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SÃO BERNARDO DE CLARAVAL

E A MÍSTICA ESPECULATIVA DO SÉCULO XII.

DISCURSO FILOSÓFICO de José Cury, de posse na ACADEMIA CATARINENSE DE


FILOSOFIA, em 10-10-2001.

Patrono São Bernardo de Claraval.

(O Autor nasceu em 1931, em Rio dos Cedros, SC. Formou-se em filosofia


e letras. Pós-graduação em linguística. Doutorado em letras. Professor de Letras da
Universidade Federal de S. C., havendo se aposentado em 1986. Da Academia
Catarinense de Letras. Autor de livros literários. Conhecedor de italiano, fez estudos
sobre a presença italiana em SC.).

1. Biografia. São Bernardo de Claraval, - uma eminência da mística do século


XII, - nasceu em castelo de Fontaine, perto de Dyjon, França, em 1090 e morreu em
Clairvaux (Claraval), lugarejo às margens do Sena, em 1153. Em 1112, com 22 anos, entrou
para a abadia de Cister (Mosteiro de Citeaux), na região de Dijon. Levou consigo irmãos, tios
e amigos, repovoando como que a abadia fundada em 1098 por São Roberto de Molesmes.
Com 25 anos foi encarregado, por Santo Estevão Harding, de fundar a abadia de Clairvaux
(Claraval), onde aplicou com certo exagero as normas de São Bento. Durante a sua vida (e
morreu aos 63 anos!) fundou 167 mosteiros subordinados a Clairvaux. Foi Conselheiro dos
reis (Luís VII), de papas (Eugênio II). Esteve nos concílios de Latrão, de Troyes e de Reims.
Foi sustentáculo da Igreja de Roma. Foi pregador da II Cruzada (1147-1149) causada pela
queda de Odessa (1144) o mais forte baluarte dos estados cristãos da Síria e pedida pelo papa
Eugênio III. Foi um teólogo dos mais acatados e protetor da fé.
Criticou aos mestres Pedro Abelardo e Arnaldo de Bréscia, que queriam fazer
voltar os erros de Ario, Nestório e Pelágio. Combateu, outrossim, a Gilbert de La Porrée,
bispo de Poitiers. Abalizado escritor místico sua obra pode ser lida na Patrologia Latina
tomos CLXXXII (182) e CLXXXV (185).
Foi canonizado em 1173, oitenta e três anos após sua morte. Em 1830 foi
declarado Doutor da Igreja pelo Papa Gregório XVI.
2. O pensamento medieval, no século XII.
Antes de entrarmos especificamente na mística especulativa do século XII, é
forçoso que tenhamos uma visão, ainda que limitada, sobre os estudos literários e filosóficos,
sobre a concepção do mundo no século XII, porque se interpenetram a mística com os estudos
e a visão do mundo daquela época. Nomes como os de Fulbert (bispo de Chartres e morto em
1028), Saint Yves de Chartres, Bernard de Chartres, Pierre Abelard, Gilbert de la Porrée (cujo
pseudônimo é Jean de Salisbury), Alain de Lille, Nicolas d’Amiens e sobretudo da enigmática
personagem da primeira metade do século XII Honorius Augustodunensis, não podem ser
olvidados.
3. O pensamento de Bernard de Chartres é-nos conhecido através do
"Metalogicon de Jean de Salisbury (Migne, Patrologia Latina., t. CXXIX). Achava ele que as
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obras dos grandes escritores da época clássica eram indispensáveis. Há no Metalogicon de
Salisbury detalhes do tempo em que viveu e apresenta, inclusive, Bernard de Chartres como
gramático. É que grammaticus, após Quintiliano, ficou sendo o professor de literatura latina
clássica, encarregado de cultivar o gosto e a consciência de seus alunos. Se com Santo
Anselmo a lógica se dirigiu para o ensinamento da teologia, com nomen, figura et potestas.
Esta mesma lógica gramatical será retomada mais tarde por Arnauld et Lancelot (Arnauld et
Lancelot – Grammaire Générale et raisonnée de Port-Royal, Paris, 2 ed. 1810.) discípulos
jansenistas da escola de Port-Royal.
Em se lendo as categorias de Aristóteles (Organon. I Catégories. II de
L’Interprétation.Trad. par J. Tricot. Livr. Psisosophique J. Vrin, Paris, 1946) percebe-se que o
domínio da lógica e da gramática coincidem parcialmente, pois aí se pode deduzir que a
principal função da gramática é a de adequar o pensamento à linguagem e que as categorias
de pensamento são universais e que a gramática teria de refletir tais categorias. É fora de
dúvida que o século XII marca indelevelmente a invasão na gramática e tal invasão possui
duas consequências principais.
A primeira é a que vai contribuir para a decadência da cultura clássica
propriamente dita nas escolas francesas do século XIII, sobretudo na Universidade de Paris
onde o ensino da gramática substituiu o das Belas-letras. A segunda é a que faz surgir estudos
de filosofia da gramática, ou gramática filosófica, que no século XIV tomará o título de
Gramática Especulativa. Os estudos, contudo, da gramática lógica chegam até nossos dias
com o gerativismo de Noam Chomsky (Structures Syntaxiques, Paris, ed du Seuil, Paris
1969), a ponto de Halliday (Saussure. F. de – Cours de Linguistique Générale. Paris 1922)
exclamar: "On croyat que toutes les langues ressemblaient au latin, ou si elles ne
ressemblaient pas, qu’elles devaient y ressemble". Bernard de Chartres utiliza-se, outrossim,
da gramática de Quintiliano para dela extrair ilações filosóficas de Cícero, Macróbio, Sêneca
e mesmo de Boécio.
Tendo ele lido a carta de Sêneca a Lucílio (carta 58), fica embevecido com as
idéias de Platão e passa a platonista ensinando que nada é gênero nem espécie fora das idéias.
Afiança que os seres não possuem idéias para que sejam chamados de substantivos quando
individualizados. As palavras derivadas o fazem pensar naquilo que constitui a unidade do
grupo de palavras que formam a raiz e o conjunto dos seus derivados. Esta idéia é de
Prisciano, foi discutida por Boécio e chamou a atenção inclusive de Pedro Abelardo.
Para Bernard de Chartres as palavras derivadas significam principalmente o
que significam suas raízes mas sob relações diferentes. Esta mesma idéia mutatis mutandi é
retomada no século XX por Ferdinand de Saussure (Ibidem) quando fala da estrutura do
vocabulário e traz como exemplo a palavra enseignement no seu Cours de Linguistique às
páginas 174-175.
Quanto à matéria e à idéia que os estóicos consideravam coeternas de Deus e
que os epicuristas, que negavam a Providência, simplesmente eliminavam, Bernard mantém-
se entre as duas posições mas nega-se a tê-las como coeternas de Deus. Como Santo
Agostinho, mostra-se criacionista: Deus criou a matéria. Quanto à idéia considera-a eterna
como a Providência mas só atribui a coeternidade às três pessoas divinas. A idéia para ele é
como efeito (vellut quidem effectus) criada por Deus. Vê-se que ele se inspira em Sêneca para
definir a idéia: "eorum quae natura fiunt exemplar aeternum".

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Como Boécio define o real aquilo que é: "quod est". Ele chama a matéria de
hyle como no Timeu de Platão. Aliás, Bernard cristianiza Platão como o fez Santo Agostinho,
ensinando que a matéria foi criada, e identificando as idéias com o pensamento divino, mas as
idéias não se identificam com Deus e, portanto, são coeternas dele.
4. Pensamento de Gilbert de la Porrée. Se tais são as idéias de Bernard de
Chartres, seu discípulo Gilbert de la Porrée, pseudônimo de Jean de Salisbury (como vimos)
que faleceu como bispo de Poitiers, é lembrado pelo livro De Sex Principiis ou Liber Sex
Principiorum. Trata-se de uma interpretação metafísica da lógica aristotélica, isto é, das
categorias. Sabe-se que Aristóteles põe sob o nome de Categorias todos os gêneros de
predicação possíveis de um mesmo sujeito.
Distingue ao todo 10 categorias: substância, quantidade, qualidade, relação,
lugar, tempo, situação, hábito, ação e paixão. Gilbert divide as categorias em dois grupos. De
um lado reúne a substância, a quantidade, a qualidade e a relação, e de outro lado as seis
últimas categorias (six principia): lugar, tempo, situação, hábito, ação e paixão. Gilbert dá a
todas as categorias o título de forma mas ele considera o primeiro grupo de quatro de formas
inerentes e mais importantes.
Gilbert expõe sobre as categorias nos seus comentários de Boécio,
particularmente no De Trinitate que o irá indispor com São Bernardo pela sua distinção entre
substância e Subsistência. Uma substância é um ser existente atualmente, está sob acidentes
(sub stat). A substância é um ser que não necessita de substância como os gêneros e as
espécies que "subsistunt tantum non substant vere". As substâncias simples são as idéias para
os gregos e as formas para os latinos. Tais idéias não são em número de quatro: o fogo, o ar, a
água e a terra. Tomadas em si mesmo são simples.
5. A questão dos universais. Realismo versus nominalismo. Para melhor
entendermos as idéias de universalidade das substâncias puras de Gilbert e de outros filósofos
do século XII como Thierry de Chartres, irmão mais velho de São Bernard de Tours,
Guillaume de Conches, etc. é-nos necessário enveredar pela teoria dos universais que tanto
ocupou a mente daqueles filósofos.
É mais do que sabido que nós, além das imagens sensitivas, temos também
conceitos universais a um número indefinido de indivíduos. Ora, sendo as realidades sujeitas à
nossa experiência que é mutável e contingente, qual o valor objetivo de tais conceitos
universais? Exprimem eles com fidelidade a realidade externa? Como explicar a contradição
aparente entre o caráter da universalidade da nossas idéias e o caráter de individualidade e de
contingência das coisa em si? Aqui nestas interrogações é que se encontra o valor objetivo das
ciências, comenta Leonel Franca (Noções de História da Filosofia 17-a ed. Ed. Agir s/d.).
A questão dos universais absorveu o século XII inteiro e pelo que pude
pesquisar talvez Pierre Abelard chegou no seu conceptualismo a dar uma possível solução. O
Realismo exagerado de Platão foi uma solução achada por Guillaume de Champeaux. Este
realismo afirma a existência de realidades objetivas formalmente universais: "tenet
universalia dari in rebus ut naturas distinctas ab individuatione, quia conceptus nostri
repraesentant res ut sunt; sed representant naturas communes seorsim ab individuaditone;
ergo naturae debent etiam existere seorsim" (separadamente) ab individuatione (Definição
esta da Philosophiae Scholasticae Summa) (Professores Fac. Phil. in Spania – Philosophie
Scholasticae Summa I. La Editorial Catolica S. A. Matriti MCMLIII).

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O nominalismo que nega formalmente a existência de conceitos universais e
concede a universalidade tão somente às palavras ou termos comuns não é discutido no século
XII. Mas se os medievais do século XII não o discutiram, em nosso tempo discutiram-no
Stuart Mill, Taine, Ribot e em geral os positivistas que o confundem com o empirismo. O
conceptualismo admite só o valor ideal dos conceitos universais, negando uma realidade
extramental que lhes corresponde. Se na Idade Média Abelardo tinha esta idéia dos universais,
Kant com o seu fenomenismo não foge dela.
6. Outros desenvolvimentos da filosofia da época. Poder-se-ia afirmar que
em Chartres, Cluny, Claraval e outras abadias havia um conteúdo doutrinal, uma filosofia
cristã por excelência. Além dos universais, estudava-se a existência da certeza e objetividade
do conhecimento; um individualismo acentuado constituído sobre as noções de ato e potência,
substância e acidente; uma composição substancial dos seres; um espiritualismo moderado
com unidade, substancialidade e espiritualidade da alma; uma distinção entre o conhecimento
sensitivo e o intelectual.
Em Teodicéia estudava-se a transcendência e personalidade de Deus, a criação
e a Providência. Havia, sem dúvida, divergência entre os filósofos sobre tais idéias
originando, inclusive, sistemas de orientações diversas e não raro antagônicas, mas tais
divergências são mais acentuadas no século XIII com São Boaventura, Santo Tomás de
Aquino, Duns Scoto e Guilherme de Ockham.
Para ter uma concepção do mundo a Idade Média, de Século em século
compilava ou refazia síntese de todo conhecimento humano, sínteses estas chamadas de
Enciclopédias, herança, talvez de Varrão que no 1-o século a.C. compôs o "Antiquitates", uma
enciclopédia com 41 livros, divididos. E 25 referentes às coisas humanas e 16 às coisas
divinas. Esta obra hoje está perdida mas Santo Agostinho a deve ter conhecido e usado, pois,
no seu livro "De Doctrina Christiana"ele a toma como condutora de suas idéias para formular
o desejo que se reflete para conhecer a Sagrada Escritura.
Em seguida temos as Etimologias de Santo Isidoro de Sevilha, século sétimo,
que inauguram como que uma série medieval e ficam como um protótipo a ser seguido. Beda,
o venerável, vem em seguida no século oitavo com o seu trabalho enciclopédico "De Rerum
Natura". No século nono Raban Maur compõe "De Rerum Naturis".
No século doze aparecem muitas do mesmo tipo espelhando o universo e sua
estrutura. Embora diversas na sua melhor estruturação há sempre nelas pontos em comum. A
enciclopédia que melhor define o século XII é uma obra atribuída ao enigmático personagem
Honorius Augustodunensis.
Para que não se torne tão insosso este nosso estudo atenho-me agora a uma que
outra passagem da obra de Honorius Augustonensis, extraída da Patrologia Latina (Migne,
Pat. Lat. T., CLXXII). "A terra possui a forma redonda. O mundo é concebido no pensamento
de Deus antes do começo do século; esta concepção engendra o arquétipo do mundo. Depois
o mundo sensível é criado na matéria à imagem do seu arquétipo... A terra, a água, o ar e o
fogo são a matéria de que tudo é feito e eles se ligam uns aos outros no curso de uma
incessante revolução circular...
O mundo é envolto por um cascão cujo interior é dividido como o de um ovo; a
gota de gordura que está no centro do ovo é a terra; o amarelo é a região do ar carregado de
vapor, o branco é éter; a casca do mundo é o céu... Gog e Magog, povos bárbaros estão entre o

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Cáucaso e o Mediterrâneo são canibais e postos lá por Alexandre Magno. Os Macrobióticos
altos 12 côvados lutam contra os grifos que possuem o corpo de leão e asas de águia, etc. Há
homens sem cabeça com olhos nas costas, o nariz e a boca no peito ou pulmões"... Como a
terra estava no ar, o inferno estava no meio da terra. Era concebido como estreito gargalo que
se alargava na base. Lugar de fogo e enxofre lago da morte ou terra de morte ele encerrava em
seu fundo o Érebo cheio de dragões e vomitantes fogo, o Arqueronte, o Stige, o Flagetão e
outros lugares abrasadores que os espíritos impuros habitam.
Um pouco assustado de sua própria descrição nosso enciclopedista acrescenta:
"Nós visitamos as regiões ferventes do inferno, vamos agora nos refrescar na água". Tudo se
escrevia e se explicava elevando o espírito a Jesus, até em tratados de mineralogia,
petrografia, botânica, etc. Descrever um animal com o crocodilo: "crocodilus est serpens
aquaticus, bubalis infestus, magnae quantitates", ou comparar a Fênix como símbolo da
ressurreição de Cristo, ou citar o Código de Justiniano para falar do galo, não é muito
científico, mas estamos no século XII.
7. Crítica de São Bernardo à filosofia dialética do seu tempo. No sermão 36
de seus comentários ao Cântico dos Cânticos, São Bernardo parece se lamentar – ainda que
não lhes negue a utilidade – dos abusos da dialética filosófica; dos exageros das artes liberais
(trivium filológicum e quadrivium matemáticum); do pedantismo do enciclopedismo; da
lógica na gramática, mas no fim do comentário abre ele a cortina da mística. Eis o trecho em
latim eclesiástico de fácil compreensão: "Sunt qui scire volunt eo finem tatum, ut sciant, et
turpis curiositas est; et sunt que scire volunt, ut scientiam suam vendant (v.g. pro pecunia, pro
honoribus) et turpis quaestus est; sed sunt quoque, qui scite volunt, ut aedificentur, et
prudentia est".
8. Um taumaturgo. A influência profunda exercida por São Bernardo possui
razão de ser quando pensamos que sua pregação era em geral acompanhada de milagres:
restituía a vista a cegos, movimentos aos paralíticos, voz aos mudos, audição aos surdos. Por
toda parte ele era visto como "o pai dos fiéis, a coluna da Igreja, o apoio da Santa Sé, o Anjo
tutelar do povo de Deus". Todos estes fenômenos milagrosos, nós sabemos hoje que a mente
humana é a fonte desencadeadora de energia capaz de provocá-los, mas para os pobres do
século XII era a fé que provocava tudo isto.
9. Misticismo. O verdadeiro pensamento de São Bernardo é este: minha
filosofia é de conhecer Jesus e Jesus crucificado. E então elabora a sua doutrina do amor
místico. O caminho que conduz à verdade é Cristo, e não o emaranhado dialético da época, e
o grande ensinamento de Cristo é a humildade.
Humilitas est veritas qua homo verissima sua agnitione sibi vilescit (A
humildade é a verdade pela qual o homem exerce sua conhecimento). A humildade é a luz da
verdade infusa, pois é ela que faz nascer a verdade que forma e inflama o amor que é a
caridade. É ela uma virtude cujo caráter é ignorar suas obras santas sem pretender ser assunto
de encômios e sem esperar os favores dos aplausos. No jogo de Xadrez a humildade é a dama
que dá cheque mate ao rei que é Jesus.
E "ubi humilitas ibi charitas est" não só, também aí esta a fé, o zelo, a
paciência, a mortificação, a oração, a prudência, a iluminação e a verdade. Mas esta virtude
convém àqueles que abraçam com viva fé a escala dos degraus que conduzem a Deus, pela
humildade.

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Segundo São Bento 12 são os degraus estímulos que conduzem à humildade:
O 1-o degrau consiste em que, pondo sempre o monge diante dos olhos o temor
de Deus, evita qualquer esquecimento. Deus está te vendo: evite, pois, qualquer má ação.
O 2-o é fazer a vontade de Deus nos superiores.
O 3-o é obedecer cegamente à regra.
O 4-o é amar a paciência.
O 5-o é confessar ao seu superior tudo.
O 6-o é manter a alegria no pior da vida.
O 7-o é considerar-se o mais vil e inferior de todos os irmãos.
O 8-o é fazer o que manda a Regra e os Superiores.
O 9-o é amar o silêncio. O 10-o é não rir à toa.
O 11-o é falar suavemente e sem berrar e sem rir às gargalhadas.
O 12-o é fazer transparecer a humildade e não somente tê-la no coração.

Para São Bernardo, em alcançando o 12-o degrau, isto é, o da humildade, nós


alcançaremos o primeiro lugar da verdade que é o de admitirmos em nós mesmos nossa
pequenez, nossa miséria, nossa ignorância. Em reconhecendo nossa miséria principalmente,
passamos a um segundo degrau o da caridade em nos compadecendo da miséria e da
ignorância com o nosso próximo passamos ao terceiro degrau e aí, em igualdade de misérias
nós caímos em nós mesmos, detestamos nossas falhas, espiramos à justiça e purificamos
nosso coração para torná-lo capaz de contemplar as coisas de Deus.
Vê-se logo que estes três degraus de São Bernardo, complementam o 12-o de
São Bento. O primeiro degrau o alcançamos pela humildade, o segundo pelo sentimento
(caridade) e o terceiro pelo fervor da contemplação.
O primeiro degrau mostra-nos uma verdade crua e nua.
O segundo no-la mostra mais caritativa, mais piedosa, mais paciente.
O terceiro degrau no-la mostra pura sem precisar de mestres, teorias, caminhos
e definições sibilinas. Chega ao ápice do conhecimento humano a alma que conseguir
alcançar o êxtase, aquela que praticamente humano a alma que conseguir alcançar o êxtase,
aquela que praticamente se separa de qualquer forma de corpo, se esvazia e se perde de si
mesma para entrar num comércio de idéias com Deus. Este comércio é uma deificação, e uma
deificação jamais se oporá a uma verdade. Diz-nos o santo: "da mesma maneira que uma gota
de água que cai numa grande quantidade de vinho parece se diluir e desaparecer para tomar o
gosto e a cor do vinho; da mesma forma que o ferro vermelho e incandescente chega a
assemelhar-se ao fogo e parece perder sua forma primitiva; "da mesma forma que o ar
inundado de luz solar parece se transformar nesta claridade luminosa nela mesma, a tal ponto
que ela parece ser, não mais iluminada mas luz; da mesma forma toda afeição humana nos
santos deve chegar fundir e a se liquefazer para escoar toda inteira na vontade de Deus.
Como, com efeito Deus estaria todo em todas as coisas se ele deixasse no
homem alguma coisa de homem? Sem dúvida, sua substância permanecerá. Mas sob alguma
forma, um outro poder e uma outra glória. "Só a graça realiza esta perfeita semelhança e
conformidade da vontade humana à vontade divina".
A caridade somente pode operar esta maravilha de uma união perfeita numa
distinção radical dos seres. Acordo de vontades, mas não confusão de substância (non

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substantiis confusos, sed voluntate consentaneos) eis o que é comunhão de vontade e acordo
entre o amor" (G. opus cit, 298). Toda energia vitalizadora de São Bernardo era canalizada
para Deus. "Dominou de tal maneira seus sentidos, que comia sem sentir o sabor; ouvia sem
ouvir. Formou para si uma cela interior, na qual vivia tão recolhido que, depois de dois anos,
não sabia se o teto da abadia era abobadado ou liso e se havia janelas na capela. Sua
comunhão com Deus era contínua. E parece-me lendo seus comentários ao Cândido dos
Cândidos que ele queria santos em sua milícia e não humanos, todos eles, como
desenvolvendo fenômenos de psi-gama, isto é, desenvolvendo a percepção extrasensorial.
Era tão extraordinário o poder mental de São Bernardo que conseguia levitar.
"Em todos os povos, independentemente de religião ou crença professada, a levitação do
próprio corpo é considerada como manifestação ou prova de santidade ou de elevado grau de
desenvolvimento espiritual ou místico" (Grisa, P. – O poder da Fé & a Paranormalidade, 4-a
ed. Ed. Ed. Pappi 1998, p 63).
O ser humano só consegue levitar quando vive um profundo estado de paz
interior, de harmonia e equilíbrio, vivenciando, simultaneamente, intensa e agradável emoção
que o eleva e o abstrai da realidade que o cerca" (Id. P.. 63).
10. Em seus longos sermões sobre o Cântico dos Cânticos, São Bernardo, além
de se mostrar o cantor melífluo, ele afirma que a união extática da alma com Deus era nele
uma experiência familiar e ele ainda acrescenta que ela é incomunicável. Quem não a provou
não saberá jamais explicá-la.
Para poder entender um pouco a alma de São Bernardo respigaremos nos
tomos 182 e 185 da Patrologia Latina de Migne algumas de suas passagens de sua imensa
obra mística, teológica e educadora. Sobre aquilo dos cantares: pulchrae sunt genae tuae
(formosas são as tuas faces. Estas faces, diz o santo, são: uma, o que a alma intenta fazer e a
outra, o fim que a leva nesse fazer e daqui depende o ser formosa ou feia; res et causa id est,
quid intendas; et propter quid. Ex his sane decubus anima, vel decor, vel deformitas indicatur
(Cant. 1.9).
Sobre o verso; Vinae florentes dederunt odorem suam, disse que para o varão
sábio a sua vinha era a sua vida – Viro sapienti sua vita vinea est (Serm. 63 in Cant.). No
Sermão de Santo André tem ele esta passagem: "O lenho da Cruz sempre está brotando vida e
suando o precioso bálsamo dos espirituais dons e graças. Não é árvore silvestre que não dá
vida aos que dela se aproveitam, é árvore de fruto e fruto de salvação eterna" (Semper lignum
Crucis vitam germinat, balsamum sudat spiritualium charismatum. Non est silvestris arbor;
lignum vitae est apprehendentibus eam; arbor frugifera, arbor salutifera est). Naquele trecho
do Cântico dos Cânticos em que a esposa diz que se encontrou com as sentinelas ou guardas
que rondavam a cidade com as quais dialogou acerca do esposo, se o tinham visto, aquele
bem amado a quem buscava e logo mais adiante o achou, S. Bernardo comenta que tais
sentinelas seriam os mestres espirituais.
Diz-nos eles no sermão 77 super Cant. "Videant proinde qui eiusmodi sunt,
quomodo caute ambulent, et de sponsa exemplum sumant, quae non prius ad eum quem
desideraverat, ullo modo voluit ....., quam sibi occurrent quorum magisterio uteretur ad
cognoscendum de Dilecto... Sedutori dat magnum qui dare dissipraeceptori. Isto é: a mão dá
ao demônio que o engane quem dissimula dá-la ao mestre que o guia. Em falando de trajes
caros e luxuosos diz-nos no Apologeticum que os vestidos mui luxuosos ou supõem ou fazem

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moles os espíritos, pois nem ao corpo se daria tão precioso culto de galas, se ao ânimo se
desse cultura de virtudes: mollia indumenta animi, mollitiem indicant; nec tantum curaretur
corporis cultus, nisi prius neglecta fuisset mens inculta virtutibus.
No seu De Consideratione, falando ao Papa Eugênio III, "Indagemus
diligentius quis sis quam geras videlicet pro tempore personam in Ecclesiam Dei? Quis es?
Sacerdos Magnus, Sumus Pontifex, tu Princeps Episcoporum tu haeres apostolorum, tu
primatu Abel, Gubernatu Noe, patriarchatu Abrahan, ordine Melchisedech, dignitate Aaron,
autoritate Moyses, judicatu Samuel, potestate Petrus, untione Christus."
No Sermão 61 Super Cant. desabafa: em mim o merecimento funda-se na
misericórdia de Deus, enquanto ele não for pobre de misericórdia, tão pouco o serei eu de
merecimento. Sendo, logo, as misericórdias do Senhor muitas, bem posso confiar que os meus
merecimentos não são poucos.
Por ventura chegarei eu ou terei memória das minhas justificações? Só da
vossa justiça Senhor, quero lembrar-me porque a vossa é o mesmo que a minha, pois para
minha justiça me fostes dado por Deus. Pois, acaso poderei recear-me de que esta justiça não
baste para nós ambos? E um proinde meritum miseratio Domini. Non plane sum meriti inops
quandiu ille miserationum non fuerit. Quod si misericordiae Domini multae multis
mihilominus ego in meritis sum. Nunquid justitiae meae? Domine, memorabor justitiae tuae
sollus; ipsa est enim et mea. Nempe fastus es mihi tu justitia a Deo. Nunquid mihi verendum,
ne non una ambobus sufficiat? Confie sempre em Cristo diz-nos ele no Sermão 3 ad Sororem:
In virtute tua nihil ponas, in viribus tuis confidas, sed confidentia tua semper sit in Christo. E
em falando dos graus da humildade: habet humilitas suas epulas; primus cibus est
humiliationis, purgatorius cum amaritudine; secundos charistas, consolatorium cum
dulcedine, tertius contemplationis, solidus cum fortitudine.
11. Se as escolas profanas ensinavam o amor segundo a Ars Amandi de Ovídio,
os claustros ensinavam o amor divino. Lembrar-se-á sempre a criatura deste amor divino e te-
lo-á Deus infundado na memória conforme pensava Santo Agostinho? Pergunta-se Guillaume
de Saint-Thierry (amigo de São Bernardo). Este amor humano, neste caso, deveria tender
naturalmente para Deus – completa Thierry. E por que não tende? Por causa do pecado –
responde o grande criador da Cidade de Deus, Santo Agostinho. E que entendia Santo
Agostinho por memória? Aquele recôndito o mais profundo do pensamento humano e é aí,
nessa memória que possuímos, que se engendra nossa razão e que a nossa vontade procede.
Esta tríade, "memória", "razão" e "vontade", explica Thierry representa em nós a Trindade
Criadora. A memória corresponde ao Pai, a razão ao Verbo e a vontade ao Espírito Santo.
(Vide Étienne G. opus 12 cit. 300).
12. Após São Bernardo e Guilhaume de Saint-Thierry, o grande impulso
místico cisterciense perde sua força e seus continuadores, aliás grandes metafísicos como
Isaac Stella, derivam mais para um moralismo religioso. O inglês Isaac Stella procura elevar
seu pensamento até Deus através de uma análise dialética, partindo da noção de substância de
uma análise dialética, partindo da noção de substância.
Esta parte de metafísica é o tipo perfeito de uma teologia fundada sobre a
noção de Deus como essência pura. A carta de Isaac: Epistola ad quendam familiarem suum
de anima é digna de menção porque é um verdadeiro tratado sobre a alma pela minuciosa
descrição das faculdades dela. Para Isaac existem três realidades: o "corpo", a "alma" e

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"Deus"; nós não conhecemos a essência de nenhuma delas, mas conhecemos a alma menos
que o corpo, e o corpo que Deus. A Alma, colocada entre Deus e o corpo forma algo com um
e outro e pela sua situação intermediária ela apresenta a imaginação, e sensibilidade, a
inteligência e é apresentada com Deus que é a verdade.
Entre as duas faculdades extremas: corpo e Deus se dispõem todas as outras
segundo uma ordem ascendente a partir do corpo. Sem corpo, "imaginação", "razão",
"intelecto", "inteligência". Esta como que Teoria do Conhecimento de Isaac está longe da que
propôs Santo Tomás. Por intelecto Isaac entende a faculdade da alma capaz de abstrair as
formas das coisas e por inteligência a faculdade de conhecer tão só o Ser "Supremo" e "puro",
incorporal que é Deus.
Percebe-se que a concepção de inteligência lhe vem de Boécio. Através de
Santo Agostinho ele herda a capacidade de receber a iluminação divina e chegar à fonte da
verdade; através de Escoto Erígena (século IX) ele herda as teofanias, revelações da
divindade, manifestações de Deus e nesta luz divina das teofanias, o conhecimento de toda
verdade é herdado. E para explicar o conhecimento do que nos cerca forçoso é buscar um
intermediário que é Deus.
E quem não vê aqui as raízes do ontologismo do Malebranche quando afirma
que em Deus vemos as idéias eternas de tudo que é. "nous voyons toutes chose em Dieu".
Sintetizando diremos que a Mística Especulática do Século XII surge como
uma alternativa para fugir da pesquisa racional exagerada, admitindo uma comunicação direta
entre o homem e Deus a fim de se conhecer a verdade.
10 de Setembro de 2001.
José Curi.

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