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A agroecologia e a restauração de metabolismos orgânicos

nos sistemas agroalimentares


Paulo Petersen

Por definição, agricultura implica intervenção humana sobre o mundo natural. Em


termos técnicos, significa a conversão do ecossistema em agroecossistema. O
ecossistema é um sistema ecológico cuja reprodução é assegurada pelo trabalho da
natureza, isto é, por ciclos materiais e fluxos energéticos primariamente alimentados
pela radiação solar. Durante 95% de nossa história como espécie, nos apropriamos
dos frutos do trabalho da natureza por meio das práticas de coleta, caça e pesca. O
nível de intervenção humana sobre o ecossistema é mínimo, limitando-se, na maioria
das vezes, à extração de elementos selecionados da natureza.

O relacionamento humano com o restante do mundo natural por meio da gestão de


agroecossistemas inaugurou, há cerca de dez mil anos, um novo modo de
apropriação, alterando substancialmente os padrões de circulação de matéria e
energia nas dinâmicas socioecológicas de obtenção, distribuição e consumo de
alimentos e fibras.

Essa nova estratégia de articulação entre os processos sociais e os processos


ecológicos liberou um conjunto de potencialidades humanas que permaneciam até
então restringidas pela total dependência da vida social às dinâmicas dos
ecossistemas.

Conhecido como Revolução Neolítica, esse período da história desdobrou-se como


um processo gradual de domesticação da natureza. Se expressando tanto em nível de
espécie quanto em nível de paisagem, a domesticação se fez no sentido de canalizar
ciclos e fluxos ecológicos para o atendimento de objetivos sociais, aumentando assim
a eficiência e a segurança na obtenção de bens naturais necessários à subsistência
humana.

De acordo com as perspectivas da História Ambiental e da Economia Ecológica, esse


período histórico marca a passagem do metabolismo extrativo - ou cinegético - para o
metabolismo orgânico - ou agrário (GONZÁLEZ DE MOLINA e TOLEDO 2011) (ver
quadro 1). Embora a radiação solar permaneça como a fonte energética primária nos
metabolismos orgânicos, os processos ecológicos locais são substancialmente
alterados em relação aos padrões metabólicos extrativistas.
Quadro 1 – Metabolismo social

A ideia original de metabolismo social se deve à Karl Marx (FOSTER, 2011). O metabolismo,
segundo sua concepção, corresponde ao processo de trabalho pelo qual a sociedade humana
transforma a natureza externa e, ao fazê-lo, transforma sua natureza interna. Os efeitos do
processo de trabalho sobre a natureza interna condicionam as relações sociais de produção.
Em suas palavras, Marx ensina que acima de tudo, o trabalho é um processo entre o homem e
a natureza, um processo em que o homem, por sua própria ação, media, regula e controla seu
metabolismo com a natureza (MARX, 1983, p. 149). Essa fecunda intuição no emprego de um
conceito oriundo das ciências naturais para a análise dos sistemas econômicos foi
desenvolvida nas últimas décadas por economistas ecológicos, sobretudo após as
formulações de Geogescu-Roegen (1973) sobre a natureza entrópica dos sistemas
econômicos convencionais. Segundo a perspectiva do metabolismo social, as relações entre a
humanidade com o restante da natureza são analisadas como um sistema econômico-
ecológico composto por cinco principais processos metabólicos: apropriação, transformação,
circulação, consumo e excreção. O emprego de enfoque analítico descortinou novas
perspectivas para a articulação entre as ciências naturais e as ciências sociais, deixando claro
que a ideia de metabolismo não é uma simples metáfora. Entre outros aspectos, essa nova
perspectiva interdisciplinar tem contribuído para uma melhor compreensão dos processos
históricos, demonstrando objetivamente a forte correlação entre a insustentabilidade
ecológica e a desigualdade social nos modelos de desenvolvimento dominantes (MARTINEZ-
ALIER, 2005).

Codomesticação e coprodução

Uma vez convertido em agroecossistema, o ecossistema passa a ser intencionalmente


mantido à distância de seu equilíbrio natural. Desse ponto de vista, o agroecossistema
é um sistema em desequilíbrio, cuja reprodução depende da associação recíproca e
permanente entre o trabalho humano e o trabalho da natureza. Em outras palavras, é
o resultado da coprodução entre o social e o natural (TOLEDO apud PLOEG 1993),
devendo, por isso, ser compreendido como um sistema econômico-ecológico.

Analisando por esse prisma, a agricultura pode ser definida como a gestão social de
ecossistemas ecologicamente imaturos com o objetivo de explorar economicamente
as altas taxas de produtividade primária líquida encontradas nos estágios prematuros
de sucessão ecológica.i No entanto, essa vantagem econômica alcançada com a
manutenção da imaturidade dos ecossistemas entra em conflito com a desvantagem
ecológica gerada pela interferência nos processos naturais responsáveis pela
reprodução da integridade estrutural e da dinâmica funcional da natureza. Isso porque
bondades da naturezaii essenciais à agricultura, como a fertilidade do solo (e sua
contínua regeneração) e a regulação/controle de populações de espécies
espontâneas, são reduzidas ou mesmo eliminadas com o aumento da imaturidade
ecológica dos agroecossistemas.iii

A história das agriculturas no mundo pode ser interpretada à luz dessa contínua
tensão entre a economia e a ecologia dos ecossistemas cultivados. Mazoyer e
Roudart (2001) realizaram uma brilhante análise dessa perspectiva histórica,
demonstrando como diferentes agroecossistemas do planeta foram moldados e
evoluíram a partir de dinâmicas de coprodução socioecológica. Nessas dinâmicas, o
trabalho humano e o trabalho da natureza integram-se e influenciam-se mutuamente
no sentido de mobilizar e combinar as bondades da natureza para atender
simultaneamente a objetivos ligados à produção econômica e à reprodução ecológica.

Do ponto de vista ecológico, as trajetórias históricas de inovação sociotécnica nas


agriculturas foram condicionadas pelo objetivo de balancear as vantagens e as
desvantagens da imaturidade ecossistêmica. São, portanto, construções sociais
moldadas às peculiaridades geográficas e históricas de cada agricultura. Nesse
sentido, implicam processos de inovação técnica e social informados por ciclos de
aprendizagem coletiva em nível local, envolvendo observação, interpretação,
experimentação e avaliação. Nessa ordem de ideias, a história das agriculturas pode
ser também compreendida como uma codomesticação: o humano domestica a
natureza e a natureza domestica o humano. No dizer de Toledo e Bassols (2015), são
processos de produção de culturalezas.

Nas trajetórias de codomesticação, melhores equilíbrios socioecológicos são


construídos pela permanente atualização das analogias estruturais e funcionais entre
os agroecossistemas e os ecossistemas pré-existentes. Não sem razão, as primeiras
civilizações se formaram e perduraram por séculos sobre agroecossistemas
estruturados em solos aluviais que guardam grande analogia ecológica com os
ecossistemas sobre os quais se desenvolveram.iv

Em termos territoriais, a conversão de ecossistemas florestais em agroecossistemas


foi a situação mais generalizada no planeta. O primeiro estágio técnico dessa
conversão correspondeu ao sistema de pousio, roça e queima, método que se
fundamenta na reposição da fertilidade ambiental por meio da alternância no tempo e
no espaço de parcelas agrícolas em diferentes graus de maturidade ecológica.v
Embora faça uso extensivo de recursos ambientais, essa estratégia técnica
permanece historicamente vigente em condições excepcionais nas quais as
comunidades agrícolas dispõem de suficiente dotação territorial para reservar terras a
longos períodos de pousio.vi

Intensificação baseada no trabalho

Boserup (1987) demonstrou que aumentos na densidade populacional que levassem à


escassez de terra para uma dada coletividade funcionaram como gatilhos para
desencadear trajetórias de inovação sociotécnica capazes de compatibilizar
sustentabilidade ecológica com intensificação econômica. Na Europa, essa evolução
histórica foi marcada pelo contínuo encurtamento dos períodos de pousio e,
finalmente, pela sua completa supressão, no final da Idade Média.

Nos metabolismos orgânicos, a gramática da intensificação agrícola está relacionada


ao contínuo aperfeiçoamento das dinâmicas locais de coprodução, ou seja,
fundamenta-se no aprimoramento do processo de trabalho no âmbito dos
agroecossistemas e dos territórios rurais. A peculiaridade da agricultura em relação a
outras atividades econômicas vem do fato de que seus objetos de trabalho são
elementos (ou bondades) da natureza (PLOEG, 1993). Isso significa dizer que o
incremento da produção por objeto de trabalho ocorre como resultado das trajetórias
de inovação nas formas de articulação entre o trabalho humano e o trabalho do
restante da natureza.

Colocando em outros termos, corresponde à evolução multimilenar e em escala


planetária das relações locais de reciprocidade entre o ser humano e a natureza viva
(PLOEG, 2011). Em uma perspectiva ainda mais radical, de caráter ontológico,
corresponde à evolução das formas de integração do ser humano na natureza, ou
seja, na teia da vida que compõe a Biosfera (CAPRA, 1996).

Reciprocidade: mecanismo-chave nos metabolismos orgânicos

A relevância da reciprocidade na organização do metabolismo orgânico não se limita


aos processos de integração entre o ser humano e o restante da natureza, ou seja,
nas ações de apropriação e de excreção. Ela se expressa igualmente nas funções
metabólicas realizadas na esfera social, ou seja, na transformação, na circulação e no
consumo dos bens naturais.
Karl Polanyi (2012) descreveu as formas de integração social no decorrer da história,
demonstrando que, juntamente com a troca mercantil e a redistribuição, a
reciprocidade é um mecanismo-chave na organização dos sistemas econômicos.vii O
aspecto central na análise de Polanyi refere-se ao fato de que o funcionamento
combinado dessas três formas de integração social depende da presença de
estruturas institucionais bem estabelecidas. Desse ponto de vista, a transformação
histórica dos sistemas econômico-ecológicos (como os agroecossistemas) deve ser
compreendida também como a evolução das estruturas institucionais responsáveis
pelo funcionamento combinado dessas três formas de integração social.viii

A grande transformação metabólica

Em seu livro seminal A Grande Transformação, Karl Polanyi (2000) analisou como as
trocas mercantis passaram a exercer crescente influência na regulação dos fluxos
metabólicos a partir do século XVIII em detrimento das relações de reciprocidade
(entre os seres humanos e destes com a natureza). O passo essencial para essa
mudança histórica foi a criação de instituições sociais que permitiram que parcelas
crescentes da natureza fossem valorizadas e intercambiadas através dos mercados.
Com isso, o trabalho humano e a terra passaram a ser concebidos como mercadorias,
ou seja, como se fossem produzidos para a venda. Nas palavras de Polanyi, o
pressuposto é tão utópico em relação à terra como em relação ao trabalho. A função
econômica é apenas uma das funções vitais da terra. Esta dá estabilidade à vida do
homem... separar a terra do homem e organizar a sociedade de forma tal a satisfazer
as exigências de um mercado imobiliário foi parte vital do conceito utópico de uma
economia de mercado (POLANYI, 2000 p. 214).

Não cabe aqui entrar em detalhes sobre as condições que proporcionaram a virada
institucional que abriu o caminho para a emergência histórica e a disseminação global
do capitalismo. Essa grande transformação não se processou como uma ruptura
histórica, mas veio se delineando desde o início do século XVI, quando começa a se
estabelecer, pela primeira vez, uma economia-mundo (WALLERSTEIN, 1974).

Nas sociedades pré-capitalistas, a medida da riqueza social correspondia à


produtividade da terra, ou seja, à associação do trabalho da natureza com o trabalho
humano. No capitalismo, a produtividade do trabalho humano monetariamente
remunerado passou a ser assumida como a métrica da riqueza. Além disso, como
decifrou Karl Marx (2014), a riqueza produzida passou a ser incorporada e objetivada
na forma de mercadoria. Numa sociedade assim organizada, o mercado formador de
preços assume o papel de instituição dominante do sistema econômico.ix
A racionalidade econômica que se impõem a partir dessa virada institucional induz o
desenvolvimento de novas formas de apropriação dos bens naturais, alterando a
escala, a velocidade e o escopo das transformações dos ecossistemas.x Desse ponto
de vista, mais do que um novo sistema econômico ou uma nova forma de divisão
social do trabalho, o capitalismo emerge como um novo sistema de governança do
metabolismo socioecológico. Em outras palavras: como uma forma peculiar de
organizar a natureza (MOORE, 2015 p. 58).

Essa mudança radical no metabolismo socioecológico ancorou-se em um novo


paradigma intelectual fundado na separação ontológica entre a humanidade e o resto
da natureza. Essa perspectiva cartesiana de apreensão da realidade foi condição
necessária para o estabelecimento de economias fundamentadas na ideia de
dominação da natureza, contrastando com as estratégias de codomesticação que
prevaleceram nas sociedades históricas precedentes.

A ilusão metafísica do metabolismo industrial

A grande transformação institucional que abriu caminho para o desenvolvimento e a


rápida expansão do padrão metabólico comandado pelo capital foi erigida sobre dois
axiomas metafísicos: o mito do progresso ilimitado e o antropocentrismo (GARRIDO
et. al., 2007). Por um lado, a natureza é concebida como uma reserva interminável de
recursos a serem mobilizados para o processo econômico. Por outro, o ser humano é
concebido como uma entidade autoreferencial, que se posiciona acima da natureza a
fim de dominá-la. No entanto, a natureza é finita e rebelde: além de ser exaurir se
explorada acima de sua capacidade de restauração, não aceita ser dominada
passivamente.

Para fazer frente à exaustão dos recursos e aos mecanismos de resiliência ecológica,
assegurando a continuidade da dinâmica expansiva do capital, um amplo repertório de
estratégias de apropriação das bondades da natureza foi (e permanece sendo)
desenvolvido.xi

Cabe aqui lembrar que o período de arranque desse novo modo de produçãoxii ocorreu
na era de expansionismo europeu (BRAUDEL, 1997), quando vastas extensões
territoriais foram incorporadas à fronteira de apropriação por meio do extrativismo
predatório (de madeira e de minerais) e da transformação de ecossistemas em
agroecossistemas monocultores de grandes extensões territoriais.xiii Além da
expansão geográfica das fronteiras de apropriação, fato até hoje presente em várias
regiões do planeta, como a Amazônia brasileira, esse repertório inclui o
desenvolvimento de novos conhecimentos e tecnologias voltados à identificação,
codificação e racionalização das bondades da natureza de forma a incorporá-las no
processo de produção de riquezas.xiv

Um elemento decisivo nessa trajetória histórica de apropriação foi a mobilização do


trabalho/energia da natureza acumulado por meio de processos biogeológicos
multimilenares na forma de combustíveis fósseis.xv Essa inovação tecnológica que
abriu caminho para a Revolução Industrial no século XVIII representou um divisor de
águas na história da humanidade.xvi Ao possibilitar que as atividades metabólicas se
desconectassem das dinâmicas ecológicas alimentadas pela radiação solar, o
emprego da energia fóssil abriu caminho para o desenvolvimento de um terceiro
padrão metabólico na história humana: o metabolismo industrial (GONZÁLEZ DE
MOLINA; TOLEDO, 2011).

Desde as primeiras aplicações tecnológicas dos combustíveis fósseis, com o emprego


do carvão mineral para o acionamento da máquina a vapor nas indústrias têxteis
inglesas, dois séculos foram necessários para que o metabolismo industrial fosse
plenamente estabelecido nas dinâmicas de funcionamento dos agroecossistemas.

Os agroecossistemas como o cenário de um teatro cartesiano

A rápida disseminação do padrão metabólico industrial no mundo rural a partir da


segunda metade do século 20 deve ser interpretada como um projeto político
deliberadamente promovido para atender às novas exigências de reprodução do
capital.xvii

Sendo portador da promessa de superar o atraso da agricultura e do mundo rural em


relação ao mundo urbano-industrial, esse projeto se impôs após a II Guerra Mundial,
dominando a política, a prática e a teoria (PLOEG et. al., 2000) sob o manto da
modernização da agricultura.

A materialização dessa promessa se daria com o emprego racional das terras e dos
demais recursos produtivos, com a garantia da produção de alimentos necessários a
uma população mundial em acelerado crescimento vegetativo, com a geração de
divisas para as economias nacionais e regionais e com a articulação social e
econômica do setor agrícola à dinâmica geral de desenvolvimento das sociedades
modernas. Esses efeitos combinados seriam alcançados a partir da generalização de
uma nova matriz tecnológica que, em síntese, combina cinco práticas principais: 1) a
fertilização química e o emprego de rações industriais e hormônios de crescimento; 2)
o controle químico de insetos-praga e doenças; 3) o revolvimento intensivo dos solos;
4) a irrigação intensiva; e 5) a manipulação dos genomas de plantas e animais
domésticos.

Embora cada uma dessas práticas exerça funções específicas na dinâmica ecológica
dos agroecossistemas, elas só se tornam funcionais se empregadas em diferentes
combinações com as demais. Essa interdependência molda o desenvolvimento de
sistemas técnicos poucos flexíveis, desenvolvidos para serem disseminados de forma
universal na forma de pacotes tecnológicos (PETERSEN et. al., 2009).

Essa forma de compreender o funcionamento ecológico dos agroecossistemas funda-


se em um paradigma agronômico mecanicista que supõe a possibilidade teórica do
controle total sobre as dinâmicas naturais por meio do emprego de tecnologias
cientificamente definidas com o auxílio do método paramétrico.xviii

A ruptura paradigmática imposta pelo projeto de modernização pode ser sintetizada


pela substituição do objetivo de domesticar pelo de dominar a natureza. Relações de
reciprocidade ecológica, somente possíveis em ambientes de interação simétrica, são
abandonadas, para dar lugar a um padrão de relacionamento baseado na tentativa de
controle unilateral do humano sobre as dinâmicas do restante da natureza. Uma
expressão prática dessa mudança de perspectiva se manifesta nas novas estratégias
adotadas para o manejo da agrobiodiversidade: em lugar de adaptar os genótipos de
plantas e animais domesticados às peculiaridades ecológicas locais, o paradigma da
modernização está assentado na disseminação em larga escala de genótipos
desenvolvidos em ambientes artificialmente controlados para a obtenção de elevadas
produtividades.xix No entanto, para que as variedades e raças desenvolvidas a partir
dessa perspectiva de melhoramento genético expressem seus potenciais produtivos,
condições ecológicas ótimas devem ser proporcionadas por meio do emprego das
demais tecnologias que compõem os pacotes tecnológicos (Quadro 2).

Quadro 2: Alterando o metabolismo das espécies domesticadas


As chamadas variedades e híbridos de alto rendimento são desenvolvidas em condições
ambientais ótimas obtidas pelo emprego de fertilizantes sintéticos, irrigação e agrotóxicos.
Por essa razão, os genótipos são submetidos a uma pressão de seleção que torna dispensável
o acionamento de genes que conferem maior plasticidade ecológica às variedades locais, ou
seja, maior resiliência frente aos efeitos de estresses ambientais, como a baixa
disponibilidade de nutrientes e água nos solos. Dessa forma, a energia e os nutrientes
investidos na manutenção de estratégias fisiológicas de adaptação aos ecossistemas – por ex.
o desenvolvimento das raízes em profundidade e a associação simbiótica com organismos do
solo – são canalizados para a formação dos órgãos vegetais de interesse comercial
(GLIESSMAN, 2000). A desativação genética dessas estratégias torna os genótipos
estruturalmente dependentes de condições ecológicas equivalentes às que geraram a pressão
de seleção durante o processo de melhoramento genético. Por essa razão, para que o
potencial genético de alta produtividade física se manifeste nos plantios comerciais, estes
devem ser realizados em condições ambientais artificialmente produzidas. Essa é razão pela
qual a substituição das variedades locais por variedades comerciais condiciona à necessidade
de mudanças correspondentes nas práticas de reposição da fertilidade e de manutenção da
sanidade nos agroecossistemas, levando os agricultores à crescente dependência dos pacotes
tecnológicos da modernização. Quando aplicado no desenvolvimento de genótipos animais,
esse enfoque leva à dependência de rações e medicamentos comerciais, bem como a
necessidade de assegurar condições ambientais artificializadas para os criatórios para que
uma maior proporção da energia metabólica dos animais seja canalizada para a produção
econômica.

Por intermédio dessa mudança de enfoque, as relações de coprodução que por


milênios orientaram a evolução das agriculturas, deram lugar a um padrão metabólico
estruturalmente dependente de insumos industriais e de fontes de energia não-
renováveis. Ao contrário dos aprimoramentos técnicos anteriores, o arsenal
tecnológico da modernização gera crescentes níveis de desconexão entre a
agricultura e os ecossistemas locais, tornando os recursos endógenos supérfluosxx e
levando os agroecossistemas a níveis de imaturidade ecológica sem precedentes.

Duas consequências negativas de longo alcance decorrem dessa desconexão


ecológica: 1) os sistemas agroalimentares tornam-se cada vez mais ineficientes no
uso de energia (ACKER et. al, 2013).; 2) a agricultura foi convertida em poderosa
agente de toxificação da natureza (nela incluída os seres humanos) (CARSON, 1962;
COLBORN et.al., 1997).

No teatro cartesiano da agricultura industrial, a direção e o protagonismo da cena


deixam de ser assumidos pelos próprios agricultores. Seguindo o script elaborado pela
ciência, atores externos passam a teleguiar o desenvolvimento do cenário pela via dos
mercados.
Cientificização, mercantilização e externalização nos agroecossistemas

A construção do novo paradigma agronômico em coerência com os postulados


teóricos da economia neoclássica configurou as condições históricas necessárias para
a penetração da lógica do capital na agricultura. Parâmetros técnicos e econômicos
fornecidos pelas ciências agrárias passaram a condicionar as rotinas do processo de
trabalho agrícola pela via dos mercados. Na prática, essa cientificização do trabalho
agrícola se materializa por meio da substituição de estratégias técnicas
fundamentadas na valorização de recursos endógenos por estratégias dependentes
do contínuo aporte de recursos exógenos. Dessa forma, a antiga noção de arte da
localidade (MENDRAS, 1970 apud PLOEG et.al., 2004), que bem definia a Agronomia
clássica, tem seu sentido teórico e prático esvaziado, uma vez que o caráter artesanal
do trabalho agrícola, bem como as peculiaridades dos ecossistemas e das sociedades
do entorno perdem relevância na gestão econômico-ecológica dos agroecossistemas.

A noção de agricultura moderna que se impõe reflete uma ativa negação da agricultura
tradicional e da arte da localidade (SHULTZ, 1965).xxi Com isso, o processo de
modernização passa a ser assimilado como um movimento progressivo em direção a
formas tecnológica e institucionalmente mais complexas e integradas da sociedade
moderna (LONG e PLOEG, 2011). A ideia de modernizar a agricultura assume o
sentido equivalente ao de integrar os agroecossistemas ao mercado a montante, pela
dependência de insumos e equipamentos industriais, e a jusante, pela ampliação da
escala de produção comercial. Dessa forma, tanto os produtos agrícolas como os
recursos necessários à sua produção assumem a racionalidade da mercadoria.

Essa mercantilização multifacetada implica a externalização de operações do


processo de produção com a transferência do controle de recursos produtivos para
atores externos, tais como bancos, indústrias, fornecedores de insumos e
equipamentos, assistência técnica, etc.. Atividades antes coordenadas pelos
agricultores e por suas comunidades com base em relações de reciprocidade são
substituídas por outras dependentes de recursos e serviços mobilizados nos
mercados.

A crescente perda de autonomia da agricultura e dos agricultores é o corolário do


encadeamento lógico que liga a cientificização, à mercantilização e à externalização
dos agroecossistemas. O efeito combinado desses processos leva a mudanças de
grande alcance nas estratégias de reprodução dos agroecossistemas. Nos termos
empregados por Ploeg (1996), implicam a substituição de estratégias relativamente
autônomas e historicamente garantidas por outras dependentes das relações
estabelecidas nos mercados.

Analiticamente, importa ressaltar que a modernização agrícola ocorreu como uma


forma de integração subordinada da agricultura e do mundo rural ao processo geral de
acumulação capitalista (WANDERLEY, 2009). Além de ampliar as fronteiras de
apropriação das bondades da naturezaxxii e de exploração do trabalho humano, o
projeto de modernização engendrou novas formas de divisão social do trabalho entre o
mundo rural e o mundo urbano, entre a agricultura e a indústria e entre diferentes
agroecossistemas.

Intensificação baseada no capital

A incorporação do metabolismo industrial na agricultura criou as condições objetivas


para que a gestão econômico-ecológica dos agroecossistemas compatibilizasse duas
tendências de desenvolvimento mutuamente excludentes no curso da história: o
aumento de escala e a intensificação.

Essa inédita conciliação de estratégias técnico-econômicas contrastantes tornou-se


possível com a substituição do trabalho (humano e extra-humano) pelo capital na
reprodução dos agroecossistemas. Em outras palavras, isso significa a substituição
das dinâmicas locais de coprodução por fatores de crescimento adquiridos nos
mercados. No primeiro caso, os ciclos biogeoquímicos são organizados na escala da
paisagem rural a partir do manejo da água e da biodiversidade (viva ou morta). A
reprodução do agroecossistema é assegurada pelo investimento intensivo em trabalho
qualificado informado por um acervo de conhecimentos contextualizados. O resultado
desse estilo de gestão é a conformação de um metabolismo complexo caracterizado
pela manutenção de densas redes econômico-ecológicas acionadas com forte
contribuição de dispositivos de ação coletiva baseados em relações de reciprocidade.

No segundo caso, a reprodução é assegurada pela importação de matéria e energia


de fora do agroecossistema, conformando estilos de gestão técnico-econômica
caracterizados pelo encadeamento mecânico de operações de manejo prescritas em
protocolos técnicos cientificamente sistematizados fora dos contextos socioecológicos
locais. O processo de trabalho é orientado para induzir a conformação de
metabolismos simplificados caracterizados por fluxos lineares de entrada e saída de
matéria e energia do agroecossistema. Dessa forma, a reprodução torna-se
estruturalmente dependente de relações técnico-administrativas estabelecidas com
agentes externos (do mercado e do Estado), tornando obsoletos os mecanismos de
reciprocidade social e ecológica.

Com o crescente domínio da racionalidade mercantil sobre a governança do


metabolismo dos agroecossistemas, as produtividades físicas da agricultura industrial
tornam-se cada vez mais dependentes da mobilização de bondades da natureza
apropriadas fora dos limites físicos dos ecossistemas locais. Assim, o processo de
trabalho agrícola passa a ser acionado pelo aporte contínuo e crescente de matéria e
energia incorporadas nas mercadorias. Em termos econômicos, isso implica o
aumento dos consumos intermediários e, por consequência, a tendência à redução do
valor agregado por objeto de trabalho.

Essa lógica de gestão econômico-ecológica comandada pela relação preço/custo das


mercadorias que saem e entram nos agroecossistemas tende a gerar margens de
rentabilidade decrescentes, obrigando os agricultores a combinar estratégias de
intensificação e de aumento de escala a fim de obterem níveis de renda monetárias
correspondentes às suas expectativas econômicas. Configura-se assim a
incorporação na agricultura das estratégias fordistas previamente adotadas na
produção industrial para aumento da produtividade do trabalho: integração progressiva
em circuitos comerciais, divisão social do trabalho, substituição dos fatores de
produção, especialização produtiva e ampliação de escala.

A emergência do regime metabólico imperial

A rápida disseminação do paradigma da modernização agrícola acompanhou, na


segunda metade do século passado, a inusitada expansão da economia mundial, com
o incremento dos fluxos de capital e de mercadorias por todo o planeta. A união da
tecnologia agrícola com a ciência agrícola se fez sob o comando dos mercados que,
justamente graças à técnica e à ciência, globalizaram-se a montante e a jusante da
agricultura. Enquanto a ciência desenvolve os padrões tecnológicos necessários para
que os mercados operem em escalas crescentes, os mercados direcionam os rumos
da inovação científica e tecnológica para favorecer a crescente acumulação de capital
através dos processos metabólicos que encadeiam a produção ao consumo de
alimentos (PETERSEN, 2009).

Essa dinâmica autopropelida de expansão do metabolismo industrial nos sistemas


agroalimentares ganhou momentum histórico com a desregulamentação dos
mercados agrícolas, a partir da assinatura do Acordo Agrícola da Organização Mundial
do Comércio em meados da década de 1990, sob a égide do projeto de globalização
neoliberal.

Frente aos novos arranjos institucionais que favoreceram a intensificação dos fluxos
globais de capital financeiro, os sistemas agroalimentares tornaram-se uma arena
propícia na qual empresas do setor agroindustrial passaram a disputar posição de
hegemonia. Valendo-se de oferta praticamente ilimitada de crédito no mercado
financeiro, grandes conglomerados transnacionais se estruturaram por meio de
aceleradas séries de apropriações de pequenas e médias empresas e fusões entre
grandes empresas.

Uma rápida redistribuição de riqueza e de poder ocorreu entre a agricultura e os


setores industrial e financeiro criando as condições para a emergência de um regime
agroalimentar corporativo (McMICHAEL, 2009). Seguindo proposição conceitual de
Ploeg (2008), a essência da atual fase da globalização dos mercados agrícolas refere-
se à imposição de um conjunto de normas técnicas e parâmetros institucionais que
favorecem o controle à distância sobre a gestão técnico-econômica dos
agroecossistemas e, em escala mais ampliada, dos sistemas agroalimentares. Esse
controle à distância se expressa na forma de um poder imperial exercido pelas
grandes corporações do agronegócio.xxiii

Na prática, a crescente mobilidade do capital financeiro através dos sistemas


agroalimentares verificada nas últimas décadas, com a globalização neoliberal
(BONANNO e CAVALCANTI, 2011), correspondeu a uma intensificação sem
precedentes do trânsito global de matéria e energia.xxiv Comandada pelo e para o
capital, a transformação dos padrões metabólicos dos sistemas agroalimentares
viabilizada pelo aprofundamento da mercantilização do processo de trabalho agrícola
e pela liberalização do comércio internacional dá mostras inequívocas de que vem
alcançando seus limites sociais e ecológicos.

Intercâmbio desigual e fechamento das fronteiras de apropriação

Ao transformarem-se no principal vetor de indução do metabolismo industrial nos


sistemas agroalimentares (GONZÁLEZ DE MOLINA; TOLEDO, 2011), os mercados
assumiram crescente hegemonia na conformação dos arranjos institucionais que
encadeiam a produção ao consumo de alimentos e fibras em detrimento das outras
formas de integração social (sentido Polanyi). Com isso, as economias agrícolas
desenraizaram-se, perdendo referência às especificidades socioecológicas e culturais
dos territórios rurais.
Viabilizado materialmente pela disponibilidade de combustíveis fósseis baratos, esse
desenraizamento gerou níveis sem paralelo histórico de desconexão entre os
processos metabólicos de apropriação e de excreção nos sistemas agroalimentares.
Sintomas da acentuação dessa ruptura metabólica indicam que os sistemas
agroalimentares globalizados aproximam-se de seus limites biofísicos.

Como faces de uma moeda, esses limites se expressam em dois lados


complementares entre si. De um lado, pela progressiva exaustão das bondades da
natureza apropriadas pelo processo econômico. A longa era de apropriação geradora
de altas recompensas financeiras mediante investimentos relativamente baixos em
trabalho deu lugar a um período histórico que combina queda acelerada nas
recompensas com aumentos desproporcionais nos esforços para obtê-las (DAVIDSON
et. al., 2014). Na prática, esse fenômeno se expressa no aumento dos preços dos
insumos agrícolas e na necessidade de incremento no uso desses insumos para que a
perda de fertilidade dos solos e o aumento dos desequilíbrios bióticos sejam
artificialmente contrabalançados.xxv

O outro lado dos limites biofísicos corresponde ao massivo descarte na natureza de


resíduos gerados pelas cadeias agroalimentares globalizadas. Os fluxos lineares de
matéria e energia que caracterizam o metabolismo industrial distanciam a apropriação
da excreção no espaço e no tempo, fazendo com que a extração predatória em uma
ponta gere fluxos cumulativos de desperdício e de poluição na outra. A imposição
desse padrão metabólico com o projeto de modernização agrícola e sua posterior
disseminação global com o neoliberalismo fez com que os sistemas agroalimentares
assumissem nas últimas décadas um papel destacado como fonte poluidora do
planeta.xxvi

Essa dupla pressão sobre a base ecológica dos sistemas agroalimentares


corresponde a um fechamento das fronteiras de apropriação, um processo resultante
do aprofundamento de um padrão de intercâmbio desigual entre o ser humano e o
resto da natureza, cuja origem remonta às monoculturas coloniais do século XVI.
Embora esse processo seja ocultado pelo um paradigma econômico dominante que
deliberadamente desconsidera a materialidade biofísica incorporada nos fluxos de
mercadorias, os efeitos das mudanças climáticas globais surgem nesse momento
histórico como sintomas de maior visibilidade pública dos limites de um sistema
institucional que concebe a natureza como fonte inesgotável de recursos e como
sumidouro ilimitado de resíduos.
Campesinato: base sociocultural dos metabolismos orgânicos

O mesmo sistema institucional que rompe os vínculos de reciprocidade entre a


humanidade e o resto da natureza induz o desenvolvimento de padrões de intercâmbio
desigual no interior da esfera social. O aumento das relações de exploração do
trabalho humano remunerado e da apropriação do trabalho humano não remunerado
verificado nas últimas décadas é responsável pela drenagem de parcelas crescentes
do valor agregado geradas na agricultura em direção aos impérios agroalimentares.
Na prática, a dinâmica expansiva do metabolismo industrial se faz em detrimento dos
metabolismos orgânicos reproduzidos nos modos de existência e de produção da
agricultura camponesa. Como esses padrões metabólicos são organizados por
princípios ecológicos, econômicos e sociais muito contrastantes entre si, a
sobreposição dos mesmos no espaço e no tempo gera conflitos territoriais ou, como
propõem González de Molina e Toledo (2011), conflitos intermetabólicos.

Tendo recebido por parte dos Estados nacionais amplo apoio político, ideológico,
financeiro e, em muitas situações, militar, o projeto de modernização disseminou-se
territorialmente gerando acelerados processos de descampesinizaçãoxxvii tanto nos
países do Norte quanto nos do Sul. Para Hobsbawm (1994, pp. 288-9; apud
BERSTEIN, 2009) a mudança mais dramática na segunda metade deste século
[século 20], e aquela que nos isola para sempre do mundo do passado, é a morte do
campesinato. Em sintonia com o eminente historiador inglês, amplos círculos
acadêmicos e políticos prognosticaram o fim dos camponeses (MENDRAS, 1967)
como um destino inelutável diante do avanço do capitalismo no campo.

A realidade empírica, no entanto, demonstra que a história agrária mundial não seguiu
os destinos teoricamente preestabelecidos com base nos supostos do paradigma da
modernização. No lugar de um roteiro único de desenvolvimento rural determinado
pelas forças dos mercados globalizados e globalizantes, o que se assiste em todas as
regiões do planeta é o desdobramento de trajetórias heterogêneas de
desenvolvimento dos agroecossistemas influenciadas por roteiros escritos localmente,
a partir das múltiplas e criativas formas de resistência e de luta por emancipação da
agricultura camponesa.xxviii Um elemento central nessas formas de resistência e luta é
a contínua construção, aperfeiçoamento, ampliação e defesa de bases de recursos
locais autocontroladas, compostas pela articulação recíproca entre bondades da
natureza e dispositivos institucionais de integração social.

Por mais irrelevantes que essas resistências possam parecer quando analisadas
isoladamente, em conjunto, suas práticas apontam caminhos consistentes para a
construção de soluções locais para os graves problemas globais gerados pelos
modernos sistemas agroalimentares. Essas práticas reproduzem metabolismos
agrários relativamente autônomos e sustentáveis, moldados por arranjos técnico-
institucionais que organizam o trabalho humano segundo fundamentos-chave também
presentes na organização do trabalho da natureza: diversidade; natureza cíclica dos
processos; flexibilidade adaptativa; interdependência; e vínculos de reciprocidade e de
cooperação.

Esse conjunto de fundamentos está inscrito nas memórias bioculturais (ou repertórios
culturais) de famílias e comunidades camponesas. Ao mesmo tempo em que colocam
em xeque os postulados econômicos, agronômicos e sociológicos da modernização,
sua aplicação prática no processo de trabalho agrícola favorece a reconciliação entre
as (agri)culturas e as naturezas como elementos que se estruturam dialeticamente,
revalorizando as dinâmicas descentralizadas de coprodução que alimentaram a
heterogênese do mundo por milênios (PETERSEN, WEID, FERNANDES, 2009).

Ao contrário do diagnóstico apresentado por Hobsbawn, essas memórias bioculturais


permanecem vivas e ativas e apresentam-se na presente quadra histórica como elos
entre o passado, o presente e o futuro da Humanidade. A proteção e o cultivo das
mesmas são tarefas urgentes e exigem o desenvolvimento de instituições sociais
informadas por uma ciência fundamentada em princípios epistemológicos, conceituais
e metodológicos capazes de superar a cisão cartesiana da natureza entre o mundo
humano e o mundo não-humano.

Agroecologia: ciência a serviço da recampesinização

Para que a agricultura camponesa seja socialmente reconhecida e promovida, a


Ciência está desafiada a abordar a realidade empírica por ângulos distintos dos
propostos pela teoria da modernização. Mudanças nessa direção estão em curso: em
vez de continuar decretando o inexorável desaparecimento da agricultura camponesa,
as ciências sociais têm contribuído para o entendimento de que os camponeses estão
entre nós para ficar, e que o mundo estaria muito pior se eles houvessem
efetivamente desaparecido; em vez de continuar se fiando na capacidade humana de
dominar a natureza, as ciências agrárias começam a incorporar a compreensão de
que a agricultura é a arte da coprodução e que os camponeses são os grandes
mestres dessa arte (PETERSEN, 2009).

Como enfoque científico, a Agroecologia nasceu a partir da fusão de duas ciências


que mantiveram entre si um relacionamento tenso durante boa parte do século 20: a
Agronomia e a Ecologia. Enquanto a primeira se ocupou do desenvolvimento de
práticas agrícolas cada vez mais desconectadas da natureza, a segunda voltou-se
essencialmente para o estudo dos sistemas naturais (GLIESSMAN, 2000). A
articulação entre as duas ciências, com a produção de uma nova síntese, se fez a
partir de esforços convergentes de ecólogos interessados em estudar os sistemas
agrícolas e de agrônomos empenhados em aplicar a perspectiva ecológica para
solucionar problemas técnicos da agriculturaxxix.

Wezel e Soldat (2009) realizaram uma análise histórica da Agroecologia, tendo


identificado já no final da década de 1920 os primeiros trabalhos acadêmicos que
fazem referência à aplicação da perspectiva ecológica no manejo de cultivos agrícolas.
Desde então, o enfoque agroecológico ampliou sua mirada, passando a abordar as
interações ecológicas entre os subsistemas de um agroecossistema e, posteriormente,
em uma escala ainda superior, as interações econômico-ecológicas estabelecidas no
âmbito dos sistemas agroalimentares.

Essa característica interdisciplinar, multiescalar e multidimensional do enfoque


agroecológico o distingue em vários sentidos do enfoque dominante no paradigma da
modernização agrícola. Em primeiro lugar porque (1) a construção do conhecimento
agroecológico é contextualizado nas realidades agrárias onde ele será empregado. O
enfoque nessa construção é voltado essencialmente para a (2) promoção de
equilíbrios ecológicos na escala da paisagem agrícolaxxx, de forma a (3) mobilizar bens
do capital ecológico territorial para o processo de trabalho agrícola, (4) estimulando
trajetórias endógenas de inovação técnica que proporcionam, simultaneamente, (5) a
manutenção e/ou o aumento da produtividade física de cultivos e criações e a (6)
diminuição dos consumos intermediários, resultando na (7) produção de maior valor
agregado, (8) sua apropriação pelas famílias agricultoras e (9) sua retenção no
território. A riqueza social assim gerada (10) realimenta a endogeneidade, (11) criando
novas margens de autonomia para a contínua produção de novidades.

Em segundo lugar, porque (12) o processo social de inovação sociotécnica não é


determinado exclusivamente pelos conhecimentos provenientes da academia, o que
implica (13) a estruturação de redes sociotécnicas multiatores de âmbito territorial, (14)
responsáveis pela criação de ambientes sociais fecundos para o diálogo entre os
saberes científico-acadêmicos e as sabedorias populares.xxxi Por meio desses
ambientes, (15) a agência social de camponeses e de suas organizações é
reconhecida e desenvolvida, (16) fortalecendo o capital social, (17) revitalizando
práticas de reciprocidade social, (18) aprimorando arranjos institucionais locais, (19)
proporcionando maiores níveis de governança local sobre os mercados e, finalmente,
(20) diversificando as atividades econômicas no território (PETERSEN, 2013).

Uma prática, uma ciência e um movimento social

A Agroecologia vem se consolidando mundialmente como uma teoria crítica que


formula um questionamento radical à agricultura industrial, fornecendo
simultaneamente as bases conceituais e metodológicas para o desenvolvimento de
sistemas agroalimentares economicamente eficientes, socialmente justos e
ecologicamente sustentáveis. Como prática social, a agroecologia se expressa nas
variadas e criativas formas de resistência e luta camponesa, em particular nas
estratégias para construção de autonomia com relação aos mercados de insumos e de
trabalho por meio da restauração dos mecanismos de reciprocidade ecológica e social.
Como movimento social, a agroecologia mobiliza atores envolvidos prática e
teoricamente na sua construção, assim como crescentes contingentes sociais
mobilizados pela defesa da justiça social, da saúde coletiva, da soberania e segurança
alimentar e nutricional, da economia solidária e ecológica, da equidade entre gêneros
e de relações mais equilibradas entre o mundo rural e as cidades. Em sua essência, a
agroecologia articula sinergicamente essas três formas de compreensão,
condensando em um todo indivisível o seu enfoque analítico, a sua capacidade
operativa e a sua incidência política.

No curso dos últimos dez anos, a agroecologia ganhou crescente reconhecimento


acadêmico e institucional. Uma extensa meta-análise de estudos conduzidos em
países de todos os continentes demonstrou que a produção de base agroecológica
alcança rendimentos físicos iguais ou superiores aos da agricultura industrial
(BADGLEY et. al., 2007). Além de confirmar a possibilidade técnica de atendimento da
crescente demanda alimentar mundial sem o emprego de agroquímicos e
transgênicos, essa compilação ressalta que os incrementos de produção pela
perspectiva agroecológica são alcançados sem a necessidade de desmatamento para
a expansão das atuais áreas agrícolas. Essa é a razão pela qual, desde a crise
alimentar de 2008, vários órgãos das Nações Unidas divulgaram importantes
documentos que, em conjunto, apontam para a conclusão de que o enfoque
agroecológico para intensificação agrícola oferece respostas consistentes à tendência
de acentuação, alastramento global e mútuo entrelaçamento das crises alimentar,
energética, ecológica, econômica e climática (IAASTD 2009; DE SHUTTER 2011;
HLPE, 2012; UNCTAD, 2013).
Por meio de uma crítica de economia política ao enfoque produtivista e
antidemocrático dos sistemas agroalimentares globalizados, movimentos sociais rurais
reunidos na Via Campesina defendem a agroecologia como uma perspectiva para a
plena realização do direito humano à alimentação, afirmando o conceito de soberania
alimentar como o direito dos povos a uma alimentação saudável e culturalmente
apropriada, produzida por meio de métodos ecologicamente sustentáveis, e de
definirem seus próprios alimentos e sistemas de produção (FFS, 2007).

Representantes de organizações da sociedade civil presentes nos Seminários Global


e Regionais sobre Agroecologia promovidos pela Organização das Nações Unidas
para Agricultura e Alimentação (FAO), no bojo do Ano Internacional da Agricultura
Familiar, também ressaltaram a dimensão política da agroecologia, manifestando o
rechaço a todas as tentativas de redução da proposta agroecológica a um conjunto de
tecnologias destinadas a suavizar os impactos ambientais negativos da agricultura
industrial. Nesse sentido, afirmam que as noções de agricultura climaticamente
inteligente e de intensificação sustentável, que entram em voga nos debates
internacionais, não podem ser confundidas com a proposta agroecológica. Tampouco
a agroecologia pode ser reduzida a uma proposta orientada a organizar um nicho de
mercado de produtos orgânicos em benefício de poucos produtores e consumidores
(PETERSEN; LONDRES, 2015).

Um conflito intermetabólico em escala global

Um dos principais aprendizados do estudo da história da agricultura é que a superação


de um padrão de organização técnica e econômica dos agroecossistemas por outro
nunca ocorreu como resultado automático das novas descobertas tecnológicas. A
adoção em larga escala de novidades técnicas costumava esbarrar em fortes
obstáculos político-institucionais e culturais, mesmo quando já houvessem
demonstrado capacidade dar respostas a profundos dilemas enfrentados pelas
sociedades. Essa é a razão pela qual a agroecologia permanece confinada a nichos
de inovação social, não ameaçando as bases institucionais que sustentam o regime
metabólico industrial imposto pelos impérios alimentares, embora seja crescentemente
reconhecida como portadora de respostas integradas aos riscos de colapso
socioecológico gerados na era do Antropoceno, particularmente desde a segunda
metade do século 20, com incremento exponencial das interações negativas entre o
ser humano e o resto da natureza, período conhecido como a Grande Aceleração
(COSTANZA et. al., 2007).
Os poderosos bloqueios institucionais ao avanço da agroecologia estão intimamente
associados ao triunfo ideológico da narrativa hegemônica sobre o sistema
agroalimentar globalizado. Ao esvaziar o sentido social e político das crises globais
convergentes (GEORGE, 2012), essa narrativa procura atribuir um caráter
estritamente técnico às soluções por ela propugnadas, sempre associadas à dinâmica
expansiva dos circuitos de acumulação do capital.xxxii Como bem assinalou Holt-
Gimenez (2010), a agroecologia contraria frontalmente a lógica de reprodução do
capital por reduzir (ou eliminar) o uso de agroquímicos, por conservar o material
genético local e por depender do campesinato. Os dois primeiros fatores geram
autonomia em relação aos mercados de insumos e o último possui uma lógica de
classe. Para o autor, apoiar e fortalecer o desenvolvimento de um campesinato
independente sempre foi imperdoável para as classes abastadas.

O conflito entre o metabolismo industrial e o metabolismo orgânico nos sistemas


agroalimentares é, portanto, uma expressão decisiva na luta de classes
contemporânea. Mas essa luta de classes em torno à agricultura e à alimentação
assume formas estruturais específicas na medida em que capital e trabalho articulam-
se dialeticamente, formando um todo orgânico com a natureza.

Renovar os contratos natural e social

Ao contribuir para restabelecer e/ou aprimorar dinâmicas de coprodução (ou de


reciprocidade ecológica), a agroecologia apoia processos de recampesinização,
restaurando a precedência do trabalho sobre o capital no funcionamento metabólico
dos agroecossistemas. Simultaneamente, aciona dispositivos de ação coletiva para a
construção, a defesa e a governança de bens comuns em âmbito territorial,
favorecendo a reativação da reciprocidade social, um elemento intrínseco ao modo de
produção camponês.

Ao reatar os vínculos de reciprocidade nas trocas sociais e nas trocas com a natureza,
o enfoque agroecológico contribui para o enraizamento das economias rurais (sentido
Polanyi) no capital social e no capital ecológico, destruindo o poder imperial do capital
financeiro sobre o metabolismo dos sistemas agroalimentares. Desse ponto de vista, a
agroecologia aponta caminhos fecundos para o desenvolvimento rural endógeno
(PLOEG; DIJK, 1995).

Parafraseando Holloway (2003), esses caminhos ampliam as margens de manobra


para transformar o mundo sem tomar o poder. Como definiu o poeta Antonio Machado,
são caminhos que se fazem ao caminhar. Isso foi percebido ainda no início do século
20 por Chayanov, quando descreveu o camponês como um sujeito que constrói a sua
própria existência. Essas constatações possuem consequências de amplo alcance
político e epistemológico.

A superação estrutural da crise agrária multifacetada que se alastra e se aprofunda


globalmente exige reformulações radicais nos arranjos institucionais que regulam o
metabolismo dos sistemas agroalimentares. Como diz o teólogo brasileiro Leonardo
Boff (2016), é necessário repactuar o contrato natural com a Terra. Todo contrato
presume a existência de reciprocidade e de mútuo reconhecimento de direitos entre as
partes envolvidas. Embora renegada há mais de um século e meio por instituições
científicas e políticas, a agricultura camponesa irrompe nesse momento histórico como
a principal fiadora desse contrato entre a humanidade e o resto da natureza. Faz parte
de sua natureza interna respeitar e proteger esse contrato com a natureza externa. E é
também de sua natureza interna defender o contrato social, aquele que institui
mecanismos de convivência comunitária em defesa do bem comum.

Ao contribuir para decifrar o mistério da agricultura camponesa no século 21 (PLOEG,


2008), a agroecologia ilumina horizontes mais promissores para o futuro da
humanidade. O principal desafio político que se apresenta nesse momento histórico
está na criação de uma vontade coletiva capaz de canalizar e colocar em sinergia as
forças criativas emergentes nos campos e na academia para que metabolismos
orgânicos sejam restaurados com base em um contrato social que atribua centralidade
ao trabalho dedicado à reprodução da vida e em pactos de convivência com o resto da
natureza regulados pelas dinâmicas de coprodução e codomesticação.
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Notas

i
Ecossistemas ecologicamente imaturos possuem taxas de produtividade líquida superiores às dos
ecossistemas maduros. Nos estágios sucessionais mais avançados (maior maturidade), a energia solar
captada pela fotossíntese é canalizada principalmente para a reprodução do próprio ecossistema,
resultando em baixas taxas de acúmulo de biomassa.
ii
Para os povos originários andinos, as bondades da natureza correspondem ao que a economia
ambiental conceitua como recursos naturais e serviços ecológicos (ou ecossistêmicos).
iii
Quando comparados com ecossistemas de elevada maturidade ecológica, os ecossistemas imaturos
possuem ciclos de nutrientes mais abertos e exibem flutuações populacionais mais pronunciadas e
imprevisíveis (DOVER e TALBOT, 1992). Essas características ecológicas dos agroecossistemas desafiam a
inventividade de agricultores há milhares de anos no sentido de desenvolverem estratégias técnicas
voltadas à reposição da fertilidade ambiental e à manutenção da sanidade de cultivos e criações.
iv
Além de produzirem espécies localmente domesticadas (sobretudo cereais), a reposição de fertilidade
nos agroecossistemas de agricultura aluvial se fazia pela deposição de sedimentos carreados pelas
cheias dos rios.
v
Nesse caso, as vantagens da imaturidade ecológica dos ecossistemas são exploradas por um tempo
limitado, a partir do qual a produtividade econômica decresce. Esse é o momento no qual o ecossistema
é deixado em pousio para que o processo de sucessão ecológica recomponha a fertilidade ambiental.
vi
Embora sejam responsáveis pela conservação das paisagens rurais há gerações, muitas dessas
comunidades vêm sendo impedidas de adotar o sistema de pousio por legislações ambientais
concebidas segundo uma perspectiva preservacionista, ou seja, aquela que separa a natureza da
sociedade como estratégia de preservação ambiental. A contradição dessa estratégia vem do fato de ela
penalizar as comunidades que atuaram por gerações como guardiães da biodiversidade e dos serviços
ecológicos associados.
vii
Essa organização corresponde à coordenação dos movimentos de bens e serviços no interior da
sociedade visando superar o efeito dos diferenciais de tempo, espaço e ocupação... Segundo o autor as
diferenças regionais num território, o intervalo temporal entre o plantio e a colheita ou a especialização
do trabalho são superados por movimentos das colheitas, das manufaturas ou do trabalho, de modo a
tornar mais eficaz a sua distribuição (POLANYI, 2012, p. 83).
viii
As instituições são as regras do jogo em uma sociedade (NORTH, 1990) e correspondem à parte
intangível do metabolismo socioecológico (GONZÁLEZ DE MOLINA e TOLEDO, 2011). Isso significa dizer
que os padrões metabólicos em uma dada sociedade são condicionados pela combinação de um
hardware (a materialidade biofísica dos fluxos de matéria e energia) e de um software (as regras da
organização social).
ix
Cada sociedade define suas prioridades decidindo que coisas e que relações têm valor. Suas regras
para a produção de riqueza (e para a reprodução do poder) são condicionadas por esse julgamento
ético-político socialmente consensuado. No capitalismo, o valor é determinado pela produtividade do
trabalho remunerado na produção de mercadorias. A peculiaridade da economia de mercado é que o
reconhecimento social do trabalho e o valor dos seus produtos são determinados por uma estrutura
institucional que adota o dinheiro como o principal elo de integração social.
x
Após esse período, escalas equivalentes de desmatamento que ocorriam em séculos passaram a
ocorrer em décadas ou em anos. Para tomar um exemplo: duzentos anos foram necessários para
desmatar 12 mil hectares no norte da França a partir do início do século 12. Quatrocentos anos após,
por volta de 1650, a mesma superfície poderia era desmatada em apenas um ano para o plantio de
cana-de-açúcar na Mata Atlântica brasileira (MOORE, 2007).
xi
Além da apropriação do trabalho da natureza, a reprodução do capital depende da apropriação do
trabalho humano não-remunerado necessário ao funcionamento do sistema econômico como um todo.
Isso se aplica especialmente aos trabalhos dedicados à reprodução social que, em grande parte, são
executados pelas mulheres. Decorre daí a crítica ao capitalismo elaborada pela Economia Feminista
(MIES, 1986 apud MOORE, 2015). A apropriação dos frutos do trabalho camponês também exerce
função importante em uma economia de mercado (WANDERLEY, 1985). Portanto, a reprodução do
capital depende da permanente atualização das estratégias de exploração (do trabalho humano
remunerado) e de apropriação (do trabalho da natureza e do trabalho humano não-remunerado).
xii
Modo de produção, no sentido elaborado por Karl Marx (1867/2014), ou seja, o conjunto de relações
entre os agentes da produção e entre eles e a natureza.
xiii
Cabe relembrar igualmente que esse período de rápida ampliação das fronteiras de apropriação
ecológica ocorreu de forma concomitante com o aumento da fronteira de exploração social por
intermédio da mobilização trabalho escravo nas colônias europeias. Sem lugar a dúvida, a combinação
de largas fronteiras de apropriação ecológica e de exploração social proporcionou níveis sem
precedentes de acumulação de capital (e de poder), pavimentando o caminho para o desenvolvimento
das bases institucionais do capitalismo (BRAUDEL, 1997).
xiv
A imposição global de um sistema de pesos e medidas foi condição necessária para que as bondades
da natureza pudessem ser padronizadas e quantificadas, viabilizando a valoração e o intercâmbio das
mesmas por meio de regras mercantis. O alargamento das fronteiras de apropriação dependeu,
portanto, da criação e da imposição de linguagens universais para a racionalização da natureza, tais
como o sistema métrico (ALDER, 1995). É nesse sentido que Marx (1867/2014) reconhecia a ciência
moderna como uma força produtiva comandada pela lógica da reprodução do capital.

xv
Metaforicamente, os combustíveis fósseis correspondem à fotossíntese engarrafada há
milhões de anos. Segundo a Segunda Lei da Termodinâmica (lei da entropia), uma vez
utilizada, i.e, desengarrafada, a energia fóssil se dissipa, não podendo ser reaproveitada
posteriormente em outro processo de trabalho.
xvi
A revolução industrial pode ser compreendida como uma emergência histórica resultante da
interação de dois processos: a revolução burguesa e a revolução científica, sendo a primeira entendida
como a imposição da racionalidade instrumental dos mercados à organização da vida social e a última
como a predominância da visão da natureza como um sistema dotado de uma estrutura racional
(FURTADO, 1978).
xvii
A rápida disseminação desse projeto nos países do Terceiro Mundo ocorreu a partir nos
anos 1950, nos marcos da chamada Revolução Verde, processo cuja denominação não deixa
margem a dúvidas quanto ao seu caráter eminentemente político e ideológico. O verde dessa
revolução reflete uma contraposição ao perigo vermelho, sobretudo após a Revolução
comunista na China, em 1949, de traços marcadamente camponeses.
xviii
Informada pelo paradigma mecanicista, a Agronomia moderna concebe a natureza como o cenário de
um teatro cartesiano que pode ser decifrado e controlado com o auxílio de funções de produção (PLOEG,
2003). Fundamentadas no método paramétrico, essas funções especificam relações lineares entre o
emprego de níveis variados de insumos e a obtenção de níveis correspondentes de produção. Dessa
forma, buscam definir os níveis ótimos de utilização de insumos, tendo como objetivo a maximização
econômica dos resultados da produção. As práticas associadas à noção de agricultura de precisão são a
expressão máxima da influência do paradigma mecanicista à gestão dos agroecossistemas.
xix
As produtividades médias dos campos comerciais de milho norte-americanos mais que
quadruplicaram entre 1935 e 1980 com o emprego das variedades híbridas (KLOPPENBURG, 1988).
xx
Ao tornar supérfluas as variedades e raças locais, os pacotes tecnológicos da modernização
desencadeiam acelerados processos de erosão genética, destruindo verdadeiros patrimônios
bioculturais construídos no decorrer de milhares de anos em todas as regiões do planeta a partir do
trabalho parcimonioso de agricultores em sua íntima interação com as dinâmicas da natureza.

xxi
Theodore Shultz, um dos mais proeminentes teóricos do paradigma da modernização explicita essa
concepção já nas primeiras linhas de seu mais conhecido livro: o homem que exerce atividade agrícola
de maneira idêntica à de seus antepassados não pode produzir muitos alimentos, apesar da riqueza da
terra ou da intensidade de seu trabalho. […]O propósito deste estudo é mostrar que há uma base
econômica lógica, em razão da qual a agricultura tradicional, empregando apenas os fatores de
produção à sua disposição, é incapaz de crescimento... (SHULTZ, 1965: pp.15 e 17).
xxii
Além da continuidade da expansão horizontal das fronteiras de apropriação com a
incorporação de novos territórios à racionalidade econômica da agricultura capitalista, o
projeto de modernização permitiu que as fronteiras também se expandissem em sentido
vertical, com a mobilização de recursos minerais – combustíveis fósseis, água e rochas
fornecedoras de nutrientes – através dos fluxos metabólicos.
xxiii
Na prática, os impérios alimentares se materializam na conquista de territórios que mantinham
relativa autonomia na regulação de seus sistemas agroalimentares e os articula por meio dos fluxos
metabólicos comandados pela lógica do capital financeiro, assegurando dessa forma o controle e a
capacidade de apropriação das riquezas geradas nas etapas de produção, de processamento e de
distribuição de alimentos. Segundo Ploeg (2008), o que especifica e assegura o poder imperial sobre o
metabolismo dos modernos sistemas agroalimentares é a conjugação de dois princípios ordenadores: a)
os fluxos financeiros globais, viabilizados pela desregulamentação dos mercados internacionais; b) a
lógica de linha de montagem imposta no encadeamento entre a produção e o consumo de alimentos,
viabilizada pela normatização de procedimentos técnicos cientificamente caucionados e por regras
político-institucionais impostas de forma indiferenciada a distintos contextos socioambientais e
culturais.
xxiv
A mobilidade do capital possibilita a conversão do capital investido em bens materiais em
dinheiro para sua posterior transferência a outras aplicações. De acordo com Delgado (2012
pp. 45 e 46), a função básica da circulação financeira é a de retransformação do capital,
descongelando-o de suas aplicações fixas, para fazê-lo circular no circuito financeiro... Desse
ponto de vista, sob a égide do capitalismo, os fluxos de matéria e energia e os fluxos de capital
conformam uma totalidade orgânica, na qual um fluxo implica o outro.
xxv
O surgimento de plantas espontâneas tolerantes aos herbicidas e de microrganismos patogênicos
resistentes aos antibióticos talvez sejam os exemplos mais visíveis da capacidade de reação da natureza
aos mecanismos de dominação ecológica impostos pelas tecnologias da agricultura industrial. Diante
dessa rebelião da natureza, os agroecossistemas tornam-se cada vez mais dependentes de insumos (e
energia) externos para que as quedas de produtividade nas lavouras e criatórios comerciais sejam
evitadas (ao menos temporariamente).
xxvi
A intensidade energética – e química – do metabolismo industrial, bem como a eliminação da
cobertura vegetal nativa para a expansão de monoculturas em vastos territórios concorrem para os
altos níveis de contaminação tóxica, de eutrofização de corpos d’água e de emissão de gases de efeito
estufa.
xxvii
Os processos de descampesinização ocorrem quantitativa e qualitativamente. O primeiro caso
corresponde à disseminação agroecossistemas geridos pela lógica capitalista em territórios antes
ocupados por agroecossistemas geridos pela lógica camponesa. O segundo, refere-se à crescente
mercantilização dos agroecossistemas de gestão camponesa.

xxviii
Essa capacidade resistência camponesa ao avanço dos processos de mercantilização na agricultura
foi identificado ainda no primeiro quarto do século 20 por Chayanov (1981 [1924]), segundo o qual,
embora os agroecossistemas de gestão camponesa sejam influenciados pelo contexto capitalista em
que operam, não são diretamente governados por eles (PLOEG, 2013).
xxix
A Agroecologia fundamenta-se no emprego de genótipos adaptados aos contextos
socioecológicos locais para a estruturação de agroecossistemas biologicamente diversificados
e complexos, compostos por policultivos, sistemas agroflorestais, integração cultivos-criações
e outras estratégias voltadas ao estabelecimento de sinergias e complementariedades entre os
componentes bióticos. Por meio dessas estratégias, a radiação solar, a água e os nutrientes
localmente disponíveis e os processos naturais de regulação biótica (de populações de insetos-
praga, plantas espontâneas e microrganismos patogênicos) são valorizados no processo de
trabalho agrícola, reduzindo ou eliminando a necessidade do aporte de insumos externos para a
reprodução dos agroecossistemas.
xxx
O enfoque dominante nas ciências agrárias orienta-se para solucionar problemas específicos dos
agroecossistemas, tais como a incidência de insetos-praga e organismos patogênicos, as deficiências de
nutrientes, de água e de outros fatores de crescimento. Esses problemas específicos são considerados
fatores limitantes da produtividade física e devem ser resolvidos por tecnologias específicas passíveis de
generalização para os mais diversos contextos socioecológicos por meio dos pacotes tecnológicos. A
agroecologia parte da compreensão de que esses problemas não são causas, mas sintomas de
desequilíbrios sistêmicos. O enfoque do manejo agroecológico está voltado ao estabelecimento e à
manutenção de processos ecológicos locais capazes de reproduzir a fertilidade sistêmica. Desse ponto
de vista, a agroecologia fundamenta-se em uma crítica radical à epistemologia mecanicista responsável
pela consolidação de uma representação da natureza nas ciências agrárias incompatível com as
racionalidades econômico-ecológicas presentes da agricultura camponesa.
xxxi
Segundo a Perspectiva Multinível de análise de transições sociotécnicas, esses ambientes
sociais podem ser assimilados a nichos de inovação, ou seja, como redes sociotécnicas multi-
atores que se diferenciam dos ordenamentos prevalecentes no regime sociotécnico
dominante, configurando-se como espaços protegidos onde novidades podem amadurecer por
meio de ciclos sucessivos de experimentação e aprendizado (Wiskerke e Ploeg, 2004).
xxxii
A forma como a origem de uma crise é conceituada relaciona-se aos meios escolhidos para enfrentá-
la. É nesse sentido que MOORE (2015) chama a atenção para a imprecisão conceitual da chamada era do
Antropoceno, uma vez que essa designação contribui para ocultar as estruturas de poder efetivamente
responsáveis pelos efeitos negativos da emergência histórica e disseminação global do metabolismo
industrial. Colocando o dedo na ferida, o autor se pergunta se não seria mais adequado designar esse
período histórico de Capitaloceno. Segundo esse ponto de vista, a convergência e o alastramento de
crises não podem ser compreendidos sem que seja considerado o progressivo fechamento das
fronteiras de apropriação das bondades da natureza resultantes da acumulação ilimitada do capital. Se o
capitalismo é uma economia de custos não pagos, as contas estão vencendo (Idem p. 276).