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Questões disputadas sobre o Sofrimento

Talvez um dos maiores dilemas dos intelectuais seja o homem perante a


eternidade/infinito. Devido ao pensamento moderno com seus pressupostos
kantianos (a razão do homem é a medida de tudo), o homem passa a ser sua
própria medida. A grande dificuldade nisso é aceitar as faculdades limitadas do
homem, assim como sua efemeridade no tempo. De certa forma, tomando esse
pensamento como verdadeiro, não há muito sentido em sofrermos, vivermos ou até
gozarmos dessa Terra. Disso apenas a morte sobra ao homem, visto que tudo
aquilo que ele valoriza se perde diante do eterno.
Perante a um ponto como esse, podemos pensar no ser humano como um
ser eterno. Quando você vê alguém fazer alguma coisa má e, com isso, se
entristece muito pedindo até mesmo que Deus intervenha na vida daquela pessoa
para que ela não padeça pelas suas ações, você exerce o seu senso de eternidade.
A sua alma não deseja que aquele ser passe o resto de sua infinidade de dias
sofrendo em um inferno. Esse é o maior tipo de amor existente: o amor que permeia
os séculos e a eternidade. O que tomamos como prazer sexual ou apreço as coisas
terrenas se torna insignificante diante dessa percepção.
Com isso, resta ao homem aceitar sua condição de ser perene para que suas
ações, trabalho e sofrimento possa ter sentido durante essa peregrinação terrena.
Tomando que os leitores desse material sejam cristãos, tomaremos como
exemplo o nosso Senhor Jesus Cristo como principal exemplo de homem que
suportou a maior das dores pelo amor que tinha por nós, ainda que não o
merecêssemos.

1. Porque Cristo teve que vir e morrer por nós?


É bem difundido até hoje que Cristo nos tomou das mãos de Satanás, estando
ele antes com a nossa propriedade. Na tradição Patrística, alguns autores
deixaram margem para um entendimento relativo aos direitos do demônio em
relação ao homem, uma vez que Adão se entregou livremente ao pecado,
sugerido pelo diabo. Há textos, inclusive, de Irineu, Orígenes e Agostinho, entre
outros, que parecem dar guarida à tese.
É inegável que Cristo tenha vencido o demônio. Somente não é aceitável
declarar que o ele tinha detentor desses direitos, pelo fato de o homem ter
aceitado sua proposta pecaminosa. Deus jamais abandonou o homem, mesmo
ele pecando.
O homem pode ter rompido com o criador, mas o criador nunca deixou sua
mais nobre e preciosa criatura nas mãos de si próprias ou do diabo. Em verdade,
Jesus não tomou o homem de volta para si, ludibriando o diabo, que se achou
vencedor ao matar o Cristo na cruz-, mas apenas lavou a sua criação mais
perfeita. Assim como um homem que possui uma perola preciosa e empresta ao
seu amigo invejoso e perspicaz que, com más intenções, deixa-a cair na lama,
sujando-a. A joia continua a ser do mesmo zeloso dono, porém imunda de
sujeira.

Mas por que Cristo? Por que não um anjo ou um homem justo? Essas
perguntas e outras são respondidas por Anselmo de Cantuária em seu livro Cur
deus Homo (Por que um homem-Deus?), à luz de uma apologética racional muito
forte em formato de diálogo (uma recomendação). Entretanto, usaremos das
descrições de Paulo em sua carta aos Romanos para avaliarmos a condição do
homem e sua insuficiência para alcançar o perdão.
A lei de Deus, para Paulo, é santa e o mandamento santo, justo e bom (Rm
7:12). Entretanto, para todo homem, essa mesma lei é como uma maldição. Não há,
como é bem preciso o apostolo, problema na lei, e, sim, no homem (Rm 7:13). Para
a Lei, se o homem errasse um mandamento sequer, estaria condenado por errar
toda a lei. Não sendo possível ao homem manter-se em santidade, visto que não
consegue ser perfeito-, a lei torna-se uma maldição, onde qualquer deslize humano
o levaria para a morte.
“Desventurado homem que sou! Quem me livrará do corpo desta morte?
Graças a Deus por Jesus Cristo, nosso Senhor. De maneira que eu, de mim
mesmo, com a mente, sou escravo da lei de Deus, mas, segundo a carne, da lei do
pecado.” (Rm 7:24-25). Paulo termina com a terrível sentença pela perdição da sua
alma por conta da sua natureza pecaminosa. Entretanto, no capítulo 8, iniciamos
com uma conjunção coordenativa conclusiva, o que nos mostra uma conclusão
daquilo discorrido atrás. Então, num ar de alivio, Paulo declara que nenhuma
condenação há para os que estão em Cristo Jesus
“Porque a lei do Espírito da vida, em Cristo Jesus, te livrou da lei do pecado e
da morte. Porquanto o que fora impossível à lei, no que estava enferma pela carne,
isso fez Deus enviando o seu próprio Filho em semelhança de carne pecaminosa e
no tocante ao pecado; e, com efeito, condenou Deus, na carne, o pecado, a fim de
que o preceito da lei se cumprisse em nós, que não andamos segundo a carne, mas
segundo o Espírito.” (Rm 8:1-4)
Ao homem era impossível escapar da lei, o qual expunha a miserável
condição do homem. Porém, Deus, em sua infinita misericórdia, enviou seu filho
para que cumprisse em si a lei, a fim de podermos hoje sermos salvos pela graça de
nosso Senhor Jesus Cristo.
Ora, se vivemos em torno da graça, por que sofremos então?

2. Cristo como exemplo de servo sofredor


“Pois que glória há, se, pecando e sendo esbofeteados por isso, o suportais
com paciência? Se, entretanto, quando praticais o bem, sois igualmente
afligidos e o suportais com paciência, isto é grato a Deus. Porquanto para isto
mesmo fostes chamados, pois que também Cristo sofreu em vosso lugar,
deixando-vos exemplo para seguirdes os seus passos, o qual não cometeu
pecado, nem dolo algum se achou em sua boca; pois ele, quando ultrajado,
não revidava com ultraje; quando maltratado, não fazia ameaças, mas
entregava-se àquele que julga retamente, carregando ele mesmo em seu
corpo, sobre o madeiro, os nossos pecados, para que nós, mortos para os
pecados, vivamos para a justiça; por suas chagas, fostes sarados.” (1 Pe 2:
20-24)
Pedro está nos dizendo que a cruz de Cristo é um modelo para a estrutura
entranhável de nosso progresso espiritual. Jesus faz esta ligação nos Evangelhos:
"É necessário que o Filho do Homem padeça muitas coisas, e seja rejeitado dos
anciãos e dos escribas, e seja morto, e ressuscite ao terceiro dia". E imediatamente
acrescenta: "Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, e tome cada dia a
sua cruz, e siga-me" (Lc 9.22,23).
Observe a sequência: rejeitado e morto vem primeiro, antes de ser
ressuscitado. No caso de Jesus, o ultraje foi feito pelos escribas e fariseus da sua
época. Vestidos por um discurso piedoso, ardentes em zelo pela lei de Deus e
cobertos num manto de religiosidade, esses homens disfarçaram muito bem o
desejo de seus corações: o impulso pela ambição e ciúme mundano. Eles
representavam o mundo em rebelião contra Deus e contra o seu filho. Em nossa
vida, a rejeição pode vir de uma maneira mundana ou de crentes com motivações
mundanas – um filho que se rebela contra a criação cristã; um conjugue infiel ou
desamoroso; uma igreja pouco acolhedora; um chefe aviltante e desrespeitoso. Por
conta de vivermos num mundo de pecado, é comum que tenhamos rejeições e
ferimentos de algum modo.
Como diz Lutero, os cristãos abraçam a teologia da cruz, e não uma
teologia da glória. O mistério da nossa salvação não foi feito pela descida de um
messias herói conquistado (como queriam os fariseus), mas por um servo-
escarnecido, surrado e pendurado numa cruz. O verdadeiro conhecimento de Cristo
não vem quando queremos ser reconhecidos gloriosamente por sermos salvos, mas
quando oramos para sermos identificados com Ele na Cruz.
Assim como Pedro disse, o homem deve gloriar-se nessas “cruzes” impostas
na sua peregrinação, para que seja cada vez mais santificado na pessoa de Cristo,
da mesma forma que Ele usou o sofrimento de seu filho para promover a redenção
dos nossos pecados.

“Vendo os irmãos de José que seu pai já era morto, disseram: É o caso de
José nos perseguir e nos retribuir certamente o mal todo que lhe fizemos. Portanto,
mandaram dizer a José: Teu pai ordenou, antes da sua morte, dizendo: Assim direis
a José: Perdoa, pois, a transgressão de teus irmãos e o seu pecado, porque te
fizeram mal; agora, pois, te rogamos que perdoes a transgressão dos servos do
Deus de teu pai. José chorou enquanto lhe falavam. Depois, vieram também seus
irmãos, prostraram-se diante dele e disseram: Eis-nos aqui por teus
servos. Respondeu-lhes José: Não temais; acaso, estou eu em lugar de
Deus? Vós, na verdade, intentastes o mal contra mim; porém Deus o tornou
em bem, para fazer, como vedes agora, que se conserve muita gente em
vida. Não temais, pois; eu vos sustentarei a vós outros e a vossos filhos. Assim, os
consolou e lhes falou ao coração. ” (Gn 50: 15-21)
Os cristãos pensam ser um ato de devoção negar o mal que lhes é feito; para
encobri-lo, dizem não ser tão ruim, ou usam um sorriso em público. José não
encobriu a ação dos seus irmãos, antes disse a eles que foram más as suas
intenções. Num mundo coberto de pecado, devemos dizer as coisas como elas são.
Mas podemos tornar isso em bem, conscientizando-nos que o sofrimento dá a
oportunidade de entrarmos na jornada que Jesus nos proporciona: rejeição, morte
(espiritual) e a gloriosa ressureição.
Lendo uma história de Pearcey sobre uma amiga que havia estado
com câncer e pairando entre a vida e a morte durante alguns meses, vi algo
precioso a ser notado: a necessidade de estarmos dispostos a morrer. O dialógo
dizia aproximadamente isto:
“Nestes últimos anos, uma querida amiga teve câncer, a ponto de pairar entre a vida
e a morte durante vários meses. Sabendo que ela é uma pessoa espiritualmente
sensível, perguntei o que tinha aprendido com esta experiência horrível. "Aprendi
que tenho de estar disposta a morrer", respondeu ela, com os olhos marejados de
lágrimas. "Eu procurava me agarrar desesperadamente à vida, à minha família, e
tive de abrir mão de tudo para deixar Deus tomar tudo de mim. ’”
E é a esse ponto que Deus quer nos levar. Quer pelo sofrimento físico, quer
pelo sofrimento psicológico, o método que Deus usa para percebermos o nosso
profundo apego a essa vida é a perda. Quando perdemos a saúde, família, o
trabalho, ou a reputação, ou a boa casa que possuía e vemos que ficamos perdidos
e vazios nesse mundo, é quando percebemos o quanto nossa identidade e senso
de proposito estão presos a essas coisas. É por isso que devemos estar dispostos
que ele tire isso de nos. O senso de eternidade só é enxergado quando a
efemeridade sai de cena.
Esse princípio soa negativo demais, e há correntes que ensinam exatamente
essa corrente de ascetismo inflexível, como se a santidade fosse dizer não a
diversão e o prazer. Mas a morte espiritual não tem essa brisa de ascetismo. Não
tem nada a ver com fuga monástica do mundo. É escolher obedecer os
mandamentos dEle em todos os aspectos da vida, mesmo que isso seja doloroso. É
clamar a Deus quando seu coração for crucificado pelo sofrimento. É abrir mão das
coisas que mais amamos, se isso ao nos agarrarmos a elas ficamos com raiva de
Deus ou atacamos o outro. É acreditar na bondade de Deus perante todo o mal que
rodeia o homem e o domina. É oração sussurrada que Deus nos dá para unirmos a
Cristo e fazermos parte do modelo que ele nos deu.
A realidade significa morrer para aquilo que nos domina. E talvez a coisa que
nos domina não é o que desejamos, mas o que tememos. O medo pode ser um
grande controlado. Pode ser o ódio. Ou orgulho. Ou até desejos fúteis – a pessoa
desapontada com um sonho fracassado e acha ser impossível abrir mão dessas
coisas por desejar sempre que as coisas sejam diferentes. Seja o que for que nos
controle, devemos colocar isso no altar para ser morto. O único domínio existente
na vida de um homem ressurreto é este: "o amor de Cristo nos constrange” (2 Cor
5:14).

Notas
Por ser feito durante o semestre, o tempo foi escasso e a edição, assim como
a análise ortográfica, foram um tanto negligenciadas. Por isso, peço compreensão e
perdão por possíveis erros registrados.
O texto é propriedade do FSC para que possamos, através da troca de ideia,
enriquecer as nossas exposições. Dado isso, a contribuição de cada um é bem-
vinda e extremamente estimada e desejada. Seja como composição de novos
parágrafos ou tópicos, como também na correção e edição do texto.
Por ser uma fase “beta”, as ideias do texto e os tópicos podem não estar
completas, mas, na medida do possível, o será feito.

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