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Um jeito diferente de aprender

O ENSINO DE FILOSOFIA EM UMA ESCOLA PÚBLICA DO ESTADO


DE SÃO PAULO

COMPLEMENTAÇÃO PEDAGÓGICA EM FILOSOFIA

PAULO ROBERTO MAGALHÃES JUNIOR

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São José dos Campos
2017
O ENSINO DE FILOSOFIA EM UMA ESCOLA PÚBLICA DO ESTADO
DE SÃO PAULO

Relatório de Estágio, apresentado ao Instituto Fayol,


como requisito parcial para a obtenção do diploma /
certificado do Curso de Complementação Pedagógica
em Filosofia.

Orientador: Prof.ª Maria S. Sousa

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São José dos Campos
2017
Sumário
1. Introdução .................................................................................................................................. 3
2. Caracterização da Escola ............................................................................................................ 5
3. Descrição das Atividades ............................................................................................................ 6
4. Considerações Finais .................................................................................................................. 9
5. Referências Bibliográficas ........................................................................................................ 11

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São José dos Campos
2017
1. Introdução

O estágio supervisionado realizado durante o curso de complementação


pedagógica em Filosofia é amparado pela Lei 9394/96, artigo 61. Nela, encontra-
se descrito que a formação de profissionais da educação, com o intuito de
prepará-lo para a atuação na área, necessita promover a relação entre teorias e
práticas, considerar o conhecimento do estudante adquirido em outras atividades
e cursos, além da realização do estágio.

O estágio é um dos modos de relacionar as teorias com a prática, assim como


de estabelecer um vínculo entre a faculdade e a sociedade, desenvolvendo um
trabalho de qualidade na formação dos estudantes.

Como objetivos gerais, o estágio supervisionado tem como intuito principal


possibilitar ao estudante conhecer as metodologias aplicadas nas instituições de
ensino em que realiza o estágio, permite a reflexão dos mais variados aspectos
observados que se mostram importantes para a atuação e desenvolvimento do
ambiente educacional, além de instigar a busca por soluções e propostas para a
resolução de dificuldades observadas no ambiente escolar.

Mais especificamente, o estagiário tem como tarefa elaborar um roteiro das


atividades a serem desenvolvidas, observar e descrever a respeito dos vários
setores da escola, como o espaço físico, os setores administrativos e
pedagógicos. Há ainda a necessidade da participação do estagiário nas
atividades relacionadas a sua área de estudo, podendo a partir desse aspecto,
sugerir estratégias e elaborar um relatório parcial com todas as questões
relevantes apreendidas ao longo do estágio.

Sobre, particularmente, este relatório de estágio, refere-se a participação e


realização do estágio em uma escola pública localizada no interior do Estado de
São Paulo, em que foram observadas e analisadas a prática educacional na
disciplina de Filosofia, no Ensino Médio. O estagiário teve a oportunidade de

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acompanhar uma professora de Filosofia em diversas aulas e atividades com os
alunos, proporcionando melhor compreensão da prática pedagógica e de ensino,
inclusive os desafios para uma prática que favoreça o desenvolvimento integral
dos alunos.

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2. Caracterização da Escola¹

O estágio foi realizado na Escola Estadual Professora Dilecta Ceneviva


Martinelli, localizada na Rua das Orquídeas, nº 214, bairro Cidade Jardim, na cidade
Americana/SP. Foi fundada em março de 1967, sendo mantida pelo poder público
estadual. Contém, atualmente, 349 alunos cursando o Ensino Fundamental (Ciclo II)
e 262 alunos cursando o Ensino Médio.

A escola conta com 75 professores, distribuídos e organizados para


ministrarem aulas nas 31 classes que a instituição possui, divididas em três turnos:
manhã, tarde e noite.

A instituição educacional objetiva proporcionar educação de qualidade, por


meio de conteúdos de cunho científico, cultural e tecnológico. Visa ainda formar
cidadãos com participação política, responsáveis e com autonomia.

Busca também ensinar os alunos a trabalhar em equipe, ter capacidade para


resolução de problemas, além de enfatizar o respeito à individualidade e diversidade
presente no entorno social e no ambiente escolar. Além disso, procura incentivar
uma postura de permanente indagação do professor perante propostas e métodos
de ensino.

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1Informações obtidas por meio do Plano de Gestão 2015-2018 da respectiva unidade escolar e pelo
Sistema de Cadastro de Alunos do Estado de São Paulo.

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3. Descrição das Atividades

No primeiro semestre do ano de 2017, foram observadas diversas aulas de


Filosofia ministradas nos períodos da manhã e da noite, em classes da 1ª, 2ª e 3ª
séries do Ensino Médio. Todas as aulas foram realizadas por uma mesma
professora, pois era a única educadora da área de filosofia da unidade escolar.

Observou-se a predominância da utilização da apostila fornecida pelo governo


do Estado de São Paulo, com aulas elaboradas com os conteúdos a serem
ministrados ao longo dos três anos do ensino médio, bem como a utilização de livros
didáticos. Em suas aulas, a professora reservava um período de tempo para a
explicação do conteúdo e também se disponibilizava durante todo o tempo para
sanar dúvidas e dialogar com os alunos a respeito do conteúdo apresentado.

A professora utilizou, em algumas aulas, de recursos tecnológicos para


desenvolvê-las. Em uma aula ocorrida em 28/03/2017, em diversas turmas, foi
utilizado um projetor multimídia para apresentar aos alunos imagens de trabalhos de
grafite em 3D, realizados em diversas ruas ao redor do mundo. Com esse material,
dialogou com os alunos sobre o grafite ser arte e também sobre como diferenciam a
realidade da ficção. Devido a grande habilidade dos grafiteiros, diferenciar a obra
realizada por eles da realidade muitas vezes se mostrava difícil, devido a ilusão
causada pelo efeito 3D. Assim, trabalhou-se o assunto de como definir e perceber a
realidade, incluído o pensamento de Descartes e dos empiristas na aula.

Em outra aula, no dia 23/05/2017, os alunos foram levados até a sala de


informática da escola, para pesquisarem sobre a mitologia grega e selecionarem um
dos deuses gregos para, em seguida, escrever sobre ele no caderno. A professora
corrigia e conversava com os alunos sobre os deuses escolhidos.

Outro aspecto relevante observado foi a variação de atividades avaliativas.


Houve provas escritas, atividades realizadas em aula, na apostila ou no caderno,
elaboração de redação e chamadas orais. Em cada atividade os alunos eram
incentivados a participarem, sendo chamados para falar ou orientados para
responder as questões e desenvolverem as atividades em sala.

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As atividades realizadas na apostila e no caderno eram sempre socializadas,
por meio da solicitação da leitura das mesmas pelos alunos em voz alta,
incentivando o diálogo entre eles e a reflexão coletiva a respeito do tema
apresentado.

Em uma aula ocorrida no dia 25/04/2017, em uma turma da 1ª série do ensino


médio, ao ser questionada por um aluno sobre a importância da filosofia, a
professora conversou com toda a classe, explicando sobre a influência da filosofia
na maneira como nossa sociedade se organiza, nos costumes e práticas dos
indivíduos e sobre as decisões que são tomadas, particular ou coletivamente.

Durante o semestre, houve ainda um projeto interdisciplinar na unidade


escolar. O tema do projeto era Reciclagem e meio ambiente. Assim, nas aulas de
filosofia e de outras disciplinas, foram elaborados trabalhos utilizando materiais
recicláveis, que foram expostos no pátio da escola, para que os alunos e a
comunidade escolar pudessem prestigiar o projeto e compreender a importância da
reciclagem para a manutenção de uma sociedade sustentável.

Em relação aos temas desenvolvidos nas aulas, houve grande variedade de


autores e teorias filosóficas. Ocorreram aulas a respeito da filosofia de Epicuro,
explicando o que era hedonismo em sua teoria. Nas aulas, foi demonstrada a
importância do prazer moderado na filosofia epicuréia, como um modo de alcançar a
felicidade. Além disso, falou-se sobre a morte na perspectiva do filósofo, pois para
ele a morte não deveria causar medo ou preocupação, já que enquanto existimos, a
morte não existe, e quando a morte se manifesta, já não existimos mais.

Outro tema desenvolvido foi a divisão de classes sociais em Platão. A


professora explicou a importância da razão e do controle das paixões para o autor.
Assim, os nobres seriam os que conseguiriam tal controle, os soldados os que
possuem um bom conhecimento e coragem, e as demais pessoas, os que fariam
trabalhos manuais e braçais, por não terem a capacidade de lidar com as paixões e
de exercitar a razão.

Foi apresentado, ainda, sobre a filosofia de Platão, o papel da educação para


a sociedade. Em sua teoria, todos teriam direito a estudar, e cada um teria acesso a
um nível de ensino de acordo com sua capacidade. Por meio da educação, seriam

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selecionadas as pessoas para ocuparem as classes sociais, considerando o
desempenho nos estudos.

O papel da mulher e dos escravos para Platão também foi desenvolvido em


algumas aulas, demonstrando que o filósofo considerava que as mulheres poderiam
ocupar os mesmos cargos que os homens, embora, ainda assim, considerasse a
mulher inferior comparada ao homem. Quanto aos escravos, Platão era contrário a
escravidão de gregos.

Houve aulas a respeito da filosofia de Rousseau, demonstrando a concepção


de desigualdade social do autor. Para Rousseau, a desigualdade social surge por
meio da propriedade privada, pois ele não observou desigualdades biológicas que
justificassem as desigualdades sociais.

A temática a respeito de Martin Luther King também foi desenvolvida, sendo


apresentada aos alunos o objetivo dele e quais as atitudes que tomou em relação ao
racismo e ao preconceito existente nos Estados Unidos da América em sua época.

Sócrates também foi estudado, descrevendo sua biografia e sua crítica a


crença de já possuir o conhecimento sobre as coisas sem uma reflexão profunda e
analítica. Sua frase “Só sei que nada sei” foi explicada aos alunos e, a partir dela,
elaboraram uma descrição do significado da mesma.

Foi ministrada aulas sobre a ideia de destino e livre-arbítrio, dialogando com


os alunos sobre as limitações e as capacidades do ser humano, a partir das
reflexões filosóficas de diversos pensadores.

Sobre a mitologia grega, ocorreram aulas sobre Eros e Psiquê, com leituras
de texto, questões e diálogos a respeito do conhecimento proporcionado por meio
dos mitos.

Os alunos, de maneira geral, realizavam as atividades, embora conversassem


com frequência e utilizassem celulares na sala de aula. A tecnologia é utilizada
constantemente por eles, não mantendo a atenção o tempo todo na aula e no
conteúdo apresentado. Apesar disso, notou-se a utilização do celular para realizar
pesquisas na internet, para facilitar a compreensão de textos e na elaboração de
respostas.

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4. Considerações Finais

De acordo com Murcho (2002), a filosofia deve ser ensinada não a partir de
conteúdos e de maneira histórica, apenas descrevendo teorias e ideias de autores
ao longo da história da filosofia. Deve-se ensinar a perceber os problemas e as
questões da filosofia, para então demonstrar os métodos e as teorias filosóficas já
existentes, a fim de que o aluno possa pensar sobre elas e elaborar sua própria
maneira de pensar.

É necessário ensinar o aluno a compreender a formação de argumentos e a


buscar maneiras válidas de avaliá-los. Assim, ele terá capacidade de analisar as
teorias filosóficas e pensar sobre os argumentos, sobre possíveis falhas e problemas
presentes em cada teoria, sem aceitá-las simplesmente porque foram ensinadas
(MURCHO, 2002).

Aspis (2004), em consonância com tais afirmações, descreve ainda que deve-
se ensinar a filosofar, pois a filosofia não possui um conhecimento pronto e acabado,
mas contém diversos problemas e questões não respondidas ou com diversas
respostas, que devem ser avaliadas e não apreendidas como verdade final.

Aprender a analisar criticamente a filosofia, com seus próprios parâmetros ou


até mesmo questionando a maneira como foram escolhidas as metodologias e a
maneira de filosofar, é o modo adequado de ensinar filosofia. Proporcionar a
autonomia, com a capacidade de pensar por si próprio, a partir de noções da
filosofia, é o que se deve pretender no ensino de tal disciplina (ASPIS, 2004).

Observando as afirmações acima, e comparando-as com as aulas


presenciadas no estágio, podem-se avaliar as semelhanças e divergências entre
ambas. A professora utilizou-se, em diversos momentos, de explicações das ideias
dos autores, contextualizando-os e demonstrando o modo como chegaram a
determinadas conclusões.

Apesar desse aspecto, observa-se que poderia ser mais amplamente


demonstrado os problemas filosóficos por trás de cada teoria estudada. Proporcionar
ao aluno uma visão mais clara das questões que envolvem as filosofias dos autores,

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auxiliando-os a pensar em sua própria maneira de conceber soluções para os
problemas.

A professora, em alguns momentos, relatava teorias diferentes em relação a


dos autores estudados, com o intuito de fazer os alunos questionarem e refletirem
sobre quem estaria correto. No entanto, não foi observado maior demonstração dos
métodos para alcançar tais respostas.

Descrever aos alunos sobre as bases metodológicas dos autores os


auxiliariam a compreender o porquê das respostas desenvolvidas por eles, além de
poderem avaliar o próprio método utilizado, analisando se há algo incorreto na
maneira de elaborar o conhecimento.

A respeito do uso de tecnologias, nota-se que a professora observada no


estágio, utilizou-as para apresentar conteúdos para os alunos e para que os
mesmos realizassem pesquisas.

Pode-se pensar na tecnologia como um instrumento para a prática


pedagógica, auxiliando no processo de ensino-aprendizagem. Como ela está
presente no mundo, é possível introduzi-la no contexto escolar como ferramenta
para ampliar o acesso ao conhecimento (PEIXOTO; ARAUJO, 2012).

No entanto, como dito anteriormente, é necessário que o professor


proporcione ao aluno condições de pensar criticamente e analisar o conhecimento
transmitido pelas novas tecnologias. Independentemente das ferramentas físicas e
tecnológicas utilizadas, a capacidade de pensar criticamente e avaliar
metodologicamente o conhecimento adquirido são de extrema relevância para o
desenvolvimento do aluno.

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Referências Bibliográficas

ASPIS, Renata Pereira Lima. O professor de filosofia: o ensino de filosofia no ensino


médio como experiência filosófica. Cadernos Cedes, v. 24, n. 64, p. 305-20, 2004.
Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/ccedes/v24n64/22832>. Acesso em: 03 de
jul. 2017.
MURCHO, Desidério. A natureza da filosofia e o seu ensino. Educação (UFSM), v.
27, n. 2, 2002. Disponível em:
<https://periodicos.ufsm.br/reveducacao/article/view/4435/2609>. Acesso em: 03 de
jul. 2017.
PEIXOTO, Joana; ARAÚJO, Cláudia Helena dos Santos. Tecnologia e educação:
algumas considerações sobre o discurso pedagógico contemporâneo. Educação &
Sociedade, v. 33, n. 118, 2012. Disponível em:
<http://www.redalyc.org/html/873/87322726016/>. Acesso em: 03 de jul. 2017.

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