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5/4/2018 lasciate ogni speranza voi che entrate!

nza voi che entrate! | "Aquele que vai contra o dia não pode temer a noite." – Euvgeny Golovin

Contra o mito do bom civilizado  Agosto 13, 2008


Posted by Rafael in filosofia, nativos, oriente e ocidente, third position. 
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Durante meu encontro com Nikkon, perguntei sobre as outras coisas que ele pensava da Europa:
“O senhor viveu na Europa”, perguntei “O que o senhor pensa disso? Qual é a sua opinião sobre a civilização Ocidental?”
“Civilização!”, ele exclamou “A civilização Ocidental é um ersatz!”
Ele enfatizou a palavra “ersatz”. Esta palavra é de origem germânica. Significa substituto, enganador, falso. Após uma
pausa, Nikkon continuou.
“Tudo que está nela: as artes, ciências, filosofias, religiões, é ersatz!
“O senhor acredita realmente que não há nada autêntico, bom, nos países da Europa Ocidental?”
“Nada”, ele respondeu, “Tudo é falso, vazio. A única exceção é a Ortodoxia. Mas até ela é dificilmente encontrada em sua
forma genuína, original.”
Após ouvir que eu era Cristão Ortodoxo, o ancião fez uma observação:
“Você deve considerar-se um afortunado. Pois não há nada mais precioso neste mundo que o Cristianismo Ortodoxo.
Mesmo com a dificuldade de encontrá-lo em sua forma mais pura, ordene tudo em sua vida de acordo com ele” [1]
No Ocidente moderno, é comum a disputa entre barbárie x civilização, bem x mal, progresso x atraso e assim por diante.
Gurdjieff, inteligentíssimo esoterista do século XX, foi preciso ao identificar essa angústia de um amontoado de gente que
já perdeu qualquer resquício daquilo que é entendido como civilização tradicional, angústia nascida pela falta de uma
cosmo visão tradicional, que criou aquilo que Evola chamava de “mundo de agitados”, e a saga em busca de “progresso”,
“conservação” ou até mesmo “regresso” [2], sem se dar conta que, neste mundo de agitados, todos correm para o mesmo
abismo, embora por caminhos distintos.

As críticas de tradicionalistas, não só os da escola perenialista, como também de religiosos de vida contemplativa ou de
sábios que tiveram algum contato ou pertenceram a uma civilização tradicional, sempre levam ao mesmo ponto: todas as
correntes e ideologias ocidentais que concorreram entre si não passam de faces da mesma degeneração. O staretz Nikkon,
citado acima, era um monge do Monte Athos praticante do hesicasmo, a contemplação e oração silenciosa, quando jovem
viajara por toda a Europa ocidental, e teve a oportunidade de conhecer o modo de vida e pensamento europeu. Sua
decepção foi grande, e não por menos: àquele acostumado à vida da antiga Grécia [3], por exemplo, a vida do europeu,
quer do acadêmico quer do simples trabalhador, é muito agitada, inconstante e repleta de incertezas.

Russel Means, líder sioux e ativista dos direitos dos nativos norte-americanos, também notou esta tragédia do homem
europeu, e foi ainda mais adiante em sua análise do capitalismo, comunismo, hegelianismo, cientificismo e alhures. Neste
discurso, nota-se os laços entre a Tradição dos nativos norte-americanos e outras Tradições, como o Cristianismo. Como
por exemplo, a crítica ao excesso de valor dado à palavra escrita, que para São João Crisóstomo nos mostrava o quão
degradados somos [4], a crítica da transformação da natureza em propriedade privada [5], e neste ponto tanto marxismo
como capitalismo são semelhantes, pois ambos desafiam a ordem natural das coisas.

Obviamente, tal raciocínio é capaz de levantar diversas questões e críticas, do tipo: como explicar o aumento da qualidade
de vida, o avanço tecnológico e farmacêutico que permite o prolongamento da expectativa de vida, ou ainda as
intermináveis guerras travadas entre nativos de todo o mundo. Mas tudo isso, se analisado e comparado friamente, nos
mostra os problemas existentes entre os nativos não foram solucionados pelos bons civilizados, como também,
aumentaram.

Em primeiro lugar, não só podemos como devemos questionar o conceito de qualidade de vida do homem ocidental,
principalmente do primeiro mundo. Muito daquilo que lhe faz se orgulhar, como o conforto da nossa civilização contra a

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vida na natureza e todos seus perigos, não passa de um problema maior ainda. Os tradicionalistas acusam o homem
moderno de perder a capacidade de contemplação, e isso pode muito bem deixar de ser uma acusação para se tornar uma
constatação: qual homem ocidental é capaz de práticas contemplativas como o hesicasmo, meditação ou a adoração
silenciosa dos nativos norte-americanos? Todo este conforto, construído no desvio da ordem natural das coisas, custou
primeiro a capacidade de contemplação, e hoje custa a sanidade. O homem sente cada vez mais necessidade de trabalhar
mais para obter mais conforto, e os avanços tecnológicos que aumentam seu conforto também fazem com que ele trabalhe
cada vez mais. Distúrbios como DDA e doenças como depressão aumentam anualmente, e o crítico do uso de “drogas” feito
pelos nativos não se dá conta que o homem moderno é cada vez mais dependente de remédios contra depressão,
distúrbios de atenção e transtornos de personalidade. Ele não consegue ver qualquer relação entre estes problemas e o fato
do homem moderno não viver mais em uma civilização de fato, mas sim num amontoado de indecisos, agitados que já
perderam qualquer noção real sobre humanidade, transcendência e realidade.

Já os índios, citando J.P. McEvoy, “talvez não seja o progresso… mas que importa?”. Em países cristãos que ficaram livres do
Imperialismo de Carlos Magno, como também do legalismo dos escolásticos e posteriormente de uma das maiores
tragédias da humanidade, a Reforma Protestante, nota-se uma visão diferente sobre a religião, bem como o impacto da
vida religiosa dessa população. O fervor dos russos anteriores às deformas de Pedro o Grande causavam espanto até aos
emissários de Patriarcados ortodoxos como da Antioquia, já influenciado negativamente pelo Ocidente devido ao seu
intercâmbio educacional com Roma devido ao domínio turco [6]. Já nos vilarejos gregos sob ocupação turca, onde os pais
não tinham condições financeiras para enviar seus filhos para estudar no Ocidente, a vida era tranqüila e religiosa,
semelhante à Rússia antes de Pedro, pois o domínio turco não era capaz de afetar o andamento da vida das pessoas que
tinham um foco verdadeiro na vida. O que causava mais espanto era a concentração das crianças nos longos ofícios divinos,
que em pé rezavam ao lado dos adultos, por horas, sem qualquer reclamação ou agitação. Algo semelhante às crianças dos
nativos, que escutam por horas os ensinamentos orais de seu povo, como nota o professor Luiz Pontual, que coroa sua
explicação com uma belíssima foto:

“É muito ilustrativo a este respeito o fato das crianças índias serem extremamente calmas e mesmo concentradas. São
capazes, como pudemos testemunhar em mais de uma ocasião, de permanecerem durante duas ou mais horas em perfeita
tranqüilidade , enquanto adultos conversam ou desempenham tarefas. Pode-se talvez compreender um pouco tal traço
inusitado para os modernos se repararmos que um índio, assim como um camponês medieval, acompanha os vários
momentos que constituem, por exemplo, o ciclo da alimentação. Ajudam ou vêem os pais desde o preparo da terra,
passando pela semeadura, o brotar e o desenvolvimento das plantas , até sua colheita e preparo final para alimentação. É
algo um tanto diferente, por exemplo, de um insuportável garoto super-ativo detonando um pacote de cornflakes…ou um
hot-dog !”

Portanto, os ortodoxos mais sensatos como o Conde Lucas Notaris preferiam o turbante do sultão que a tiara do papa, já
que enquanto o domínio turco custava apenas algumas vidas vez ou outra e um pouco de dinheiro, a aproximação ao
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degradado Ocidente custava a alma e o próprio modo de vida oriental. Os turcos não eram capazes de alterar a vida
tranqüila e religiosa dos habitantes da Anatólia e da Trácia, mas a influência ocidental conseguiu lançar a Rússia nas
maiores trevas de sua história, e logo em seguida jogou a Grécia sob jugo de Venizelos à guerra e decadência espiritual, em
busca do tal progresso. É compreensível tanta angústia e desespero do Ocidental: ele pensa que está sempre atrasado, mas
não sabe em qual local deve chegar.

Por isso o staretz alerta sobre onde encontrar a verdadeira Ortodoxia: a vida ortodoxa não envolve apenas a fé, ou a fé e
um corpo de códigos morais a ser seguido, mas também toda uma visão de mundo [7], e que não pode existir entre a
degradação da modernidade. Hoje em dia, lamentamos muito quando vemos fiéis exigindo a liturgia em vernáculo, padres
desmerecendo o essencial da tradição como a batina ou a barba e cabelos longos, pois se trata de quem está muito
próximo do ideal, pois bastaria olhar para algumas décadas atrás e perceber o quanto isso é importante e estava vivo, fazia
parte de nosso cotidiano; enquanto os ocidentais já não têm a mesma sorte, pois passam por um processo de decadência
gradual e longo, e possuem idéias muito vagas e imprecisas sobre tradição, pois a vida sob princípios tradicionais é algo
que está muito distante, como uma abstração ou histórias de passado muito distante.

Por estas razões, não consigo me alinhar ou até mesmo ter como “mal menor” correntes como o conservadorismo, que
embora aparentemente menos maléfica que o comunismo, faz parte do mesmo processo de degradação, e não é menos
pretensioso, pois também se coloca como o dique que impede a invasão da barbárie, quando também é um filho desse
mito do bom civilizado, aquele Homem Universal repleto de autocrítica, dúvidas, problemas e soluções, sempre colocando
as mãos imundas e cheias de sangue naquilo que já estava ordenado.

[1] Messages From The Holy Mountain, Dr. Constantine Cavarnos, Cap. 6, pgs. 31,32.
[2] https://lasciateognisperanza.wordpress.com/2008/04/26/revolucao-e-contra-revolucao/

[3] Em The Elder Ieronymos of Aegina, de Pedro Botsis (Monastério da Santa Transfiguração, Massaschusetts, 2007), o autor
nos conta o espanto de São Jerônimo ao chegar em Atenas, depois da troca de população entre Grécia e Turquia devido às
insanidades de Venizelos. O santo, ao desembarcar em Atenas, chorou ao ver a falta de piedade religiosa e o pouco caso
com a vida espiritual da população que não vivia sob domínio turco há muito tempo, e lembrava como a vida em sua antiga
vila da cidade de Iconium (hoje Konya), na Anatólia, era muito mais piedosa. Para se ter uma idéia, na pequena vila onde o
staretz foi criado, não só os monges como também boa parte da população tinha o costume de praticar a oração com
lágrimas nos olhos, algumas vezes encharcando o chão das pequenas e lotadas igrejas de fiéis que clamavam por perdão e
choravam durante os ofícios divinos.

[4] cf. I Homilia sobre o Evangelho de São Mateus, São João Crisóstomo

[5] cf. Homilias sobre os Salmos, São Basílio Magno; Sétima Homilia sobre o Hexameron, São Basílio Magno; Sobre o
Eclesiastes, São Gregório de Nissa. Uma das mais impressionantes é esta homilia de São João Crisóstomo sobre a I Epístola
a Timóteo:

“São belas as roupas de seda? Na realidade, são tecidos produzidos por vermes. Sua beleza é convenção e preconceito
humano, não coisa natural. Se você olhar uma moeda de bronze recoberta por uma camada de ouro, logo admira e diz que
a moeda é de ouro. Somente os especialistas na matéria lhe mostram o engano e, com o desengano, vai-se a admiração. Vê
como a beleza não está na natureza? O mesmo acontece com a prata. Caso vir um pedaço de estanho, você o admira como
prata, assim como admirava o bronze por ouro. É preciso que haja pessoas que nos ensinem o que deve ser admirado. não
bastam os olhos para discernir. Isto não acontece com as flores, que são mais belas que ouro e prata. Se vir uma rosa, não
precisa que lhe digam que aquilo é uma rosa. Você é capaz de distinguir por si próprio entre uma anêmona e uma violeta.
O mesmo ocorre com os lírios e as demais flores. Logo, todo o ouro é uma simples questão de preconceito. E, para que
fique demonstrado que toda essa funesta paixão é uma simples questão de preconceito, basta que me responda: se o
imperador decretasse que a prata vale mais que o ouro, não se transformaria seu amor e sua admiração? Veja a que ponto
somos dominados em tudo pela avareza e pela opinião. Que isto seja assim e que as coisas sejam estimadas por sua
raridade, não por seu valor natural, prova-o o fato de existirem entre nós frutos desprezados, que são estimados na
Capadócia, assim como há outros que nós estimamos e que têm ainda maior valor na terra dos seres donde vêm os
famosos tecidos de seda. O mesmo fenômeno se dá na Arábia, terra de perfumes e na Índia, mãe das pedras preciosas. Em
conclusão, tudo é preconceito, tudo é convenção humana. Nada fazemos judiciosamente, mas tudo ao acaso.”

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[6] cf. The Orthodox Church, Timoty Ware, Part. 1, Moscow and Petersburg, 1º Ed., 1968;  The Travels of Macarius, 
Patriarch of Antioch; London, The Oriental Translation Fund, 1836, Book VII.

[7]http://tradortodoxas.blogspot.com/2008/01/o-deserto-no-quintal.html

https://lasciateognisperanza.wordpress.com/ 4/4