencadeiam-se, em conseqüência, movimentos insur-
Legaliza-se o direito de o cidadão vender-se a si próprio e recionais que, ativando a escravaria e os "proletariados exter-
aos filhos, o que vem a ocorrer com certa freqüência nos pe- nos", criam condições para a sua reconstituição como etnias
ríodos de penúria; generaliza-se a prática de submeter os deve- capacitadas ao comando de si mesmas.
dores à servidão temporária e até mesmo a do apresamento Assim, no auge de sua expansão, o Império Romano, como
de cidadãos da mesma etnia, nas guerras entre cidades, para tantos outros Impérios Mercantis Escravistas, atingia também
fazê-los servir como escravos. Simultaneamente, escravos liber- o ponto extremo de fraqueza, porque se configurara como uma
tos, enriquecidos no comércio especulativo, se fazem senhores, macro-etnia genérica, por dentro e por fora da qual evoluíam
estabelecendo como critério de qualificação social, acima da núcleos étnicos cada vez mais coesos e vigorosos. Quando às
condição de plebeus ou de cidadãos, a condição de ricos e rebeliões escravas se somavam os ataques desses povos ao
pobres. A cidadania, que fora uma função pública geral que
centro reitor imperial, sua destruição se tornava inevitável.
fazia de todos os patrícios cogovernadores de sua cidade, Esfacelava-se, assim, todo o conjunto numa multiplicidade de
responsáveis pela justa condução da vida social e política,
se dilui, tornando-se uma condição generalizada e irresponsável. componentes feudais, em que se perderia a maior parte dos
A cidadania romana, antes limitada aos descendentes das anti· progressos técnicos e culturais alcançados.
gas linhagens, generaliza-se a toda a camada não servil. Nestas Na derrocada dos Impérios Mercantis Escravistas tiveram
novas condições, intensificam-se as tensões sociais e as disputas · papel detonador da maior importância certas Chefias Pastoris
entre cidades-Estados que se haviam aglutinado em impérios, Nômades, parcialmente herdeiras da Revolução Urbana, que;
até que o últímo deles, superestendido a ponto de cobrir todas em virtude de condições especiais - ecológicas e culturais
as terras conhecidas, esgota as potencialidades do sistema. - se fizeram produtoras e consumidoras de instrumental metá-

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lico sem se fazerem agricultores sedentários. Nestas condições Dentro desses contextos feudais de várias origens, todos
não perderam sua antigas qualidades guerreiras; pelo contrário, regres.sivos pela liquidação dos sistemas mercantis e políticos
ativaram-nas até níveis extremos de audácia e combatividade. que antes integravam e que ativavam suas economias, os an-
Estes povos extra-imperiais, etnicamente coesos em tomo tigos escravos se convertem em colonus, pagadores de foro
de suas chefias, e irresistivelmente atraídos pelas riquezas pelo uso da terra e, finalmente, confluem para constituir o
acumuladas pelos povos cêntricos, é que deram o golpe de campesinato feudal, transformados todos em servos de senho-
misericórdia na velha formação mercantil-escravista, exausta de rios locais ou em artesãos citadinos amparados por corpora-
sua civilização, incapaz de novas crenças integradoras, com ções. Esta transição do escravismo à servidão opera-se menos
suas massas dependentes de escravos e de camponeses livres como uma evolução resultante da luta dos· ·escravos contra
rebelados contra a sujeição despótica a que eram submetidas. seus senhores do que em virtude da deterioração do sistema
Aqui também, a desvinculação entre as classes subalternas econômico anterior, em que os escravos representavam papel
e os estratos dominantes contribuiu para tornar a sociedade fundamental como produtores de bens para o comércio. Nas
incapaz de defesa. A mesma passividade que se registrou nas condições de estagnação feudal, em que as cidades caem sob
camadas dependentes das formações fundadas no regadio, tam- o domínio de potentados rurais e quase toda a economia se
bém incapazes de automobilização contra invasões externas, é toma local e auto-suficiente, do ponto de vista de um senhor,
que parece constituir uma forma generalizada de. protesto dessas pouca diferença representa uma tal transição. Na realidade,
classes contra o despotismo. Não podendo por si mesmas troca-se o escravo, que já não produz mercadorias vendáveis
subverter o sistema, deviam ver na irrupção de guerras uma e deve ser alimentado e vestido, por servos atados à terra, que
forma de ruptura da dominação oligárquica que lhes ensejaria pagam tributos em bens ou em trabalho e se mantêm a si
melhores perspectivas do que a simples perpetuação do sistema. mesmos. Acresce, ainda, que a escravaria, desgastando-se ra-
Na Europa, toda a soberbia romana desaba diante da au- pidamente no trabalho, exige uma reposição constante através
dácia de um punhado de bárbaros que, somando menos de de guerras de conquista, impraticáveis na economia fechada de
meio milhão, assolaram, venceram e avassalaram 80 a 100 mi- senhorios isolados.
lhões de europeus e africanos romanizados. Estes bárbaros, A feudali:zação da Europa pós-românica processa-se median-
nada tendo a dar à civilização dos povos que dominaram, por- te duas rupturas fundamentais. Primeiro, a do sistema impe-
que sua vitória só se baseava em serem Herrenvõlker, acaba- rial de .poder, coalhado em milhares de feudos impotentes
ram por inserir-se no que restava da' velha formação. Seus para aglutinar seu contexto numa estrutura política duradoura.
chefes se fizeram as aristocracias e realezas das antigas pro- Segundo, a do sistema de intercâmbio mercantil externo, que
vincias imperiais; seus guerreiros transformaram-se em massas só subsiste como atividade marginal e semiclandestina dos
sedentarizadas de camponeses ou em novos contingentes de que negociavam com árabes, judeus e sírios, ou que transacio-
artesãos citadinos. Muitos deles se romanizaram lingüistica- navam com moedas orientais. Rompidas a atividade mercantil
mente e todos se romanizaram culturalmente. e a unidade política imperial, outras regressões se processam,
Nem as formações teocráticas de regadio nem as mercan- como a reversão dos latifúndios agrícolas em terras de uso
tis-escravistas, ao se extinguirem, inauguram um novo proces- comum e em bens eclesiásticos. Os artigos manufaturados que
so Civilizatório, mas simplesmente se afundam na estagnação se produziam com mão-de-obra es<;:rava são substituídos por
feudal divididas por miríades de pequenos potentados locais, produção doméstica a cargo das mulheres de cada família.
incapazes de produção mercantil e de comércio externo, entre- Deste modo, o artesanato, que já se havia urbanizado, desgar-
gues a uma simples produção de subsistência e condenadas a rando-se da agricultura como uma especialização, torna a fun-
gestos -meramente passivos de defesa contra ataques externos. dir-se com ela. Só muito lentamente voltam os ofícios a se
Vemos, assim, que as macro-etnias podem ser rompidas pela organizarem nas cidades decadentes, estruturando-se como grê-
própria expansão imperial, quando incorporam mais povos mios tendentes ao exercício do monopólio, e a se tornarem he-
do que podem atualizar historicamente e assimilar. Perdida a reditárias as profissões.
coesão étnica dos antigos núcleos imperiais e quebrada a sua _ Como efeito maior de todas essas regressões, a estratifica-
unidade política, finda também sua condição de existência çao social anterior, ativada por uma intensa mobilidade social,
como civilização. dá lugar a uma estamentação da sociedade em estratos conso-

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lidados, com tendência a se hereditarizarem. Na cúpula situa-se que vieram a ser, depois dos grandes castelos do feudalismo
a nobreza de sangue descendentes de invasores bárbaros, nascente, as únicas criações arquitetônicas da Idade Média.
transformados em proprietários de feudos. Como seus serVido- Sua riqueza cresce sem cessar pela monopolização das terras
res mais destacados seguem-se o clero e os vassalos, de onde e dos rebanhos, pela ampliação das áreas de cultivo em poder
se recrutam os corpos de senhoriais mais predis- das abadias, pela gerência das únicas obras capazes de propor-
postos a préli?s desportivos do que a guerras. Abaixo, encontra- cionar empregos e pela rapacidade dos mosteiros e das ordens
se a populaçao urbana, de pequenos mercadores e artesãos religiosas. Simultaneamente, vai-se constituindo na grande for-
estes últimos segmentados em mestres, oficiais e aprendizes' ça ordenadora da vida social, fundada agora não no igualita-
divididos por ofícios e dedicados à produção para um rismo do cristianismo primitivo, mas numa rígida estamentação
local de trocas. Na base da pirâmide social situam-se os cam- social e no culto do conformismo, da disciplina e da obediência.
poneses, presos à gleba, como servos ou dependentes. O siste- O feudalismo pós-romano, como os demais, em virtude
ma econômico passa a atuar para manter e reproduzir esta de seu próprio caráter desaglutinador de áreas antes integra-
mesma composição social; regida por um corpo de instituições das política e economicamente, favorece um convívio humano
destinadas a perpetuá-la. menos despótico. As comunidades camponesas têm, provavel-
• Nesse mundo feudal, agitado apenas por novas invasões, mente, oportunidade de comer mais, de vestir e de morar me-
como as muçulmanas, por guerras religiosas e por disputas lhor do que sob o guante dos impérios despoticamente estru-
entre nobres, acaba por implantar-se a paz da estagnação. A turados para arrancar-lhes todos os excedentes e para recrutá-
velha civilizaçâo romana que nele se dissolvera transforma-se los como soldados. Nas cidades, cujas populações se reduziram
numa mera tradição, tal como havia ocorrido antes com os drasticamente, os artesãos encontram meios de desenvolver
Teocráticos de Regadio quando caíram, também, em uma economia corporativa, menos· sujeita à espoliação e ao
regressao feudal. Sua única força integradora será, de então abuso do que os antigos ergasterions greco-romanos. Liberados,
por diante, uma religião herdada de um dos povos do contexto uns e outros, do poder de conscrição das grandes estruturas
imperial romano que, no esforço por explicar o drama de sua econômicas e político-religiosas do passado, não têm chance de
própria dominação, redefinira suas concepções tribais, fazendo- lançar-se a grandes façanhas, mas podem, por isso mesmo, viver
'' 1

uma existência tranqüila, ainda que apagadª' e sem grandeza.


as mais inclusivas.
11!
,1
Assim, um grupo minoritário, detentor de uma fé conso- Todavia, a ausência de um poder central com capacidade
:111
'
ladora de suas aflições, que não reconhecia privilégios étnicos para impor a todos unia ordenação social integrada enseja
nem graduações sociais, mas era capaz de falar aos homens surtos de banditismo de estrada e práticas de saque de que
passam a viver multidões de celerados, protegidos por senho-
'I' de uma destinação mais nobre que a mera existência, se faz
herdeiro do ·mundo greco-romano feudalizado, tal como outras res feudais que só dessa forma encontravam oportunidades
minorias religiosas - os budistas, os confucionistas e os hin- de enriquecimento. E, sobretudo, a sociedade e a cultura se
duístas - alcançam a mesma dominância sobre diferentes mediocrizam, tornando-se incapazes de criatividade intelectual

1 contextos igualmente submersos no feudalismo (A. J. Toynbee,


Esta reintegração religiosa interna não consegue, to-
davia, restaurar, senão episódicQ. e mediocremente, os antigos
o de progresso técnico. Nesse ambiente apenas floresce a teo-
logia, compendiação de diversas fontes de saber e como espe- ·
culação autolimitada sobre a verdade revelada (M. Bloch 1939/
40; N. Berdiaeff 1936; A. Pietre 1962).
iz:ipérios, nem impedir que as etnias subjugadas, mas ainda
vivas, entrem .a retramar novos ethos que, fundindo as antigas
tradições com as dos invasores bárbaros, conformarão novas
configurações· étnico-nacionais.
A Igreja Católica converte-se paulatinamente na grande mo-
nopolizadora da vida econômica, organizada já não como um
sistema mercantil, mas como um duplo sistema de apropriação
dos poucos excedentes gerados, mediante a cobrança de dízimos
e a obtenção de legados e doações, e a distribuição desses
bens na "política de misericórdia" e na edificação de catedrais

116 117
cultural. o que ocorre com o amadurecimento da Revolução
Pastoril que, armando alguns povos até então atrasados na
história com uma nova tecnologia militar, lhes permitiria atà-
car áreas feudalizadas de altas civilizações e resistir à assimila-
V/A REVOLUÇÃO PASTORIL ção pelo povo conquistado, para configurar uma nova forma-
ção sócio-cultural totalmente distinta das anteriores: os Impé-
rtos Despóticos Salvacionistas.
Este novo processo civilizatório configura-se, originalmen-
te, como uma nova onda de expansão pastoril, fundada princi-
palmente na aplicação da tecnologia do ferro à cavalaria de
guerra. Seus elementos mais assinaláveis foram: a sela de mon-
taria, dotada de estribos que deram maior segurança e mobi-
NO ESTUDO das revoluções tecnológicas já examinadas, lidade aos ginetes; a ferradura, que prolongou a vida útil dos
vimos sucederem-se diversos processos civilizatórios. Com a animais e lhes permitiu enfrentar qualquer terreno; os freios
Revolução Urbana desencadeiam-se os movimentos responsáveis de ferro sob o comando de rédeas que possibilitaram uma
pelo advento dos dois modelos divergentes de Estados Rurais direção firme e segura.
Artesanais e pela assunção das Hordas a Chefias Pastoris Nô- A estas inovações se acrescentaram mais tarde, no corpo
mades. Com a Revolução do Regadio cristalizam-se os Impérios das formações despóticas salvacionistas, diversos aperfeiçoa-
Teocráticos de Regadio. Em correspondência à Revolução Me- mentos no sistema de tração dos animais de tiro, que multi-
talúrgica, surgem os Impérios Mercantis Escravistas. Cada um plicaram sua força útil livrando-os da sufocação jugular dos
destes processos civilizatórios se pôs em movimento e ressurgiu velhos colares. Um destes foi um sistema de fixação dos va-
em diferentes regiões e em épocas diversas, ativando a vida rais em selas e, depois, a introdução do arnez rígido. Outras
de milhares de povos, elevando alguns ao nível de altas civili- contribuições técnicas difundidas no mesmo ciclo foram os
zações individuafizadas em estruturas imperiais e a outros alambiques e, sobretudo, os novos modelos de moinhos eólicos
apenas atualizando historicamente como objeto de dominação o hidráulicos, aplicáveis a elevações d'água, à moagem de ce-
alheia. rcais e à prensagem de sementes oleaginosas, e mais tarde ao
No curso de cada processo civilizatório singular - como martelamento de minérios e de metais, ao acionamento de ser-
o teocrático de regadio na China e nas Américas ou o mer- ras e de foles, bem como a outros dispositivos. Dentre esses
cantil escravista no Irã e na Europa - diversas civilizações progressos tiveram caráter crucial, na etapa expansiva, os que
se ergueram, viveram seu destino e decaíram, mergulhadas em revolucionaram a cavalaria de guerra e armaram os guerreiros
regressões feudais. Sobre suas ruínas, novas civilizações se le- de espadas e lanças mais eficientes; e, na etapa de
vantaram, assentes na mesma tecnologia básica e estruturadas das novas formações sócio-culturais, a propagação das novas
segundo os mesmos princípioi>, imprimindo-lhes coloridos pe- formas de utilização da energia muscular animal com atafonas
culiares, mas incapacitadas de alterá-los substancialmente. Os o almanjarras aperfeiçoadas para as tarefas de aração da terra
povos de cada uma dessas civilizaçc•es, mesmo depois de aba- o de transporte e de aplicação da energia dos ventos e das
tidos por ataques externos terrivelmente destruiclores, r,caba- correntes d'água a serviço do homem.
vam por absorver, assimilar e aculturar os agressores, restau- As primeiras dessas inovações tecnológicas exerceram um
rando, sob a chefia deles, suas formas e.>senciais de expressão efeito vitalizador sobre antigas Chefias Pastoris Nômades que
cultural. Vale dizer que, no âmbito de cada processo civili- se estavam integrando na tecnologia do ferro forjado, permi-
zatório, a sucessão de civilizações é meramente reiterativa do tindo-lhes enfrentar os sistemas defensivos de sociedades mais
mesmo tipo básico de formação sócio-cultural. desenvolvidas. Essas novas Volkerwanderung, porém, já não
Só no corpo de um novo processo civilizatório, fundado caem sobre impérios regionais para afundá-los no feudalismo
numa nova revolução tecnológica, se torna possível o advento o ressurgir dele cult'uralmente transfiguradas como novas aris-
de um outro tipo de civilização, representativo de uma nova tocracias reiteradoras das antigas formas de civilização. Atacam,
etapa da evolução humana e de uma nova formação sócio- agora, áreas feudalizadas para · as dinamizar e integrar numa

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posição do masdeísmo missionário. Estruturam o Império Sas-
formação totalmente distinta de todas as anteriores. Estes
riam os Impérios Despóticos Salvacionistas, estruturados segun- sànida com base num Estado sacerdotal, numa burocracia que
do princípios ordenadores novos em que representava um papel executava a exação fiscal sobre as populações subjugadas, ao
crucial um corpo de crenças religiosas de caráter messiânico. mesmo tempo que combatia as heresias, e num sistema agrí-
Essas crenças passam a operar não mais como força integra- cola assentado na concessão provisória de terras e de aldeias
dora de unidades societárias desagregadas pela estratificação camponesas a uma nobreza guerreira que permanecia, assim,
social ou como instituições reguladoras da vida social em áreas na dependência do poder central.
feudalizadas, mas como forças aliciadoras de todas as energias Um expansionismo salvacionista mais maduramente confi-
étnicas de suas populações para a destinação sagrada de im- gurado se alçaria no século VII com o Islamismo, que mobilizou
por ao mundo a verdade divina de que eram depositários. A ns energias dos povos pastoris da Arábia e do Irã para lançá-
essa missão divinal aliam-se, naturalmente, os interesses eco- los como os cruzados do maior movimento religioso de con-
nômicos em que importava sua transformação em senhorios quista que a história registra. Sua inspiração básica era o ve-
de um mundo reordenado de conformidade com a palavra de lho espírito de saque de terras e de bens das hordas pastoris
seus profetas. u que se somava, agora, um sentido de destinação sagrada,
Aquela tecnologia nova de cavalaria de guerra e esta arma- formulado por Maomé. A doutrina maometana, recolhida no
dura ideológica os transformaria, de simples saqueadores da · Alcorão, sintetizava antigas tradições judaicas, helênicas e ira-
riqueza entesourada por outros povos ou exploradores de so- nianas, redefinindo-as como uma nova religião universalista,
cied,ades rurais artesanais sedentarizadas, em guerreiros inven- orientada mais do que qualquer outra para o salvacionismo
cíveis e em reformadores incandescidos de fúria sagrada. Nestas do conquista, como expansão da glória divina.
circunstâncias, o inimigo. deixava de ser visto como o objeto O · Isfamismo se configura, assim, como um credo
de saque do guerreiro vitorioso para ser tido como o ímpio, nico que põe mais empenho na expansão do domínio de Alá
cuja só existência ofendia a Deus. Os povos pastoris, dinami- :-;obre todos os povos e terras do mundo do que no esforço
zados por este novo processo civilizatório, lançam-se, assim, missionário de converter almas para salvá-las da perdição. O
sobre o mundo circundante, com todo o seu antigo vigor de próprio paraíso é descrito bizarramente como o jardim de re-
guerreiros que adestravam seus cavalos e a si próprios para pouso do guerreiro divinal. Conseqüentemente, não desenvolve
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as façanhas mais ousadas, robustecidos pela missão de salva- um Estado-Igreja assentado num corpo sacerdotal profissiona-
dores, destinados a erradicar do mundo a impiedade e a heresia. lizado. Estrutura-se pela fusão, numa mesma unidade, do siste-
ma político e do religioso, através da atribuição a cada homem
válido de uma destinação de cruzado subjugador de povos
Os Impérios Despóticos Salvacionistas infiéis, de colonizador das áreas conquistadas e de braço divi-
nal impositor da a Alá.
A primeira destas expansões salvacionistas, incipiente ainda Este espírito de missão divina, armando de fúria sagrada
pela incapacidade de formular um culto universalista, dinami- os guerreiros árabes muçulmanos, fez com que arremetessem
zou um conjunto de povos irânicos, os Persas Sassânidas, trans- todas as direções como uma avalancha diante da qual su-
formando-os em instauradores de um vasto império que domi- cumbiram inúmeras sociedades feudalizadas. Infundiu-lhes tam-
nou por séculos (III a VII E.CJ. o Irã e a Mesopotâmia e bém a capacidade de resistir à amalgamação cultural em con-
se estendeu até a 1ndia, e em propagadores da religião mas- textos mais evoluídos, como ocorrera antes com os antigos
deísta que se alastrou até a China. O masdeísmo, fundado nos invasores pastoris. E, sobretudo, incutiu-lhes o vigor necessá-
ensinamentos de Zaratustra (Zoroastro dos gregos), cuja dou- rio para estruturar os povos conquistados em imensos sistemas
trina fora compendiada no Avesta ao tempo da dominação imperiais despóticos integrados numa nova ordem moral, fun-
aquemênida, só alcançou o caráter de religião do Estado e de dada na palavra do Profeta.
movimento messiânico salvacionista com os Sassânidas. A partir
do primeiro quartel do século III E.e., eles se expandem Em poucas décadas, o domínio muçulmano se alastrou por
pela Asia Menor com extraordinário vigor, num movimento quase todo o Oriente Médio e daí para o Oeste, sobre o Norte
de restauração das antigas tradições irânicas; de erradicação da Africa, as ilhas mediterrâneas e a península ibérica; e para
da influência helenística então dominante na região; e de im- o Leste, sobre a Alta Asia, sobre a índia e, para além dela,

120 121
sobre a Indonésia e a Indochina. Seu domínio se estenderia, No preparo dessa burocracia, apelaram largamente para
mais tarde, por outras áreas, penetrando profundamente, de sua experiência original de pastores nômades, sistematizando
um lado, na Africa Tropical, do outro, na Eurásia e nos con- as práticas de adestramento de animais para aplicá-las a ho-
fins do Oriente. Estas últimas ondas seriam conduzidas por mens escravizados. Para tanto, capturavam crianças nas áreas
povos islamizados, como os turco-mongólicos que, a certa al- conquistadas, selecionando-as inicialmente pelo vigor físico, e
tura, se colocam no centro do expansionismo muçulmano como as encaminhavam para casas-criatórios, onde um meticuloso sis-
sua força mais diâmica. tema de treinamento, de prêmios e de punições, explorava as
Através de ondas sucessivas implantá-sé o Islã (isto é, potencialidades de cada peça. Através desse procedimento, sus-
submissão incondicional) sobre uma área muito mais extensa citavam o máximo de ambição e de espírito competitivo, levando
que a de qualquer civilização imperial anterior, com uma ca- seu adestramento a níveis extremos (A. J. Toynbee 1951/64).
pacidade de permanência também muito maior e com um Esta forma despótica de preparação de quadros, assenta-
poder de assimilação de povos e de aculturação compulsória da num recrutamento tão ampliável quanto se desejasse e numa
jamais atingido antes. Seu domínio sobre a Ibéria, como Cali- disciplina educativa inalcançada por qualquer outro processo,
fado de Córdoba, se estendeu de 750 a 1350; sobre a índia se permitia formar castas de funcionários e de guerreiros de
prolongou por seis séculos, primeiro como Sultanato de Delhi uma eficiência a toda prova. Se, por um lado, desumanizava
0300 a 1526), depois como Império Timúrida (1530 a 1705). e alienava seus componentes, a alguns deles ensejava carreiras
Mesmo quando caem, posteriormente, em regressão feudal, tão brilhantes que, entre as populações dominadas, se desen-
deixam transfigurados os povos que haviam dominado, tanto volveu antes uma competição pelo ingresso nestas casas do
os do Oriente Próximo e do Norte da Africa como os da Africa que uma oposição ao sistema.
Tropical ou da Eurásia, modelando uma das mais vastas con- Por esse processo obtinham-se escravos superespecializados
figurações histórico-culturais modernas, que engloba mais de para o exercício das funções mais díspares, como eunucos -
300 milhões de pessoas. guardiães de haréns - artesãos, conselheiros políticos, sábios
No curso de sua prodigiosa expansão, os povos islamiza- e altos funcionários capacitados a atuar como fiéis exatores
dos, originalmente pastoris e de cultura rudimentar, foram do seu sultão, que podiam chegar a exercer funções de grão-
avançando culturalmente até amadurecerem como uma alta vizires. As casas-criatórias produziam, porém, principalmente,
111:
civilização. Sua localização intermédia entre grandes centros guerreiros superadestrados, que se celebrizariam na história,
l'I' : de antigas civilizações os fez herdeiros e transformadores do fixando os conceitos de janízaros, de sipaios e, sobretudo, de
patrimônio cultural de muitas delas e, depois, civilizadores do mamelucos. Estes podiam alcançar os mais níveis de
Oriente e do Ocidente. Através da construção de vastas estru- poder e de riqueza, mas permaneciam sempre presos ao seu
turas de domínio imperial e de sujeição religiosa, atuaram estatuto de escravos, como peças possuídas por seus senhores,
como agentes de um dos mais vigorosos processos civilizató- que através deles exerciam seu domínio.
rios, cuja capacidade de atualização de povos atrasados na Esses corpos de agentes superespecializados da domina-
história para a modernização tecnológica, social e ideológica ção islâmica permitiram manter por séculos um poder de ou-
só teria paralelo no curso da Revolução Mercantil e da Revo- tra forma impraticável para simples guerreiros incandescidos
lução Industrial. de fúria sagrada: Após a conquista e o saque, cumpria organizar
Seus mecanismos essenciais de expansão e aculturação· com- as novas possessões, civilizar a gente, inclusive os seus próprios
pulsória foram a cónquista, seguida da dominação mais despó- soldados e os descendentes destes. Esta tarefa de organização,
tica, a. colonização escravista, a doutrinação religiosa e a mis- bem como a colonização e introdução de novas técnicas pro-
cigenação racial. Atuaram, freqüentemente, através da elimi- dutivas, exigindo outras habilita,ções além do elã combativo,
naçã.o dos estratos dominantes das subjugadas e sua impuseram a criação e o aperfeiçoamento de edu-
substituição por uma nova camada de caráter burocrático. cacionais, a partir da tradição irânica das casas-criatórios. Es-
Esta era integrada inicialmente por guerreiros, aos quais se tas experimentam, assim, um grande desenvolvimento, até se
atribuía o controle e exploração de extensas áreas; mais tarde, configurarem como um procedimento generalizado de formação
por corpos de funcionários cuidadosamente preparados para o de quadros militares e administrativos. Napoleão ainda encon-
exercício da dominação político-militar e das funções adminis- traria o Egito dominado por uma casta mameluca que se auto-
trativas de organização econômica e de arrecadação de rendas. perpetuara após a queda do Império Otomano.

122 123
Por todas estas características é que essa formação sócio- te Próximo, encerrando-se, assim, o primeiro do expan-
cultural deve ser tida como despótica e como salvacionista. sionismo salvacionista cristão europeu.
A primeira qualificação vem sendo utilizada impropriamente, O Império Bizantino (1025-1453) remodelou-se também se-
desde os estudos clássicos até os modernos, para definir o gundo o padrão despótico-salvacionista, em virtude de ter de
chamado "despotismo oriental", ou seja, as formações de re- enfrentar o desafio islâmico, na qualidade de centro. de afirma-
gadio. Embora se encontrassem nelas, como nas demais, ele- ção e expansão cristã-ortodoxa no Oriente. Neste caso, alcançou-
mentos de despotismo, só com "os Impérios Despóticos Salva- se um grau de integração mais alto que as tentativas européias
cionistas esses· elementos alcançam expressão que justifique <Império Carlovíngio), porque os imperativos de defesa contra
utilizá-los como traço diagnóstico de uma formação. árabes, iranianos e turcos fortaleceram o Estado imperial mili-
A influência dos Impérios Despóticos Salvacionistas se es· tarista em face da sedição dos senhorios locais, impossibili-
tendeu para além das suas áreas de domínio direto, através da tando a refeudalização. O preço desta polarização foi, parado-
difusão do patrimônio tecnológico que haviam desenvolvido e xalmente, a estruturação da sociedade bizantina como formação
dos seus padrões de ordenação sócio-política. Mas se impôs, despótico-salvacionista, primeiro cristã-expansionista, depois islâ-
sobretudo, em virtude da polarização dos povos contra a amea- mica, quando os otomanos se instalaram em Constantinopla.
ça de seus ataques. Desta polarização temos exemplos expres- A partir de então amadureceram plenamente suas característi-
sivos nos esforços frustrados de rompimento do feudalismo cas despótico-salvacionistas.
europeu, através do advento do Sacro Império Romano-Ger- Em todas as áreas de dominação dos Impérios Despóticos
mânico e do surto das Cruzadas, e na militarização da socieda- Salvacionistas implantou-se uma mesma ordenação básica. Suas
de bizantina e sua cristalização imperial como resposta inelu- linhas gerais foram, em primeiro lugar, a prática da concessão
tável à hostilidade islâmica, inicialmente árabe-irânica, depois do usufruto vitalício, mas não transmissível, da terra aos ven-
turco-mongólica. Uma e outra acabam por se estruturar, tam- cedores das guerras de conquista, transformada, mais tarde,
bém, como formas incipientes de Impérios Despóticos Salva- em propriedade livremente alienável. Segundo, a concessão às
cionistas. Com o Império Carlovíngio, a Europa experimenta, mesmas camadas das funções de exatores dos impostos impe-
por um breve período, ·uma dinamização desse tipo, para de riais sobre a terra e ás pessoas. Terceiro, a adoção do escra-
novo mergulhar na desintegração, por força dos interesses vismo e da servidão, quer na forma pessoal greco-romana, para
feudais que prevalecem sobre seu elã de cruzados. u exploração mineradora ou agromercantil, quer na forma
Novos esforços de revitalização salvacionista tiveram lugar da servidão russa, que vinculava o camponês à gleba e fazia
entre os séculos X e XIII, com o movimento das Cruzadas, recair sobre ele uma taxação per capita. Quarto, uma ativação
que representou a primeira forma de expansão européia-oci- do comércio externo livre, ainda que sujeitando os mercadores
dental. Fora impulsionado, porém, mais pela ambição de con- u controles estatais e a confiscas. Quinto, o desenvolvimento
quista e enriquecimento dos senhores feudais franceses e da de um artesanato produtor de artigos de luxo e de armas de
burguesia nascente das cidades italianas do que pelo elã sal- guerra, através da criação de grandes manufaturas, freqüen-
vacionista. Assim, ao chamamento papal para as Cruzadas, não temente estatizadas. Sexto, a instalação de empresas monopo-
correspo"ndeu um chihad - a guerra santa dos muçulmanos Usticas oficiais mediante concessões imperiais para explorar
- mas tão-somente uma irrupção messiânica. Milhares de certos ramos produtivos. Sétimo, a implantação de um vasto
camponeses europeus abandonaram os feudos e se puseram sistema cartorial de recenseamento e controle da população
em marcha com suas mulheres e filhos rumo à Terra Santa, das áreas dominadas e de arrecadação de tributos, freqüente-
desorganizados e inermes co;mo um exército maltrapilho que mente através de leilões· e arrendamentos da atribuição de
se mantinha da mendicância e ·da pilhagem. Só mais tarde as cobrar taxas e impostos.
Cruzadas se organizam como empreendimento guerreiro mer- Com a estabilização do seu domínio, esses impérios, como
cantil mais· disciplinado e eficaz. Mas então seu motor funda- os anteriores, foram conduzidos, primeiro, à decomposição, por
mental já era ·a conquista de antigos domínios muçulmanos efeito das disputas entre sultanatos e chefias de diferentes
que haviam entrado em feudalização. Despertos por esses ata- origens étnicas; depois, à feudalização, pelo revigoramento do
ques, os muçulmanos reagiram, liquidando prontamente as poder local dos proprietários rurais, dos concessionários de
colônias militares implantadas pelos cruzados em todo o Orien- monopólios e dos arrendatários da arrecadação de tributos,

124 125
em preJmzo do poder central. A medida que se acentuavam
estas forças dissociativas, debilitava-se também o elã salvacio-
nista, fazendo prevalecer uma crescente tolerância religiosa.
Sua raiz estava no empenho pelo aumento das rendas oficiais,
tendentes a cair com a conversão religiosa devido à liberação
dos novos fiéis do pagamento de certos tributos. Todavia, a
TERCEIRA PARTE
ausência de um inimigo externo capaz de desafiar seus exér-
citos supertreinados permitiu, mesmo aos sultanatos desgarra-
dos e passíveis de feudalização, sobreviver por séculos, man-
tendo sempre um grande poder de compulsão sobre suas áreas
de domínio. As Civilizações Mundiais

'I' '

126
1

i !

VI/A REVOLUÇÃO MERCANTIL

NO CORPO dos Impérios Despóticos Salvacionistas se


foi desenvolvendo uma tecnologia produtiva e militar que al-
cançou o nível de uma nova revolução tecnológica nos albores
do século XVI, fazendo amadurecer duas novas formações
sócio-culturais: os Impérios Mercantis Salvacionlstas e o Capi-
talismo Mercantil.
Tal foi a Revolução Mercantil, fundada numa nova tecno-
logia da navegação oceânica, baseada no aperfeiçoamento dos
instrumentos de orientação (bússola magnética montada em
balancins, o quadrante, a balestilha, o astrolábio, cartas celestes
e portolanos, cronômetros e outros) e de navegação (as naus
o caravelas, a vela latina, o leme fixo, as carretilhas e os barcos
de guerra). Baseava-se, por igual, na descoberta de procedi-
mentos mecânicos, como as bielas-manivelas, os eixos-cardan,
etc., e numa nova metalurgia revolucionada com a descoberta
de processos industriais de fundição do ferro, de laminação
do aço, de trefilação de arames, de fusão de novas ligas me-
tálicas e de produção de artefatos com tornos de rosca e
mandril e com máquinas de talandrar, afiar e polir metais.
Baseava-se, também, na · renovação das artes de guerra com
armas de fogo aperfeiçoadas - canhões, morteiros, espingardas
- que em terra permitiram enfrentar a mobilidade das ca-
valarias armadas de arcos e lanças que haviam prevalecido no
último milênio e, no mar, criaram a artilharia naval. Baseava-
se, por igual, na generalização de outras técnicas, como mo-
delos aperfeiçoados de moinhos de vento de cabeça móvel e
de rodas hidráulicas horizontais impulsionadas pela força da
gravidade, aplicáveis para acionar foles siderúrgicos, martele-
tes, serras, afiadoras e outras máquinas. Baseava-se, ainda, na
instalação de fábricas de papel, de tipografias para a impressão
de livros com tipos móveis, bem como na produção de ins-
trumentos óticos. Algumas combinações dessas técnicas, como
a do veleiro com canhões, tiveram efeitos extraordinários, per-

129
mitindo o domínio da terra a partir do mar e abrindo, desse lombo, se expande, a partir dai, por todo o continente ameri-
modo, amplas perspectivas para a estruturação de talassocra- cano e implanta, também, domínios coloniais e feitorias no
cias de novo tipo. Extremo Oriente.
Esta tecnologia nova, desenvolvida quase exclusivamente A Rússia, como extremidade oriental da Europa, estende-
nas áreas de dominação dos Impérios Despóticos Salvacionis- se sobre a Eurásia continental, acabando por chegar também
tas, é que possibilitou a primeira ruptura real com o feuda- à América com a ocupação do Alasca, nos confins do seu ter-
lismo - agora não mais por ataques· externos de povos pas- ritório. Por essas expansões simultâneas, .é a Europa que ex-
toris, mas de dentro de áreas feudalizadas, e não mais apenas plode lançando as bases da primeira civilização mundial. Mas
para reiniciar outro ciclo restaurador, mas para implantar novas é também a Europa mais islamizada, feita herdeira tanto das
formações sócio-culturais que seriam as primeiras civilizações inovações tecnológicas como dos princípios institucionais do
de base mundial. ·· patrimônio muçulmano.
As potencialidades da nova revolução tecnológica realiza- Ambas haviam experimentado séculos de ocupação islâmi-
ram-se através de dois processos civilizatórios sucessivos, em- ca e tártaro-mongólica. A Ibéria, bastião ocidental do domínio
bora nitidamente correlacionados. O primeiro, com o advento mouro, vinha intensüicando as lutas pela Reconquista desde o
e a expansão dos Impérios Mercantis Salvacionistas, através século XIV, mas só a completou no ano da descoberta da
de guerras de reconquista de territórios dominados por Impé- América. Esta guerra de emancipação, extremamente destruido-
rios Despóticos Salvacionistas. O segundo, pelo .amadurecimen- ra, copduzida sob a direção do Papa e do Rei, custou-lhe tantos
to de esforços seculares de restauração da Europa feudalizada, sacrifícios que no seu decorrer toda a sociedade se transfigurou
que resultaram na instauração do Capitalismo Mercantil. Am- para servir a esse. propósito, tomado obsessivo. As ordens re-
bos tiveram de peculiar, em relação a todos os anteriores, seu ligiosàs se tornaram mais ricas e mais poderosas do que a
caráter mundial, expresso tanto na sua projeção geográfica nobreza, diferenciaram corpos especiais de sacerdotes guerrei-
sobre a Terra inteira quanto na sua capacidade de estancar o ros e a Igreja Católica se fez herdeira de boa parte da terra
desenvolvimento paralelo de outros processos civilizatórios. reconquistada aos infiéis. A associação das monarquias ibéri-
cas com o Papado alcançou um nível de quase fusão quando
se juntaram os recursos econômicos e o salvacionismo de
Os Impérios Mercantis Salvacionistas Madri -com o empenho anti-reformista de Roma. Nessa conjun-
e o Colonialismo Escravista tura, a Ibéria consegue do Papa o titulo de domínio exclusivo
sobre todas as terras que se descubram para além de uma
Os Impérios Mercantis Salvacionistas surgem na passagem linha imaginária; e a monarquia espanhola obtém os privilé-
do século XV ao XVI em duas áreas marginais - tanto geo- gios de erigir e dirigir a Santa Inquisição através de sacerdo-
gráfica quanto culturalmente - da Europa: a Ibéria e a Rússia. tes intermediários; de cristianizar o gentio com a qualidade de
Ambos .tiraram, das energias mobilizadas para a reconquista "vigários apostólicos" investidos da condição de "patronato
de seus territórios ocupados por árabes e por tártaro-mongóis, universal"; e até o direito de cobrar os dízimos e outras ren-
a força necessária para as façanhas da sua própria expansão das da Igreja que seriam ressarcidas depois pela Coroa.
salvacionista. Assim se estabeleceu uma estrutura de poder aristocrático·
A Ibéria, como península avançada sobre o Atlântico, lança- clerical que regeria, daí por diante, os destinos dos povos
se à conquista e à subjugação de novos mundos no além-mar. - ibéricos. Entretanto, com a vitória sobre os núcleos islâmicos
Portugal, que vinha explorando a costa africana desde o co- da Ibéria também se destrói o sistema agrário que haviam
meço do século XV, descobre sucessivamente o Cabo Verde e implantado com base numa agricultura de regadio de alta
a Costa do ouro, contorna o Cabo da Boa Esperança e, afinal, tecnologia e que permitira manter, por séculos, densas popu-
estabelece a rota marítima para a tndia. Subjuga, a seguir, a lações mesmo nas zonas mais áridas. A medida que os novos
costa ocidental e parte da oriental da tndia e de Malaca. Ocupa senhorios aristocrático-clericais se apossavam das antigas áreas
Aden e Ormuz, interceptando a antiga via das especiarias. intensamente cultivadas, transformavam-nas principalmente em
Apodera-se do arquipélago de Sonda, da Indochina e do Brasil. pastagens para a criação de ovelhas, fazendo com que a penúria
A Espanha, atingindo as Antilhas com as expedições de Co- sucedesse à antiga fartura. Multidões de camponeses foram

130 131
'1
: ! enxotados e reduzidos à mendicância e a própria população sias, quase todos os setores intermédios de artesãos, pequenos
entrou a diminuir drasticamente, tanto no campo como nas granjeiros e comerciantes, compostos principalmente por "cas-
cidades. Nem todo o ouro saqueado da América, nos séculos tas infiéis". A destruição desse estrato social fez cair imediata.-
seguintes, foi suficiente para compensar este retrocesso (J. mente o nível técnico das atividade_s agrícolas e manufatureiras
Klein 1920). e desmontou o sistema nacional de intercâmbio mercantil que
relacionava e integrava as diversas esferas produtivas, contri·
A causa fundamental desse recuo estava, porém, na pró- buindo decisivamente para tornar a Espanha, e depois Portu-
pria configuração de Império Mercantil Salvacionista que a gal, inaptos para a Revolução Industrial.
península ibérica assumiu ao instrumentar-se para a Reconquis-
ta. Assim estruturada, a Ibéria capacitou-se para absorver e A Rússia, ao expandir-se, assume uma feição mais despó-
generalizar a tecnologia da Revolução Mercantil e para se fazer, tica que salvacionista. Mas é movida, igualmente, pelo elã cris-
desse modo, uma das matrizes do capitalismo. Mas não conse- tianizador, expresso na assunção do papel de terqeira Roma,
guiu configurar-se, ela própria, como uma formação capitalista na integração do patriciado de Moscou no Czarismo, no esforço
mercantil. Em conseqüência, passou a perder substância quando secular de cristianização das populações do seu território, no
entrou em intercâmbio com formações maduramente capitalis· caráter místico da religiosidade russa, na expansão numérica
tas, em virtude do caráter arcaico e defasado de sua estrutura do seu clero - só comparável ao da Ibéria - na intolerância
sócio-econômica. religiosa que explodiria, mais tarde, nos pogroms.
A Rússia moscovita amadureceu seu perfil étnico-nacional Na ordenação sócio-econômica dos dois impérios prevale-
a partir do estágio de Estado Rural Artesanal, sob a pressão ceram os princípios do mercantilismo de inspiração despótico-
do domínio tártaro-mongólico. Sua própria classe dominante oriental sobre os princípios do capitalismo nascente. Assim é
cresceu e enriqueceu no exercício da função de coletora de que, nas duas áreas, acima de um empresariado burguês-
tributos para a Horda de Ouro. Quando conseguiu finalmente capitalista, disposto a enfrentar a nobreza e o clero, se im·
emancipar-se, depois de décadas de luta que ali também exigi- plantou uma vasta burocracia cartorial controladora do poder
ram a mobilização de todas as energias nacionais, configurou- político-militar e arrecadadora de tributos. A expansão dos mo-
se como uma formação defasada, igualmente incapaz de pro- nopólios estatais sobre diversos setores produtivos se generaliza
mover um desenvolvimento capitalista pleno. e prepondera em relação às empresas privadas, sujeitas conti-
A configuração cultural nos dois Impérios Mercantis Salva- nuamente à interferência governamental. Em ambos os casos,
cionistas surgiu, assim, profundamente impregnada por elemen- o Estado-empresário explora minas e fábricas, estancas de sal,
tos tomados das tradições despóticas salvacionistas que haviam de fumo, de diamantes, o comércio externo e muitos outros
dominado seus povos ao longo de séculos e por inovações setores; arrecada tributos e distribui regalias e títulos nobiliár·
surgidas em razão da oposição àquele domínio. No plano quicos. Com os recursos apresados em todas essas fontes,
ideológico, fazem-se movimentos messiânicos de extensão da martém vastíssimos corpos sacerdotais, subvenciona a cons-
Cristandade, como cruzados extemporâneos. A Ibéria, com um trução de inumeráveis templos, custeia as máquinas militar e
fanatismo religioso só comparável ao dos primeiros impulsos administrativa que atuam como vastas agências de clientelismo,
muçulmanos, conforma os capitães da conquista como híbridos absorve os prejuízos operacionais da economia e sustenta uma
de traficantes e de cruzados; e se lança, com igual furor, à enorme camada parasitária.
das heresias do seio de suas próprias populações, Os Impérios coloniais ibero·americanos, estruturados como
atraves da flagelação dos suspeitos de impiedade, das festas contraparte desta formação mercantil-salvacionista, por via da
públicas de cremação de hereges e da expulsão de centenas atualização histórica, conformar-se-iam nos moldes de um novo
de milhares de mouros e judeus que haviam podido viver na Colonialismo Escravista, inserido dentro de um sistema eco-
península ao longo de séculos sob o domínio sarraceno. nômico unificado e interativo. Não se configuram, portanto,
Este êxodo, concebido pela classe dominante como uma como etçi,pas pretéritas da evolução humana, mas como partes
extraordinária oportunidade de enriquecimento pelo confisco complementares de um mesmo complexo que tinha como cen-
e rateio dos bens de judeus e muçulmanos, resultou também tro dinâmico as potências ibéricas e, como áreas periféricas e
num retrocesso econômico da maior gravidade. Efetivamente, como "proletariados externos", as populações concentradas nas
o que se conseguiu foi erradicar da Ibéria, junto com as here- colônias. As semelhanças flagrantes entre o colonialismo escra-

132 133
vista ibérico e o greco-romano ou cartaginês explicam-se metais preciosos. Perde, a.Ssim, os altos níveis de qualificação
_ serem todos oriundos de processos de · atualização tecnológica e de saber erudito que havia alcançado, para mer-
gerados por diferentes civilizações, do que como res- gulhar numa cultura espúria.
tauraçoes de etapas necessárias da evolução humana. Nas outras áreas americanas restaurou-se o escravismo
Os procedimentos fundamentais de dominação das colônias greco-romano em sua forma mais crua. Primeiro, pela escra-
das Américas foram: a erradicação da antiga classe vização dos indígenas locais e, mais tarde, desgastados estes,
dominante local, a concessão de terras como propriedade lati- pela transladação de enormes massas de negros da Africa para
fundiária aos conquistadores, a adoção de formas escravistas as plantations e para as minas, onde seria também consumida
de conscrição da mão-de-obra e a implantação de patriciados a maior parte deles.
burocráticos, representantes do poder real, como exatores de Criou-se, deste modo, uma enorme força de trabalho es-
impostos. Nas áreas dos impérios teocráticos de regadio da cravo, de cuja capacidade de produção, nas condições mais
Mesa-América e do Altiplano Andino, onde se concentravam espoliativas, passaram a viver espanhóis e portugueses <Eric
contingentes de mão-de-obra, condicionados já à Williams 1944).
ciplma do trabalho, a escravização se institucionaliza sob a Este foi o maior movimento de atualização histórica de
forma de mita e de encomienda de serviços. Nesta forma de povos jamais levado a efeito, mediante a destribalização e
os índios eram entregues em usufruto à exploração deculturação de milhões de índios e negros e seu engajamen-
mais desumana. Justificava-se e disfarçava-se o sistema, porém, to em novos sistemas econômicos, na qualidade de camadas
e:n nome do_ zelo pela salvação eterna do gentio, pela atribui- subalternas. Atuando através da colonização escravista e do
çao da funçao de catequistas aos encomenderos. Mais tarde despotismo salvacionista, criaram-se condições superopressivas
a enc?mienda progride para uma forma de tributo pagáveÍ de compulsão aculturativa que, com a destruição de milhares
em dmheiro que os indígenas só podiam obter trabalhando de etnias, o desgaste de milhões de trabalhadores._ e a desqua-
nas minas e nas terras, sob as mais penosas condições. Para lificação dos setores técnicos e profissionais especializados dos
que este regime de escravização, ainda mais opressivo e insi- povos conquistados, incorporaram os neo-americanos às macro-
dioso, pudesse funcionar, os caciques foram transformados em etnias hispânica e lusitana, como um vasto "proletariado ex-
aliciadores da· força de trabalho válida das comunidades indí- terno" de simples trabalhadores braçais, para sobre esta massa
genas para entregá-la à exploração dos encomenderos como indiferenciada e degradada infundir as características essenciais
condição para que os velhos sobreviventes e as criancas pu- dos seus futuros perfis étnico-nacionais. O poder deculturador
dessem continuar nas aldeias (Sergio Bagu 1949 e 1952). e aculturador desse processo de atualização histórica foi ainda
maior que o dos processos equivalentes de romanização e de
Sob este sistema as populações dos antigos Impérios Teo- islamização, como se constata pela uniformidade lingüística e
cráticos de Regadio foram tão drasticamente reduzidas que a cultural dos povos americanos, muito mais homogêneos, em-
depopulação das colônias chegou a preocupar seriamente a bora numérica e espacialmente maiores, do que as populações
Coroa. Temia-se, agora, o desastre econômico que poderia re- da própria península ibérica e de qualquer outra área do
presentar a perda daquela escravaria barata, porque custara mundo.
apenas o preço da conquista, e aparentemente inesgotável Em toda a Ibero-América, a Igreja revivia o papel e a
porque montara a milhões. Flagelada pelas pestes com que função que exercera no medievo europeu, tornando-se a maior
europeu a contanúnou e desgastada sob o peso do trabalho monopolizadora de terras, de índios encomendados e de ca-
a população indígena minguava em proporções tão pitais financeiros aplicados em hipotecas. As fontes desse en-
que ameaçava desaparecer (H. F. Dobyns e P. Thompson 1966) riquecimento eram as contribuições diretas da Coroa a título
e era sucedida por uma nova casta de mestiços resistentes à de dízimo, as doações, os legados, as reservas de direitos -
tendentes à rebeldia e sem lugar na estratificação capelania, mão morta - e também a extorsão inquisitorial que
societana de estamentos raciais. Além de desgastada numeri- recaía como um flagelo sobre os suspeitos de heresia, confis-
aquela população se via degradada pela contingência cando-lhes todos os bens familiares e fazendo saldar de ime-
de servir como mera força de trabalho que não existia para diato todos os futuros direitos de herança e todos os créditos
si própria, mas como produtora dos poucos artigos que inte- que tivessem em mãos de quaisquer devedores (H. C. Lea
ressavam à economia colonial e, sobretudo, como extratora de 1908; B. Lewin 1962; S. Bagu 1949 e 1952).

134 135
I'
1

11

A expansão russa processa-se com vigor muito menor e mengas e holandesas e, mais tarde, na Inglaterra e na Espa-
conforma-se aos padrões da formação despótica de que emer- nha, primeiro para o. mercado interno e, posteriormente, para
ge. Assim é que a concessão das terras conquistadas e dos os de ultramar. À medida que cresciam os mercados, estas
antigos latifúndios convertidos em oprichnina e redistribuídos manufaturas se transformavam. Assim é que foram ascenden-
pelo Czar não se faz como propriedade privada, mas como do, progressivamente, de simples ajuntamentos de artesãos
pronoia, que representava, essencialmente, a atribuição à nobre- possuidores de seus instrumentos de trabalho e financiados
za e ao clero do privilégio de cobrar tributos ao campesinato por um a unidades maiores, com divisão interna
servil. Quando estas concessões se transformaram em proprie- do trabalho, em que o empresário já era proprietário dos meios
dade territorial hereditariamente transmissível, as imposições de produção e pagava salários aos trabalhadores, lucrando com
mais duras da servidão haviam sido substituídas por novas o acréscimo de ·produtividade de todos eles.
formas de contingenciamento, de modo a manter sempre o Inicialmente, estas manufaturas centralizadas instalaram-se
campesinato sob a dependência de senhorios privados. A ·po- no campo, para fugir ao controle dos grêmios artesanais urba-
breza muito maior da área de exploração russa, bem como o nos. Ocupavam camponeses em fiações e tecelagens, depois em
atraso cultural também maior de suas populações e a menor serrarias, refinarias de açúcar, fábricas de sabão, de tintas,
magnitude numérica destas, tornaram imperativa a manuten- de cerveja, etc., e, mais tarde, em estaleiros, metalurgias e
ção desse sistema e não ensejaram o aparecimento de uma fábricas de papel. Riquezas monetárias acumuladas no comér-
estrutura rural granjeira nas áreas conquistadas, nem uma cio, na usura, na exploração das finanças públicas e nos mo-
prosperidade econômica equivalente à das empresas coloniais nopólios estatais passaram a aplicar-se produtivamente nestas
ibéricas. manufaturas, transladando-as progressivamente para as cidades,
Nestas circunstâncias, em lugar de progredir tecnológica e que voltaram a crescer. A necessidade de alimentar e vestir
institucionalmente para formas maduramente capitalistas de os trabalhadores urbanizados gerou uma procura crescente de
produção e de ordenação da sociedade, acentuaram-se, nas áreas bens, criando um mercado interno cada vez mais amplo para
coloniais dos dois Impérios Mercantis Salvacionistas, as ten- a produção agrícola e manufatureira. Os proprietários rurais,
dências despóticas e, em suas áreas metropolitanas, a propen- interessados em produzir para esse mercado, passaram a for-
são a submergir, episodicamente, em regressões feudais, quando çar o campesinato a uma produção maior e a expulsar de
a autoridade imperial se via suplantada pela nobreza latüun- suas terras a antiga clientela patriarcal que consumia a maior
diária e pelo clero. parte das safras. Culmina esse processo, em diversas áreas,
com a conversão das terras de cultivo em criatórios de ove-
lhas para produzir lã.
O Capitalismo Mercantil e os Colonialismos Modernos Os governos passam, então, a fomentar essas atividades
que se vão tornando a fonte principal de rendas públicas.
Emprestam-lhe todo apoio, através de medidas alfandegárias
Enquanto se processava a expansão salvacionista, as forças protecionistas e de reformas das instituições cerceadoras da
renovadoras da Revolução Mercantil avançavam através de um liberdade de aliciamento de mão-de-obra ou da expansão do
outro processo civilizatório: o Capitalismo Mercantil. Mais po- mercado interno. Derrogam-se, assim, as antigas normas que
bre, naquele momento, mas dotado de maiores potencialidades dificultavam a comercialização da produção agrícola, criando-se
de técnificação, de reordenação social e de progresso, tal era os mercados nacionais. Decreta·se o direito de cercar as pro-
o esforço de restabelecimento do sistema mercantil europeu, priedades fundiárias, acabando com os campos comunais. Libe-
primeiro no continente, depois em todo o mundo, que voltaria ram-se os cultivas e anulam-se os tradicionais direitos de pasto.
a ativar as economias regionais estagnadas durante o milênio Por todos esses procedimentos desagregam-se as estruturas
de feudalização. comunitárias em que primavam as atividades de subsistência
Seus desencadeadores foram um complexo de eventos e a e as relações de mutualidade, para se imporem relações con-
adoção de novos procedimentos técnicos e institucionais que, tratuais de trabalho definidas como legais e livres. Contingentes
ensejando o restabelecimento do comércio exterior, permitiram rurais cada vez maiores se desvinculam da economia natural
reimplantar manufaturas nas cidades italianas, francesas, fla- ou são compelidos a fazê-lo para se converterem em mão-de-

136 137
1

Um processo simultâneo de desenraizamento e relocação


obra aliciâvel para o trabalho assalariado por haverem perdido de trabalhadores ocorria nas cidades, desligando os artesãos
as bases de provimento de sua subsistência. *
A reação dos camponeses a esta reforma estrutural espoca dos vínculos corporativos dos grêmios para torná-los assala-
em..guerras na defesa do antigo modus vivendi, ou da reivin- riados dos novos empreendimentos. Como mno-de-obra mais
dicação da propriedade das terras para as trabalharem por qualificada, esses artesãos emprestaram à revolução tecnoló-
conta própria como produtores para o mercado. Essas guerras gica o concurso de sua destreza acumulada secularmente e
assumem, quase sempre, formas milenaristas como lutas de acrescentaram à força de trabalho um estrato diferenciado de
classes subalternas que, ao se lançarem contra a ordem cons- técnicos e especialistas. Em cada país, à medida que progre-
tituída, têm ·apenas como modelo reordenador a idealização de dia a conversão da economia aos padrões capitalistas, foram
eras passadas em que teria prevalecido o bem e a justiça. sendo abolidas as corporações de ofício, os regulamentos de
Freqüentemente, assumem postura anticlerical pela oposição aprendizagem, as juntas de salário. Todas essas ordenações
irredutível entre os seus interesses e os da principal institui- protetoras foram substituídas progressivamente pelo ideário li-
ção monopolizadora da terra, a Igreja. beral da igualdade perante a lei e do livre direito de contrato.
Nesse ambiente de renovação social tudo é posto em causa. A combinação da disponibilidade de capital acumulado com
A ordem social deixa de ser concebida como sagrada ou passa a oferta de mão-de-obra livremente aliciável e de bens de
a ser definida em termos de reavaliação do conteúdo do sa- subsistência oferecidos à venda tornou possível montar estru-
grado. Traumatizam-se, assim, os mecanismos de preservação turas urbanas de produção e de comércio que se fariam cada
do regime, ensejando o alastramento de insurreições campone- vez mais amplas até dominarem todo o sistema econômico,
sas à medida que a estruturação capitalista marcha de região convertendo-o em formações sócio-culturais capitalistas mercan-
a região. tis. Este processo civilizatório experimentou uma aceleração
A partir do século XIII, ondas sucessivas de levantes desta prodigiosa quando a ele se somaram os resultados da expansão
natureza convulsionaram a Europa, como a dos Pastores ( 1251)
e a dos Plebeus ( 1320 >, nos Países Baixos e na França; a de oceânica conduzida pelos povos ibéricos. Carreando para a
Dolcino (1305), na Itália, as de Marcel e La Jacquérie (1357), Europa o produto do saque de dezenas de povos e, depois,
na França; a de Wat Tylor (1381), na Inglaterra. Já no século os excedentes arrancados a milhões de escravos que tinham
XV estala a rebelião dos Hussitas na Boêmia e diversos le- seu consumo supercornprimido nas minas e nas plantações
vantes camponeses na Alemanha. Quando o processo de re- tropicais, o Capitalismo pôde saltar alguns séculos
estruturação alcança outras regiões, ali também explodem no seu processo de amadurecimento. Este não se cristalizaria,
guerras camponesas, como as russas do século XVII (Razin), porém, em nenhuma das duas áreas onde atuara pioneiramente
XVIII (Pugachov) e XIX, até a extinção da servidão em 1861; a Revolução Mercantil. Tendo-se configurado como Impérios
e as da China dos séculos XIX e XX. Como insurreições de Mercantis Salvacionistas, ambas se haviam atrasado na histó-
J classes subalternas, estavam historicamente condenadas ao ma-
logro pela impossibilidade de reordenar a sociedade inteira de
ria, passando a interagir com as novas formações como estru-
turas defasadas e, por isso mesmo, condenadas a perder subs-
acordo com seus interesses. Sua eclosão teve, no entanto, um tância em todp o intercâmbio econômico posterior.
papel decisivo na implantação de uma nova ordem capitalista- A formação Capitalista Mercantil implanta-se, primeiro, na
mercantil, uma estrutura de poder liderada pelo empresariado Holanda (1609), onde assume a forma de república moderna
capitalista, e no triunfo dos movimentos de Reforma. de perfil oligárquico, governada por comerciantes e banqueiros,
após a vitória na sua guerra de emancipação contra o domínio
. • Karl M.arx descri:ve!l admiravelmente este processo: ". . . Quando os grandes
latifundiários ingleses elunmaram seus retainers (agregados) que conswniam parcelas
salvacionista ibérico. No curso dessas lutas, a Holanda apossa-
da produção excedente de suas terras; quando seus arrendatários eXPulsaram os se de diversos domínios coloniais portugueses e espanhóis na
pequenos camponeses, etc., uma massa duplamente livre de mão-de-obra foi lançada Africa (Cabo), nas Américas (Antilhas), no Oriente (Ceilão,
ao mercado de trabalho: livre das antigas relações de clientela, de servidão ou de
prestação de serviços; mas livre, também, de todos os bens e de toda forma de Indonésia), e torna-se a principal potência européia. Cria a
existência prática objetiva, livre de toda propriedade. Tal massa ficara reduzida à primeira organização bancária moderna ( 1609), que passa a
alternativa de vender sua capacidade de trabalho, à mendicância, à vagabundagem ou
ao roubo como única fonte de renda. A história registra que ela primeiro tentou a atuar corno financiadora e seguradora da expansão mercantil
mendicidade, a vagabundagem e a. delinqüência, mas que se viu afastada desse ca- holandesa, alçada à condição de empório distribuidor da pro-
minho e foi empurrada, a seguir, a estreita senda que levava ao mercado de trabalho,
por meio do patlbulo, do cepo e do chicote" (Marx 1966:38). dução mundial nos mercados europeus.

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Segue-se a Inglaterra, com a revolução de Cromwell (1652- cado os bens eclesiásticos, os latifúndios das abadias e mos-
1679), que lhe permite estruturar-se também como uma for- teiros, para integrá-los no sistema produtivo. Seus empresários
mação capitalista mercantil revestida dos atributos institucio- aplicaram ôapitais nas manufaturas que passaram a produzir
nais de uma monarquia parlamentar. A Inglaterra alça-se tam- para todo o mercado nacional e, depois, para exportação. Cria-
bém através da guerra contra os salvacionistas ibéricos e contra ram-se, assim, grandes empresas de investimento nos setores
os holandeses, graças à apropriação de alguns dos seus antigos mercantis, fabris, agrícolas e de obras públicas que, excedendo
domínios coloniais na América do Norte, na índia, na China a capacidade financeira de um só capitalista, apelavam para
e na África. Uma das fontes de sua modernização foi o ingres- vários processos de captação de recursos. E incentivaram a
so de uma centena de milhares de perseguidos religiosos, que constituição de uma força de trabalho altamente qualificada,
elevaram substancialmente a qualificação de sua força de tra- a partir do artesanato medieval.
balho e suas disponibilidades de capital financeiro. Mas seu Como efeito maior de todas essas mudanças, refez-se a
enriq:iecimento se fez, nessa primeira etapa, principalmente própria estratificação social, presidida por uma polarização que
atraves do . saque pelo corso sustentado pelo Estado e, mais opunha uma camada de proprietários aliciadores de mão-de-
tarde, mediante o contrabando com as colônias americanas obra assalariada ou escrava, e uma camada dé despossuídos,
principalmente com a exploração do tráfico negreiro por conscritos como a força de trabalho do sistema, na posição
de contratos monopolísticos com as nações ibéricas, operados de dois proletariados, um interno, outro externo. As condições
por companhias oficiais cujos principais acionistas eram as de existência e de reprodução desses estratos divergentes, mas
Casas Reais espanhola e inglesa. A eficiência capitalista apli- mutuamente complementares, e seu antagonismo intrínseco, pas-
cada ao tráfico negreiro permitiu organizar racionalmente as sariam a constituir a força motriz de toda a dinâmica social.
operações de caça de escravos no interior, de amontoamento Em sua expansão ultramarina, todas as formações capita-
de reservas na costa africana, de transporte marítimo,· de de- listas mercantis apelaram também para o colonialismo escra-
vista, criando novas áreas de plantações tropicais. Mas, simul-
pósito, distribuição e venda através de todas as Américas. Nesse taneamente, inovaram o antigo modelo, complementando-o, pri·
processo, as nações européias, pioneiras do desenvolvimento
capitalista mercantil, aliciaram, no curso de quase três séculos meiro, com colonizações mercantis, na forma de entrepostos
mais de 100 milhões de africanos, uma terça parte dos comerciais implantados em países longínquos, com os quais
deve ter chegado a seu destino para aí serem consumidos em não se pretendia transfigurar os povos autóctones, mas tão-
sua grande maioria, no trabalho escravo (F. Tannenbaum Í947; somente traficar com eles, e, mais tarde, com Colônias de
J. Arnault 1960; E. Williams 1944). Povoamento, estabelecidas através da transladação de popula-
A integração da França à nova formação amadurece len- ções européias para além-mar. Estas últimas se destinavam,
no nível econômico, com a instalação, a partir do essencialmente, a aliviar a Europa dos excedentes populacio-
seculo XVI, de manufaturas de artigos de luxo em Lyon, Reims nais gerados no próprio processo de integração da economia
e Paris e, mais tarde, de tipografias e de metalúrgicas. Eclo- agrícola em padrões capitalistas. Em conseqüência, os peque-
diu, por fim, no plano político, com a revolução social de nos núcleos de colônias de povoamento - que eram as menos
1789, comandada, inicialmente, por lideranças antiaristocráticas prósperas das colônias na formação anterior - entram a cres-
e completada, mais tarde, por um regime militar que impõe cer, tendo por objetivo menos prover lucros do que ocupar
as ordenações napoleónicas. Implanta-se, assim, o primeiro sis- gente desenraizada e marginalizada, cuja presença começava a
tema. estatal de instrução pública; derroga-se o regime legal representar um risco permanente de insurreição.
anterior e delineia-se o modelo básico de instituições liberal- Uma . destas colônias de povoamento, que crescera como
capitalistas que seriam prontamente adotadas em todo o mun- economia ancilar dos ricos empreendimentos escravistas colo-
do .. Esta última formação capitalista também se apropria de niais das Antilhas, amadureceria, pouco mais tarde, para o
antigas áreas coloniais ibéricas, pela anexação, ao séu domínio Capitalismo Mercantil. Era a América do Norte, onde uma
colonial, de vastas áreas da América do Norte do Canadá da ordenação capitalista incipiente, fundada nos próprios princí-
Indochina e do Senegal. ' ' pios que regeram a colonização, se fortificaria no curso da
Para assumir esta posição pioneira, aquelas nações haviam guerra de emancipação. Estas características se acentuariam
reativado sua vida . econômica interna, rompendo com as bar- ali de forma mais radical que em qualquer outra área colo-
reiras feudais que continham suas forças produtivas, e confis- nial, em virtude do caráter singular de sua implantação como

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uma extensão ultramarina da sociedade inglesa. Assim é que, A exparisão oceânica européia, iniciada pelos ibéricos, torna-
na América do Norte, se erige o modelo básico de República se, nesse passo, únia empresa coletiva que multiplica colônias
federativa moderna, estruturada como uma formação capitalis· escravistas, mercántis e de povoamento por todo o mundo,
ta mercantil, tendente à industrialização. Contando com enor- acelerando a ação do processo civilizatório capitalista merc_an-
mes áreas desertas para a autocolonização, a América do Norte til já agora como o mais vasto dos movimentos de atuahza-
só tardiamente se lança à expansão colonialista, mas o faz, histórica. Com o seu desencadeamento, milhões de ?omens
também, pela apropriação de antigas áreas de domínio ibérico, foram transladados de um continente a outro. As matrizes ra-
como as Antilhas e as Filipinas, além' de algumas ilhas do ciais mais díspares foram caldeadas e os patrimônios culturais
Pacífico. mais divergentes foram afetados e remodelados. As conquistas
culturais, principalmente tecnológicas, de todos esses povos
Como se vê, a formação capitalista-mercantil também nas- começaram a confluir, lançando as primeiras bases de uma
ce bipartida em dois complexos complementares. Primeiro, o reordenação unificadora do patrimônio cultu:r:_al
complexo metropolitano da.S nações as estrutura por aceleração processo, milhares de povos atados a for?1açoe_s .t!1ba_:s, aldeas,
evolutiva como centros de poder e de comércio ultramarino. pastoris, rural-artesanais, bem como antigas c1v_:llzaçoes, . tanto
Internamente assentam-se em dois pilares: uma economia rural as vigorosas como as já estagnadas em regressoes fe:ida1s, fo-
de granjeiros livres, produtores para o mercado (principal- ram integradas num sistema econômico de base mundial, como
mente França e Estados Unidos da América), e de grandes sociedades subalternas e culturas espúrias. Sua razão de exis-
explorações agrícolas e pastoris, de tipo capitalista, que tência deixara de constituir a natural reprodução do seu modo
çam a atuar à base do trabalho assalariado (principalmente de ser, para se converter no fator de e no
Alemanha e Inglaterra); e uma economia urbana de manufa- mento de p:rbsperidade dos centros metropolitanos que geriam
turas mercantis, de comerciantes importadores e exportadores os seus destinos.
e de agências financeiras, que tanto operam no mercado A espoliação desses povos possibilitou às cidades européias
ropeu como no mundial. Segundo, o complexo colonial, im- retomar e superar amplamente o brilho que haviam alcançado
plantado através de movimentos · de atualização histórica, que no esplendor do Império Romano, implantando-se comõ metró-
gera as colônias mercantis das feitorias asiáticas de comércio poles suntuosas e opulentas. Deu, também, aos europeus nór- ·
e africanas de suprimento de mão-de-obra escrava e as colônias dicos, até então marginais aos processos civilizatórios, um
escravistas das áreas americanas de exploração de minas e sentimento de superioridade e de destinação civilizadora que
de plantações comerciais, operadas, tanto direta como indire- passou a justificar todas as formas de colonial
1
tamente, através de outros agentes coloniais, como os portu- o exercicio necessário do papel de agentes c1v1hzadores, convic-
I'
gueses e os espanhóis; e, finalmente, as colônias de povoamento tos de que representavam uma ordem moral superior e o motor
das Américas, da Austrália e da Nova Zelândia. do progresso humano.
Por meio dessas duas faces complementares - a .metro- As riquezas que se acumularam com as novas atividades
politana e a colonial - o sistema passa a atuar gerando, numa produtivas e com o saque de tesouros alheios elevaram a níveis
delas, o capital e os capitalistas contrapostos a massas cres- jamais alcançados a economia de dinheiro metálico, tornando .
centes de a:;salariados; e na outra, camadas gerenciais subal- disponíveis capitais cada vez maiores para financiar novos
ternas e massas escrayizadas e avassaladas. Estas últimas não empreendimentos. * Esta abrupta disponibilidade de metais pre:
representavam para o sistema mais do que uma espécie de ciosos provoca uma elevação constante de preços, que contnbui
combustível humano explorado localmente ou importado da fortemente para desorganízar as economias camponesas ainda
Africa para produzir artigos de exportação, metais preciosàs sobreviventes. Dessa .forma, novas massas são lançadas ao mer-
e minérios. Não eram "propriamente .trabalhadores, mas apenas
trabalho", tal como aquele que seria oferecido, amanhã, pelas • Só no periodo que vai de 1591 a 1660, a Espanha retira da América 4 537,6
toneladas de ouro. Portugal retba do Brasil no século XVIII cerca de 1 400 toneladas
fontes inanimadas de energia <K. Marx 1966:41). Nessa quali- de ouro e 3 milhões de quilates de diamantes. Com a contribuição mexicana, a
dade, propiciavam uma acumulação de capital muito maior do produção mUndlal de prata salta de 335 toneladas, em 1701/1720, para 879 toneladas,
que a obtida pela exploração de assalariados e ensejavam a em 1781/1800. o saque britãnico de Bengala, efetuado mais tarde, e a exploração
posterior da tndia também contribuem, ponderavelmente, para custear a Industrializa·
reversão para as economias metropolitanas, amadurecidas como ç1o européia. <Ver P. Mauro 1964; A. Piettre 1962; J. Amault 1960; W. Prescott Webb
estruturas capitalistas, de recursos cada vez mais vultosos.
1
1 J. P. llUrpiJ,y 1951).

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cado de trabalho ou obrigadas a emigrar, ao mesmo tempo plano da tecnologia. Uma onda de criatividade renova as ve-
que sobrevém uma violenta substituição das antigas camadas lhas ordenações medievais através de uma geração de livre-
patronais conservadoras pelo empresariado de mentalidade ca- pensadores que se ocupam da regulamentação racional das
pitalista. relações humanas, com base nos conceitos mais generosos de
Simultaneamente, a se transfigura ideologicamen- liberdade e de igualdade e com uma atitude de plena con-
te, aprofundando o movimento de renovação inaugurado com fiança no progresso humano. Opera-se, desse modo, uma pri-
o Renascimento e intensificado pela Reforma. Nas áreas em meira transição saint-simoniana do governo das pessoas, que
que mais amadurecera o Capitalismo Mercantil, quebram-se as prevalecera no mundo feudal, para um governo das coisas,
velhas hierarquias religiosas e enseja-se um amplo movimento que regeria o capitalismo. Mas só se consegue efetivar esta
d,e secularização. A alfabetização em massa nas linguas verná- renovação coisificando as pessoas, a fim de tratá-las juridica-
culas, levada a efeito para ler a Bíblia, permitiria, de então por mente como coisas.
diante, recrutar a intelectualidade em bases muito mais amplas Em sua forma plenamente amadurecida, a nova formação
e assegurar-lhe maior liberdade de indagação e de pesquisa. sócio-cultural assenta-se na propriedade privada das empresas;
Desse modo, a Europa pós-medieval, que redescobrira o mundo na mais aguda competição destas entre si e em face dos con-
1 grego assumindo sua postura mercantil e sua atitude sumidores; e na implantação de um regime de espontaneísmo
tiva, pôde levar à frente o saber e as artes a partir do ponto no plano econômico e de completa irresponsabilidade social
em que haviam estagnado e pôde retomar também os mode- para com o destino dos trabalhadores. Velhas tendências espo-
los mercantis escravistas de estruturação política em seus con- liativas e alienadoras surgidas com as primeiras formas de
teúdos democráticos. estratificação social, e que haviam alcançado extremos na for-
Nas áreas onde mais amadureceu a formação capitalista- mação mercantil escravista e, mais tarde, nas formações des-
pótico-salvacionistas e mercantis salvacionistas, reimplantam-se
mercantil, a Igreja Católica, de um poder· autônomo ordenador e aprofundam-se mais ainda.
das estruturas sociais e legitimador da autoridade, reduz-se
à instituição auxiliar modeladora de consciências individuais. A certa altura, estes concomitantes dilaceradores do pro-
Mas é prontamente chamada a atuar como sustentáculo espi- cesso civilizatório Capitalista Mercantil entram a atuar com
intensidade crescente, fazendo das populações européias mais
ritual da nova classe dominante. Teólogos reformistas dedicam- pacientes do que agentes das forças renovadoras. A riqueza
se, agora, a formular uma ideologia enobrecedora do enrique- social aumenta até níveis inatingidos antes, mas a pobreza das
cimento - conceituado como sinal de benesse divina - digni- camadas despossuídas também se agrava como nunca. As po-
ficadora do trabalho e condenatória de antigas atitudes senho- pulações européias crescem mais aceleradamente do que a ca-
riais de ócio e fruição, bem como da sua contraparte popular, pacidade do sistema para absorver os. novos contingentes de
a mendicância. Por todas essas formas de ação, a Igreja da mão-de-obra, transformando-os em "excedentes" que se devem
Reforma ajuda a burguesia nascente a adotar o perfil ético exportar como emigrantes.
que lhe corresponde e a destruir as bases morais do antigo As Colônias de Povoamento, constituídas nesse processo,
sistema que encarava a propriedade como mais passível de cresceram através do engajamento compulsório de indentured
deveres que de direitos e a estamentação social rígida da Eu- servants - ingleses, irlandeses, alemães e de outras naciona-
ropa feudal como uma expressão da vontade divina (M. Weber lidades - aliciados pelos capitães de navios para trabalhar na
1948; R. H. Tawney 1959; Th. Veblen 1951). América, onde eram arrematados em leilões pelos amos a quem
Com o Capitalismo Mercantil estabelecem-se, assim, as ba- serviriam por 4 a 6 anos, sem outra retribuição que o sustento
ses para a despersonalização das relações de trabalho, trans- e a vestimenta. A eles se juntavam os forçados que a justiça
formando a mão-de-obra em um bem livremente negociável; inglesa condenava· por delinqüência e vagabundagem e os
eµtrona-se uma classe empresarial de novo tipo para a qual raptados mediante toda sorte de expedientes, como re,demptio-
se prescrevem direitos mas não deveres; e implanta-se um ners que enfrentavam condições ainda piores, porque não ti-
regime econômico marcadamente racionalista e venal. Nesse nham ·prazo certo de remissão e, às vezes, não tinham prazo
ambiente liberto de peias religiosas tudo se põe em causa. algum, transformados virtualmente em escravos.
As ciências e as artes experimentam um desenvolvimento sem Avalia-se que a proporção desses contingentes europeus es-
paralelo, lançando-se as bases para uma nova revolução no cravizados (porque produziam mercadorias sob o estrito con-

144 145
trole de seus amos) haja alcançado entre duas terças partes locais e regionais ainda imaturos e indefinidos, quanto de
e 80% da força de trabalho das colônias do Norte. A mesma conquista e avassalamento das outras. Estalam os conflitos
forma de recrutamento da mão-de-obra seria aplicada, mais entre estas unidades contrapostas. São as lutas nacionais que,
tarde, a outros contingentes europeus, à medida que seus ter- através de três séculos de crises, tensões, revoluções e guerras,
ritórios eram alcançados pelas forças reordenadoras do Capita- irão configurando o quadro étnico europeu e correlacionando
lismo Mercantil. Atingiria depois a Asia, carreando para as com ele todo o mundo extra-europeu, transformado em área
plantações da Austrália, da Africa e da América novos contin- de saque e de exploração (F. Znaniecki 1944; A. van Gennep
gentes de coolies chineses e indianos, como indentured servants 1922 e H. Kohn ·
(S. Bagu 1949; E. Williams 1944).
A Revolução Mercantil, que gerara o maior movimento
expansionista da história humana tendente a unificar o mundo
inteiro num só sistema de intercâmbio econômico, experimenta,
nesse passo, um movimento oposto de segmentação dos povos
em entidades étnico-nacionais carregadas de hostilidade umas
para com as outras. O mesmo processo civilizatório que alar-
gara o mundo, pondo todos os povos em contato, e que am.-
pliara o âmbito interno de cada sociedade pelo rompimento
de barreiras regionais, encontra seu termo nas fronteiras na-
cionais.
Por toda a Europa aglutinam-se núcleos étnico-naeionais
expansionistas, que vinham evoluindo desde a dissolução do
Império Romano. Configuram-se, assim, os espaços nacionais
modernos. Cada um deles compreende uma comunidade que,
durante gerações, participara das mesmas crenças e costumes.
Seus membros passam agora a identificar-se como nações de-
finidas em termos de entidades solidárias excludentes de todas
as demais, com direito ao domínio político do território que
ocupavam ou pleiteavam.
Após séculos de elaboração de sua forma, como resul-
tante de múltiplas fusões de povos, essas etnias alcançavam.,·
afinal, consciência de sua especificidade em virtude do poder
aglutinador do sistema político, empenhado em reservar ao seu
empresariado o monopólio do mercado nacional. Incentivada
por essas forças aliciadoras, a intelectualidade passa a criar
auto-imagens nacionais motivadoras, na forma de obras literá-
rias redigidas em língua vernácula, com o propósito de ressal-
tar o valor de suas tradições, a qualidade de seus heróis e a
superioridade de seu "vinculo de sangue". Por esses processos
de organização e de afirmação nacionalista, as entidades étnico-
nacionais se conformam como os quadros econômicos e sociais
em que suas populações realizarão seu destino, em face das
outras. Aquelas que se estruturaram precocemente como Esta-
dos e alcançaram maior desenvolvimento como economias ca-
pitalistas lançam-se à expansão, tanto assimiladora dos grupos

146 147
Uzação em posição superior de domínio e de riqueza, conduzia
todos os demais à subordinação dentro de vastos complexos
de nações dependentes e exploradas. O novo processo
tório tem de peculiar a circunstância de que, desde os pnmei-
VII/A REVOLUÇÃO INDUSTRIAL ros passos, ainda marcadamente mercantis, estrutura-se com?
um sistema econômico efetivamente universal, com extraordi-
nário poder de atualização histórica, que progressivamente atin-
giria todos os povos da Terra, envolvendo cada e. até
mesmo cada indivíduo em suas formas compulsónas de mte-
gração. Os povos atrasados na história, que haviam escapado
us compulsões da Revolução Mercantil, seriam, assim, atingi-
dos, onde quer que vivessem, e chamados a engajar-se na nova
OS PROCESSOS civilizatórios fundados na Revolução
ordem econômica e social, como "proletariados externos" pro-
vedores de matérias-primas agrícolas e de minérios e consu-
Mercantil ainda atuavam quando emergiu a Revolução Indus- midores de produtos industriais.
trial e, com ela, dois novos processos civilizatórios que se cris- A Revolução Industrial surge no corpo das formações ca-
talizaram em distintas formações sócio-culturais. pitalistas mercantis pela acumulação de inventos
Sua capacidade de reordenação das sociedades humanas que permitiriam multiplicar a
só seria comparável à da Revolução Agrícola que, desde dez do trabalho humano. Por isso mesmo, implanta-se, primeiro,
mil anos passados, vinha remodelando os povos. * Afetaria nas áreas em que se atendera mais completamente às exi-
também todas as sociedades, acrescentando às que lograram gências de renovação estrutural imposta pela Revolução_ Mer-
industrializar-se um poderio antes inimaginável e submetendo cantil, desobstruindo resistências oligárquicas à alteraçao do
as demais a formas de dominação cada vez mais sutis e im- status quo. Tais condições encontravam-se quase idealmente
perativas. Remodelaria internamente cada sociedade, tanto as amadurecidas na Inglaterra e nos Estados Unidos e, de forma
diretamente industrializadas quanto as modernizadas reflexa-
mente, alterando sua estratificação social e, com ela, as estru- mais rudimentar, na França, na Alemanha e nos países escan-
turas de poder e redefinindo profundamente sua visão do mun- dinavos. Eram praticamente nulas no restante da Europa, ou
do e seus corpos de valores. constrangidas em algumas áreas, como na Península e
O efeito crucial da nova revolução tecnológica consistiria, na Rússia, pelos efeitos inibitórios de suas est:r;ituras
porém, no lançamento das primeiras bases de uma futura ci- quicas fundadas no monopólio da terra, no carater despotico
vilização humana, afinal unificada, pelo acesso de todos os de suas ordenações sociais e nas sobrevivências salvacionistas
povos à mesma tecnologia básica, pela sua incorporação às de que continuavam impregnadas.
mesmas formas de ordenação da vida social e pela sua inte- As formações sócio-culturais geradas pela Revolução Indus-
gração aos mesmos corpos de valores. Esta civilização humana trial têm como classe dirigente uma burguesia urbana que
unificada não se cristalizaria, contudo, no curso dessa revolu- desde a etapa anterior se vinha fortalecendo e forçando a re-
ção, que apenas- conseguiria torná-la uma aspiração generali- ordenação da sociedade segundo seus interesses. Tal o
zada de todos os povos. empresariado que crescera tirando proveito_ das
Tal como os processos civilizatórios anteriores, a tecnolo- de enriquecimento ensejadas pela restauraçao do sistema mer-
gia da Revolução Industrial não se expande como uma difusão cantil europeu, pela apropriação dos bens eclesiásticos torz:ada
de novos conhecimentos livremente adotáveis, mas como uma possível pela Reforma, pelo confisco dos baronatos feudais_ e
reordenação de povos que, situando os pioneiros da industria- dos direitos comunitários do campesinato. A esta acumulaçao
de recursos acrescentara-se, depois, a riqueza proveniente do
saque colonial, da exploração maciça do escravismo e da mo-
• Com a Revolução Agrícola, a população mundial saltara de 20 milhões a cerca
de 650 milhões. Com a Revolução Industrial passa a experimentar uma nova explosão netarização das economias.
demográfica: só a Europa passaria de 160 para 400 milhões de habitantes no curso Inicialmente esse empresariado atuava como os antigos
do século XIX; a população mundial cresce de 600 em 1750, para 2,t
bilhões em 1950 e caminha para os 6 bilhões previstos para o ano 2000 (G. Ch!lde mercadores, na 'exploração da usura, na especulação comercial
1946; c. M. Clpolla 1964; ONU 1965). com a escassez de bens, na monopolização de certas merca-

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dorias e riscos marítimos. C9m a Revolução Industrial, locomotiva, revolucionou os transportes terrestres e, .como na-
terá oportunidade de dedicar·se a novos setores que virão a vio a vapor, os marítimos. A partir de 1820, cada
assegurar-lhe taxas de lucro muito maiores e a curto prazo vez mais aperfeiçoados dessas máquinas multiplicaram-se na
sem os riscos do capitalismo aventureiro da fase merc2ntil: Inglaterra, nos Estados Unidos .e na França, de onde passam
a ser exportados como mercadorias para todo .o mundo, alar-
Agoz:i. se dedica, principalmente, à exploração da nova fonte
de nqueza representada pela aplicação de capitais em siste- gando as bases de expansão da civilização industrial.
mas fabris de produção em massa, movidos por novas fontes Aos conversores de energia baseados em dispositivos de
de energia inanimada, cuja expansão demandava uma reorde- queima do carvão para produção de vapor_
nação n;iais radical na ·estrutura da sociedade. Com a nova depois outros conversores cada vez mais eficazes. Este f01 o
tecnologia tornara-se possível e vantajosa a conversão de toda segundo passo da Revolução Industrial, que se deu na
má.o-de-obra, inclusive a escrava, em força de assa- gem do século XIX ao XX com o surgimento e a
do uso de motores elétricos, fundados na energia
lanado; e fizera-se necessário operar urgentemente esta con- o terceiro passo corresponde ao desenvolvimento e
versão para liquidar as formas de produção artesanal ainda depois da Primeira Guerra Mundial, dos motores a explosao
sobreviventes em todo o mundo, a fim de atribuir no;as fun-
ções aos Impunha-se, também, elevar seu nível que utilizam combustíveis de petróleo.
de produtividade e de consumo com o objetivo de alargar o No correr desse processo a produção indust:ial aos
n:ercado. dos produtos industriais para dar lugar a uma expan- saltos. Assim é que, de 1860 a 1950, a produçao mundial de
sao do sistema fabril. Dessa forma, em seus primei- carvão salta de 132 para 1 454 milhões de toneladas; a de pe-
tróleo de zero a 523 milhões de toneladas; a de gás natural,
ros impulsos, a nova revolução tecnológica toma obsoletas as também de zero a 197 milhões de metros cúbicos; e a de
formações mercantis salvacionistas, destrói as já combalidas energia hidráulica, de 6 para 332 milhões
bases do capitalismo mercantil, absorvendo, progressivamente, Esta progressão das disponibilidades de energia convertida
seu contexto colonial e dele erradicando o escravismo. megawatts-hora representa um salto de 1 079 para 2.0 mi-
princípios do século XVIII, a Inglaterra, que havia lhões. A produção de aço passa de 30 para 180 milhoes .. de
ampliado seu poder1o naval e o sistema capitalista mercantil toneladas, de 1870 a 1930 (C. M. Cipolla 1964; H. PasdermadJian
de base mundial nele assentado, vinha acumulando aplicações 1960; T. s. Ashton 1964).
tecnológicas de pri:qcípios científicos aos processos produtivos· A estas inovações da tecnologia industrial somaram-se
na forma de .fábricas e de explorações mineiras. Conseguira'. aperfeiçoamentos dos processos produtivos agrícolas e
dessa forma, implantar uma economia industrial essencialmen- ris que tiveram um papel da maior relevância na ampllaçao
te urbana que passara a produção agrícola para um segundo disponibilidades de alimentos, viabilizando o aumento po-
plano, gerara transformações radicais em sua estrutura social
e lançara as bases da Revolução Industrial. pulacional das áreas recém-modernizadas. Tais foram: a
ralização das técnicas de cultivo anual de toda a terra aravel
Esta renovação tecnológica enseja o amadurecimento do através da rotação de culturas e do uso de fertilizantes; de
novo empresariado, que promove o recrutamento maciço de melhoria do sistema de aração e de erradicação de pragas;
antigos artesãos desempregados e de trabalhadores rurais de- de mecanização das atividades agrícolas; de seleção das semen-
salojados do campo, para organizá-los em fábricas, como ope- tes; de aprimoramento genético dos rebanhos de gado de
radores de engenhos mecânicos movidos por novos converso- de leite e de lã. Esses avanços foram acompanhados da difu-
res de energia. Este desenvolvimento processou-se em três são de plantas cultivadas originariamente nas Américas, como
passos, o primeiro dos quais com a invenção e a difusão das um novo tipo de algodão e, sobretudo, a batata, o milho, a
a_ vapor que utilizavam o carvão como combustível. mandioca, o amendoim, o cacau, o tomate e muitas outras que
Sua aphcaçao às minas, na forma de bombas de água e ele- enriqueceram extraordinariamente a dieta humana.
de permitiu ampliar fantasticamente a produ-
çao carv:i-o: Como mecanismo de conversão do vapor em Com base nesta nova tecnologia instalam-se, pela primeira
mecamca, pôde ser atrelado a diversos dispositivos in- vez na história, sistemas autopropulsores. do desenvolvimento
para produzir máquinas operatrizes, com as quais se econômico que acelerariam, de então por diante, os ritmos de
multipllcou a produtividade das tecelagens e metalúrgicas. Como produtividade do trabalho humanó e de transformação da

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intensificariam a urbanização das populações e dutivo é movid,o principalmente pelo trabalho humano. Seu
propiciariam aumentos crescentes das disponibilidades de l9ens enorme poder.,de compulsão obriga as sociedades que caem em
de nas sociedades industrializadas e uma elevação dependência colonial e neocolonial a sofrer toda sorte de trans-
d_o se!;l poderio militar. Surgem, desse modo, os formações reflexas e as configura segundo linhas em que sir-
como economias capitalistas- vam mais eficazmente a seus espoliadores. Deste modo, o
CUJO ob3etivo supremo e cuja condição de existên- sistema global cresce como uma constelação simbiótica em que
cia passam a ser a expansão constante de sua riqueza e poder cada componente tem seu papel prescrito e em que todos se
atra.vés _da elevação da produtividade do trabalho, da maxi: reproduzem guardando as relações recíprocas de núcleos colo-
dos lucros e do domínio de mercados de escala nialistas e áreas de espoliação.
mundial. Nos seus primeiros passos, o processo de industrialização
A caract:rística básica do sistema seria, daí por diante, é principalmente dissociativo e extremamente conflitivo. Inter-
sua compulsao ao progresso técnico continuado e à acumula- namente, agrava ainda mais os efeitos deletérios da reordena-
ção Na órbita interna, esta era uma condição de ção capitalista, aprofundando a diferenciação social, destruindo
sobrevivencia das empresas, em competição umas com as outras os remanescentes dos antigos sistemas ocupacionais de base
e em da capacidade de luta das camadas assalariadas. agrário-artesanal e incrementando o ascenso demográfico sem
Na órbita externa, era uma exigência da autonomia nacional ser capaz de absorver nas fábricas e nos serviços os contin-
ante a competição no mercado mundial. ' gentes de mão-de-obra que produz e libera. Provoca uma inten-
sificação do êxodo rural-urbano, acumulando nas cidades enor-
mes massas marginalizadas. Quando estas ameaçam desencadear
Imperialismo Industrial e Neocolonialismo uma pressão irresistível de reordenação do sistema, intensifi-
cam-se os movimentos migratórios induzidos pelas autoridades
No de suas potencialidades, o primeiro governamentais, a fim de se livrarêm dos "excedentes" popu-
processo civ1hzatorio fundado na Revolução Industrial vai im- lacionais que, não podendo ser incorporados ao sistema pro-
pondo tamanhas alterações nos modos de ser das sociedades dutivo, ameaçam entrar na anomia ou engrossar as camadas
que acaba por integrá-las todas núm só sistema· virtualmente insurgentes. Estas transladações humanas e o
interativo e por configurar uma nova formação sócio-cultural consumo de gente em guerras sucessivas devem ter retirado
também bipartida em dois complexos tecnologicamente do quadro europeu cerca de cem milhões de pessoas no último
sados. e economicamente contrapostos, mas complementares: 0 século e meio, propiciando a indispensável distensão consoli-
si:penor •. pela aceleração evolutiva de algumas na- dadora do sistema capitalista industrial. "' Se a esta redução
,,, à condição de centros de dominação se acrescentassem os efeitos constritores da restrição da nata-
I' iI?penahsta mdustnal; o inferior, qonstituído através de mo- lidade que então se generaliza:i:a nas nações industrializadas,
_de atualização histórica que provocam tanto a re- o montante duplicaria.
de áreas coloniais entre as novas potências como A Inglaterra e a França são as nações que primeiro amadu-
º. s1:1rgimento de uma nova forma de dependência: o Neocolo- recem como formações sócio-cultl,lrais imperialistas industriais.
nialismo. A mesma façanha é cumprida, logo a seguir, pelos Estados
No curso deste processo civilizatório, superam-se algumas Unidos. Esse país, contando com imensas disponibilidades de
das mais despóticas de subjugação colonial, como a terras virgens e de recursos naturais, consegue mesmo indus-
mas permanecem e até se aprofundam os vínculos trializar-se, incorporando à força de trabalho' toda a sua po-
. subalternidade. O caráter espoliativo das re- pulação e, ainda, enormes contingentes europeus.
laçoes s1mb10ticas entre as estruturas cêntricas e as periféricas
assenta-se,_ agora, na exploração das vantagens • A proporção do incremento demográfico europeu entre 1800 e 1950 pode ser
que usufruem os sistemas grandemente evoluídos no intercâm- avaliada pelos seguintes números: a população Inglesa cresce de 16,2 para 50,6 ml-
lhõ;is; a francesa de 28,2 para 41,7; a alemã de 25 para 64; a Italiana de 18,3 para
bio com áreas .atrasadas. O alto grau de tecnificação 46,3. E crescem nesse ritmo, apesar de exportar suas populações em enormes pro-
e de ut1hzaçao de energia inanimada destas economias indus- porções: da Inglaterra migram 21 milhões de pessoas entre 1836 e 1935; da Holanda,
triais lhes assegura vantagens de toda ordem nas trocas de 4,5 milhões no mesmo periodo; da Alemanha, 5,3 milhões de 1833 a 1935; da França,
! 2 milhões de 1821 a e da Itália, 9,6 milhões entre 1876 e 1940 (A. Slreau 1966;
sua produção com a de economias atrasadas, cujo sistema pro-

i
A. Sauvy ·1954/56 e 1961; A. Landry 1949).

152 153
1
Graças ao constante crescimento da produtividade do tra- industrializadas. Assim, o mesmo progresso da industrialização,
balho e ao desgaste de seus excedentes populacionais, as na- que multiplica fábricas nos países cêntricos do sistema, alar-
ções precocemente industrializadas conseguem, a certa altura ga, simultaneamente, as àreas de plantação e de pastoreio co-
elevar substancialmenté o padrão de vida de suas populações; merciais, de extrativismo florestal ou de exploração de minérios
organizar regimes democrático-parlamentares que ensejam uma nos países periféricos.
participação crescente do povo na formação dos órgãos do A implantação imperialista se dá em três etapas, na me-
poder político; escolarizar toda a população em escolas públi- dida em que os sistemas de exploração externa que desen-
cas de nível elementar e, mais tarde, levar parcelas crescentes volve alteram suas formas de ação e alargam seus interesses.
à educação de nível médio e superior. Simultaneamente, me- Na primeira etapa, atua pela exportação de manufaturas e
lhoram os seus níveis de sanidade, alarga-se a expectativa de pela conquista de fontes privativas de matérias-primas ou de
vida e formulam-se novos ideais de liberdade, de justiça e de mercados cativos, sucedendo nesta função às antigas formações
igualdade. mercantis, seja mediante a imposição do estatuto colonial, seja
Na ordem externa, o processo de industrialização, atuando através de procedimentos neocoloniais. Na segunda, correspon-
como um movimento de atualização histórica, promove uma dente à fusão das empresas em grandes monopólios contro-
modernização meramente reflexa e impõe condições de extre- lados por agências financeiras, passa a atuar principalmente
ma penúria aos povos já subinetiqos ao estatuto colonial e pela exportação de capitais na forma de equipamento moder-
àqueles que converte, de domínios dos impérios mercantis sal- nizador da infra-estrutura produtiva das nações atrasadas e
vacionistas, em áreas neocoloniais das grandes potências. Suas de capitais de empréstimo a governos.
populações são duplamente conscritas ao novo sistema pro- Com esse procedimento, intensifica-se a exploração dos po-
dutivo: as classes dominantes na qualidade de estamentos ge- vos situados em posição subalterna dentro do sistema, porque
renciais de interesses exógenos . e a massa da população ná esta passa a ser fomentada pelo próprio instrumental de in-
condição de "proletariado externo" engajado na produção de dustrialização que provê ferrovias, portos, sistemas modernos
matérias-primas. Os ' últirrios focos de escravismo progridem de comunicação e maquinaria especializada para suas ativida-
para novos padrões de conscrição da força de trabalho. Este · des produtivas. Sua subordinação à órbita da potência-líder
salto se processa sem a queda em regressões feudais porque, também se acentua porque, paradoxalmente, cumpre às nações
em lugar de se interromperem, as atividades mercantis se ati- dependentes pagar este instrumental que as torna mais eficazes
vam, e porque a transição se dá no curso de um processo de como provedoras de matérias-primas às nações industrializadas.
intensa modernização reflexa. Só episodicamente e em áreas Na terceira etapa, os procedimentos financeiros são suplan-
restritas se registra o mergulho, por parte de populações ex- tados em favor da instalação, nos países dependentes, de sub-
escravas, em economias de subsistência. De modo geral, são sidiárias das grandes corporações monopolistas, como disposi-
prontamente absorvidas pelos novos modos de organização do tivos de exploração de riquezas minerais e de produção indus-
trabalho, todos eles grandemente espoliativos, incipientemente trial para o mercado interno, com o fim de drenar os capitais
capitalistas, mas capitalistas. gerados nas nações pobres para enriquecer ainda mais as :µa-
Sob o domínio do imperialismo industrial, o papel dos ções opulentas. Aparentemente, nesta última etapa, trata-se de
povos atrasados na história já não será o de prover tesouros uma aceleração evolutiva que atua através .da difusão da tec-
pelo saque ou de abastecer o mercado mundial de ouro e prata nologia industrial. Processando-se, porém, como uma atualiza-
e especiarias, e nem mesmo dos produtos tropicais clássicos, ção histórica, essa implantação de indústrias, em lugar de gerar
como o açúcar e outros. Sua função passa a ser o forneci- os efeitos de progresso que produzira nas nações autonoma-
mento de matérias-primas para a elaboração industrial, como mente industrializadas, dá lugar a uma crescente dependência
os minérios, o_ petróleo, a borracha, o algodão, os couros, as das nações periféricas e a um processo de modernização re-
lãs e diversas outras produzidas, predominantemente, por tra- flexa gerador de deformações tão profundas que, na realidade,
balhadores assalariados que são também consumidores. A esses representam sua condenação ao atraso e à penúria. Nestas
produtos acrescentam-se novos gêneros de exportação, como o condiÇões ·de industrialização recolonizadora, as populações
café, o cacau, a carne bovina, as frutas tropicais, etc., reque- crescem para marginalizar-se, porque não se lhes oferecem
ridos em proporções crescentes pelos mercados das sociedades perspectivas de integrar-se no sistema produtivo modernizado.
154 155
Tampouco surge uma cultura erudita capaz de dominar os mediante a formulação e a execução de projetos de desenvol-
princípios científicos da nova tecnologia produtiva e muito me- vimento autônomo, conduzidos principalmente pelo Estado e
nos uma elite dominante autonomista, empenhada em estancar · movidos por motivos de segurança nacional e de poderio mi·
a espoliação externa e em reformar a ordenação social arcaica. lltar. Nesse esforço, apelam para procedimentos heterodoxos,
como a garantia de pleno emprego e o dirigismo econômico,
Iniciado há mais de dois séculos, o processo civilizatório que contrastam frontalmente com os princípios. reitores. das
fundado na Revolução Industrial prossegue sem haver alcan- nações pioneiramente industrializadas, como o livre-cambismo
çado seu termo, mesmo nas áreas pioneiras. Examinado a longo
alcance, representa, por isso, tanto um avanço do progresso o o livre comércio.
quanto irrupção dissociativa. Contém suficiente energia A conduçã.o desses esforços de desenvolvimento tardio, ca-
para destruir ou tornar obsoletos os antigos modos de vida. hcmdo a lideranças político-militares em associaç5.o com pluto-
Condicionado, entretanto, pelo caráter lucrativo das empresas cracias empresariais, as conduz fatalmente a oposições irredu-
que o gerem, e convulsionado por um acelerado ritmo de re- t.iveis em relação às nações precocemente industrializadas. De-
novação, não encerra dentro de si uma capacidade de promo- sencadeiam-se, assim, sucessivas guerras locais e mundiais com
ver a industrialização autônoma de novas áreas, nem de asse· o propósito de impor uma redistribuição de áreas de domi·
nação e o reconhecimento da supremacia de Estados que se
paz, bem-estar e liberdade aos povos que fizeram novas potências industriais. Os alemães implantam
mtegra num sistema econômico único.
possessões coloniais na Africa (1884) e depois na Asia. Os
Nas áreas cêntricas, a industrialização, atuando como um Japoneses conquistam antigas áreas de dominação russa e se
da evolução social, cria sociedades de novo tipo, Instalam na Mandchúria. Os italianos se apoderam de vastas
qualitativamente distintas de todas as anteriores. Nas áreas
regiões na Africa.
periféricas, onde age reflexamente ou pelos mecanismos de Esses conflitos ensejaram a emergência de dois novos pa·
atualização histórica, impõe transformações igualmente profun-
drões de desenvolvimento industrial autônomo, o socialismo
mas. desencadeia processos dissociativos de intensidade revolucionário, que já se configuraria em outra formação, e o
amda. mai?r, que as. condenam ao atraso, enquanto permane- modelo de desenvolvimento capitalista recente. Este último
cem .msendas. no Como as revoluções tecnológicas surgiu em áreas marginais, como a Escandinávia (1890-1930),
anteriores, a mdustnahzaçao se instaura como uma reordena- ou dependentes, como o Canadá (1900-1920) e a Austrália (1930-
ção _das relações entre P?vos, privilegiadora dos mais avançados, 1950). Torna-se viável, nos dois casos, pela alteração das rela·
e nao estabelece mecanismos de transição entre as formas de ções de intercâmbio dessas nações com os países grandemente
. tradicional, tornadas arcaicas, e as novas. Em lugar disso industrializados, nos períodos de guerra ou de crise. Em con-
c:ia ir:ternacional polarizada pelas naçõe; dições normais, essas relações não ensejavam possibilidades de
da mdustnahzaçao, extremamente hostil ao desenvol· progresso autônomo em virtude do caráter intrinsecai:nente es-
vimento dos outros povos.
poliativo da interação entre economias tecnologicamente defa-
é que: uma . vez implantado o modelo prococe de sadas. Com a emergência de conjunturas de guerra, aquelas
desenvolvimento zndustrUll, integrado pela Inglaterra (1750-1800) nações puderam exportar mais do que importavam, acumu-
pela França (1800-1850), pelos Países Baixos (1850-1890) e lando divisas. E, sobretudo, foram estimuladas a explorar au-
Unidos da América do Norte (1840-1890), esses países tonomamente suas próprias fontes de riqueza, realizando po-
repartiram entre si o mundo inteiro como um contexto desti· tencialidades de progresso até então anuladas. Findos os con-
nado à . ou como áreas subalternizadas às quais só flitos achavam-se fortalecidas economicamente e haviam criado
se possibilltou um desenvolvimento limitado e dependente .. As condlções para negociar novas formas de interação econômica,
outras metrópoles coloniais que se atrasam na industrialização
como as. ibéricas e as eslavas, passam a perder capazes de preservar os interesses econômicos nacionais e de
para os novos centros de dominação. viabilizar um desenvolvimento autônomo.
Como se vê, o impacto da revolução industrial se imprime
. O p7imeiro modelo de ruptura deste circulo de domínio diferencialmente, conforme se exerça direta ou
f01 pela Alemanha (1850-1914), pelo Japão (1890· sobre os povos. No primeiro caso, configura as sociedades
1920) mais . tarde, pela Itália (1920-1940), que conformam modernas; no segundo, o contexto de nações subdesenvolvidas.
o padrao tardio de desenvolvimento. Todas elas o alcançam

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Acresce, ainda, que as nações subdesenvolvidas não são
são das mesmas forças renovadoras que, no npenas atrasadas, são também as nações espoliadas da histó-
caso, realizaram suas potencialidades pela aceleração ria, empobrecidas pelo saque que sofreram originalmente das
evolutiva; .e, _no . outro caso, vendo-se limitadas externamente 11uas riquezas entesouradas e, pela sucção secular dos produtos
esJ?ohaçao imperialista e, internamente, pela· constrição do trabalho de seus povos, através de sistemas inigualitários
ohgarqmca, configuram-se como um processo de atualizaç- de intercâmbio. Soma-se a tudo isto a deformação de sua classe
·
ica mcapaz d e conduzir ao desenvolvimento autônomo.oo dirigente que, posta a serviço da espoliação estrangeira, não
. A condição de subdesenvolvimento não representa por isso 110 torna capaz de amadurecer como um empresariado renova-
.o at.raso diante do progresso ou dor e competitivo. Em lugar disto, configura um patronato
arcaico em face de um modelo progressista. Re- deformado no exercício de funções gerenciais; uma oligarquia
presenta, isto sim, uma seqüela necessária das próprias forças retrógrada apegada a privilégios, como o monopólio da terra;
da Revolução Industrial que geram, simultanea- ti um patriciado civil e militar parasitário, que absorve grande
mente, dois produtos: os núcleos industriais como economias parte dos excedentes do trabalho comum. Nestas circunstân-
de alto padrão tecnológico e a periferia neocolonial de nações cias, seu atraso relativo não é um estágio de transição entre
estruturadas menos para atender às suas próprias necessidades o arcaico e o moderno, mas uma condição estrutural impedi-
do para prover aqueles núcleos de bens e serviços em Uva do progresso.
condiçoes _subalternas. Suas populações são degradadas pela As nações subindustrializadas do mundo moderno não são,
deculturaçao J?0la deterioração de sua economia tradicional, como se vê, sobrevivências de si mesmas ou retratos contem-
perdendo os mveis de desenvolvimento tecnológico que haviam porâneos das condições pretéritas · das nações desenvolvidas.
alcançado se transformarem principalmente em força de Hão, isto sim, o resultado de um processo de atualização his-
t:abalho utillzada nas formas mais primitivas, como combus- tórica que sobre elas atua espoliativamente para tornar possí-
tivel humano do processo produtivo. vel o desenvolvimento acelerado de outras áreas. As tensões
O não corresponde, pois, a uma crise untre sociedçi,des imersas no subdesenvolvim_ento e
de mas a um trauma em que submergem socie- centros imperialistas que lucram com seu atraso vao-se confi·
a centros industriais, que se vêem ativadas J{Urando como a oposição fundamental dos tempos modernos.
por_ mtensivos processos de modernização reflexa e de degra- se torna cada vez mais aguda, à medida que se generalizam
daçao. Somam-se a isto a explosão demográfica e a 1is aspirações de consumo de tipo industrial; que se aprofunda
acelerada e caótica, agravando ao extremo as ten- cm suas lideranças a conscientização de que o por seu
soes socirus que essas sociedades não têm meios de superar próprio funcionamento espontaneísta, é incapaz de conduzir ao
ou mesmo de abrandar, porque não poderão exportar seus desenvolvimento · autônomo; e que seus povos se reintegrem
excedentes como o .fez a Europa no mesmo pas- como uma nova etnia nacional armada de um ethos que a ca-
os efeitos reflexos do processo de pacite a empreender sua guerra de emancipação.
atuando, principalmente, no sentido da disso- Um movimento histórico novo· se alça, então, polarizando,
•. tornam incapaz de gerar as forças autocorretivas que de um lado, os povos prósperos e poderosos e, do outro, os
permitiriam enfrentar aqueles percalços, porque seus comandos povos subdesenvolvidos. Nestes últimos, polarizam-se também
encontram fora da sociedade que sofre seus efeitos, e tam- as camadas sociais segundo se identifiquem com o sistema
porque as potencialidades da tecnologia industrial, sendo vigente, porque sabem fazê-lo lucrativo para si próprios, ou a
nos e nos limites necessários para tomar as ele se oponham, porque se apercebem do caráter estrutural e
periféricas mais eficazes no exercício de seu papel desnecessário da penúria que suportam. Explodem, assim, no
_ sua dependência, só ensejando uma âmbito das sociedades subdesenvolvidas, lutas de emancipação
?areia! e deformada. Geram, por isso, socieda- do jugo colonial e conflitos internos pela reordenação estru-
des que Jamais chegam a criar uma economia autônoma e tural. Como a contribuição destas sociedades no fornecimento
autofecundante, . capacitada a explorar suas próprias potenciali- de matérias-primas, na absorção de mercadorias e serviços
dades de crescimento, porque se conformam funcionalmente e na produção de lucros transferíveis para o exterior é indis-
como partes complementares de outras economias dentro de pensável oo funcionamento e à perpetuação da ordem capita-
um sistema interativo autoperpetuante.

158 159
remodeladas através da destribalização e compul-
lista, suas aspirações autonomistas e suas tensões internas de sória sob pressão escravista, perderam a maior parte dos
caráter revolucionário põem em causa o próprio sistema. Em seus , patrilÍlônios culturais de origem e só puderam plasmar
conseqüência, forçam uma reordenação não apenas societária, novos traços culturais estes nã? _com sua
mas de toda a civilização, porquanto atinge seus próprios fun- !unção produtiva dentro do sistema .colomal. Nao estao presos,
damentos econômicos, assentados na divisão de. funções entre por isso, a qualquer conservantismo e, de Acerta forma, encon-
povos prósperos e povos miseráveis. tram-se abertos à renovação, porque s? tem f1:1turo sua
Nesta altura,. torna-se necessário estabelecer uma distinção integração nos modos de ser das sociedades mdustn:iis .mo-
clara entre os povos atrasados na história e os povos subdesen- dernas. Este é 0 caso do Brasil, da Venezuela, da Colombia e
volvidos. Os primeiros correspondem aos contingentes margi- d Antilhas em que predominou o cruzamento de euro?eus
nais não atingidos por algumas (ou todas) as revoluções tec- c:i negros configuração da matriz étnica. caso, amda,
nológicas que conformaram o mundo moderno. Tais são, por do Chile, do Paraguai, de alguns países da e
exemplo, as tribos que sobrevivem em certas áreas, como gru- dos povos rio-platenses, nos quais prevaleceu o mes.tiço mdigena-
pos pré-agrícolas ou como formações de aldeias agrícolas indi- europeu. Os rio-platenses se transfiguraram, sob
ferenciadas. Em oposição a esta condição arcaica e isolada, 0
peso do alude de imigrantes europeus que se· encaminharam
consideramos povos subdesenvolvidos aqueles que foram inte-. 1\ seus territórios depois da Independência. Nenhum dos
gradas no sistema econômico mundial através de processos de desta configuração alcançou o desenvolvimento atraves
atualização histórica e que, ao amadurecerem etnicamente para da industrialização. Todos são classificáveis como areas de-
o comando de si mesmos, vão tomando consciência do caráter pendentes de caráter neocolonial.
espoliativo de suas vinculações externas e da natureza retró- A terceira configuração é representada pelos
grada de suas classes dominantes tradicionais. Estes últimos munho, resultantes do impacto da expansão
podem ser classificados em quatro grandes configurações his- pelas revoluções mercantil e industrial sobre antigas civiliza-
tórico-culturais, correspondentes a seus processos específicos ções como a muçulmana, a indiana, a chinesa, a coreana, a
de formação étnica e responsáveis pelos problemas de desen- indochinesa, a incaica e a mexicana:. Todos eles sofreram pro-
volvimento com que se defrontam seus povos. fundas traumatizações de que só estao alcançando
Tais são, primeiro, os Povos Emergentes, que ascendem, através de sua própria integraç1fo na civilização o
em nossos dias, da condição tribal à nacional, por ·força de Japão pela via capitalista e, mais a Chma e a
processos de atualização histórica tendentes a situá-los na ca- coréia do Norte pela via socialista. Os demais
tegoria de áreas neocoloniais. Encontram-se, principalmente, na marginalizados no subdesenvolvimento e são ta:nbém
África Tropical e são representados pelos povos que experi- cáveis como economias neocoloniais, com exceçao do Mexi:o,
mentaram, até há pouco tempo, ou sofrem ainda, a dominação do Egito e da Argélia, que se estruturam numa nova formaçao,
colonialista de ingleses, franceses, belgas, portugueses e outros. 0
Nacionalismo Modernizador, e do Vietnam, integrado na for-
Suas economias são, no melhor dos casos, enclaves estrangei- mação socialista.
ros implantados como quistos dentro de seus territórios na A quarta configuração, correspondente aos !rans-
forma de empresas mineradoras (Congo, Rodésia, Nigéria, Ca- pT.antados é constituída pelos povos formados nas colomas de
tanga, Camarões), de grandes plantações tropicais de exporta- através da transladação, para novos esp_aços no
ção (Libéria, Gana, Nigéria, Guiné, Somália, Kênia, Sudão, Tan- além-mar de europeus desalojados principalmente de areas ru-
ganika, Angola e Moçambique) e algumas áreas de exploração rais por 'efeito dos processos civilizató.rios plas.maram.
pastoril ou florestal, também de exportação. rormações capitalistas mercantis e mdustnais.
Vêm, em segundo lugar, os Povos Novos, surgidos todos como extensões ultramarinas de naçoes européias, esses povos
na América Latina como subprodutos exógenos de projetos eu- prosseguiram nas áreas onde se implantaram, os processos
1 opeus de colonização escravista. Reunindo no mesmo espaço de renovação' tecnológica e reordenação institucional em curso
físico matrizes étnicas profundamente diversificadas - indíge-· nas suas matrizes. Encontram, por isso, e pelo
nas, negros e europeus - aqueles empreendimentos ensejaram espoliativo da dominação que maiores facih·
sua fusão mediante a miscigenação racial e a aculturação, dando dades de integrar-se na civilização industnal moderna. Perten-
lugar a figuras étnicas inteiramente novas. Estas populações,
161
160
cem a esta categoria os norte-americanos, os canadenses, os xima parcela possível dos resultados das atividades produtivas;
australianos e os neozelandeses. Integraram-se nela, ao trans- de outro lado, as classes subalternas, empenhadas na elevação
figurar sua etnia original por um processo de sucessão ecoló- constante de .seus níveis de consumo e na melhoria. de suas
gica, provocado por um alude imigratório intencionalmente condições de vida e de trabalho.
conduzido,. os argentinos e os uruguaios. De todo o grupo, Combinações diversas destas três ordens de tensões con-
estes últimos são os menos desenvolvidos. Tal se deve, princi- duziram a dois movimentos básicos de reestruturação social.
palmente, à sobrevivência em ambos de uma ordenação insti- Um de natureza evolutiva, resultante da acumulação de mu-
tucional oligárquica. fundada no monopólio da terra, que é um danças institucionais que descaracterizam o regime capitalista,
dos últimos traços da herança salvacionista ibérica que neles a ponto de configurar algumas sociedades industriais como
ainda prevalece. São também povos transplantados, embora de uma nova formação, o Socialismo Evolutivo. O outro, de natu-
caráter singular, os núcleos caucasóides da África do Sul, da reza revolucionária, conduzido intensionalmente como um es-
Rodésia, de Kênia e de Israel. Todos eles serão levados, pro- forço político de ruptura com os fatores inibitórios do desen-
vavelmente, a experimentar profundas transformações étnicas, volvimento industrial autônomo, que configurou algumas socie-
dada a sua· natureza artificiosa. São, na verdade, intrusões ·eu- dades em duas novas formações: o Socialismo Revolucionário
ropéias implantadas em áreas de populações majoritariamente e o Nacionalismo Modernizador.
estranhas que, não tendo sido dizimadas ou absorvidas pela Na construção do modelo teórico das formações socialistas
miscigenação, amadurecem como novas etnias nacionais que, evolutivas tivemos em mente algumas nações de alto desenvol-
mais cedo ou mais tarde, tenderão a repelir os intrusos inas- vimento industrial que se encaminham para uma via divergente
similáveis. tanto das estruturas imperialistas industriais quanto. das so-
cialistas revolucionárias. O paradigma mais amadurecido é re-
A Expansão Socialista presentado pelos países escandinavos, que se vêm· estruturando
como uma nova formação sócio-cultural graças à combinação
de certos procedimentos coletivistas de produção e de consu-
Com base nas forças renovadoras da Revolução Industrial, mo e à atribuição de maiores responsabilidades sociais ao
desencadeia-se, depois da Primeira Guerra Mundial, um pro- Estado pelo destino de suas populações, com a preservação,
cesso civilizatório novo, responsável pela estruturação das for- em certos setores, da empresa privada regida pela busca do
mações socialistas. Estas surgem em conseqüência da atuação lucro e em associação com instituições políticas liberais.
de três ordens de tensões geradas ou intensificadas pelos pró- Mais larvar é a forma encontrada na Inglaterra, que, em-
prios progressos da industrialização, todas irredutíveis no âm- pobrecida nas últimas guerras, despossuída de suas principais
bito das :formações imperialistas industriais e do seu contexto colônias e tornada caudatária da economia norte-americana,
neocolonialista. se viu na contingência de encontrar em si mesma os elementos
Tais foram, primeiro, as tensões entre as próprias potên- de sua própria sobrevivência, mediante reformas estruturais
cias imperialistas, que as conduziram a sucessivas guerras de democratizadoras e procedimentos coletivistas de reordenação
repartição do bolo colonial, acabando por envolver o mundo da economia nacional. Alguns movimentos revolucionários da
inteiro em conflagrações que debilitaram ao extremo os me- França e da Itália propugnam também uma evolução progres-
canismos de preservação da ordem capitalista. Segundo, as siva ao socialismo, negando a imperatividade da passagem por
tensões entre as nações industrializadas e suas áreas de ex- uma "ditadura do proletariado" e a necessidade do apelo ao
ploração, condenadas ao atraso em virtude da natureza espo- unipartidarismo; duvidam até mesmo da conveniência da na-
liativa dos vínculos recíprocos e conducentes, por isso, a guer- cionalização prévia de todos os meios de produção. Também a
ras de emancipação nacional, nas quais toda a ordem social Austria, entre muitos outros países capitalistas industriais, pa-
era posta em causa, ensejando profundas reformas estruturais. rece tendente a configurar-se nesta nova formação, pela com-
Em terceiro lugar, as tensões internas decorrentes da polari- binação de mudanças estruturais espontâneas com procedimen-
zação nas sociedades capitalistas, tanto as industrializadas tos intencionais de reordenação política.
quanto as dependentes, de duas forças contrapostas: de um Alguns dos teóricos que mais enaltecem as qualidades da
lado, os estratos patronais e as camadas a eles associadas, economia livre-empresarial de mercado tentam provar a sua
esforçando-se por manter o sistema e por apropriar-se da má- capacidade de autoperpetuaçã9 precisamente por estas formas
162 163
de renovação. Assim procuram demonstrar que. o e o direito de greve; limitando a jornada de fixando
desenvolvimento histórico das sociedades capitalistas se está salários mínimos e estabelecendo serviços assistenciais de pre-
processando no sentido de uma socialização progressiva. A seus vidência e de prevenção do desemprego.
olhos, uma socialização espontânea se vem cumprindo pela Por esta via, os governos capitalistas foram assumindo res-
crescente participação popular na co-propriedade das empresas ponsabilidades sociais cada vez maiores para com. a de
e pela distribuição cada vez mais igualitária dos produtos do trabalho, elevando o custo de seus serviços assistenciais e,
trabalho humano, em consonância com a democratização das em conseqüência, absorvendo parcelas crescentes. da na-
instituições sociais e políticas. Sua oposição ao socialismo cional. Todos esses procedimentos forçaram .ª de
siste, essencialmente, em negar a conveniência de uma inter- novos sistemas de repartição da renda nacional, da
venção racional na estrutura econômica, política e social. Con- política fiscal e orçamentária, que desembocaram numa inten-
fiam em que as forças sociais e econômicas, interagindo espon- sificação do intervencionismo estatal, acabando por da
taneamente sob o controle informal do sistema de lucro e sob política econômica o pr?tci_pal pelo
os imperativos do mercado aberto, conduzirão o processo aos destino das empresas. Nestas circunstancias, as propnas em-
melhores resultados, pelo amadurecimento progressivo das po- presas passaram a aspirar _à. do
tencialidades de fartura, e de liberdade que a tecnologia mo- vés de subsídios e regalias fiscais a mdustna e de estipendlos
derna enseja (especialmente A. A. Berle e G. e. Means 1951; à agricultura. Nas nações industriais em ciue es_te
J. K. Galbraith 1952). processo atuou mais intensamente, implantou-se uma.
Ainda que os teóricos do neocapitalismo pareçam estar nova no sistema econômico, dentro da qual a sobrevivencia do
certos no que respeita ao reconhecimento de uma tendência passou a depender .do aprofunda-
à socialização espontânea, as razões pelas quais esta se pro- mento de sua decomposição. Nestas naçoes, o de força
cessará não serão certamente as que eles indicam. É mais subordinada aos interesses privatistas, começa a
provável que o desenvolvimento das tendências presentes con- em um poder reordenador do pelo m;ipe-
duza ao socialismo, segundo a expectativa de J. Schumpeter rativo de fazer funcionar a economia, Ja mviavel nas antigas
(1963 e 1965), não pelo amadurecimento do capitalismo, mas bases, para assegurar a estabilidade política e taxas
por sua deterioração provocada pela generalização dos proce- de ocupação da mão-de-obra e para manipular a mflaçao e_ a
dimentos que minam as condições institucionais indispensáveis deflação como fatores fundamentais de controle da recessao
para sua preservação. econômica.
A característica fundamental do socialismo evolutivo está Esta política econômica nova, surgida como um_ protecio-
para Schumpeter no fato de que não emerge em conseqüên- nismo compulsório, tomado indispensável para reduzir as ten-
cia do amadurecimento do sistema capitalista, mas· da atenua- sões perigosamente revolucionárias entre o e os
ção de suas características cruciais que, a certa altura, pode salariados amadureceu com o dirigismo economico tambe1?
chegar a desnaturá-lo para produzir uma configuração capita- tornado ir'tiperativo para fazer face às crises setoriais e gerais
lista inautêntica, tendente ao socialismo. Efetivamente, o siste- e para mobilizar a economia nas de
capitalista industrial, depois de implantar o reino da racio- marcha deste intervencionismo estatal, mdes:Jado mas
nalização contratualista, do espontaneísmo, do privatismo e do tável, acabou por afetar as próprias condiçoes de
liberalismo econômico, entrou a restaurar velhas regulamenta- mento do sistema capitalista, sobretudo quando, .ªº
ções protetoras e a criar novas, cuja generalização o vai tor- interno se somaram reestruturações da economia externa, im-
1

nando obsoleto como sistema. Não o fez, porém, como uma postas pela independência dos domínios e _pela com-
concessão gratuita à massa assalariada, mas pagando o preço petição com estruturas capitalistas e sociahstas_ podero-
de sua sobrevida diante da onda de insurreições, de greves e sas. A certa altura do processo, o sistema econoi:iico altera-se
de lutas de classe que convulsionaram as sociedades capita- tão profundamente que tende a aproximar-se mais do
listas desde o último quartel do séeulo passado. Em face desses teórico socialista que do capitalista original. Nestas condiçoes,
movimentos, os Estados se viram na contingência de coibir· os a economia global passa a ser regida principalmente pelo
abusos mais escandalosos, regulamentando o trabalho do me- Estado, através de planejamentos que metas para
nor e da mulher; admitindo a liberdade de organização siildical os setores públicos e para os privados, e a onentar-se1 antes

164 165
por critéri.os sociais do que pela livre interação das empresas J. Fourastié 1952). Este crescimento do setor terciário não
na busca da maximalização dos seus lucros.
significa que se esteja generalizando uma situação de indepen-
Nas sociedades capitalistas altamente industrializadas atuam dência econômica. Isto porque, nestas mesmas sociedades ca-
outras forças reordenadoras, assentadas não tanto em fatores pitalistas mais avançadas, as empresas tendem a aglutinar-se
político-institucionais, mas em processos mais profundos de em unidades cada vez maiores e se eleva, constantemente, a
renovação estrutural que parecem conducentes ao fortaleci- de assalariados em relação a proprietários e a traba-
mento das tendências socializadoras. Entre outras ressalta a lhadores autônomos (granjeiros, profissionais liberais, etc.).••
redução do contingente humano a tarefas
agricolas, acompanhada de uma propensão a anular as dife- Estas tendências entraram a acentuar-se cada vez mais na
última década, com o desenvolvimento da tecnologia de base
j,
rei:iças estabelecidas entre os homens, segundo
seJam compelldos a acomodar-se a uma condição urbana ou e
eletrônica com os primeiros passos da automação do sistema
a uma condição rural. A Inglaterra já conta com menos de produtivo. É de supor que esta reordenação venha a operar,
:11'
,,
:
5%_ de sua população ativa ocupada na agricultura; nos Estados no plano social, como um fator de fortalecimento das tendên-
Umdos, esta percentagem é inferior a 10%. Este último caso cias socializantes, porque permitirá produzir quantidades de
é ainda mais significativo, porque corresponde à economia bens tão extraordinariamente grandes que poderá desobrigar
mais produtiva do mundo. Nas demais nações indus- o homem do próprio dever de trabalhar para fazer jus a um
que alcançaram altos índices de tecnificação na salário, tornando obsoleta a condenação bíblica. Norbert Wiener
agricultura observa-se a mesma tendência minimizadora e uma (1948:38), examinando as conseqüências prováveis da automa-
igual aproximação entre o estilo de vida rural e o urbano ção dos processos produtivos, exprime sua preocupação pelos
cor:espondente a uma fusão, em marcha, da indústria com efeitos dissociativos que deverá provocar, mas assinala que a
É até mesmo possível avaliar o grau de amadu- resposta a esse repto "será, evidentemente, o surgimento de
.de uma sociedade, nos quadros da Revo- uma sociedade que se baseie em outros valores humanos que
luçao Industrial, segundo o índice alcançado nesta fusão e em não a compra e a venda". Tal deverá ocorrer, porém, já no
seu indicador básico, que é a redução da mão-de-obra agrícola curso de um novo processo civilizatório.
dentro_ da população Assim se começa a superar, após Outra via alternativa da evolução pós-capitalista é o Socia-
dez mil anos de Revoluçao Agrícola, a própria condição huma- lismo Revolucionário, tal como se configura na União Sovié-
na que ela instaurou maciçamente, transformando coletores e tica, nas Repúblicas Socialistas da Europa Oriental, na China,
caçadores em agricultores e pastores. na Coréia do Norte, no Vietnam do Norte e em Cuba. A prin-
I,
. Uma renovação estrutural a que encaminha o prin- cipal característica desta formação sócio-cultural é sua raciona-
de trabalho liberada da agricultura, lidade, enquanto concretização planejada de um projeto de re-
Já nao :para a m?-ustn_a,_ mas para novas e múltiplas categorias forma intencional das sociedades humanas, levada à prática
d_e serviços (assistenciais, educacionais, de comércio burocrá- através de movimentos revolucionários.
e inúmeros outros) que revelaram capa- Com a formulação das doutrinas socialistas, especialmente
cidade . msuspeltada . de absorção de mão-de-obra. * A categoria do màrxismo, prefigurou-se para as camadas assalariadas, so-
ocupac10nal predommante nas sociedades mais industrializadas bretudo para o proletariado fabril, um modelo teórico de trans-
tende, _por isso, a ser menos a do operário fabril que a de formação intencional das sociedades e se definiu uma estra-
a.:ssalanados da categoria de empregados de escritório e pro- tégia de combate que, pela primeira vez na história, prometia
fissionais universitários, chamados a representar 0 papel de abrir às camadas subalternas perspectivas de concretizar velhas
contingente da força de trabalho (Colin Clark 1957; aspirações de reestruturação completa das bases da vida social.
De acordo com esta teoria, a classe operária está destinada,
• Entre 1850 e 1950, a proporção de trabalhadores na indústria eleva-se na historicamente, a atuar como força motriz de uma revolução
França, 0de cerca de 30% para 40%, enquanto que o setor terciário cresce de ' 16%
para 30 Vo. Nos USA, entre 1870 e 1950, os respectivos incrementas foram de 22 40;.
par.a 40,2% para o set.or secundário e de 19% para 44,4% para o terciário, que
assim, a maior parcela de mão-de-obra que a própria indústria. Somente a •• Nos Estados Unidos, a percentagem de assalariados sobre a população ativa
camada dos wh1te collar cresceu nos USA em 10,6 milhões de assalariados, entre cresceu, entre 1940 e 1950, de 75% a 82%; a de granjeiros sobre a população ativa
1948 e 1963, enquanto o assalariado rural crescia em apenas 1 6 milhão (C Clark se reduziu de 17% para 6%, entre 1910 e 1956. Na França, as mesmas percentagens
1957; J. Fourastié 1950 e 1952). ' · passaram de 48,8%, em 1906, para 60,20/o em 1950. No Canadá, de 77% para 91%
entre 1940 e 19M (A. Rumlantsn [F.d.] 1963).
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social que promoverá a suplantação de todas as formas de mes autoritários de intervenção racional em toda a vida social
espoliação e de alienação dos homens, mediante a eliminação através do planejamento global e da mobilização de todas · as
da propriedade privada dos meios de produção e a conseqüente energias para erradicar estruturas sociais arcaicas e, instaurar
da estrutura classista das sociedades e, com ela, novos modos de vida e de trabalho. Mesmo os padrões mais
dos mecanismos de opressão do Estado. diferenciados de socialismo, como o iugoslavo, o cubano e o
O modelo teórico do socialismo marxista tem de peculiar chinês, não discrepam essencialmente do modelo. Acresce, ain-
seu duplo caráter de previsão de uma nova etapa da evolução da; que nenhum deles --:- nem mesmo o mais antigo - se
humana e de projeto intencional de reordenação das socieda- apresenta a si próprio como expressão da forma definitiva que
des segundo os interesses das categorias majoritárias da po- busca. Todos se autodefinem como vias de transição, acele-
pulação. A primeira característica decorre de que seus ideó- radoras do progresso tecnológico-industrial e da reestruturação
logos .º conceberam como uma nova formação sócio-cultural, social e ideológica, que criarão as bases para a implantação
ou seJa, como a etapa natural e necessária do processo de de futuras sociedades comunistas.
das sociedades capitalistas, que trariam implícito, em Todas estas variantes por isso, dentro de uma
s1 mesmas, este modelo reordenador, como um desdobramento mesma formação sócio-cultural que é o Socialismo Revolucio-
inexorável. A segunda característica assenta-se na presunção nário. Ela se define pelo apelo à "ditadura do proletariado"
de que esta transformação não se cumpriria por si só, como como instrumento de mobilização de recursos e energias para
uma fatalidade, exigindo por isso a fixação de uma estratégia promover aceleradamente a socialização compulsória de todos os
na condução das lutas sociais, tanto na etapa preliminar de meios de produção, com o objetivo de criar uma economia indus-
conquista do poder, como no esforço, posterior, de implantação trial de novo tipo, em que se vá tornando cada vez mais imprati-
do novo sistema. A combinação doutrinária destas duas propo- cável a opressão econômica, a desigualdade social ou a oposição
sições conduziu à suposição de que as formações socialistas entre cidade e campo e entre o trabalho físico e o intelectual.
emergiriam, necessariamente, de profundas convulsões de cará- Este modelo foi inaugurado na Rússia, a partir de um
ter revolucionário, conducentes a regimes de transição defini- projeto teórico de reordenação da sociedade. Sua elaboração
dos como a "ditadura do proletariado". constituiu um sérj.o desafio, porque pela primeira vez se con-
A expectativa, porém, não se cumpriu, como seria de es- seguia reestruturar racionalmente, por um ato de vontade, toda
perar, nas sociedades maduramente industrializadas, onde se uma sociedl\de, a começar das suas bases. Tratava-se de atender
coneentrava um proletariado mais numeroso e consciente. Nem objetivamente a antigas aspirações humanísticas dentro do
se concretizou, segundo supuseram os teóricos marxistas, pelo enquadramento rígido dos fatores econômicos que fazem a
esgotamento das potencialidades do regime capitalista ou em prosperidade depender da capacidade de produção e o bem-
virtude de crises cíclicas ou da pauperização crescente da mas- estar depender de um difícil equilíbrio entre a necessidade de
sa trabalhadora. Efetivou-se como resultado de um projeto investimentos crescentes no parque produtivo e o desejo de
intencional de reordenação social, em uma área marginal, in- alargar as facilidades de consumo popular. Para tanto
cipientemente capitalista e industrializada, com a revolução so- nha·se três ordens de requisitos. Primeiro, a criação de uma
cialista russa de 1917, seguida mais tarde por várias outras, nova estrutura de poder, pela erradicação da antiga classe
todas elas motivadas, principalmente, por tensões de caráter dominante e o recrutamento e· a preparação de um aparelho
antioligárquico e antiimperialista e todas, exceto Cuba, desen- tecnocrático novo. Segundo, a instauração de um novo sistema
cadeadas no curso de guerras mundiais. tria pesada, só alcansável através de um controle rigoroso
sobre todos os fatores capazes de afetar o projeto e da
Assim como as formações capitalistas mercantis e indus- produção desapropriados e a totalidade da força de trabalho
triais assumiram diversas formÇtS históricas concretas, nã.o só nacional para um esforço continuado de edificação da indús-
diferenciadas mas até contrapostas transitoriamente umas às tria pesada, só alcansável através de um controle rigoroso
outras, também as socialistas se configuram segundo modelos sobre todos os fatores capazes de afetar o proieto e da
distintos, marcadamente nacionais e suscetíveis de experimen- adoção do planejamento global como norma de governo. Ter-
tar oposições, como a sino-soviética. Todavia, os diversos pa- ceiro, a capacidade de fazer face à hostilidade externa e interna
drões de organização socialista revolucionária são variantes do para com o experimento que ali se realizava, mediante a con-
modeJ.o cristalizado na URSS a partir de 1917, mediante regi- clamação das energias nacionais para a autodefesa e a desti·
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nação de uma parcela ponderável de recursos para fins militares, O malogro dos movimentos socialistas revolucionários nas
Este enquadramento desfavorável estabeleceu os limites dentro sociedades mais industrializadas explica-se, principalmente, pela
dos quais o projeto socialista soviético pôde alcançar seus própria capacidade das estruturas imperialistas industriais de
objetivos de redução das diferenças de classe e de implantação propiciar o atendimento das aspirações materiais básicas de
de uma democracia popular. suas populações metropolitanas. Isto se tornou possível em
Apesar de todos os esforços e dos progressos alcançados virtude do ritmo acelerado de progresso tecnológico da Revo-
nessa direção, subsistem ainda, em todas as sociedades socia- lução Industrial, que assegurou às empresas capitalistas condi-
listas, estratüicações de classe que diferenciam os assalariados ções de manter suas taxas de lucros, apesar do constante au-
urbanos do campesinato e distinções societárias que privile- mento do custo da mão-de-obra. Mas explica-se, também, pela
giam a intelectualidade burocrática incumbida da organização
compressão que exercem os Estados imperialistas contra os
! impulsos reordenadores das suas classes subalternas. Esta com-
'I'
econômica, política e cultural. Além dessas distinções, subsis- pressão se efetiva de muitos modos, dentre outros, pela pro-
I'
tiu e se fortaleceu o estatismo - ao arrepio da expectativa moção de migrações maciças e pelas dizimações nas guerras,
dos teóricos do socialismo - gerando várias formas de despo- que atuaram como formas de atenuação das tensões sociais
tismo burocrático-partidário. nas áreas precocemente industrializadas;. pelo enriquecimento
Tais percalços só são compensados, aparentemente, pela am- suplementar alcançado pelas nações pioneiras da industrializa-
plitude do sistema educacional, estendido a toda a população, ção através da espoliação colonial; pelos mecanismos de insti-
para selecionar novos talentos,· e pela expectativa de que a tucionalização dos conflitos de classes - sobretudo o sindica-
combinação dessa educação democrática e do sistema impes- lismo --: que, em lugar de amadurecerem a consciência operária
soal de promoção por mérito seja capaz de igualar as opor- para o papel histórico que lhe fora vaticinado, permitiram des-
tunidades de ascensão social de cada nova geração. As so- viar para a conciliação e o reivindicacionismo econômico grande
ciedades socialistas revolucionárias confiam, presumivelmente, parte do fmpeto revolucionário; pela doutrinação ideológica
nesses procedimentos como forma de evitar os riscos de estag- associada à propaganda religiosa de caráter anti-socialista; pelo
nação e despotismo em que caíram as formações teocráticas désenvolvimento de legislações sociais protecionistas e pela mul-
de regadio fundadas na propriedade estatal dos meios de pro- tiplicação de serviços assistenciais que melhoraram as condi-
dução e também conduzidas por tecnocracias, mas tendentes ções de vida das camadas populares; pela repressão policial e
a se tornarem hereditárias, esclerosadas e despóticas. Confia- militar aos movimentos operários de caráter socialista-revolu-
se, por igual, em que os mesmos procedimentos possam obviar cionário; e, finalmente, pela criação de regimes de terrorismo
duas sérias ameaças com que se defrontam, a primeira delas político que alcançaram sua expressão extrema no fascismo e
representada pela herança russa e chinesa de tradições de des- no nazismo, ambos dedicados, essencialmente, a frustrar a
irrupção de insurreições que ameaçavam conduzir a Itália e
potismo dos períodos de dominação mongólica e mandchu que
a Alemanha ao socialismo.
ambas experimentaram, a segunda pela carência de tradições Paradoxalmente, exerceram também um papel no refrear
liberal-democráticas na história daquelas duas sociedades, o os movimentos socialistas de inspiração mais utópica a própria
que as obriga a processar, juntamente com a industrialização experiência soviética e, particularmente, a imagem deformada
e a reestruturação social correspondente, a mobilização política que dela se difundiu. Essa experiência veio demonstrar que a
e o amadurecimento ideológico dàs suas populações pára as transição revolucionária ao socialismo não se alcança automa-
tarefas do autogoverno. No modelo chinês de socialismo revo- ticamente, com a simples decretação da propriedade coletiva
lucionário, o enfrer.tar desses riscos parece estar-se fazendo de dos meios de produção; que, ao contrário, exige um esforço
forma mais ousada, pelo abandono dos estímulos econômicos político continuado, um grande fortalecimento do poder do
e dos critérios tradicionais de valorização das hierarquias mili- Estado e enormes sacrifícios da população; e, ainda, que o
tares e das direções tecnocráticas, pela reestruturação das po- socialismo não elimina a divisão do trabalho com a correspon-
rulações não metropolitanas em comunas rural-urbanas e, so- dente hierarquização de funções, nem o regime assalariado e a
bretudo, pela mobilização ideológica da totalidade da população economia monetária.
para as tarefas de renovação da civilização chinesa, através da A contingência de enfrentar o cerco hostil das nações ca-
"revolução cultural". pitalistas no período crucial do esforço de industrialização

170 171
acrescentou outros argumentos dissuasivos, ao compelir a URSS clado em programas de reforma agrária destinados a 'integrar
a adotar procedimentos rigidos de mobilização popular e de as massas marginais no sistema econômico nacional e a criar
compulsão moral, com base em valores patrióticos e persona- amplos setores médios de pequenos proprietários; fundado,
listas que também crestaram os entusiasmos do movimento ainda, no nacionalismo, como postura ideológica Iucidamente
comunista internacional. Por fim, os próprios partidos socia- antiimperialista de mobilização dos seus povos para as guerras
listas e comunistas dos países capitalistas, a partir de· 1935, se de emancipação, como uma diretriz na condução do desenvol-
foram orientando antes para alvos de co-participação nos órgãos vimento econômico em Unhas autonomistas e como expressão
governamentais, através de táticas parlamentares e de frente de etnias nacionais afinal amadurecidas . para assumir sua ima-
única, do que para a conquista direta do poder. Esta nova gem - orgulhosas dela - e para exercer o comando do seu
orientação das organizações políticas socialistas, associada à destino.
tendência de institucionalizar as tensões de classe, através dos São exemplos desta formação o México de Cárdenas, a
sindicatos, conduziu à crescente burocratização dessas duas Turquia de Mustafá Kemal e, atualmente, o Egito e a Argélia,
frentes de luta do movimento revolucionário, Ambas se trans- entre outras nações do chamado Terceiro Mundo. Todas elas
formaram, assim, nos países avançados em que se conservam tendem a romper com o subdesenvolvimento através de pro-
fortes, em engrenagens do sistema institucional que atuam no cedimentos da mesma natureza que os dos países socialistas,
plano político e no sindical com a função de regular e discipli- ainda que muito menos radicais e muito menos efic&Zes na
nar a ação das massas trabalhadoras e, por esta via, de con- condução do processo de industrialização autônoma. A circuns-
solidar o próprio capitalismo. Nesta conjuntura, os partidos de tância de que as formações nacion:1list,as sur-
esquerda acabaram por se transformar em propugnadores de gissem, em sua totalidade, de movimentos revoluc1onár1os, re-
um socialismo evolutivo como a alternativa desejável ao sistema vela o grau de resistência dos interesses coloniais e oligárquicos
capitalista e, finalmente, por conduzir suas forças antes para a qualquer reforma estrutural, como revela, também, o peso
campanhas reivindicatórias, pela redistribuição dos resultados das dificuldades que se opõem à desmistificação dos ethos
do processo tecnológico, do que pela reordenação intencional desses povos, impregnados de valores espúrios por eles adota-
da sociedade. dos como explicações causais do seu atraso: o eurocentrismo,
Nada indica que os padrões atuais de socialismo revolu- o racismo, o autitropicalismo, etc. A posição de transigência
cionário e evolutivo esgotem os modos de configuração do so- das formações nacionalistas modernizadoras entre as soluções
cialismo, mesmo porque inovações tecnológicas, reordenações radicalmente socialistas e as capitalistas reflete, em certos
estruturais · e renovações institucionais desenvolvidas nas últi- sos a postura ideológica das suas lideranças revolucionárias;
mas décadas - tanto nas sociedades capitalistas mais avança- exprime, também, as próprias condições de atraso econômico
das quanto nas áreas subdesenvolvidas - parecem ensejar e de deformação estrutural de que tiveram de partir, em vir-
novas possibilidades de ordenação social, dentro de princípios tude das constrições oligárquicas internas e da espoliação ex-
socialistas. terna de que foram vítimas seculares; e revela, por fim, o
A primeira dessas alternativas está surgindo em algumas poder de manutenção do status quo das formações imperialis-
nações atrasadas que, lutando por sua autonomia econômica tas industriais que fizeram algumas sociedades recuar neste
e política num mundo bipartido entre os campos capitalista caminho, como a Turquia e o México, e impediram muitas ou-
e socialista, procuram encaminhar-se para um .novo modelo es- tras de optar por ele.
trutural que lhes enseje a industrialização e o desenvolvimento. A quantificação das diferenças de eficácia da ação renova-
Tal é o Nacionalismo Modernizador, fundado em princípios dora do Socialismo Revolucionário em relação aos Nacionalis-
t-struturais de inspiração principalmente socialista, como a mo- mos Modernizadores demonstra que o primeiro tem uma capa-
bilização popular para o esforço desenvolvimentista, o inter- cidade muito maior de promover uma industrialização acelera-
vencionismo estatal e o· planejamento econômico parcial, ten- da. Efetivamente, a URSS implantou as bases do seu sistema
dente a privilegiar as empresas públicas nos setores básicos industrial entre 1930 e 1940 e a China entre 1955 e 1965, através
da economia, preservando embora o sistema de lucro como de ritmos de crescimento do 'produto interno bruto que não
princípio ordenador da economia nos demais setores; fundado, têm paralelo em quaisquer países ou épocas. Esta ca-
também, num vigoroso reformismo antioligárquico consubstan- pacidade de aceleração evolutiva torna o caminho socialista

172 173
revolucionário especialmente atraente para nações subdesenvol- não signüica uma ausência de ideologia, porque ela própria
vidas que enfrentam problemas paralelos e que devem partir é a ideologia que não quer explicitar sua verdadeira função
de condições sócio-econômicas similares, se não inferiores, dado aliciadora em defesa de perpetuação da ordem social. Nesse
o vulto de suas populações marginalizadas e o atraso tecnoló- · ambiente, os pensadores se vêem compelidos ao papel passivo
gico de seus sistemas produtivos. Perpetuar sua integração no de observadores da "ação espontânea das forças naturais" ou
sistema imperialista internacional representaria, para estas na- de doutrinadores dedicados à tarefa de persuadir a sociedade
ções, aceitar uma condenação ao ·atraso sem perspectivas de de que a interação "livre" dos fatores de mudança conduzirá
superá-lo em tempos previsíveis, por ser muito mais intenso aos melhores resultados. No passado, a ideologia calvinista
o ritmo de progresso das economias /capitalistas industriais provia uma fundamentação religiosa para esta suposição; hoje,
maduras que os ritmos de auto-superação dos países ela se reduz a um wishful thinking.
i:::envolvidos.
Esta aridez teórica contrasta gritantemente com a criati-
:Um e;xemplo concreto dessa situação nos dá o Brasil, que vidade e a ousadia dos ideólogos dos albores do capitalismo.
conta, hoJe, com uma população de 85 milhões e com enormes Então, uma multiplicidade de pensadores, dedicados a repen-
disponibilidades de recursos naturais, mas se defronta com sar prospectivamente 'suas sociedades e o humano, criou as
graves problemas de desenvolvimento. O Brasil experimentou, bases teóricas da ideologia política moderna. Hoje, naquelas
até recentemente, um dos mais altos ritmos de incremento mesmas nações, buscar-se-iam em vão os êmulos dos velhos
econômico entre as nações subdesenvolvidas: 2,8% de aumento humanistas. Será o modelo socialista-evolutivo tão inviável e
do PIB per capita, de 1955 a 1960. Entretanto, nesse ritmo, frágil em seus fundamentos que não incite entusiasmos? Será
precisaria de 132 anos para alcançar o nível de produtividade ele, efetivamente, uma formação sócio-cultural ou uma mera
e de renda per capita dos Estados Unidos de 1966, enquanto transição entre o capitalismo que se desgasta e novas formas
que, no ritmo de incremento da URSS (6,4% per capita ao que ainda não se anunciam claramente?
ano, na década de 1950/6), poderia alcançar o mesmo alvo em Estas indagações têm uma importância capital, porque as
apenas 40 anos. * civilizações só se desenvolvem enquanto são capazes de infun-
O Socialismo Revolucionário e o Socialismo Evolutivo con- dir, um sentido de missão às populações que polarizam, em-
flagrantemente por seus perfis ideológicos. O primeiro, prestando um significado superior de destinação à simples
.ideais igualitr>ristas e de mística "utópica"; o existência humana (R. Linton 1936). Esta capacidade de ali-
1mbmdo de valores liberais e de uma antimística pes- ciamento ideológico é que permitiu às grandes civilizações do
s1m1sta. Cada um deles, pouco ou nada sensível ao corpo de passado mobilizar suas populações para a expansão imperial,
valores que o outro cultua. O Socialismo Evolutivo, emergindo para a edificação de macro-etnias integradas ou para engajá-
de estruturas capitalistas industriais avançadas, surge impreg- las em sistemas produtivos destinados a enriquecer as minorias
nado das atitudes espontaneístas do velho sistema que lhe di- dominantes. Quando falta esta característica, a função integra-
ao definir-se como um projeto de reordenação tiva tende a exercer-se à custa de puro despotismo ou se dilui,
racional da sociedade. Ppr este motivo é que ao perfil ideoló- como ocorre com as sociedades feudalizadas, em que toda a
gico do Socialismo Revolucionário, que procura explicitar-se cultura se mediocriza, muito embora os seus povos possam viver
como uma mística libertária e como o caminho do progresso mais tranqüilamente e, provavelmente, comer mais e melhor.
as sociedades atrasadas, não corresponde uma formulação
equivalente do Socialismo Evolutivo. Pode-se mesmo dizer que
se. caracteriza por uma atitude adversa a toda formulação
ideológica, expressa na afirmação desalentada de que "as velhas
paixões estão exaustas" (D. Bell 1960). Esta antimística, porém,

• Observe-se que utilizamos os cálculos norte-americanos <Kuznets 1965) de Incre-


mento anual per capita da URSS, porque os dados oficiais soViétlcos e chineses
Indicam multo mais acelerados, a saber, de 110/o para os primeiros e de 16,5%
para os últrmos. A taxa do PIB per capita do Brasil caiu posteriormente a o'1o/t
de 1960 a 1964 (ONU-CEPAL 1966). ' '

174 175
---- ------- ---------------
11

QUARTA PARTE

A Civilização da Humanidade

I'
i' '
VIII/A REVOLUÇÃO TERMONUCLEAR
E AS "SOCIEDADES FUTURAS"

NO CURSO de todas as revoluções tecnológicas regis-


traram-se diversos impulsos acelerativos, responsáveis por mu-
danças substanciais no processo produtivo e nos modos de
vida das sociedades humanas, sem se configurarem como revo-
luções porque não deram lugar ao surgimento de novas forma-
ções sócio-culturais. Este foi o caso dos ciclos de progresso
ocorridos no curso da Revolução Industrial com a introdução
da turbina a vapor, dos motores elétricos e dos motores de
combustão interna; com a substituição do ferro pelo aço nos
usos industriais; com a aparição das máquinas operatrizes
(torno-revólver, torno automático, retífica, fresa, etc.); com o
desenvolvimento da indústria química (ácido sulfúrico, soda
cáustica, borracha, anilinas etc.) e com a generalização do
uso de dispositivos e aparelhos elétricos, e de uma miríade de
bens industriais novos (H. Pasdermadjian 1960; O. Lange 1966;
F. Sternberg 1959).
Estaremos, agora - com a implantação da tecnologia cien-
tífica moderna de base termonuclear e eletrônica - diante de
uma aceleração cíclica da mesma natureza ou diante de trans-
formações tão prodigiosas das forças produtivas e tão prenhes
de conseqüências que devamos classificá-las como uma nova
revolução tecnológica? A relevância dos progressos alcançados
e o próprio caráter irruptivo da nova onda de inovações pa-
recem indicar que se trata de uma revolução. Efetivamente,
após um período de relativo descenso no ritmo de progresso
tecnológico, entre a última década do século passado e as
três primeiras deste, a criatividade científico-tecnológica voltou
a cresce,r de forma extraordinária (8. Lilley 1957) e desde a
última guerra acumulou tal soma de inovações na capacidade
humana. de ação, de pensamento, de organização e de plane-
jamento que já parece configurar-se como uma revolução tec·
nológica nova.

179
1111
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1

Se assim é, porém, estaremos no limiar dessa nova cimos revolucionários da produtividade do trabalho e
lução porque, em nossos dias, apenas se podem medir seus que só permitia o progresso pela escravização de extensas ca-
impactos renovadores, ainda confundidos que estão com os madas) tenderá a reduzir-se cada vez mais, até se extinguir
efeito_s de sucessivas alterações impostas pela Revolução In- completamente. Contra esta tendência, porém, erguer-se-ão com
dustrial. tempo pode ser comparado, portanto, à lngla- vigor desesperado da luta pela sobrevivência todos os interes-
1
terra do pnmeiro quartel do século XIX, quando aquela revo- ses privatistas, cujos privilégios se assentam na desigualdade
lução já atuava como o modelador de uma formação nova social. Supunha-se que este embate se desse de forma catas-
mas seu perfil ainda era nebuloso. Comparando os frutos ma: trófica, a certo nível do amadurecimento da nova ecónàmia.
'·.11'
'I!! duros da Revolução Industrial com aqueles renovos, sobres- Na verdade, desencadeou-se diante da mera possibilidade teó-
' '·'1 saem a sua rudeza e primitivismo. Neles estavam contidos rica de implantar a igualdade e a abundância, através do pro-
f i:'
i porém, como virtualidades, os desdobramentos posteriores. ' cesso civilizatório que se cristalizou nas formações socialistas
llili: . Nest: sentido, são meros prenúncios do que virá nas pró- revolucionárias como uma antecipação histórica. Sua universa-
1:,1,11··

'"I ximas decadas a acumulação de desenvolvimentos no campo lização é que está em causa, neste momento, bem como as vias
.111,1
das ciências básicas e suas aplicações tecnológicas na forma pelas quais se efetivará e os modelos de sociedade que deverão
::ri: d_e armas termonucleares, de aviões a retropropulsão, de bate- configurar os povos.
rias solares e, sobretudo, de dispositivos eletrônicos ultra-rá- Neste sentido, marcha, hoje, cada vez mais aceleradamente,
1
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pidos na tecnologia dos transístores, que permitiram um novo processo civilizatório de âmbito universal. Marcha,
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produzir o radar e os novos computadores, os reatores nuclea- porém, condicionado pela característica básica da evolução
"" res, . a luz coerente, ·o radiotelescópio, os projéteis espaciais;
sócio-cultural que atua, essencialmente, por saltos nos pro-
1

1 111
" e, amda, os complexos industriais automatizados, os sistemas
automáticos de produção química de sintéticos, os meios mo- cessos produtivos e não se cumpre pela enunciação teórica de
dernos de telecomunicação em massa, os sistemas cibernéticos novos princípios, mas pela multiplicação dos frutos concretos
de de informações e de simulação de situações de sua aplicação. Uma coisa é o protótipo viável de um
para a fixaçao de estratégias militares e econômicas. machado de pedra polida, de um arado, de um veleiro, de um
O impacto destas inovações faz-se sentir na vida diária do automóvel ou de um aparelho de televisão; outra coisa é a
homem comum do nosso tempo, principalmente através de entrada em uso de milhões destas inovàções. A Revolução Ter-
uma to;rente de materiais, de novos tipos de máquinas monuclear só se fará sentir, efetiV'amente, como a nova força
operatnzes automatizadas e de formas revolucionárias de co- conformadora da história, quando fizer suceder à tralha· indus-
municação em massa e de difusão. Já se faz sentir, também, trial moderna toda a prodigiosa parafernália que hoje se en·
como efeito da multiplicação da acuidade dos sentidos huma- contra no nível de projetos ou de potencialidades ou de objetos,
nos de ultra-sensíveis e da duplicação da instrumentos, máquinas e motores de uso limitado.
capacidade de açao humana através da contração do espaço A designação de Revolução Termonuclear para esta onda
e da extensão do tempo em graus antes inimagináveis. Seus ..., emergente de inovações tecnológicas e de seus concomitantes
efeitos cruciais estão concentrados, porém, na tecnologia militar sócio-culturais justifica-se, tanto pelo car!iter çrucial ,do fator
que lida com potencialidades absolutas de destruição da vida energético na evolução humana a que se refere, como pelo
na 1:e::ra. As promessas da nova tecnologia, de proporcionar impacto que a competição atômica entre a América do Norte
prodigiosas fontes de energia e uma abundância teoricamente e a União Soviética desencadeou sobre a humanidade, desde
ilimitada de e de serviços, são ainda meras expectativas. o fim da última Guerra Mundial. Esta competição conduziu a
Entretanto, à medida em que estas promessas entrem a cum- uma relocação de recursos financeiros e humanos sem paralelo
prir-se, terá início um novo movimento do processo evolutivo na história CM. H. Halperin 1967).
pela morte da economia da escassez e o advento da economia Hoje, a América do Norte aplica cerca de 75% do seu
da abundância, no bojo da qual deverão transmudar-se todas orçamento em atividades de defesa (84 mil milhões de dóla-
as formas atuais de estratüicação social. res em 1966). Nelas já gastou mais de 897 mil milhões de
Em face desses desenvolvimentos futuros, que propiciarão dólares desde 1946 e ocupa um exército de 6 milhões de com-
a generalização da prosperidade, a divisão da sociedade em batentes (NATO, SEATO, etc.) espalhados pelo mundo, além
classes econômicas (surgidas como fruto dos primeiros acrés- de 350 mil cientistas e tecnólogos que representa,m cerca de

1 f,
180 181
i
'1
1
900 diferentes especialidades (Ch. R. de Carlo 1965). Como as a uma função· meramente assessorial das altas hierarquias civis,
soviéticas e chinesas devem ser equivalen- militares e empresariais, nada predispostas a abdicar do poder
tes, venfica-se que estamos diante de um fato novo e decisivo que detinham. E, mais do que isso, viram-se submetidos aos
por sua magnitude e pela sua capacidade de afetar as socie- sistemas mais vexatórios e opressivos de vigilância policial, ao
dades humanas. Somente ema parcela dcr;ta fantástica mobili- mesmo tempo em que se defrontavam - já de mãos atadas
zação de recursos se aplica na tecnologia nuclear. A própria - com os problemas éticos de agentes humanos do desenca-
guerra que se Prevê não se designa mais como atômica, mas dear de forças naturais capazes de dar fim a todas as formas
como químico-bacteriológica-radiológica ou pela sigla sinistra de vida (D. M. Whitaker 1951; C. P. Snow 1963; Don K. Price
Q.B.R.. :odavia, foi a competição termonuclear e o pavor à 1965).
destrmçao total que acarretou que pôs em marcha o processo A própria ciência, como fator cultural, se translada do
da revolução tecnológica em curso e lhe deu a extraordinária plano ideológico para o adaptativo, convertendo-se, de uma
aceleração que experimenta em nossos dias (H. Kahn 1962; M. expressão abstrata do esforço humano de compreensão da ex-
N. Halperin 1965).
periênci!",, no mais eficaz dos agentes de ação sobre a natu-
A Revolução Termonuclear, mesmo nestes seus primeiros reza, de reordenação das sociedades e de configuração das
passos, colocou nas mãos das sociedades mais avancadas so- personalidades humanas.
mas tão fantásticas de poder destrutivo, construtivo e constri- Para isso contribuem três fatores fundamentais.
tivo que tanto pode conduzir o homem ao reino da fartura e Primeiro, o desenvolvimento exponencial experimentado pe-
da eqüidade como pode desencadear um processo de deterio- los conhecimentos científicos no século XX, acompanhado de
ração sócio-cultural e até biológica mais profundo que qualquer uma re.dução drástica do intervalo entre os progressos teóricos
das regressões anteriores. Nesse poder de modelar o futuro e suas aplicações práticas, de modo a fundir a ciência e a tec-
está sua característica distintiva de revolução tecnológica. Qual- nologia numa entidade única no plano operativo. Entre as
quer que seja o seu porvir, o homem terá transitado por esta experiências de Faraday (1821) e a integração dos motores
etapa e será marcado indelevelmente por ela. elétricos no sistema produtivo (1886) medearam 65 anos. Entre
É mesmo admissível que venha a subverter o caráter do os estudos çte Maxwell e Hertz e a comercialização dos apa-
processo evolutivo, que, neste passo, deixará de ser um movi- relhos de rá)dio passaram-se 35 anos (1887-1922). Mas entre as
me_:ito histórico acionado de modo espontaneísta pela acumu- formulações teóricas e a comercialização tecnológica do radar
laçao de progressos dos meios de ação sobre a natureza e de (1935-1940), da bomba atômica (1938-1945), do transístor (1948·
seus efeitos "naturais" sobre as socfodades humanas, para con- 1951) e da bateria solar (1953-1955) medearam períodos muito
verter-se num processo racional de condução intencional da inferiores, como o revelam as datas (W. O. Baker 1965).
evolução sócio-cultural. Ao menos; o repto com que se defron- Segundo, a profissionalização da ciência e da tecnologia
tam hoje as sociedades mais avançadas é, essencialmente, o de avançada, que, de atividade lúdica ou inusitada nos princípios
reger o processo de mudança provocado pelo desenvolvimento do século, se vai convertendo em ocupação ordinária de um
científico-tecnológico, a fim de determinar o seu ritmo e esta- contingente humano que deve estar alcançando um milhão de
belecer a direção em que se exercerá sobre os povos. pessoas em nossos dias. Seu ritmo de incremento é tão intenso
Desde seus primeiros passos, a Revolução Termonuclear quanto o dos operários fabris dos primeiros passos da revo-
provocou a mobilização de todos os quadros científicos das lução industrial. Tal como naquele '1aso, tenderia a absorver,
respectivas áreas de influência para tarefas de investigação de nas próximas décadas, toda a população ativa e, finalmente,
militar. As universidades e os centros de pesquisa assim a humanidade inteira, se esta não fosse uma inflexão ocasional,
consentas perderam grande parte da autonomia e até mesmo destinada a corrigir-se. Nos dois casos, entretanto, a correção
a capacidade de exercer suas funções decisivas de núcleos de posterior da curva não impedirá a transfiguração total das
pensamento independente e de criatividade cultural livre. Na- sociedades que experimentarem esse impacto.
queles primeiros momentos, os cientistas tratados como um Em terceiro lugar, a expansão fantástica da aplicação de
misto de sábios e de magos detentores do; segredos da Bomba recursos nas atividades de pesquisa científica e de desenvolvi-
experimentaram a ilusão de que assumiriam, afinal, as mento tecnológico de projetos. As despesas com tais progra-
vancas do poder. Foram, porém, reduzidos, progressivamente, mas por parte do governo norte-americano, que vinham cres-

182 183
cendo na proporção de um dólár, em 1920, para quatro, em pamento químico-industrial ou dos parques de máquinas têxteis,
1940, saltaram a 35, em 1950, e a 175, em 1960. Em números inadaptáveis aos fios sintéticos. Mais graves são as descone-
absolutos, esta progressão foi de 80 milhões de dólares, em xões humanas, representadas pelo desuso de especializações
1920, para cerca de 16 mil milhões, em 1963 (D. Bell 1965). profissionais que se tomam arcaicas - como os antigos fo-
Tudo indica que os investimentos russos em pesquisa científica guistas das locomotivas, substituídos por motores Diesel e elé-
e tecnológica sejam ainda mais altos e que os chineses este- tricos - e que, em conseqüência, se vêem deslocados e obri-
jam se aproximando cada vez mais destas magnitudes. Uma gados a reajustamentos sucessivos, em muitos casos impossíveis.
indicação do incremento· exponencial destas atividades cienti- Esta ordem de desajustamentos tende a crescer cada vez
ficas e tecnológicas dá-nos, indiretamente, a expansão impetuo- mais, atingindo, primeiro, alguns setores da força de trabalho;
sa do número de publicações cientificas. Estas tendem, já, a produzindo, depois, massas de deslocados e gerando, por úl-
reproduzir a totalidade da matéria publicada cada 15 anos. timo, multidões de marginalizados social e ocupacionalmente
E já se eleva à soma extraordinária de 50 mil o número de e, assim, condenados a viver como pensionistas do Estado. O
periódicos técnico-científicos do mundo, que publicam, anual- controle das tendências dessas massas desajustadas à insubor-
mente, cerca dê um milhão de· artigos. dinação consistirá num repto muito mais agudo que aquele
Estas três ordens de incrementes se revestem do caráter com que se defrontaram as primeiras sociedades industriais,
de inflexões extraordinárias a que nos referimos e tendem, por atenuado, então, pela exportação maciça dessas populações pa-
isso mesmo, a experimentar reduções de ritmo. Todavia, não ra áreas coloniais e pelos desgastes humanos em guerras. Os
serão reduções da ampliação do saber e da sua aplicação, mas novos problemas sociais não admitem, porém, soluções tão sin-
dos agentes humanos e materiais através dos quais a ciência gelas, porque põem em causa, de forma ainda mais dramática,
se constrói hoje, evidentemente inadequados como forma de a incompatibilidade da ordenação social com a tecnologia pro-
criação, de registro e de acumulação do saber humano. Tal dutiva que opera; e porque os impulsos de reordenação social
como a redução progressiva da percentagem de operários fa- já se exercem sobre sociedades de um novo tipo, cujas popula-
bris não importpu no decréscimo da produção, é de prever ções são, provavelmente, mais capazes de autodefesa contra a
que também estas correções de ritmo se façam simultanea- opressão. A combatividade do novo negro norte-americano em
mente com o florescimento ainda maior do saber e da técnica sua luta contra a· discriminação racial dá-nos uma medida
e com uma integração crescente de conteúdos científicos na dessa capacidade de autodefesa das camadas marginais das
cultura. A ciência torna-se, desse modo, o agente fundamental sociedades avançadas.
da ação humana sobre a natureza externa, sobre a ordem so- A fonte principal dessas tensões é a promoção dos traba-
cial e sobre a própria natureza humana. lhadores, da condição de manuseadores de ferramentas à de
A revolução tecnológica em curso põe em causa a observa- operadores de máquinas e, finalmente, à de supervisores de
ção de Marx sobre as relações necessárias entre a ampliação sistemas produtivos ultracomplexos. Estes, além de exigir muito
das forças produtivas e o caráter das relações de produção. menor número de trabalhadores, não carecem de energia mus-
OU, em outros termos, sobre as quantidades de mudanças cular nenhuma e não requerem qualquer adestramento pro-
tecnológico-produtivas que podem suportar as sociedades mo- fissional. Em compensação, exigem, de seus supervisores, uma
dernas sem romper sua estrutura institucional. Os efeitos dos qualificação educacional cada vez mais alta. Sua implantação
novos processos produtivos sobre as relações de trabalho ape- na indústria importa, em primeiro lugar, na eliminação maciça
/ nas começam a tornar-se mensuráveis. Estão-se acumulando, de trabalhadores; e, a seguir, na proscrição progressiva da
porém, pelo somatório de pequenas rupturas e de traumas que, "aristocracia operária", constituída pelos trabalhadores grande-
amanhã, serão conflitos abertos ao longo de toda a vida social, mente especializados, para dar lugar a um contingente novo
conducentes a configurá-la em novas formações. de operadores cada vez mais intelectualizados e mais parecidos .
Suas conseqüências mais singelas são as desconexões de com as velhas camadas de empregados burocráticos e com os
caráter mecânico entre fontes de energia e máquinas; ou entre engenheiros modernos.
máquinas e matérias-primas; ou, ainda, entre máquinas e má- Este complexo de desconexões mecânicas e humanas re-
quinas que compelem já à substituição periódica de setores quer, além de reajustamentos no parque fabril, na força de
inteiros do parque produtivo. Por exemplo, o desuso do equi- trabalho e nas instituições de previdência e amparo, uma re-

184 185
visão completa do sistema educacional. Transformando a es- O paradoxal, porém, é que essas formações imperialistas
colaridade num drástico seletor social, que exclua da vida aderidas à ordem social vigente se vão tornando cada vez mais
produtiva os não-instruídos, torna-se imperativa a abertura do conservadoras no plano estrutural e ideológico e crescente-
sistema escolar de todos os níveis à totalidade da população; mente ousadas no plano tecnológico e econômico. O motor
impõe-se a revisão de todo o seu conteúdo curricular para dessa ousadia é o clima criado pela disputa armamentista que
ajustá-lo aos graus de integração das ciências na cultura e arrasta a Améirica do Norte e a União Soviética a uma com-
torna-se indispensável o acesso de toda a força de trabalho petição sem limites pela sua própria segurança, fundada no
a uma reeducação continuada e de alto padrão ao longo de máximo de capacidade de represália em face de um ataque.
toda a vida produtiva. Em ambas as estruturas, a competição conduz a uma acen-
O efeito desses impactos sobre as sociedades socialistas, tuação sem paralelo da criatividade científica e tecnológica.
ainda que enorme, deve ser tido como irrelevante no plano Na América do Norte, no entanto, a expansão se vê constrin-
estrutural porque, provavelmente, virão a atuar como acele- gida pelo imperativo de dirigir a criatividade para o plano
radores de mudanças já em curso. Isto se deve, essencialmen- técnico-científico - sobretudo espacial e eletrônico-militar -
te, ao seu caráter de economias coletivistas e planificadas, ao mesmo tempo em que se comprimem ao máximo as neces-
capazes, portanto, de absorver a tecnologia nova, beneficiando sidades de programação racional da transformação social e
a sociedade inteira com o acréscimo de produtividade que ideológica. Cria-se, desse modo, um verdadeiro síndrome espon-
propicia. Para os regimes privatistas, porém, essas inovações taneísta e anárquico, que procura conciliar o máximo de trans-
representam um sério desafio, em virtude da precedência dos formações no plano produtivo com a manutenção das relações
interesses particulares sobre os públicos e, conseqüentemente, de trabalho, com um mínimo de interferência no plano estru-
do caráter incipiente da programação econômico-social que po- tural e institucional.
dem pôr em execução. Acionados pelo pavor atômico, os setores militares e em-
Ante esses desafios, essas sociedades tendem a reagir com presariais passaram a promover a ciência e a tecnologia de
esforços obstinados a fim de evitar que a revolução tecnológica guerra. Os primeiros, porque não tinham. outra opção; os úl-
ponha em risco os interesses investidos e ameace as estruturas timos, porque foram subsidiados para isso. Nessas condições,
tradicionais de poder. Para isso condicionam a aplicação das as altas hierarquias nacionais configuram-se como cidadelas de
potencialidades de multiplicação da produtividade à consolida- anti-radicalismo em que se combinam uma confiança desmedi-
ção do regime vigente e procuram utilizar exaustivamente os da na capacidade de utilização do progresso técnico-científico
novos e prodigiosos sistemas de comunicação em massa para e uma aversão suprema às formas estatais centralizadas de
conformar uma opinião pública submissa e disciplinada, me- administração e de controle. Como estas são inevitáveis -
diante uma doutrinação que a torne incapaz de qualquer opção em virtude da correlação entre o grau de tecnificação das ati-
radical. vidades produtivas e a necessidade de criar corpos cada vez
Aspirações semelhantes foram sus,tentadas, no passado, por mais ampliados de tecnocratas e de implantar uma centraliza-
todas as camadas privilegiadas tomadas obsoletas. Em verdade, ção dos órgãos de direção - o processo de transfor-
todas malograram, mas, no seu afã de perpetuar-se como mac.,ão evolutiva torna-se extremamente conflitivo. Faz-se inten-
classes dirigentes, conduziram seus povos, muitas vezes, a pro- cional e lúcido em todos os conteúdos científico-tecnológicos,
cessos de degradação extrema, com apelo ao despotismo e ao mas residual e irracional nos conteúdos institucionais e sociais.
militarismo. Esses riscos são, hoje, muito mais graves, porque Exemplos flagrantes dessa contradição são-nos oferecidos
o próprio desenvolvimento tecnológico acarretou uma concen- pela integração das empresas privadas nos programas de
tração e uma fusão extremas dos núcleos do poder econômico, investigação científico-militar em que, ao invés de tratar com
político e militar e uma expansão fantástica dos meios de in- questões de produtividade, de custos e de mercados, lidam
formação e de modelamento da opinião publica. Nessas circuns- com aptidões e idéias transformadas em mercadorias. O me-
tâncias, um pequeno grupo de elite pode apropriar-se da má- nor problema criado por essa integração foi o da corrupção.
quina do Estado para conduzir os assuntos nacionais segundo Ela é inerente a situações em que recursos públicos são des-
seus interesses e até contar com o apoio caloroso de enormes tinados ao subsídio de atividades de pesquisa, de desenvol-
parcelas da população, suscetíveis de serem ganhas para as vimento ou de produção de protótipos, em que o custo da
teses mais irracionais, como o recorda a experiência hitlerista.. própria implantação empresarial está incluído nas encomendas.

186 187
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-----------------...... ............ .. ..-
1

ttm observador autorizado revela ser impossível distinguir, nos servação dos interesses investidos. Nessas condições, o prê-re-
livros de contabilidade de uma empresa particular, os gastos quisito básico para a perpetuação do sistema empresarial passa
investidos no seu próprio desenvolvimento e aqueles que em- a ser sua degradação pelos descaminhos da apropriação privada
prega na execução dos contratos públicos (E. D. Johnson 1965). de recursos públicos, do uso abusivo da corrida armamentista
Só uma dedicação extrema ao espírito de livre empresa como estimulante da vida econômica, da ingerência burocrática
e uma preferência de caráter ideológico pela gerência privada governamental e militar na vida das empresas e, por fim, da
de bens explica a doação de parcelas astronômicas de recursos acumulação de tensões entre as camadas assalariadas e o pa-
públicos, nessas condições, a grupos privados. A situação é tronato. A solução parece ser, por isso mesmo, meramente pa-
tão dúbia que algumas empresas norte-americanas se negaram liativa, uma vez que só consegue acumular tensões destinadas
mesmo a participar de concorrências públicas, ao verificar a a romper, finalmente, a própria estrutura.
incompatibilidade dos critérios de eficácia e de honestidade A!ém da relocação do papel das ciências na cultura, a Re-
usuais na produção para o mercado com os vigentes nos con- voluçao Termonuclear parece destinada a operar uma verda-
tratos com o governo. outras trataram de desdobrar-se em deira reversão do próprio processo evolutivo. Este, em lugar
associadas, a fim de não envolverem seus patrimônios nos de atuar como um processo de atualização histórica espoliador ·
negócios com o Tesouro. As mais importantes foram instituídas das nações atrasadas ·- tal como atuavam todas as revoluções
especialmente para explorar esta nova mina que são os contra- . anteriores, privilegiadoras das estruturas macro-étnicas que pri-
tos de encomendas militares. meiro absorveram as inovações tecnológicas - tende a pôr em
movimento novas formas de difusão e de generalização dos
Problemas ainda mais graves surgiram com a administra-
progressos tecnológico·culturais. Em conseqüência, estes não
ção empresarial de cientistas, selecionados segundo rigorosos implicarão no estabelecimento de relações de subordinação en-
procedimentos de mensuração de sua capacidade virtual de
tre os povos avançados e os atrasados.
produzir in:ventos. Um deles é o da propalada queda do nível
de criatividade do cientista com a idade madura, o que leva Para isso contribuem três fatores decisivos. Primeiro a
algumas empresas a se preocuparem com seus corpos de sá- competição entre os campos socialista e capitalista, impediÚva
bios, que têm de ser dispensados quando se aproximam dos do surgimento de uma entente neo-imperial reacionária. Segun-
40 anos. outro problema é o do rendimento cientüico min- do, o amadurecimento do ethos dos povos atrasados, como re-
guante das aplicações adicionais de recursos em pesquisas con- sultante residual da expansão da Revolução Industrial. Esse
duzidas como negócios. outra fonte de traumas decorre da amadurecimento é claramente perceptível, em nossos dias, pela
.disparidade entre as pautas mais liberais dos cientistas e as da impotência de alguns desses mesmos povos,
correntes nos setores tradicionais da sociedade. Estes, agindo ha um século, quando foram avassalados pela expansão impe-
segundo critérios estritamente econômicos - dentro da sagrada rialista, com a capacidade extraordinária de enfrentar e de
primazia dos lucros empresariais ou segundo normas rigidas autodefesa que revelam hoje. (Considere-se a combatividade dos
de segurança militar e de vigilância policial - criam um am- insurretos da Argélia contra a França e do Vietnam contra os
biente carregado de tensões em que o trabalho criador se Estados Unidos). Terceiro, a magnitude da Revolução Chinesa,
torna impraticável (E. Ginzberg 1965). que detonou um processo de aceleração evolutiva sobre uma
parcela enorme da humanidade dentro da área mais povoada,
Todos esses problemas estão a indicar as dificuldades de mais miserável e mais espoliada do mundo. Seu vulto pode
integração, no mundo empresarial privado, dos conteúdos di- ser medido pela expectativa dos demógrafos da ONU, segundo
nâmicos da nova tecnologia produtiva. A integração é, todavia, os quais os chineses constituirão 1,8 dos 6 bilhões de habitan-
inevitável, porque constitui a única forma de garantir a sobre- tes da Terra no ano 2000.
vida do próprio sistema capitalista. Efetivamente, os setores
públicos, absorvendo e aplicando, anualmente, desde há mais Também contribuirão decisivamente para essa reversão os
de uma década, duas terças partes a três quintas partes do movimentos de emancipação política, econômica e cultural em
Produto Nac.ional Bruto da América do Norte, já teriam im- que estão empenhadas as nações subdesenvolvidas. Espocando,
plantado um vastíssimo sistema de empresas estatais, caso não simultaneamente, em todo o mundo, ameaçam liqüidar as bases
existisse a orientação taxativa de utilizar as forças da renova- neocoloniais do sistema imperialista, compelindo à criação de
ção tecnológica dentro do enquadramento obrigatório da pre- novas constelações internacionais. Deste modo, caberá aos po-

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vos atrasados na história uma função civilizadora dos povos truição. Apenas uma percentagem irrelevante dos recursos in-
mais evoluídos, tal como, no paradoxo de Hegel, cabia histori- vestidos em pesquisa se dirige à busca de melhores soluções
camente ao escravo o papel de combatente da liberdade. para os problemas representados por aquelas carências funda-
Assim é que a Revolução Termonuclear, exercendo-se sobre mentais de bens e de serviços. Temos um exemplo deles na
uma humanidade previamente integrada num sistema interati- composição do corpo da tecnólogos e cientistas norte-ameri-
vo único, formado de partes interdependentes, e atuando sobre canos: 140 mil se ocupam em pesquisas aeronáuticas, espaciais
povos deliberados a defender suas oportunidades de desenvol- e de eletrônica militar, mas apenas 1 200 se dedicam a proble-
vin.ento autônomo, deverá desencadear-se como um processo mas da indústria têxtil, 4 mil estudam cimento e prnblcraa:::;
de aceleração evolutiva que a todos irá integrando, progressi- de edificação e 5 mil investigam metalurgia básica (E. Ginzberg
1965).
vamente, na mesma tecnologia e em formas de vida idênticas.
As vantagens alcançadas pelas sociedades mais avançadas po- Outros obstáculos a vencer são a superação do caráter
deriam induzi-las a se fecharem sobre si mesmas para fruir intrinsecamente espoliativo da interação entre estruturas so-
seus progressos. Sua dependência do sistema mundial de inter- ciais tecnologicamente defasadas e, especialmente, a liquidação
câmbio obrigá-las-á, porém, a interagir com os povos mais da exploração imperialista que pesa sobre os povos subdesen-
atrasados. E estes, na medida em que se tornem capazes de volvidos e os condena a empenhar-se em guerras de emanci-
defender seus próprios interesses, imporão novas formas de pação e em revoluções sangrentas para alcançar condições
interação cada vez menos espoliativas às relações internacionais. mínimas de autonomia na condução dos seus destinos. Ligado
As profundas defasagens de tempos evolutivos que hoje a este problema está o da superação da rigidez estrutural das
medeiam entre os povos poderão ser, assim, paulatinamente nações imperialistas, cujo apego ao status quo permite .o do-
reduzidas. Para isso conta-se com a unidade psíquica essencial mínio político interno por grupos minoritários deliberados a
da espécie humana, que a toda ela torna suscetível de progres- manter o sistema a qualquer preço. Sua façanha já representa
so, e com a natureza mesma da evolução cultural que, ao um ônus tão alto em despesas militares com guerras e sub-
contrário da biológica, processando-se por transmissão simbó- venções a regimes títeres que ultrapassa de muito o que podem
lica, se faz rapidamente difundível sobre todos os contextos arrancar de outros povos. Assim, o só subsiste em
humanos. Para tanto, ter-se-á de criar sistemas adequados de virtude da contradição entre o poderio dos interesses priva-
difusão e de educação de base mundial, capacitados a socia- tistas, que continuam obtendo altos lucros dessa exploração, e
lizar cada nova geração de acordo com os mesmos conteúdos a debilidade política dos interesses nacionais majoritários que
e as mesmas diretrizes. o subsidiam através de impostos.
Por todos esses caminhos, o que está em marcha é uma Soma-se a este problema o peso das diferenças de classe
etapa evolutiva nova, que transmudará, mais uma vez, a con- e da discriminação racial, que continuam impondo condições
dição humana - agora de forma ainda mais radicai, porque desumanizadoras à maioria da espécie humana. A superação
colocará, finalmente, a ação modeladora de uma revolução desses percalços, hoje aparentemente intransponíveis, pode
tecnológica sob o controle de uma política intencional de base fazer-se pela aceleração evolutiva acionada pela própria Re-
científica. Assim, na medida em que a ciência se translada volução Termonuclear no' curso do processo de modelação das
do plano ideológico para o adaptativo, confundida com a tec- Sociedades Futuras. Não será g.lcançada, porém, de forma
nologia, a intervenção racional humana é que passará a gerir espontaneísta, porque importará num esforço extraordinário,
a história (R. Arzumanian 1965). só praticável através de um planejamento rigoroso e da mais
completa cooperação internacional.
Até essas altitudes, porém, muitos obstáculos terão de ser
superados. Em primeiro lugar, o das carências elementares - As características dessas Sociedades Futuras são, hoje, tão
como a fome, a falta de vestimenta, de moradia, de facilidades pouco previsíveis quanto o eram as das formações contidas
sanitárias mínimas contra enfermidades curáveis e o acesso a em potencial na Revolução Industrial, nas primeiras décadas
um mínimo de escolaridade - que afligem a quase totalidade do seu desencadeamento. Entretanto, algumàs delas já são vi-
da espécie humana. Este problema capital está intimamente síveis em nossos dias. Assim é que se pode afirmar que o
relacionado com a orientação do esforço científico e tecnoló- sentido do desenvolvimento humano aponta para a configura-
gico, voltado, hoje, predominantemente, para tarefas de des- ção das Sociedades Futuras como formações socialistas de um

190 191
novo tipo. Estas serão, com toda a probabilidade,. sociedades
não estratüicadas em classes econômicas, embora de caráter - expresso em toda sorte de artefatos mais perfeitos e traba-
infinitamente superior ao das comunidades tribais indiferen- lhosos do que o necessário para serem operativos - e foi tão
ciadas de que a humanidade partiu há dez milênios e que cedo soterrado pela mecanização e pela especialização, voltará
prevaleciam relações pessoais e igualitárias. Também serao de a florescer. Quebrar.se-ão, assim, os círculos fechados de ar-
tipo muito mais alto que o "socialismo" dos Impérios Teocrá- tistas herméticos e de apreciadores eruditos para devolver a
arte e a criatividade artística ao homem comum.
ticos de Regadio, igualmente fundados na propriedade estatal,
que conformaram, em sua primeira etapa, regimes de alta Uma terceira característica das Sociedades Futuras será
responsabilidade social para .com a pessoa humana e. de alto sua capacitação a atuar num mundo de possibilidades quase
nivel de integração societária, mas que decaíram, por fun, num absolutas no plano do conhecimento e da ação, tanto destru-
estatismo militarista marcadamente despótico. Serão, por igual, ,tiva quanto construtiva e constritiva. O controle mínimo indis-
sureriores às formas socialistas modernas de tipo revolucioná- pensável destas capacidades, para que não se voltem contra
rio ou evolutivo. o homem, importará no imperativo de proscrever as guerras
e de criar um sistema mundial de poder estruturado segundo
Nesse rumo impreciso parecem progredir, convergentemen- princípios supranacionais que permitam dar representativida-
te tanto as formações socialistas revolucionárias quanto as de às populações humanas segundo sua magnitude. Exigirá,
ev'olutivas. Por esse rumo progredirão, provavelmente, as for- também, o desenvolvimento de órgãos internacionais de con-
mações imperialistas atuais, à medida que . seus contextos. neo- trole dos meios de comunicação de massa e de modelação da
coloniais se emancipem e que elas própnas se desvencilhem opinião pública.
das imposições dos interesses privatistas sobre os Estados, Uma vez superados os problemas da carência e da regu-
para se configurarem como socialismos evolutivos. No mesmo lação social da abundância, bem como os da igualização das
rumo avançarão, também, as nações neocoloniais oportunidades de formação educacional e de assistência sanitá-
pelas vias do Nacionalismo Modemizador ou do Socialismo ria, os desafios com que se defrontarão as Sociedades Futuras
Revolucionário, que, sofreando a espoliação imperialista e
duzindo as constrições oligárquicas internas, as amadurecerao
:a- deixarão de ser os da utilização das suas fontes prodigiosas
de energia, de bens e de serviços. Serão, desde então, os do
para a industrialização e, finalmente, para a sua configuração emprego apropriado do seu poder de compulsão sobre as per-
como Sociedades Futuras. sonalidades humanas e de condução racional do processo de
Uma característica já visível das Sociedades Futuras será socialização. Efetivamente, é provável que as Sociedades Futu-
a superação da diferença entre cidade e campo, pela ras enfrentem seus maiores problemas no esforço por capaci-
trialização das atividades agrícolas em curso e pela expansao tar-se a utilizar seus poderes quase absolutos de programação
das cidades sobre as áreas adjacentes. Outra característica da reprodução biológica do homem, de ordenação intencional
será a superação da distância entre o trabalho braçal - da vida social, de condução do processo de conformação e
ticamente proscrito - e o trabalho intelectual. A composiçao regulamentação da personalidade humana e de intervenção sis-
da força de trabalho será, majoritariamente, de pessoas com temática nos corpos de valores que orientam a conduta pessoal.
preparo de nível universitário, dedicadas a toda sorte de tare- Todos esses poderes importarão, naturalmente, em enormes
fas, principalmente as educacionais, culturais e riscos de despotismo, mas criarão possibilidades, maiores. do
recreativas, que experimentarão enorme expansao. Esses .níveis que nunca, de libertar o homem de todas as formas de medo
mais altos de preparo educacional terão igualmente o efeito de e de opressão.
fazer, da maioria dos homens, herdeiros do patrimônio cultural Tocqueville, ideólogo do liberalismo, apreensivo com o
humano, tomado comum, e uma proporção ponderável deles amadurecimento dessas tendências despersonalizadoras e despó-
capaz de criatividade artística e intelectual. ticas, perceptíveis em seu tempo, registrou, em 1835, a seguinte
antevisão das Sociedades Futuras:
A ruptura entre o produtor e o produto do seu trabalho
- provocada pela mercantilização do artesanato e acelerada, •vejo uma multidão inenarrável de homens, iguais e semelhantes, que
mais tarde, pela industrialização - será, dessa forma, supera- gtram sem descanso sobre si mesmos com o único fim de satisfazer os
da, permitindo a cada pessoa_ exprimir·se no que faz. O desejo pequenos e vulgares prazeres com que enchem ·suas almas. Cada um
de beleza, que. amanheceu tao cedo nas sociedades humanas deles vfve à parte, alheio ao destino de todos os demais. Seus filhos e
aeus amigos fntimos constituem para ele toda a espécie humana, Enquanto

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concidadãos, está tunto deles sem vê-los; toca-os sem os sentir- só existe
em si e para si mesmo. Se lhe resta uma família, pode-se' dizer que
já não lhe resta uma pátria. Acima de todos eles eleva-se um poder imenso
e tutelar que se encarrega, sozinho, de garantir seus prazeres e de velar
por Este poder é absoluto, minucioso, regular, previdente e apacível.
Pareceria um poder paternal se, como este, tivesse por objetivo preparar SUMARIO
?s homens para a V!ril; ao contrário, porém, busca apenas fixá-los
irrevogavelmente na infdncza. Não lhe desgosta que os cidadãos gozem,
se1!1'pre e quando só pensem em gozar. Trabalha com gosto para fazê-los
felizes, mas quer ser o único agente, o único árbitro. Supre sua segurança,
provê suas necessidades, facilita seus gozos. gestiona seus assuntos im-
portantes, dirige sua indústria, regula suas sucessões, divide sua herança.
Ah, se pudesse livrá-los inteiramente do incômodo de pensar e da dor
de viver!" (1957:137).

Um dos principais imperativos que as Sociedades Futuras


terão de enfrentar será o de pôr sob controle essas tendências RECAPITULANDO os caminhos da evolução sócio-cultu-
ao despotismo que preocupavam Tocqueville. Para tanto, terão ral, vemos que as sociedades humanas emergiram, com a
de situar no centro das preocupações coletivas, como o valor Revolução Agrícola, da condição de Tribos de Caçadores e Co-
mais alto, o cultivo e o estímulo ao livre desenvolvimento da letores para a vida em Aldeias Agrícolas Indiferenciadas ou
personalidade humana, o incentivo a todas as formas de ex- em Hordas Pastoris Nômades, através de dois processos civi-
pressão da criatividade e a exploração de as potenciali- lizatórios sucessivos. Estas transições tiveram lugar, pela pri-
dades humanas de desenvolver formas de conduta solidária e meira vez, há cerca de 10 mil anos no caso das formações
socialmente responsável. agrícolas e um tanto mais tarde no das pastoris, entrando am-
Em 1859, Marx, o ideólogo do socialismo, também pro- bas a expandir-se, desde então, até abranger todo o mundo.
curou prefigurar as Sociedades Futuras, mas o fez a partir No curso do seu desenvolvimento, acabaram por dinamizar a
de uma posição otimista que não via a prosperidade ordenada vida de todos os povos, integrando a maioria deles nas novas
como uma condenação, mas como uma liberação de todas as tecnologias e a outros marginalizando como sociedades atrasa-
potencialidades humanas: das na história, algumas das quais ainda hoje se encontram
nesta condição. Seu efeito crucial foi a cristalização de dois
"De fato, diz Marx, uma vez abandonada a estreita forma burguesa modos de enquadramento da vida humana que, uma vez
que será a riqueza senão a universalidade de necessidades, capacidades:
gozos, poderes de produção, etc., dos indivíduos, produzida no intercam-
plasmados, persistiriam durante milênios como modeladores da
bio universal? Que será, senão o desenvolvimento pleno do domínio huma- existência dos povos.
no sobre as forças da natureza, as de sua própria natureza, assim como Estas formações sócio-culturais, engendradas pela criaçãq
da chamada 'natureza'? Que será, senão a explicitação absoluta de suas
faculdades criadoras, sem outro requisito prévio que a evolução histórica
de novos sistemas de produção, passaram a atuar e a propagar-
precedente, que tornará a totalidade dessa evolução - isto é, a evolução se de acordo com imperativos a elas inerentes, só podendo
de todos os poderes humanos como tais, sem os medir com nenhuma ser suplantadas por novas transformações revolucionárias na
vara previamente estabelecida - um fim em si mesmo? Que será isto tecnologia produtiva ou militar. Com a Revolução Agrícola e
senão uma situação na qual o homem não se reproduza a si mesmo d: respectivos processos civilizatórios tem início um movimentá
uma forma determinada, senão que produz sua totalidade; em que não
procura perdurar como algo formado pelo passado, mas se coloca no de aceleração evolutiva que faria suceder uns aos outros toda
movimento absoluto do devenir?" (1966:17 ). uma série de modeladores. Estes se escalonariam genetica-
mente e se diferenciariam uns dos outros pelo caráter mais
O futuro imediato das sociedades mais avançadas será o progressista de cada nova formação, em termos do grau de efi-
de Tocqueville ou o de Marx, conforme se desenvolvam as cácia de sua ação produtiva, da magnitude dos contingentes
virtualidades de despotismo ou de liberdade de que estão pre- humanos que poderiam integrar em unidades operativas e da
nhes. O futuro mais longínquo, o do homem, será, certamente, ampliação e acuidade de seus corpos de saber.
o da antevisão de Marx. Este se cristalizará no curso de uma
civilização que amadurecerá com o novo homem produzido pela A Revolução Agrícola sucede a Revolução Urbana, por uma
Revolução Termonuclear, já não adjetivável étnica, racial ou acumulação de progressos tecnológicos e de mudanças correla-
regionalmente. Esta será a Civilização da Humanidade. tas operadas na estruturação social e nas esferas ideológicas

194 195
da cultura. Com essa segunda revolução tecnológica e seus dois sagrada, estes grupos pastoris capacitaram-se a conquistar gran-
processos civilizatórios, algumas sociedades passaram à. condi- des populações e estruturá-las na forma de Impérios Despóticos
ção de Estados Rurais Artesanais, de modelo Coletivista ou Salvacionistas.
Privatista, que já encontrariam no território em que. se Segue-se a Revolução Mercantil, que amadurece no século
tavam a base de sua unidade étnico-política e se bipartiriam XV, baseada fundamentalmente nos progressos da navegação
em contingentes urbanos e rurais, ambos estratificados em oceânica e das armas de fogo, ensejando uma segunda supe-
classes econômicas. Outro processo civilizatório movido pela ração do feudalismo, agora pela dinamização das forças reor-
mesma revolução tecnológica conduziu algumas hordas à con- denadoras internas. Tal se dá, originalmente, com a explosão
dição de Chefias Pastoris Nômades, socialmente menos diferen- da Europa sobre o mundo, processada, simultaneamente, a
ciadas e culturalmente mais atrasadas que os Estados Rurais partir da Península Ibérica e da Rússia moscovita, nos albores
Artesanais, mas, em compensação, muito mais aguerridas. Os do século XVI. Ambas encontram energias para a expansão
choques entre lavradores e pastores representaram, desde en- reorientando os esforços mobilizados para a reconquista de
tão, um papel dinamizador do processo histórico, que contri- seus territórios dominados, no primeiro caso por muçulmanos,
buiu tanto para a aceleração evolutiva de alguns povos como no segundo por tártaro-mongóis. Configuram-se como Impérios
para a quebra da autonomia de muitos outros, através de mo- Mercantis Salvacionistas, só incipientemente capitalistas, profun-
vimentos de atualização histórica e da criação de entidades damente influenciados por motivações religiosas e por tradi-
multi-étnicas tendentes ao expansionismo. Onde os povos pas- ções despóticas. Como povos peninsulares, os ibéricos lançam-
toris estiveram ausentes, como nas Américas, pela inexistência se ao mar e estruturam o primeiro império mundial fundado
de espécies domesticáveis para montaria e tração, a evolução no colonialismo escravista. Os russos, como área continental,
processou-se mais lenta e menos tumultuadamente.
'· 1

lançam-se à colonização mercantil dos povos do seu contexto,


Com o desencadear da Revolução do Regadio surgem, pas- integrando no mesmo sistema sócio-político toda a Eurásia.
sados cerca de 7 000 anos, as primeiras Civilizações Regionais, A mesma revolução tecnológica vinha propiciando, simulta-
na forma de Impérios Teocráticos de Regadio impulsionados neamente, a restauração do sistema mercantil europeu e, por
por uma tecnologia fundada principalmente na irrigação. esta via, o amadurecimento de uma nova formação sócio-
A aplicação, a outras áreas, da tecnologia desenvolvida no cultural, o Capitalismo Mercantil, que, rompendo a estagnação
corpo das formações teocráticas de regadio e seu. aprimora- em que havia caído a Europa feudalizada, acionou um novo
mento posterior dariam lugar a um surto de prodigiosas ino- processo civilizatório que se expandiria, a seguir, sobre todo
vações tecnológicas. Com o seu amadurecimento como Revolu- o mundo. A formação Capitalista Mercantil, tal como os Im-
ção Metalúrgica, há três mil anos passados, surgem os Impérios périos Mercantis Salvacionistas, biparte-se em complexos con-
Mercantis Escravistas. As duas formações sócio-culturais, após trapostos, porém mutuamente complementares: os núcleos me-
sucessivo esplendor e decadência como civilizações distintas,/ tropolitanos de economia principalmente capitalista e o contex-
acabaram por mergulhar em largos períodos de Regressão to externo, objeto de sua exploração, que se configura como
Feudal conduzidas tanto pela exaustão do seu potencial civi- colonialismo de caráter escravista, mercantil ou de povoamento.
lizatórlo quanto por ataques de povos marginais, Um novo salto evolutivo sobrevém, trezentos anos depois,
te por Chefias Pastoris Nômades que também se haviam feito com a Revolução Industrial, fundada na tecnologia de conver-
herdeiras da tecnologia metalúrgica e de outras conquistas da- sores de energia inanimada, ativando algumas das sociedades
quelas civilizações. capitalistas mais avançadas para configurá-las como uma nova
Uma nova revolução tecnológica, a Pastoril, desencadeia-se formação sócio-cultural, a Imperialista Industrial. Também esta
nos primeiros séculos de nossa era, provocando as primeiras se divide em dois complexos: os núcleos reitores, já agora
rupturas com o feudalismo, de caráter não meramente restau- situados em vários continentes, e as formações neocoloniais
rador das velhas formações. Emerge com o amadurecimento para as quais tanto progridem as antigas áreas de dominação
de algumas Chefias Pastoris Nômades integradas na tecnologia colonial quanto regridem as nações independentes que, não
do ferro e motivadas por religiões messiânicas de conquista, havendo integrado seus sistemas produtivos na tecnologia in·
que se lançam sobre áreas feudalizadas. Armados com dustrial, caíram em situação de dependência e de moderniza·
tecnologia nova e com uma ideologia legitimadora de sua furi1' ção reflexa através da atualização histórica.

196 197
As tensões geradas pela Revolução Industrial fazem surgir, l:lzações só podem ressurgir para restaurar-se nas mesmas
no curso da Primeira Guerra Mundial, uma nova formação bases, até que a emergência de nova revolução tecnológica
sócio-cultural, o Socialismo Revolucionário, que entra a eipan- enseje a superação desses moyimentos cíclicos. Isso foi o que
dir-se sobre áreas periféricas do sistema capitalista como um ocorreu na Europa, onde se desencadeou, pioneiramente, a
processo de aceleração evolutiva capaz de conduzir socieda- Revolução Mercantil, fazendo de alguns de seus povos o centro
des atrasadas na história à condição de sociedades industriais reitor de novos processos civilizatórios que se expandiram por
modernas. Mais tarde, algumas formações capitalistas indus- todo o mundo. O rompimento se deu, primeiro, através de
triais, despojadas de contextos coloniais e dinamizadas por duas áreas marginais, a Ibéria e a Rússia, configuradas pela
processos internos de reestruturação social, entram a trans- Revolução Mercantil como formações incipientemente capita-
formar-se, configurando uma outra formação, o Socialismo listas e suscetíveis de cair em feudalização; em seguida, pelo
Evolutivo. Por fim, alçam-se alguns povos coloniais ou neo- amadurecimento das primeiras formações Capitalistas Mercan-
coloniais, através de movimentos revolucionários de emancipa- tis, algumas das quais dinamizadas mais tarde pela Revolução
ção nacional, contra a espoliação imperialista e contra as estru- Industrial, que daria às nações do Centro e do Norte da
turas oligárquicas internas que se opõem a seu desenvolvimen- Europa, até então atrasadas no conjunto da evolução sócio-
to, configurando-se como Nacionalismos Modernizadores. cultural, alguns séculos de domínio hegemônico sobre todos
os povos.
Os movimentos cruciais desta evolução sócio-cultural foram
provocados pelas duas últimas revoluções tecnológicas - a A circunstância de terem esses passos necessários da evo-
Mercantil e a Industrial - que desencadearam os primeiros lução. humana ocorrido pioneiramente na Europa coloriu de
conteúdos ideológicos singulares os processos civilizatórios atra-
processos civilizatórios de âmbito mundial. Elas é que coloca- vés dos quais se difundiu a tecnologia da Revolução Mercantil
ram em interação todos os povos do mundo, acordando alguns e da Revolução Industrial. Assim é que o desenvolvimento
adormeéidos em idades tribais, ativando outros ainda estrutu- capitalista-mercantil e o imperialista-industrial ganharam um
rados em economias rurais-artesanais ou pastoris nômades e perfil "europeu ocidental e cristão", como se esses atributos
subjugando os dois Impérios Teocráticos de Regadio das Amé- étnico-culturais e religiosos fossem o conteúdo fundamental
ricas, bem como Povos-Testemunho de antigas civilizações es- da tecnologia da navegação, das armas de fogo, dos motores
tancadas no feudalismo. Engajaram-se todos num mesmo sis- a explosão ou da gasolina. Em conseqüência, estas conquistas
tema produtivo e mercantil, mediante a atualização histórica, tecnológicas e o poderio nelas assentado foram tidos como
como seu contexto colonial ou neocolonial. Deste modo unifi- "façanhas do homem branco" e como provas de uma suposta
caram a humanidade inteira como o quadro sobre o qual superioridade inata sobre todos os povos do mundo. Na ver-
deverão atuar as forças renovadoras de uma nova revolução dade, trata-se de etapas naturais e necessárias do progresso
tecnológica, a Termonuclear, tendente a cristalizar uma Civili- humano que, a não terem amadurecido no contexto europeu,
zação da Humanidade, estendida por todo o mundo, movida teriam fatalmente florescido em outra área, como a muçul-
pela mesma tecnologia básica, ordenada segundo as mesmas mana, a chinesa ou a indiana.
linhas estruturais e motivada por idênticos corpos de valores. Florescendo na Europa, permitiram a alguns de seus po-
No presente esquema da Evolução Sócio-cultural, reconhe- vos europeizar uma larga parcela da humanidade. O processo
cem-se oito evoluções tecnológicas (Agrícola, Urbana, do Rega- prosseguiu atuando, até no século XX como uma
dio, Metalúrgica, Pastoril, Mercantil, Industrial e Termonuclear) civilização policêntrica em que os antigos centros de civiliza-
que se desdobram em doze processos civilizatórios, responsá- ção da Europa se foram convertendo em núcleos secundários
veis pela cristalização de dezoito formações sócio-culturais, em face do desabrochar das potencialidades de progresso de
algumas das quais se dividem em dois ou mais complexos diversos povos extra-europeus. Desmascararam-se, dessa forma,
complementares. Conceitua-se o Feudalismo, não como uma as mistificações ideológicas que faziam interpretar um avanço
etapa evolutiva ou um processo civilizatório gerador de uma precoce e circunstancial como prova da superioridade intrín-
formação sócio-cultural específica, mas como uma regressão seca de uma matriz cultural e religiosa.
cultural seguida do mergulho no estancamento sócio-econômico As forças renovadoras da Revolução Industrial somam-se,
em que pode tombar qualquer sociedade que se encontre no em nossos dias, dois efeitos cruciais. Primeiro, os da Revolução
nível de civilização urbana. Desta condição regressiva as civi- Termonuclear, da qual se deve esperar uma função homogenei-

198 199
zadora das formações mais avançadas, que culminará por con- poucas variantes raciais, culturais e lingüísticas, até que um
figurá-las no mesmo tipo de formação sócio-éultural. Segundo, dia, em futuro remoto, a redução do patrimônio genético torne
uma função aceleradora do progresso, que possibilitará a re- qualquer casal capaz de reproduzir qualquer . fenótipo e cada
cuperação do atraso históri'co dos demais povos. Estas duas pessoa capaz de entender-se com as outras, à base de um am-
forças atuam convergentemente no sentido de integrar todos plo patrimônio cultural co-participado.
os povos numa mesma "civilização humana", afinal unificada O esquema evolutivo proposto registra, por último, que os
e insuscetível de qualificar-se como correspondente a qualquer intervalos entre as sucessivas revoluções tecnológicas se vêm
raça ou a qualquer tradição cultural particular. reduzindo progressivamente e que, simultaneamente, aumenta
Algumas das características básicas da Revolução Termo- seu poder condicionador, tanto em capacidade compulsória
nuclear, enquanto processo civilizatório - como a redução como em amplitude de ação. Assim, a humanidade necessitou
progressiva das diferenças de classe, a integração da ciência de meio milhão de anos para edificar as bases da conduta cul-
no sistema adaptativo e a compulsão antes aceleradora do que tural sobre as quais se tornou possível a Revolução Agrícola,
atualizadora - inovam o próprio processo de evolução, colo- deflagrada há dez mil anos passados por uns poucos povos
(8000 a.C.). Seguiu-se-lhe a Revolução Urbana, que amadureceu
cando a humanidade diante de um novo limiar de desenvol-
vimento autoconduzido e de regência intencional da história originalmente há 7 000 anos passados, e a que sucedeu a Revo-
que acabará por integrar todos os povos numa mesma forma- lução do Regadio, que se exprimiria nas primeiras civilizações
ção sócio-cultural. regionais (2000 a.C.), cerca de 3 000 anos mais tarde. Da Re-
volução Metalúrgica (1000 a.C.), desencadeada dois milênios
· Encarado em conjunto, este esquema da evolução sócio- depois, passa-se à Revolução Pastoril (600 E.C.), que emerge
cultural é caracteristicamente multilinear porque admite várias passados 1 600 anos. Vêm em continuação a Revolução Mercan-
formas de transição da condição tribal à agro-pastoril, desta til 050.0), que tem lugar 700 anos mais tarde, a Revolução
às civilizações regionais e, finalmente, às sociedades modernas. Industrial (1800), que se distancia em apenas 300 anos da
Considera, ainda, que cada revolução tecnológica segue seu anterior, e, por fim, a Revolução Termonuclear, que floresce
curso através de processos civilizatórios que, ao se expandirem em nossos dias com um intervalo ainda menor.
em ondas consecutivas, vão alargando cada vez mais as áreas
de difusão das novas tecnologias e remodelando os povos, Esta intensidade crescente no ritmo de mudança nos mo-
mesmo depois da emergência de novas revoluções. Estas, por dos de vida humana faz com que a experiência e a visão do
sua vez, envolvem povos atingidos ou não pelas anteriores, mundo de duas gerações contemporâneas se distanciem mais
remodelando-os e afetando diferencialmente seus modos de vida que as predominantes entre dez ou cem gerações no passado.
e suas perspectivas de desenvolvimento, conforme se difundam O caráter acumulativo do progresso tecnológico e a aceleração
como movimentos exógenos de atualização histórica ou como do seu permitem supor que, nas próximas décadas, ain-
esforços endógenos de aceleração evolutiva. da neste seculo, conheçamos transformações ainda mais radi-
cais. Nesse caminho, o homem, que venceu a competição com
A concatenação das revoluções tecnológicas e dos proces- outras espécies na luta pela sobrevivência, desenvolvendo uma
sos civilizatórios com as respectivas formações sócio-culturais conduta cultural que lhe permitiu disciplinar a natureza e co-
permite falar .de um processo civilizatório global, diversificado locá-la a seu serviço, acabou por ver-se submergido num am-
em etapas sucessivas, que, mesmo cumprindo-se em povos biente cultural hoje muito mais opressivo sobre ele do que
separados_ uns dos outros no tempo e no espaço, promoveu o meio físico ou qualquer outro fator.
reordenaçoes da vida humana em áreas cada vez mais amplas
e sua integração em entidades étnicas e políticas cada vez Nada autoriza a supor que tenha limites a flexibilidade
maiores, até unificar toda a humanidade num só contexto inte- até agora revelada pelo homem para ajustar-se às condições
rativo. Através desse processo, a espécie humana, que era origi- mais diversas. É de perguntar-se, porém, se o condicionamento
nalmente pouco numerosa e largamente diferenciada em etnias cada .vez mais opressivo a ambientes culturais não pode pôr
se foi multiplicando demograficamente e reduzindo o em. nsco a própria sobrevivência humana. As ameaças que já
de complexos étnicos, tanto no plano racial quanto no cultural hoJe pesam sobre a humanidade levam a temer que estejamos
e lingüístico. Este movimento parece conduzir, em termos mi- alcan2ando esses limites, arriscando ultrapassar a linha fatal,
lenares, à unificação de todo o humano em uma só ou muito se nao forem desenvolvidas formas racionais de controle da

200 201
vida social, econômica e política que habilitem os povos ao
comando científico de todos os fatores capazes de afetar seu
equilíbrio emocional e sua sobrevivência sobre a Terra. Tain·
bém esse imperativo de racionalização da vida social e de
intervenção no mundo dos valores que motivam a conduta EPILOGO À EDIÇÃO ALEMÃ
aponta para o socialismo como a mais capaz das de
prover os sistemas impessoais de controle tomados mdispen-
sáveis para fazer os homens mais livres e respoI>:Sáveis
no mundo da abundância, estimulando sua capacidade criadora
e fazendo da pessoa humana a norma e o fim do processo HEINZ RUDOLF SONNTAG
de humanização.

PRETENDER uma nova teoria acerca da origem, do


desenvolvimento e do futuro da evolução da humanidade, pro-
voca, em todo caso, uma forte oposição. Opinam alguns, e
dizem, que tem havido demasiados sistemas construídos espe-
culativamente. Isto é, filosofias da história, teorias da evolu-
ção, esquemas de desenvolvimento, e que todos foram supera-
dos. Haviam todos revelado a sua incompatibilidade com o que
realmente aconteceu na história; por conseguinte, não valeria
a pena pensar sobre tais problemas. Seria muito mais impor-
tante avaliar e calcular as forças em jogo hoje em dia e
empreender a realização do que está atualmente acontecendo.
Segundo esta opinião, acabou-se a reflexão teórica sobre a
evolução, ou filosófica sobre a história, pois são atividades
abstratas e obscuras e, portanto, não científicas. Esta opinião
encerra uma noção de ciência que se baseia somente aqui e
agora e não deseja ocupar-se senão do "concebível" que, por
ser "concebível", não necessita o "esforço do conceito" (Hegel).
Os conceitos e noções 'são, segundo esta opinião, unicamente
categorias "operacionais" cujo significado se fundamenta na
manipulabilidade analítica em sua relação com a "realidade"
encontrada.
Os outros se sentem bem com a filosofia da história, a
teoria da evolução ou o esquema de desenvolvimento de que
dispõem. Negam-se a que seus sistemas teóricos sejam ques-
tionados, porque sua justeza e adequação já teria sido sufi-
cientemente demonstrada. Em conseqüência, crêem que um no-
vo esforço para repensar a evolução da humanidade é, na
melhor das hipóteses, um jogo intelectual supérfluo e, na pior,
uma má e perigosa heresia. Esta opinião encerra, também,
a sua noção de ciência que, se bem seja entendida como his-
tórica, quer dizer, pretenda incluir a história, vê·se reduzida
ao hoje precisamente porque se nega que sua historicidade
seja posta em julgamento.

202 203
As duas opiniões, ainda que pareçam totalmente incom- seja, - como socialista responderia "não" e negaria rotunda-
patíveis, têm de fato muito em comum. Deixemos de lado, por mente na teoria a coincidência e aproximação. Praticaria, po-
um momento, o jogo das abstrações e consideremos a primei- rém, em seu trabalho cotidiano como cientista, uma resposta
ra opinião a das "as ciências sociais acadêmicas" e a segunda afirmativa, e como capitalista ou ideólogo capitalista responde-
a do "o marxismo ortodoxo". Veremos então que ambas as ria "sim" à pergunta ao remetê-la às "convergências dos sis-
posições estão de acordo no que diz respeito à "realização do temas" e às "coações de fato" que, presumivelmente, dominam
presente", ou seja, que as duas posições se encontram no qualquer sociedade industrial, não importa de que formação
concreto. Para ambas, o estado de coisas atual é a grande tarefa político-econômica. Se se trata do ponto de vista de um cien-
que se articula, no primeiro caso, como "desenvolvimento da tista social crítico no mundo "desenvolvido", este trataria de
sociedade industrial" e, no segundo, como "revolução socialis- reviver o axioma de Max Horkheimer para a teo.ria · crítica,
ta", e onde esta se tenha realizado real ou presumivelmente, segundo o qual "o reconhecimento crítico das categorias do-
as duas articulações coincidem em definitivo. Os que pregam minantes na vida social. . . contém ao mesmo tempo o seu
o "fim das ideologias" e o praticam "cientificamente" chegam ajuizamento" (Teoria Tradicional e Teoria Crítica, ed. alemã,
sub-repticiamente à "coexistência pacifica" com os que pos- 1937), e de romper assim aquela aproximação e coincidência
suem uma ideologia definitiva, apesar de todas as diferenças problemática.
teóricas e verbalizadas. O trabalho de Ribeiro adota outro pauto de vista. É o
Isso não pode ser casual. Os que se colocam na primeira ponto de vista do teórico critico do mundo subdesenvolvido.
posição, insistindo sobre a falta de teoria e renunciando à E este ponto de vista. que é, ao mesmo tempo, uma posição
grande perspectiva histórica, têm, de certa forma, uma lógica. social e a reflexão crítica sobre ela (e ele) o levam a superar
Esta atitude corresponde a um momento em que não somente e a romper a aproximação precisamente onde ela começa: no
as ciências naturais como também as ciências sociais chega- contato perigoso das ciências sociais acadêmicas a-históricas
ram a ser, dia após dia (e cada vez mais evidentemente), com o sistema marxista, que se intumesceu dogmaticamente
forças produtivas sociais sem cuja intervenção permanente o no trato rotineiro com a · sua base teórica. Daí surge a preten-
sistema não poderia se manter em sua totalidade. E ainda, são, daí nasce a necessidade de formular uma nova teoria so-
dentro da segunda opinião, a rotina no trato do sistema teóri- bre a origem, o desenvolvimento e o futuro da evolução da
co, quer dizer, filosófico-histórico, uma vez alcançada, não pa- humanidade.
rece menos lógica. Corresponde a um momento em que a Desde logo, a posição social é o decisivo e a ruptura do
redução pragmática da revolução e a perversão burocrática da dilema teórico o secundário, quase uma conseqüência da ten-
"impaciência revolucionária" (Wolfgang Harich) na calcificação tativa de definir aquela com toga a precisão. A posição social
das relações sociais, pressupostamente liberadas, necessitam, do mundo subdesenvolvido tem sido medida e definida até
por sua vez, da "aproximação das práxis" das "ciências· da so- / agora com as categorias que puseram à disposição as ciências
ciedade" e, não por último, para consolar-se e superar o fato • sociais acadêmicas e o marxismo dogmático. Não se pode neste
de que persistem realidades que não têm absolutamente nada trabalho demonstrar todas as deformações resultantes. É ne-
a ver com o sistema teórico e seus fundamentos. cessário, porém, pôr em relevo que nem sequer a teoria crítica
É essa coincidência suficiente para constatar aquela apro- ou histórico-total do subdesenvolvimento havia preenchido to-
ximação de que falamos? Isso depende de que ponto de vista. das a lacunas do conhecimento sobre o subedesenvolvimento e
se formula a pergunta. Se for daquele que não existe na rea- que, portanto, se evidenciava a necessidade de uma nova teoria
lidade, ou seja, o do "teórico puro'', a resposta teria que ser da evolução. E tampouco se pode deixar de esclarecer em qu.e
negativa e seria preciso assinalar a falta de um elo na cadeia campo os pensadores pressupostamente radicais, isto é, mar-
argumentativa (elo que poderia ser incluído, sem embargo, ao xistas e socialistas de diferentes procedências, com algumas ex-
se refletir mais detidamente sobre os efeitos positivos ou ne- ceções, pecavam teoricamente.
gativos da função das ciências sociais como forças produtivas Isso se pode evidenciar com um exemplo e se pode resu-
sociais). Se se trata, porém, do ponto de vista de um cientista mir com uma censura: aqueles pensadores não se submetiam
social plenamente integrado no sistema da "sociedade indus- ao esforço de orientar o seu trabalho teórico concretamente
trial" - r.ão importa de que formação político-econômica ele nas relações sociais existentes, conforme lhes haviam mostrado

204 205
seus grandes mestres: desde Marx e Engels, passando por guinte, avaliava-se a história das sociedades depois de subdesen-
Lênine e Trotsky até Mao Tse-Tung. Passavam por alto o con- volvidas, antes de sua integração ao sistema capitalista mundial
creto das relações sociais ao buscar o refúgio que lhes ofere- sem refletir sobre as categorias de que dispunha aquele esque-
cia o seu esquema de desenvolvimento em todo o tipo de ma, e se as qualificava de épocas "feudal" ou "escravista" ou
sandices teóricas. Segundo a unilinearidade imposta ao esque- simplesmente "primitiva". São evidentes as conseqüências e se
ma de desenvolvimento somente depois de Marx, tudo o que tornam, cada dia, mais claras. Uma das conseqüências mais
não é capitalismo é feudalismo e outra fase precedente da decisivas consiste em que a teoria da dependência, que resulta
evolução sócio-econômica. No caso da América Latina, tratava- ser um ponto essencial e, portanto, um tópico de sumo inte-
se em primeiro lugar de feudalismo. Os falatórios sobre feu- resse para a teoria crítica, se veja reduzida economicamente.
dalismo fecharam os olhos ao fato de que a totalidade das Isto tem, ainda que à primeira vista, conseqüências fatais para
relações de produção existentes, ou em processo de desapari- qualquer teoria revolucionária. Ou seja, uma prática social com
ção, não mostravam, de forma alguma, as caracteristicas que vistas à mudança esttutural e intencionada. Em resumo, a
marcaram o feudalismo europeu, senão um só de seus elemen- teoria critica se contentava também com uma visão pobre da
tos - e nem sempre este sequer, - isto é, a organização do totalidade do processo social do subdesenvolvimento que deve-
trabalho enquanto que outros elementos da estrutura eviden- ria incluir todo o seu desenvolvimento. Isto está mudando e,
ciavam um caráter totalmente diverso. E mais, fixados na se- em grande parte, por influência do trabalho de Ribeiro.
gurança de seu enquadramento evolutivo, aqueles pensadores No que se refere às deformações produzidas pelas ciências
não levavam a sério a pretensão fundamental de suas catego- sociais acadêmicas, diremos muito pouco. Acreditavam elas po-
,,
1 li

rias como materialistas, e não as examinavam sob o aspecto


de sua aplicabilidade universal. Posto que os conceitos haviam der renunciar, durante muito tempo, a qualquer teoria de gran-
de alcance histórico. Quando, por fim, a tiveram, resultou ser
surgido em um determinado contexto, impregnados por ele e
projetados rumo a ele, ter-se-ia imposto a pergunta de, por o que é dentro deste conceito: uma falsa ideologia que toma
exemplo, se o feudalismo podia ser aplicado às relações so- o hoje como marco de interpretação de todo o passado. Estas
ciais do México pré-colombiano ou da China, isolada durante ciências já haviam forjado antes, na história, seus instrumen·
séculos. Dessa forma, tudo ficou como era, o esquema evolu- tos para o trato do mundo subdesenvolvido, quando convinha
tivo permaneceu intato e não se realizou a transformação in- ao seu senhor: o sistema capitalista. Por exemplo, nos primei-
tencionada, verbalmente, das relações sócio-econômicas. ros estudos antropológicos. Conseqüentemente, declaravam o
estado de desenvolvimento de suas próprias sociedades como
A teoria crítica do subdesenvolvimento, por sua vez, tomou a meta e o fim da história no qual nada havia a interpretar
demasiado superficialmente a análise em outro campo. Ainda mas, no melhor dos casos, algo a reformar. O desenvolvimento,
que tenha superado as debilidades das velhas hipóteses radi- filho legítimo das ciências sociais acadêmicas, tudo colocou sob
cais sobre a essência do subdesenvolvimento, procedeu, de certo o denominador comum da "modernização das estruturas" e do
modo, apenas, parcialmente de maneira histórica. Empregava a
sua contemplação histórica, em princípio correta, somente no chapéu unitário da tecnocracia. A imagem resultante do sub-
momento em que as civilizações cênfricas intervieram maciça- desenvolvimento corresponde a esta "ingenuidade" que todavia
mente nas sociedades atualmente subdesenvolvidas; investigava não é infantil, mas que tem como objetivo a manutenção das
o processo do "desenvolvimento do subdesenvolvimento" (A. relações existentes no mundo subdesenvolvido ("em vias de
Gunder Frank) e deixava fora da sua visão a história das desenvolvimento") e é, portanto, muito perigosa.
sociedades intervindas, antes da intervenção. O que existia an- Assim se encontrava fixada, teórica e/ou ideologicamente,
tes desse momento histórico não interessava à teoria crítica a posição social a partir, e dentro da qual, iniciou Ribeiro o
nem sequer marginalmente, permanecendo em mãos das ciên- seu trabalho. Sua estrutura sócio-econômica era, na época, e
cias "auxiliares" consideradas de pouco valor para a práxis e é atualmente, bastante conhecida: o que significa, em termos
a prática sociais, quer dizer, a arqueologia, a etnologia, a his- concretos, o subdesenvolvimento - sabe-o hoje qualquer crian-
tória antiga, etc. Estas, conquanto auxiliares e sem lugar pró- ça e até meios de comunicação liberais não se intimidam mais
prio adequado, não foram incluídas no esforço crítico da teoria com conceitos como imperialismo, espoliação e dependência,
histórico-cultural. Operavam, portanto, à base da teoria da evo- para não falar de revolução. Enfrentar esta realidade e suas
lução existente, ou seja, do marxismo dogmatizado. Por conse- interpretações teóricas com plena consciência do que são, hoje

206 207
em dia, as ciências sociais, significa em si um enorme desafio. Em outras palavras, confiam no que chamam de "burguesia
No caso de Ribeiro, agregou-se um outro elemento de tipo nacional" e constroem a sua estratégia e tática' de tal forma
pessoal: ele havia estado vinculado a um regime reformista- que se estabeleça uma coalisão entre aquela e o proletariado.
populista como Ministro da Educação e Cultura e, depois, como Esta coalisão deve ser construida de tal modo que o proleta-
Chefe da Casa Civil. O Brasil não havia logrado superar seu riado tenha nela a sua base de partida para a luta pela revo-
subdesenvolvimento sob aquele reformismo e este havia deri- lução socialista. Deixando de lado a falha teórica criticada an-
vado em um regime militar que relacionava, e relaciona, "re- teriormente, ou seja, o pressuposto de que o problema do sub-
formas" tecnocráticas, gratas ao sistema, com uma repressão desenvolvimento estivesse na permanência dos restos feudais
política sistemática. na estrutura, vê-se também que a análise da estrutura de clas-
O resultado da experiência pessoal, da posição social e da ses contém conseqüências fatais. Esta análise se transforma
reflexão científica a elas correspondentes, não podia ser senão em uma análise abstrata porque não logra captar as verda-
(e sob o risco de não ser nunca escrita) uma obra que rom- deiras relações de classe. A "burguesia nacional", por exemplo,
pesse aquela aproximação paralisante das duas formas do que é retirada do seu contexto internacional (que, por outro lado,
fazer científico na atualidade. Somente uma nova teoria acerca se pretende ter sido estabelecido através do conceito de "impe-
da origem, do desenvolvimento e do futuro da evolução da rialismo") e é definida como um empresariado capitalista que,
humanidade poderia satisfazer às exigências que teria de fazer- da mesma forma que os novos empresários burgueses das so-
lhe o teórico do subdesenvolvimento e sua teoria, e a prática ciedades capitalistas atualmente desenvolvidas, construirá e
social transformadora, relacionada com ela. aperfeiçoará as relações de produção capitalistas. Tal conclusão
Tais considerações poderiam soar abstratas aos ouvidos se baseia em uma pretensão verbal de totalidade, pretensão
contemporâneos empenhados no concreto porque, superficial- que não é levada a sério para a prática política. Pretende-se a
mente, não parecem estar relacionadas com a situação de totalidade do sistema capitalista como sistema mundial me-
classes no mundo subdesenvolvido e a nível mundial, senão diante a tese do imperialismo; mas, ao mesmo tempo, se eli-
que parecem evitar e fugir, por teórica, à luta revolucionária. mina essa tese com a análise isolada da burguesia nacional.
Que assim não seja é evidente, mas merece ser mostrado em O proletariado, por outro lado, é um conceito igualmente abs-
dois exemplos decisivos. trato. É deS?rito nos mesmos termos em que Marx e seus
Não é preciso demonstrar com que ponto de vista classista sucessores haviam feito em relação ao proletariado das so-
estão comprometidas as ciências sociais. Ainda que não corres- ciedades capitalistas industrializadas. Ao proceãer assim, gran-
pondam à "técnica social", a situação objetiva e também sub- des setores da população dos países subdesenvolvidos, como
jetiva de seus protagonistas pode ser determinada univoca- os marginalizados, são desestimulados para a revolução e su-
mente. Sua fórmula é "se", "se, quiçá", "se, porém". Em caso bestimados sob o rótulo de lumpemproletariado que, como to-
algum implica, entretanto, em proposições de reforma realmen· dos sabemos, desempenha, na revolução, um papel sumamente
te transformadoras das estruturas, mesmo quando investiga a duvidoso. Tal análise da estrutura de classes conduz a que se
"função" (sic!) do conflito social para a mudança social" <Le- fale da necessidade de uma "revolução antiimperialista e anti-
wis Coser). feudal", que poderia levar ao socialismo sem precisar quando.
No caso das teorias dogmatizadas do marxismo, seguro de Tais vícios de pensamento e erros táticos e estratégicos
si mesmo sobre o subdesenvolvimento, a questão não é tão não são, naturalmente, suficientes para equiparar a teoria ra-
fácil. Não se pode censurar que estejam relacionadas subjetiva- dical "clássica" às ciências sociais acadêmicas no que se refere
mente, isto é, através de seus protagonistas e pregadores, com ao seu ponto de vista classista. Reproduzem, porém, aquela
as classes dominantes do sistema capitalista e em geral. Pre- coincidência que constatamos anteriormente a respeito das duas
cisamente, porém, porque partem do pressuposto de que uma teorias.
das características mais decisivas da estrutura do subdesenvol- A teoria crítica ou histórico-total do subdesenvolvimento,
vimento é a sobrevivência de restos feudais, sua conclusão es- ao contrário, não desenvolveu bastante sua análise das classes.
tratégica não pode ser outra senão a de uma aliança entre as Apresentou estudos fundamentais acerca da estrutura econômi-
classes, aliança que poderia eliminar aqueles restos e, ao mes- ca do subdesenvolvimento e demonstrou seu caráter capita-
mo tempo, produzir uma estrutura capitalista desenvolvida. lista subalterno. Mostrou, também - e o fez no campo estri-

208 209
tamente econômico e no geral - que o subdesenvolvimento muitos, a exigem alguns. Entretanto, ela carecia, até agora, de
não pode ser superado senão através de uma revolução socia- uma fundamentação teórica por estar construída miopemente
lista. Estendeu suas investigações (raras vezes, até agora) ao de maneira voluntarista, ou envolvida em uma rede teórica de
campo das classes sociais, mas o fez de modo muito super- malhas tão largas que, na prática, tinha que cair em um dos
ficial. seus buracos.
Em outras palavras, praticou uma economia política par- Tal análise de classes significa, ao mesmo tempo, que se
cialmente dessocializada. Isto vale, quando muito, para os gru- toma uma posição de classe bem definida e clara. Por não
pos protagonistas da revolução, e não tanto com respeito à ser cega, esta posição é claramente válida no sentido de Hork-
burguesia. Quanto a ela, se pode provar, na análise econômica, heimer: "O intelectual que prega com profunda veneração a
que é tudo menos nacional e que é um apêndice da classe força criadora do proletariado e se satisfaz com adaptar-se a
dominante do imperialismo em rúvel mundial; André Gunder ela e transfigurá-la não leva em conta que qualquer ato de
Frank a denominou muito acertadamente lumpemburguesia. eludir o esforço teórico, economizado na passividade do seu
No que se refere à falha da teoria histórico-total com respeito pensamento, assim como qualquer ato de evitar uma contra-
às suas afirmações acerca da estrutura de classes, dição temporal com as massas a que poderia levar o seu
parcialmente pelo fato de que aceitava partes das teorias exis- próprio pensamento, tem que debilitar e tornar mais cegas as
tentes sem submetê-las à crítica que a caracteriza normalmente. massas. Seu próprio pensamento pretende, como elemento cri-
Ribeiro apresenta sua análise de das tico e de vanguarda, ao desenvolvimento das massas" (Teoria
subdesenvolvidas em seu livro "As Américas e a Czvzlizaçao Tradicional e Teoria Crítica, 1937).
e sobretudo no "O Dilema da América Latina". O fato de que Darcy Ribeiro censurou seus críticos no comentário já
a' sua teoria' da evolução preceda estas duas obras não é casual. citado por não terem discutido os quatro temas essenciais do
Considerações acerca da estrutura de classes já se encontraI? seu trabalho, isto é: a) a redução do feudalismo de uma fase
no o Processo Civilizatório. Em primeiro lugar, sua caracteri- da evolução sócio-cultural a uma regressão geral ocorrida mui-
zação de todos aqueles povos incorporados historicamente co- tas vezes na história; b) o conceito de "aceleração evolutiva";
mo "proletariados externos" indica, no o PªP?,l d?s c) o conceito da "incorporação" ou "atualização histórica" e
povos subdesenvolvidos no esforço de construçao das d) .a diferenciação entre "atraso" e "subdesenvolvimento".
dades futuras". Por isso não se verbaliza somente a pretensao No que se refere à última omissão, ela não parece tão
de totalidade, mas ela é definida concretamente. Precisamente grave. Se se aceita - ainda que com certas restrições - a
porque uma teoria evolutiva universal não eurocêntrica se teoria da evolução de Ribeiro, aquela diferenciação é comple-
transforma em base da teoria critica do subdesenvolvimento, a tamente lógica. Não se pode comparar sociedades que foram
análise das classes pode libertar-se das armadilhas e coerções subdesenvolvidas mediante contato com formações tecnológica
nas quais se encontrava, tanto na radicalidade "clássica" como e sócio-economicamente mais desenvolvidas com configurações
até agora na teoria histórico-total. que, por uma ou outra razão, foram excluídas de uma ou
mais fases da evolução sócio-cultural. Seu equipamento tecno-
Vem, em segundo lugar, a unidade entre os movimentos lógico, sua organização social e política e sua constituição po-
de emancipação do Terceiro Mundo e os movimentos de resis- lítica se diferenciam marcadamente da estrutura do subdesen-
tência nas sociedades altamente desenvolvidas, unidade esta volvimento. Entretanto, há que supor - e isso Ribeiro tam-
somente passível de produzir-se mediante uma nova teoria evo- bém apresenta como hipótese - que o atraso diminui e desa-
lutiva. Esta urúdade é mostrada no O Processo Civilizatório parece na medida em que as duas últimas revoluções tecnoló-
com bastante clareza. Ribeiro a acentua na réplica às diversas gicas, a saber, a industrial e a termonuclear, se estendem de
críticas ao seu trabalho incluídas neste volume: "considero os forma que os povos atrasados se vêem rapidamente incorpora-
combatentes dos conflitos raciais nos Estados Unidos e os das dos, quer dizer, subdesenvolvidos.
lutas pela emancipação e o socialismo que se travam pelo mun- A tese acerca do feudalismo exigiria uma discussão muito
do a fora uma mesma força, oposta a uma força contrária: mais ampla que aquela que podemos desenvolver nestas breves
- a primeira, tendente a construir o futuro; a outra, empe- considerações.· É certo que as teorias da evolução até agora exis-
nhada em perpetuar o existente". ClRro, tal unidade a vêem tentes, inclusive a original de Carlos Marx e a de Frederico

210 211
Engels, não podiam explicar muito bem as regressões das altas tempos, e na medida em que as sociedades subdesenvolvidas
civilizações. Devido à sua unilinearidade explícita ou implícita, tentam superar esta condição, agregam-se outras formas de
tudo se transformava em progresso, inclusive a passagem da organização do. trabalho que completam a imagem. O mesmo
estrutura sócio-econômica sumamente complexa do Império é igualmente válido para a base tecnológica das relações de
Romano até as "idades obscuras" da Idade Média. E se os produção: nela também coexistem os mais modernos instru-
sistemas histórico-filosóficos levavam em conta a possibilidade mentos de trabalho com os mais antiquados. Esta multiplici-
de regressões históricas, tratava-se, na maioria dos casos, de dade é uma característica das sociedades incorporadas histo-
uma arma ideológica contra o respectivo presente em lugar ricamente, e conforma suas estruturas específicas que, hoje
de uma categoria analítica. Até aqui, a tese de Ribeiro é capaz em dia, convergem em uma estrutura global: o Terceiro Mundo.
: 1
de atacar uma quantidade de problemas. É certo, também, O mesmo, ainda que mais detidamente, se poderia mos-
1
que um feudalismo assim concebido faz sentido até para os trar em relação aos sistemas ideológicos dos povos subdesen-
povos que não experimentaram o feudalismo europeu na pró-
1

1. 1
volvidos e até para a sua identidade sócio-cultural como tal.
pria carne. A mim, a tese me parece questionável somente Quer dizer, uma totalidade particular e individual se evidencia
no momento em que trata de servir de base ao argumento de sem contradições somente no momento em que se aplica o
que a tecnologia seja o motor da evolução sócio-cultural; será instrumento analítico da incorporação histórica. Ele possui
necessário voltar a este planejamento da crítica. suas conseqüências teóricas, por exemplo, porque o conceito
Os conceitos "incorporação histórica" e "aceleração evoluti- de dependência adquire somente agora sua dimensão especial.
va", assim como o conceito correspondente de "modernização Tem conseqüências estratégicas: a totalidade da estrutura do
reflexa", obviamente conceitos-chave da teoria evolutiva de Ri- subdesenvolvimento não . pode ser rompida senão através de
beiro, marcam seu grande valor próprio. Tomam possível a uma revolução; e, mais, esta revolução, longe de ser um ato
captação e o entendimento da totalidade de processos sócio- voluntarista, tem que superar as contradições em diferentes
econômicos e sócio-culturais extremamente complexos, e da.S níveis e criar uma sociedade capaz de acelerar-se evolutiva-
formações que deles resultam. mente e de romper, assim, o círculo vicioso do subdesenvol-
vimento para incorporar-se autonomamente às "sociedades fu-
Isto se evidencia claramente se se entende o subdesenvol- turas".
vimento como resultado de um processo de incorporação his- São importantes e não podem, portanto, ser deixadas de
tórica. As contradições em sua interpretação mostram o que lado algumas observações críticas nestas considerações. Elas
são, ou seja, expressões de contradições inerentes à estrutura. não diminuem o valor do trabalho de Ribeiro, senão que ten-
Isto vale não somente para a composição étnica dos povos dem a esclarecer em que direção temos que continuar traba-
subdesenvolvidos (que, de todas as formas, tem um sigriificado lhando. Limitar-me-ei a duas observações, uma das quais for-
importante quase que exclusivamente no contexto latino-ame- mula uma crítica, enquanto que a outra articula uma caracte-
ricano), senão - e muito mais - para a constituição ideoló- rística que, possivelmente, possa a outras críticas.
gica e até para a identidade sócio-cultural. Em uma conversa com Ribeiro (publicada na revista ale-
A organização sócio-econômica inclui diferentes relações de mã ocidental, "Kursbuch", n9 23, março de 1971), formulei
produção. A servidão feudal coexistia e coexiste com a organi- minha crítica mais profunda sem que ele a houvesse refutado
zação capitalista do trabalho, a escravidão com certas formas claramente. Sua teoria da evolução deixa de mencionar con-
de cooperativismo; Héctor Silva Michelena encontrou, no caso cretamente os grupos sociais protagonistas das revoluções tec-
da Venezuela, nada menos que sete formas diferentes de orga- nológicas e dos processos civilizatórios por elas provocados.
nização do trabalho (manuscrito inédito de 1970). Sociedades Segundo esta teoria, o motor da evolução da humanidade é a
historicamente incorporadas, subdesenvolvidas nos dias de hoje, tecnologia. A tecnologia leva consigo as mudanças decisivas na
devem ter esta constituição de estrutura sócio-econômica. Por- relação do homem com a natureza, na relação com os outros
que, à parte os restos das relações de produção existentes antes homens baseada na primeira relação, e no sistema de conhe-
da incorporação, que sobreviveram de uma ou outra forma, cimentos e valores das sociedades.
encontram-se tanto as diferentes formas de organização do tra- Agora bem: é uma lapalissada teórica que as transforma-
balho como todas as formas possíveis sempre e quando sirvam ções tecnológicas estejam sempre condicionadas socialmente,
ao objetivo último da exploração mais eficiente. Nos últimos isto é, que correspondam, de uma forma ou de outra, aos

212 213
(1!
!

'i
1 interesses de uma classe social. Por exemplo, os fundamentos poderia subtrair os povos subdesenvolvidos de outra incor-
teóricos e o princípio do funcionamento da máquina a vapor poração histórica no novo processo civilizatório incipiente, e
eram conhecidos muito antes de que ela fosse incorporada ao como poderiam mudar o curso da história a seu favor. Se se
sistema produtivo do capitalismo incipiente. Em um momento dissesse que a resposta a esta pergunta estratégica se pudesse
,,
histórico determinado, isso não é casual: no momento da in- formular, mediante uma análise a médio ou a curto prazo, o
11
corporação da máquina a vapor ao sistema capitalista incipien- argumento original continuará válido. A outra réplica, isto é,
te, a classe social, que sustentava aquele sistema, não somente o voluntarismo revolucionário, aliviaria demasiado a coisa.
necessitava o novo aparelho tecnológico como podia utilizá-lo Além disso, em ambos os casos, as condições objetivas e sub-
segundo seus princípios de racionalidade. O mesmo é válido jetivas coincidiriam à maneira de um Deus-ex-mo.china e se
para todas as inovações tecnológicas. dissolveriam definitivamente.
Se são privadas dos grupos sociais que as sustentam, cris- 1: certo: também para a teoria evolutiva de Marx as con-
talizam-se no vazio onde podem converter-se em estrelas fixas tradições entre o estado de desenvolvimento das forças produ-
ao redor das quais se move todo o sistema. Privadas de seu tivas e o das relações de produção é o motor decisivo para o
conteúdo social este não se restabelece, tampouco, ao declará- desenvolvimento social. Se bem que não se trate de salvar a
las fatores causais do desenvolvimento social. Porque, neste luta de classes como motor da história, é preciso dizer que,
caso, se reduziria a causalidade unilateralmente, se a conver- no caso de Marx, aquela contradição intervinha de maneira
teria no contrário de uma causalidade dialética. E a dialética dialético-materialista, e que só existia como tal na medida em
do processo evolutivo começa a desfazer-se mediante determi- que jp.tervinha.
nação e condicionamento. Minha segunda observação formula uma característica que,
O contra-argumento de Ribeiro no sentido de que haveria possivelmente, tenha suas raízes no mesmo problema que não
que considerar a tecnologia como fator somente em análises foi explicitado e sim insinuado na crítica das linhas anteriores.
de grande alcance histórico enquanto que, nas análises a curto Ribeiro concebe a seus críticos que sua teoria da evolução
e médio prazo, se revelariam outras forças - por exemplo, a não contém e nem postula uma nova epistemologia, que pelo
organização social ou a ideologia, como fatores determinantes menos parcialmente procede estruturalmente. No caso dos es-
-, este contra-argumento, digo, não resiste a um exame mais quemas de evolução até agora existentes, história e evolução
detido. Supondo que se pudessem fundamentar as análises de coincidiam em larga medida (salvo em casos nos quais a
1 ••
diferentes alcances históricos com diferentes princípios episte- teoria desempenha puras funções de justificação, como em
lij'
1
mológicos, o que obviamente não é certo. Há que tomar aqui Wittfogel). Em outras palavras, a matéria-prima fornece, tam-
uma decisão clara: ou se trata de uma dialética sustentada e bém, a estrutura, é estruturada em si mesma; o que é historica-
realizada por homens e grupos de homens, isto é, de uma mente simultâneo o é também, na estrutura da teoria e, ao
dialética materialista - terá que ter, então, validade, também, inverso. Ribeiro, ao contrário, insiste em que sua seqüência
para as análises de grande alcance histórico; ou se trata de / evolutiva não é histórica mas teórica. Ali se manifesta outra
uma dialética coisificada que converta o que necessita o ho- noção de ciência: todo o processo histórico se converte em
mem para a realização de sua relação dialética com a natureza, matéria-prima que somente adquire uma estrutura ao conçei-
ou seja, os instrumentos e aparelhos em um fetiche, o que é, tualizá-la. Aqui se reconstrói a realidade na cabeça, se adquire
conseqüentemente, uma dialética alienada do homem como ser uma estrutura ao separar e reagrupar elementos dispersos no
individual e social. Precisamente por isso, não serve de ajuda tempo e no espaço. Pois bem, o que se poderia chamar o
para Ribeiro a frase de Marx que diz que "uma história na- estruturalismo de Ribeiro não encerra as conseqüências e im-
tural da tecnologia é quase mais importante do que a história plicações do estruturalismo etnológico e antropológico à Lévi-
natural da evolução biológica do homem". Para Marx, o cará- Strauss. Porque neste resulta a unidade dos elementos dispersos
ter instrumental da tecnologia, isto é, ser criada e condicionada e divergentes que, uma vez alcançada, é um simples jogo in-
pelo homem e, portanto, pela sociedade, era uma coisa a priori. telectual que se nega estritamente a pensar sobre suas conse-
Se se inclui nesta crítica as conseqüências práticas .implí- qüências práticas. E mais: não chega nunca a uma unidade
citas e manifestas na teoria da evolução de Ribeiro, o argu- real, permanece sempre na zona neutra da realidade. Isso não
mento se agrava ainda mais. Seria difícil conceber como se ocorre no caso de Ribeiro. Trata-se mais de um estruturalismo

214 215
com presságios invertidos: se constrói a estrutura precisamente
para evidenciar as conseqüências e implicações que encerra.
E ainda, no momento em que historicamente a unidade se
converte em unidade real e total, na qual se realiza historica-
mente - ou seja, com a revolução mercantil e os processos OBSERVAÇÕES SOBRE A BIBLIOGRAFIA
civilizatórios por ela produzidos - também na teoria da evo-
lução a unidade chega a ser total; coincidem história e evo-
lução, desaparece a diferença entre unidade teórica e crono-
lógica.
Darcy Ribeiro insiste em que seu, esquema de · evolução
sócio-cultural, seu trabalho teórico não é um jogo inventado
por um intelectual para intelectuais. Esta pretensão ele a tem
com toda a razão. Sua teoria articula uma "consciência possí-
vel (G. Lukács - L. Goldmann) e se converte, por fim, em NOS ESTUDOS de base principalmente bibliográfica,
"elemento de avanço" no processo histórico. No que s.e· refere como· o presente, adquire P.special importância a indicação das
à ciência social, supera um dilema; aponta novos camihhos de fontes que o autor compulsou e a explicitação dos critérios
trabalho à teoria crítica do subdesenvolvimento. Esta teoria que regeram sua seleção. Esta exigência é ainda maior no caso
da evo!ução torna possível uma análise de classes adequada à de temas amplos e polêmicos como a teoria da evolução sócio-
complexidade da estrutura de classes no subdesenvolvimento. cultural, em que se conta com uma vastíssima bibliografia de
ensaios teóricos e de estudos descritivos de qualidade muito
Pelo fato de ser uma teoria do Terceiro Mundo para o desigual.
Terceiro Mundo o censurarão somente aqueles que continuam
acreditando que o umbigo do mundo se situa ainda em algum Em razão desta copiosidade, adotamos o sistema de refe-
lugar entre Viena, Berlim, Bonn, Moscou, Washington ou Roma. rência bibliográfica usual nas revistas para citar no texto as
fontes de sustentação das afirmações, dados e teses que apre-
Que Ribeiro atribua ao Primeiro Mundo um papel não pre- sentamos. Esse procedimento permitiu liberar o livro de de-
poderante na realização das "sociedades futuras" e não lhe
reserve senão insuficiências como o "socialismo evolutivo" masiadas notas de rodapé e reduzir as citações ao mínimo
indispensável. Atendendo porém às exigências de explicitação,
significa um desafio com o qual tem que se defrontar a ted- damos, a seguir, uma relação circunstanciada das fontes biblio-
ria crítica no "mundo desenvolvido" imediata e seriamente se
não quiser correr o risco de desaparecer. ' gráficas a que apelamos no estudo de cada tema. Desse modo,
procuramos assegurar aos especialistas as informações neces-
sárias para apreciar a representatividade do .material biblio-
gráfico de que dispusemos e fornecer ao leitor interessado uma
indicação de outras fontes em que possa aprofundar o estudo
dos mesmos temas.

1. ESTUDOS TEÓRICOS E ESQUEMAS DE EVOLUÇÃO

As principais fontes desse estudo são as tentativas ante-


riores de fixar os princípios básicos da evolução sócio-cultural
e de estabelecer as suas seqüências gerais. Podemos dividi-
las em três grupos: os clássicos da antropologia, as obras
fundamentais do marxismo concernentes ao tema e os estudos
modernos de antropologia.
1. Entre os primeiros ressaltam a obra clássica de Lewis
H. Morgan, Ancient Society, or researches in the lines of hu-

216 217
man progress from savagery through barbarism to civilizati<>_!i, 3. Dentre os estudos antropológicos modernos que reto-
1877, que estabelece o primeiro esquema geral da evoluçao mam a teoria evolucionista, destacamos, por seu extraordinário
humana, a obra fundamental de Augusto Comte (1840) e os valor, as obras de Gordon Childe (1934, 1937, 1944, 1946 e 19,51)
compêndios de Edward B. Tylor (1871 _e 1881) e_ de Leslie White (1949 e 1959) e de Julian H. Steward
Spencer (1897), que sistematizaram a noçao de evoluçao social caps. 1 e 11; 1955b). Seguindo a orientação desses estudiosos
e a difundiram. De todas elas, somente a primeira continua surgiram recentemente diversos ensaios de alto interesse. Den-
atual. Apreciações gerais sobre essas obras encontram-se em tre destacam-se os de Betty J. Meggers (1960); de Morton
H. E. Bames e H. Becker (1945); G. P. Frantsov (1966); e H. Fried (1967) e de Elman R. Service (1962) e a coletânea
críticas específicas em Leslie White (1945, 1945a, 1948, 1960), editada por M. D. Sahlins E. L. Service (1965) com trabalhos
em Bemhard J. Stern· (1931, 1946 e 1948) e em M. E. Opler de ambos e também de David Kaplan e Thomas G. Harding.
Alguns estudos acerca das civilizações fundadas no regadio, de
(1964). Angel Palerm (1955), de Angel Palerm e Eric Wolf (1961),
2. Vêm em segundo lugar, os estudos de Karl Marx, espe- bem como a monografia deste último (1959), oferecem tam-
cialmente anotações referentes às Formações Pré-Capita- bém alto interesse, como o estudo comparativo de Robert
listas (1966), o Prólogo da Contribuição à Crítica da Economia McAdams (1967) sobre o processo evolutivo na Mesopotâmia
Política (1955) e o Capital (1956). Na mesma categoria incluem- e no México Central. Coletâneas de estudos especiais sobre a
se a obra clássica de Friedrich Engels, Origem da Família, da evolução foram publicadas por Betty J. Meggers (Ed. 1959),
Propriedade Privada e do Estado. A luz .das pesquisas de Lewis por Sol Tax (Ed. 1960) e por H. R. Barringer e outros (1965).
H. Morgan (1955) e seus estudos sobre o papel do trabalho
no processo de humanização (1955a e 1955b). Incluem-se,
II. ESTUDOS PARA-EVOLUCIONISTAS
mente, as obras clássicas de divulgação do pensamento marxis-
ta devidas a Karl Kautsky (1954) e a G. V. Plekhanov (1941 Duas orientações dos estudos antropológicos - apesar de
e 1947). apresentadas como opostas ou alternativas às teorias evolucio-
As anotações de Marx sobre as formações pré-capitalistas nistas - produziram obras de grande interesse para o nosso
(Formen die der Kapitalistichen Produktion vorhergehen!, e!ll- trabalho. É o caso das obras difusionistas ou cicloculturalistas
bora redigidas em 1857-59, só foram publicadas, pela primeira de W. Schmidt e P. W. Koppers (1924), F. Graebner (1925),
vez em 1939 e só começaram a ser debatidas na década de G. Montandon (1934), J. Imbelloni (1953) e Pia Laviosa Zam-
195Ó, quando se tornou evidente sua com o :s- botti (1958 e 1959). Incluem-se também nesta categoria algumas
quema evolutivo de Engels e o alto valor de sua mterpretaçao_ obras antropológicas que procuram traçar panoramas do de-
Apreciações desta obra encontram-se em E. Hobsbawm 0966), senvolvimento das civilizações, tais como Alfred L. Kroeber
M. Godelier (1966); J. Chesneaux (1964); Oscar dei Barco (1944, 1962) e Ralph Linton (1955).
(1965).
A obra clássica de Engels, Der Ursprung der Familie, des III. ESTUDOS TEMATICOS COMPARATIVOS
Privateigentums und des Staats. Im Aschluss an Lewis H.
Morgan's Forschunge, 1884 (ver B. J. Stern 1948), como fonte Também nos foram de grande utilidade as obras clássicas
explícita ou inconfessa da maior parte das teorias de alto al- de Émile Durkheim (1843 e 1912), W. Sombart (1946), Max
cance histórico deu lugar a uma ampla literatura de que se Weber 0947, 1948 e 1964), de Pitirim Sorokin (1937/41 e 1960),
destaca como mais completa e sistemática, a de A. Viatkin L. Mumford (1938, 1948 e 1966), Karl Mannheim 0950), Thors-
(Ed. s.d.) e, entre muitos outros textos de divulgação, os de tein Veblen (1951). Situam-se na mesma categoria os estudos
o. v. Kuusinen (Ed. 1964), de A. Makarov (Ed. 1965) e de teóricos sobre a causação social de W. F. Ogburn (1926) e R.
D. I. Chesnokov (1966). Outros estudos redigidos com a mes- Maclver (1949); o estudo do contraste rural-urbano de R. Red-
ma orientação, porém com maior originalidade, focalizam as- field (1953 e 1956); a monografia polêmica sobre o "despotismo
pectos particulares da evolução: M. Dobb 0946); Oskar Lange oriental" de K. Wittfogel (1964, vide apreciação de P. Vidal
(1963 e 1966); Paul Sweezy (1963); Paul Baran (1964); P. Naquet 1964); o estudo da mulher que se deve a Simone de
Sweezy e P. Baran (1966); P. Sweezy e outros (1967). Beauvoir (1957/65) e a história da ciência de J. D. Bemal (1964).

218 219
IV. TEORIAS DA HISTÓRIA altas civilizações americanas - o de Sylvanus Morley (1940)
sobre os Maia; de George Vaillant (1944), Alfonso Caso (1953)
1. Oferecem interesse para o estudo da evolução algw:naa e Jacques Soustelle (1956) sobre os Asteca; de P. Armillas
obras clássicas e modernas de teoria da história, como as de (1951), Eric R. Wolf (1959) e I. Bemal (1953) sobre a Meso-
O. Spengler (1958), Alfred Weber (1960), Paul Scherecker (1957>. América; de Wendell C. Bennett (1946), Wendell C. Bennett
Karl Jaspers ( 1965) e, .particularmente, a obra fundamental de e Junius B. Bird 0949) e o de J. H. Steward e L. c. Faron
Arnold J. Toynbee (1951/64, vide apreciações em A. L. Kroeber (1959) os Inca; a coletânea publicada por Betey J. Meg-
1952 e J. Bentancourt Dias 1961). gers .ª Clifford Evans (1963) sobre a evolução cultural nas
2. Dentre os ensaios interpretativos de filosofia da história, Améncas e a monografia inédita de B. J. Meggers sobre o
consultamos as obras clássicas de A. N. Condorcet (1921), G. tema.
W. F. Hegel (1946), L. Gumplowicz (1944), P. Kropotkin (1947>.
e J. Novicov (1902), bem como as reconstituições dos perfis VII. DINAMICA CULTURAL
culturais de certas civilizações que se devem a Jacob Burchardt
(1945), A. de Tocqueville (1957), J. Huizinga (1924) e N. Ber-
Apelamos, com pouco proveito, para os estudos teóricos
diaeff (1936). referentes à mudança cultural e o processo de aculturação
tais como: R. Redfield, R. Linton e M. Herskovits (1936); R'.
V. TRATADOS DE HISTÓRIA E 0953); Bamett, H. G., B. Siegel e outros (1954); G.
MONOGRAFIAS HISTÓRICAS Agwrre Beltrán (1957); B. Malinowsky (1944 e 1945); M. Hun-
ter (1956) e M. Mead (1966). De maior utilidade nos foram
Constituíram fontes de particular importância para nosso as obras de G. M. Foster (1962 e 1964); H. G. Barnett (1953)
trabalho os tratados de história de M. Crouzet (Ed. 1961); J. e os estudos de Georges Balandier (1955, Ed. 1956, Ed. 1958)
Pirenne (1956); Ralph Turner (1963) e UNESCO (1963). sobre o colonialismo.
Consultamos, também, com proveito, certo número de mo- Ainda que não focalizem diretamente o tema ofereceram
,;I nografias de arqueologia, pré-história e história. Dentre estas alto interesse para o nosso trabalho alguns ensaios teóricos:
ressaltam os estudos de Gordon Childe (1934) e de R. J. E. Sapir (1924); C. Lévi-Strauss (1949 e 1953); G. P. Murdock
Braidwood (1952) sobre as civilizações do Oriente Próximo; de (1947 e 1949); A. R. Radcliffe-Brown (1931); Clyde Kluckhohn
E. Drioton e J. Vandier (1952) sobre o Egito; de M. Pallottino 0953!; e os artigos recentes de Talcott Parsons (1964) e s.
(1956) sobre os etruscos; de G. Glotz (19)0) sobre a Grécia; N. E1senstadt (1964), que retomam, no campo da sociologia
de Rostovtzeff (1937) sobre Roma; de H. Massé (1952) sobre a perspectiva evolucionista. '
o Irã; de L. Gardet (1948) sobre o Islão; de A. A. Vasiliev (1952)
sobre Bizâncio; de M. Wheeler (1952 e 1962) e de S. Piggot
(1950) sobre a pré-história da índia; de O. Lattimore (1940) VIII. EVOLUÇÃO E DESENVOLVIMENTO DESIGUAL
e R. Grousset (1939) sobre a expansão tártaro-mongólica; de
M. A. Zaburov (1960) e R. Grousset (1965) sobre as Cruzadas; muito p:_ecárias ainda as tentativas de aplicação das
de c. Osgood (1951) sobre a Coréia; de G. Maspéro (1930) teonas da evoluçao ao estudo das causas do desenvolvimento
sobre a Indochina; de J. Suret-Canale (1959) sobre a Africa; desigual das sociedades contemporâneas e das formas de su-
e de P. Bosch-Gimpera (1960) sobre os indo-europeus. peração do atraso. Devem-se as melhores a V. I. Lênin (1957,
1960 e 1960a); L. Trotzky (1962/63); Paul Baran (1964); P.
Baran e P. Sweezy (1966); A. Gunder Frank (1967). Relacio-
VI. ESTUDOS AMERICANISTAS namos e comentamos a copiosa bibliografia sobre o tema em
outro livro nosso (As Américas e a Civilização, Introdução).
Nossas fontes bibliográficas principais sobre as Américas Aqui apenas desejamos destacar como representativos de es-
, 'li foram os estudos reunidos por Julian H. Steward no Handbook tudos "doutrinários" de modernização reflexa as obras de w.
1
"I of South American Indians (1946-1950); os ensaios sobre as W. Rostow (1961 e 1964); D. Lerner (1958); A. Gerschenk.ron

220 221
(1962); K. H. Silvert (1965); B. Hoselitz (1960); E. F. Hagen evolucionista. Foram também de utilidade para o nosso traba-
(1962); S. N. Eisenstadt (1963) e S. Kuznets (1946 e 1965). lho os estudos comparativos das culturas indígenas da América
Estudos sócio-econômicos mais explicativos das causas do Latina publicados no volume V do Handbook of South Ameri-
desenvolvimento desigual encontram-se em G. Myrdal ( 1961 e can Indians (1949 J. H. Steward, Ed.) de autoria de Wendell
1962); L. J. Zimmermann (1966); Frederick Clairmonte (1963); C. Bennett, A. Métraux, Lila O'Neale, William C. Root, John
P. Moussa (1960); I. Lacoste (1959); L. J. Lebret (1961); L. M. Cooper, Paul Kirchhoff, R. H. Lowie, A. L. Kroeber, Erwin
A. Costa Pinto (1967); Celso Furtado (1966); Irving L. Horo- H. Ackerknecht e J. H. Steward. E, ainda, os estudos de difu-
witz (1966) e N. P. Schemeliov (1965). são cultural de E. Nordenskiõld (1930 e 1931) e de Marx
Schmidt (1959).
Uma coletânea de estudos antropológicos relacionados a
este tema foi publicada por Herbert R. Barringer e outros 4. Sobre demografia, movimentos migratórios, fenômenos
(1965), em que se destacam os ensaios sobre teoria da evo- de depopulação e incremento populacional, consultamos Gor-
lução de D. c. Campbell e Morris E. Opler e estudos de sua don Childe 0946 e 1958), A. Sauvy (1954-56 e 1961), A. Landry
aplicabilidade por J. S. Spengler, A. S. Feldmann e W. F. (1949), Kingsley Davis (Ed. 1950), A. Sireau 0966), M. Cepéde
Cottrell. e outros (1967), C. M. Cipolla (1962).

IX. ANÁLISE DE FATORES: X. PLANTAS CULTIVADAS E AGRICULTURA


ECOLOGIA, TECNOLOGIA E ECONOMIA
Sobre a origem das plantas cultivadas e sobre a agricul-
Reunimos nesta categoria as obras fundamentais para a tura, consultamos, principalmente, N. I. Vavilov (1951); C. O.
análise do papel dos fatores ecológicos, tecnológicos e econô- Sauer (1952), René Dumont (1957), Charles B. Heiser (1965)
micos na mudança sócio-cultural, bem como os estudos de e a obra de E. C. Curwen e G. Hatt (1953) sobre a tecnologia
demografia. agrícola. Oferece também alto interesse a tipologia das comu-
1. Com relação aos fatores ecológicos, foram-nos especial- nidades agrícolas de E. C. Wolf (1966) e o estudo das formas
mente úteis os estudos de E. Huntington (1927); C. Darryll- mais elementares de cultivo devido a H. c. Conklin (1961).
Forde (1966); J. Meggers (Ed. 1956); Pierre Gourou
(1959); M. Bates (1959); Josué de Castro (1962); Julian H.
Steward (1955a cap. 2 e 1955). XI. ETNIA, ESTADO E NACIONALIDADE
2. As principais obras que consultamos sobre a história 1. O estudo das etnias foi coberto através das obras de
da tecnologia e seu papel na evolução sócib-cultural foram: G. Weltfish 0960), R. Narrol (1964), Florian Znaniecki (1944),
Ch. Singer, E. F. Holymand e A. Hall (Eds. 1954/58); Maurice Hans Kohn (1951), A. van Gennep (1922). É também assina-
Dumas (Ed. 1963); K. Marx (1956); Gordon Childe (1944, 1951, lável o estudo recente das etnias tribais devido a M. D. Sahlins
1954, 195S); A. Leroi-Gourhan (1943, 1945 e 1963); S. Lilley (1968).
(1957); F. Cottrell (1958); E. W. Zimmermann (1951); F. R.
Allen (Ed. 1957); A. Briggs e outros (1965); C. M. Cipolla 2. Para o estudo das nacionalidades e do Estado, apelamos
(1964); R. Y. Sayce (1965); A. P. M. Fleming e H. J. Brockle- para as obras marxistas clássicas de F. Engels (1955), V. I.
hurst (1925). Lenin (1960a), J. Stalin (1937), e para os estudos antropoló-
gicos de Radcliffe-Brown (1940, Prefácio), Leslie White (1959,
3. Cabem também nesta categoria os estudos antropoló- Estado-Igreja), S. N. Eisenstadt (1966), E. A. Hoebel (1954),
gicos com abordagem econômica de M. Herskovits (1954), M. A. Fried (1960, 1967), A. Southall (1965), M. Gluckman e
apesar de sua atitude antievolucionista; a obra clássica de Fred Eggan (1965, Introdução).
Richard Thurnwald ( 1932), o estudo de antropologia econom1-
ca de J. S. Berliner (1962) e as análises recentes de popula-
ções tribais de caçadores e camponeses devidas a M. Sahlins
(1968) e a E. e. Wolf (1966), elaboradas com uma perspectiva

222 223
· XII. ESCRAVISMO XV. ETAPAS DA EVOLUÇÃO SÓCIO-CULTURAL
Sobre o conceito de "escravismo" consultamos as obras de Discriminamos, a seguir, as obras mais importantes no
A. Viatkin (Ed. s.d.), de O. V. Kuusinen (1964) e de A. Maka- estudo das revoluções tecnológicas e na fixação dos modelos
rov (Ed. 1965). Foram-nos muito mais úteis, no entanto, as teóricos das formações sócio-culturais.
observações de K. Marx (1966) sobre as formações "antigas
clássicas", o estudo do Império Romano de Rostovtzeff (1937) 1. Sobre a chamada "revolução humana" utilizamos princi-
e os ensaios publicados em coletânea por R. Guenther (1960), palmente: S. L. Washburn e F. Clark Howell (1960); Ch. F.
Hockett e R. Ascher (1964), A. Montagu (1964), A. Okladnikov
em especial o de Kuo Mo-jo sobre a China, de S. L. Uchenko, 0962), além de Julian S. Huxley (1952 e 1955) e G. G. Simpson
s. I. Kovaliev e Elena M. Schtaerman sobre Grécia e Roma. (1966).
Sobre a escravidão nas Américas, tivemos como fontes bá-
sicas Eric Williams (1944), J. Tannenbaum (1947) e Sergio 2. Sobre as formações pré-agrícolas: Julian H. Steward
(1955a cap. 7 e 8), Roger C. Owen (1965) e M. D. Sahlins
Bagu (1949 e 1952). (1968). Apelamos, também, para nossas próprias experiências
junto a grupos indígenas como os Guajá e os Xokléng do
Brasil.
XIII. FEUDALISMO
3. Para o estudo da Revolução Agrícola e das Aldeias
Sobre o feudalismo, utilizamos como fontes básicas as Agrícolas Indiferenciadas, utilizamos especialmente: Gordon
obras de K. Marx (1955, 1956 e 1966) e seus artigos sobre a Childe (1934, 1937, 1944, 1946, 1951), Leslie White (1959), Julian
H. Steward (1955a cap. 11). Foram também da maior utilidade
tndia (1966), bem como de F. Engels (1955), e os estudos de
tanto o conhecimento da bibliografia etnológica sul-americana
M. Dobb (1946) e Sweezy e outros (1967), embora discordando (vide J. H. Steward, Ed. 1946/1950; H. Baldus 1954; L. Pericot
da concepção do feudalismo como uma etapa progressista da y Garcia 1962; P. Armillas (1963), quanto nossas próprias pes-
evolução. Servimo-nos, também, de K. Wittfogel (1964) e J. H. quisas de campo, particularmente o estudo dos índios Urubus-
Steward (1955a cap. 11), cujas análises das "conquistas cfcli· Kaapor e das tribos do Xingu.
cas" reelaboramos para mostrar o caráter regressivo do feuda·
4. No estudo das sociedades pastoris é que nossa biblio-
lismo. Utilizamos, igualmente, as obras gerais de M. Bloch grafia tem carências maiores. Efetivamente, só contamos com
(1939/40), H. Pirenne (1939), Roushton Coulborn (Ed. 1956), texto!? didáticos como K. Dittmer (1960), com as monografias
N. Berdiaeff (1936), A. Piettre (1962) e José Luiz Romero (1967). históricas já referidas de O. Lattimore (1940) e R. Grousset
Discutiremos em outro trabalho (As Américas e a Civilização) (1965) e com o apelo a enciclopédias. Também neste caso,
a utilização do conceito de feudalismo no estudo da península porém, influíram em nossa compreensão a experiência de cam-
ibérica e das Américas. Sobre esse tema ver Sergio Bagu (1949 po junto a grupos indígenas que adotaram o cavalo (Mbayá-
e 1952), J. e. Mariátegui (1963), Antonio Garcia (1948), R. Sta- Guaikuru) e a bibliografia alusiva ao tema na América do
venhagen (1965) e A. Gunder Frank (1967 e 1967a). Norte.
5. Sobre a Revolução Urbana e os Estados Rurais Artesa-
nais, nossas fontes básicas foram: Gordon Childe ( 1937, 1946,
XIV. URBANIZAÇÃO: CIDADES E METRôPOLES 19.51, 1960); Leslie White (1949 e 1959), J. H. Steward (1955
cap. 11), J. Steward e L. C. Faron (1959). utilizamos também
Sobre a origem e o desenvolvimento da vida urbana e pro- o estudo de A. L. Kroeber sobre os Chibcha (1946) e o de
blemas conexos, como o papel da cultura erudita, servimo-nos J. Suret-Canale (1959) sobre os reinados africanos. Para a
de Louis Wirth (1938), S. N. Eisenstadt (1966), L. Mumford discussão do papel das talassocracias, tivemos em mãos A. O.
(1938 e 1966), Kingsley Davis (1955), B. Hoselitz (1953), R. Hirschman (1945) e A. T. Mahan (1890).
Redfield e M. B. Singer (1954), J. Dorselaer e A. Gregory 6. Utilizamos, como fontes bibliográficas principais sobre
(1962), J. J. Hardoy (1964), G. Sjoberg (1966), R. Quintero a Revolução do Regadio e os Impérios Teocráticos de Regadio,
(1964) e R. M. Adams (1967). Gordon Childe (1937, 1946 e 1951), Julian H. Steward (1955

224 225
cap. 11 e 1955 Ed.), Leslie White (1959), Karl Wittfogel (1955 11. Sobre a Revolução Industrial, utilizamos principalmen-
e 1964) e H. Cunow (1933). Entre as obras pioneiras sobre o te, K. Marx (1951 e 1956), F. Engels (1946), Paul Baran e
papel do regadio e o caráter das sociedades nele fundadas, P. M. Sweezy (1966), Max Weber (1964), Thorstein Veblen
consultamos as observações de K. Marx concernentes ao "modo 0951), Joseph Schumpeter (1963 e 1965), F. Sternberg (1961),
de produção asiático" e seus escritos sobre a índia (1966) R. Aron (1965), H. Pasdermadjian (1960), Colin Clark (1957),
incluídos na edição espanhola das "Formações" e também J. Fourastié (1950 e 1952), R. Dahrendorff (1959), A. Sireau
Metschnikoff (1889) e L. Baudin (1940). Entre os estudos mo- (1966), C. M. Cipolla (1964), A. Rumiantsev (Ed. 1963), F. Per-
dernos sobre o tema destacam-se P. Armillas (1951), Eric roux (1964) e John Strachey (1956).
Wolff (1959), Angel Palerm (1955) e Robert McAdams (1967).
Também nos foi de grande utilidade a consulta a Robert Braid- 12. Sobre o Imperialismo Industrial, consultamos, princi-
wood (1952) com respeito ao Oriente Próximo; a M. Wheeler palmente, J. A. Hobson (1948), V. I. Lenin (1957, 1960 e 1960a),
(1953 e 1962) com relação à índia; e a H. G. Creel (1937) com R. Luxemburg (1963), J. Schumpeter (1965), P. Sweezy (1963a),
referência à China. P. Baran 0964), A. G. Frank (1967), I. L. Horowitz (1966), J.
7. Sobre a Revolução Metalúrgica e os Impérios Mercantis- Strachey (1959).
Escravistas, utilizamos especialmente Gordon Childe (1937, 1946
e 1951), Leslie White (1959) e K. Marx (1966). Mas foram-nos 13. Sobre o Neocolonialismo, servimo-nos sobretudo das
também úteis as obras de W. S. Ferguson (1913), o estudo obras de J. Arnault (1960), G. Balandier (1956), Nkrumah
de Rostovtzeff sobre Roma, as obras de A. J. Toynbee (195{1) 0966), P. Jalée (1966), Frantz Fanon (1963), Peter Worseley
e de G. Glotz (1930) sobre a civilização helênica, os estudos (1966). Também neste campo, o conhecimento direto dos pro-
de M. Pallottino (1956) sobre os etruscos e de A. A. Vasilev blemas de desenvolvimento da América Latina nos foi de
(19§2) sobre Bizâncio. especial valia.
8. Sobre a Revolução Pastoril e os Impérios Despótico- 14. Sobre o Neocapitalismo, consultamos Berle & Means
Salvacionistas utilizamos especialmente R. Levy (1957), H. Mas- (1951), J. K. Galbraith (1962), P. Mendes-France e G. Ardant
sé (1952), K. Wittfogel (1964), A. J. Toynbee (1951/64 vol. III) (1955); e, para sua crítica, J. Strachey (1956), P. M. Sweezy
e R. Linton (1955). (1963a) e Paul Baran (1964).
9. Sobre a Revolução Mercantil, os Impérios Mercantis-
Salvacionistas, as formas modernas de Colonialismo Escravista, 15. Sobre a expansão socialista, o socialismo revolucioná-
Mercantil e de Povoamento, foram-nos de particular valia: rio, o socialismo evolutivo e o nacionalismo modernizador,
Frédéric Mauro (1964), Max Weber (1948 e 1964). Sobre a apelamos para V. I. Lênin (1960 e 1960a), L. Trotzky (1931
expansão russa, consultamos Wladimir Solovieff (1946), B. A. e 1962/63), O. V. Kuusinen (1964), A. Viatkin (Ed. s.d.), P.
Grekov (1947), B. Nolde (1952/53) e A. Briúsov e outros (s.d.). Soboliev e outros (Ed. s.d.), B. Ponomariov (Ed. s.d.), V. Afa-
Sobre a expansão ibérica: C. Sánches Albornoz (1956 e 1960), nasiev (s.d.), S. e B. Webb (1936), Oskar Lange (1963 e 1966),
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Sérgio (1929). Apelamos também para os ensaios de J. H. 54 e 1961), K. S. Karol (1966), N. P. Schemeliov (1965) e I. L.
Parry (1958) sobre a expansão européia; J. Klein (1920) sobre Horowitz (1966).
a "roesta", H. C. Lea (1908) e B. Lewin (1962) sobre a Inqui-
sição. Com referência às instituições coloniais hispano-america- 16. Sobre a Revolução Termonuclear e as Sociedades Fu-
nas, consultamos Sergio Bagu (1949 e 1952), J. M. Ots Capdequi turas consultamos N. Wiener (1948 e 1950), J. R. Oppenheimer
(1957) e e. Harring (1966). (1957), D. Bell (1960 e 1965), C. P. Snow (1963), J. D. Berna!
10. Sobre o Capitalismo Mercantil, utilizamo-nos especial- 0964a), E. H. Carr (1951), E. H. Laski (1944), M. Djilas (1957),
mente de K. Marx (1956 e 1966), da obra de texto de A. Viatkin E. Fromm (1956), J. Henry (1967), Gunnar Myrdal (1961), Eli
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