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A Doutrina do Cooperativismo:

Análise do Alcance, do Sentido e


da Atualidade dos seus Valores,
v.3, n.2, jul./ dez. 2012
Princípios e Normas nos Tempos
ISSN: 1982-5447 Atuais
www.cgs.ufba.br The Cooperative Doctrine: Analysis of the Reach, the
Sense and the Actuality of their Values, Principles
Revista do Centro Interdisciplinar de Desenvolvimento and Norms at the Present Times
e Gestão Social - CIAGS & Rede de Pesquisadores em
Gestão Social - RGS La Doctrina de las Cooperativas: Análisis del Ámbito
de Aplicación, de su Sentido y de la Actualidad de
sus Valores, Principios y Normas en los Tiempos
Actuales

José Odelso Schneider (PPGCS/UNISINOS)*

*Doutor em Ciências Sociais pela Facoltà di Scienze Sociali da Pon-


tifícia Università Gregoriana de Roma.(FSS/PUG). Professor do Pro-
grama de Pós-Graduação em Ciências Sociais da Universidade do
Vale do Rio dos Sinos (PPGCS/UNISINOS) e Professor Visitante na
FSS-PUG de Roma. É jesuíta.
Endereço: UNISINOS/Centro de Ciências Humanas/Instituto Hu-
manitas Unisinos, Av. Unisinos, 950, Caixa-postal 275, Cristo Rei,
CEP: 93020-000, Sao Leopoldo/RS
E-mail: odelso5@gmail.com

Resumo a uma reflexão atualizada sobre os valores e


princípios cooperativos, procurando resgatar
O presente artigo pretende fazer alguns aspectos históricos do cooperativismo e,
uma interpretação histórico-doutrinária, ao mesmo tempo, situando-os no contexto atual
hermenêutica e etimológica, tentando ir até as de tantas mudanças e desafios 2.
raízes de alguns conceitos e termos da doutrina
do cooperativismo, particularmente, de seus Palavras-chave
valores, princípios e normas. Com a contribuição
de alguns clássicos da história e doutrina do Cooperativismo. História cooperativa.
cooperativismo1, lidos, discutidos e assimilados Doutrina cooperativa.
ao longo dos anos, pretende-se captar o espírito
mais profundo que anima e manifesta o potencial
de mobilização e adesão próprio da doutrina Abstract
cooperativista, analisando o alcance, o sentido
e a atualidade dos seus valores, princípios e The present article pretends to make a historical-
normas nos tempos atuais. O estudo visa, à luz doctrinary , hermeneutic, and ethimological
de uma perspectiva ideológico/doutrinária, interpretation, trying to go to the very roots

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of some concepts and terms of the doctrine Palabras clave


of cooperativism, in particular of its values,
principles and norms. With the contribution of Cooperativa. Historia cooperativa. La
some classical authors of the history and doctrine doctrina cooperativa.
of cooperativism, read, discussed and assimilated
along the years, we pretend to capture the more
profound spirit that animates and manifests the Introdução
potential of mobilization and adhesion proper
Ao tratar da doutrina do cooperativismo
to the cooperativist doctrine, and pretends to
e de sua adequação aos tempos atuais, convém
capture the most profound spirit that animates
frisar e ter presentes algumas considerações
and manifests the potential of mobilization and
introdutórias.
adhesion proper to the doctrine of cooperativism,
Os aspectos econômicos, administrativos
analyzing the reach, the sense and the update of
e técnicos são extremamente importantes
its values, principles and norms in our times.
em qualquer contexto, também no contexto
cooperativo. A maioria dos fracassos nas
Keywords
organizações cooperativas não se deveu,
Cooperativism. Cooperative history. provavelmente, à falta de espírito cooperativo,
Cooperative doctrine. mas sim, à falta de visão empresarial, de
conhecimento do mercado e de visão técnico-
administrativa. A cooperativa não é uma entidade
beneficente ou filantrópica, mas é sempre uma
Resumen
empresa. Quando a cooperativa fracassa como
Este artículo tiene la intención de llevar empresa econômica, fracassa igualmente na sua
a cabo una interpretación histórica y doctrinal, pretendida projeção social e humana, arrastando
hermenéutica y etimológico, tratando de ir a las consigo o descrédito da instituição.
raíces de algunos conceptos y términos de la Porém, ao analisar o conceito “empresa”,
doctrina de las cooperativas, en particular, de sus é importante enfatizar que a cooperativa é
valores, principios y normas. Con la contribución sim uma empresa, mas é diferente das demais
de algunos de los clásicos de la historia y la empresas do mercado; pois como empresa, ou
doctrina de las cooperativas, leído, discutido empreendimento econômico, no seu sentido
y asimilados a lo largo de los años, tenemos la genérico, ela
intención de capturar el espíritu que anima y é uma unidade de produção na qual
muestra el potencial de movilización y adhesión se combinam os diversos fatores
a la doctrina cooperativa, analizando el alcance, produtivos para o fornecimento de bens
significado y actualidad de sus valores, principios ou de serviços à comunidade. Os fatores
produtivos são: o trabalho, a direção e
y normas en los tiempos actuales. El estudio
o capital, compreendendo instalações,
pretende iluminar el punto de vista ideológico equipamentos, energia e matéria-prima.
/ doctrinal, una reflexión actualizada sobre (MEC-FENAME, 1972, 265).
los valores y principios cooperativos, tratando
de rescatar algunos aspectos históricos de la A empresa pode ser destinada a
cooperativa y, al mismo tiempo, situándolas en produzir bens de capital ou de consumo, tais
el contexto actual de muchos cambios y desafíos. como empresas agrícolas ou industriais. Pode,
igualmente, produzir serviços, tais como as
empresas de transporte, empresas bancárias

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e comerciais. Quanto ao seu estatuto jurídico, relevância da dimensão econômica e empresarial,


ela pode ser pública e estatal; social, quando os aspectos doutrinários e ideológicos assumem
apropriada igualitariamente pelos membros grande destaque no processo da cooperação
de uma comunidade, como no caso de uma cooperativa. A Doutrina ou Ideologia é
cooperativa; privada, quando é apropriada por
um sistema de ideias e juízos, explícito
uma pessoa ou grupo; ou mista, no caso em que e geralmente organizado, destinado
combinam as formas precedentes. Quanto ao seu a descrever, explicar, interpretar ou
contrato social, as empresas apresentam uma justificar a situação de um grupo ou de
grande variedade de formas, dentre as quais, as uma coletividade, e que, inspirando-se
mais importantes são as sociedades anônimas, amplamente em valores, propõe uma
orientação precisa à ação histórica desse
as companhias com responsabilidade limitada grupo ou dessa coletividade. (ROCHER,
e as sociedades cooperativas orientadas pela 1971, p. 204-205).
solidariedade e ajuda mútua (MEC-FENAME,
1972). A ideologia, ao adotar a forma de um
A cooperativa é uma entidade que, à sistema de ideias e juízos, apresenta-se sob o
semelhança de qualquer empreendimento aspecto da racionalidade e, por coerência, assume
econômico, deve pautar-se pela racionalidade a forma de doutrina. A ideologia constitui-se num
econômica, com clara definição dos objetivos e poderoso fator dinâmico, porque esclarece as
meios, e que demanda disciplina interna, ordem, situações no complexo ambiente da realidade
planejamento, uso adequado dos recursos e econômica e social, dá sentido à ação, acena para
hierarquia na busca dos seus objetivos. Busca a realidade dos limites, e infunde segurança. A
resultados econômicos, segundo critérios ideologia é um convite ao “Nós”, induz a formar
de crescente produtividade e qualidade Em um grupo ou movimento no qual as pessoas se
função disso, deve assegurar a capitalização identificam e propõem uma ação comum. A
da cooperativa, seja através de estratégias de ideologia não somente expressa juízos de fato,
autocapitalizaçao, seja pelo acesso ao capital mas, também, juízos de valor. A ideologia aponta
de terceiros, porém, sem comprometer a sua objetivos, indica os meios de alcançá-los, mostra
autonomia. o processo a seguir, desenha um futuro possível
O diferencial cooperativo é que tal e suscita novas esperanças. Situa-se na linha do
empresa está a serviço de uma “associação de dever ser, apontando para comportamentos e
pessoas”, que como entidade social coletiva opta práticas recomendáveis para a consecução dos
por privilegiar a cooperação, a solidariedade e a objetivos que ela abraça.
ajuda mútua entre eles; dirige, controla a empresa Compreendida nestes termos, a ideologia
e dela demanda não a busca incondicional do é um poderoso motor de mudança social que
lucro, mas, sim, a busca da eficiência e eficácia pode suscitar novas esperanças e sustentar apoios
que redundem em crescente satisfação das importantes em prol do bem comum. Portanto,
necessidades e do bem-estar de seus associados/ como os princípios e a filosofia cooperativa se
coproprietários. Enquanto associação de pessoas, inserem dentro de uma perspectiva ideológica,
a empresa cooperativa segue uma “racionalidade pode deduzir-se a importância dos mesmos.
social” que, segundo os exigentes parâmetros Segundo Gutenberg (1964),
da racionalidade, requer a constante busca da há princípios de atuação político-
eficiência social e o benefício de todos, conforme empresarial que têm validez para todas
os critérios de operacionalidade e lealdade de as empresas, seja qual for o sistema
econômico em que se desenvolva a
cada associado. empresa. Mas, há também, princípios
Entretanto, embora reconhecendo a que somente podem conceber-se no

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sistema econômico correspondente prática cooperativa, mesmo na mais evoluída.


dentro do qual ocorre a atividade
produtiva. Os valores do cooperativismo,
seus princípios e processos enunciados
em primeiro lugar os consideramos 1. Cooperativismo: origens, evolução,
independentes do sistema econômico.
As do segundo grupo estão vinculadas características e princípios
ao sistema. (GUTENBERG, 1964, p. 237).
O cooperativismo deve sua origem ao
Portanto, é científico falar de empresa movimento operário e a um movimento de ideias.
capitalista, coletiva ou cooperativa. Todas têm A cooperação, como forma de ajuda mútua,
características indiferentes em relação ao sistema, esteve presente ao longo de toda a história da
e outras que são determinadas pelo sistema em humanidade, tanto na Antiguidade mais remota,
que se inserem. quanto no tempo do Império Romano, na Idade
A doutrina cooperativa situa-se na linha Média e no início da Idade Moderna. Porém,
do dever ser, não numa dimensão impositiva, a cooperação mais sistemática nasce com as
mas como um apelo às consciências, próprio cooperativas modernas. Estas surgem num
da educação em prol da solidariedade, para se momento em que o espírito de solidariedade
optar por uma proposta comportamental na sua havia desaparecido quase por completo na fase
atividade econômica e social, que conduza a uma mais voraz e selvagem do começo do capitalismo
sociedade e a um sistema econômico alternativo, industrial. As cooperativas surgem como uma
mais solidário, justo, autônomo, democrático e reação emancipadora e uma resistência do
participativo. O elenco de valores, princípios e mundo operário e camponês à grave situação de
normas que tal doutrina propõe é um paradigma exploração durante a primeira fase da Revolução
que ajuda a orientar a ação dos cooperadores no Industrial, quando o liberalismo de então era
seu empenho em prol da realização dos objetivos contrário a qualquer forma de associação
da cooperação. profissional, que visasse à defesa dos interesses
Portanto, a proposta doutrinária de classe (Lei Chapellier, na França, em 1791 ).
do cooperativismo não expressa o que o O capitalismo industrial verificou êxitos
cooperativismo já é aqui e agora no seu real econômicos espetaculares, progressos técnicos
devir histórico, com suas vantagens, qualidades, sempre renovados, um aumento vertiginoso
defeitos e desvirtuações, mas sim, o que pretende da produção/produtividade, uma grande
ser a médio e a longo prazo. A prática real e flexibilidade e abertura às inovações tecnológicas,
cotidiana do cooperativismo mostrará muitas uma capacidade para a abertura e expansão
imperfeições, desvios, lacunas e omissões em dos mercados, bem como um enorme aumento
relação ao seu conteúdo normativo. Porém, os de bens e serviços materiais em benefício do
aspectos negativos de sua prática não invalidam homem.
a riqueza do conteúdo normativo, bem como Contudo, o balanço negativo de tal
a proposta de estruturar um empreendimento sistema não foi menos espetacular, ao destruir
econômico e social participativo e solidário, mas, a antiga estrutura econômica e social artesanal
na verdade, são estímulos para a sua progressiva e da pequena produção e desapropriar os
correção, quando os esforços de melhoria se artesãos e trabalhadores de seus instrumentos
realizam à luz do paradigma axiológico, que de produção, mergulhando-os numa terrível
serve de guia, de norte para a ação. Sem este miséria, exploração e dominação. O sociólogo Ralf
paradigma, são inúteis, dispersivos, meramente Dahrendorf (1965) sintetiza em cinco fenômenos
conjunturais, os inevitáveis esforços de correção a expressão da desorganização que o capitalismo
de rumo das distorções que ocorrem em qualquer originou nos diversos domínios da vida social:

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1) Na transformação de sociedades profundas aspirações e a mesma concepção de


de classes ou de castas relativamente vida.
fechadas em sociedades de classe
Mas, o que distingue as cooperativas de
abertas e permeáveis à mobilidade
social. 2) Na ruptura das hierarquias outras formas de ação operária é seu caráter
tradicionais de condição e a igualação emancipacionista e essencialmente construtivo,
de todos os trabalhadores assalariados. de baixo para cima, em contraposição aos
3) Na criação de uma situação de aguda sindicatos, que são organismos de defesa e de
inadaptação e de alienação para o
reivindicação junto ao regime capitalista, ou
trabalhador inicialmente estranho à
indústria. 4) Na provocação de situações aos partidos socialistas que tentam atuar como
crescentes de miséria social, em especial poder político. Uma segunda fonte de inspiração
entre os trabalhadores industriais. 5) do fenômeno cooperativo é o movimento de
Na oposição crescente das classes, ideias. Normalmente, junto aos movimentos
permanentemente agudizada por todas
populares aparecem as “elites” do pensamento
as circunstâncias mencionadas, entre
os empresários e os trabalhadores. que configuram e dão forma a esses movimentos,
(DAHRENDORF, 1965, p. 68-69). de forma frequente, anárquicos.
No início da Revolução Industrial, muitos
As condições miseráveis e desumanas, pensadores procuraram apresentar soluções à
unidas a escandalosos contrastes com a “questão social” de então. São os precursores
burguesia, originaram o movimento operário. do cooperativismo moderno. Entre eles, estão
Após haver buscado em vão um remédio para o industrial e precursor, também, da legislação
sua situação em várias direções - agarrando-se trabalhista e previdenciária, Robert Owen; o
a velhos regulamentos das corporações de ofício “médico dos pobres” William King, fundador
próprios da Idade Média e do início dos Tempos de muitas cooperativas de consumo no período
Modernos e Renascentistas, aderindo a elas ou entre 1827 e 1840 - ambos na Inglaterra; e
deixando-se levar pelo desespero do motim -, os na França, o Conde de Saint-Simon, Pierre
trabalhadores compreenderam paulatinamente Proudhom, Charles Fourier, Michel Derrion,
que era necessário uma profunda mudança da Louis Blanc e Philippe Buchez. Todos eles se
ordem social e que sua única arma - já que não insurgem contra as desigualdades sociais
possuíam capital, nem cultura nem a legalidade geradas pelo capitalismo e destacam a ideia de
(tudo isso estava do outro lado) - residia na associação como ação emancipadora da classe
associação, graças à qual seu número podia trabalhadora, em que se organizam os interesses
transformar a debilidade em força. (LASSERRE, da classe trabalhadora por meio da autoajuda e
1972). não a partir do poder político. Todos pleiteiam,
Portanto, a força dos operários estava na também, a subordinação do capital ao trabalho,
associação. Inicialmente, porém, as associações bem como a eliminação do lucro como objetivo
eram, ao mesmo tempo, partido, sindicato e e motivação última da atividade econômica. Nas
cooperativa. Progressivamente, o movimento organizações cooperativas e solidárias, o lucro
operário se diferenciou em três ramos principais: é transformado em “excedente”, como meio e
o sindicato, no campo trabalhista; o socialismo, não como fim e motivação última e exclusiva
no plano político e; o cooperativismo, como uma da atividade econômica. Visa-se a construção
estrutura socioeconômica. O cooperativismo de uma economia de serviços para satisfazer as
nasceu, pois, no mesmo meio social, na mesma reais necessidades das pessoas, Todos estes são
época, da mesma miséria proletária e da mesma aspectos indispensáveis a qualquer atividade
opressão, sob o impulso do mesmo espírito que o econômica, bem como à organização cooperativa
sindicalismo e o socialismo. Expressa as mesmas de toda a economia, baseada na democracia,

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eqüidade e solidariedade. e de associados, hoje são os demais continentes


Como no cooperativismo sempre existiu que contam com a maioria de cooperativas e
uma estreita união entre a ideia e a ação, os de associados. São, particularmente, os países
pioneiros na Inglaterra, com a cidade de Rochdale do Terceiro Mundo, entre eles os considerados
à frente na criação de cooperativas de consumo, emergentes que, em época recente, apresentam
na França, com os iniciadores das cooperativas de as maiores taxas de crescimento de cooperativas
consumo e de produção industrial e, na Alemanha, e de associados 3.
com a fundação dos vários tipos de cooperativas Esse rápido desenvolvimento do
de crédito, de 1847 em diante, ao mesmo tempo cooperativismo permite concluir com Boudout
que traçaram as linhas ideológicas do movimento (1970, p. 226) que a cooperação, “pela força
cooperativo, deram-lhe sua configuração prática. econômica que representa, pela vitalidade e o
E isso ocorreu particularmente durante a militantismo dos homens que a animam, é uma
“faminta” década dos anos 40 do século passado, das forças do mundo contemporâneo”.
uma década de aguda crise econômica e social Sendo uma doutrina importante,
em toda a Europa. cabe perguntar: quais são as características
Entre os fundadores das cooperativas, fundamentais do cooperativismo, seus elementos
destacam-se os pioneiros de Rochdale como essenciais ou seus princípios de base?
principal ponto de partida do cooperativismo Embora a maioria dos autores situe o
moderno. Na localidade de Rochdale, Inglaterra, núcleo doutrinal nos pioneiros de Rochdale,
os 28 tecelões, a partir de uma situação de greve importa enfatizar que eles constituem apenas o
e de demissão em massa, em plena crise de núcleo originário, pois hoje a Aliança Cooperativa
desemprego dos anos 40, começam a esboçar, Internacional, que associa a maior parte das
desde o final de 1843, o que em dezembro do ano cooperativas de todo o mundo e de todos os
seguinte se traduziria na cooperativa de consumo ramos ou setores (com sede, inicialmente,
que, na sobriedade operária, surgiu pequena e em Londres e, desde 1980, em Genebra), é a
modesta, e desenvolveu-se ininterruptamente encarregada de manter os princípios essenciais
até nossos dias. A transcendência de sua iniciativa e adaptar os demais às circunstâncias mutáveis
tornou-se inquestionável. Em seus estatutos, e às peculiaridades de cada região e cultura.
pensados e definidos de forma coletiva e grupal Segundo a Comissão Especial encarregada de
ao longo de um ano, os 28 pioneiros codificaram dar um parecer qualificado sobre os princípios
os valores, princípios e métodos essenciais do cooperativos para o Congresso da ACI, em Viena
cooperativismo, os aplicaram com perspicácia em 1966, “esses princípios não estão associados
excepcional e os propagaram com êxito. arbitrariamente ou por azar, mas formam arte de
Como herança do legado dos pioneiros, um sistema e são inseparáveis” (ACI. 1966 ).
a cooperação passa a adquirir cada vez mais Portanto, outras entidades podem
importância, tanto nos países desenvolvidos, seguir isoladamente um ou outro dos princípios
especialmente nos nórdicos, quanto nos países cooperativos, mas são as cooperativas que as
do Terceiro Mundo, tanto em economias de adotam em seu conjunto, como um sistema
mercado quanto em economias centralmente integral, dando-lhe coerência interna. .
planejadas. A modesta origem dos 28 pioneiros, Consequentemente, foram os Pioneiros que
já no início da segunda década do século XXI,
fizeram uma síntese original destes
traduz-se hoje em aproximadamente 1 a 1,2 princípios, dando-lhes sua expressão
bilhões de associados de cooperativas espalhados definitiva; além disso, os aplicaram com
pelos cinco continentes. Se, até 1960, a Europa o êxito conhecido, e desenvolveram um
tinha a hegemonia em número de cooperativas papel relevante no desenvolvimento da

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cooperação na Grã-Bretanha. Por isso, é através de uma empresa comercial.


com justiça que a tradição faz partir deles Da definição da ACI decorrem quatro
o impulso decisivo das cooperativas no
aspectos essenciais:
mundo. (Lambert, 1975, p.57).
a) Há dois elementos fundamentais que
Ao tratar das origens do cooperativismo,
constituem uma cooperativa: um
Gide entende que “a idéia cooperativa não é
elemento social ou associação de pessoas.
uma teoria de gabinete; saiu da prática da vida e
Uma cooperativa não é uma sociedade de
das necessidades da classe operária. Não surgiu
capital, mas uma associação de pessoas;
num belo dia do cérebro de alguns sábios; sai das
e um elemento econômico, ou seja, uma
próprias entranhas do povo” (Gide, 1974, p. 27).
empresa comum. O objetivo da associação
Embora tenham verificado adaptações às
é criar uma empresa econômica comum,
diferentes épocas, como ocorreu nos Congressos
cujos titulares e responsáveis são os
da ACI em 1937 em Paris, em 1966 em Viena e
associados.
em Manchester em setembro de 1995, “longe de
terem envelhecido, os princípios de Rochdale, em b) A finalidade é a melhora econômica e
tudo o que eles têm de essencial, representam a social de seus membros. As cooperativas
Juventude e a esperança da civilização nos dias de são formas construtivas para fazer
hoje” (LAMBERT, 1975). frente a necessidades e carências socio-
Antes de expor os princípios, importa dizer econômicas e, de maneira especial, às
em que consiste a sociedade cooperativa. O Art. 8º originadas pelo sistema capitalista.
do estatuto da ACI afirma que “será considerada
como sociedade cooperativa, qualquer que seja c) A ajuda mútua deve ser condição básica. A
sua estrutura legal, toda associação de pessoas ou autoajuda e a ajuda mútua são as bases
de sociedades que tenha por objetivo a melhoria essenciais de toda entidade cooperativa.
econômica e social de seus membros por meio da A autoajuda é herança do pensamento
exploração de uma empresa, baseada na ajuda liberal, que defende a autonomia e a
mútua e nos Princípios Cooperativos, tal como criatividade da pessoa, a ajuda mútua
foram estabelecidos pelos Pioneiros de Rochdale procede do pensamento socialista da
e reformulados pelo 23º Congresso da ACI” (ACI, época. A feliz combinação das duas, permite
1966). realizar verdadeiros saltos qualitativos na
Já segundo Charles Gide, professor realidade social, verdadeiras “mutações
de economia política em Lyon e depois na sociais”. A autonomia, tão defendida pelo
Universidade de Paris, e um dos primeiros cooperativismo, decorre desta atitude.
sistematizadores da doutrina cooperativa, numa O cooperativismo quer nascer, crescer
época em que as cooperativas de consumo eram e expandir-se de forma autônoma,
as mais conhecidas, declara que uma associação sem paternalismos ou ingerências do
de consumo “é uma associação de operários poder público ou de outros poderes.
desejosos de trabalhar em comum em prol de O cooperativismo aceita e, às vezes,
sua própria emancipação e a de seus irmãos, até reclama a colaboração do poder
esforçando-se por constituir o capital necessário público, mas desde que o respeite na
para um procedimento menos oneroso e mais sua especificidade e autonomia. Desde
explícito” (GIDE, 1974, p.22). Na mesma obra, o começo, o cooperativismo buscou
igualmente, conceitua que uma cooperativa é sua força na união. Isso exige uma
um agrupamento de pessoas, procurando fins participação ativa dos seus reais donos,
econômicos, sociais e educativos em comum, os associados, nos aspectos societários, e

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uma colaboração eficaz na tarefa comum. para ela é importante, decisivo, inquestionável.
Um valor não existe em si mesmo, mas trata-se
d) E tudo isso inspirado nos valores e princípios de um modo de ser, de pensar e de agir de uma
cooperativos. Porém, não basta o mero pessoa ou de um grupo, com características de
cumprimento de princípios e normas. fortes convicções, que não retrocede diante
Além deles, deve haver um espírito, uma de qualquer obstáculo ou atração que lhe seja
cultura cooperativa. As normas são a contrária ou a impeça de atingir a meta desejada.
concretização do espírito cooperativista. Valores assumidos com convicção são capazes de
“transportar montanhas” e, no cooperativismo,
Entende-se o termo espírito cooperativo
são capazes de motivar as pessoas e suas
como os valores espirituais e sociais do
lideranças para andarem contra a corrente
cooperativismo, os quais os princípios e as normas
avassaladoramente hegemônica e dominante,
devem aplicar. Para Drimer (1973, p. 28,29), o
própria da ideologia individualista e competitiva do
espírito cooperativo inclui os seguintes valores:
capitalismo de mercado! A conduta humana está
definitivamente determinada por valorizações.
• Esforço próprio e ajuda mútua como A pessoa e um coletivo de pessoas com valores
condição para a autonomia. comuns são aqueles que orientam suas atitudes,
• Solidariedade e cooperação entre associados tendo como base hábitos valorativos, que tem
e entre cooperativas. um modo de ser e de agir valorizado, porque
se valoriza a pessoa e o grupo e se valoriza o
• Igualdade, democracia e participação. que está fora deles. Ser e Valor não existem
• Justiça nas normas, equidade e liberdade. separadamente, podendo-se, portanto, concluir
que um valor é um atributo do ser humano que
• Promoção humana e educação cooperativa.
atingiu sua identidade (MAROCCO, 2008).
• Coincidência com os interesses gerais da Os valores constituem as “ideias-força” a
comunidade. partir das quais emanam a energia motivadora e
• Mutualidade, retribuindo a cada qual a inspiração para a ação cooperativa, que é regida
segundo o esforço dispensado. por princípios. Sem os valores, o cooperativismo
tornar-se ia um sistema e movimento estéril e
Os valores são ideias e diretrizes essenciais vazio de sentido. Os princípios inspiram-se nos
ao processo da cooperação. Na perspectiva da valores e deles adquirem sua força e sentido. Os
Moral Social, valores são o sol que ilumina e aquece os princípios
valor significa o preço que, do ponto e as normas. Os valores, sendo essenciais, são
de vista normativo, se julga dever ser mais universais e permanentes na história do
pago por um objeto ou serviço (...) Movimento Cooperativo. Tanto é assim que os
Em filosofia, o termo refere-se a uma valores propostos há 168 anos pelos Pioneiros,
propriedade das coisas, pela qual elas
representam o objeto de estima ou
ainda hoje são os mesmos e reconfirmados pelos
de desejo de uma pessoa ou de um Congressos da ACI em Estocolmo, em 1988, e
grupo, ou pela qual elas satisfazem um em Tóquio, em 1992. Quanto aos princípios, já
determinado fim. (MEC-FENAME,1972, se realizaram três alterações ao longo de todos
p. 670). esses anos.
Os princípios, embora menos essenciais,
A pessoa que se conduz por convicções menos universais e permanentes do que os
reconhecidas como sendo um valor, não admite valores, são, contudo, necessários para o bom
pensar ou agir de modo que contrarie o que andamento do processo cooperativo. Ao longo

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da história do cooperativismo, os princípios ninguém se pode obrigar a fazer parte de uma


já sofreram algumas modificações, mas sem cooperativa. O indivíduo é livre e consciente para
descaracterizar o modelo rochdaleano, num associar-se, em igualdade de condições com os
esforço de adequá-los às peculiaridades de cada outros, sem imposições legais ou pressões para
época, particularmente as introduzidas pelo associar-se. Deve igualmente ter liberdade de
Congresso da Aliança Cooperativa Internacional sair da cooperativa. Portanto, as cooperativas
em 1937, em Paris, em 1966, em Viena e, em são associações voluntárias, em contraposição às
1995, no Congresso Internacional da ACI, em naturais, como a família ou o município.
Manchester, Inglaterra. O princípio se baseia na dignidade e
As normas, como, por exemplo, a de “um liberdade da pessoa humana, sem discriminações
homem, um voto”, ou a das “portas abertas”, políticas, ideológicas, religiosas, raciais, sociais ou
são preceitos mais específicos e concretos sexuais (no Congresso da ACI em Paris, em 1937,
que decorrem de um ou outro dos princípios o 5º princípio aprovado foi o da indiscriminação
da cooperação. As normas são mais flexíveis política, religiosa e racial). Considera os
e mensuráveis do que os princípios na sua associados como politicamente maduros,
adequação aos diversos contextos históricos e autônomos e não como pessoas necessitadas de
culturais. apoios paternalistas, mas sim, como donos do seu
próprio destino (COADY, 1939). Nessa perspectiva,
valoriza-se a autoajuda, embora não se exclua a
1.1 Os princípios cooperativos ajuda exterior (privada ou estatal), desde que não
envolva sujeição ou subordinação.
O espírito e os valores cooperativos Portanto, esse princípio pressupõe
materializam-se em uma série de princípios, duas formas de liberdade: a liberdade de
que já foram reformulados três vezes pela ACI, associação e a liberdade de constituir uma
mas sempre procurando ser fiéis ou em retomar empresa. A voluntariedade na adesão é
aspectos de uma tradição que provém do condição indispensável para o pleno exercício
Pioneirismo Cooperativo, tanto do cooperativismo da democracia cooperativa e para assumir um
de consumo quanto o dos outros ramos ou compromisso pessoal e as responsabilidades na
setores cooperativos. Eis a formulação atual dos gestão da empresa.
princípios, tais como definidos em Manchester b) Adesão consciente significa que a
em setembro de 1995: pessoa desejosa de filiar-se a uma cooperativa,
deve saber, prévia e claramente, a que tipo de
Princípio da Adesão Voluntária, entidade irá filiar-se, quais são suas características
Consciente e do Livre Acesso (1 Princípio)
o
específicas, quais os direitos, quais os deveres
ou as responsabilidades de cada associado e do
As Cooperativas são organizações
coletivo de associados.
voluntárias abertas a todas as pessoas aptas para
Caso tal filiação se der de forma
usarem seus serviços e dispostas a aceitarem suas
inconsciente, o associado novato pode ser
responsabilidades de sócios, sem discriminação
surpreendido com responsabilidades que não
de gênero, social, racial, política ou religiosa.
está disposto ou preparado a assumir, e caso
Esse princípio trata de estabelecer os permanecer na cooperativa com essa atitude,
critérios básicos das relações do associado com pode tornar-se um membro negativo, peso morto,
a cooperativa e da cooperativa com o associado e ou alguém que quer apenas usufruir de vantagens
de harmonizar essas relações. às custas do esforço dos outros, sem dar nada de
a) A adesão voluntária significa que a pessoal em contrapartida aos benefícios recebidos

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graças ao empreendimento coletivo. Sem adesão cujos membros têm pleno emprego, legitimando-
consciente, não saberá avaliar a importância se um período de prova, para se certificar das
dos compromissos a assumir com a democracia aptidões técnicas necessárias e da solicitude
participante, não saberá avaliar a relevância da pelos interesses coletivos da cooperativa.
autoajuda na base da ajuda mútua, bem como Contudo, as restrições devem ser naturais
manterá uma atitude passiva, imediadista e e não artificiais. A Comissão mencionava duas
paternalistas, esperando sempre que “terceiros” classes de limitações que devem ser evitadas:
ou o poder público assumam os riscos e custos do as econômicas, ou seja, a exigência de quotas
empreendimento, riscos e custos que cabem a ele de entrada tão elevadas que exclua uma grande
assumir como real dono e usuário da cooperativa. parte dos associados potenciais; e as ideológicas,
A adesão consciente supõe, portanto, uma sob cujo nome engloba as restrições políticas,
preparação prévia dos candidatos a associados, religiosas, raciais, sociais etc.
antes que se formalize o seu ingresso, ou seja, A liberdade de se retirar da cooperativa
requer a educação/formação prévia sobre os é uma decorrência lógica e inseparável da
aspectos essenciais da associação/empresa voluntariedade. Porém, tal como existe
cooperativa. a liberdade de se retirar, cabe também à
c) O princípio do livre acesso diz respeito cooperativa o direito de expulsão/exclusão contra
não à adesão do associado, mas da admissão por os que operarem contra seus interesses ou seus
parte da cooperativa. É o que alguns chamam de objetivos. Os estatutos devem prever as formas
princípio de liberdade de admissão, ou o princípio de procedimento para tanto.
de portas abertas. Significa a obrigação de a
cooperativa admitir quem reúna as condições Princípio da Gestão e do Controle
para se somar aos objetivos da entidade. Democrático por parte dos Sócios (2o Princípio)
Todos podem ser associados de As cooperativas são organizações
uma cooperativa, ou seja, todos os que têm democráticas controladas por seus sócios, os
necessidade de soluções coletivas para enfrentar quais participam ativamente no estabelecimento
os problemas e desafios, estejam dispostos a de suas políticas e nas tomadas de decisões.
assumir as responsabilidades de sócios e de Homens e mulheres, eleitos como representantes,
cumprir com as exigências estatutárias. O mérito são responsáveis para com os sócios. Nas
deste princípio reside no fato que é sinal visível cooperativas de primeiro grau (singulares), os
de altruísmo e condição de um dinamismo e de sócios têm igualdade de votação (um sócio, um
um desenvolvimento progressivo e um meio para voto); as cooperativas de outros níveis também
a conquista de crescentes espaços na economia. são organizadas de maneira democrática.
Combate o possível exclusivismo dos sócios
fundadores, que podem ser tentados a encerrar- Esse princípio é essencial à organização
se em uma situação privilegiada e negar-se a cooperativa. Segundo Lambert (1975, p. 58)4,
ampliar sua base humana. Permite cumprir com “O princípio da democracia é fundamental à
a função social da propriedade. cooperativa. Através dele se distingue claramente
Esse princípio não se opõe ao direito da a empresa cooperativa da empresa capitalista”.
cooperativa em selecionar os sócios, ou seja, Para o autor, a democracia
em admitir os que deem garantias de lealdade à responde ao mesmo tempo: ao sentido
organização. A Comissão da ACI de 1966 adverte do valor da pessoa, fundamento do
que o princípio da livre adesão não pode ser poder, e da igualdade profunda dos
absoluto. Expressamente justifica uma restrição homens; à exigência de justiça, já que dá
maior para as cooperativas operárias de produção, a cada um o mesmo meio de promover

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esses interesses; à solidariedade, já que é a harmonização da organização democrática


se trata de abrir passos ao interesse com as exigências técnicas e econômicas da
coletivo e em que cada qual tem o dever
dimensão empresa, em que, às vezes, podem
de contribuir nessa busca. (LAMBERT,
1975, p. 308). confiar-se demasiadas atribuições e poderes
a executivos e profissionais para a tomada de
Uma das características que diferencia decisões importantes. Para que a democracia seja
a cooperativa da empresa capitalista é efetiva, é preciso evitar que o poder da política
precisamente o seu caráter democrático. Na cooperativa seja açambarcado pelos executivos e
sociedade anônima, cada ação dá direito a um técnicos contratados e não eleitos.
voto, o que converte os proprietários de grandes Portanto, a participação no governo da
ações em donos práticos das empresas. Ao cooperativa realiza-se não somente pelo exercício
contrário, nas cooperativas, são os sócios que, do direito de escolher e ser eleito, mas também,
com plena igualdade de votos, dirigem a empresa pela possibilidade de informação, fiscalização e
e não o capital. Este fica subordinado ao trabalho crítica permanentes da gestão através dos canais
e elimina pela raiz a alienação do trabalho. competentes.
Prevalece nas cooperativas singulares Da observação anterior, deduz-se que
a norma de “um homem, um voto”. Algumas hoje, em vista da complexidade organizacional
cooperativas, entretanto, querem “classificar os de muitas cooperativas, do grande patrimônio e
associados” segundo o seu grau de fidelidade do considerável volume de recursos que muitas
nas operações com a cooperativa, ponderando cooperativas administram, é preciso aprofundar o
o voto segundo maior ou menor fidelidade, processo da “democracia eletiva”, que consiste na
prática, porém, que é questionada por alguns mera escolha democrática e livre dos dirigentes.
teóricos do cooperativismo. Porém, em qualquer Escolha esta que se dá, periodicamente, uma
dos casos, nunca se admitiu peso maior de voto vez ao ano, de três em três ou de quatro
ao associado que contribui com mais capital. em quatro anos, em direção à “democracia
A ACI reafirma a vigência da norma de “um fiscalizadora ou de monitoramento”. Esta envolve
homem, um voto” nas cooperativas singulares, o acompanhamento próximo, quase permanente,
primárias ou de base. A única exceção admitida das ações e decisões da administração cooperativa,
é em cooperativas de segundo e terceiro graus fiscalizando e cobrando da administração, sem
(federações, centrais e confederações), nas quais interferir no dia a dia do processo administrativo,
os sócios são entidades cooperativas, pessoas mas zelando para que as grandes linhas, os
jurídicas e não indivíduos concretos. A este nível principais objetivos e suas prioridades sejam
de participação, o voto pode ser proporcional, seja rigorosamente observados.
ao volume de operações das cooperativas de base O aprofundamento em direção à
com suas entidades integradas, seja proporcional “democracia fiscalizadora” requer muita educação
ao número de sócios da cooperativa de base. e capacitação do quadro social, para que, com o
Em outro caso, propõe-se a participação nas adequado conhecimento e informação gerencial e
assembléias gerais das entidades integradas de de mercado, possa efetivamente fiscalizar, sugerir
um (ou mais) “delegado à assembléia”, eleito pelos e apoiar quando preciso. Requer, também, que
associados das cooperativas de base que, junto o associado se mobilize e se organize ao nível
com o presidente da cooperativa, a representará de pequenos grupos de base, de núcleos, de
nas federações, centrais e confederações. Porém, comitês educativos, organizados por localidade,
sempre deve exercer-se a administração numa por tipo de produto, por especialidade, por
base democrática. bairro ou rua etc., em que o ambiente informal
Um grande desafio para as cooperativas e mais familiar de pequeno grupo lhe permita,

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de forma desinibida, participar, sugerir, apoiar, fundamental do cooperativismo, o princípio


criticar, fiscalizar quando preciso. Além disso, do juro limitado ao capital é o que, talvez, mais
os pequenos grupos são mais flexíveis quanto à diferencie o sistema cooperativo do sistema
fixação da frequência das reuniões necessárias capitalista. É essencial ao sistema cooperativista
para o desempenho de seus direitos e de suas mostrar a primazia do trabalho sobre o capital, ou
responsabilidades. a subordinação do capital ao homem. Portanto,
É recomendável complementar a o capital está excluído da participação nos
participação nos núcleos ou comitês de base com excedentes da cooperativa.
os conselhos de representantes, articulados no Concorrem para o financiamento da
âmbito municipal, no caso de a cooperativa ter uma empresa cooperativa três tipos de capitalização:
área de atuação que abrange vários municípios, e 1) o capital social que foi colocado pelos
estes, articulados num patamar superior, através membros da cooperativa; 2) o capital próprio da
do Conselho Geral de Representantes, que leva, cooperativa, constituído pelo capital fundacional
mensal ou trimestralmente, os pleitos das bases e a destinação estatutária de “fundos de
ao Conselho de Administração da Cooperativa. reserva ou de desenvolvimento”; 3) o capital de
Por seu turno, desde a cúpula da organização, faz terceiros, procedentes do governo ou de Bancos e
retornar as instruções às bases, num constante entidades financeiras privadas. Ao último, se deve
fluxo ascendente/descendente de comunicações, pagar o juro combinado ou de mercado, na hora
permitindo maior participação e transparência a de contrair o empréstimo. Portanto, o princípio
todo o processo. refere-se às duas primeiras formas de capital.
Porém, alguns negavam o caráter
Princípio da Participação Econômica do fundamental deste princípio, alegando que,
Sócio (3o Princípio) embora não houvesse nenhum juro para o
Os sócios contribuem equitativamente capital, ainda haveria cooperativa. De fato, não
e controlam democraticamente o capital de sua há obrigação de pagar um juro ao capital social.
cooperativa. Ao menos, parte deste capital é Mas se for estabelecido pagar um juro, exige-se
usualmente propriedade comum da cooperativa. que seja estritamente limitado, não especulativo,
Eles recebem uma compensação limitada, visando à salvaguarda do valor real do capital
se houver alguma, sobre o capital subscrito social investido pelos associados.
(realizado), como uma condição da sociedade. Outros sustentam que não há
Os sócios alocam as sobras para os seguintes incompatibilidade alguma entre a doutrina
propósitos: desenvolvimento da cooperativa, cooperativa e uma remuneração justa e
possibilitando o estabelecimento de reservas, razoável ao capital, já que este é um dos fatores
parte das quais poderão ser indivisíveis; retornos essenciais do processo econômico. De acordo
aos sócios na proporção de suas transações com com a segunda corrente, há uma razão mais
as cooperativas; e apoio a outras atividades que forte que é a do fortalecimento da autonomia
forem aprovadas pelos sócios. financeira da cooperativa, que requerem políticas
de remuneração atraentes para o capital e
Portanto, este princípio funde dois que motivem o associado a aplicar no sistema
princípios anteriores num só, próprios da cooperativo - se não todas, pelo menos, grande
declaração do Congresso da ACI em Viena em parte de suas poupanças -, evitando desviá-las
1966. Tal declaração propunha o seguinte: para o sistema financeiro capitalista concorrente.
Caso contrário, as cooperativas sempre estarão
i) Pagamento de juro limitado ao capital ameaçadas de carência de capital próprio,
Se a democracia econômica é o traço devendo depender, então, do capital de terceiros

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(do sistema financeiro estatal ou privado), o que que a noção de juros, que geralmente está ligado
pode constituir uma ameaça à sua autonomia ao tipo capitalista de repartição” (COLOQUE DU
e uma possível ingerência dos credores nos LIÈGE, 1967, p. 475).
assuntos internos da cooperativa. A autonomia Que normas devem seguir-se com a
financeira das cooperativas é a base das demais repartição dos excedentes? A razão de boa parte
formas de autonomia: política, administrativa e das lutas sociais reside na forma de destinação do
econômica. lucro. Deve-se destinar ao capital, ao trabalho ou
Os próprios Pioneiros de Rochdale, em a ambos? O capitalismo o destina integralmente
sua época, para terem boas condições de auto- ao capital. O cooperativismo exclui o capital da
capitalização, pagavam ao capital dos associados participação variável no resultado econômico,
5% de juros ao ano, quando as entidades fixando-lhe somente um juro limitado. O
financeiras concorrentes pagavam 3,5% de juros cooperativismo pretende um equilíbrio adequado
(BURR, 1965, p. 95). Talvez, resida nisso, além de entre a sociedade em seu conjunto e os interesses
outras providências, uma das principais razões do dos associados. Como adverte o Relatório da
êxito comercial e empreendedor da cooperativa Comissão da ACI:
pioneira.
Por um lado, deve mostrar-se prudência
Portanto, as cooperativas reconhecem o no plano dos negócios e, por outro,
direito de compensação ao capital, mas limitaram não afastar-se jamais de um espírito
esse direito. O capital está reduzido ao papel de de equidade. Se esquecem a primeira,
simples assalariado, com uma retribuição fixa - o enfrentarão dificuldades financeiras
juro, ao mês ou ao ano. Ao contrário, no sistema e econômicas. Se descuidam da
segunda, provocarão o ressentimento
capitalista, o capital paga ao trabalhador uma e a discórdia no seio de sua organização
retribuição fixa ao mês - o salário, ao esforço (GARCIA MUÑOZ, 1974, p. 224)
intelectual e físico por ele despendido.
Portanto, deve-se evitar, sempre, que
ii) Distribuição do excedente líquido na um dos membros ganhe à custa dos outros. E
proporção das operações quais são as normas quanto aos destinos dos
Esse princípio era complementar ao excedentes? São, fundamentalmente, três:
anterior, já que ambos se referem ao destino
dos possíveis excedentes gerados. É na opinião a) Reservas para assegurar a estabilidade
de vários especialistas um dos preceitos mais e o desenvolvimento da cooperativa -
característicos e elemento chave para o futuro do Estabelecer fundos de reserva para a
movimento cooperativo. Através deste princípio, estabilidade e o desenvolvimento da
o cooperativismo contribui para a solução do cooperativa é norma inquestionável para
problema da justa distribuição da riqueza e da o bem da cooperativa. Em Rochdale,
renda. nos estatutos reformados de 1854, isso
Os excedentes são o que na terminologia aparece claramente no Art. 11: os lucros
capitalista se chamam de lucros. O termo líquidos “se aplicarão periodicamente e
excedente se considera mais neutro e, além do por indicação das assembleias trimestrais
mais, tem subentendido que a decisão sobre ordinárias, para aumentar o capital ou
os destinos dos excedentes cabe ao coletivo da os negócios da cooperativa ou para
assembleia geral. Os redatores do Colóquio de fins de previsão”. A ACI coloca, em
primeiro lugar, como destinatário dos
Liège, ao tratarem dos princípios cooperativos
excedentes, o fundo de reservas para
declaram: “Estimamos que a palavra (excedente)
incrementar o capital social. É norma
corresponde melhor à realidade cooperativa do
para toda e qualquer empresa que não

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queira estagnar. Não é somente uma retenção nas cooperativas de trabalho


garantia de estabilidade financeira, mas ou de produtores rurais). Os Pioneiros
uma condição necessária de expansão entendiam que o excedente de percepção
e crescimento. Um dos obstáculos mais devia ser devolvido ao associado na
importantes do crescimento é a escassez proporção das compras realizadas na
de capital. O financiamento com capital cooperativa. A ACI ampliou o sentido
próprio constitui um dos componentes desta destinação, quando estabelece
do crescimento empresarial. Em parte, que a devolução se faça na proporção
é consequência do próprio crescimento das operações ou das transações com a
empresarial; em parte, é causa e condição cooperativa.
necessária para o crescimento empresarial
É doutrina geral que o retorno não é
b) Destinação para fins educacionais e obrigatório. Depende simplesmente da decisão
sociais - Recomenda também a ACI a dos associados. “Se uma cooperativa decide
previsão para “serviços coletivos”. A reservar todos os seus excedentes para possíveis
realização de atividades educacionais, ampliações, não há retornos. Se uma cooperativa
formativas e sociais é prática comum decide vender a um preço tão próximo ao do custo
das cooperativas e, com frequência, quanto seja possível, não há retornos. E, contudo,
imposta legalmente, como no caso ninguém porá em dúvida a autenticidade dessas
brasileiro (Fundo FATES). O destino de cooperativas” (LAMBERT, 1975, p 77).
parte do excedente para finalidades
educativas e sociais é uma realização da Princípio da Autonomia e Independência
ideia de serviço desinteressado, que é (4 Princípio)
o

fundamental na cooperação. “O fim social


As cooperativas são organizações
é uma forma de concretizar o espírito
autônomas de ajuda mútua, controladas por seus
de ajuda mútua e a ideia de serviço, que
membros. Se elas entram em acordo com outras
estão tão estreitamente vinculados à
organizações, incluindo governamentais, ou
cooperação como uma reação frente ao
recebem capital de origens externas, elas devem
espírito excessivamente individualista da
economia capitalista” (CIURANA, 1970, p. fazê-lo em termos que assegurem o controle
68). democrático de seus sócios e mantenham sua
autonomia.
c) O retorno na proporção das operações -
Este princípio se caracteriza pelo controle
Descontadas as parcelas dos
de seus membros, de forma que a sua autonomia
excedentes para os fundos de reserva/
seja preservada, mesmo quando a cooperativa
desenvolvimento e os fundos educacionais
receba ajudas externas, seja do poder público,
e sociais, o que sobra poderá ser
seja de outra origem. Cooperativas que ficam
destinado aos associados, na proporção
daquilo que o associado operou com a atreladas às exigências e normas do poder
cooperativa, ou seja, na proporção de sua público ou do poder do grande capital para o
fidelidade em operar com a cooperativa. seu funcionamento, limitam a sua autonomia e,
Define-se como a devolução por parte assim, se descaracterizam.
da cooperativa ao associado daquilo que Permite a liberdade de escolher e ajudar
lhe cobrou em demasia (excedentes de a organizar o segmento de cooperativa ao qual o
percepção nas cooperativas de consumo) associado quer pertencer. A partir da escolha feita,
ou lhe pagou de menos (excedente de o associado assume com mais responsabilidade e

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empenho o que escolheu. autogestionada admite diversas definições. Pode


Ademais, o alicerce da autonomia é a ser conceituada como aquela empresa em que
autonomia financeira, da qual decorre a autonomia todos os seus trabalhadores têm o direito e a
econômica, administrativa, social e política. A responsabilidade da gestão, pelo simples fato de
cooperativa que, desde sua origem, depende trabalharem nela sob o princípio de “uma pessoa,
demais de favores e proteções paternalistas, não um voto” (5).
terá longa vida. Logo que desaparecer a instância Pode, também, definir-se tal empresa
paternalista e provedora que, enquanto perdurou, como um grupo de pessoas que procuram obter
não permitiu criar as condições de continuidade, resultados econômicos, sociais e educativos
por isso, ela com muita probabilidade tenderá a em comum, através de uma empresa onde o
definhar, a desaparecer. funcionamento é democrático e a propriedade
Desaconselha-se que as cooperativas é coletiva (ANTONI, 1980). Por último, pode-se
dependam demais dos favores e do paternalismo conceber como uma forma de cooperação, na qual
do Estado. Há a necessidade de uma evolução em os que contribuem com o capital (proprietários)
direção a um relacionamento adulto e autônomo são, ao mesmo tempo, trabalhadores da empresa,
entre cooperativas e Estado, inspirado no os quais investem este capital com vistas a
princípio da “entre-ajuda na base da auto-ajuda”. desenvolver suas qualidades de trabalho dentro
Até 1988, as cooperativas viviam numa relação da mesma empresa (VILLEGAS VELASQUEZ, 1977).
de “Estado patrão” que, antes, através do INCRA, A autogestão é, antes de tudo, uma
fiscalizava e intervinha nas cooperativas. Agora, ideologia de participação. Visa com isto à
se reivindica um “Estado parceiro”, colaborador dignificação da pessoa do associado, ao mesmo
da caminhada do cooperativismo, em prol de um tempo que a satisfação de suas necessidades
desenvolvimento integrado e sustentado. básicas. A autogestão, sem a participação, é
Outrossim, deve haver autonomia das só um nome, um conceito vazio. A autogestão
cooperativas singulares frente às estruturas se fortalece com o pleno funcionamento da
integradas, como cooperativas centrais, participação decisória de todos os cooperados,
federações e confederações. O eixo das decisões onde o pleno exercício da democracia cooperativa
vai da base à cúpula. Esta autonomia não é é a garantia de sua autonomia.
absoluta, estando submetida às leis gerais da O objetivo da autogestão sob o ponto
sociedade e à lei cooperativa. de vista socioeconômico é permitir que os
Importantes e indispensáveis parcerias associados produtores, prestadores de serviços
podem se estabelecer entre cooperativas e trabalhadores decidam suas condições de
habitacionais e o poder público municipal, no trabalho, participando com os demais na direção
que tange aos serviços de infraestrutura urbana e administração da empresa da qual fazem parte
de rede de água e saneamento, rede de energia e disporem do produto de seu trabalho, bem
elétrica, de traçado urbanístico de ruas e praças, como assumirem os riscos do empreendimento,
de definição das áreas se lazer, de culto etc. sem a intromissão de fatores alheios no processo
Portanto, a autonomia e independência de produção.
demandam, no plano interno das organizações Sob a perspectiva política, a autogestão
cooperativas, a autogestão. Sob o impulso significa que o associado, desde seu lugar de
dos reformadores sociais do século passado, trabalho, tem a possibilidade de influir na tomada
instigados pelas convulsões sociais de Paris em de decisões de todos os organismos políticos.
1848, iniciaram-se as primeiras experiências Sem dúvida, a implantação de um sistema
autogestionárias, ou seja, sob a forma autogestionado somente é possível através de
de cooperativas de trabalho. A empresa uma transformação profunda na ordem social

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e econômica vigente. Tal transformação deve Se o cooperativismo quer realizar seus


ser estrutural, mas, sobretudo, demanda uma objetivos e, de fato, a democracia participativa,
mudança de mentalidade e de aspirações. então, a educação cooperativa é um princípio
Pouco se alcança, se a mudança de estruturas fundamental. Com razão, os Pioneiros o incluíram
não é concomitante com uma mudança radical nas suas práticas desde o início, e a ACI o
na população. Se tal mudança não se dá, considerou sempre como um dos seis princípios
rapidamente o sistema degenerará, pois todos da cooperação. Não se nasce cooperador,
os vícios correntes começarão a se precipitar nas especialmente no contexto individualista e
superestruturas dirigentes. competitivo em que vivemos. Não se mudam
O Princípio da Autonomia e Independência comportamentos sem mudar a mentalidade
apresenta, pelo menos, duas distorções. A primeira das pessoas. E uma mentalidade diferente só se
se refere à frequente ingerência do Poder Público adquire através de uma educação continuada e
nas cooperativas, quando tenta estabelecer persistente. Portanto, é preciso dedicar muitos
leis ou normas gerais, extensivas a todos os esforços na formação de um homem cooperativo,
estratos da sociedade e das organizações. Então, solidário, protagonista, responsável e ciente das
frequentemente, por excesso de zelo, O Estado vantagens da autoajuda na base da ajuda mútua,
ingere-se em assuntos internos que limitam a e nesse processo, a educação cooperativa assume
autonomia. É o caso das possíveis interferências uma relevância incontestável.
do Banco Central nas cooperativas de crédito, Ao ingressar numa cooperativa, é normal
do Ministério da Saúde, nas cooperativas de que o associado procure atender a objetivos
saúde, do Ministério das Cidades ou do Setor e interesses imediatos e individuais, em que,
Habitacional, nas cooperativas habitacionais etc. por meio da cooperação, visa a satisfazer e
A segunda distorção diz respeito à falta de suprir carências que de forma individual não
efetiva democracia, participação e transparência conseguiria atender mediante a concorrência no
interna que, devido ao centralismo dos dirigentes mercado. Porém, não é normal que a cooperativa
e da passividade dos associados, inviabiliza a o mantenha durante anos seguidos nesta atitude
autonomia das cooperativas, nas suas relações individualista e competitiva, de “apenas levar
com o mundo externo a ela. As bases devem ser vantagem em tudo”. Enquanto individualista
fortes e não abdicar do poder decisório em favor e competitivo, procurará obter da cooperativa
de suas Centrais ou Federações. A autonomia se vantagens individuais e imediatas, não se dispondo
fortalece na medida em que há uma relação livre, a comprometer-se com o seu esforço num projeto
autônoma e transparente entre as cooperativas coletivo. Será um simples cliente da cooperativa.
singulares e suas estruturas integradas. Tenderá a ser oportunista, procurando usufruir
apenas das vantagens da cooperativa e não a
Princípio da Educação, Treinamento e assumir as responsabilidades que lhe competem
Informação Cooperativa (5o Princípio) como co-proprietário da organização, quais
As cooperativas oferecem educação e sejam: as responsabilidades relativas à tomada
treinamento para seus sócios, representantes de decisões, definição das políticas e suas
eleitos, administradores e funcionários; assim, prioridades, eleição dos dirigentes e controle
eles podem contribuir efetivamente para seu sobre os mesmos, capitalização e fidelidade nas
desenvolvimento. Eles informam o público em operações com a cooperativa. Daí a necessidade
geral, particularmente os jovens e os líderes de a organização cooperativa ter que abraçar
fornecedores de opinião, sobre a natureza e os com muito empenho esse princípio, visando que
benefícios da cooperação. os associados adquiram uma verdadeira “cultura
cooperativa”.

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Vimos a importância da educação na antecipando-se à própria sociedade inglesa, que


cooperativa na sua dimensão como “sociedade introduziria o ensino primário obrigatório apenas
de pessoas”. Mas a cooperativa deve também ser na década 80 do século XIX. Gide (1974) classifica
“empresa” e enquanto tal, a educação gerencial, essa norma como “regra de ouro da cooperação”
igualmente, é de suma relevância. Nessa e Burr (1965) declara: “A educação cooperativa
dimensão, além do aspecto da educação, deve- não é só um requisito prévio, é uma condição
se assumir o processo da formação/capacitação permanente da ação cooperativa e também um
dos associados enquanto usuários produtores, resultado desta ação” (BURR, 1965, 118) .
consumidores, poupadores, trabalhadores, Se a cooperativa deseja exercer a
prestadores de serviços. Especialmente hoje, em democracia econômica, num terreno tão
que os desafios de qualidade e de competência marcado por conflitos e por interesses vitais em
no mercado são cada vez maiores, em que a jogo, e se deseja que todos participem da tomada
criação e a rápida assimilação tecnológica são de decisões, pode-se deduzir a importância da
condição de sobrevivência das empresas, mais do formação-informação de todos os associados.
que nunca as cooperativas devem ocupar-se com Não basta a velha ilusão de certo socialismo que
essa atividade. afirmava: O homem é naturalmente bom, são as
Atualmente, os novos desafios instituições que o corrompem. É imprescindível
empresariais e administrativos obrigam a superar formar o homem, trabalhador ou consumidor,
tradicionais esquemas aprendidos nos bancos para as novas tarefas de responsabilidade,
escolares e a assimilar com rapidez e flexibilidade mediante a aquisição de certos conhecimentos
novas visões empresariais e administrativas, e atitudes. Portanto, convém reiterar que a
que procuram compatibilizar racionalidade, educação cooperativa supõe investir esforços
produtividade e eficiência com uma dimensão tanto na formação do homem cooperativo,
mais humana, social e participativa de toda a solidário, responsável e participativo, com cultura
comunidade empresarial e, ao mesmo tempo, cooperativa, como na formação/capacitação de
qualificada para agir no mercado, ao lado de um bom e competente produtor, prestador de
concorrentes cada vez mais competentes e serviços, consumidor e poupador.
agressivos. Hoje, busca-se a integração de Para o cooperativismo, tão importante
mercados, visando à formação de poderosos como mudar as estruturas é mudar os homens
blocos econômicos. Devido a todas essas pela educação. A cooperação trata de humanizar
transformações recentes, é inquestionável o a economia e visa a formar pessoas responsáveis
papel da formação/capacitação do associado. e solidárias. Para isso, é preciso certos sacrifícios,
Se antes já se justificava o processo da educação bem como empenhar-se pelo bem coletivo, sem
cooperativa permanente, como o pleiteia o oferecer em contrapartida e de imediato grandes
veterano cooperativista inglês Watkins6, hoje, vantagens econômicas, sacrifícios que requerem
mais ainda, ela se torna indispensável. “disciplina social” (WATKINS, 1989, p. 142)7 que só
Os Pioneiros foram inovadores ao a educação cooperativa é capaz de proporcionar.
assumirem a educação cooperativa como prática A educação cooperativa há de orientar,
importante de sua proposta, estabelecendo a em primeiro lugar, os membros da entidade,
educação dos associados já no artigo 1º dos os associados, os dirigentes, os técnicos e os
seus estatutos originais, quando se referem à empregados. Os associados, para conseguir
constituição de colônias cooperativas e quando deles um apoio e uma lealdade total, graças à
destinam, alguns anos depois da fundação de exata compreensão da filosofia e dos métodos
sua cooperativa, 2,5% dos excedentes líquidos cooperativos e técnico-econômicos, e uma ampla
para essa finalidade. Inovaram nesse aspecto, informação. Os dirigentes, para que imbuídos

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de “cultura cooperativa”, sejam os primeiros O princípio da integração cooperativa


a praticar a solidariedade, a responsabilidade, tem seu poder, força e criatividade residido
sejam técnicamente competentes para conduzir na autonomia das bases. É uma integração
a organização com eficácia e eficiência e tenham que parte “de baixo para cima”, e quando as
amplo conhecimento dos desafios do mercado. cooperativas de base decidem integrar-se, o
Os empregados, pois através deles os associados fazem sacrificando livre e conscientemente
mantêm o contato mais frequente com sua parte de sua autonomia em benefício do todo
cooperativa, a formação cooperativa daqueles é maior, que é o sistema cooperativo, articulado
fator importante de educação no quadro social. em torno de cada segmento: produtores rurais,
Ou, segundo Lambert (1975, p. 272), falando da trabalhadores, consumidores, prestadores de
“missão educativa”: “ Servir aos associados é algo serviços, poupadores etc. Não há a absorção por
mais que elevar seu nível de vida; é contribuir à parte das entidades superiores ou a perda da
sua formação de homens. A tarefa educativa, a autonomia das cooperativas de base.
aspiração à nobreza moral, pertencem à essência Hoje, a integração é, também, uma
da cooperação”. tendência entre as empresas capitalistas
Porém, a tarefa educacional da concorrentes. Porém, a integração na concorrência
cooperativa deverá estender-se à comunidade e é mais um movimento “de cima para baixo”,
ao público em geral, para interessar e atrair os que em que há pouca ou nenhuma autonomia das
não são sócios, e evitar oposições e resistências empresas filiais ou sucursais em relação a suas
ao movimento (BALLESTERO, 1983). empresas matrizes. A integração na concorrência
conduz, geralmente, a mais concentração social
Princípio da Cooperação Intercooperativa e regional de renda e de poder. Integram-se para
e a Integração Cooperativa (5o Princípio) dominar mais o mercado e não para servir melhor
As cooperativas atendem seus sócios aos seus associados, como nas cooperativas.
mais efetivamente e fortalecem o movimento As vantagens das uniões e federações
cooperativo, trabalhando juntas através são evidentes, pois permitem concorrer com
de estruturas locais, nacionais, regionais e poderosas empresas capitalistas; melhoram a
internacionais. prestação de serviços técnicos e a assessoria das
estruturas integradas a suas filiadas; facilitam
Esta norma, embora fosse praticada pelos as relações com o Estado e a defesa do setor
Pioneiros desde o início, só foi elevada a princípio cooperativo em uma economia planejada;
pelo Congresso da ACI de Viena, em 1966. Os ampliam as atividades ao oferecer serviços
Pioneiros de Rochdale, já no Art. 1º dos estatutos que não têm condições de assumir; facilitam
originais, propunham a colaboração entre as a eliminação da intermediação desnecessária
diversas “colônias ou associações cooperativas”. ou melhoram as margens de comercialização;
Colaboraram, também, diretamente na fundação, e racionalizam a produção, eliminando gastos
em 1864, da primeira Cooperativa Central de supérfluos e obtendo os ganhos das “economias
Consumo - a Wholesale Society - cuja primeira de escala.”
diretoria, formada por 12 membros, tinha em A cooperação intercooperativa compreende
seu quadro seis associados da cooperativa de tanto as relações entre cooperativas da mesma
Rochdale. Posteriormente, em 1869, pioneiros de classe ou do mesmo segmento, como as que
Rochdale também contribuíram na constituição existem entre cooperativas de segmentos
da Cooperativa Central da Escócia. Tal norma diferentes. As cooperativas do mesmo segmento
passou, mais tarde, a ser uma prática generalizada têm necessidades comuns, sejam de tipo social/
dentro do cooperativismo. doutrinário (ação e representação política,

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educação, capacitação, publicações, assessorias Princípio da Preocupação com a


etc.), que, em geral, são satisfeitas por meio de Comunidade (7o Princípio)
suas federações ou confederações, ou de tipo
econômico (compra/venda, produção ou crédito As cooperativas trabalham pelo
em comum), que podem ser satisfeitas de forma desenvolvimento sustentável de suas
mais eficaz através de cooperativas centrais. As comunidades, através de políticas aprovadas por
relações de integração que se estabelecem entre seus membros .
cooperativas de segmentos ou tipos diferentes O cooperativismo, por força da natureza
são relações intercooperativas. Há situações em dos seus valores e princípios, não pode assumir
que alguns segmentos cooperativos avançaram posturas corporativistas, fechar-se numa “ilha de
muito no processo de integração interna ou prosperidade”, lá onde a comunidade manifesta
intrasegmento, mas estagnaram na integração muitas carências, como o desemprego, exclusão
intersegmentos. Nestas, há a necessidade de ir social, fome, violência, drogas e narcotráfico.
além da mera integração interna e partir para O cooperativismo deve assumir, perante a
uma integração sistêmica, que permita ações opinião pública, o compromisso de se empenhar
conjuntas entre os diversos segmentos e, assim, em prol da preservação do meio ambiente, dos
fortalecer e ampliar o sistema cooperativo como recursos hídricos e contribuir para assegurar água
um todo, numa determinada economia. potável em favor das atuais e futuras gerações,
Hoje, várias cooperativas, especialmente de produzir alimentos sádios, de participar
as pequenas e médias, sensíveis às mudanças como protagonista junto a outras forças sociais
do mercado, tendem a optar pela cooperação e comunitárias para o desenvolvimento regional,
em redes interorganizacionais, unindo esforços local e sustentável, descobrindo e desencadeando
e viabilizando melhorias para reduzir riscos as potencialidades e as lideranças locais, até
e ameaças e aproveitar as oportunidades, então, desmobilizadas ou pouco valorizadas pelo
tornando-se mais competitivas. Devido à processo de globalização.
dimensão de horizontalidade das redes, elas O cooperativismo procurará colocar seu
conseguem fortalecer e viabilizar os pequenos poder de “capilaridade social”, capaz de marcar
e médios empreedimentos, respeitando sua presença em cada rincão e aldeia rural ou em
identidade e autonomia de base. Em alguns cada quarteirão urbano, onde os associados
estudos recentes, foram percebidos ganhos vivem, convivem e trabalham, enfim, onde tem
coletivos tais como: a) ganhos de escala e poder plantadas as suas raízes. Tende a colocar esta
de mercado; b) acesso a soluções elaboradas força e seu dinamismo a serviço da comunidade
coletivamente; c) maiores oportunidades de e da sociedade em geral, a fim de colaborar
aprendizagem e inovação quanto aos produtos com a diminuição das desigualdades sociais
que oferecem ou aos serviços que realizam; d) e das injustiças, bem como ocupar, de forma
redução de custos e riscos e; e) ampliação do competente, os espaços públicos e, assim,
leque de relações sociais entre empreendimentos participar ativamente na definição das políticas
horizontalmente articulados. Essa formação é públicas, através do fomento de uma cidadania
muito importante para os pequenos produtores ativa, protagonista e responsável.
cooperativados da agricultura familiar, não Em consequência deste princípio, criado,
somente para a sobrevivência, mas, também, para recentemente, o cooperativismo passa a ser uma
o desenvolvimento de vários setores produtivos das mais efetivas instâncias de desenvolvimento
da região em que estão instalados (ALVES DE local e sustentável, um tema hoje tão caro
SOUZA, 2012). às ciências sociais, como contraponto ao
processo de globalização. Enquanto os grandes

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conglomerados capitalistas internacionais não própria democracia.


tendem a ter raízes e compromissos locais, pois o
seu principal cenário de poder e de interesses se O Possível Princípio da Expansão
exerce ao nível da globalização, tentando drenar Cooperativa (8o Princípio)
as riqueza geradas numa região, para outra Muitos teóricos do cooperativismo, entre
onde possam obter mais lucro, as cooperativas eles Lambert (1975), Drimer; Drimer (1973) e
têm suas atividades e benefícios, radicalmente, Aranzadi (1984), julgam que a ACI deveria ter
voltados aos interesses da comunidade local, acrescentado mais um princípio, qual seja, o
do território onde tem sua área de atuação. As da expansão cooperativa. De fato, a aspiração
cooperativas não podem drenar seus excedentes para conquistar e transformar a organização
para fora do local ou da região onde foram econômica e social é, segundo esses autores,
gerados. Os seus donos e usuários, ou seja, os um traço fundamental do cooperativismo. Os
associados tendem a reaplicar e a reinvestir todos Pioneiros de Rochdale já professavam a aspiração
os benefícios que auferem com a cooperativa no de o cooperativismo conquistar cada vez mais
próprio local, que é seu “espaço vital”, no qual espaços econômicos e sociais, ao proporem,
nascem, crescem vivem, trabalham e amam. através de seu porta voz Charles Howarth, um
Por isso, “o cooperativismo não é uma empresa “programa de emancipação econômica e social
que se instala hoje para ir embora amanhã. Está do proletariado”, no dia do lançamento de sua
enraizada na comunidade, gerando riqueza, cooperativa de consumo, em que esta seria o
resultado econômico e renda que é redistribuída primeiro de uma série de passos para a construção
na comunidade. As cooperativas constroem de uma sociedade cooperativa e solidária.
estruturas fixas e permanentes para ficar junto Gide (1974, p. 85), confiando nas bondades da
à comunidade” (PERIUS, 2012, p. 10). É nela proposta cooperativa, retoma essa ideia ao
que promovem a inclusão e o protagonismo propôr a busca da “República Cooperativa”, num
dos associados, estimulando sua participação programa de três etapas, como alternativa ao
nas diversas atividades e responsabilidades do sistema capitalista vigente.8
desenvolvimento da comunidade. Segundo tais autores, o cooperativismo
A irradiação dos benefícios de uma não deve conformar-se com o papel que lhe
cooperativa consolidada numa comunidade, pretendem atribuir os concorrentes capitalistas,
especialmente das cooperativas agropecuárias, que o querem deixar confinado nos setores de
representa uma melhoria do Índice de rentabilidade marginal da atividade econômica,
Desenvolvimento Humano – IDH na região, com reservando as melhores “fatias” do mercado
a redução das desigualdades socioeconômicas aos agentes capitalistas. O cooperativismo,
e a consequente redução dos índices de porque crê na validade de sua proposta política,
violência. Pode representar, igualmente, uma econômica e social, de caráter profundamente
maior conscientização sobre a preservação do democrático, solidário, justo e humano - já que
meio ambiente, e contribuir para a melhoria acredita no poder de sua capilaridade social, que
da qualidade alimentar. As cooperativas é capaz de marcar presença até nos recantos
também podem ser importantes reguladoras e sociais e geográficos mais distantes e escondidos
saneadoras do mercado, evitando ou diminuindo dos micro empreendimentos locais -, deve perder
a especulação. Por fim, podem exercer uma a timidez ou o “complexo de inferioridade” e
razoável parcela de responsabilidade no saber apostar no futuro, procurando conquistar
melhoramento do nível intelectual e cultural da cada vez mais espaços na economia e na
comunidade, fomentando o empreendedorismo sociedade. Deve almejar vir a ser, um sistema
e um avanço na assunção da cidadania e da econômico e social hegemônico, embora não

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exclusivo, pois sendo um sistema eminentemente Intercoop, 1980. 285 p.


democrático, valoriza e respeita o pluralismo
ideológico e econômico, já que só um sistema ARANZADI, Dionísio. Origenes del cooperativismo
econômico e social diversificado propicia um y doctrina cooperativa. In: Terceras jornadas
clima de permanente de liberdade, de crítica e cooperativas de Euskadi, Bilbao, Universidad de
aperfeiçoamento. Deusto, 1984. p. 55-71.
Para a realização desse objetivo, a
cooperação - não só entre associados, mas BALLESTERO, Enrique. Teoria economica de las
também entre cooperativas e entre segmentos cooperativas. 1. ed. Madrid: Alianza, 1983. 155 p.
ou ramos cooperativos diferentes, em níveis ou
graus diferentes de integração, em crescentes BOGARDUS, Emory. Cooperação - Princípios. Rio
processos de formação de redes cooperativas, de Janeiro: Edit. Lidador, 1964. 90 p.
articuladas e fortes no plano da horizontalidade
_______. Principios y problemas del
- é um método apropriado para realizar esse
cooperativismo. México: Libreros Mexicanos
processo de expansão. E, para tanto, deve
Unidos, 1964.
valorizar uma coesão básica de objetivos, formas
de organização e de métodos de trabalho, BÖOK, Sven A. Valores cooperativos para un
visando a fortalecer o processo de integração. mundo en cambio. San José, Costa Rica: ACI/
Se não souber dar valor a isso, se fomentar Informe para el Congresso de la ACI, Tokio,
ações paralelas e divergentes, o cooperativismo oct./1992.
perderá sua força e, bem cedo, o sistema
hegemônico capitalista neoliberal, dotado de BOUDOT, F. Problème et problematique dans l’
grande flexibilidade e dinamismo interno, poderá histoire de la coopération en France. Revue des
encarregar-se de fragmentá-lo e, assim, mantê-lo Études Coopératives - REC, Paris, n.161, p. 226,
fraco e como iniciativa marginal, para não mais 1970
constituir uma ameaça às pretensões lucrativas e
concentradoras do sistema dominante. BURR, Carlos. Las cooperativas. Una economía
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LAMBERT, Paul. La doctrina cooperativa. 4. ed. LAIDLAW (1980), LAMBERT (1975), LASSERRE (1980),
Buenos Aires: INTERCOOP, 1975. 354 p. MLADENATZ (1969), PINHO (1977), WATKINS (1989).
2 O autor valeu-se, de modo especial, dos subsídios
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_______. El hombre cooperativo. 1. ed. Buenos de Deusto, 1984. p. 55-71. O tema passou por
Aires: Intercoop, 1980. 117 p atualizações, complementações, firmado em vários
clássicos da història e doutrina do cooperativismo,
MEC-FENAME. Pequena Enciclopédia de Moral e visando aprofundar a análise sobre o tema, o qual è
Civismo. Rio de Janeiro: Ministério de Educação relevante para compreender aspectos da “identidade
e Cultura-MEC - Fundação Nacional de Material cooperativa”. Isso, precisamente, numa época de
profundas e múltiplas transformações, em que a
Escolar-FENAME, 1972.
Identidade das instituições está sendo questionada e

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colocada em xeque. em adquirir, colocar sob seu controle e a serviço do


movimento cooperativo propriedades e a produção
3 A China e Índia, como países emergentes, contribuem
do setor primário. Realizadas as três etapas, se estaria
com aproximadamente 400 milhões de associados.
implantando o “sistema cooperativo” ao lado ou em
4 Para Ciurana (1970), a democracia é um elemento substituição ao sistema capitalista (GIDE, 1974; PINHO,
importante, mas não o mais característico. 1977).
5 Ver “Ias experiências autogestionarias chilenas” de
Teresa Jeanneret, Leopoldo Moraga e Lorraine Ruffing.
Depto. de Economía da Universidade do Chile, 1975.
6 Watkins (1989), ao tratar dos conteúdos da educação
cooperativa, julga que eles devem proporcionar: a)
uma informação adequada, completa e atualizada
sobre o que sucede na cooperativa. É importante
essa informação, especialmente numa época em que
a diversidade de interesses e fatos chamam nossa
atenção, numa sociedade cada vez mais informada
e bombardeada pelas técnicas de propaganda e
publicidade; b) um conhecimento técnico adequado
e atualizado, em que o associado e o funcionário
sejam capacitados em processos técnicos peculiares,
e que decorrem da dupla natureza da cooperativa
como sociedade de pessoas e como empresa; c) um
conhecimento econômico e sociológico da cooperação
como fenômeno social específico entre muitos outros;
d) um conhecimento adequado sobre a história das
origens e da evolução do Movimento Cooperativo,
com seus revezes e suas conquistas. Deve fomentar-se
uma “visão sistêmica” sobre a cooperação, para que
o associado se conscientize que sua cooperativa faz
parte de um movimento cooperativo mais universal e
com uma história e filosofia comuns (WATKINS, 1989).
7 A disciplina social deve fomentar um novo
comportamento do indivíduo. Se os associados são
coletivamente donos da cooperativa, como indivíduos,
devem estar dispostos a servi-la, o que requer uma
disciplina pessoal e democrática de fraternidade,
lealdade mútua e honestidade nos procedimentos
democráticos para efetuar consultas e adotar decisões.
“A ambição que atropela os direitos e interesses
dos outros, não pode ter lugar no cooperativismo”
(WATKINS, 1989, p. 143 ).
8 A primeira etapa seria fortalecer e multiplicar as
organizações cooperativas no setor de consumo. A
segunda etapa se daria com a consolidação e expansão
da primeira, partindo, então, para a aquisição
de empresas industriais, para que esse tipo de
produção estivesse sob a propriedade e a serviço das
organizações cooperativas. A terceira etapa consistiria

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