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© EDIPUCRS, 2016

Capa: Shaiani Duarte


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Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)

I61 A República revisitada: construção e consolidação do projeto


republicano brasileiro [recurso eletrônico] / orgs. Cláudia
M. R. Viscardi, José Almino Alencar. – Dados
eletrônicos. – Porto Alegre : EDIPUCRS, 2016.
332 p. : (Série História ; 68)

Modo de Acesso: <http://www.pucrs.br/edipucrs>


ISBN 978-85-397-0823-9

1. Brasil – História – República, 1889-1894. I. Viscardi,


Cláudia M. R. II. Alencar, José Almino. III. Série.

CDD 23 ed. 981.05

Ficha catalográfica elaborada pelo Setor de Tratamento da Informação da BC-PUCRS.

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Direitos Autorais).
PREFÁCIO

O projeto deste livro nasceu entre um grupo de professores e pesquisadores da área da História e
das Ciências Sociais de várias instituições do Rio de Janeiro e também de outros estados do Brasil, que
se reuniu na Fundação Casa de Rui Barbosa, entre 2010 e 2012. O local do encontro não foi casual,
uma vez que o traço de união dos que ali se encontravam radicava-se no interesse por um específico
período da História do Brasil: a Primeira República. O abrigo material e simbólico da Casa de Rui,
portanto, tinha tudo a ver, inclusive, porque o grupo recortava como questão mais específica para seu
debate, a dinâmica da política brasileira após a Proclamação da República. Momento original de
construção do regime republicano, a virada do século XIX para o XX condensa e explicita todos os
desafios que tais conjunturas costumam guardar para seus contemporâneos e para os analistas que
sobre ele se debruçam, com o passar do tempo. Algo evidente e até banal, como se pode verificar pela
constatação de ser uma das fases mais estudadas da História do Brasil. Entretanto, essa escolha nada
tem de trivial, como se verá pela leitura deste livro.
Foram encontros animados e informais, dos quais participei e com os quais muito me beneficiei. Ora
nos sentávamos em torno de uma mesa e discutíamos os trabalhos em andamento de nossos colegas
do Rio; ora convidados de mais longe vinham conosco debater suas investigações, tomando um
cafezinho com biscoitos. O interesse comum dos pesquisadores era o fato de estarem retomando e
relativizando teses muito compartilhadas sobre a política do período, fundamentalmente porque a
perspectiva analítica do grupo era a do estranhamento sobre o que dele se escreveu, durante um bom
tempo. Muito esquematicamente, desejava-se aprofundar conhecimentos sobre ideias e práticas
políticas então encetadas, considerando-se, é claro, as contribuições da literatura já produzida, mas
sem que ela aprisionasse as possibilidades de examinar afirmações consagradas (ou não), com novas
hipótese, novas fontes e novas referências teórico-metodológicas.
Todos nós sabíamos que estávamos dando continuidade a um movimento de revisão da história da
Primeira República, que vem marcando a produção de historiadores, sociólogos e cientistas políticos,
pelo menos desde a década de 1980, crescendo nos anos 1990. Contudo, o que verificávamos é que
tais esforços tinham ainda muito a ganhar com o aumento do diálogo interdisciplinar e com uma
melhor exploração das descobertas dessas primeiras e inovadoras investigações. Quer dizer, a
constatação do grupo era a de que um passo fundamental fora dado, pois se quebraram imagens
estereotipadas do período – chamado acriticamente de República Velha – fundadas na repetição
naturalizada de fórmulas explicativas, como a da política do café com leite, para dar conta da
estabilização do regime; ou a do domínio do clientelismo e das fraudes eleitorais, para afirmar a
ausência de representação e participação políticas “verdadeiras”. Contudo, a nosso ver, tal esforço não
vinha ganhando o aprofundamento merecido, com o desenvolvimento e a articulação de novas
pesquisas, que pudessem avançar e sofisticar o trabalho já empreendido. Algo que envolvia nossa
própria atuação, como pesquisadores que haviam contribuído para os resultados já alcançados. O
melhor exemplo pode ser o de Cláudia Viscardi, organizadora do livro, que fez tese de doutorado,
publicada em 2001, com o expressivo título: O teatro das oligarquias: uma revisão da política do café
com leite.
É nesse espaço preciso que este livro deseja situar sua contribuição sobre a dinâmica política da
Primeira República. Ele quer dar seguimento a uma ampla e complexa tarefa de revisão historiográfica,
só possível e bem-sucedida com o trabalho coletivo, já que o processo de produção do conhecimento é
igualmente coletivo, sendo alimentado pelo debate de perspectivas diferenciadas e com pesquisas
rigorosas.
O livro é uma coletânea de oito capítulos, que podem ser entendidos como compondo duas grandes
partes, articuladas entre si de várias maneiras, dependendo do percurso de leitura empreendido. A
primeira teria como grande tema a montagem do novo regime e o funcionamento do federalismo
republicano, sendo integrada pelos capítulos de Christian Lynch (I); Angela Alonso (II); Cláudia
Viscardi e Vitor Figueiredo (III); e Paolo Ricci e Jacqueline Zulini (V). A segunda, tratando de diversas
questões políticas, das mais formais às mais cotidianas, lançaria seu olhar para o cenário da capital
federal, como lugar privilegiado para pensar a Primeira República. Nesse sentido, teríamos os capítulos
de Américo Freire (VI); Surama Sá Pinto (VII); e Andréa Casa Nova Maia e Pedro K. Ribeiro (VIII).
Participando dessa montagem, tem-se o capítulo de José Almino Alencar, “Os telegramas de Haia”
(IV), que se foca em evento de política externa, que é sempre política interna.
Como ocorre com as coletâneas, é impossível e indesejável realizar para o leitor, numa apresentação,
tentativa de abarcar os inúmeros pontos contemplados nos diversos capítulos que compõem o
volume. Assim, o que se fará a seguir resulta de leitura que deseja ressaltar apenas alguns pontos
certamente polêmicos e estimulantes para se trabalhar com a Primeira República, presentes no livro.
No que se refere à questão das disputas entre projetos de repúblicas, acirrada logo após o episódio
da proclamação e quando do funcionamento da Constituinte, vale destacar a tese que confronta a
interpretação corrente, de que o modelo oligárquico republicano, vigente até 1930, decorreu do
colapso ou da contenção de outro modelo de república, que seria mais inclusivo. Tal modelo,
identificado como o de um liberalismo democrático, teria sido frustrado pelas imensas tensões
políticas da primeira década de funcionamento do novo regime, ilustradas quer por violentas
competições intraelites, quer por inúmeras revoltas e insurreições armadas, ocorridas em várias partes
do território. Esse desgaste monumental que a República recém-instalada sofreu e teve que enfrentar
e vencer não é obviamente negado. O que se argumenta, contudo, é que um projeto efetivamente mais
inclusivo de república, entendido como de maior participação popular pelo voto e de políticas públicas
mais voltadas para questões como educação e trabalho, não integrava efetivamente o escopo de visão
e de propostas políticas, nem dos setores conservadores, nem dos liberais que fizeram a crítica da
Monarquia e a propaganda da República. Quer dizer, a tese proposta para a reflexão do leitor é a de que
o modelo de república defendido pela diversificada coalizão política que atuou na propaganda e na
proclamação, a despeito das muitas diferenças internas existentes, convergia, ao menos, em dois
pontos fundamentais, para o seguinte: a defesa do federalismo e do presidencialismo; e uma
concepção de participação popular limitada pela lei.
Ou seja, o que se coloca em discussão é que as ideias de repúblicas no Brasil, mesmo quando se
chamavam de democráticas, não traziam propostas políticas mais inclusivas, como a de maior
incorporação da população por via eleitoral. O modelo norte-americano, também um exemplo de
incorporação limitada e preocupada com a defesa das minorias contra a maioria, não casualmente fez
tanto sucesso entre fortes correntes republicanas daquele momento. Sendo assim, as preocupações e
os temores de “revolução social” e de ameaça à unidade nacional, entre outros, frequentavam as
mentes de liberais e conservadores desde a crise do Segundo Reinado, pavimentando projetos de
repúblicas que comungavam de uma visão oligárquica e até mesmo autoritária do poder, embora de
forma diferenciada. Tese bastante polêmica, que deve estimular investigações mais aprofundadas
sobre as campanhas republicanas.
Outro ponto marcante e também polêmico do livro é o que destaca a dinâmica de construção da
chamada política dos estados do presidente Campos Sales, não só para acompanhar com mais
minudência quais eram seus objetivos como para indicar com mais precisão que tipo de alterações
foram por ela implementadas e que tipo de resultados foram alcançados. Isso porque a ação desse
presidente transformou-se em divisor de águas das interpretações sobre o período, uma vez que a ele
é atribuída a conquista da estabilização política e econômica da República, tão almejada após os
imensos distúrbios da primeira década, que comportaram até uma inusitada tentativa de assassinato
ao chefe de governo.
O esforço posto em marcha para a discussão dessa questão é ilustrativo, pois está presente em
vários capítulos que debatem outros aspectos da experiência republicana de 1889-1930. Nesse
sentido, toda uma documentação bastante frequentada é retomada, bem como uma nova
documentação é a ela agregada, examinando-se com cuidado e com abordagens teóricas diversas o
que, muitas vezes, se imaginava muito sabido. No caso da política dos estados, também conhecida
como política dos governadores ou do café com leite, o que se propõe é, no mínimo, instigante, mesmo
considerando-se as revisões realizadas pela literatura mais recente sobre o assunto.
A ideia é a de que a “fórmula” Campos Sales, que não retomarei neste prefácio, não apenas teve
sérias dificuldades em se operacionalizar no primeiro pleito em que foi experimentada como manteve
razoáveis problemas de funcionamento em pleitos posteriores. Quer dizer, embora a Primeira
República, após o governo Campos Sales, não tivesse sido conturbada por confrontos internos
armados do grau existente na década de 1890, esteve longe de estar “estabilizada/pacificada”
politicamente, ao menos nos estados, onde a competição política devia se efetuar, para não
transbordar para a esfera nacional.
Além disso, o que se destaca, ao lado dessa postulação, é que se o presidente certamente tinha em
vista assegurar sustentação parlamentar para seu governo, razão pela qual desenha e articula o pacto
entre União, estados e municípios, é difícil afirmar com segurança que seu projeto original tivesse sido
concebido para ter um alcance de mais longo prazo. Evidentemente, essa é uma tese complexa, mas
também interessante, já que a historiografia vem trabalhando com o projeto de Campos Sales como se
ele tivesse sido, desde sempre, arquitetado para durar. Uma inferência razoável, até porque o
estabelecimento de alianças e procedimentos políticos tem vigência na curta, mas também na média
duração, já que não se conseguem resultados desse tipo muito rapidamente. É o que os novos estudos
vêm constatando: a política dos estados foi se fazendo a partir de Campos Sales; foi se aprimorando,
na medida em que alguns resultados positivos foram se revelando compensadores para certos estados
da federação. Mas, justamente pela mesma razão, a mesma política foi evidenciando resultados
negativos para outros estados. Resultados previstos por algumas lideranças políticas desses estados
de menor grandeza desde muito cedo e, por isso mesmo, resultados que tais elites buscavam
contornar na esfera estadual e nacional.
Dessa maneira, o livro põe em foco o debate sobre uma das dimensões mais comentadas, porém
ainda pouco pesquisada, da história política republicana: a das práticas político-culturais do
funcionamento do jogo eleitoral, durante a Primeira República. A formulação anterior não é ingênua.
Ela deseja remarcar o tipo de abordagem conferida pelo livro à questão das eleições. O objetivo é o de
assinalar que se as eleições eram marcadas por diversos tipos de irregularidades, como a historiografia
registra de há muito, é preciso se debruçar sobre tais procedimentos com afinco, considerando-os
como pistas absolutamente relevantes para um melhor entendimento do que se deve considerar como
práticas político-culturais que atravessavam todos os grupos partidários nos diversos estados do país
fossem eles de situação ou de oposição. Com esse tipo de formulação – nela se incluindo as
irregularidades eleitorais –, os embates intraoligárquicos ganham novo status. Isso porque tais
irregularidades, além de indicar o desejo dos grupos partidários de controlarem as eleições, fraudando
seus resultados, passam também a evidenciar a existência de real competição política intraelites. Ou
seja, reforça-se a tese de que a “estabilidade” conseguida na Primeira República, gerada pela chamada
política dos governadores, não chegou a neutralizar de forma efetiva a competição entre grupos
oligárquicos nos estados. A despeito, é claro, de grandes variações entre a força das facções
oligárquicas em confronto e dos graus de violência, física e simbólica, que mobilizavam.
Assim, as fraudes deixam de ser pensadas apenas como meras irregularidades ou desvios do
processo eleitoral. Passam a ser tratadas como indícios valiosos para se entender como se dava a
competição entre as forças políticas oligárquicas. E mais ainda, como tal competição, que foi muito
minimizada e, por isso, pouco estudada, envolvia os próprios eleitores, entendidos como sujeitos ativos
desse processo, a despeito de sua posição de dependência em relação aos chefes municipais e
estaduais. É bem verdade que a importância dos pleitos ocorridos durante essa fase republicana já
vinha sendo assinalada pela literatura mais recente, que ressaltava ao menos dois aspectos. De um
lado, como a efetiva competição eleitoral entre forças oligárquicas, ainda que com limites e fraudes,
produzia alguma circulação e renovação das elites no poder, sendo as eleições um momento de
razoável incerteza política. De outro, como havia margens de barganha para os eleitores, que não
podem ser considerados indivíduos inteiramente dominados e/ou manipulados, como se não tivessem
quaisquer interesses e racionalidade política ao usarem seus votos.
Portanto, a realização sistemática dos pleitos tem que ser vista como um procedimento
fundamental para o que se chama de aprendizado da política, tanto para as elites como para a
população votante e mesmo não votante. Até porque, como esses estudos apontam, o cidadão
republicano podia participar da vida política, organizando-se em associações profissionais, religiosas
etc., atuando em campanhas contra a carestia e outras, mesmo que não tivesse direito ao voto. Não
votar, não poder atuar escolhendo os representantes políticos, não significa estar completamente fora
do corpo político de uma nação. Não significa estar impedido de participar, usando direitos de
cidadania como o de se organizar e vocalizar opiniões e demandas. E isso ocorreu durante a Primeira
República e continuou ocorrendo no pós-1930.
A alteração, ainda em curso, na abordagem teórico-metodológica da questão da representação e
das eleições, algo absolutamente central para a dinâmica da política – mesmo quando se sabe que os
resultados dos pleitos sofrem fraudes –, é enriquecida pelo fato de ela ser retomada a partir do exame
de novas fontes de pesquisa. No caso, as Contestações ou Petições que se realizavam após os pleitos e
que se constituíam em acusações formais sobre as irregularidades cometidas antes, durante e depois
das eleições. É realmente impressionante a riqueza desse conjunto documental produzido durante a
Primeira República, versando sobre todos os pleitos realizados em todo o país. É impressionante
também como tais documentos não tinham sido utilizados pelos pesquisadores que se dedicam ao
período ou ao tema das eleições no Brasil.
As Contestações – por serem uma argumentação circunstanciada dos contestantes contra aqueles
que pretendiam ter vencido as eleições – fornecem descrições minuciosas sobre os expedientes
utilizados nas várias etapas do pleito, desde o alistamento, passando pela votação e chegando à
apuração. Com isso, possibilitam uma ótica de acompanhamento do processo eleitoral muito
particular e evidenciam como as irregularidades apontadas eram disseminadas pelo país, sendo
conhecidas e utilizadas pelos diversos grupos oligárquicos que competiam pela via eleitoral. Quer dizer,
tais irregularidades foram uma prática incorporada ao processo eleitoral republicano, utilizadas de
forma ampla, justamente porque ele continha incerteza, que precisava ser controlada. Mas controlada
apenas em última instância, pela fraude. A constatação é a de que, se as fraudes foram comuns, foram
também crescentemente custosas para os competidores. As Contestações evidenciam como foi
necessário despender recursos financeiros e fazer esforços políticos (não inteiramente desprovidos de
riscos), muitas vezes difíceis de mensurar quando das eleições. Assim, o que se verifica é que se faziam
campanhas eleitorais, com estratégias persuasivas, que iam muito além do uso da violência, embora
esta sempre estivesse no horizonte dos pleitos.
Muito mais se poderia dizer dos capítulos do livro. Contudo, o que desejo assinalar para finalizar
esses comentários, é o quanto ainda existe para se conhecer, debater, pesquisar e escrever sobre esse
período da História do Brasil. Por fim, tenho a certeza de que este livro despertará debates e, nesse
lastro, o desejo de novas investigações. Nada melhor para instigar a curiosidade e atenção do leitor.

Angela de Castro Gomes


(dezembro de 2015)
APRESENTAÇÃO

CLÁUDIA M. R. VISCARDI
JOSÉ ALMINO DE ALENCAR

Incrustada entre dois períodos particularmente significativos da História Nacional – a Monarquia e a


Ditadura do Estado Novo (sem contar o breve interregno 1930-1934) –, a Primeira República foi quase
sempre analisada de forma muito crítica: atribuíam-lhe os vícios políticos do período posterior e a
responsabilidade pela destruição das virtudes da etapa que lhe antecedeu. Dessa forma, o regime
surgido em 1889 teria desmontado o aparato institucional monárquico, garantidor de nossa unidade
territorial e fator determinante para a estabilidade política então reinante; ao mesmo tempo,
implantara, de acordo com essa interpretação, um conjunto de mazelas que caracterizariam o regime
republicano brasileiro até os dias de hoje, a exemplo do caciquismo eleitoral, das fraudes, do
clientelismo e da ausência de direitos. Sem falar nos problemas derivados da criação de um federalismo
desigual, responsável pelas disparidades regionais, ainda vigentes.
Predominantemente estudada na década de 1980, as abordagens sobre a História Política e Social
da Primeira República não prescindiram de simplificações deformantes que tendiam a reduzi-la a um
conjunto de estereótipos, por vezes incompatíveis com a complexidade do período. Nessas análises, as
lutas políticas republicanas aparecem sobredeterminadas pelos interesses dos cafeicultores, como se
dela não participassem outros atores que nada ou muito pouco tinham a ver com o café. A falta de
competitividade do mercado político – evento comum em várias experiências que lhe foram
contemporâneas no período – era explicada como o resultado das fraudes eleitorais e da
desvalorização do voto, tido exclusivamente como moeda de troca entre os potentados locais e os
interesses que se encontravam apartados do poder. O avanço dos direitos políticos, civis e também
sociais foi interpretado como concessões de um Estado paternalista, na medida em que as diversas
organizações e mobilizações da sociedade civil – revelada pelos estudos recentes – não interessavam a
uma historiografia partidarizada e ideologizada, para a qual toda luta que não fosse a de classe não
mereceria atenção dos historiadores, por serem simplesmente de caráter reformista e pouco
transformador da realidade.
A complexidade do regime federalista então criado, resultante de discussões remontando ao período
imperial, que atravessaram todo o período da propaganda republicana e que tiveram por palco a
assembleia constituinte de 1891, foi reduzida a uma fórmula que denunciava o novo regime como
responsável pelo esvaziamento do Estado Nacional e o empoderamento das unidades federadas.
Nessas interpretações, os conflitos políticos do período eram subestimados e o efeito estabilizador do
“pacto oligárquico” vinha a ser consequentemente superestimado. Quando as disputas se tornavam
mais agudas, eram tratadas como falhas da equação café com leite, o que obnubilava alianças e
desavenças ocorridas nos 41 anos de regime, deixando à margem da história uma série de outras
oligarquias de ativa participação e intervenção política no período, restritas ao papel de satélites.
É por demais ambicioso afirmar que os estudos que se seguem tenham como objetivo rever teses
tão consagradas acerca do período. O desafio seria muito grande para uma coletânea de pesquisas
sobre o tema. No entanto, inúmeros trabalhos se encontram em andamento e muitos deles já
publicados têm revelado uma República muito menos estática e mais dinâmica do que até então se via.
Este livro é parte desse esforço coletivo.
A proposta original do trabalho surgiu no âmbito da Fundação Casa de Rui Barbosa no Rio de Janeiro,
quando um grupo de pesquisadores, inicialmente coordenado pelo então Presidente Prof. Wanderley
Guilherme dos Santos, deu início a uma série de debates em torno da política republicana.
Posteriormente, o grupo passou por alterações em sua composição, ao agregar pesquisadores de
outras instituições do Rio, a exemplo do CPDOC/ GV, UFRJ, Colégio Pedro II, UERJ, UFRRJ, e a contar
com convidados eventuais de outras instituições de fora do estado. Na ocasião, vários autores que
integram este projeto submeteram textos para debate entre os pares, na maioria das vezes,
acalorados.
O presente livro resulta em parte de tais debates. Dizemos em parte por não envolver as
contribuições de todos que deles participaram e por agregar textos de outros que nunca participaram
do grupo, mas que tinham uma produção relevante sobre o assunto. Aqui temos reunidos
pesquisadores de instituições fluminenses, paulistas e mineiras, que trazem a público suas
contribuições na espera de que elas possam ser indutoras de mais questionamentos sobre o tema.
Convidamos, dessa forma, os leitores a revisitarem conosco esse período.
O MOMENTO OLIGÁRQUICO: A CONSTRUÇÃO INSTITUCIONAL
DA REPÚBLICA (1889-1891)1
CHRISTIAN EDWARD CYRIL LYNCH

Nenhuma das constituições brasileiras foi cercada de tantas expectativas quanto aquela que primeiro
serviu de marco legal à República. Quando, no fim do Império, os republicanos democratas volviam os
olhos para a vizinha Argentina, ficavam extasiados com o seu crescimento econômico e o atribuíam ao
seu modelo constitucional, elaborado à imagem e semelhança dos Estados Unidos. Para eles, a
Constituição do Império continha um vício de origem: o fato de ter sido outorgada por Pedro I depois
da dissolução da Constituinte. Agora seria diferente. Derrocada a monarquia unitária que
supostamente entravava o progresso e adotada a república federativa, legitimada por uma
Constituição elaborada pelos representantes do povo, o país seria refundado. A Constituição de 24 de
fevereiro de 1891 preparava o país para uma era de democracia, grandeza e prosperidade, que nos
associava definitivamente ao movimento do continente. O principal autor do anteprojeto
constitucional enviado pelo Governo Provisório àquela assembleia havia sido Rui Barbosa, o mais
legítimo dos liberais brasileiros, jurisconsulto prodigioso. No entanto, o exercício do poder da Primeira
República foi marcado pelo autoritarismo que lhe imprimiram as forças que a instauraram – o Exército
e a aristocracia rural: primeiro, na forma de um militarismo positivista; depois, pelo conservadorismo
oligárquico. Estabilizado depois de 1898, o regime se acomodou como um arranjo das oligarquias
estaduais coordenado pelo Presidente da República – a Política dos Governadores – cujo objetivo era a
estabilização do sistema à custa do pluralismo político, garantindo maiorias congressuais dóceis ao
Presidente em troca de seu respeito às oligarquias que dominavam as situações estaduais.
Antes mesmo da República, já havia quem destacasse sua vocação oligárquica. Era o caso de
Joaquim Nabuco. Para ele, o republicanismo, como uma campanha orquestrada pelas elites
insatisfeitas com o reformismo social monárquico para instaurar o regime oligárquico, era assim
analisado: “Ninguém, mais do que eu, reconhece o que há de patriótico e elevado na concepção
republicana do Estado, mas não posso me iludir no caso presente: o atual movimento republicano é um
puro efeito de causas acumuladas que nada têm de republicanas; é uma contra-revolução social”2. Para
Nabuco, uma república brasileira não poderia produzir efeitos democráticos ou republicanos para além
das aparências constitucionais. Num país que acabava de sair da escravidão, hierárquico, analfabeto e
rural, a república democrática era uma quimera: bastava observar o que se passava em todas as
repúblicas ibero-americanas, que oscilavam entre a anarquia e a oligarquia. O bom governo em
sociedades atrasadas exigia uma instância suprema de poder político descolada das facções
oligárquicas, capaz de garantir o pluralismo e o bem comum. Entregue o poder diretamente às elites,
estas se construiriam em oligarquias, que dominariam a nova república e a ela imprimiriam sua direção
conservadora e autoritária. Porque “as oligarquias republicanas, em toda a América, têm demonstrado
ser um terrível impedimento à aparição política e social do povo”, Nabuco declarava estar “com o povo
defendendo a Monarquia, porque não há na República lugar para os analfabetos, para os pequenos,
para os pobres”3. Por isso, ele desenganava os republicanos de boa-fé: “Em países do nosso tipo, sob a
forma republicana, nunca um partido cairá do poder senão pela revolução. Só do campo da guerra civil,
das barricadas das cidades, poderão surgir novas situações políticas. O voto não vale nada”4. O
vaticínio de Nabuco se revelou profético: pouco mais de um ano depois de promulgada a Constituição,
às voltas com o arbítrio da ditadura florianista e os efeitos do primeiro estado de sítio, flagrantemente
inconstitucional, o senador Amaro Cavalcanti reclamava “a Constituição como lei viva, não como letra
morta”5. Aquela não era a república com que haviam sonhado. Já as oligarquias republicanas
favorecidas pela ditadura florianista aderiam decididamente ao regime autoritário; da tribuna, antigos
republicanos históricos, como Campos Sales, renunciavam ao antigo radicalismo para se declararem
conservadores e defensores do princípio da autoridade:
Por minha parte, também direi que esta não é a República que eu sonhava; mas, com uma diferença: nunca me passou
pelo espírito a fantasia de ver a República com que sonhava, perfeitamente organizada dentro de tão pouco tempo
depois da destruição da Monarquia. Não é esta a república que eu sonhava, mas, é este seguramente o caminho por
onde se há de chegar a fazê-la; é através dessas dificuldades, dessas agitações, de todas essas comoções, que nós
havemos de chegar ao regime definitivo da forma republicana em nosso País. Mas, para isso [...], o meio principal, senão
o único, é dar força a esta entidade que representa uma sentinela ao lado da República – o governo do País. Pela minha
parte, declaro que presto apoio absoluto e incondicional a este governo, ao qual não pedi e não pedirei outra coisa
senão que tenha coragem, resolução e energia para manter a ordem e a paz públicas, e para garantir a estabilidade das
instituições republicanas6.

De fato, desde pelo menos a Revolta da Armada, a Constituição ficou prisioneira de uma
interpretação conservadora que propositadamente deixava fluidos os limites de seus comandos
fundamentais para que fossem aplicados conforme a conveniência do situacionismo oligárquico.
Afora as inúmeras tentativas de golpe contra o establishment, houve três insurreições armadas nos
primeiros vinte anos do regime, só na capital federal – as revoltas da Armada (1893), a da Vacina
(1904) e da Chibata (1910). Em praticamente todos os estados, quando não se resolvia pela fraude, a
violência da luta política se manifestava em conflitos entre milícias privadas ou privatizadas,
bombardeios navais às capitais (como em Salvador, em 1911, e Manaus, em 1912) em massacres de
autoridades com a conivência das forças federais (como no Mato Grosso, em 1906). Rebeliões de
caráter místico-monárquico, como Canudos (1897) e o Contestado (1914), eram dizimadas em
campanhas de guerra, com saldo de milhares de mortos. Longe de a situação se estabilizar no decorrer
dos anos, concedidos sempre por um Legislativo de obedientes clientes, o estado de sítio e a
intervenção federal se tornaram expedientes ordinários empregados pelo Presidente da República com
a anuência do Congresso Nacional para superar a resistência dos opositores do establishment
oligárquico e preservar o situacionismo. Durante a Primeira República, o estado de sítio seria
decretado onze vezes: vigorou na capital do País durante 17 % de todo o período. Entre 1889 e 1930,
por sua vez, o Governo Federal interviria oficial ou oficiosamente pelo menos quinze vezes nos estados
da federação.
O que dera errado? A interpretação longamente hegemônica, produzida depois de 1930 pelos
revolucionários vitoriosos, reiterou a versão dos fatos produzida por Rui Barbosa, segundo a qual o
projeto republicano originário teria um propósito verdadeiramente liberal democrático, frustrado,
entretanto, pela interpretação conservadora que lhe conferiram as elites políticas por intermédio de
políticos como Campos Sales e Pinheiro Machado. O intento deste texto é, ao contrário, demonstrar
que, a despeito da clivagem entre liberais e conservadores, ambas as correntes não partilhavam de
uma concepção republicana mais ou menos aristocrática. Para tanto, me limitarei, neste capítulo, a
descrever o vetor autoritário e oligárquico pelo qual o governo provisório encaminhou a organização
do novo regime, bem como a reiteração, na Constituinte, de uma visão aristocrática da vida
republicana.
1. O GOVERNO PROVISÓRIO: OS DECRETOS NORTEADORES, O ANTEPROJETO
CONSTITUCIONAL E A MODELAGEM DO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL
Vitorioso o golpe militar que instaurou a República, foi editado, para institucionalizá-la
provisoriamente, o Decreto nº 1, de 15 de novembro de 1889. Ele foi precedido de uma proclamação
do Governo Provisório que tentava justificar como produto da “perfeita comunhão de sentimentos”
entre o povo, o Exército e a Marinha o golpe que depusera a dinastia e extinguira a monarquia. Embora
timbrasse em apresentar o novo governo como agente “da paz, da liberdade, da fraternidade e da
ordem”, a proclamação mandava fechar o Congresso Nacional. A ditadura era introduzida, porém, a
título de implantar um governo mais liberal e democrático que o anterior, promessa contida já na
designação do novo regime de governo, no referido Decreto nº 1, como “república federativa” (art.
1º). As antigas províncias, por suas vezes, passavam à condição de estados, para formar, em seu
conjunto, os Estados Unidos do Brasil (art. 2º). Esses estados eram qualificados como detentores de
“legítima soberania” (art. 3º), expressão que, como veremos, oporia republicanos ultrafederalistas e
liberais unionistas no Congresso Constituinte. Os três artigos seguintes instituíram legalmente o
“Governo Provisório da República” e previram regras para que, em caso de reação monarquista, ele
pudesse intervir militarmente nos estados. O art. 7º previa que a República deveria ser confirmada pelo
“pronunciamento definitivo do voto da Nação livremente expressado pelo sufrágio universal”, ideia
logo deixada de lado. Depois do Decreto nº 1, outros decretos também foram editados versando sobre
matéria constitucional – como o de n. 6, que confirmou o sufrágio universal masculino como novo
critério de eleição dos futuros representantes políticos, em substituição ao voto censitário. Na prática,
a ampliação da esfera pública foi praticamente nula, porque não revogava a proibição do voto do
analfabeto que, introduzido na esteira da reação aristocrática contra a autonomia da Coroa, fora a
responsável em 1881 pela redução abissal da participação eleitoral. O Decreto nº 7 mandou fechar as
assembleias legislativas estaduais e fixou as competências dos governadores, tarefa típica das
constituições federais.
A forma colegiada de atuação dos integrantes do novo governo, seguindo as práticas
parlamentaristas da monarquia, manifestava principalmente a desconfiança recíproca no interior da
própria coligação civil e militar que patrocinara o golpe de Estado. A coalizão reunira elementos que,
por uma questão de oportunidade, haviam se juntado para ajudar a derrubar a monarquia unitária, mas
que pouco tinham a ver entre si. O governo reunia generais como Deodoro e Floriano, inclinados à
ditadura pura e simples; militares e civis positivistas, como Benjamin Botelho e Demétrio Ribeiro,
propensos a uma democracia autoritária; aristocratas rurais pretensamente radicais, mas de vocação
conservadora, como Campos Sales e Francisco Glicério, que aspiravam a uma república oligárquica
como a Argentina, e jornalistas até então liberais, como Aristides Lobo e Quintino Bocaiúva, que logo
passariam para o campo conservador. Monarquista até a véspera do golpe militar, Rui Barbosa
compensou o fato de não ser militar nem republicano histórico graças à ciclópica cultura jurídica e
administrativa, com o que manteve a ascendência sobre Deodoro e manobrou para que a ditadura
fosse, dentro do possível, um breve interregno para a organização democrática e liberal da nova
República. Sua conduta liberal e absorvente causou crises que resultaram na retirada de colegas e na
eterna antipatia de outros, como o conservador Campos Sales. Ministro da Justiça e irmão de Alberto,
Campos Sales seria o grande artífice do conservadorismo oligárquico da Primeira República e, como tal,
adversário político de Rui, campeão da causa perdida do liberalismo urbano7. No seio do Governo
Provisório já começava a larvar, pois, a tensão entre o conservadorismo latente do Ministro da Justiça e
o liberalismo ostensivo do Ministro da Fazenda, que encarnariam os dois polos ideológicos antagônicos
em que se dividiria a interpretação constitucional do novo regime.
Naquele momento, todavia, uns e outros precisavam da recíproca colaboração para atingir objetivos
comuns. O primeiro deles, que era garantir o novo regime contra a reação monárquica, foi alcançado
por uma legislação draconiana contra a liberdade de expressão, pelo empastelamento de jornais e pela
edição de um regulamento eleitoral que impediria, pela intervenção do governo, a eleição de
monarquistas para a Constituinte8. O segundo objetivo comum foi impor o modelo institucional norte-
americano contra o grupo positivista, convocando uma comissão para elaborar o projeto constitucional
comprometida com o arquétipo institucional norte-americano. Assim, o Decreto nº 29, de 3.12.1889,
nomeou uma comissão de cinco juristas – Saldanha Marinho, Américo Brasiliense, Santos Werneck,
Rangel Pestana e Magalhães de Castro –, a maior parte dos quais vinculados à grande propriedade
rural. O anteprojeto foi revisto por Rui Barbosa em 25 dias a pedido de todos os ministros para que, em
conjunto, pudessem solidariamente impô-lo a Deodoro, que continuava a pensar conforme os cânones
político-institucionais da monarquia que derrubara, pressionando pela possibilidade de dissolução da
Câmara dos Deputados por um Chefe de Estado irresponsável e a organização de um Judiciário
unitário9. Vencido Deodoro, o anteprojeto foi promulgado pelo Decreto nº 510 como Constituição
Provisória da República, a 22 de junho de 1890. A Constituição Provisória era uma tentativa consciente
dos atores republicanos de romper a autonomia do Estado sobre a sociedade e a hegemonia da
moldura intelectual francesa para lhe sobrepor a norte-americana; na prática, isso foi feito
substituindo-se o unitarismo pelo federalismo (art. 1º), o parlamentarismo pelo presidencialismo (art.
39), a dualidade entre justiça administrativa e justiça comum por um judiciário uno e autônomo (art.
54), o tribunal de cassação por um supremo tribunal soberano (art. 55) e o poder moderador do chefe
do Estado pelo controle jurisdicional da constitucionalidade (art. 58, § 1º, alíneas a e b).
Na confecção desse anteprojeto, a atuação de Rui Barbosa foi fundamental. Ele fez umas poucas
alterações no modelo constitucional estadunidense, tendo em vista, basicamente, a evolução política
daquele país desde 1787. Com receio da deficiente educação do povo, ele também adotou a eleição
indireta para presidente e senadores; para evitar que as eleições presidenciais fossem tumultuárias,
fixou uma duração mais longa, de seis anos, para o mandato presidencial. Receoso de que o Presidente
manipulasse o Supremo Tribunal, fixou seu número de integrantes na Constituição; temendo o excesso
de federalismo, fortaleceu a União, concedendo-lhe o poder de emitir moeda, a propriedade das terras
devolutas e a competência para legislar sobre direito civil, penal e processual. Com o propósito firme de
transplantar fielmente as instituições anglo-americanas, com um olho na Constituição da Argentina,
Rui se valeu de toda a sua expertise em direito público para reescrever o anteprojeto da comissão dos
cinco, modificando-o para além de seu estilo ao enxertar novas normas, consagrar novas instituições e
aprimorar a redação de quase todas as outras10. Ele melhorou os dispositivos referentes à intervenção
federal, para permitir que os poderes judiciários e legislativos dos estados pudessem requisitá-la, e ao
estado de sítio, frisando a necessidade de que o Congresso Nacional fiscalizasse os atos do governo.
Quanto ao controle normativo da constitucionalidade, foi ele quem o enxertou no capítulo do Poder
Judiciário, quase todo reescrito. Ficaram também por sua conta a inviolabilidade parlamentar e a
ampliação da declaração de direitos, evitando que ela fosse inferior à da Constituição de 182411.
A adoção do presidencialismo merece uma análise mais circunstanciada, por constituir uma
aparente contradição com a campanha parlamentarista movida pela oposição liberal desde pelo menos
1862, e radicalizada desde 1868/1871, que justamente combatia o “poder pessoal”. Ao consagrar as
doutrinas da separação dos poderes e dos freios e contrapesos, o arcabouço horizontal do projeto
republicano ficava parecido com o da Constituição do Império, cuja primeira interpretação, no
Primeiro Reinado e na Regência, respaldara o poder pessoal de Pedro I e do Regente Feijó – muito
superior àquele exercido por Pedro II no quadro de um sistema parlamentar dualista; e que tanto havia
sido criticado por Rui. A existência de um poder pessoal do chefe do Executivo, ao menos
teoricamente, não era um problema para os conservadores agrários, que apreciavam um chefe de
Estado forte, enérgico, capaz de manter a ordem social contra as reivindicações dos setores alijados. A
rejeição do regime monárquico pelos senhores rurais havia radicado menos no caráter pessoal do
governo, por eles apreciado, do que no fato de sentirem, desde o início do processo da abolição, em
1871, que aquele poder não vinha sendo empregado em seu benefício, ou seja, da ordem social, mas
contra eles, desorganizando o trabalho da lavoura e subvertendo a hierarquia social. Daí o apoio dado
então à campanha parlamentarista. Com a queda da monarquia e o advento de um presidente eleito,
as coisas mudavam de figura. Como explicava Campos Sales, a vantagem de substituir a monarquia
parlamentar pela república presidencial estava na conjugação de um governo forte e pessoal, de um
lado, com sua responsabilidade direta frente aos representantes do latifúndio reunidos no Congresso,
de outro. Ou seja, para ele, a república presidencial era a garantia de governo forte a serviço do
establishment oligárquico12.
Este não era o caso de Rui, liberal apaixonado pelo parlamentarismo que sucumbira ao
presidencialismo por pura rigidez doutrinária. Embora acreditasse que, dado o histórico latino-
americano, o sistema presidencial pudesse converter-se num veículo do arbítrio do Chefe do Estado,
mas não vendo, por outro lado, o precedente anglo-americano de uma república federativa que
comportasse a fórmula parlamentarista, Rui resistiu à tentação do hibridismo, para se render ao
sistema presidencial13. Para ele, a elaboração constitucional exigia ortodoxia na transposição das
instituições estrangeiras para o ambiente nacional. Além de envolverem contemporizações com o
atraso político, as fórmulas híbridas aumentavam a imprevisibilidade do experimento e, com ela, o risco
de um governo arbitrário. Daí que a boa Constituição não era a que correspondia ao estado
sociocultural do povo, mas a que servia de bitola ou corretor ortopédico para aprumar o crescimento
irregular do organismo social num caminho diverso daquele da liberdade. Se os valores morais da
justiça eram universais e eternos, como ele acreditava, e encontravam nas instituições anglo-
americanas sua mais acabada expressão, os povos atrasados precisavam urgentemente importá-las e
praticá-las, para terem condições políticas de acelerar seu desenvolvimento. A ferramenta essencial
para a adequada inoculação institucional do germe da liberdade num ambiente que lhe era hostil, como
o brasileiro, era o direito constitucional comparado. O relativismo cultural, a história ou a intuição
sociológica tinham pouca ou nenhuma relevância. Por esse motivo, Joaquim Nabuco o acusaria de ser
não “um organizador, um criador de instituições, mas um copista de gênio”, “o jurista constitucional”
do regime republicano14. A esperança de Rui era a de que as derivas autoritárias do governo
presidencialista ou do Congresso fossem coibidas pelo Judiciário, cujo poder, por isso mesmo, tratara
de fortalecer. Fixada sua competência para declarar a nulidade dos atos e leis incompatíveis com a
Constituição e de julgar os conflitos entre os estados, e entre estes e a União Federal, o Supremo
Tribunal Federal deveria exercer o papel “de um poder neutral, arbitral, terminal, que afaste os
contendores, restabelecendo o domínio da Constituição”15.
Entretanto, não era nova nem privativa dos republicanos a noção, corrente na época, de que o
equivalente do Poder Moderador do monarca nas repúblicas presidenciais e federativas era uma
Suprema Corte dotada de poderes para declarar a inconstitucionalidade das leis e dos atos normativos.
Já em 1841, por exemplo, o liberal histórico Teófilo Otoni aludira a um “supremo Poder Moderador”
que, detido pela Suprema Corte, teria o poder de declarar a inconstitucionalidade das normas nos
Estados Unidos16; vinte anos depois, ele voltou a defender a tese de que o Judiciário brasileiro tinha ou
deveria ter a mesma função17. Em 1870, foi a vez de Tavares Bastos definir o Judiciário norte-
americano como “o grande Poder Moderador da sociedade, preservando a arca da aliança de
agressões, ou venham do governo federal ou dos governos particulares”18. Por fim, a crer-se no
depoimento do republicano Salvador de Mendonça, o próprio Imperador Dom Pedro II teria cogitado
em 1889 criar um tribunal semelhante à Suprema Corte norte-americana para lhe transferir as
competências do Poder Moderador19. Também não era nova a ideia de fortalecimento do Poder
Judiciário. Pregando contra a justiça administrativa imperial, em 1869 Nabuco de Araújo e outros
liberais haviam insistido que os juízes eram os únicos árbitros adequados das contendas individuais e
mesmo eleitorais20. Tavares Bastos defendera em 1875 a entrega da magistratura de primeira
instância às províncias ou, provendo os cargos por concurso, promover os magistrados por um
processo que, envolvendo o Judiciário e o Legislativo, excluísse o Executivo21. Ao apresentar seu
ministério em 1882, também o liberal Marquês de Paranaguá frisara a necessidade de emancipar o
Judiciário da dependência do Executivo, de molde a inspirar a confiança dos partidos em sua
neutralidade política22. O mesmo faria o primeiro-ministro liberal Lafaiete Rodrigues Pereira no ano
seguinte, ao lembrar aos deputados que o Judiciário deveria ser fortalecido por conta da “idoneidade
intelectual e moral do magistrado e sua perfeita independência pessoal”23. Em 1886 já estava no ar a
possibilidade de se atribuir ao Supremo Tribunal de Justiça a verificação dos poderes dos
parlamentares eleitos24. Por fim, em 1888, aquele tribunal já protestava contra a ingerência do Poder
Executivo, em nome da igualdade entre os poderes políticos consagrada na Carta de 1824.
Quando veio a República, portanto, estava mais do que pavimentado o caminho que levaria à
substituição do Poder Moderador, de cunho estrutural, exercido pelo Imperador, por um controle
normativo, exercido pelo Poder Judiciário. O papel do Supremo Tribunal Federal, que deveria exercer
aquele controle em última instância e havia sido desenhado por Rui no anteprojeto, foi comentado
doutrinariamente quatro meses depois, na exposição de motivos do Decreto nº 848, de 11.10.1890,
que organizou a Justiça Federal. Neste ponto, Rui Barbosa e Campos Sales, editor do decreto, estavam
de acordo em reproduzir na nova república o arcabouço judiciário norte-americano, com um sistema
de dualidade da justiça – federal e estadual – em cuja cúspide houvesse um tribunal encarregado de
preservar a integridade do ordenamento constitucional para salvaguardar os direitos fundamentais. A
americanização do direito público brasileiro foi completada pelo art. 387 do mesmo decreto 848: dali
por diante as doutrinas e os precedentes do direito norte-americano passavam à condição de fonte
subsidiária oficial do direito público brasileiro. No Congresso Constituinte, haveria quem se
apercebesse da envergadura dessas mudanças, como o deputado Gonçalves Chaves, que foi direto ao
ponto: “O tribunal supremo é investido de um caráter eminentemente político, que dele faz o grande
pilar da Constituição, uma espécie de Poder Moderador, destinado a manter o equilíbrio de todos os
poderes da federação”25. E repetiria, noutra ocasião: “É o Poder Moderador da República”26. Era assim
que a república substituía uma forma estrutural e política de controle constitucional por outra, de
natureza jurisdicional e normativa.
De fato, da leitura dos primeiros textos ou discursos produzidos pelos dois responsáveis pela
jurisdição constitucional no Brasil – Campos Sales e Rui Barbosa –, percebe-se o relativo consenso que
os unia acerca de sua natureza e de seus limites. Ambos destacavam, em primeiro lugar, o papel central
que, munido daquela atribuição, passava o Poder Judiciário a exercer no quadro dos poderes políticos
brasileiros. Ambos os descreviam, nesta qualidade, como uma espécie de novo e verdadeiro poder
moderador da República, que vinha a substituir o outro, equivocado, e que se desviara no exercício de
suas competências. Em 1890, na qualidade de ministro da Justiça, Sales destacava “o papel de alta
preponderância” que Judiciário haveria de desempenhar no novo regime27. De sua parte, em 1892, Rui
Barbosa também destacava a que, no novo regime, o Judiciário deveria exercer o papel “de um poder
neutral, arbitral, terminal, que afaste os contendores, restabelecendo o domínio da Constituição”28. Os
dois ministros também estavam de acordo a respeito do papel de defesa da constitucionalidade contra
os excessos das maiorias, que o Judiciário federal estava agora chamado a exercer. Campos Sales
destacava a dimensão antimajoritária da jurisdição constitucional: “A função do liberalismo no passado
[...] foi opor um limite ao poder violento dos reis; o dever do liberalismo na época atual é opor um
limite ao poder ilimitado dos parlamentos”29. Rui não destoava: para ele, a democracia americana, que
os pais da república brasileira vinham emular, era “a realização política desse ideal das democracias
limitadas pela liberdade, do número limitado pela lei, do indivíduo escudado contra a multidão, das
minorias protegidas contra as maiorias”30.
Entretanto, do relativo consenso em torno da jurisdição constitucional exercida pelo Supremo
Tribunal Federal, não se deve inferir que Rui Barbosa e Campos Sales não tivessem concepções
diferentes sobre o papel daquela Corte, decorrentes de seus diferentes projetos da república. Rui
Barbosa destacava principalmente o papel do Supremo como guardião do Estado de Direito, isto é, dos
direitos fundamentais dos cidadãos, contra os excessos do Poder Executivo e do Poder Legislativo. Já
para Campos Sales, a principal função do novo Poder Judiciário era a de manter o equilíbrio federativo,
entendido como defesa das extensas prerrogativas dos estados contra as eventuais investidas da
União. “Nunca houve em política o que mais me apavorasse o espírito do que a centralização do poder”,
confessava Campos Sales31. A instauração de um sistema federativo centrífugo havia sido desde os
tempos da propaganda republicana o supremo objetivo de Campos Sales (maior mesmo do que a
própria mudança de regime, de monárquico para republicano); uma vez consagrado na Constituição,
cumpria agora investir o Supremo Tribunal da missão de preservar aquele modelo, que preservava a
autonomia das oligarquias estaduais, contra qualquer futura investida dos unionistas:
Não é a diversidade de legislação, como erradamente pensam os nobres representantes, que tem criado a necessidade
de colocar uma autoridade forte, mas isenta de interesses, entre as duas soberanias paralelas – a do Estado e a da União
–, para evitar ou resolver os conflitos entre elas, obrigando cada uma a manter-se dentro das linhas que limitam o seu
domínio. Compreenderam os americanos, no momento em que fundavam a sua pátria, que para vigiar a marcha e a
conduta destes dois governos, desenvolvendo a sua ação paralela e exercendo as suas funções, lado a lado, em frente
um do outro, para evitar conflitos e perturbações da ordem social, política e econômica, e recíprocas invasões, quer dos
Estados entre si, quer entre estes e a União, compreenderam, repito, que era necessário colocar de permeio um
tribunal, precisamente para evitar que as contendas suscitadas fossem resolvidas, não à luz do direito federal, mas pelo
espírito parcial ou pela força prepotente de uma das soberanias32.
2. OS DEBATES DO CONGRESSO CONSTITUINTE: REPUBLICANOS
ULTRAFEDERALISTAS CONTRA LIBERAIS UNIONISTAS
Enquanto providenciava a confecção do anteprojeto constitucional, o quadro político tornava-se
muito delicado para o Governo Provisório. O câmbio baixava, a inflação subia e, com ela, o custo de
vida, o que agravava sobremaneira o descontentamento geral. Como o governo precisava de dinheiro
para cooptar os chefes políticos reticentes à República e aumentar sua base de apoio, ele teve de criar
novos cargos, conceder aumentos a todo o funcionalismo, de aumentar as linhas de crédito para que
os bancos emprestassem aos fazendeiros e aos empresários. A origem da República em um golpe
militar criara um ambiente de desconfiança junto aos credores internacionais e, uma vez que não havia
dinheiro suficiente para fazer frente a todos esses novos compromissos, a saída encontrada por Rui foi
a de emitir papel-moeda. O resultado foi a famosa crise do Encilhamento, que agravou a crise
financeira já em vigor. Somada às guerras civis dos anos subsequentes, exigindo o crescente
endividamento, e a baixa dos preços do café, a crise financeira e econômica levaria o País à beira da
insolvência33. Para piorar, o regime republicano era impopular no Rio de Janeiro, onde o grosso do povo
continuava monarquista34 e agiam livremente muitos destacados políticos da monarquia, como
Joaquim Nabuco, Ouro Preto, João Alfredo, Lafaiete, que pela imprensa combatiam o autoritarismo, a
censura, o descalabro financeiro e o empastelamento de jornais pelo governo ou com apoio
governamental.
O medo do Governo Provisório de uma reação do povo ou de seus desafetos quando da abertura do
Congresso levou seus integrantes a deliberarem medidas que podassem os poderes, a composição, o
tempo e até mesmo o lugar onde os constituintes deveriam se reunir, de modo a garantir que eles se
limitassem a chancelar o anteprojeto que lhes seria enviado. O objetivo das medidas era o de cumprir
formalmente o ritual democrático do poder constituinte, esvaziando-o, porém, de qualquer
efetividade, para não correr o risco de surpresas desagradáveis ou de oferecer palanque e tribuna aos
seus adversários. Antecipavam, assim, o espírito que prevaleceria na interpretação dos dispositivos
democráticos e liberais da Constituição durante toda a Primeira República: esvaziar no conteúdo o que
se consagrava na forma. Campos Sales, Ministro da Justiça, sugeriu suspender a convocação da
assembleia, achando “mais simples e seguro” que o governo a outorgasse. Defendia assim o
procedimento de Pedro I, que ele recriminara poucos meses antes, quando fazia a propaganda
republicana35. Tentando manter as aparências, o governo resolveu convocar não uma assembleia, mas
um congresso, com a adoção adicional de medidas que limitassem de antemão o seu “poder
constituinte”: já divididos em futuros senadores e deputados e já se deparando com a dualidade de
justiça como fato quase consumado, o governo pensava que os constituintes tenderiam a se acomodar
com o anteprojeto. O governo também temia que o povo carioca hostilizasse os constituintes
republicanos, ou os pressionasse, ou promovesse reuniões e comícios públicos, tendo por isso cogitado
transferir a sede do congresso do centro do Rio para Petrópolis36. Por fim, sempre preocupado com as
aparências, o governo resolveu que, para conseguir a desmobilização cívica, bastava deslocar a sede do
congresso para Paço de São Cristóvão, que estaria suficientemente longe do centro da cidade para
desestimular a afluência do carioca. Por fim, o Ministro do Interior, Cesário Alvim, sugeriu a adoção de
uma legislação eleitoral que permitisse ao governo eleger os seus candidatos, pela indicação de fiscais
próprios junto às mesas eleitorais. A proposta de uma “constituinte constituída” foi adotada por
maioria, sob protestos do próprio Ministro da Instrução, Benjamin Constant Botelho, que o julgava
“imoralíssimo”37. Também ficou mais ou menos decidido que o Congresso deveria dispor de pouco
tempo para deliberar sobre o projeto: três meses.
De fato, dois meses depois de aberto o Congresso, os estados-membros da federação foram
autorizados a convocar eleições para as respectivas constituintes, o que foi feito, evidentemente, para
apressar os constituintes federais a encerrarem logo os debates e promulgar o anteprojeto. As
precauções tomadas pelo Governo Provisório conseguiram alijar do Congresso todos os inimigos
declarados do regime, o que não impediu que, na assembleia, muitos deputados se revelassem
parlamentaristas, unitaristas ou monarquistas. Do mesmo modo, afastaram o povo dos debates
constituintes. Reunidos os deputados, muitos deles, como o baiano César Zama, protestaram contra
as cautelas antidemocráticas tomadas pelo governo:
Sinto, Sr. Presidente, a minha alma partida quando olho para essas galerias e não vejo o elemento que deveria nos
cercar, o elemento popular, ao qual devemos doutrinar desta tribuna. Quereis fazer a república e afastai o povo dos
lugares em que pode e deve aprender o que é uma democracia38!

O deputado Pedro Américo também faria um comentário sobre as galerias vazias acima do plenário:
“Há quem diga que o Congresso reúne-se longe da cidade para evitar as assuadas populares”39. Diversa
era, porém, a orientação de constituintes como Justiniano de Serpa, para quem o governo provisório
agira muito bem:
No Brasil, como em toda parte, qualquer que seja o sistema preferido, quem governa não é a maioria da Nação, é a
classe superior da sociedade, é uma porção mais adiantada, e, conseguintemente, mais forte da comunhão nacional40.

Por fim, o deputado Retumba exprimia sua opinião nada lisonjeira do povo brasileiro, pouco afeito ao
trabalho e à disciplina por ter sido “composto de diversas raças, oriundas do índio bravio, porém
selvagem e traiçoeiro, do preto africano, imbecil e indolente, de nossos primeiros colonizadores, os
portugueses, compostos em sua maior parte de galés!”41.
No fundo, a orientação do Governo Provisório refletia, com pouca variação, a mesma visão
aristocrática da sociedade brasileira que os fazendeiros do sudeste haviam exposto no Congresso
Agrícola de 1878. Daí a limitadíssima ampliação promovida da base do sistema representativo, que se
contentou em instaurar por decreto a reforma que já constava do programa liberal do Visconde de
Ouro Preto: tornar eleitores “todos os cidadãos brasileiros, no gozo dos seus direitos civis e políticos,
que souberem ler e escrever” – sem garantir, porém, nem o sigilo do voto, nem a instrução primária,
que constavam do programa monárquico42. Uma vez que a taxa de analfabetismo era de 83 % (1890),
os chefes republicanos contemplavam ampliar o sistema para, no máximo, 8,5 % da população, índice
inferior àquele dos Estados Unidos, da França ou da Inglaterra à época, e que, na prática, nem de longe
seria alcançado no meio século seguinte entre nós. Embora diversos deputados tenham tentado o voto
feminino, ainda que com restrições referentes ao seu estado civil e à sua capacidade intelectual, a
maioria entendeu que torná-la eleitora corromperia a “fonte preciosa de moralidade e de sociabilidade
que a família mais diretamente representa”. Os mesmos positivistas que queriam que o analfabeto e o
mendigo votassem se opunham ao voto feminino, que fomentaria “uma democracia anárquica,
revolucionária, metafísica e irrefletida”43. O resultado foi que a novíssima república brasileira era, em
fins do século dezenove, a de menor participação política. Não por acaso, para um deputado dos que
em vão se esforçara por ampliar o sufrágio, a república lhe parecia “o governo de um eleitorado
limitado, aristocrático; é uma mentira convencional”44.
Seja como for, os debates do Congresso Constituinte de 1890 reproduziram a divisão do campo
político republicano que já havia dentro do próprio Governo Provisório. Ainda que não
institucionalizada em partidos, a divisão entre liberais unionistas e republicanos ultrafederalistas – em
breve, conservadores – ficou patente no debate sobre a natureza e os limites do Estado federativo.
Para além da questão teórica atinente às relações que deveriam manter estados e a União Federal, o
grosso do embate travou-se no terreno da competência legislativa e tributária, bem como no da
organização judiciária. Na ocasião, os republicanos históricos gaúchos e paulistas defenderam um
ultrafederalismo que expandia a competência dos estados para além dos limites estabelecidos pelo
anteprojeto de Rui. Nestes pontos, o Ministro da Justiça não hesitou em abandonar o colega da
Fazenda para se reunir aos seus companheiros da lavoura. Campos Sales e seus colegas, como
Bernardino de Campos e o próprio Prudente de Morais, presidente do Congresso, invocavam a
doutrina da soberania dual, que consagrava a igual soberania dos estados e da União em seus
respectivos âmbitos de competência – doutrina que, segundo eles, ainda norteava o federalismo
estadunidense. “Não conheço publicista moderno que não diga, que não afirme, em frente do direito
público americano, ser incontroverso o princípio que reconhece uma dualidade soberana no Estado
federativo”, avançava Sales. “Nele aparecem dois governos, ambos soberanos, funcionando,
paralelamente, um ao lado do outro – o governo do Estado e o governo da União; aquele soberano,
como este, nos limites da sua competência, visto que a recíproca independência exclui qualquer
hipótese de subordinação”. Uma vez que havia dualidade de soberanias, era preciso que houvesse
dualidade de judiciários: “ou isso, ou a negação do regime”45. A bancada gaúcha, liderada por Júlio de
Castilhos, recorria às concepções descentralizadoras de Augusto Comte, para quem todas as nações
estavam destinadas a se desagregar para formarem pequenas pátrias. A instauração da federação
republicana equivalia a inverter as relações entre províncias e governo geral vigentes durante o
unitarismo monárquico, de modo que o antigo predomínio da União deveria ceder ao predomínio dos
estados. Castilhos chegava a defender que a União vivesse das transferências tributárias dos estados.
Opositores das bancadas gaúcha e paulista, os liberais (geralmente pernambucanos e baianos)
frisavam a necessária precedência da União no novo quadro federativo e a necessidade de dotá-la de
uma capacidade de arrecadação tributária que bastasse para o seu sustento. Era natural que assim
fosse: os representantes dos menores estados sabiam que o objetivo da federação era enfraquecer a
União para favorecer os estados maiores, que eram os grandes exportadores; eles reteriam suas
receitas e ainda dominariam o cenário nacional. Uma vez que os menores viviam das transferências de
receita da União, estava claro que eles perderiam na reforma tributária proposta, ficando relegados, no
novo regime, a uma posição bastante secundária. Assim, Epitácio Pessoa já lamentava: “Os estados
grandes disputarão entre si a gestão dos negócios públicos e os estados pequenos... hão de ser sempre
esmagados pela enorme superioridade com que aos outros dotou a Constituição do País”46. A essas
objeções respondia Campos Sales que fortalecer a União seria negar o sentido da obra federativa, que
fora a causa da república; nesse caso, seria São Paulo obrigado a sustentar os outros estados, o que
não tinha cabimento47. No seu argumento, defender a União era um modo disfarçado de ser unitário e
monarquista.
Mesmo assim, os unionistas não deram folga aos ultrafederalistas. Inspirado na figura de Hamilton e
atacando o “apetite desordenado e doentio de federalismo” das bancadas paulista e gaúcha, Rui
entendia que o maior legado da monarquia havia sido justamente a unidade da pátria, ou seja, a União,
ao passo que, ao contrário do que afirmavam os republicanos paulistas, havia nos Estados Unidos um
nítido movimento pelo fortalecimento do poder central48. Calcado em Jellinek e Laband, o jurista e
deputado Amaro Cavalcanti refutava a teoria da soberania dos estados: “Em uma federação não há
estados soberanos, estes têm e exercem a autonomia de poderes, que lhes são reservados nos limites
da Constituição. O soberano único é o povo, a nação”49. Para o deputado Ubaldino do Amaral, a
existência autônoma da União era fundamental para a federação; por isso, lamentava que a maioria
dos deputados se empenhasse exclusivamente em defender seus estados, quando a União estava ali
sem advogado. E concluía tristemente: “Cada um de nós ama a terra em que nasceu, o estado de que é
filho; vai-se formando [...] a concepção de pátria, mas ainda não está formada”50. O magistrado e
deputado José Higino Duarte Pereira, por seu turno, argumentava que os Estados Unidos haviam se
desenvolvido no ambiente do autogoverno, ao passo que o Brasil desde sempre se habituara “a ver no
governo uma providência sublunar incumbida de pensar por eles e de fazê-los felizes”51.
Concordando em princípio com a moldura constitucional norte-americana, os deputados Amaro
Cavalcanti, Anfilófio de Carvalho, Ubaldino do Amaral e José Higino Duarte Pereira, futuros ministros
do Supremo Tribunal Federal, defendiam também a unidade do direito substantivo e processual, bem
como a unidade do Poder Judiciário, que não fora contemplada no anteprojeto. Quanto ao primeiro
tópico, o pernambucano José Higino reclamava que os ultrafederalistas queriam “uma confederação de
republiquetas”, ao passo que, acerca do segundo tema, declarava solene: “O direito uno, produto da
nossa história, é um dos mais fortes vínculos da nossa união nacional, e considero o rompimento desse
vínculo um crime de lesa-patriotismo”52. Como Higino, Anfilófio desmoralizava a teoria da soberania
dual como “condenada na teoria e universalmente repelida na prática. O que estamos constituindo é
um governo de federação, e esta ocupa lugar intermediário e de transição entre a confederação e o
Estado simples ou unitário”. Para ele, a dualidade judiciária abandonaria “de todo a interpretação das
leis a tantos juízes e tribunais diferentes, sem nenhuma ligação hierárquica entre si, sem a essencial
subordinação a um centro comum, que tenha a seu cargo dirimir os conflitos”.
Anfilófio, por sua vez, era um magistrado que se formara e fizera carreira no Império; talvez por isso
partilhasse visivelmente dos pressupostos institucionais dos estadistas saquaremas, como São Vicente
e Uruguai: também para ele, sem uma instituição central moderadora que interligasse todas as
jurisdições, “as paixões locais, as rivalidades políticas, a luta dos interesses, os sentimentos e os
costumes dos estados federados reagiriam contra a Justiça, e a unidade da lei desapareceria diante das
interpretações contraditórias da jurisprudência”. Anfilófio pensava o Supremo Tribunal Federal de
forma análoga à que Uruguai pensava o Conselho de Estado. A existência daquela corte, porém, não
consolava o deputado que, à maneira daqueles estadistas, previa profético o problema que a federação
traria e que pelos 40 anos seguintes seria apontado por Rui Barbosa, Alberto Torres, Oliveira Viana e
tantos outros:
Estes juízes (estaduais) vão ser, antes de tudo, agentes eleitorais, empreiteiros de eleições, instrumentos dos governos
e dos partidos locais, no meio da luta intensa provocada por tantos cargos de eleição popular em cada Estado. Bem
sabemos o que tem sido a política entre nós até agora, meus senhores, e bem podemos antever o que terá ela de ser em
cada estado, alargada como vai ser a sua esfera de ação, de ação local, sobretudo, com os nossos costumes, com os
nossos defeitos e vícios de educação política. Para a magistratura não haverá uma carreira; suas esperanças, suas
aspirações serão limitadas pelos horizontes de cada estado.

Para Anfilófio, a reforma haveria de ser


origem, causa permanente de uma situação de verdadeira anarquia na administração da justiça... como consequência
de um tal estado de coisas, virá fatalmente a invasão da justiça federal nos domínios da justiça local. Esta reforma, este
híbrido sistema de organização judiciária, além dos males que há de trazer ao País, anarquizando a justiça, será um
fermento de desorganização política, um agente de dissolução do governo federativo, que temos em vista constituir. E
como tal tribunal (o Supremo) há de ser constituído pelo arbítrio do presidente da República, para ele só serão
nomeados indivíduos tirados dos estados maiores e mais populosos. Singular federação!53"

Esses argumentos não demoveram os republicanos ultrafederalistas, futuros conservadores. Se a


centralização era a tutela do político sobre o econômico, da União sobre os estados, do governo sobre
a sociedade, o federalismo deveria importar na inversão de todas essas hierarquias, submetendo o
político ao econômico, a União aos estados e o governo à sociedade – ou seja, fundar um Estado
mínimo. Assim explicava o deputado gaúcho Ramiro Barcelos: “Nós fundamos a república para fazer
tabula rasa de todos os excessos da monarquia ... O Estado não deve ser fazendeiro, não deve ser dono
de casa. O Estado deve vender as propriedades nacionais... O Estado não é negociante, não é plantador
de café”54. Conceitos como federalismo, liberdade pública e liberdade econômica eram tomados como
sinônimos. Ao argumento de que a reforma tributária, que atribuía aos estados os impostos de
exportação, favorecia os estados do sul em detrimento dos do norte, o paulista Bernardino de Campos
respondia que o êxito de São Paulo se devia exclusivamente ao árduo trabalho de seu povo; caso
desejassem gozar dos mesmos benefícios, os demais estados deveriam seguir o exemplo paulista e
trabalhar duro55. Ramiro Barcelos ainda ameaçava com o separatismo, caso a maioria do Congresso
não ampliasse a competência dos estados: “Se o Congresso não tiver o máximo de cuidado em colocar
na Constituição as medidas descentralizadoras de que precisamos, a agitação federalista, que já vem
dos tempos da monarquia, há de continuar no seio da república e há de levar talvez o Brasil ao
esfacelamento”56. Ao fim e ao cabo, os ultrafederalistas tiveram vitórias significativas ao estabelecer a
eleição direta para Presidente da República e senadores; a redução do mandato presidencial para
quatro anos e a ampliação da competência tributária e processual dos estados. Conseguiram, em
especial, a transferência das terras devolutas para o domínio estadual, inviabilizando um projeto
federal de reforma agrária que as destinasse ao assentamento dos imigrantes e ex-escravos57.
Inconformado com as alterações, Rui Barbosa passaria longos anos vergastando contra o “prurido
lamentável, desastroso” que desfigurara na Constituinte seu anteprojeto, em prejuízo da soberania
nacional58. Rui exagerava – na realidade, conforme os desejos do Governo Provisório, o anteprojeto
havia sido pouquíssimo alterado. Curiosamente, o estado de sítio, a intervenção federal e o controle de
constitucionalidade, que constituíram os temas nucleares, mais discutidos e polêmicos da República,
passaram pela Constituinte sem terem sido sequer objeto de discussão. Esse fato desencadearia
enormes dificuldades nos anos vindouros pela absoluta falta de consenso em torno do funcionamento
daquelas instituições, e que atravessariam praticamente todo o período da Primeira República.
Correlato a esses fatos, atravessando os debates constituintes, estava o horror à cidade do Rio de
Janeiro, metrópole que era o símbolo mesmo da centralização monárquica, das “massas urbanas”,
onde os republicanos sempre tiveram muita dificuldade em penetrar. Daí que defendessem agora a
remoção da capital para um ponto mais remoto do País. Se, durante o Império, os defensores da
mudança, como José Bonifácio, argumentavam com a necessidade de favorecer a maior integração do
território nacional, para expandir o Estado pelo território e uniformizar a administração, os futuros
conservadores da República já a defendiam, por suas vezes, tendo em vista o excesso de gente e o
caráter debochado e amoral da população carioca. Para Tomás Delfino, era preciso transferir a capital
para evitar “o perigo da desordem urbana”, ao passo que Virgílio Damásio se referia ao carioca como “a
lia social”, também referida às vezes como as “fezes sociais”. A ignorância, a falta de espírito cívico, a
ociosidade e a marginalidade das massas presentes no Rio constituíam “uma arma, uma alavanca
poderosíssima nas mãos de agitadores”59. Também para Pedro Américo era “absolutamente
necessário suprimir-se o quanto antes a maléfica influência desta terrível cidade, tão saturada de
elementos nocivos à vida moral da nação”60. Foram deputados como estes que conseguiriam incluir na
Constituição a previsão de transferência da capital federal para o planalto central, fato que, como se
sabe, ocorreria muitas décadas depois e, em parte, devido aos mesmos argumentos.
3. O DENOMINADOR COMUM ENTRE LIBERAIS E CONSERVADORES: OS LIMITES
OLIGÁRQUICOS DA REPÚBLICA
Como se percebe, o âmbito da república defendida pelo republicanismo hegemônico no início da
década de 1890 era bastante acanhado: um espaço público restrito aos proprietários de terras, aos
profissionais liberais e aos altos funcionários do Estado. Promulgada a nova Constituição, o cenário não
sofreu variação. Era como explicava um senador governista, portanto conservador, em aparte a um
adversário político, que reclamava um regime mais plural: “A República não é a que o nobre senador
quer que seja – uma democracia pura. Nós temos uma democracia autoritária, copiada da americana.
O nobre senador é radical e eu sou conservador”61. Maior clareza, impossível. É certo que, logo na
primeira década do regime, o campo político já se dividia nitidamente entre liberais e conservadores.
Aqueles se identificavam com o oposicionismo, tanto quanto os segundos se identificavam com o
situacionismo. Nada mais natural que a dicotomia se refletisse ideologicamente em duas propostas
diferentes de república, decorrentes de duas formas distintas de interpretar a prática institucional a ser
exercida a partir do texto constitucional – que, por sua vez, remontava a diferentes modos de se
interpretar a prática constitucional norte-americana.
Ao descrevê-la, o chefe dos liberais, Rui Barbosa, se reportava àquelas interpretações
estadunidenses posteriores à guerra civil, marcadas pelo crescente fortalecimento dos poderes da
União em face dos estados. De fato, no Governo Provisório (1889-1891), Rui buscara
conscientemente desempenhar, na república brasileira nascente, o papel de defensor político e
econômico da União que Alexander Hamilton exercera nos primórdios da república norte-americana.
Por isso, ele e os demais liberais apoiaram projetos que visavam a regulamentar o instituto da
intervenção federal, a fim de que a União pudesse arbitrar as querelas oligárquicas intraestaduais,
assim como uma interpretação restritiva do estado de sítio, visando a torná-lo menos frequente e
menos danoso às garantias constitucionais. Com efeito, principal redator da Constituição, Rui sem
dúvida tivera em mente um regime mais aberto e plural, isto é, moralizado e democrático, do que
aquele que veio efetivamente a triunfar, monopolístico e fraudulento, por obra da ala conservadora.
Para ele, o direito era o fundamento da ordem legítima, que limitava a esfera política em benefício da
liberdade individual. Essa concepção das relações entre o direito e a política se refletia no respeito
quase religioso às formalidades jurídicas, na supressão do poder pessoal e discricionário, na defesa da
divisão dos poderes políticos e na valorização do Poder Judiciário. A defesa da lei como imperativo ético
de liberdade, necessária para que o bem – o direito – prevaleça sobre o mal – a violência da política –,
levou Rui a também elaborar, por contraste, um tipo ideal do mau governo, em que a imoralidade,
associada à injustiça, à opressão e ao desprezo do direito, resultava num governo arbitrário,
patrimonial e militarista. Vinte anos depois, quando se organizaram em partido, os liberais deixaram
em programa e em manifesto registrado o seu empenho: para que “a nossa Constituição e as nossas
leis recebam a interpretação que mais restrinja os abusos do poder, mais favoreça a liberdade civil e
política, no indivíduo e na associação, mais estimule a vida local nos municípios, mais assegure a
autonomia constitucional nos estados”62.
Não poderiam agradar a Rui, portanto, os caracteres mais visíveis da corrente conservadora, cujo
representante por excelência era Campos Sales. No Senado, Sales refutava a interpretação conferida
por Rui às práticas institucionais norte-americanas, defendendo em seu lugar as doutrinas já
anacrônicas que haviam prevalecido antes da guerra civil. Ele falava como Jefferson ao defender “a
soberania dos estados” dominados pela oligarquia agrária, protestando contra a invasão indevida da
União em esferas de atribuição que não lhe competiam. Se a centralização monárquica fora a tutela do
político sobre o econômico, da União sobre os estados, do governo sobre a sociedade, o
ultrafederalismo defendido por eles significava o oposto de tudo isso: submeter o político ao
econômico, a União aos estados e o governo à sociedade63. Eram doutrinas que conferiam
independência quase absoluta aos estados-membros, e que, mais próprias a uma confederação que a
uma federação, haviam mesmo servido para que os estados escravocratas e agrários do sul tentassem
o separatismo – a principal das quais era a doutrina da soberania dos estados. Uma vez consolidados
no poder, os radicais tornados conservadores se contentaram em reconhecer a natureza oligárquica do
regime, alegando, ou que todos os governos, mesmo os democráticos, eram oligárquicos, como
queriam Ostrogorski e Michels, ou que o povo brasileiro ainda não tinha condições de dispensar o
governo de suas elites, incumbidas de garantir a ordem, condição do progresso contra seus
“anárquicos” opositores. Essa defesa do establishment oligárquico os levava a advogar uma prática
institucional contrária àquela proposta por seus adversários, e que era a que efetivamente prevalecia.
Quando se organizaram partidariamente, os conservadores compreensivelmente deixaram consignado
que seu principal objetivo era o de manter o status quo, por meio da “defesa da Constituição de 24 de
fevereiro de 1891, reconhecida como prematura e inoportuna qualquer revisão dos seus textos, cuja
fiel execução basta para assegurar à República a realização de todas as suas aspirações de ordem, de
progresso, de liberdade e de justiça”64. Eles se opunham também às propostas liberais de
regulamentação da intervenção federal e de cerceamento do estado de sítio, que garantiam,
respectivamente, as situações estaduais contra a alternância no poder e, ao governo federal, que lhes
servia de guardião, os adequados instrumentos de repressão aos excluídos que se tornassem
insurretos65.
A despeito de suas divergências, todavia, liberais e conservadores estavam de acordo num ponto:
enquanto valor, a liberdade estava acima da igualdade; por conseguinte, o liberalismo, entendido
agora no sentido amplo, era mais importante do que a democracia. Ou seja, a despeito do dissenso
acerca da negatividade ou positividade da ordem oligárquica – isto é, das fraudes e depurações
eleitorais que, segundo os liberais, falseavam o sistema representativo republicano –, um consenso
atravessava o espectro político: aquele atinente à necessidade de se produzirem governos de
excelência, qualidade elitista por excelência, que só poderia ser assegurada pela circunscrição da
participação política relevante àqueles dotados de ilustração. A democracia que os republicanos
brasileiros tinham em mente não era aquela dos radicais franceses, dos progressistas estadunidenses
ou dos novos liberais britânicos; ainda era aquela de Stuart Mill e Lastarria – cuja Política Positiva,
magnum opus da oligarquização chilena, servira de “catecismo” aos constituintes republicanos
brasileiros66. Era uma democracia teorizada pelos liberais da geração anterior, em tudo igual à
oligarquia, salvo o censo pecuniário. Por isso, nenhum dos principais republicanos brasileiros, depois de
1891, propugnou pela ampliação do eleitorado ou demonstrou simpatia pelos discursos progressistas
dos países centrais. O próprio Rui jamais advogou a ampliação do sufrágio antes de 1919: todo o seu
combate político foi, até então, movido pelo desejo de ver efetivamente praticado o sistema
representativo consagrado pela Constituição de 1891, sistema este corrompido pela fraude e pela
compressão dos governos conservadores. O que lhe parecia necessário, portanto, não era que mais
gente votasse, mas que a vontade de quem formalmente já votava ganhasse o mundo da vida para
além do texto da lei – era isso que, para Rui, significava combater as oligarquias. Por isso mesmo,
sempre que o regime se viu ameaçado de fora por forças que ameaçaram destruí-lo, falassem ou não
em nome da democracia, Rui se disse conservador e votou pelo sítio proposto pelo governo:
Tenho no espírito o culto instintivo e fervoroso da ordem. Na subversão das leis normais, abomino os elementos que
operam e os fenômenos que a acompanham: a insegurança, a vulgaridade, a grosseria, a fermentação das paixões
cínicas e violentas. A minha natureza, é e sempre foi essencialmente conservadora. Advogando a liberdade, sempre a
encarei como o primeiro elemento da organização, evolução e conservação nas sociedades humanas. Nunca admiti as
revoluções, senão como atos sociais de legítima defesa; isto é, reações conservadoras da lei contra as desordens do
despotismo, não menos fatais que as outras, porque, nas fermentações servis da inércia resignada à tirania, e
apodrecida no cativeiro, a anarquia não é violenta, mas cancera no organismo social as fontes de vida, acabando por
miná-la de incomparáveis desordens67.

A concepção aristocrática de governo compartilhada pelas elites políticas brasileiras da Primeira


República refletia-se nos autores políticos dos países centrais cuja autoridade eles invocavam em seus
escritos públicos e privados: Spencer, Renan, Taine, Le Bon, Faguet, Leroy-Beaulieu, Guyot. Ministro
da Fazenda, Rui concitava o operariado a não dar ouvidos àqueles “que pretendam desencadear-vos
sobre a sociedade como um oceano agitado e tempestuoso; confiai antes naqueles que souberem
dirigir a vossa atividade pela educação da vossa inteligência”68. Cinco anos depois, ao apresentar o
judiciário estadunidense como modelo de resistência a ilegalidades e abusos do Executivo, ele citava
como exemplo a nulificação, pela Suprema Corte, das leis editadas por pressão dos progressistas –
como a do imposto de renda, qualificada pelo autor de Cartas de Inglaterra como um “artifício
socialista”69. Seus maiores elogios eram dirigidos exatamente aos juízes que os progressistas
reputavam os mais reacionários do tribunal: Stephen Field e David Brewer 70. O spenceriano Campos
Sales, por seu turno, em sua primeira temporada europeia como senador (1892/1893), frequentara os
cursos de economia política ministrados por Leroy-Beaulieu e Yves Guyot. Relatando o aprendizado
em Cartas da Europa, Sales amaldiçoava o “socialismo de Estado”, por ele equiparado à “revolução
comunista” que, “apoiada sobre o coletivismo, que é a sua base fundamental, ela aspira à
desorganização social, pela destruição total de todos os princípios de moral, de direito, de ordem e de
justiça”71. Eleito Presidente da República, decidido a “dar à política um caráter nacional, conforme a
índole essencialmente conservadora das classes preponderantes do país”72, Campos Sales escolheu
para a pasta da Fazenda um notório spenceriano, Joaquim Murtinho; ao chegar a Paris para negociar a
dívida, ele obteve de Guyot entusiástico apoio ao seu plano de saneamento financeiro. Palmas
mereceram, em particular, as intenções de privatizar as estradas de ferro construídas pelo governo
imperial: “A personalidade do Sr. Yves Guyot é das mais simpáticas em França. Inimigo acérrimo do
socialismo [...], o notável publicista, discípulo de Spencer, entende muito bem ser impossível combater
o socialismo sem propagar os princípios do individualismo”73.
A Constituição ficou assim prisioneira de uma interpretação conservadora que propositadamente
deixava fluidos os limites de seus comandos fundamentais para que fossem aplicados conforme a
conveniência do situacionismo oligárquico. O consectário lógico dessa impotência liberal em efetivar a
ordem constitucional foi o crescente número daqueles que sucessivamente, frustrados pelas falsas
esperanças alimentadas pelo regime, passaram a reivindicar a reforma da Constituição, na expectativa
de converter a República numa realidade. Novamente frustrados, acabariam por desistir do próprio
regime, crendo que somente sua derrocada pelas armas e sua substituição por outro regime poderia
resgatar o País. Em 1918, a sensação de fracasso do regime já era difusa, podendo o seu advento ser
descrito por Lima Barreto de modo particularmente arguto:
Uma rematada tolice que foi a tal república. No fundo, o que se deu em 15 de novembro foi a queda do partido liberal e
a subida do conservador, sobretudo da parte mais retrógrada dele, os escravocratas de quatro costados. Isso de
Benjamin Constant, Lopes Trovão, Silva Jardim foi uma isca que os matreiros ‘bois de coice’, ‘rapa cocos’ e outros de
igual jaez se serviram, para ‘forrar’ a opinião da força e se apossarem do poder. Toda a administração republicana tem
sido um constante objetivo de enriquecer a antiga nobreza agrícola e conservadora, por meio de tarifas, auxílios à
lavoura, imigração paga, etc74.

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FONTES PRIMÁRIAS
ANAIS da Câmara dos Deputados.
ANAIS do Congresso Constituinte.
ANAIS do Senado Federal.
ARQUIVOS da Fundação Joaquim Nabuco (FUNDAJ).

1
Este capítulo foi publicado originalmente, sob formato de um artigo, na Revista História Constitucional, Oviedo, v. 12, 2011.
2
NABUCO, Joaquim. “Artigos de Joaquim Nabuco (última fase) no jornal O País (seção ‘Campo neutro’)”. In: GOUVÊA, F. C.
Joaquim Nabuco entre a Monarquia e a República. Recife: Massangana, 1989, p. 384.
3
ANAIS da Câmara dos Deputados, sessão de 7 de junho de 1889.
4
NABUCO, Joaquim. A abolição e a república. Recife: UFPE, 1999, p. 72.
5
ANAIS do Senado Federal, sessão de 17 de maio de 1892.
6
Ibidem, sessão de 1º de junho de 1892.
7
Para Sales, Rui era “a negação formal de todas as qualidades de homem de governo”. Empenhado sempre em obras “da desordem e
da destruição”, Rui era um “revolucionário de sangue. Onde aparece uma conspiração, ou uma revolta, lá está ele. Assim tem sido
sempre” (DEBES, Célio. Campos Sales: perfil de um estadista. Rio de Janeiro: Livraria Francisco Alves, 1978. v. 2, p. 591-593). Rui
também não gostava de Sales. Quando as atas do governo provisório vieram a lume, em 1901, sua primeira reação foi a de contestar
a veracidade dos documentos, e a segunda, a de acusar o secretário de Deodoro, Fonseca Hermes, de estar mancomunado com
Sales e Cesário Alvim para exaltar os atos e diminuir as dos outros ministros – principalmente as dele, Rui (MAGALHÃES JR.,
Raimundo. Rui, o homem e o mito. 2. ed., corrigida e aumentada. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira 1965. p. 150-152). A má
vontade recíproca comprova a durabilidade da animadversão, pessoal e ideológica.
8
ABRANCHES, Dunshee de. Atas e atos do Governo Provisório. Introdução de Octaciano Nogueira. Edição fac-similar. Brasília:
Senado Federal, 1998. p. 124, 236, 249.
9
SENNA, Ernesto. Deodoro: subsídios para a História. Notas de um repórter. Brasília: UnB, 1981, pp. 3-8. MONTEIRO, Tobias. Como
se fez a Constituição da República. In: BARBOSA, Rui. A Constituição de 1891. Rio de Janeiro: Ministério da Educação e Saúde,
1946. p. 371-374. (Obras Completas de Rui Barbosa, v. 17, 1890, t. 1.)
10
CARNEIRO, Levi. Dois arautos da democracia: Rui Barbosa e Joaquim Nabuco. Rio de Janeiro: Casa de Rui Barbosa, 1954.
11
CALMON, Pedro. Prefácio. In: BARBOSA, Rui. A Constituição de 1891. Rio de Janeiro: Ministério da Educação e Saúde, 1946.
12
SALES, Manuel Ferraz de Campos. Da propaganda à presidência. São Paulo: [s.n.], 1908, p. 215.
13
BARBOSA, Rui. Escritos e discursos seletos. Seleção, organização e notas de Virgínia Cortes de Lacerda. Rio de Janeiro: Nova
Aguilar: Fundação Casa de Rui Barbosa, 1960, p. 352.
14
ARQUIVOS da Fundação Joaquim Nabuco.
15
In: DELGADO, Luiz. Rui Barbosa: tentativa de compreensão e síntese. Rio de Janeiro: José Olympio, 1945, p. 141.
16
OTONI, Teófilo. Discursos Parlamentares. Brasília: Câmara dos Deputados, 1979, p. 140.
17
Idem, ibidem, p. 158.
18
TAVARES BASTOS, Aureliano. A Província. Brasília: Senado Federal, 1997, p. 151.
19
MENDONÇA, Carlos Sussekind. Salvador de Mendonça: democrata do Império e da Republica. Rio de Janeiro, Instituto Nacional
do Livro, 1960.
20
NABUCO DE ARAUJO, José Tomás. O Centro Liberal. Brasília: Senado Federal, 1979, p. 104.
21
TAVARES BASTOS, Aureliano. Considerações gerais sobre a constituição da magistratura. In: Os Males do Presente e as
Esperanças do Futuro. 2. ed. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1976, p. 241.
22
ANAIS da Câmara dos Deputados, sessão de 3 de junho de 1882.
23
Ibidem, sessão de 24 de maio de 1883.
24
NABUCO, Joaquim. Campanhas de Imprensa (1884-1887). São Paulo: Instituto Progresso Editorial, 1949, p. 164.
25
ANAIS do Congresso Constituinte, sessão de 6 de janeiro de 1891.
26
WITTER, João Sebastião (org.). Ideias políticas de Francisco Glicério. Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa, 1981, p. 76.
27
Idem. Discursos. Volume II: na República. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1902, p. 14.
28
DELGADO, Luiz. Rui Barbosa: tentativa de compreensão e síntese. Rio de Janeiro: José Olympio, 1945, p. 141.
29
SALES, Exposição de motivos, op. cit., p. 14.
30
BARBOSA, Os Atos Inconstitucionais do Congresso e do Executivo, op. cit., p. 42.
31
SALES, Manuel Ferraz de Campos. Discursos. Volume II: na República. Rio de Janeiro, Imprensa Nacional, 1902, p. 58.
32
Idem, ibidem, p. 31.
33
SCHULZ, John. A crise financeira da abolição (1875-1901). Tradução de Afonso Nunes Lopes. São Paulo: Edusp, 1996.
34
GOMES, Flávio. Negros e política. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 2005. CARVALHO, José Murilo de. Os Bestializados: o Rio de Janeiro
e a República que não foi. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.
35
DEBES, Célio. Campos Salles, perfil de um estadista. São Paulo: Instituto Histórico de São Paulo, 1977, p. 291. Tomo 1.
36
ABRANCHES, Dunshee de. Atas e atos do Governo Provisório. Introdução de Octaciano Nogueira. Edição fac-similar. Brasília:
Senado Federal, 1998, p. 124.
37
Idem, ibidem, p. 236.
38
ANAIS do Congresso Constituinte, sessão de 30 de dezembro de 1890.
39
Ibidem, sessão de 27 de dezembro de 1891.
40
Ibidem, sessão de 31 de dezembro de 1890.
41
Ibidem, sessão de 16 de janeiro de 1890.
42
In: BONAVIDES, Paulo. História Constitucional do Brasil. São Paulo: Paz e Terra, 1991, p. 647.
43
In: ROURE, Agenor. A Constituinte Republicana. Volume II. Brasília: Senado Federal, 1979, pp. 281-282.
44
ANAIS do Congresso Constituinte, sessão de 27 de janeiro de 1891.
45
Ibidem, sessão de 7 de janeiro de 1890.
46
Ibidem, sessão de 29 de janeiro de 1891.
47
Ibidem, sessão de 17 de dezembro de 1890.
48
Ibidem, sessão de 16 de dezembro de 1890.
49
Ibidem, sessão de 13 de dezembro de 1891.
50
Ibidem, sessão de 19 de dezembro de 1890.
51
Ibidem, sessão de 18 de dezembro de 1890.
52
Ibidem, sessão de 17 de fevereiro de 1891.
53
Ibidem, sessão de 2 de janeiro de 1890.
54
Ibidem, sessão de 16 de dezembro de 1890.
55
In: MOTA FILHO, Cândido. Uma grande vida: Bernardino de Campos. São Paulo: Edição de “Política”, 1931, p. 78.
56
ANAIS do Congresso Constituinte, sessão de 16 de dezembro de 1890.
57
Na Fala do Trono de 1889, referiu-se o Imperador, diante do Parlamento, à necessidade de “conceder ao governo o direito de
desapropriar, por utilidade pública, os terrenos marginais das estradas de ferro, que não são aproveitados pelos proprietários e
podem servir para núcleos coloniais” (JAVARI, barão de. Império Brasileiro: falas do trono, desde o ano de 1823 até o ano de 1889.
Prefácio de Pedro Calmon. Rio de Janeiro: Itatiaia, 1993, p. 511).
58
BARBOSA, Rui. Correspondência. Coligida, revista e anotada por Homero Pires. São Paulo: Saraiva, 1932. p. 48-51.
59
ANAIS do Congresso Constituinte, sessão de 15 de dezembro de 1890.
60
Ibidem, sessão de 27 de janeiro de 1891.
61
ANAIS do Senado Federal, sessão de 16 de agosto de 1904.
62
In: CHACON, Vamireh. História dos Partidos Brasileiros: discurso e práxis dos seus programas. 2. ed., revista e aumentada. Brasília:
UnB, 1985, p. 280.
63
Assim declarava no Congresso Constituinte o deputado gaúcho Ramiro Barcelos: “Dentro do regime republicano, a questão que
há de prevalecer será a questão econômica. Porque os Estados precisam de desenvolvimento, de autonomia. Porque a república se
formou para conquistar a federação”. Três dias depois, ele complementava: “Nós fundamos a república para fazer tabula rasa de
todos os excessos da monarquia... O Estado não deve ser fazendeiro, não deve ser dono de casa. O Estado deve vender as
propriedades nacionais... O Estado não é negociante, não é plantador de café” (ANAIS do Congresso Constituinte, sessão de 16 de
dezembro de 1890).
64
In: CHACON, Vamireh. História dos Partidos Brasileiros: discurso e práxis dos seus programas. 2. ed., revista e aumentada. Brasília:
UnB, 1985, p. 275.
65
ANAIS do Senado Federal, sessão de 9 de julho de 1894.
66
MAXIMILIANO, Carlos. Comentários à Constituição Brasileira de 1891. Rio de Janeiro: Jacinto Ribeiro dos Santos, 1918, p. 394.
67
ANAIS do Senado Federal, sessão de 16 de novembro de 1904.
68
BARBOSA, Rui. A Constituição de 1891. Rio de Janeiro, Ministério da Educação e Saúde, 1946, pp. 365-368.
69
BARBOSA, Rui. Os Atos Inconstitucionais do Congresso e do Executivo. Trabalhos Jurídicos. Rio de Janeiro: Casa de Rui Barbosa,
1962, p. 133-144.
70
RODRIGUES, Leda Boechat. A Corte Suprema e o direito constitucional norte-americano. 2. ed. Rio de Janeiro: Civilização
Brasileira, 1992, p. 63-64. O movimento progressista chegaria à Suprema Corte em 1902 com o juiz Oliver Wendell Holmes.
Defendendo uma jurisprudência sociológica, baseada numa hermenêutica constitucional histórico-evolutiva, Holmes debochava da
obra daquele que seus colegas conservadores viam como autoridade máxima para perseverarem no manejo de uma hermenêutica
individualista e privatista. Ao dissentir da decisão da maioria que julgava inconstitucional uma lei trabalhista do estado de Nova
York, Holmes lembrava que a constituição estadunidense não consagrava a “Estática Social do Sr. Herbert Spencer”. Noutro lugar,
lembrava que “nenhuma proposição concreta é evidente por si mesma, não importa o quão preparados estejamos para aceitá-la -
nem mesmo a do Sr. Herbert Spencer” (HOLMES, Oliver Wendell. O Caminho do Direito. In: MORRIS, Clarence (org.). Os Grandes
Filósofos do Direito. São Paulo: Martins Fontes, 2002, p. 431).
71
In: SALES, JR. A. C. de. O Idealismo Republicano de Campos Sales. Rio de Janeiro: Livraria Editora Zélio Valverde, 1944, p. 102 e
105.
72
SALES, Manuel Ferraz de Campos. Da Propaganda à Presidência. Brasília: UnB, 1983, p. 117.
73
MONTEIRO, Tobias. O Presidente Campos Sales na Europa. Belo Horizonte: Itatiaia, 1993, p. 72-73. Do mesmo modo, o prestígio
de Leroy-Beaulieu era tamanho que Lima Barreto o incluía entre as referências obrigatórias dos “financeiros” da República
(BARRETO, Afonso Henriques de Lima. Os Bruzundangas: sátira. São Paulo, Brasiliense, 1956, p. 40). Da onipresença de Leroy-
Beaulieu se lembraria também um velho conservador, 50 anos depois, que em suas memórias aludiria agora desdenhosamente à sua
obra como “compêndio da República Velha” (AMADO, Gilberto. Presença na Política. Rio de Janeiro: José Olímpio, 1958, p. 47).
74
LIMA BARRETO, Afonso Henriques de. Coisas do Reino do Jambon. São Paulo: Brasiliense, 1953, p. 110.
ARRIVISTAS E DECADENTES1
O DEBATE POLÍTICO-INTELECTUAL BRASILEIRO NA PRIMEIRA
DÉCADA REPUBLICANA
ANGELA ALONSO

“[...] andava meu pobre corpo aos solavancos [...] nos bancos do expresso, tendo por fronteiros dois homens terríveis,
de ideias contrárias – um rotundo, conservador, católico, saudoso da monarquia, bramando contra a indiferença do
povo, que deixara partir o velho soberano, sem um protesto, sem um tiro ao menos; o outro, de pêra, esgalgado e
nervoso, livre pensador, formidável em teorias republicanas [...], discorria sobre as revoluções, reclamando um batismo
de sangue, como o de 89, em França, sem o que a república nunca chegaria à consolidação perfeita.”

Coelho Neto (1893, p. 10)

Os dois personagens de A Capital Federal, do republicano Coelho Neto, não podiam ser mais
expressivos do debate público brasileiro no comecinho da República. O golpe republicano de 1889
suscitou manifestos, ensaios, romances, historiografia, memórias e autobiografias que permitem
mapear duas movimentações intelectuais. Os republicanos escreveram legitimando o novo arcabouço
político e a sociedade também nova que com ele se estabelecia. Os monarquistas arremeteram contra
essa “decadência”, louvando o antigo regime e a sociedade aristocrática consigo desmoronada. A luta
entre republicanos e monarquistas se travou, pois, tanto em torno da dominação política quanto da
representação simbólica do Império deposto e da República nascente.
Se a legitimação do novo regime já atraiu intérpretes (CARVALHO, 1990), o protesto simultâneo
dos decadentes segue pouco estudado2. É esse ângulo que privilegio aqui, ao tratar do debate político-
intelectual da primeira década republicana, registrando antes, rapidamente, o tempo em que
republicanos e monarquistas albergavam-se sob mesmo teto reformista.
1. REFORMISTAS E TRADICIONALISTAS
Nos anos 1870 e 1880, o debate público brasileiro opunha reformistas e tradicionalistas. Não
havendo campos político e intelectual autônomos no Brasil de então, o conflito corria sobreposto em
livros e palanques.
Os tradicionalistas eram membros da elite imperial no comando político e social do regime, baluartes
das instituições monárquicas e da tradição que a legitimava – o tripé liberalismo estamental,
catolicismo hierárquico, indianismo romântico. Os reformistas eram letrados marginalizados pelas
instituições políticas do Segundo Reinado, que buscaram no repertório político-intelectual europeu
armas para criticar o estado de coisas que bloqueava seus projetos e demandas (ALONSO, 2002).
Inspirados na “política científica” francesa e em teses sobre a desagregação do Império Português,
construíram interpretações do Brasil focalizando as tópicas do progresso e da decadência. A primeira
situava as sociedades numa escala de desenvolvimento econômico; complexidade social; secularização;
expansão da participação política, em relação à qual o Brasil estaria atrasado. A segunda rezava que,
ex-colônia, o país herdara fundamentos socioeconômicos e instituições políticas contaminados pelos
germes da decadência portuguesa. Apenas a superação da herança colonial – identificada ora com a
escravidão (NABUCO, 1883), ora com a monarquia (SALLES, 1882) e quase sempre com ambas
(LEMOS, 1884) – e da forma de pensar a ela associada, a tradição imperial, facultaria o engate do país
na Marcha da Civilização.
O presente era, então, hora de decadência do legado colonial. Mas para atingir o futuro de
promissão, cumpria acelerar o processo por meio de reformas modernizadoras – indo da laicização do
estado à abolição da escravidão.
Os reformistas, contudo, dissentiam quanto ao modo de efetuar as reformas, se no interior da
Monarquia, se instituindo a República. A divergência virou cisão quando da Abolição, em 1888. Desde
aí, outra distinção se cristalizou. Enquanto discutiam reformas econômicas e sociais, a
heterogeneidade social dentre os reformistas não fora problemática. Colaboravam pacificamente
gente nascida na aristocracia burocrática, como Joaquim Nabuco, rebentos dos grupos econômicos
crescendo com o café, como Alberto e Campos Sales, ascendentes pela educação, como Silva Jardim, e
oriundos de famílias estacionárias, como Júlio de Castilhos e Teixeira Mendes (Cf. ALONSO, 2002).
Mas quando a balança de poder político e o próprio regime monárquico entraram na linha de fogo, as
distinções sociais ganharam saliência. Os oriundos da “nova sociedade” precipitaram a mudança. Parte
dos aristocratas resistiu.
2. MONARQUISTAS E REPUBLICANOS
Com a instauração da República, em 1889, o debate político-intelectual brasileiro ganhou nova
estruturação, sobrepondo duas clivagens. A primeira refere-se ao contexto político e aos conflitos,
palpáveis e nevrálgicos, acerca do formato e dos mandatários do novo regime. O movimento
reformista bifurcou-se em diversas facções republicanas e minguados monarquistas militantes. Some-
se aí a leva de tradicionalistas aderentes, que encarou a dominação republicana como a nova ordem
natural das coisas. A outra clivagem, menos lembrada, e de visibilidade mais difícil, diz respeito ao
contexto social de luta entre os estratos sociais dominantes na monarquia e os estratos ascendentes
com o novo regime.
Embora a celeuma intrarrepublicana seja relevante, tanto simbólica quanto politicamente – já o
demonstraram respectivamente Carvalho (1990) e Lessa (1987), me parece que a inteligibilidade da
produção intelectual da década de 1890 depende de atentar para um amálgama dos antagonismos
citados. Como argumentam Tilly, Tarrow e McAdam (2001, p. 132ss), em situações de mudança e
conflito, as diversas identidades sociais rotineiras – e as solidariedades cotidianas e ligações históricas e
afetivas a elas vinculadas – ficam suspensas em favor de uma clivagem principal, que ilumina
características contrastivas dos grupos em disputa. As identidades políticas são essas identificações
sociais construídas em meio a uma interação conflitiva e só inteligíveis se reportadas à conjuntura. São,
pois, contextuais, nascendo aos pares, numa relação binária de oposição. Não são substantivas – a
exprimir alguma essência dos agentes –, mas relacionais, categorias simplificadoras, que ajuntam por
exclusão.
No nosso caso, as afinidades entre os antigos reformistas e suas diferenças para com os
tradicionalistas se dissolveram diante do contexto político-social de estabelecimento da República,
facultando a emergência, em interação e litígio, de duas identidades políticas relacionais:
monarquistas-aristocratas e republicanos-ascendentes. A produção intelectual da primeira metade
dos anos 1890 o denota num enfrentamento a um só tempo político e simbólico. Nela, perdurou o par
decadência-progresso dos tempos de reformismo. Mas enquanto os republicanos conservaram a
equação “Império = decadência” e se lançaram à edificação de uma tradição republicana que
suplantasse a imperial, os monarquistas se puseram a resgatar a tradição imperial, invertendo os
vetores: o regime deposto virou um ápice de civilização e a República, sua ruína.
Criaram-se, assim, duas versões da história nacional, uma legitimando o novo status quo, outra
defendendo a ordem caída. Significando isso tanto uma forma de governo como um modelo de
sociedade.

A NOVA SOCIEDADE E SEU ESTILO


Desbancando os “casacas” do Império no comando político e no mando social, a República abriu alas
para uma “nova sociedade”. Grupos cuja ascensão social ou negócios estavam bloqueados pelo
funcionamento letárgico da sociedade imperial desabrocharam. No segundo caso estavam os sempre
lembrados afluentes plantadores de café do Oeste Paulista, ganhando expressão política compatível
com sua força econômica, mas também toda sorte de negociantes a eles associados. Financistas e
empresários urbanos cresceram vertiginosamente, graças ao incentivo de Rui Barbosa, ministro das
Finanças de Deodoro, ao empreendedorismo. Assim surgiu, da noite para o dia, um estrato de novos
ricos, no modelito de Serapião Ribas, outro personagem de Coelho Neto: “Enriquecido de um dia para
outro em transações felizes [...]. Aferrolhou mil e tantos contos em apólices, comprou vários prédios,
e, estirado agora, resfolga na sua Voltaire ampla [...]” (COELHO NETO, 1893, p. 25). Artur de
Azevedo (1897) também registrou em romance esses novos ricos da bolsa de valores, cheios de
dinheiro e carentes de requinte, crescendo e aparecendo na Capital Federal, em companhia das
coquetes, que viviam de explorá-los. Todos arrodeados de militares, muitos deles membros do
movimento reformista da geração 1870, que acharam no novo regime o poder e o prestígio que tanto
demandaram ao velho. Granjeavam visibilidade reformistas civis, alocados em peso na administração
federal (NACHMAN, 1977). O governador do estado do Rio de Janeiro, Francisco Portela, por exemplo,
abriu a burocracia estatal para um rol de letrados republicanos, como Olavo Bilac, Pardal Mallet, Raul
Pompéia e o nosso conhecido Coelho Neto.
Na balança de poder social, a ascensão da “nova sociedade” ao ápice da hierarquia social significou
naturalmente o declínio em poder e prestígio dos estratos sociais associados ao Império, sobretudo da
velha aristocracia fundiária do Vale do Paraíba, mas também, obviamente, da aristocracia burocrática,
que vivia dos empregos na máquina do Estado, e da aristocracia de corte, que simplesmente perdeu
sentido na ausência de um rei. Era a transição da sociedade de corte para a sociedade citadina:
“Encheram-se os salões de fardas, casacas e vestidos. [...] nomes distintos e belas elegantes
eliminaram-se inteiramente” (MACHADO DE ASSIS, 17/11/1895).
A nova sociedade tinha de prover regras e instituições para a nova ordem e, ao mesmo tempo, criar
um repertório de legitimação de seu mando e combate da tradição imperial e do estilo de vida
nobiliárquico.
É verdade que a dinâmica do Governo Provisório, as controvérsias quanto às primeiras medidas
sancionadas, as eleições para a Constituinte e os alinhamentos durante seu funcionamento; a política
econômica, que levaria ao Encilhamento, e o estilo centralizador de Deodoro da Fonseca fomentaram o
surgimento de facções – federalistas versus centralistas, liberais versus positivistas, parlamentaristas
versus presidencialistas, defensores do governo forte e seus críticos. Celeumas alongadas no governo
Floriano. Contudo, ajuntavam-se no fogo coletivo ao arcabouço político imperial. Em Ciência Política,
Alberto Salles (1891, p. 297), por exemplo, defendia o presidencialismo contra “a turba de
especuladores”, parlamentaristas, que associava à monarquia, propondo a abordagem da política
científica para a questão da divisão de poderes no governo republicano3.
A política científica dos reformistas orientou também um simbolismo encharcado de Revolução
Francesa – patente desde a campanha republicana. Apenas a Igreja Positivista adotou o calendário
revolucionário, mas todos os documentos governamentais passaram a se abrir com “cidadãos” e se
fechar com “saúde e fraternidade”. Os republicanos quebraram o protocolo de distinção social
aristocrático, com tratamentos democratizantes, horizontais, mais condizentes com sua própria
extração:
Manda a República agora
Novo trato em moda pôr:
Já se não diz mais – senhora;
Ninguém mais tem – senhor
Excelência nem de graça.
Foi-se a moda cortesã.
Dama altiva agora passa
A chamar-se cidadã.
(AZEVEDO, 7/12/1889 apud BERNARDES, 1989, p. 25)

Como já demonstrou Carvalho (1990, p. 75ss), a invenção de uma tradição republicana valeu-se de
símbolos que espelhavam a França de 1789, filtrada pelo positivismo, e das rebeliões coloniais e
regenciais abafadas pelo Segundo Reinado. Assim surgiram bandeira, hinos e heróis nacionais, como
Tiradentes, em alternativa aos anteriores, imperiais.
A nova tradição englobava um panteão de lideranças. Daí a profusão de biografias edificantes de
republicanos históricos, caso de O Perfil Biográfico do Dr. Bernardino de Campos, 1890, de Garcia
Redondo, e de A Morte de Silva Jardim, ou O Vesúvio em Erupção (1891), de Virgílio Cardoso.
Conversa incendiada pelas mortes vizinhas de Benjamin Constant e D. Pedro II. Aí se pôs com
veemência a disputa simbólica em torno do construtor da nação. Enquanto os monarquistas
publicavam elegias ao monarca deposto (por exemplo, Nabuco, 1891), os republicanos lançaram
Benjamin Constant a patriarca republicano. A igreja positivista enviou projeto à Câmara dos
Deputados, que angariou para Constant o epíteto de “fundador da República brasileira” nas
disposições transitórias da Constituição, promulgada em fevereiro de 1891. Teixeira Mendes
prontamente produziu extensa narrativa da vida e feitos de Constant:
Enquanto atravessarmos a tremenda crise em que se acha empenhada a sociedade moderna, Benjamin Constant
continuará a ser o gênio da concórdia entre os patriotas brasileiros. [...] os seus corações desalentados evocarão
espontaneamente a sombra augusta do Patriarca republicano [...] (MENDES, 1891, p. 508-9).

Visando a deslegitimação simbólica do Segundo Reinado, proveu-se a difusão de um nacionalismo


republicano, via processo educacional clássico e educação moral e cívica, voltados para formar os
cidadãos republicanos. Isso aconselhavam Sílvio Romero (Ensino Cívico) e José Veríssimo (Educação
Nacional), em 1890. A literatura participava, em arroubos de civismo (Contos Verdes e Amarelos, de
1890, de Luís de Andrade).
A reclamação coletiva dos republicanos contra a permanência da tradição imperial foi bem expressa
pelos reformistas albergados na Igreja Positivista. Em opúsculos e artigos, criticavam antes de tudo o
catolicismo. A secularização do estado, grande bandeira da geração 1870, institucionalizada pela
República, sofria a resistência aberta da Igreja Católica e desobediências sutis, como a manutenção do
crucifixo nas salas do júri. Segundo, a hierarquia estamental se mantivera, expressa no uso ainda
corrente dos títulos, condecorações e honrarias nobiliárquicas, como fica patente na proverbial
resposta de um funcionário do governo brasileiro à proibição de uso de títulos concedidos pelo Império:
“ciente, Barão do Rio Branco”. Terceiro, a liturgia da sociedade de corte perdurava sob a forma de culto
ao Imperador, o sebastianismo. Por isso:
[...] continuamos a exigir a extinção legal imediata dos títulos nobiliárquicos e das condecorações, em obediência ao
preceito constitucional, [...] a defender a fórmula – ordem e progresso – inscrita em nossa bandeira nacional, alvo dos
ódios metafísicos, clericais e sebastianistas [...]. [E a combater] [...] a absurda legenda que quer fazer do nosso último
imperante um grande homem, um grande patriota, um grande estadista e um grande sábio. [...] Agora era preciso
desfazer a legenda imperial e rebater as ousadias restauradoras (LEMOS, 1892, p. 26, 31).

O combate à tradição imperial ficou acirrado e violento no segundo governo da República. Floriano
Peixoto, ao assumir em fins de 1891, centralizou o poder, nomeando jovens militares para os governos
de estado (NACHMANN, 1977), interveio na economia, para conter a crise econômica do
Encilhamento e abriu a temporada de “purificação” das instituições, com empastelamento de jornais e
prisão de opositores. Amparou-se no exército, em emblemas e palavras de ordem da Revolução
Francesa e num civismo de matiz positivista. O florianismo ficou próximo do que Vovelle (2000, p. 25)
chamou de “jacobinismo trans-histórico”: “uma atitude, um comportamento e até uma visão de
mundo”, nascidos com a Revolução Francesa, mas que adquiriram caráter plástico, plasmando-se a
diferentes realidades históricas. Essa “maneira” condensa a ideia de regime de salvação pública,
baseado na vontade popular; no centralismo político, no estado laico, no nacionalismo; na moralização
da política; na crença na ascensão social e na crítica à sociedade aristocrática. Programa a ser
implementado pela pedagogia política e pela força (VOVELLE, 2000, p. 27, 194).
Tudo isso se vislumbra nos textos florianistas. Embora o florianismo não seja sinônimo de
republicanismo (CARVALHO, 1990, p. 17 e ss.), ele ressalta, por exageração, o núcleo compartilhado
de significados e os contornos da identidade política republicana, erigidos relacionalmente, por
contraste com seus correlatos imperiais. O regime de moralidade pública achacava reações e
remanescentes da sociedade imperial. A ele se associava um ethos antiaristocrático, que três figuras
ilustram, expressando também os canais de legitimação da tradição republicana: a força, a religião, a
literatura.
A primeira é a do líder político-militar Floriano Peixoto. Estoico, com seus hábitos comedidos de
sertanejo, seco no trato, sem erudição, charme ou delongas, que pouco falava e nada escrevia, era o
perfeito inverso dos gentlemen do Império. Adquirira na Guerra do Paraguai a reputação de valente e
resoluto, que exibiu nas rebeliões que contra ele se levantaram e que lhe valeu a admiração ardente de
jovens militares, de parte dos antigos reformistas e de setores urbanos em ascensão, por ele
protegidos das avarias do Encilhamento. Para seus seguidores, era o demolidor da ordem estamental
do Império, o modernizador.
Outra figura é Raimundo Teixeira Mendes. Reformista durante o Império, na República corporificou o
empenho prático, cotidiano, de assentamento das instituições republicanas como valores morais e
como estilo de vida. Em prédicas dominicais, repletas de adeptos4, celebrava as novas instituições, a
laicização do estado e os símbolos republicanos. A Igreja Positivista se apresentava como alternativa ao
catolicismo imperial, como religião civil, com seu ilibado Sacerdote candidato a líder moral dos
republicanos. João do Rio (1904) reporta:
Na capela-mor, rica de tapetes e de madeiras esculpidas, há uma cátedra, onde se senta Teixeira Mendes com as vestes
sacerdotais negras debruadas de verde. [...]. A voz de Raimundo corre com a continuidade de uma queda de águas; na
nave cheia cintilam galões e lunetas graves; na capela-mor, senhoras ouvem com atenção essa palavra, que não deixa de
ser demolidora. [...] do alto da cátedra, relampejava. [...], partia contra os fatos, contra a anarquia atual: e um esto [...]
de amor pela Vida, subia, como um incensório [...]. Fiquei enlevado a ouvi-lo. [...] homem puro como um cristal, que
tem o saber nas mãos [...].

Raul Pompéia é a terceira figura emblemática. Era o entusiasmo revolucionário em pessoa. Seu
civismo exacerbado preenchia artigos diários de jornal enaltecendo líderes republicanos, com devoção
por Floriano. Lançava-se sem armistícios contra qualquer sinal de monarquismo. Professava um
nacionalismo, que desabrochou em antilusitanismo e que ia de braços com uma atitude de “ódio
vivificante” contra os monarquistas-aristocratas:
Do ódio em nome do Brasil: não do ódio mau que ofende a vítima – do ódio que reage, do ódio que reivindica, do ódio
que redime, do ódio pela Justiça, do ódio santo que é apenas uma forma militante de amor (POMPÉIA, 24/2/1893, p.
299).

O amor de Teixeira Mendes e o ódio de Pompéia se entrelaçaram na defesa da repressão de Floriano


aos monarquistas. Eram três intransigências. Contra o ethos da conciliação, da negociação e da
tergiversação imperial, se aferraram ao ethos da purificação, da transparência, da moralidade pública,
que se encarnava no estilo de vida de partes da nova sociedade, marcada pela singeleza, o estoicismo, a
moral do trabalho e da família. Maneira de conduzir a vida nas antípodas da “futilidade” cortesã do
Segundo Reinado.
Os florianistas superpunham os sentidos de República como regime de governo, nova moralidade e
nova sociedade. No afã de afirmá-los, guerrearam quaisquer manifestações políticas, culturais e
mesmo pessoais de adesão à sociedade aristocrática imperial. O florianismo foi a hipérbole do
republicanismo. Por isso mesmo tornou salientes os traços de diferenciação entre duas identidades
políticas, dois ethos, duas tradições inventadas, dois padrões de sociedade.

DECADÊNCIA COM ELEGÂNCIA


Os monarquistas que não aderiram à República, nem emigraram, mesmo quando tivessem sido
inimigos viscerais, acabaram, pela força das coisas, por se aproximar. Havia dois gêneros. Os
monarquistas de espada eram políticos, como Silveira Martins, e militares, como Saldanha da Gama,
que pegaram em armas para defender o antigo regime. Os monarquistas de pena eram órfãos da
sociedade de corte, incluídos aí tanto membros do extinto Partido Conservador, como Afonso Taunay,
Rio Branco e Eduardo Prado, quanto do movimento reformista, como Rodolfo Dantas, André
Rebouças, Joaquim Nabuco e Afonso Celso Junior. Essas criaturas da cultura aristocrática e da liturgia
dos salões eram filhos da elite imperial, em preparação para assumir o comando do país quando o
golpe de 1889 os tolheu. Como seus sucedâneos franceses,
Eles conservaram um prestígio tradicional, fortemente psicológico, [...], mas tinham perdido as bases reais do poder.
Foram incapazes de manter o caráter fechado de seu estamento [...] (AUERBACH, 2007, p. 247).
O desaparecimento do Império pôs abaixo sua carreira política, a perspectiva de futuro e o lastro
social. Essa conjunção de estragos gerou amarguras intensas. Com sua repugnância pelo belicismo,
nisso devedores de sua formação de corte, viram que seu terreno de briga era a palavra. Em ensaios,
manifestos, romances, defenderam a tradição monárquica, que esboroava, e criticaram a republicana,
que se construía, concentrados em duas tópicas: a forma da mudança (o golpe militar) e a arquitetura
política do novo regime, de um lado, e os valores e o estilo de vida da sociedade republicana, de outro.
Quem abriu ataque ao design das instituições políticas foi Eduardo Prado, em 1889, na Revista de
Portugal5, voltando à carga em 1890, com Fastos da Ditadura Militar. Na mesma hora, Cristiano
Ottoni deu a versão monarquista de O Advento da República no Brasil. O Visconde de Ouro Preto
(1891) igualmente execrou o Advento da Ditadura Militar no Brasil. Joaquim Nabuco argumentou que
a República, no Brasil como em toda a América do Sul, seria endemicamente instável, dada a ausência
de instrumento de mediação das facções em luta. Abolido o poder moderador, o “elemento militar”
ascenderia naturalmente a condutor da política partidária: “Substituíram o Imperador pelo Imperator
[...]. Deodoro pelo simples fato de suceder o Imperador ele se achou como os mesmos poderes, sem
as normas, está visto” (NABUCO, 1890b, p. 10).
A República não era jamais atribuída à longeva propaganda republicana, mas somente à violência
militar. O militarismo seria origem e fonte de sustentação do novo regime. Cristiano Ottoni (1890, p.
84) resumia o pensamento dos monarquistas de pena sobre a “autocracia militar”: “[...] não
sustentavam eles ideia ou princípio político, não aspiravam à reforma alguma de interesse geral”.
A crítica abrangia o repertório de ideias que legitimava o novo regime. Uma delas vinha no título de
Eduardo Prado (1893): A Ilusão Americana. Seu ataque à “mania” republicana de replicar instituições
dos Estados Unidos era meio de investir contra o principal aliado internacional dos republicanos. Em
contraponto, elogiava a Inglaterra, que apoiava os restauracionistas (TOPIK, 1997). Prado via um sem-
número de males na influência norte-americana sobre o Brasil, inclusive a manutenção da escravidão –
durante o Império! “Não teríamos conservado por tanto tempo aquela instituição iníqua, se a maior
nação da América não tivesse tentado legitimá-la, e se, da parte escravocrata dos Estados Unidos, não
nos viesse o incentivo [...]” (PRADO, 1893, p. 123).
Em manifesto, Nabuco também lançava argumento nacionalista contra o americanismo:
Eu lastimo a atitude suicida da atual geração, arrastada por uma alucinação verbal, a de uma palavra – república,
desacreditada perante o mundo inteiro quando acompanha o qualificativo – Sul-Americana. [...] a esse plagiarismo
Americano, devemos opor outro sentimentalismo natural, vivo, verdadeiro: o Brasileirismo (NABUCO, 1891, p. 4, 15,
grifos do autor).

O americanismo enfileiraria o Brasil com outra América, a Espanhola, rumo ao caudilhismo, ao


despotismo, ao militarismo e, quiçá, mesmo à fragmentação do país. Eram os velhos temores da elite
imperial, que aspirara elevar o Império à altura das monarquias europeias e afastá-lo das repúblicas
abaixo do Equador: “A República, nos países latinos americanos, é um governo no qual é essencial
desistir da liberdade para obter a ordem” (NABUCO,1890b, p. 14).
O positivismo era o outro corpus de ideias que chateava deveras os monarquistas. Todos escreveram
em achincalhe à “República de Comte” (NABUCO,1890b, p. 15), receosos de sua influência crescente
no Brasil.
Logo depois do 15 de novembro circulou a notícia, com grandes vesos de verossimilhança, que parte do ministério
compunha-se de sectários convictos da Filosofia Positiva, e entendia bem servir a sua pátria organizando o governo
segundo as fórmulas do Mestre A. Comte (OTTONI,1890, p. 119).

Abismavam-se com a diligência dos positivistas em soterrar a história do Segundo Reinado e


desencavar ícones e símbolos republicanos6:
[...] no martírio de Tiradentes, no centenário de 1789, na juventude rio-grandense de Garibaldi, na unidade exterior da
América, ou na Humanidade de Augusto Comte (NABUCO, 1890, p. 58-9).

“Americanistas”, “positivistas” e militares eram alvos dos monarquistas não somente por
conduzirem o governo, mas também pelo estilo de vida que disseminavam. A substituição de elites
sociais em compasso com o golpe obviamente não foi bem vista pelos que descendiam:
Em tais épocas, em que o sistema da propriedade se transforma, as fortunas mudam de mãos e desaparecem umas
classes para surgirem outras, parece que ficam paralisadas a consciência, a energia e a vontade coletivas, e que nada liga
ninguém a nada ou a ninguém (NABUCO, 1890, p. 66).

Para os monarquistas de corte, era uma sociedade de parvenus. Afeitos à etiqueta aristocrática,
ficaram enojados com a ascensão meteórica de uma gente sem nome ou maneiras. Tão distantes da
polidez, elegância e refinamento em que cresceram e floresceram gentlemen como Nabuco. Por
contraste, sobressaia a “qualidade” da elite imperial: “A República [...] vemo-la reduzida a homens e a
fatos que podem todos ser comparados aos da monarquia com vantagem para a casa” (NABUCO,
1890b, p. 6).
A ojeriza dos monarquistas de corte aos republicanos exprime, pois, a fidelidade a um modo de vida,
no qual o monarquismo era apenas um dos elementos. Uma revolta da sociedade de Corte contra a
sociedade citadina. Prado exibia esse desdém ao descrever o capitalismo como baixeza e ambição de
lucro, sinonimizando americanismo e arrivismo, para produzir o contraste entre os parvenus e boa
sociedade:
Tal qual como o parvenu enriquecido gosta de mostrar a sua casa, os seus carros, ao homem da boa sociedade e, dando
a beber ao gentleman elegante os seus vinhos preciosos, pergunta-lhe com insistência: Então, que tal acha? (PRADO,
1893, p. 92).

O texto mais expressivo desse contraponto é o romance à clef de Taunay, disfarçado de “Heitor
Malheiros”: Encilhamento – Cenas Contemporâneas da Bolsa do Rio de Janeiro em 1890, 1891, 1892.
Carente de elaboração literária, o livro não descola da matéria que narra, prestando-se admiravelmente
como documento da percepção de um membro da corte deposta acerca da nova sociedade. Ao mesmo
tempo descrição e sintoma.
Taunay traçou galeria de tipos sociais ascendentes com a República: militares e ricos com lastro,
como os cafeicultores paulistas, e, mormente, ricos sem ele, caso do estrato de “empresários” sem
empresas e capitalistas sem capital surgido com a bolha especulativa de 1890. Somavam-se barões de
títulos forjados, advogados sem banca, militares corruptos, consumidoras frívolas, coquetes
desvairadas, movendo-se como marionetes ao ritmo vertiginoso de negociatas e boatos, que
consolidavam e demoliam instantaneamente empresas e reputações.
Espantava aos aristocratas acostumados à letargia da sociedade imperial a intensidade dessa
sociedade republicana, que quebrava maneiras e distâncias aristocráticas:
[...] a construção de palácios de péssimo gosto arquitetônico, jóias, jóias a mais não poder [...]; tornava-se obrigatória
certa notoriedade, já de bens, já de audácia, já de relações sociais [...]. [...] muita familiaridade; os empregados a
apresentarem a mão, [...], interpelando as habituées pelos nomes do tratamento íntimo e fazendo-lhes cumprimentos
à queima-roupa [...] (TAUNAY, 1893, p. 189, 34).

Esse novo estilo de vida, de “dourados e lantejoulas, tão ao sabor dos parvenus e rastaquouéres!”,
suscitava reprovação moral dos monarquistas, que se expandia para incluir o capitalismo, a busca de
lucro, esse “indecorosíssimo e frenético jogo” – no qual o próprio Taunay perdera sua fortuna.
A indignação contra a proeminência, na sociedade como na política, de novos grupos sociais,
encharcados de valores e atitudes que confrontavam a tradição imperial, o paralelo entre ao brilho da
corte e a falta de lustro dos citadinos, o desprezo para com os emergentes, é tenaz dentre os
monarquistas de pena. Aparece, em diferentes modulações, nos escritos de todos os órfãos da corte,
guarnecendo desde manifestos, ensaios e artigos do periódico que, liderados por Rodolfo Dantas,
formaram em abril de 1891, o Jornal do Brasil, até correspondências e textos íntimos:
[...] a civilização do Brasil acabou com a monarquia [...] Os agentes principais do governo são os déclassés de todas as
classes [...] enriqueceram também nessa chamada orgia financeira do Provisório [...]. Os pais desmoralizam-se em
companhia com os filhos. Não há mais respeito nas famílias [...] Tudo que é honesto, sério, normal, em outros países,
está atrofiado – tudo que é instinto torpe, cobiça, podridão interior, isso sim desenvolve-se e domina a sociedade [...]
uma prostituição [...]. Nada resistiu, nada ficou limpo, e dessa sociedade assim mexida são as fezes só que se veem hoje
[...] (DIÁRIOS DE NABUCO, 17/10/1893, grifos do autor)

Os escritos dos monarquistas de pena no começo da década de 1890 portam, pois, críticas à
República sobretudo como gênero de sociedade. Reiteram valores aristocráticos – a honra – para
arremeter contra valores burgueses – o lucro: “a religião dos sentimentos nobres, a altivez da honra,
não têm mais representantes públicos [...]” (DIÁRIOS DE NABUCO, 17/10/1893).
Apreciação moral, que exprime a experiência vivida por ex-membros da sociedade aristocrática,
inconformados com a supremacia dos estratos sociais ascendentes com a República e a disseminação
de seu estilo de vida. Reação dos gentlemen contra os parvenus.
A República não é avaliada a partir de estruturas macroeconômicas. O foco vai para as elites social e
política, o modo de vida que ostentam, as ideias que as orientam, e as decisões de suas lideranças. É
uma história de costumes e personalidades. Assim, Floriano, o positivismo e os militares são
demonizados na exata medida em que a figura de D. Pedro se torna modelar e os políticos imperiais
todos adquirem ares de estadistas.
Os monarquistas de pena dedicaram-se, pois, à contraposição entre a República jacobina e o
Segundo Reinado, ao enaltecimento de símbolos, feitos e líderes da história imperial e ao combate à
ordem e aos símbolos da tradição republicana em constituição. Suas críticas à República podem ser
sumarizadas em três topos. O primeiro visava o repertório de ideias orientando a nova ordem: o
americanismo e o positivismo. O americanismo se vincularia a um modo de vida burguês, que
cafeicultores de São Paulo e os novos ricos da bolsa de valores disseminavam e que, supunham, se
basearia na ambição, na sede de enriquecimento. Já o positivismo orientaria a dessacralização do
mundo público, a ratificação da ciência como princípio condutor das decisões públicas. Os
monarquistas de pena o associavam a um terceiro estrato de ascendentes com o novo regime: os
militares, a quem atribuíam toda sorte de incivilidades. Essa substituição de elites sociais é seu segundo
ângulo de censura. A última tônica diz respeito à forma de condução da República pelos ascendentes.
Aos parvenus positivistas e jacobinos, acoplavam o formato militarista e centralista da República,
reprovando seu barbarismo e vaticinando desfecho fratricida e separatista. Em tudo isso expressam o
ponto de vista dos aristocratas sem corte.
O monarquismo de pena foi um decadentismo. Mais que projetar novo estado de coisas, exibia
atitude blasé com respeito ao presente, ancorada na nostálgica idealização do passado e num
catastrofismo quanto ao futuro. Foi também esforço coletivo e deliberado de defender a tradição
imperial e o estilo de vida a ela associado por meio da criação de estereótipos e da narração de uma
versão monarquista do presente republicano e da história nacional. Como argumenta Tilly (2008, p.
90), a maneira usual de narrar histórias de legitimação consiste em distribuir créditos e maldições,
dramatizando “uma divisão moral do mundo social”. “Estórias” retrabalham e simplificam os processos
sociais em sequências diretas de causa e efeito, imputadas a agentes sociais concretos, que são, então,
moralmente avaliados. As estórias ignoram complicações, contradições, oscilações dos agentes e de
seus cursos de ação. São sempre relacionais, mas sua base é uma assimetria nós-eles, em que o
primeiro polo é digno de crédito e o segundo de maldição. No caso dos monarquistas de pena, crédito
aos líderes do antigo regime, maldição aos do novo.
3. DA POLÍTICA ÀS LETRAS
Floriano suscitou grande entusiasmo cívico, o jacobinismo, mas também seu contrário. Começou
ainda em 1892 a reação. De republicanos descontentes, em São Paulo, Minas Gerais e no Mato Grosso,
onde surgiu uma efêmera República Transatlântica. E de monarquistas belicosos. Em fevereiro de
1893, Silveira Martins, um dos líderes do movimento restaurador (JANOTTI, 1986), incendiou o país
com a revolta “Federalista”, no Rio Grande do Sul, contra o governo de Júlio de Castilhos. Em seguida,
veio a Revolta da Armada, na Capital Federal, principiada por um republicano, Custódio de Melo, mas
prontamente endossada por monarquistas da Marinha. O governo então legalizou o estado de
exceção, encompridado nas ruas por “batalhões patrióticos”, ocupados em salvar a pátria com
canhões, porretes e baionetas7.
A conjuntura de radicalização política e guerra civil imprimiu mudanças no debate público. Sumiu sua
estruturação simples, monarquistas versus republicanos. Agora havia os florianistas, como Lauro
Sodré, Raul Pompéia e Teixeira Mendes, defendendo a ordem, enquanto monarquistas de corte e
republicanos estarrecidos com os excessos do militarismo – caso de Rui Barbosa e do grupo de José
Patrocínio – a execravam.
Outra mudança foi de forma. No Império e no primeiro governo da República, o debate correra em
manifestos e panfletos de combate e proselitismo. Sob Floriano, houve clivagem. Ocupados da política
e da guerra, os florianistas de pena não tinham tempo para ensaios e tratados. O sumo de sua
produção é ainda o panfletismo e o artigo curto de jornal. Neles escoaram o elogio a Tiradentes, a
censura a ícones do Segundo Reinado e brados nacionalistas e xenófobos (POMPÉIA, 24/03/1893).
Artur de Azevedo (1895 apud MAGALHÃES JR., 1955, p. 89) usou forma breve para debochar do
inimigo, nesse caso o Almirante Custódio de Melo:
Tem uma flor no princípio
O nome do Marechal,
Mas o nome do Almirante
Principia muito mal...
Já os antiflorianistas, constrangidos pela censura, não se arriscaram em panfletos e jornais. O Jornal
do Brasil, monarquista, foi empastelado, como o foi O Cidade do Rio, de José do Patrocínio. Quem
carregava na carga ao governo tinha dois destinos, a prisão, onde foram parar Patrocínio e sua trupe,
ou o exílio, recurso de Eduardo Prado, depois que A Ilusão Americana (1893), que delatava o apoio
norte-americano a Floriano na Revolta da Armada, foi apreendido um dia depois de publicado
(JANOTTI, 1986, p. 79).
Textos incisivos só podiam vir de fora, como O Imperador no exílio (1893), que Afonso Celso Junior
enviou da Europa. E eram, de pronto, respondidos por republicanos, nesse caso por Felício Buarque,
com suas Origens Republicanas: estudos de gênese política em refutação ao livro do Sr. Dr. Afonso
Celso, o Imperador no exílio, dedicado às “vítimas sacrificadas em defesa da República na insurreição de
6 de setembro [a Revolta da Armada]” e no qual incensava heróis republicanos e investia contra os
monarquistas e sua divinização de D. Pedro II. Diante do “perigo de desagregação”, Buarque (1894, p.
206) abraçava “um governo forte, conciliador e enérgico”, como o de Floriano.
O panfletismo antigoverno ficou então perigoso e rareou. De fins de 1893 até 1897, as críticas à
República se esfumaçaram. Monarquistas de pena desertaram da crítica incisiva e se refugiaram em
biografias, autobiografias, livros de história e de memória, ensaios. Formas mais seguras de emitir
opiniões em tempos de guerra civil. Embora o assunto ainda seja a comparação entre os regimes, o
comentário do presente ficou oblíquo, via análise de circunstâncias análogas no passado ou no exterior.
Prudente de Morais foi eleito em 1894, mas a guerra civil seguiu no Sul e temia-se que Floriano,
vencedor da Revolta da Armada, não passaria o cargo. Ideia enterrada com a morte do ex-presidente.
Mas aí os jacobinos perderam um líder e ganharam um ícone: o Marechal de Ferro, o Consolidador da
República (SODRÉ, 1896), o “fundador da República – o proclamador magnânimo da Nacionalidade”, o
“grande iluminado” (POMPÉIA, O País, 3/10/1895).
Então os monarquistas de pena e de espada arriscaram uma volta. Uniram-se, ativaram seus jornais
e fundaram o Partido Monarquista. Eduardo Prado coordenava esforços em São Paulo. De lá saiu, em
15 de novembro de 1895, da lavra de notório tradicionalista, João Mendes de Almeida, manifesto
católico e antipositivista. Em 12 de janeiro de 1896, foi a vez dos cariocas lançarem o seu À Nação
Brasileira, redigido por Nabuco. Era antimilitarista, antiamericanista, antipositivista. A novidade era o
chamamento à Restauração pacífica, via persuasão de “todas as classes ou pessoas, sem distinção de
partidos antigos e novos”. Explorando a cisão entre os republicanos, os monarquistas pediam o apoio
da nova sociedade que execravam para voltar ao antigo regime.
Sob governo civil, os petardos ao militarismo diminuiram, mas ficou superlativo o ataque às bases
simbólicas de legitimação da República, em particular o positivismo. Isso aparecia em discursos no
Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, ilha intelectual do Segundo Reinado em meio ao mar
republicano. Lá, guardiões da tradição imperial resistiam contra a “conspurcação” de símbolos e heróis
da história nacional pelos positivistas:
Uma escola religiosa – se se pode dar com propriedade o nome de religião a uma crença que suprime Deus – mais
política em todo caso do que a religiosa, pretende reduzir a História nacional a três nomes: Tiradentes, José Bonifácio e
Benjamin Constant. [...] A ideia é que entre Tiradentes e José Bonifácio de um lado e Benjamin Constant de outro, isto
é, entre a Independência e a República, estende-se um longo deserto de quase setenta anos, a que posso dar o nome de
deserto do esquecimento (NABUCO, 1896b, p. 105-107).
Nabuco (1896b, p. 109) reagiu, “no momento em que o passado nacional corre risco de ser
mutilado”, com três livros. Balmaceda (1895) e A Intervenção Estrangeira durante a Revolta (1896),
umbilicalmente ligados à conjuntura da guerra civil, emparelhavam virtudes do Império e vicissitudes
da República e ambicionavam vedar a consagração de Floriano como estadista: “A legenda não é só
positivista, é também jacobina [...]” (NABUCO, 1896, p. 263). Aí desenha-se um Floriano sanguinário
enquanto o líder monarquista da Revolta da Armada, Saldanha da Gama, aparece como gentleman da
velha estirpe. Já Um Estadista do Império: Nabuco de Araujo, sua vida, suas opiniões, sua época, escrito
durante a guerra civil, edifica “legenda” alternativa, pelo elogio dos “verdadeiros” estadistas, os do
Império. D. Pedro aparece agigantado na comparação com os chefes republicanos (Cf. ALONSO,
2009). O Segundo Reinado teria sido o “apogeu” da história brasileira, orientado pelo “[...] espírito de
prudência e sisudez, a circunspeção, a nobreza e o patriotismo desinteressado de um período de funda
cultural moral [...] tão diverso do campo da guerra civil” (NABUCO, 1896b, p. 108).
A quentura da guerra civil não amornara ainda. Em fins de 1896, Prudente de Morais, doente, se
afastou da presidência. Com seu vice, o jacobino Manoel Vitorino, voltou o clima de intransigência.
Nesse novembro, o governo federal enviou tropas contra a insurreição em Canudos, rotulada de
monarquista. Logo, os jacobinos empastelaram redações de jornais monarquistas, e o diretor de um
deles, Gentil de Castro, foi linchado no Rio de Janeiro.
A reação só podia vir do exílio, caso das Cartas da Inglaterra (1896), de Rui Barbosa e da denúncia
de O Assassinato do Coronel Gentil de Castro, pelo Visconde de Ouro Preto. Eduardo Prado, dirigindo
O Comércio de São Paulo, cancelou as Notas Políticas de Nabuco e encaminhou os correligionários para
a luta cultural, mais alusiva, como nas celebrações do terceiro centenário de Anchieta, em 1897. Além
de somar outro ícone ao panteão monarquista, era meio de apresentar o catolicismo como valor
fundacional da nacionalidade, em revide à religião civil do positivismo: “Não, nós, os católicos, nada
temos que temer do positivismo [...]. [...] o centenário de Anchieta toma o caráter de um apelo à
nossa consciência religiosa [...]” (NABUCO, 1897, p. 130-131).
A guerra escrita perdeu o vigor com o apaziguamento da conjuntura política. A partir de 1897 se
desarticularam conjuntamente jacobinismo e monarquismo. O primeiro, por seus excessos – incluído
atentado malogrado contra Prudente de Moraes –, o segundo, por inanição. Sem apoio armado, sem
entusiasmo da Princesa herdeira, o monarquismo desfaleceu. A eleição de Campos Sales sinalizou
novos tempos, de uma República civil, consolidada. O radicalismo perdeu espaço e sentido.
O debate intelectual foi ganhando nova tônica, cada vez mais apartado da política militante.
Exaustos de tinta e sangue derramados, monarquistas de pena e republicanos desalentados selaram a
paz. Em encontros na Livraria Garnier, se ajuntavam para dois dedos de prosa, sobre assuntos frios,
que a política ainda era tema melindroso. A literatura brotou como ponto de convergência, graças ao
protagonismo de Machado de Assis, um monarquista platônico. Confluíram para uma Revista
Brasileira, que José Veríssimo relançou em 1895:
[...] vi que o nosso chefe tratava não menos que de criar também uma República, mas [...] os partidos podiam comer
juntos, falar, pensar e rir, sem atributos, com iguais sentimentos de justiça. Homens vindos de todos os lados, — desde
o que mantém nos seus escritos a confissão monárquica, até o que apostolou, em pleno Império, o advento republicano
— estavam ali plácidos e concordes, como se nada os separasse (MACHADO DE ASSIS, 17/5/1896).

Por cansaço ou fracasso, muitos se insularam da política institucional. Em 1897, ex-reformistas, ex-
monarquistas, ex-republicanos, mesmo ex-jacobinos criaram sua própria República, a das letras. Na
Academia Brasileira de Letras, fundiram suas identidades políticas contrastivas, de monarquista-
aristocrata e de republicano-ascendente, numa identidade compartilhada, a de “intelectuais”:
Os espíritos estavam fatigados da política. Os homens feitos, desiludidos; os homens novos, enojados. [...] as letras
apresentaram-se como o único refúgio do talento (GRAÇA ARANHA, 1923, p. 26).

Formava-se nova aristocracia, a do “talento”, assim distinguida da aristocracia de corte e capaz de


encapsular arrivistas e desbancados num mesmo estilo de vida, dedicado à cultura do espírito e
destacados da lida política, vista agora como ocupação menor.
Essa identidade de letrados sobrepujou então as identidades políticas. Ao longo da década de 1890,
porém, esses mesmos homens se valeram da história nacional e de análises interessadas da conjuntura
para produzir duas estórias antagônicas do presente republicano e do passado imperial. Uma
atribuindo crédito à tradição, outra amaldiçoando-a.
Na longa duração, o saldo foi monarquista. Se os republicanos ganharam a batalha política do
presente, criando instituições e ícones de um novo regime, os monarquistas venceram a luta simbólica
do futuro. Talvez o fato dos republicanos mais talhados para essa briga, como Alberto Salles, terem
preferido travar outra, fratricida, ou quiçá o refinamento do estilo e da argúcia dos gentlemen como
Nabuco respondam pela cristalização ulterior da estória monarquista em historiografia do Império e do
começo da República. Essa versão abasteceu de heróis, imagens, símbolos, citações e tópicas ao menos
as duas gerações seguintes de “interpretações do Brasil”8. Se é certo, como argumenta Carvalho
(1990), que a década de 1890 foi tempo de montagem de um imaginário da República, é preciso
também considerar o outro lado dessa moeda: a estilização da sociedade imperial e a estigmatização
da Primeira República. O topoi monarquista da República como decadência, produzida por parvenus,
positivistas, americanistas, militaristas, em contraste com a “Grande Era Brasileira”, perdurou. Ao
passo que ficou esmaecido o sentido primeiro desses juízos: seu caráter político e de defesa de um
estilo de vida ameaçado pela mudança.
Nos escritos posteriores desses monarquistas, a política ainda alimentou narrativas nostálgicas, de
um tempo em que seus autores eram também atores da política com P maiúsculo. Homens de corte,
lamentaram o fim de uma época em que tinham sido fidalgos. Elidiram o fato que haviam antes
denunciado (caso de Nabuco e Afonso Celso), do Império repousar sobre a escravidão e sublinharam
um reinado de temperança, de civilização, de finesse, em chocante contraste com um presente
comezinho, aburguesado, no qual se viram confinados à antecâmara do grande salão da política.
Um tempo que os elegantes só podiam ler como decadência.
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1
Este artigo foi originalmente publicado em espanhol na Prismas, Revista de Historia Intelectual, Universidad Nacional de Quilmes,
2009, e, em português, na Novos Estudos Cebrap, 85, 2011.
2
Há poucas análises nessa direção, como Oliveira, 1989, e, tangencialmente, Viotti, 1977. O único estudo de maior fôlego
documental é o de Jannotti, 1987.
3
Havia outros debates, como em torno da conjuntura política (as Notas Políticas, de Valentim Magalhães, 1891) e econômica
(Finanças e Política da República, de Rui Barbosa, 1891).
4
Pagavam subsídio para a manutenção da Igreja, em 1892, 220 indivíduos (LEMOS, 1894), mas a assistência aos cultos era maior. Já
no declínio da Igreja, em 1904, registrou público de cerca de 700 pessoas (RIO, 1904).
5
Sob os títulos “Destinos Políticos do Brasil”; “Os acontecimentos do Brasil”; “Práticas e Teorias da Ditadura no Brasil”.
6
Oliveira (1989, p. 12) atenta para artigos de Taunay de teor similar.
7
Para uma descrição das ações jacobinas, veja-se Reis, 1986.
8
Oliveira (1989, p. 13-4) já chamou a atenção para esse resultado.
AS REPRESENTAÇÕES E AS PRÁTICAS POLÍTICAS REPUBLICANAS
DE CAMPOS SALES
CLÁUDIA M. R. VISCARDI
VITOR F. FIGUEIREDO

Pretende-se neste capítulo abordar as representações que Campos Sales fazia acerca da república
brasileira e de que forma tais concepções se relacionavam ao seu maior feito político enquanto
presidente do país entre 1898 e 1902, a conhecida “política dos estados”. Para esse fim, nos valeremos
de análises de seu discurso político e das mudanças regimentais que buscaram alterar o processo de
verificação de poderes da câmara federal, até o final de seu mandato. Estaremos atentos às relações
entre seu discurso e sua prática política à frente da presidência da república.
Importante destacar que não vemos as práticas políticas de Sales separadas de suas representações,
embora para os fins deste texto, optemos por analisá-las em separado. Ao considerar os seus discursos
como “atos de fala” e suas realizações como um agir discursivo, procuraremos propor ao leitor uma
nova visão acerca de um processo, considerado por muitos, como responsável pela estabilização da
república, após vencidos os primeiros anos de sua instabilidade1. Os conceitos políticos dos quais se
valia Campos Sales em seus discursos também serão objetos de atenção deste capítulo. As associações
e contraposições entre conceitos ajudam na compreensão de seu pensamento, e, por essa razão, foram
incluídos pela análise. Para tal, nos valeremos de pesquisa em dicionários do século XVIII até o final do
XIX, com o fim de identificar variações semânticas de alguns conceitos importantes para o nosso
argumento.
Para os fins desta investigação optamos por nos basear em uma plataforma política, lida durante um
banquete de lançamento de sua candidatura presidencial em 1897, na cidade de São Paulo. Nesse
texto, Campos Sales expressa seu plano de governo e referencia uma série de outros discursos que
havia proferido no passado. Por esta razão, entre os inúmeros textos disponíveis, a plataforma nos
pareceu mais propícia ao acompanhamento de suas ideias. Acreditamos que desta forma seja possível
ter acesso mais amplo às concepções que orientaram as mudanças regimentais por ele conduzidas. Em
seguida analisaremos tais mudanças, com o fim de relacioná-las as suas concepções de partido,
governo, soberania popular e de federalismo.
PLATAFORMA ELEITORAL: O MANIFESTO DE 1897
A plataforma eleitoral de Campos Sales (2007, p. 7-6) foi lida pelo próprio candidato em um
banquete realizado em São Paulo, em outubro de 1897. Conhecedor dos processos eleitorais
republicanos, sabia-se previamente eleito, e por essa razão, a plataforma tem um tom de discurso de
posse. Embora bastante aplaudido pelos presentes, não agradou a todos. Após sua leitura, o
presidente da Câmara, deputado Arthur Rios, correligionário político de Prudente de Morais, teria dito
ao deputado Dunshee Abranches (1973, p. 98-99): “Vou aproveitar este dia dos mortos para dar-lhe os
pêsames... A plataforma de Campos Sales foi nosso necrológio político”. Voltaremos a essa avaliação
oportunamente.
Campos Sales sempre investiu em sua boa imagem. Inicia o manifesto com relatos de sua trajetória
política prévia, apresentada ao público como a manifestação de suas qualidades: pureza de fé inabalável
e crença imaculadamente honesta. Não bastassem tais adjetivos, afirma-se como propagandista de
princípios democráticos e organizador de instituições republicanas. Arrola os vícios de que não dispõe,
a exemplo da fraqueza e contradição. Faz referências constantes aos seus textos, como prova de sua
coerência política (SALES, 2007, p. 8-9). É dessa maneira que se apresenta ao público.
Ao se colocar como um presidente e não como um chefe político, estabelece um dos componentes
mais destacados de seu pensamento: a separação entre a instância da política, vista como espaço da
pureza, e a política partidária, vista como o lugar da corrupção. O chefe político seria o homem de
partido; o presidente da república, o chefe da nação. Através de tal distinção, enceta duras críticas às
instituições partidárias. Justifica sua postura, quando exemplifica o governo em curso, a gestão de
Prudente de Morais (1894-1898), cuja maior marca era a cisão do Parlamento entre prudentistas e
florianistas. A cisão, como o Brasil havia testemunhado, teria atingido níveis máximos de hostilidade,
que resultaram na tentativa de assassinato do próprio Presidente. Sales considerava esse período como
pré-republicano e revolucionário. Deixava a entender que a verdadeira república se iniciaria após sua
posse.
É através do contraponto entre o chefe de governo e o chefe de Estado que Sales arrola uma série de
adjetivos e substantivos que se excluem mutuamente, os quais podem ser assim sintetizados:

Chefe de Partido Chefe de Estado

Ardência da luta Sentimento que resiste

Conflito de interesses Serenidade das grandes ideias

Facção Acordo de opiniões

Conflito Obediência e respeito

Agressão Disciplina

Agitação Progresso

Caudilhagem ambiciosa Direção legítima

Paixão Alma combatente

Mesmo ao afirmar que os partidos sejam importantes como força de governo, os termos negativos
da política, listados na primeira coluna, a eles se associavam semanticamente, o que resultou em um
discurso que desqualificava as instituições partidárias ao associá-las ao lado negativo da política. Os
partidos seriam o espaço da instabilidade; sua ausência, o espaço da alta política.
Tal avaliação negativa do quadro partidário era, no entanto, seletiva, uma vez que Sales enaltecia o
Partido Republicano, pelo qual havia se projetado na política, e subestimava o Partido Republicano
Federal (PRF), criado na gestão de Prudente para lhe conferir sustentação governamental. Para ele o
PRF havia sido aparelhado pelos florianistas, em prejuízo do próprio Prudente de Morais. Em sua
avaliação, o quatriênio de seu antecessor fora palco de disputas partidárias que dividiram a nação. Por
um lado, se mostrava satisfeito por terem ocorrido, o que teria levado ao desaparecimento de uma
suposta unanimidade republicana, que, na prática, não existia. Por outro lamentava, uma vez que as
cisões ameaçavam a ordem institucional e abriam espaço para a “pequena política” ou para a “política
de campanário”, expressões usualmente encontradas na época.
Como vimos, Prudente havia agregado em seu governo dois grupos distintos, os florianistas (alguns
deles jacobinos, ligados aos militares) e o grupo civil que sustentara a sua candidatura presidencial2. As
divergências não tardaram a aparecer, o que fez do Parlamento palco de disputas pelo controle do
regime recém-institucionalizado. Para Sales, tais divergências se explicavam pela partidarização do
regime, as quais planejava pôr fim, pois eram produtoras de um regime anárquico. Mas o que se
entendia por anarquia no período? Segundo o dicionário de Moraes e Silva (1889, tomo 1, p. 171),
anarquia era um estado de desordem, em razão da ausência de autoridade de quem governa, pelo
desrespeito às leis e onde o povo faz o que quer. Ora, essa era exatamente a visão que Campos Sales
tinha do governo anterior. Talvez por essa razão o deputado situacionista Arthur Rios tenha
qualificado o discurso de Sales como o necrológio do prudentismo.
Em seguida Sales manifesta seu compromisso com o federalismo e com o presidencialismo, dois
princípios que serviriam de justificativa para o conjunto de suas ações à frente do governo:
Desde que, portanto, se faz mister uma afirmação de princípios em torno das duas questões constitucionais que têm
aberto mais vasto campo às divergências [...] apresso-me a declarar [...] que me oponho resolutamente,
intransigentemente – a república federativa à república unitária – a república presidencial à república parlamentar
(SALES, 2007, p. 15).

O modelo de república defendido por Sales, como se vê, era o que valorizava a instituição da
presidência, em detrimento do Parlamento. Ao reunir quatro conceitos em um só argumento, associa
parlamentarismo a unitarismo e federalismo a presidencialismo, como se outras combinações não
fossem possíveis. Mais adiante no discurso, ele afirmaria que o presidencialismo sempre fora a essência
das repúblicas e que, ao contrário, o parlamentarismo o fora das monarquias constitucionais (SALES,
2007, p. 19).
Importante destacar uma mudança na compreensão que se tinha até então de monarquia e de suas
relações com o Parlamento. No manifesto de 1870 a monarquia constitucional vinha associada ao
despotismo. Dezessete anos depois, no texto de Campos Sales, a monarquia constitucional teve sua
existência reconhecida, e embora ainda estivesse associada a um regime centralizado, não era vista
como despótica, como se observará nas análises a seguir.
Tanto no dicionário de Bluteau de 1720 como no de Morais e Silva em suas edições de 1831 e 1858, o
conceito de monarquia esteve sempre associado ao poder de um único governante, o que o opunha aos
conceitos de democracia e de aristocracia. Em Bluteau (1720, t.V, p. 553-4) o conceito vinha associado
ao de despotismo, o que se justifica pelo período em que fora escrito.
Interessante que o dicionário de 1831 mantinha a mesma associação entre monarquia e o poder de
um só governante, como observamos no verbete que se segue:
Monarca é o que governa só, sem ter outrem que participe com ele do governo. O Rei não é monarca quando os
poderes políticos se acham repartidos. Em Lacedemônia havia dois reis e nenhum deles era monarca, nem o governo
daquela República era monárquico. O rei da Inglaterra não é monarca, pois não governa só (MORAIS E SILVA, 1831,
tomo II, p. 327).

Como se percebe, o regime inglês não era considerado monárquico, pois o rei não governava
sozinho, já que obedecia ao Parlamento. Nem o regime espartano, quando predominava a diarquia.
Portanto, o que definia a forma de governo era apenas o critério numérico: 1 governante equivale à
monarquia.
Encontramos pela primeira vez diferentes modalidades de monarquia no dicionário de Vieira (1873,
tomo 4, p.299), no qual o conceito passou a significar governo de um estado por um só chefe,
podendo, no entanto, ser eletivo, hereditário ou constitucional. Esta última modalidade é definida
como aquela em que “a balança e o exercício dos poderes são regulados por uma constituição”.
Portanto, podemos pressupor que a vulgarização da ideia de uma “monarquia constitucional”, não
necessariamente oposta à ideia de repartição de poder, tenha se dado no Brasil ao longo da década de
sessenta dos oitocentos. A partir de 1870 a Inglaterra poderia ser considerada uma monarquia.
O conceito adquiriu maior detalhamento em um novo verbete, escrito quase vinte anos depois e
mais próximo ao período em que Campos Sales discursava. Segundo o dicionário de Almeida (1891,
tomo II, p. 368), monarquia constitucional seria aquela em que o monarca teria a sua ação limitada
pela constituição e o poder soberano se dividiria entre ele e o Parlamento, formado pelos legítimos
representantes da nação, o que aliás, segundo o autor do dicionário, raramente ocorria.
Pelo levantamento realizado, percebe-se claramente a mudança do conceito de monarquia ao longo
do tempo e suas diferentes apropriações pelos grupos. Lembre-se que Campos Sales fora um
republicano histórico, e durante sua trajetória de vida política, os conceitos foram transformados, bem
como suas concepções políticas, que se manifestavam através deles. Talvez por estar ainda
influenciado pela semântica de sua juventude, tenha associado, no discurso em tela, a monarquia ao
unitarismo e se desvencilhado ideologicamente do Parlamentarismo, como se uma república
parlamentar fosse algo abominável, por estar próximo ao regime pregresso, contra o qual empenhara-
se. E, por essa razão, tenha construído os trinômios autoexcludentes:

1 república presidencialismo federalismo

2 monarquia parlamentarismo unitarismo

Diferentemente do conceito de monarquia, que integrava o vocabulário brasileiro desde as primeiras


décadas do século XVIII, o conceito de “parlamentarismo” não existia até pelo menos o final dos
oitocentos, não obstante a existência de experiências parlamentaristas em alguns países. Até então só
apareciam palavras como “parlamento” ou “parlamentar”. Encontramos o conceito pela primeira vez
no dicionário de Almeida (1891, tomo II, p. 483-84), como um sistema no qual ocorria a
preponderância do Legislativo nos negócios do Estado, através da “supremacia deste poder sobre os
outros poderes da nação, especialmente sobre o poder Executivo, que só pode exercer-se
constitucionalmente, tendo o governo maioria no corpo legislativo, que é esse mesmo Parlamento”. Só
na década de 1890 o conceito de parlamentarismo apareceria pela primeira vez como designativo de
um sistema político distinto do presidencialismo.
Forma semelhante ocorreu com o conceito de “presidencialismo”, cujo significante não chega a
aparecer no dicionário de 1891, mas seu significado aparece através do termo “presidencial”: “Diz-se
da organização política americana, em que o presidente é o único responsável pelo poder executivo,
que nele se concentra. É este o sistema dos Estados Unidos e o atual do Brasil, do Chile e de outras
repúblicas americanas” (ALMEIDA, 1891, tomo II, p. 591). A ideia de um sistema político
presidencialista já se encontrava presente, em que pese a ausência do termo.
Como vimos, com base na gramática política do período em que Campos Sales proferiu o seu
discurso, a ideia de uma república parlamentarista não era muito difundida, a despeito de já fazer parte
do vocabulário corrente a monarquia constitucional parlamentarista. O presidencialismo estava
associado às experiências exclusivamente republicanas, a exemplo dos Estados Unidos, Chile e do
próprio Brasil. Dessa maneira, era esperado que associações entre formas e sistemas de governo
ocorressem no formato pensado por Campos Sales: parlamentarismo à monarquia e presidencialismo
à república. Em suas próprias palavras: “Daí vem o poder dizer-se com a máxima exatidão, que o
parlamentarismo é planta que só pode viver nas estufas da monarquia” (SALES, 2007, p. 19-20).
Ainda a defender seu argumento, Campos Sales trouxe para o discurso a experiência francesa,
segundo ele, dotada de um “amor quase supersticioso” ao regime parlamentar, o que resultara em
“enfermidades endêmicas do sistema” e em impotência da câmara. Agregava ao argumento uma
estatística que atestava que entre 1870 e 1896 a França teria mudado 39 vezes de governo e havia
feito 47 mudanças só nos titulares de seu departamento de finanças. Mais adiante no texto, Sales
reiterava que a possibilidade de o Executivo ser dissolvido pelo Parlamento reduzia ambos os poderes à
impotência e à esterilidade. Com base em sua interpretação sobre o modelo francês, infere-se a
rejeição de Sales à existência de um legislativo soberano, por gerar instabilidade política. Tal rejeição se
explicava em parte pela experiência pregressa, mas também pelas suas crenças em um poder mais
centralizado nas mãos do presidente da república.
Ademais, é interessante destacar que todas as metáforas alusivas ao parlamentarismo e à
monarquia parlamentar, inseridas no texto pelo autor, eram organicistas (planta na estufa,
enfermidade, endemia, impotência, esterilidade) e realçavam o seu valor negativo ao associá-las às
doenças.
Com fim de aprofundar o debate sobre sua proposta, tornava explícito seu entendimento pessoal
acerca do presidencialismo, para ele incompatível com qualquer tipo de deliberação colegiada. Tanto
neste discurso como em outros que estariam por vir, Sales reafirmaria o papel do ministério como
órgão eminentemente consultivo. Sua preferência era ouvir seus ministros individualmente, a ter que
realizar reuniões ministeriais, nas quais corria o risco de mudar de ideia, o que para ele significava perda
de autoridade.
Valeu-se da experiência suíça como um contraponto, pois lá prevalecia – e ainda prevalece até os dias
atuais – uma confederação, na qual o legislativo e o executivo decidiam coletivamente os destinos da
nação. Para ele, não era esse o modelo brasileiro, já que não seria o Executivo uma comissão delegada
pelo Parlamento. Por não sermos uma confederação, era esperado um Executivo hipertrofiado.
Não obstante a afirmação do poder da instituição presidencial, Sales desejava manter com o
Congresso uma relação harmônica e cordial, nos termos a seguir descritos:
A diferença quanto à forma consiste principalmente em que, no governo de Gabinete, o Parlamento exerce uma
influência direta e preponderante sobre a ação do Executivo, e isto confere-lhe até certo ponto a partilha da função
governamental. No regime presidencial, porém, o Executivo desenvolve a sua ação em uma esfera de completa
independência, de tal sorte que o Legislativo, igualmente soberano no exercício de suas funções, não governa nem
administra (SALES, 2007, p. 24-25).

Segundo seu modelo, não caberia ao Congresso sequer influenciar o seu governo, o que garantiria ao
Presidente níveis máximos de autonomia de gestão. Uma vez mais se explica a crítica de Arthur Rios,
que dava a Abranches os pêsames pela morte da república.
Em apoio a seu argumento, Sales trouxe para o discurso uma de suas referências intelectuais,
Auguste Carlier, quando afirmava que o Congresso deveria ser dirigido pelo Executivo. E que ambos os
poderes, ao serem eleitos no mesmo sufrágio, deveriam garantir maioria, para que a estabilidade
institucional pudesse resultar da união entre eles.
Embora o autor não explicite, acreditamos que Campos Sales estivesse se referindo ao livro de
Carlier intitulado: “A República Americana – Os Estados Unidos”, obra póstuma e publicada na
imprensa pelo seu amigo Cláudio Jannet. A obra era sobre os Estados Unidos, mas dirigida ao público
francês e consistia em um estudo sobre suas leis e sua organização política. O primeiro volume era
dedicado ao período colonial, à Guerra de Independência e à Confederação. O segundo volume, à
Constituição de 1787, no qual o autor discutia os direitos do Estado. Os demais capítulos tratavam dos
governos locais e do sistema judicial estadunidense (BURGESS, 1891, p.164-165). Os Estados Unidos
aparecem como referência, a partir da ótica de um francês, que defendia os interesses do Estado, sobre
as unidades confederadas, e do Executivo, sobre o Congresso. Não surpreende Campos Sales tê-lo
trazido para seu discurso.
Até então, como o leitor pode perceber, a sua fala no banquete tratava de sua trajetória política e de
seus ideais. Ao aproximar-se da segunda metade do texto, tornou-se mais pragmático, ao afirmar que
não faria reformas políticas ou institucionais profundas, para que pudesse ter toda a atenção voltada
para a questão financeira do país. Como é sabido, o aumento dos gastos públicos associado às
contínuas quedas de preços do café no mercado internacional, conduziam o país à moratória, incapaz
que era de honrar seus compromissos financeiros externos. A viagem de Campos Sales à Europa com o
fim de alongar o perfil da dívida, bem como obter novos créditos, foi feita mesmo antes de ser
empossado, tal o nível de gravidade que se encontravam as contas públicas.
No entendimento de Campos Sales, a solução da “crise do encilhamento” e suas decorrências
passava pela aplicação de medidas ortodoxas, que implicavam corte de despesas públicas,
arrendamento de bens estatais (o termo “privatização” não era usado no período), valorização da
moeda nacional, combate à carestia (também não era disseminado o termo “inflação”), aumento de
impostos, fim do protecionismo tarifário, estímulo à imigração do capital externo para o país, entre
outras medidas impopulares. Esse conjunto de medidas prejudicaria os interesses, não só de setores
mais marginalizados da população como também dos setores exportadores. Para que pudessem ser
aprovadas, Campos Sales necessitaria garantir uma maioria parlamentar que lhe fosse favorável.
Sua expectativa era a de contar com o patriotismo dos homens públicos, que para preservar os
interesses do país, ameaçado pelas crises econômica e política sem precedentes, abririam mão de seus
interesses oposicionistas, em prol de um consenso, que desse garantias ao Executivo na árdua tarefa
de resolver os problemas em curso. É por essa razão que foi trazido para o texto o caso da construção
do Canal do Panamá. A companhia francesa responsável pela construção do Canal fora acusada de
corrupção, por subornar políticos e técnicos para que omitissem informações sobre as crises
financeiras vividas por ela. O escândalo estourou no Parlamento francês em 1892 e ficou conhecido
como o maior escândalo de corrupção do século XIX. Na ocasião, Sales afirma que a oposição
monarquista tentou valer-se da situação para obter vantagens políticas contra os republicanos. Na
contramão de seus correligionários, o Duque de Broglie, que segundo Sales teria se oposto a seus
pares, agira com puro patriotismo ao afirmar: “[...] se a monarquia pudesse ser restaurada, não era
pela porta da desonra da França que o Rei deveria entrar”, ao que Sales aduziu, esperar que: “[...]
nenhum partido político pretenda entrar para o poder no Brasil pela porta da desonra da República”
(SALLES, 2007, p. 26). Com esta fala e com este exemplo Sales reafirmava seu antipartidarismo e suas
dificuldades em governar com as oposições. Realçava igualmente a sua intenção de ter total apoio as
suas medidas de combate à crise econômica. Para tal, precisaria construir uma sólida maioria no
Parlamento, que lhe conferisse poderes discricionários.
Ao valer-se de novo das metáforas organicistas, especialmente as relacionadas mais uma vez às
doenças, sugeria a aplicação de remédios enérgicos para que o organismo econômico ganhasse
vitalidade. Como exemplo de tais medidas, citava o êxito do governo mexicano, sob a condução de
Porfírio Diaz. Mas as referências ao líder mexicano eram só elogiosas, omitindo-se as perseguições que
fazia a seus opositores e o controle que exercia sobre o voto. Sales projetava construir a mesma
estabilidade da “Paz Porfiriana”: governar através do controle da oposição, sob a justificativa que a
nação estava em crise e, por esta razão, fazia-se necessário ser patriota ao concordar com todas as
medidas impopulares que pretendia implantar. Ao concluir os feitos do presidente mexicano afirmou:
“Eis os maravilhosos frutos de um período governamental de 20 anos de paz e de ordem” (SALES, 2007,
p. 29) Completava-se o funeral anunciado por Arthur Rios.
Ao encerrar seu discurso, Sales referiu-se a uma frase de Waldeck-Rousseau, sobre a vontade que
um governante deve ter no exercício de suas funções. Menos importante que a frase, que era bem
simples, é a referência ao personagem no discurso. Pierre Waldeck-Rousseau (1846-1904) foi um
político francês republicano, que em seu programa eleitoral para as eleições da Câmara Federal da
Terceira República Francesa, comprometeu-se a respeitar todas as liberdades, exceto as contrárias às
instituições do país e à ordem social3. O político referenciado era portador de alguns valores defendidos
por Campos Sales, como o republicanismo, a obsessão pela ordem, o compromisso com a
secularização e as relações de simpatia com Gambetta, valor este compartilhado por boa parte dos
republicanos da propaganda.
DAS REPRESENTAÇÕES À PRÁTICA: A POLÍTICA DOS ESTADOS E O MECANISMO
VERIFICADOR DE PODERES
A plataforma de Campos Sales, conforme analisado, definiu as bases do seu futuro governo, austero
em termos econômicos e centralizador no campo das relações políticas. No contexto em questão, a
resolução dos conflitos políticos era fundamental para a aprovação das modificações que tinham o
intuito de colocar as contas do país em ordem. Para tanto, Sales necessitava de um legislativo coeso e
que não colocasse obstáculos às suas reformas. Contudo, as divergências verificadas na Câmara dos
Deputados durante o mandato de seu antecessor, Prudente de Morais, indicava que a obtenção do
apoio do legislativo não seria algo simples.
Foi para evitar tais experiências negativas pregressas que Campos Sales propôs a política dos
estados, como um esforço em construir uma maioria legislativa com ele alinhada, para que o
Congresso estivesse sob seu controle. Em carta dirigida ao liberal gaúcho Assis Brasil, que por suas
convicções encontrava-se afastado da bancada de seu estado – vinculada majoritariamente ao
florianismo – Campos Sales lhe propôs uma aliança em torno do Partido Republicano, recuperado por
ele das cinzas, uma vez que após a fundação do PRF, não havia outra agremiação nacional que
articulasse os remanescentes da propaganda. Assim dizia Sales:
O Glycerismo, que é o partido de todo mundo é a confusão, a Babel política. É preciso acabar com isso. Nessas ideias, o
Presidente da República deve governar em cada estado, com os elementos políticos que se filiarem a seu partido. [...]
Como deve prever, não farei exceção para o Rio Grande ou outro qualquer estado. [...] Vê você que, se os seus amigos
organizarem, filiados ao Partido Republicano, terão direito, não às simpatias, mas ao apoio dedicado do Governo
Federal, como correligionários que serão4.
Nota-se que a carta fora escrita um mês depois de proferido o discurso analisado e já anunciava o
que Sales entendia por política dos estados. Para além dos procedimentos institucionais levados a cabo
no parlamento, as alianças estavam sendo costuradas antes mesmo de sua posse, o que nos leva a
perceber que se tratava de um projeto antigo e bem amadurecido ao longo dos anos. Assis Brasil não
representava a corrente dominante entre os gaúchos. Mas como um dos fins primordiais da política de
Sales era a eliminação do radicalismo florianista, as articulações passavam pelo fortalecimento de
oligarquias dissidentes e não exclusivamente pelas situacionistas.
Integrava a proposta o princípio da não intervenção do Executivo sobre as unidades federadas. Sales
foi claro ao afirmar que o Presidente não interferiria sobre os governos eleitos, embora só conferisse
prestígio aos correligionários, ou seja, àqueles comprometidos com o Partido Republicano. Em suas
palavras: “não intervir para depor e organizar governos: aceitar o que estiver constituído, dar-lhe todas
as garantias, embora o prestígio partidário tenha de aproveitar somente, exclusivamente aos
correligionários” (DEBES, 1978, p. 438, apud). Mas não era assim que tratava o Rio Grande do Sul, que
lhe fora oposição, por estar ligado às hostes florianistas. Ao favorecer a liderança da dissidência gaúcha
– representada por Assis Brasil – interferia politicamente sobre as disputas internas do Rio Grande,
com o fim de alçar seu correligionário no controle do estado. Seu apoio somente ao situacionismo era
relativo.
Como vimos em seu discurso, Campos Sales almejava o consenso, pois via as divergências como
ações de facções desestabilizadoras da república. Por outro lado, desejava um parlamento que se
submetesse ao executivo, hipertrofiado pela concepção que tinha de presidencialismo. Um governo
superior ao da chamada “política de campanário”, que despendia forças em disputas que
desestabilizavam o congresso, a nação e colocava em risco o projeto republicano. Como visto, para
Sales, o mal da república brasileira não estava no regime, mas no modelo adotado, excessivamente
liberal e sem um forte centro de controle, neste caso, o executivo. Seu ideal de república era o que
fosse capaz de concentrar forças na presidência, ainda que nesta conformação o legislativo figurasse
como um poder auxiliar, isento de conflitos e pronto para sancionar os atos do Presidente. A solução,
portanto, passava pelo controle das disputas políticas e das oposições.
Ao propor a política dos estados, Sales tentava transferir as disputas do centro da nação para a
periferia. A partir de então, caberia às oligarquias a criação e manutenção de mecanismos de
organização e de controle dos seus membros e de suas querelas. Assim, as contendas partidárias
ficariam confinadas nos estados e, posteriormente, só chegaria ao governo federal o produto dos
embates eleitorais, ou seja, uma bancada situacionista.
Ao relembrarmos as concepções expressas por Campos Sales no discurso de apresentação de sua
plataforma, podemos ponderar que o deslocamento das contendas para os estados implicava a
concretização de suas ideias de reconfiguração das responsabilidades políticas no jogo oligárquico. Isto
é, por um lado a sua proposta elegia o âmbito federal como o espaço do consenso, da alta política, sob
a responsabilidade do chefe de Estado, nesse caso, o Presidente. Por outro, definia a arena estadual,
sob o controle dos chefes de partido, os governadores, como o locus de resolução dos conflitos,
transformando-os em chefes de partido. Por essa redefinição do papel da presidência e dos governos
regionais, o presidente ainda auferia a possibilidade de se eximir de negociações com o Congresso,
bastava se reportar, quando necessário, aos patronos das bancadas. O novo padrão de relacionamento
político, portanto, se sobrepunha ao legislativo e passava a se processar entre executivos, ou melhor,
entre chefes, de Estado e de partidos.
Todavia, tal proposição, obviamente, demandava esforço dos grupos oligárquicos para a conciliação
dos interesses de suas facções e para a resolução de suas contendas em casa. Em alguns casos, a
proposta de Campos Sales veio ao encontro do processo de organização de agremiações políticas
regionais, os partidos republicanos. Caberia a estas organizações, sob o comando do chefe executivo
estadual, o controle das rivalidades e a formação de bancadas, conforme o acordo proposto por Sales.
Porém, na maioria dos estados, tais partidos não conseguiram, durante a Primeira República, obter um
bom nível de conciliação interna de suas elites. Entre os grandes estados, a Bahia e o Rio de Janeiro, por
exemplo, embora detivessem bancadas numerosas na Câmara dos Deputados, nem sempre puderam
desfrutar do potencial de suas representações em função das disputas faccionais que os cindiam5. Em
contraponto, unidades federativas como São Paulo, Minas Gerais e Rio Grande do Sul conseguiram
obter um razoável nível de estabilidade interna em suas organizações, o que lhes ajudou a
desempenhar papéis mais relevantes na orquestração política republicana.
Um caso exemplar de controle oligárquico – que se constituía em exceção a confirmar a regra – era o
do Partido Republicano Mineiro/PRM, que foi reorganizado por Silviano Brandão com o fim de
construir uma conciliação interna, que passava pelo afastamento de dissidências que assolavam o
estado na primeira década republicana (VISCARDI, 1999). À época da recriação do partido, o
presidente de Minas conclamou a elite estadual do seguinte modo:
Unidos, constituiremos uma força poderosa cuja collaboração, bem dirigida será de inestimável valor para a solução das
grandes questões nacionaes; por outro lado seremos devidamente respeitados e considerados, como grande força
política que somos, e poderemos vencer sem grandes dificuldades (RESENDE, 1982, p. 167, apud).

O início do discurso de Brandão é emblemático, pois destacou o que deveria ser o princípio fundador
do Novo PRM, isto é, a união. De fato, ao longo da Primeira República, vencida a sua primeira década, o
PRM se apresentou como uma das instituições partidárias mais coesas do país. Vários estudos6,
inclusive, atribuem o poderio de Minas Gerais nesse período à conciliação interna de suas elites em
torno do partido, o que precisa ser relativizado. Afinal, não se pode negligenciar que nem sempre a
elite mineira esteve unida. Em vários momentos, disputas internas cindiram as principais forças do
agrupamento político. Em que pesem tais momentos, dados sobre a capacidade eleitoral do PRM
impressionam, sobretudo quando comparados aos de outras unidades federadas.
Ao comparar as chapas do PRM com a relação de deputados reconhecidos pela Câmara entre os
anos 1900 e 1930, período de atuação desse partido até o limiar da primeira fase republicana, foi
possível verificar que, para quase a maior parte das vagas, os candidatos do PRM foram os vitoriosos
no final do processo (FIGUEIREDO, 2015). Considerando todos os pleitos federais, o PRM obteve o
reconhecimento de 91,89% dos candidatos que recomendou ao eleitorado. Outro dado a confirmar a
estabilidade é o índice de renovação dos parlamentares mineiros. Em termos percentuais, a média de
renovação da bancada mineira a cada legislatura foi de 31,30%. Em comparação com os números
nacionais, que ficaram em torno de 40%, segundo levantamento de Wanderley Guilherme dos Santos
(2013, p.15-17), a renovação dos representantes de Minas era menor que a média nacional, o que
pode ser explicado pela manutenção dos mesmos nomes nas chapas compostas para a disputa
eleitoral pelo PRM. Entre 1903 e 1930 o PRM teve uma renovação média entre os seus candidatos de
27,29%, ainda menor que a taxa de renovação de seus representantes no parlamento. Ou seja, Minas
renovava menos suas elites do que a média nacional, por lançar sempre os mesmos candidatos e
conseguir reelegê-los em sua maioria.
O baixo índice de renovação associado à capacidade de eleger quase 90% dos candidatos que
recomendava ao eleitorado, indicava tanto o elevado grau de estabilidade obtido pelo PRM quanto a
capacidade da agremiação em conter as dissidências internas e de repassar, para o âmbito federal, um
percentual de representantes da oposição muito limitado. Percentual inferior, inclusive, ao que
determinava a Lei 1.269, de 15 de novembro de 1904, também conhecida pelo nome de seu autor, o
deputado pernambucano Francisco de Assis Rosa e Silva (BRASIL, 1904). Essa Lei determinava que um
terço das vagas fosse destinado às minorias, ou seja, às oposições. Minas teria que ampliar sua disputa
interna, pois era menos competitiva do que a própria lei exigia.
Todavia, se os mineiros eram hábeis no controle de suas bancadas, o mesmo não ocorria com a
maior parte dos estados, o que demandou a atuação do instrumento coercitivo da política dos estados.
O desafio era grande: fazer com que as oligarquias estaduais garantissem a eleição exclusiva de
situacionistas, o que só seria possível a partir de um controle externo, ou seja, um mecanismo que
impedisse a posse das oposições, já que não tinham como deixar de elegê-las nos estados. Tratava-se,
pois, de uma intervenção branca do executivo federal sobre os resultados eleitorais dos estados, o que
não se faria sem custos. Todo esse esforço se daria em prol da construção de um parlamento
obediente aos anseios do presidente da república, conforme previra Sales em seu discurso no
banquete.
Para garantir seu intento, era preciso reestruturar um velho mecanismo de controle de entrada no
parlamento, a Comissão Verificadora de Poderes. Instituição fundada em 1823, ganharia no mandato
de Sales uma importância bem maior do que teve nos demais governos do Brasil, na medida em que
exerceria poderes de veto, à revelia dos resultados eleitorais, construídos no âmbito das unidades
federadas.
A cada três anos, período de mandato do legislativo federal, cerca de quinze dias antes da abertura
do Congresso Nacional, durante as sessões preparatórias, os candidatos eleitos para a Câmara
deveriam apresentar à mesa diretora interina da casa a ata de apuração das eleições a que
concorreram. A ata servia de diploma aos postulantes ao cargo e era emitida pelas Juntas Apuradoras
Distritais, que se reuniam na sede de cada região eleitoral para proceder à soma dos votos e para
registrar possíveis ilegalidades e contestações ao pleito relatadas pelas seções de votação7. Depois de
emitidos pela Junta, os diplomas eram depositados por cada um dos candidatos, segundo o Regimento
Interno, nas mãos do presidente da Câmara. A partir de então, cabia ao chefe da casa, a organização
do processo de verificação de poderes.
O presidente das sessões preparatórias possuía um papel central na composição das legislaturas,
pois a ele era destinada a responsabilidade pela composição da mesa diretora da Câmara, que deveria
ser formada por um princípio, no mínimo, curioso. De acordo com o Regimento Interno, o presidente
deveria convidar para servirem como secretários quatro deputados que lhe parecessem mais moços,
critério por demais subjetivo, o que ampliava a margem de manobra do cargo, tornando-o objeto de
acirrada disputa.
Além da composição da mesa, cabia ao presidente, após receber os diplomas, a nomeação de um
grupo, a comissão dos cinco, que ficava encarregado de analisar os documentos recebidos pelo
presidente e de relacioná-los em duas listas, uma de atas que revestiam as condições legais e outra
cujos diplomas apresentavam problemas ou contestações. Estes últimos eram analisados por turmas
de deputados sorteados e divididos em comissões de inquérito, que emitiam pareceres sobre a
legalidade de cada ata, assim como dos pleitos. Os pareceres eram submetidos à votação em plenário,
momento em que era decidida a sorte do candidato. Caso o parecer favorável ao diplomado fosse
rejeitado pelo plenário, ou o parecer contrário fosse acolhido, processava-se o que ficou conhecido na
historiografia como “degola”, isto é, o não reconhecimento de um candidato diplomado.
Como se pode notar, o processo de verificação de poderes constituía uma atividade própria do
parlamento. Então, como fazer com que o Presidente da República obtivesse capacidade de
intervenção nesse mecanismo de modo a conseguir degolar opositores que não haviam sido retidos
pelas oligarquias estaduais? A solução para esse ponto foi a reforma do Regimento Interno da Câmara,
proposta, em 1899, pelo deputado paraense Augusto Montenegro, que era o líder do governo na casa.
O conteúdo da reforma, embora aparentemente simples, foi capaz de produzir um importante meio
de intervenção na composição do legislativo e de guarnecer o pacto com um verdadeiro instrumento
de depuração. Com as modificações, Campos Sales conseguiu que a responsabilidade pela organização
de todo o processo de reconhecimento de poderes coubesse ao presidente interino da Câmara.
Portanto, a escolha desse cargo seria fundamental para a viabilidade da reforma. Anteriormente, o
presidente era o deputado mais velho, o que conferia incerteza quanto à obediência do legislativo ao
seu comando. A partir da reforma, o presidente interino seria o mesmo anterior, provisoriamente
reconduzido, caso fosse reeleito. Sales via como uma mudança significativa a intervenção sobre a
direção da Câmara, antes condicionada a um certificado de idade, capaz de oferecer surpresas
desagradáveis quanto ao responsável pela formação do legislativo. Por esse motivo, Costa Porto bem
analisou que, anteriormente à reforma, a disputa pelo controle da presidência da Câmara se dava numa
etapa prévia, a da eleição, quando grupos rivais procuravam eleger o deputado mais idoso (COSTA
PORTO, 1995, p. 193). Após a reforma, o interino era, pelo menos, resultado de escolhas consensuais
anteriores.
O resultado dessa alteração aparentemente simples se resumia à possibilidade de controlar o
processo de formação da comissão e, caso necessário, eliminar da direção do processo os postulantes
indesejados. Tal mudança regimental era mais importante do que a que estava por vir, pois sem ela não
se garantia o controle sobre o processo de verificação.
A segunda alteração dizia respeito à ata de apuração. Até aquele momento eram considerados
diplomas o título ou documento definido pelo regimento eleitoral (BRASIL, 1899, p. 04). Algo um
tanto vago e vulnerável às fraudes. A partir de então, passaram a ser considerados válidos apenas os
diplomas que fossem subscritos pela maioria da Junta Apuradora. Os que fossem assinados pela
minoria seriam considerados simples contestações (BRASIL, 1901, p. 04). Com essa alteração no
regimento da Câmara a verificação de poderes se tornou um potencial instrumento de formação de
maiorias parlamentares, pois detinha a possibilidade de eliminar, ou segundo o termo da época, de
“degolar”, as oposições.
Para alguns pesquisadores, após o pacto Campos Sales, a Comissão de Verificação de Poderes
passou a ter para a república uma importância análoga à do Poder Moderador no Império (LESSA,
1988, p. 111; CARVALHO, 2003, p. 412). Tal analogia se pauta, principalmente, na premissa do
controle sobre a formação das bancadas de deputados e, consequentemente, na formação de uma
ampla base legislativa de apoio ao governo. Todavia, essa analogia merece ressalvas. Enquanto o Poder
Moderador detinha a faculdade de dissolver legislaturas já formadas, a verificação dos diplomas era
capaz de impedir a entrada das oposições no parlamento. Sendo assim, evitavam-se intervenções
diretas do executivo no legislativo, o que poderia ser interpretado como contrário aos valores
republicanos ou como a apropriação de uma antiga prática monárquica. Pela verificação de poderes, a
intervenção na composição legislativa poderia atender aos interesses do executivo, mas era realizada
pelos próprios legisladores. Portanto, funcionaria melhor que o poder moderador: atingiria os mesmos
resultados sem ter o ônus de ser considerado um poder arbitrário.
A política dos estados foi defendida arduamente pelo seu propositor em sua autobiografia, publicada
em 1902 (SALES, 1983). Biógrafos que lhe foram posteriores8 mantiveram o discurso de êxito das
mudanças regimentais, responsáveis pela estabilização do regime republicano, no que foram seguidos
por vários historiadores e reforçados pelos livros didáticos. A memória que Campos Sales construiu
acerca de seu mandato e de si mesmo transformou-se em dos esquematismos explicativos mais
contundentes acerca da Primeira República. Passemos à análise do real impacto de tais mudanças
regimentais sobre a primeira eleição do parlamento, após instituídas.
Em 1900, confirmando as previsões de Campos Sales de intensa disputa pelo legislativo, foram
apresentadas na Câmara dos Deputados atas que excediam em muito as suas 212 cadeiras. No total,
segundo dados de Ricci e Zulini (2013, p. 98), foram entregues 290 diplomas, 78 além do número
legal. Este excedente indicava o grau de cisão entre as elites e o nível das disputas entre as facções pela
representação parlamentar. Informações mais específicas sobre o excedente de diplomas por estado
são fornecidos por Magalhães (1986, p. 76). Essa pesquisadora foi a primeira a levantar esses dados,
tendo encontrado valores um pouco diferentes, porém bem próximos aos de Ricci e Zulini. Para o ano
de 1900 ela encontrou 286 diplomas, 74 além do número legal. Na Tabela 01, é possível observar que o
excesso de diplomas proveio de 12 das 21 unidades federadas.
Tabela 01 Quantitativo, por estados, dos diplomas apresentados,
reconhecidos e não reconhecidos na Câmara dos Deputados em 19009
Número legal de Diplomas % de diplomas Diplomas Diplomas não % de diplomas não
Estado
diplomas apresentados excedentes reconhecidos reconhecidos reconhecidos
Amazonas 04 04 --- 04 --- ---
Pará 07 07 --- 07 --- ---
Maranhão 07 10 42,85 07 03 30
Piauí 04 08 100 04 04 50
Ceará 10 16 60 10 06 37,5
Rio G. do
04 04 --- 04 --- ---
Norte
Paraíba 05 13 160 05 08 61,53
Pernambuco 17 23 35,29 17 06 26,08
Alagoas 06 08 33,33 06 02 25
Sergipe 04 04 --- 04 --- ---
Bahia 22 44 100 22 22 50
Espírito
04 04 --- 04 --- ---
Santo
Rio de Janeiro 17 24 41,17 17 07 29,16
São Paulo 22 22 --- 22 --- ---
Paraná 04 04 --- 04 --- ---
Santa
04 07 75 04 03 42,85
Catarina
Rio Grande
16 16 --- 16 --- ---
do Sul
Minas Gerais 37 41 10,81 37 04 9,75
Goiás 04 08 100 04 04 50
Mato Grosso 04 04 --- 04 --- ---
Distrito
10 15 50 10 05 33.33
Federal
TOTAL 212 286 34,90 212 74 25,87
Fonte: Adaptado de (Magalhães, 1986, p. 76). 9

Como se vê na tabela, em 1900, apesar do pacto proposto por Campos Sales, mais da metade das
oligarquias não conseguiram conter as oposições dentro dos limites de seus estados e quatro delas
expressavam árduas divergências, o que revelava a existência de competitividade política interna.
Portanto, não conseguiram depurar as dissidências nas etapas da candidatura, da eleição, da apuração
e o pior, nem mesmo na concessão dos diplomas. A falha que possibilitou este grande volume de atas,
dentre outros aspectos, foi que o pacto havia depositado confiança na capacidade das oligarquias para
conter as disputas de suas bases políticas, o que não aconteceu.
Acreditou-se que a exigência de que o diploma fosse assinado pela maioria da junta apuradora
cercearia as chamadas “duplicatas”, ou seja, atas assinadas por alguns membros da junta e
apresentadas na Câmara, por qualquer candidato, contendo resultados que os elegiam10. Todavia, este
critério falhou. Afinal, a grande quantidade de diplomas indicava que mais da metade das oligarquias
não conseguira conciliar os seus membros ou eliminar os dissidentes e, muito menos, evitar a
confecção de duplicatas. A situação mais grave com relação às duplicatas foi registrada, em termos
proporcionais, nos estados da Paraíba, do Piauí, da Bahia e de Goiás. O primeiro teve depurados
61,53% dos diplomas que apresentou. Os demais, 50%. A Bahia foi o que apresentou o maior número
de diplomas em duplicata, ao todo foram 22, 100% de sua bancada. Em todos os distritos eleitorais
baianos foram confeccionados diplomas em dobro, o que evidencia a divisão da elite do estado.
Segundo Magalhães: “Cada facção tentava assegurar o lugar de seu representante na Câmara Federal e
as duplicatas eram o recurso utilizado para os grupos políticos que não conseguiam vencer as eleições
locais” (MAGALHÃES, 1986, p. 48).
Embora as duplicatas, conforme determinação do novo regimento, fossem “filtradas” pela comissão
dos cinco nas primeiras sessões preparatórias e passassem a ser consideradas apenas contestações,
elas traziam dificuldades para o processo de verificação de poderes e atrasos na formação do
parlamento. Duplicatas e contestações implicavam na realização de um minucioso, e por vezes
demorado, procedimento de análise do pleito pelas comissões de inquérito. Por este motivo, não era
incomum, até 1930, que o parecer sobre o diploma de determinado candidato fosse concluído e votado
pelo plenário apenas após a abertura das sessões ordinárias do Congresso Nacional.
Diante dos dados apresentados acerca especificamente da legislatura de 1900, podemos considerar
que a política dos estados teve problemas em sua implementação. Ela falhou na capacidade de confinar
as disputas pelo parlamento exclusivamente nos estados. Por essa razão, o nível de intervenção do
parlamento federal sobre a composição das bancadas teve que ser ampliado, com o fim de depurar as
dissidências do seu interior. Afinal, 64 dos 74 candidatos que apresentaram diplomas duplicados em
1900 foram “degolados”. Tratava-se de uma nova lição a ser seguida no futuro: as duplicatas não
seriam mais toleradas.
O excesso de diplomas apresentados à Câmara dos deputados durante as sessões preparatórias de
1900 evidenciou dois importantes aspectos. O primeiro se refere à dificuldade das oligarquias em
congregar as suas facções. Para conter os dissidentes seria necessário mais do que a conclamação a um
novo tipo relacionamento político pautado em colaboração, como o que propunha a política dos
estados. Além disso, se o próprio Campos Sales definiu os estados como o campo das disputas
partidárias, era de se esperar que a possibilidade de se estabelecer um novo padrão de relacionamento
político fosse algo difícil e sem a garantia de resultados. Nesse sentido, a garantia do veto aos diplomas
dos dissidentes na última instância do processo eleitoral foi o que assegurou ao presidente a obtenção
da maioria no legislativo, comprometendo de forma mais transparente a autonomia dos poderes.
É importante indicar que no pleito de 1900 as duplicatas não foram utilizadas apenas pelas
dissidências. Políticos favoráveis a Campos Sales também encontraram resistência para obter o
diploma em seus distritos, e, para tentar garantir a disputa pela vaga no âmbito parlamentar,
incorreram na confecção de atas assinadas pela minoria da junta de apuradora. Por esse motivo, nem
todas as duplicatas foram depuradas. Um exemplo desse caso pode ser observado no primeiro distrito
da capital federal, no qual os candidatos Artur Ambrosino Herédia de Sá e João Batista de Sampaio
Ferraz apresentaram, cada um, duas atas, uma assinada pela maioria, outra pela minoria da junta.
Situação que ao final do processo de reconhecimento de poderes era curiosa, pois tiveram tanto
diplomas reconhecidos quanto degolados (BRASIL, 1900, p. 10-12). Portanto, se a suspeição com
relação às atas não foi superada com a exigência da assinatura pela maioria da junta, o que prevaleceu
ao final do processo de reconhecimento de poderes foi o critério político, seja para reconhecer ou para
degolar candidatos, no âmbito federal e não estadual.
O foco dado nessas reflexões às eleições de 1900 teve o intuito de analisar como a política dos
estados se saiu em seu primeiro teste, e ainda sob o mandato do seu idealizador. Como se pode
concluir, nem tudo saiu conforme o plano de Campos Sales, embora os resultados finais possam ter
sido atingidos, ou seja, os deputados degolados tenham sido majoritariamente os de oposição, o que
não se pode afirmar com segurança. Para que esse provável êxito seja comprovado, necessário se faz
um levantamento comparativo entre os candidatos apoiados pelos governadores e aqueles diplomados
pelo parlamento, o que precisaria ser feito por pesquisas adicionais no âmbito de cada estado, sem o
que, estamos a tomar a realidade pela norma.
Nosso objetivo para os fins deste texto, menos do que apontar os limites e resultados das alterações
regimentais propostas por Sales, era o de relacioná-las ao seu discurso político. Ao apresentarmos ao
leitor alguns princípios e convicções anunciados por Campos Sales em sua plataforma eleitoral, nosso
objetivo era compreender de que forma a política dos estados fora criada e para que se destinava. Por
essa razão, nos preocupamos em aprofundar sobre seu pensamento político e sobre a própria reforma.
Tal análise nos levou a algumas conclusões, que ora sintetizamos.
Em sua plataforma eleitoral percebemos uma preocupação de Sales em se autovangloriar, como
uma estratégia que o qualificasse para a disputa do mais alto cargo da nação. Por governar na primeira
década do novo regime, era normal que visse a república sob constante ameaça, tanto por parte dos
restauradores quanto dos republicanos radicais. Daí se explicam suas duras críticas ao jacobinismo, ao
PRF, à gestão de Prudente de Morais e aos partidos políticos em geral.
Ao assumir, precisava extinguir todo e qualquer resquício das divergências que dividiam os
deputados do tempo do prudentismo. Degolar grupos que não estivessem afinados com os partidos
republicanos no poder era condição indispensável à governança. Por essa razão, o primeiro embate
eleitoral de seu governo mereceria maior atenção, ou seja, as eleições da legislatura de 1900.
Acreditava ele poder conter as dissidências para colocar em prática sua prioridade, que era o controle
das contas públicas.
Seu autoritarismo não contemplava nenhuma possibilidade de divergência. Por isso não consultou
ninguém, nem nenhuma agremiação política de seu tempo sobre seu programa de governo. Quando
criticado, sentia-se injustiçado ou traído. Avesso aos conflitos, entendia as divergências como obra da
“baixa política”, que se contrapunha à harmonia de poderes, objeto de sua “alta política”. Idealizava um
parlamento que representasse interesses mais nobres, o que passava pelo esvaziamento das disputas
locais. Em sua visão, a política dos estados representaria a expressão da alta política, capaz de lhe dar
condições do exercício de um mandato imune às divergências.
Campos Sales em seu discurso demonstrava profundo apreço pelo federalismo, ao associá-lo à
própria essência da república e ao presidencialismo. Em seu entendimento, este tripé não poderia ser
desfeito. Conceitualmente, se opunha ao unitarismo, o que remetia ao regime monárquico. O modelo
por ele idealizado passava por uma administração que envolvesse harmonia entre os entes federativos
e entre eles e a União (“o que pensam os estados, pensa a União”, diria mais tarde em sua
autobiografia). Os limites de autonomia dos estados estavam fluidamente delimitados pelo artigo
sexto da Constituição de 1891, o que possibilitava intervenções do executivo federal sobre as
oligarquias estaduais. Para Sales tais intervenções seriam evitadas, caso houvesse consonância de
interesses entre os dois entes federativos, só possível a partir do controle sobre a composição do
parlamento federal. Era esse o sentido da política dos estados. No entanto, como visto, a distância
entre a norma e as práticas política de Sales em seu primeiro teste, foi considerável. Ao ter que degolar
cerca de ¼ dos deputados que se diziam eleitos, interferiu sobre a composição das bancadas da maior
parte dos estados, sendo eles pequenos ou grandes, aliados ou não. Para manter seu governo
razoavelmente estável, teve que exercer efetivo controle sobre o parlamento, garantindo pelo
regimento, o que não se conseguia fazer pelo consenso político. Este modelo muito próprio de
federalismo ia de encontro a todas as teorias de freios e contrapesos, composta muito mais pelos
primeiros do que pelos segundos.
Em seu discurso, a concentração de poder sobre a instituição “presidência da república” era a
garantia da realização da alta política. Planejava ser, após eleito, um respeitado chefe de estado, capaz
de gerenciar os interesses sobre o parlamento. Quando atribuiu aos governadores a responsabilidade
pelo controle da composição de suas bancadas, na prática feriu a autonomia do legislativo, na medida
em que sua composição passa a ser resultante de um acordo entre o executivo estadual e o federal, à
revelia do congresso e das assembleias dos estados. O princípio de harmonia entre os três poderes
estava já comprometido e o mais prejudicado em sua autonomia era claramente o legislativo federal.
Vimos em seu discurso a rejeição que tinha às experiências partidárias pregressas, sobretudo às do
período de seu antecessor, consideradas por ele meras facções. Seu apartidarismo pragmático –
limitado à esfera federal, mas não às instâncias estaduais – associado à rejeição dos grupos políticos
que controlavam o congresso nacional no governo Prudente o deixaria isolado na presidência da
república e poderia inviabilizar seu mandato. A solução por ele pensada, antes mesmo de arvorar-se
como candidato, era controlar o processo de renovação do próximo parlamento, que ocorreria um ano
depois de sua posse. Para esse fim, precisava reconstruir um novo arco de alianças com as bancadas
dos estados, que eram compostas sob a direção das lideranças regionais situacionistas. Caso obtivesse
êxito na reconstrução das alianças, na eleição das chapas completas por elas apoiadas, estaria
garantida a maioria parlamentar para que pudesse oferecer ao país o amargo remédio para seus
problemas econômicos. Como o visto, sua intervenção teve que ser maior do que o esperado, uma vez
que os estados não responderam à altura de suas expectativas. O fato de ter que degolar mais de 70
deputados no primeiro teste efetivo após as reformas, lhe proporcionou ter acesso às dificuldades
futuras inesperadas: as bancadas estaduais continuariam a remeter suas dissidências para o
parlamento, que tinha agora um maior número de mecanismos inibidores, mas não necessariamente
eficazes. O papel mais interventor do Congresso geraria desgastes pelo uso repetido de sua guilhotina.
Mas a reforma não se limitava apenas à possibilidade de degola. Para que esse instrumento de fato
funcionasse, era necessário atribuir a condução de todo o processo a um nome de sua confiança. O
presidente da Câmara anterior era o mineiro Carlos Vaz de Melo, seu aliado político. Colocá-lo no
controle do processo de verificação era condição para seu êxito. Daí a alteração do regimento, para que
o presidente interino deixasse de ser o mais velho, para ser seu aliado.
A presidência de Campos Sales é superestimada em relação às demais da Primeira República. A ele á
atribuído o papel de estabilizador do regime, o de formulador do modelo de federalismo oligárquico,
que predominou por 41 anos, e o de resolutor da crise econômica derivada do encilhamento. Ele
próprio investiu muito na construção de sua imagem, publicando uma autobiografia e incentivando
seus aliados que construíssem outras acerca de seu período presidencial.
Muitas vezes procuramos na “política dos estados” uma motivação para além do período de sua
gestão, ou seja, imaginamos que Campos Sales tenha proposto alterações regimentais com o fim de
estabilizar a república por um período aquém de seu quatriênio. Mas é possível imaginar que, como
muitos, pensava apenas em garantir a governabilidade em seu mandato. Ao levar em conta tal
possibilidade, conferimos à reforma um status mais próximo ao que ela na prática teve ao longo do
regime, que longe esteve de ter sua estabilidade garantida por uma alteração no regimento de uma das
casas de um dos poderes de um ente federativo nacional. O que este capítulo demonstra é que há
inúmeros estudos adicionais a serem feitos acerca de sua gestão e que só serão inovadores, na medida
em que analisem mais criticamente as construções memorialísticas que ele fez sobre si mesmo e sobre
seu legado.
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1
Entre inúmeros autores que conferem este papel à política dos estados destacamos: Franco (1955, p. 479), Cardoso (1975, p. 47-
49), Silva (1975, p. 101-102), Carone (1988, p. 299 e 309), Lessa (1988, p. 99, 111 e 157), Iglesias (1993, p. 208-209) e Backes
(2006, p. 172-178).
2
Acerca do governo Prudente ver: Queiroz (1986), Witter (1987), Levine (1995), Penna (1997), entre outros.
3
W. Rousseau era partidário de L. Gambetta, do qual tornou-se Ministro do Interior em 1881. Embora muito católico, fora
partidário da laicização do Estado francês. Em 1894 tornara-se Senador e chegou a ser candidato à presidência, sem êxito.
4
Carta de C. Sales a Assis Brasil, de 24 de novembro de 1897. Debes (1978, p. 436-438).
5
Dentre os estudos que abordam as cisões da elite política baiana destacamos: Sampaio (1988), Sarmento e Brito (2014). Já sobre
as divisões da elite fluminense merecem destaque os estudos de Ferreira (1989) e Pinto (2011).
6
Entre eles destacamos: Martins (1987), Resende (1982) e Wirth (1982).
7
Em 1916 a Lei 3.208 alterou o processo eleitoral e, dentre as suas modificações, estava a relativa à apuração dos pleitos (BRASIL,
1916). Diferente da Lei 1.269, de 1904, que determinava o início da apuração nas seções eleitorais e a recontagem dos votos e
emissão do diploma pela Junta Apuradora Distrital, a Lei 3.208 aboliu as juntas distritais e instituiu a junta apuradora na capital de
cada estado. Sendo assim, a outorga do diploma deixou de ocorrer no interior para se dar nas capitais.
8
Aqui nos referimos a variados trabalhos: Ribas (1983), publicado em 1896, Guanabara (1983), publicado inicialmente em 1902,
Monteiro (1920) Alves Filho (1940); Magalhães (1941), Sales Júnior (1944), Debes (1978), dentre outros.
9
O cálculo da porcentagem de diplomas excedentes foi feito com base no número legal de diplomas por estado. Já com relação ao
cálculo da porcentagem de diplomas degolados, a base de cálculo foi o total de atas apresentadas à Câmara.
10
Em carta para Silviano Brandão, presidente de Minas, datada de 8 de fevereiro de 1890, Sales condenou as duplicatas e as
classificou como imorais e nocivas à República. Conforme ele: “Deve ser observado, com a mesma tristeza que eu, a multiplicidade
das duplicatas eleitorais, indecoroso sinal do grau de rebaixamento a que tem descido nossos costumes políticos. É indispensável e
urgentíssimo opor resistência a este descalabro moral a que tão criminosas ambições impelem a República” (LESSA, 1986, p. 107,
apud).
OS TELEGRAMAS DE HAIA
JOSÉ ALMINO DE ALENCAR

Diante de documentos que lhe pareçam atraentes – seja pelos personagens e fatos envolvidos ou
apenas porque ali se encontram, prontos para serem consultados –, um pesquisador muitas vezes não
resiste a explorá-los, mesmo sem estar armado no imediato de qualquer pergunta precisa1 ou
inquietação teórica relevante. Foi o que aconteceu quando me deparei com os arquivos da Fundação
Casa de Rui Barbosa, o conjunto dos telegramas trocados entre Rui Barbosa, Embaixador
Extraordinário e Plenipotenciário, Delegado do Brasil à Segunda Conferência da Paz em Haia, e o então
Ministro das Relações Exteriores, o Barão de Rio Branco.
Por ocasião daquela Conferência, inaugurada solenemente no dia 15 de junho de 1907 e encerrada
em 18 de outubro do mesmo ano, Rui Barbosa e Rio Branco mantiveram uma correspondência
telegráfica intensiva, ordenada de maneira a permitir a identificação rápida dos tópicos e das
referências surgidos durante o desenrolar dos trabalhos. Ao todo, foram 367 telegramas: 194
expedidos por Rio Branco2 e 173 enviados por Rui3, entre 9 de junho de 1907, data da primeira
mensagem do Barão, e 13 de dezembro do mesmo ano, quando Rui Barbosa remete o seu último
telegrama, pouco antes de viajar de volta para o Brasil, onde desembarcará no Rio de Janeiro, em 31 de
dezembro de 1907; perfazia-se, assim, uma média de 3,3 telegramas por dia durante os debates e de
2,3 telegramas por dia para todo o período da estadia de Rui na Europa4.
A frequência dos telegramas, a agilidade nas respostas e a presença de espírito reveladas nas
mensagens revestem o diálogo entre os dois homens públicos de uma estrutura dramatizada, vivaz,
por si só interessante e que vem acentuar certos traços expressivos na elaboração da posição da
delegação brasileira naquela Conferência, a primeira reunião multilateral da qual o país participou.
A edição anotada e comentada da totalidade dos telegramas será objeto de uma publicação em
separado. Aqui, tratarei de examinar conjuntos de mensagens agrupadas em torno de certos tópicos
que emergiam à época para a nossa diplomacia. Um deles, o da igualdade entre as nações em foros
internacionais, permanece em pauta até os dias de hoje.
O trabalho é dividido em duas seções e um pequeno epílogo: de início, faremos uma breve
apresentação da II Conferência da Paz de Haia, seu teor, seus antecedentes e o contexto internacional
em que ela se desenvolveu. A segunda seção, intitulada “A conferência e os telegramas” é, por sua vez,
subdividida em três: a primeira subseção tenta apreender, na sequência das comunicações entre Rui e
o Barão, elementos que definiriam a elaboração da posição brasileira e a estratégia de ação adotada
pela delegação do Brasil durante a Conferência. Nas outras duas subseções, “A questão Drago” e “O
recurso à arbitragem”, há duas questões selecionadas por causa da importância que assumiram
durante o desenrolar do encontro. Por exemplo, a questão da igualdade entre os países – na qual Rui
Barbosa se notabilizou e onde o Brasil assume uma posição de liderança – tem relevo especial durante
os debates sobre a criação do tribunal de arbitragem.
I. A SEGUNDA CONFERÊNCIA DA PAZ DE HAIA: ANTECEDENTES E O CONTEXTO
INTERNACIONAL E NACIONAL
I. 1. ANTECEDENTES E CONTEXTO INTERNACIONAL
Da Segunda Conferência de Haia, o senso comum reteve a imagem de uma primeira participação
importante do Brasil na política internacional, quando a delegação brasileira chefiada por Rui Barbosa
teria enfrentado as delegações das grandes potências na defesa da igualdade jurídica entre as nações.
Na maioria das vezes, desconhece-se o seu propósito, o quadro histórico em que se desenvolveu, assim
como se ignoram as suas eventuais repercussões futuras.
A crise financeira de 1873 que desencadeou uma profunda depressão nas economias europeias e nos
Estados Unidos até o final da década deu lugar a uma forte concentração das organizações produtivas
e das instituições financeiras, própria dos ciclos de crescimento: foi um período de enorme volume de
investimentos internacionais – quando ocorreram aumentos consideráveis e rápidos da produção e da
ocupação territorial, ajudados ainda por um grande fluxo de imigrantes da Europa e da Ásia para a
América. As potências mundiais engajavam-se na colonização de vastas porções dos continentes
africanos e asiáticos em busca de matéria-prima para alimentar o desenvolvimento industrial e o
consumo de uma população crescente; ou, simplesmente, impulsionadas pelo ânimo concorrencial
interimperialista.
A afirmação de novos e importantes atores no cenário mundial – os Estados Unidos, o Japão e a
Alemanha – e a multiplicação dos interesses comerciais e financeiros decorrentes, aumentavam as
possibilidades de confrontos de todo tipo. Ao mesmo tempo, mudava-se a escala do poderio político e
militar, e as inovações tecnológicas tornavam possível um arsenal bélico mais destrutivo que poderia
vir a compensar ou a redefinir as diferenças convencionais entre os exércitos nacionais. Em uma ordem
mundial plena de fricções, de tensões e disputas, surgem então as Conferências de Paz de Haia que
podem ser consideradas como as primeiras iniciativas diplomáticas para desenvolver e codificar
algumas normas gerais de direito internacional, visando a prevenir, conter ou mitigar os resultados dos
conflitos entre nações5.
A Primeira Conferência da Paz de Haia fora convocada pelo czar Nicolau II, sob o patrocínio da rainha
Guilhermina da Holanda, e contou com a participação de vinte e seis países6. Das Américas, apenas
dois: Estados Unidos e México. O Brasil fora convidado, mas não participou. Ocorreu entre 18 de junho
e 29 de julho de 1899 e originalmente tinha por objetivo discutir dois temas centrais e correlatos: o
armamentismo e formas pacíficas para contornar os conflitos entre os Estados.
Em linha geral, as Conferências de Haia não fugiram à regra de que muito de guerra entra nos
negócios da paz7. Entre as três Convenções e três Declarações adotadas por ocasião da Primeira
Conferência, somente uma delas tinha um objetivo de prevenção: a I Convenção para a Solução
Pacífica dos Conflitos Internacionais, que incluía a criação de um Tribunal de Arbitragem. As duas
demais Convenções e as três declarações8 lidavam com controle de armas – houve acordo restringindo
o uso de novos inventos, ficando proibidos o lançamento de explosivos por meio de balões e o emprego
de gases asfixiantes e de explosivos que se estilhaçassem no corpo humano – e a proteção das
populações civis, dos territórios ocupados ou de feridos.
A I Convenção definia três meios pacíficos e formalizava procedimentos através dos quais os países
em conflito poderiam dirimir as suas diferenças antes de recorrerem aos meios militares: a) o recurso
aos bons ofícios e a mediação – que poderia igualmente lhes ser oferecidos por terceiros – de uma ou
mais nações amigas9. Nesses casos, as eventuais propostas dos mediadores não teriam caráter
impositivo; b) Em divergências de natureza internacional não envolvendo questões de honra nacional
ou de interesse vital10, as partes poderiam de mútuo acordo instituir uma comissão que investigasse e
relatasse de maneira imparcial as causas do conflito, mas cujo relatório não possuiria um caráter
arbitral, servindo ao único propósito de orientar um acordo eventual11; c) a justiça arbitral, com juízes
encolhidos pelas partes e com sentença obrigatória. Nesse sentido, estipulava-se a criação de um
Tribunal permanente com sede em Haia, competente para todos os casos de arbitragem a não ser que
as partes decidam constituir um tribunal especial12.
Cinco anos após a I Conferência, em 21 de outubro de 1904, durante a presidência de Theodore
Roosevelt, quando este está prestes a realizar o seu papel de mediador na guerra Russo-Japonesa em
curso, os Estados Unidos enviam carta circular a todos os signatários das Convenções de 1899
afirmando a necessidade de um novo encontro internacional que levasse adiante os avanços
consolidados em Haia. Esta primeira iniciativa, que pôs em movimento a realização da II Conferência
da Paz, ganha força a partir de 1905, com o apoio do Tzar Nicolau II, após a celebração do tratado de
paz de Portsmouth13.
Os americanos propuseram também uma ampliação do número de participantes e criaram
condições para uma presença massiva de delegações latino-americanas. Como a Convenção para a
Solução Pacífica de Conflitos deveria ser objeto de revisão, a adesão prévia ao documento dessas novas
delegações se fazia necessária, o que ficou providenciado para ter lugar no início da Conferência, com o
apoio de todos os signatários originais14.
De início, a II Conferência da Paz fora marcada para o ano de 1906, logo após o término do conflito
russo-japonês, mas os Estados Unidos, que haviam tomado a iniciativa da sua convocação,
concordaram em transferir a data para o ano seguinte, de modo a não prejudicar a Terceira
Conferência Pan-Americana a ser realizada em julho daquele mesmo ano no Rio de Janeiro15. A II
Conferência teve a presença de 44 delegados16, dentre os quais, 18 de países latino-americanos.

I. 2. O CONTEXTO NACIONAL
O Brasil procurava se afinar com as transformações econômicas e políticas que mobilizavam as
sociedades dos países europeus mais avançados e dos Estados Unidos. E as reuniões e os foros
multilaterais começavam a fazer parte das relações internacionais.
Dezoito anos após a sua proclamação, a república consolidada, apesar das periódicas crises
sucessórias, atravessava o segundo ano do quatriênio de Afonso Pena, seu quarto presidente civil. Os
principais personagens brasileiros na II Conferência da Paz de Haia – Rio Branco, Rui Barbosa e
Joaquim Nabuco – de certa forma simbolizavam o processo de cooptação política e os arranjos entre
grupamentos políticos diversos que caracterizavam o regime desde o estabelecimento da política dos
governadores por Campos Sales.
Naquela ocasião, Joaquim Nabuco, monarquista liberal renitente, que se retirara da política por dez
anos após o 15 de novembro, retorna à vida pública: Guardei o luto da Monarquia por dez anos.
Pareceu-me bastante, confessara em notas de 1898, transcritas por sua filha, Carolina17. No governo
Campos Sales surgiu a oportunidade para que enfim se decidisse a deixar o refúgio meditativo da
religião e das letras como Rui Barbosa viria a escrever logo mais em um artigo onde celebrava a sua
aproximação com a república18.
A ocasião veio com a notícia de que a velha disputa entre a Grã-Bretanha e o Brasil, a respeito dos
limites da Guiana Inglesa, ia ser resolvida por arbitramento. Em 9 de março de 1899, Nabuco aceita o
convite do governo da República para defender a posição brasileira na questão de limites com a Guiana
Inglesa; questão, aliás, da qual o Brasil sairia derrotado cinco anos mais tarde19. Criada a Embaixada do
Brasil em Washington, durante o governo de Rodrigues Alves, Nabuco é nomeado embaixador do
Brasil – apresentando suas credenciais ao presidente Theodore Roosevelt, a 25 de maio de 2005 – com
a chancela de Rio Branco, já Ministro do Exterior. Em 1907, ocupava, portanto, um lugar privilegiado
junto a um dos países-chave na II Conferência.
O advento da república surpreenderia o monarquista e conservador Rio Branco no posto de cônsul
geral do Brasil em Liverpool onde se encontrava desde 1876 e, no qual, poupado pelo novo regime,
ficará até 1896. Em 1893, no governo de Floriano Peixoto é mandado a Washington para as
negociações de limites com a Argentina – a chamada questão de Palmas (ou das Missões) – que seria
mediada pelo presidente americano Glover Cleveland e terminaria aos 5 de fevereiro de 1895, com
decisão beneficiando o lado brasileiro.
De volta à Europa, passa a assessorar o então ministro do Exterior, Gabriel de Piza, nas discussões
diretas com o governo francês sobre os limites com a Guiana Francesa. O impasse resultante levou o
caso a ser submetido ao arbitramento do presidente da Confederação Helvética, em abril de 1897; e
para conduzir a apresentação do caso, Rio Branco é então nomeado enviado extraordinário e ministro
plenipotenciário em missão especial em novembro de 1898, em Berna, na Suíça. Em primeiro de
dezembro de 1900, a decisão veio inteiramente a favor do Brasil. Dois anos após, é nomeado ministro
das relações exteriores por Rodrigues Alves.
Liberal durante o segundo reinado e republicano de última hora, Rui Barbosa será reconhecido pela
república como um aliado, tendo um papel, como é sabido, dos mais importantes na implantação do
regime, do qual foi ministro da justiça e da fazenda, além de vir a ser o principal redator da sua
constituição. Rompido com o florianismo, refugia-se na Inglaterra em meados de 1894. Retorna ao
Brasil em julho de 1895 e retoma a sua cadeira do Senado e militância como jornalista no início do
governo de Prudente de Moraes, o primeiro presidente civil.
Rui Barbosa volta à vida política, refazendo a ponte com o novo poder republicano: Contra todos os
governos anteriores vivi sempre de tenda armada em campanha [...] [Agora] me dispus a tentar a
experiência, a sair daquela posição criticada e crítica. Esperava auxiliar um pouco a obra dos governos,
com o apoio dessa minha têmpera, da minha educação jurídica e liberal, tão longamente posta ao
serviço das oposições20.
É durante o quatriênio de Afonso Pena que Rui Barbosa talvez tenha conhecido o seu mais longo
período de situacionismo. Em janeiro de 1906 é reeleito senador pela Bahia e eleito vice-presidente do
Senado. Em 1907 é nomeado pelo governo para representar o Brasil em Haia21.
Forte da sua atuação na Conferência Pan-Americana, o nome de Joaquim Nabuco havia sido o
primeiro a ser cogitado para conduzir a delegação brasileira. O Barão de Rio Branco – já então ministro
das relações exteriores, desde 3 de dezembro de 190222 – chegou a convidá-lo, mas em seguida voltou-
se para o nome de Rui, então vice-presidente do Senado23. O episódio causou comoção entre os
amigos de Nabuco e um movimento de cartas24 e de noticiário estimulava a cizânia entre os dois
amigos. No entanto, os dois se empenharam em desfazer o possível desentendimento.
Em 1° de abril de 1907, Rui dirige-se a Rio Branco aceitando a posição oferecida e logo em seguida,
no dia 2 de abril, telegrafa a Nabuco:
Aceitei Haia contando sua companhia.
Abraços. Rui25

Ao que o outro responde no mesmo dia:


Saúde obriga-me declinar, mas estarei em pensamento seu lado, orgulhoso ver Brasil assim representado entre nações.
Muitos muitos parabéns. Nabuco26.

Joaquim Nabuco tenta afastar-se de cena, licenciando-se para “tratamento de saúde” na Europa,
mas, habilidoso, Rio Branco convida-o a transformar a viagem em missão de trabalho para que ele se
empenhe em ajudar a criar um ambiente favorável à delegação brasileira em Haia27. No dia 13 de junho,
Nabuco envia de Paris um documento a Rui Barbosa, Notas Confidenciais28, em que traça perfis dos
delegados à Conferência e faz comentários sobre as tendências entre as delegações29.
A partir de então, segue-se, entre os dois, uma série de comunicados sobre o desenrolar dos debates
e decisões30. No conjunto de telegramas trocados entre Rui Barbosa e Rio Branco, a colaboração de
Joaquim Nabuco, com documentos e sugestões, é invocada com frequência.
II. A CONFERÊNCIA E OS TELEGRAMAS

II. 1. ARMANDO O JOGO


A 8 de junho de 1907, rumo à II Conferência da Paz, Rui Barbosa, com a sua família e comitiva, chega
à Paris. No dia seguinte recebe o primeiro telegrama do barão de Rio Branco reportando algumas das
primeiras providências que haviam sido tomadas para a instalação da delegação brasileira:
09/06/07 – De Rio de Janeiro a Paris
Espero Vossência família hajam chegado bem. Consul Leoni31 informará Vossência sobre secretário particular escolhido
por Émile Levasseur32.

Hoje manhã, Carvalho Moreira33 deve receber cifra comunicada pelo encarregado negócios em Haia.

Se Moreira ainda em Londres, Ministro em Paris poderá dar cifra explicações.

Des[de] já começarei telegrafar.

Último fascículo Revue Droit International, Pedone34 traz artigo Drago35.

Rio Branco

Logo em seguida, entre os dias 19 e 14, Rio Branco envia três telegramas em que se delineiam a
agenda, o conteúdo e o escopo das discussões que serão realizadas durante a Conferência. As
instruções para a delegação norte-americana junto à II Conferência da Paz em Haia, que haviam sido
obtidas por Joaquim Nabuco em Washington e enviadas a Rio Branco, servem de referência para a
organização dos tópicos levantados pelo ministro. Elas são anunciadas em um segundo telegrama de 9
de junho e estão enumeradas em dois outros telegramas, de 11 de junho:
09/06/07 De Rio de Janeiro a Haia
No telegrama seguinte, número 3, apresento resumo das instruções do governo americano segundo telegrama de
Nabuco 30 maio.

Assuntos são numerosos para que nós possamos referir depois a cada um.

Rio Branco

11/06/07 Rio – Haia

Resumo anunciado no N° 2.
Conveniência prazo periódico futuras conferências.

Não se envolver negócios políticos europeus, mas havendo probabilidade resultado, apoiem proposta limitação
armamentos.

Arbitramento deve ser sujeito aos termos dos Tratados já celebrados pelos Estados Unidos, excetuando casos de
interesses vitais, independência e honra e estabelecendo que cada compromisso fique sujeito à aprovação Senado.

Favorecer criação [de] um Tribunal Arbitral permanente composto de juízes bem pagos. Resto deste despacho
expedirei dentro pouco.

Rio Branco

Rio 12/06/07
Continuação do número 3 de 11[/06] ao Senador Barbosa.

Imunidade no mar da propriedade particular inofensiva em tempo de guerra.

Procurar obter prazo que preceda começo operações de guerra.

Propor Código Naval Americano como base para regras a formular as matérias que ele abrange.

Não convém adotar regras para mitigar males da guerra com prejuízo dos direitos dos neutros, nem regras quanto aos
direitos dos neutros que facilitem as guerras.

Reduzir quanto possível listas dos artigos de contrabandos de guerra.

Fim da Conferência é verificar e pactuar aquilo em que nações estejam unânimes e não coagir nenhuma a assentir no
que não aprove. Todavia, estando diversas acordes num princípio poderão finalizar convenções abertas à adesão das
demais.

Fórmula sobre a questão Drago militar por dívidas que Vossência já conhece36.

Pensamento Presidente37 sobre ponto essenciais será telegrafado hoje.

Rio Branco

O “pensamento [do] presidente” prometido pelo Barão para o dia 12 é transmitido somente no dia
18 de junho:
Reservado 18/06/07
Cumprindo ordens Presidente, tenho a honra de indicar seu pensamento sobre questões principais que ai vão ser
ventiladas.

Para brevidade e clareza, refiro-me parágrafos meu telegrama Nº. 3 de 11 do corr[ente].

Sobre § 138,539,740,841,942,1043 ele está de pleno acordo instruções delegado americano. Também concorda primeira parte
§ 244. Questão indicada ultima parte § 245 parece será levantada, mas ela só interessa grandes potências militares
europeias, Japão, Estados Unidos. Não estamos em situação limitar nossos armamentos e não convém aceitemos
equivalência naval em qualquer acordo sobre limitação armamentos com Argentina como esta desejaria, tendo litoral
e território menos extensos que Brasil.

[Sobre] § 1146 pensa o presidente que seria impolítico contrariássemos governo americano na questão da cobrança de
dívidas e nos separássemos de quase toda a Hispano-America, convindo-lhe saiba confidencialmente que, só para lhe
ser agradável, Brasil o acompanhará até onde for possível nesse terreno. Entretanto, sem que Inglaterra, França,
Alemanha, Itália concordem em desistir da cobrança militar em certos casos qualquer acordo entre países devedores
seria infrutífero47.

Vossência sabe que desde 1906, Secretário de Estado Root48, em nome seu governo, pronunciou-se sobre a questão,
como se vê pagina 156 de Drago, cobro coercitivo das Dividas Públicas49.

Sobre matéria § 5 no telegrama Nº 3 de 1250 corrente, lembrei antecedentes nossos que V.Exa. já conhecia, e com o
reservado Nº 2 remeti documentos a que esse telegrama se refere51.

Desde 18 de Março 1854, prometemos aderir à proposta do Presidente Pierce, mas é óbvio que a propriedade particular
inimiga no mar não deve ficar em situação mais favorecida que a propriedade particular em terra. O que convém
estipular parecer dever ser isto: A propriedade particular dos súditos ou cidadãos de um dos estados beligerantes, não
poderá ser apresada pelos navios de guerra de outro Estado e confiscada, senão nos casos em que possam ser apresados
e tidos por boas presas os navios e mercadorias dos neutros.

Mas, os navios mercantes do país inimigo e os que tenham qualquer outro emprego inofensivo, como as embarcações
de recreio quando no teatro das operações ou suas proximidades, e sempre que haja motivo para acreditar possam vir a
ser armados em guerra ou empregados como transporte ou em qualquer outro serviço militar, poderão ser capturadas
preventivamente e detidas ou utilizadas pelo captor. Terminada as hostilidades, serão postas à disposição dos seus
proprietários e restituídos no estado em que se achavam, sem que o captor fique obrigado à indenização alguma,
mesmo no caso de perda total por sinistros marítimos ou acidente de guerra, salvo disposição em contrário no tratado
de paz.

Sobre § 652, não parece provável que as potências militares, preparadas para mobilizar rapidamente os seus elementos
de ataque, desistam dessa vantagem admitindo um prazo para o começo das operações.

No seguinte telegrama tratarei matéria § 3 e 4.

Rio Branco

No telegrama seguinte, como prometido, ele esclarece a posição brasileira com relação ao
arbitramento e a criação de um tribunal de arbitragem, tópicos que constavam, respectivamente, dos
parágrafos 3 e 4 da agenda elaborada pelos Estados Unidos:
19/06/07

[...] V.Exa. sabe governo brasileiro se tem oposto sempre arbitramento incondicional para quaisquer questões que
possam surgir como desejam vários países americanos, entre os quais Peru, Argentina. No México, 22 de Janeiro de
1902, após Segunda Conferência Pan-americana53, nove repúblicas Argentina, Bolívia, Dominicana, Guatemala,
Salvador, México, Peru, Uruguai assinaram tratado arbitramento obrigatório, página 861, Volume de Atas e
Documentos, Artigo 1.

Comprometeram se submeter [a] decisão de árbitros [em] todas controvérsias “que existen o lleguen a existir entre
ellas, y que no puedan resolver se por la via diplomática, siempre que a juicio exclusivo de alguma de las nacions
interesadas dichas controversias no afecten ni la independencia ni el honor nacionales.”Artigo segundo diz “no se
considerarán comprometidos ni la independencia ni el honor nacionales em las controversiais sobre privilegios
diplomáticos, limites, derechos de navegación y validez intelligencia y ampliamiento de tratados”.

Essa redação foi calculada para obrigar-nos, caso de adesão, aceitar arbitramento sobre vigência do caduco tratado
preliminar ou preparatório de limites de 177754, desde guerra 180155 e sobre navegação afluentes Amazonas. Hoje
estão reguladas nossas questões limite navegação com todos vizinhos, menos Peru na região do Acre.

Por isso, não convém aceitemos redação que nos obrigue a ir incondicionalmente a arbitramento sob vigência daquele
tratado navegação. Parece-nos obrigatoriedade arbitramento questões limites só deve ser estipulada quando elas
(versarem56) sobre territórios desertos ou quase desertos.
Por outro lado, o arbitramento incondicionavelmente obrigatório é particularmente perigoso para países de imigração
como os da América. Os reclamantes seriam tentados a anular justiça local pedindo sempre recurso para árbitros
estrangeiros. Desejamos como Estados Unidos, Grã Bretanha, França, Suíça e outros países, excetuar sempre da
obrigatoriedade as questões que entendem como os interesses vitais, independência e honra de país a juízo do seu
governo.

Estimaríamos para mais clareza excetuar (?)57 também as que entendem como a integridade territorial ou as que
quando se trata de questões de território, seja sempre consultada a vontade das populações interessadas. Sobre
assunto Funck-Bretano e Albert Sorel58 Précis du Droit du Gens 107. Não nos devemos obrigar a submeter todas as
questões do tribunal de Haia. Não há motivo para que desistamos de recorrer, como até aqui, a governos amigos ou a
outros árbitros jurisconsultos ou especialistas, que não façam parte desse tribunal.

Em cada caso deve haver compromisso especial como está disposto no artigo dos tratados particulares que Estados
Unidos, França, outros países têm celebrado depois da primeira conferência de Haia e mais, deve haver escolha do
árbitro ou árbitros. Os bons ofícios e a mediação de um governo amigo são também meios de resolver amigavelmente,
às vezes de modo definitivo, litígios internacionais.

Constituem 2 expedientes mais rápidos e por isso mesmo preferíveis em certos casos, podendo sem inconveniente e com
vantagens preceder o recurso arbitral.

Não devem, portanto, ser excluídos ou tentados somente quando se trate de rompimento iminente de hostilidade.

Como V.Exa. sabe, dois litígios recentes foram assim resolvidos pela mediação. Papa Leão XIII em 22 Outubro 1885,
questão Alemanha sobre Arquipélago Carolinas, onde ilha Yap tinha sido ocupada pelos alemães59; pelos bons ofícios
D. Carlos de Portugal em 5 Agosto 1896, questão Brasil – Grã Bretanha sobre ilha Trindade60.

Convinha talvez por meio declaração em sessão ou comissão fazer sentir que obrigatoriedade arbitramento, Brasil
entende não aplicar litígios já pendentes, mas sim as questões de ordem jurídica ou relativas à interpretação de
tratados que venham a surgir depois do nosso ato de adesão de 15 corrente, e que excetuamos as acima declaradas
como também as excetuam citadas potências.

Chile fez, ou vai fazer essa declaração. Quanto § 4 do meu Número 3: não vemos motivos para que não concordarmos
formação tribunal permanente juízes bem pagos, contanto nos não obriguem submeter a eles quaisquer questões que
surjam. Presidente deseja reservar-se a deixar aos governos futuros inteira liberdade de escolha.

Se, porém, o que não provável, for apresentada ideia já formulada, uma vez de acordo especial entre nações nosso
continente para criação tribunal arbitral composto somente americanos, entende o governo brasileiro não deve dar-lhe
o seu consentimento.

Rio Branco

E em outro telegrama no mesmo dia 19 levantava um assunto conexo – a navegação fluvial – como
se temesse que uma regulamentação internacional da arbitrage pudesse servir de pretexto para que se
reabrissem pendências sobre as quais o Brasil já firmara posição:
19/6/07
Pode dá-se que algum nossos vizinhos levante ai questão navegação fluvial. Será fácil arredá-la: nenhuma relação
tendo ele com programa, mas, talvez, não seja desnecessário repetir o que este governo lembrou Embaixada Brasil
Washington, quando se tratou programa conferência Rio em 190661. Só concedeu liberdade navegação nossos rios e
lagoas por ato voluntário soberano nosso. Quanto aos rios que procedendo territórios vizinhos atravessam o nosso, só
admitimos liberdade navegação neles mediante prévio acordo com ribeirinhos superiores e fixação da fronteira comum,
sujeito o trânsito de navios e mercadorias aos regulamentos fiscais e de polícia estabelecidos ou que se estabelecerem.
As restrições existentes em virtude de tratados com vizinhos, só por outros tratados livremente negociados, deverão ser
levantadas.

Rio Branco

Essas citações extensivas dos telegramas iniciais inventariam praticamente o conjunto de pontos que
viriam à tona durante os debates e as deliberações da II Conferência, assim como delineiam o arco de
interesses suscitados pela pauta americana. Na sua maioria, o governo brasileiro – ou seja, o
presidente da república, Afonso Pena e seu chanceler – se alinha inteiramente às posições dos Estados
Unidos, à exceção de três pontos: No caso da limitação de armamentos, ao dizerem [N]ão estamos em
situação limitar nossos armamentos e não convém aceitemos equivalência naval em qualquer acordo
sobre limitação armamentos com Argentina como esta desejaria, tendo litoral e território menos
extensos que Brasil. Em se tratando do uso da força por países credores na cobrança de dívidas entre
países, o Brasil cederia à proposta americana – que impunha restrições a essa prática – por ser
“impolítico” contrariá-la. Acrescenta Rio Branco, em segundo plano, que também não seria
conveniente antagonizar os países hispano-americanos, simpáticos à doutrina Drago, além de
acreditar ser inócua qualquer proposta sobre o assunto que não tenha o apoio dos credores.
Finalmente, no que diz respeito à arbitragem, manifesta-se firmemente contra qualquer medida que a
torne obrigatória em qualquer circunstância.
A limitação de armamentos não chegou a tomar importância durante os debates. A delegação
brasileira atuará e terá posição de destaque, quando a conferência vem a considerar as duas últimas
questões: a cobrança coercitiva da dívida de países e o arbitramento.

II. 2. A QUESTÃO DRAGO


No final do século XIX e ainda por muito tempo, as economias da América do Sul foram, sobretudo,
exportadoras de produtos agrícolas e de matérias-primas para a Europa. Na verdade, o principal
parceiro comercial das nações sul-americanas era, de fato, a Grã-Bretanha, se excetuarmos o caso das
exportações de café brasileiras que tinham nos Estados Unidos os seus principais compradores. Por
outro lado, essas economias importavam produtos industrializados desses centros mais adiantados,
tornando-se naturalmente dependentes de capitais externos necessários aos eventuais investimentos
em infraestrutura, ao financiamento da produção e a comercialização de seus produtos.
A adesão ao padrão ouro era condição necessária para que os países pudessem emitir títulos do
tesouro que atraíssem capitais externos, porque assegurava uma relativa estabilidade ao valor e ao
rendimento do dinheiro emprestado. Os países devedores, contudo, eram dependentes da
variabilidade do valor de suas exportações – sujeitas aos movimentos da demanda internacional – de
onde eles obtinham divisas e extraiam as suas receitas fiscais. Em períodos recessivos, reduzia-se a
procura pelos seus produtos exportáveis e o crédito internacional escasseava afetando
desfavoravelmente as taxas de câmbio e dificultando o pagamento da dívida externa acumulada.
Qualquer renegociação desta última implicava a aceitação de condições que permitissem a retomada
ou a manutenção do padrão ouro, traduzidas comumente em medidas econômicas restritivas –
redução das despesas públicas, elevação de impostos – com repercussões negativas sobre o volume e
sobre a repartição do fluxo da renda do país devedor.
Embora as três décadas que antecederam a Primeira Guerra Mundial tenham sido de expansão das
exportações sul-americanas, durante o período alguns países foram afetados por crises derivadas
desses desequilíbrios e tiveram de enfrentar os problemas resultantes de um crescimento
descontrolado de seus débitos. No Brasil, sabemos que frente a uma forte desvalorização da moeda e
ao aumento considerável de sua dívida externa, a presidência Campos Sales (1898-1902) entrou em
um acordo com os bancos credores ingleses, conhecido como “funding loan”62, ao mesmo tempo em
que empreendia um grande programa de estabilização financeira e fiscal.
Diferentemente do Brasil, países com economias menos desenvolvidas – frequentemente mal
geridos – fragilizadas pela insolvência e sem credibilidade junto ao mercado credor para renegociar os
seus débitos, viram-se compelidos à moratória unilateral. Foi o que aconteceu com a Venezuela, quatro
nos depois do acordo brasileiro com a banca londrina.
Em 1899, Cipriano Castro chegara à presidência da república após um golpe de estado, tornando-se
presidente constitucional em 1901. O país viera de um longo período de conflitos internos armados e o
governo instalado ainda enfrenta a resistência de caudilhos inimigos. A instabilidade política (com seus
custos financeiros) e a queda dos preços de produtos agrícolas de exportação levam Castro a
suspender os serviços da dívida. As principais potências credoras exigem o pagamento imediato de
seus créditos, ajuntando-se pedidos de indenização para os seus nacionais por prejuízos incorridos
durante os vários levantes armados. Em dezembro de 1902, Alemanha, Inglaterra e Itália bloqueiam a
costa Venezuelana e, logo a seguir, França, Holanda, Bélgica, Estados Unidos, Espanha e México
apresentam suas cobranças para que também fossem consideradas. A mediação americana deu lugar
à suspensão do bloqueio (que durou três meses) e à elaboração de um acordo de escalonamento da
dívida, assinado em fevereiro de 1903 em Washington. A questão foi também posta ao Tribunal
Permanente de Arbitragem de Haia que em decisão de 22 de fevereiro de 190463 deu o direito de
preferência ao ressarcimento às três potências que haviam empregado a força.
A brutalidade do bloqueio naval e a extensão da coligação de países nele envolvidos desencadearam
uma campanha nacionalista contra as potências estrangeiras agressoras por parte do governo
venezuelano e trouxe naturalmente insegurança e inquietação para todo o continente que via naquilo
um precedente ameaçador. Em 29 de dezembro de 1902, em meio à repercussão provocada pela
agressão à Venezuela, Luis Maria Drago, então chanceler argentino, denuncia o bombardeio dos
portos de Guayra, Puerto Cabello e Maracaibo em mensagem ao Secretário de Estado norte-
americano John Hay, e declara que la deuda pública no puede dar lugar a la intervención armada, ni
menos a la ocupación material del suelo de las naciones americanas por una potencia europea.
Na sua nota Drago procura integrar a doctrina Monroe aos seus argumentos:
El cobro militar de los empréstitos supone la ocupación territorial para hacerlo efectivo y la ocupación territorial
significa la supresión o subordinación de los gobiernos locales en los países a que se extiende. Tal situación aparece
contrariando visiblemente los principios muchas veces proclamados por las naciones de América y muy
particularmente la Doctrina de Monroe con tanto celo sostenida y defendida en todo tiempo por los Estados Unidos,
doctrina a que la República Argentina ha adherido antes de ahora64.

Na sua resposta de 17 fevereiro de 1903 ao governo da Argentina, o secretário de Estado não


contradiz diretamente a posição enunciada por Drago, mas deixa claro que a concepção do governo
americano de Theodore Roosevelt sobre a solidariedade pan-americana é bastante divergente:
Without expressing assent to or dissent from the propositions ably set forth in the note of the Argentine minister of
foreign relations dated December, 29th, 1902, the general position of the United States in the matter is indicated in
recent messages of the President.
The President declared in his message to Congress, December 3, 1901, that by the Monroe doctrine ‘we do not
guarantee any State against punishment if it misconducts itself, provided that punishment does not take the form of
the acquisition of territory by any non-American power.’ 65.

Manifestando-se apenas contra a ocupação territorial e recusando-se a condenar o bloqueio, a


posição americana reduzia em muito as pretensões do ministro argentino. A questão foi levada à III
Conferência Pan-Americana em 1906, no Rio de Janeiro. Decidiu-se na ocasião encaminhá-la para a II
Conferência da Paz – em que ela teve destaque –, ocasião em que estariam presentes tanto países
credores, inclusive as nações agressoras da Venezuela, quanto devedores.
Vimos que desde o seu primeiro telegrama (9/06/1907), Rio Branco recomenda a Rui, ainda em
Paris, a leitura de um artigo de Luis Drago recém-publicado. Dois dias depois Rui envia-lhe
(11/06/1907) o seguinte telegrama:
11/06/1907 7.30 pm – Ministro Exterior Rio de Janeiro.
Nabuco falou-me ontem fórmula Drago modificada. De Haia, onde estarei [dia] 13 [de Junho] examinando terreno,
telegrafarei V.Exa. sobre assunto. Hoje estive secretário francês contratado.

Rui.

Nabuco chegara a Paris no dia 9 de junho, como registra o bilhete de Rui Barbosa66:
Regina Hotel67, 10 junho, 07
Meu caro Nabuco

Abraço-o e felicito-o.

Não o fui receber ontem por impedido.

Comunicou-me o R.O68. que V. Ex.a deseja conversar comigo Estou às suas ordens. Não sei a ocasião que lhe convirá. Se
quiser, por exemplo esta noite, às 9 horas, poderei procurá-lo, ou esperá-lo, como lhe for mais cômodo, mediante prévio
aviso seu.

Sempre am.º af.º.

Rui Barbosa69

Ao mencionar no item 11 de seu telegrama do dia 12 de junho a fórmula sobre a questão Drago
militar por dívidas que Vossência já conhece, o barão se referia à informação fornecida por Nabuco,
dois dias antes, naquela conversa em Paris.
No dia 18 de junho, Rui pede instruções ao Brasil:
Ministro exteriores. 18, junho, 07 Rio
Tese Drago talvez primeiras questões suscitadas. Necessito urgência saber definitivo pensamento governo. Rui

No mesmo dia, ele receberia o telegrama de Rio Branco, transcrito acima, comunicando-lhe “o
pensamento” de Afonso Pena sobre os vários pontos da agenda. Quinze dias após, Rui envia telegrama
tratando de uma conversa confidencial com o representante americano ainda sobre a questão Drago:
Staats 3/7/07 Exteriores. Rio [de] Janeiro
[A]mericanos insistem atitude questão suscitada pela nota Drago. Buchanan70 acaba comunicar-me
confidencialmente proposta vão apresentar. Eis termos fielmente resumidos. Intuito evitar nações conflitos armados
origem puramente pecuniária, derivados dívidas contratuais de governos a estrangeiros impedindo tais dividas, não
liquidadas meio amigável via diplomática, deixem de passar por arbitragem, se estipulará não recorrer medida envolva
emprego forças militares cobrança essas dívidas, sem que primeiro credor proponha arbitragem, recusando ou calando
o devedor, ou feita arbitragem estado devedor desobedeça sentença. Outrossim, que arbitragem seguirá processo
capitulo terceiro, primeira convenção Haia 1899, determinando justiça e importância, débito, tempo, modo,
pagamento e garantia, quando caiba caso mora. Esta proposta admite legitimidade cobrança guerra que Drago
condenava absoluto. Peço suas instruções assunto. Creio poderíamos aderir, manifestando conferência exposição
nossos escrúpulos opinião brasileira contrária doutrina Drago, mostrando diferença entre esta e argentina, aceitando
aquela como transação, dadas circunstâncias políticas. Submeto, porém, meu juízo ainda dependente reflexão [e]
opinião governo, Vossência. Nada novo estes três dias; resposta urgente sobre Drago. Rui Barbosa

No dia seguinte, Rio Branco simplesmente reafirma a posição do presidente:


4/7/07

[...] No meu telegrama Nº.8, referindo me ao § 11 do meu Nº 3 tratei assunto.

Seria impolítico contrariássemos governo americano nessa questão.

Rio Branco

A proposta norte-americana que veio a ser conhecida como “proposta Porter”, por ter sido
introduzida pelo General Horace Porter, mantinha a posição que fora definida na resposta do
secretário John Hay à nota argentina enviada por Drago. Não excluía o emprego da força na cobrança,
apenas limitava o seu uso aos casos em que não fossem aceitos processos de arbitragem ou quando as
decisões resultantes de tais processos não fossem observadas. Além disso, referia-se a toda e qualquer
dívida contratual e não somente às dívidas públicas.
As reclamações de débito proviriam de incidentes diversos: por exemplo, de danos sofridos por
cidadãos estrangeiros decorrentes de atos ilegais praticados pelo governo ou por cidadãos nacionais;
de quebras de contratos entre nacionais do país reclamante e nacionais ou autoridades do país
reclamado; ou ainda, cobranças de dívida pública contraída pela emissão de títulos do governo
reclamado71. Para Luis M. Drago, nenhuma dessas situações justificaria o uso da força contra o Estado
devedor. Nos dois primeiros casos porque poderiam ser objetos de ações na justiça nacional e no
último porque a proteção a um investidor individual (no caso o detentor de título de um governo
estrangeiro) não daria ao governo do declarante o direito de agredir o país devedor. Dizia ele, seria
sofrermos um grande retrocesso, pois estaríamos reconhecendo a guerra como remédio legal ordinário,
estaríamos estabelecendo mais um tipo de guerra legítima72.
No dia nove de julho, Rui Barbosa telegrafa:
Terça feira73 discutir-se-á arbitragem doutrina Drago. Já falei americanos conforme instruções Vossência.

E em seguida:
STAATS 14/7/07 EXTERIORES RIO [DE] JANEIRO
NÚMERO ONZE. CONVERSA HOJE BUCHANAN. DISSE-ME PROPOSTA AMERICANA COMUNICADA VOSSÊNCIA
MEU TELEGRAMA NUMERO TRÊS74 TERÁ APOIO TODAS POTÊNCIAS. PEDIU-ME NÃO EXECUTASSE MEU PLANO
EXPOSIÇÃO APROVADO VOSSÊNCIA. CONSIDERAM IRRITANTE [E] IMPOLÍTICO; ACENTUOU DIVERGÊNCIA
ENTRE ESSA PROPOSTA E ARGENTINA. SUBMETO ASSUNTO OPINIÃO VOSSÊNCIA. TODO CASO PARECE NÃO
DEVEMOS VOTAR SILENCIOSAMENTE. TALVEZ CUMPRA SUBORDINAR NOSSA ADESÃO AO ASSENTIMENTO
TODAS AS NAÇÕES CREDORAS. SINTO-ME CONSTRANGIDO NESTA QUESTÃO. PEÇO RESPOSTA URGENTE.
LEITURA JORNAIS RIO, VEJO OPINIÃO AI DESCONHECE ESTADO ASSUNTO. CONVIRIA ESCLARECÊ-LA [E]
PREPARÁ-LA. HOJE COMEÇOU FUNCIONAR COMITÉ EXAMEN ARBITRAGE DO QUAL FAÇO PARTE. RUI

Ao que Rio Branco responde imediatamente:


14/7/07
Recebido Nº 11

Se, como afirma Buchanan, todas as potências apóiam proposta que V.Exa. me comunicou no seu Nº 3, entre elas
devem estar as credoras. Haveria, sem dúvida, vantagens em mostrar de passagem na exposição a diferença entre essa
proposta que aceitamos e a primeira indicação argentina.

Certo é, porém, que argentinos hão de se irritar embora V.Exa o faça com toda a delicadeza guardando para com eles
todas as deferências. Entretanto eles não se julgaram obrigados à cerimônia para conosco combatendo imunidade
propriedade particular no mar. Chile, como comuniquei à V.Exa., também queria subordinar a sua adesão ao
assentimento das nações credoras.

Desde que aderimos não convém nos possam apresentar como vencidos.

V.Exa., que conhece como não podemos conhecer de longe o meio em que está operando, procederá como lhe parecer
melhor votando silêncio somente neste caso ou executando o plano que nos comunicou no seu Nº 3.

Qualquer dessas duas decisões tomadas por V.Exa. terá a mais plena aprovação do governo, e será tida por nós como a
mais acertada.

Rio Branco

E, reforçando o seu apoio, envia uma mensagem no dia seguinte:


15/7/07
Sobre a parte final telegrama 11 de V.Exa. direi que a nossa imprensa e opinião já veem com clareza a questão
compreendendo bem a grande diferença que há entre proposta americana e a outra.

Rio Branco

No dia 18 de julho, Luis Drago faz um pronunciamento na primeira comissão reiterando as suas
teses e criticando a proposta americana:
[...] En acceptant cette partie de la proposition des
Etats-Unis, qui fait appel à la force pour exécuter les sentences d’arbitrage méconnues, on ferait un grand pas en
arrière, on reconnaitrait la guerre comme un ressort ordinaire de droit, an établirait un cas de plus de guerre légitime, ce
qui serait en réalité contradictoire pour une Conférenoe de la Paix qui a précisément pour objet d’éviter les causes de
guerre ou tout au moins de les diminuer.

L’emploi de la force impliquerait toujours la disproportion entre l’offense et la répression, avec les mêmes dangers pour
les souverainetés localesavec les mêmes inconvénients et préjudices pour les nations neutres et avec la même
protection excessive à l’égard des porteurs de titres cosmopolites et changeants75.

Rui Barbosa notifica ao Brasil:


Staats 18/7/07 Exteriores Rio [de] Janeiro

Número quinze. Hoje continuou primeira comissão questão dívidas. Drago leu exposição mantendo sua doutrina.
Rússia [e] Inglaterra declararam apoio proposta americana. [...]. Rui.

E Rio Branco, em sua resposta, pede que Rui Barbosa envie o seu discurso sobre o assunto:
20/7/07

[...] Havas transmitirá resumo discurso Drago. Encarreguei há dias Lemgruber falar Mercadier76.Estimaria V.Exa.
incumbisse Lemgruber obter Havas, transmitir aqui, Londres, Paris outras principais capitais Europa, [além de]
Washington [e] Buenos Aires, resumo sua exposição assunto dívidas.

Rui anuncia desde logo o teor de seu discurso:


Staats 20/7/07 Exteriores Rio [de] Janeiro
Número dezessete. Recebidos telegramas até trinta três. Farei exposição anti-Drago. Falarei Mercadier transmissão
resumo.

Ainda no mesmo dia, o barão informa-lhe sobre a repercussão do pronunciamento do representante


da Argentina na imprensa brasileira:
20/7/07
[...] Jornal Brasil publica mais [ou] menos três telegramas Haia, um de Londres, amáveis para Drago. Ontem noite
estando Jornal Commércio impedi publicação telegrama Havas77 mencionando Drago, Larreta78, dizendo discurso
Drago acontecimento saliente semana. Argentina tem organizado serviço de reclame jornal Brasil, outros jornais
publicam trechos Courrier de la Conferénce e Daily Telegraph79 sobre Drago.

Ao que Rui comenta:


Staats 21/7/07 Exteriores Rio [de] Janeiro
[...] Não vejo meios impedir efeitos propaganda argentina. Consta aqui, consagraram este serviço um milhão de pesos
ouro, contra tais elementos só se lucra com elementos iguais. Mercadier antes sessão conversando comigo já se
mostrava entusiasta doutrina Drago, adversário proposta americana. Courrier80 fez panegírico ridículo Triana81.
Publica editoriais onde está materialmente confessada autoria argentina, empregando pronome nós nas referencias
aos argentinos.

Exposição Drago nenhuma impressão produziu. Larreta apenas leu insignificante declaração propriedade privada.
Duvido pessoas indicadas Vossência consigam desempenhar tarefa, entretanto, dar-lhes-ei ordens. [Peço] Vossência
me dispense deste serviço visto interesse minha pessoa.

Em outro telegrama transmitirei propostas, mas permita Vossência ponderar serviço telegráfico nestas proporções
extinguirá brevemente crédito mandado Vossência outro destino. Rui

No dia seguinte, o representante brasileiro anuncia o seu discurso sobre a cobrança das dívidas de
Estados:
Staats 22/7/07 Exteriores Rio [de] Janeiro
Recebi hoje longa visita Stead82. Conversa assuntos conferência. Estamos caminho boa amizade. Courrier, ontem,
qualifica proposta brasileira conferência mais notável todas. Mercadier telegrafará longo resumo discurso meu
proferido amanhã tarde. Sigo agora Amsterdam jantar rainha83. Voltarei noite hoje. Rui
O discurso Rui Barbosa em 23 de julho distinguiu-se de todos outros pronunciamentos sobre o
assunto84. Como uma premissa maior, dizia ele:
Se se trata de abolir a guerra, muito bem. [...] Mas, se o que se pretende é, admitindo como legítimos outros casos de
guerra, criar uma categoria jurídica de imunidade absoluta para este, então convém examinar se os vossos argumentos
de direito são em verdade irrefragáveis85 [...] A guerra não é injusta porque o patrimônio de uma soberania seja
inacessível à apreensão militar. O que torna injustas as guerras é a injustiça de seus motivos86. [...] Aqui, portanto,
importaria saber se a violação de um direito, praticado quando a nação não paga suas dívidas, autoriza
internacionalmente o uso da força contra ela.

O empréstimo de Estado é uma convenção jurídica e não um ato de confiança. É ato de direito civil,
como outros contratos pecuniários, e não cabem na esfera da soberania; ou, se constituem atos de
soberania, não são contratos87. Como observa Christiane Laidler88, nem as delegações das potências
defenderam o direito à cobrança por meio da força como fez Rui Barbosa. Na proposta americana ele
via o propósito de reduzir os litigios concernentes a dividas de Estados estrangeiros, ao direito comum
da arbitragem obrigatória, sem repelir, e daí o seu mérito, a legitimidade do recurso aos meios
coercitivos que amparem o direito dos credores89.
Ao argumento jurídico, Rui adiciona razão de política financeira: a proteção do crédito internacional
do Brasil, princípio aliás que fora uma das suas preocupações primeiras, quando Ministro da Fazenda
do primeiro gabinete republicano:
Nós também tínhamos a mais séria preocupação da nossa respeitabilidade internacional, e nos arreceávamos
vivamente de aventurá-la. Parecia-nos que o aspecto moral e o aspecto financeiro da questão, um e outro
extremamente delicados, dominavam tudo, e não nos deixavam o arbítrio de assentir nesta opinião, ainda quando se
lhe não pudessem opor objeções de outra natureza. O nosso crédito, sempre ileso, é uma obra cuidadosamente
edificada, que não desejaríamos expor aos estragos da malevolência, tão alerta sempre nas relações entre as nações,
como nas entre os indivíduos.
Éramos, somos devedores, e poderíamos ainda precisar recorrer aos mercados estrangeiros. Não queremos, pois,
arriscar-nos a incorrer na desconfiança dos que tantas vezes temos encontrado prontos a concorrerem para o
desenvolvimento da nossa propriedade, pois Deus nos poupou de conhecer a usura, de nos defrontar com essa
ferocidade do capital, contra a qual é preciso armar-se. Nossos credores têm sido colaboradores inteligentes e razoáveis
da nossa prosperidade90.

Poucos dias depois, Rui telegrafa anunciando a aprovação da proposta dos Estados Unidos, com
algumas poucas abstenções, entre elas a da Venezuela, único país americano a tomar tal posição.
Staats 27/7/07 Exteriores Rio [de] Janeiro
Hoje primeira comissão após longa série declarações, articulando reservas principalmente repúblicas latino-
americanas, votou-se proposta americana seria objeto voto especial. Tornado este, votaram favor trinta e sete
Alemanha, [Estados Unidos da] América, Argentina, Áustria, Bolívia, Brasil, Bulgária, Chile, Colômbia, Cuba,
Dinamarca, São Domingos, Equador, Espanha, França, Inglaterra, Guatemala, Haiti, Itália, Japão, México,
Montenegro, Nicarágua, Noruega, Panamá, Peru, Holanda, Paraguai, Portugal, Rússia, Salvador, Servia, Sião,
Turquia, Uruguai, Pérsia. Abstiveram-se Bélgica, Grécia, Luxemburgo, România, Suécia, Suíça, Venezuela. Nenhum
contra. Adotado assim principio proposta, deliberou-se entregá-la Commité examen, onde discutida, receberá forma
final para voltar comissão.

Os Estados Unidos consolidam assim a sua liderança vis-à-vis os países latino-americanos, na


verdade os únicos que se interessavam diretamente pela questão91. Na II Conferência a proposta
passou a ser denominada de proposta americana (às vezes proposta Porter), dissociando-a assim
daquele que estava na origem do debate: Luis M. Drago.

II. 3. O RECURSO AO ARBITRAMENTO


Ao votar a proposta americana, o Brasil cedeu à arbitragem obrigatória pelo menos no que diz às
questões de dívida. No entanto, Rio Branco temia que a generalização desse princípio pudesse
estimular a reabertura de questões de fronteiras com países latino-americanos vizinhos que haviam
recentemente sido negociadas sob a sua liderança. A esse propósito Christiane Laidler observa que o
Brasil era ainda vulnerável, pois não tinha suas fronteiras definidas através do uso de métodos
confiáveis de demarcação e estabelecidas por tratados reconhecidos internacionalmente92. De todo
modo, as instruções do barão eram para se opor a toda tentativa de se criar uma corte permanente à
qual fossemos obrigados submeter – como está no telegrama anterior – quaisquer questões que
surjam.
Ora, as grandes potências europeias e os Estados Unidos já haviam formado consenso diverso93:
atribuir poderes de uma corte de justiça ao Tribunal de Arbitragem criado na I Conferência da Paz, com
um corpo de juízes permanentes (bem pagos, aprovara o Barão) e cujas decisões tivessem o caráter
obrigatório. Seriam indicados pelos 44 países presentes, mas segundo critério em que os países mais
importantes teriam juízes permanentes, enquanto os outros – os países europeus mais fracos,
digamos assim, e os latino-americanos – escolheriam juízes rotativos94.
Desde o início da Conferência, Rui Barbosa declarou em plenário que, se aprovado pela Conferência,
o princípio da arbitragem obrigatória, o Governo brasileiro não o aplicaria às questões e aos litígios
pendentes95. No Comitê A, criado para lidar com o assunto, ele apresenta um projeto em que o
princípio da arbitragem é submetido a inúmeras ressalvas:

1. Em questões em que não se alcance entendimento por meios diplomáticos, bons ofícios ou
mediação, se tais questões não afetam a independência, a integridade territorial ou os
interesses essenciais das partes, suas instituições e leis internas ou os interesses de terceiras
potências, as partes contratantes comprometem-se a recorrer à arbitragem da Corte
Permanente de Haia, ou se o preferirem à designação de árbitros de sua escolha.
2. Fica entendido que as partes contratantes sempre se reservam o direito de não recorrer à
arbitragem até esgotados os bons ofícios e a mediação, se se dispuserem a recorrer a tais
métodos inicialmente.
3. Em dissídios relacionados a territórios habitados, não se fará recurso à arbitragem, exceto
mediante prévio consentimento das populações atingidas pela decisão.
4. Cada parte interessada decidirá finalmente se a questão diz respeito à independência,
integridade territorial, interesses vitais ou instituições96.

Esse projeto recebeu uma forte oposição. O representante russo, por exemplo, argumentou que a
redação do art. 1º é tão restritiva que excluiria a maioria das questões que foram objeto dos cinquenta
e cinco laudos arbitrais do século XIX. E o presidente do Comitê, face ao consenso negativo que se
formara, recusa-o, declarando que temia a natureza vaga da proposta brasileira, especialmente o art.
4º, que poderia dar margem a uma interpretação ou ampla demais ou muito limitada97.
O embaixador plenipotenciário brasileiro comunica imediatamente essa decisão ao seu chanceler:
Staats 4/8/07 Exteriores Rio [de] Janeiro

Trinta e quatro.

Tendo objeções opostas ontem, nosso projeto contestado, princípio direito recorrer mediação bons ofícios, antes
qualquer arbitramento, e direito recusar submeter arbitragem sentenças nossos tribunais, julgo necessário apresentar
comitê terça feira declaração definitiva consignando considerandos essas duas reservas como implícitas e toda
convenção arbitramento, e que se texto desta ou seus documentos explicativos e interpretativos excluírem algum
desses direitos, não a poderemos assinar.

Creio essencial isto à execução instruções Vossência governo. Aguardo sua resposta até terça feira meio dia. [...] Rui

E recebe o seu apoio:


Nº 55 5/8/07

Objeções fizeram nossas declarações, não tem como V.Exa. sabe fundamento algum. Além negociação diplomática, o
recurso dos bons ofícios mediação arbitramento são os três meios de resolver via amicabili, conflitos internacionais
como ensinam todos os mestres. Não reconhecemos em congresso algum o direito de nos impedir que lancemos mão de
qualquer desses recursos. Não pretendemos que bons ofícios ou mediação devam preceder sempre arbitramento, mas
queremos reservar nossa liberdade, recorrer esses meios quando nos aprouver ou parecem nos preferíveis. Não podemos
também admitir nos queiram obrigar submeter revisão tribunais internacionais sentenças nossos tribunais.
Os estrangeiros não podem pretender situação mais favorecida que os naturais do país. Achamos indispensável, como
V.Exa. sugere, declaração definitiva consignando nossas reservas. [...]

Rio Branco

Derrotado quanto ao mérito, ou seja, quanto ao escopo e poderes da Corte Arbitral, volta-se agora o
delegado brasileiro à questão de sua organização. No dia 3 de agosto, Rui recebe as primeiras
indicações de como seria a composição da Corte:
Staats 3/8/07 Exteriores Rio [de] Janeiro
Acabo ter notícia grave, americanos guardam segredo absoluto sobre organização Corte permanente. Mas, por amigo
comum, tive confidência completa: Tribunal terá dezessete membros base população.

França, Inglaterra, Alemanha, Áustria, Itália, Rússia, Estados Unidos, Japão, Holanda cada uma um membro.

Os mais por grupos, seguinte modo: Espanha e Portugal; Bélgica, Suíça e Luxemburgo; Turquia e Pérsia, China e Sião;
Suécia, Noruega e Dinamarca; Bálcãs.

Nosso continente, México e America Central um, América do Sul um. Vossência verá se por meio Washington, nos
poupam tamanha e amarga humilhação. Verificada ela, não compreendo Brasil possa dignamente continuar
conferência. Rui

Rio Branco tem reação similar, embora mais moderada e ainda especula sobre formas aceitáveis da
organização do tribunal:
4/8/07
O projeto da Delegação como [está] seria humilhação para Brasil e outros povos americanos e destruiria todo efeito
origem Root.
No tribunal criado 1899, todos países representados primeira conferência tinham árbitros. Assim deve ser no novo
tribunal que se vai organizar, ficando a cada pais direito nomear um ou mais árbitros que forem fixados pela
conferência. Nas reuniões plenárias do tribunal, cada país terá somente um voto ainda que tenha mais de um arbitro.
Os países que não quiserem ou poderem ter permanentemente um arbitro ou representante no tribunal em Haia,
poderão escolher livremente como seu arbitro ou representante no tribunal o de outra potencia. Poderão também reunir-
se dois ou mais países, designando e mantendo um arbitro comum.

Há grande diferença nesse agrupamento voluntario e no que se pretende agora impor e que nenhuma nação zelosa de
sua dignidade e dos seus direitos poderá aceitar.

Não é indispensável que todos os 44 árbitros tenham residência fixa em Haia.

Bastará que a maioria absoluta, isto é, 23 possam reunir se rapidamente ai quando se trate de resolver com urgência
algum desacordo em sessão plena do Tribunal.

Nos casos menos urgentes e de exame demorado, dar-se-á prazo 4 meses para que todos compareçam. Na quase
totalidade dos casos não será necessária reunião plena, sendo provável que litigante se contentem com um juiz ou três
ou cinco escolhidos dentre os 44 membros do Tribunal.

Espero estas ideias encontrem favorável acolhimento e não tenham de passar pelo desgosto de mostrar desunião
perante a conferência.

Para tratar países latino-americanos como o quer faz delegação Estados Unidos, se é certo noticia que nos foi dada, era
melhor não as convidar para Haia.

Talvez convenha V.Exa. converse com Buchanan sobre assunto.

Rio Branco

Rui envia um segundo telegrama enfatizando novamente a gravidade da situação, reiterando a


questão de princípio, como se não antecipasse acordo algum:
Staats 4/8/07 Exteriores Rio [de] Janeiro
Quanto assunto particular meu telegrama ontem que, advertido de certas circunstancias muito custo consegui
descobrir, considero essencial se for apresentada proposta americana declarar imediatamente que não poderemos
firmar convenção arbitramento se ela reduzir pequenos estados, particularmente America Latina a esta condição
subalterna frações políticas porquanto em matéria natureza política como organização tribunal permanente, Estados
não podem comparecer senão sobre si, cada um como um todo independente como uma unidade soberana, e nunca
como quantidades fracionárias amalgamadas, segundo árbitros outros estados. [...] Rui

Finalmente, o barão endossa a posição de Rui, em tom menos exaltado:


5/8/07
Objeções fizeram nossas declarações, não tem como V.Exa. sabe fundamento algum. Além negociação diplomática, o
recurso dos bons ofícios mediação arbitramento são os três meios de resolver via amicabili, conflitos internacionais
como ensinam todos os mestres. Não reconhecemos em congresso algum o direito de nos impedir que lancemos mão de
qualquer desses recursos. Não pretendemos que bons ofícios ou mediação devam preceder sempre arbitramento, mas
queremos reservar nossa liberdade, recorrer esses meios quando nos aprouver ou parecem nos preferíveis. Não podemos
também admitir nos queiram obrigar submeter revisão tribunais internacionais sentenças nossos tribunais.
Os estrangeiros não podem pretender situação mais favorecida que os naturais do país. Achamos indispensável, como
V.Exa. sugere, declaração definitiva consignando nossas reservas[...]

Rio Branco
Ao mesmo tempo, Rio Branco instrui o encarregado de negócios em Washington, Gurgel Amaral98,
para que conferencie com Elliot Root, Secretário de Estado Americano, como relata em telegrama do
4/8:
Sobre assunto despacho 32 de V.Exa., telegrafei, nestes termos, a nossa Embaixada Washington: procure
imediatamente secretário de Estado para dizer lhe Rui informou-me delegação americana vai propor Tribunal
permanente composto 17 membros tendo cada um dos 9 países seguintes um membro: Alemanha, América, Áustria,
França, Holanda, Inglaterra, Itália, Japão, Rússia, nomeando um, cada um dos seguintes grupos nações: 10 Espanha,
Portugal, 11 Bélgica, Suíça, Luxemburgo, 12 Turquia. Pérsia, 13 China, Sião, 14, Suécia, Noruega Dinamarca, 15
România, Sérvia, Bulgária, esta ultima governada por príncipe sob suserania do Sultão, tendo título oficial de
Governador Geral Imperial Otomano da Rumelia Oriental, 16 México, América Central, Antilhas, 17 América do Sul.
Grupo 17 estariam de cambulhada dez países: Brasil com 24 milhões habitantes e 9 latino americanos com 25
milhões, total quase 50 milhões. [...] Isto mostra que, para a projetada formação do tribunal, não foi tomada por base
algarismo da população. pode servir de base para organizações semelhantes, como não serve para representação
chamadas grandes potências, nem tampouco para formação Senado Americano e Senado Brasileiro.

Se projeto desse ao Brasil um lugar no Tribunal e dividisse Republica Espanholas sul americanas em 2 ou 3 grupos,
estes poderiam queixar da capacitus diminutio, seriamos obrigados a apoiá-las na defesa seus direitos de Estados
soberanos. Secretário Estado, no seu memorável discurso 31 Julho 1906, Conferência Panamericana Rio de Janeiro
disse: “We deem the independence and equal rights of the smallest and weakest member of the family of nations
entitled to as much respect as those of the greatest Empire”.

O projeto da Delegação como seria humilhação para Brasil e outros povos americanos e destruiria todo efeito origem
Root.

Três dias depois, informa sobre a posição americana:


7/8/07
Do telegrama de New York, destaco esta parte não cifrada ontem: Root acha Brasil deve ser representado por árbitro
próprio, mas pensa difícil nove restantes republicas também cada uma seu, que Argentina poderia ser chefe grupo
composto dela, Uruguai, Paraguai, Bolívia, inconveniente para nós, pois seria esboçar começo uma liga prejudicial
Brasil. Outro grupo Chile, Equador, Colômbia, Venezuela omitindo, talvez descuido, Peru. Gurgel Amaral diz apesar
amizade entre família hispano-americana, é preciso contar com pendências existentes entre Equador Colômbia, entre
esta e Venezuela, além desejo natural cada uma deixar conferência com mesma agradável impressão lhes produziu
convite. Acrescenta dificuldades suscitam proposta não seriam limitadas América, dar- se iam também Europa, pois
improvável Portugal, Espanha desfrutem árbitro, Turquia e Pérsia, Suíça e Bélgica, Suécia, Noruega. Diz mais que
também ruim constituição tribunal produzirá ressentimentos, além desprestígio nações americanas, algumas das
quais já pesam tanto no mundo quanto algumas europeias. Acha preferível inexistência semelhante tribunal.

Rio Branco

E no dia seguinte (8/8/07) continua o relato de Gurgel Amaral:


Gurgel Amaral regressando de Clinton, onde conferenciou secretário estado, informa Root em principio oposto ideia
serem todas nações representadas.
Acha impraticável que peguem estados tais como Haiti, Dominicana, Centro América, mesmo alguns sul americanos
tenham voto igual grandes potências que naturalmente tem maiores interesses e responsabilidades. Manifestou-se
contrario toda América Sul ter um único arbitro. [...]

Continua Gurgel Amaral dizendo:

Root disse-me lamenta contrariado com projeto de Choate99, declarou ter recomendado Buchanan prestigiasse sempre
América Latina. Ordenou agora departamento Estado telegrafasse hoje 7 à Choate que Brasil supõe saber delegação
americana vai apresentar proposta reproduzindo resumo que Amaral lhe comunicou, e acrescentando isso lhe parece
impossível. Pensa não há descortesia proposta formação grupos nações, entendendo porém, Brasil tenha sua
representação própria. Tal é quase textualmente comunicação recebida hoje.

Rio Branco

Aparentemente, a possibilidade de manter o Brasil com uma representação animou Rio Branco a
propor um projeto próprio de composição do tribunal:
15/8/07
Dirigi nossa embaixada Washington seguinte despacho: Sábado trata se em Haia organização tribunal arbitral.
Convém falar Departament State para que telegrafe a Root e Presidente ver se concordam em telegrama sua
delegação, que não [ ] com as grandes potências europeias e com elas combine tudo plano que nos parece melhor é o
indicado no meu telegrama de 4 Agosto. Entretanto, como transação, poderia ser adotado seguinte: Tribunal teria 21
membros em vez de dezessete. 15 lugares seriam reservados aos países representantes Haia cuja população exceda de
10 milhões de habitantes incluindo população suas colônias. São eles: Estados Unidos América, Brasil, México,
Alemanha, Áustria, Espanha, França, Inglaterra, Itália, Holanda, Portugal, Rússia, Turquia, China, Japão. Os outros
cinco lugares seriam ocupados pelos demais países segundo o sistema rotatório adotado para o tribunal de presas. Em
cada período de dez anos Bélgica e Pérsia dariam juízes oito anos. Suécia, România, Argentina, Suíça, Chile cinco
anos. Peru, Colômbia, Dinamarca, Grécia, Sérvia, Bulgária três ou quatro anos. Venezuela, Guatemala, Bolívia, Cuba,
Salvador, Equador, Uruguai, Paraguai um ano. Demais repúblicas americanas se reuniram para nomear um árbitro por
ano. Do mesmo modo Luxemburgo e Montenegro ou alternando-se estes dois países, dando um, um árbitro de ano num
período de 10 anos e o outro no seguinte período. Só entrariam na rotação os países que se declarassem prontos pagar
ao seu arbitro os vencimentos fixados pela conferência e depositasse adiantadamente em Haia a soma precisa para o
pagamento de um ano. Queira sem perda de tempo entregar copia traduzida parte essencial deste despacho. [...]

Rio Branco

Ao que Rui Barbosa responde pessimista, no dia 16:


Devemo-nos preparar hipótese provável recusarmos assinatura convenção, visto estarem americanos aferrados seu
plano que delegação portuguesa garante-me absolutamente ser obra e questão Root. Entretanto, vou apresentar
americanos ideias esboçadas Vossência telegrama setenta e oito, mas julgo certa recusa. Buchanan ontem revelou-me
traços gerais, confirmando minha previsão comunicada Vossência telegrama meu quarenta e oito.
Mesmo sistema rotatório tendo representação permanente doze nações, excluído Brasil com representação bienal
semelhante Bélgica, Suíça, Suécia, Dinamarca, Portugal, Grécia.

Alegam, estados americanos equiparados esses europeus evitar-se-á depreciação daqueles.

Evidentemente argumento insatisfatório.

No dia seguinte (17/08), concluindo o telegrama da véspera, Rui escreve:


Opino cingirmo-nos soluções que mantenham princípio igualdade todos os Estados. Fora daí, incorreremos censura
interesseiros e agravaremos indisposição pequenos estados americanos nosso respeito, enfraquecendo nossa
autoridade moral. Consequência seria talvez ficarmos fora convenção relativa tribunal permanente. Mas com isso
pouco poderíamos, porque assinaríamos convenção arbitramento obrigatório e para este teríamos corte atual, além
faculdade plena já reconhecida conferência de recorrer outros árbitros. Assim, sairíamos nobremente, satisfazendo
nossa consciência e opinião publica. Vossência engana-se atribuindo culpa principal desta invenção [aos] Estados
europeus. Responsabilidade capital pertence americanos, seguidos Alemanha [...]. Rui
No dia 18, como que confirmando a sua apreciação negativa sobre a atitude dos americanos:
Anteontem, Buchanan procurou-me dizendo-me vagamente haverem recebido alguma coisa Washington nosso
respeito e perguntando-me que alvitres sugeríamos. Respondi-lhe dando escrito confidencial, resumo pensamento
governo brasileiro. Procurando-me ontem novamente agradeceu-me comunicação, mas absteve-se discuti-la. Apenas
disse como indicação política, sugeria-me que se projeto houvesse ser despedaçado como talvez seria conveniente,
deixá-lo matar mãos Bélgica, Suíça, Espanha, outros europeus não Estados Americanos. De noite banquete inglês, de
onde voltamos nosso automóvel, repetiu-me insinuação sobre que Vossência refletirá. Parece-me difícil atendê-lo
considerando teremos sempre manifestarmo-nos sobre situação reservada projeto Estados Americanos.

Rio Branco reage prontamente:


19/8/07
SOBRE OBSERVAÇÃO DE BUCHANAN: EM WASHINGTON, PROCUREI PERSUADIR GOVERNO CONVENIÊNCIA
MODIFICAR NO INTERESSE DA SUA INFLUENCIA POLÍTICA NESTE CONTINENTE, A INÁBIL PROPOSTA DE SUA
DELEGAÇÃO QUE AI ANDA LIGADA ÀS GRANDES POTÊNCIAS MILITARES, SEM DAR IMPORTÂNCIA ALGUMA AOS
PAÍSES DA AMÉRICA LATINA. NÃO TENDO HAVIDO INTERVENÇÃO EFICAZ, SÓ NOS RESTA AGORA TOMAR A
POSIÇÃO QUE A NOSSA DIGNIDADE NOS IMPÕES.

JÁ É TARDE PARA SUGERIR OUTROS ALVITRES E A REJEIÇÃO DO TRIBUNAL ARBITRAL É O ÚNICO PARTIDO QUE
NOS RESTA.

A PARTE PRINCIPAL NESSA CAMPANHA DEVE PERTENCER AO BRASIL E AOS DEMAIS PAÍSES LATINOS DA
AMÉRICA, MAS O CONCURSO DA BÉLGICA, SUÍÇA, PORTUGAL E OUTROS PAÍSES DA EUROPA SERÁ PRECIOSO
PARA NÓS100.

Rui recebe a decisão com entusiasmo:


Staats 19/8/07 Exteriores Rio [de] Janeiro
Estou satisfeitíssimo firmeza nosso presidente e linguagem Vossência. Extrema importância caso aconselha-me
telegrafar íntegra nossa proposta escrevi correndo esta manhã para apresentar amanhã tarde Comitê, desenvolvendo-a
exposição oral. Despesas telegramas crescem imensamente, mas impossível evitá-las.

Poder-se-ia dizer que este momento marca a reviravolta da delegação brasileira e sua adesão à da
defesa intransigente da igualdade jurídica de todos os Estados, o que leva Rui Barbosa a desenvolver
esforços para construir um sólido bloco político em torno desse princípio. A oportunidade surge
quando da apresentação da proposta americana101, por um seu delegado, James Scott Brown102 que
argumentava: conquanto aplicando a população como princípio geral satisfatório, levamos em conta ao
mesmo tempo os interesses da indústria e do comércio, e conscientemente nos afastamos do princípio
de modo a fazer justiça a vários outros interesses. O projeto, dizia ele, respeita a igualdade jurídica de
todos os estados, embora reconheça a superioridade da maior população, indústria e comércio desses
Estados que lhes dá direito a uma participação mais intensa na corte103.
Em contrapartida, o Brasil apresenta um projeto de resolução permitindo a cada país a indicação de
um juiz para o futuro Tribunal. Segue-se uma série de telegramas de ambas as partes – Rui e o Barão –
anunciando a simpatia ou a adesão de vários países à tese brasileira.
Por exemplo, no dia 20/08, de Rui para Rio:
Acaba sair aqui Beldiman104 da România, um dos membros mais distintos da Conferência Posemo-nos de acordo.
Temos mais já certos Bélgica, Suíça, Grécia, Dinamarca, Sérvia, talvez Noruega.
E, no mesmo dia, de Rio Branco para Rui:
Suíça pleno acordo conosco, telegrafou ontem Carlin105 entender-se com V.Exa.

Ou ainda, também no dia 20/08:


Fui colega de Beldiman Berlim106, sei foi bom combatente Haia 1899.
V.Exa. me obrigará, manifestando-lhe meu contentamento, saber estamos acordo. Creio não será impossível Rússia,
Áustria, Itália nosso lado.

Ansioso noticias sessão de hoje, mas convencido bons resultado antecipo V.Exa. parabéns.

O Barão contabiliza os votos (20/08):


Com Bélgica, Dinamarca, Grécia, România, Sérvia, Suíça, mais dezesseis americanas republica Argentina, Cuba,
Panamá, teremos vinte e três votos, que fazem maioria absoluta.

E mais:
24/8/07
Chile, Uruguai, Bolívia telegrafaram ontem suas delegações para que apóiem proposta brasileira sobre tribunal
arbitral. Recebido 67. Opinião aqui cada vez mais acentuada favor proposta de 20.

Rio Branco

Rui aproxima-se de Léon Bourgeois107, delegado francês que presidia o Comitê A, que como ele não
estava convencido da necessidade do novo Tribunal, além de pensar que os casos de arbitragem
obrigatória deviam ser bem estudados108. Em pelo menos dois telegramas ele faz alusão a essa
identificação entre a posição brasileira e a posição francesa:
Staats 20/8/07 Exteriores Rio [de] Janeiro
D’Estournelles109 ouviu-me simpatia resumo ideias nosso projeto, animando-me defendê-las e descobrindo-me serem
semelhantes às de Bourgeois, que não simpatiza duplicação corte permanente. Rui

E, neste, de 23/08:
Sentimento Bourgeois sobre desnecessidade nova corte, semelhantes nossos.

Ao se aperceber da dificuldade de aprovar o projeto de sua delegação, Choate procura Rui Barbosa
propondo-lhe um acordo que recebe a simpatia do delegado brasileiro:
Staats 23/8/07 Exteriores Rio [de] Janeiro
Acaba sair daqui Choate, tendo-me mandado pedir conferência por Scott. Veio tratar possibilidades acordo conosco,
recusado por mim alguns alvitres, sugeriu este. Projeto organização corte permanente seria aprovado, exceto ponto
concernente composição tribunal, o qual por estipulação expressa, convenção ficaria reservado futuro ou acordo
ulterior potências. Prometi consultar governo. Tal sugestão dependeria ainda assentimento outros Estados com quem
entender-se-á. Mas a verificar-se talvez fosse boa transação. Projeto outros respeitos, excelente trabalho jurídico e
anuindo americanos abrir mão agora, princípio por nós impugnado penso teríamos notável triunfo, sendo isso devido
nossa iniciativa e perseverança de resistência. Sujeito porém minha opinião dependente ainda reflexão ao juízo
Vossência. Creio transigindo sem sacrifício, nosso principio sobre o qual ficaria adiada decisão sairíamos airosamente
sem desvantagens rompimento. Rui

Porém, dois dias depois muda de ideia:


Staats 25/8/07 Exteriores Rio [de] Janeiro
Continuando refletir sugestão Choate, começo ver-lhe objeções. Primeiro. Suponho extravagante absurdo estabelecer
código de uma instituição ainda não organizada. Segundo. Conhecida vontade firme potências estabelecer
organização corte permanente base desigualdade Estados, seria talvez receado na ausência conferência pressão
potências sobre países fracos para induzi-los aceder. Até agora nenhum representante quatro governos americanos
Vossência indicados me tocou sobre ordens recebidas. Rui

Diante das dificuldades crescentes em fazer passar o seu projeto, os norte-americanos buscaram
algumas fórmulas alternativas. Uma delas consistia em fazer o plenário da Conferência eleger os juízes
que compusessem o Tribunal. Ao lançar a proposta, o representante dos Estados Unidos dizia – como
se insinuasse uma vasta cooptação – que, ali mesmo na Conferência havia homens absolutamente
competentes e preparados para serem juízes por um período fixo ou até a próxima conferência; e citou
30 delegados presentes, excluindo o nome de Rui, que comunica o incidente ao barão nos seguintes
termos:
Staats 5/9/07 Exteriores Rio [de] Janeiro
Para execução deste plano, declarou Choate haver conferência elementos magníficos, citando Lammasch110,
Beernaert111, Descamps112, Matson, Bourgeois, D’Estournelles113, Renault114, Zorn115, Von Bar116, Marschall117, Kriege118,
Fry, Satow119, Streit120, Tornielli121, Denison122, Asser123, Lohman124, Hagerup125, Martens126, Lou127, Tsudzuki128,
Hamarskjold129, La Barra130, Esteva131, Reay132, Saenz Peña133, Drago, Larreta134, Ordõnez135. Assim, só excluindo o Brasil.
Não preciso outro argumento, além desta injuriosa exclusão para responder Choate, mostrando-lhe inaceitabilidade
sistema eleição. Dele e seus companheiros, dizia-me hoje Prozor [Maurice, delegado russo]: Ce sout des incapacités de
tout premier ordre.

Diante do impasse, no dia 5 de setembro, organizou-se uma comissão de sete chefes de delegação:
Marschall, da Alemanha, Kapos-Mere, da Áustria, Tornielli, da Itália, Nélidow, da Rússia, Rui Barbosa,
Choate, dos Estados Unidos, e Bourgeois, da França, denominada pelo jornalista William Stead136 de
comissão dos “sete sábios”. Reunida, a comissão eliminou logo o projeto americano que passara a se
chamar de anônimo para poupar os Estados Unidos Ao mesmo tempo, declarava que o princípio de
igualdade entre estados era inviolável e rejeitava o sistema rotativo para eleição de juízes137. A
discussão mantinha-se bloqueada no que diz respeito à composição do Tribunal.
Como medida conciliatória, o delegado inglês propõe que se aprove a existência de uma Corte de
Arbitragem, cuja organização se faria quando acordo houvesse. Rui Barbosa se opõe:
Staats 19/9/07 Exteriores Rio [de] Janeiro
[Ontem] combati sugestão Fry138, que propunha recomendar governos organizarem Corte sujeita ao regime do projeto
aprovado com reserva dois artigos concernentes composição Corte, logo que chegassem acordo sistema de resolve-la139.
Mostrei absurdo grosseiro desse alvitre perigoso e conclui respondendo balela geral sobre necessidade criarmos
qualquer modo nova Corte para não desapontar opinião publica. Mostrei ela não tem direito esperar conferência tal
criação, porquanto alheia e contrária programa.
Por essa época, o barão ainda nutria esperança de que pelo menos alguns elementos da proposta
brasileira pudessem ser adotados:
21/9/07

[...] Aceite V.Exa. as minhas felicitações. Quanto ao projetado novo tribunal, talvez não seja impossível que na reunião
geral da 1ª comissão prevaleçam ainda as duas indicações na nossa proposta de 20 de Agosto: Nomeação de um
árbitro pago por cada estado e livre escolha de 3, 15 ou mais juízes pelas partes litigantes.

No entanto, Rui Barbosa já detinha o controle do plenário e estava em situação de julgar melhor a
relação de força que lá se estabelecera:
Staats 21/9/07 Exteriores Rio [de] Janeiro
Agradeço [e] retribuo felicitações Vossência, a quem igualmente competem. Peço não insistir renovação nosso projeto
comissão. Para que passarmos de vencedores a vencidos? Tenho consultado e sondado sobre essa tentativa. Estou
absolutamente certo revés. Nossos apoiadores miravam unicamente salvar igualdade Estados, agora vencedora. Não
encontrei em nenhuma declaração franco apoio nosso projeto. Na Europa não teríamos um voto. Nossos amigos
Bélgica, România, Suíça repelem novo tribunal, qualquer forma. Americanos julgam-se satisfeitos vitória principio
igualdade.

Maioria potências desconfia qualquer sistema que não assegure seu ascendente. França, mais apaixonada nós, está
dominada preocupação tribunal justiça, rejeitando nova corte escolha juízes pelas partes. Impressão geral é ideia nova
corte ainda imatura. Espíritos fatigados, sôfregos termos conferência, receiam qualquer renovação debate capaz
retardar conclusão. Recebê-lo-iam como impertinência. Nossa proposta seria infalivelmente sacrificada.

A Conferência aproximava-se do fim e haveria ainda uma reviravolta: os norte-americanos,


procurando uma saída honrosa e conciliatória, propõem um acordo em torno da emenda Fry,
acenando com o apoio dos países sul-americanos140.
Staats 8/10/07 Exteriores Rio [de] Janeiro
Acabam sair daqui novamente, Gana, Matte141 mostrara-me cópia telegrama seu governo comunicando-lhe passo por
ele dado, junto Vossência, favor transação, apoio voto Fry. Opinião deles tal resolução ficará letra morta, não
acreditando faça nada governo americano sem concurso acorde Brasil, Chile, Argentina pelo que cedendo agora
teríamos, sem risco algum, vantagem não indispormos Estados Unidos, reproduzo lealmente considerações expostas
para apreciação Vossência, não desejando minha opinião pessoal nem meu voto anterior dado de acordo instruções
Vossência sejam obstáculo reconsideração, caso governo a julgue aconselhada por interesses superiores nosso país.
Não tenho amor próprio em assuntos desta natureza, desejo governo obre livremente atendendo só conveniência
nacional. Resposta dever chegar-me ate amanhã manhã. Aliás, continuarei manter instruções recebidas, falando e
votando mesmo sentido. Telegramas última quinzena importaram 14.692 florins. Rui

E Rio Branco, em nome de Afonso Pena, sanciona o acordo:


9/10/07
[F]ica autorizado pelo presidente à proceder amanhã como lhe parecer melhor: Aceitando a transação, mas afirmando
que não aceitaremos sistema que não seja o adotado em 1899, pelo reconhecimento da igualdade dos estados
soberanos, que não aceitaremos o sistema de juízes periódicos meio de rotação, nem de juízes escolhidos por eleitores
estrangeiros.

Rio Branco
No mesmo dia, Rui Barbosa faz o seu último discurso na sessão da Comissão A em nove de outubro.
Nele, traça um perfil da Conferência, caracteriza suas principais divergências, põe em relevo o papel
dos pequenos países nas questões internacionais. E apoia a proposta de Fry. Segundo ele, foi o seu
melhor desempenho:
Staats 9/10/07 Exteriores Rio [de] Janeiro
Sete horas meia, acabo chegar sessão primeira comissão começada quatro horas. Aceitei voto Fry, falando cerca uma
hora. Foi o meu trabalho mais importante e meu melhor dia nesta conferência. Expliquei nossa posição durante ela,
defendi nossa atitude corte permanente, corte presas, respondi acusações pretendermos sujeitar grandes estados
julgamento pequenos, defendi estes imputação terem causado naufrágio conferência, mostrei responsabilidade não
solução questões, cabe exclusivamente grandes estados, historiei acentuei importância papel internacional Brasil,
evidenciei consequências fatais insistir-se erro convencer Estados ser força militar único critério distinção entre nações,
fiz ver rápido crescimento países americanos, acidentalidade classificação entre grandes pequenos Estados, discuti
pretensão substituírem-se conferências por Congressos grandes potências, sustentei conquista conferência hoje
irrevogável e inevitabilidade conferência futura. Dizem nenhum discurso foi aqui ainda ouvido tanta atenção
manifestação recebidas foram gerais e extraordinárias, sinto não poder resumi-lo, seria impossível só transmitindo todo
caso Vossência determinasse. Rui

III. EPÍLOGO
O Tribunal de Arbitragem é então aprovado, com as reservas incluídas na proposta de Sir Edward
Fry. A grande vitória de Rui Barbosa consistiu, portanto, em conseguir levar a Conferência a um
impasse, levantando uma maioria contra a posição das grandes potências, o que por sua vez produziu
uma decisão relativamente anódina: mantinha-se um princípio, o da criação do Tribunal, ao menos
tempo em que se adiava a sua execução.
E, no entanto, não foi um resultado trivial. Tem o mérito, por exemplo, de haver levantado uma
questão até hoje não resolvida em todos os esforços para desenhar mecanismos internacionais,
assembleias de nações ou instituições multigovernamentais: a questão da igualdade entre as nações.
Basta lembrar (é um óbvio exemplo) a formação e o funcionamento do Conselho de Segurança das
Nações Unidas, com os seus membros permanentes e rotativos, os primeiros com o poder de veto,
fórmula quase análoga ao que havia sido proposta para o Tribunal de arbitragem.
Quanto à arbitragem obrigatória, além de receber os votos contrários da Alemanha e da Áustria, as
reservas quanto aos casos eram tantas que nada seria possível além da declaração geral de
princípios142.
No desenrolar da Conferência, os telegramas nos trazem a dinâmica do processo de tomada
decisões da delegação brasileira, o que inclui as concepções estratégicas do barão, o rigor jurídico de
Rui, seus conhecimentos das assembleias e jogos parlamentares, além do senso de improvisação e de
oportunidade de ambos. O Brasil começa firmando limites negativos, do que não seria aceitável,
rejeitando, por exemplo, o arbitramento obrigatório, em defesa da soberania nacional, mas, sobretudo,
montado nas suas experiências de negociações internacionais mais recentes: a de fixação de suas
fronteiras que não queria ver comprometidas por solicitações de arbitramento.
A delegação brasileira rejeita no início a aliança com os outros países sul-americanos na questão da
dívida externa, evitando se identificar com uma posição que pudesse alienar os países credores ou,
melhor, que o mostrasse afastado das regras dominantes no mercado internacional do crédito. Além
disso, tenta por algum tempo obter dentro do sistema de representação que era proposto uma
posição que salvaguardasse o princípio da “honra e da dignidade nacional”.
A bandeira da igualdade entre as nações que abrigou uma frente de países animados pela posição
brasileira só aparece em reação à proposta de organização do Tribunal de Arbitragem das grandes
potências. A esse propósito, vale citar, a título de conclusão, esta carta de Joaquim Nabuco a Rui,
quatro dias após o encerramento da Conferência143:
Washington, out. 22, 1907
Meu caro Rui,

Recebo o seu telegrama144 que muito agradeço. Felicito-o por ter atravessado esses longos meses da Haia sempre fresco
e pronto para a luta. V. é extraordinário. Deus o conserve.

Escrevi ontem longa carta ao Rio Branco. Meu desejo é que o recebam pelo brilho e culminância intelectual que V. deu
à representação do Brasil entre as nações, mas que o não queiram identificar, encarnando-o em V., com o princípio da
igualdade absoluta de todos os Estados nas fundações internacionais. Quase não tenho coragem por causa dele de ir
ao nosso Bureau145 onde a ilha de Haiti vale mais do que o Brasil, anula o nosso voto com as suas duas republiquetas. Eu
sei que V. pensa como eu. A nossa política na Haia foi toda de ocasião, em defesa própria, para evitar que nos
amesquinhassem, mas desde que pensam em engrandecer-nos não devemos dizer que não entramos onde não entram
também S. Domingos e Haiti. Tudo que devemos apurar da Conferência, e de que nos devemos orgulhar, é a reputação
de alta cultura que V. criou para o Brasil. Esse é o grande resultado dela para nós e por ele serão poucas todas as
manifestações que lhe fizerem os Brasileiros. Demais na sua atitude, na sua veemência, no seu gesto, V. mostrou bem
que se sentia o representante de uma grande nação e que queria que a tratassem como tal. Essa alma é incompatível
com o princípio de que não há diferenças.

Não me consolarei se não for ao menos por um dia a Roma. Creia que seria um dia único em sua vida. Quando fui a
primeira vez à Itália passei um dia somente em Roma na ida para Nápoles, de volta demorei-me um mês, creio, mas
aquele dia não se me apaga da memória. Fica sendo único e completo.

Meus respeitos a Mme. Rui Barbosa e felicitações pela sua brilhante estreia e por ter sustentado até ao fim com o peso
daquela grande campanha. Desejo-lhes a mais feliz viagem.

Do seu Velho Amigo

Joaquim Nabuco

1
MELLO, Evaldo Cabral de. “Historiadores no confessionário”. In: Um imenso Portugal. História e historiografia. Rio de Janeiro:
Editora 34, 2002, p. 307.
2
Cadernos contendo originais dos telegramas expedidos pelo Barão do Rio Branco para Rui Barbosa por ocasião da Segunda
Conferência Internacional da Paz. In: Fundação Casa de Rui Barbosa, Arquivo Rui Barbosa, Coleção de Arquivos Pessoais, RB-
RBCH RB-RBCH 8. 09-06-1907 a 27-11-1907.
3
Cadernos contendo cópias de telegramas expedidos por Rui Barbosa por ocasião da Segunda Conferência Internacional da Paz.
In: Fundação Casa de Rui Barbosa, Arquivo Rui Barbosa, Coleção de Arquivos Pessoais, RB-RBCH RB-RBCH 9. 11-06-1907 a 17-12-
1907.
4
Os telegramas formam um conjunto de 160 páginas, ou seja, 380.997 caracteres com espaços.
5
Para uma apresentação bastante abrangente e detalhada deste momento histórico, assim como para uma análise dos principais
resultados das duas Conferências, consulte-se o trabalho recente de Christiane Vieira Laidler: A Segunda Conferência da Paz de
Haia – 1907: o Brasil e o sistema internacional no início do século XX (Rio de Janeiro, Edições Casa de Rui Barbosa, 2010).
Sobretudo os capítulos: “Entre a paz e a guerra: a construção do sistema internacional” (pp. 15-52) e “As Conferências de Haia e o
Direito Internacional” (pp. 53-88).
6
Alemanha, Áustria-Hungria, Bélgica, Bulgária, Dinamarca, Espanha, França, Grã-Bretanha e Irlanda, Grécia, Itália, Luxemburgo,
Montenegro, Países Baixos, Portugal, Romênia, Rússia, Servia, Suécia e Noruega, Suíça, Turquia, China, Japão, Pérsia, Sião, Estados
Unidos, México.
7
CUNHA, Pedro Penner da. A diplomacia da paz – Rui Barbosa em Haia. Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa, 1977, p.
10.
8
São elas: 1) a Convenção Concernente às Leis e Costumes da Guerra Terrestre; 2) a Convenção para a Adaptação à Guerra
Marítima dos Princípios da Convenção de Genebra de 22 de agosto de 1864; 3) a Declaração sobre a proibição de lançar projéteis e
explosivos a partir de balões ou métodos análogos; 4) a Declaração sobre a proibição do emprego de gases asfixiante ou venenosos;
5) a Declaração sobre a proibição do uso de balas que se achatassem ao penetrar no corpo humano.
9
Cf. do artigo segundo ao artigo oitavo.
10
Artigo nono.
11
Cf. do artigo nono ao artigo 14.
12
Artigo 21.
13
Virginia, Estados Unidos.
14
LAIDLER, Christiane Vieira. A Segunda Conferência da Paz de Haia – 1907, op. cit., p. 77.
15
Graças em boa parte aos esforços de Joaquim Nabuco, então embaixador do Brasil em Washington, desde maio de 1905. A
principal tarefa política de Nabuco, no seu primeiro ano na Embaixada, foi trabalhar nas preparações da III Conferência Pan-
Americana. Theodore Roosevelt reanimara a doutrina Monroe e Elihu Root fizera do pan-americanismo um dos elementos da sua
política à frente do Departamento de Estado. Tendo consolidado a sua posição na América Central, sobretudo depois da
independência de Cuba (1898) conquistada com o seu apoio, e da concessão do Canal do Panamá (1903), os Estados Unidos
procuravam ampliar a sua influência por toda a América Latina.
16
Alemanha, Argentina, Áustria-Hungria, Bélgica, Bolívia, Brasil, Bulgária, Chile, China, Colômbia, França, Grã-Bretanha, Grécia,
Guatemala, Haiti, Itália, Japão, Luxemburgo, México, Montenegro, Nicarágua, Noruega, Panamá, Paraguai, Países-Baixos, Peru,
Pérsia, Portugal, Romênia, Rússia, Salvador, Sérvia, Sião, Suécia, Suíça, Turquia, Uruguai, Venezuela.
17
Cf. NABUCO, Carolina. A Vida de Joaquim Nabuco, por sua filha Carolina Nabuco. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1929,
p. 319.
18
Cf. “A Missão Nabuco”, A Imprensa, 18 de março de 1889.
19
Em 14 de junho de 1904, o rei Victor Emanuel da Itália deu o laudo arbitral na questão da Guiana Inglesa. O território disputado foi
dividido em duas partes: 3/5 para a Grã-Bretanha e 2/5 para o Brasil.
20
Discurso no Senado, em 5 de agosto de 1905. In: VIANA FILHO, Luís. A vida de Rui Barbosa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira,
1987, p. 344.
21
E em 1908, reelege-se vice-presidente do Senado e, juntamente com José Marcelino e Luis Viana, elegem o governador da Bahia,
João Ferreira de Araújo Pinho.
22
Portanto, no governo Rodrigues Alves.
23
Em dado momento, Rio Branco convidou ambos como delegados plenipotenciários. Rui Barbosa era vice-presidente do Senado (o
vice-presidente da república presidia o Senado), portanto, o segundo na linha de sucessão presidencial, o que lhe daria a
prerrogativa de ser o primeiro delegado. Nabuco era embaixador e parece ter declinado do convite ao constatar que nenhuma outra
delegação americana enviaria um embaixador em posição secundária (Cf. Telegrama de Joaquim Nabuco a Hilário de Gouveia, de
04/03/1907: Fundação Joaquim Nabuco/telegramas/5926).
24
Notadamente de Hilário de Gouveia, cunhado de Nabuco, e de Graça Aranha, diplomata. Cf. Luís Viana, op. cit., p. 733.
25
ALENCAR, José Almino de; SANTOS, Ana Maria Pessoa dos (Orgs.). Meu caro Rui, meu caro Nabuco. Rio de Janeiro, Casa de Rui
Barbosa, 1999, p.47.
26
Idem, p. 48.
27
Cf. Luís Viana, op. cit., p. 735.
28
Meu caro Rui, meu caro Nabuco, op. cit., pp. 51-54.
29
Na verdade, trata-se mais de um relato quase informal, entre amigos, escrito em papel de carta do Hotel La Pérouse, rue La
Péruse, Paris 16ème. O fragmento a seguir ilustra bem o tom geral da mensagem: O Esteva [Gonzalo A. Esteva] Primeiro Delegado
do México, é muito polido, mas frio e muito susceptível e exigente em questões de forma. Ele foi meu colega em Roma e é meu
amigo. [...] O México é o rival da Argentina na América Espanhola e politicamente mais importante pela proximidade dos Estados
Unidos, o que o torna um agente deste para as nações da mesma língua. O México procurou muito tempo fugir a essa aproximação,
mas hoje compreende melhor o seu interesse e os Estados Unidos lhe estão insuflando o seu espírito pouco a pouco. Entre o México e
a Argentina não tenho dúvida de que eles prefeririam elevar o México tanto na Haia como em qualquer outra ocasião. Cf. Idem, p.
51.
30
Idem, pp. 54-71.
31
João Belmiro Leoni, então Cônsul Geral do Brasil na França.
32
Pierre Émile Levasseur (Paris, 08/12/1828 – 10/07/2012). Economista, geógrafo, estatístico. Professor do Collège de France,
ele organizou a Grande Encyclopédie de Lévasseur, cujo verbete sobre o Brasil, publicado em 1889, contou com a colaboração de
Rio Branco.
33
Artur de Carvalho Moreira (Rio de Janeiro, RJ 1844 – 27/10/1918). Filho do Barão de Penedo, Francisco Inácio de Carvalho
Moreira, ministro do Brasil em Londres. Criado na Europa, Artur de Carvalho retornou ao país para cursar a Faculdade de Direito de
São Paulo, onde fez amizade com Rui Barbosa. Diplomata de carreira, ele acompanhou Rui em sua missão em Haia como primeiro-
secretário da delegação brasileira.
34
Edições Pedone, responsável pela publicação da Revue de Droit International Public, Paris, França. Trata-se do artigo «Les
Emprunts d’État et leurs rapports avec la politique internationale», in : Revue de Droit International Public, volume XIV, 1907, pp.
270-272.
35
Luis Maria Drago (Buenos Aires, Argentina 06/05/1859 — Buenos Aires, 09/06/1921). Ministro das Relações Exteriores da
Argentina no governo de Julio Argentino Roca (1898-1904).
36
Trata-se do que ficou conhecido como a “Doutrina Drago” (referente a Luis Maria Drago), a qual afirmava que nenhuma potência
estrangeira pode usar a força contra uma nação americana com a finalidade de cobrar uma dívida. A “Doutrina Drago” e a “fórmula
[americana] sobre a questão Drago” serão tratadas a seguir, na seção II.a.
37
Afonso Augusto Moreira Pena (Santa Bárbara, MG 30/11/1847 – Rio de Janeiro, RJ 14/06/1909), Afonso Pena, era o Presidente
da República.
38
“Conveniência prazo periódico futuras conferências”.
39
“Imunidade no mar da propriedade particular inofensiva em tempo de guerra”.
40
“Propor Código Naval Americano como base para regras a formular as matérias que ele abrange”.
41
“Não convém adotar regras para mitigar males da guerra com prejuízo dos direitos dos neutros, nem regras quanto aos direitos dos
neutros que facilitem as guerras”.
42
“Reduzir quanto possível listas dos artigos de contrabandos de guerra”.
43
“Fim da Conferência é verificar e pactuar aquilo em que nações estejam unânimes e não coagir nenhuma a assentir no que não
aprove. Todavia, estando diversas acordes num princípio poderão finalizar convenções abertas à adesão das demais”.
44
“Não se envolver negócios políticos europeus”.
45
“Havendo probabilidade resultado, apoiem proposta limitação armamentos”.
46
“Fórmula [americana] sobre a questão Drago militar por dívidas”.
47
Por pitoresco, note-se aqui aplicado, por um político mineiro como Afonso Pena, esse princípio da politique politicienne: não se
desgastar em conflitos que serão resolvidos ou assumidos por terceiros.
48
Elihu Root (Clinton, N.Y, EEUU, 15/02/1845 – New York City, NY, 07/02/1937). Político norte-americano. Foi Secretário da
Guerra dos presidentes MacKinley (1897-1901) e Theodore Roosevelt (1901-1909). Em 1905, assumiu o cargo de Secretário de
Estado do governo de Roosevelt, cargo que ocupava durante a II Conferência da Paz em Haia.
49
A nota de Elliot Root se encontra em DRAGO, Luis M. Cobro Coercitivo de deudas Publicas. Buenos Aires: Coni Hermanos
Editores, 1906, p. 156. Afirma “aceitar o princípio que contratos entre uma nação e um indivíduo não devem ser coletados pela
força” – aproximando-se assim da doutrina Drago o que permitiria a “Conferência de Haia dar um importante passo em direção à
redução das causas de guerras”. A posição americana na conferência qualifica esta afirmação de Elliot Root.
50
No telegrama “14 corrente”, mas o texto diz respeito claramente ao § 5º do telegrama 3 de 12 de junho
51
O tema referido neste parágrafo 5, “Imunidade no mar da propriedade particular inofensiva em tempo de guerra”, havia sido
objeto da Declaração de Paris de 1856 – a primeira grande tentativa internacional de codificar uma legislação marítima – adotada
pela Grã-Bretanha, Áustria, França, Prússia, Rússia, Sardenha e Turquia. Nela, foram adotados os seguintes princípios: “1. O corso é
e fica abolido; 2. O pavilhão neutro cobre a mercadoria inimiga, com exceção do contrabando de guerra; 3. A mercadoria neutra,
com exceção do contrabando de guerra, não pode ser apresada sob pavilhão inimigo”.
Em telegrama anterior de 13 de junho, Rio Branco cita como antecedentes ligados ao tema, uma nota diplomática americana de 18
de março de 1857, assinada por William Marcy, secretário de estado do governo do presidente Franklin Pierce (1853-1857). A nota
de Marcy retoma e desenvolve os argumentos da Mensagem Presidencial de Franklin Pierce de 4 de dezembro de 1854, que defende
a manutenção do corso durante períodos de guerra: “A proposta de compromissos para renunciar-se ao recurso dos corsários, se
este país se visse obrigado a entrar em uma guerra com alguma potência marítima, não merece mais favorável consideração do que
aquela que fosse feita para não se aceitarem os serviços de voluntários para operações em terra”. Nenhuma nação que se respeita –
acrescenta Marcy – “permitirá que outra qualquer, beligerante ou neutra, venha determinar-lhe o caráter da força que ela julgue
conveniente empregar em seus atos de hostilidade; e infringirá as leis da prudência se abdicar voluntariamente a faculdade de
recorrer a qualquer meio que, sancionada pelo direito internacional, lhe possa ser vantajoso, já para defesa, já para agressão, em
quaisquer circunstancias”. Marcy sustenta que o corso é essencial para a manutenção do equilíbrio da guerra entre os países que
possuem forças marítimas e terrestres ou de meios de transporte de mercadorias desiguais. E mais adiante: “A proposta de
abandonar o direito de empregar corsários, diz ele, é fundada no princípio de que a propriedade particular dos não combatentes
inofensivos, embora inimigos, deve ficar livre das devastações da guerra; mas o abandono proposto, em pouco adiantaria a
aplicação desse princípio, que requer também que a propriedade particular não seja apreendida ou molestada pelos navios de
guerra”. Segue-se a este argumento a proposta de emenda da Declaração contida na mensagem de Pierce: “O presidente, portanto,
propõe que à primeira clausula da declaração do congresso de Paris se acrescentem as seguintes palavras: ‘ E a propriedade
particular dos súditos ou cidadãos de uma das potencias beligerantes no alto mar não poderá ser tomada pelos navios de guerra
nacionais da outra, salvo se for contrabando de guerra”.
52
Procurar obter prazo que preceda começo operações de guerra.
53
Realizada na Cidade do México, entre 22 de outubro de 1901 e 22 de janeiro de 1902.
54
Rio Branco refere-se ao Tratado de Santo Idelfonso, firmado na cidade de mesmo nome (Segóvia, Espanha) entre Espanha e
Portugal em 1° de outubro de 1777, pelo qual os dois países estabeleciam fronteiras entre ambos na América do Sul. A Espanha
manteve a colônia e a região dos Sete Povos das Missões, que depois passou a compor grande parte do estado do Rio Grande do
Sul e do Uruguai; em troca, reconheceram a soberania dos portugueses sobre a margem esquerda do rio da Prata, cederam
pequenas faixas fronteiriças para compensar as vantagens obtidas no sul e devolveram a ilha de Santa Catarina, ocupada poucos
meses antes.
55
A Guerra de 1801 se deu entre as forças coloniais de Portugal e Espanha e foi uma extensão da Guerra das Laranjas entre Espanha
e Portugal. Ela possibilitou o avanço das fronteiras das terras portuguesas no Rio Grande do Sul e Mato Grosso.
56
Entre parênteses no original.
57
Ponto de interrogação entre parênteses no original.
58
Funck Bretano, Th. et Sorel, Albert, Précis du Droit des Gens. Paris: Librairie Plon, troisième édition, 1900.
59
As ilhas Carolinas, arquipélago de pequenas ilhas situadas no Pacífico Ocidental, eram no século XIX parte das Índias Orientais
Espanholas e governadas de Manilha, nas Filipinas. Em agosto de 1885, a ilha Yap foi ocupada pela Alemanha. A disputa entre a
Espanha e a Alemanha pela sua propriedade foi arbitrada pelo Papa Leão XIII que em outubro de 1885 se decidiu pela Espanha,
porém concedeu o direito ao livre comércio em Yap à Alemanha.
60
Em janeiro de 1885, a ilha da Trindade foi ocupada por forças navais britânicas. Diante da reclamação diplomática brasileira, o
governo da Grã-Bretanha informou que a ilha fora tida como abandonada, e que se pretendia a instalação de um cabo telegráfico
submarino para Buenos Aires, na Argentina. O Brasil recusou o arbitramento do litígio, considerando que não havia o que contestar
sobre a soberania brasileira da ilha. No entanto, aceitou a mediação diplomática de Portugal e, em 3 de agosto de 1896, a Grã-
Bretanha desocupou a ilha, renunciando a sua pretensão.
61
A III Conferência Pan-americana, realizada no Rio de Janeiro, entre 23 de julho de 1906 e 27 de agosto de 1906.
62
Nele estabelecia-se um plano de pagamento da dívida brasileira em longo prazo (de 63 anos), com juros fixos de 5% ao ano, depois
de ter suspenso o pagamento de juros por três anos e do principal por treze. Um empréstimo no valor de 10 milhões de libras
esterlinas foi concedido para o pagamento dos juros suspendidos e as rendas da alfândega do Rio de Janeiro e, além disso, em caso
de necessidade, outras alfândegas serviriam de penhora, a título de garantia para com os bancos credores.
63
Cf.: <http://www.haguejusticeportal.net/index.php?id=6126>.
64
Texto da nota do chanceler argentino Luis María Drago ao ministro plenipotenciário argentino nos Estados Unidos, Martín García
Merou, 29 de diciembre de 1902, República Argentina, Ministerio de Relaciones Exteriores y Culto, Memoria de Relaciones
Exteriores y Culto presentada al Congreso Nacional correspondiente al año 1902-1903, Anexo I, Sucesos de Venezuela, Buenos
Aires, Taller Tipográfico de la Penitenciaría Nacional, 1904, pp. 3-11; y en C.A. Silva, op. cit., pp. 493-496. CF:
<http://www.argentina-rree.com/8/8-020.htm>.
65
“‘Monroe doctrine’ and diplomatic claims of European powers”. In: Foreign Relations of the United States (FRUS), 1903, p. 5. In:
<http://images.library.wisc.edu/FRUS/EFacs/1903/reference/frus.frus1903.i0006.pdf>.
66
Meu caro Rui, meu caro Nabuco, op. cit., p. 49.
67
Hotel parisiense situado à Rue de Rivoli, em frente à estátua de Joana d´Arc.
68
Rodrigo Otávio, que deixara um bilhete a Rui comunicando que “o Sr. Nabuco chegou ontem à noite. Está no hotel La Perouse”, cf.
carta de Rodrigo Otávio Menezes a Rui Barbosa de 10/06/1907, Arquivo da Casa de Rui Barbosa.
69
Aparentemente, se desencontraram (Meu caro Rui, meu caro Nabuco, op. cit., pp. 50) e se encontraram no dia 10:
(verso de cartão Hotel Regina)
[Paris, junho, 1907]
Son Excellence Monsieur Rui Barbosa
Sinto muito não achá-lo, mas voltarei logo às 9 horas.
Nabuco
70
William Insco Buchanan (Convington, Ohio, EEUU, 10/09/1852 – Londres, Inglaterra, 17/10/1909). Serviu como diplomata
norte-americano na Argentina e no Panamá. Foi delegado plenipotenciário dos Estados Unidos na Segunda Conferência da Paz de
Haia.
71
Cf. CUNHA, Pedro Penner da. A diplomacia da paz – Rui Barbosa em Haia, op. cit., p. 28.
72
Ibidem, p. 29.
73
Dia 16 de julho.
74
Trata-se do telegrama de 3/07/1907, transcrito anteriormente.
75
La doctrine de Drago. Disponível em:
<http://archive.org/stream/ladoctrinededra00moulgoog/ladoctrinededra00moulgoog_djvu.txt>.
76
Identificado em outro telegrama de Rio Branco como o correspondente da agência Havas na Conferência.
77
Havas, primeira empresa de notícias da França, fundada em 1832 por Charles Louis Havas.
78
Carlos Rodríguez Larreta (1868-1926): Advogado, professor, diplomata e político argentino. Foi presidente da Bolsa de Valores
de Buenos Aires, Ministro das Relações Exteriores, Membro do Tribunal Arbitral de Haia e professor da Universidade de Buenos
Aires. Foi Delegado Plenipotenciário argentino na II Conferência da Paz de Haia.
79
The Daily Telegraph – Periódico inglês fundado em 1855 por Arthur B. Sleigh.
80
Le Courrier, periódico suíço fundado em 1868.
81
Santiago Pérez Triana (Bogotá, Colômbia, 15/09/1858 – Londres, Inglaterra, 22/05/1916). Escritor e jornalista colombiano,
escreveu obra prolífera e respeitada. Viveu grande parte da vida fora do seu país. Publicou The International Position of the Latin
American Races, volume que compunha a primeira edição da Cambridge Modern History, ainda coordenada por Lord Acton. Em
Haia, foi Delegado Plenipotenciário da Colômbia.
82
William Thomas Stead (Embleton, Inglaterra 05/07/1849 – 15/04/1912). Jornalista e editor inglês. Era o correspondente da
revista inglesa Review of Reviews na II Conferência da Paz de Haia. Faleceu no naufrágio do navio Titanic.
83
Guilhermina Helena Paulina Maria de Orange-Nassau (Haia, Holanda 31/08/1962 – Apeldoorn, Holanda).
84
Pronunciado na sétima sessão da Primeira Subcomissão da Primeira Comissão. Cf. Discursos de Rui Barbosa em Haia. Traduzidos
para o português por Estela Abreu e Artur Bomílcar. Marta de Senna (Rev., introd. e notas). Edições Casa de Rui Barbosa, Rio de
Janeiro, 2007, pp. 74-88. Obras Completas de Rui Barbosa, vol. XXXIV, 1907, tomo II, tradução.
85
Ibidem, p. 76.
86
Ibidem, p.79.
87
Ibidem, pp. 80-81.
88
In: A Segunda Conferência da Paz de Haia, op. cit., p. 119.
89
In: Discursos de Rui Barbosa em Haia, op. cit., p. 85.
90
Discursos de Rui Barbosa em Haia. Obras Completas de Rui Barbosa, vol. XXXIV, 1907, tomo II, op. cit., pp. 82-83.
91
Laidler chama atenção para a intervenção nos debates do delegado da Romênia que afirmara não se tratar de um princípio de
natureza geral, mas de uma provisão especial resultante de circunstâncias particulares e eventos que ocorreram na América do Sul.
Cf. LAIDLER, Christiane Vieira. A Segunda Conferência da Paz de Haia – 1907, op. cit., p. 118.
92
LAIDLER, Christiane Vieira. A Segunda Conferência da Paz de Haia – 1907, op. cit., p. 129.
93
Ibidem, p. 139.
94
Um critério análogo foi proposto durante a discussão (que decorria paralelamente) sobre a criação do Tribunal Internacional de
Presas. Na ocasião, Rio Branco alertou para as possíveis consequências sobre a organização do Tribunal de Arbitragem em dois
telegramas no mesmo dia (14/08/1907):
A questão importante para nós é como V.Exa. diz, a da organização do Tribunal Permanente de arbitramento mas, como
classificação nações para Tribunal [de Presas] pode influir classificação [para o Tribunal] Arbitral creio não seria inútil mostrar
particularmente às delegações organizadoras do projeto que Brasil deve ficar com países que dão por dois anos um juiz e um
suplente.
95
CUNHA, Pedro Penner da. A diplomacia da paz – Rui Barbosa em Haia, op. cit., p. 23.
96
Ibidem, p. 24.
97
Ibidem, p. 25.
98
5/8/07: Gurgel Amaral partiu meia noite de Washington para New York, de onde seguiu para Clinton perto Utica, New York.
Falará Root. Meio dia telegrafarei.
Gurgel Amaral substituía Joaquim Nabuco que ainda se encontrava estava na Europa.
99
Joseph Hodges Choate (Salem, Massachusetts, EEUU, 24/01/1832 – Nova York, NY, 15/05/ 1917). Embaixador
plenipotenciário, delegado plenipotenciário dos Estados Unidos e, por conseguinte, figura-chave na Segunda Conferência da Paz
em Haia.
100
Rio Branco repetia os termos da posição de Afonso Pena que ele havia transmitido em telegrama anterior, ainda não comentado
por Rui:
16/8/07
Volto do despacho. Presidente entende que se Brasil não tiver lugar permanente no projetado tribunal, não deve assinar essa
convenção particular e que pouco antes encerramento devemos fazer essa declaração manifestando nosso pesar não poder
concordar com as ideias que prevaleceram quanto à constituição desse tribunal e a esperança de que na seguinte conferência
possamos ser mais felizes.
Entretanto, para resolução definitiva, precisamos saber quais países terão representação permanente e quais europeus e
americanos que aceitam representação periódica. Estimaríamos, sobretudo, conhecer disposição em que estão Bélgica, Suíça,
Portugal, México, Argentina, Chile, principais países hispano-americanos.
Rio Branco
101
A proposta reunia também a Alemanha e a Inglaterra.
102
James Brown Scott (Kincardine, Ontário no Canadá, 03/06/1866 – Annapolis, Maryland, Estados Unidos, 25/06/1943).
Autoridade norte-americana sobre direito internacional, professor universitário em Columbia e na Universidade George
Washington. Foi delegado técnico norte-americano na Segunda Conferência de Haia.
103
CUNHA, Pedro Penner da. A diplomacia da paz – Rui Barbosa em Haia, op. cit., p. 36.
104
Alexandre Beldiman, Primeiro Delegado romeno.
105
Gaston Carlin, Delegado plenipotenciário suíço.
106
Missão Diplomática do Barão do Rio Branco como Chefe da Legação Brasileira em Berlim entre 15 de abril de 1901 e 11 de
novembro de 1902.
107
Léon Bourgeois (Paris, França /05/1851 – Château d’Oger, Marne, 29/09/1925). Foi delegado plenipotenciário francês nas
duas Conferências de Haia. Eminente homem público francês, foi deputado ou senador pelo Partido Radical durante quase toda a
sua vida política e ocupou vários ministérios: Interior (1890), Justiça (1892), do Trabalho, da, Presidente do Conselho de Ministros
(1895), Ministro da Instrução Pública (1898) e Ministro das Relações Estrangeiras (1906). Foi o primeiro presidente da Liga das
Nações (1919) e, por isso, recebeu o prêmio Nobel da Paz em 1920.
108
A Segunda Conferência da Paz de Haia, op. cit.
109
Paul Henri Benjamin Balluet d’Estournelles de Constant – Barão de Constant e de Rebecque (La Flèche, França, 22/11/1852 –
Paris, 15/05/1024). Delegado plenipotenciário francês nas duas Conferências de Haia. Era diplomata e político. Em 1909 recebeu o
prêmio Nobel da Paz.
110
Heinrich Lammasch (Seitenstetten, Áustria, 21/05/1853 – Salzburg, Áustria, 06/01/1920). Jurista, professor, ministro-
presidente austro-húngaro. Foi delegado do Império Austro-Húngaro na Primeira e na Segunda Conferência da Paz de Haia.
111
Auguste Marie François Beernaert (Ostende, Bélgica, 26/07/1829 – Lucerna, 06/10/1912). Foi Primeiro-Ministro da Bélgica
entre 1184 e 1894. Recebeu o prêmio Nobel da Paz em 1909.
112
Édouard Descamps, delegado plenipotenciário belga.
113
Estournelles de Constant, Segundo Delegado Plenipotenciário francês.
114
Louis Renault, Terceiro Delegado Plenipotenciário francês.
115
Philipp Zorn, delegado científico alemão.
116
Ludwig von Bar (1836-1913), jurista alemão.
117
Baron Marschall von Bieberstein, primeiro delegado plenipotenciário alemão.
118
Segundo delegado plenipotenciário alemão.
119
Ernest Satow, delegado plenipotenciário britânico.
120
Georges Streit, segundo delegado plenipotenciário grego.
121
Joseph Tornielli Brusati di Vergano, delegado plenipotenciário italiano.
122
Henry Willard Denison, Delegado Técnico japonês.
123
T. M. C. Asser, delegado plenipotenciário holandês.
124
Savornin-Lohman (1837-1924), jurista e homem público holandês.
125
Frangis Hagerup, delegado plenipotenciário norueguês.
126
Friedrich Fromhold von Martens, delegado plenipotenciário russo.
127
Lou Tseng-Tsiang, Embaixador Extraordinário e delegado plenipotenciário da China.
128
Keiroku Tsudzuki, Embaixador Extraordinário e Plenipotenciário e primeiro delegado plenipotenciário do Japão.
129
Knut Hjalmar Leonard de Hammarsjöld (Tuna, Condado de Kalmar, Suécia, 04/02/1862 – Estocolmo, Suécia, 12/10/1953).
Professor, parlamentar, foi primeiro-ministro da Suécia. Na Segunda Conferência da Paz de Haia, foi primeiro delegado
plenipotenciário sueco.
130
Francisco León de la Barra y Quijano, terceiro delegado plenipotenciário mexicano.
131
Gonzalo Esteva, primeiro delegado plenipotenciário mexicano.
132
Lord Reay – Donald James Machay, delegado plenipotenciário britânico.
133
Roque Saenz Peña, delegado plenipotenciário argentino.
134
Carlos Rodrigues Larreta, delegado plenipotenciário argentino.
135
Jose Battle y Ordoñes, primeiro delegado uruguaio.
136
William Thomas Stead (Embleton, Inglaterra 05/07/1849 – 15/04/1912). Jornalista e editor inglês. Era o correspondente da
revista inglesa “Review of Reviews” na Segunda Conferência da Paz de Haia. Faleceu no naufrágio do navio Titanic.
137
LAIDLER, Christiane Vieira. A Segunda Conferência da Paz de Haia – 1907, op. cit., p. 158.
138
Sir Edward Fry (1827-1918). Delegado Plenipotenciário britânico na Segunda Conferência de Haia.
139
Fry apresentara esta emenda à proposta americana, inglesa e alemã: Conferência recomenda às partes a adoção do projeto de
estabelecimento do Tribunal de Justiça Arbitral com omissão dos dispositivos relativos à designação dos juízes e do sistema
rotativo ali recomendados.
140
LAIDLER, Christiane Vieira. A Segunda Conferência da Paz de Haia – 1907, op. cit., p. 161.
141
Domingo Gana e Augusto Matte, delegados plenipotenciários chilenos.
142
LAIDLER, Christiane Vieira. A Segunda Conferência da Paz de Haia – 1907, op. cit., p. 161.
143
ALENCAR, José Almino de; SANTOS, Ana Maria Pessoa (Orgs.). Meu caro Rui, meu caro Nabuco, op. cit., p. 72.
144
Lahaye, 21/10/1907
Excellency Nabuco,
Washington (DC)
Finda minha missão parto Paris.
Abraço afetuosamente caro amigo, agradeço lembrança livros.
Rui
145
Bureau das Repúblicas Americanas.
NEM SÓ À BASE DO CACETE, NEM APENAS COM PRESENTES:
SOBRE COMO SE GARANTIAM VOTOS NA PRIMEIRA REPÚBLICA1
PAOLO RICCI
JAQUELINE PORTO ZULINI

Aos 24 de fevereiro de 1927 corriam tranquilamente as eleições federais para o Congresso Nacional
quando a iluminação elétrica foi cortada, de repente, na 8ª seção da capital maranhense. Mesários e
eleitores presentes não se intimidaram e prosseguiram à luz de vela. Um pequeno dínamo, arranjado
de improviso, permitiu restabelecer a energia local pouco tempo depois. Contudo, o grupo de
indivíduos interessados em comprometer a lisura dos trabalhos ingressou na seção eleitoral e quebrou
as lâmpadas existentes no edifício, tendo ainda atirado no candidato da oposição. O pânico assim se
estabelecia e a estratégia dos baderneiros lograva êxito. A urna depositária dos votos até então
coletados para deputados sumira em meio ao blecaute criminoso, restando somente alguns maços de
títulos eleitorais espalhados pelo chão2. Desfechos correlatos abundam na historiografia, fazendo da
corrupção eleitoral e violência física tópicos normalmente percebidos pela literatura como fato
costumeiro do modus operandi dos escrutínios na Primeira República (1894-1930). “Era generalizado
o receio de sair às ruas em dia de eleição devido à violência dos capangas a serviço dos candidatos”
(CARVALHO, 2003, p. 105). Em geral, toda a máquina administrativa eleitoral, desde o alistamento, a
votação e apuração, até o reconhecimento dos diplomas, foi etiquetada de “máquina fraudulenta”
(PORTO, 2004, p. 74).
O propósito deste capítulo é justamente ir além da imagem clássica dos pleitos republicanos3. Não se
questiona, aqui, o recurso à fraude e à violência nessa época, indubitável. A nosso entender, porém, o
foco sobre ambos os elementos invariavelmente deturpou a compreensão de como se organizavam os
escrutínios na Primeira República e, sobretudo, a captura do jogo político que os caracterizava. Em
outro trabalho mostramos que os níveis de competição política entre diferentes forças políticas é
elevado no Brasil republicano (RICCI; ZULINI, 2014). Neste capítulo, por meio da análise das
contestações apresentadas pelos candidatos derrotados nas eleições para a Câmara dos Deputados
buscamos reconstruir a dinâmica dessa disputa entre as forças políticas. Emerge um perfil
sociopolítico muito mais complexo frente às impressões genéricas que perpetram os registros
historiográficos em termos do sentido concreto do voto no período. Veremos que nem tudo se
resumia à fraude e coação física. As próximas seções endossam dois outros elementos que
formatavam, por assim dizer, os litígios eleitorais. O primeiro deles diz respeito ao papel da máquina
administrativa municipal, cujo controle sobre a organização dos escrutínios, de domínio dos partidos
situacionistas, era condição sine qua non para o sucesso de determinadas forças políticas. O segundo é
consequência da incompletude desta influência partidária no aparato administrativo-eleitoral, exigindo
a conquista dos aptos a votar também pela veia clientelística, via concessão de favores pessoais. Uma
série de relatos revelará que, não raro, o voto adquiria o caráter de moeda de troca e o eleitor não
necessariamente encontrava-se em posição de subordinação ou intimidação direta.
Tal interpretação se baseia no exame detalhado de material ainda pouco explorado: documentos
oficiais apresentados ao Parlamento por candidatos que protestavam a lisura dos pleitos e seus saldos
posteriores, a exemplo do caso maranhense citado na abertura do texto. Trata-se das contestações ou
petições aos escrutínios realizados4. Essas acusações formais de irregularidade na seleção do corpo
legislativo nos possibilitam enveredar nas regras informais do jogo eleitoral supostamente habitual à
Primeira República. Nos Anais da Câmara Federal localiza-se a íntegra dos documentos – em sua
maioria, semimonografias dos embates a nível distrital, reconstituições permeadas de referências a
fatos dispersos pelas diferentes etapas do processo eleitoral, desde a seleção dos candidatos pelos
partidos e as deturpações no alistamento dos aptos a votar até intimidação física na boca da urna,
irregularidades na apuração dos votos e na feitura das atas. Perfazem-se inclusive dentre o rol de
evidências as contracontestações, respostas oferecidas pelos nomes impugnados aos seus
contestantes. Reunidos, protestos e réplicas solidificam rica fonte de dados para o estudo das práticas
eleitorais republicanas.
Detivemo-nos na coleta e sistematização dessas informações para a Câmara dos Deputados. Após a
Constituinte de 1891, realizaram-se a cada três anos as eleições para o Congresso Nacional até a
queda da República, em 1930. Dos 13 pleitos ocorridos, escolhemos as 11 eleições que ocorreram
entre 1900 e 1930, contabilizando um total de 497 contestações5. Esses protestos seguiam regras
uniformes, previstas no regimento interno da Câmara6. Explorando esses materiais pretendemos
enfrentar uma lacuna grave na literatura – aquela que enfatiza o embate intraoligárquico pelo poder
sem jamais apurar, de fato, como os atores políticos contornavam a incerteza eleitoral. Daí principiar
pela investigação da dimensão administrativa da organização do processo eleitoral, tutelada pelas
legendas. Mostraremos como o domínio partidário na condução das eleições moldou a manifestação
do exercício do voto no Brasil republicano, que se caracterizou, por excelência, pela face coletiva, e não
como mera expressão de direitos individuais.
COMO GANHAR AS ELEIÇÕES? A ESTRUTURA ADMINISTRATIVA DOS PLEITOS
REPUBLICANOS
Seja no ato do voto, seja na apuração dos resultados finais, coação física, suborno e fraude delimitam
a cosmologia normalmente traçada pela literatura disponível sobre o perfil das eleições no século XIX
(PORTO, 2004; FAUSTO, 2003)7. Todavia, a leitura das contestações ratificadas junto à Câmara dos
Deputados, tanto quanto o exame de suas respectivas refutações, sinaliza um quadro bem mais
complexo no caso brasileiro. Uma série de relatos indica que a intimidação física e a corrupção não se
faziam condições suficientemente capazes de manter sobre controle o resultado das urnas. Era, antes,
o domínio partidário da máquina administrativo-eleitoral, entendida aqui como a estrutura
organizacional necessária à realização dos escrutínios segundo as prescrições legais da época, a melhor
aposta no intento de se diminuir a incerteza dos pleitos que se seguiram. O poder de mando sobre pelo
menos três das etapas burocráticas necessárias à viabilização destes litígios – a provisão do
alistamento e qualificação dos eleitores, a composição das mesas eleitorais e a diplomação dos eleitos
pelas Juntas Apuradoras – condicionava saída menos custosa para as forças políticas e muito nos
informa a respeito do modus operandi dos pleitos republicanos. Consideremos os relatos dos
contestantes com respeito a cada uma dessas três fases separadamente.
Primeiro momento crucial, a definição dos aptos a votar representava excelente oportunidade de se
alterar, a priori, a performance dos candidatos – uma vez habilitada, nesta fase, a opção de se
enveredar pela garantia estratégica da concessão do título eleitoral aos currais de interesse, com
negativa para o eleitorado adversário8. Muito embora a Constituição de 1891 estabelecesse como
requisitos mínimos para a posse do documento a idade mínima de 21 anos e a cidadania brasileira,
excluídos mendigos, analfabetos, praças de pret e religiosos de ordem monástica, do ponto de vista
substantivo era menos relevante quem tinha direito ao voto, mas muito mais significativo quem
possuía o título eleitoral. Afinal, apenas estes últimos podiam, no fundo, votar. Daí o empenho dos
partidos da época em cuidar de tudo para que todos aqueles por eles arregimentados estivessem
devidamente munidos de suas certidões eleitorais na hora da votação, disponibilizando agentes
próprios para controlar a inscrição dos seus correligionários – e, se possível, diminuir ou anular o
eleitorado dos concorrentes9.
Decerto, as exigências burocráticas desmotivariam boa parcela dos aptos a votar a requerer
espontaneamente o título. Para se alistar, o solicitante precisava comprovar saber ler e escrever e
atestar sua maioridade civil. A partir da aprovação da Lei Rosa e Silva, tornar-se-ia forçoso demonstrar
também a residência por meio de certificação de qualquer autoridade judiciária ou policial do
respectivo município e, no caso de recusa, por declaração de três cidadãos comerciantes ou
proprietários que ali vivessem (Lei nº 1.269/1904, art. 18, § 3º). Ainda assim, inexistia garantia de
êxito, já que obstáculos de ordem política podiam desqualificar o alistando arbitrariamente. Isso
porque o município, enquanto locus do alistamento – realizado por comissões constituídas por
membros do governo local até 1904 e, depois, também pelo juiz do direito municipal junto com os
maiores contribuintes ali domiciliados –, viabilizava a interferência direta da dinâmica local sobre esta
importante fase pré-eleitoral. Foi o que teria ocorrido em Além Parahyba, cidade circunscrita ao quarto
distrito de Minas Gerais, no pleito de 1903. Inconformado, Esperidião Gomes da Silva contestava os
resultados nela apurados em função da discricionariedade com que agira a comissão municipal de
alistamento na definição dos aptos a votar. Segundo o candidato,
o município foi dividido em secções eleitoraes por duas vezes, a 1ª na época legal, e de accordo com o alistamento de
1901, que serviu para a eleição de Presidente e Vice-Presidente da Republica, realizada em 2 de março de 1902 [...] e a
2ª nas proximidades do pleito de 18 de fevereiro, e de accordo com o alistamento de 1898, que se restaurou para servir
no ultimo pleito, sem razão que possa justificar semelhante arbítrio, quando é certo que alistamentos posteriores a
esses já foram utilizados para mais de uma eleição e foram, pelo menos em parte, encorporados ao alistamento feito em
1902, cuja annullação foi decretada pelo juiz seccional no Estado de Minas e confirmada por accordao do Supremo
Tribunal Federal.

E sentencia:
O presidente da Comissão [municipal] não tinha competência para restaurar um alistamento caduco e que apenas pôde
servir como elemento histórico, privando, como privou, do direito de voto a todos os cidadãos que, tendo sido alistados
em 1899 em deante, adquiriram e já exerceram um direito de que foram illegal e violentamente privados no pleito de 18
de fevereiro último.
(ACD, 09/05/1903, p. 327).

Bem havia pontuado Telarolli (1982, p. 39) que, “nos municípios, dadas as relações sociais
determinadas pela organização econômica, todas as pessoas – e não são muitas – com um mínimo de
preparo para funções burocráticas são vinculadas à ação política”. Neste sentido, os agentes
partidários não encontravam maiores dificuldades em dominar essa etapa de definição do eleitorado,
praticamente esmagando todas as chances da minoria em se fazer representar, visto estarem quase
sempre recrutados para os trabalhos de alistamento. A única diferença é que, a partir da reforma
eleitoral de 1916, os esforços das legendas passam a se concentrar na capacidade de influenciar a ação
do judiciário. Eliminando as antigas comissões locais, a nova legislação transfere a prerrogativa do
alistamento ao juiz de direito municipal sem, porém, conseguir corrigir efetivamente a arbitrariedade
na escolha do eleitorado. A conduta parcial dos juízes redundava na inclusão indevida de menores,
caboclos e lavradores analfabetos. Neste ponto, muito sintomático é o relato do alistamento em Picos,
em 1918, produto da redenção da magistratura à política local. A própria chapa eleita em escrutínio
protestado alega que o juiz de direito e o escrivão por ele designado seriam as duas “peças” centrais na
fraude alavancada no município:
Ambos [eram] políticos, partidários e compadres. O escrivão, sobretudo, velho conhecido [...] de todos os políticos do
Piauhy, como chefe ostensivo, arrogante e desabusado naquelle município mantem jornal, órgão do seu partido,
convida por meio delle os seus amigos a se alistarem, offerecendo todas as facilidades ‘na redação dessa folha’, que é o
mesmo cartório, pois que o escrivão é o ‘redactor e proprietario’. [...] Para dar prova do partidarismo e parcialidade do
juiz de direito, basta dizer que, havendo na sede da comarca três serventuários de justiça e pertencendo-lhe a escolha
de um para servir no alistamento, S. Ex. designou precisamente o seu compadre e chefe político, de accôrdo com o qual
tem obrado em todo o alistamento.
(Contracontestação formulada por Jose Pacheco, Antonino da Silva, Jose Rebello e João Cabral, ACD, 03/05/1918, p.
1.026).

O relato prossegue explicando como os responsáveis pelo alistamento dificultavam a inclusão dos
adversários, mesmo quando todos os requisitos legais eram atendidos pelos concorrentes. Os
estratagemas adotados nessa empreita eram variados. Primeiro, diz-se que:
O juiz de direito mora em uma fazenda, quatro leguas distante da séde da comarca, onde poucas vezes vem por mez.
Os papeis eleitoraes dos seus amigos, ou dos amigos do escrivão-chefe, eram despachados por este, que lhes entregava
até títulos préviamente assignados em branco pelo juiz compadre; os dous adversarios não proseguiam, e para cada
despacho ou assignatura de titulo era preciso mandar um positivo á fazenda, muitas vezes debalde e com dispêndio
extraordinário (Ibidem, p. 1.027).

Na sequência, assevera-se:
Para preterirem ainda o alistamento dos seus adversários, o mesmo juiz e o escrivão declararam, em dezembro ultimo,
interrompido o serviço eleitoral durante as férias do foro estadual [...]; e emquanto isso, alistavam as escondidas os seus
adeptos, durante as mesmas férias, conforme edital affixado na porta do cartório, edital que não foi publicado na
imprensa (Ibidem).

O controle sobre o alistamento não era absoluto e a lei permitia eventuais recursos, sobretudo para
tutelar os direitos políticos dos cidadãos. Até a reforma de 1916, tais expedientes eram apresentados
ao presidente da comissão municipal e, após a mudança na legislação, perante o juiz de direito,
reservada, nos dois casos, a possibilidade de indeferimento. De fato, existem acusações de anulação
prática deste instrumento legal mesmo após 1916 – e, novamente, pelo desempenho dos juízes nas
fases subsequentes. Delatava-se também em 1918, mas agora no Ceará:
Juízes havia, como o do Crato, que mandavam o escrivão pôr um signal a lápis encarnado nos requerimentos dos
alistados democratas, para que, conhecidos estes, fossem as petições, a qualquer pretexto, indeferidas.
(Contestação de Jose da Justa, ACD, 02/05/1918, p. 782).

Não tencionamos descrever as inúmeras táticas perseguidas no controle sobre o alistamento.


Preferimos, ao invés, destacar o principal efeito desta forma de proceder: a saber, a anulação da
competição política antes das próprias eleições terem lugar. As narrativas acompanhadas até agora
mostram como esta fase de definição do eleitorado passa a ser percebida enquanto processo coletivo
que, mesmo organizado pelos recursos humanos previstos em lei, estruturava-se, em última instância,
via partidos políticos – os atores capazes de controlar a burocracia eleitoral em questão. É no
alistamento que se manifestava o primeiro momento da luta entre governistas e oposicionistas.
Mesmo que tentasse, o cidadão se via à mercê das possíveis barreiras interpostas pelas forças
situacionistas que controlavam o ingresso no mercado eleitoral. As normas legais que definiam os
critérios para a manifestação efetiva do direito ao voto não bastavam, por si só, para garantir o
registro ao eleitor. A concessão do título eleitoral era, antes, resultado de um processo estruturado e
apoiado pelas legendas em conúbio com os atores administrativos incumbidos de alistar o povo pela
legislação vigente. Defendendo os diplomas de seu grupo governista, vitorioso, um candidato era
taxativo: “si os candidatos da chapa e os candidatos avulsos do nosso partido venceram foi porque a
minoria [...] não cuidou do alistamento”10.
Complementariamente, a leitura das contestações e de suas refutações aponta a interferência das
legendas partidárias numa segunda etapa do processo eleitoral pertinente ao controle do voto: a
composição das mesas eleitorais. Devendo funcionar ao nível da seção eleitoral11, as mesas eram
incumbidas de receber as cédulas de votação e apurar seus respectivos resultados, encaminhando uma
ata final à Junta Apuradora, que revisaria os dados e expediria os diplomas aos supostamente eleitos,
além de despachar, na sequência, toda a papelada para o Congresso Nacional12. Tanto numa função
quanto noutra, a literatura é pródiga na ênfase que lança aos vícios formais, fraudes e manipulações aí
cometidas. A maioria das denúncias encontradas nos protestos eleitorais confirma esses aspectos.
Apontavam-se problemas na contagem das cédulas; na proclamação do resultado final; na emissão do
boletim de votação; nas assinaturas dos eleitores assim como nas rubricas dos mesários – borradas,
riscadas ou escritas pelo mesmo punho; no termo de encerramento da votação e na transcrição das
atas finais, para citar apenas algumas reclamações13.
Entretanto, o realce normalmente dado pelos especialistas a tantas irregularidades tem
comprometido uma reflexão mais aprofundada sobre o papel das mesas eleitorais. Diferentemente do
folclore eleitoral criado em torno das várias artimanhas adotadas para se ganhar o pleito durante a
Primeira República, já muito bem explorado pelos analistas até o momento, pouco empenho houve no
sentido de se estudar a disputa pelo controle das mesas que conduziam os escrutínios. A interpretação
clássica pendeu ao clichê das barbaridades cometidas pelos competidores entre si e contra os próprios
eleitores na época, com destaque para a prática desbravada de atas forjadas, menosprezando as
tentativas de redução da incerteza das urnas pela veia burocrática, menos custosa. Basta principiar-se
pelo exame das contestações que logo surgem exemplos do empenho na administração dos combates
eleitorais através do domínio das mesas – busca frequente dos partidos políticos locais. Candidato à
representação maranhense em 1927, Marcelino Machado discorre sobre as ferrenhas disputas
travadas nesta linha:
Os emissários do partido dominante, que dous meses antes de mim já andavam colhendo assignaturas para a indicação
dos mesarios, logo sentiram que minha acção nos cinco dias anteriores a 25 de janeiro lhes desmancharia todos os
calculos. As ordens eram terminantes para que eu não fizesse um só mesário e, deante da certeza da derrota, o chefe
delles ordenou que se augmentasse de 10 a 20 assignaturas falsificadas em cada lista de apresentação. [...] Apesar de
tudo, das 13 secções eleitorais de S. Luiz, consegui eleger os presidentes de cinco e três mesários de outras, recorrendo
para a Junta de recursos.
(ACD, 26/04/1927, p. 12).

A passagem é clara na identificação dos atores em jogo e os escopos perseguidos na composição das
mesas. Por um lado, destaca a importância da figura dos “emissários” de partido, agentes que
coletavam as assinaturas dos eleitores para a indicação dos mesários. A Lei nº. 1.269, de 1904, previa a
consideração das propostas dos alistados das diversas seções na escolha de tais atores. Não há dúvida
de se tratar de forte incentivo para a coordenação pré-eleitoral das legendas. Meses antes do pleito,
tratavam as mesmas de noticiar em seus jornais próprios a relação dos mesários que
arregimentavam14, passando a publicar convocatórias de comparecimento no dia do escrutínio aos
então nomeados conforme a eleição se aproximasse. Direta é a folha rio-grandense neste chamado em
1912:
Convidamos todos os nossos correligionarios, mesários e supplentes das seis secções em que se divide este Municipio, a
comparecer nos respectivos edifícios, amanhan ás nove horas em ponto, para os trabalhos preparatórios do processo
eleitoral.
(“A República”, Ano XXIV, n° 23, 29/01/1912).

No que tange aos escopos perseguidos pelos partidos, sobressai-se a luta pela constituição de mesas
unânimes. O objetivo era permitir o controle sobre o processo eleitoral no dia da eleição. Afinal,
conformações do gênero constituíam garantia da exclusão dos eleitores de oposição (pela recusa de
seus títulos) e da admissão de correligionários da mesa previamente excluídos do alistamento15. Da
mesma forma, anulava-se a possibilidade da denúncia da fraude pelos oposicionistas16, facilitando,
assim, a fabricação de atas forjadas ou, também, a redução de certos custos arcados pelos partidos,
como a compra de votos através de vários tipos de suborno17. Uma mesa unânime também tornava
mais simples a apuração dos votos na seção imediatamente ao encerramento do pleito. Sem
opositores, as mesas podiam “contar a modo próprio”, eventualmente ajustando os resultados para
favorecer alguns candidatos. Neste processo, entravam mais uma vez em cena os juízes locais. Manoel
Reis, candidato pelo 1º distrito do estado do Rio de Janeiro, em 1927, assim rememorava em sua
contestação a ação do juiz do direito que, segundo ele, facciosamente, havia recebido e validado apenas
a lista de mesário situacionistas:
Deu o juiz de direito por encerrados os trabalhos. Pediu o candidato opposicionista que lhe fosse dado recibo das
indicações recebidas pela mesa. Foi-lhe negado! Recorra, se quiser, as mesas estão organizadas, as suas listas não valem
nada. O juiz é do governo.
(ACD, 26/04/1927, p. 246)

As críticas ao falseamento das eleições ainda recaíam sobre a terceira etapa do processo
administrativo eleitoral: a dos trabalhos das Juntas Apuradoras, responsáveis pela contagem dos votos
e entrega dos diplomas aos eleitos. Também aí elementos eram acusados de forjar o resultado final dos
escrutínios. Em protesto conjunto, quatro candidatos contestavam o pleito de 1918, no Piauí, alegando
que:
A Junta Apuradora reunida em Therezina, em sua maioria, obrou com parcialidade e má fé [...] usou a junta do seguinte
estratagema: apurou, nos primeiros dias de trabalho, eleições que dessem uma maioria, embora insignificante, ao
mesmo candidato, acima do primeiro dos abaixo-assignados, depurando arbitrariamente a de dous municípios. No
ultimo dia, um fiscal daquelle mesmo candidato, requereu que se suspendesse, para uma diligencia illegal, a apuração
dos seis municípios restantes, em que os abaixo-assignados obtiveram grande maioria. Deferido illegalmente esse
requerimento, e não havendo tempo para se effectuar a diligencia, houve por bem a junta dar por findos os seus
trabalhos e fez lavrar a acta final, cujas cópias authenticadas prometteu dar como diploma aos mais votados, até ahi,
segundo a apuração.
(ACD, 02/05/1918, p. 1020).

É verdade que o papel das Juntas mudou ao longo do tempo. Com a reforma eleitoral de 1916,
centraliza-se a apuração, que deixa de ter lugar em cada distrito para ocorrer somente na capital do
estado – e por uma única Junta Apuradora. Além disso, a nova norma atualiza a composição destes
corpos apuradores: anteriormente presididos pelos presidentes das câmeras municipais do distrito
eleitoral, passam a congregar, em caráter exclusivo, o juiz federal, seu substituto e um representante
do Ministério Público. Essa mudança merece destaque porque foi considerada por muitos como ponto
de partida para a criação da Justiça Eleitoral (PORTO, 2000). Entretanto, mesmo juridicamente
independentes do âmbito estadual, os juízes federais continuavam sujeitos a diversas formas de coação
e pressão. Ainda em 1927, Luiz Guaraná, candidato a uma vaga no segundo distrito do Rio de Janeiro,
contava as vicissitudes vividas pelo juiz federal que, pela lei eleitoral, era o encarregado de presidir os
trabalhos da Junta Apuradora.
Esse magistrado foi visado e, não tendo cedido aos argumentos suasorios com que se tentara impedil-o de assegurar a
verdade do pleito, argumentos ainda mais enérgicos foram utilizados para que a sua acção fosse annullada: – o seu filho
e o seu cunhado foram recolhidos ao xadrex e a força que os revistava no momento da prisão lastimava não se tratar do
proprio juiz federal. [...] O juiz federal resolveu, pois, como homenagem á autoridade do cargo de que está investido,
não comparecer aos trabalhos de apuração, onde era evidente que as suas decisões não seriam acatadas e poderiam,
talvez, provocar a chacota dos dominadores do estado. Attendendo, porém, ás consequências naturaes da sua
resolução, officiou á Junta Apuradora, na vespera do dia designado por lei para a sua reunião, afim de que em tempo util
fossem tomadas providencias para a sua necessária substituição.
(ACD, 28 de abril de 1927, p. 284).

Em definitiva, o estudo das contestações ilumina a relevância do monopólio partidário sobre o


aparato administrativo-eleitoral, desde o serviço de alistamento até a fase de apuração dos votos nas
próprias seções e, sucessivamente, nas Juntas Apuradoras – privilégio que ofertava garantias de
sucesso eleitoral. O reconhecimento da importância do controle dessa máquina burocrática emerge
em muitos testemunhos da época18. Eram chamados em causa os chefes políticos locais, entre eles os
presidentes das câmaras municipais. As acusações incluíam ainda ocupantes de cargos administrativos
como escrivães e tabeliães, além da figura do delegado de polícia, frequentemente apontado enquanto
agente do situacionismo. Prova da parcialidade destes funcionários era demonstrada pelos
contestantes através de documentos que atestavam, por exemplo, a firma dos envolvidos no manifesto
recomendando a chapa partidária oficial ao eleitorado. Entravam no esquema até mesmo os correios,
agências pelas quais se remetiam os resultados das seções eleitorais a serem enviados aos demais
órgãos competentes, mas consideradas “propriedade privada do Governador”19. Tampouco
permaneceriam incólumes, segundo os relatos, os órgãos judiciários – em particular na figura dos
juízes de direito da comarca, apelidados de “juízes politiqueiros”20.
Tudo isso nos ajuda a repensar, de certo modo, a questão das eleições e as práticas fraudulentas.
Estas últimas devem ser entendidas por além do ato da violação da norma e da lei. A corrupção
eleitoral era a expressão de um jogo político que se dava em torno das diferentes fases previstas na
própria lei eleitoral, desde o alistamento até a contagem dos votos e constituía o próprio o “mecanismo
eleitoral”21. Os testemunhos colhidos nas contestações revelam que as eleições canalizavam a disputa
pelo poder entre as diferentes forças políticas, e a fraude era o mecanismo em que se manifestava a
disputa. Como bem arguiu o candidato Coelho Netto ainda em 1918:
Na pratica dos tempos modernos o inimigo principal da independência [do sufrágio] é a pressão administrativa, porque
no momento em que os governantes têm um interesse, [...] eles exercem pressão sobre todos os funcionários seus
dependentes, violentam e corrompem os eleitores, sempre obstinados em regular a legislação eleitoral de modo a poder
intervir nas eleições conseguindo que as mesmas se realizem segundo as suas conveniências.
(ACD, 01/05/1918, p. 612).

À PROCURA DOS ELEITORES: A PERSUASÃO DOS APTOS A VOTAR POR ALÉM DA


VIOLÊNCIA E COAÇÃO FÍSICA
Ainda que o monopólio partidário da máquina administrativo-eleitoral visasse o controle de três
importantes fases necessárias à realização dos escrutínios, o sucesso deste modelo organizacional
dependia de outro fator: a capacidade efetiva de persuadir, mobilizar e controlar o eleitorado. Por além
da mera violência física, existiam, sim, outros mecanismos adotados pelos políticos com vistas a
cativar os aptos a votar, sugerindo a existência de um mercado eleitoral dinâmico.
Comecemos pelas práticas adotadas para persuadir os eleitores. Aqui, as contestações revelam uma
característica pouco esperada para a experiência republicana: se fazia campanha eleitoral. Tudo indica
que o instrumento mais utilizado para isso era a imprensa partidária, mediadora no fluxo de
informações fornecido aos eleitores. Já se mostrou como os jornais de partido tinham, na época,
funções relevantes na divulgação de suas posições político-ideológicas (CARVALHO, 1996). Por meio
desses veículos realmente publicavam-se os editais de convocação para o alistamento, a relação dos
alistados e dos mesários, os lugares de votação (inclusive com endereço de rua e número do edifício
para votar), como também se redigia a lista dos correligionários incumbidos da distribuição das chapas
do partido em cada seção eleitoral22. Órgãos oficiais das legendas, as folhas ainda noticiavam as
principais decisões do partido que representavam, destacando, semanas antes do pleito e em primeira
página a chapa então apoiada. Em alguns casos, candidatos se apresentavam aos leitores divulgando
um programa mínimo23, da mesma forma que eleitores eventualmente assinavam manifestos em
defesa de certas candidaturas. O próprio jornal recomendava, diariamente, o comparecimento às urnas
e o voto nos seus protegidos, “sem desvio de voto algum para outro qualquer candidato”24. Não
bastando, era muito comum periódicos reproduzirem o telegrama do governador sugerindo a escolha
desta chapa oficial, como fez o então presidente do estado de Pernambuco, Manoel Borba, em 1918:
Aquelles que teem o que perder e que precisam de paz para viver e teem um governo que os prestigia e lhes faz justiça,
devem prestigiar esse governo, por todos os motivos, para que elle possa cumprir sua missão, de ser útil ao estado.
Cordeaes saudações – Borba.
(ACD, 29/04/1918, p. 169).

Em geral, os protestos eleitorais afirmam que os partidos usufruíam do espaço na imprensa para
desacreditar os adversários. Entretanto, este canal de comunicação não configuraria a única forma de
acesso ao eleitorado e à opinião pública como um todo. Passagens mostram que os candidatos faziam
campanha eleitoral de fato, abarcando a visita feita aos municípios, a campanha de rua e mesmo a
busca do voto porta a porta. Estacio Coimbra, pleiteante a uma cadeira na representação de
Pernambuco, comenta um pouco desta empreita, detalhando uma viagem de vinte dias:
[...] parti desta Capital no dia 10 de janeiro pelo transatlântico Aragon [...] prosseguindo minha viagem por Alagoas, de
cuja capital dirigi-me para o município de Palmares, importante circunscrição do meu districto, onde permaneci até às
vésperas do dia 30 de janeiro.

Privado de percorrer o meu districto por falta de garantias individuaes, informado de que havia propósito deliberado de
desatacar-me, fosse como fosse, cedi ás solicitações reiteradas dos meus amigos, deixando de visitar pessoalmente os
municípios mais accessiveis que me fora agradável rever.

Mandei emissários a todas as localidades do 2º districto e logrei a fortuna de ver carinhosamente acolhida a minha
candidatura.
(ACD, 28/04/1912, p. 68-9).

Encontram-se até relatos de participação dos candidatos em reuniões de sindicatos e associações,


como em 1927, quando o governador de Amazonas, Ephigenio de Salles, foi acusado de fazer “apologia
aos seus candidatos”25 nesse tipo de encontro. João de Figueiredo, questionando o pleito do Distrito
Federal em 1918, argumentava que havia conseguido o apoio de cerca de 400 eleitores operários da
Imprensa Nacional após se dirigir pessoalmente “a cada um delles”26. Tática correlata perseguiria
Helvecio Coelho Rodrigues no escrutínio piauiense de 1927, abordando os cidadãos sem
intermediários:
A minha apresentação ao eleitorado não foi feita por meio de manifestos assignados por políticos, governador, juiz,
Deputado ou intendente. Apresentei-me em praça publica ao eleitorado da Capital do Estado de uma maneira
genuinamente republicana que marcará época na historia politica do Estado. Percorri 26 municipios em todos me
dirigindo em publico ao eleitorado, expondo um programa de acção e verberando os desmandos do governo. Fui
sempre recebido com geraes sympathieas e não logrei maior votação devido á compressão official e ao tradicional
habito do eleitor, que nunca conheceu um candidato, de votar no coronel sem saber porque nem para que’; o voto, si
não é secreto, é no ‘escuro’. Assim é que a muitos ouvi que haviam de votar no Mathias, outros no coronel Carvalho e
assim por diante: não se conheciam os candidatos da chapa official.
(ACD, 25/04/1927, p. 340).

A citação associa uma conduta distinta a candidatos oposicionistas e candidatos de governo.


Partidários do situacionismo são apresentados como atores políticos sem vínculo efetivo com o
eleitorado, contrariamente aos aspirantes de minoria, que visitam os vários municípios do distrito e
fazem campanha eleitoral. A contestação precedente avança na defesa do certo comodismo gozado
pelos candidatos governistas:
O secretario de Justiça fez excursões no interior do Estado fazendo conferencias em praça publica em prol da chapa
official, publicou telegrammas nos jornaes fazendo propaganda com as adhesões que recebia pelo telegrapho.
Convocou diversas vezes o operariado á sua propria residencia particular onde dava-lhe conselhos e cabalava para a
chapa situasionista. O secretario de policia presidiu, na véspera da eleição, um meeting no Cinema Olympia, em
Therezina, e durante meia hora procurou convencer o auditorio da necessidade da disciplina partidaria dizendo não ser
desdouro nenhum para o eleitor receber a cédula em bocca de urna.
(ACD, 25 de abril de 1927, p. 340).

Contando com livre acesso à máquina administrativa e pronta ajuda de seus altos funcionários, a
campanha dos candidatos situacionistas seria facilitada, retornando êxito praticamente certo nas
votações. Resta deste quadro a admissão de uma disputa eleitoral que tem seus custos, numa
conjuntura onde o eleitor deve ser conquistado.
Evidências de que o voto não era totalmente controlado pelas oligarquias partidárias constituem as
várias alternativas adotadas para convencer eleitores a sufragar determinados candidatos27. Em
primeiro lugar, emerge a prática do suborno, que “[competia] com a fraude”28. Diversas eram as
tentativas nessa linha, como a construção de obras no município, beneficiando grupos – no caso,
empresários amigos. Todavia, destacam-se nas contestações os subornos individuais. Recupera-se, por
exemplo, a denúncia veiculada por um jornal, em que se diz ter o candidato Octavio Rocha Miranda
pago “a cada um dos eleitores que nelle votava uma cédula de 2$ em sua residencia”29. Existia um
mercado de transações de votos por retornos materiais básicos, havendo quem pedisse “algum
dinheirinho” para pagar seu “quarto”30 e quem trocasse o voto pela anulação de uma dívida fiscal31, ou,
na contramão, quem ofertasse um simples almoço no dia da eleição32. Todos esses exemplos indicam
que a capacidade de controlar o eleitorado não era imediata, pois cada voto tinha seu custo.
Justamente em razão desse motivo não teria ocorrido eleição em Itaberaba, na Bahia, em 1927, como
relata o candidato Arlindo Leoni: “Alli esteve o contestante, e ouviu dos chefes locaes que a reunião do
eleitorado custava grandes sommas, e, por isso, não podiam convocar os eleitores”33. Motivo correlato
desmotivara, no Distrito Federal, o coronel Heredia de Sá, que, em 1903, estando “farto de
arregimentar votos, havia abandonado essa tarefa e passado para o campo da arregimentação de
capangas”34.
Distintas seriam, aliás, as lógicas válidas no mundo urbano e no mundo rural em termos de
penetração do domínio partidário no controle dos eleitores. Basicamente, a leitura das contestações
sinaliza que, no interior, onde “o mandonismo [fazia] a lei”35, era mais fácil controlar o voto, dada a
maior dependência deste eleitor e seu grau de instrução inferior36. Em sua arguição proferida na
Câmara em 1918, os candidatos Faria Souto e Pereira Nunes definiam a situação nestes termos:
[...] à proporção que os distritos se afastam das cidades, à proporção que a vigilancia se vai tornando menos possível, à
medida que a fiscalização se enfraquece, os esguichos são cada vez mais numerosos, a unanimidade torna-se o
fenômeno regular, cresce espantosamente o coeficiente eleitoral e o ritmo do pleito ganha a cadencia batida dos
algarismos alinhados numa uniformidade sintomática.
(ACD, 02/05/1918, p. 960).

Sentença ainda mais irônica nessa linha proferia o candidato Victorino de Paula Ramos, em 1912,
para quem “a atividade eleitoral cresce de um modo verdadeiramente assombroso quando se avança
da sede do município para o interior, e aumenta a razão do quadrado das distancias e na inversa das
massas da população”37. Como vemos, o imaginário de um Brasil atrasado, obstáculo à evolução
institucional do país – imagem esta tão cara a Victor Nunes Leal –, replica-se nas volumosas páginas
apresentadas pelos contestantes.
Contudo, os testemunhos aqui recuperados abrem espaço para uma segunda reflexão, relativa ao
modo como os eleitores eram mobilizados. A leitura das contestações revela que o ato do voto,
naquela época, representava mais uma prática coletiva e não o exercício de um direito individual.
Ilustrativas dessa concepção configuram as amplas referências à prática do alistamento grupal. Como
relata Marcellino Rodrigues Machado (Maranhão),
O alistamento se fazia sem formalidade de espécie alguma, sendo comum juízes se prestarem a sair da comarca
acompanhados do delegado, do coletor e do intendente fazendo o alistamento de menores ao mesmo tempo que
desenvolviam desfreada cabala e ameaças desabusadas.[...] Por toda a parte dominava a fraude para os partidários da
situação, sendo negados os direitos dos meus correligionários que não podiam alistar os seus amigos, embora
estivessem munidos de todos os documentos exigidos pela lei.
(26/04/1927, ACD, p. 15).

Quando examinamos o ato do voto, as coisas não mudam. Um bom exemplo registra-se em 1927,
quando alguns eleitores do contestante foram impedidos de votar no município de Sento-Sé:
Impossibilitados como ficaram meus amigos de votar no município por falta de livros e falta de cartorio, visto que os
livros foram remettidos para ao Correio de remanso, [...] recorreram a um movimento civico da mais tocante e
admirável expressão nestes tempos corruptos, vieram á sede da comarca em numero de 687 peregrinos dessa
peregrinagem de honra, do dever e do civismo e, ahi não encontrando o juiz do direito, demandaram com immenso
sacrificio a localidade mais próxima no districto e nella votaram publica e notoriamente no cartorio do meu adversario
politico.
(ACD, 24/04/1927, p. 221).

O uso da expressão “meus amigos” e a imagem de um movimento cívico contabilizado em 687


pessoas que se reúnem para votar são sintomáticos de um procedimento concretamente grupal. Para
além da ênfase numérica, a identificação entre o eleitorado e o candidato traz luz sobre o vínculo
existente entre eles. A mobilização em torno do apoio a uma candidatura é coletiva, realizada por
“amigos” cooptados de inúmeras formas, que invariavelmente perpassam pelo suborno ou pela
promessa de benefícios futuros. De qualquer forma, mesmo que a cooptação se transforme em coação
física, como muitas vezes acontecia, isso não muda o fato de que votar era um exercício coletivo.
DISCUSSÃO FINAL
Este capítulo tratou das eleições na Primeira República. Nosso conhecimento era até agora
circunstanciado, basicamente replicando o jargão comum de que tudo era fraude e mera violência
física. Entretanto, uma inspeção detalhada das contestações às eleições para a Câmara dos Deputados
revela que o voto era mais do que violação da norma e constrangimento físico. Como as fontes aqui
utilizadas são novas, é bom refletir o que os dados descrevem e sugerem sobre as práticas eleitorais
em época republicana.
Em primeiro lugar, queremos destacar que estes achados corroboram a tese presente em estudos
recentes, dedicados tanto a outras experiências latino-americanas quanto a casos europeus, com
respeito ao papel dominante dos chamados “gobiernos electores” no século XIX, isto é, ao fato dos
escrutínios se mostrarem controlados pelo próprio governo38. Pode-se dizer que o reconhecimento da
importância do controle da máquina administrativo-eleitoral no Brasil de então fora anteriormente
considerado por alguns especialistas (FAORO, 1975; LEAL, 1997[1949]; KINZO, 1980). No entanto,
tendeu-se a associar o aspecto administrativo dos pleitos à prática da fraude – interpretação que,
evidentemente, não nos permite decifrar a dinâmica real dos escrutínios em época republicana39. A
ideia do “gobierno elector” permite introduzir duas temáticas centrais para a análise dos pleitos per si.
Por um lado, tem-se como efeito principal a reconsideração do próprio significado da fraude naquele
regime e, sobretudo, a simples associação entre eleição e a manifestação da fraude. Todas as
degenerações do voto devem então ser entendidas não apenas como caos eleitoral, entendido aqui
como violência, ameaça e coação física, mas como incapacidade de controle sobre a própria burocracia
eleitoral. Em última instância, como afirmou um contestante da época, a fraude era o “último recurso
da salvação”40. O argumento assume uma dimensão inovadora, já que estimula a pensar os escrutínios
dentro de uma dinâmica competitiva. Como bem assinala Posada-Carbó para as experiências latino-
americanas da época,
A study of the ‘corruption of suffrage’ in the region would ignore at its peril the existence of much electoral conflict,
which often developed into genuine electoral competition, conditioning changes in the nature of corrupt practices
themselves, or diminishing their significance or even making them irrelevant.
(POSADA-CARBÓ, 2000, p. 641).

Por outro lado, é possível interpretar as várias reformas eleitorais perseguidas no período por além
da justificativa corrente até hoje (NICOLAU, 2012), que as compreende como simples tentativas
finalizadas a “diminuir as fraudes eleitorais” (ibidem, p. 68). A centralidade do controle da máquina
administrativa dos pleitos republicanos estimula a pensar que tais alterações legais estejam
relacionadas mais à necessidade de definir melhor o controle sobre as várias fases do voto. Daí a
relevância de se atribuir o justo peso às várias etapas inerentes à consecução dos escrutínios.
Nessa linha, o foco se situa na leitura das leis que regiam os pleitos e de como elas estruturavam a
competição eleitoral. Por um lado, a verdadeira preocupação torna-se entender como se organizavam
os pleitos federais durante a Primeira República. Especificamos, aqui, uma dimensão crucial: a ideia de
que a burocracia responsável pelo desenrolar dos escrutínios tornou-se elemento de estabilidade do
próprio processo eleitoral. É por meio dela que os governos estaduais visavam condicionar os
resultados das urnas, conforme sabiamente apontado por Victor Nunes Leal ao ponderar o uso do
poder público para fins de política partidária. Por outro lado, em termos concretos, trata-se de
resgatar o papel do partido político no século XIX como ator central neste processo de organização dos
pleitos, interessado diretamente na mediação de cada momento-chave. As reflexões aqui traçadas
sugerem que as eleições devem ser entendidas, primeiramente, como disputa expressada entre forças
políticas já na tentativa de manter o monopólio sobre a máquina administrativo-eleitoral, em suas
diferentes fases, do alistamento até o controle das mesas e a contagem dos votos nas Juntas
Apuradoras. Com respeito a esse ponto, devemos ressaltar o divórcio entre nosso entendimento e a
interpretação clássica, que apontava para a importância da última etapa do processo eleitoral,
enfatizada por muitos autores como principal arena de desrespeito às urnas e exclusão das oposições
legitimamente vitoriosas – a fase da verificação de poderes no Parlamento. Apontada pelos analistas
como modus operandi do reconhecimento dos diplomas no Congresso Nacional durante a Primeira
República (CARVALHO, 2005; FAUSTO, 2003; LEAL, 1997 [1949]), estudos recentes têm mostrado
que a degola das minorias seria rara em derradeira esfera (RICCI; ZULINI, 2012; 2013). Com efeito, os
protestos analisados até agora revelam como as forças políticas se preocupavam em conduzir a
máquina eleitoral no menor âmbito possível – o municipal. Pesquisas futuras deveriam investigar,
agora, o problema do controle do voto em suas diferentes fases, tendo o cuidado para não estabelecer,
de imediato, a saliência apenas da primeira delas, a do alistamento e qualificação dos eleitores.
Por fim, um último aspecto merece ainda reflexão: as práticas participativas da época. Não
questionamos a existência de um modelo de voto que se dava pela cooptação física e ameaça. Apenas
destacamos que o eleitorado seguia as urnas também visando fins objetivos, como benefícios e
vantagens individuais. Essas práticas, que Surama Pinto (2011) qualificou de controle positivo do
eleitorado, levantam a suspeita de que o ato de controlar o eleitor não era algo automático, sobretudo
nas regiões urbanas. Basicamente, está em tela a refutação da condição de dependência do eleitorado
enquanto explicação unitária da lealdade política em troca de proteção futura. Afinal, os relatos de
campanha política que recuperamos das contestações dão margem a entendimento essencialmente
diverso, apontando para a demanda de assédio dos próprios aptos a votar diante dos candidatos,
pressionados a conquistar as preferências de diferentes currais. O ponto crucial, aqui, é suplantar a
interpretação parcial das práticas clientelistas e de deferência, normalmente entendidas somente em
termos da submissão do eleitor. O sistema de reciprocidade que caracteriza o coronelismo não pode
ficar restrito à imagem proposta por Victor Nunes Leal – isto é, de chefes municipais que, em tempo
de eleições, “conduzem magotes de eleitores como quem toca tropa de burros” (LEAL, 1997[1949], p.
63).
É tempo de se deslocar a atenção para o estudo das práticas do voto, ao invés de insistirmos sobre o
caráter excludente das eleições em época republicana, tão questionadas em termos da restrição dos
direitos políticos (CARVALHO, 2006). Encampamos, aqui, a perspectiva de uma recente agenda de
pesquisa, preocupada em demonstrar como as eleições “eram responsáveis por uma incipiente, porém
pedagógica, mobilização de eleitores” (GOMES; ABREU, 2009, p. 7), ou, mais enfaticamente ainda,
“como experiência concreta da cidadania republicana” (MATTOS, 2012, p. 128). Incipiente, esse
esforço deve ser feito a partir de uma premissa de fundo: o voto no século XIX e início do XX encerrava
significado diferente do observado na democracia atual e, portanto, não deve ser entendido como
produto da ação autônoma do sujeito e manifestação de uma vontade cívica – adquire, antes, o
sentido de ação coletiva, consequência do formato da organização imposta pelos partidos aos
candidatos e chefes locais da época
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1
Agradecemos os valiosos comentários proferidos a este texto pela prof. Ângela de Castro Gomes.
2
A história é relatada nos Anais da Câmara dos Deputados a 26/04/1927, páginas 24-25. Por economia textual, a partir de agora
passaremos a citar tal fonte recuperando apenas as suas iniciais – isto é, ACD.
3
Miriam Dolhnikoff (2008), Roberto Saba (2011, 2012) e Dias (2005) destacam-se em empreita correlata para o Brasil imperial.
4
A proposta é inédita no Brasil, mas bem explorada em estudos sobre outros países. Os analistas dedicados ao exame da fraude
eleitoral no século XIX realmente optam pela análise das queixas formais contra os resultados apurados. Dessa forma, Lehoucq e
Molina (2002) estimaram o peso da deturpação dos dados das urnas sobre o corpo legislativo federal empossado na Costa Rica.
Saída correlata foi escolhida por Anderson (2000) para o caso da Alemanha imperial, por Charnay (1964) no levantamento da
fraude na França. Há quem adote as contestações para dar luz à dinâmica do processo eleitoral. Vê-se o clássico estudo de O’Leary
(1962) sobre a as eleições inglesas e, mais recentemente, o livro de Richard Bensel (2004) para o caso americano, que nos
apresenta um exame detalhado da disputa acirrada travada entre os candidatos a partir da investigação de 48 petições do gênero.
5
Para 13,7% delas não foram encontradas informações nos Anais da Câmara. Infelizmente, os relatórios das Comissões de Inquérito
lavrados na Câmara dos Deputados não apresentam documentos completos para os pleitos ocorridos em 1894 e 1897. A debilidade
dos dados foi a razão determinante para ambas as eleições serem excluídas desta análise. Para aumentar a compreensão do
fenômeno em exame nos servimos também das contracontestações, isto é, das respostas fornecidas pelos próprios acusados ao
longo dos inquéritos sobre a validade das eleições.
6
Segundo o Regimento Interno da Câmara aprovado em 1891, os relatores das comissões de inquérito, uma vez informados do teor
dos documentos referentes aos escrutínios, convidariam “os interessados, seus advogados ou procuradores, para oferecerem as
suas exposições a respeito do processo eleitoral unicamente” (RICD 1891, art. 7, §2º). As contracontestações também eram
factíveis de exibição via advogado ou procurador, além de “qualquer deputado que o pedir na falta daquelles” – isto é, na ausência
do próprio candidato impugnado ou seus representantes legais (idem). Em 1904, introduz-se um prazo para as contestações, que
passam a ser aceitas até cinco dias após as exposições relativas ao processo eleitoral (RICD 1904, art. 19, § 2º). Em 1928, este
limite cai para quatro dias consecutivos (RICD 1928, art. 30, § 2º). Para mais detalhes sobre esse processo, ver Ricci e Zulini
(2013).
7
Vale lembrar que entre 1900 e 1903 as disputas ocorrem sob vigência da primeira norma eleitoral republicana – a Lei nº 35, de
1892. Introduzida em 1904, a Lei Rosa e Silva governa os escrutínios de 1906 até 1915. Os pleitos de 1918 até 1930 se norteiam
pela Lei nº 3.207, aprovada em 1916.
8
Nem todos os autores mencionam esta etapa. Leal (1997[1949]), por exemplo, considera o bico de pena a falsificação eleitoral
mais importante e menos custosa, cometida nas mesas eleitorais; e a degola, realizada já no Congresso Nacional; mas nada diz sobre
o processo de alistamento.
9
Organizado, o processo contava com a publicação, no jornal partidário, da identidade e do local físico onde seriam encontrados os
responsáveis pelo alistamento.
10
ACD, 30/04/1918, p. 289.
11
Pela Lei n° 35, de 1892, os municípios estavam obrigados a dividir o próprio território em seções de, no máximo, 250 eleitores. O
Decreto nº 2.419, de 1911, aperfeiçoaria o desenho seccional, diminuindo para 200 o número limite de eleitores por seção, além de
estabelecer o piso mínimo de 100 eleitores para que a mesma pudesse ser designada. Por fim, definiu-se que “em nenhum municipio
[haveria] menos de duas secções eleitoraes, qualquer que [fosse] o numero de eleitores” (art. 7°) [sic].
12
Durante a Primeira República, o reconhecimento dos eleitos era prerrogativa do próprio Parlamento, seguindo a tendência da
maioria dos países europeus e latino-americanos.
13
Casos extremos falavam no exercício descarado das “eleições a bico-de-pena”, expressão amplamente aceita tanto pela crônica
política da época quanto pelos registros históricos e pela própria academia em referência ao trabalho de se forjar uma ata de seção
indicando os votos de cada candidato, mesmo não tendo havido, na prática, escrutínio algum. Todavia, a literatura é confusa sobre
o bico, que pode se manifestar em todo este elenco de fraudes acima citados. Por isto, evitamos a terminologia.
14
Como o faz o periódico oficial do Partido Republicano Federal no Rio Grande do Norte. Os mesários são apresentados, por seções,
na primeira página do jornal “A República”, Ano XXI, nº 23, a 29/01/1909.
15
Vide ACD, 15/05/1912, p. 692.
16
Cf. ACD, 04/05/1903, p. 176.
17
ACD, 30/04/1918, p. 263.
18
A título de exemplo: ACD, 29/04/1903, p. 38; 30/04/1903, p. 113.
19
Consulte ACD, 26/04/1927, p. 88.
20
ACD, 26/04/1927, p. 15.
21
A ideia da existência de um mecanismo eleitoral associado ao controle das várias fases do processo eleitoral está presente em
inúmeras contestações. Ver, a título de exemplo: ACD, 27/04/1915, p. 81.
22
Muitos estudos de caso confirmam o uso estratégico da imprensa pelos partidos políticos da época. Sobre tal recurso em Porto
Alegre, ver Pacheco (2012). Para o Rio de Janeiro, consulte Pinto (1998).
23
Sugerimos a leitura da apresentação de Berbert de Castro circulada pelo Diário da Bahia em 12/02/1927. Em geral, uma prática
difusa entre os partidos, mas que também interessava os próprios candidatos avulsos, preocupados em apresentar suas posições
políticas distinguindo-as dos partidos constituídos.
24
Vide ACD, 25/04/1927, p. 295.
25
Cf. ACD, 24/04/1927, p. 137.
26
ACD, 30/04/1918, p. 233.
27
Com respeito ao ponto, ver o estudo de Woodard para o caso paulista (2005).
28
ACD, 27/04/1927, p. 204.
29
ACD, 30/04/1918, p. 227.
30
Idem, p. 254.
31
ACD, 25/04/1927, p. 359.
32
ACD, 30/04/1918, p. 264.
33
ACD, 24/04/1927, p. 235.
34
ACD, 08/05/1903, p. 297.
35
ACD, 06/05/1918, p. 240.
36
Testemunhos neste sentido podem sem encontrados, a título de ilustração, em: ACD, 24/04/1927, p. 240; ACD, 02/05/1918, p.
821; ACD, 30/04/1912, p. 215.
37
ACD, 29/04/1912, p. 174.
38
Posada-Carbó (2000) é referência obrigatória para uma discussão aprofundada deste tópico. Para considerações mais específicas
sobre os casos americano e inglês, ver Bensel (2004) e O’Gorman (1989), respectivamente.
39
Uma crítica em tal sentido pode ser encontrada em Limongi (2012) que busca reconstruir as condicionantes da emergência da
democracia na obra de Victor Nunes Leal.
40
ACD, 24/04/1927, p. 216.
TRÊS PERSONAGENS E A HISTÓRIA DA PRIMEIRA REPÚBLICA1
AMÉRICO FREIRE

Na virada do século XX para o XXI, na esteira das profundas mudanças por que tem passado o saber
histórico, deu-se um novo ciclo de estudos centrados na vida de um determinado personagem. Por
variantes de pesquisa, nos últimos tempos, tenho também sido levado a penetrar nessa seara, ainda
que não esteja em minha agenda enfrentar o que François Dosse chamou apropriadamente de Desafio
biográfico2. Em lugar disso, tenho produzido alguns exercícios de microanálise voltados para o
acompanhamento do itinerário de personagens que podem me ajudar a melhor compreender a
complexidade do político na Primeira República brasileira. Caso queiramos nos valer das classificações
de Giovanni Levi, em seu conhecido estudo sobre os usos da biografia, poderia dizer que alguns dos
meus últimos trabalhos podem ser vistos – com alguma boa vontade – na linha das biografias modais
ou ilustrativas, ou seja, as que têm por principal objetivo abrir janelas para o exame de processos
políticos e socioculturais mais amplos3.
Neste texto, apresento alguns resultados desses exercícios biográficos, concentrando o foco de
minha atenção no estudo do itinerário de três personagens da Primeira República brasileira. Por meio
desses experimentos, é meu objetivo discutir algumas questões que dizem respeito à historiografia
política do período em tela, além de propor linhas de investigação relativas à estruturação de algumas
vertentes republicanas, com especial relevo à que, a falta de melhor designação, tenho chamado de
“radicalismo à brasileira”4.
Para começar, cabe um breve registro de cunho historiográfico. Como há tempos temos sublinhado,
os estudos sobre a Primeira República brasileira, particularmente os que se referem às relações entre
Estado e sociedade, estiveram por décadas a caracterizar o primeiro experimento republicano
brasileiro como um mero equívoco; mais, como um desvio de rota, um gap no processo de construção
do espaço público no país. Para autores de diferentes matizes, o país, durante quarenta longos anos,
esteve à deriva e nas mãos de um condomínio oligárquico5. O símbolo-mor de tudo isso seria o Rio de
Janeiro – a sede do poder federal – uma cidade cindida entre uma lógica institucional ilegítima e uma
lógica popular informal e por vezes rebelde.
Nas últimas décadas, com o crescente avanço dos estudos acadêmicos, este tipo de abordagem vem
perdendo força, embora ainda se mantenha com alguma expressão junto aos divulgadores e aos
formadores de opinião pública. A despeito desses avanços, continuo a subscrever as palavras de Renato
Lessa quando afirma que continuamos a “saber pouco a respeito da ordem política que se implantou no
Brasil com o golpe republicano de 1889. Aspectos fundamentais para o entendimento de qualquer
ordem política contemporânea, tais como a formação e o desempenho das burocracias públicas, papel
e comportamento do Legislativo e geração e modos de domesticação das crises políticas, entre outros,
permanecem inexplorados com relação aos anos da Primeira República”6.
Portanto, uma vez que há uma larga avenida a ocupar, tratemos de apresentar nossas breves notas
acerca de três protagonistas republicanos. São eles: Lauro Sodré, Augusto de Vasconcelos e Irineu
Machado – três figuras que tiveram um papel de relativo destaque na política nacional e que
terminaram por praticamente desaparecer da história e da memória republicanas7.
Os dois primeiros nasceram na década de 1850 e tinham pouco mais de quarenta anos quando do
advento do regime republicano. O último, nascido em 1872, era um jovem de vinte e poucos anos
quando passou a integrar as lides republicanas cariocas.
Lauro Sodré teve longa e atribulada carreira, morrendo já no fim da Era Vargas, em 1944, com 86
anos. Dois anos antes, Irineu veio a falecer com 70 anos. Desde a Revolução de 1930, já haviam
abandonado a vida político-partidária, tornando-se exemplares vivos do que as forças vencedoras
passaram a chamar de os “carcomidos”, ou seja, os ultrapassados políticos identificados com o Ancien
Regime. Já Augusto de Vasconcelos morreu em 1915, com pouco menos de 60 anos e no auge da
carreira política.
Parafraseando o escritor e educador brasileiro Darcy Ribeiro, polemista de nascença e que esteve em
Portugal por muitas vezes, pode-se dizer que nossos três personagens “chegaram ao céu” – isto é –
foram eleitos para o Senado Federal – a casa legislativa brasileira que representa os estados. E ainda
melhor: todos foram reeleitos, porém dois deles – Lauro e Irineu – tiveram sua estada no céu
interrompida pela Revolução de 30. Todos eles também representaram a cidade do Rio de Janeiro –
então sede do governo – no Senado Federal, ainda que somente Vasconcelos e Irineu possam ser
considerados políticos cariocas, já que Lauro Sodré apenas por uma vez teve o seu nome sufragado
pelo eleitorado do Rio. Nas demais vezes que assumiu cargos públicos, seja como governador de
estado, seja como senador, o fez pelo seu estado natal, o Pará.
Em certas ocasiões, formaram lado a lado para defender projetos em torno dos interesses dos
militares ou do Rio de Janeiro, mas, em geral, estiveram em campos opostos, bem expressando
algumas das principais tendências republicanas. Vejamos. Comecemos por Lauro Sodré.
Lauro era militar. Neto e filho de militares, cursou a escola militar da Praia Vermelha no Rio de Janeiro
– um dos principais focos de agitação militar nos tempos finais do Império e nas primeiras décadas
republicanas –, tornando-se discípulo dileto do professor e conspirador republicano Benjamin
Constant. Com a proclamação da República, teve carreira militar e política meteórica: o tenente
auxiliar de ensino de novembro de 1889, tornar-se-ia, no ano seguinte, major por merecimento e lente
catedrático da Escola Superior de Guerra8. Nos anos seguintes, daria início à carreira política, elegendo-
se deputado constituinte e em seguida governador.
Sua rápida ascensão não se deu por acaso. Como muitos analistas já apontaram, o advento
republicano brasileiro teve nítidas cores militares, na medida em que coube ao Exército a liderança do
movimento que pôs abaixo o regime imperial. Depois disso, coube a dois oficiais desta arma o exercício
da presidência da República.
Para muitos militares, o golpe republicano fora voltado fundamentalmente para salvar o país dos
“casacas”– ou seja, dos políticos civis – e lavar a honra do Exército antes vilipendiada pelo governo
imperial. Os militares, porém, não tiveram fôlego para permanecer no poder e terminaram
sucumbidos pela falta de clareza sobre o que fazer com o poder e pelas inúmeras dissensões internas.
Em 1894, saíram do poder divididos e descontentes com os rumos da República, que, a partir daquela
data, tomaria feições civis.
Durante os anos dos governos militares, marcados por inúmeros conflitos e por revoluções que
contaram com alguma presença de forças do regime decaído, tomou corpo no Rio de Janeiro um
fenômeno político-social de envergadura autodenominado jacobino – um movimento constituído por
camadas médias urbanas que defendiam a ferro e fogo o governo republicano. Em seus jornais e
meetings, combatiam a herança portuguesa, entendida como retrógrada e antinacional, e defendiam
de forma entusiasta os militares e o governo do marechal Floriano Peixoto, visto como principal
responsável pela garantia da ordem republicana9.
Lauro Sodré, por muitas razões, terminou por se constituir em estuário de um conjunto de forças
políticas que viu nele a perspectiva de manter viva a construção de uma verdadeira República, longe
tanto das ameaças monarquistas como da tibieza dos governos civis.
Além de militar e professor, Lauro foi também maçom e positivista. Mais do que isso: propunha-se
divulgador do ideário positivista. Durante a Constituinte de 1890, foi um dos principais defensores das
proposições dos positivistas na defesa da liberdade religiosa e da separação Estado/Igreja – medidas
essas que terminar por ser consignadas no texto constitucional. Em 1896, ao sair da chefia do governo
do Pará, escreveu um opúsculo, sob o título Crenças e Opiniões, em que explicita seu apoio a Comte e
se defende de acusações de ateísmo, de perseguidor da Igreja e de defensor da tirania republicana.
Nesse trabalho, Sodré apresenta-se como um positivista não ortodoxo, isto é, como alguém que segue
uma linha de conduta baseada na doutrina comteana, sem, no entanto, defender medidas que
suprimissem os institutos liberais. Dizia-se, antes de tudo, um homem de governo disposto a transigir
caso fosse necessário10.
Lauro foi ainda um florianista de “primeira água”, ou seja, esteve o tempo todo ao lado do marechal,
postura que lhe rendeu também bom respaldo junto a diferentes setores políticos – seja a plêiade de
militares que seguiam a liderança de Floriano, seja o de grupos republicanos históricos descontentes
com os rumos moderados dos governos civis, seja também do jacobinismo carioca, em luta aberta
contra esses mesmos governos que estavam a abrir espaços para os “inimigos da República”.
Tudo isso fez de Lauro o herdeiro de dois heróis republicanos – de Benjamin Constant, o professor-
militar e positivista, e de Floriano Peixoto, o “Marechal de Ferro” e “Consolidador da República” –,
credenciando-o a assumir a ponta de lança da oposição ao governo Prudente de Morais, fato que
resultou no lançamento do seu nome na chapa oposicionista nas eleições presidenciais de 1898.
Em seu programa de governo estiveram temas como a defesa da Constituição de 1891 e da “honra
republicana”; o combate à tutela presidencial e a defesa da estabilização econômica. O principal lema
da oposição era “governar a República pela República”.
Em 1897, um evento selou a sorte do jacobinismo e afetou sobremaneira qualquer possibilidade de
vitória de Lauro nas eleições presidenciais: o atentado levado adiante por um simpatizante jacobino
contra a vida do presidente Prudente de Morais. O frustrado atentado resultou na morte do ministro
do exército e na abertura da temporada de caça aos jacobinos e aos seus aliados. Com isso, a frente
oposicionista esfacelou-se e com ela a candidatura Lauro Sodré. Nas eleições foi eleito um dos seus
inimigos diletos: o paulista Campos Sales11.
Os anos seguintes marcam o declínio do radicalismo republicano, seja em sua face
militar/florianista, seja em sua face civil/jacobina. Como consequência, Lauro vê sua liderança política
esvaziada, seja no plano federal, seja no plano estadual, chegando mesmo a encontrar dificuldades para
reunir apoio para eleger-se em seu estado natal. Para retomar sua carreira política, resolveu lançar seu
nome a uma cadeira ao Senado pela cidade do Rio de Janeiro, aonde buscaria apoio uma vez mais na
mocidade militar e junto a setores da opinião pública carioca ainda sensíveis ao discurso radical
republicano. Para isso, contou com o respaldo decisivo do Correio da Manhã, um diário recém-criado e
que se tornaria um verdadeiro arraial das forças oposicionistas de inspiração radical. Em curtíssima
campanha eleitoral – de apenas sete dias – Lauro Sodré elegeu-se senador pelo Rio de Janeiro,
desbancando nomes apoiados pelas principais forças partidárias cariocas. A crônica dessa campanha
demonstra cabalmente a capacidade de mobilização de forças remanescentes do radicalismo que, uma
vez mais, tinham em Lauro Sodré seu principal nome12.
No ano seguinte, 1904, Lauro Sodré deixaria de lado seus pendores legalistas e sua defesa dos
institutos liberais quando lideraria um golpe militar contra o governo o presidente Rodrigues Alves. O
golpe deu-se em meio a uma rebelião popular que virou pelo avesso a capital republicana: era a Revolta
da Vacina. Da tribuna do Senado, dias antes do levante, defendia abertamente a insurreição popular.
Dizia ele: “Por que ter assombro, por que ter medo das revoluções quando elas são salvadoras? Não faz
Revolução quem quer. Revoluções são fatos sociais, são fatos naturais”13.
Sodré foi ferido, preso e processado por sedição contra o governo federal. Um ano depois, já
anistiado, receberia uma espada de ouro dos seus correligionários em concorrida cerimônia, na qual
não apenas justificaria o golpe como propôs a fundação do Partido Republicano Nacional – concebido
por ele como o instrumento dos “republicanos puros e contrários aos compromissos e transações dos
antigos monarquistas”14. Nada disso foi adiante. Depois do levante, terminaria por perder
definitivamente a condição de importante ator político nacional, mantendo-se, no entanto, como um
dos líderes políticos do seu estado, voltando anos depois a exercer a governadoria do Pará.
Como se pode verificar nesse brevíssimo painel, o itinerário de Lauro Sodré nos abre condições para
pensarmos um pouco melhor a respeito de fenômenos ainda mal explorados pela historiografia
brasileira, a despeito dos avanços dos últimos anos. Sodré, como vimos, era uma figura plural, múltipla,
com amplo trânsito em diferentes grupos. Exatamente por isso, passou, em um determinado
momento, a reunir condições para reunir em torno de si uma ampla corrente de opinião – que agregava
históricos e radicais de diversos matizes, civis e militares – que interpela as forças hegemônicas liberais
pelo discurso da afirmação da “verdadeira república”. Sua candidatura pode ser vista como a primeira
experiência mais consistente, no plano político, do fenômeno do radicalismo republicano brasileiro,
aqui entendido também em seu sentido amplo, plural e também circunstancial, como sói em acontecer
em política.
A crise aberta pelo atentado jacobino, além da competente atuação de Campos Sales no sentido de
neutralizar quaisquer ameaças de cunho partidário terminaram por selar a sorte desse experimento.
Sete anos depois, na Revolta da Vacina, Sodré partiu sozinho para o confronto, contando apenas com o
apoio de seus jovens adeptos militares. O golpe militar – capítulo esquecido de um evento bem mais
expressivo – a Revolta da Vacina, foi o réquiem desse primeiro experimento radical.
Augusto de Vasconcelos é o nosso segundo personagem. Sua trajetória foi bastante distinta da de
Sodré, ainda que ambos estivessem juntos no Senado por um bom tempo – cerca de 11 anos. Como
veremos a seguir, Vasconcelos é animal político de outra espécie. Vejamos qual.
Carioca, filho de fazendeiros, formou-se em medicina pela Faculdade do Rio de Janeiro. Nos tempos
do Império, manteve ligações com o Partido Liberal, chegando a exercer o cargo de delegado de
higiene em áreas afastadas do centro do Rio de Janeiro. Com o advento da República, tratou logo de
aderir ao novo regime. Dizia, em seus pronunciamentos,
Aceitei a República e a ela tenho servido com dedicação e lealdade. O que não posso é, adotando a República, dizer
publicamente que sou republicano, e nos meus atos manifestar-me inteiramente contrário a ela. É isto que não posso
fazer nem faço15.

Sem os atributos e o capital político de Sodré e Irineu Machado – carisma pessoal e contatos com
figurões republicanos –, Vasconcelos fez uma carreira típica de parlamentar de província, isto é, foi aos
poucos galgando posições mais altas até assumir, em 1906, a cadeira de senador e a chefia política da
capital federal.
Já na primeira eleição municipal disse ao que veio: foi eleito o intendente mais votado do Rio de
Janeiro, contando para isso com o eleitorado fiel de Campo Grande, seu reduto eleitoral. Em ação
conjunta com dois outros médicos de áreas rurais da cidade, formaria a mais poderosa fortaleza
política da cidade do Rio de Janeiro: era o chamado grupo do triângulo, que comportava os distritos de
Campo Grande, Santa Cruz e Guaratiba. Seu peso eleitoral o credenciou a aproximar-se de lideranças
radicais das zonas urbanas da cidade, vindo a formar e liderar duas agremiações que deram o tom da
vida política da capital até sua morte, em 1915, a saber o Partido Republicano Federal (PRF) e o
Partido Republicano do Distrito Federal (PRDF).
Como até agora temos visto, os dez primeiros anos republicanos foram marcados por intensas
crises políticas – foram os “anos entrópicos” na linguagem de Renato Lessa. Vasconcelos passou
praticamente incólume por inúmeras crises, seja a do atentado presidencial, seja a do golpe militar
liderado por Sodré no âmbito da Revolta da Vacina. Em geral, adotou uma postura discreta, buscando
manter equidistância entre as forças radicais e o oficialismo, ainda que, por razões de natureza
político-eleitoral, mantivesse certa proximidade com grupos mais radicais do republicanismo.
Por tudo isso, Vasconcelos passaria a enfrentar duras críticas por parte de alguns dos principais
jornais da cidade, que o viam como um lídimo representante da baixa política e do atraso. José do
Patrocínio, por exemplo, o conhecidíssimo “tigre da abolição”, não poupava críticas a Vasconcelos em
seu Cidade do Rio, a quem chamava de forma pejorativa de “Dr. Rapadura”, em alusão às origens rurais
de sua família. O Correio da Manhã, aqui já mencionado, ia além nas críticas a Vasconcelos, a quem se
referia como um dos chefes do “sindicato da fraude” na cidade do Rio de Janeiro.
A manifestação enfática de jornalistas de prestígio era mais do que denúncia: expressava também
um sinal de declínio de lideranças e grupos que estiveram à frente do movimento que pôs abaixo o
regime imperial, como o próprio Patrocínio, mas que, com o decorrer do tempo, foram perdendo
espaços de poder para políticos de perfil mais local e com capacidade de arregimentação e manutenção
de clientelas seguras.
Na região do “triângulo”, Vasconcelos e seu grupo, ao lado de exercerem o papel de chefes políticos
tradicionais em suas relações pessoais com os “clientes”, mantinham também forte influência na
intermediação entre os serviços públicos e a população. Dessa forma, produzia-se o cruzamento entre
o poder privado e o público, dando margem à constituição de um padrão político híbrido, complexo,
típico do que o historiador português Fernando Farelo bem designou como “clientelismo de transição”,
em que, devido ao avanço do poder público nas áreas mais afastadas,
os bens e serviços fornecidos pelos patronos tradicionais tornam-se pouco relevantes comparativamente aos que são
proporcionados por fontes exteriores, nomeadamente pelo Estado. Ao lado dos patronos tradicionais, cuja
sobrevivência amiúde passa pela sua conversão ao papel de intermediários entre o centro e a periferia, surgem novos
mediadores especializados (notários, médicos e professores...). O vínculo de patrocinato faz-se mais instável e
pragmático (e, portanto, menos intenso) do que no passado, embora nele se conservem a personalização e algum
conteúdo moral”16.

Vasconcelos e seu grupo desapareceram da história sem deixar muitos rastros. Em minhas
pesquisas, levantei poucas análises acerca da sua trajetória, sendo que duas delas merecem aqui ser
registradas.
Afonso Arinos de Melo Franco, por exemplo, faz menção a Vasconcelos em um episódio em que se
encontra em franca oposição a Ruy Barbosa, um dos maiores nomes do liberalismo brasileiro. Ao
defender as posições liberais de Ruy Barbosa, Melo Franco caracteriza Augusto Vasconcelos como um
“velho soba do sertão carioca”, ou seja, como um exemplar das trevas, da ignorância, uma verdadeira
reminiscência de líder africano presente nos arredores da capital do país. Daí, não por acaso, processa-
se a mudança da alcunha pejorativa: não mais Doutor Rapadura, mas sim “Senador Rapadura”17.
Mais recentemente, um outro autor, Marcos Veneu, ao lidar com aspectos constitutivos da política
carioca, propõe examinar a atuação de Vasconcelos e de seu grupo como práticas assemelhadas ao
chamado modelo coronelista, entendido pelo autor como marcado pelas relações de dependência
pessoal entre o grande proprietário e seus “protegidos”18.
Como já pudemos perceber, creio que lidar com a figura de Vasconcelos sob esse prisma, qual seja, a
de um exemplo de liderança insulada em sua localidade, reproduzindo o jogo político paroquial em
troca de favores, é não entender que estamos diante de outro fenômeno, bem mais complexo e
certamente bem mais importante para a história da cidade e da República brasileira. Caso adotemos a
classificação de Robert Dahl acerca dos tipos de liderança política, é possível afirmar que Vasconcelos
foi inegável e coerentemente um “político negociador”19. Não há traços de radicalização em seu
discurso ou mesmo a defesa intransigente de princípios. Pari passu à sua ascensão na vida política,
afasta-se da tribuna, passando a adotar cada vez mais uma política de bastidores. Em nenhum
momento, deixa de exercer um rígido controle sobre as suas bases eleitorais e sempre mantém as
portas abertas para a negociação com o governo federal.
Em suma, para não nos alongarmos mais, creio que vale insistir na seguinte hipótese de trabalho:
Vasconcelos seria a expressão de uma tradição constitutiva da política formal na cidade do Rio de
Janeiro que se caracterizou por conciliar, sem grandes embaraços, a política clientelista e a
estruturação partidária. Esta tradição, possivelmente inaugurada no império, deitou raízes na
República e até hoje marca fortemente a cultura política republicana carioca20.
Fiquemos por último com Irineu Machado. Nascido no Rio de Janeiro, como Vasconcelos, Irineu
formou-se bacharel em Direito pela Faculdade de Recife e Doutor em Ciências Jurídicas e Sociais pela
Faculdade Livre de Direito do Rio de Janeiro. Muito novo, apenas com 22 anos, já acumulava três
empregos públicos: era funcionário público na Estrada de Ferro Central do Brasil e no Ministério da
Marinha, além de dar aulas na Faculdade de Direito do Rio de Janeiro. Em 1895, perderia um desses
empregos ao proferir violento discurso contra o governo Prudente de Morais na frente do próprio
presidente, quando das cerimônias fúnebres de Floriano Peixoto.
Irineu, como Lauro Sodré, teve carreira política meteórica e ascendente. Em 1896, elegeu-se
deputado federal pelo Rio de Janeiro pela primeira vez com 24 anos, sendo a partir daí reeleito
sucessivas vezes até alcançar a senatoria em 1916. Nos anos 10, ganhou projeção nacional como uma
das principais figuras do movimento civilista de Rui Barbosa, fato esse que o levou a cair nas graças do
já referido Correio da Manhã, com qual manteve relação bastante próxima até meados dos anos 20.
Nos anos 20, ainda como senador, tornara-se um dos figurões da vida política carioca e republicana até
a Revolução de 1930, quando finalmente afastou-se da vida político-partidária.
Seu nome esteve muitas esteve associado a polêmicas de toda ordem, seja nos tempos iniciais da
República, quando militou no jacobinismo florianista, seja, já nos anos 20, quando veio a ser acusado de
fazer parte de conspirações político-militares com o intuito de derrubar o poder instituído. Nessa
ocasião em particular, foi alvo de uma das mais temidas armas do situacionismo: a “degola política”,
isto é, foi excluído da vida parlamentar pelo não reconhecimento da sua eleição pelo comitê de
verificação de poderes. Por causa disso, passaria anos fora do país para finalmente voltar ao Brasil e ao
Senado, agora já com ímpeto bem mais contido.
No decorrer de sua longa carreira política, Irineu esteve à frente ou apoiou sucessivos movimentos
que interpelaram as estruturas políticas vigentes – seja o já citado jacobinismo, seja o civilismo, seja o
tenentismo dos anos 20. Por vezes, também procurou compor com líderes do perfil de Vasconcelos
para participar de agremiações partidárias, ainda que claramente sentia-se mais confortável na
dissidência, na atuação política avulsa, na posição de franco atirador. Valendo-se novamente de Dahl, o
tribuno Irineu era a expressão acabada de um “agitador político”, ou seja, um homem de princípios
interessado em conhecer “qual é a opinião pública para alterá-la no sentido do que deve ser” (grifos do
autor). Para o autor, o “agitador” contrapunha-se, antes de tudo, ao oportunismo e ao pragmatismo
do “negociador”, interessado apenas em responder e atender à opinião pública21.
A respeito desse personagem que marcou época na tribuna da Câmara e no Senado na Primeira
República, há também poucas indicações bibliográficas. Ainda assim, é possível dividir os escritos sobre
o personagem em tela em duas vertentes. Vejamos.
Em uma delas, presente na crônica política contemporânea e nos escritos da historiografia política
liberal do já citado Afonso Arinos de Melo Franco, o nome de Irineu costuma ser associado à história do
movimento civilista, deixando-se estrategicamente de lado, por exemplo, seu passado de líder jacobino
florianista22.
José Vieira, por exemplo, faz de Irineu um dos personagens-chave em seu delicioso livro de crônicas
intitulado Cadeia Velha: memórias da Câmara dos Deputados. Por meio de um estilo divertido e
irônico, o autor cria a figura de um político polêmico, arrebatador de plateias, um tribuno incorrigível
capaz de desconcertar os seus adversários fiéis ao governo Hermes da Fonseca. Para Vieira, “Irineu era
talentoso, combativo e muito popular. Já se tem revelado com tendências para o socialismo. As
condições políticas impedem-no de combater por ideias que, decerto, professa”23.
Já Sertório de Castro apresenta uma dimensão menos pitoresca de Irineu. Em seu A República que a
revolução destruiu, publicado em 1932, o autor, em tom incisivo, coloca o tribuno carioca ao lado de
Rui Barbosa no Panteão da campanha civilista, vista pelo autor como “radiosa”, “esplendorosa”. Na
Câmara, afirma Castro, os líderes civilistas iluminavam aquele recinto tradicional com a eloquência de
oradores como Pedro Moacyr, Irineu Machado, Barbosa Lima e outros24.
Afonso Arinos de Melo Franco também registra a importância de Irineu na luta dos civilistas contra
os desmandos da vida política na Primeira República. Para ele, Irineu, Alcindo Guanabara e Barbosa
Lima eram a “trinca de ases” da Cadeia Velha em 1909, destacando-se pela sua combatividade e
cultura25. Melo Franco, no entanto, não deixa de chamar atenção para determinados episódios na vida
e na carreira política de Irineu, os quais colocam em xeque a imagem de tribuno civilista construída por
autores como José Vieira e Sertório de Castro. Dessa forma, Melo Franco, o retira, sem pejo, da galeria
de heróis que compõem a sua apologia liberal26.
Uma segunda vertente tem origem em meados dos anos 70 e começo da década seguinte, em meio
ao ciclo de renovação dos estudos relativos aos “movimentos sociais urbanos”. Na ocasião, alguns
autores fazem menção direta à participação de Irineu em episódios críticos da Primeira República.
O historiador Michael Conniff, por exemplo, em seu trabalho clássico sobre a política urbana no
Brasil nas décadas de 1920 e 1930, promove o deslocamento da figura de Irineu da posição de herói
civilista ou de “demagogo amoral” para um outro lugar, bem mais confortável: o de precursor do
fenômeno populista brasileiro. Para ele, Irineu teria “ajudado a revolucionar a política do Rio,
afastando-se da estreita representação clientelista e dirigindo-se para uma ampla coalizão de forças,
usando qualidades carismáticas e pregando a reforma social”27.
Portanto, como se percebe, temos muito pouco material analítico sobre Irineu, para além de
informações esparsas e leituras rápidas sobre o seu papel na vida política carioca e fluminense. Mesmo
em Conniff, o autor que mais se deteve em examinar sua trajetória, o que temos é pouco mais do que
um arquétipo do líder contestador com muito carisma e pouca convicção. De alguma forma
expressando as análises típicas da década de 70, Conniff viu em Irineu um reformador avant la letre, a
ultrapassar a estreiteza do clientelismo em direção à política de massas.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Para concluir, tratemos de retomar o nosso ponto de partida. Neste texto, ao chamar atenção para a
trajetória de três líderes republicanos, não poucas vezes fizemos menção a um aspecto fundador,
estruturante, constituidor dos estudos biográficos, sejam eles empreendidos ou não pelos
historiadores: o do esquecimento ou, melhor dizendo, da luta empreendida contra o esquecimento.
Neste “gênero impuro”, como quer o já citado François Dosse, cabe ao biógrafo o papel de “fazer
justiça” a determinados personagens ou temas ou mesmo eras. A ele cumpre o desígnio de resgatá-
los, revivê-los, retirá-los do olvido. Por outro lado, Fernando Catroga e outros já nos ensinaram acerca
da relação ambivalente do historiador com a morte, já que nos cumpre também a função de zelosos
coveiros28.
Sobre a relação dos historiadores/biógrafos com a morte, Dosse cita um trecho bem-humorado e
interessante de Pierre Chaunu. Diz ele:
O empreendimento biográfico talvez convenha melhor à velhice, pois é necessário ter percorrido o caminho da vida para
ser um bom biógrafo. E isso sem omitir o que nos parece bastante oportuno quando temos setenta anos: a maior parte
dos biografados já morreu. Eles podem, de algum modo, nos ensinar a passar desta para melhor...

Como este não é o meu caso agora, pelo menos por enquanto, vejamos o tema do esquecimento sob
a ótica do que tem nos interessado mais de perto neste evento acadêmico: as razões pelas quais esses
e muitos outros personagens perderam-se na memória e na história. E aqui nos encontramos com as
análises de Ângela Castro Gomes e Martha Abreu a respeito dos conflitos político-memoriais e das
formas pelas quais, durante a Era Vargas, foi instituído o “envelhecimento” deste experimento
republicano29.
A meu ver, o estudo desses três personagens abre um campo de possibilidades para
problematizarmos algumas questões em torno das bases políticas do primeiro experimento
republicano brasileiro, ou da “República Velha”, como outros ainda insistem.
Vasconcelos, por exemplo, seria, em tese, como vimos, um exemplo acabado de nosso atraso
político; um espécime típico do localismo tacanho. Ainda nessa mesma linha, agora já sob a influência
de concepções modernizantes e muito próprias da Ciência Política, seguidas acriticamente por muitos
historiadores, nosso personagem seria um caso-modelo de liderança de corte clientelístico a barrar o
desenvolvimento de instituições liberal-democráticas. Portanto, haveria mesmo fundadas razões para
se convalidar a tese dos com seus inimigos políticos contemporâneos, qual seja a de que Vasconcelos
nada mais é mesmo do que o “Dr. Rapadura” e estamos conversados.
Já há algum tempo, em especial desde meados anos 90, este tipo de abordagem tem sido colocado
em xeque por diferentes autores, muitos deles associados a correntes da análise que têm se voltado
para o exame das sociedades contemporâneas e de suas instituições, tomando como objeto de análise
o modo pelo qual as pessoas que participam da política concebem sua experiência. Daí, para
determinados autores como Marcos Bezerra e outros, vinculados ao Núcleo de Antropologia da
Política, um grupo de investigação coordenado por pesquisadores do Museu Nacional do Rio de
Janeiro, há de se abordar o tema do clientelismo sob outra perspectiva, distante das já citadas
concepções modernizantes, como de uma de suas variantes, quais sejam as que analisam as relações
clientelísticas em seu papel para cobrir lacunas (gaps) ou falhas geradas pelo funcionamento
inadequado das instituições sociais, relações essas que tenderiam a desaparecer em um contexto de
pleno desenvolvimento das instituições30.
Para essa vertente de trabalhos, um pressuposto para um melhor exame tipo de análise do
fenômeno é considerá-lo não pelo crivo da anomalia ou da desfuncionalidade, mas como dotado de
certa autonomia e racionalidade. Para Bezerra, por exemplo, há de se examinar a dimensão sociológica
do jogo de trocas e favores presentes no fenômeno, para além de uma perspectiva reducionista que
tende simplesmente a mercantilizar essas trocas. A seu ver, elas precisam ser vistas por um viés mais
abrangente, como relações constitutivas do universo político31.
Com base nisso, creio que examinar o itinerário de Vasconcelos pode nos ajudar a penetrar um pouco
mais no cotidiano da política na Primeira República brasileira, ou seja, das práticas políticas que se
fazem ao mesmo tempo à margem e no interior das instituições. Vasconcelos foi, antes de tudo, um
mediador, um ator de trânsito entre monarquistas e republicanos; entre as áreas rurais e urbanas da
capital; entre os moderados e radicais; entre a gramática das relações pessoais e das instituições. Foi
ainda um construtor de partidos e legislador.
Na intercessão de diferentes “gramáticas políticas” também atuaram Sodré e Irineu, dois tribunos da
República que marcaram sua atuação entre a insurreição, o golpe e a vida político-parlamentar. Creio
que merecem ser examinados em conjunto com outros personagens do mesmo jaez e que mantiveram
importante conexão com o jornal carioca Correio da Manhã na construção de um ideário e uma prática
política associada ao radicalismo.
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VIEIRA, José. A Cadeia Velha. Brasília/Rio de Janeiro; Senado Federal/Casa de Rui Barbosa, 1980.

1
Este texto foi disponibilizado em e-book em MOURÃO, Alda; GOMES, Angela de Castro (orgs.) (2012).
2
DOSSE (2009).
3
LEVI (2006).
4
Sobre a noção “radicalismo à brasileira” empregada neste texto, conf. FREIRE (2009, p. 131-45).
5
Conf., por exemplo, SANTOS (1993, p. 20).
6
LESSA (1988, p. 12).
7
Os dados biográficos apresentados a seguir são encontrados em ABRANCHES (1918), FRANCO (1955), SODRÉ (1970) e
CONNIFF (2006).
8
Sobre a mocidade militar e a trajetória ascendente de Lauro Sodré, conf. CASTRO (1995).
9
A respeito do jacobinismo, conf. trabalho clássico de QUEIROZ (1986). Sobre o florianismo, ver PENNA (1997).
10
SODRÉ (1896).
11
A respeito da candidatura de Lauro Sodré e da vitória de Campos Sales, conf. ABRANCHES (1973).
12
Acompanhar a campanha e a vitória de vitória de Lauro Sodré no Rio de Janeiro em FREIRE (1997).
13
Anais do Senado Federal. 09/11/1904.
14
Citado em FRANCO (1973, p. 434).
15
Anais do Conselho Municipal, sessão de 5 de abril de 1893.
16
LOPES (1993, p. 17-8).
17
FRANCO (1955, p. 689).
18
VENEU (1997, p. 45-72).
19
DAHL (1988).
20
Sobre o tema do localismo na política carioca republicana, conf. FREIRE (2010). Ver ainda FREIRE e SARMENTO (2004, p. 21-
51).
21
DAHL (1988).
22
FRANCO (1955, p. 623).
23
VIEIRA (1980, p. 192).
24
CASTRO (1982).
25
FRANCO (1955, p. 623).
26
FRANCO (1955, p. 644).
27
CONNIFF (2006, p. 96).
28
CATROGA (2001, p. 39-51).
29
Sobre o tema, conf. GOMES e ABREU (2009, p. 11-24).
30
BEZERRA (1999, p. 15). Conf. ainda KUSCHNIR (2000).
31
BEZERRA (1999, p. 16).
A EXPERIÊNCIA POLÍTICO-PARTIDÁRIA DO DISTRITO FEDERAL
NA PRIMEIRA REPÚBLICA
SURAMA CONDE SÁ PINTO

No âmbito do sistema federalista brasileiro da Primeira República, a existência de instrumentos de


conciliação interna dos diferentes grupamentos políticos nos estados era um elemento fundamental
para a defesa mais eficaz dos interesses regionais no Congresso e, consequentemente, para se ter
acesso a bens públicos.
A despeito da importância que os partidos republicanos estaduais assumem no período, e da
significativa bibliografia existente sobre o tema, a análise da experiência e do papel desempenhado
pelas organizações partidárias do Rio de Janeiro, Distrito Federal, nesta fase, salvo um número
diminuto de contribuições1, é um capítulo ainda não escrito na história da cidade. O cenário político
partidário da cidade do Rio, no entanto, foi povoado por um número relativamente grande de siglas na
Primeira República, tendo algumas delas se destacado na arregimentação das forças eleitorais locais, já
nas primeiras horas do novo regime, conforme foram os casos do Partido Republicano do Distrito
Federal e da Aliança Republicana.
O propósito central deste texto é, assim, sistematizar a insipiente produção acerca das experiências
dos partidos organizados pelas chefias políticas da cidade e apresentar novos subsídios para esse
debate. É importante esclarecer, não é nosso interesse aqui reconstituir o tecido factual da vida dessas
organizações (nascimento, acidentes históricos, congressos, lutas internas, posicionamento face a
grandes fatos) nem desenvolver uma análise pormenorizada da dimensão ideológica de cada uma
delas2. O que se pretende é fornecer subsídios para a compreensão do significado da existência dessas
organizações e o papel por elas desempenhado no jogo político do período3.
PRIMEIRAS QUESTÕES
Fenômeno histórico por definição, segundo Serge Berstein, o partido político pode fornecer ao
historiador uma considerável quantidade de informações sobre grupos que se esforçam para reunir
homens, tendo em vista uma ação comum sobre o poder e a organização da sociedade. Na sua
perspectiva, o partido é também o lugar onde se opera a mediação política; isso porque entre um
programa político e as circunstâncias que o originaram há sempre uma distância considerável. Berstein
chama a atenção para não confundirmos grupos restritos, que não passam de clientelas, com partidos
políticos modernos com vocação para encampar ou canalizar os votos de populações numerosas e que
nascem no mundo ocidental no final do século XIX4.
Segundo ele, quatro critérios utilizados na ciência política norte-americana podem ser adotados para
definir e diferenciar partidos de forças políticas: a duração no tempo, que garante a existência do
partido mais longa do que a vida de seus fundadores e implica que ele responda a uma tendência
profunda da opinião pública; a extensão no espaço, que supõe uma organização hierarquizada e uma
rede permanente de relações, entre uma direção nacional e estruturas locais, abrangendo uma parte
da população; a aspiração ao exercício do poder, que necessita de um projeto global que passa a convir
à nação e o seu conjunto; e, por fim, a vontade de buscar o apoio da população, seja recrutando
militantes, seja atraindo votos dos eleitores.
Para os cientistas políticos norte-americanos, tais critérios foram preenchidos, a partir do momento
em que houve a extensão do sufrágio, o que introduziu no jogo político parcelas cada vez maiores da
população. A relação extensão do sufrágio e nascimento dos partidos modernos é evidenciada, assim,
na Grã-Bretanha a partir da reforma eleitoral de 1832 e na França com a Terceira República. O caso
brasileiro deve ser pensado à parte.
No Brasil, os partidos políticos passaram a se constituir como grupos institucionalmente organizados
sob a égide da monarquia do Segundo Reinado. Na época, o ponto central da dinâmica política estava
menos na relação entre os partidos e o eleitorado do que nas relações dos partidos com o Poder
Moderador que, fazendo e desfazendo gabinetes, promovia a rotatividade no poder central e nos
governos provinciais. Este mecanismo de funcionamento não impedia, porém, que a racionalidade do
jogo político fosse dada pela disputa entre partidos, tendo como eixo de equilíbrio a figura do
imperador5.
Com a implantação da República, houve uma sensível alteração dessas regras. O Poder Moderador
foi eliminado, junto com o critério censitário, e foram extintos os dois partidos principais – o Liberal e o
Conservador. O único partido que permaneceu foi o Republicano que, embora fundado em 1870,
nunca chegou a constituir-se como uma organização unificada nacionalmente, caracterizando-se
como uma federação de núcleos provinciais com matizes ideológicos diversos e com estratégias
políticas frouxamente coordenadas pelo núcleo central do Rio de Janeiro. A instituição do federalismo
pela Carta de 1891 agravou essa situação, consolidando uma estrutura partidária estadual e
antipartidária em plano nacional, apesar das tentativas de organização de agremiações como o Partido
Republicano Federal (PRF) e o Partido Republicano Conservador (PRC)6. Com o advento do novo
regime, os partidos nacionais não só desapareceram como passaram a ser estigmatizados, sendo
vistos como uma ameaça à boa condução do governo7. Sobre este aspecto, as matrizes teóricas
predominantes no período parecem ter influído de forma significativa. Positivismo e pensamento
autoritário forneciam elementos para uma visão depreciativa destas instituições representativas.
A noção positivista de cidadania excluía claramente os direitos políticos, incorporando apenas os
direitos civis e sociais, estes últimos vistos como concessões do Estado. O voto como direito ligado ao
exercício da cidadania e os partidos como expressão das preferências eleitorais não eram valorizados.
Para o pensamento autoritário, que ganhou maior espaço nas décadas de 1920 e 1930, longe de
traduzir diferentes princípios doutrinários e nítidas distinções programáticas, as siglas partidárias não
passavam de fachada, cuja finalidade era ocultar sua verdadeira vocação: a defesa de interesses
particulares. Seguindo essa lógica e representando a primazia dos interesses privados, os partidos
seriam contrários ao bem público, que só poderia ser preservado mediante a ação de líderes ou através
da construção de um Estado forte capaz de sobrepor-se ao jogo das facções8.
A identificação dos partidos com facções e, consequentemente, a aversão ao espírito partidário é,
sem dúvida, um ponto central no pensamento político de Campos Sales. Embora reconhecesse a sua
necessidade no plano teórico, Sales considerava que nas condições concretas da política brasileira tais
organizações eram experimentos perturbadores da evolução benéfica das ideias9. Se, por um lado, o
alvo de suas críticas era o PRF – partido que o apoiou na sua eleição para a presidência da República10
–, por outro, a Política dos Governadores, articulada e por ele implementada, foi fundamental para a
definição da estrutura partidária predominante no país a partir de 1898.
Na nova lógica política erigida em sistema, a partir de 1898, a antiga competição entre partidos
nacionais cedeu espaço definitivamente às relações entre as várias situações políticas estaduais e o
poder central. Assim, formaram-se nos estados, ao fim da primeira década republicana, partidos
dominantes, quando não únicos, que passaram a monopolizar as posições do governo, possuindo
maior ou menor complexidade interna, conforme a diversificação da estrutura social e política de cada
região, como foram os casos do Partido Republicano Paulista (PRP)11 e do Partido Republicano
Mineiro (PRM)12.
Estudos recentes mostram, no entanto, que este padrão não foi seguido de maneira uniforme por
todas as unidades da Federação. Enquanto alguns estados caminharam em direção à formação de um
partido único, no Rio de Janeiro passariam a funcionar dois partidos – o Partido Republicano
Fluminense (PRF) e o Partido Republicano do Rio de Janeiro (PRRJ) –, sem que isso traduzisse a
existência de uma vida partidária organizada ou dinâmica. As análises existentes convergem para um
mesmo ponto: a baixa institucionalização da vida partidária em território fluminense. O Rio teria
encontrado uma série de dificuldades que inviabilizaram a construção de um partido forte e coeso. Na
explicação para o malogro das tentativas realizadas, dois fatores que se complementam vêm sendo
apontados: o fraco enraizamento do movimento republicano na antiga província13 e a ausência de uma
maior definição nas relações governo-partido14. Diferentemente do verificado no caso fluminense, na
cidade do Rio de Janeiro, houve um maior enraizamento do ideário republicano. Esse fato, porém, não
significa afirmar que a vida partidária local não tenha encontrado outras dificuldades.
O CASO DO DISTRITO FEDERAL
No final do século XIX, era na cidade do Rio de Janeiro que o republicanismo possuía a tradição mais
firmada. Foi nela que surgiu, em 1870, o primeiro núcleo de republicanos, onde funcionou a
coordenação do movimento e atuaram seus propagandistas mais populares. Entretanto, na futura
capital do novo regime, o Partido Republicano, longe de ser um agrupamento homogêneo e coeso,
apresentava-se dividido em facções que iam do republicanismo moderado de Quintino Bocaiuva e
Aristides Lobo, ao radicalismo revolucionário de apelo popular de Silva Jardim e Lopes Trovão15. Ainda
assim, com a proclamação da República, a organização passou a controlar a política no Distrito
Federal16.
Analisando as eleições e a dinâmica partidária no Distrito Federal nos primeiros anos do novo regime,
num dos raros estudos sobre o tema, Marcos Veneu destacou que, apesar das várias tentativas de se
formar partidos estáveis no Município, nenhum grupo político obteve êxito17. Esta dificuldade se
explicaria em função das próprias características assumidas pelas agremiações, dentre elas a
fragilidade e o caráter sazonal.
De acordo com o autor, os primeiros esforços para formar na Capital Federal um partido que desse
apoio ao governo republicano recém-instituído foram feitos em dezembro de 1889. A iniciativa foi do
republicano histórico José de Nápoles Fonseca Telles de Menezes. Em março do ano seguinte, o Partido
Republicano Federal da Capital dos Estados Unidos do Brasil, denominação adotada, lançou manifesto
no qual se definia como uma organização provisória cujo objetivo principal era organizar no Distrito
Federal a eleição da Constituinte. Cumprindo essa meta, o partido apresentou ao eleitorado uma
chapa de candidatos reunindo republicanos históricos, como Saldanha Marinho e Aristides Lobo, e
nomes ligados ao Governo Provisório, como Eduardo Wandenkolk e João Severiano da Fonseca.
Nas eleições, realizadas em 15 de setembro de 1890, a chapa do partido obteve vitória esmagadora;
apenas dois candidatos não foram eleitos. No entanto, segundo Veneu, o bom resultado das urnas não
foi suficiente para consolidar o partido, que permaneceu sem coesão interna.
A segunda tentativa de organização de um partido na capital ocorreria em 1893. O Partido
Republicano Federal foi lançado num manifesto em 30 de julho18. Composto basicamente por
congressistas, seu principal objetivo era se tornar uma agremiação capaz de influir na escolha do novo
presidente da República. Com um programa bastante simples, o novo partido defendia a Carta de 1891
e os direitos e liberdades nela contidos. O maior enraizamento do PRF só viria ocorrer em 1895,
período em que a agremiação passou a controlar 15 cadeiras no Conselho Municipal, êxito este que
não significou controle completo sobre a política municipal, já que dois anos depois o partido se
esfacelaria.
Tomando como referencial estas experiências e usando a tipologia de Maurice Duverger, Veneu
classificou os partidos republicanos da cidade de partidos de quadros, ou seja, organizações formadas
pelas elites tradicionais em conjunturas eleitorais e, para estes fins, voltadas mais para a qualidade de
seus membros como políticos influentes do que para a quantidade de seus adeptos19. Tais agremiações
tendiam a concentrar o processo de decisão nas mãos de um diminuto grupo cujo inter-
relacionamento direto constituía o centro da atividade política. Como reflexo desta tendência, no Rio
de Janeiro ter-se-iam multiplicado as redes de clientela, para as quais contribuíram ainda fatores como
a falta de autonomia da cidade e a fragmentação de papéis e domínios sociais proporcionada pela vida
numa grande cidade20. A Capital Federal não teria conseguido se expressar como indivíduo coletivo,
capaz de ser um dos sujeitos da política nacional21, passando a ter como marcas distintivas a
diversidade e a fragmentação. Despojado de autonomia e sem nenhum instrumento capaz de aglutinar
suas elites, o Rio de Janeiro ter-se-ia afastado do jogo político formal das instituições, abrindo espaço
para os interesses pessoais e para a corrupção. Assim, um jogo político predatório movido tanto pela
ação interventora do poder central como pela luta desarticulada das lideranças políticas locais é a
imagem que emerge da análise do autor.
Américo Freire, que também estudou a vida partidária carioca do período, partilha da visão de Veneu
de que a dinâmica da capital na Primeira República não se identificou com as demais unidades da
federação, ou seja, em torno de um Poder Executivo estadual, de um Legislativo domesticado e de um
partido globalidade. A diferença nas análises dos dois autores é que, para Freire, as limitações políticas
oriundas do fato do Rio sediar a capital do país não inviabilizaram a formação de grupos e partidos que,
em determinados momentos, tiveram condições de influir no ordenamento do campo político da
cidade22. Para embasar o seu ponto de vista, Freire analisa experiências do Partido Republicano Federal
(PRF) e do Partido Republicano do Distrito Federal (PRDF).
Conforme mostra, apesar de experimentar um período curto de ascendência seguido de uma
trajetória descendente, o PRF, durante grande parte da gestão de Prudente de Moraes, dominou a cena
política do Distrito Federal, vencendo sucessivas eleições e controlando a maioria das bancadas
municipal e federal, tendo exercido ainda por três anos ampla influência na Prefeitura. Freire também
destaca que mesmo depois da crise de 1897 e da derrota de Francisco Glicério, cuja linha política era
seguida, já durante o governo de Campos Sales, adotando uma tendência discreta e governista, o PRF
manteve alguma influência no Conselho Municipal e nas bancadas federais. Este autor contesta ainda a
ideia da submissão do PRF da capital ao PRF nacional, argumentando que, apesar de ter nascido pela
unção dos poderes centrais, o partido se tornou algo bem maior do que uma seção partidária do
oficialismo. O expediente utilizado para sustentar seu argumento é o exame das relações da
organização com o Governo federal. Tomando como base a atuação no Congresso da bancada carioca
do partido, liderada por Tomás Delphino, mostra que a tendência ao conflito foi mais pronunciada do
que a aproximação sistemática em relação ao governo23.
Segundo Freire, o PRF foi o primeiro eixo ordenador do campo político carioca no período
republicano, já que, entre 1894-95 e 1898, a República carioca viveu sob o signo desta organização.
Nenhuma liderança ou grupo político nesta fase representava um contraste à força política do partido
no Distrito, que atuava com desenvoltura e atraía setores ligados ao florianismo urbano e ao localismo
das áreas rurais da cidade, representadas pelas freguesias de Campo Grande, Guaratiba e Santa Cruz,
esteio do poderio eleitoral do partido24. Seu desmantelamento, assim, não é explicado em função
simplesmente da débâcle do PRF nacional, ocorrida em 1897, mas em razão de uma conjunção de
fatores, entre os quais se destaca a ação do Governo federal visando ao desmonte desta estrutura,
através da reforma da Lei Orgânica da capital25.
Outro importante instrumento estudado de coesão das elites políticas cariocas foi o PRDF, que se
afirmou durante a administração de Rodrigues Alves e, como o PRF, nasceu bafejado pelo oficialismo26.
Em suas fileiras, o PRDF contava com as lideranças do Triângulo – Augusto de Vasconcellos (chefe
político de Campo Grande), Raul Barroso (chefe político de Guaratiba) e Felipe Cardoso Pires (chefe
político de Santa Cruz) –, egressas do PRF desde o rompimento com Tomás Delfino, em 189927.
Freire ressalta o papel estratégico deste grupo na composição de instituições políticas cariocas. A
atuação do Triângulo, sobretudo no que diz respeito à capacidade de arregimentação política do
eleitorado, destoava completamente do que ocorria no resto da capital, onde predominava o
absenteísmo eleitoral. Longe de se constituir num conjunto de lideranças insulado em suas localidades,
reproduzindo um jogo político paroquial em troca de alguns favores, o grupo atuou em torno de um
projeto cujo objetivo central era assegurar um conteúdo mais autônomo à política da capital, traduzido
na defesa de três princípios básicos: de instituições político-partidárias fortes e capazes de ordenar o
campo político carioca e enfrentar a ação de agentes “externos” na capital; de um maior poder de
barganha na relação com poderes federais, em particular com o prefeito do Distrito Federal; e de uma
ação mais livre na montagem e manutenção de clientela.
O PRDF conseguiu, ao término da gestão de Campos Sales, se transformar num desaguadouro dos
próceres políticos da capital, conquistando vitória expressiva na Câmara dos Deputados, com exceção
da derrota para a candidatura dissidente de Lauro Sodré para o Senado. Freire destaca ainda que,
diferente do PRF, o partido de Barata Ribeiro conseguiu deslocar o eixo de discussão para questões
fundamentalmente locais, conferindo-lhe melhores condições de exercer uma real interlocução política
com o Governo federal. A ideia do predomínio de uma espécie de varejo político na capital é assim
relativizada. Para este historiador, a ação interventora do Executivo federal no campo político da
capital, as alterações introduzidas na legislação reguladora do Distrito Federal e as dificuldades
enfrentadas pelas elites cariocas não inviabilizaram a criação de estruturas partidárias assentadas em
bases locais.
Apesar de não explorar os motores responsáveis por clivagens internas nos partidos cariocas, as
proposições de Freire encontram respaldo empírico na análise da dinâmica partidária da cidade no
período posterior aos marcos temporais usados em seu trabalho28.
Em estudo publicado recentemente, foi constatado que, depois de uma expressiva vitória nas
eleições federais de janeiro de 1906, o Partido Republicano do Distrito Federal (PRDF) foi
reorganizado. A iniciativa do senador Augusto de Vasconcellos visou aglutinar as forças políticas da
capital da República, já que em março do ano seguinte seriam realizadas eleições para o Legislativo
local.
No novo programa do partido, figuraram propostas amplas, relativas à garantia de direitos
constitucionais, respeito à lei e à autoridade constituída, difusão da instrução primária e profissional,
ensino da agricultura, proteção à indústria, a fiscalização na arrecadação e no emprego das rendas
públicas federais e municipais, além da lisura eleitoral. A questão da autonomia municipal, definida nos
termos da Constituição, figurou apenas em quarto lugar no programa do partido, constituído por dez
itens. No documento, nítida foi a preocupação de fundar diretórios para promover o alistamento de
eleitores, que pode ser entendida levando-se em consideração os baixos índices de comparecimento às
urnas registrado na capital por ocasião das eleições29.
Sobre esse aspecto, vale ressaltar, a autoexclusão do eleitor carioca, em grande medida, estava
relacionada às diversas modalidades de fraude eleitoral praticadas no período, ao perigo representado
nos pleitos pela ação de capoeiras e capangas30 e à descrença da população tanto em relação ao
modelo de república vitorioso quanto aos políticos. O testemunho do deputado Faria Souto é bastante
eloquente nesse sentido: O que acontece é que o bom eleitor fica afastado das urnas, porque ninguém
quer arriscar a vida nos azares de uma eleição onde não há garantia de ordem31.
Os procedimentos utilizados no Distrito Federal, no entanto, não diferiam dos que eram praticados
no restante do país. Conforme destacou o brasilianista Joseph Love:
[...] a corrupção eleitoral campeava livremente em São Paulo, assumindo as formas conhecidas também no resto do
país: falseamento dos totais, registro ilegal de analfabetos, contagem de eleitores já mortos, compra de votos. E aí,
como também em outros estados, quando tudo o mais falhava, a intimidação e a violência resolviam a parada32.

Um dos principais elementos diferenciadores da cidade do Rio era que, por sediar a capital, alguns
jornais cariocas denunciavam veementemente as fraudes. Tais queixas eram menos frequentes no
interior dos estados, dados os mecanismos de controle acionados pelas chefias locais.
De uma maneira geral, as irregularidades começavam no alistamento, mas também envolviam a
composição das Mesas (sendo comum seu não funcionamento ou o duplo e simultâneo
funcionamento na mesma seção). Célebres, no entanto, na capital eram os tumultos e as violências
promovidos por capangas de candidatos33, descritos por Lima Barreto no romance Clara dos Anjos
como eloquentes manifestações eleitorais34. Alguns esforços foram feitos no sentido de coibir tais
práticas. Em 1916, foram consolidadas as primeiras tipificações de delito eleitoral, mas apenas em
1920, com a Lei nº 4.226, esses delitos começaram a ser definidos e vinculados a sanções penais
explícitas35.
Em se tratando de eleições na cidade do Rio, pode-se falar em controle positivo e controle negativo
do eleitorado. O controle “positivo” se manifestava na garantia de uma quantidade expressiva de votos
cativos, como os chefes do Triângulo e lideranças como Paulo de Frontin exerciam. Nesta categoria
incluía-se também o voto do funcionalismo público. O controle negativo era aquele que a historiografia
tradicionalmente aponta como a especificidade dos mecanismos de fraude eleitoral no Distrito Federal,
embora também fosse observado no interior dos Estados36. Nesta categoria se incluem as práticas que
afastavam os eleitores e concorrentes através do emprego da violência no momento da votação –
tiroteios, navalhadas e cacetadas –, efetuadas por peritos na arte de intimidar eleitores, especialmente
contratados para transformá-los em veados, que na linguagem da época significava candidatos a
defunto. Era comum também o uso de mecanismos que alteravam ou anulavam os resultados das
eleições, como a introdução na urna de maços de cédulas de uma só vez, o roubo e a destruição dos
livros de atas37. Tudo isso sem falar naquela que pode ser chamada de uma das grandes inovações em
termos de fraudes do novo regime: o reconhecimento dos eleitos. Nesta última fase do processo
eleitoral, a degola era o destino quase inevitável dos candidatos não afinados com as forças políticas
predominantes nos estados, a despeito das críticas e dos protestos de alguns deputados:
Contra o que me rebello é contra o cambalacho eleitoral que faz do resultado do pleito uma hypóthse delirante e
vergonhosa. Contra o que a Câmara se deve rebelar é contra as combinações decorrentes das affeições e desaffeições
personalíssimas, excluindo candidatos eleitos e levando o facão ao pescoço dos que representam legitimamente a
escolha da soberania popular38.

A consequência mais imediata das práticas acionadas nas eleições neste período era a abstenção
eleitoral, estimulada pelo fato de o voto não ser obrigatório e pelo descrédito da população em relação
aos políticos.
O absenteísmo era também alimentado pela legislação eleitoral. O alistamento eleitoral da cidade
elaborado pelo Governo federal produziu dispositivos que, sob a alegação de criar mecanismos
garantidores da lisura do processo eleitoral, restringiam ao mínimo a participação do eleitor.
Os requisitos para a qualificação, respaldados pelos próprios representantes cariocas, exigiam o
pagamento de taxas por títulos, a carteira de identidade e a certidão de residência. Assim, motivos não
faltavam para o cidadão abster-se das eleições na cidade.
Por outro lado, seria enganoso pensar que não fosse auferido nenhum tipo de vantagem por aqueles
que se lançavam na aventura dos pleitos cariocas. Sempre havia a possibilidade de tirar algum proveito
das eleições ou em se filiar às organizações partidárias da cidade. Ser filiado a uma agremiação política
na capital federal era um primeiro passo para a obtenção de favores junto às chefias políticas da cidade
nelas congregadas39. No mercado político carioca, onde o eleitorado se dividia em eleitores
independentes e arregimentados, o voto era uma mercadoria com algum valor. O trecho reproduzido a
seguir de uma carta enviada a Paulo de Frontin é bastante eloquente nesse sentido:
Levo ao vosso conhecimento que preciso de 1000 chapas para senador e 1000 para deputados. Dr. Frontin, os eleitores
não irão votar sem que dê a elles dinheiro, muitos deixam de ir votarem como na eleição de Dr. Sampaio Corrêa pois que
elle só deu-me no dia da eleição 100$000 e que os eleitores quizeram me aggredir como o Dr. devia ter sabido, foi V.
Excia. que mandou que eu desse almoço e que depois pagou.
[...]
Eu sei que torno importuno mas eu que trato deste serviço quero que V. Excia. me dê o que tem que dar porque elles do
contrário não irão as urnas; até um 1º escripturário quer dinheiro e eu tenho que entregar cedulas e dinheiro; na eleição
passada gastei meu 300$000 com a eleição de Dr. Sampaio Corrêa. Agora tenho quatrocentos e tantos eleitores a 5 ou
10$000 que é quanto monta cada um eleitor...40

O conteúdo da missiva de Augusto Zebral, espécie de cabo eleitoral de Frontin, ilustra bem que a
compra de votos pelos candidatos à representação política da cidade era prática comum no período,
mesmo para chefias com prestígio. O testemunho mostra ainda que, se para o eleitor na capital da
República participar das eleições era perigoso – José Murilo de Carvalho chegou a afirmar que quem
tinha “juízo” ficava em casa41–, votar poderia ser também lucrativo...
O PRDF, após a reorganização, não era um partido de oposição ao Governo federal. Esse perfil
permitiria seu alinhamento à organização presidida nacionalmente, em 1910, por Pinheiro Machado –
o Partido Republicano Conservador. A proximidade, entretanto, não implicou renúncia à luta de alguns
membros do partido por um conteúdo mais autônomo para a política carioca, apesar de, em
determinados momentos, particularmente durante o quadriênio Hermes da Fonseca, a República
carioca ter ficado sob a tutela do senador gaúcho42, chamado por Quintino Bocaiuva de chefe dos
chefes e por seus adversários políticos de Juiz da Festa, Leader dos leaders, General Nota Falsa e
General Pente Fino43.
Denúncias relativas à interferência do Morro da Graça (antiga residência de Pinheiro Machado na
cidade) nos rumos da política carioca, particularmente no que diz respeito à composição de chapas
para as eleições federais44 e ao reconhecimento dos candidatos à representação do Distrito não
faltaram no período. O diálogo entre os deputados Vicente Piragibe e Salles Filho é ilustrativo a esse
respeito:
[...] entrei para a Câmara, pela primeira vez, tendo a opposição do Sr. Pinheiro Machado; entrei depois de três pareceres
unânimes.

Não apoiado. Pinheiro Machado nunca se oppôs ao seu reconhecimento, consentiu...45 [o grifo é nosso]

O caciquismo político praticado por Pinheiro Machado foi uma fonte de inspiração para as práticas
políticas do senador carioca Augusto de Vasconcellos. Basta citar o episódio envolvendo as eleições
para a vaga aberta com a morte do deputado Pennafort Caldas, em fevereiro de 1914, disputadas por
José Meirelles (candidato do PRDF apoiado pelo presidente da República e por Pinheiro Machado) e
Mena Barreto (apoiado pela Coligação e pelo Partido Liberal de Rui Barbosa)46.
Pressentindo a derrota do candidato da situação, na fase da apuração do pleito, Hermes da Fonseca
decretou estado de sítio na cidade e a prisão de Mena Barreto. O deputado Raul Alves, responsável pelo
parecer sobre o reconhecimento do diploma de José Meirelles, opinou pela anulação do pleito já que a
apuração das eleições e diplomação do suposto candidato vitorioso fora realizada em meio ao estado
de sítio, decretado com o objetivo de punir o candidato da oposição47. A esse respeito, Maurício de
Lacerda, outro membro da Comissão de Poderes que examinou a questão, comentou: O que a
jurisprudência da Câmara resolveu é que a eleição começa por ser um incidente: a verdadeira eleição é
o reconhecimento48. Inquerido sobre o paradeiro de Mena Barreto, Lacerda ironizaria: Sei onde elle
está: Não está é a sombra do rancho de capim do Sr. Pinheiro Machado49.
Maurício de Lacerda e Raul Alves votaram em separado pela nulidade do pleito com base no
argumento de que, quando se reuniu a junta apuradora e ainda nos trabalhos de verificação, Mena
Barreto, foragido, estava inibido de apresentar protesto, de fiscalizar os trabalhos da junta apuradora e
ir à comissão defender os seus direitos. O presidente da comissão, no entanto, deu parecer
reconhecendo a legitimidade do pleito, que obteve na votação 108 votos a favor e apenas oito contra50.
Na bancada carioca no Senado, além de Vasconcellos, Alcindo Guanabara era o que se poderia
chamar de homem de confiança do político gaúcho. Este alinhamento das lideranças do PRDF com os
arraiais pinheristas fez com que o partido carioca passasse a se denominar Partido Republicano
Conservador do Distrito Federal (PRC do DF) por ocasião da criação do Partido Republicano
Conservador (PRC). Manipulando as eleições na capital e apresentando um rígido controle sobre seus
representantes, o domínio e a influência do PRDF transformado em PRC do Distrito Federal foi muito
mais consistente do que as experiências partidárias da primeira década do novo regime. Em 1909, a
agremiação dominava nove das 16 cadeiras do Conselho51 e conseguiu o reconhecimento de Milcíades
Mário de Sá Freire para a vaga no Senado, apesar de Mello Mattos ter sido o candidato vitorioso nas
urnas. A única força que rivalizava com esta organização era o Partido Democrata (PD), que até
conseguia atrair votos do eleitorado da capital para seus candidatos, mas esteve longe de ter o cacife
político do PRC do DF ou arregimentar as principais influências políticas da cidade.
Nos primeiros anos do século XX, o partido também apresentou um programa político mais bem
estruturado e esteve longe de ter apenas um caráter sazonal, embora fosse constituído por lideranças
políticas da cidade e chefias das principais freguesias cariocas. Por outro lado, a tendência ao
personalismo prevaleceu. O fenômeno se traduzia na ascendência de Pinheiro Machado e de Augusto
de Vasconcellos sobre o processo de decisão em matéria de política do Distrito Federal, bem como na
manutenção de uma ampla rede de relações ligada por vínculos de solidariedade, baseados no cultivo
de valores como lealdade, reciprocidade e respeito à palavra empenhada52. Assim, entende-se por que,
em grande medida, com as mortes do general gaúcho e do chefe político de Campo Grande, seguida da
forte onda de críticas ao Governo Hermes no novo quadriênio presidencial, o partido sofreu um forte
revés53.
Com o desaparecimento da agulha, a velha bússola da política carioca perdeu o norte. O Partido
Republicano Conservador do Distrito Federal voltou a adotar a denominação de Partido Republicano
do Distrito Federal (PRDF), numa espécie de excomunhão do legado pinheirista, e deu adeus aos seus
dias de glória. Sá Freire tentou manter o partido unido para que permanecesse na linha de frente da
política carioca, mas seus esforços não surtiram efeito. O advogado carioca acabaria por renunciar à
chefia da organização e à sua cadeira de senador pela representação carioca no racha que culminou
com a saída de Alcindo Guanabara, que passou a compor com o Partido Autonomista da capital ao lado
de Irineu Machado e Mendes Tavares. O motor da crise, que teria ainda como desdobramento a
renúncia do deputado Thomás Delphino, foram as críticas provocadas pelo apoio dado por lideranças
do PRDF como Alcindo Guanabara a Irineu Machado, candidato que levou a melhor na disputa com
Delphino (herdeiro natural de Vasconcellos) pela cadeira do falecido chefe do partido no Senado.
Em fins de 1916, o PRDF estava longe de ter a força política de outrora, perdeu vários membros e o
domínio do Conselho Municipal para o Partido Autonomista de Mendes Tavares, presidente da Casa na
ocasião.
A despeito do temporário controle sobre o Legislativo local e de ter atraído algumas figuras de proa
da política carioca, como Irineu Machado e Alcindo Guanabara, o Partido Autonomista jamais teve a
mesma força do PRDF nem a capacidade de aglutinação de chefias da cidade.
A morte de Vasconcellos abriu espaço para a afirmação de novas lideranças no campo político
carioca. Foi o caso de Paulo de Frontin54. O renomado engenheiro se tornaria mentor intelectual e
chefe da Aliança Republicana (AR), que passou a disputar com o novo Partido Republicano do Distrito
Federal, criado em 1918, a primazia na política da capital da República.
As bases do programa da Aliança Republicana foram apresentadas em 1918. Do ponto de vista da
composição de seus membros, não se pode afirmar que a força política recém-criada renovava os
quadros das elites políticas cariocas. Nas fileiras da AR, influências políticas da cidade que integraram o
antigo PRDF perfilavam ao lado de estreantes, ilustrando que o novo não era tão novo assim. O próprio
prócer da nova organização havia militado na antiga sigla, assim como o ex-intendente Pedro Reis55. À
frente do partido, no entanto, em vez de um médico – profissão de Vasconcellos e Barata Ribeiro,
comum entre chefias políticas cariocas em função da facilidade na construção de clientela –,
encontrava-se um engenheiro, com uma longa folha de serviços prestados ao país.
A ascensão desta nova liderança na política carioca poderia ser interpretada como símbolo de novos
valores e de uma outra concepção da atividade política? É preciso cautela com esta ideia, sobretudo
porque as práticas políticas dos membros da AR também não diferiam das acionadas pelos chefes
políticos tradicionais da cidade reunidos em torno do partido de Vasconcellos. Além disso, apesar de
apresentar um programa mais elaborado do que o do PRDF e inovar sobre certos aspectos na
abordagem e nas soluções apresentadas para determinadas questões, temáticas mais polêmicas,
como voto secreto, não foram tratadas no manifesto que marcou a criação da organização.
A defesa da autonomia carioca ganhou destaque no Programa apresentado. Ainda que definida nos
termos da Constituição de 24 de fevereiro de 1891, esta bandeira era acompanhada da condenação de
uma série de limitações impostas à ação do Conselho Municipal. A crítica dos aliancistas republicanos
incidia particularmente sobre o impedimento do Legislativo local de votar matérias como o subsídio
dos legisladores e analisar os vetos do prefeito, prerrogativa conferida pela Lei Orgânica ao Senado.
Junto com a defesa da ampliação das atribuições do Conselho Municipal na vida do Distrito Federal,
também foi proposta uma rigorosa aplicação da nova lei eleitoral, cuja vigência se iniciara naquele
mesmo ano.
O partido definia-se como de caráter local e coerentemente preocupava-se preferencialmente com
questões relativas à situação política e constitucional do Distrito Federal (considerado no documento
mais do que um simples município), ao progresso e desenvolvimento de seus recursos naturais.
Perfilaram no manifesto partidário propostas como a revisão do sistema tributário, a resolução da
questão dos limites territoriais do Distrito Federal, a municipalização de serviços como os relativos à
água, luz, esgoto, viação-férrea local e outros, a produção de leis mais severas em relação às questões
de higiene e salubridade, além da defesa da intervenção direta do Estado na solução do problema de
habitação, através da construção de moradias salubres e baratas para a população menos favorecida.
A defesa de medidas de proteção e apoio ao comércio e à indústria, junto com a abertura de espaço
no partido para a representação destes setores foram importantes inovações que mostram a relação
estabelecida entre o partido e os grupos representantes do grande capital na cidade. Desde o início do
século XX, o Distrito Federal contava com uma burguesia industrial expressiva e relativamente
organizada56.
Esta política de abertura para representantes do grande capital da cidade não foi reproduzida no que
diz respeito aos operários, que pleitearam a candidatura de um representante (Everardo Adolfo
Backheuser) na Câmara junto a Frontin57. Mas a Aliança Republicana também se pronunciou sobre a
problemática operária, defendendo a equiparação igualitária de todos os trabalhadores nacionais,
salários equitativos ao labor na iniciativa privada, a criação de uma legislação especial de proteção ao
trabalhador (amparando, sobretudo, crianças, mulheres e chefes de família numerosa), de seguros
contra acidentes de trabalho, além da assistência à criança desvalida. A intervenção do Estado na
relação capital/trabalho e no controle da obtenção desordenada de lucros e vantagens também foi
bandeira levantada. Para os aliancistas, a criação de condições para a garantia da ação dos membros da
Magistratura era fundamental para tornar viáveis todas essas propostas.
O combate ao analfabetismo também foi item na pauta do partido, mas nenhuma proposta de ação
neste sentido foi apresentada, sendo apenas aventada a revisão da legislação sobre a matéria e a
necessidade da ação conjugada dos poderes federais e municipais.
Mais do que simples propostas, os itens apresentados no programa dos aliancistas foram respostas
a questões prementes colocadas para as elites do país, em fins dos anos de 1910. Algumas visavam,
ainda que de forma sutil, combater a intensificação da mobilização dos operários e,
consequentemente, o número crescente de greves. É importante destacar, no exercício de seus
mandatos, os representantes do partido, eleitos nos pleitos realizados no período, procuraram
materializar esse conjunto de propostas58.
Apesar de passar a representar a mais importante força política organizada da cidade e apresentar
um programa bem elaborado, querelas e disputas internas entre influências políticas tradicionais e
novas ameaçaram, ao longo do período, a união das forças políticas do Distrito Federal em torno da
sigla carioca.
Na hierarquia do partido, Octacílio Camará e Frontin centralizavam o processo de decisão política.
Muitas vezes os acordos por eles firmados contrariavam interesses de antigas e tradicionais influências
políticas da cidade, não dispostas a abrir mão de direitos adquiridos para incorporação de novos
elementos à organização.
Como chefe, Frontin buscou mediar disputas entre políticos locais. A sua posição de liderança na
política da cidade começou ainda dentro do partido de Augusto de Vasconcellos, mas tomou maior
dimensão com a morte do médico e chefe político de Campo Grande e a sua passagem pela prefeitura
do Distrito Federal em 1919.
O que fazia com que a Aliança Republicana preterisse antigos aliados, apoiando figuras que não
tinham história no partido nem longa folha de serviços prestados era o grande valor no mercado
político da capital da República que representava o apoio eleitoral de um adversário cooptado,
sobretudo em função dos baixos índices de comparecimento às urnas.
O número de eleitores controlados por algumas chefias políticas da cidade teve um peso grande no
estabelecimento de novos compromissos pelo partido, nos quais, muitas vezes, antigos aliados foram
postos de lado. Por outro lado, embora fosse muito importante, o cacife eleitoral não era o único
critério definidor do processo de recrutamento político das elites cariocas. Amizade e laços pessoais
também funcionavam como elementos orientadores de muitas destas escolhas. Um exemplo típico da
adoção deste critério foi a opção da AR de apoiar Octacílio Camará nas eleições para o preenchimento
da vaga de Frontin no Senado e a candidatura Sampaio Corrêa (discípulo dileto e amigo de Frontin)
para deputado federal, em detrimento de Francisco Bethencourt da Silva Filho, antigo político militante
do Partido Democrático, no Distrito Federal, com grande influência nas freguesias urbanas de São José
e Sacramento59. Episódios como estes ocorriam em relação a vagas no Congresso e envolvendo
cadeiras no Conselho Municipal60. Tais fatos são reveladores de uma tendência predominante durante
todo o período: a de que, para além das divergências ideológicas ou de programa político, as cisões
partidárias cariocas tinham natureza pragmática, eram em grande medida resultado de disputas entre
influências eleitorais da cidade por mandatos nas instâncias municipal e federal do Poder Legislativo.
Na política carioca, a luta pela influência no processo de composição das chapas para o Senado,
Câmara dos Deputados e Conselho Municipal era agravada pela falta de controle sobre os recursos
distribuídos, necessários para o funcionamento de esquemas clientelistas61. Algumas cartas
encontradas no arquivo Paulo de Frontin dão a exata dimensão de como eram compostas as chapas e o
desenrolar do processo eleitoral, desde a fase do alistamento, na cidade do Rio62. Ter o nome do seu
candidato ou o próprio nome indicado pelo partido e sufragado pelos eleitores arregimentados era a
chance de obter acesso a bens públicos e, consequentemente, distribuí-los entre correligionários,
conforme grau de merecimento, por serviços prestados. Esta dinâmica de funcionamento não significa
que a política da mais importante cidade brasileira no período estivesse restrita a um jogo em que se
digladiavam personalizadamente os “notáveis” políticos e suas redes de clientelas no qual as relações
pessoais, mantidas pelo favor, subsistia mesmo sem a presença de partidos formalmente organizados
para congregá-las63.
Era justamente a multiplicidade de pequenas redes de clientela e o não controle de cargos que
tornava a existência de partidos, agregando influências políticas, imprescindível na política carioca. As
próprias iniciativas de reorganização do PRDF, conforme visto em 1906, a criação de um partido
homônimo, em 1918, e da Aliança Republicana, além da fusão do Partido Republicano do Distrito
Federal e da AR, em 1921, sem mencionar a criação do partido Democrático do Distrito Federal, em
1927, servem de indícios neste sentido. Os políticos da representação carioca perceberam a
importância e a necessidade prática de criar mecanismos de ligação com o eleitorado, ampliado no
decorrer do período, e de garantir algum capital político na concorrida política carioca. Cultivar um
contingente eleitoral e alimentar uma rede de clientela no Distrito Federal custava caro. Integrar-se a
um partido tornava a tarefa menos onerosa.
As eleições no Distrito Federal, a exemplo do que ocorria nos Estados da Federação, envolviam
grandes somas de dinheiro. Organizar uma agremiação e fazer com que seus membros contribuíssem
mensalmente era uma forma de arcar com as despesas frequentes nos períodos eleitorais, despesas
essas que envolviam desde o pagamento de gráficas e jornais para confecção de cédulas e divulgação
das chapas até a remuneração de eleitores para comparecerem às urnas. Não eram apenas eleitores
avulsos que consumiam recursos. Conforme mostra a contabilidade de Frontin, em fins dos anos 1920,
sociedades, ranchos e blocos da cidade estavam na sua lista de despesas eleitorais, chamadas por
Frontin de auxílios políticos64.
As elites cariocas perceberam a importância de se organizar em partidos não só para defender de
forma mais articulada os seus interesses e os do Distrito Federal das investidas intervencionistas do
Executivo federal, como também para controlar o alistamento eleitoral na cidade. Não que houvesse o
interesse em ampliar a franquia de eleitores da cidade de forma considerável; isso demandaria a
existência de recursos e benesses a serem distribuídas num contexto de pouca oferta. O importante
era garantir um quantum de eleitores, e, nesse sentido, os partidos tinham um papel fundamental.
Outro elemento que nos permite entender a dificuldade enfrentada pelo partido para gerir
internamente os conflitos é o fato de que a Aliança Republicana foi criada a partir da fusão de novos
com antigos elementos das chefias de Augusto de Vasconcellos, Octacílio Camará e Aristides Caire.
Para estes políticos, lealdade à pessoa e à palavra empenhada era mais importante do que lealdade ao
partido. Esta tendência dificultou o estabelecimento de uma disciplina partidária, pois transformou a
transitoriedade numa característica das alianças que se firmavam. Esse traço, porém, não era
singularidade da política carioca na Primeira República. Além do Estado do Rio no período ter
enfrentado problemas semelhantes65, o mesmo padrão de comportamento também foi observado por
Richard Graham em seu estudo sobre a política imperial: O que predominava era a lealdade à pessoa,
não ao partido ou programa66. Isso fazia com que ódios e inimizades aflorassem em conjunturas
eleitorais, sendo levados a público, mesmo fazendo parte do mundo privado, comprometendo a
disciplina partidária67.
No caso carioca, outros dois fatores agravavam o quadro: o fato de o voto do eleitor da cidade ser
personalizado e a ação do Executivo federal estimulando dissensões no campo político local. No Rio o
eleitor carioca escolhia “seus representantes” no Legislativo de acordo com as qualidades pessoais dos
candidatos e levando em conta laços de dependência e amizade. No relacionamento entre o político e
sua base eleitoral, a referência partidária não era marcante. Um bom exemplo disso era a figura de
Irineu Machado e seu eleitorado. O advogado carioca, que afirmava ser socialista, em 1903 foi eleito
pelo PRDF, em 1909 militava no Partido Liberal de Rui Barbosa, em 1916 fazia parte do Partido
Autonomista e assim por diante. Ele ganharia inclusive a fama de destruidor de partidos, já que por
onde passava tempos depois a organização entrava em declínio. Apesar de ter composto em diferentes
momentos com forças políticas diversas, Machado nunca deixou de ser um dos políticos cariocas que
apresentavam os maiores índices de votos nas eleições.
A ação do Governo federal na política local, por seu turno, também estimulou as disputas entre os
diferentes grupos como uma estratégia de controle sobre o campo político carioca; fragmentado, era
mais fácil ser dominado. Não era interesse do Executivo federal ver surgir e crescer uma força política
como a Aliança que, embora filha do oficialismo, mantinha uma linha política menos compromissada
com o governo e mais independente, se compararmos ao PRDF de Vasconcellos.
Disputando espaço com a AR, em setembro de 1918, foi fundado o Partido Republicano do Distrito
Federal, organização homônima à sigla PRDF, que agregava os deputados Salles Filho, egresso da AR,
Mendes Tavares, ex-militante do Partido Autonomista, e José Maria Metello Jr., este último sem
mandato e ex-integrante do PRDF.
A nova sigla demonstrou a preocupação em regular o artigo 6º da Carta de 1891, a fim de
normalizar a intervenção nos Estados e, particularmente, no Distrito Federal. O programa do partido
defendia propostas como a melhoria salarial do funcionalismo público, a difusão do ensino, inclusive o
de formação profissional, a criação de uma legislação trabalhista e de medidas visando à melhoria das
condições de vida da população, o combate aos trusts da indústria e do comércio, a revisão do sistema
tributário, fiscalização na arrecadação das rendas públicas e reformas da polícia e da justiça. A grande
diferença fica na defesa da transferência da sede da República. O partido se pronunciava envolvido na
luta pela mudança da capital federal da cidade e pela obtenção da direção de todos os serviços
municipais que ainda se encontravam entregues ao Governo da união. A esse respeito, apesar da
Aliança Republicana não ter se pronunciado sobre a questão, seu principal idealizador (Paulo de
Frontin) era favorável à municipalização dos serviços, mas contra a mudança da capital68 por
considerá-la dispendiosa e prejudicial aos negócios da cidade69. Numa entrevista concedida ao jornal O
Globo, após o movimento que pôs fim à Primeira República, estas ideias foram mais bem explanadas:
Sou partidário franco da autonomia do Distrito. Autonomia política e administrativa, e a este respeito penso hoje como
pensava hontem nas campanhas opportunas que fiz, quando senador pela capital. Tudo quanto se articula contra esta
idea, não resiste a uma analyse serena...

Não há nenhum inconveniente na permanência da capital no Rio com a autonomia. De certo, regulamentadas as leis;
definidas as atribuições, passada para o governo da cidade o que tiver de ser dirigido por elle, não haverá a menor
desarmonia. ... Assim sou pela autonomia carioca e pela permanência da capital do Brasil aqui. Mudar a capital não seria
só dispendioso. Seria também crear difficuldades que a reflectiriam em toda a vida nacional... 70

Com as duas forças políticas (AR e PRDF) disputando o eleitorado carioca, as eleições para a Câmara
em 1918 foram concorridas. A chapa da AR ficou conhecida como a Arca de Noé, em função da
heterogeneidade de sua composição. O resultado final deu vantagem à AR, mas o novo PRDF
conseguiu três cadeiras na bancada do Distrito Federal, justamente a tríade Salles Filho, Metello Jr. e
Mendes Tavares.
Em 1921, as duas forças políticas organizadas da cidade se fundiriam71 visando às eleições para
Câmara dos Deputados, para a renovação do terço no Senado e para a vaga aberta na Câmara Alta
com a morte de Octacílio de Carvalho Camará. No programa figuraram propostas de natureza variada,
uma espécie de mix das plataformas políticas das duas organizações. No que diz respeito à questão
social, nada de novo. Defendia-se a criação de uma legislação que garantisse ao trabalhador a parte
que lhe competia na produção da riqueza nacional. A valorização e estabilidade da moeda nacional,
através do controle do câmbio, era outro ponto do programa. A Coligação, denominação adotada na
ocasião, mostrou-se fiel ao seu principal eleitor: o funcionalismo público, defendendo antigas
demandas da categoria.
Questões relativas às condições de vida da população carioca (alimentação, saneamento e
habitação) também receberam alguma atenção72.
O combate ao analfabetismo, o incentivo à instrução profissional, o povoamento do solo brasileiro,
junto com a extensão da viação férrea, a proteção à indústria de ferro e carvão nacionais, o
rejuvenescimento dos quadros do Exército e da Armada, a reorganização do Exército e da Marinha
nacionais eram outras propostas veiculadas no programa eleitoral.
O programa apresentado era bastante amplo e em grande medida voltado para a política nacional.
Pouco espaço foi conferido às questões específicas da cidade e, curiosamente, nenhuma menção foi
feita à questão da autonomia municipal nem à problemática do voto secreto, apesar da intensa
campanha verificada nos anos de 1920 em defesa da lisura no processo eleitoral. A única proposta
neste sentido foi a difusão da instrução como meio de combate ao analfabetismo, elemento comum
em todos os manifestos partidários vistos até aqui.
Ao que tudo indicava, novos ventos sopravam na política carioca. A calmaria, no entanto, duraria
pouco. A mais importante força da política da cidade AR viveria nova crise culminando com a saída de
Frontin e de outros elementos que se opuseram ao apoio dado pelo partido à candidatura de Arthur
Bernardes no pleito presidencial de 1922.
Em 1927, Frontin estaria à frente da chamada Coligação Política, formada por remanescentes da AR.
Do Senado, ele continuaria comandando a política do Distrito, apesar da criação do Partido
Democrático (PD)73 naquele mesmo ano e do Bloco Operário74.
Ao refletir sobre a experiência político-partidária do Rio de Janeiro na Primeira República, algumas
características e/ou tendências podem ser evidenciadas. As mais significativas dizem respeito a
composição, nascimento das organizações, capacidade de arregimentação, plataforma política e papel
no jogo político local. Conforme foi visto, os partidos formados ao longo do período tenderam a
agregar o espólio dos partidos anteriores, transformando-se em verdadeiros desaguadouros de
próceres políticos da capital federal. De uma maneira geral, tais organizações nasceram com certa
aproximação em relação ao governo federal, visando colaborar com o regime, o que não significa em
absoluto que tenham aberto mão da defesa de um maior grau de autonomia para a atuação dos
grupos políticos locais no campo político carioca. Ao que tudo indica, tal proximidade foi estratégica,
dados os mecanismos de intervenção do governo federal no espaço político local no período. As siglas
analisadas mostraram também grande preocupação com a arregimentação do eleitorado flutuante da
capital, boa parte dele constituído pelo funcionalismo público. No que diz respeito às plataformas
políticas, a metáfora mais apropriada para caracterizá-los talvez seja a de um pêndulo. Ora essas
organizações voltavam-se prioritariamente para o debate político nacional, ora concentravam-se na
defesa dos interesses locais. Esta tendência, resultante do fato de a cidade sediar a capital da
República, trazia como efeito mais direto o enfraquecimento da capacidade de uma ação mais
constante e eficaz dessas elites na luta por um conteúdo mais autônomo à política carioca, meta
perseguida por esses grupos, conforme já sublinhado.
Por outro lado, a despeito de todas as dificuldades assinaladas, os partidos políticos na cidade,
embora se aproximassem mais do que Serge Bertein denominou de grupamentos políticos e Maurice
Duverger classificou como partidos de quadros, no período aqui abordado tiveram um importante
papel. Coube-lhes o estabelecimento de mecanismos de controle de acesso ao governo, a redução do
grau de incerteza da política carioca, a garantia do espaço de ação no campo político da cidade para os
grupos políticos locais e o ordenamento, através de suas chefias, do voto personalizado do eleitorado
da capital.
Três foram os efeitos mais diretos das dificuldades enfrentadas pelos partidos cariocas na absorção
dos conflitos intraelites, tendência também observada. O primeiro deles foi a maior vulnerabilidade do
campo político carioca à intervenção direta e indireta do Poder Executivo federal. O segundo foi o
comprometimento da possibilidade da cidade do Rio de Janeiro gozar de um melhor status na política
nacional. O terceiro, resultado direto do anterior, foi o papel de elemento desestabilizador
desempenhado pelo Distrito Federal no jogo oligárquico da Primeira República. A despeito disso, a ideia
de uma capital neutralizada, sem autonomia política, com instituições débeis, cabendo aos grupos
locais apenas uma encarniçada luta pela sobrevivência não parece adequada.
REFERÊNCIAS
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FONTES
Arquivo Paulo de Frontin (IHGB)
Anais da Câmara dos Deputados 1909-1921
Imprensa
Correio da Manhã, edição de 08/09/1927
Jornal O Globo, edição de 22/08/1931

1
VENEU, Marcos Guedes. Enferrujando o Sonho: Partidos e Eleições no Rio de Janeiro, 1889-1895. In: Dados, Revista de Ciências
Sociais, Rio de Janeiro, v. 30, nº 1, 1987, pp. 45-72; FREIRE, Américo. A República carioca. In: Uma capital para a República: Poder
federal e forças políticas locais no Rio de Janeiro na virada do século XX. Rio de Janeiro: Revan, 2000, pp. 155-186; PINTO, Surama
Conde Sá. As siglas da política carioca. In: Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, Rio de Janeiro, 2005, v. 429, pp.
143-170.
2
Também não será objeto de reflexão aqui a experiência dos partidos políticos operários. Serão apenas privilegiados os mecanismos
criados visando a conciliação interna por parte das figuras de proa da política carioca na Primeira República.
3
Retomo aqui algumas das considerações traçadas em trabalhos anteriores e agrego novos dados obtidos a partir do projeto
Partidos políticos, eleições e participação política na cidade do Rio de Janeiro na Primeira República, em desenvolvimento.
4
BERSTEIN, Serge. Os partidos políticos. In: REMOND, René. Por uma história política. 2. ed. Rio de Janeiro: Ed. FGV, 2003.
5
VENEU, Marcos Guedes, op. cit., pp. 46-47.
6
Para essa discussão ver: WITTER, José S. Partido Republicano Federal (1893-1897). São Paulo: Brasiliense, 1987; SOUZA, Maria
do Carmo Campello de. O Processo Político-Partidário na Primeira República. In: MOTA, Carlos G. (org.). Brasil em Perspectiva. Rio
de Janeiro: Bertrand Brasil, 1990, pp. 162-226.
7
CARVALHO, José Murilo de. Sistemas Eleitorais e Partidos do Império. In: LIMA JÚNIOR, Olavo Brasil de (org.). O Balanço do
Poder – Formas de Dominação e Representação. Rio de Janeiro: Rio Fundo Editora: IUPERJ, 1990, p. 34.
8
DINIZ, Eli. Crise Política, Eleições e Dinâmica Partidária no Brasil: um balanço histórico. In: Dados, Revista de Ciências Sociais, Rio
de Janeiro, v. 32, nº 3, 1989, p. 323.
9
LESSA, Renato. A invenção republicana: Campos Sales, as bases e a decadência da Primeira República Brasileira. São Paulo:
Vértice, 1988, p. 125.
10
Idem, ibid., p. 124.
11
Os fazendeiros paulistas compunham a base do PRP, partido formado ainda por banqueiros e comerciantes. Sobre essa discussão
ver: LOVE, Joseph. A locomotiva. São Paulo na federação brasileira (1889-1937). Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1982, p. 195. Ver
também: CASALECHI, José Ênio. O Partido Republicano Paulista. São Paulo: Brasiliense, 1987; e, ZIMMERMANN, Maria Emília
Marques. O PRP e os fazendeiros de café. São Paulo: Unicamp, 1987. (Dissertação de Mestrado).
12
Diferentemente do PRP, o PRM era dominado por advogados e profissionais liberais. Para uma análise do PRM ver: WIRTH, John. O
fiel da balança: Minas Gerais na federação brasileira. (1889-1937). Rio de Janeiro. Paz e Terra, 1975, p. 183. Ver também
RESENDE, Maria Efigênia. Formação da estrutura de dominação em Minas Gerais: o novo PRM (1889-1906). Belo Horizonte:
UFMG/PROED, 1982; e o artigo de Cláudia Viscardi que relativiza a tese da conciliação interna das elites políticas mineiras, segundo
a qual elas estariam reunidas em torno de um partido monoliticamente estruturado (o PRM): VISCARDI, Cláudia Maria Ribeiro.
Minas de dentro para fora. In: Locus, Revista de História. Juiz de Fora: EDUFJF, vol. 5, n.º 2, 1999.
13
BOERHRER, George. Da Monarquia à República: História do Partido Republicano do Brasil (1870-1889). Rio de Janeiro: MEC,
1954, pp. 67-72.
14
FERREIRA, Marieta de M. Fragmentação política e questão partidária. In: Em Busca da Idade do Ouro: As elites políticas
fluminenses na Primeira República (1889-1930). Rio de Janeiro: Ed. UFRJ,1994, pp. 117-138.
15
Para uma análise das diversas tendências políticas presentes no Rio de Janeiro no início da República, ver CARVALHO, José Murilo
de. “República e Cidadanias”. In: Dados, v. 28, n. 2, 1985, pp. 143-61.
16
Apesar da inexistência no Rio de uma organização partidária unificada, capaz de absorver novos membros e disputar eleições, não
se pode dizer que a corrente republicana da capital estivesse representada apenas pela cúpula do Governo Provisório. Parte do
esforço de propaganda dos anos anteriores foi dirigida à formação de clubes políticos republicanos que servissem de ligação entre o
partido e o eleitorado. Para se ter uma ideia, em fins de 1888 havia na cidade do Rio de Janeiro 16 clubes republicanos.
17
VENEU, Marcos Guedes, op. cit.
18
VENEU, Marcos Guedes, op. cit., p. 51.
19
VENEU, Marcos Guedes, op. cit., pp. 56-57.
20
Idem, Ibid., p. 59.
21
Idem, Ibid., p. 68.
22
FREIRE, Américo, op. cit., p. 159.
23
Ibidem, pp. 160-161.
24
Ibidem, p. 171.
25
Ibidem, p. 179.
26
Em pouco tempo de existência, contudo, o novo partido entraria em rota de colisão com o Governo Campos Sales, principal alvo
das críticas de Barata Ribeiro (chefe da agremiação) na tribuna do Senado. O PRDF se reergueria politicamente apenas com o
término da gestão do presidente paulista. FREIRE, op. cit., p. 180.
27
Esta cisão vem sendo creditada à provável anuência do chefe do partido à candidatura do republicano histórico Xavier da Silveira
em lugar de Augusto de Vasconcellos. ABRANCHES, Dunshee de. Como se faziam presidentes. Rio de Janeiro: José Olympio, 1973,
p. 297.
28
Ver PINTO, Surama Conde Sá. As siglas da política carioca. In: Só para iniciados. O jogo político na antiga capital Federal. Rio de
Janeiro: FAPERJ/MAUAD, 2011.
29
Ver CARVALHO, José Murilo de. Cidadãos inativos: a abstenção eleitoral. In: Os Bestializados: O Rio de Janeiro e a República que
não foi. São Paulo: Companhia das Letras, 1987, p.85.
30
CARVALHO, op. cit., pp. 86-87.
31
Anais da Câmara dos Deputados, 1917, vol. 5, p. 1073.
32
LOVE, J., op. cit., p. 181.
33
Juventinho e Arthur Mulatinho eram muito conhecidos e atuavam na Glória. Mulatinho era ligado ao deputado carioca Nicanor
Nascimento.
34
BARRETO, Afonso H. de Lima. Clara dos Anjos. 2. ed. São Paulo: Brasiliense, 1961.
35
Era muito comum a legislação eleitoral tipificar delitos sem lhes atribuir pena específica, o que inviabilizava sua aplicação. BASTOS,
Aurélio Wander. O Poder e as Leis: A dominação eleitoral na Primeira República. In: LIMA Jr., Olavo Brasil de. O Balanço do Poder:
Formas de Dominação e representação. Rio de Janeiro: IUPERJ, 1990, p. 45.
36
LEVINE, op. cit., p. 148.
37
O objetivo da violência eleitoral era lançar dúvidas sobre a legitimidade das eleições, abrindo espaço para os protestos formais que,
uma vez avaliados pela comissão de verificação de poderes, em alguns casos acabavam por impugnar os resultados em
determinados distritos. Ver: VENEU, M. G., op. cit., p. 61.
38
Discurso do deputado fluminense Maurício de Lacerda, proferido por ocasião dos debates em torno do reconhecimento dos
deputados da representação do Distrito Federal no pleito de 1915, Anais da Câmara dos Deputados, 1915, vol. VI, p. 505. No
mesmo volume, ver denúncia do deputado da representação carioca Octacílio Camará de que o reconhecimento dos
representantes do Distrito Federal servia de terreno para combinações sobre a política dos estados e da existência de irregularidades
no processo de apuração das atas eleitorais, p. 273.
39
Um exemplo claro disso é a carta do senador José Murtinho solicitando a Frontin, então prefeito do Distrito Federal, uma
colocação para um protegido na reforma da Prefeitura. O senador justifica o seu pedido com base no fato do pretendente ser
militante do partido e correligionário do prefeito. Arquivo Paulo de Frontin, lata 18, documento 66.
40
Carta de Augusto Moreira Zebral a Paulo de Frontin, datada de 15 de fevereiro de 1921. Arquivo Paulo de Frontin, lata 19,
documento 16.
41
CARVALHO, José Murilo de. Os três povos da República. In: CARVALHO, Maria Alice Resende de (org.). República no Catete. Rio
de Janeiro: Museu da República, 1991, p. 75.
42
Muitas denúncias a este respeito foram feitas na tribuna da Câmara por adversários de Vasconcellos e Pinheiro Machado. Ver Anais
da Câmara dos Deputados, ano 1913, volume XII, pp. 200-208. Ver também discurso de Irineu Machado sobre o processo-crime
que absolveu, graças à intervenção de Pinheiro Machado, o sobrinho do general gaúcho no atentado a Edmundo Bittencourt,
editor-chefe do Correio da Manhã. Anais da Câmara dos Deputados, 1914, vol. VI, pp. 231-237. Nele, Irineu chama o intendente
Zoroastro Cunha de relho do senador.
43
A ascendência de Pinheiro Machado em relação à política carioca continuaria na gestão do Prefeito Rivadávia Corrêa, embora com
menor intensidade devido ao término da Presidência de Hermes da Fonseca e à eleição de Wenceslau Brás. Ainda assim, entre
novembro de 1910 e maio de 1916 a Prefeitura carioca esteve mais diretamente sob a influência dos gaúchos.
44
Anais da Câmara dos Deputados, 1914, vol. XII, p. 838/9.
45
Anais da Câmara dos Deputados, 1921, vol. XVII, p. 334.
46
O Partido Republicano Liberal foi criado em plena conjuntura de articulações em torno da sucessão de Hermes por elementos
políticos ligados a Rui Barbosa. Dentre os membros das elites políticas cariocas que faziam parte desta organização estavam Irineu
Machado e Barbosa Lima.
47
Anais da Câmara dos Deputados, 1914, vol. II, p. 498.
48
Anais da Câmara dos Deputados, 1914, vol. II, p. 509.
49
Ibidem.
50
Anais da Câmara dos Deputados, vol. II, 1914, p. 585. Ver também as denúncias de Bethencout da Silva Filho sobre manobras
políticas ilegais de intendentes do PRDF. Anais da Câmara dos Deputados, 1909, vol. 9, p. 4.
51
A Lei nº 1.619, de 31 de dezembro de 1906, elevou de 10 (conforme estipulara o Dispositivo nº 936, de 29 de dezembro de 1902)
para 16 o número de intendentes do Conselho Municipal. Esta lei determinou ainda que o Legislativo local só poderia funcionar
quando tivesse 11 dos seus 16 membros reconhecidos.
52
Sobre denúncias da intromissão de Pinheiro Machado em assuntos da cidade do Rio, ver Anais do Senado, sessão de 15 de abril de
1910, p. 29.
53
O partido já havia perdido Barata Ribeiro, falecido na cidade do Rio em 10/02/1910. Nos anos seguintes às mortes de Pinheiro
Machado e Vasconcellos, importantes políticos da cidade, como Thomás Delphno e Sá Freire, que fora figura ativa no processo de
reorganização do PRDF em 1906, já declinavam suas indicações nas chapas do partido. Ver cartas enviadas a Paulo de Frontin.
Arquivo Paulo de Frontin, lata 17 documentos 113 e 114.
54
Para se ter uma ideia da ascendência de Paulo de Frontin sobre a política da cidade após as mortes de Vasconcellos e Pinheiro
Machado, ver carta de José Carlos de Carvalho, editor chefe da Revista Brazil Ferro Carril e ex-deputado das bancadas carioca e do
Rio Grande do Sul. Na missiva, Carlos de Carvalho consulta o engenheiro carioca sobre a possibilidade da indicação de seu nome no
pleito de março de 1918. Arquivo Paulo de Frontin, lata 18, documento 35.
55
Em 1909 Paulo de Frontin já fazia parte da Comissão Executiva do PRDF.
56
A iniciativa da AR foi bem acolhida, conforme mostra carta de maio de 1919, enviada à Comissão Executiva do partido pelo
Directório Político das Classes Conservadoras, leia-se diretório central do comércio e da indústria do Rio de Janeiro, indicando os
nomes de Augusto Alves e Antenor Moreira Dutra para seus representantes junto ao partido. Arquivo Paulo de Frontin, lata 18,
documento 61.
57
Ver Arquivo Paulo de Frontin, lata 36, documento 44.
58
PINTO, Surama Conde Sá. Um saco de gatos? A bancada carioca no Congresso. In: Só para iniciados...
59
Ver carta particular de Francisco B. da Silva Filho a Frontin, datada de 18/04/1918. Arquivo Paulo de Frontin, lata 18, documento
41.
60
No que diz respeito aos procedimentos na hora de composição das chapas, na cidade verificava-se o mesmo observado nos
Estados no período. As lideranças políticas, depois de reunião em geral realizada no Derby Club, uma espécie de QG da Aliança
Republicana, indicavam o nome dos candidatos que apoiavam em circular publicada na imprensa. No caso da AR, muitas vezes o
autor destas circulares foi Octacílio Camará. Arquivo Paulo de Frontin, lata 5, documento 30.
61
A adoção do conceito de clientelismo, em vez do conceito de coronelismo, aqui segue a orientação proposta por CARVALHO,
José Murilo de. “Mandonismo, coronelismo, clientelismo: Uma discussão conceitual”. In: Dados, Revista de Ciências Sociais, Rio de
Janeiro, v. 40, n. 2, 1997, pp. 229-250.
62
Ver cartas de Salles Filho e de Nicanor Nascimento enviadas a Paulo de Frontin em 1917. Arquivo Paulo de Frontin, lata 8,
documentos 29 e 80.
63
VENEU, op. cit., p. 67.
64
Ver Arquivo Paulo de Frontin, latas 35 e 28, documentos 16 e 41, respectivamente.
65
PINTO, Surama Conde Sá. A Correspondência de Nilo Peçanha e a Dinâmica Política na Primeira República. Rio de Janeiro:
Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro, 1998, cap. 3.
66
GRAHAM, Richard. Clientelismo e política no Brasil no século XIX. Rio de Janeiro: Ed. UFRJ, 1997, p. 204.
67
Idem, p. 219.
68
Arquivo Paulo de Frontin, lata 36, documento 25, p. 6.
69
Ibidem.
70
Jornal O Globo, edição de 22 de agosto de 1931.
71
Arquivo Paulo de Frontin, lata 36, documento 45. Ver também lata 38, documento 55.
72
A frente defendeu providências contra o açambarcamento dos gêneros de primeira necessidade, para a melhoria das condições de
vida no país e principalmente na Capital Federal, o saneamento e intenso incremento da agricultura e da indústria pastoril na zona
rural do Distrito Federal, além da construção de casas com aluguel módico para as classes menos favorecidas.
73
O Partido Democrático do Distrito Federal foi fundado em 17 de maio, numa pequena sala da tradicional Praça Tiradentes, no
centro do Rio. Seu aparecimento deve ser entendido dentro de um contexto mais amplo, marcado pela demanda dos setores
médios urbanos emergentes por uma maior participação no processo eleitoral e pelas críticas às práticas que davam forma ao
sistema político vigente. Diferentemente do PRDF ou da AR, a recém-criada organização nunca teve a pretensão de ser um eixo
ordenador da complexa política do Distrito tampouco objetivou organizar as tradicionais chefias políticas da cidade. Sua luta se
firmou contra as práticas políticas tradicionais, um objetivo, aliás, comum ao seu congênere paulista e ao Nacional, ambos criados
no ano anterior, que tinham à frente respectivamente Antônio Prado (pai do prefeito da cidade do Rio no período – Prado Jr.) e
Assis Brasil. O programa do partido foi apresentado em 7 de setembro do mesmo ano. No documento, a bandeira do voto secreto
foi levantada, assim como a da representação das minorias. A nova organização mostrou grande preocupação com a questão social
e com outros temas ligados à política nacional. A problemática da autonomia do Distrito Federal, contudo, não foi objeto de
maiores considerações. O seu programa foi publicado na íntegra na edição de 08/09/1927, p. 2, do Correio da Manhã.
74
De acordo com Thaís Silva a AR, o PD do DF e o BO são importantes eixos na política partidária carioca nos anos de 1920. Ver da
autora: SILVA, Thaís Lopes. Entre a ação legislativa e o constrangimento político: o Conselho Municipal do Distrito Federal (1921-
1930). Rio de Janeiro: FGV, 2013, p. 59. (Dissertação de Mestrado). Para uma análise do desempenho do Bloco Operário na política
carioca ver KAREPOVS, Dainis. A classe operária vai ao Parlamento: o Bloco Operário Camponês do Brasil (1924-1930). São Paulo:
Alameda, 2006.
IMAGEM E POLÍTICA NA PRIMEIRA REPÚBLICA
ANDRÉA CASA NOVA MAIA
PEDRO KRAUSE RIBEIRO

O presente trabalho, por imperfeito que seja e lacunoso, trará algum subsídio para a facilitação do juízo sobre a
conveniência ou a inconveniência da leitura das atuais revistas caricatas; e isso, não o nego, foi um dos motivos que me
fizeram estudar o assunto.

E agora, portas abertas: ao caso1.

A epígrafe de nosso capítulo cita um trecho do texto introdutório que frei Pedro Sinzig escreveu
para A Caricatura na Imprensa Brasileira, de 1911, considerado o primeiro estudo sistematizado sobre
o humor gráfico no Brasil2. Sinzig justifica seu empreendimento afirmando que seria importante um
sacerdote escrever não só sobre o fenômeno social da caricatura, como sobre todos os assuntos
históricos e sociais. No seu caso, apesar de aparentemente prender-se às caricaturas, era feita uma
análise muito mais ampla sobre as revistas ilustradas como um todo. A conclusão dos estudos do frei
indicaria a necessidade da produção de uma revista ilustrada católica
Este livro faz parte de um contexto maior na obra do Frei Sinzig que veio da Alemanha para o Brasil
em 1893. Depois de passar por Salvador e por Santa Catarina, Sinzig foi transferido para a cidade de
Petrópolis (1908), designado a cuidar da Tipografia da Escola Gratuita de São José e ser redator da
Revista Vozes de Petrópolis. No entanto, foi além, tornando-se diretor da Editora Vozes entre 1908 e
1913, produzindo inúmeras revistas e livros voltados para a difusão da religião católica3. Assim, como
editor e pesquisador, Sinzig passou a escrever sobre inúmeras práticas sociais, como a música popular,
os romances e as caricaturas4. Em um mundo em transformação, com novos e eficazes meios de
comunicação, a visão moral-religiosa das novas práticas sociais que surgiam era uma missão para o
frei.
Tamanho papel religioso explica o tempo dedicado pelo autor à análise das caricaturas e do que ele
categoriza como “revistas caricatas” do período. Essas publicações tinham grande importância na
virada do século XIX para o XX, época em que a imprensa passava por amplas mudanças tecnológicas,
procurando alcançar o maior público leitor possível, garantindo assinaturas e publicidades, no que é
conhecido como “imprensa empresarial”5. As caricaturas serviam, muitas vezes, como mecanismo
atrativo desse público, principalmente pela crítica social e de costumes nelas presentes. Como
afirmava o próprio Sinzig: “a política costuma ser o tema predileto dos caricaturistas”6.
Uma imprensa em transformação, com um produto específico que são as revistas ilustradas, explica
e justifica nossa epígrafe, ou o que Sinzig chama de seu “caso”. Excluindo a ótica moral-religiosa, o
capítulo que ora se apresenta irá analisar as caricaturas, embora saibamos que um outro recurso visual
importante das publicações eram as fotografias. No entanto, pensar sobre as relações entre imagem e
política no início da República brasileira é tarefa árdua que não se resume a tratar da representação de
políticos nas charges das revistas, embora só este tema por si só seja de extrema relevância e quase
não seja possível abarcá-lo no escopo de um simples capítulo.
É nesse sentido que nos propomos a analisar neste texto alguns temas e imagens presentes nas
revistas ilustradas de modo a dar conta minimamente da complexa relação entre imagem e política.
Aqui o conceito de política é alargado para além das fronteiras do Estado e dos políticos, conforme nos
ensina Hannah Arendt ao dizer que:
A ação, única atividade que se exerce diretamente entre os homens sem a mediação das coisas ou da matéria,
corresponde à condição humana da pluralidade, ao fato de que os homens, e não o homem vive na terra e habitam o
mundo. Todos os aspectos da vida humana têm relação com a política; mas esta pluralidade é especificamente a
condição – não apenas a conditio sine qua non, mas a conditio per quam – de toda vida política7. (Grifo nosso)

Portanto, procuramos pensar a política no âmbito das relações sociais no espaço público,
incorporando as lutas cotidianas vivenciadas pela sociedade brasileira, dando ênfase, por exemplo, às
mudanças ocorridas na paisagem urbana. Trata-se aqui de problematizar imagens que narram
histórias de sujeitos, reais ou fictícios, que experienciaram os embates travados nas ruas, nas praças
públicas e não somente na Câmara e no Senado.
Deste modo, inspirados por Sinzig, dividiremos esta breve reflexão nos mesmos subitens dos
capítulos 2 e 3, respectivamente, “Política” e “Administração”, de seu livro. Antes, porém, é necessário
fazermos rápida incursão pela historiografia que já tratou do tema, no sentido de apresentar o nível de
consolidação do campo de pesquisa e apontar para novas abordagens trazidas pelas novas
contribuições dos mais recentes pesquisadores da área.
HISTORIOGRAFIA
Durante alguns anos os estudos relativos à caricatura na história brasileira ora ficavam restritos a
pequenos textos memorialísticos e analíticos – como o do próprio frei Pedro Sinzig e os escritos
clássicos feitos Gonzaga Duque, publicados em Contemporâneos8 – ora restrito a coletâneas, como os
organizados por Herman Lima e Alvarus Cotrim. A caricatura e a charge eram estudadas basicamente
por amantes da arte e homens de imprensa. São trabalhos editorialmente muito bem feitos e que nos
servem de base biográfica e bibliográfica, além de fontes de onde podemos retirar diversas imagens
fac-similadas. Em termos temáticos são catálogos de grandes caricaturistas, como José Carlos de Brito
e Cunha, ou de Benedito Carneiro Bastos Barreto, o Belmonte; ou ainda coleções de charges sobre
determinada figura política, como Rui Barbosa e Oswaldo Cruz9.
No entanto, a charge e a caricatura ganhariam novas abordagens em consonância com toda a
transformação que ocorria no campo da história das imagens e da cultura visual10. Seria impossível
citar todos os autores, porém foram pioneiros os estudos de Isabel Lustosa, Mônica Pimenta Velloso,
Luiz Guilherme Sodré Teixeira e Marco Antonio da Silva. Dos quatro autores citados, três (Teixeira,
Lustosa e Velloso) fazem parte do corpo de pesquisadores da Fundação Casa de Rui Barbosa (FCRB),
que se tornou, por isso, a grande difusora dos estudos de caricatura no Brasil. O setor de história da
Fundação é núcleo de importantes projetos, como foi “O texto e o traço”, organizado por Isabel
Lustosa. Além disso, a instituição também promove inúmeros debates, exposições e seminários sobre
o assunto, formando em seus programas de Iniciação Científica novos estudantes do campo. Tal
posicionamento da Casa Rui é facilitado pela existência da coleção Plínio Doyle que compõe umas das
maiores coleções de periódicos ilustrados do Brasil.
Um dos principais trabalhos de Luiz Guilherme Sodré Teixeira é o livro Sentidos do humor, trapaças
da razão: a charge11. Apesar de privilegiar a charge, o autor analisa os três gêneros de humor gráfico: a
charge, a caricatura e o cartum. E elabora ao final de sua pesquisa um importante diagrama que
estabelece a relação entre esses gêneros e o real. Para o autor, a charge não registra o real, mas o
significa, sendo um documento atípico, pois produz certa “verdade” através de personagens que
carecem da “veracidade”. Em sua visão, a charge é uma linguagem crítica, partindo do “real” para criar
um mundo “fictício”. Já os “sujeitos” retratados são “reais”, mas que se tornam “personagens”.
Isabel Lustosa tem inúmeras publicações sobre caricatura, sendo a mais famosa o livro História de
presidentes: a república no Catete, lançado em 1989 durante as comemorações do centenário da
Proclamação da República12. Tratando sobre o anedotário, charges e músicas carnavalescas, Lustosa
inovou ao mostrar uma trajetória incomum dos presidentes da República e construiu uma importante
reflexão sobre a versão humorística da realidade nacional, inserindo na arena política atores que antes
eram desvalorizados pela academia. No entanto, História de presidentes não é a única obra da autora
sobre o assunto do humor.
De fato, desde seu mestrado Lustosa constrói seus objetos observando a sátira e o humor
relacionado à política. Em Brasil pelo método confuso: humor e boemia em Mendes Fradique, publicado
em 1993, a autora produziu uma biografia do médico José Madeira de Freitas, que escreveu textos
humorísticos com o pseudônimo Mendes Fradique13. Lustosa o situa na contradição de um intelectual
influenciado pela boemia literária, somado a um conservadorismo católico e avesso ao modernismo de
São Paulo. Ainda assim, na sua obra, principalmente na humorística, podem ser encontrados traços da
estética e das temáticas modernistas14.
O que é importante ressaltar, como um dado historiográfico relevante aos estudos de caricatura no
Brasil, é que Lustosa, ao trabalhar a faceta humorística de Fradique, valoriza a experiência moderna
desse grupo boêmio no desenvolvimento de versões humorísticas para a realidade brasileira. Além
disso, dedica um capítulo especial à caricatura como um dos suportes utilizados por essa
intelectualidade boêmia. Em um dos capítulos da obra, Lustosa mapeia a caricatura desde o século XIX
até o início do século XX, destacando a figura de Julião Machado como uma das mais importantes para
a transformação dessa arte no país.
Os desdobramentos das pesquisas de Lustosa sobre o humor podem ser vistos em inúmeros artigos
da autora, como “Negro humor” e “O português da anedota”. No primeiro texto, com relação à
representação dos negros nas caricaturas do início do século XX, a autora argumenta que existia certa
visão preconceituosa sobre o negro, tanto no que se refere à marca da cor quanto no uso incorreto da
língua nacional15. Já no último, escrito com a parceria de Robertha Triches, há a problematização da
representação do português nas revistas ilustradas do início do século XX, perpassando a imagem do
português durante o Império e alçando o contexto do antilusitanismo da República. A invenção do
“Manuel da venda” – sovina, corrupto e bronco – passava, segundo as autoras, por uma construção
estereotipada do português e por uma identidade por alteridade com o “ser brasileiro”. Portanto, tal
estereótipo é explicado por questões políticas e sociais, que podem ser pontuadas cronologicamente16.
Por fim, outra importante autora da FCRB é Mônica Velloso, que tem uma ampla produção de livros
e artigos, como o recente História & Modernismo, publicado em 2010 pela editora Autêntica17. Porém,
ainda é referência obrigatória o seu livro Modernismo no Rio de Janeiro: turunas e quixotes. A
explicação mais completa da autora sobre os intelectuais do Rio de Janeiro da virada dos séculos XIX
para o XX encontra-se no próprio subtítulo do seu livro. Para ela, esses intelectuais misturaram um
pouco de “turunas”, ou seja, a irreverência, o humor e a boemia do malandro, do marginal da
sociedade, com traços de “quixote”, logo, de Dom Quixote, de um idealista, de um sonhador, mas de
alguém que procura se destacar do conjunto da sociedade dispondo-se a construir uma outra ordem.
Segundo Velloso, figuras contrastantes entre si, mas que tinham em comum o fato de se imporem
socialmente pelo seu caráter outsider18.
Mônica Velloso tem um capítulo específico sobre a caricatura, intitulado “A caricatura como um dos
‘sinais’ da história”, em que relaciona caricatura e modernidade, principalmente a uma estética da
visualidade simbolista nos traços de Calixto Cordeiro (KLixto), de Raul Pederneiras (Raul) e de
J. Carlos. Segundo a autora, as demandas da sociedade moderna contribuíram para que a caricatura se
desenvolvesse e se tornasse um dos símbolos da rápida e ágil comunicação. Os caricaturistas,
observadores da cidade, conseguiriam dialogar com todas as inovações que surgiram, como a
fotografia e o cinema, experimentando sensitivamente as transformações que se observava, mudando
seu traço, dentro da visão mais imediata e utilitária da comunicação19.
Outra importante obra que relaciona a produção dos caricaturistas com o moderno é a dissertação
de Ana Maria de Moraes Belluzo, Voltolino e as raízes do modernismo, defendida na Escola de
Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo e publicada pela editora Marco Zero, em 199120.
No trabalho a autora analisa os desenhos de Lemmo Lemmi, o Voltolino, na imprensa paulista das duas
primeiras décadas do século XX. Experimentando o espaço das ruas do centro e dos bairros proletários
de São Paulo, Voltolino retratava as modificações espaciais e sociais que a São Paulo urbana e
industrializada passava naquele momento.
Geralmente citando os trabalhos de Isabel Lustosa, de Mônica Velloso e de Ana Maria Belluzo, a
temática da reelaboração de sentido do moderno através da caricatura acabou se tornando um ponto
fundamental para os novos estudos sobre a caricatura na Primeira República. De fato, hoje há um
campo consolidado sobre o assunto, ainda que de difícil demarcação acadêmica, pois não há um único
núcleo ou centro de pesquisas sobre o tema, que transita entre a Linguística, a História da Arte e a
História Social e Política. De qualquer forma, inserido em um contexto historiográfico mais amplo, de
crítica à apresentação dos intelectuais de 1922 enquanto vanguarda do modernismo, estas obras são
importantes referências sobre a história dos caricaturistas da Primeira República brasileira.
Já sobre o papel político das charges e das caricaturas, de forma geral, há na bibliografia a visão de
que os caricaturistas da Primeira República produziam seus trabalhos seguindo a tônica da
continuidade do sentimento de “desilusão republicana”. A ideia é a de que, em um plano geral, esses
intelectuais ao comporem a boemia intelectual afastavam-se, em parte, dos temas políticos e do poder.
A política formal só restaria a oposição e a crítica, uma vez que as charges demonstram a ausência de
sentido da República. Tal visão é construída por inúmeros autores, mas destacaremos dois: Marco
Antonio da Silva, com seu clássico Caricata república: Zé Povo e o Brasil; e Elias Thomé Saliba, com o
livro Raízes do Riso21.
O trabalho de Marco Antonio da Silva é uma versão modificada da sua dissertação de mestrado e
coloca o Zé Povo como um possível articulador entre personagem e leitores, pois na visão crítica do
personagem estaria sua articulação com a vida social brasileira, com a república que se pretendia e que
não se concretizou (a “caricata república”). O Zé Povo é, nesse sentido, um representante do povo
brasileiro na Primeira República, tão excluído quanto o cidadão do período. Já Elias Thomé Saliba
trouxe um importante debate sobre os humoristas da Primeira República com o citado trabalho, que é
fruto de sua tese de livre-docência, obtida em 2000 também pela USP.
O autor consolida o campo ao analisar as redes de sociabilidade e da identidade desses humoristas,
destacando que esse grupo almejava cultivar a boemia e o humor. Seguindo as análises de Nicolau
Sevecenko22, afirma-se que na virada do século XIX para o XX já estavam mais ou menos definidos os
grupos de intelectuais dos “vencedores” e dos “derrotados”, e esse grupo boêmio, como “derrotado”,
seria aquele que explicaria a realidade brasileira a partir da ótica do humor, uma arma de crítica
transgressora. Para embasar seu argumento, o autor relaciona diretamente a produção desses
humoristas da Belle Époque com as produções de Bérgson (1899), Freud (1905) e Pirandello (1908)
sobre o riso e humor23.
Para Saliba, o humorismo dessa geração brasileira era uma forma de representação e expressão da
realidade, como um espaço de transgressão, que desmascarava esse real, captando o indizível e
mostrando o ilusório dos gestos estáveis e naturalizados. Seria o intuito de inserir o Brasil na Belle
Époque, só que em um país em que tal realidade só poderia ser descrita na ausência de sentido.
[...] Amálgama de temporalidades, projeção do passado no futuro, deslocamento de significados da vida e da história.
Assim, do ponto de vista dos atores históricos, e do limiar dos seus destinos na história do país, era difícil pensar numa
representação da sociedade brasileira, que não fosse pela via da constatação da ausência de sentido ou da recriação de
sentido – que sempre foram as características intrínsecas de uma representação cômica ou humorística do mundo e da
vida24.

Na visão do autor, o grupo que sucede a geração da “desilusão republicana” jamais apoiou o novo
regime, mantendo a tônica da desilusão. Nesse momento, autores como J. Carlos, KLixto e Raul
continuariam fazendo humorismo desiludido, mesmo quando o tema da desilusão se esgotou, e
quando muitos “vencedores” abandonaram a produção cômica. Além disso, a “missão” de suas obras
seria truncada pela própria carreira, o que fez com que eles se voltassem mais para dentro de si
mesmos, virando “mosqueteiros da sátira”, ou “Dom Quixotes da comédia”.
Nesse ponto é que podemos propor uma reflexão sobre a produção política dos caricaturistas da
Primeira República, pois em meio a uma imprensa efêmera, que produz com rapidez e sobre assuntos
que se modificam a cada dia, estariam os caricaturistas sempre contrários ao poder? Não é possível
reduzir a participação política dos caricaturistas somente à ausência de sentido da Primeira República,
ainda que a temática da desilusão esteja presente em suas obras. É necessária também a observação
das ações e opiniões políticas dos caricaturistas dentro de contextos variados, inclusive em momentos
de apoio ao regime, ou na defesa de determinados grupos políticos, aprofundando a observação de
Marcos Antônio da Silva de que em alguns momentos há “pontos de encontro” entre o personagem Zé
Povo e o poder25.
Já há novos estudos que indicam isso. Um exemplo é a dissertação de Guilherme Mendes Tenório,
que utiliza O Malho como um possível espaço de participação política. Segundo o autor, “[...] o Zé
Povo d’O Malho pode ser tachado como o porta-voz da cidadania republicana [...]”26. Para Tenório, a
República não era caricata e o povo, ou melhor, o Zé Povo era cidadão. Talvez o personagem não seja o
melhor termômetro sobre a questão da cidadania na Primeira República. Mais interessante pode ser
analisar como os caricaturistas desse momento se apropriaram de um personagem criado pelo
caricaturista português Rafael Bordalo Pinheiro, em 1875, para atuarem politicamente na Primeira
República.
Nesse sentido, o Zé Povo não é um personagem unívoco, mas plural. É o Zé Povo do KLixto, o Zé
Povo do Raul, o Zé Povo do J. Carlos. Portanto, poderíamos falar em “Zés Povo”27. Ainda assim, a
noção de que O Malho é uma das arenas de intervenção nos debates públicos é interessante e
demonstra como as charges também são instrumentos de ação política. As caricaturas podem se
mostrar menos um indício das ausências, e mais a opinião do caricaturista, a sua visão sobre as
autoridades e as suas representações sobre a cidade e seus habitantes. Um olhar plural dos
caricaturistas pode apontar, por exemplo, para visões diferentes sobre a classe trabalhadora na
Primeira República, como se observa nos primeiros resultados do projeto de pesquisa: “O mundo do
trabalho nas páginas das revistas ilustradas da primeira República”. As experiências e culturas distintas
destes artistas construíram uma visão heterogênea desta classe, que ainda estava em formação no
Brasil do início do século XX28.
Independentemente de estarem mais próximos ou mais distantes do poder, dialogando com ele ou
não, há de se pensar que o uso das charges como uma evidência da história deve levar em conta essas
múltiplas visões sobre o político. Seja no ambiente das ruas ou tratando sobre os rumos da Câmara e
do Senado, a opinião política dos caricaturistas era tão volátil quanto a efemeridade dos fatos. Sendo
assim, o olhar dos artistas às questões sociais e políticas também variava dependendo da situação.
E, em algumas circunstâncias, caso da Campanha Civilista de 191029, as opiniões divergentes dos
caricaturistas podem colocá-los em posicionamentos políticos diferentes30. Ainda assim, um ponto é
fundamental, esses atores sociais estão observando a política em seu quotidiano e agindo
politicamente.
Por isso, abordaremos duas visões possíveis dos caricaturistas em sua atuação política na Primeira
República: primeiro, tratando de um caso específico no qual os caricaturistas da revista O Malho
causaram um atrito dentro da Câmara, participando diretamente da aprovação da candidatura do
deputado federal Felisbelo Freire ocorrida no ano de 1910. Um momento em que se pode refletir sobre
a importância da charge para o campo político, não só sua visão crítica, mas sua atuação direta.
Depois, seguindo a tônica da crítica, elemento fundamental do gênero charge, nos propomos a
analisar a visão que os desenhistas tiveram das inundações da cidade do Rio de Janeiro no início do
século XX, questionando, com sua verve satírica, as transformações urbanas que ocorriam na cidade.
Tal fato ajudou a colocar em questão o discurso do progresso e da civilização, mostrando a
contradição entre uma urbe que se pretendia moderna e uma realidade contraditória, em que a
população era constantemente vítima de catástrofes urbanas, onde a chuva, parte da natureza,
tornava-se um problema social, quando, virava enchente ao se deparar com um espaço urbano que
tendia a desconsiderá-la, pois seus administradores pensavam que, através da Ciência e da Técnica,
poderiam dominá-la. Nesse caso, independente da classe social, as enchentes que assolavam a cidade
do Rio de Janeiro – principalmente em janeiro e fevereiro – causavam transtornos para todos, mas com
mais intensidade para os mais pobres.
POLÍTICA
Pedro Sinzig divide seu texto sobre Política em vários itens, tais como “Chefe da Nação e Ministros”,
“Eleições”, “Senado e Câmara”, “Estados da União – Revoltas”, “Política do exterior”, “Finanças –
Impostos – Comércio – Indústria”. No entanto, a fim de dar conta de novos aspectos ainda não
esgotados pela historiografia citada, optamos por ficar com um item: “Senado e Câmara”, para
tratarmos unicamente de um caso de reconhecimento eleitoral de Felisbelo Freire, que envolveu
diretamente a imprensa ilustrada e a Câmara e traduz uma nova abordagem sobre a atuação política
dos chargistas da Primeira República, para além da visão derrisória da realidade, ou seja, da República
que não foi.
O caso Felisbelo Freire ocorreu no ano de 1910, relacionado diretamente com a Comissão de
Verificação de Poderes da Câmara dos Deputados31. Em setembro deste ano, o deputado, eleito por
Sergipe, ainda não havia recebido o “reconhecimento” do Congresso. Felisbelo Freire, que era
colaborador de A Tribuna, propriedade do senador Antônio Azeredo, também proprietário de O
Malho, recebeu amplo apoio da revista ilustrada, que dedicou praticamente toda a edição de 3 de
setembro de 1910 para criticar a morosidade dos membros da Câmara em reconhecê-lo. Além de
criticar a falta de quorum para as reuniões de verificação de poderes, a capa da revista – assinada por
J.R. Lobão – apresentou o desenho dos deputados faltosos. Na charge observa-se o Zé Povo
carregando as cabeças desses deputados, colocando-os como “grandes malandros, com grifo ou sem
ele”, e que naquele momento o Zé Povo conseguia se vingar, mostrando-os (Imagem 1).

IMAGEM 1 – J.R. LOBÃO. O Malho, 3 de setembro de 1910, n. 416. (FCRB)


No interior da revista foi publicada uma outra charge, intitulada “Lesmas perniciosas”, de autoria de
Alfredo Storni, na qual o deputado José Joaquim Seabra literalmente “varria” da Câmara o presidente
da Casa, o deputado por Minas Gerais, Sabino Barroso, que aparece como uma lesma que carrega as
seguintes características em seu casco: “incapacidade, impotência e inatividade”. O chargista, através
do personagem Zé Povo, afirmou que Seabra, que era o líder da maioria, deveria varrer logo aquela
“lesma” de sua cadeira, se não o faria Zé Povo (Imagem 2).
IMAGEM 2 – STORNI. O Malho, 3 de setembro de 1910, n. 416. (FCRB)
Essa é a charge que causa o grande problema na Câmara dos Deputados. Com ela observaremos que
os caricaturistas intervêm diretamente no campo político. Na sessão do dia 5 de novembro de 1910, o
retratado J.J. Seabra pede a palavra ao presidente da Câmara dos Deputados que, no momento, era o
2º vice-presidente, o deputado Torquato Moreira. Em seu discurso Seabra reforçou o apoio a Sabino
Barroso, propondo um aperto de mãos entre os deputados da maioria e o presidente interino,
representando simbolicamente Sabino Barroso32.
Depois, pediu a palavra o deputado Barbosa Lima, líder da minoria, que também repudiou a
caricatura, considerando-a uma manobra política – principalmente de Pinheiro Machado, chamado de
“galhardo general dos pampas, o super-homem da atualidade política” –, e que estaria insatisfeita com
os rumos da Câmara, tencionando mostrar o seu poder derrubando o presidente da Câmara33. Para
Barbosa Lima o prestígio de Pinheiro Machado estava a perigo, e, por isso, ele teria articulado em
periódicos aliados notícias que desestabilizassem o poder de Sabino Barroso. Sobre as caricaturas, em
especial a que “varria” o presidente, afirmava o político:
Devem ser responsáveis os próceres da política de quem são íntimos os autores do desenho insultoso que, no sábado,
feriu o honrado Presidente da Câmara a quem todos nós cercamos de estima.

O que sentimos é o lápis daquela caricatura traçá-la próximo do salão Silva Jardim: o que sentimos é que aquele lápis não
é um crayon: é um alvião, uma picareta, que serviu de arma de um plano partidário. O que se pretendeu foi que esse
plano tivesse por fim ferir os brios e a dignidade do integro Sr. Sabino Barroso, que como homem de melindres deixaria
aquela cadeira, sendo nela içado quem fosse capaz de decretar o estado de sítio para o Regimento34.

Não há como comprovar a conspiração política denunciada por Barbosa Lima. Aliás, em outro polo
de análise, o jornal O Paiz afirmava que a charge em questão foi benéfica para os civilistas, que
tentavam se aproveitar da desarmonia da maioria da Câmara35. Em suma, eram ecos da campanha
eleitoral de 1910, nos desdobramentos dos rearranjos oligárquicos que configuraram essa eleição. De
qualquer maneira Barbosa Lima levantou um grande problema para O Malho e para Antônio Azeredo.
Para a revista, sobre a questão da parcialidade/imparcialidade frente ao poder e aos poderosos, e para
Azeredo, pelo fato de ter sido apontado como proprietário do empreendimento.
Com relação a Antônio Azeredo, no mesmo dia 5 de setembro de 1910 ele se pronunciou no Senado.
Primeiro defendeu-se e também ao jornal A Tribuna, afirmando que esse era o único órgão dirigido por
ele. Depois passou a tratar de O Malho, criticando as caricaturas. Todo o discurso de Antônio Azeredo
procura isentá-lo daquela publicação ilustrada, afirmando que por contrato não poderia interferir na
direção de O Malho. Para Azeredo, o fato de Felisbelo Freire esperar o reconhecimento poderia:
[...] ter concorrido para que o Malho, reproduzindo as impressões de seus desenhistas, registrasse o acontecimento por
uma falsa apreciação, injustíssima, como foi em relação ao honrado Presidente da Câmara dos Deputados36.

Portanto, Azeredo desloca as acusações da Câmara para os desenhistas, que estariam cobrando a
demora no reconhecimento de Felisbelo como uma causa própria. Assim termina seu discurso:
O Malho é um jornal ilustrado, independente, órgão verdadeiramente popular, faz o que entende e a isto deve ele o seu
engrandecimento.

Não fora o modo de encarar as questões, gravando os assuntos de ordem política e sustentando campanhas como as
das duas últimas eleições presidenciais, certamente o Malho não teria atingido o grau de prosperidade em que se
encontra. E a prova temos na sua enorme tiragem de 50.000 exemplares, que pode ser verificada por quem quiser fazê-
lo, porque as suas máquinas registram o número de impressões.

Dadas estas explicações e renovando os meus protestos de solidariedade política com o ilustre Presidente da Câmara
dos Deputados, creio ter cumprido o meu dever37.

E se as caricaturas foram os principais alvos de crítica do Congresso Nacional, os caricaturistas


também responderiam ao Congresso através de desenhos. Em “O Malho na Berlinda” (Imagem 3),
Alfredo Storni coloca o personagem-símbolo de O Malho com um tamanho maior do que os outros
componentes da cena: o Zé Povo e diversos políticos. A diferença é que enquanto os políticos
dialogavam com O Malho, o Zé Povo ficava resguardado por ele, como quem procura proteção. Esses
políticos perguntam ao Malho se nem mesmo os amigos escapariam de suas marteladas, afinal a
revista atacava alguém da situação, (ressalta-se que a revista defendeu veementemente Hermes da
Fonseca durante a campanha eleitoral de 1910). Nesse ponto O Malho respondia que: “A boa justiça é
como a boa caridade: começa por casa”, sendo felicitado por Zé Povo.
IMAGEM 3 – STORNI. O Malho, 10 de setembro de 1910, n. 417. (FCRB)
Além dessa imagem, retoricamente construída no intuito de mostrar a imparcialidade do jornal
frente às questões políticas, o mesmo Alfredo Storni desenharia uma página inteira da revista,
retratando parte das falas discursadas na Câmara na sessão do dia 5 de setembro (Imagem 4).
No desenho, além do discurso de J.J. Seabra, aparece o aperto de mão dos representantes de Minas
Gerais a Torquato Moreira, além de Barbosa Lima tratando de sua hipótese conspiratória daquele
evento. Sobre isso, no quadro seguinte do mesmo desenho, Storni remete à fala de Azeredo, falando
da popularidade e imparcialidade da revista O Malho, que, portanto, não estaria envolvida em nenhum
esquema partidário e, supostamente, não seguia as orientações políticas de Azeredo.

IMAGEM 4 – STORNI. O Malho, 10 de setembro de 1910, n. 417. (FCRB)


Por fim, mais uma charge tenta afirmar a isenção de O Malho, vangloriando-se do seu ato. Trata-se
de mais um desenho de J. Ramos Lobão. (Imagem 5).
IMAGEM 5 – J.R. LOBÃO. O Malho, 10 de setembro de 1910, n. 417. (FCRB)
No texto acima do desenho, os integrantes da revista agradeciam aos políticos da oposição e à
imprensa pela repercussão do caso. No momento seguinte, e aqui devemos dar algum destaque, o
texto declarava solenemente ao povo que os ideais da revista eram o da justiça e o da verdade e que “O
Malho é órgão dos fracos e oprimidos, e por isso afronta os poderosos, os potentados, sem nunca
esmorecer, sem transigir, sem recuar no cumprimento do seu dever”. Abaixo do texto, a charge
completa a ideia em “duas cenas e três tempos”. O Zé Povo bate à porta da Câmara querendo o
reconhecimento de Felisbelo Freire. Os poucos deputados que compareciam à Câmara dormiam,
enquanto O Malho observava pela fechadura. A participação dos dois personagens na cena é bem
interessante, pois enquanto o Zé Povo acredita que, civilizadamente, batendo à porta seria atendido;
O Malho, “os olhos do Zé”, considerava isso impossível, “quebrando” a porta.
Os dois quadros, anunciados no subtítulo da charge, são óbvios: a observação dos deputados
dormindo e o arrombamento da porta da Câmara, e são eles que formam os dois primeiros tempos da
charge. O terceiro tempo está implícito: foi a vitória da revista, em causar a discórdia pública, em
aprovar a candidatura de Felisbelo Freire e de atrair a atenção do público leitor à sua causa. Herman
Lima afirma que esse foi o momento mais importante do periódico, pois provocara a queda de Sabino
Barroso da presidência da Câmara38. De fato, não há indícios de que Barroso tenha saído da
presidência, muito pelo contrário, o deputado ficou no cargo até 191939. De qualquer forma, O Malho
nesse episódio obteve o reconhecimento dentro do campo político. Fosse integrando a suposta
manobra política de Pinheiro Machado ou mesmo atuando sob orientação de Antônio Azeredo, os
caricaturistas do periódico ilustrado puseram no jogo político sua opinião, sua causa, atuando na
política da Primeira República.
Quando Antônio Azeredo recusou responsabilidades na publicação, colocou na direção da revista o
ônus pela desestabilização do campo. Mas, se as críticas recaíram todas sobre os caricaturistas, o
bônus da vitória política, o reconhecimento de Felisbelo, também foi barganhado por eles. Portanto,
esses caricaturistas, pelos menos nesse caso, não estavam fazendo um humorismo de “desilusão
republicana”, mas um humorismo politicamente ativo, defendendo-se, negociando mais espaço no
campo e reafirmando sua identidade de pretendente a porta-vozes do público leitor.
Tal evento foi importante na afirmação da identidade da revista O Malho, que construiu sua imagem
de defensora das causas públicas e, especialmente, do povo. Nesse sentido, a presença intensa do
personagem Zé Povo indicaria certa proposta retórica dos caricaturistas de agirem no campo político.
Em nome do Zé Povo os chargistas da Primeira República construíam seus argumentos e tentavam
convencer o seu público-leitor. Mais do que um retrato sociológico da ausência de sentido da República,
o Zé Povo, por tal ótica, seria um instrumento de ação política dos chargistas, mostrando as ausências
do regime, mas também sendo o elemento de aproximação e interação com o poder.
ADMINISTRAÇÃO
Neste capítulo do livro de Sinzig, intitulado “Administração”, o autor desenvolve os seguintes
tópicos: “Correio – Telégrafo – Telefone”, “Iluminação pública”, “Viação urbana” e “Higiene –
Inundações”. Todavia optamos por tratar aqui somente dos seguintes, “Iluminação Pública e Viação
Urbana” e “Higiene e Inundação”, justamente procurando dar conta de problemas urbanos
característicos do paradoxo em torno do qual pessoas de carne e osso, de todas as classes sociais,
eram atingidas e questionavam a atuação da administração face aos momentos de caos urbano. O
caso das enchentes, onde toda a iluminação, o transporte, a saúde e a circulação urbana ficavam
comprometidos, é tipicamente retratado pelas charges da época, demonstrando nossa hipótese de
que as imagens não trazem somente o sucesso do projeto republicano em sua utopia de “Ordem e
Progresso”, mas também, de maneira às vezes trágica e às vezes cômica, os paradoxos de uma
modernidade incompleta, cuja questão social e luta por direitos permanecia40.
Particularmente sobre as charges, objeto deste capítulo, podemos dizer que elas também
constroem uma memória da cidade, a da realidade tragicômica de um Rio de Janeiro que se pretende
moderno, mas que é assolado pelo desastre praticamente anual da enchente urbana. Numa
perspectiva crítica ao governo, os desenhos ironizam e revelam uma outra metrópole e uma
modernidade repleta de paradoxos, em que a ordem e o progresso convivem com o caos, a desordem e
o que há de mais atrasado em termos de problemas de infraestrutura, como tratamento de esgoto,
saneamento básico, transporte, iluminação pública, dentre outros. Nesse sentido, o que era um drama
vivido quase anualmente, de tão comum, vira comédia no traço dos cartunistas. As charges e
caricaturas apresentam os dilúvios através de alegorias fortemente carregadas de um caráter
tragicômico.
De acordo com Luiz Guilherme Sodré Teixeira, as charges tendem a espelhar o espetáculo burguês
que a Belle Époque estava produzindo na sociedade com as reformas urbanas, o modernismo cultural e
outras transformações que estavam ocorrendo no Rio de Janeiro. Para o autor, por isso, a charge
mudaria a forma de seu traço e o conteúdo de sua temática:
Ela, que até então raramente inventava personagens, passa a criar tipos fictícios tendo como finalidade a piada de salão,
o humor passageiro e a graça ligeira. Entretanto, é essa história coloquial com esse tom descompromissado que dá
início, agora, ao processo de mudança na sua estrutura narrativa; É ela que viabiliza a transição da pluralidade de
quadros e da verborragia textual da Monarquia, para a unicidade de traço e a síntese verbal que sinaliza, na República, o
início de sua modernidade41.

O Malho (1902), Kosmos (1904), Fon-Fon! (1907) e a Careta (1908) aparecem neste contexto, sob
nova roupagem gráfica e artística. Transforma-se a orientação gráfica, com o surgimento de uma nova
técnica de reprodução, a chamada zincografia. De acordo com Herman Lima, no “raiar do século XX
encontrou, portanto, o Brasil aparelhado para o surto admirável que a caricatura brasileira havia de
adquirir nas suas três primeiras décadas” 42.
A maioria das charges recolhidas com imagens de enchentes até 1930 encontram-se em O Malho,
que, de acordo com Luiz Guilherme Sodré Teixeira, era periódico um dos mais interessantes da
Primeira República, não só pela crítica política através do humor, mas principalmente pela qualidade
dos chargistas43. Por isso, O Malho, que em seu auge teve uma tiragem de 80 mil exemplares44, será a
nossa principal fonte de análise neste capítulo.
Sobre o periódico ilustrado, um de seus mais ilustres colaboradores, Seth, descreveu em suas
memórias o ambiente precário de trabalho na revista, pois trabalhavam todos numa sala de cerca de
15m2. Seth lista alguns dos nomes que contribuíam para O Malho, como J. Ramos Lobão, Alfredo
Storni, Leônidas, Ariosto e Loureiro, Vasco Lima e Yantok. Além dos grandes caricaturistas da virada
do século XIX, caso de Angelo Agostini, e dois dos mestres do humor gráfico no século XX, Raul
Pederneiras e Calixto Cordeiro. Além disso, Seth se lembra da importância de O Malho ao nos dizer
que apesar dos interesses políticos que representava, o periódico criou nesta época o “verdadeiro gosto
pela caricatura no Brasil”. De acordo com o cartunista,
[...] é assim que, além de Crispim do Amaral, Raul e Calixto e outros da primeira fase da fundação d’O Malho, vemos aí
ainda reaparecer o velho e glorioso Agostini da época monárquica e dos primeiros tempos da República, e vemos
também surgir novos nomes que se firmaram para sempre: J. Ramos Lobão, que se tornou conhecido pelas suas
trabalhadas capas d’O Malho durante muito tempo; Leônidas Freire – (Léo) novato, fazendo uns desenhos ásperos
mais cheios de personalidade; J. Carlos, que se tornou depois o príncipe dos nossos caricaturistas pela elegância e
singeleza do traço; Alfredo Storni, gaúcho, que se especializou em charges políticas; Vasco Lima, Ariosto, Loureiro,
Augusto Rocha e outros, constituindo aquele grupo de artistas que, graças ao O Malho, se tornaram conhecidos no
Brasil, e cujas personalidades artísticas eram discutidas, estudadas e comentadas45.

Mas de quem seria a culpa das enchentes na visão das charges presentes nas páginas de O Malho?
Havia uma tônica geral que tendia a criticar o governo como o causador dos problemas urbanos. Com
relação às inundações, nas charges as diferenças de classe parecem ser minimizadas em detrimento à
crítica contumaz contra a administração pública, seja do governo nacional, estadual ou local. Tanto a
imagem quanto o texto da charge mostram com humor a crítica aos administradores.
Nesse caso, ora as caricaturas retratavam o sofrimento cotidiano da população – com homens
caindo pelos bueiros, guarda-chuvas abertos em meio a pessoas já cobertas d’água ou a dificuldade do
bonde de transportar a população em meio ao caos das chuvas – ora elas inseriam os próprios
governantes nas enchentes, apontando os supostos culpados, criticando-os. Essa possibilidade de
inclusão dos políticos nas cenas das enchentes era algo próprio da linguagem da charge, de sua
construção argumentativa. Podemos observar isso na charge de Augusto Rocha (Imagem 6),
intitulada “Nero pelo avesso”.
IMAGEM 6 – ROCHA. O Malho, 24 de março de 1906, n. 184. (FCRB)
No texto que acompanha a imagem, lemos:
Nero R. Alves – O tilbury do Custódio do Banco no atoleiro com cinco homens! … O carro do Lauro e do Prefeito
flutuando… Cidadãos com água até o pescoço… Navegação de canoas e carroças… famílias aflitas a pedir Socorro…
Móveis e cadáveres boiando pelas ruas transformadas num mar de lama! … É a heroica S. Sebastião do Rio de Janeiro!...
E é a Capital da Republica! … E é a primeira cidade da América do Sul!... Oh! calamidade atroz que a mente exalta! Se eu
tivesse uma Lyra, cantava-te, oh! Sublime tragédia! Oh! Belo horrível! Cantava-te, a semelhança do grande Nero…
quando mandou incendiar Roma, a cidade eternal!... Oh! … ferro!

O presidente Rodrigues Alves é comparado a Nero, inundando o Rio de Janeiro numa alusão ao
incêndio de Roma. Enquanto a população (rica ou pobre) tenta se salvar como pode, o presidente
parece orquestrar tudo do alto. Mas por que Rocha chama Rodrigues Alves de Nero pelo avesso? Nero,
imperador romano, era conhecido por seu autoritarismo e extravagância. Como Rodrigues Alves
incentivou o bota-abaixo de Pereira Passos, Nero foi o responsável pela remodelação de Roma após o
incêndio e, antes disso, construiu teatros, para jogos e para a matança de cristãos. Da mesma forma
que Nero gostava de construir teatros e também foi o responsável por um novo plano urbanístico para
Roma após o incêndio, Rodrigues Alves em sua gestão propiciou a construção do Teatro Municipal e
mesmo, sob a prefeitura de Pereira Passos, remodelou a cidade do Rio de Janeiro.
A reforma mal terminara e as chuvas invadiram os novos bulevares recém-inaugurados, mostrando
a precariedade do projeto civilizatório republicano. Os críticos ao governo chamam o presidente de
Nero inferindo a responsabilidade do governante pelo caos gerado pela inundação. Assim como Nero
foi acusado de ter colocado propositalmente fogo em Roma para reconstruí-la a seu bel-prazer, parece
que na visão de Augusto Rocha, Rodrigues Alves é o grande orquestrador da tragédia e assiste ao caos
de cima, imóvel.
Talvez aí resida a problemática que esta imagem nos revela: “hoje não há iluminação”, avisa uma
placa desenhada no meio da inundação. Com o carro no meio das águas, o Ministro da Viação, Lauro
Muller, e Rodrigues Alves, responsáveis pelas principais reformas urbanas do Rio inauguradas um ano
antes, como a Avenida Central, o novo Cais do Porto e tantos outros “melhoramentos”, não puderam
impedir que, naqueles dias, o Rio de Janeiro voltasse ao momento anterior, quando sequer iluminação
havia na cidade. Tanto “progresso” e voltava-se aos “tempos coloniais”. E aqui todos eram atingidos
pelo dilúvio: pobres e ricos, do Zé Povo, do Custódio do Banco, até o prefeito e o Ministro.
Já na imagem seguinte, desenhada por J.R. Lobão, aparecem Lauro Muller, Paulo de Frontin e
Antonio Azeredo (Imagem 7). O chargista português comenta as críticas d’A Tribuna às obras
realizadas no centro da capital e a permanência das enchentes, ressaltando o fato de o Centro
acumular as reformas em detrimento de outras regiões da cidade. Nesse caso, retomando o
argumento desenvolvido nos debates sobre o caso Felisbelo Freire, os chargistas se aproximam de
Azeredo – proprietário de A Tribuna e de O Malho – para argumentarem contra o descaso dos
governantes com relação às outras regiões da cidade, onde vivem contribuintes “tão bons” quanto
aqueles da Avenida Central, logo, tão cidadãos quanto os ricos da Avenida.

IMAGEM 7 – J.R. LOBÃO. O Malho, 3 de fevereiro de 1906, n. 177. (FCRB)


Portanto, na maioria das vezes, no caso das charges, como podemos ver nestas imagens de
Rodrigues Alves, ou do Ministro da Viação, Lauro Muller, os governantes, ao invés de “salvarem” a
cidade e cuidarem para que eventos terríveis não aconteçam, restabelecendo a ordem diante do
“estado de exceção”, são apresentados como os principais responsáveis pelo caos urbano. As elites e os
pobres são representados como vítimas. A inundação não escolhe classe: tanto o Zé Povo quanto a
elite sofrem com as chuvas, pois falta luz e as vias ficam intransitáveis para quase todos os meios de
transporte.

IMAGEM 8 – AGOSTINI. O Malho, 25 de fevereiro de 1905, n. 128. (FCRB)


A charge (Imagem 8), de autoria de Angelo Agostini, consolida o argumento. Nela aparecem Lauro
Muller, Rodrigues Alves, Pereira Passos e Francisco Bicalho, explicitando os problemas de
abastecimento do Rio de Janeiro em plena reforma urbana. Trata-se de uma charge sobre a
contradição de um Rio de Janeiro onde há falta de água potável simultaneamente à abundância de
águas pluviais.
O que percebemos é que um ethos artístico moderno46, de forte crítica social, acompanha o humor.
No caso das catástrofes que acometiam a cidade, é o humor enquanto afirmação do desejo diante da
adversidade e da morte. Humor lúcido e trágico, ao mesmo tempo divertido, sagaz que, em sua
associação com a morte – tendo em vista que a maioria das enchentes causava vítimas fatais – é
tragicômico, como já nos ensinava Sigmund Freud47. Sentimentos como o de impotência diante das
chuvas, de medo diante da morte, de terror, ainda que sob o manto da ironia em sua relação com a
subjetividade dos artistas, estão presentes nas páginas das revistas ilustradas aqui reunidas.
Mas, como afirmado, se a culpa das enchentes recaía nos governantes e na sua má administração, os
ecos da inundação atingiam toda a população. Sendo assim, a charge também abordava tal
consequência, brindando-nos com inúmeras charges cômicas sobre os transtornos das enchentes na
vida da população. Na charge de Leônidas publicada em fevereiro de 1905, o autor propõe que se crie
um bonde “submarino” para que a população consiga transitar pela cidade após as chuvas (Imagem 9).

IMAGEM 9 – LEÔNIDAS. O Malho, 25 de fevereiro de 1905, n. 128. (FCRB)


O desenho de Leônidas afirma a impossibilidade de transitar na cidade em dias de enchente. A ironia
da imagem está no fato de que, em meio ao bota-abaixo, em que a engenharia parecia ser a principal
preocupação da administração pública, não se conseguia uma solução para uma questão crucial, como
eram as enchentes. A respota não era repensar a engenharia que se fazia, mas criar um bonde-
submarino que se adequasse às enchentes. Uma solução paleativa, tão criticada nas ações da política-
administrativa no Brasil.
Em outro de seus desenhos, Leônidas propõe outra solução para o transporte urbano em dias de
chuva (Imagem 10). Enquanto a “mente brilhante” dos engenheiros ainda não havia criado o “bonde-
submarino” (Imagem 9), o próprio chargista Leônidas, em 1910, sugeria o transporte “aéreo”, um dos
únicos meios de transporte possíveis face ao caos urbano e a dificuldade de locomoção advinda das
enchentes no Rio de Janeiro. O fio elétrico se tornava o meio de transporte, os bondes de ponta a
cabeça viravam barcos e duas bengalas poderiam ser comparados a automóveis, meios de transporte
urbanos individuais.
IMAGEM 10 – LEÔNIDAS. O Malho, 19 de fevereiro de 1910, n. 388. (FCRB)
Outras charges mostram com humor a situação das ruínas e aqui a inundação atinge também os
ricos, caso da imagem a seguir (Imagem 11), que traduz a insatisfação dos habitantes com a
continuidade das enchentes, mas destaca a visão de um proprietário que perde tudo nas enchentes e
ainda paga altos impostos. Interessante destacar dois pontos da imagem: primeiro o viajante do
bonde, afirmando que ao menos o homem estava vivo; e a nota que aparece ao final do desenho, no
qual a revista informa o ineditismo do trabalho, mas que pretende preservar a imagem para enchentes
futuras, visto que não vê perspectiva de resolução do problema pelo poder público.

IMAGEM 11 – AGOSTINI48. O Malho, 5 de janeiro de 1907, n. 225.


Há de se destacar uma observação inicial de Sinzig quando trata da administração pública. Segundo
o autor, a única organização da administração que não sofria críticas dos caricaturistas era o Corpo de
Bombeiros. Na imagem a seguir (Imagem 12) temos um exemplo do que o frei chamava de “apoteose”
aos bombeiros49. Aparentemente retratando um fato que ocorreu, o chargista desenha bombeiros
salvando crianças, mulheres e idosos de família de alagados. Ao que parece, o dono da casa afogou-se e
morreu. A charge termina com a seguinte nota: “E foi assim, com pequenas variantes, que se
desenrolou uma tragédia da inundação na noite de 16 para 17, em que os nossos bombeiros – só eles!
– conquistaram mais um nobre título à gratidão pública”. O título “Pela verdade” é emblemático, pois
em meio à culpabilização dos governantes, um órgão público salvava a população. No mais, essa
charge foge um pouco do padrão de comicidade, assumindo o que, no caso das enchentes, é mais o
papel da fotografia: a representação do trágico.
IMAGEM 12 – AGOSTINI. O Malho, 24 de março de 1906, n. 184.
Por fim, dado que a charge possibilitava a inclusão dos políticos nas enchentes, uma vez que sua
linguagem visual não objetiva reproduzir uma suposta realidade, como afirma Luiz Guilherme Sodré
Teixeira, é muito comum que observemos desenhos que unam os políticos à população, os culpados e
os oprimidos, geralmente com o personagem Zé Povo representando a “população”. Nesse caso, o Zé
Povo se aproxima da construção analítica elaborada por Marco Antonio da Silva, criticando as coisas
governamentais e cobrando dos políticos melhorias, indicando uma ausência da República e a exclusão
social do regime. Ou o Zé Povo analisado por Luiz Guilherme Sodré Teixeira:
[...] O Zé Povo era, enfim, um puro ser de ficção através do qual se exorcizava o povo real que perambulava, anônimo e
abandonado, na Av. Beira-Mar, nos bondes da Cia. Ferro-Carril e na plateia do João Caetano. Ele era esse “outro” social,
essa cisão e essa ruptura, esse ser diferente, narciso às avessas, já vimos, porque marcado pelo olhar que discrimina,
aponta e separa, nele, ninguém se reconhece. Não é curioso como diante de símbolos positivos, consensuais e coletivos,
como o John Bull inglês e o Tio Sam americano, o Índio, o Dr. Beltrano, o Dr. Semana, o D. Quixote, o Zé Povo e o Jeca
Tatu sejam representações de heróis isolados e solitários, cômicos e risíveis, heróis tristes e trágicos da nacionalidade?50”

Considerando o que se argumenta neste capítulo, talvez essa seja uma faceta possível dos usos do
Zé Povo na imprensa ilustrada. De qualquer forma, dentro do que o gênero charge exige, esse Zé Povo
das inundações tendia a se mostrar crítico da realidade, ou o “narciso às avessas” que evoca Sodré.
Como forma de exemplo, analisaremos duas dessas charges. Na primeira (Imagem 13), o Zé Povo se
lamuria, criticando o prefeito, Francisco Marcelino de Souza Aguiar, que não assumia as
responsabilidades pelas inundações, afirmando se tratar de uma questão da União.
Na imagem, observa-se que o barrete frígio da República-mulher, tão importante para as caricaturas
nacionais e para o imaginário republicano51, e a constituição afogam-se. Ao mesmo tempo, esse Zé
Povo de Alfredo Storni afirma que um “calor preto lhe torra os miolos”. No caso, trata-se dos discursos
feitos pelo político Monteiro Lopes, que sofria sistematicamente perseguições e injúrias raciais na
imprensa, como bem atesta Carolina Vianna Dantas em seu trabalho Manoel da Motta Monteiro Lopes,
um deputado negro na I República52.
IMAGEM 13 – STORNI. O Malho, 13 de fevereiro de 1909, n. 335. (FCRB)
Já a segunda charge (Imagem 14) trata da falta de ação do poder público para dirimir as enchentes.
Entre bondes submersos e barcos, tanto o prefeito Bento Ribeiro quanto o ministro da Viação J.J.
Seabra, além do Zé Povo, encontram-se ilhados e sofrem com as consequências das enchentes. J.R.
Lobão coloca no personagem uma fala de esperança e de lamentação.

IMAGEM 14 – J.R. LOBÃO. O Malho, 1 de abril de 1911, n. 446. (FCRB)


J.R. Lobão, através do Zé Povo, espera que a administração pública resolva os problemas das
enchentes. Além disso, se envergonha de uma cidade que havia melhorado e se transformado, mas que
ainda era vítima das pavorosas inundações, que interrompia o tráfego e o trânsito, e que causava
prejuízos e mortes. O Zé Povo de Lobão esperava a união das esferas federal e municipal. E o que era
um traço da constituição do personagem, desde seu criador, o português Rafael Bordallo Pinheiro, uma
espera contínua de um ingênuo. A charge, “A vista das enchentes”, é um ótimo exemplo da paradoxal
relação entre a cidade pretendida – e de certa forma exaltada pelos caricaturistas – e a cidade que se
tinha, sem infraestrutura e organização. Visões de um tempo marcado pela complexidade, das rápidas
transformações urbanas, mas das permanências de estruturas político-sociais excludentes.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Qual o significado das charges e caricaturas produzidas pelos artistas das revistas ilustradas aqui
revisitados na busca por uma melhor compreensão da relação entre Política e Imagem na Primeira
República? Vimos que os estudos clássicos e recentes da historiografia brasileira têm se debruçado
sobre o caráter de uso das imagens como artifício de luta política stricto sensu, como palco de disputas
na arena dos parlamentos, na Câmara e no Senado. Nosso objetivo foi demonstrar como é necessário
ampliar os estudos numa abordagem que privilegie também a ação política dos próprios artistas e da
imprensa da época.
Procuramos explicitar em que medida as imagens produzidas pela imprensa ilustrada brasileira era,
para além de meros retratos tragicômicos da comédia republicana ou simples ilustração da “República
que não foi” ou ainda somente pura propaganda política de uma imprensa a serviço de determinados
grupos políticos (situação ou oposição), verdadeiros mecanismos de participação cidadã, de ação no
campo político por parte desses “intelectuais-humoristas”. Podendo, em alguns casos, ter repercussão
na própria Câmara e no Senado, como demonstra o caso de Felisbelo Freire.
Mas, para além da problematização do uso das imagens como agenciadoras de projetos e
formadores de opinião pública, tratamos das charges como verdadeiras agentes da cidadania que
corriam, sub-repticiamente, nos outros espaços de luta política para além das instâncias
governamentais. Assim, é importante verificarmos como a cultura visual da Primeira República traz
outra problemática fundamental na discussão sobre como essas revistas ilustradas são um locus
privilegiado para o entendimento da História política na urbe moderna. Aqui procuramos demonstrar
nosso argumento de que as imagens falam sobre a já anunciada falência de um projeto de
modernidade que acreditava piamente que, através do uso da ciência e da técnica, da razão, enfim a
humanidade alcançaria a tão desejada civilização e o progresso.
O projeto republicano, de ordem e progresso, apesar de todos os esforços dos governantes pela
remodelação da cidade do Rio de Janeiro, só para ficar num exemplo, falhava quando, nas chuvas de
verão, a cidade ficava submersa. Problemas de infraestrutura, de transporte e saneamento básico
viam-se aumentados quando a paisagem urbana se inundava. As enchentes, tão bem trabalhadas pelos
caricaturistas, eram a prova de que o homem não conseguira, apesar do conhecimento científico,
dominar inteiramente a natureza e, mais, todos seus esforços pelo “embelezamento” da cidade e por
ordenamento das ruas e mesmo de quem por elas poderia transitar no centro, ia literalmente “por
água abaixo”.
O exemplo do Rio conecta nossa experiência à História da modernidade como um todo e às
experiências de outras grandes cidades que também procuraram traduzir em seu plano ideais de uma
urbanidade que contivesse os desejos de progresso e civilização. Paris, o grande modelo, também
sofreu com uma grande enchente em 1910. Buenos Aires, que competia conosco o título de “Paris da
América do Sul”, também era, por diferentes motivos, assolada por catástrofes decorrentes das
constantes inundações ao longo de toda a primeira metade do século XX.
O que este capítulo procurou salientar, no entanto, é como as imagens traduzem o olhar de artistas
comprometidos com o viver na cidade, com o agir no espaço público. As imagens traduzem
experiências. Contam sobre como era viver e agir politicamente, lutar por direito à cidade mesmo, pela
mobilidade urbana, por iluminação pública, por direito ao saneamento básico (água potável, saúde,
rede de esgotos). Portanto, pela ampliação de sua cidadania. Ou seja, os criadores destas imagens
estavam comprometidos com a política em seu sentido mais amplo. A história das charges é, por
conseguinte, a história da relação entre ética e estética, a história da relação entre arte e política.
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ampliadas nos anos de 1917 e 1923. E SINZIG, Frei Pedro. 50 modinhas brasileiras. Petrópolis: Vozes, 1913.
5
LUCA, Tânia Regina de. “A grande imprensa na primeira metade do século XX”. In: MARTINS, Ana Luiza e LUCA, Tânia Regina de
(orgs.). História da Imprensa no Brasil. São Paulo: Contexto, 2008, p. 150.
6
SINZIG, Frei Pedro. A Caricatura na Imprensa Brasileira, p. 11.
7
ARENDT, Hannah. A condição humana. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1991, p. 15.
8
DUQUE, Gonzaga. Contemporâneos: pintores e escultores. Rio de Janeiro: Benedicto de Souza, 1929.
9
Entre outros ver: COTRIM, Álvaro. J. Carlos: época, vida e obra. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985; LIMA, Herman. Rui e a
caricatura. Rio de Janeiro: Olímpica Editora, 1950; BARRETO, Bendito Barros. Caricatura dos tempos. São Paulo: Melhoramentos,
1948 [possui reedições na década de 1980]; COTRIM, Álvaro. “Oswaldo Cruz e a caricatura”. In: FALCÃO, Edgar de Cerqueira.
Oswaldo Cruz: Monumenta Histórica: A incompreensão de uma época. São Paulo: [s.n.], 1971. t. 1.
10
Uma boa análise dos usos das imagens como vestígio do passado pode ser vista em: CARDOSO, Ciro Flamarion; MAUAD, Ana
Maria. “História e imagem: os exemplos da fotografia e do cinema”. In: CARDOSO, Ciro Flamarion; VAINFAS, Ronaldo (orgs.).
Domínios da História: ensaios de teoria e metodologia. Rio de Janeiro: Campus, 1997, p. 401-417.
11
TEIXEIRA, Luiz Guilherme Sodré. Sentidos do humor, trapaças da razão: a charge. Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa,
2005.
12
LUSTOSA, Isabel. História de presidentes: a República no Catete. Petrópolis/Rio de Janeiro: Vozes/Fundação Casa de Rui
Barbosa, 1989 [livro reeditado pela editora Agir, Rio de Janeiro, em 2008].
13
LUSTOSA, Isabel. Brasil pelo método confuso: humor e boemia em Mendes Fradique. Rio de Janeiro: Bertrand, 1993.
14
Ibidem, p. 232-233.
15
LUSTOSA, Isabel. “Negro humor: a imagem do negro na tradição cultural brasileira”. In: ______. As Trapaças da Sorte: ensaios de
história política e de história cultural. Belo Horizonte: UFMG, 2004, p. 282.
16
LUSTOSA, Isabel; TRICHES, Robertha. “O português da anedota”. In: LUSTOSA, Isabel (org.). Imprensa, humor e caricatura.
Belo Horizonte: Editora UFMG, 2011, p. 251-268.
17
VELLOSO, Mônica Pimenta. História & modernismo. Belo Horizonte: Autêntica, 2010.
18
VELLOSO, Mônica Pimenta. Modernismo no Rio de Janeiro: turunas e quixotes. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 1996, p.
11-12.
19
No recente História & Modernismo a autora também dedica um capítulo especial para a caricatura, intitulado “Pintor do eterno e
das circunstâncias: a obra do caricaturista”, que está entre as páginas 81 e 84.
20
BELLUZO, Ana Maria de Moraes. Voltolino e as raízes do modernismo. São Paulo: Marco Zero, 1991.
21
SILVA, Marcos Antônio da. Caricata república: Zé Povo e o Brasil. São Paulo: Marco Zero, 1990; e SALIBA, Elias. Elias Thomé.
Raízes do riso: a representação humorística do dilema brasileiro: da Belle Époque aos primeiros tempos do rádio. São Paulo:
Companhia das Letras, 2002.
22
SEVCENKO, Nicolau. Literatura como missão: tensões sociais e criação cultural na Primeira República. 2. ed. São Paulo: Companhia
das Letras, 2003.
23
SALIBA, Elias, op. cit., p. 28.
24
Ibid., p. 69.
25
SILVA, Marco Antonio da, op. cit., p. 33.
26
TENÓRIO, Guilherme Mendes. Zé Povo cidadão: humor e política nas páginas de O Malho. Dissertação de Mestrado. Programa de
Pós-Graduação em História da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Rio de Janeiro, 2009.
27
RIBEIRO, Pedro Krause. Usos do povo no discurso político da charge: Zé Povo e Zé Povinho na imprensa luso-brasileira (1875-
1912). Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em História Social da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Rio de
Janeiro: UFRJ/IH, 2011, p. 102.
28
Projeto de pesquisa coordenado por Andréa Casa Nova Maia no Instituto de História da UFRJ, financiado pela Fundação Carlos
Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do RJ (FAPERJ), Jovem Cientista do Nosso Estado.
29
Sobre a atuação da imprensa na Campanha Civilista ver: BORGES, Vera Lúcia. A batalha eleitoral de 1910. Rio de Janeiro: Apicuri,
2011.
30
TEIXEIRA, Luiz Guilherme Sodré, TELLES, Silvana Maria da Silva; e RIBEIRO, Pedro Krause. O civilista: Rui Barbosa no imaginário
político dos chargistas brasileiros. Rio de Janeiro: Edições Casa Rui Barbosa, 2012.
31
Sobre a Comissão de Verificação de Poderes, ver: RICCI, Paolo; ZULINI, Jaqueline. “Eleições e representações na Primeira
República: o papel da Comissão de verificação de Poderes”. In: VII ENCONTRO DA ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE CIÊNCIA
POLÍTICA (ABCP), Recife, 4 a 7 de agosto de 2010. Disponível
em: <http://cienciapolitica.servicos.ws/abcp2010/arquivos/24_6_2010_11_6_36.pdf>.
32
Discurso do deputado J.J. Seabra. In: Diários do Congresso Nacional: República dos Estados Unidos do Brasil, terça-feira, 6 de
setembro de 1910, n. 116. Sessão do dia 5 de setembro de 1910, p. 960-961.
33
Discurso do deputado Barbosa Lima. In: Ibid. p. 961.
34
Ibid., p. 961.
35
Artigo “Canto de sereias”. In: O Paiz, de 8 de setembro de 1910, p. 1.
36
Discurso do senador Antônio Azeredo. In: Diários do Congresso Nacional: República dos Estados Unidos do Brasil, op. cit., p. 956.
37
Ibid., p. 956.
38
LIMA, Herman. História da caricatura no Brasil, v. 1, p. 146.
39
Alguns dados da trajetória política de Sabino Barroso podem ser lidos na nota de seu falecimento, publicada no Jornal do Brasil, de
16 de junho de 1919, p. 4.
40
Para uma melhor compreensão da História das enchentes no Rio de Janeiro, conferir resultados do projeto “Rio de Janeiro, cidade
submersa – história e memória das enchentes a partir do acervo da Fundação Casa de Rui Barbosa”, desenvolvido por Andréa Casa
Nova Maia em seu período como bolsista pesquisadora sênior na FCRB em 2012 e primeiro semestre de 2013. Outras imagens
podem ser encontradas no blog do projeto em www.cidadesubmersa.blogspot.com.
41
TEIXEIRA, Luiz Guilherme Sodré. O traço como texto: a história da charge no Rio de Janeiro de 1860 a 1930. Rio de Janeiro:
Edições Casa de Rui Barbosa, 2001, p. 27.
42
LIMA, Herman, op. cit., p. 141.
43
TEIXEIRA, Luiz Guilherme Sodré, op. cit., p. 33.
44
Dados da tiragem obtidos em SINZIG, Frei Pedro, op. cit., p. 91.
45
As reminiscências de Seth eram publicadas com o seguinte título. “Nas asas da memória (viagem de um artista em torno de si
mesmo)”, na Gazeta de Notícias, do Rio de Janeiro. A citada no texto data de 22 de junho de 1947.
46
MAINGUENEAU, Dominique. Discurso literário. São Paulo: Contexto, 2006.
47
FREUD, Sigmund. FREUD, Sigmund. O chiste e sua relação com o inconsciente. In: Obras completas. Trad. Jayme Salomão. Rio de
Janeiro: Imago, v. 8, 1977.
48
Agostini assinava com o pseudônimo “Io” na revista O Malho no final de sua carreira. De acordo com Luciano Magno, “eram
caricaturas que mostravam uma tentativa singular de adaptação de seu traço ao novo meio gráfico, a rotogravura” MAGNO,
Luciano (pseudônimo de Lucio Murici). História da caricatura brasileira: os precursores e a consolidação da caricatura no Brasil. V.
1. Rio de Janeiro: Gaia Edições de Arte, 2012, p. 216-217.
49
SINZIG, Frei Pedro, op. cit., p. 35.
50
TEIXEIRA, Luiz Guilherme Sodré, op. cit., p. 30.
51
CARVALHO, José Murilo de. A Formação das Almas: o imaginário da República no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1990,
p. 87.
52
DANTAS, Carolina Vianna. Manoel da Motta Monteiro Lopes, um deputado negro na I República. Rio de Janeiro: Biblioteca
Nacional, 2008. Monografia apresentada como conclusão de pesquisa elaborada no Programa Nacional de Apoio à Pesquisa, da
Biblioteca Nacional.
SOBRE OS AUTORES

CLÁUDIA MARIA RIBEIRO viscardi


Professora Titular do Programa de Pós-Graduação em História da UFJF. Pesquisadora do CNPq.
Autora do livro “O Teatro das Oligarquias: uma revisão da política do café com leite” (Fino Traço,
2012).
JOSÉ ALMINO ALENCAR
José Almino de Alencar é pesquisador da Fundação Casa de Rui Barbosa, instituição que presidiu entre
2003 e 2011. É autor de “Uns e outros” (Rio de Janeiro: Nau Editora, 2014).
CHRISTIAN EDWARD LYNCH
professor do Instituto de Estudos Sociais e Políticos (IESP-UERJ) e pesquisador da Fundação Casa de
Rui Barbosa, do CNPq e da FAPERJ. É autor dos livros “Monarquia sem despotismo e liberdade: o
pensamento político do Marquês de Caravelas” e “Da Monarquia à Oligarquia: história institucional e
pensamento político brasileiro (1822-1930)”.
ANGELA ALONSO
Professora do departamento de sociologia da USP e presidente do Cebrap. É autora de “Ideias em
movimento: a geração 1870 na crise do Brasil-Império”; “Joaquim Nabuco: os salões e as ruas”; e
“Flores, votos e balas: o movimento abolicionista brasileiro (1868-1888)”.
VITOR FIGUEIREDO
Doutorando do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal de Juiz de
Fora/UFJF. Pesquisador e autor de artigos sobre cultura política, coronelismo e eleições na Primeira
República publicados em diversos periódicos.
PAOLO RICCI
Professor do departamento de Ciência Política da USP e pesquisador do Cebrap. É autor de vários
artigos publicados em revistas nacionais e internacionais sobre o tema da história das instituições
políticas, partidos políticos e sistemas eleitorais.
JAQUELINE PORTO ZULINI
Doutoranda no departamento de Ciência Política da USP. Possui artigos publicados em revistas
nacionais e internacionais. Suas pesquisas se concentram no estudo do comportamento parlamentar e
do processo legislativo desde o Império.
AMÉRICO FREIRE
Professor associado do Programa de Pós-Graduação em História, Política e Bens Culturais do
CPDOC/FGV. Pesquisador do CNPq e autor dos livros “Uma capital para a República (Revan, 2015)”,
“Sinais trocados: o Rio de Janeiro e a República brasileira” (7 Letras, 2012), entre outros.
SURAMA CONDE DE SÁ PINTO
Doutora em História Social pelo PPGHIS/UFRJ. Professora associada do curso de graduação e do
Programa de Pós-Graduação em História da UFRRJ e autora dos livros “A correspondência de Nilo
Peçanha e a dinâmica política na Primeira República” (Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro,
1998) e “Só para iniciados: O jogo político na antiga capital federal” (Mauad X/FAPERJ, 2011), além
capítulos de livros e artigos sobre a experiência política brasileira entre 1889-1930.
ANDREA CASA NOVA MAIA
Professora adjunta do Programa de Pós-Graduação em História Social da UFRJ. Autora dos livros
“Ética e imagem” (2010), “Encontros e despedidas: História de ferrovias e ferroviários de Minas”
(2009) e “Nos trilhos do tempo” (2003).
PEDRO KRAUSE RIBEIRO
Professor do Departamento de História do Colégio Pedro II. Doutorando do Programa de Pós-
Graduação em História Social da UFRJ. Autor do livro “O Civilista: Rui Barbosa no imaginário político
dos chargistas brasileiros” (2012).
A série História visa à difusão dos mais recentes estudos historiográficos, congregando diferentes
abordagens do conhecimento histórico. Trata-se de um meio de propagação de estudos que
contribuem com o desenvolvimento do saber histórico nacional, promovendo a circulação de obras que
se propõem a (re)interpretar os mais variados temas e estabelecer novos horizontes aos saberes
ligados às Ciências Humanas.

Leandro Pereira Gonçalves


Editor

TÍTULO AUTOR ANO Nº EDIÇÃO

NEGROS E INDÍOS MOACYR FLORES 1994 2 1

A REVOLUÇÃO DOS MARAGATOS: 1893-1895 MOACYR FLORES 1993 3 1

FATOS E MITOS DO ANTIGO EGITO MARGARET MARCHIORI BAKOS 2009 3 3

PORTO ALEGRE: URBANIZAÇÃO E MODERNIDADE CHARLES MONTEIRO 1995 4 1

O NEGRO NA DRAMATURGIA BRASILEIRA (1838-1888) MOACYR FLORES 1995 5 1

ALEMÃES NA GUERRA DOS FARRAPOS: segunda edição HILDA AGNES HUBNER FLORES 2008 6 2

MULHER: A MORAL E O IMAGINÁRIO CLARISSE ISMÉRIO 1995 7 1

DICIONÁRIO DE HISTÓRIA DO BRASIL 4ª edição ampliada e atualizada MOACYR FLORES 2008 8 4

ARTE ARGENTINA: TRADIÇÃO E MODERNIDADE MARIA LUCIA BASTOS KERN 1996 9 1

CEPAL: UMA PERSPECTIVA SOBRE O DESENVOLVIMENTO LATINO-AMERICANO JACQUELINE HAFFNER 1996 10 1

PORTO ALEGRE E SEUS ETERNOS INTENDENTES MARGARET MARCHIORI BAKOS 1996 11 1

FACES DA LIBERDADE, MÁSCARAS DO CATIVEIRO PAULO ROBERTO STAUDT MOREIRA 1996 12 1

IMAGENS DO GAÚCHO DAYSI LANGE ALBECHE 1996 13 1

GETÚLIO VARGAS: A CONSTRUÇÃO DE UM MITO LUCIANO ARONNE DE ABREU 1996 14 1

DO IMPÉRIO DAS LEIS ÀS GRADES DA CIDADE MOZART LINHARES DA SILVA 1997 15 1

ARGENTINA X BRASIL HELDER GORDIM DA SILVEIRA 1997 16 1

REDUÇÕES JESUÍTICAS DOS GUARANIS MOACYR FLORES 1997 17 1

CAMPONÊS, TERRA E POBREZA EARLE DINIZ MACARTHY MOREIRA 1998 18 1

ENSAIOS BABILÔNICOS EMANUEL BOUZON 1998 19 1

III JORNADA DE ESTUDOS DO ORIENTE ANTIGO KATIA M. POZER 1998 20 1

DARIO DE BITENCOURT (1901-1974) MARIA JOSÉ LANZIOTTI BARRERAS 1998 21 1

PACTO ABC: PERON-VARGAS-IBANEZ PAULO RENAN DE ALMEIDA 1998 22 1

BANALIZAÇÃO DA MORTE NA CIDADE CALADA:


JANETE SILVEIRA ABRÃO 2009 23 2
a hespanhola em Porto Alegre, 1918

MODERNIDADE E URBANIZAÇÃO NO BRASIL MARIA REGINA DO NASCIMENTO 1998 24 1

A CIDADE COLONIAL NO BRASIL LUIZ RICARDO MICHAELSEN CENTUR 1999 25 1

DON PEDRO I DE BRASIL, POSIBLE REY DE ESPANA BRAZ A. BRANCATO 1999 26 1

DEUSES, MÚMIAS E ZIGURATTS CIRO FLAMARION CARDOSO 1999 27 1

URBANISMO NO RIO GRANDE DO SUL LUIZ FERNANDO ROHDEN 1999 28 1

IMPRENSA: POLÍTICA E CIDADANIA ANDRÉA SANHUDO TORRES 1999 29 1

RIVALIDADES E SOLIDARIEDADES NO MOVIMENTO OPERÁRIO ISABEL BILHÃO 1999 30 1

A IDENTIDADE INACABADA NO RIO GRANDE DO SUL NEWTON LUIS GARCIA CARNEIRO 2000 31 1

ALDEAMENTOS KAINGANG NO RIO GRANDE DO SUL MARISA SCHNEIDER NONNENMACHER 2000 32 1

A ENTRADA DO BRASIL NA SEGUNDA GUERRA MUNDIAL RICARDO ANTONIO SILVA SEITENFU 2000 33 1

PARAGUAI: A CONSOLIDAÇÃO DA DITADURA DE STROESSNER CERES MORAES 2000 34 1

SOCIEDADES IBERO-AMERICANAS ARNO ALVAREZ KERN 2000 35 1

VELHOS INTEGRALISTAS CARLA LUCIANA SILVA 2000 36 1

HERESIA, CRUZADA E INQUISIÇÃO NA FRANÇA MEDIEVAL JOSÉ RIVAIR MACEDO 2000 37 1

MUNDO GRECO-ROMANO MOACYR FLORES 2005 38 2


O INTEGRALISMO NO PÓS-GUERRA GILBERTO GRASSI CALIL 2001 39 1

O FASCISMO E OS IMIGRANTES ITALIANOS NO BRASIL JOÃO FÁBIO BERTONHA 2001 40 1

ONDA VERMELHA CARLA LUCIANA SILVA 2001 41 1

GAÚCHOS EM RORAIMA CARLA MONTEIRO DE SOUZA 2001 42 1

DIZEM QUE FOI FEITIÇO: AS PRÁTICAS DA CURA NO SUL DO BRASIL NIKELEN ACOSTA WITTER 2001 43 1

CENSURA NO REGIME MILITAR E MILITARIZAÇÃO DAS ARTES ALEXANDRE AYUB STEPHANOU 2001 44 1

CINEMA, IMPRENSA E SOCIEDADE EM PORTO ALEGRE (1896-1930) FÁBIO AUGUSTO STEYER 2001 45 1

QUANDO A ORDEM É SEGURANÇA E O PROGRESSO É DESENVOLVIMENTO (1964 - 1974) GILVAN VEIGA DOCKHORN 2002 46 1

ESTATUÁRIOS, CATOLICISMO E GAUCHISMO ARNOLDO WALTER DOBERSTEIN 2002 47 1

A IMAGEM DO TERCEIRO REICH NA REVISTA DO GLOBO (1933-1945) MATEUS DALMÁZ 2002 48 1

A CEPAL E A INDUSTRIALIZAÇÃO BRASILEIRA (1950-1961) DORIVALDO POLLETO 2002 49 1

O AVIADOR E O CARROCEIRO: POLÍTICA, ETNIA E RELIGIÃO NO RS RENÉ GERTZ 2002 50 1

PESQUISA E HISTÓRIA – 1º REIMPRESSÃO JANETE SILVEIRA ABRÃO 2007 51 1

UM RIO PARA O EL DORADO KLAUS HILBERT 2005 52 1

CONSPIRAÇÃO CONTRA O ESTADO NOVO ADRIANA IOP BELLINTANI 2002 53 1

REPÚBLICA RIO-GRANDENSE: REALIDADE E UTOPIA MOACYR FLORES 2002 54 1

IDADES DA HISTÓRIA MARCO ANTÔNIO LOPES 2009 55

TUPÍ OR NOT TUPÍ: nação e nacionalidade em José de Alencar e


ÉDER SILVEIRA 2009 56 1
Oswald de Andrade (56)

PARA COMPREENDER O SÉCULO XXI CARLOS ANTONIO AGUIRRE ROJAS 2010 57

ROUSSEAU FRENTE AO LEGADO DE MONTESQUIEU:


RENATO MOSCATELI 2010 58 1
História e Teoria Política no Século das Luzes (CH 58)

POVO E POLÍTICA - A CONSTRUÇÃO DE UMA REPÚBLICA HILDA SABATO 2012 59 1

HISTÓRIA DA AMÉRICA LATINA: das culturas Pré-Colombianas até o Presente STEFAN RINKE 2012 60 1

DE VARGAS AOS MILITARES: AUTORITARISMO E DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO NO BRASIL LUCIANO ARONNE DE ABREU 2014 61 1

FESTAS CHILENAS JURANDIR MALERBA 2014 62 1

A CARNE, A GORDURA E OS OVOS: COLONIZAÇÃO, CAÇA E PESCA NA AMAZÔNIA CHRISTIAN FAUSTO MORAES DOS SANTOS / MARLON MARCEL FIORI 2015 63 1

VIOLÊNCIA E SOCIEDADE EM DITADURAS IBERO-AMERICANAS NO SÉCULO XX- ARGENTINA, BRASIL, ESPANHA E JORGE MARCO / HELDER GORDIM DA SILVEIRA / JAIME VALIM MANSAN
2015 64 1
PORTUGAL (ORGS.)

POSITIVISMO AO ESTILO GAÚCHO


A DITADURA DE JÚLIO DE CASTILHOS E SEU IMPACTO SOBRE A CONSTRUÇÃO DO ESTADO E DA NAÇÃO NO BRASIL DE JENS R. HENTSCHKE 2015 65 1
GETÚLIO VARGAS

MARÇAL DE MENEZES PAREDES /


LUCIANO ARONNE DE ABREU /
DIMENSÕES DO PODER HISTÓRIA, POLÍTICA E RELAÇÕES INTERNACIONAIS HELDER GORDIM DA SILVEIRA / 2015 66 1
LEANDRO PEREIRA GONÇALVES
(ORGS.)

GALEGOS NOS TRÓPICOS: INVISIBILIDADE E PRESENÇA


ÉRICA SARMIENTO 2016 67 1
DA IMIGRAÇÃO GALEGA NO RIO DE JANEIRO 1880-1930